Revista Arte Sesc - 13

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o 8 festival Palco giratório/POA vem aí 0

Também nesta edição

caderno de teatro: Ilo krugli fala de suas andanças pela américa latina Cacá Carvalho completa a trilogia de Pirandello

13

PRIMEIRO SEMESTRE

2013 ISSN 1984-056X



DESCENTRALIZAÇÃO DIVERSIDADE E ABRANGÊNCIA


08

34

22

artes cênicas

caderno de teatro

música

08 A Cia. Mungunzá retorna ao Festival Palco

22 O ator, diretor, dramaturgo, educador, artista

34 Artigo da pesquisadora Ermelinda Paz

Giratório com o impactante espetáculo

plástico e bonequeiro argentino radicado

homenageia o crítico, produtor musical e

Luis Antonio-Gabriela

no Brasil desde 1961 Ilo Krugli, homenageado

compositor Edino Krieger, autor do projeto da

no circuito nacional do Festival Palco

Bienal de Música Brasileira Contemporânea

Giratório 2013, conta episódios de sua

(BMBC), o mais antigo, importante e regular

itinerância pela América Latina

evento do gênero, realizado desde 1975

12 Patricia Fagundes aborda o 14º Simpósio da International Brecht Society no artigo A Cena em Trânisto – Cruzando fronteiras 15 Cacá Carvalho completa a trilogia de Pirandello com umnenhumcemmil 20 Guarda-chuvas invadem a paisagem no projeto {pingos&pigmentos}

DIRETORIA O conteúdo dos artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores.

Zildo De Marchi

Presidente do Sistema Fecomércio-RS, Sesc e Senac

Everton Dalla Vecchia

Diretor Regional Sesc/RS

www.sesc-rs.com.br

GERÊNCIA DE CULTURA Silvio Alves Bento Gerente de Cultura

Jane Schöninger

Coordenadora de Cultura

UNIDADES SESC NO RIO GRANDE DO SUL SESC Alegrete  R. dos Andradas, 71  55 3422.2129 SESC Bagé  R. Barão do Triunfo, 1280  53 3242.7600 SESC Bento Gonçalves  Av. Cândido Costa, 88  54 3452.6103 SESC Cachoeira do Sul  R. Sete de Setembro, 1324  51 3722.3315 SESC Cachoeirinha  R. João Pessoa, 27  51 3439.1751 SESC Camaquã  R. General Zeca Neto, 1085  51 3671.6492 SESC Campestre POA  Av. Protásio Alves, 6220  51 3382.8801 SESC Carazinho  Av. Flores da Cunha, 1975  54 3331.2451 SESC Caxias do Sul  R. Moreira César, 2462  54 3221.5233 SESC Centro POA  Av. Alberto Bins, 665  51 3284.2000 SESC Comunidade POA  R. Dr. João Inácio, 247  51 3224.1268 SESC Cruz Alta  Av. Venâncio Aires, 1507  55 3322.7040 SESC Erechim  R. Portugal, 490  54 3522.1033 SESC Farroupilha  R. Coronel Pena de Moraes, 320  54 3261.6526 SESC Gramado  Av. das Hortênsias, 4150  54 3286.0503 SESC Ijuí  R. Crisanto Leite, 202  55 3332.7511 SESC Lajeado  R. Silva Jardim, 135  51 3714.2266 SESC Montenegro  R. Capitão Porfírio, 2205  51 3649.3403 SESC Navegantes POA  Av. Brasil, 483  51 3342.5099 SESC Novo Hamburgo  R. Bento Gonçalves, 1537  51 3593.6700 SESC Passo Fundo  Av. Brasil, 30  54 3311.9973

SESC Pelotas  R. Gonçalves Chaves, 914  53 3225.6093 SESC Redenção POA  Av. João Pessoa, 835  51 3226.0631 SESC Rio Grande  Av. Silva Paes, 416  53 3231.6011 SESC Santa Cruz do Sul  R. Ernesto Alves, 1042  51 3713.3222 SESC Santa Maria  Av. Itaimbé, 66  55 3223.2288 SESC Santa Rosa  R. Concórdia, 114  55 3512.6044 SESC Santana do Livramento  R. Brigadeiro Canabarro, 650  55 3242.3210 SESC Santo Ângelo  R. 15 de Novembro, 1500  55 3312.4411 SESC São Borja  R. Serafim Dornelles Vargas, 1020  55 3431.8957 SESC São Leopoldo  R. Marquês do Herval, 784  51 3592.2129 SESC Taquara  R. Júlio de Castilhos, 2835  51 3541.2210 SESC Torres  R. Plínio Kroeff, 465  51 3626.9400 SESC Tramandaí  R. Barão do Rio Branco, 69  51 3684-3736 SESC Uruguaiana  R. Flores da Cunha, 1984  55 3412.2482 SESC Vale do Gravataí  R. Anápio Gomes, 1241  51 3497.6263 SESC Venâncio Aires  R. Jacob Becker, 1676  51 3741.5668 Hotel SESC Campestre POA  Av. Protásio Alves, 6220  51 3382.8801 Hotel SESC Gramado  Av. das Hortênsias, 4150  54 3286.0503 Hotel SESC Torres  R. Plínio Kroeff, 465  51 3626.9400


38

48

58

CINEMA

ARTES VISUAIS

literatura

38 Luis Rubira no artigo Por que realizar ciclos

48 Museu de Arte Contemporânea do Rio

58 Thiago Cruz, no artigo A Descoberta do

de filosofia e cinema? faz uma reflexão

Grande do Sul (MACRS) completa 21 anos

Mundo, faz uma homenagem ao escritor

a partir do projeto que desenvolve na

e comemora a conquista de uma nova sede

francês Albert Camus no ano do centenário

Universidade Federal de Pelotas (UFPel), pelo

e de importantes aquisições para o acervo

de seu nascimento

qual já foram exibidos ciclos relacionados 61 Rubem Braga, o cronista que veio da lágrima

a cinema político, cinema religioso, cinema

52 Artigo Itinerâncias: As produções infantis

psicológico e, em 2013, o cinema existencial

em constante movimento analisa os

é o artigo de Rubem Penz que marca

resultados do projeto Chinelos Itinerantes,

os 100 anos do escritor

desenvolvido pela equipe de Educação Infantil da Escola de Ijuí

65 Leitura

54 O projeto Cartografias infantis: a cidade pela criança / a fotografia pela infância em artigo de Luciano Bedin da Costa e Larisa Bandeira

BALCÕES SESC/SENAC Alvorada  Av. Getúlio Vargas, 941  51 3411.7750 Cachoeirinha  Av. Flores da Cunha, 1320 Sala 805  51 3438.3249 Caçapava do Sul  Av. XV de Novembro, 267  55 3281.3684 Frederico Westphalen  R. do Comércio, 1013  55 3744.8193 Gravataí  R. Álvares Cabral, 880  51 3043.7916 Guaíba  R. São José, 433 Sala 01  51 3402.2106 Itaqui  R. Dom Pedro II, 1026  55 3433.1164 Jaguarão  R. XV de Novembro, 211  53 3261.2941 Lagoa Vermelha  Av. Afonso Pena, 414 Sala 104  54 3358.3089 Nova Prata  Av. Cônego Peres, 612 Sala 107B  54 3242.3302 Osório  Av. Jorge Dariva, 941  51 3663.3023 Palmeira das Missões  R. Marechal Floriano, 1038  55 3742.7164 Quaraí  R. Baltazar Brum, 617 8º andar  55 3423.1664 Santiago  R. Pinheiro Machado, 2232  55 3251.5528 São Gabriel  R. João Manuel, 508  55 3232.8422 São Sebastião do Caí  R. 13 de Maio, 935 Sala 04  51 3635.2289 São Sepé  R. Coronel Chananeco, 790  55 3233.2726 Sobradinho  R. Lino Lazzari, 91  51 3742.1013 Três Passos  Rua Don João Becker, 310  55 3522.8146 Vacaria  R. Marechal Floriano, 488 Sala 17  54 3231.5883 Viamão  R. Marechal Deodoro, 175 Loja 102  51 3434.0391

NÚCLEO DE ATENDIMENTO SESC São Luiz Gonzaga  R. Treze de Maio, 1297  55 3352.7398

Coordenação, execução e produção editorial Pubblicato Design Editorial

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Andréa Costa  (andrea@pubblicato.com.br) Diretora de Criação e Atendimento

Vitor Mesquita

Diretor Editorial e de Criação Projeto Gráfico e Edição de Arte

Clarissa Eidelwein (MTb nº 8.396)  Edição e Reportagem

Grace Prado

Revisão de Texto

Ideograf

Impressão de 1.000 exemplares

CAPA

Foto de Bob Souza do espetáculo Luis Antonio-Gabriela, da Cia. Mungunzá


primeiro SEMESTRE

2013

6


primeiro SEMESTRE

2013

7

Jorge Menna Barreto, Poemas no Chão Foto: Acervo MACRS

democratizar o acesso à cultura Propor uma reflexão sobre o cenário cultural gaú-

também são temas de artigos publicados nesta

cho e brasileiro é uma das finalidades da Revista

Revista Arte Sesc.

Arte Sesc, que é editada semestralmente e difun-

Com as ações do Arte Sesc – Cultura por

dida junto à classe artística e demais formadores

toda parte, o Sistema Fecomércio-RS tem estado

de opinião da área cultural.

presente nos 497 municípios gaúchos, levando as

O Caderno de Cultura desta edição é com Ilo Krugli, do Teatro Ventoforte, que é o grande

mais variadas manifestações artísticas e fomentando a economia das localidades.

homenageado do Palco Giratório 2013. E falan-

Ampliar o acesso dos gaúchos à produção ar-

do em Palco Giratório, o destaque desta Revis-

tística e promover a troca de experiências entre os

ta Arte Sesc é o 8º Festival Palco Giratório Sesc/

artistas e produtores estão preconizados no planeja-

POA, que acontecerá de 3 a 28 de maio, na Capi-

mento do programa cultural da instituição. Por meio

tal gaúcha. A Cia. Mungunzá e o seu espetáculo

de apresentações de dança, artes cênicas e música,

‘Luis Antonio-Grabriela’, assim como o projeto

exposições de artes visuais, sessões de cinema, ofi-

Pingos e Pigmentos, estão entre as pautas desta

cinas e debates, temos procurado seguir os eixos da

edição. Simpósio Brecht na América Latina, Edino

transversalidade, diversidade e acessibilidade.

Krieger, reflexões filosóficas no cinema, fotografia e infância, itinerâncias de produções infan-

Boa leitura!

tis, centenário de Albert Camus e Rubem Braga

Zildo De Marchi

Everton Dalla Vecchia

Presidente do Sistema Fecomércio-RS, Sesc e Senac

Diretor Regional Sesc/RS


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

8

Luis Antonio-Gabriela Aclamada como a mais

Meados de 2010. Depois de circular pelo país por

tamento e os dois passaram a se corresponder. “A

impactante atração do

dois anos e ganhar 38 prêmios com o espetáculo

partir de documentos, dos relatos e das cartas, foi

de estreia Por que a criança cozinha na polenta,

desenvolvida a dramaturgia do espetáculo. Tudo

7º Festival Palco Giratório

adaptado de um romance romeno sobre uma me-

que é falado no palco foi dito por alguém em

de Porto Alegre em 2012,

nina de uma família de circo que cresceu no perí-

algum momento”, diz o ator que interpreta Luis

o espetáculo da Cia.

odo autoritariamente trágico da cortina de ferro

Antonio-Gabriela, Marcos Felipe.

do leste europeu, a Cia. Mungunzá, de São Pau-

Para o ator, havia um risco muito grande de

lo, decide que chegou a hora de entrar na sala de

encenar a história, junto com alguém que estava

ensaio para fazer um segundo trabalho. O diretor

no seio do problema e decide expor isso, sem cair

pessoal envolvendo a

Nelson Baskerville, de 17xNelson, Camino Real e

em clichês. O resultado, porém, é surpreendente,

família do diretor nelson

também do primeiro espetáculo, conta ao grupo

ousado, ora faz rir, ora faz chorar. Todo o espetá-

a sua própria história, em que o irmão mais ve-

culo foi concebido na sala de ensaios. O diretor

lho Luis Antonio, desde criança identificado com

musical Gustavo Sarzi compôs a trilha durante o

à capital gaúcha na

situações femininas, desafia as convenções de uma

processo de pesquisa e a executa ao vivo no pia-

edição 2013 do evento,

família conservadora na cidade de Santos dos anos

no. Os atores aprenderam a tocar instrumentos

de 1960 e vai para Espanha como Gabriela. Ence-

para o espetáculo. A atriz Day Porto é a figura

nar a história era como um pedido de desculpa ao

emblemática que canta, quase uma performer.

irmão de quem não teve notícias por 30 anos – e

Pedro Augusto é o técnico performático em cena.

nem se importou com isso –, até a sua morte na

O artista visual Thiago Hattnher acompanhou

Europa. Para a companhia, era uma oportunidade

os ensaios para criar 20 telas inspiradas no es-

de pesquisa e de provocar o debate sobre um tema

petáculo com a intenção de reproduzir o Museu

que ainda divide a sociedade contemporânea.

Guggenheim Bilbao. “Não nos prendemos a um

Mungunzá realizado a partir de uma história

baskerville retorna

no mês de maio

A partir do argumento de Nelson, posterior-

dispositivo estético. Se precisar de um vídeo para

mente ampliado em um longo relato, o grupo

que a história seja mais bem contada, usamos o

coletou depoimentos dos principais envolvidos: a

vídeo, se precisar cantar uma música para passar

irmã, a madrasta e uma travesti de Santos, con-

a informação com mais emoção, cantamos a mú-

temporânea de Luis Antonio. Depois do boato de

sica, então é uma mistura de todas as linguagens:

sua morte na Espanha, a fim de resolver questões

artes visuais muito forte, música muito forte,

burocráticas, a irmã tenta localizá-lo, em vão em

performance, projeções de vídeo como se fosse

um primeiro momento, até que a embaixada bra-

cinema”, destaca o ator. “Já havíamos feito isso

sileira o encontra vivo, porém debilitado pela aids.

no primeiro espetáculo, mas neste verticalizamos

Ela chegou a visitá-lo depois de 30 anos de afas-

ainda mais.”


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

Foto: Bob Souza

9


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

10

A construção do espetáculo

recebia um calhamaço de textos. Tínhamos que

Brecht. “É muito claro que seguimos esta referên-

defender o personagem se não ele não existiria

cia, mas têm cenas que é o avesso, uma coisa de

no espetáculo. E eu só tinha as cartas, não tinha

realismo, Stanislawski. Saímos um pouco do que

o relato.”

Brecht propõe. Tem cenas de um teatro muito

Os ensaios se estenderam por um ano. “Precisa-

Embora Luis Antonio-Gabriela seja conside-

narrativo, muito inspirado no teatro alemão, em

rado um documentário cênico, para Marcos Fe-

companhias de dança, de performance, Constan-

lipe, o trabalho da Mungunzá não se enquadra

za Macras, a companhia belga Need Company,

em nenhum gênero específico de teatro, já que

bastante ligada à estética que procuramos, que

mos de muito tempo pra fazer, pra errar, pra re-

tem todas as características de um drama, todas

é essa piração visual para levar ao público uma

fazer e acertar. Saímos do nada, só do argumen-

de comédia, de musical, têm cenas lindas outras

história bem contada.”

to, todo mundo junto, improvisando, e o Nelson

tristes. “Acho que conseguimos quebrar uma coi-

O ator admite que, de certa forma, o espe-

foi interligando as histórias, alinhavando, tiran-

sa careta do teatro, aquela parede, teatro quase

táculo é uma poluição visual. São cinco cenas

do o que estava demais”, conta Marcos Felipe.

como uma obrigação cult, chato, surpreendemos

acontecendo ao mesmo tempo, de maneira dife-

Com os depoimentos transcritos, o grupo come-

a todo momento, divertimos, fazemos chorar, que

rente, todas falando do mesmo assunto. “A gente

çou a trabalhar as cenas mais plásticas, funda-

são funções primordiais do teatro”, avalia. O gru-

entende que arte é um reflexo da realidade, então

mentais para contar a história, a trilha foi sendo

po também não se prende a uma estética, embora

joga toda a balbúrdia que vemos no mundo atual

inserida, os vídeos, até que o diretor dividiu os

tenha sido criado em 2006 por meio da união de

pra cena, com pouquíssimos diálogos, quase tudo

personagens. “Ele disse: a partir de agora você

atores recém-formados, motivados a aprofundar

narrado.” A Cia. Mungunzá, formada ainda por

é responsável por encaixar esta pessoa dentro

as técnicas aprendidas a fim de desenvolver, em

Sandra Modesto, Verônica Gentilin (que interpre-

da estrutura que a gente inventou, e cada ator

especial, um estudo detalhado do Teatro Épico de

ta Nelson e assina com ele a dramaturgia), Virgí-


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

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nia Iglesias e Lucas Breda, mostra em cena fotos,

O documentário cênico desenvolvido a partir do argumento do diretor Nelson Baskerville sobre a história de seu irmão Luis Antonio, foi eleito o melhor de 2011 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA)

documentos, trabalha com luz fria, operada pelos atores do palco, deixando de lado a iluminação convencional. “A gente dança, toca, vai apagar a luz, acende a luz, uma loucura!”

Fotos: Bob Souza

A Cia. Mungunzá, que tem uma estrutura de cooperativa em que cada integrante assume uma tarefa – assessoria de imprensa, editais, logística, trâmites burocráticos –, estreou Luis Antonio-Grabriela em março de 2011, no Centro Cultural São Paulo. Depois de cinco temporadas, passou a circular pelo Brasil, chegando a Portugal no ano seguinte. Com três indicações, o espetáculo foi eleito o melhor de 2011 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), recebeu cinco indicações para o Prêmio Shell SP e venceu como melhor diretor, entre outros reconhecimentos. Em dois anos, foram mais de 250 espetáculos com um público de 38 mil pessoas.

Aventura “almodovariana” POR Nelson Baskerville

Em 2002, recebi uma ligação de minha segunda mãe, Doracy – segunda mãe porque minha primeira faleceu após o meu parto, fazendo meu pai, Paschoal, viúvo com seis filhos, casar com a Dona Doracy, viúva com três filhos, quando eu tinha dois anos – ela me ligou pra dizer que Luis Antonio havia morrido na Espanha. Luis Antonio, pra mim, era aquele irmão, oito anos mais velho, que sempre mantive na sombra. Só alguns poucos amigos sabiam da sua existência, ele era aquele que, além de me seduzir, e abusar sexualmente, fazia com que muitos dedos da cidade de Santos fossem apontados pra nós, os “irmãos da bicha”, “a família do pederasta” e outros nomes. Sou obrigado a confessar que a notícia

da morte dele não me abalou nem um pouco. Eram quase 30 anos sem saber nada dele, sem saber se ele estava vivo ou morto, enfim, liguei pra minha irmã, Maria Cristina, advogada para passar a notícia pra frente e a preocupação imediata dela foi com os papéis, atestado de óbito, documentação para o espólio, etc. Mas não sabíamos nada do fato e nem ao menos o local exato de sua morte. Maria Cristina empreendeu então uma jornada fadada ao fracasso que era saber notícias do paradeiro dele. Depois de alguns meses, através da embaixada brasileira na Espanha ela o encontrou. Mas não exatamente da forma que esperava. Luis Antonio estava vivo, morava em Bilbao e a partir disso começamos a tentar formar

e entender aquela lacuna de 30 anos que nos separavam dele. Minha irmã, numa aventura “almodovariana” foi encontrá-lo. Luis Antonio chamava-se agora Gabriela, tinha sido uma estrela das noites de Bilbao, era viciada em cocaína e a aids era a menor das suas doenças. Através da Maria Cristina, passamos então a ter notícias dele até sua morte, agora verdadeira, em 2006. As perguntas mais frequentes dos amigos ao saberem da história eram: mas vocês nunca mais se viram? Resposta: nunca. Por que não o trouxeram de volta ao Brasil quando o encontraram doente? Resposta: porque não. Você não foi nem ao enterro? Não. Fiz esse espetáculo.


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

POR Patricia Fagundes

12

Diretora da Cia. Rústica de Teatro e professora de Direção Teatral no Departamento de Arte Dramática da UFRGS

A CENA EM TRÂNSITO cruzando fronteiras Frente às distâncias e fronteiras impostas de for-

lítica, vida e arte, corpo e mente, popular e erudito.

entre “nós” e “eles”, eu e o outro, arte

ma mais ou menos evidente pelo poder corporati-

Nas últimas décadas, tais divisões foram questio-

e vida, passa a ser difusa e indefinida.

vo, o imaginário de nossa época reage afirmando

nadas e profanadas de inúmeras formas dentro do

(Gómez-Peña, 2005:24) [1]

o desejo de fazer conexões, como evidenciam os

contexto das artes cênicas, que ampliou de manei-

conceitos recorrentes de rede, comunidade, rizo-

ra intensa e significativa os seus próprios limites

Atuando dentro do contexto da performance

ma; uma espécie de reivindicação da importância

de ação. No tecido artístico contemporâneo, dis-

art, declara-se um intelectual interdisciplinar, pós-

de relações entre o mundo, as pessoas e as coi-

seminam-se propostas de habitar fronteiras como

-mexicano, performer, ativista, escritor e pedago-

sas. Mesmo que esse desejo esteja longe da pos-

territórios nômades onde as dicotomias redutoras

go; em travessia por perigosas zonas de fronteiras,

sibilidade de realização plena, sua potência e sua

perdem o sentido e o que importa não é mais a

por exemplo, a cisão entre “alta” e “baixa” cultura.

extensão não podem ser negadas. Ainda que os

“essência”, e sim as relações, “criar espaços livres,

Andreas Huyssen denomina a Grande Divisão “o

limites geográficos entre países estejam cada vez

durações cujo ritmo se contrapõe ao que impõe a

tipo de discurso que insiste em uma distinção ca-

mais controlados e disputados, fortalecem-se os

vida cotidiana, favorecer um intercâmbio humano

tegórica entre arte elevado e cultura de massas”

movimentos de trânsito e busca de dissolução de

diferente das ‘zonas de comunicação’ impostas”

(Huyssen, 2002:7), que predominou especialmente

fronteiras tanto físicas como subjetivas.

(Bourriaud, 2006: 16).

no final do século XIX e no período entre guerras do século XX, mas permanece infiltrado no contex-

Na arte, com frequência, pretende-se diluir

Guillermo Gómez-Peña é um artista que

limites, não apenas entre linguagens e especiali-

se propõe precisamente a trabalhar em espaços

zações, mas também entre velhas dicotomias que

fronteiriços entre culturas, idiomas, pessoas, lin-

insistem em manter-se: ética e estética, arte e po-

guagens artísticas, nacionalidades, gêneros, con-

…o dogma do alto modernismo se fez

ceitos. O trânsito permanente afirma-se como

estéril e nos impede de entender os atu-

uma escolha política, artística e vital, que celebra

ais fenômenos culturais. Os limites entre

contradições, ambiguidade e paradoxos, evitando

arte elevado e cultura de massas se tor-

homogeneizar diferenças.

naram cada vez mais nebulosos, e deve-

to cultural contemporâneo.

mos começar a considerar esse processo Talvez meu trabalho seja abrir espaços

como uma oportunidade no lugar de la-

temporais de utopia/desutopia, uma zona

mentar a perda de qualidade e a carên-

“desmilitarizada” na qual um compor-

cia de veia. Muitos artistas incorporaram

tamento “radical” significativo e pen-

exitosamente em suas obras formas da

samentos progressistas são permitidos,

cultura de massas, e certas seções da

mesmo que apenas durante o tempo da

cultura de massas adotaram estratégias

apresentação. Nessa zona imaginária,

da alta. (Huyssen, 2002: 9-10)

tanto artistas como espectadores recebem permissão para assumir múltiplos e

Hoje, é praticamente impossível rejeitar toda

mutantes posicionamentos e identida-

interação com a “cultura de massas”, dado que ela

des. Nessa zona de fronteira, a distância

está onipresente em nosso cotidiano e se infiltra


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

1 Definição institucional retirada do blog da Escola Sesc de Ensino Médio. Fonte: http://www.escolasesc.com.br/. Acesso: jun.12 Todas as traduções são da autora.

em todos os poros de nosso corpo; sem precon-

nos perder facilmente em esta casa de

ceitos como o que possa ser considerado “eleva-

atrações de espelhos virtuais, inversões

do”, provocador ou inovador, ao contrário. A cul-

epistemológicas e percepções torcidas –

tura pop é sedenta de novidades, o que antes era

uma zona onde todos os desejos e me-

marginal vira tendência, o mainstream devora as

dos são imaginários e o “conteúdo” é só

margens, quanto mais “radical”, “exótico” ou “alter-

uma memória vaga. Se isso acontece, os

nativo” é um evento ou artista, mais atraente pode

artistas da performance art podem aca-

parecer. O conteúdo televisivo (ao qual somos ex-

bar sendo apenas outro show “extremo”

postos desde a infância), por exemplo, é generoso

de variedades, no extensivo e em cons-

em escândalos, violência, sexo perverso, apelações

tante transformação cardápio da cul-

variadas – caracterizando uma oferta que G. Gó-

tura globalizada. Que tempos perplexos

mez-Peña denomina como o mainstream bizar-

para aqueles que pensam criticamente.

re. O artista denuncia a devoradora presença do

(Gómez-Peña, 2005: 51)

13

“multiculturalismo das grandes corporações”, que absorve e comercializa a diversidade, transforman-

São tempos em que as estratégias de controle

do a diferença em produto fashion. Em resposta a

social não ocorrem tanto pela repressão direta, a

este corporate multiculturalism, Gómez-Peña ar-

cultura de massas é permissiva, hipersexualizada

ticula justamente “extravanganzas épicas que re-

e “ousada”, um tentáculo fundamental da socie-

produzem suas próprias práticas de representação”

dade farmacopornográfica (Preciado, 2008) a

(ibid: 50), na forma de extreme fashion-shows, por

qual corresponde, onde a vida “está exposta a e é

exemplo. Como reação à colonização devoradora,

construída por um aparato de autovigilância, pu-

outras práticas de canibalismo. No entanto, o artis-

blicidade e midiatização globais”, “formando parte

ta alerta sobre os perigos de tais trânsitos:

de um bordel-laboratório global integrado multimídia, no qual o controle de fluxos e afetos se leva

O bizarro hegemônico borrou efetiva-

a cabo através da forma pop excitação-frustração”

mente as fronteiras entre cultura pop,

(ibid:44), em que a sexualidade, o corpo e os de-

performance e “realidade”. A nova locali-

sejos são hiperexpostos e transformados em mer-

zação de outras fronteiras, entre público

cadoria. Em reação, B. Preciado propõe “inventar

e performer, entre a superfície e o sub-

outras formas públicas, compartilhadas, coletivas

terrâneo, entre identidades marginais e

e copyleft de sexualidade que superem o estreito

tendências fashion é ainda incerta. Uma

marco da representação pornográfica dominante

coisa é clara para mim: os artistas que

e o consumo sexual normatizado” (ibid). Ou seja, a

exploram as tensões entre estas fron-

autora também defende uma estratégia antropo-

teiras devem estar atentos. Podemos

fágica de resistência, que reproduza, reinventadas,

Guillermo Gomez-Peña (ao centro) em La Pocha Nostra Foto: Ana Diez


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

14

as próprias práticas de representação hegemônica, cruzando limites impostos.

Ao pensarmos as relações entre ética e estéti-

sacreditadas. Brecht e Gómez-Peña se encontram

ca, assim como entre arte e política, não podemos

em um evento que atravessa fronteiras e que en-

Outra divisão questionada no contexto da

deixar de considerar o legado de Bertold Brecht,

foca o tema do “espectador criativo”, transitando

arte e do pensamento contemporâneo se encontra

que em seu tempo articulou propostas cênicas

entre arte e política.

entre ética e estética. Considerando a ética como

como ação no mundo e estratégia de transforma-

Podemos pensar que onde haja uma frontei-

o fator que une um grupo, a “argamassa social”, e

ção social; sem dissociar a crítica e a reflexão do

ra que se pretenda ser rígida, os artistas cênicos

a estética como “a faculdade de experimentar em

prazer ou entretenimento, ou a cultura popular da

poderiam fazer festas: entre países ricos e pobres,

comum”, M. Maffesoli (2007) propõe uma “ética da

“seriedade” de propósitos.

entre bons e maus, entre corpo e mente, popular e

estética”, definida pela “compreensão do vínculo

erudito, ética e estética, entre santas e putas, entre

social a partir dos parâmetros não racionais que

Desde o princípio, o negócio do teatro

tu e eu. Dançar até que os limites estreitos se dilu-

são o sonho, o lúdico, o imaginário e o prazer dos

foi entreter as pessoas, assim como de

am, até que o corpo diga a verdade sensível e tro-

sentidos” (ibid: 57) e por uma perspectiva que de-

todas as outras artes. É essa função

pecemos exaustos de toda rigidez. Como o próprio

fende a importância do sensível na rede de rela-

que lhe confere sua dignidade parti-

conceito de relacional sugere, é tempo de cruzar

ções sociais, salientando que o ato de experimen-

cular; não necessita outro passaporte

limites e ampliar as redes de relações – a arte pode

tar algo juntos é fator de socialização.

que a diversão, mas esta tem que ofe-

ocupar um importante papel em necessários mo-

recer. Não devemos transformá-lo em

vimentos de conexão.

Assim, pois, em um movimento circular

uma fonte de moralidade se queremos

sem fim, a ética, o que congrega e une o

elevar seu status, nos arriscaríamos a

grupo, se faz estética, emoção comum

provocar o efeito contrário, degradá-

e vice-versa. Há uma simetria entre es-

-lo. […]. O teatro deve permanecer in-

ses dois polos, e é a corrente que pas-

teiramente supérfluo, ainda que seja o

sa entre eles o que determina a maior

supérfluo pelo qual vivemos. Nada ne-

ou menor intensidade da existência.

cessita menos justificativa que o prazer.

(Maffesoli, 2007:17).

(Brecht, 1964: 180-181)

Desde a estética, N. Bourriaud encontra a so-

No 14º Simpósio da International Brecht So-

ciologia de M. Maffesoli em sua proposta de uma

ciety, que acontecerá em Porto Alegre de 20 a 23

arte relacional como o lugar de produção de uma

de maio de 2013, o “legado brechtiano” será consi-

sociabilidade específica, que estabelece espaços

derado a luz das práticas e das reflexões contem-

concretos, microterritórios criados a partir de inter-

porâneas, em uma programação que inclui confe-

câmbios sociais. Em sintonia com esta perspectiva

rências, mesas de comunicações e apresentações

relacional, que identifica a prática artística como

artísticas, articulando trânsitos entre teoria e prá-

invenção de relações entre sujeitos e estratégias de

tica, tradição e inovação, diferentes nacionalidades

BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2006.

criação de universos possíveis, O. Cornago (2008)

e pontos de vista. Outra divisão que as diretrizes

BRECHT, Bertold. Brecht on Theatre. Edited and translated by Jonh Willett. Londres: Methuen, 1964.

desenvolve a ideia de uma ética do corpo, baseada

do simpósio claramente ignoram se situa entre

na situação real, concreta e física do encontro, que

teatro e performance art: tanto na programação

CORNAGO, Óscar. Éticas del Cuerpo. Madrid: Fundamentos, 2008.

parte da unidade mínima do corpo e condiciona

acadêmica como na cultural, a multiplicidade das

“uma política em tom menor que começa pelo eu.

práticas cênicas contemporâneas é reconhecida,

A ética remete a um espaço de proximidades […]

em seus atravessamentos polifônicos e fecunda-

na qual o espaço do privado fica ligado ao social”

mente impuros. Gómez-Peña, um dos artistas que

(ibid:52). Nesse contexto, a cena contemporânea

participará da programação por meio do coletivo

trataria de “recuperar o corpo como um modo de

La Pocha Nostra, considera a fronteira entre tea-

pensar e estar frente ao outro” (ibid), em uma di-

tro e performance art como especialmente difusa,

nâmica em que o discurso ético é gerado “desde o

evitando colocá-los em oposição binária. De forma

interior da própria obra” (ibid:53).

geral, as oposições binárias são formações hoje de-

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GÓMEZ-PEÑA, Guillermo. Etcno-techno. Writings on performance, activism and pedagogy. London and New York: Routledge, 2005. GÓMEZ-PEÑA, Guillermo, SIFUENTES, Roberto. Exercises for Rebel Artists. Radical Performance Pedagogy. London and New York: Routledge, 2011. HUYSSEN, Andreas. (1986) Después de la gran división: modernismo, cultura de masas, posmodernism. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2002. MAFFESOLI, Michel. (1990) En el crisol de las apariencias. Para una ética de la estética. Madrid: Siglo XXI, 2007. PRECIADO, Beatriz. Testo Yonqui. Madrid: Espasa Calpe, 2008. www.pochanostra.com www.brechtportoalegre.com


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

15

Cacá Carvalho completa a trilogia de Pirandello com umnenhumcemmil Ator apresenta o espetáculo no 8o Festival Palco Giratório realizado no mês de maio em Porto Alegre


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

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A relação do ator Cacá Carvalho com o dramaturgo italiano Luigi Pirandello iniciou com a montagem da peça teatral O Homem com a Flor na Boca por sugestão do diretor Roberto Bacci, com quem trabalha há 25 anos na Fondazione Pontedera de Teatro, na Itália. Isso foi há duas décadas. Com a mesma equipe, 10 anos depois, Cacá estreou A Poltrona Escura, inspirado em três novelas cedidas pelo herdeiro legal da obra do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1934. Com a encenação do romance Um Nenhum e Cem Mil, que no espetáculo virou umnenhumcemmil, previsto para o último final de semana do 8º Festival Palco Giratório de Porto Alegre, em maio, o ator encerra a trilogia pirandelliana. Em entrevista concedida à revista Arte Sesc por telefone, Cacá Carvalho fala sobre a trilogia, em especial o último espetáculo, a obra de Pirandello e outras histórias.


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

17

Neste ano, você está se apresentando com as três peças simultaneamente pela primeira vez. como está sendo esta experiência? Agora, é um momento particular porque fiz O Homem com a Flor na Boca, que é uma peça teatral do Pirandello, há 20 anos; A Poltrona Escura, com base em três novelas, há 10, e no ano passado umnenhumcemmil, que é um romance. Todos os espetáculos com a mesma equipe. O que acontece é que estou, desde fevereiro, vivendo a experiência de fazer as três peças juntas. Faz um, desmonta, faz outro e depois o outro e depois descanso. São 125 páginas de texto no total, um dura 1 hora, outro 1 hora e 25 minutos e outro 1 hora e 15. São 3 horas e meia de discurso, de presença. Com esta voz deste homem que é muito partiComo foi que Luigi Pirandello entrou na

estudar toda a obra do autor, tinha que dar

cular, porque agora estou me dando conta

sua vida?

respostas àquela ali.

do que foi que nós fizemos, tá nascendo um

Minha experiência com texto do Pirandello

Então, fui começar de fato a me interessar

sentido para um trabalho que foi sendo feito

foi há 20 anos, quando por sugestão de meu

e conhecer, no sentido de ver afinal de que

sem o propósito de juntar um com o outro.

diretor, Roberto Bacci, nós encenamos O Ho-

gigante é este texto, quando eu já estava

Quando nos demos conta no ano passado,

mem com a Flor na Boca. Naquele momento,

no Brasil com o espetáculo. Porque o espe-

tínhamos três trabalhos, um espetáculo em

a minha cultura sobre a obra do Pirandello

táculo estreou na Itália, com a Pontedera,

cada gênero distinto. E pensamos como seria

era muito curta. Sabia dos textos clássicos:

centro de pesquisa teatral com o qual tenho

fazê-los e vimos que o espaço, casualmente,

Seis Personagens à Procura de um Autor,

relação há 25 anos. Hoje, passados 20 anos

não foi pensando, é um desdobramento para

Esta Noite Improvisa-se. Não sei nem dizer

de convívio com a obra te digo que não sei

o outro e para o outro, as cadeiras de um

hoje, à distância, se eu tinha lido ou se eu sa-

o que é para outros atores, mas eu nunca

espetáculo servem para o outro, a poltrona

bia de tão famosas, sabe aquelas obras que

me imaginei fazendo um mesmo autor por

de um, encapada vira de outro, é como se

você já conhece sem ler? Ou se tinha conta-

tanto tempo da minha vida. Hoje tenho 60

esse terceiro fosse uma evolução natural de

to, era muito superficial para saber como era

e faço desde os 40, um terço da vida. E isso

duas coisas que o precedem, como se fosse

a dramaturgia.

significa, não para minha carreira, isso sig-

uma pessoa mais adulta resultado de um

Quando começou o trabalho sobre O Homem

nifica no meu discurso, no que penso, bem

processo de maturidade que chega ao esta-

com a Flor na Boca, era tão estranha pra

ou mal, é um mantra que você repete por

do de um homem de 60 anos. Como se você

mim a forma como aquele diretor italiano

20 anos. Não é um play que você dá e parte

passasse a vista de um fragmento de vida,

me pedia para produzir material, o esquema

a coisa, que se repete em cena. Para que um

quase que fisicamente. Não sou mais a mes-

de trabalho era tão particular, a encenação

texto saia, ele sai de um poço que tá dentro

ma pessoa com 60 anos, quando comecei eu

era tão diferente para o meu modo de inter-

de mim, que são acionadas tantas coisas que

tinha 40, outra energia, requer outro tipo de

pretar que eu tinha muita tarefa para fazer

eu não sei quais são que fazem com que ele

disposição, mas um aprendizado incrível que

e me dediquei unicamente para aquele texto

se mantenha crível ou não. Eu sei te dizer

a experiência teatral me dá. Não é só Piran-

e não para o contexto em que o texto se in-

como ele entrou na minha vida, mas não sei

dello que me dá, é essa coisa que o Roberto

seria, a obra do autor como um todo. Nem

dizer tudo o que ele está provocando porque

Bacci montou onde eu me confronto com os

enquanto me preparava tinha tempo para

estou vivendo isso.

espectadores.


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

18

Cenicamente, no primeiro espetáculo, eu o faço entre os espectadores, há 20 anos. Então a relação direta com o público estabelece um desnudamento do personagem. Alguns comportamentos, movimento particulares, algumas características são reforçadas no trabalho de interpretação para que o espectador imagine os personagens, mas é meu corpo, a minha voz. Na primeira, não requer nenhuma interação do espectador, eu fico entre eles, mas eles não precisam fazer nada, não é interativo. Na segunda, eu vou até a plateia, numa relação de palco italiano, desço e faço uma longa ação na área chamada zona do espectador. Também não é uma situação de interatividade, mas é uma situação que eu vou para a rua e a rua do espetáculo é a plateia. No terceiro, a plateia tem uma função diferente, ela é a zona da memória do ator, do personagem. É como se ele olhasse para a plateia e visse todas aquelas pessoas que são fragmentos de uma memória, então ele pode se reconhecer em um espectador da fila

identidade, não precisa de dinheiro, de família,

e ele disse: “Imagina quantas montagens de

B, da fila J, da H, determinada pessoa que ele

viver como uma pessoa que vive para servir

Um Homem com a Flor na Boca já assisti...”

imagina ser, alguém que fez parte de seu per-

aos outros, uma pessoa que quer simplesmen-

Eu e o Roberto Bacci nos olhávamos, nos

curso, então este espectador vai sendo con-

te passar pela vida, este é nenhumcemmil.

abraçávamos, e foi um momento de muita alegria, comoção, porque era um trabalho

duzido, de uma forma muito bonita com esse Como foi apresentar O Homem com

nosso, feito de um modo muito particular, o

especial, uma cadeira do espetáculo, que vai

a Flor na Boca na sala da casa em que

Roberto era um grande diretor, mas ser re-

acontecendo como se eu tivesse refazendo

vivia o autor?

conhecido por um homem que entende do

trabalho do Roberto Bacci, para uma cadeira

O Homem com a Flor..., que faço entre os

Estava vivo Alessandro D’Amico, era o her-

corpo do Pirandello como poucos, foi criado

espectadores. Então, desta vez, vai sendo

deiro, não de família, o herdeiro legal porque

por Pirandello na casa do Pirandello. Fomos

remontado o espaço para voltar ao primei-

era casado com a neta do Pirandello, a Maria

jantar e ele disse: “Vocês precisam conhecer

ro para que eu faça o espetáculo entre as

Luisa, e fazia a gestão de toda a obra, que

obras que normalmente não são reconheci-

pessoas escolhidas, eleitas ou reconhecidas

ainda não era de domínio público. Eu estava

das porque têm um teor de crueldade, um

como parte da história de alguém. Isto coloca

fazendo O Homem com a Flor na Boca no

humor cáustico, uma visão de mundo muito

para o público e para o ator uma situação de

teatro que fica dentro da Universidade de

poética e cruel que são as novelas. O univer-

desnudamento absoluto, onde não há inter-

Filosofia de Roma. Eu vi aquele senhor, no

so das novelas é a fonte de toda a obra.” E

pretação, não tem interatividade, pergunta e

meio da plateia – lotava muito –, que me

nos indicou para ler 10 novelas consideradas

resposta, de jeito nenhum, imagina. Como se

olhava com um brilho molhado nos olhos,

malditas, de poética cruel, e dentre elas es-

fosse uma radiografia da pessoa, eu me des-

havia um homem naquela plateia de anôni-

colhemos três e usamos para fazer A Poltro-

nudo no sentido poético para que a história

mos, era um brilho particular. Entre os es-

na Escura.

se faça clara. A história de um homem que

pectadores era um espectador comovido de

Encontrar com este homem que depois me

deseja, que afirma que não quer ser ninguém,

um modo particular. E ele veio falar conosco,

levou pra fazer o espetáculo na casa dele para

um nenhum, um anônimo, sem história, sem

identificou-se como herdeiro de Pirandello,

a mulher dele que estava acamada foi muito


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

19

No espetáculo umnenhumcemmil, o terceiro da trilogia de Pirandello, a plateia a plateia tem uma função diferente, ela é a zona da memória do ator, do personagem

Foto: Lenise Pinheiro

comovente. Ele me deu de presente a última

Como você avalia a temática da obra de

dioso e é breve. E essa condição o teatro,

página escrita por Pirandello, e ela está emol-

Pirandello?

a arte como um todo, tem como obrigação

durada e pendurada lá na Pontedera, uma

É o tempo que faz um clássico.

primeira colocar em questão. Entender o

conquista nossa de um grupo que está junto

Não apenas as características literárias

que de fato me diferencia de um elemento

há 20 anos trabalhando sobre a obra de um

maravilhosas, mas pelo argumento, pela

outro que vive e que não teme esta coisa

autor. Motivo de orgulho para Roberto Bacci

visão que nos coloca onde nos reconhe-

que eu chamo de consciência ou inteligên-

e todo o grupo, iluminador, figurino...

cemos. Esse reconhecimento provoca uma

cia. O que me difere de uma pessoa ou um

espécie de abismo dentro, uma espécie de

animal que não tem isso? Como sou capaz

Fale sobre suas parcerias, em especial, com

silêncio, ou uma espécie de um sorriso no

de viver e ser tão bárbaro como um outro

a Fondazione Pontedera de Teatro.

canto dos lábios por reconhecer que ali está

que não tem esta consciência ou inteligên-

Esta trilogia do Pirandello é resultado de um

retratado um hóspede que habita dentro de

cia? Será que com 2 mil anos o homem não

trabalho em que a Pontedera é fundamental.

todos nós.

evolui e não aprende a viver em harmonia

Eu não faria, simplesmente não faria. Mas

Este hóspede é este elemento no estranho

com o todo, e não digo só o homem que

também um espetáculo não se faz somente

que está dentro da obra.

está do lado, mas com o todo que é isso

porque ele é bom, porque o ator é bom, ele se

Os clássicos são todos assim, você reconhe-

tudo.

faz porque ele pode cativar a plateia e quem

ce não apenas o retrato de uma sociedade

É esse tipo de coisa que torna uma obra

pode viabilizar a continuidade, como o Sesc

daquele tempo, retrata o homem que por

clássica, ela é um refletor sobre a minha re-

de Porto Alegre, são parceiros que ajudam

mais que o mundo mude, é este homem

alidade, que me expõe quando leio, me re-

na estrada, na vida, esta coisa que só vive,

perdido que tenta se achar, o homem que

vela, me iguala a todo mundo, além de toda

se apresenta se é viabilizada. Não é só meu

se desencontra, acerta e erra no mesmo

a beleza literária, toda a beleza da compo-

talento ou a qualidade do trabalho. Se o espe-

momento, é este homem que ainda não en-

sição das frases, das palavras, das ideias, é

táculo chega a algum lugar é graças a quem

tendeu o sentido de estar aqui, de viver este

um refletor sobre a minha realidade.

viabiliza a sua chegada até lá.

período aqui, acreditando que é um gran-


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

POR Rita Aquino

20

Artista, educadora e doutoranda em artes cênicas na UFBA. Integrante do Coletivo Construções Compartilhadas (BA), é responsável pela concepção de {pingos&pigmentos}, que inaugura o Circuito Intervenção Urbana do Palco Giratório 2013

Em uma brecha no meio do dia, guarda-chuvas invadem a paisagem Cada cidade organiza-se como um campo de ten-

que em nome da conquista do capital, implemen-

mendigos, prostitutas e idosos. As crianças por ve-

sões. Um campo composto por um arranjo de pes-

tam um regime de produtividade que “coloca tudo

zes sequer têm a oportunidade de frequentá-las,

soas (nós!) onde cada um ocupa determinada posi-

em seu devido lugar”. Disseminam-se assim pres-

pois os adultos não se dispõem a lhes acompanhar

ção na disputa de capital – simbólico, econômico,

crições de uso do espaço urbano e de existência

devido a sua falta de tempo decorrente do exces-

cultural. Por posição, podemos compreender aqui

dos próprios sujeitos: por onde andar, o que fazer,

so de trabalho ou ao medo de uma violência que

pontos no espaço – o local de moradia, a escola, o

como se comportar, quais opiniões emitir etc.

parece rondar os espaços urbanos “desocupados”.

trabalho e tudo o mais que integra a rede pela qual

A relação com o tempo parece exemplificar

Outro exemplo é o fenômeno da espetacu-

nos movimentamos, sempre em busca de melhores

bem a questão. Somos cobrados para chegar antes,

larização, que igualmente atravessa a cidade e os

condições de vida. É a partir destas posições, do lu-

mais rápido, primeiro, principalmente em termos

corpos. Uma exposição exacerbada à informação,

gar onde estamos, que estabelecemos nosso ponto

profissionais. Esta aceleração se traduz na trans-

predominantemente publicitária, que apela cons-

de vista, nossa visão de mundo. Ou seja, nesse jogo,

formação dos espaços de permanência da cidade –

tantemente aos nossos sentidos em escala macro

ao mesmo tempo que as relações entre nós estrutu-

como praças e parques – em espaços de passagem,

e na direção da idealização da imagem. O espetá-

ram a malha da cidade, esta nos pressiona de volta,

vias, caminhos para chegar a algum lugar. Isto é,

culo normatiza e reduz nossa experiência sensível,

influenciando nossos hábitos, afetos e memórias.

embora praças sejam construídas para uma efeti-

criativa e crítica na vida privada e na relação com o

Como campo de tensões, a cidade nunca será

va ocupação pública e indiscriminada, seu uso na

coletivo. É assim que, em coro, legitimamos a ima-

homogênea ou consensual. Contudo, parecem

prática se restringe àqueles que estão à margem

gem da moça bonita que posa no grande outdoor

prevalecer as práticas de ordenação e objetivação,

do movimento acelerado da produtividade, como

da marca famosa e desvalorizamos qualquer corpo


ARTES CÊNICAS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

21

Projeto integra a programação do 8º Festival Palco Giratório/POA

que desvie deste padrão consensual, independen-

{pingos&pigmentos} é uma das propostas

temente de que se aproxime mais de nós mesmos,

que desenvolvemos no Coletivo Construções Com-

de nossa família, quiçá do conjunto de pessoas

partilhadas (BA) para indisciplinar o modo como

com quem cruzamos em nosso dia a dia.

praticamos a cidade. Trata-se de um conjunto de

Foto: Paulo Lima

Pois bem, a arte, em sua condição de ques-

seis trabalhos, denominado Poéticas de Multidão,

Foto: Tiago Lima

tionamento de uma determinada realidade, pos-

em que, através de ações simples, mobilizamos um

sui um grande potencial de interpor-se a estas re-

grande contingente de pessoas para intervir em

lações. Não por se tratar de um elemento externo

sua própria cidade.

ao jogo, ao contrário, a arte também faz parte da

{pingos&pigmentos} tem início com uma con-

cidade e das disputas pelas formas de capital que

vocatória para interessados em participar de uma

compõem suas tensões. Contudo, por natureza,

oficina onde são abordadas questões relacionadas à

tem a capacidade de explicitar tais conflitos e for-

percepção, composição e ao sentido de coletividade

mular outras relações possíveis entre os sujeitos e

presente em fenômenos de multidão. A oficina, que

o espaço urbano. Incluindo aí críticas a si mesma.

possui 8 horas de duração, não apresenta pré-re-

O lugar da intervenção urbana é, portanto,

quisitos. A partir dela, os participantes tornam-se os

de atuar neste campo de tensões, reinventando

próprios performers, conjugando, assim, formação

o estabelecido, provocando o cotidiano em seu

artística, criação e apreciação estética.

Foto: Paulo Lima

matiz habitual. Não se trata de levar uma obra

Portando guarda-chuvas de cor vibrante,

de arte concluída para ruas e largos, mas de

nossa pequena multidão pontilha, satura e dissolve

atualizar a relação com tais espaços produzindo

na paisagem, irrompendo o espaço urbano de for-

outros sentidos para seus habitantes através da

ma poética, onírica e estranha. Uma plasticidade

proposição artística. Uma espécie de infiltração

que penetra o campo de tensões para sublinhar o

na malha urbana que refaz alguns pontos de sua

ordinário na cidade e em seus habitantes, exerci-

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

tessitura, que propõe outros “nós”. Por isso, não

tando uma forma de esculpir o tempo a favor da

se pode ignorar a dimensão política contida nesta

presença e da percepção.

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Lisboa: Difel e Bertrand Brasil, 1989.

reinvenção do espaço coletivo.

JACQUES, P. B.; BRITTO, F. D. (orgs). Corpocidade: debates, ações e articulações. Salvador: EDUFBA, 2010.


caderno de teatro

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

22

#10

O Caderno de Teatro é uma seleção de artigos e entrevistas com artistas que nos últimos anos participaram do Festival Palco Giratório no Arte Sesc – Cultura por toda parte. Sua edição desempenha um papel fundamental na difusão e no conhecimento. Nas próximas páginas, o ator, diretor, dramaturgo, educador, artista plástico e bonequeiro argentino radicado no Brasil desde 1961 Ilo Krugli conta episódios de sua itinerância pela América Latina. Uma história de vida que se mistura com a arte e que dividiu o teatro infanto-juvenil em antes e depois da criação do Teatro Ventoforte, grupo que já foi agraciado com mais de uma centena de prêmios, incluindo os principais do Brasil. Em 2013, o artista, homenageado do projeto Palco Giratório Nacional, está circulando pelo país com

História de Lenços e Ventos, montado pela primeira vez em 1974, com grande impacto, e remontado recentemente, além de As Quatro Chaves. À Vitória e ao Recife, a trupe leva Ladeira da Memória ou

Labirinto da Cidade, que concorre a melhor espetáculo jovem de 2012 pelo Prêmio Femsa. O texto foi transcrito a partir da fala de Ilo Krugli, por telefone, à Revista Arte Sesc, em março de 2013.


caderno de teatro

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

23

Por Clarissa Eidelwein Jornalista

Ilo Krugli da infância ao teatro ventoforte

Fotos: Divulgação Teatro Ventoforte


CADERNO DE TEATRO

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

24

chegavam da Europa. Teatro era uma linguagem

O Mistério do Fundo do Pote ou Como Nasceu a Fome

próxima, mas eu também desenhava, pintava,

Foto: Divulgação Teatro Ventoforte

tudo era brinquedo. Na escola primária, eu era um aluno considerado especial porque aproveitava qualquer cantinho do caderno para fazer figuras. Minha professora me iniciou em bonecos, ela vinha de uma tradição – em 1934, 1935, Federico García Lorca esteve por Buenos Aires e, após as apresentações de suas peças, com vários atores, músicos, bailarinos, poetas, subia no palco, era apaixonado por bonecos, fantoches, títeres e fazia improvisações. Meu primeiro teatro era feito com bola de

Desta história, sobrou todo um grupo, um movi-

gude. Cada bola tinha significado assim como se

mento que ficou meio órfão quando ele foi em-

fossem personagens, pela cor, pela transparência,

bora, e continuou a história. Entre eles, tinha um

tamanho, a bola mais quebrada e machucada fa-

poeta, Javier Villafañe, que deu continuidade e fa-

zia papel de velho, as mais transparentes eram

zia oficinas, ensinou minha professora do primário,

príncipes e princesas, as bolas parecidas, com a

Helena, a fazer bonecos, e foi ela quem me iniciou.

mesma cor, formavam um exército. Isto dentro

Anos mais tarde, eu já fazia bonecos e pen-

da tampa de uma lata de doce de marmelo, la-

sava em criar um grupo. Eram bonecos de mão,

tas grandes retangulares, a bola se movimentava,

a cabeça feita em cima de cuias modeladas com

corria, e eu as descartava quando acabava a par-

papel machê. Às vezes, na pressa de fazer o es-

atravessando fronteiras

ticipação do personagem. Era um teatro sem pú-

petáculo com as crianças brincando no quintal

A primeira fronteira que atravessei foi a rua em

blico, às vezes o pessoal de casa, da família, para-

da casa, não esperávamos secar e durante a peça

frente a minha casa para a calçada do outro lado.

va para olhar o meu brinquedo. Lembro que uma

os bonecos perdiam a bochecha e outras partes.

Claro que recebi um pequeno castigo da minha mãe,

prima do meu pai que estava com problemas fa-

Mas também fazíamos com a técnica correta.

ela tentava me proteger, sem dúvida, mas eu esta-

miliares comentou sobre o que daria isso que eu

Ainda uso muito boneco de mão, que aqui no

va sempre interessado em descobrir espaços novos.

estava fazendo sem perceber toda a contradição

Brasil chama fantoche ou títere, e o pessoal do

Teve outras vezes. Uma vez fugi de casa na periferia

e as dificuldades da vida. Mas eu estava ligado,

Mamolengo usa muito. Eu, depois de adolescente,

de Buenos Aires dizendo que ia procurar outra mãe,

escutei e guardei esta colocação que ela fez em

jovem, encontrei com Javier algumas vezes, sem

não sei que informação eu tinha, tinha ouvido falar

cima do meu brinquedo, eu relacionava também.

falar que ele havia iniciado minha professora. Ele

na Praça de Maio, e corria pelas ruas de pedra, bem

Eu morava num bairro com muitos imi-

tinha uma história coincidente com o Brasil, pra

periferia. Me virava para ver se alguém me seguia ou

grantes de muitos lugares. Só tinha argentino

não, minha mãe e minha irmã me seguiam, até que

de segunda, terceira geração. Na minha rua ha-

Javier esteve no Rio de Janeiro, em 1949, e

me alcançaram e levei até uma palmada. Eu sabia

via polonês judeu e polonês católico, que são

deu aula na casa da Maria Clara Machado, para

que queria ir longe, mas ao mesmo tempo não que-

diferentes. Nós éramos poloneses judeus. Tinha

ela e outras pessoas de teatro, entre elas, Tônia

ria perder totalmente o núcleo familiar.

ucranianos, armênios, italianos, muitos galegos,

Carrero, para brincar com bonecos. E saiu viajan-

Mas desde criança brinquei muito, acho que

de quem eu era muito amigo. Daí começa mi-

do até o Nordeste com um artista plástico e jor-

a origem da linguagem, da expressão, vem através

nha iniciação próxima do português. Falavam-se

nalista, Augusto Rodrigues, também autodidata,

do brinquedo com o ser humano, com a criança,

várias línguas, era uma troca muito grande, foi

e quando o espetáculo acabava, colocava papéis

o resto que vem depois é ampliação de criações

muito rico. Havia um centro cultural onde se fazia

no chão e desenhava com as crianças do público.

espontâneas com o imaginário, com os outros que

muito teatro, era muito importante. Em Buenos

Também fiz por um tempo esta intermediação

estão em volta. O princípio da expressão através do

Aires, só havia quatro teatros, com espetáculos de

com as crianças, que desenhavam suas lembran-

brinquedo, de improvisação, de dar vida ao imagi-

terça a domingo, na língua que o grupo oriental

ças do espetáculo. Javier voltou para Buenos Ai-

nário, aos objetos.

falava. Isso antes da guerra, com companhias que

res. E Augusto Rodrigues era mais uma pessoa

onde viajava com seus bonecos.


CADERNO DE TEATRO

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

25

a se interessar por arte-educação. Ele fundou a Escolinha de Arte do Brasil, um projeto que em determinada época se estendeu por todo o país. Eu cheguei em 1958. A verdade é que eu estava viajando pelo norte da Argentina, Bolívia e Peru. Na Bolívia, fiz amizade com o pessoal da embaixada brasileira, estava pensando em seguir com meus bonecos até o México, mais tropecei com os adidos culturais brasileiros, um deles era Thiago de Melo, o poeta, de quem fiquei muito amigo. Encontrei também um jornalista que era assessor de Juscelino Kubitschek, fazia os discursos, Carlos Davi. Ele me disse: você deveria ir para o Rio de Janeiro, lá tem um grupo que tem tudo a ver com você.

Fronteira Bolívia-Brasil Nessa época, viajávamos, éramos vários, foi diminuindo até ficarmos apenas eu e Pedro Domingues, argentino também, com o Teatro Cocuyo, que é um bichinho parecido com um vaga-lume gigante. Nos lançamos nesta aventura de pegar o “trem da morte”, atravessar a fronteira (Bolívia-Brasil), pegar outro trem até São Paulo, outro trem para o Rio de Janeiro. Carregávamos muitos livros de arte, bonecos, desenhos, pintura – eu desenhava, pintava e era ceramista. Com o estímulo que recebemos, chegamos ao Brasil e nos encontramos com o mesmo Augusto Rodrigues que havia trabalhado com Javier. Ele disse: “Estava esperando por vocês.” Não sei se já sabia da nossa existência ou se, no fundo, os bonecos eram muito bons para trabalhar arte-educação, para o desenvolvimento do imaginário. Fiquei 12 anos trabalhando na escolinha, no Rio de Janeiro, mas viajávamos muito, íamos para Recife, Porto Alegre. A escolinha era ao lado do Teatro São Pedro e tinha várias pessoas que estavam neste movimento de arte-educação, artistas plásticos. Curiosamente, pouca gente fala disso, a própria educação através da arte dentro das universidades lembra muito a escolinha. Eu era autodidata e num momento da vida fiz um poema que falo que saí de Buenos Aires viajando, parti para o mundo, para América Latina, com Herbert Read de baixo do braço e Lorca no coração.


CADERNO DE TEATRO

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

26

Meu interesse pela educação foi muito gran-

meu pulso! E sempre sobrevivemos fazendo estes

de e por meio das escolinhas, nos comunicamos

espetáculos e atividades com crianças, oficinas e

frequentemente com projetos de escolas, espaços

por aí vai.

universitários e viagens também. Depois, com al-

Em Cuzco, no Peru, fizemos um trabalho mui-

guns dos colegas, ainda do Cocuyo, que se trans-

to especial com crianças, artes plásticas, desenho,

formou em São Paulo no Teatro de Bonecos de Ilo e

pintura, modelagens, colagens. Em 1962, 1963, ini-

Pedro, viajávamos para o Nordeste, Alagoas, e nos

ciaram os cursos de educação através da arte, de

apresentávamos para um público ligado a escolas

setembro a dezembro, todos os anos. No primeiro,

em espaços bem populares. Na América Latina,

fui aluno, depois professor de boneco, trabalho

sempre apresentávamos em aldeias de índios, al-

com desenho, cerâmica, construção com madeira

Meu ponto de partida

deias populares, em diversos lugares. Sobreviví-

e escultura. Participava de todas as atividades do

Durante muitos anos, trabalhamos com bonecos.

amos fazendo teatro. Uma vez me perguntaram

curso. Sobre eu ser chamado autodidata, talvez

Lá no Rio de Janeiro, teve um ano que criamos um

quem financiava isso. Eu tirei o relógio do bolso e

isso ajude a exprimir: Eu sempre falo que todas as

teatro de bonecos no Parque do Flamengo, que

mostrei: é o seguinte... – Quando chegava a algum

crianças do Brasil são autodidatas, estou queren-

ainda existe. Trabalhamos com uma montagem

lugar – trabalhei muito nas minas de prata e outras

do dizer que entram num processo instintivo, es-

muito bonita de uma ópera, O Retábulo de Mestre

minas da Bolívia, começávamos a nos apresentar e

pontâneo de lidar com as informações, com a arte

Pedro, em cima de um tema de Dom Quixote de

divulgar na rádio, nos sindicatos. Parávamos junto

e com a comunidade, até mesmo a partir de seu

Cervantes, quando ele vai ao teatro e brinca com

do lugar onde dormíamos, pensão, hotel, pousa-

brinquedo. Fiz algumas oficinas no Brasil e com

bonecos. Fizemos na inauguração da Sala Cecília

da, e já dizia: “Estou hospedado aqui e estamos

algumas outras pessoas em Buenos Aires, como

Meireles, no Rio, por volta de 1966, com a orques-

fazendo um trabalho para o sindicato, vamos nos

Cecilia Markovich, que tinha trabalhado até com

tra do Teatro Municipal do Rio e cantores que fa-

apresentar sábado e, se tiverem interesse, deixo

Segall. Um grupo que vinha lá dos anos de 1920,

ziam os personagens.

meu relógio aqui”. Nosso produtor era o relógio do

1930, do movimento da Semana de Arte Moderna.


CADERNO DE TEATRO

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

27

Trabalhei numa oficina, me interessava por tudo que acontecia em volta.

que da Bahia e quase foi ministro, Anísio Teixeira. Depois desta etapa, em 1963 ou 1964, mon-

No Rio de Janeiro, comecei a trabalhar muito

tamos um espetáculo que ainda faço: Um Rio que

com a Escolinha de Arte e junto tinha o Conserva-

Vem de Longe, com textos e versos meus e uma

tório Brasileiro de Música, onde se iniciaram todos

forma de representar que é um teatro de bonecos

os trabalhos de iniciação musical com as crianças

quase sem bonecos. Utilizo apenas as mãos e um

e nos anos de 1970 originou a primeira faculdade

ou outro objeto, algumas canções de origem popu-

de musicoterapia. Eu fazia parte desse grupo que

lar, outras minhas, nessa época comecei a compor.

criou a faculdade. Fizemos um trabalho integrado

Nos anos de 1970, criamos uma escola chamada

em cima das crianças com várias linguagens, entre

Núcleo da Atividade Criativa.

elas, música e artes plásticas. A proposta era que,

Em 1973, viajei ao Chile, na época do Allende.

como as linguagens são espontâneas, inatas no

Fiquei quase 10 meses, passei pelo golpe do Pino-

ser, tinham que ser desenvolvidas simultaneamen-

chet. Havia muitos brasileiros. Fazíamos espetácu-

te. Como o teatro estava no centro das atividades,

los no Museu de Belas Artes, fui preso, muita gen-

quem originou este movimento foi Liddy Mignone,

te foi presa, alguns foram mortos. Consegui sair

a mulher do maestro Francisco Mignone. Também

acompanhado por gente das Nações Unidas, senão

participei de um grupo de estudos com a Nise da

nem sei se teria conseguido sair. Peguei um avião

Silveira no Museu de Imagens do Inconsciente.

para Buenos Aires. Voltei ao Brasil ainda no fim do

Sempre digo que fui um homem de sorte, porque

ano, ainda não era cidadão brasileiro – como ti-

aquele adido cultural me indicou para trabalhar

nha estado no Chile, tive que entrar pela fronteira

come esta gente da escola. Trabalhei com Darcy

como turista argentino. Eu queria voltar ao Brasil e

Ribeiro, com aquele outro que criou a Escola Par-

voltei a trabalhar com toda essa gente.

O Mistério do Fundo do Pote ou Como Nasceu a Fome (fotos 1, 2 e 4) Ladeira da Memória ou Labirinto da Cidade (foto 3) Fotos: Divulgação Teatro Ventoforte


CADERNO DE TEATRO

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

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História de Ventos e Lenços

situações, acontecimentos que normalmente não

humanidade ao mesmo tempo. De alguma forma,

No início de 1974, me convidaram para partici-

se fala às crianças, perseguições políticas, mas com

sempre falavam da fabulação do imaginário, de um

par de um festival de teatro de bonecos e teatro

uma linguagem muito acessível.

quase mitológico simbólico, mas coisas que esta-

infanto-juvenil em Curitiba. E eu disse pelo te-

Estamos fazendo este espetáculo de novo e

vam no nosso dia a dia, de alguma coisa presente.

lefone: “Acabei de chegar, é uma história com-

vamos viajar pelo Sesc. Já fizemos várias vezes,

Este espetáculo interessou muito às crianças, mas

plicada, eu não tenho nem grupo, meu grupo se

mas agora estamos esquentando para viagem. Tem

também, sem dúvida, aos adultos.

dissolveu”. A pessoa do outro lado da linha disse:

um momento que tem dois personagens Manoel –

A minha arte se alimenta de tudo isso, da ex-

“Ah, Ilo você tem um boneco...” e me convenceu.

aquele que depois se fecha numa mala e não quer

periência libertária do boneco, porque ao boneco

Em 10 dias, junto com um aluno da musicotera-

mais trabalhar – e Manoela. Ela vai passear amea-

se permite tudo, tanto que quando ainda estava no

pia, um fotógrafo e mais duas moças que eram da

çada por um perigo, e ela não quer obedecer, tem

Peru, nos apresentamos numa sala da prefeitura

escola de teatro da UNIRIO, criamos o espetáculo

um lugar que há um poço e ela pode cair, mas os

em Cuzco e fazíamos o espetáculo de bonecos tra-

Histórias de Lenços e Ventos. Todo mundo gostou,

outros personagens dizem pra Manoel deixá-la ir,

dicional, com painéis, e em determinado momen-

voltamos pro Rio de Janeiro, ensaiamos um pou-

pra se despedir dela. Dizem: Dá um beijo nela. E eu

to girávamos os painéis e ficávamos trabalhando,

co mais e estreamos em maio daquele ano, no

digo: Já dei. Quando? Ainda continuo improvisan-

fazendo o espetáculo numa sala imaginária, e o

Museu de Arte Moderna. O espetáculo realmente

do, agora na temporada do Sesc Pompeia, o perso-

público assistia a que? Nós brincando com os bo-

foi uma explosão.

nagem disse: Ah, faz tempo. Mas quando? Ah, na

necos, esta linguagem à vista. Quando chegamos

caída do muro de Berlim.

ao Rio de Janeiro, na primeira vez que fizemos

Era um espetáculo que parecia criado frente ao público. O meu boneco iniciava, mas alguns

Então é nossa fábula desse século que pas-

um espetáculo, as crianças se divertiram muito.

falavam que estava dizendo com isso que muita

sou, parece uma coisa de um nível especificamente

Havia três painéis e saímos de um painel para o

gente se fechou, se sentiu proibido de trabalhar

político. No domingo passado, me contaram que

outro, tirávamos os bonecos, então essa linguagem

e o boneco se fechou dentro de uma mala e não

um garoto disse: Pai que muro é este que caiu?

aberta, próxima do brinquedo interessou muito às

queria mais sair. E tentava mostrar um teatro feito

Sempre coloco alguma coisa assim. Gosto quando

crianças e a todo público. É isso que coloca uma

de outra forma, um espetáculo que era feito com

as crianças voltam pra casa e perguntam para os

liberdade no improviso, na relação com o público.

lenço, pedaço de papel, de metal, jornais, bem co-

adultos que a acompanharam o que é guerra? O

Nesse espetáculo de 1963, Um Rio que Vem

lorido. Mas dentro do espetáculo tinha todo um

que é fome? O que é perseguição? Disse: Que bom

de Longe, tem o ator que faz um barquinho e nos

processo que recorria um pouco à história do que

isso. Este menino daqui a pouco vai brincar com

últimos anos sou eu que faço. O barquinho está

estava acontecendo no país e na América Latina.

isso, com o muro que caiu. E não sei como esse pai

amarrado e não pode sair porque está ancorado e

E ao mesmo tempo, com linguagem que era de

deve ter falado para ele que era esse muro. Mas

nunca havia navegado. Ele não sabe como se sol-

grande influência popular, canções... e com uma

sem dúvida é muro que divide sempre uma coisa

tar, até que alguém retira esta corda, e ele se lan-

relação com a criança diferente, um teatro com

do lado e do outro. São grandes brincadeiras da

ça numa aventura porque viu uma flor. Ele gosta


CADERNO DE TEATRO

PRIMEIRO SEMESTRE

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História de Ventos e Lenços

Fotos: Divulgação Teatro Ventoforte

tanto desta flor que queria ir atrás dela, e ele vai com a correnteza do rio, vai parar no oceano, enfrenta tempestade e quase vai desaparecer quando aparece um marinheiro que tenta ancorá-lo novamente. Ele resiste, ele não quer. Então deixo os atores em cena, vou até a plateia e digo que não quero mais, porque eu já fiquei preso. E pergunto: Alguém aqui já ficou preso alguma vez? Vinte anos atrás tinha gente que balançava com a cabeça

tece algumas vezes. Eu detesto quando puxam no

mais que atualmente. Porque era preso não apenas

público este “começa”. Se o público se manifesta

por roubo ou atentando ao pudor, era outra coisa,

espontaneamente, tudo bem. Tem muito estereóti-

era porque se manifestava publicamente. Hoje, as

po em cima do trabalho pra criança. É minimizado,

crianças dizem: Eu fiquei preso. Mas quem foi que

transformam tudo numa coisa muito simplória,

te prendeu? Minha mãe que me botou de castigo

com muito diminutivo. Tudo é pequeninho e não

no quarto e disse que não podia sair. Ou fiquei pre-

sei o que mais. E a gente se coloca para a crian-

so no elevador. O ator não quer mais voltar à cena

ça quase como para o adulto, a gente enxerga a

e o público pede que volte. Ele só volta quando

criança, esse espetáculo no Sesc Pompeia está

lembram pra ele que não pode desistir desta flor

sendo muito interessante. O público sentado num

que viu passar e achou tão bonita e se apaixonou.

lugar que é de convivência, e a gente percebe a

Então, ele volta pra retomar a cena com o perigo

criança sentada com alguns adultos em cima de

até de ficar amarrado, ancorado. Já me encontra-

almofadas no chão e em cadeiras. Mas também há

ram na rua e falaram que levaram a questão para

jovens. Vi jovens de 17, 18, menos de 20 anos, sen-

o psicanalista, que fala: Você é igual ao barquinho

tados e chorando, emocionados. É a história de um

e se você não se arriscar, nunca se desamarrar, não

personagem que se chama Papel e que vai sendo

enfrentar a correnteza e a tempestade, não vai po-

criado diante do público. Pega-se um jornal com

der ser você, não vai poder ser livre.

notícia do dia a dia e então um lenço sai voando

Essa linguagem que mexe com a história,

e é preso pelo Rei Metal Mal na cidade medieval.

pra mim, é história pra criança também. O que eu

Claro que é uma espécie de alegoria, e o persona-

rejeito é que as crianças, puxadas por um adulto,

gem que vai libertar a Azulzinha (um lenço) é uma

iniciem um coro “Começa! Começa!”, como acon-

folha de jornal. Esta folha depois será perseguida


PRIMEIRO SEMESTRE

2013

30

CADERNO DE TEATRO


CADERNO DE TEATRO

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Ladeira da Memória ou Labirinto da Cidade

Foto: Divulgação Teatro Ventoforte

de uma linguagem também. O rei quer fazer um torneio e quem ganhar vai casar com a protagonista que é um lenço azul, a Azulzinha, que está presa no castelo. Os outros lenços também estão todos presos, e na época que fizemos havia muitos presos realmente na América Latina. Mas eu diria que em algumas situações ficamos presos de outra forma, presos ao sistema. Ele entra no castelo, mas como enfrentar o rei? Através de um jogo de sombras. O rei luta ima-

e queimada, isto faz alusão a muitas situações e

ginariamente com a sua sombra, talvez lembre um

em nível simbólico continua acontecendo. A gen-

pouco a cena de Chaplin imitando Hitler que brin-

te desenha na folha de jornal uns olhos, um nariz

ca com o globo terrestre, que cai na bunda dele.

e uma boca e o ator vai andando com isto numa

O personagem Papel projeta sua sombra. Estamos

mão. E a identificação é muito forte, essa emoção

dizendo que enfrentar certas forças é muito difícil.

do público jovem para mim é importante, os adul-

Só podemos enfrentar através do que nós falamos

tos também, claro, e crianças, mas o jovem... De

com nossa arte. E a sombra é nossa arte e é assim

alguma forma a gente tenta colocar ainda que se-

que podemos enfrentar, podemos influenciar. E um

jam histórias de nível histórico que já aconteceram.

ator desliga o foco do rei, e a sombra desapare-

Tem uma canção que fala:

ce. Ele se sente vencido e procura colocar que só assim conseguimos, retirando a luz de cima deste

Se é de papel voa no céu

personagem. Então, o Papel resgata a Azulzinha, e

Se é de metal brilha na mão

eles voltam para o quintal. Com muita música e

E se é de jornal me faz chorar

poesia – a poesia também é uma linha emocional

me traz notícias preciso andar

que alcança as pessoas tanto a criança, como o adulto e o jovem.

Então, o momento que estávamos viven-

Eu faço os textos das músicas, o poema. Tem

ciando 40 anos atrás, mas que de alguma forma

uma equipe que por anos trabalha comigo, alguns

continuamos vivenciando, essa identificação que

desde a primeira montagem. Eles colocam meus

a gente faz com a possibilidade, com o sonho de

versos na música. Nossos cancioneiros do Vento-

todo ser de se mover, de amar está presente no

forte passam de 200 pessoas. Cantamos músicas

texto na forma de representar. O público vê que o

nossas e algumas populares que inserimos dentro

ator se transforma no personagem, e este diz: Não

do espetáculo. Em História de Lenços e Ventos, há

vou mais continuar, acabou, nosso herói foi quei-

uma citação de um sambista do Rio de Janeiro,

mado. E alguém, criança ou adulto, diz: faz outro.

Candeia: “deixe me ir preciso andar vou por aí a

Mas vai ser queimado novamente. Até que a gente

procurar”. E pra quem conhece dá uma mexida...

faz outro, porém mais forte e com mais elementos

posso mexer e reviver e continuar com a memó-

e até com possibilidade de entrar na cidade me-

ria, a grande saída pra enfrentar toda a questão

dieval, mas daí ele tem que ter elemento da cidade

cultural social é que a criança tenha memória, me-

medieval, muito metal por cima, um escudo. Mas

mória cultural, tudo isso nos fortalece. Há 40 anos,

por baixo fica escondido um coração transparente

por repressão política, agora por uma situação de

de celofane. Tudo isso como contradição de duas

sistema social, a nossa memória é anulada, joga-

atitudes. Daí decide entrar, mas assim mesmo não

da fora, não é queimada, é escondida, desaparece,

enfrentamos os soldados diretamente, enfrenta-

apenas somos manipulados por uma cultura de

mos o Rei Metal Mal através de um jogo teatral,

produtos de vendas.


CADERNO DE TEATRO

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

32

Teatro Ventoforte

ser uma figurinha e inventei um personagem, o

are, Lorca. Quando são meus textos, já surgem

Nos anos de 1980, nos transferimos para São

Mané. E o Mané nunca fala, ele só fala com o pa-

mais ou menos esboçados e vão se complemen-

Paulo e depois, numa aventura continuada até

lhaço. Cada vez que há um problema, o palhaço

tando na montagem. O último acréscimo de

agora, ocupamos um espaço no Parque do Povo,

coloca a figurinha no ouvido e diz ao público: o

Histórias de Lenços e Ventos, por exemplo, foi

onde tinha uma comunidade da cidade de Pal-

Mané disse que esperança é para esperar, se fa-

o beijinho final do Manoel na Manoela, a his-

meira dos Índios, em Alagoas, a qual teve Gra-

lou em ter esperança, se quer esperança tem que

tória do muro, eu como personagem coloquei

ciliano Ramos como prefeito. Inclusive estamos

saber esperar. Este personagem, nos presídios,

na hora, acontece na espontaneidade. Às vezes,

preparando uma homenagem a ele e a obra Vi-

criava muito impacto. A gente conclui que esses

surgem situações novas. Há 40 anos, quando o

das Secas. Esta comunidade foi retirada – ainda

espectadores são personagens de uma história

espetáculo foi montado, e o Papel era queima-

há pessoas de lá colaborando com a gente –

e que ninguém pergunta, ninguém os escuta, é

do, alguns atores levantavam a folha de papel

para a criação de um grande parque. Tudo foi re-

tudo no silêncio. Então, se identificavam muito

e diziam: Eu sou Papel, eu sou Papel... Mas não

tirado, e apenas o Teatro Ventoforte permaneceu

com este personagem que nunca se escutava

dá, vão ser queimados, não adianta, estão quei-

porque os políticos disseram que era patrimônio

falar. Ao final, quando cumprimentávamos com

mando todos os papéis em volta do castelo. Fora

cultural do Brasil. Estamos há 28, 29 anos no

todos em cena, eles diziam “Mané! Mané!” Então

isso, dentro do castelo só entra ouro prata renda

espaço realizando trabalhos com diferentes co-

colocávamos o boneco no alto para cumprimen-

veludo brilhantina botox, não sei o que mais...

munidades da cidade, centrando em produções

tar e eles ovacionavam o Mané. Aquele que nun-

E agora acontece de novo que os atores levantam

e apresentações continuadas no Parque do Povo.

ca era ouvido, mas de tanto em tanto dava sua

o jornal querem ser o personagem pra resgatar a

opinião através do clown.

Azulzinha, mas não é tão fácil resgatar o prisio-

Apresentamos o espetáculo infanto-juvenil O Mistério das Nove Luas nos presídios, em São

Nesses anos, também fizemos espetáculos

Paulo um pouco e muito no Rio, tanto masculino

para adultos, como Victor Hugo, Onde Você Está?,

como feminino. É uma espécie de folguedo, um

inspirado na literatura do escritor francês. E tam-

casamento de duas grandes figuras em cena, e

bém vários espetáculos de Lorca. No último ano,

a cada cena é colocada uma saia na boneca, que

fizemos Ladeira da Memória, chamamos de teatro

vai ganhando uma grande barriga e no final ha-

infanto-juvenil, mas é muito para jovens e talvez

verá um parto. – (Neste momento, cai a ligação e

até para adultos. Falamos da história da coloniza-

Ilo Krugli atende ao telefone rindo). Estou rindo

ção dentro de um sonho que tem um engraxate

porque no Lenços e Ventos tem um momento

que sonha um dia cavalgar, um cavalo com asas...

que o personagem é um guarda-chuva quebra-

mas tudo dentro de um espaço de interferências

do que fica dançando com um observatório do

históricas de colonização, escravatura. Coloca-

tempo, e os atores seguram a latinha com duas

mos para todas as idades, de 8 a 80. Mas, por lei,

pontas. O telefone de um lado e central telefô-

toda criança pode entrar no teatro acompanhada

nica no outro. E vai passando pelos personagens

de adultos, mesmo que tenha menos de 8. São 2

até que uma está em cima da cadeira com a lati-

horas e 15 minutos, e as crianças pequenas ficam

nha da ponta, e ela cai e se interrompe a ligação.

ligadas o tempo todo, dificilmente queram ir em-

E a telefonista diz: caiu a ligação. Ela se arruma

bora. Pelo tipo de linguagem também, tem esta

toda na cadeira e a ligação se restabelece. – Mas

coisa visual que vai falando em alguns momentos

voltando ao espetáculo O Mistério das Nove

brincadas pelo ator, esta linguagem do folguedo

Luas, parte é escrito anteriormente e parte é

popular, o imaginário e a ficção também estão

elaborado durante a peça. Eu fazia uma espécie

se mexendo no espetáculo. Não é um espetáculo

de clown, me chamava Não Sei. Pensava que ele

apenas formativo, com linguagem específica para

teria um cachorro que vai puxando – palhaços

o adulto. É linguagem do grupo que viajava não

antigos sempre carregavam um cachorro que

sei quantos séculos atrás, acontecia em praça pú-

era um boneco de pano e puxavam pra cima e

blica, na frente da igreja, pra todo mundo.

diziam fala fulano, fala. Quando fui experimen-

Nossos espetáculos vão sendo criados no

tar, vi que não podia ser um cachorro, tinha que

dia a dia. Ou fazemos adaptações de Shakespe-

neiro do sistema, não é. É isso mais ou menos.

Ladeira da Memória ou Labirinto da Cidade

Foto: Divulgação Teatro Ventoforte


CADERNO de caderno DE teatro TEATRO

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

33

1 Fragmento de um artigo de Ilo Krugli extraído da publicação do projeto nacional do Palco Giratório, que em 2013 homenageia o artista.

flores preciosas que renascem e as parcerias, eternas?[1] POR Nelson Baskerville

Em nossas itinerâncias giratórias abriram-se espetáculos acontecendo em calçadões, ruas interditadas, para aproximar a utopia até onde o fluxo do trânsito será ocupado pelas emoções tragicômicas, sensíveis e atemporais das invenções teatrais poéticas, seduzindo para que algum dia “ser ou não ser” (seremos) o herói imaginário do sonho e do desejo, podendo ser encarnado com jogos, brinquedos reinventados, sem medo, sem repressões que sinalizem moralidades e condicionamentos sociais. Que repetem: Vocês não são mais crianças! Estão brincando de novo? Sim, somos “brincantes” do teatro popular e do teatro essencial; que se renova no movimento da espontaneidade onde choramos ou rimos com qualquer idade. De todas essas experiências podemos recolher falas e considerações... dignas de deixarem de ser anônimas... Sempre

nos espetáculos, em que a criança tem em seu não pudor e vergonha de interagir com a realidade, uma licença eterna para indagar e perguntar ao outro. Nesse universo colhemos algumas pérolas que fazem parte de nosso trabalho, que nos levaram a dramaturgias, a títulos de peças e até mesmo ao nome de nosso grupo. Depoimentos apontam caminhos Uma criança vai se aproximando até a cena e pergunta: “Isso é de verdade?” Outra menina, de cinco anos, em um parque, se aproxima do ator que abandonou a cena e não quer continuar na história. Porque na trama ele estava ancorado, e se voltar ao palco voltará a ficar preso. E a menina pergunta ao ator desertor: “Pode‑se mudar uma história?” Ator: “Claro que pode. Não quero ficar preso!..

Menina: “Mas é de verdade?” Ator (tenta ser sincero. É a primeira vez que lhe fazem esta pergunta): “É, no começo, se não é muito verdadeiro, cada vez será mais de verdade...” Outra menina discute com os soldados que estão perseguindo os poetas em uma de nossas peças que, em determinado momento, todos podem se aliar aos que prendem (os soldados que perseguem artistas) ou aos poetas (os que são fuzilados). E com uma lógica ingênua e ao mesmo tempo corajosa, a criança de oito anos diz aos soldados: “Vocês não podem matar todos os poetas! Porque não podem matar os poetas que ainda não nasceram.” Outra criança (que emoção! Que exigência!): “Quando vocês riem ou choram, é de verdade?”

Uma mulher chorando: “Esta é a história da minha vida!” Nesse espetáculo colocamos quatro grandes painéis pintados com figuras diversas com o rosto e as mãos recortados, de modo que tanto atores como público podiam ficar atrás dos painéis assumindo esses personagens. E assumindo também seus desejos! Que atores e público ajudam primeiro a adivinhar e depois a realizá-los, durante a peça. Outra mulher (com uma sacola de supermercado, que estava na rua fazendo compras e se juntou ao público): “Eu nunca fui ao teatro... é a primeira vez. Eu gostei, parecem histórias antigas as que vocês contam... Eu acho que esta noite vou sonhar...”.


MÚSICA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

POR Ermelinda Paz

34

Professora e pesquisadora na área de música popular, folclórica e erudita brasileira (http://www.ermelinda-a-paz.mus.br)

Edino Krieger, um compositor brasileiro Edino iniciou os seus estudos de violino aos sete

elas fazem parte da recente publicação intitulada

O Projeto Memória Musical Brasileira (mais

anos com o seu pai, compositor e regente Aldo

Edino Krieger: crítico, produtor musical e compo-

conhecido como Promemus): editou par-

Krieger. Hans Joachim Koellreutter foi seu principal

sitor, disponibilizada pelo Sesc Nacional no ende-

tituras, publicou livros e coleções, abriu con-

professor. Estudou com ele harmonia, contraponto,

reço www.sesc.com.br/publicacoes/edinokrieger.

cursos monográficos e de interpretação de

fuga, análise, estética musical e composição. Teve

Suas críticas o colocam entre os grandes de seu

música brasileira, além de gravar um número

uma formação complementar com Aaron Copland

tempo, ao lado de Andrade Muricy, Ayres de An-

significativo de discos recuperados de arquivos

no Berkshire Music Center de Massachussets e, ain-

drade, Eurico Nogueira França, João Itiberê da

fonográficos oficiais e particulares (Paz, Vol. II,

da, na Juilliard School of Music e na Henry Street

Cunha, Ondina Ribeiro Dantas, Renzo Massarani,

Anexo IX, p. 247 - 263) e os Festivais de Música

Selttement, nos Estados Unidos. Em Londres, reali-

para citar apenas alguns.

da Guanabara (Paz, Vol. I, p. 226 – 233).

zou um estágio com Lennox Berkeley. Sua carreira é

Dentre suas grandes realizações como pro-

A realização do I e o II Festivais de Música

coroada de prêmios, distinções e homenagens (Paz,

dutor musical destacamos:

da Guanabara (1969 e 1970) se transfor-

Vol. II, Cap. V, p. 173 – 176).

Os Concursos Corais do Jornal do Brasil:

maram no grande palco para os novos valores

Realizou um trabalho sistemático como

contribuíram sobremaneira para o cresci-

que surgiam. O evento foi criado pela Secreta-

crítico musical nos jornais Tribuna da Imprensa

mento do número de corais, bem como o

ria de Educação e Cultura da Guanabara, cujo

e Jornal do Brasil produzindo aproximadamente

aumento da produção do coral em nível na-

titular era o professor Gama Filho, e suas duas

700 críticas de grande valor documental, todas

cional (Paz, Vol. I, p. 224).

realizações foram promovidas pelo Museu da Imagem e do Som (MIS) e pelo seu diretor, Ricardo Cravo Albin, sob a coordenação geral do compositor Edino Krieger. O crítico Antonio Hernandez, em O Globo, de 5 de maio de 1970 (p. 6), sob o título “Um milagre de ativação do meio musical do Rio”, afirma que: A principal garantia da seriedade da realização repousa no nome do maestro Edino Krieger, responsável pela iniciativa e a quem a Secretaria de Educação confiou a coordenação geral do certame que será prestigiado pelas presenças de autoridades respeitadas no mundo inteiro. O incentivo à criação musical sempre mereceu especial atenção por parte de Edino Krieger.


MÚSICA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

35

Segundo ele, a criação musical de qualquer país

como compositor das VII, X, XI, XIV, XV, XVI e XVII

em 8 de novembro de 1985, às 21h. Kenneth Au-

se apoia em três fatores básicos:

edições. Em depoimento datado de 29 de agosto

bouchon, Sebastião Gonçalves e Paulo Roberto

de 2012, ele assim se pronunciou sobre esse fato:

Mendonça, trompetes; Barbara Nokes, Joel de

1º O talento criador dos seus compo-

Souza Coutinho, Roberto Crispin e Ismael de Oli-

sitores; 2º O interesse do mercado de

Sempre entendi as BMBC como um es-

veira, trompas. VIII BMBC Três imagens de Nova

consumo interno e externo, represen-

paço para os outros apresentarem as

Friburgo. Regente: Norton Morozowicz, Orquestra

tado pelo público e pelas organizações

suas obras e, não, necessariamente para

de Câmara de Blumenau. Sala Cecília Meireles, 30

musicais; e 3º A organização do sistema

mim. Às vezes, estava na comissão de

de novembro de 1989, às 21h. Foram compostas

de apoio da produção, como elo inter-

organização e de seleção e preferia não

por encomenda das secretarias de Cultura de

mediário entre a criação e o consumo.

participar; em outras ocasiões, os intér-

Nova Friburgo e do Município do Rio de Janeiro.

pretes me procuravam querendo tocar

IX BMBC Imagens – visão coreográfica das Três

A Bienal de Música Brasileira Contemporâ-

alguma obra minha; em determinado

imagens de Nova Friburgo. Atores bailarinos: Ta-

nea (BMBC), o mais antigo, importante e regular

momento considerava que não tinha

bla Rasa. Coreografia: Henrique Schüller e Regina

evento no gênero (I BMBC - 8 a 12 de outubro de

obra que julgasse relevante; e aconte-

Miranda. Organização: Coordenadoria de Dança /

1975; II BMBC - 15 a 23 de outubro de 1977; III

ceu, inclusive, de esquecer o prazo de

Museu de Arte Moderna (terraço superior), 27 de

BMBC - 12 a 19 de outubro de 1979; IV BMBC -

inscrição por estar trabalhando muito!

outubro de 1991, às 17h30. XII BMBC Concerto

23 a 30 de outubro de 1981; V BMBC - 4 a 12 de

para dois violões e orquestra de cordas. Violões,

novembro de 1983; VI BMBC - 8 a 17 de novem-

Aduzimos, a seguir, as participações de Edino

Sérgio e Odair Assad. Regente: José Pedro Boés-

bro de 1985; VII BMBC - 5 a 14 de novembro de

como compositor, a saber: I BMBC Estro armonico.

sio. Orquestra de Cordas da Unisinos. Sala Cecí-

1987; VIII BMBC - 22 a 30 de novembro de 1989;

Intérpretes: Orquestra Sinfônica da Rádio MEC.

lia Meireles, 2 de novembro de 1997, às 21h. XIII

IX BMBC - 18 a 27 de outubro de 1991; X BMBC

Regente: Alceo Bocchino. Sala Cecília Meireles,

BMBC Fanfarra e sequências. Orquestra Sinfônica

- 15 a 23 de outubro de 1993; XI BMBC - 23 a 30

em 12 de outubro de 1975, às 21h. Escrita sob

do Paraná. Regente: Roberto Duarte. Theatro Mu-

de novembro de 1995; XII BMBC - 25 de outubro

encomenda do VIII Festival de Música do Paraná,

nicipal do Rio de Janeiro, 20 de outubro de 1999,

a 4 de novembro de 1997; XIII BMBC - 20 a 29 de

onde teve a sua primeira audição. Para o musi-

às 21h. XVIII BMBC Pequeno concerto para violino

outubro de 1999; XIV BMBC - 22 a 31 de outubro

cólogo Vasco Mariz, é a obra mais bem realizada

e cordas. Violino, Daniel Guedes e naipe de cordas

de 2001; XV BMBC - 9 a 16 de novembro de 2003;

do compositor. II BMBC Variações elementares.

da Orquestra Sinfônica da Escola de Música da

XVI BMBC - 4 a 13 de novembro de 2005; XVII

Intérpretes: Paulo Moura, sax alto; Nelson Melin,

UFRJ. Regente: André Cardoso. Sala Cecília Mei-

BMBC - 21 a 30 de outubro de 2007; XVIII BMBC

celesta. Com participação especial da Camerata

- 23 de outubro a 1 de novembro de 2009; e XIX

da Universidade Gama Filho. Regente: Isaac Kara-

BMBC - 10 a 19 de outubro de 2011), indo para

btchevsky. Sala Cecília Meireles, em 17 de outubro

a XX edição em 2013, cujo projeto, de autoria

de 1977, às 21h. Primeira audição Washington,

de Edino Krieger, foi descoberto pela professora

EUA. West Auditorium, 8 de maio de 1965. III

Myrian Dauelsberg, que se desincumbia em 1975,

BMBC Canticum naturale. I – Diálogo dos pássa-

da direção da Sala Cecília Meireles, e que, com

ros. II – Monólogo das águas. Intérpretes: Solista

sua sensibilidade e competência, tratou de en-

Maria Lúcia Godoy, soprano. Orquestra Sinfôni-

campá-lo para benefício da música e do músico

ca Nacional. Regente: Eleazar de Carvalho. Sala

brasileiro. As bienais acolheram compositores de

Cecília Meireles, em 12 de outubro de 1979, às

todas as tendências e gerações, abrindo espaço

21h. Obra composta por encomenda da Orquestra

para talentos jovens e desconhecidos e assegu-

Filarmônica de São Paulo para o Sesquicentenário

rando ainda espaço para os compositores já re-

da Independência. IV BMBC Sonâncias II. Violino,

conhecidos nacional e internacionalmente. Edino

Jerzy Milewski, e piano, Aleida Schweitzer. Sala

trabalhou em diferentes frentes – como membro

Cecília Meireles, 23 de outubro de 1981, às 21h. V

da comissão organizadora, de seleção e como co-

BMBC Três miniaturas. Piano Maria Teresa Madei-

ordenador – revelando-se como um dos pilares

ra. Sala Cecília Meireles, 7 de novembro de 1983,

de sustentação dessa comissão. Não participou

às 21h. VI BMBC Fanfarra. Sala Cecília Meireles,

Edino Krieger e Ermelinda Paz no lançamento da publicação Edino Krieger: crítico, produtor musical e compositor Foto: Cesar Duarte


MÚSICA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

36

Estamos convencidos da importância que as BMBC representam para a música e o músico brasileiro ao longo de seus ininterruptos 36 anos, como um espaço político, cultural e democrático, capaz de assegurar um lugar de destaque para a criação musical contemporânea brasileira, independentemente de escolas, estilos ou linguagens, reafirmando-se como um palco ímpar para abertura de portas aos novos talentos da criação musical brasileira contemporânea, reafirmando, ainda, o potencial criador de nossos artistas. Deixemos que o crivo do tempo ajuíze o caráter de permanência das obras. Do compositor Edino Krieger podemos dizer que suas obras figuram nos programas de concerto de orquestras, conjuntos camerísticos, corais e reles, 30 de outubro de 2009, às 20h. XIX BMBC

Em 1997, as dificuldades na montagem da

intérpretes solistas, tanto no Brasil quanto no ex-

Trio tocata para violino, violoncelo e piano. Rio de

BMBC cresceram proporcionalmente, propulsio-

terior, sendo longa a lista de intérpretes nacionais e

Janeiro, 4 de julho de 2011. Violino, Ricardo Amado;

nadas pela burocracia que se coloca sempre na

internacionais. (Consultar op. cit. Vol. II, Anexo VIII,

violoncelo, Ricardo Santoro; piano, Flávio Augusto.

contramão da arte. Ainda, Ripper, acrescenta que:

p. 238 – 246). Segundo Paz (2012, Vol. II, p. 17), sua

Encomenda da Funarte para a XIX BMBC.

“Com a tenacidade e experiência que concreti-

obra aparece referenciada em diversos textos mu-

Como gestor das BMBC, sua atividade tam-

zaram tantos outros projetos, Edino Krieger fez

sicológicos, verbetes de enciclopédias e dicionários

bém ocorreu de modo ímpar. Alguns depoimen-

dessa edição da bienal uma grande celebração da

de música, sendo ainda alguns títulos de sua pro-

tos por nós colhidos evidenciam a grandeza dessa

música brasileira”. O depoente revela que o evento

dução alvo de elogiosas críticas nos mais diversos

doação em prol da música brasileira. Dentre eles,

contou com a presença da maioria dos composi-

periódicos do país. Sua obra, apontada como não

ressaltamos:

tores, transmissão ao vivo pela Rádio MEC e ex-

muito extensa em razão da excepcional dedicação

celente presença de público.

à causa pública, não impede o julgamento do perfil

João Guilherme Ripper revela que o con-

O compositor Rodrigo Cicchelli Velloso, tam-

do compositor, apontados por muitos como pos-

tato mais frequente com Edino levou-o

bém nos fala um pouco desse Edino criador e coor-

suidor de grande equilíbrio formal, além de fino

a apreciar ainda mais o compositor e a

denador de várias bienais:

acabamento que lhe é peculiar.

figura humana, dono de uma personali-

Várias de suas obras foram alvo de efusivas

dade afável, mas fortemente direcionada

Qualquer depoimento sobre Edino se-

críticas como: Brasiliana para viola e cordas, Di-

aos seus objetivos.

ria incompleto se não mencionasse a

vertimento para cordas, Estro armonico, Ludus

Edino transpôs obstáculos que ame-

profunda contribuição que ofereceu ao

symphonicus, Ritmata, Sonatina para piano, Suíte

açavam a realização das bienais. Em

idealizar e coordenar as Bienais de Mú-

para cordas, Variações elementares e Canticum

ambas as ocasiões, a burocracia fez

sica Brasileira Contemporânea e tantos

naturale. Seu catálogo de obras abarca composi-

com que recursos fossem liberados no

outros eventos e iniciativas ao longo de

ções escritas para cravo, flauta, percussão, piano,

último minuto; ainda, greves inopor-

sua carreira na Funarte. De fato, não

trombone, viola de arame, violão, violino, violonce-

tunas fizeram com que a coordenação

fosse seu esforço, a música brasileira

lo, banda, música de câmara, orquestra de câmara,

do evento ficasse reduzida a poucos

estaria muito empobrecida. Devemos a

orquestra sinfônica, coro e orquestra, coro misto,

voluntários e alguns concertos fossem

ele a manutenção exemplar e tenaz de

coro infantil, canto e piano, música incidental para

mesmo cancelados. Entretanto, em

um dos poucos eventos em que a pro-

teatro, cinema e bailados, sendo algumas delas pre-

momento algum não realizar a bienal

dução de diversos compositores brasi-

miadas. Vasco Mariz citado por Paz (2012, Vol. II, p.

foi uma opção. (Comunicação pessoal,

leiros pode ser ouvida. (Comunicação

18) revela que: “Ludus symphonicus e as Variações

11 de janeiro de 1998)

pessoal, em 20 de agosto de 2000)

elementares seriam os trabalhos mais meritórios


MÚSICA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

37

dos últimos anos e obtiveram êxito inclusive no ex-

Paz (2012, p. 22), falando sobre as diferentes

terior. Edino Krieger é um dos poucos compositores

facetas da obra de Edino Krieger, revela que elas

brasileiros com reais possibilidades de se projetar

estão em consonância com o meio musical criador

no campo internacional”. José Maria Neves referen-

de sua época, assim como a forma de sua obra está

ciado por Paz (Idem) afirma que “dentre os compo-

alicerçada, relacionando as vivências resultantes de

sitores da segunda geração ‘Música Viva’ destaca-

sua rica história musical familiar e comunitária, so-

-se especialmente o nome de Edino Krieger”. Luiz

mando a elas seus estudos, em especial, com Koell-

Paulo Horta no Jornal do Brasil de 19 de novembro

reutter – responsável por sua sólida base teórica –,

de 1986 afirma que:

e ainda com Copland, Peter Mennin e Ernst Krenek,

Lançamento do livro em Brusque/SC Foto: Nubia Abe

que colaboraram para o enriquecimento de sua forSua evolução artística, entretanto, nun-

mação ao trabalharem com ele as mais avançadas

ca ficou presa a injunções de época ou

técnicas de composição.

de estilo. Produziu obras de denso ar-

Ainda é Paz (2012, p. 23 - 24) quem nos fala:

tesanato, como o Ludus symphonicus (1965) e o Estro armonico (1975); e a

Sua obra apresenta-se dividida em três

verdadeira ‘Sagração da Primavera’ bra-

períodos. O primeiro período – de 1945

sileira que é o Canticum naturale (1972).

a 1952 – foi predominantemente expe-

O produto de suas críticas enseja novos estudos e

A obra de Edino não é volumosa; mas é

rimentalista e universalista, devido ao

formas de repensar a música e tudo o que ela en-

um modelo de realização.

contato com as técnicas novas da música

volve (Paz, Vol. I, p. 75- 215). O produtor musical

serial. [...] No segundo período – de 1953

nos deixou um grande legado em forma de livros,

Do ponto de vista acadêmico, o compositor

a 1965 – prevalecem as formas tradicio-

partituras, gravações e eventos (Paz, Vol. II, p. 247-

também foi por diversas vezes cotejado, ensejan-

nais da sonata e da suíte – todavia sem

263). Quanto ao compositor, deixo que falem os

do a realização de importantes trabalhos em nível

rigor, com total liberdade tanto harmô-

inúmeros programas de concursos, festivais, con-

nacional e internacional. Dentre eles ressaltamos:

nica quanto formal –, dentro de uma

certos e recitais no Brasil e no exterior. Oxalá pos-

a obra 36 Compositores Brasileiros – obras para

linguagem em que conviviam os idiomas

samos ter outros Edinos nos caminhos da música e

piano da professora Saloméa Gandelman, que

tonais e modais. [...] Dessa terceira fase

da educação musical brasileira.

reservou um capítulo para a obra pianística do

em diante – de 1965 aos nossos dias –

compositor e, ainda, três dissertações de mestra-

o compositor não mais se preocupa em

do orientadas pela citada professora no Programa

privilegiar determinadas técnicas, formas

de Pós-Graduação em Música da UNIRIO, a saber:

ou processos de composição. Vanguarda

A questão da afinação no coro infantil discuti-

e tradição caminham harmoniosamente.

da a partir do Guia Prático de Villa-Lobos e 20

Percebe-se uma busca intencional do

Rondas Infantis de Edino Krieger, da professora

nacional, porém dentro de um contexto

Maria José Chevitarese; a Sonata para piano nº 1

mais universalista.

de Edino Krieger: aspectos estruturais e interpre-

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HERNANDEZ, Antonio. Um milagre de ativação do meio musical do Rio. O Globo, 5 de maio de 1970, p. 6.

tativos, do professor José Wellington dos Santos,

Para Paz (2012, Vol. II, p. 35), “a obra de Edino

e Obras dodecafônicas para piano de composito-

Krieger é excelente representante das práticas mu-

HORTA, Luiz Paulo. Edino Krieger: 50 anos de Música. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1986, Cidade, p. 6.

res do Grupo Música Viva: H. J. Koellreutter, Cláu-

sicais da segunda metade do século XX e primeira

dio Santoro, Guerra-Peixe e Edino Krieger – uma

do século XXI, tanto no Brasil quanto no exterior”.

KRIEGER, Edino. Comunicação pessoal em 29 de agosto de 2012.

abordagem interpretativa do professor Roberval

Segundo a autora, o compositor tem assegurado,

Linhares Rosa. Destacamos, ainda, a tese de dou-

de forma inequívoca, um lugar de destaque no pa-

torado do pianista Alexandre Dossin na Univer-

norama musical de nossos dias.

sity of Texas, em Austin, sobre a obra pianística

Esse breve ensaio teve como objetivo mos-

de Edino Krieger sob a orientação do musicólogo

trar a grande contribuição de Edino Krieger para a

professor Gerard Behágue.

música e sua importância como músico brasileiro.

PAZ, Ermelinda A. Edino Krieger: crítico, produtor musical e compositor. Rio de Janeiro: SESC, Departamento Nacional, 2012. Volume I PAZ, Ermelinda A. Edino Krieger: crítico, produtor musical e compositor. Rio de Janeiro: SESC, Departamento Nacional, 2012. Volume II RIPPER, João Guilherme. Comunicação pessoal, 11 de janeiro de 1998. VELLOSO, Rodrigo Chicchelli. Comunicação pessoal em 20 de agosto de 2000.


CINEMA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

POR Luís Rubira

38

Doutor em Filosofia pela USP, professor do Departamento de Filosofia da UFPel e autor dos ciclos de Filosofia e Cinema, no Centro de Integração do Mercosul

POR QUE REALIZAR CICLOS DE FILOSOFIA E CINEMA?

Reflexão filosófica e arte

rerum: ensaios sobre o cinema moderno). Surgi-

ambiente acadêmico e, pelo contrário, fosse capaz

ram, também, obras didáticas sobre o tema e, den-

de romper com os muros da academia, voltando-

tre elas, a de Julio Cabrera, argentino radicado no

-se para a comunidade em geral.

Brasil, 100 años de Filosofía. Una introducción a la

Já em sua quarta edição, os Ciclos de Filosofia

filosofía a través del análisis de películas (O Cine-

e Cinema tornaram-se um fenômeno de público,

ma pensa. Uma introdução à filosofia através dos

consolidando-se como um dos projetos mais bem-

No período em que Jean-Paul Sartre atuou como

filmes), bem como o livro de Ollivier Pourriol Ci-

-sucedidos da UFPel – esta universidade localizada

professor no Lycée du Havre, a partir de 1931, ele

néphilo. Les plus belles questions de la philosophie

no extremo sul do país que, nos últimos anos, por

discutia cinema em muitas de suas aulas de filo-

sur grand écran (Cinefilô: as mais belas questões

meio de uma expansão sem precedentes em sua

sofia. Afora o apreço dos alunos pela jovem arte

da filosofia no cinema).

história (ela conta hoje com 101 cursos de gra-

cinematográfica (a “sétima arte”, termo inventado

Por essas e outras razões é que, atualmente,

duação, 39 de mestrado e 14 de doutorado), vem

na França pelo escritor Riccioto Canudo, em 1919),

a análise de determinadas obras cinematográficas

permitindo que Pelotas sofra uma verdadeira revo-

Sartre sofreu duras críticas e a incompreensão por

torna-se cada vez mais corrente em aulas de fi-

lução cultural por meio de seus mais de 25 mil alu-

parte da direção do Liceu, dos pais dos alunos e

losofia. Proliferam também mostras e, mais timi-

nos e professores das mais diversas partes do país.

mesmo de outros professores de filosofia. No en-

damente, ciclos de cinema, sobretudo dentro dos

tanto, é na própria França, onde os irmãos Lumière

departamentos de filosofia. Nesse cenário, todavia,

inventaram o cinematógrafo (em 1895), que, qua-

faltava uma abordagem da vasta filmografia exis-

se 100 anos depois, o cinema vem a ser objeto de

tente a partir dos temas de grande envergadura da

densa reflexão filosófica por parte de Gilles Deleu-

reflexão filosófica: a política, a religião, a psicolo-

ze, através da obra L’image-mouvement (Cinema:

gia, a arte, a ciência, dentre outros. E foi visando

a imagem-movimento).

suprir esta lacuna que surgiu em 2010 o projeto de

A partir de então se propagaram livros abor-

ciclos anuais de cinema promovidos pelo Departa-

dando o cinema a partir da filosofia, tal como o

mento de Filosofia da Universidade Federal de Pe-

ensaio de Slavoj Žižek Lacrimæ rerum: Essais sur

lotas, realizados no Centro de Integração do Mer-

Kieslowski, Hitchcock, Tarkovski et Lynch (Lacrimae

cosul. Projeto este, aliás, que não se restringisse ao


CINEMA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

39

Terra em Transe; Che 2 – A Guerrilha; A Batalha de Argel; Che; Z; Memória do Saqueio; Hotel Ruanda Fotos: Divulgação

A Filosofia e o Cinema Político:

do muro de Berlim com o bloco “Do fim da Guerra

Os grandes conflitos da humanidade em 28 obras cinematográficas (I Ciclo de Cinema, 2010)

cinema político. Além disso, a guerrilha, em Argel,

Fria aos nossos dias”. O filme de abertura não poderia ser outro senão A Batalha de Argel. Isto porque Gilo Pontecorvo é o grande estopim, o cineasta-mestre do chamado terá um papel decisivo sobre aquilo que Ernesto Guevara de La Serna, o “Che”, pouco depois chamará de “A guerra de guerrilhas”. Como o ciclo deveria iniciar em junho e terminar em dezembro, apresen-

As interpretações do pensamento de Karl Marx

tando um filme a cada sexta-feira, de modo ininter-

dividiram o século XX em dois grandes blocos

rupto, tínhamos então 28 sessões – critério para a

políticos. Acontecimento sem par na história da

escolha de 28 obras cinematográficas.

humanidade, cujas consequências se fazem sentir

Iniciar por A Batalha de Argel, entretanto,

no alvorecer do século XXI, o tema central do ciclo

significava pensar a França colonialista e a liber-

“A Filosofia e o Cinema Político” não poderia ser

tação que a Argélia imporá ao jugo imperialista.

outro senão a Guerra Fria (1945-1989). Mas como

Voltar para a Revolução Francesa e apresentar

entender o conflito que dividiu o século XX sem

Danton e o Processo da Revolução supunha

compreender a Revolução Francesa, o liberalismo,

pensar a própria França como aquela que, um

a Revolução Russa de 1917, a primeira e a segun-

dia, buscou libertar-se da monarquia e da reli-

da guerras mundiais? Então se impôs um corte no

gião (Voltaire mesmo havia escrito: “O homem

programa: primeiro abordar o tema “O mundo du-

só será livre quando o último rei for enforcado

rante a Guerra Fria”, depois retornar no tempo e

com as tripas do último padre”). Então, como a

mostrar “Da Revolução Francesa ao fim da década

França estava em questão, caberia terminar o

de 1940” e, por fim, pensar a atualidade pós-queda

ciclo com um filme que tivesse a França como


CINEMA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

40

Batismo de Sangue; Netto Perde sua Alma; Os Amantes Constantes; Estado de Sítio; O Ovo da Serpente; Kedma; Bom Dia, Noite; A Chinesa Fotos: Divulgação

foco. Imediatamente, então, veio à lembrança

guerrilha, revolução, guerra, totalitarismo, fun-

uma obra de Mathieu Kasowitz. Um filme que

damentalismo, terrorismo, genocídio, intolerân-

aborda o conflito nos subúrbios de Paris, nos

cia. A intolerância, aliás, parece estar na base de

quais a antiga França libertária e colonialista

todos os conflitos políticos. Não se pode deixar

acabou por aprisionar, dentro de seus próprios

de dizer, então, que é um privilégio pensar tantos

muros, àqueles que um dia estiveram sob sua

temas em tão pouco tempo. E, sobretudo, abordar

colonização (como o mundo árabe, africano),

um determinado tema, em sua multiplicidade, em

ou seja, aqueles que hoje estão no interior dos

apenas duas horas. Que capacidade de síntese

subúrbios, “Banlieue”, onde vivem, também, os

possui, por exemplo, um cineasta como Andrzej

próprios franceses. O ciclo, portanto, deveria ter

Wajda, para montar uma obra-prima como Dan-

a França como pano de fundo. Neste sentido,

ton, colocando-nos por dentro de acontecimen-

nada melhor para compor o cartaz — a chama-

tos determinantes da Revolução Francesa (e de

da para o Ciclo do Cinema político —, do que a

seu rumo catastrófico para o regime do terror),

pintura de Delacroix: La liberté guidant le peu-

em pouco mais de duas horas, tendo Robespier-

ple (A liberdade guiando o povo), cujo quadro,

re como o fio condutor. Temos, então, através do

em grandes dimensões, encontra-se no museu

cinema, a possibilidade de pensar o processo re-

do Louvre. Compreender “O mundo durante a

volucionário, a democracia, a ditadura, o regime

Guerra Fria” e também a busca do homem pela

do terror, o totalitarismo, o fim da monarquia, a

liberdade. Eis os móveis do Ciclo “A Filosofia e o

descentralização entre religião e estado. Prova-

Cinema Político”.

velmente, nenhum professor de filosofia conse-

A partir disso, os subtemas começaram a

guiria fazer melhor em duas horas, até porque

ser delineados: ideologia, imperialismo, ditadura,

lhe falta justamente o recurso de colocar todos diante das mesmas imagens, dos mesmos argumentos, da temporalidade que é própria do cinema e que captura o espectador pela audição e pela visão (que os antigos gregos definiam como o órgão central para o processo de conhecimento no corpo humano). Alinhar os filmes, em seguida, em ordem cronológica, de modo a poder ver o que aconteceu no mundo durante a Guerra Fria. Tendo na memória a lembrança de Herbert Marcuse e seu


CINEMA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

41

“Prefácio Político” para o livro Eros e Civilização,

Costa Gavras), algo que levou ao próprio golpe

que ainda está longe de alcançar a mesma qua-

era preciso perceber como o mundo inteiro esta-

de Estado no Chile (Chove sobre Santiago). Mas

lidade de um Danton e o Processo da Revolução)

va sendo incendiado por conflitos, pela “guerra

também levantar voo e ir compreender reali-

busca, mesmo assim, abordar o espinhoso tema

de guerrilhas”, cujos efeitos explodiriam, como

dades distantes como o Camboja (Os Gritos do

da Revolução Farroupilha. Do mesmo modo, era

ele mesmo previu em 1966, sobre a própria

Silêncio), o Líbano (Valsa com Bashir), O Afega-

preciso tomar contato com os conflitos que fo-

França — onde aconteceria a revolta dos jo-

nistão (A Caminho de Kandahar), a África do Sul

mentarão a formação do comunismo na Rússia

vens contra pais, professores e outros censores

(Hotel Ruanda); e ainda deter-se, novamente, na

(Os Possessos); dos 10 anos de instauração do

do “establishment”. Então iniciar pelos aconte-

América Latina para compreender a ditadura mi-

comunismo na União das Repúblicas Socialistas

cimentos ocorridos na Argélia (1954 e 1956);

litar na Argentina (A História Oficial), bem como

Soviéticas (e aí preferimos colocar no programa

depois ir para Cuba (1956 a 1959, com o filme

tudo o que a Argentina (e a América do Sul)

a obra Outubro, de Eiseinstein, em vez do clássico

Che); pensar os efeitos destes acontecimentos,

colheu após as ditaduras militares (Memória do

O Encouraçado Potemkin), bem como alguns dos

sobretudo no âmbito latino-americano, para o

Saqueio, de Pino Solanas).

elementos que estariam na base da formação da

assassinato de Kennedy, nos Estados Unidos (JFK

Mas não poderia faltar, em meio a sobrevoos

primeira e da segunda guerra mundiais (A Fita

– A pergunta que não quer calar); ver também

por países tão distantes, um olhar sobre nosso

Branca e O Ovo da Serpente). Por fim, era ne-

como todos estes eventos vão estourar na pró-

próprio processo revolucionário regional. Então,

cessário ver como os Estados Unidos colheriam,

pria Europa, com a morte de um político liberal

no bloco histórico, que tratava “Da Revolução

inevitavelmente, o resultado de todos os seus

na Grécia, em 1965 (Z, de Costa Gavras); retor-

Francesa ao fim da década de 1940”, e que incluía

anos de imperialismo com o atentado de 11 de

nar para América Latina, mas desta vez para

filmes que iam da União Soviética à formação do

setembro (Fahrenheit – 11 de setembro) e como

pensar a catástrofe na Bolívia, em 1967 (Che

Estado de Israel, foi imprescindível colocar um fil-

a própria França, outrora o gigante imperialista,

2 – A Guerrilha); analisar como estes e outros

me rio-grandense como Neto Perde sua Alma, o

continua a fazer também a dolorosa colheita dos

movimentos políticos conduziram os jovens ale-

qual de modo corajoso (em vistas da precariedade

processos políticos de especulação econômica e

mães a formarem o Grupo Baader-Meinhof na

orçamentária e mesmo de uma pesquisa histórica

de intolerância racial (O Ódio).

Alemanha, em 1967; e, antes de adentrar Maio de 68, ver como a Terra estava em transe nestes anos todos (pensar o próprio Brasil pelas mãos de Glauber Rocha na sua obra-prima de 1967, que influenciará cineastas do mundo inteiro). E assim por diante: acompanhar as barricadas francesas (Os Amantes Constantes) em 68; penetrar no regime militar brasileiro (Batismo de Sangue); entender como a CIA armou as ditaduras na América do Sul (Estado de Sítio, de


CINEMA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

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A Filosofia e o Cinema Religioso:

O percurso espiritual do homem em 40 obras cinematográficas (II Ciclo de Cinema, 2011) No final do século XIX, Nietzsche diagnosticou a “morte de Deus”. O laudo estava assinado não por um inimigo de Deus, mas, ao contrário, por um filósofo preocupado com o niilismo e os rumos da civilização ocidental. Como bem observou Martin Heidegger, Nietzsche não era um ateu comum. O ateísmo, aliás, mostrara todo o seu desenvolvimento e força entre os séculos XVI e XIX, tendo o seu germe no período da revolução industrial, na Inglaterra, alastrando-se depois com a Revolução Francesa e, por fim, encontrando desenvolvimento na reflexão filosófica dos pensadores alemães, dentre eles Schopenhauer e Feuerbach. É, porém, lhares de pessoas dedica(ra)m suas vidas? Qual

nomeada: “A convicção religiosa”, sendo que nela

permite ao físico, matemático e astrônomo francês

é a diferença entre o Deus cristão e o Deus dos

reluzem temas como “crença, dogma, heresia, fa-

Pierre Simon Laplace responder, quando interroga-

judeus ou dos muçulmanos? Ou seria um único

natismo”, e a última denominada “O percurso in-

do por Napoleão sobre qual o papel de Deus no seu

Deus e diferentes interpretações e poderes ecle-

terior”, momento em que aprofundamos temas

Sistema do Mundo (1796): “Senhor, eu não tenho

siásticos? E de outra parte: como os indivíduos

caros ao desenvolvimento espiritual tais como

necessidade desta hipótese”. O mesmo estágio que

experimentaram o contato com o divino? Temos

“a impermanência, o sofrimento, a aceitação e a

leva Marx, no século seguinte, a sentenciar que “a

um destino ou tudo é fruto do acaso? A religião

transcendência”.

religião é o ópio do povo”.

somente um estágio avançado de ateísmo que

é um fenômeno humano? Como compreender a

Os dois primeiros blocos de filmes buscam

Após séculos de ateísmo, Nietzsche estaria

mística de homens como São João da Cruz e os

compreender, fundamentalmente, a tradição cris-

certo em seu diagnóstico e preocupação? Tra-

diferentes caminhos espirituais? Pode a fé ser

tã. Não somente porque esta é a tradição que está

tar-se-ia do Deus transcendente judaico-cristão

compreendida sob a ótica da razão? As pergun-

na base do processo ocidental, mas também pelo

ou do Deus imanente de Espinosa? Ou de am-

tas multiplicam-se.

fato de que inúmeros cineastas trataram dela,

bos? A constatação também atinge as formas

Para nos ajudar a compreender algo desses e

sendo o número de obras cinematográficas, por-

de religiosidade do Oriente e do continente pré-

de outros temas (no Ciclo “A Filosofia e o Cinema

tanto, mais expressivo. O último bloco de filmes

-colombiano? Como pensar o monoteísmo em

Religioso”), convocamos consagrados diretores

dedicou-se a apresentar filmes que tratam de

relação, por exemplo, a Buda e suas manifesta-

da história do cinema, como Bergman, Scorsese,

outras tradições religiosas, tais como o budismo,

ções seculares ou mesmo à tradição védica de

Buñuel, Dreyer, Tarkovski, Rossellini, Bresson, den-

o hinduísmo, o judaísmo, as tradições religiosas

Brahma, Shiva, Vishnu? Estaria Max Weber com

tre outros. Em seguida, considerando as diferen-

no Brasil, e ainda realizar abordagens específicas,

razão ao dizer, em sua obra A Ética Protestante e

tes abordagens que cada cineasta fez da religião

por exemplo, a questão da relação entre religião

o Espírito do Capitalismo, que, quanto mais a so-

ou da religiosidade, separamos os filmes em três

e sexualidade. Neste sentido, foi selecionado um

ciedade foi envolvendo-se no mundo do traba-

linhas principais: a primeira intitulada “O conflito

filme para pensar a sexualidade no judaísmo (Ka-

lho e dos bens de consumo, mais ela se afastou

espiritual”, na qual abordamos temas como “pre-

dosh), outro na tradição cristã (O Anticristo) e

de Deus? E mais: que Deus é esse ao qual mi-

destinação, renúncia, expiação, ascese”, a segunda

também na tradição budista (Samsara).


CINEMA

PRIMEIRO SEMESTRE

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Pasolini vem acentuar o aspecto revolucionário de

A Última Tentação de Cristo; Persépolis; Coração Satânico; O Sétimo Selo; De Olhos Bem Fechados; Baraka

Jesus, fazendo referências à filosofia marxista. Mesmo sendo um ateu, o cineasta não somente realiza

Fotos: Divulgação

um filme sobre Cristo, mas o dedica ao papa João XXIII, tendo a obra, aliás, sido escolhida pelo Vaticano como um dos melhores filmes religiosos de todos os tempos. É importante, então, notar que, no caso do filme de Scorsese, o cineasta parte de uma obra literária para discutir o lado humano de Cristo, as dificuldades que ele teria atravessado como homem Embora todos os filmes tratem de religião,

a fim de realizar seu destino; já Pasolini opta por ser

nem todos abordam o tema do mesmo modo. To-

fiel ao Evangelho, colocando o foco não nas dúvidas

memos, como exemplo, duas obras constantes na

existenciais de Cristo, mas no caráter revolucionário

programação. No caso de A Última Tentação de Cris-

de sua mensagem.

to, Martin Scorsese não parte dos evangelhos. Sua

Esta diferença de abordagem de um mesmo

visão de Cristo está baseada num livro homônimo

tema acentua um dos aprendizados em filosofia:

de Nikos Kazantzakis. O escritor grego, ao realizar

o de saber que um mesmo texto ou um mesmo

seu polêmico livro, não o fez sem fundamento. Ele

acontecimento podem ter diferentes interpreta-

partiu de uma tese religiosa sobre a dupla natureza

ções. Levando isto em consideração, optamos por

de Cristo (a humana e a divina, aceita no Concílio

trazer três versões do mesmo filme, todas baseadas

da Calcedônia em 451). Escritor e cineasta, então,

no mesmo documento, mas que tiveram aborda-

exploram o conflito espiritual que Jesus teria su-

gens completamente diferentes. Tal é o caso das

portado, desde jovem, para vencer a tentação de

distintas obras cinematográficas em torno do

ser um homem comum, de modo a realizar seu

processo que resultou na condenação da mártir

destino messiânico. De outra parte, bem diferente

francesa Joana d’Arc. Em 1928, o cineasta Carl Th.

é a abordagem que o cineasta italiano Píer Paolo

Dreyer realizou o filme O Martírio de Joana d’Arc.

Pasolini realiza com sua obra O Evangelho Segundo

A melhor tradução para o título em português

São Mateus, pois se trata de uma reconstrução fiel

desta obra seria A Paixão de Joana d’Arc, pois o

do Evangelho de São Mateus, da anunciação à pai-

foco do diretor era abordar o tema da paixão (um

xão de Cristo. Obra concluída em 1964, momento

conceito caro à religião, que nada tem a ver com

em que o mundo estava mergulhado na Guerra Fria,

o modo como é compreendido cotidianamente) que a jovem teria vivenciado, desde o instante em que começa seu julgamento em 14 de fevereiro de 1431, até ser queimada na fogueira em 31 de maio. Para realizar o filme, Dreyer baseou-se no documento original que registrou o processo contra a donzela de Domrémy. Em sua abordagem, então, ele concentra o foco para mostrar a força da fé e o estado de graça de uma mulher que foi radicalmente incompreendida por teólogos ortodoxos e que foi levada à fogueira pela sentença de juízes que não estavam isentos de interesses políticos. Trinta e quatro anos depois, ou seja, em 1962, outro cineasta, desta vez o francês Robert Bresson, faz uma reconstituição rigorosa do interrogatório


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PRIMEIRO SEMESTRE

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e das acusações contra Joana d’Arc. Para mostrar

sellini. Em Francisco, Arauto de Deus, obra datada

grande sensibilidade, na qual Rossellini apresenta

que ela foi injustamente condenada por teólogos da

de 1950, Rossellini penetra na simplicidade mística

a vida interior daquele que, para ele, foi o único

Universidade de Paris aliados à Inglaterra, Bresson

de Francisco de Assis (1182-1226). Ele tem como

homem que aderiu inteiramente à mensagem de

estudou os autos do processo de condenação anu-

tema, então, não toda a vida do santo, mas o recor-

amor deixada por Cristo. Já em sua obra Santo

lados pelo papa em 1456, bem como a canonização

te compreendido entre o momento que ele regres-

Agostinho, o diretor italiano também se concentra

de Joana d’Arc em 1920. O foco de Bresson, reali-

sa de Roma e aquele em que, tempos depois, irá

no último período da vida de Agostinho, o qual,

zando um filme menos espiritual e místico, e mais

separar-se de seus discípulos. Não se trata de um

convertido ao cristianismo e vivendo na África do

agudo na defesa de convicções religiosas e com teor

filme baseado em obra biográfica, mas, sim, cen-

Norte, é consagrado bispo de Hipona, no ano de

político, foi o de mostrar a resistência da fé contra

trada nos episódios de um livro anônimo do século

395. Todavia, no caso de Agostinho, Rossellini está

a pressão das instituições. Trinta anos mais tarde,

XIV. O resultado é uma obra cinematográfica de

preocupado em abordar não a vida de um homem

em 1992, outro cineasta francês volta ao tema. Luc

místico que peregrinava pelo mundo, mas, sim, a

Besson, desta vez, buscou reconstituir a trajetória

do sacerdote que realizou a síntese entre o pensa-

da Virgem de Órleans, de sua infância até à morte.

mento antigo e o cristão, um dos principais nomes

Reconstruindo com primor as cenas de batalha, ele

da história da Igreja na consolidação do cristianis-

mostra a jovem que, com 17 anos, levou as tropas

mo ocidental.

francesas à vitória contra os ingleses no momento

A programação do ciclo, portanto, pode ser

em que a França atravessava o período mais difícil

vista não apenas de modo cronológico, nos dois

de sua história. Luc Besson, então, ao contrário dos

primeiros blocos, mas também na transversalidade.

outros dois cineastas, busca, também, concentrar-se

Ao final de cada bloco, ademais, buscamos aportar

no fervor religioso, nas dúvidas interiores e na salva-

determinados documentários. O primeiro, bastan-

ção pela fé da mártir francesa. Três obras, portanto,

te raro, é O Grande Silêncio; o segundo, também

bastante distintas: algo que educa o olhar do espec-

difícil de obter no Brasil, saldo em VHS, é Fé, de

tador a perceber diferentes abordagens a partir dos

Ricardo Dias; e, por último, um filme-documentá-

mesmos documentos.

rio, Baraka (cuja capa mostra um índio brasileiro),

Do mesmo modo, buscamos trazer para o

que representa uma abordagem do fenômeno

espectador as diferenças da experiência religiosa

religioso, pensado a partir do próprio significado

entre os santos da Igreja Católica, tal como ao

da passagem do tempo, da história humana, da

apresentar duas obras que partiram de um mesmo

existência do homem no cosmos. O espectador

cineasta, a saber, do diretor italiano Roberto Ros-

encontrará, também, obras cinematográficas baseadas em clássicos da literatura (Fausto, Diário de um Padre, A Religiosa), da vida de pintores religiosos (Andrei Rublev), de filósofos (Giordano Bruno). A programação inclui, do mesmo modo, obras de diversos países, destacando-se, no Brasil, o clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol, obra que pode ser também estudada à luz do tema da religiosidade no sertão brasileiro. Quanto ao último bloco de filmes (“O percurso interior”), que não segue ordem cronológica, já indicamos algo sobre as obras que o compõem, mas deixamos ao espectador a sugestão de percorrer a senda e, nela, formular suas próprias conclusões. O processo de Joana D'arc; A Via Láctea; O Anti-Cristo; Laranja Mecânica Fotos: Divulgação


CINEMA

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2013

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A Filosofia e o Cinema Psicológico:

A insanidade e o psiquismo humano, em 40 obras cinematográficas (III Ciclo de Cinema)

psicanálise destacam-se, sobretudo, Gilles Deleu-

internet, nas quais existem centenas de filmes de

ze, em especial com sua obra O Anti-Édipo, bem

baixa qualidade classificados como “psicológicos”.

como, mais recentemente, Michel Onfray. Intensi-

Aliás, é evidente que nem toda a obra cinemato-

ficam-se, também, movimentos antipsiquiátricos,

gráfica é, tão somente, de ordem psicológica (cada

em que se destaca, por exemplo, o filósofo Michel

cineasta intensifica, ao seu modo, abordagens de

Foucault. E prosseguem as batalhas contra o do-

outras esferas da dimensão humana, tais como a

mínio da psiquiatria, sendo Elisabeth Roudinesco

política, a religião, a arte, a ciência etc.) Por fim,

um dos principais nomes que saem, contempora-

não se trata, também, de um ciclo que está preocu-

neamente, em defesa da psicanálise.

pado em mostrar como diferentes cineastas foram

Em 1965, o filósofo francês Paul Ricouer definiu

Longa e permanente é, portanto, a relação

tratando da psicologia, de modo cronológico, ao

Marx, Nietzsche e Freud como mestres da suspeita.

entre a filosofia e a psicologia. Mas são, sobretudo,

longo da história do cinema. Nosso foco é outro:

O que os três pensadores teriam em comum seria

as novas ferramentas conceituais aportadas pela

partir da sentença do filósofo e psicanalista Corne-

uma crítica radical a concepção de “sujeito” cons-

psicologia que nos permitem, hoje, analisar a influ-

lius Castoriadis, “o homem é esse animal louco cuja

truída por Descartes. Para Marx, não existe um eu

ência da sociedade sobre o indivíduo e, ao revés, do

loucura inventou a razão”, e concentrarmo-nos na

autossuficiente e isolado do processo das relações

indivíduo sobre a sociedade. Neste sentido, o Ciclo

insanidade e no psiquismo humano.

histórico-sociais; para Nietzsche, ele é o resultado

“A Filosofia e o Cinema Psicológico” busca tomar

A insanidade de algumas pulsões que pro-

das pulsões e, mais profundamente, expressão da

contato com os distúrbios e transtornos causados

movem a guerra (Apocalypse Now, Nascido para

vontade de potência; e, para Freud, o resultado de

na psique pelos pais, pelo estado, pela cultura,

Matar, Ran, Katyn); que criam um aparelho de

processos inconscientes. A noção de inconsciente,

pelas guerras, enfim, por todas as instâncias da

estado que visa condicionar ou permite o condi-

é preciso dizer, não foi criada pelo investigador

vida em coletividade, bem como, inversamente,

cionamento de seus cidadãos (Laranja Mecânica,

do “complexo de Édipo”. Por certo, ele aprimorou

pensar nas patologias individuais que, embora

Assassinos por Natureza, 1984); que tratam a

o conceito, retirando-o do domínio da filosofia, e,

hiperdimensionadas pela indústria dos fármacos,

mente das pessoas como uma latrina, banalizan-

com base na análise dos sonhos, fundou um novo

possuem a sua realidade, causando sofrimento no

do a maior parte dos temas, entre eles a violência,

campo do saber no século XX: a psicanálise. Na

indivíduo ou trazendo sérios problemas e riscos

através dos meios de comunicação (Assassinos por

filosofia, por sua vez, a investigação de Schope-

para a vida em sociedade.

Natureza); que transformam o estado em uma bu-

nhauer seria decisiva para pensar a soberania da

Não se trata, portanto, de contar a história da

rocracia interminável, impessoal (O Castelo, Katyn,

vontade sobre o eu. Discípulo de Schopenhauer,

psicanálise. Levou-se em consideração a densidade

1984); que lutam autodestrutivamente pelo poder

Eduard von Hartmann, em sua obra Filosofia do

das obras cinematográficas, tendo em vista uma

(Ran); que levam a sociedade gregária ao desprezo,

Inconsciente (1869), foi um dos precursores do

oposição às longas listas de filmes existentes na

à incompreensão e à violência sobre determinados

tratamento do inconsciente como tendo uma dimensão autônoma em relação à consciência. Freud foi, ademais, aluno do filósofo Franz Brentano, que com seu conceito de intencionalidade, visava fundar a psicologia como ciência empírica. Após a inauguração da psicanálise freudiana, Alfred Adler funda a psicologia individual, enquanto Carl Gustav Jung, a psicologia analítica. Jung, além disso, considera o inconsciente não somente como algo individual, mas como repositório das experiências humanas: o chamado inconsciente coletivo. A partir de então, a psicologia passa a ser uma das ciências mais importantes do século XX. Surgem dissidências e outras correntes, trazendo nomes como Melaine Klein, Willhelm Reich, Lacan. Dentre os críticos da


CINEMA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

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indivíduos (Taxi Driver, Dogville); que vivem tão so-

é preciso perguntar se as pulsões são núcleos fi-

ficas tomem a nossa reflexão. Afinal, é preciso a

mente da ganância dos bens, espoliando culturas

xos no psiquismo ou se foram construídos pela

escuta interior para que um novo conteúdo psí-

ou países alheios, na forma do colonialismo e do

espécie e em circunstâncias histórico-sociais. De

quico possa garantir seu espaço no processo de

neocolonialismo ou, mais recentemente, da dilace-

todo o modo, é inegável que em algumas pessoas

expansão da consciência.

ração das próprias pátrias, deixando para as gera-

acentuam-se determinadas patologias. O proble-

ções do presente ou àquelas do futuro o “retorno

ma no seu tratamento consiste em que, para além

do recalcado” (Aguirre: a cólera dos deuses, Caché,

do cuidado com a saúde que todo o profissional

O Pântano, Edukators, Watchmen, O Dinheiro); que

em psicologia deve ter, outros interesses entram

exigem das pessoas uma adequação ao status quo,

em jogo: a formação e os limites do analista, a

às exigências de classe e posição social (O Adversá-

classe social, o processo cultural, a visão de mun-

rio); que, no seio familiar, de trabalho ou artístico,

do da sociedade e da época, os interesses da in-

destroem a individuação (Lavoura Arcaica, Gritos e

dústria e do mercado etc.

Sussurros, Cisne Negro) ou mesmo desrespeitam os

Estamos, portanto, diante de um dos temas

limites individuais (Cisne Negro). Isto para ficar em

mais instigantes, polêmicos, complexos e essen-

apenas alguns exemplos e possibilidades de abor-

ciais desenvolvidos no campo do conhecimento

dagem do tema e das obras.

A Filosofia e o Cinema existencial: “O homem a sós consigo” em 30 obras cinematográficas (IV Ciclo de Cinema, 2013)

e do autoconhecimento a partir do século XX.

O IV Ciclo de Cinema do Departamento de Fi-

Complexo é o psiquismo humano. Via de

A bibliografia sobre o tema é farta e altamente

losofia da UFPel vem com o tema “A Filosofia e

regra, um dos grandes debates em filosofia é a

recomendável. Mas deveríamos, também, voltar

o Cinema Existencial”. Ao longo de 2013, serão

relação entre destino/determinismo/necessidade

àquela antiga frase de Heráclito (“eu me busco a

exibidas 30 obras cinematográficas, divididas em

e liberdade. Se o homem fosse tão somente de-

mim mesmo”) ou a de Sócrates (“Conhece-te a

dois blocos temáticos e cronológicos: I - Do início

terminado por suas pulsões e condicionamentos,

ti mesmo”). Evitemos, assim, as nossas próprias

ao fim; II - Do fim ao início.

então estaria abolida a possibilidade de mudança,

projeções sobre os outros e sobre as coisas e dei-

O IV Ciclo de Cinema do Departamento de

a responsabilidade e a imputabilidade. Ademais,

xemos que as projeções das obras cinematográ-

Filosofia da UFPel parte da ideia do “O homem a


CINEMA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

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Assassinos por Natureza; Taxi Driver; 1984; Watchmen; A Ilha do Medo; Uma Simples Formalidade; Dogville; Um Corpo que Cai; Cisne Negro; A Dupla Vida de Veronique; Zellig Fotos: Divulgação

sós consigo” (Nietzsche), bem como de pensadores da chamada corrente “existencialista” da filosofia, para pensar o valor e o sentido da existência, as vivências que imprimem singularidade e autenticidade, a finitude humana, bem como os caminhos para romper com a solidão existencial. Ao longo de 2013, serão exibidas 30 obras cinematográficas, de cineastas como Michelangelo Antonioni, Louis Malle, François Truffaut, Valério Zurlini, Alain Resnais, Vittorio de Sicca, Andrei Tarkowski, Luchino Visconti, Ingmar Bergman, Michael Haneke, Béla Tarr, Francis Ford Coppola, Walter Salles, Jean-Jacques Beineix, Leos Carax, Karim Aînouz, Krzystof Kieslowski, Carlos Gerbase, Lars von Trier, Denys Arcand, Bernardo Bertolucci, Wim Wenders, Jean-Jacques Brissau e Claude Lelouch. Fica registrado o convite ao leitor para que visite nossa página no Facebook, de modo a conferir a programação e acompanhar os próximos ciclos, tornando-se um amigo do CineFilo: www.facebook.com/cinefilo.ufpel


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ARTES VISUAIS


ARTES VISUAIS

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Saint Clair Cemin, sem título (2010) Jorge Menna Barreto, Poemas no Chão Fotos: Acervo MACRS

A maioridade do MACRS Dois mil e treze é um ano emblemático para o

arte contemporânea, estará inserido nos Cami-

Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do

nhos Culturais do Centro, assim como o Espaço

Sul (MACRS). É o ano da maturidade – a insti-

Cultural da Santa Casa, Centro Cultural do IPE-RS,

tuição está completando 21 anos –, da definição

o Cais do Porto e a Fundação Iberê Camargo. “Es-

sobre a sua sede, que será junto ao novo Centro

tamos indo para a porta de entrada da cidade”, diz

Cultural do Instituto Federal de Educação, Ciência

André Venzon, diretor do MACRS.

e Tecnologia (IFRS), no prédio da antiga loja Mes-

Apesar da importância de ampliar os espaços

bla, no centro histórico de Porto Alegre, e também

para arte contemporânea – depois de algumas difi-

o da aquisição de importantes obras para o acer-

culdades, de sua quase extinção e de danos ao acer-

vo por meio do Projeto MAC 21. Ainda em 2013,

vo, atualmente o MACRS está instalado na Casa de

o MACRS está dando início à itinerância da expo-

Cultura Mario Quintana –, o diretor lembra que mu-

sição A Medida do Gesto pelo interior do Estado,

seu é sede, mas também acervo. E nesta área é que

em uma parceria com o Sesc.

a instituição mais vem investindo. Nos últimos dois

Com inauguração prevista para o mês de

anos, o acervo triplicou. Grande parte é proveniente

março do próximo ano, o IFRS-MACRS, que tem

de doações de artistas que participaram de exposi-

como propósito unir a cultura, a educação e a

ções no museu e até mesmo de outras instituições


ARTES VISUAIS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

50

como o Santander Cultural e o Instituto Estadual de

zer parte do acervo do museu. E da geração 2000,

A exposição A Medida do Gesto, realizada en-

Artes Visuais (IEAVi), bem como de artistas e colecio-

os representantes são Denise Gadelha, Henrique

tre o final de 2011 e o começo de 2012 em Porto

nadores. “A arte contemporânea é uma coisa viva,

Oliveira, Jorge Menna Barreto, Rodrigo Braga e

Alegre e que agora está circulando pelo interior do

porém o presente hoje, amanhã é memória, então

Rommulo Conceição. As obras adquiridas por meio

Estado por meio da parceria com o Sesc, também

ao mesmo tempo em que estamos fazendo expo-

do projeto com o objetivo de estender o acervo da

é vista pelo diretor do museu como um projeto

sições e adquirindo obras também estamos catalo-

instituição ao século 21 serão expostas ao públi-

pedagógico, primeiro no nível universitário, já que

gando e conservando”, afirma André Venzon.

co em uma exposição no Santander Cultural, logo

estudantes do Laboratório de Museografia do Ins-

após a 9ª Bienal de Artes do Mercosul.

tituto de Artes (IA/UFRGS) acompanharam todos

A Associação de Amigos do Museu de Arte

os passos para ver como se faz uma exposição. Na

Contemporânea do Rio Grande do Sul (AAMACRS), criada em 2003 com o objetivo de incentivar e cap-

Projeto Pedagógico

segunda etapa, de itinerância, o objetivo é reunir

tar recursos às atividades do MACRS, tem colabo-

O MACRS tem como proposta pesquisar, preser-

professores de artes das redes de ensino para dis-

rado fortemente para a realização de exposições,

var e divulgar um acervo de arte contemporânea

cutir em centros regionais o que é uma exposição

programas educativos, palestras, cursos, visitas

regional, nacional e internacional, e também de-

de arte, desde a curadoria, pesquisa de acervo,

guiadas com curadores, todas atividades que pro-

senvolver propostas educativas que visem a sua

convites e divulgação. “Queremos abordar todas as

porcionam a milhares de pessoas oportunidades

compreensão em suas várias modalidades. Neste

etapas. Este projeto, ao difundir e valorizar o acer-

de crescimento pessoal. A associação convida o

contexto, a parceria com o IFRS possibilita a rela-

vo do MACRS, revela como fazer uma exposição,

público a ser contemporâneo participando ativa-

ção entre os campos da educação, ciência e tec-

como fazer uma curadoria”, diz o diretor.

mente do desenvolvimento do museu, e contri-

nologia com a arte contemporânea. André Venzon

buindo assim para torná-lo nacionalmente uma

explica que no centro cultural do instituto existirá

referência artística e cultural, motivo de orgulho

uma biblioteca, um laboratório de conservação de

para o Rio Grande do Sul.

papéis, um cineclube, entre outros espaços que

Prova deste envolvimento da AAMACRS é o

ampliam a esfera de presença da arte contemporâ-

Projeto MAC 21. Contemplado com o Prêmio Mar-

nea na formação educativa do público. “Será muito

cantonio Vilaça da Funarte/MinC, possibilitou ao

mais relevante para a educação esta interação. O

Museu fazer a inédita aquisição de importantes

MACRS não será apenas uma galeria, continuare-

obras de 21 artistas contemporâneos. Da geração

mos a fazer parcerias com os espaços disponíveis,

de 1960 e 1970, o MACRS buscou obras de Paulo

da rua à sala de aula, através da possibilidade de

Bruscky, Nelson Leirner, Cildo Meireles, Carlos Pas-

cursos técnicos na área de gestão cultural, mu-

quetti, Regina Silveira e Carlos Vergara. Da geração

seologia, montagem de exposições e conservação

de 1980 e 1990, Alfredo Nicolaiewsky, Elaine Te-

e restauração de acervos no IFRS. Os estudantes

desco, Gil Vicente, Lucia Koch, Maria Lucia Cattani,

poderão estagiar no museu. Além disso, já estamos

Rochelle Costi, Saint Clair Cemin, Rosângela Ren-

elaborando o projeto de um curso técnico em arte-

nó, Teti Waldraff e Walmor Corrêa passaram a fa-

-educação para o público infantil.”


ARTES VISUAIS

PRIMEIRO SEMESTRE

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Rodrigo Braga, Leito (2008) Foto: Acervo MACRS

Foto Montagem: espaรงo da nova Sede do IFRS-MACRS (2013) Foto: Walter Karwatzki


ARTES VISUAIS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

POR Andrea de Souza

52

Especialista em Educação Infantil e coordenadora da Educação Infantil do Sesc/RS

Loide Pereira Trois Doutora em Educação pela UFRGS na Linha de Pesquisa Estudos da Infância e gerente de Educação e Ação Social do Sesc/RS

Larisa da Veiga Vieira Bandeira analista da Gerência de Educação e Ação Social do Sesc/RS e mestranda da Linha Filosofia da Diferença no PPGEDU – UFRGS

A arte contemporânea permite às crianças diver-

configuram imagens que permitem compartilhar a

sas experimentações e outras formas de interação

experiência e, ao conversar sobre o realizado, isso

com as imagens e os objetos. Os objetos corriquei-

favorece o deslizar do pensamento sobre o que re-

ros produzem conteúdos que são ressignificados

alizaram. Nesse sentido, é o ato de desenhar que

constantemente, e a relação com a obra, com os

provoca o pensamento conceitual, e não o contrá-

acervos e com o próprio artista agora é atravessa-

rio. (Barbosa e Richter, 2010, p. 29)

da por um olhar interativo. A contextualização da

Foi nessa perspectiva que a equipe de Educa-

produção artística e a leitura de imagem perpas-

ção Infantil da Escola de Ijuí/RS iniciou sua itine-

sam os currículos da educação infantil.

rância convidando as crianças a tecerem diversas

É importante criar experiências e atividades em que a arte não seja pensada como passatem-

experiências usando como suporte ou tela o modelo dos chinelos de dedo.

po e transcrita por meio de atividades em que o desenhar, o colar, o pintar são destituídos de sig-

O currículo aqui é compreendido a

nificados, de contextos de interpretação e de apro-

partir das intenções evidenciadas nas

priação. Ou ainda, usada para ilustrar temas com

ações e nas interações constituídas no

datas comemorativas ou de decoração das paredes

cotidiano. Toda a vida na instituição

das salas de aula.

transpira este modo de compreender o

Pensar a arte como elemento constituinte do

currículo. O currículo, portanto, não é

fazer pedagógico é pensar num currículo atraves-

compreendido neste texto como pres-

sado e interpelado pelo cotidiano, pelos fazeres e

crição, mas como ação produzida pelos

pelas infâncias que acontecem e habitam a escola.

educadores em parceria com as crian-

Ao desenharem, as crianças não reproduzem

ças. (Trois, 2012, p.49)

uma cópia do mundo, utilizando os princípios conceituais do desenho, mas produzem traços e

Os Chinelos Itinerantes nascem da ideia de reaproveitamento de um material aparentemente des-

ITINERÂNCIAS: As produções infantis em constante movimento A vinculação da vida é,

cartável que seria inutilizado. Assim, os chinelos que não servem mais para calçar os pés abrigando-os e protegendo-os, passam a abrigar novas possibilidades e novos fazeres criados pelos corpos infantis. Constituiu-se uma série de ações articuladas em que o primeiro passo foi uma campanha de arrecadação de chinelos velhos entre os familiares, os comerciários e a comunidade que utilizava os programas e serviços da unidade do Sesc. Após a arrecadação dos chinelos, iniciou-se o manuseio, a

pois, com um itinerário.

exploração das possibilidades que estes ofereciam

O que importa é o constante

para a interferência e a criação. Cunha (2012, p.44)

caminhar, que abre os poros, alivia os pulmões,

lembra que, “assim como os artistas contemporâneos aproveitam e exploram qualquer material em suas produções, as crianças também podem fazer

permite que o sangue flua,

o mesmo quando se expressam. Para isso, tanto os

dá energia e disposição para

usos dos materiais como dos suportes e instrumen-

continuar a caminhar. (VIEIRA, 2009)

tos devem ser reinventados”. Utilizando diversos materiais, como cola colorida, cola dimensional, lantejoulas, espelhos, boli-


ARTES VISUAIS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

53

Fotos: Paulo Hoeper

nhas de gude, tinta PVA, barbante, verniz e muitos

crianças receberam seus convidados e conversaram

diferentes passos coloridos, brilhantes, molhados

outros e inspirados em artistas já conhecidos e cujas

sobre suas produções. A integração da comunida-

de mar, empoeirados de estrada, passos que serão

obras circulam nos espaços da escola, as crianças

de em muitos momentos desse processo garantiu

dados em cada uma das regiões do Rio Grande do

começaram as transformações dos chinelos. A es-

a acolhida e o compartilhamento das experiências,

Sul com suas muitas crianças. Em cada uma das

colha do material que desejavam utilizar, explorar,

das descobertas e das produções infantis.

escolas do Sesc em que a exposição era instalada,

aplicar nas suas intervenções propiciou às crianças

O que se iniciou como possibilidade de reuti-

novos chinelos eram incorporados ao acervo, pro-

o manuseio de um suporte com contornos, textu-

lização de um material descartável apresentou-se

duzidos pelas crianças e também pelos seus pais que

ra, dimensões bem distintas das que são oferecidas

como possibilidade de transformação, criação de

utilizavam espaços das escolas para a produção de

pelo suporte da folha de papel. Previa-se nesse mo-

novos usos para a forma conhecida anteriormente

outros chinelos.

mento, que houvesse uma exploração até o esgota-

como chinelo. Agora, os chinelos eram telas para

A itinerância aqui foi tomada como um modo

mento das possibilidades que se ofereciam e que se

diferentes cores, tear para diferentes texturas, su-

de operacionalizar a circulação da produção das

desdobravam em outras tantas. O desenvolvimento

porte sinuoso e tridimensional para novos passos. E

crianças como território. Para as crianças, a noção

desses momentos foi gradativo, ou seja, os chinelos

os novos passos foram dados com a circulação dos

de território ampliou-se e deu visibilidade às trocas

não entraram na escola para dar “passos isolados”,

chinelos produzidos em Ijuí para o interior de todo o

que são possíveis entre os que o habitam. Expandir

tudo que deles decorreu foi interligado e sequen-

Estado. Deste modo, a coleção de chinelos foi sendo

o território, chegar através dessa itinerância em ou-

cial. E essa sequência foi também de “passos” que

acrescida de novas produções feitas pelas crianças

tras escolas é explorar a potência desse movimento,

avançavam e retornavam, “passos compassados”,

de diferentes cidades como Tramandaí, Santo Ân-

das linhas que foram produzidas nesse deslocamen-

rítmicos, com pulsos e repousos de um tempo de

gelo, Santa Rosa, Cachoeirinha, Porto Alegre, Ca-

to, nesse campo de criação. Pensar uma escola que

espera, de um tempo de observação, de um tempo

choeira do Sul, Santa Maria, Lajeado, Santa Cruz do

não apenas privilegia as produções infantis, mas

de repetição. A cada dia, as crianças queriam mudar

Sul, Novo Hamburgo, Rio Grande, Carazinho, Bagé e

também as coloca em movimento, em relação de

algo ou desenhar mais algum detalhe realizando

Alegrete. Cidades que constituem a rede de escolas

interação. Sendo assim, é pensar em espaços em

novas leituras de suas produções.

infantis do Sesc e que colocaram em movimento

que a sensibilidade está ancorando as relações de

As novas leituras, o retorno ao material uti-

o conceito de arte e infância. Uma itinerância em

convivência, de interação e troca.

lizado, a criação de novas possibilidades e a ob-

um mapa de infâncias, percorrido pelos muitos e

servação dos processos que eram acompanhados atentamente, como o tempo de fixar da cola, o secar da tinta, a transformação de materiais colados, a aplicação da tinta em diferentes texturas fez com que fossem aproveitadas as relações entre causa e efeito. Cunha (2012, p.51) aponta que a combinação entre as diversas modalidades das artes visuais, como colagem, pintura, desenho e montagem tridimensional, provoca as crianças no vivenciar das diferenças e das semelhanças de cada modalidade, descobrindo as possibilidades particulares de cada uma delas. Quando os chinelos ficaram prontos, foi acordada a montagem da exposição, ou seja, era necessário a partilha, o confronto de outros olhares que complementassem as produções e legitimassem a itinerância, o movimento. Esse momento da exposição foi pensado junto com as crianças que atuaram como protagonistas em todo o processo. Foi organizado um vernissage, convidando familiares, amigos e a comunidade para apreciarem as obras. As

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CUNHA, S. (Org) As artes no universo infantil. Porto Alegre: Editora Mediação, 2012. BARBOSA, M. C. E RICHTER, S. Os bebês interrogam o currículo. In: Revista da Educação da Universidade Federal de Santa Maria, v.35, nº.1, janeiro/abril, Santa Maria, 2010. TROIS, L. P. O privilégio de estar com as crianças: o currículo das infâncias. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Tese de Doutorado, 2012. VIEIRA, Rafael A. K. Os modos contemporâneos de gestão do espaço urbano e a invenção de si. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências e Letras de Assis. Universidade Estadual Paulista, 2009.


ARTES VISUAIS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

POR Luciano Bedin da Costa

54

psicólogo, doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Larisa da Veiga Vieira Bandeira analista da Gerência de Educação e Ação Social do Sesc/RS e mestranda da Linha Filosofia da Diferença no PPGEDU – UFRGS

Cartografias infantis: a cidade pela criança a fotografia pela infância (…) a grama só existe

O que se passa quando uma criança pega uma

espaços de circulação pública. Neste sentido, a

entre os grandes espaços

máquina fotográfica e se põe a registrar a ci-

cidade se apresenta como espaço estriado, um

dade em que vive? Este texto se propõe a apre-

rugoso tecido que coloca as ações cotidianas à

sentar o projeto Cartografias infantis: a cidade

mercê desta organizada engenharia. Falamos da

preenche os vazios. Ela

pela criança / a fotografia pela infância, financia-

cidade como um corpo urbano funcional (ainda

brota entre – entre as

do pela Fundação Nacional das Artes (Funarte)[1].

que por vezes aparentemente caótico), no qual

O nome dado ao projeto é resultante da escolha

os lugares são demarcados para que a vida possa

pela prática de um olhar cartográfico, o qual se

se efetivar com uma suposta segurança. Circula-

propõe a apresentar a cidade de Porto Alegre a

-se, habita-se, trabalha-se, diverte-se, brinca-se.

a tulipa endoidece.

partir da multiplicidade de narrativas, olhares fo-

O corpo organizado torna estas atividades possí-

Mas a grama é

tográficos, escritas e desenhos das crianças que a

veis, ainda que trabalhe para o esmagamento do

habitam. Tomamos como dispositivos duas ofici-

campo de possíveis que se abre sempre que estas

não-cultivados. Ela

outras coisas. A flor é bela, o repolho útil,

transbordamento, é uma

nas realizadas em janeiro e março de 2011, além

são colocadas em movimento. Para cada movi-

lição de moral.

da oficina germinal, realizada em junho de 2010

mento-criação um código é oferecido. Então,

Gilles Deleuze

no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Todas as foto-

circula-se pelos espaços destinados à circulação

grafias apresentadas no decorrer do texto fazem

(institucionalmente criados para tal): trata-se de

parte destas três experiências.

praças, calçadas, ciclovias e avenidas. Falamos de sobrecodificações dimensionais e direcionais:

Partindo (de) um corpo organizado

os espaços se oferecem como espaços ópticos

“Somos segmentarizados por todos os lados e em

(garantindo-nos a suposta ideia de dimensão)

todas as direções”, escrevem Deleuze & Guattari

e direcionados (reforçando-nos a crença de que

(1996). Esta rede de segmentaridades se volta a

estamos sempre entrando-saindo de algo). O

todos os estratos que compõem a vida, introdu-

Projeto Cartografias Infantis (PCI) assume este

zida no seio da vivência privada e ampliada aos

corpo organizado como suporte, tomando a geo-


ARTES VISUAIS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

1 Os registros cartográficos das oficinas estão disponíveis no site do projeto CARTOGRAFIAS INFANTIS, http://cartografiasinfantis.com.br

55

Crianças registram seu olhar em espaços de circulação pública

Fotos: Divulgação do projeto

grafia urbana de Porto Alegre como plano inicial.

riência cartográfica ganha força em sua coletivi-

Elencamos cinco lugares majoritariamente cons-

dade, em agenciamentos coletivos de enunciação

tituídos na história e cultura de nossa cidade:

que maquinam entradas e saídas, compondo um

Parque da Redenção, Usina do Gasômetro, Cais

mapa com escalas de propagação, um mapa de

do Porto, Jardim Botânico e Parque Moinhos de

lugares, percursos e deslocamentos multiplicados

Vento (Parcão). Falamos de cinco espaços extre-

em cada um de seus infantis (nem por isso menos

mamente conhecidos, achatados pelos sentidos

“políticos”) enunciados.

dados, sobrecodificados pelos discursos familiares e pedagógicos. Nossa cartografia partirá dos

Anotações num diário de bordo

clichês oferecidos pela própria cidade.

Quando começamos não imaginávamos tanta preparação. No início, nos primeiros movimentos

A escala

do PCI, sabíamos muito pouco, talvez pistas do

Na ciência cartográfica, quando se projeta um

que seria um trabalho de escuta, de prospecção,

mapa é preciso informar quantas vezes o terreno

de atenção e de observação das crianças no exer-

real (no caso a cidade de Porto Alegre ou parte

cício de registrar alguns pontos da cidade. Agen-

dela) foi reduzido. A cartografia mantém uma

cia-se um grupo de crianças para algo que não se

relação estreita com as dimensões geográficas

sabe ao certo, que se faz de desejos e de algumas

propriamente ditas. No caso do PCI, a geografia

capturas. Antes, ainda, preparam-se as máquinas,

será assumida através dos perceptos (Deleuze &

as pessoas que acompanham, e, ainda assim, toda

Guattari, 1992) atiçados pelos registros fotográ-

a preparação necessária para iniciar demanda ou-

ficos e pelos enunciados infantis. A escala – em

tras preparações. Para as intensidades que procu-

vez de dimensional e direcional – torna-se afeti-

ram expressão, a preparação já é um início e um

va, embaralhando os códigos comuns e abrindo

ato disparatório. [A cartografia definitivamente

a cidade para linhas quiçá novidadeiras. A expe-

não nos parece um manual de instruções].


ARTES VISUAIS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

56

Oficina 1

bairro Cidade Baixa (Porto Alegre) aproximou o PCI

O grupo que participou da primeira oficina, realiza-

de um grupo de crianças não previsto no breve cro-

da no dia 17 de janeiro de 2011, era formado por 32

nograma traçado para o início do ano. As previsões

crianças que frequentavam uma colônia de férias. O

iniciais não determinavam um padrão nos grupos

local escolhido pelas crianças foi o Jardim Botânico,

que participariam, mas sabíamos que os desvios ne-

pela proximidade deste com o grupo e possibilidade

cessários implicariam outras formas de aproximação

de deslocar-se entre dois bairros (Petrópolis e Jardim

e que cada uma das novas oficinas demandariam

Botânico) sem a necessidade de transporte. O des-

outros fazeres e procedimentos práticos. As crianças

locamento realizado pelo grupo envolveu algumas

desse grupo residem no Quilombo do Areal da Baro-

ruas e avenidas. Estávamos (crianças e oficineiros)

nesa, localizado no bairro Cidade Baixa. No local, são

atentos ao novo que se entranha no já visto muitas

aproximadamente 80 famílias que vivem em uma

vezes. Uma espécie de estranhamento do óbvio, de

das últimas “avenidas” da região, a Luís Guaranha,

uma suspeita diante das linhas duras que se atra-

historicamente ocupada por famílias negras. A as-

vessam na vivência cotidiana da cidade. As crianças,

sociação de moradores mantém um projeto musical

portando máquinas digitais ou celulares com câme-

de ritmistas, composto por 70 crianças e jovens de

ra, percorreram o Jardim Botânico sem a mediação

5 a 16 anos. Após contatos telefônicos, fomos con-

da escola – e sem fazer uso do percurso pedagógico

vidados a participar do “aquecimento” e assistir ao

que o próprio local oferece. O grupo enveredou-se

desfile das crianças no carnaval de rua. Esse primei-

por trilhas que não as demarcadas no mapa dispo-

ro encontro resultou na combinação de uma oficina

nível aos visitantes.

que aconteceria no Parcão. Este aparente “desvio” marcou o que seria a oficina 2 do projeto.

O procedimento cartográfico As fotografias resultantes dessa visita foram pré-

A oficina 2

-selecionadas pelas próprias crianças, utilizando os

A oficina 2 foi realizada no dia 4 de março de

dispositivos de suas máquinas, celulares e computa-

2011. O grupo de 18 crianças, entre 4 e 12 anos,

dores. Cada uma escolheu cinco fotografias. A sele-

partiu do Quilombo com um transporte esco-

ção exigiu a atenção e a concentração das crianças,

lar, deslocando-se pelos seis quilômetros que

tendo em vista a grande quantidade e densidade do

separam a comunidade quilombola do Parcão.

material produzido.

O trajeto foi marcado por conversas animadas, fotografias e filmagens. Esse grupo não possuía

Tomando carona numa linha de fuga

máquinas digitais ou celulares. A experiência de

Em fevereiro de 2011, um convite veiculado na mí-

uso coletivo foi organizada com as crianças, um

dia-web para um carnaval de rua que acontece no

procedimento metodológico foi se criando a par-


ARTES VISUAIS

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

57

tir da necessidade de compartilhamento. As foto-

zer obras, ser artistas. A minha mãe disse

grafias resultantes desta oficina foram reveladas

que eu sou um artista, que estou sempre

e apresentadas num segundo encontro, em que

fazendo arte. Os cegos não podem fazer

o grupo de crianças pôde olhar e escolher os re-

por que não enxergam e os débeis men-

gistros que gostariam de ver publicados no site.

tais também não, porque não podem

A primeira oficina foi realizada no Jardim Botânico, local escolhido pelas próprias crianças

Fotos: Divulgação do projeto

pensar. Eu acho que os cegos podem

A oficina germinal

fazer, eles só não vão poder ver depois.

No dia 9 de julho de 2010, um grupo de 14

Eu vi um cara sem as mãos que pinta-

crianças foi visitar uma exposição de arte que

va com os pés. Os surdos podem fazer

acontecia no Hospital Psiquiátrico São Pedro

por que não precisa ouvir para fazer

(Porto Alegre). Foi solicitado que as crianças

arte. Têm umas obras tri loucas. Louco

levassem suas máquinas para registrar a visita.

pode fazer arte? Pode, tem um monte de

Foi feito também um pedido para que não se fa-

artista tri loucão. E o que é ser louco?

lasse para as crianças sobre o local. O espaço

É atravessar a rua correndo sem olhar

que seria visitado faz parte de um imaginário

para os lados. É chegar num guarda que

urbano conectado a loucura e práticas de en-

tá de cavalo e bater no guarda. Eu sou

clausuramento; as crianças, destituídas de tais

louco, a minha mãe sempre diz: – “tu tá

sobrecodificações, visitariam um espaço de ex-

louco, guri?” e eu sou artista também. As

posição localizado num conjunto arquitetônico

obras de arte ficam nos museus, nas es-

antigo e grande. Antes de sair fizemos uma roda

colas, nos teatros, nos museus, nos hos-

para conversar sobre algumas questões: O que

pitais. Pintura é arte, cinema e música

é arte? Quem faz arte? Quem é artista? O que é

não, fotografia é.

uma obra de arte? Onde ficam as obras de arte? O material produzido no dia, aparentemen-

Polifonias infantis

te desconexo e caótico, resultante desta inva-

O que se segue é a tentativa de transcrição da

são naquele lugar também chamado de castelo,

polifônica conversa que tomou conta do grupo:

cadeia, prisão, e que ainda assim seria um bom lugar para uma escola foi germinal; ele nos in-

A arte é o que está nas obras, no papel,

dicou o que necessariamente seria a cartografia:

nas telas dos museus. Mas pode estar

uma prática de intenso rastreamento, conexões

nas ruas, nas estátuas, e tem obras nas

desejantes, exploração, tentativas e invenções

ruas também. Pode estar no desenho

estratégicas.

dos tênis e das roupas. Todos podem fa-

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia (vol.3). Rio de Janeiro: Ed.34, 1996. DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Ed.34, 1992. DELEUZE, Gilles. PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998.


literatura

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

POR THIAGO CRUZ

58

Professor de Filosofia no ensino médio E mestrando em Filosofia pela UFRGS

A DESCOBERTA DO MUNDO O ano de 2013 marca o centenário do nascimento

teratura. Não que não tivesse lido outros livros. O

bairro de Belcourt, teve na figura da mãe a princi-

de Albert Camus, um dos maiores escritores do

fato, porém, é que somente com as desventuras de

pal expressão da vida familiar (embora convivesse

século XX, agraciado com o prêmio Nobel de Li-

Meursault, o anti-herói desse romance, compre-

com o irmão, o tio e a avó na mesma casa): seu pai

teratura em 1957 por obras, como O Estrangeiro,

endi que a ficção literária pode tirar-nos o sono,

fora morto em combate durante a Primeira Grande

A Peste e O Mito de Sísifo.

inquietar-nos ao extremo, dificultar-nos a respi-

Guerra ainda em tempos de sua primeira infância.

ração. Minha adesão à obra foi tão visceral que,

Não tendo a vida intelectual no horizonte de suas

***

mesmo sendo a amizade uma relação recíproca,

expectativas – com efeito, nada além do convívio

Há alguns dias, fui surpreendido por um con-

sentira-me então impelido a situar tanto Camus

escolar –, o destino de Camus fora decisivamente

vite cujo conteúdo diz respeito muito intimamen-

quanto Meursault entre os meus melhores amigos.

marcado pela influência de seu professor primá-

te ao que ora escrevo: produzir um artigo sobre a

De parte esse ardor juvenil, mas em função

rio, Louis Germain, que antevira naquele jovem

vida e/ou a obra de Albert Camus, escritor franco-

daquilo que me tocara tão fortemente, dedicar al-

pied-noir algum potencial, orientando-o nos es-

-argelino que completaria cem anos em novembro

gumas horas a pensar e escrever sobre Camus e

tudos. Abria-se, pois, a porta para sua educação

próximo. Tal proposta não poderia vir em pior mo-

sua obra maior – entre nós também a mais conhe-

secundária, um caminho bem diferente daquele

mento. Compromissos acadêmicos, profissionais

cida – fez-se impositivo, algo de que não poderia

a que o curso comum dos eventos o teria levado

e pessoais formavam um quadro nada invejável,

me furtar. O móbile deste artigo, portanto, não é

– um trabalho na oficina de seu tio, um tanoeiro.

circunstâncias que se afigurariam mais do que su-

senão um sentimento de gratidão.

Indo adiante nos estudos, conhece então Jean

ficientes para me demover de um interesse inicial

Grenier, professor cujos ensinamentos e incenti-

nessa empreitada não fosse o enorme sentimento

***

de dívida que carrego com a figura e com a obra

Albert Camus nasceu em Argel, Argélia, em 7 de

Igualmente importante para sua biografia

camusiana: há aproximadamente 10 anos, sendo

novembro de 1913. Nessa época, o país não era

foi a crise de tuberculose que lhe acometeu pela

então um adolescente, a leitura de O Estrangeiro

mais do que uma colônia francesa no norte da

primeira vez aos dezessete anos de idade. Expos-

significou para mim a porta de entrada para a li-

África. De infância pobre, residindo no operário

to à fragilidade de sua existência, impedido de

vos levaram-no a graduar-se em Filosofia.


literatura

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

59

tomar sol ou desfrutar dos banhos de mar, algo

as qualidades apresentadas pelo protagonista de

Sartre, de um grupo de intelectuais, muitos dos

que lhe era tão caro, sua convalescença trouxe

O Estrangeiro. O horror à morte, o conhecimen-

quais escritores, interessados em questões relati-

consigo uma grata surpresa: o contato com a li-

to de um só tipo de felicidade, inseparavelmente

vas à igualdade, à promoção da justiça. Contudo,

teratura. Para recobrar a saúde, Camus ficara um

ligada à natureza; certo asco pelas convenções

à medida que o mundo tomava conhecimento do

tempo na casa de seu tio Acault, um açougueiro

sociais, uma exasperação ante a atitude sectária,

genocídio praticado pela URSS, consciente de que

cujo mérito maior (ao menos para a posteridade)

tudo isso dificulta a correta interpretação daquela

fazia parte de um regime tão criminoso quanto

fora possuir uma biblioteca em casa. O fascínio que

obra como uma mera ficção – parece haver ali um

aquele que pretendia derrubar, Camus sentira-se

certas leituras exercem sobre o jovem Camus leva-

toque autobiográfico. Com efeito, embora não fos-

impelido a afastar-se do Partido. Com a publicação

-o a esboçar alguns escritos. Não demora muito,

se muito pobre, Meursault nem de longe desfruta

de A Peste dera um passo nessa direção.

publicam-se seus primeiros ensaios (O Avesso e o

das comodidades da vida; e como o próprio Camus

Para muitos, o ponto alto do romance, a

Direito - 1937); em 1938, atua, então, como jorna-

fizera questão de marcar, longe de ter lhe impedido

conversa travada entre Rieux e Tarrou apresen-

lista no Alger Républicain. Inicia-se uma carreira

uma vida feliz, sua condição social predispusera-o

ta a clareza com a qual Camus passara a ver as

promissora como escritor.

à apreciação da natureza, ao gozo dos prazeres do

disputas políticas de sua época. No “momento da

É nesse momento que a história universal

mar e do sol, bens acessíveis a todos os argelinos.

amizade”, tal como é descrito pelo narrador, em

assume contornos os quais, em grande medida,

Assim enraizara-se nele um desapego sincero pe-

que pela primeira vez falam de um assunto pesso-

determinariam o futuro de Camus: é declarada a

las comodidades da vida como algo essencial para

al (até então a peste tomava-lhes todo o tempo),

guerra. Por questões políticas, o periódico do qual

uma verdadeira felicidade.

Tarrou confessa a Rieux que na tentativa de com-

Camus é colaborador é fechado. Desempregado e

Esse culto à natureza, indissociável do Ca-

bater assassinatos deliberados por parte do Estado

impossibilitado de alistar-se no exército a fim de

mus histórico, será marcante em toda a sua obra,

acabara participando de um movimento político

participar dos combates (em função de sua doen-

um traço que extrapola e muito a narrativa de

que repousava igualmente em execuções, as quais

ça), muda-se para Paris à procura de um local no

O Estrangeiro. Cada um a seu modo, tanto o jovem

aparentemente poderiam ser justificadas em nome

qual pudesse seguir trabalhando. Os frutos colhi-

ensaísta de Núpcias quanto o escritor mais madu-

de um futuro melhor, da busca por uma sociedade

dos por essa opção não tardam a aparecer. Em

ro de A Peste consideram o contato com o mundo

mais justa. Propondo então uma resistência limpa,

1940, confinado voluntariamente num pequeno

sensível indispensável à dignidade humana. Uma

sem armas, a toda forma de legitimação do assas-

hotel de Montmarte, estando em uma cidade

das maiores desgraças de A Peste, aliás, é anuncia-

sinato, Camus recebera críticas de todos os lados

que lhe proporcionara a solidão necessária para

da no começo do romance: Orán, a cidade vitimada

na publicação do livro: a esquerda comunista, a ex-

produzir, escreve seu primeiro e mais enigmático

pela epidemia, fora construída “de costas para o

trema direita e mesmo os niilistas acusavam-no de

romance: O Estrangeiro. Publicado pela primeira

mar”; aos olhos de Camus, uma negação da vida

uma ou de outra coisa. Não obstante, essa atitude

vez em 1942, essa obra dá uma enorme proje-

que, de maneira nada surpreendente, corrobora

de repudiar o assassínio e rechaçar as tentativas

ção a seu autor, recebendo críticas favoráveis de

a visão do homem como um ser essencialmente

de justificá-lo em nome seja do que for aparece-

intelectuais de grande monta, como o então con-

histórico, alguém que, portanto, pode matar ou

ra de forma definitiva em 1952, com a publicação

sagrado filósofo e romancista Jean-Paul Sartre.

morrer por uma ideia: a peste descrita no romance

de O Homem Revoltado, obra que rendeu a Camus

Como toda grande obra, embora tenham se pas-

não é senão uma alegoria da guerra que assola a

fortes críticas da revista Les Temps Modernes, da

sado muitos anos desde sua primeira aparição,

Europa nos anos de 1940.

qual Sartre era diretor, em função do que ambos

O Estrangeiro continua lido e relido em nossos

Tal visão do homem como meio para a obten-

dias, sua atualidade não se perde: os problemas

ção de uma felicidade futura, a qual se mostrara

que mais intimamente tocam a natureza humana

tão arraigada nas principais ideologias do entre-

Abatido por encontrar-se numa época de

não mudam com o passar do tempo.

trocaram acusações cujo resultado, sabe-se bem, não foi senão o rompimento da amizade.

guerras, recebera especial atenção de Camus. É

excessos, na qual qualquer diálogo tornava-se im-

De maneira particularmente interessante, é

fato que ainda na década de 1930 Camus ligara-se

possível e cujo fio condutor não era senão a des-

tarefa difícil dissociar as figuras de Camus e de

ao Partido Comunista. Preocupado com a condição

medida; triste pelo episódio com Sartre, cuja con-

seu principal personagem, Meursault: em vários

das minorias na Argélia (cujo quadro era extrema-

tenda viera a público, o ânimo de Camus sofreu

aspectos, há uma notável coincidência entre as

mente delicado), esta lhe afigurava uma alternati-

outro revés quando fora escolhido para o Nobel

disposições, predileções e angústias do escritor e

va disponível. Mais tarde, fizera parte, ao lado de

de Literatura em 1957. Tal como expressou em seu


literatura

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

60

discurso de agradecimento, fora agraciado com

direito de as pessoas sentirem e pensarem como

momento independentemente do que fizesse.

um prêmio tão distinto por uma obra ainda em de-

quiserem e, contudo, censura-se a expressão des-

Desse modo, o toque das sirenes anunciando-lhe

senvolvimento, em grande medida inacabada. Sem

ses sentimentos e pensamentos. Tal perplexidade

o derradeiro momento significa, paradoxalmente,

julgar o mérito da escolha, parecia a Camus que

assume um aspecto cômico quando na prisão, in-

um pouco de paz.

sua obra se encerrava prematuramente.

terrogado pelo juiz de instrução sobre um possível

De maneira geral, parece-me que Meursault

De forma prematura, também, perdera sua

arrependimento em razão do crime que cometera

tenderia a suportar mais tranquilamente (embora

vida. Três anos mais tarde, em 4 de janeiro de 1960,

(objetivamente, Meursault assassinara um árabe

não absolutamente) sua condenação se durante o

viajando com amigos rumo a Paris, o carro em que

na praia sem qualquer motivação), ele responde

julgamento o principal argumento da promotoria

Camus se encontrava colidiu com uma árvore, viti-

que, em vez de arrependimento, sentia na verda-

não apontasse para sua insensibilidade. No enterro

mando-o imediatamente. Eis o que lhe reservara o

de tédio por ter assassinado um homem, e o tédio

da mãe, por exemplo, Meursault não chorara um

destino. Uma fatalidade.

advinha tanto do fato de estar preso, apartado

momento sequer e, no dia seguinte, fora ao cine-

das coisas que lhe faziam feliz, quanto do caráter

ma assistir a uma comédia com uma ex-colega de

maçante que assumiam todos os interrogatórios a

escritório. Segundo a leitura que o próprio Camus

que era submetido.

faz da obra, trata-se da história de um homem que

*** Se me indagassem sobre o que confere a O Estrangeiro um lugar entre as grandes obras da li-

Notadamente, ao mesmo tempo em que

é condenado à morte por não chorar no enterro

teratura, ficaria tentado a dizer que isso se deve à

carece de alguns sentimentos requeridos social-

da mãe. Não penso que Camus estivesse disposto

construção psicológica que Camus concede a seu

mente, Meursault revela muitas das qualidades

a sustentar, neste ou noutro lugar, que ninguém

protagonista, personagem cuja verossimilhan-

que elogiamos em nossos discursos: ele é edu-

pode ser responsabilizado pelo que faz, que Meur-

ça convence-nos de imediato, impedindo-nos

cado, solícito, assíduo no trabalho. Além do mais,

sault deveria ser visto como um exemplo de virtu-

de classificá-lo em tipos ou de emitirmos juízos

gosta de ir à praia, ao cinema; entedia-se aos do-

de. O ponto central de O Estrangeiro, no entanto,

acerca de seu caráter. Trata-se da apresentação

mingos, enoja-se por ter que secar as mãos em

é mostrar-nos o absurdo que há em basear uma

nua e crua de um indivíduo que carece de sen-

toalhas úmidas. Tais características, que acabam

condenação – e uma condenação à morte – no

timentos tidos na conta de virtudes sociais (ca-

por conquistar nossa simpatia, impedem que o

fato de uma pessoa ser mais ou menos sensível

rência com a qual facilmente nos identificamos) e

classifiquemos como um monstro moral mui-

aos eventos que a cercam, é pensar que temos o

que, não obstante (e aí está um traço distante de

to embora ele tenha, efetivamente, assassinado

dever de nos sentir deste ou daquele modo, uma

nós), jamais se permite mentir sobre as próprias

uma pessoa. Ademais, dada a maestria com a

exigência que assume contornos exasperantes a

emoções, mesmo quando sua vida está em jogo.

qual a narrativa é apresentada, somos conven-

quem recusa mentir para si mesmo. A obra propõe

É a postura coerente de Meursault – cujas ações

cidos do caráter fortuito daquele homicídio, que

que reconheçamos uma verdade sobre o que nós

invariavelmente expressam sentimentos e desejos

é um divisor de águas na vida do personagem:

somos, uma verdade sobre o que e como sentimos.

reais – que nos afronta desde o início do livro:

após interrogatórios preliminares, durante um

Meursault é um estrangeiro não por carecer dos

estivéssemos igualmente comprometidos com a

julgamento magistralmente descrito por Camus

sentimentos que se lhe exigem, mas por ser inca-

verdade, nossa identificação com seus atos seria

no qual salta aos olhos o aspecto surreal de uma

paz de dissimular, uma qualidade tão essencial à

quase completa.

das mais importantes instituições da sociedade –

vida em sociedade. Sua relação com o mundo é,

No entanto, observamos perplexos (e não se

o sistema judiciário – Meursault é informado de

por isso, de todo indiferente. Não há ninguém que

sabe até que ponto uma perplexidade genuína)

que, em nome do povo francês, sua cabeça será

o entenda e que possa oferecer-lhe certa sensa-

a reação de todo indiferente demonstrada por

cortada. Daí por diante, padecemos com as refle-

ção de pertencimento, o que já seria uma trégua.

Meursault ante a notícia da morte da mãe: “Hoje,

xões de um indivíduo cuja sina é viver com a cer-

Isso talvez explique a atualidade da obra: em maior

mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Re-

teza da própria morte, que busca refazer mental e

ou menor grau, sentimo-nos todos estrangeiros.

cebi um telegrama do asilo: ‘Mãe falecida. Enterro

sistematicamente cada passo de seu julgamento

Ler Camus, portanto, talvez signifique encontrar

amanhã. Nossos pêsames’. Isso não diz nada. Talvez

a fim de vislumbrar uma mudança no destino.

um elo com este mundo – um mundo que nos é

tenha sido ontem”. Enunciadas publicamente, essas

Infortunadamente, todo esse empreendimento

singularmente estranho –, algo que sucedera ao

palavras fariam de seu autor um alvo de censuras

especulativo não passa de distração, algo de que

adolescente que há aproximadamente dez anos

as mais variadas não apenas à época em que o li-

Meursault se ocupa por não ser capaz de conce-

tomara casualmente em suas mãos as páginas de

vro fora escrito, mas também em nossos dias, nos

ber por muito tempo, em virtude do terror que

O Estrangeiro.

quais, por assim dizer, concede-se verbalmente o

isso lhe causava, que seria executado a qualquer


literatura

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

POR RUBEM PENZ

61

ESCRITOR

Rubem Braga, o cronista que veio da lágrima E a lágrima, de homem e de mulher, de alegria ou de tristeza, é sempre reveladora indiscreta, tradutora inconsciente dos segredos d’alma. RB


literatura

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

62

Ainda conhecido por Rubinho, último filho homem

O modo de melhor conhecer Rubem é co-

te, herda mais: o precioso círculo de amizades que

do casal Francisco Braga e Rachel Coelho Braga, o

meçar pela linhagem dos Braga. João, Joaquim,

Newton deixa para trás ao retornar para Cachoeiro

rapazola de quatorze anos incompletos chama a

Francisco e Maria da Graça Marques de Carva-

e, principalmente, o posto de jornalista. Afinal, não

atenção de seu professor com uma surpreenden-

lho deixaram Braga e vieram ao Brasil. Porém,

tinha pendores para o Direito e sequer o diploma

te redação. Assim, em dezembro de 1926, o jornal

mantiveram a cidade consigo, adotando-a como

de advogado o jovem Rubem busca: não desejava

O Itapemirim, órgão oficial do Grêmio Domingos

sobrenome. Ao ficar viúva com uma filha no colo

outra vida senão a de repórter – escrever sempre

Martins, do Colégio Pedro Palácios, publica A Lá-

e outro filho no ventre, Anna Joaquina, a irmã

foi seu sacerdócio.

grima, primeira das incontáveis crônicas que mu-

que havia permanecido em Portugal (e que vi-

Porém, se por um lado na maturidade é bas-

dariam o gênero no Brasil para sempre. Nascia no

ria a ser a avó de Rubem) não tem alternativa

tante protetor das manas mais novas Yedda e Anna

menino tímido e taciturno, cuja aparência e rotina

a não ser juntar-se à família. Então, nasce em

Graça, por outro Rubem é menos generoso com

pouco o distinguiam dos demais amigos de Ca-

Guaratinguetá o pequeno Francisco. Crescendo,

sua pequena família. Casa-se jovem com a ainda

choeiro do Itapemirim, os traços daquele que seria

ele encontra um bom motivo para visitar sua tia

mais jovem Zora Seljan, pouco mais que uma ado-

um dos mais influentes escritores de língua portu-

Maria da Graça em Cachoeiro do Itapemirim:

lescente e já comunista muito engajada. Ambos

guesa do século 20, além de atuar como jornalista,

uma moça chamada Rachel, a Neném do Frade,

têm um único filho, Roberto, mas não conseguem

tradutor, editor e pensador de seu tempo.

nome da fazenda de sua família. Casam-se. Arti-

construir aquilo que se possa definir como lar tra-

culado, culto, informado e com dotes claros para

dicional. Ambos sofrem muito com a inconstância

Laços de família

os meandros da diplomacia política, Francisco

de trabalho de Rubem e com a severa perseguição

(...) parece que toda minha vida fora

Braga é indicado para ser o primeiro prefeito da

política do governo Vargas, o que impõe mudanças

daqui foi apenas uma excursão confusa

cidade. Ao receber um cartório, estabelece-se no

constantes para diversas cidades, sempre em bus-

e longa;

casarão onde nasceriam seus filhos mais novos.

ca de trabalho e paz, quando não passagens pela

moro aqui. Na verdade, onde posso

Entre eles, Rubem Braga.

prisão e por outros países. Crianças, aliás, nunca

morar senão em minha casa? RB

Tal como os laços de sangue determinaram o

fizeram parte da vida do cronista: não tinha prazer

destino da avó, Rubem Braga costura os caminhos

nem paciência com elas e impunha muito medo

de sua vida com grande envolvimento entre os ir-

aos pequenos.

mãos – guiado pelos mais velhos, paternal com as meninas caçulas. Ainda no tempo em que precep-

Rubem e seus amores

toras iniciavam a educação formal, é a mana Car-

Este homem esqueceu, grande mar,

mozina quem ajuda em sua alfabetização; é no jor-

muita coisa que aprendeu contigo.

nal aberto pelos manos Armando e Jerônimo que

RB

inicia sua vida de cronista regular (estudando em Niterói, publicaria no Correio do Sul suas Cartas do

O maior cronista de seu tempo foi um homem

Rio); é seguindo os passos de Newton Braga que

de múltiplos amores, o que poderia levar à conclu-

conclui o curso de Direito em Belo Horizonte. Des-

são de que era um homem infiel. Engano: Rubem Braga foi alguém fidelíssimo, dedicado e ciumento com suas paixões. A maior delas, e a mais constante durante a vida, foi o mar: desde criança na casa de verão na praia da família em Marataízes, até fixar residência em Copacabana. Assim descreve o mar da infância que conheceu em companhia dos maratimbas (pescadores da região capixaba): “Mar! Grande e triste mar onde o rio despejava suas águas barrentas, mar branco de espumas, azul, verde ou cor de aço, mar incessante, infinito e eterno, mar de todos os adjetivos e todas as areias, ventos e solidões!” Nutriu o sonho de ter um barco


literatura

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

63

e nele passar longos períodos, uma vida inteira de

movimentos repressivos, não importando o matiz,

socorrido e socorreu amigos em apuros: fez parte

suave vadiagem, o que nunca aconteceu.

mantendo-se firme em seus propósitos à custa de

da verdadeira teia de auxílio que buscava garantir

A natureza, especialmente as plantas, pás-

muito sacrifício, inclusive prisões. Segundo Otto

integridade física de quem exercia a integridade de

saros e estrelas também fizeram parte de suas

Lara Resende, foi “o homem mais livre do Brasil”.

pensamento.

preferências. Desde o pé de fruta-pão defronte ao

Dedicou toda sua juventude combatendo de modo

sobrado na meninice, passando pela observação

incessante o governo Vargas: “ser adversário do Sr.

Escrever para sobreviver

atenta de pássaros, ventos e astros, até o ponto de

Getúlio Vargas é uma boa escola de derrotas”, es-

A crônica é sempre pessoal.

receber do amigo Augusto Ruschi o nome de uma

creveu quando da morte do presidente.

RB

orquídea (Physosiphon Bragae Rucshi), Braga foi

Sua proximidade com os comunistas – a pon-

um defensor feroz do meio ambiente. Quem sabe

to de se casar com uma militante – foi insuficiente

Genial. Com que outra palavra se pode definir

venha daí sua extrema sensibilidade ao observar

para deter seu senso crítico: sempre achou mui-

quem começa a escrever aos treze, torna-se cro-

as artes plásticas e, claro, o comportamento dos

to estranhas as alianças de conveniência e nun-

nista regular aos quinze e correspondente de guer-

homens – segundo Nélida Piñon “Rubem não es-

ca aceitou que cerceassem a liberdade do pensar.

ra aos dezenove anos de idade? Por isso, Rubem

crevia sobre aspectos visíveis da cidade e sim sobre

Talvez por isso tenha sido considerado subversivo

Braga jamais abandonou o ofício – mesmo nos

o que há de delicado e ambíguo”.

pela direita e inconfiável pela esquerda. Sua breve

momentos em que esteve embaixador. Ou quando

Com relação às mulheres, Rubem Braga foi

passagem pela política partidária se dá no nas-

precisou ser um repórter anônimo, especialmente

bastante além da observação: esteve no papel de

cedouro do PSB (Partido Socialista Brasileiro), na

quando apelou a pseudônimos e, com grande bri-

profundo apreciador – dedicado e incansável con-

qualidade de fundador e organizador do partido.

lho, até os últimos dias de vida. Não considerava

quistador. Andava sempre envolvido com uma ou

Mas pouco permanece. A atividade política mais

um trabalho fácil, mas era o que gostava e sabia

mais mulheres, todas belas e instigantes. O caso

qualificada ocorre nos momentos em que repre-

fazer como ninguém. Ainda hoje, ao apanhar uma

mais tórrido talvez tenha sido com Tônia Car-

senta o país no exterior: durante o governo Café

crônica escrita na década de 1930, 40 ou 50, fica-

reiro que, para a irmã Yedda, fora o pivô de seu

Filho, ocupa importante cargo na Embaixada Bra-

mos encantados com a clareza, fluidez e carga de

desquite com Zora. Possessivo com suas paixões,

sileira no Chile; mais tarde, assume como Embaixa-

subtexto contidas nas palavras. Um trânsito perfei-

Rubem nutria ciúmes tardios com antigas namo-

dor em Rabat, Marrocos.

radas e competia arduamente com outros grandes

Na maturidade, Rubem Braga se torna uma

conquistadores: viveu numa época com muitos

voz tão clara e respeitada que pouco sofre durante

amigos galanteadores. Motivo para sua eterna an-

os anos de Regime Militar pós 1964. Jamais deixa

tipatia com Tom Jobim que, além de ter aliciado Vi-

de ser contundente no que escreve (e passa por

nícius de Moraes para a música, era imbatível pela

quase todos os principais veículos da imprensa

bela figura e manejo do violão. Mas, na verdade,

escrita), mas o fato de ter sido companheiro de

poucas resistiram aos encantos do velho Braga.

muitos oficiais durante a campanha da FEB durante a Segunda Grande Guerra o deixa menos

Um homem político Que Deus e Vargas estejam convosco. A mim ambos desamparam; mas o momento não é de queixas, e sim de luta. RB Considerando a imprensa como um quarto poder em nossa sociedade, teremos em Rubem Braga, com sua coerência e integridade, um raro exemplo aos homens públicos. Solidamente identificado com o que há de mais justo e puro no ideário da esquerda, soube ser crítico a todos os

vulnerável. Durante toda sua vida, o cronista foi


literatura

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

64

to entre o coloquial e o sofisticado, entre o super-

contrato com a Rede Globo. A adaptação ao ve-

ainda mais somando ao grupo Sérgio Porto e

ficial e o profundo, entre o original e o consenso.

ículo que se tornava hegemônico no jornalismo

Nelson Rodrigues (fora os escritores já citados).

Uma luz rara sobre os acontecimentos cotidianos.

não foi muito fácil, o que fez dele alguém pouco

Uma geração de ouro no gênero. Rusgas, quando

Até mesmo quando foi correspondente de guer-

presente nas redações televisivas.

houve, talvez tenham sido motivadas por alguma

ra – único repórter que cobriu a rendição alemã

Reconhecendo-se “apenas um cronista tri-

no Monte Castelo –, tratou de oferecer uma visão

vial lírico variado”, Rubem Braga se transformou

surpreendente do que vira, presente no livro Com

em algo muito maior do que o quieto homem

Interessante lembrar que Rubem Braga era

a FEB na Itália, crônicas.

que, segundo o próprio, se satisfaria em ser um

alguém de raros sorrisos e poucas palavras, um

maratimba: simples pescador. Tornara-se um dos

carrancudo (mais tarde um ranzinza) cercado de

intelectuais mais influentes de seu tempo.

pessoas. Alguém cuja personalidade se compu-

Braga foi cronista e repórter em todas as cidades em que morou – e não foram poucas até se estabelecer definitivamente no Rio de Janei-

mulher, uma vez que todos, além de Rubem, eram homens sedutores e orgulhosos disso.

nha de paradoxos: num só tempo desorganizado

ro, em Copacabana. Esteve em redações de Belo

Uma vida entre amigos

e produtivo, ensimesmado e popular, urbano e do

Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Recife etc.,

Éramos três velhos amigos e cada um

mato, conservador e revolucionário, melancólico

algumas cidades em mais de uma oportunida-

estava tão à vontade junto dos outros

e engraçado, canalha e terno, desapegado e ciu-

de. Enquanto escrevia para os veículos de Assis

que não tínhamos o sentimento de estar

mento... Fiel a si, antes de tudo. E transformava

Chateaubriand, suas crônicas eram reproduzidas

juntos, apenas estávamos ali.

este compromisso em generosidade.

em todas as cidades onde houvesse jornais dos

RB

Diários Associados, algo que o fez reconhecido

Uma personalidade tão complexa, aliada a uma mente inquieta e a um corajoso senso de

em todo o território nacional. Editou revistas

Rubem Braga descobriu muito cedo o sig-

liberdade forjaram o cronista mais respeitado,

culturais e políticas de maior e menor expressão,

nificado das amizades e da boemia: Sérgio Buar-

seguido e amado do Brasil recente. À crônica,

além de contribuir para periódicos dessa nature-

que de Holanda, que vivera um curto período em

por ser um gênero ambíguo desde a sua gênese,

za. Esteve na revista Manchete desde o primeiro

Cachoeiro do Itapemirim, lá formou entre os Ca-

é natural ter em Rubem Braga seu nome maior:

número, também na Revista Senhor, e escreveu a

choeirenses o Clube do Alcatrão (nome dado por

ele nasceu para ser cronista. E, tramando para

coluna Trivial Variado no Caderno B do Jornal do

causa do conhaque São João da Barra). O incrível

sua vida um final digno de uma costura perfeita,

Brasil, para citar publicações bem representativas.

é que entre eles já estava o filho do prefeito, rapa-

ao adoecer, ele contrata sua cremação e pede

Nem suas estadas no exterior, por Paris, Santiago,

zola ainda chamado de Rubinho. Por toda a vida,

que as cinzas sejam atiradas no rio da infância,

Rabat, o afastaram de seu público leitor. Leitores

o cronista estaria cercado de amigos e ocupando

sem fotos ou discursos. É o velho Rubinho de

que, por sua vez, transformaram seus livros de

mesas de bar, dividindo apartamentos e redações,

volta ao Itapemirim. E a lágrima ali despejada

crônicas em grandes sucessos editorias.

frequentando jantares. Seria uma boa tarefa de

foi, segundo suas próprias e inaugurais palavras,

Sempre atrás do dinheiro que tanto lhe

gincana descobrir, entre os escritores, jornalistas,

“talismã encantado”.

faltava, Rubem Braga atuou também como tra-

artistas, músicos, artistas plásticos e personalida-

dutor. Mais tarde, em sociedade com Fernando

des representativas no século 20, quais não eram

Sabino, abriu a Editora do Autor, empresa que

ou gostariam de ter sido amigos do ranzinza Bra-

nasceu publicando Sartre com enorme sucesso

ga. De Clarice Lispector a Rachel de Queiroz, de

e, de êxito em êxito, marca a história em sua

Álvaro Moreyra a Chico Anysio, de Carlos Scliar

época. Depois de vendê-la à Editora José Olym-

a Di Cavalcanti, de Dorival Caymmi a Vinícius de

pio, casa que abriga muitos dos seus títulos,

Moraes, de Drummond a Bandeira, de Carlos Re-

como O conde e o passarinho, O homem rouco

verbel a João Cabral, de Jorge Amado a Ferreira

e A borboleta amarela, a dupla Braga e Sabino

Gullar, de Carlos Prestes a Monteiro Lobato, todos

lançaria a Editora Sabiá. Esta, reforçando o bom

e muitos mais foram próximos de Rubem Braga.

olho de ambos para autores em ascensão, trouxe

Claro que alguns foram mais achegados.

para o Brasil, por exemplo, Cem anos de solidão,

Entre eles, os jornalistas Otto Lara Resende, Pau-

de Gabriel García Marques. Ao final, com mais

lo Mendes Campos, Moacir Werneck de Castro,

de cinquenta anos de crônica na bagagem, ain-

Antônio Maria e o sócio Fernando Sabino. Aliás,

da aceitou o desafio de escrever para a TV, em

formaram uma estirpe de cronistas inigualável,


LEITURA

PRIMEIRO SEMESTRE

2013

65

Criança Pensa

Jogo de Varetas

Lya Luft e Eduardo Luft

Manoel Ricardo de Lima

The Pedro Almodóvar Archives

The nature of photography

Editora Galerinha Record

Editora 7 letras

Paul Duncan e Bárbara Peiró

Stephen Shore

Taschen

Editora Phaidon

Criança pensa é um livro que tenho

Quem nunca brincou de jogo de

Lançado paralelamente ao seu

No livro The Nature of

um carinho especial, pois em 2010 a

varetas? Eram coloridas, feitas

último filme, A Pele que Habito, The

Photography, o artista americano

Cia. Teatro Novo adaptou esse texto

de madeira e não raramente

Pedro Almodóvar Archives revisita

Stephen Shore propõe uma

de Lya Luft e seu Filho Eduardo

espetavam a parte inferior da

a colorida e subversiva carreira

reflexão através de imagens

Luft para o teatro, sob direção de

unha. Hoje, as varetas são feitas

do espanhol Pedro Almodóvar em

e textos sobre a natureza da

Ronald Radde, em que interpretei

de plástico e têm as pontas

uma viagem aos bastidores de

fotografia nos dias atuais. De

três personagens bem diferentes,

arredondadas. Jogo de Varetas,

seus 18 filmes (longas). Em um

que modo olhamos as imagens

Tio Bruno, Gigante Dandão e o

de Manoel Ricardo de Lima,

remix de referências de Douglas

hoje e quais as características

Filósofo da Floresta, o que me

é um convite à leitura afiada.

Sirk até John Waters, o universo

pertinentes às mesmas, pergunta

rendeu um Tibicuera de melhor ator

Como as antigas varetas, os contos

"almodovariano" experimenta,

o artista. Shore descreve aspectos

coadjuvante. Essa história mostra

que compõem o livro insinuam

provoca, perpassando por temas

formais de diversas fotografias

aos pequenos que Pensar é ótimo!

relações, estas sempre abertas

difíceis como gênero – assunto

buscando encontrar instrumentos

Pensar com os outros, com os

e oferecidas ao pontiagudo e

recorrente em seus filmes – de

e estratégias utilizadas por

amigos, com os pais, professores e,

perigoso jogo de leitura. Suspensos,

uma forma pouco usual. Com

fotógrafos para a construção e

principalmente, consigo mesmo. É

os personagens erram por um

personagens fortes e complexos,

interpretação de imagens.

maravilhoso crescer questionando

cotidiano que não oferece saídas

prostitutas, travestis, freiras, o

Para tal, o artista agrupa

o mundo, fazendo as perguntas

prontas e arredondadas, como o

olhar de Almodóvar tornou-se uma

fotografias de diversos autores

essenciais, mesmo que nem sempre

próprio cotidiano. O leitor, ao final,

referência cinematográfica, e o

em quatro grupos distintos,

encontremos a resposta. Nesta

dirá que os contos versam sobre

espanhol abre seus arquivos com

produzindo relações de tensão e

busca, filósofos e crianças não

amor (ou abandono).

fotos inéditas acompanhadas de

aproximação entre as imagens.

poderiam ser mais próximos. Com

Eis a delícia do livro. Ninguém sai

textos escritos por reconhecidos

Infelizmente, o livro ainda não

sensibilidade e bom humor, Lya

deste 'Jogo de Varetas' ileso, sem

autores espanhóis e pelo

foi lançado no Brasil, mas está

Luft e Eduardo Luft, que é filósofo,

entregar-se um pouco (ou muito).

próprio diretor.

disponível na Amazon.

abrem um espaço para a filosofia e

Destaque para a bela capa da artista

mostram que criança pensa, sim!

portuguesa Rachel Caiano.

Leonardo Barison

Luciano Bedin da Costa

Camila Franco Monteiro

Romy Pocztaruk

Ator e produtor cultural

psicólogo, doutor em Educação

Jornalista e mestre em Mídia, Identidade e Tecnologia

Artista visual



DESCENTRALIZAÇÃO DIVERSIDADE E ABRANGÊNCIA



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