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SALVADOR DOMINGO 22/7/2012

ABRE ASPAS PAULO BORGES PRODUTOR DE MODA

Sempre vai haver espaço para uma boa ideia» «

Texto PEDRO FERNANDES pfernandes@grupoatarde.com.br Foto MILA CORDEIRO mila.cordeiro@grupoatarde.com.br

No último dia 11, o empresário Paulo Borges, diretor da Luminosidade, empresa responsável pela realização dos maiores eventos de moda do Brasil, como a São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio, esteve em Salvador para dar início às ações do seu novo projeto, o Movimento HotSpot, que vai premiar jovens criadores de todo o Brasil em 11 categorias – arquitetura, moda, beleza, cenografia, design, design gráfico, filme e vídeo, fotografia, ilustração e música. As inscrições ficam abertas até 31/8 e podem ser feitas no site movimentohotspot.com. Os vencedores de cada uma delas levam R$ 10 mil. O melhor projeto de moda leva R$ 150 mil, para a realização de uma coleção, e a melhor ideia, entre todas as categorias, leva R$ 200 mil, para tornar sua ideia viável para o mercado. “A ideia é criar um hub de criatividade onde as pessoas possam expor e os empresários e investidores busquem essas ideias e possibilidades”. Para Borges, que praticamente formatou e unificou o calendário de moda no Brasil, mais que dinheiro, é preciso dar visibilidade às novas ideias, estimulando as economias criativas locais. Mas sem precisar abrir mão do que é tradicional. É sobre essa forma menos predatória de economia, sobre crise e sua íntima relação com Salvador que o empresário fala na entrevista a seguir.

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O Movimento HotSpot está em busca de ideias inovadoras. Tem sido difícil encontrá-las no mercado já estabelecido? Acho que tudo que está ligado à criatividade e inovação é vivo, é muito orgânico. O que a gente está fazendo com o projeto é possibilitar a pessoas jovens se inserirem no mercado com suas ideias e trabalhos. Inovação é algo de estímulo constante. O mercado criativo só se movimenta a partir da inovação. Descentralizar e percorrer o Brasil para buscar essas possibilidades, essas características, e dar à diversidade brasileira a possibilidade de se mostrar nos festivais regionais é uma forma de fomentar localmente talentos diversos, sem que eles precisem sair da região onde estão, e também possam ser usados para a transformação econômica do seu entorno. Acha que o jovem criador pode se desenvolver no mercado regional, ou ainda é preciso sair para os grandes centros? Eu não diria que é uma necessidade. Isso retrata a concentração de riqueza no País. Se a gente for falar só de moda, 50% da produção brasileira se dá no Estado de São Paulo, que consome 50% do que o Brasil produz. Isso não tem a ver com uma questão econômica. Há uma concentração de empresas e indústrias nessa região. É muito importante você conseguir desenvolver outras áreas do País, para que haja acesso à educação, informação e ao produto de consumo. O objetivo é fazer com que tudo cresça e não se disperse. Dizem que é na crise que as boas ideias nascem. Mas ao mesmo tempo o merca-


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do se torna mais retraído, busca mais segurança. Já os iniciantes encontram pouco apoio para executá-las. Como se resolve isso? Desde os 17 anos, vivo em um país em crise. Maiores, menores, pontuais. Crise é uma palavra que a economia ocidental gosta muito de usar. Para mim, a palavra crise significa estímulo. Mas o que te estimula a pensar e a criar não precisa ser a crise, embora ela possa te dar oportunidades que fora dela, talvez, você não observasse. Mas sempre vai ter espaço para uma nova e boa ideia. Às vezes, você pode demorar um pouco mais, ou não conseguir as conexões corretas. E é aí que está a grande ideia do HotSpot. O prêmio é só um processo, ele não é a causa do projeto. A ideia é criar um hub de criatividade, onde as pessoas possam expor e os empresários e investidores busquem essas ideias e possibilidades. Crise vai existir sempre. Somos uma economia em transformação e sempre vai haver momentos de maior ou menor tensão. Durante a última edição da SPFW, foi feito um pedido para que o governo federal desse atenção à indústria da moda. Houve alguma resposta? Aquilo foi um ponto de partida, não de chegada. Foi para chamar a atenção de todos os players envolvidos

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na moda de que se está organizando um momento, para se falar com o governo, a partir da presidente Dilma, e também com os governos municipais e estaduais. Outras reuniões já foram feitas e está se organizando um plano convergente de várias áreas para sentar com o governo, mais adiante, e apresentar propostas. A gente ainda não provocou para que haja uma reunião, mas vai haver em breve. Como o governo tem lidado com o setor de moda? Acho que o governo, de uma maneira geral, não conhece moda. Isso eu tenho dito há 30 anos. Tem feito alguns movimentos ainda muito pequenos. Não existe uma política de estado, e isso é muito ruim, porque você fica muito a reboque de reações. Quando a economia tem algum gargalo de crescimento, toma-se alguma medida. Quando tem algum gargalo de recessão, toma-se outras. É sempre reativo ao que acontece, mas não tem um plano de longo prazo. É uma pena isso, porque a indústria da moda no Brasil é a segunda que mais contrata mão de obra no Brasil. E não tem um plano. Se a indústria automobilística tem algum problema, tem plano, subsídios, abaixam-se impostos. O mesmo na telefonia, no agronegócio. E

«Há um descaso com a ancestralidade africana da Bahia, um abandono das políticas culturais e de tudo que diz respeito àquilo que ela tem de mais precioso»

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para a indústria da moda, que é extremamente pulverizada, não se tem um plano. E isso é desolador. Porque não se pensou ainda como se ganha mais proveito e partido nesse processo. Fala-se muito em ascensão econômica da classe C. Caberia aos novos criadores pensar em ideias boas fora do clichê do que é a classe C? Primeiro tem que tentar entender que classe é essa. Para mim, essa nova classe média brasileira não é a que o Brasil tinha conhecimento. Percebe-se que essa classe não quer só consumir desesperadamente. Visto que a economia não se aqueceu da forma que o governo acreditava, ao estimular novamente um consumo desqualificado. E as pessoas não estão fazendo isso. As pessoas já compraram as suas geladeiras e televisões. Elas não vão comprar mais uma de cada uma dessas coisas. É preciso pensar melhor, e o brasileiro está tomando conhecimento disso. Acho que uma economia criativa jovem e forte pode ajudar a estabelecer essa reflexão sobre o que fazer e o que consumir. Essas parcerias de estilistas famosos e lojas de departamento pode ser um reflexo dessa avidez pelo dinheiro da classe C? Essa parceria de grandes redes de moda, a exemplo do que já acontece globalmente, é caracterizada como fast fashion. É dar acesso ao consumidor a um produto de moda que, dentro de um processo normal, ele não teria. No fast fashion, aquela ideia é traduzida em uma matéria-prima mais possível, mais bara-

ta. O que torna o preço mais acessível. Isso não tem a ver com economia criativa, mas com produção de massa. É um tipo de mercado que abastece um desejo de consumo de moda. Não acho que reflita a condição ou a característica de uma nova classe média, porque todo mundo quer consumir esses produtos. É um mecanismo de mercado. Tem que se estudar até onde isso consegue ir e onde isso se esgota. Como anda seu projeto sobre os negros na Bahia? O projeto já está editado do ponto de vista fotográfico. Fizemos mais de duas mil fotos e selecionamos 250. Essa fotos vão compor um livro e uma exposição fotográfica. Junto com isso, a gente fez um documentário. Tenho imagens que acompanham o processo fotográfico e as en-

trevistas. Já estamos fazendo o roteiro. Vai misturar documentário e ficção. Vai ter um personagem que amarra o documentário e conta o todo desse processo do negro na Bahia, desde a sua ancestralidade, sua força cultural, religiosa, imagética, criativa, tudo misturado com seus sonhos e decepções. Quero fazer um retrato de como eu vejo e sinto essa relação do negro com a Bahia e a Bahia com o negro. A gente está no processo de captação em leis de incentivo. Vamos lançar no ano que vem. Como esse projeto começou? Eu conheço Cuba, alguns lugares da África e a Bahia. Há muito tempo eu venho para cá. A ideia era mostrar como existe uma semelhança muito grande entre os hábitos da Bahia, África e Cuba. Se a gente misturasse fotos desses lugares, as pessoas po-

deriam se confundir. E, no meio do caminho (a gente ficou um ano produzindo imagens aqui), percebi que a gente tinha que falar especificamente da Bahia. Porque acho que tem um descaso com a cultura e a ancestralidade africana da Bahia. Acho que poderia ser mais interessante chamar a atenção para isso. Assim, preferi abandonar a ideia inicial. Entre os baianos, o grande assunto é que Salvador está caótica, abandonada. Como você, que é meio visita, meio da casa, tem percebido a cidade? Eu vejo exatamente isso. Digo que o projeto se concentrou na Bahia para chamar a atenção para esse pouco caso, esse abandono das políticas culturais e de tudo que diz respeito àquilo que a Bahia tem de mais precioso, que é a sua história, sua diversidade cultural. Essa semana, estava


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chegando aqui, com meu filho, Henrique, de 7 anos, que é baiano e negro. Estávamos eu, o motorista, a babá e ele. Eu era o único branco no carro. Ele virou e falou, “na Bahia é onde a gente tem menos brasileiro”. Eu falei “como assim, baiano é brasileiro”. Ele respondeu “a Bahia tem muito mais baiano que brasileiro. Você é brasileiro, eu sou baiano”. Na cabeça dele, o negro tem outra nacionalidade. Eu acho que essa é a força que o negro tem, que é uma nacionalidade, que é baiana. Meu filho tem essa força, que tem estado opaca, ofuscada por essa economia maluca, uma cultura maluca que

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não reitera esses valores. A gente vê o descaso com os blocos afro, a falta de espaço, todo ocupado pelos negócios de axé. Você tem uma relação muito próxima com a cidade. Como ela começou? Foi há 13 anos. Eu vim para descansar, ficar o verão, o Carnaval... Eu falo que caí nas mãos das pessoas certas. Fui ao camarote de Daniela, e Licia (Fabio) falou “Gil, cuide de Paulo, que ele está chegando à Bahia”. Aí eu pude ver a Bahia que o turista não conhece. Acho o programa turístico da Bahia um terror. É um naufrágio a cultura. O turismo oficial eu acho

medonho, porque você não conhece o povo, a gastronomia, a diversidade, a essência. Sempre quero fugir do circuito tradicional. Eu ficava em cima do trio, e as pessoas lá se matando de se divertir, e aquilo me parecia ser uma coisa tão gostosa. No outro dia, eu fui no chão. Nunca mais eu quis subir. Comecei a frequentar restaurantes que não estão no circuito, eu vou às feiras, aos mercados, fui conhecendo as pessoas, conheci o Gantois. Assim, comecei a me sentir em casa. Em São Paulo, tenho relações de trabalho muito fortes, obviamente, mas meus melhores amigos estão aqui. «

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"Sempre vai haver espaço para uma boa ideia"  

Entrevista com Paulo Borges, CEO da Luminosidade Marketing e Produções

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