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SALVADOR TERÇA-FEIRA 8/12/2009

ENTREVISTA Daniela Mercury

“MEUS DISCOS SEMPRE FORAM MESTIÇOS”

Daniela faz com competência o que se espera dela

Priscila Prade / Divulgação

PEDRO FERNANDES

Perto de completar 20 anos do lançamento do primeiro álbum, Daniela Mercury acaba de colocar o décimo na rua. Como das vezes anteriores, a cantora está preocupada em misturar elementos da música baiana com outros gêneros musicais para criar novas sonoridades. O que faz de Canibália um disco com pouca coisa diferente para mostrar. O CD chega às lojas com cinco capas e cinco sequências musicais diferentes. Mais uma tentativa da cantora de não se vincular a apenas uma imagem. “Eu quis oferecer diferentes possibilidades de leitura do disco”, diz. Ela, que diz adorar ser “do axé”, também quer ser da MPB, da música eletrônica. Para conseguir isso, conta que gosta de trabalhar em grupo, com vários músicos interferindo no trabalho que ela propõe. Por telefone, Daniela conversou com a reportagem de A TARDE e falou sobre o disco novo, carnaval, a inevitabilidade das cordas e sua preocupação com a padronização dos camarotes. Falou também sobre a morte do amigo e parceiro Ramiro Mussoto, que trabalhou na produção de Canibália, e sobre o documentário sobre axé music que está produzindo, ainda sem título. “Vai ser uma espécie de manifesto do gênero”, adianta.

O título Canibália vem do fato dele ser uma espécie de revisão da sua própria carreira? Ele é uma continuação do trabalho que eu tenho feito. Tem regravações porque eu queria fazer uma homenagem a Carmen Miranda e porque nunca tinha gravado Chico Buarque. Canibália se refere à uma geração que absorve influências e pela diversidade. Este é um disco muito eclético, como todos os outros. Gosto de misturar música eletrônica para renovar minha MPB e minha axé. Meus discos sempre foram mestiços. O resultado é fruto de uma procura durante o processo criativo ou você, com os produtores, sempre soube o que queria? O disco é todo investigativo. Foram 3 anos de trabalho com os produtores. Cada músico agregou algo diferente a uma música. Fui chamando-os aos poucos e cada um deu sua contribuição. Poucas canções foram feitas por uma pessoa só. A maioria é uma construção. Vou tirando, botando. Construir novas sonoridades é difícil.

Não sei. Muita gente prefere ainda criar sozinha. Tenho o hábito de trabalhar em grupo desde o início da minha carreira. A provocação geralmente é minha e o músico dá a sua contribuição. Esse disco tem uma importância maior por ter sido seu último trabalho com Ramiro Mussoto? Tem uma importância afetiva imensa. Não posso falar de Ramiro porque me emociono. Éramosda bandade Gerônimoedesde Swing da Corele trabalha comigo. Estou muito sentida com sua morte. E com a de Neguinho do Samba também. Os dois estão presentes num documentário que estou fazendo sobre axé music.

Você acha que essa forma, de criação coletiva, aponta para o futuro?

Como é que vai ser esse documentário? Estamosem fasedecaptação. Deveremos começar a filmar em dois meses para aproveitar as imagens do Carnaval. Não estou dirigindo. Sou produtora e testemunha do nascimento do axé. Quero mostrar a importância que o gênero tem para a música popular brasileira.Quero falardassínteses, além do samba-reggae, surgidas no axé. É uma espécie de manifesto do gê-

KATY PERRY

ZECA BALEIRO

Daniela: “Gosto de misturar música eletrônica para renovar minha MPB e minha axé”

(Os camarotes) São procurados por quem quer curtir a festa, mas não na rua, com mais conforto. Só me preocupo com a padronização. Está ficando tudo muito parecido. Acho que poderia ter mais camarotes na avenida. Seria mais uma opção

ROSANA LANZELOTTE

nero. Caetano fez disco. Eu to fazendo filme (risos). Por que dar cinco capas e cinco sequências musicais para o novo disco? O que você quis dizer com isso? Eu quis oferecer diferentes possibilidades de leitura do disco. Quando você começa um disco com música romântica, ele é um disco de música romântica. Achei que valia a pena dar essa possibilidade de percepção diferente. Mas não deixei nenhuma ordem ficar muito lenta. Também quis dizer que esse é um disco de muitas caras. Eletem a cara da diversidade. Amo ser do axé, mas o axé é também o gênero da diversidade. Não quero ficar vinculada a marcas estabelecidas. A música Oyá Por Nós fez bastante sucesso no Carnaval de 2009. Tem alguma canção nesse disco que você acha que se encaixe tão bem quanto Oya Por Nósna festa? Não nesse disco, mas estou gravando uma música especialmente para o Carnaval, Andarilho Encantado. A música diz assim: Andarilho encantado / nascido em fevereiro / sonho eletrificado / onde a guitarra canta o primeiro/

DUETOS MPB

sou a escola de samba de rodas / da Bahia fui pro mundo inteiro / alegria me acorda sem cordas /do amor sou prisioneiro. Falando em cordas, como você vê a predominância de blocos com cordas e camarotes no Carnaval da Bahia? Seria muito bom que todo mundo pudesse sair sem cordas, mas é muito difícil levantar recursos, mesmo dentro de blocos. Quanto aos camarotes, acho que hoje substituíram os bailes de clubes. São procurados por quem quer curtir a festa, mas não na rua, com mais conforto. Só me preocupo com a padronização. Está ficando tudo muito parecido. Acho que poderia ter mais camarotes na avenida. Seria mais uma opção para quem quer ir à festa.

Parece simples a ideia de Daniela Mercury de dar cinco sequências musicais diferentes para Canibália, mas, na verdade, é um excelente truque para evitar rotulações, como a própria cantora diz. De qualquer maneira, nessa época em que baixar músicas da internet tem mudado a forma de audição de álbuns e até ameaça a própria concepção de obra, dar a ilusão de escolha para o ouvinte pode ser também um boa estratégia de mercado. Canibália segue a mesma linha de tantos outros trabalhos da cantora e faz uma grande mistura nas 14 músicas que compõem o disco. Tem romântica, tem MPB, tem samba, reggae e eletrônica. Tal diversidade em muitos artistas pareceria falta de norte, mas no caso de Daniela já estamos habituados a vê-la cantar todo tipo de canção e de certa forma é isso que se espera dela. Que lance tanto música para o Carnaval quanto para tocar na novela. Tendo isso em vista, não faz sentido falar do disco numa determinada ordem. O que há de bom em Canibália está na competência de Daniela em matéria de axé music e MPB. As experimentações tão caras à cantora não chegam a criar uma nova sonoridade como ela almeja, mas são bem sucedidas na maior parte das vezes. Exceção é O Que Será, de Chico Buarque, que teria ficado melhor sem as texturas eletrônicas, bastavam as batidas de samba-reggae. One Love talvez funcione em pista de dança, mas ficou com uma batida de discoteca meio datada. O Que é Que a Baiana Tem usa samples de Carmen Miranda e interferências eletrônicas. A música fica ótima na pista, porque, mesmo com a cara moderninha, ainda é samba do bom. Outra homenagem a Carmen Miranda é Tico-tico no Fubá , com guitarra baiana e as eletronices da cantora. Oyá Por Nós, que tocou esse ano, ainda dá vontade de sair pulando. Preta, com participação de Seu Jorge, e a suingada A Vida É Um Carnaval têm o mesmo apelo festivo. PEDRO FERNANDES CANIBÁLIA / DANIELA MERCURY / SONY BMG / R$ 20

Você acha que é possível conseguir equilíbrio entre geração de renda, divisas e visibilidade para o Estado com a presença popular na festa? Acho que é uma festa que ainda tem muito a presença popular. Não acho que as pessoas nãopossam irpara oCarnaval. O trio vai além do bloco e puxa o pessoal que vem atrás também.

VÁRIOS ARTISTAS

Antes do tempo

Palco + estúdio

Novos cravos

Pra curtir velhos hits

Celebração do Natal

De forma precoce (apenas dois CD na carreira), a norte-americana e nova queridinha da mídia Katy Perry entra pra lista (já banalizada) dos MTVs Unplugged. São arranjos novos para músicas ainda frescas, além da inédita Brick By Brick e da versão de Hackensack, do Fountains. MTV Unplugged / EMI / R$ 44,90 (CD + DVD) / MARCOS CASÉ

No seu sexto audiovisual, Zeca Baleiro compilou os dois últimos trabalhos de inéditas. O volume 1 do Coração do Homem Bomba virou belo registro de show, enquanto o volume 2 ganhou densa e acústica gravação ao vivo no estúdio. Nos extras do DVD: fotos, entrevista e clipes. O Coração do Homem-bomba, Ao Vivo / MZA / R$ 34,90 (DVD) e R$ 19,90 (CD) / MC

Quem pensa que conhece o músico carioca Ernesto Nazareth (1863-1934) e suas obras, imediatamente vai se lembrar de Odeon e Apanhei-te Cavaquinho. Porém, a cravista Rosana Lanzelotte se juntou a dois grandes instrumentistas, o percussionista Caito Marcondes e o violinista Luis Leite, e traz a público o disco Nazareth, primorosa seleção de velhas canções, do tempo em que era lindo chamar um rapaz de pierrot e uma mocinha de elegantíssima. Nazareth / Biscoito Fino / R$ 23,90 / REGINA DE SÁ

Certos duetos de música popular brasileira podem ou não agradar de pronto. Depende como se seleciona um disco para apresentar o trabalho. No caso de Duetos MPB, encontram-se boas interpretações, como Por Causa de Você, Menina, um dos melhores do gênero. Ivete Sangalo e Jorge Benjor fazem as honras da casa, embalados pelo hit anos 70 Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, com Kid Abelha e Lenine. Ao todo, são 16 duos que têm até Sandy & Junior. Duetos MPB / Universal / R$ 34,90 / RS

Em cinco CDs, que reúnem os mais variados estilos, a coletânea das mais belas canções natalinas é garantia de uma noite em família repleta de emoção. Sucessos populares como We Wish You a Merry Christmas e Silent Night (Noite Feliz) ou clássicos de Haendel, Beethoven e Schubert, interpretados por vozes como Plácido Domingo, José van Dam e Claire Henry, integram a seleção que tem ainda participação de corais consagrados, como o The London Philarmonic Coral. O Encanto de Natal / Seleções / R$ 99,80/ PATRÍCIA MOREIRA

CPM 22 planeja álbum para 2010 Ainda em turnê do CD Cidade Cinza e com show marcado para a Concha Acústica do Teatro Castro Alves, neste domingo, pelo projeto Sintonia Musical, o grupo paulista CPM 22 já começou a esboçar seu novo trabalho de inéditas, programado para sair ainda no primeiro semestre de 2010. A ideia é mudar a sonoridade do grupo, que rompeu com o antigo produtor Rick Bonadio e se desligou da gravadora Universal Music.


“MEUS DISCOS SEMPRE FORAM MESTIÇOS”