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Memórias ilustradas LGBT 1ª edição - São Paulo - 2016

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Realização:


Créditos Autor Coletivo HLGBT Coordenação Gustavo Ribeiro Sanchez Editor Thiago Majolo Pesquisadores Maiara Henrique Moreira Maurício Rodrigues Pinto Projeto Gráfico Beatriz Cafaro Licença:


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Uma primeira Palavra Nutrido pelo compromisso de dar visibilidade às histórias de vida de pessoas da comunidade LGBT*, surgiu, em junho de 2015, o coletivo HLGBT. No processo de construção de identidade e na descoberta da sexualidade, muitos jovens sofrem com a falta de referências positivas de outras vivências LGBT e, muitas vezes, enfrentam sozinhos as consequências de se ver como diferentes em uma sociedade que impõe tantos padrões e condutas. O acesso à informação sobre uma comunidade tão diversa, que não cabe em uma sigla, tem ganhado cada vez mais espaço na internet e outras mídias, contribuindo com a desestigmatização dessa população. Fazem parte do grupo artistas visuais, designers, editoras, escritoras, pesquisadoras, professoras, quadrinistas etc e temos como missão maior pôr em pauta essas memórias cotidianas e corriqueiras por meio da arte.

100 histórias compartilhadas, das quais foram selecionadas, por representantes do coletivo, as 20 que tocaram em temas de relevância à comunidade. Dentre os critérios adotados pelo coletivo, além da escolha de bons contadores, foram levados em consideração a representatividade das variadas identidades de gênero e orientações sexuais que compõem o universo LGBT e a maior amplitude e diversidade étnica, social e geográfica. Selecioná-las foi uma tarefa árdua, mas, também, um exercício de empatia e alteridade. As memórias que você vai visitar nas próximas páginas foram resultado de entrevistas de história oral, presenciais ou remotas, uma metodologia de trabalho que privilegia o diálogo e a oralidade visando dar voz e pertencimento histórico àqueles e àquelas que ficaram alijados de processos históricos e do direito à memória, criando, assim, espaços de inclusão e pertencimento social.

Como resultado desse trabalho nasceu o livro que você tem em mãos agora, feito de histórias de pessoas comuns que estudam, trabalham, amam, sofrem e sonham. São histórias de pessoas que, como você, vivem diariamente à procura de um sentido para suas próprias vidas. São vinte histórias de vida ilustradas por vinte artistas.

Este livro é um convite para uma jornada nas vidas de pessoas comuns que nos emocionaram e ousaram colocar a cara no Sol, amar, ter fé, transar, casar, fugir, enfrentar os medos e preconceitos e, principalmente, ser quem escolheram ser para suas próprias vidas.

O projeto teve início com a campanha online #VozesLGBT, que estimulou a contação de histórias de vida da comunidade LGBT nas redes sociais. Ao todo foram mais de

*Outras formas encontradas são também o LGBTT ou LGBTQ. Optamos pela sigla LGBT seguindo o padrão utilizado pelo edital 26 de manifestações culturais LGBT do Programa de Ação Cultural.

Boa leitura!

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ÍNDICE


10 Beatriz Marsili Chico 16 Roberta Caroline Silva de Araújo 18 Kaiool Leonard Teixeira da Silva 22 Camila Jacini da Silva 26 Maria Estela Pop Veneziane 30 Matheus Vinicius Berocal 34 Paloma Cesario da Silva 38 Fabia Fuzeti e Gabriela Torrezani 46 Carlos Renato Lima 50 Daniele Cristina da Silva 54 Valder Bastos Santos (Drag Queen Tchaka) 58 Elizeu Felix de Melo 62 Celso de Britto 66 Ana 70 Fernando Stoeberl Júnior 74 Pedro Henrique Lopes 78 Luis Arruda 82 Thara Wells 86 Luan Romano da Silva 91 #Vozeslgbt: Nosso jeito 92 Ficha Técnica 94 Mini Biografias


Mulher é tudo de bom Beatriz Marsili Chico, 21 anos, Arujá/SP Eu era uma criança muito agitada, jogava futebol, vôlei, escalava barrancos. Eu sempre fui muito moleque, minhas bermudas eram floridas com aquela camiseta do Taz horrorosa; eu usava um topete, era muito engraçado.

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Quando eu tinha entre dezessete e dezoito anos, percebi que tinha uma coisa diferente dentro de mim. Eu ficava com os meninos e não sentia nada, era horrível. Eu tentava beijar meninos e ver se eu gostava de algum deles, mas nunca sentia nada. Fui sentindo algo dentro de mim e comecei a perceber que eu tinha atração por meninas, mas eu achava errado, negava. As pessoas sempre falavam “Ah, Maria macho, é menino”, e eu sempre negava “Não, eu gosto de homem!”. Isso me fazia muito mal. Comecei a me afastar da minha família. Meus pais me perguntavam o que eu tinha, e eu não dizia, mas eu estava muito mal. Como eu morava numa cidade pequena, não tinha contato com outros gays ou lésbicas, então nunca pensei que eu pudesse ser.

Ao sair do colégio, fui direto para a faculdade cursar Educação Física, na USP, e pela primeira vez eu tive contato com garotas lésbicas. Achava legal, só que, quando eu treinava, não gostava que as meninas olhassem para mim. Aquilo foi me deixando mal e eu acabei saindo da faculdade depois de um ano e meio, ainda com essa insistência de que eu gostava de homem. Então, fui cursar Gastronomia. Nessa nova faculdade eu tinha uma amiga lésbica e ela começou a me apresentar esse universo. Foi quando eu entendi que era isso mesmo, eu gostava de mulher! Essa amiga sempre me acolheu, me respeitou, ela falava para eu ir devagar, respeitar o meu tempo, até descobrir do que eu realmente gostava. A primeira vez que eu fiquei com uma menina foi mágico. Eu estava em uma balada decidida a ficar com uma menina para saber como era. Foi quando uma amiga me apresentou para uma garota e me incentivou a ficar com ela. Entrei num mundo novo, totalmente diferente de ficar com um menino. Senti uma coisa muito boa. E assim eu comecei a pesquisar séries, filmes, livros, tudo que tivesse relação com o universo LGBT. Eu lia para poder entender e percebi que eu era mesmo lésbica. Foi quando eu resolvi contar para os meus pais e minha família e tive muito medo do que poderia acontecer. A primeira pessoa da minha família para quem eu contei foi a minha irmã. A gente estava numa festa de aniversário e ela ficava falando pra mim “Bia, olha aquele cara. Fica com ele! Ele é maravilhoso, vai lá...”... Aí eu falei pra ela “Duda, tenho uma coisa


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Artista: Deborah Saviano

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séria pra te falar”, “Você é sapatão, né, Bia?”, “Sou!” e ela começou a rir e a chorar “Eu sabia!”. Percebi que ela ficou bem mal, com cara de choque e ela me disse que no dia seguinte eu teria que contar pra nossa mãe. Quando a gente acordou, minha irmã chamou minha mãe no quarto dizendo que eu tinha algo pra falar pra ela. “Você tá usando droga, né, Beatriz...” ,“Não mãe, eu sou gay!”, “Você tá falando sério?”, “Tô mãe!”. Aí choramos juntas, ela me abraçou e disse que ia continuar me amando e que eu não deixaria de ser a filha dela. No dia seguinte eu fiquei até tarde no cursinho pra jogar futebol. Quando cheguei em casa, meu pai estava tomando banho e elas disseram que já tinham contado pra ele. Eu preferi assim, porque eu não queria ter que falar. Ele estava sentado quando elas contaram “Mauro, a gente tem uma coisa séria pra te dizer”. Ele se arrumou na cadeira, preocupado, e elas falaram “A Bia é gay” e ele de imediato “Nossa, que bom, achei que alguém tava com câncer...” e todos eles caíram na risada. Quando meu pai saiu do chuveiro e desceu a escada eu estava jantando. Nos olhamos, eu dei uma risada, e ele também riu e me disse “Eu te entendo filhinha. Mulher é tudo de bom!”. Foi um alívio mui-

to grande e eu quis contar pra minha família inteira. Quando surgiam assuntos sobre lésbicas ou gays na família, a gente ria ou sofria por dentro. Eu não sei como seria a minha vida se a minha família não tivesse me aceitado. Eu tive muita sorte de ter sido aceita. A maioria dos meus amigos que são gays ou lésbicas não recebem apoio da família, incluindo uma menina com quem eu ficava. Entender que eu sou lésbica me permitiu ser eu mesma. Eu não preciso esconder nada de ninguém e eu conheci pessoas novas muito especiais. O que mais mudou foi realmente poder ser eu mesma, sem medo, vivendo da forma que eu quero viver, sem ter que agradar outras pessoas. Quando você é diferente, você passa a ficar atento à forma como as pessoas se relacionam com você, em função dessa diferença. Algumas te tratam bem, outras muito mal. Ser diferente em uma sociedade em que não é normal ser diferente é difícil. Hoje, eu sonho em ter minha família, minha mulher e meus filhos.

“Quando eu fiquei com ela foi como entrar num mundo novo, totalmente diferente de ficar com um menino. Senti uma coisa muito boa.“

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Nunca mais sozinha Roberta Caroline Silva de Araújo, 19 anos, Carapicuíba/SP

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Minha relação com a minha família era muito boa até os meus doze anos. Eu convivia com eles e fazia todas as vontades dos meus pais. Aos doze a minha prima me contou que ela tinha ficado com uma garota. Eu achei meio estranho no começo, mas eu sabia que eu estava pensando sobre isso. Fui criada na igreja, meu pai tinha uma congregação, e não sabia o que estava passando com meus sentimentos. Nessa época teve uma modinha emo e eu andava toda colorida. Meu pai foi pesquisar o que era emo, e a primeira coisa que apareceu foi “Tudo o que cair na rede é peixe” e tinha muita coisa falando que levava pra bissexualidade. Ele começou a me proibir das coisas, não me deixava mais sair, não me deixava ver a minha prima. Quando ele viu que não ia ter jeito, me mandou embora pra Paraíba. Eu tinha treze anos. Continuei minha vida, fui estudar, e o sentimento continuou. Foi quando fiquei com a primeira menina, aos quinze anos. Aos dezesseis anos, teve

uma feira de Ciências e lá eu conheci uma menina e ficamos. Meus pais viram. Ele já chegou em casa me empurrando. Começou a me bater, me deu um soco no rosto, meu nariz começou a sangrar e eu negava, dizendo pra ele que eu não ia mais ficar com meninas, que eu tinha me arrependido, que Deus tinha me curado. Meu pai começou a me proibir das coisas de novo. Eu ia pra igreja, fazia parte de todos os grupos, mas foi passando o tempo e eu percebi que aquilo não ia dar certo. Comecei a levar uma vida dupla, tinha um piercing escondido e duas contas nas redes sociais. Um dia eu estava mexendo no perfil que mostrava meu piercing e só senti meu pai me empurrando da cadeira. Ele começou a olhar tudo no meu Facebook, e encontrou várias conversas. Eu tinha dezesseis anos, conversava sobre sexo, drogas, eu tinha curiosidade porque eu era muito privada de tudo. Ele gritou, perguntando o que era aquilo, e eu não sei de onde eu tirei tanta coragem naquele momento e gritei falando que eu era assim mesmo e que ele não ia me mudar. Eu estava chorando, me sentia queimando, e lembro que não parava de falar e me empurrou. Quando eu virei pra correr, ele pegou a vassoura e me bateu nas costas. O cabo da vassoura até quebrou. Ele respirava tão fundo, ofegava, parecia um cachorro. Foi aí que eu saí de casa. Mas eu não fugi definitivamente. Como eu era menor de idade eu passei duas, ou três semanas fora. Só fugi porque meu pai tentou me matar. Fui pra uma outra cidade, na casa de uma amiga, e foi


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Artista: Amanda Fiorio

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“Se eu passei por isso, muitas pessoas vão passar também. Quando tudo começou, eu não tinha amigos de verdade com quem contar. ” de lá que uma tia minha me ligou, pedindo pra eu voltar pra casa, que a minha mãe estava muito triste e que ela não ia deixar ninguém, nem meu pai, fazer nada. Na rodoviária, meu pai já me pegou, jogou no carro e eu comecei a gritar e chorar. Ele me levou direto pra delegacia, e o delegado me perguntou porque eu tinha feito aquilo. Eu mostrei as marcas de todas as vezes que meu pai tinha me batido. Me colocaram sob custódia do Conselho Tutelar durante seis meses. Meu pai rasgou meu encaminhamento pro psicólogo, dizia “Eu prefiro pegar na alça do seu caixão do que ver você andando de mão dada na rua com outra nega”. Nessa época meus pais vieram pra São Paulo. Eu morei sozinha durante um tempo, mas pela falta de dinheiro acabei vindo morar com eles em São Paulo. Eu tinha só dezesseis anos. Um dia eu cheguei em casa e minhas roupas estavam todas em sacolas de mercado. Minha mãe falou que meu pai não me queria mais em casa, que eu tinha completado dezoito anos e tinha que tomar meu rumo. Foi quando eu liguei pro Leandro, um amigo, e a mãe dele falou “Vem pra minha casa”. A melhor coisa do mundo é você ter uma família. Foram só oito meses morando com eles, mas foram oito meses em que

eu aprendi o que é ter uma família de verdade. Eu ganhei uma nova família. Comecei a trabalhar, e teve um momento que me marcou muito: as minhas irmãs descobriram que eu estava trabalhando, e contaram pra minha mãe. Ela me ligou e eu chorei só por ter ouvido a voz dela. Depois de três palavras, ela veio me pedir dinheiro. Nessa época eu já estava morando sozinha e encontrei uma pessoa, que foi com quem me casei. Hoje eu acho que foi a melhor coisa que eu fiz, eu amo a pessoa com quem eu estou, sou feliz e vai fazer três meses que estamos morando juntas. O casamento civil ainda não rolou, mas pretendo em breve. Se eu passei por isso, muitas pessoas vão passar também. Quando tudo começou, eu não tinha amigos de verdade com quem contar, e eu não tinha uma pessoa que falasse “Carol, está acontecendo isso, isso e isso, eu já passei por isso e vai dar tudo certo”. Eu me via sozinha, chorava muito, e se eu pensei em contar a minha história, é porque espero que alguém veja pelo o que eu passei e que ela saiba que também vai conseguir passar por isso.


Tudo que o mundo vai me dar Kaiool Leonard Teixeira da Silva, 21 anos, Sorocaba/SP

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Meus pais se divorciaram quando eu estava pra fazer oito anos, então eu acabei me afastando do meu pai. Talvez o motivo que me fez querer ser psicólogo é que sempre tive a mania de observar muito as coisas, sempre fui muito quieto quando estava em família. Eu notava que gostava de colocar roupas que as minhas amigas não colocavam. Eu tinha uma melhor amiga, vizinha minha, que era pra mim uma irmã. Uma vez, acho que eu tinha uns seis anos, sonhei que eu estava debaixo da mesa dando um selinho nela, e eu cresci com aquilo na minha cabeça, pensando no porquê eu tive aquele sonho. E aí fui descobrindo que eu gostava de garotas. Aos meus onze anos eu comecei a criar fakes na internet, perfil de Orkut falso com nomes masculinos, e fiz um fake com o nome Kaiool com a foto de um rapaz do Google. Adorei esse nome, era o nome de um primo meu (Caio), e eu gostei de Kaiool, e eu pensei que queria me chamar assim. Eu não sabia o que era transexualidade, só sabia que eu queria ser chamado por aquele nome.

Eu usava os fakes pra namorar as minhas amigas. Eu dava o amor que elas queriam, mas não me encontrava com elas, lógico, ficava dando desculpas. Pessoalmente, eu dizia para elas que o Kaiool era meu melhor amigo. Quando fui descoberto por umas amigas, pra história do Kaiool ganhar vida eu cheguei a inventar que eu tinha feito um pacto com o diabo e que tinha trocado de corpo com a Isabela, que é o meu nome de registro. Essa história começou a se espalhar e aí passaram a me chamar de Kaiool, mesmo sabendo que tudo aquilo era uma mentira. Pra minha mãe, eu não cheguei e falei “Eu sou um homem trans”, mas ela sempre viu as minhas mudanças. Eu comecei a minha transição hormonal com dezenove anos. Eu não tinha contado pra ela dos hormônios, mas ai a minha voz começou a engrossar, começaram a aparecer alguns pelos. Eu trabalho desde os meus dezessete anos na mesma empresa, e aos dezenove anos eu consegui um convênio médico. Em 2014, eu vi o Erick Barbi na TV e eu fiquei louco. Quando eu procurei uma médica, eu já era maior de idade. A gente conversou, ela disse que nunca tinha visto um caso desse, mas que ela toparia aprender junto comigo. Disse também que ela não me passaria uma receita porque eu não tinha laudo médico, não tinha laudo de um psicólogo, e aí eu fiquei tomando hormônio por um ano e meio sem receita. Hoje em dia tenho enfrentado alguns problemas. Por exemplo, eu precisava abrir uma conta no banco, mas não quiseram colocar o meu nome


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Artista: Pedro Moreira

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social. Mas em questão familiar, meu convívio está muito bem. Em toda a minha família, só a minha mãe é quem insiste em me chamar pelo nome de registro e ainda faz alguns comentários desagradáveis, mas toda família é bem tranquila. Eu namoro a Julia faz três anos. Antes de namorar, a gente era amigo. Ela achava que eu era um garoto cis, que eu tinha um pênis e tudo mais. Eu tinha dezoito anos. Então eu achei que a gente ia começar a namorar e na minha cabeça eu ia fazer ela se apaixonar muito por mim e assim ela ia perceber que não tem diferença do homem cis pro homem trans. Mas foram passando os meses e eu fui perdendo a coragem de contar pra ela. Quando estávamos há um ano e meio namorando, ela começou a querer ter relações sexuais comigo. Eu a chamei pra ir na minha casa, numa noite. Antes, eu pedi pra ela ver com bastante atenção o filme Tom Boy, que eu tinha algo pra comentar. Depois do filme, eu falei “Eu sou homem, mas eu tenho uma vagina, eu nasci com uma vagina” e ela disse “Se for igual ao filme, você é homem, só tem um corpo de mulher”. Eu fiquei de cara “Como essa menina está reagindo assim?”. Esperava uma reação pior e foi totalmente diferente.

Ela disse que me amava e que não tinha problema nenhum, e que ela estaria comigo a todo momento, em toda a minha caminhada, na transição, na terapia hormonal. Ela é minha namorada, minha melhor amiga. Me acompanha, me ajuda a guardar dinheiro pra fazer a cirurgia. Eu trabalho na área de produção há três anos. Eu entrei lá como menina, todo mundo me tratava como Isabela. Depois que eu comecei a transição, minha voz começou a engrossar, e as pessoas começaram a questionar com quem estavam falando no telefone. Eu não sabia que eu tinha direito a nome social naquela época, mas teve um momento que eu disse para a minha chefe, “Eu tenho uma coisa pra te falar, mas não sei como te falar, eu uso socialmente o nome Kaio, será que eu posso falar pras pessoas que ligarem aqui que eu sou Kaio?”. Ela disse “Fica tranquilo. Você sente a necessidade de ser chamado por Kaio aqui dentro?”, “Olha, eu prefiro”, e ela falou “Então, a partir de hoje, você vai ser chamado por Kaio e você vai ser tratado por quem você realmente é”. E de um dia para o outro as pessoas começaram a me tratar como quem eu realmente sou, sem me encher de perguntas, nem nada.

“Eu fiquei esperando outra reação dela e foi totalmente diferente, e ela disse que me amava e que não tinha problema nenhum.“


Irmandade Camila Jacini da Silva, 16 anos, São Paulo/SP

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Eu tive uma infância muito boa. Tive praticamente tudo de bom que uma criança pode ter: brincar na rua, ter muitos amigos. Gostava de bolinha de gude, empinar pipa, jogar futebol – coisa que faço até hoje. Uma lembrança muito boa que eu tenho foi quando minha irmã nasceu, porque parece que eu fiz um papel de mãe pra essa minha irmã, ainda que eu fosse criança. Isso era uma coisa gostosa. Eu tenho um irmão gêmeo, que é um garoto transexual, ou seja, nasceu biologicamente como menina, mas é meu irmão gêmeo agora. Nunca sei responder o que é ter um irmão gêmeo, mas eu o considero como se fôssemos a mesma pessoa: eu me espelhando nele, ele em mim. Ele é transexual, então, quando a gente era menor, era mais complicado: ele já se considerava menino, mas ninguém conseguia aceitar. Ele sempre foi muito - como vou dizer? – do avesso. Quando, por exemplo, minha mãe ia comprar roupa igual, por sermos gêmeos, ele não queria usar saia, e sim bermudão, queria ficar sem camisa, essas coisas. Pra minha mãe era difícil, ver a filha de sete, oito anos que não seguia os

padrões. Na medida em que ele foi crescendo, nos tornamos cada vez mais parceiros, confidentes mesmo. Eu cresci muito dentro da Igreja Católica, então pra mim também não foi muito fácil me entender lésbica. Lembro que ao ver a primeira menina que me chamou atenção, pensei: “Nossa, as meninas gostam dos meninos e eu estou vidrada nessa menina!”. Foi a primeira paixãozinha. Já pensei que eu era diferente. Foi com o tempo que eu percebi que aquilo não era errado, mas que eu não tinha certeza, então ia esperar para contar. Foi difícil eu me aceitar antes de contar pros meus pais. Pensava que ia ficar excluída, não ia me adaptar aos grupos. Sentia como se eu tivesse que viver excluída pelo resto da minha vida. Foi mais ou menos durante um ano, até que minha mãe descobriu. Um dia, eu estava na sacada conversando com uma amiga no telefone e minha mãe pegou o aparelho e leu as mensagens. Ela falou que foi um baque, um susto. Disse que não era o que ela esperava, não tinha criado as filhas pra serem assim. E com a bomba explodindo, meu irmão também contou. Meus pais contaram pra família e todos começaram a dizer que isso eu não podia fazer, que Deus não gostava, eu não iria pro céu. Minha mãe ficou bastante transtornada com isso. Meu pai, uma vez, disse que se ele me rejeitasse, estaria me jogando pro mundo, e ele tinha que me trazer pra perto. Não que ele fosse aceitar de cara, mas iria respeitar e tentar me aceitar, porque o mundo lá fora podia ser pior sem a aceitação deles. E hoje


“O processo do meu irmão me ajudou bastante. Comecei a perceber com ele que não tinha nada de errado em ser assim. A gente ainda caminha junto, e eu sinto força nele. “ ele e minha mãe me aceitam e nossa convivência é boa, como qualquer família. Passei também por essa fase de aceitação na escola. Eu via pessoas como eu, e isso me tranquilazava de certa forma. Ainda assim algumas pessoas não queriam ficar perto, como se fosse algo contagioso. Ainda hoje é assim, acham que você vai dar em cima das meninas só por ser lésbica. Então tinha a balança conforto-desconforto, gente que gosta e apoia e gente que não. O processo do meu irmão me ajudou bastante também. Mesmo eu me assumindo primeiro, comecei a perceber, com ele, que não tinha nada de errado em ser assim. Pensava “Vou ajudar meu irmão e ele me ajuda”. A gente ainda caminha junto, e eu sinto força nele porque é mais difícil aceitarem ele do que a mim, o que faz com que eu não me prive de lutar. Na escola, inclusive, quando via aqueles comentários de que as meninas não podiam usar shorts, por exemplo, porque isso era um convite para os meninos passarem a mão nelas, pensava que era um absurdo. Foi quando surgiu minha aproximação com o feminismo. Comecei a pesquisar sobre o assunto,

ver pessoas que também eram feministas e formular meu pensamento. Não acho que o feminismo é odiar os homens, mas trata apenas de igualdade de gênero. Até meu irmão, quando ele era menor, também achava que eu não podia usar essa ou aquela roupa. Meu pai também era bem machista e ainda é um pouco rígido, mas eu converso muito com ele e acho muito bom ver que as pessoas mudam, que a gente pode influenciar uma pessoa. Quando eu resolvi dar essa entrevista, foi um pouco disso. Queria que as pessoas soubessem que não é uma coisa diferente, é normal. Se olhar pras coisas que faço, por exemplo, são todas normais: sou até caseira, gosto mais de reunir a galera em casa, conversar. Nós não somos monstros, como acham. Não temos que ser julgados por isso. Acho que o amor entre pessoas não pode ser visto como uma coisa errada, nunca! A gente não está fazendo nada além de amar uma outra pessoa.


Artista: Fernanda Ito

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Bi por decisão Maria Estela Pop Veneziane, 32 anos, São Paulo/SP

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Na infância, eu morava na casa da minha avó, junto com uma família bem grande. A minha avó casou e teve três filhas mulheres. Ficou viúva e nunca mais se relacionou com ninguém. Tanto minha mãe como as duas irmãs dela casaram e continuaram morando com a minha avó.Todas tiveram filhos, então ficou aquela casa cheia de gente. Eram ao todo treze pessoas morando na mesma casa. Uma casa grande, de esquina. Eu tenho uma irmã, que é cinco anos mais velha que eu. Na infância, a gente nunca foi muito próxima, mas eu estava sempre observando ela, vendo o que ela assistia, o que ela ouvia. Nossa

amizade, de conversar, de se abrir, começou a surgir na pós-adolescência. Minha irmã é lésbica e eu fui a primeira pessoa pra quem ela falou isso. Um dia ela me contou uma história “Lembra que eu saí? Então, fiquei com uma pessoa na balada.” Perguntei “Quem?”. Ela falou quem era e eu respondi “Mas justo a Fulana, pensei que era a Ciclana. A Fulana é tão feia!”. E minha irmã disse “Você está falando que ela é feia! E eu estou te falando que fiquei com uma menina!”. “Não importa. Mas que fique com uma bonita, pelo menos”. A gente caiu na risada. Aquilo era irrelevante pra mim. Eu diria que a minha irmã sempre foi minha melhor amiga . Sempre quis ser como minha irmã, porque ela é muito inteligente e admirava o fato dela saber muito sobre tudo. Ela foi uma referência de buscar, de entender melhor sobre os assuntos e de nunca ter certezas absolutas. Quando ela me contou da experiência dela, eu vi uma possibilidade para mim. Abriu esse leque. Eu comecei a fazer teatro nova, aos doze anos de idade, então, estava acostumada a ver menina beijar menina e menino beijar menino. Não foi estranho. Minha família gosta muito de teatro, de

“O teatro é um processo de busca, de entendimento, que nos aproxima das questões humanas. Lá você não tem gênero, você é uma expressão. “


artes. Eu fui fazer teatro e amei. O teatro fez eu ser o que sou hoje. Ele e a minha irmã são as maiores referências que tenho na minha vida. O teatro é um processo de busca, de entendimento, que nos aproxima das questões humanas. Lá você não tem gênero, você é uma expressão. Quando você tem doze anos de idade, trabalhar com isso é revolucionário. Nessa questão da sexualidade, dos tabus do corpo, do toque, é uma revolução. Meu pensamento atual é que todo mundo é bi. Antes eu tinha esses pensamentos e reprimia, porque a sociedade nos encaminha pra um lugar, e o que não é esse lugar, a gente reprime. Meu plano mental sempre esteve a vida inteira virada pros dois lados. Eu pensava “Eu estou louca! Minha irmã é sapatão e eu sou o quê? Louca?”. Existe essa cobrança de que você precisa decidir, sem saber que já está decidido. Gostar de meninos e meninas já é uma decisão. Teve um terapeuta que me falou “Mas quem está te cobrando decidir alguma coisa?”. E depois que ele me questionou isso, eu pensei “Ninguém, eu mesma”. Foi pelas outras pessoas que eu descobri que era bi. Meu pai é muito de boa. Minha mãe tem mais a questão da família, da aparência, de estar tudo muito bonito. Como a minha irmã contou que era lésbica e não teve uma aceitação muito positiva, você acha que eu ia sentar num jantar de família e falar “Eu sou bi!”? Nunca tive essa conversa com eles, mas também nunca escondi. O meio que eu vivia já era muito LGBT, então eu contava pra minha irmã assim “Fiquei

com uma menina hoje”. E ela dizia “Para com isso! Você é hétero”. Acho que o medo da minha irmã era que eu fizesse essas coisas por influência dela. Ela se sentia responsável, com medo de que eu passasse pela repressão que ela viveu. Hoje eu não gosto da palavra “militante”, que vem de “militar”. Mas as pessoas sempre cobram da gente bandeiras. Se eu levanto a bandeira de ser sapatão e depois fico com um cara, o movimento inteiro me questiona. Isso é um peso muito grande. É importante ter visibilidade lésbica, mas não era pra mim. Foi libertador quando me falaram “Você é bi.”. Porque eu podia também ficar com meninos sem culpa. Aprender que ser bi é uma escolha e não uma indecisão foi a parte mais importante, até pra poder estar em paz e pra poder estar aqui falando sobre isso.


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Artista: Maria Rita


Meu mundo caiu Matheus Vinicius Berocal, 22 anos, Mirassol/SP

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Lembro que quando eu era criança, sempre brincava de boneca com a minha prima. Ela colocava a boneca dentro da camiseta pra parecer que estava grávida, mas quando minha prima saía de perto, eu colocava a boneca na minha camiseta, porque eu é que queria ficar grávida. No interior, quando aparecia um gay na cidade, meus avós falavam “Que pouca vergonha!”. Lembro do meu pai falando “Deus me livre disso!”, e eu me perguntava “Será que eu sou assim?”. Eu tive uma infância muito confusa. Sentia que eu sabia quem eu era, mas dentro de mim eu queria brigar e dizer que era só uma fase. Lembro do Edenilson, acho que eu tinha entre oito e nove anos, ele era o menininho mais bonito da sala e todas as menininhas eram apaixonadas por ele, inclusive eu. Apesar de saber e sentir essas coisas eu não me aceitava mesmo, isso é fato, tanto que eu tentei suicídio quando eu tinha dezesseis anos. Peguei uma cartela de remédio pra dormir do meu tio, coloquei no fone de ouvido uma música da Maysa, que é uma cantora por quem eu sou apaixonado,

e pensei “Pronto, acabou, agora eu vou ter paz!”. Quando eu acordei no hospital depois de uma semana, todo mundo me questionava, e eu respondia dizendo que só queria dormir um pouco, não estava passando bem, que era semana do vestibular. Mas na verdade não era isso, eu queria me livrar de mim. Cresci num meio evangélico. Eu sempre fui apaixonado em ir à igreja, lá eu cantava e participava de vários eventos, essa coisa da igreja sempre foi muito forte em mim. Lembro que tinha aquelas correntes de oração, em que o pastor chamava para a frente do altar as pessoas que estavam precisando de oração, e eu ia. Quando ele pedia para fazermos um pedido, eu abaixava a cabeça e pedia a Deus “Eu não quero sentir atração por homem; eu quero, eu preciso ser hétero”, e ficava ali imaginando uma mulher pelada. Eu passei a minha adolescência inteira de joelhos, orando para que eu fosse hétero. No colegial, foi a primeira vez que eu tive realmente contato com alguém homossexual, que foi uma amiga lésbica. Ela me indicou muitas coisas que abriram a minha mente e que me fizeram pensar “Poxa, eu não sou sozinho aqui, tem mais gente assim.”. Ela me indicou um filme, Do começo ao fim, e me disse que podia ser muito interessante. Cheguei em casa, baixei o filme e, de madrugada, quando todo mundo foi dormir, assisti sozinho no meu quarto. Quando ingressei na faculdade de Letras, conheci o Renato. O Renato foi o primeiro homem que


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Artista: Izumi Sanma (IZM)

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“‘Eu não quero sentir atração por homem; eu quero, eu preciso ser hétero’. Eu passei a minha adolescência inteira de joelhos, orando para que eu fosse hétero. “ eu beijei, com quem eu transei, o primeiro homem de tudo. A gente já estava ficando, num relacionamento meio sério, as pessoas da faculdade já estavam percebendo e eu sentia que devia falar para a minha mãe. Lembro que estávamos almoçando e ela me perguntou “Matheus, afinal de contas, por que você não fala nada da sua vida amorosa?” Quando conversamos e eu contei, ela ficou me olhando fixa, com a mão no queixo. Me pediu então pra eu dar uma volta e quando voltei, perguntei “Você não vai me mandar embora?” e ela me respondeu “Não! Jamais eu vou fazer isso com você. Você é meu filho! Eu só não quero que você abandone Deus.”. Foi nesse momento que eu vi que a minha mãe era realmente mãe. Isso foi na quarta-feira, e na sexta-feira da semana seguinte o Renato foi na minha casa e ela fez janta pra ele. Tudo foi tão diferente do que eu imaginava. E aí chegou o momento de assumir para os meus avós. Como meus avós são muitos brincalhões, minha avó me perguntou “Você está dando o cú, Ma-

theus?”. Depois disse, em tom de brincadeira, que o cú era meu e que eu podia fazer com ele o que eu quisesse. Uma prima minha disse que eu não estava brincando, que inclusive eu já tinha postado foto com o menino no Facebook. Minha avó começou a chorar, a passar mal, e foi quando o meu avô chegou e falou pra ela uma frase que eu nunca vou esquecer “Cida, larga de ser besta, eu já tinha te falado que isso aí era uma menina!”. E meu avô falou pra mim “Matheus, não tenho preconceito com nada. Você pode ser o que você quiser, só não ponha vestido”. A partir desse momento a minha relação com a minha família, que já era boa, melhorou muito. Hoje vejo que o que mais me prejudicou foi o medo. Eu sentia uma tristeza profunda. Meu tio, uma pessoa muito machista, já até trouxe um amigo dele para me conhecer. Eu sonho em ter uma família. Sempre tive loucura por ser pai. Essa coisa de família é muito forte em mim, e eu pretendo realizar esse sonho.


Amor de mães Paloma Cesario da Silva, 31 anos, Osasco/SP

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Quando meus pais se separaram eu tinha dois anos, e logo minha mãe teve outro marido. Desde que me lembro a gente já estava morando em Santo Amaro, numa favela, que na época se chamava Morro do Índio, onde agora é Capão Redondo, Jardim Ângela. Nós somos de uma família grande, de nove irmãos, então os amigos eram os próprios irmãos. Eu gostava de brincar mais com os meninos. Tenho um irmão que é gay também, e na época do ‘Sandy e Junior’ a gente brincava de cantar, de ser eles, e hoje minha mãe brinca, dizendo que ele era a Sandy e eu, o Junior. Minha mãe trabalhava muito, então os filhos sempre ficaram muito sozinhos. A infância foi difícil, de passar fome, de não estar com a mãe, de ter que

sair pra pedir comida... Eu me lembro das crianças estarem juntas, mas aí aconteceu alguma coisa na favela, que eu não me lembro, e minha mãe teve até que morar um tempo na rua e deixou alguns filhos em outras casas. Acabou que eu vim a ter contato com dois irmãos meus apenas há poucos anos. Eu e um dos meus irmãos ficamos com minha avó, por parte de pai, dos sete aos dozes anos, mais ou menos, quando minha mãe voltou a casar e voltamos a morar com ela. Os casamentos da minha mãe sempre foram conturbados; os padrastos batiam nela e, às vezes, na gente. Sofri abusos físicos e mentais; eu e minha irmã sofremos abuso sexual. Então lembro que com treze anos eu já fui trabalhar e cada um de nós foi cuidar da sua vida, apesar de sermos ainda muito ligados. A questão da minha sexualidade foi mais tranquila pra minha mãe do que pra mim, porque ela é tranquila pra isso. Eu ainda me relacionei com homem, tive um filho. A gente começou um namoro quando eu tinha uns catorze anos, mas sempre me sentia incompleta. Minhas amigas achavam o máximo namorar e eu não, mas não entendia o porquê. Eu tive uma melhor amiga e me apaixonei por ela,

“Como eu já tinha o meu filho, também fiquei com medo por ele. Mas para o meu filho sempre foi natural, ele nunca demonstrou problemas. A relação dele com a Luciana é o máximo, são bem amigos.“


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Artista: Paula Izzo


que era hétero. Foi a partir dessa paixão que eu vim a entender o que eu era, o que eu sentia por ela. Fiquei com medo, porque eu já tinha o meu filho – na verdade, antes de ter eu já sabia, mas não aceitava. A minha avó, com quem morei, era super religiosa, e quando via um gay dizia que ia pro inferno. Mas quando eu consegui me aceitar, terminei o meu relacionamento com o pai do meu filho e fiquei um tempo sozinha. Tinha dezessete anos. Comecei a frequentar lugares lésbicos, pra me entender. Fiquei com outras meninas, tive um relacionamento, que foi estranho, e me fez pensar que eu não era lésbica. Pensei “Graças a Deus”. Mas quando conheci a minha esposa foi tudo diferente. Acho também que eu estava mais preparada, mais velha, com dezenove. Quando a gente é muito novo, é difícil entender a sexualidade. E eu não tinha referências de amigos da minha mãe, nada, só o que via na rua. Para o meu filho sempre foi natural, ele nunca demonstrou problemas. A relação dele com a Luciana é o máximo, são bem amigos. Ele tem uma referência grande de esporte e cultura, coisas que ela gosta muito. Ele é bem parecido com ela. A gente o educa como qualquer outra criança. As pessoas acham que a casa de um casal lésbico ou gay é uma balada constante, mas não é. É tudo normal. Pros amigos, ele fala que tem duas mães. Falo que nem pra todo mundo ele vai poder falar isso, e ele questiona “Mas não é assim?”.

Eu e minha esposa nos conhecemos por um amigo em comum. Somos opostos: eu da noite, ela do dia. Isso foi estranho no começo, e já deu problemas na época que eu estava mais envolvida com bebidas e usando drogas; e também depois, quando já estava em recuperação, retomando minha autonomia. A gente se separou por um tempinho nessas ocasiões. Eu comecei a usar drogas por conta de um tio, que usava muito e dividia comigo e com meu irmão. No começo, era só no final de semana, mas depois perdi o controle. Saía na quinta e voltava na segunda. Quando comecei a namorar, ela nunca aceitou isso. Nunca. Eu achava que usar drogas era curtir, era legal, até eu perder o controle. E foi muito pela relação com ela que eu saí das drogas; e também pela responsabilidade com o meu filho, que um dia me disse que eu estava com um cheiro estranho, que era da cocaína. Joguei a droga fora e fui me cuidar. Hoje, estou limpa há oito anos. Isso foi muito pelo meu filho e pela minha família. Meus sonhos agora são simples: fazer uma faculdade, ter uma profissão, ver meu filho crescer, ver meus netos. E quero casar, realmente casar, com ela. Meus sonhos são muito palpáveis.

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Vestidas de noiva Fabia Sartori Fuzeti, 40 anos, São Paulo/SP Gabriela Almeida Torrezani, 25 anos, São Paulo/SP

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Fabia: Eu fui casada com um homem, durante dezesseis anos e meio. E aí eu fiquei viúva. Eu tinha tido algumas experiências com meninas, mas mais por diversão, de ir na balada, beijar amiga, mas nunca tinha tido um relacionamento sério, e o meu primeiro relacionamento sério com uma menina foi com a Gabi. Gabi: Eu já tive outras namoradas antes da Fabia, já namorei sério duas meninas antes, mas tenho relacionamentos com meninas há muito tempo. A minha identidade lésbica eu descobri muito cedo, com quinze anos eu já sabia. Teve uma fase que eu ficava com meninos e meninas, que eu estava me descobrindo e falava “Eu acho que sou bi”. Mas depois de um tempo, olhando mais pra mim e pros meus relacionamentos, eu falei “Sou lésbica mesmo”, e depois disso eu passei a me relacionar só com mulheres. Fabia: Eu contei pra minha mãe no dia que a gente começou a namorar oficialmente. Foi um pouquinho difícil, ela não falava muito comigo, ficou es-

tranho, mas aí com o tempo ela foi trabalhando melhor. No nosso casamento ela ajudou muito. Minha mãe tem setenta e cinco anos e também deve ser um processo bem difícil pra ela. O resto da minha família é muito tranquila; meu pai já faleceu, mas se ele tivesse vivo a coisa ia ser bem complicada. Gabi: Eu contei pros meus pais quando eu comecei a namorar a minha primeira namorada, eu tinha dezenove anos e estava no primeiro ano da faculdade. Os meus pais são super jovens, eles não tem nem cinquenta anos ainda, então eles são de uma outra geração. Foi uma aceitação muito tranquila. Sempre fui fora do armário, sempre postei foto beijando, postava coisas de militância, então as tias e os outros parentes que tem Facebook sempre souberam. Quem não sabia oficialmente eram meus avós. Eu já estava com a Fabia fazia tempo, era meio óbvio, então saí oficialmente desse armário pra eles, com o convite do casamento em mãos. Eles são idosos e religiosos, mas eu achei que foi tranquilo, “Se você está feliz, é isso que importa, a Fabia é uma pessoa muito boa”. Mas depois fiquei muito chateada porque nenhum deles foi no nosso casamento. Chorei um monte, que nem criança, de soluçar; eu fiquei mal. Vai fazer dois anos que a gente casou, eles também tratam a Fabia muito bem, eles também foram trabalhando isso com eles. Fabia: Quando a gente se conheceu, a Gabi era minha estagiária. Passaram uns meses e a gente viu que tinha muita coisa em comum e foi se encantando uma com a outra.


Linhas: Ellen Bonnemasou Cores: Beatriz Cafaro

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Linhas: Beatriz Cafaro Cores: Ellen Bonnemasou

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Gabi: A gente é muito parecida, as coisas que a gente gosta, que a gente pensa, desde a época do trabalho são parecidas. Ela era a minha chefe, mas a gente já conversava muito, sobre muitas coisas, e fomos ficando amigas. E aí eu ficava assim “Será que tá rolando um clima ou isso é coisa da minha cabeça? Eu acho que isso é coisa da minha cabeça, ela não vai me dar bola”. Ela era casada com um cara. Aí um dia rolou, a gente ficou. Fabia: A gente tinha aquela coisa “Isso não vai dar certo: eu sou sua chefe, você é minha estagiária, isso não vai rolar”, a gente lutou um pouquinho. Gabi: Na nossa primeira vez a gente estava bêbada, né? Fabia: Eram umas três da manhã, eu estava bêbada já. Gabi: Depois a gente conversou até, e a gente achou melhor não misturar as coisas, só que não deu. Foi impossível. A gente ficou um tempinho tentando, mas foi impossível.

Fabia: Relacionamento antes da Gabi eu nun-

ca tive, com meninas eu só tinha ficado. O lance de me perceber apaixonada pela Gabi foi supertranquilo, eu sou muito aberta. Poderia ser a Gabi, uma mulher trans, um homem trans, outro homem, poderia ser qualquer pessoa, eu não me importo. Gabi: A gente já estava juntas há dois anos e ela morava na casa dela, que hoje é a nossa casa, e eu alugava um apartamento que eu dividia com as meninas da época da faculdade. Eu já queria sair, estava em outro esquema, já tinha outras meninas mais novas lá fazendo festa, e eu já queria sair. Fabia: Ela já dormia quatro vezes por semana lá em casa. Gabi: Aí a Fabia falou “Você tá pagando aluguel de besta, vem morar comigo”. Eu fui, mudei, foi supertranquila a mudança. Aí um mês depois que eu estava lá, de pijama na cama, ela chegou pra mim e falou assim “Ah, o que você acha de casar?”, aí eu olhei “Você tá pedindo pra casar comigo assim, de pijama, do nada?”, aí ela sentou e falou “O que que você acha?”. Eu sempre quis casar, sempre tive esse sonho desde pequenininha, de me vestir de noiva, e ela não. Então quando ela falou eu fiquei até assus-

Fabia: “E aí caiu a ficha, nós nunca fomos num casamento LGBT! Por que ninguém casa? A gente começou a pensar sobre isso.”


Gabi: “Os sonhos são muito parecidos com os sonhos de qualquer pessoa. Eu quero viajar, tentar uma vida num lugar diferente, estudar, fazer mestrado, uma pós, ter filhos... “

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tada. A gente se deparou com o fato de ter muitos amigos gays, homoafetivos, vários morando juntos há muitos anos, e nenhum tinha casado, mesmo depois da lei.

uma cara que tivesse a ver com a gente. Imagina, a gente teve que fazer do zero.

Fabia: E aí caiu a ficha, nós nunca fomos num casamento LGBT! Por quê? Por que ninguém casa? A gente começou a pensar sobre isso, e decidimos fazer um documentário: vamos sair perguntando pras pessoas, vamos analisar isso tudo e fazer um filme. Acho que a melhor maneira seria mostrar o nosso processo de casamento, acompanhar nosso processo e conversar com outras pessoas, outros casais ligados à comunidade LGBT, pra entender o que que acontecia. E essa foi a ideia pra gente fazer o filme.

Gabi: Toda noiva hétero que vai casar tem um milhão de revistas pra olhar, um milhão de sites e blogs pra ela ir atrás de referência. Não havia fotos, não havia vídeos.

Gabi: Vestidas de noiva. Além disso, era uma dificuldade pra achar referências pro casamento. Sei lá, a gente nunca tinha ido no casamento de duas mulheres, todo mundo perguntava “Vão as duas de noiva? Ela vai usar terno?”. Eu falava “Olha, eu sempre quis por um vestido, a Fabia eu não sei, ela vai como ela quiser”. Mas eu nem tinha referência, só umas coisas gringas, com uma cara bem estrangeira, mas nada de realidade brasileira, ou algo com

Gabi: Isso! Por que não duas noivas de terno, por que não duas noivas de havaianas? E não tinha essa diversidade de produtos pra montar a festa do jeito que a gente queria. E aí a gente acabou fazendo a festa em um espaço aqui na Av. Angélica, que é um lugar que faz casamentos héteros, ele é bem famoso. Eles já tinham feito um casamento de dois meninos.

Fabia: A gente teve que inventar.

Fabia: Pra comprar topo do bolo, não existe, a gente rodou pra caramba. Aí mandou fazer.

Gabi: E a gente quis duas noivas de vestido.

Fabia: Por que não duas novas de vestido?


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Artista: Beatriz Cafaro


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Artista: Ellen Bonnemasou


Então o nosso objetivo com o filme era mostrar a nossa festa e o nosso processo, era mostrar que pessoas LGBT, que casais do mesmo sexo, podem ser felizes e ter as mesmas coisas que outros. Porque a gente vê muitos filmes em que um morre no final, ou que todo mundo se mata. Tem que mostrar a realidade? Tem. Ela é muito dura, mas também tem que ter referências felizes. Esses adolescentes precisam de referências felizes pra se espelhar. Fabia: Todo o processo foi muito tranquilo, no cartório não causou nenhum estranhamento também. A única coisa é que tem que preencher nos papéis “Nome do noivo”, “Nome da noiva”. Gabi: Aí eu falei com a pessoa do cartório “É só imprimir outras opções: noiva, noiva; noivo, noivo”. E ela falou “É, a gente tá pensando em fazer isso”. Fabia: E o cabeleireiro? Normalmente o cabeleireiro e maquiador falam “Demora tanto pra fazer uma noiva”, mas acho que eles esqueceram que eram duas, e a gente deu uma atrasada. Gabi: E a gente fez as fotos na Av. Paulista, já vestidas, antes de ir pra festa. Foi na Praça do Ciclista. A gente tinha um guarda-chuvinha colorido, com as cores do arco-íris. Fabia: No dia seguinte a gente mudou para a Espanha.

Gabi: A gente ficou 7 meses lá fazendo curso de especialização. Tudo foi na mesma data, foi bem louco. A gente levou tudo num HD externo, pra editar lá, já tinha gravado todas as entrevistas, só faltava o casamento. Nesse mesmo processo a gente estava cuidando das redes sociais, Facebook, Instagram. No Instagram recebia mais fotos de casais pra repostar, declarações de amor, pedidos de casamento entre as pessoas que nos seguiam. O Face era mais pra divulgar o projeto. Quando voltamos, dois meses depois a gente lançou o filme. Foi no Itaú Cultural, todas as exibições foram gratuitas, e depois ele foi pro Youtube. Fabia: Acho que agora o nosso sonho principal é ter filhos.

Gabi: Eu quero engravidar.

Fabia: A Gabi que vai gerar. Eu nunca quis engravidar, e agora já estou velha pra isso, não dá mais. Gabi: Os sonhos são muito parecidos com os sonhos de qualquer pessoa. Eu quero viajar, tentar uma vida num lugar diferente, estudar, fazer mestrado, uma pós, ter filhos, botar os filhos na escola... são sonhos cotidianos. Eu acho que as pessoas não LGBT não conseguem ver a gente com sonhos normais, eles nos olham como tão anormais que são incapazes de enxergar que podemos ter sonhos.


Quando chegar a primavera Carlos Renato Lima, 33 anos, Barueri/SP

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Eu sempre morei em Barueri, São Paulo. Eu morava com mais dois irmãos e uma irmã. Todos eles são mais velhos que eu. Meu irmão, com quem eu ficava bastante, gostava de Racionais MC, brincava de bandido e ladrão. Acho que uma parte minha me dizia que se eu ficasse com ele, ia ser homem. Mas eu gostava mesmo de ficar com as meninas e brincar de casinha. Quando comecei ir à escola, não foi muito complicado de início. Eu não tinha um grupo grande de amigos, não era muito popular, mas também não me lembro de ter grandes problemas. Na minha primeira escola, a gente formou um grupo, que estudava de manhã, e que seguiu junto até a 7ª. série. Eram amigos próximos, que moravam perto de casa, inclusive algumas meninas moravam na minha rua. Incrivelmente, foi um grupo que se manteve na mesma classe desde o 1º. ano do fundamental, então por mais que eu apresentasse alguns traços diferentes, não tinha muitos problemas. Os preconceitos que eu ouvia eram mais na questão religiosa, de pessoas perguntando se eu já

tinha lido a Bíblia. Minha mãe era evangélica, e eu sempre ouvi falar muito de Deus em casa, fui bastante à igreja, o que me legou uma religião. Hoje, sou evangélico e vejo que o que as pessoas tentavam me passar não era o que acho certo. Não acho que ninguém vira gay. Eu nasci assim. Desde quando eu me conheci por gente sabia que gostava de meninos. Sempre tive certeza de quem eu era. Mas aí chegou a 8ª. série e foi muito complicado. Foi bem quando houve aquela reformulação dos colégios municipais e estaduais. E sempre houve rivalidade entre colégios, e o que eu estudava era rival daquele pra onde fui transferido. Fiquei apavorado. Mas como minhas amigas também iam, achei que ia dar tudo certo. Na hora de escolher horário, acabou que todos caíram de tarde, e eu fui o único que ficou de manhã. Era uma escola nova e eu não conhecia ninguém. Apesar de eu achar normal ser gay, tinha um problema de autoestima grande, e não conseguia falar com ninguém da sala. Todos tinham um apelido, e eu recebi o meu, que era Bambi. Acabei sempre sendo super zoado na sala de aula, era o motivo da chacota e não tinha apoio de nenhum lado. Sentia um preconceito até dos professores, que queriam saber quem era o ‘Bambi’ da classe, e acabavam me expondo ainda mais. Me lembro que na época a escola dava frutas na hora do intervalo. Um dia a gente teve uma ou duas aulas vagas e depois desse período seria o intervalo, quando as inspetoras traziam as frutas. Já estava muita bagunça na sala, todos zoando todos,


e a mim ainda mais. Pra ficar na minha, deitei na cadeira com o rosto encostado na carteira e coberto pelo capuz. As inspetoras entraram, entregaram as frutas e eu só ouvi elas dizerem: “Ah, essa o Bambi vai adorar.”. Eu gelei de medo. Fiquei com a cabeça baixa, deitado, não tinha coragem de me mover. Foi quando entendi o que era: um deles descascou a banana e jogou a casca em mim. Eu senti bater nas minhas costas e ficar presa ao capuz. Depois que a primeira pessoa jogou a casca, várias jogaram sem parar, uma atrás da outra. Esperei até a hora do intervalo porque eles saíam antes e eu esperava para, então, poder sair sozinho. Eu levantei, peguei as cascas de banana, joguei no lixo, saí e desci as escadas. Eu ficava num canto, longe das pessoas, perto da diretoria. Sempre tive medo de alguém ir lá, me zoar no intervalo. Lembro que eu estava sempre de blusa com capuz, que usava mesmo em dias ensolarados, porque, assim, sentia a proteção de poder olhar pros lados sem que as pessoas me vissem. Num outro dia, entrando de toca na escola, veio um menino por trás e gritou “Bambi!”. Eu levei um susto, desmunhequei e todos começaram a rir.

Eu contei essas histórias pra poucas pessoas. Eu poupei todos eles disso e me agarrava no fato de que quando eu saía de lá, tinha as amigas da rua e outros amigos, que eu sabia que me aceitavam. Mas continua sendo difícil falar sobre isso, até hoje, mesmo valendo a pena contar. Isso contribuiu pra eu me tornar a pessoa que eu sou hoje. Acho que isso afetou muito minha autoestima. Às vezes, eu recebo uns feedbacks muito bacanas das pessoas que eu conheço, amigos, ou das que conheço muito pouco, falando bem de mim, mas não consigo me ver como as pessoas me veem e me lembro quando estava sentado na carteira, incapaz de reagir. Na empresa onde trabalho, eu fiquei muito tempo como instrutor de treinamento e gosto de contar histórias, falo da minha vida, pra ajudar pessoas que estão passando por momentos difíceis. Se algo nasceu de positivo dessa minha história, foi olhar pra mim e querer ajudar outras pessas, porque tenho certeza que mais gente passa por isso. Mostrar que existem outras pessoas que acreditam nelas, além delas mesmas.

“Todos tinham um apelido, e eu recebi o meu, que era Bambi. Acabei sempre sendo super zoado na sala de aula, era o motivo da chacota e não tinha apoio de nenhum lado.”


Artista: Raphael Oda

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Ciclo sem fim Daniele Cristina da Silva, 21 anos, Taquaritinga/SP

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Nasci em Taquaritinga, São Paulo e estudei em colégio de freira por doze anos. A minha infância foi a fase mais problemática da minha vida. Eu sofri um abuso sexual e isso me causou vários traumas psicológicos, físicos e afins. Devido ao trauma, eu apaguei muitas das minhas memórias de infância. Hoje, das coisas que eu consigo lembrar, a grande maioria é com os meus sobrinhos. Por mais que eu não me lembre da maioria das coisas, ainda ficam resquícios, às vezes sinto uma impotência em relação ao mundo. Poxa, eu era uma criança. E eu me aproximei tanto dos meus sobrinhos pelo medo de acontecer alguma coisa com eles. Eu me sentia mãe deles. Eu atravessava a cidade todo santo dia só pra ficar ali com eles. Eu estudei em dois colégios aqui em Taquaritinga. Quando eu estava na 5ª série, a minha mãe começou a trabalhar no colégio particular da cidade, uma escola de freiras, e eu consegui bolsa. Foi nessa escola que eu aprendi que eu era estranha, que eu era errada, que se eu fizesse algo que não seguisse as leis divinas, eu seria julgada. Por ou-

tro lado, vejo que aprendi muito da minha profissão, das artes, nessa escola. Hoje sou cantora, bailarina, e todo esse foco artístico veio porque eu comecei a dançar lá. Eu aprendi musica lá, então dá uma equilibrada entre os pontos positivos e negativos dessa escola. Eu lembro que quando saiu o Rei Leão, eu tinha quatro, cinco anos. Eu era daquelas crianças que rodava o filme o dia todo, assistia o filme umas dez vezes. Nos créditos, tinha um vídeo em que o pessoal da Disney tinha gravado uma música, Circle of life, e eu assistia o filme e queria fazer igual. “Eu quero ser igual a elas, quero que as pessoas me vejam e saibam que eu não sou uma traumatizada”. Pra mim, ser artista hoje, foi uma fuga que me fez muito bem. Geralmente as pessoas procuram a fuga na bebida, nas drogas e, pra mim, a minha fuga é a arte, é dançar, cantar, é estar no teatro, porque ali eu me sinto alguém em plenitude, sendo alguém de verdade. Quando eu mudei de colégio, saí do quarteirão de cima e fui pro de baixo, eu já tinha 12 anos, e já era um pouco diferente. Olhava pras meninas um pouco diferente, mas eu não deixava aquilo aparecer. Quando eu estava na 7ª série, no quarteirão de baixo tinha uma amiga minha de infância, e essa minha amiga trouxe uma outra amiga dela. Aí essa menina começou a se aproximar, a se aproximar, e eu pensei “Não posso, sou uma menina de Deus, não posso”. Num sábado, a gente estava brincando daquela brincadeiras da garrafa, que roda e para


“Um dia tomei coragem e contei pra minha irmã e foi a coisa mais linda que aconteceu na minha vida porque ela falou assim ‘Independente de quem você é, você é sangue do meu sangue’.” numa pessoa que você tem que beijar e eu pensava “Eu vou beijar ela!” e por dentro “Não, Dani, você tem que beijar os meninos”. Não caiu nela a garrafa. Mas quando todo mundo já tinha ido embora, já era umas onze horas, ela falou “Daniele, a garrafa não caiu em você, mas eu queria te beijar”. Foi a primeira vez que eu beijei uma menina. Um dia tomei coragem e contei pra minha irmã e foi a coisa mais linda que aconteceu na minha vida porque ela falou assim “Independente de quem você é, independente das suas escolhas, você não vai deixar de ser minha irmã, você é sangue do meu sangue”. Quando eu consegui ter essa segurança, as coisas começaram a se desenrolar. Até então eu não me aceitava. Quando eu fiz dezoito anos a minha mãe descobriu, não foi necessário contar isso. Desde pequena eu sempre escrevi muito. Como minhas memórias sumiam, eu tinha um diário, e aí eu acho que ela leu algum evento em que eu descrevi que ficava com uma menina “Daniele, você gosta de mulher?”. Aí eu falei “Sim, eu gosto de mulher”. A gente ficou uns seis meses sem se falar. Depois disso, tudo mudou completamente e ela começou a me tratar como a traumatizada, como se eu fosse quem

sou hoje por causa do abuso sexual, que tudo que aconteceu na minha vida não é pelas minhas escolhas ou porque eu me sinto bem. Como a minha cidade é muito artística e eu também, encontrei uma banda chamada Cadeia Nacional, que é uma banda baile, que toca de tudo, de forró até New York, New York. Fiz um teste e fui dançar nessa banda pra pagar a faculdade. Trabalhava muito, foram quase quatro anos aprendendo a dançar de tudo quanto é coisa. Agora, eu estou no último semestre de Publicidade e Propaganda, na correria do TCC. Hoje a vida está extremamente corrida, não tenho tempo pra respirar, mas eu percebo que assim é que funcionam as coisas: se você quer fazer seu trabalho, quer ser autêntico e se conhecer, você tem que correr, dar o seu melhor sempre. Se você me perguntar de manhã como eu estou, por mais que eu esteja extremamente mal, com dor de cabeça, com cólica, cada dia pra mim é melhor.


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Artista: Carina Oliveira

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Não se reprima Valder Bastos Santos (Drag Queen Tchaka), 46 anos, São Paulo/SP

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Quando meus pais resolveram se casar, meu pai falou pra minha mãe “Eu sou barrageiro, sabe o que é?”. Ela disse que nem conhecia a profissão, e ele respondeu “Não é profissão, é uma situação na qual a gente vai se adaptando. Com o crescimento do Brasil, estão construindo hidroelétricas, e eu vou de estado em estado”. Ela embarcou. Então cada irmão nasceu num lugar. Eu sou o caçula. Na minha infância, a partir do pré, nós já fomos morar na Bahia, quando meu pai foi ajudar a construir a usina de Sobradinho. Na época, não era bem uma cidade, mas um canteiro de obras. Nas férias, meus pais nos levavam pra conhecer as capitais do Nordeste e a cul-

tura do povo. Isso agregou muito pra mim. E lembro que existia uma apresentadora que era da época pré-Xuxa, a tia Arilma. Um dia ela ia se apresentar em Sobradinho, e aquilo mexeu muito comigo. Eu tinha uns dez ou onze anos; foi uma emoção muito grande aqueles “pompons”, aquele colorido, o êxtase das crianças. Eu queria estar lá, cantar, estar no palco. Quando a menina que ajudava em casa estendia os lençóis no varal, eu imaginava assim: se eu estivesse atrás deles, me sentia na coxia. Colocava os playmobils para ser a plateia. Na adolescência, com Os Menudos, eu pensava já em juntar um pessoal para fazer uma banda. Eu comecei então a ter um grupo dentro do colégio, pra brincar disso. Assim, eu podia dar pinta, mas tinha um respeito porque eu estava no palco, com uma performance, então passava batido. Acho que foi o universo das artes, dos palcos, que me possibilitou ser aceito. Foi mais ou menos com treze, quatorze anos, já no Rio de Janeiro, que eu comecei a perceber que tinha sensações diferentes quando via um menino. Meu irmão era modelo, e um dia ele tinha um desfile

“Eu comecei uma banda dentro do colégio. Assim, eu podia dar pinta, mas tinha um respeito porque eu estava no palco, então passava batido.”


e chamou um amigo dele pra cuidar de mim. Eu tinha uns catorze ou quinze anos. Esse amigo me levou pra uma balada; fez um bigodinho pra me passar por maior de idade e eu entrei. Uma hora eu fui descer uma escada e quase caí. Um menino me segurou. Começamos a conversar muito e de repente ele me beijou! Aquilo foi “Que nojo, que delícia. Tem barba, me penica, eu gosto... A língua é muito grossa... as pessoas estão olhando?”. Ficamos a noite inteira naquela volúpia, naquele desespero. Começamos a ter um namorico. Eu pensei “É nessa onda que eu quero!”. Mais tarde, entrei no exército, fiquei um ano e depois caiu a ficha: “E agora, o que vou fazer?”. Fiz Ciências Contábeis e Direito. Adorei fazer Direito, amei, mas o machismo, o racismo, a diferença de classes e a homofobia eram absurdos. Até que entrou um professor de Penal, que era padre, andava de chinelo e contava as histórias maravilhosas da vida, da profissão etc. Um dia o chamaram na secretaria, no meio de uma aula. Ele voltou, deu a aula até o final e depois disse “Em respeito a vocês e à profissão, eu terminei a aula. Agora, vou velar o meu pai”. Aquilo me marcou, a ética, a hombridade, que eu poderia levar pra qualquer profissão. Terminei a faculdade, dei o diploma pra minha mãe e fui atrás das artes, do meu sonho. Uma professora que me viu falando como advogado me disse “Vai fazer teatro”. Fui fazer teatro na Escola Macunaíma. A professora estava certa. Com o teatro, fui trabalhar numa boate, aqui em São Paulo, a ‘Nostro Mundo’. Fui ser panfleteiro. E aí surgiu

a ideia de que se eu estivesse montada, ganharia um cachê melhor. Pronto! Lá tinha apresentação de drags aos domingos. Eram dois shows. O primeiro era com as caricatas: Simplesmente Nenê, Pandora Boat, Stephanie de Borbon, Victoria Principal... e tinha, às 23h, Nany People, que estava começando a explodir! Elas me chamaram pra trabalhar no show das 20:00. Logo depois fui fazer telegrama animado. O primeiro trabalho foi fazer bodas de ouro em Alphaville! Velhos ricos. Eu tremendo, fui e fiz. E lá eu comecei e ganhei dicas importantes, como: ganhe primeiro a mulher, ela é sua sócia e não concorrente; daí pra frente, a festa é sua. Foi aí que comecei a ir pras agências, pras baladas, pros shows. Eu já estava em vinte agências e elas brigando por mim. Foi quando eu abri meu próprio domínio, meu site e virei concorrente das agências. Foi quando Carlos, meu maridão, disse: “Hoje não querem mais uma drag, mas sim a Tchaka”. Hoje eu sei que a Tchaka não é a mais engraçada, mas é a mais aceita. O sistema gosta da Tchaka. Enquanto a minha pupila estiver dilatando pra tudo isso, eu continuo. Quando não der mais, quando meu corpo não aguentar, eu vou fazer outra coisa. De uns cinco anos para cá, tendo tido só sonhos possíveis: quero continuar, que a minha verdade inspire os outros e que eu me alimente mais pra poder transbordar mais para as pessoas.


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Artista: WIRU


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Manual de Sobrevivência Elizeu Felix de Melo, 40 anos, São Paulo/SP

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Eu me criei no interior de Pernambuco, em Limoeiro, a duas horas de Recife. Em Limoeiro, tem um povoado chamado Cedro, bem pobre, e minha infância foi toda lá. Passei muita fome em Pernambuco. Meu pai e minhas irmãs vieram primeiro pra São Paulo pra ganhar dinheiro. Eu cheguei a esperar um mês inteiro pra que ele mandasse dinheiro pra gente poder comprar um biscoito que fosse. Minha mãe, de noite, mexia na gente, pra ver se a gente não estava morto de fome. Depois foi a minha mãe e eu fui o último, vim de ônibus junto com a minha tia aos dezesseis anos. Foram três dias de viagem. Aqui em São Paulo, morei na Liberdade. Eu gostei muito daqui, tinha mais alimentos. Quando vi os prédios da Vergueiro, fiquei fascinado, pensei “Nossa, como o pessoal conseguiu fazer isso?”. Em São Paulo, um primo, que fazia show de transformismo em boates, começou a me levar e eu fui me descobrindo. Um dia, meu primo inventou uma história pra minha mãe, disse que ia fazer um almoço. Era mentira, ele ia fazer um show. Na época, dançava Roxette, e eu gostava da parte romântica do show, de

ver as drag queens dublando as músicas. Eu achei interessante, e vi que tinha muito homem me olhando e gostei. Foi quando tive um relacionamento com um amigo, que se apaixonou por mim. Durou um tempo e acabou, mas eu continuei indo sozinho ver os shows. Lá em casa não existe esse assunto de sexo. Minha família é protestante, minha mãe é da Assembleia de Deus. Então, esse assunto de sexo, falar sobre namoro, de com quem está saindo, não existe. Lá em casa é um tabu. Acho que ninguém é obrigado a gostar dos gays, mas tem de respeitar. Até por isso eu era muito tímido, em Pernambuco. Mas em São Paulo eu me soltei mais, construí mais amizades, falo mais, dou mais opinião. O meu primeiro trabalho foi de office boy. Depois trabalhei no Habbib´s, Pão de Açúcar... Sempre gostei dessa parte de alimentação. Amo comida, sentir o cheiro de comida. Depois fui trabalhar em loja de esportes, que eu adoro. Mas veio a crise e fui mandado embora. Foi quando descobri que as pessoas podiam ser blogueiras: montar um blog, ter muita visualização e ganhar dinheiro com isso. Pensei: “Vou falar da minha história no blog. Sou portador de HIV há quinze anos e é disso que eu vou falar”. Quando eu descobri que era portador do HIV foi péssimo. A minha médica me deu sentença de morte. Eu tive toxoplasmose. Na primeira crise, meu braço começou a mexer sozinho, como se estivesse virando pra trás e eu desmaiei. Levantei de manhã e fui trabalhar, achando esquisito. Na segunda vez, eu estava correndo no Ibirapuera. Fui acordado por dois rapazes e um policial me levou pro Hospital São Pau-


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Artista: Láion Pessôa

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“‘Você já se deu conta de que é portador? Já entendeu isso?’. Eu sentei ele no outro banco e falei ‘Você sabia que você também vai morrer um dia?’” lo. Eu era muito magro e uma moça falou que eu tinha depressão. Eu comecei a xingar a mulher, fiquei super nervoso. Acabei voltando pra casa e pro trabalho. Nisso, uma amiga já tinha me avisado que eu podia ter HIV, por ter relações desprotegidas. Ela falou pra eu fazer exame, mas eu deixei pra lá. Noutro dia, fui cortar o cabelo e desmaiei no salão. Nesse terceiro desmaio, eu já acordei na minha casa. Liguei pra essa amiga, que me levou pro hospital. Fiz uma bateria de exames, que apontaram HIV, toxoplasmose, anemia, tudo isso. Meu “CD4” estava 45. Num portador, quando baixa de 200, aparecem doenças oportunistas. Fui num posto pra tratar HIV. Comecei tomando oito comprimidos por um ano. A médica chamou minha amiga e disse: “Seu amigo vai morrer, não vai resistir. Pode falar pra ele”. A minha amiga pensou: “Ele vai morrer, mas não vou falar”. Eu comecei a tomar os remédio de toxoplasmose e HIV. No começo foi péssimo. Lembro que quando eu descobri que era portador, um amigo do salão de beleza me colocou no banco e perguntou: “Você já se deu conta de que é portador? Já entendeu isso?”. Eu sentei ele no outro banco e falei “Você sabia que você vai morrer?”.

Aos poucos o meu CD4 foi aumentando. Fui curado da toxoplasmose e criando mais resistência. Minha carga viral sumiu, e há quinze anos estou com o vírus indetectável. Um ano depois, correndo no Ibirapuera, encontrei essa amiga que me contou que não me falou da minha sentença de morte com medo de me colocar num depressão e eu não resistir. Hoje, eu tomo apenas um comprimido. Isso é um avanço da medicina. Foi pra falar dessas coisas que eu fiz meu blog, pra dar informações sobre HIV, exames, remédio etc, porque no mundo de hoje as pessoas ainda estão desinformadas sobre os avanços da medicina.


Quem ama nunca desiste Celso de Britto, 56 anos, São Paulo/SP

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Eu cresci em um bairro periférico de Jundiaí. Éramos uma família muito religiosa e conservadora, então o modo de criação era muito restrito. Nós moramos em Jundiaí por um longo período, e aos dezesseis anos eu descobri São Paulo. Naquela época, havia um trem de subúrbio, até mais frequente que hoje, e eu vim ser office boy. Naquele momento abriu-se um mundo de possibilidades. Na adolescência, com aquela revolução de hormônios, eu comecei a não me reconhecer nos padrões existentes de homem ou mulher, então ficava aquela dúvida sobre o que estava acontecendo. Até por volta dos vinte anos eu não tinha noção do que era ser homossexual, do que era o prazer, do que isso significava, foi uma construção muito lenta e dolorosa. Imagina um homem quase feito sem encontrar sentido na vida. Devagar, à medida que eu ia conhecendo outros rapazes, fui descobrindo minha sexualidade, que é como uma pulsão que tinha que sair! Os primeiros contatos sexuais foram muito furtivos, decepcionantes, não foram prazerosos. Eu vim a descobrir o prazer muito posteriormente. Era por meio da leitura que

a gente conseguia ter acesso à informação. A minha geração teve uma publicação, o jornal O Lampião, que foi histórica do meio LGBT. As edições traziam matérias sobre prostituição, saúde, comportamento, o mundo do glamour, o submundo dos bares e praças. Era uma forma de acesso a esse mundo do qual a gente só ouvia falar. Quando chegava aquele jornalzinho, que sujava toda a mão de tinta, eu ficava lendo o mês inteiro. Era uma forma de não se sentir sozinho, de não se sentir uma aberração. Eu entendia ali que existia toda uma cultura e um modo de viver com o qual eu poderia me identificar e ser feliz. Na década de 80 veio também a AIDS, que dizimou essa geração. Ela veio acompanhada de um discurso moralista, hoje claramente homofóbico, que atrelava a homossexualidade à AIDS. No ano de 2003, eu fui diagnosticado: dia 17 de fevereiro, uma segunda-feira depois do carnaval. Estava chovendo e eu desmaiei no quarto. Chamaram o resgate e me levaram pro hospital. Foram feitos os testes e descobriram que já era o sintoma do HIV bem avançado. Fiquei quase três meses internado. Foi um período doloroso eu fiquei caquético, precisei sair de cadeira de rodas do hospital, mas meu organismo reagiu bem, os remédios estavam adiantados. Eu não peguei aquela fase bruta dos anos 80, quando o medicamento AZT mais matava do que deixava você viver. Em 2003, já tinha o coquetel e um olhar diferente por parte dos médicos. Na USP, em 1995, 1996, um grupo de estudos buscou resgatar e estudar a questão da espiritualidade LGBT: seria possível conciliar o cristianismo com as práticas sexuais tão diversas do mundo


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Artista: Tiago Rodrigues


LGBT? Nessa época, foi criado o primeiro grupo cristão LGBT, que era a comunidade cristã gay e funcionava no centro de São Paulo. Eu comecei a frequentar esse grupo. Era muito interessante, com muitas descobertas, e também, muitos escândalos, porque os jornais da época faziam muitas matérias sobre o grupo. Teve a primeira ordenação, em que o Nehemias Marien, do Rio de Janeiro, ordenou os dois primeiros pastores gays. A minha família é evangélica e eu nunca tinha participado dos ritos por conta da dificuldade de não me identificar com aquele espaço. Mas como eu cresci nesse meio, eu sempre trouxe comigo uma espiritualidade e um desejo de participar da igreja, de realizar os rituais e cumprir com as orações. É uma necessidade pessoal. Pode se dizer que, hoje, eu sou um obreiro dentro da Igreja da Comunidade Metropolitana e é um espaço de fé comum com seus rituais e teologia. Em 2010, eu conheci o Flávio nessa igreja que eu frequentava e houve aquela química. Eu nunca tinha tido um relacionamento fixo antes, sempre foram

relacionamentos avulsos. Logo, em setembro, a gente já estava morando juntos. Em 2011, surgiu um projeto, do Centro XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo São Francisco da USP, de fazer um casamento coletivo. Então, conseguiram reservar o Salão Nobre da faculdade e a ICM realizou a cerimônia religiosa. O 29º tabelionato de Moema doou as escrituras de união estável para todos os onze casais. A cerimônia de casamento foi uma cerimônia pública, um ato político. Quando a gente começou os preparativos, não tinha ainda a decisão do Superior Tribunal Federal de reconhecer casais homoafetivos como família. Nesse meio período surgiu a decisão do Supremo, e nós realizamos a cerimônia que foi glamurosa. O Salão Nobre é uma coisa maravilhosa, com as músicas e toda a emoção possível que se possa imaginar. Quando eu poderia imaginar chegar aos sessenta anos como eu vivo hoje, tranquilo, sem preocupação, com uma relativa tranquilidade financeira? Vendo as dificuldades que é o mundo gay, eu me sinto abençoado por ter acesso a tudo que eu tive, por viver tudo que eu vivi.

“Na USP, em 1995, 1996, um grupo de estudos buscou resgatar e estudar a questão da espiritualidade LGBT: seria possível conciliar cristianismo com as práticas sexuais tão diversas do mundo LGBT?”


Uma rede de cuidados Ana, 22 anos, Araraquara/SP

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Morei em Araraquara até os dezoito anos e me mudei para São Carlos para fazer faculdade. Eu morava com a minha família, mãe, pai e uma irmã mais nova. A gente morava no fundo de um açougue, onde meu pai trabalha. O meu pai trabalhou muito, então de criança eu não tenho muitas lembranças com ele. Hoje, ele é uma pessoa mais mente aberta. Quando eu volto para casa, a gente costuma sair para tomar uma cerveja, e é quando a gente conversa. Com minha mãe eu sempre tive uma relação muito próxima, mas quando fiquei adolescente, jovem, e comecei a sair pra balada, a gente começou a se afastar. Foi quando começamos a brigar por questões ideologias e o ápice foi quando eu saí da igreja. Hoje eu não tenho uma relação muito legal com a minha mãe. Eu tinha aquela coisa de que “Gay vai pro inferno”. Quando eu estava com dezesseis anos, conheci uma amiga, que a minha mãe odiava, e eu me apaixonei por ela. Eu já tinha ideia de que eu sentia alguma coisa diferente por algumas amigas, mas essa foi aquela paixão, assim, incontrolável. Essa amiga e eu começamos a ficar cada vez mais pró-

ximas, e eu fui me dando conta de que eu gostava de andar de mãos dadas com ela, essa coisa do toque, da troca de carinho, mas não sei até que ponto a gente tinha noção do que estava acontecendo. A gente não tinha noção mesmo, era uma atração física, química, sentimental, muito forte. Um dia eu tive um sonho erótico com essa amiga e naquele momento eu pensei “Meu Deus, o que está acontecendo?”. Mas acabou que a gente se distanciou, não ficamos. Aí eu vim pra faculdade em São Carlos e na primeira festa uma veterana chegou em mim e perguntou se eu ficava com meninas, e eu “Nunca fiz isso”. Ela jogou uma ideia e falou que estava querendo ficar comigo. Falei “Vamos aí, por que não?”. Na época eu ainda ficava com meninos, me identificava como bissexual. Alguns meses depois eu transei com uma mulher pela primeira vez, e aquilo foi “É, está bom, chega, é isso, eu sou lésbica mesmo, não vai mais rolar ficar com meninos, não me dá prazer nenhum”. Foi muito importante vir pra São Carlos, até pra eu me afastar de muitos preconceitos. Na faculdade tem uma diversidade enorme de pessoas, foram várias libertações. Eu contei pros meus amigos em Araraquara e foi muito massa o jeito que eles me receberam. No dia em que eu contei pra minha mãe, ela ficou dois dias trancada no quarto chorando. Meu pai me abraçou e falou “Não é porque um filho meu é viado que eu vou jogar ele no lixo”. E foi tipo a coisa mais bonita que meu pai já me falou na vida. E minha mãe ficou esses dois dias trancada no quarto


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Artista: Bruno Kuraim

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e ela saiu pra me dizer que nunca ia aceitar o que eu tinha dito pra ela, e que tinha pesquisado na internet uma psicóloga que prometia a cura gay. Ela fez um Facebook, começou a invadir a minha rede social, tentou invadir meu computador, me cercou de todos os lados pra saber o que eu fazia, com quem eu saia. Cheguei num nível de não aguentar mesmo. Um dia eu comprei uma garrafa de catuaba, bebi a garrafa de catuaba inteira, peguei uma gilete no banheiro e me cortei. Na época eu morava com uma amiga minha aqui em São Carlos, e ela chegou em casa um pouco depois que eu tinha me cortado, foi muito rápida, me enfiou no carro, me levou pro hospital. Na época eu fazia estágio nesse mesmo hospital, eu conhecia toda a equipe médica, a minha supervisora pediu pro psiquiatra me atender. Ele foi meu psiquiatra por muito tempo. Minha rede de professores acionou um cuidado psicológico e minha orientadora era a pessoa pra quem eu tinha que mandar mensagens diariamente “Não vou me matar”. Tive essa rede de cuidados da faculdade aqui em São Carlos, e dos meus amigos, lógico, que foram muito importantes também.

Fiquei medicada por seis meses, com doses muitos fortes. Bloqueava qualquer tipo de emoção e sentimento. Nesses seis meses foi o tempo de maior intensidade no processo de tratamento psicológico, que foi o que me ajudou muito. Com o tempo eu fui tirando a medicação e enfrentando essas coisas por conta própria. Hoje eu tô muito feliz com quem eu sou, em todos os sentidos, no pessoal, no profissional. Eu levei um tombo feio, a vida me deu um tombo feio, que foi a tentativa de suicídio, e hoje eu sou outra pessoa, eu me transformei muito. Independe do que tem lá fora, aqui dentro eu sou uma pessoa feliz e eu tenho tentado me relacionar com pessoas que também estão nesse processo de ser uma pessoa melhor. Tem muito amor na minha vida. Hoje eu sou uma pessoa que tem muito amor pra dar e pra receber.

“No dia em que eu contei pra minha mãe, ela ficou dois dias trancada no quarto chorando. Meu pai me abraçou e falou ‘Não é porque um filho meu é viado que eu vou jogar ele no lixo’.”


Aquele que zela Fernando Stoeberl Junior, 24 anos, São Bernardo do Campo/SP

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Desde pequeno a gente sempre foi à igreja. Na igreja era aquela coisa: as pessoas te passavam uma ética, uns costumes que você tinha que seguir e você não podia falar abertamente sobre qualquer assunto. E eu gostava de brincar, de falar com as minhas amigas. Na sala de aula eu conseguia falar com elas, elas pediam conselho e eu também pedia conselho pra elas, e a gente falava de qualquer coisa abertamente. Eu não tinha informação nenhuma do que era ser gay. A aceitação foi bem difícil. Pensava “Deus, se eu sou assim, porque você me mandou pra cá? Seria um pecado menor o suicídio pra evitar um pecado que talvez seja maior?”. Foi com essa idade mesmo que eu desisti de tentar agradar a Deus e eu comecei a conhecer alguns rapazes pelo Orkut. Eu dei o meu primeiro beijo e descobri o mundo de novo. Tudo parecia feliz, colorido. Mas a reação da minha família não foi nada boa quando eles descobriram. Um namorado meu - até hoje não sei o porquê - ligou pra minha mãe

e contou. Minha mãe deu um sermão falando de Deus, falando que era errado, e naquele momento foi só aquilo: deu o sermão e me mandou dormir. Chegando na sexta-feira, foi um tio e uma tia em casa e eles me colocaram na mesa pra conversar junto com minha mãe e meu padrasto. Eles começaram a falar mais coisas, dizendo que era errado, que era pecado. Meu padrasto se exaltou e falou que ia acabar com meu namorado, que ia matar ele, e queria pegar meu celular. A gente começou a brigar. Veio meu padrasto e meu tio pra cima de mim, e quando eu percebi o que estava acontecendo eu estava com a minha roupa toda rasgada, no chão, e a minha mãe falava “Vai ficar tudo bem, filho. É só você aceitar Deus”. Aí eu falei que queria sair. Ela disse “Se você quer saber o que é morar na rua, então você vai dormir na laje”. Eu subi, me escondi atrás da caixa d’água, passei a noite lá. No dia seguinte eu acordei com o sol, entrei em casa, deitei na minha cama e no que eu acordei a mulher do pastor estava no pé da minha cama e ela disse “Você está disposto a mudar?”. Eu disse “Não”, “Se você não estiver disposto a mudar, ainda hoje até as seis horas você vai sair dessa casa com a roupa do corpo e a carteira de trabalho”. Eu peguei uma mala, coloquei o que eu podia de roupa, e fui pra casa da amiga mais próxima que eu tinha. Era final do Ensino Médio. Eu conclui meu TCC na escola técnica e minha mãe estava na apresentação. No fim da apresentação, ela disse simplesmente que tinha pegado todas as minhas coisas e que eu ia voltar pra minha casa, obrigatoriamente.


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Artista: Kadu Nunes

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Eu voltei pra casa e ela tinha revirado todas as minhas coisas, jogado fora o que era gay demais. Cheguei num quarto que não era meu quarto, porque não tinha minhas coisas. Todo dia eu tinha que ler a Bíblia quando eu acordasse e quando fosse dormir. Minha mãe colou pela casa toda vários post-its com versículos da Bíblia dizendo que isso era pecado. Eu me sentia sufocado, eu não tinha mais opinião, eu não tinha mais vontade. E eu não fazia nada, era comer, rezar, orar, ler a Bíblia, dormir: era a rotina que eu tinha. Chegando a Páscoa, uma amiga minha me indicou pra trabalhar num call center, e a minha felicidade era sair de casa pra poder ir pro treinamento. Às vezes eu gastava uma hora andando porque eu não queria ir de ônibus, eu queria era ir andando pra não ficar em casa. Consegui conversar com a minha amiga e ela mesma disse “Fê, eu conversei com meus pais e tudo isso que tá acontecendo com você é um absurdo, vem morar com a gente”. Juntei todas as minhas coisas e uma outra amiga minha foi lá com carro me buscar. Eu deixei um bilhete pra minha mãe e saí.

Hoje, eu vivo normalmente. Eu sinto que eu posso ter um namorado, posso andar com ele na rua. E conheci o Candomblé. Eu conheci o Candomblé através da cunhada da amiga com quem eu fui morar. Ela já era candomblecista e eu tinha curiosidade. Eu conheci e me senti bem. Conheci minha mãe de santo. Hoje eu sou feito no Candomblé, aceitei um cargo, o meu compromisso e eu não tenho a mínima intenção de me afastar. Eu sou pejigan. Meu sonho é o de uma pessoa normal, como qualquer outra pessoa. Eu não me diferencio de ninguém. Minha orientação sexual é mais um item a ser preenchido numa ficha. Pretendo concluir minha faculdade, conseguir ir bem no trabalho, ter uma casa, me casar e um dia ter filhos. Quero ter uma família, quero continuar o lado bom da minha história, quero que a minha semente de paz, de tranquilidade, de compreensão continue, e que as crianças saibam que não se deve ficar julgando as pessoas e o quanto cada um pode ser. Quero continuar essa história.

“‘Fê, eu conversei com meus pais e tudo isso que tá acontecendo com você é um absurdo, vem morar com a gente’. Juntei todas as minhas coisas e uma outra amiga minha foi lá com carro me buscar. Eu deixei um bilhete pra minha mãe e saí. “


Eu vim pra ser Calça Pedro Henrique Lopes, 21 anos,São Paulo/SP

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No geral, minha infância foi boa. A questão que foi mais complicada sempre foi sobre a minha identidade de gênero mesmo. Pra minha família, eu era a primeira neta, a primeira sobrinha, a primeira tudo. E pelo fato deles me considerarem mulher, tudo era rosa, mas eu queria ganhar as coisas que meu irmão estava ganhando e brincando. Eu esperava todo mundo sair pra brincar com as coisas do meu irmão, pra pegar as roupas dele. Eu só me sentia eu mesmo quando estava sozinho. Então, fazia tudo sozinho, porque sabia que não ia ter julgamento. Não tinha conhecimento sobre essa questão, na época. Não ouvia ninguém falando sobre identidade de gênero, sobre orientação sexual. Era muito vago e eu cresci achando que era a única pessoa assim. Pensava: “Não é possível que isso aconteça só comigo”. Fui buscar e ter referência do que se tratava quando eu tinha quinze anos. Na escola eu tinha o apelido de “Maria Macho” porque andava de boné, me vestia diferente das meninas. Mas aquilo era ruim, porque acabava achando que a maneira como eu me via era algo ruim, que eu era algo ruim. Se todo mundo fala algo

negativo sobre isso, a gente também acaba achando. Foi quando na adolescência eu acabei desenvolvendo uma depressão. Nessa época sofri vários ataques de negatividade de todos os lados e eu não tinha vontade de fazer absolutamente nada. Minha mãe sempre me levou em psicólogos, mas eu não tinha vontade de abrir a boca. Não sabia qual ia ser a reação das pessoas, porque até hoje você escuta história de pais que têm filhos homossexuais e que os levam em psicólogos por não aceitarem a homossexualidade. Eu ficava com medo, não sabia o que ia ouvir. Eu consegui sair disso há dois anos. Foi nessa época que comecei a ver que tinha algo a mais do que ser chamada de lésbica. Comecei a ter relações com meninas, mas percebi que também me incomodava ser tratada como menina. Com quinze anos eu tive um relacionamento que durou mais de quatro anos e o meu ex-namorado (que também é trans) reparou isso e começou a me tratar no masculino. Eu sou umbandista. No ano passado ouvi lá que, antes de vir, a gente decide o que vai querer ser: calça ou saia. E me disseram que eu escolhi ser calça. Eu não contei nada pra ninguém, nem pros amigos, nem pra minha noiva. Comecei a pesquisar, ter referências de como as pessoas se sentiam e resolvi sair de casa primeiro pra, depois, buscar um tratamento e assumir quem eu sou. Um dia, saindo pra ir pra balada, encontrei com um amigo, que me elogiou no masculino. Aquilo me fez muito bem. Pensei “É isso!”. Até então não tinha decidido o nome.


“Quando eu consegui me expressar como Pedro foi um alívio muito grande. E quando isso aconteceu, descobri que precisava me aceitar antes de sair falando para todos.“ Eles usavam o meu nome de registro com um “o” no final e esse amigo comentou: “Você tem cara de Pedro”. E acabou ficando. Quando eu consegui me expressar como Pedro foi um alívio muito grande. E quando isso aconteceu, descobri que precisava me aceitar antes de sair falando para todos. Algumas pessoas até hoje confundem, falam que não entendem e não concordam. Quando você é trans, a primeira relação que se faz é “Você não é um homem porque não tem um pênis”. Eu não penso em fazer a cirurgia de redesignação sexual, apenas a de retirada das mamas. Sou homem, independente de pênis. No dia a dia muitas pessoas ainda me tratam no feminino. Como eu trabalho no meio das artes, na empresa do meu pai, tem uma abertura, mas as pessoas às vezes ficam com certo receio de me perguntar as coisas e acabam perguntando pra ele, que acaba ficando chateado. Então ainda aceito que me tratem no feminino, porque eu comecei o tratamento hormonal há pouco tempo. As mudanças físicas estão acontecendo lentamente, mas daqui a pouco quero ver quem vai olhar pra mim e não dizer que sou homem.

Quando quis fazer o tratamento, meus pais pediram pra eu passar num psiquiatra, porque pra começar o tratamento você precisa do laudo do psicólogo, do psiquiatra e do endócrino. Eu aceitei, até pra ajudar meus pais, porque não preciso de laudo nenhum pra dizer quem eu sou. Fiquei com medo porque não sabia quem eles iam procurar, mas pra minha surpresa eles procuraram o Alexandre Saadeh, que é um dos principais da ala de psiquiatria do SUS, que atende pessoas trans. Eles não gostaram muito do que o psiquiatra falou pra eles. Mas penso que se demorou vinte e um anos para eu me aceitar, não acho que meus pais vão me aceitar em um ano. Hoje eu tenho o meu canal do Youtube que é exatamente pra dar informação pras pessoas, o que eu não tive quando precisei.

Parei de esperar, eu vivo.


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Artista: N Rosa


Explodindo o armário Luis Arruda, 39 anos, São Paulo/SP

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Eu tive uma infância muito solitária até uns cinco, seis anos. Fui uma criança um pouco diferente, uma criança viada, e conforme as crianças foram crescendo elas começaram a perceber essa diferença. Hoje a gente usa a palavra bullying, mas não sei nem se era isso. Minha mãe hoje em dia tem setenta e quatro anos, ela sempre trabalhou fora de casa e meu pai também trabalhava. Não tinha essa história de babá, e eu ficava em casa e era filho único, ficava com a moça que trabalhava lá. Eu não tinha uma noção muito grande da realidade. Além de ser uma criança viada, eu não tinha noção do que era isso no mundo. Desde os cinco anos eu tenho essa consciência de que tinha alguma coisa diferente. Eu achava muito mais bonito ver um homem do que ver uma mulher, mexia comigo de uma forma diferente. Quando eu fiquei mais velho entendi claramente que a discriminação não era por causa das coisas que eu sentia dentro de mim, mas pelo que eu externalizava, que são coisas totalmente diferentes. Eu tenho um amigo que chegou a inventar um personagem super briguento, super hétero, pra viver. Uma vez até sofri

discriminação de um professor de matemática, ele me usou como exemplo. Era alguma coisa de conjuntos matemáticos, sobre o que não pertencia ao conjunto, e ele disse “Ele não pertence”. Eu fui ter meu primeiro amigo com quinze anos de idade. Eu não conhecia nenhum outro gay, eu fui conhecer outro gay na faculdade quando eu já tinha dezoito anos. Nessa época eu comecei a ficar mais magrinho, fiquei mais bonitinho e tomei uma cantada. Aí falei “Existem mais gays, eu não sabia.”. Me assumi com vinte, no último ano da faculdade. Foi um ano de processo. Tomei essa primeira cantada e não fiz nada, fiquei um ano me remoendo. Depois de um ano ele me convidou pra ir assistir filme na casa dele e eu fui. Foi meu primeiro beijo e tudo mais, o papo dele era de um cara um pouco mais velho, ele não tinha essa coisa de ter um relacionamento. Umas duas semanas depois eu fui convidado pra festa de aniversário de uma amiga minha e lá foi meu primeiro beijo romântico gay. A gente se beijou e começou um namoro, foi interessante. As pessoas falam muito de sexo, mas a questão é que eu nunca me senti apaixonado daquele jeito por uma menina. Além da questão sexual tem a questão afetiva. Eu entrei na militância bem por acaso. Eu falo que eu não saí do armário, eu me preparei tanto pra sair do armário que quando eu sai eu me escancarei, dei uma explosão no armário. Em 2002, eu estava num baile em Campinas, e numa hora, na fila do banheiro, um amigo deu um beijo no meu rosto,


“A questão é que eu nunca me senti apaixonado daquele jeito por uma menina. Além da questão sexual tem a questão afetiva.“ super carinhoso, e aí o gerente saiu de trás do balcão e começou a gritar com a gente, dizendo que aquele era um bar de respeito. Era um bar em que as pessoas, depois de certa hora, cheiravam cocaína em cima da mesa. Respeito aonde? Começou a gritar e a gente ficou muito bravo, e eu já era advogado naquela época, já tinha OAB. As meninas ficaram enfurecidas, a gente pegou todo dinheiro que tinha, pediu a conta, joguei o dinheiro na cara dele e falei “Isso aqui é dinheiro de viado!”. Depois a gente descobriu um grupo lá de Campinas que chamava ‘Identidade’, agora é ‘Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero’, e o começo da minha militância foi agitar um ato de protesto contra o bar, entrar com uma ação. A gente ganhou o processo, mas o bar foi escrotíssimo, mandaram um garçom lá pra falar que a gente estava se masturbando debaixo da mesa. O garçom desmentiu eles completamente. Eles tomaram essa advertência e depois um amigo meu que é militante disse que essa foi a primeira condenação nessa lei. No ato, a gente chamou carro de som, fez um beijaço. Chamamos um monte de casal, hétero, LGBT, que sentaram nas mesinhas, pediram cerveja, fica-

ram quietinhos bebendo, até chegar o carro de som quando todo mundo começou a se beijar e a gente a entregar panfleto. Eu me mudei pra São Paulo em 2008, 2009. Hoje aqui em São Paulo eu milito em três lugares, ‘Grupo de Ajuda para Diversidade Sexual e de Gênero’, que faz uma parte mais jurídica, em que eu sou o coordenador; também em um movimento que chama “Mães pela Diversidade”; e tem um outro que chama “Revolta da Lâmpada”, que é mais centralizado em São Paulo, e a gente faz algumas intervenções pela cidade. Eu quero fazer outra faculdade, eu fiz Direito por causa do bullying. Eu queria ser veterinário a vida toda. Hoje em dia eu trabalho numa parte muito especifica do Direito, mas eu não gosto. Eu pretendo fazer algo como Psicologia, alguma coisa mais ligada a àrea de tratar pessoas.


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Artista: CauĂŞ Rocha


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Através do espelho Thara Wells, 44 anos, Sorocaba/SP

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Sou nascida numa família espírita, a minha família todinha tinha centro. Na época era Umbanda. Na minha brincadeira com meus irmãos, a gente reproduzia tudo o que a gente via no terreiro de Umbanda. Eu pegava vestidos da minha mãe, como se eu fosse a mãe de santo, e para os meus irmãos menores eu ia designando funções: meu irmão menor ficava ali como se fosse Ogã, batendo nas panelas, minha irmã ficava servindo os guias, como se fosse a Cambone, e meu outro irmão era pai de santo junto comigo. Foi uma infância de curiosidades, de inventar, destruir e consertar as coisas. Quando eu saía com a minha irmã e meus três irmãos, as amigas da minha mãe falavam “Nossa, você tem dois casais, duas meninas e dois meninos”, e ela falava “Não, eu tenho três meninos e uma menina”. As pessoas já reconheciam esse lado feminino e essa aparência feminina, tanto que até meus doze anos eu cresci parecendo sapatão. Então, eu acho que a minha identidade foi sendo construída desde criança mesmo. Eu sempre tive uma coisa espiritualizada, que muitas pessoas às vezes não acreditam. Sempre que eu olhava no espelho

via uma imagem que não era aquela que estava refletida, parecia que era uma sombra estranha, um espirito, sei lá. Às vezes eu pegava o pó facial da minha mãe escondido e quando eu passava parecia que era como se aquele pó transformasse aquela imagem que estava refletida em uma outra, e que era aquela outra que falava, que pensava; parecia aquela pessoa dentro de mim, que eu posso dizer que era a minha alma, a minha consciência. A minha primeira paixão platônica foi aquela. No centro, levei um amigo meu, que começou a participar das giras, e ele se tornou Ogã e a gente começou a manter um relacionamento. A gente estava falando sobre me aceitar ou não aceitar, e na época não era ser homossexual, bissexual, não tinha essas nomenclaturas todas, e ele falava “Mas eu não vejo você como homem, você tem um lado feminino, que eu não consigo ver um homem em você”. Hoje eu entendo o que ele enxergava em mim. Quando a minha mãe morreu, a convivência com meu padrasto, que nunca foi maravilhosa mesmo, foi acabando. Ele falou que a minha mãe tinha morrido porque ela tinha desgosto de mim. Eu tive que ir embora, porque a convivência ficou insustentável. Eu fui na casa de um amigo que era homossexual e ele fazia show de drag queen, que estava começando, isso ainda em 1993. Comecei a acompanhá-lo e frequentar bares gays mas eu ainda não me montava. Quando eu comecei a fazer show como transformista, a montação foi vindo.


Eu comecei a andar com ele, e aí eu conheci uma outra turma que morava num bairro próximo aqui de casa. Tinha travestis no meio que se prostituíam e tinha transformistas que faziam show. Até que um dia eles resolveram me montar. Essa coisa de ter um nome, se montar, transforma. Me arrumaram uma peruca loira e me montaram de forma caricata, e o mais engraçado de tudo isso é que quando eles terminaram de me montar e eu me olhei no espelho, era aquela pessoa que eu via no espelho quando era criança. Depois disso eu comecei a acompanhá-las nas ruas, mas eu nunca tinha feito programa, eu ficava na casa delas meio que de empregada. Teve um dia que eu estava na rua com elas e passou um cliente e me chamou, e elas falaram pra eu atender. Entrei e fiz o meu primeiro programa. Continuei fazendo programa, comecei a fazer show, e as coisas foram acontecendo assim, nessa ordem. Aqui, na cidade de Sorocaba, a gente vivia uma época totalmente preconceituosa. Levava borrachada dos policias por estar na rua e as pessoas iam se balançando no ônibus pra não sentar do seu lado. Eu lembro que nós fomos as primeiras trans a irem no cinema. Quan-

do se falava de travesti, que nem se usava o termo transexual, elas eram totalmente noturnas, elas só saiam seis horas da tarde. Não andavam de dia, não tinham vida diurna, então quando nós entramos num cinema certa vez, foi um choque. Teve gente que assistiu o filme em pé, mas não sentou na fileira em que a gente estava. Eu comecei a tomar hormônio, mas quando eu me descobri mulher trans mesmo, eu não consigo saber um momento. Foi todo um processo. Depois de colocar o silicone é que eu fui centralizando e adequando a minha mente com o meu corpo. O meu nome veio de uma minissérie que eu vi quando eu tinha uns oito ou nove anos, Paraiso Maldito. Nela, uma mulher é jogada aos jacarés por um cara e fica com o rosto desfigurado, quase morta. Ela reconstitui o rosto e fica totalmente diferente. Quando tiram as bandagens do rosto, ela olha no espelho, e fala “Meu nome é Thara Wells”. Esse nome ficou comigo pra sempre.

“A gente estava falando sobre me aceitar ou não aceitar, e na época não era ser homossexual, bissexual, não tinha essas nomenclaturas todas, e ele falava ‘Mas eu não vejo você como homem, você tem um lado feminino, que eu não consigo ver um homem em você.’. Hoje eu entendo o que ele enxergava em mim. “


Artista: Feppa Rodrigues

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No devido lugar Luan Romano da Silva, 31 anos, Sorocaba/SP

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Eu sou o filho mais velho, tenho um casal de irmãos mais novos, então a gente teve brincadeiras em conjunto. As brincadeiras sempre foram neutras, não tinha essa coisa de brincadeira de menino e de menina. A minha mãe, por ser artesã, muito simples, sempre dava coisas pra gente fazer escultura, brinquedos de montar, coisas pra desenvolver a criatividade com o material que tinha. Com doze anos, tinha um menino na minha escola que gostava de mim, e eu não entendia porquê ele gostava de mim. Com catorze, quinze anos, as meninas ao meu redor já estavam começando a namorar e eu ainda não e elas questionavam “Nossa, mas não tem nenhum menino de quem você

gosta?”. Eu não tinha convivência com uma pessoa homossexual, muito menos transgênero. Desde pequeno, os meus primos mais velhos doavam roupas pra gente, então eu tinha bermuda, camiseta escrito ‘little boy’. Quando minha mãe começou a ir pra igreja, ela começou a mudar minhas roupas, começou a comprar saia, vestido, a insistir para eu parar de usar tênis e usar mais sandália, porque eu era menina. Foi a ruína da minha vida. Eu comecei a sentir angustia, tristeza, foi o período das trevas, dos quinze até os vinte e poucos anos. Naquele momento, ainda me imaginava talvez como homossexual. As meninas iam todas emperiquitadas, as roupas eram chiques, delicadas, usavam salto. E eu usava uma saia qualquer com um sapatinho sem salto. Era a ralé da igreja, ninguém andava ou queria conviver comigo. Um dia minha mãe perguntou o que estava acontecendo e eu disse “Você quer realmente saber? Eu gosto de Fulana”, e ela disse “Isso é coisa da sua cabeça, vai passar”. Essa resposta me deu muito mais tristeza. “Poxa, é um sentimento verdadeiro, eu não quero que passe”. Comecei a pensar em suicídio, eu me cortava, procurava os remédios

“Eu já vi tanta dor, tanta lágrima, tanta luta, tanta tristeza em você, que eu só quero que você seja feliz.“


de depressão dela pra tomar. Estava querendo desistir. Eu cheguei a ser noiva, estava disposto a fazer tudo que eu precisasse pra viver a vida certinha que queriam pra mim. Quando ele me traiu, tomei consciência, pensei “Vou atrás do que eu quero”. Minha mãe viu o que tinha acontecido e falou “Cadê Deus agora? Eu já vi tanta dor, tanta lágrima, tanta luta, tanta tristeza em você, que eu só quero que você seja feliz”. Aquilo me ajudou. Pensei “Chega de palhaçada, eu não vou me forçar a mais nada”. Quando eu tinha dezessete pra dezoito anos, tinha uma menina, amiga virtual, no ICQ, de quem eu estava gostando, e eu me passei por homem. Ficamos uns dois meses conversando, e eu adorava ser o “Marcelo”. Até que um dia eu contei essa história pra ela por email e escrevi que infelizmente ali era o máximo do homem que eu poderia ser. Ela ficou decepcionada, chateada comigo, mas essa frase “Infelizmente eu não sou o homem que eu gostaria de ser” ficou na minha cabeça: eu já tinha essa visão de querer ser homem, só que eu não tinha caminhos pra tornar aquilo possível. Eu tinha uns vinte e dois anos quando a minha namorada viu na internet o caso do Alexander, um transgênero que estava num programa de TV e me mostrou. E eu “Mas parece um homem, como é uma mulher? Como assim?”. Quando a gente começou a ler matérias dele, ela falava na zoeira “Eu até que pegava essa mulher”. Eu fui pesquisando na internet e conheci vídeos de transição de meninos. Em 2013, eu tomei conhecimento e em 2014 eu comecei

a transição. Comecei a me vestir mais do meu gosto, só o cabelo que eu não colocava a mão porque eu percebia que isso era uma ofensa pra minha mãe. Então eu mantive, até três anos atrás, até eu perceber que eu era trans “Agora aquela vida vai ficar pra trás completamente”. Foi quando eu comecei a procurar tratamento, a iniciar a minha hormonização. Eu só escutava que Deus amava o meu coração, que amava o meu interior; então, se Deus ama o meu interior, quem é você para condenar o meu exterior? Hoje eu consigo dizer que está tudo no seu devido lugar. Eu consigo deitar a cabeça no travesseiro e consigo dormir. Eu nunca mais tive crise de depressão, nunca mais chorei por uma situação na minha vida. Hoje as minhas lágrimas são os boletos pra pagar, só! Eu acho que mudou de dentro pra fora, literalmente. Antes, quando as pessoas falavam “Nem parece que você é trans, parece que você nasceu menino.”. Pra mim era elogio, mas agora não. Legal você achar que é um elogio, mas eu prefiro que você me veja como o homem trans que eu sou, porque por detrás dessa palavra tem uma luta, uma vida, uma história.


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Artista: Cecilia Favo de Mel


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#Vozeslgbt: Nosso jeito Existem muitas formas de dar vida a uma história. Neste livro procuramos estabelecer um diálogo que envolveu centenas de pessoas que compartilham um ideal: dar visibilidade às histórias da comunidade LGBT. A nossa maior motivação para realizar este projeto foi promover, através do universo artístico e da palavra falada, a aproximação, inspiração e, sobretudo, a reflexão nos mais diversos setores da sociedade. Trabalhar com História Oral no registro das histórias da comunidade LGBT foi uma forma de dar a estes atores sociais o protagonismo de suas narrativas, já que o processo privilegia a recuperação do que foi vivido conforme concebido por quem viveu. Este processo de empoderamento dos sujeitos e de suas narrativas, além de fortalecer as identidades e o sentimento de protagonismo, contribui para a apresentação da complexidade do universo LGBT por meio da perspectiva de quem o vivencia, convidando ouvintes e leitores a refletir e aprender com esse conjunto de histórias de vida. O trabalho com oralidade é, ainda, uma estratégia de evidenciar questões específicas da população LGBT que estimulem o enfrentamento e resistência ao preconceito e à violência que, infelizmente, ainda são cotidianos.

Acreditamos que, quando somos capazes de olhar de forma humana a história do outro, também somos capazes de romper preconceitos e imagens estereotipadas que são amplamente veiculadas na sociedade. Neste processo, foi central o papel do Design Social para apresentar o cotidiano desta população de formas inovadoras e atraente. Coube aos ilustradores dar formas e cores às histórias narradas, e, para tanto, não tiveram qualquer contato prévio com os entrevistados, dispondo apenasdos textos selecionados para esse livro. Com o material em mãos, os ilustradores realizaram um exercício de alteridade e identidade que visa sensibilizar os leitores. Nosso desafio agora é ocupar espaços públicos de leitura e centros de referência e diversidade LGBT, por meio da doação dos livros, realização de rodas de história e lançamentos. Todo o conteúdo do projeto é aberto e licenciado (Creative Commons 3.0) para usos que não tenham fim comercial. Dessa forma, esperamos potencializar as entrevistas gravadas e captadas ao longo do projeto como uma forma de compreensão qualitativa das histórias de vida LGBT. Esperamos que você leitor, engaje-se conosco na missão de divulgar e dar visibilidade a essas histórias. Não deixe esse livro parado na prateleira e ajude-nos na disseminação destas histórias. Contamos com você!


Ficha Técnica Autor: Coletivo Histórias de Vida LGBT (HLGBT)

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Organização: Gustavo Ribeiro Sanchez Maiara Henrique Moreira Maurício Rodrigues Pinto Thiago Pereira Majolo Coordenação: Gustavo Ribeiro Sanchez Edição: Thiago Pereira Majolo Pesquisadores: Maiara Henrique Moreira Maurício Rodrigues Pinto Projeto Gráfico: Beatriz Cafaro

Ilustradores: Amanda Fiorio Beatriz Cafaro Bruno Kuraim Carina Oliveira Cauê Rocha (Xopô) Cecilia Favo de Mel Deborah Saviano Ellen Bonnemasou Feppa Rodrigues Fernanda Ito Izumi Sanma (IZM) Kadu Nunes Láion Pessôa Maria Rita Casagrande N Rosa Paula Izzo Pedro Moreira Raphael Oda Tiago Rodrigues WIRU


Capa: Murilo Abarca Designer: Poliana Santos Pracuch Produção: Bruna Caricati Karina Freitas Parceria/Edição: Ação & Contexto Apoiadores: Cada Foto Gabriel Fernandes Licença: Este trabalho está licenciado sob a Licença Atribuição-NãoComercial 3.0 Brasil Creative Commons. Para visualizar uma cópia desta licença,

visite http://creativecommons.org/ licenses/by-nc/3.0/br/ ou mande uma carta para Creative Commons, PO Box 1866, Mountain View, CA 94042, USA. Agradecimentos: Este livro não seria possível sem o apoio de cada uma das pessoas que compartilhou e participou da campanha online #vozeslgbt. Ao todo foram mais de 100 histórias enviadas aos cuidados do coletivo. Agradecemos a todos vocês que enviaram suas histórias de vida e nos confiaram suas memórias. Que cada uma das mais de seis mil pessoas, que curtiram a página do coletivo, siga nessa luta cotidiana por visibilidade junto com a gente! Obrigado!


Coletivo Histórias de Vida LGBT Amanda Fiorio São Paulo/SP Estudante de Design Gráfico pelo Centro Universitário SENAC, paulistana, trilhando seu caminho nas pautas LGBT+ e erguendo as bandeiras do feminismo interseccional. Suas paixões são projetos gráficos de embalagens, edições de imagens, ilustrações digitais e com giz pastel.

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Beatriz Cafaro Fernandópolis/SP Bacharela em Design Gráfico pelo Senac, onde desenvolveu, como trabalho de conclusão, uma revista em quadrinhos voltada para o público LGBT+, sob orientação do professor Fernando Carvall. Desenvolveu trabalhos de ilustração para microempresas e eventos, como a Corrida de Rua Bodas de Prata realizada na cidade de Fernandópolis. Bruna Caricati São Paulo/SP Jornalista formada pela Faculdade Cásper Libero, pós-graduada em Marketing Digital na ESPM e criadora do blog de viagem Go to Gate. Autora do livro ‘Guiana Francesa - Um vizinho europeu’, que trata sobre a questão dos imigrantes brasileiros

que arriscam tudo em busca de uma vida melhor no Departamento Ultramarino Francês. Bruno Kuraim São Paulo/SP Nascido e criado em São Paulo Capital. Designer Gráfico, artista plástico e tatuador. Estudou Design Gráfico no Centro Universitário Senac, formado em 2014. Militante Comunista e amante de Rap e Punk. Carina Oliveira São Paulo/SP Bacharela em Design Digital pela Anhembi Morumbi onde iniciou sua caminhada como animadora, cursou Animação 3D na Melies Escola de Cinema 3D e Animação, e Ilustração na Quanta Academia de Artes. Há 8 anos trabalha como Motion Designer e Animadora nas áreas de educação e publicidade, desde produção de videoaulas, infográficos e vídeos institucionais, atualmente participa do Coletivo Faces e do canal do youtube Parlatório Cauê Rocha (Xopô) São Paulo/SP Designer, (anti)músico, Pós Graduado em Cinema, Vídeo e Fotografia pela Universidade Anhembi Morumbi. Criador da Sick.TV, canal de vídeos dedicado à bandas independentes do cenário hardcore/punk brasileiro, atua ativamente no meio há 15 anos através de bandas e projetos independentes.


Cecilia Favo de Mel São Paulo/SP Artista e designer residente em São Paulo, com foco em pixel art e outras técnicas de arte digital. Trabalha atualmente para o mercado internacional de games independentes, como freelancer. Já trabalhou com quadrinhos e tem projetos próprios em desenvolvimento que abordam identidade de gênero, entre outros temas. Deborah Saviano Bauru/SP Graduanda em Psicologia pela Unesp, trabalha como artista e tradutora. É militante e pesquisadora em temas que envolvem gênero, sexualidade e violência, tendo como base perspectivas interseccionais. Compõem seus projetos fotografias, ilustrações e iniciativas com foco na educação, na conscientização e no apoio a vítimas de abuso. Participa do coletivo LGBT+ “Prisma”, fundado em 2015 por alunos da Unesp Bauru. Ellen Bonnemasou São Paulo/SP Ellen Bonnemasou é advogada formada pela FMU-SP, e desenhista por vocação. Sua terapeuta insiste que publicar as ilustrações que faz como válvula de escape para as pressões do dia-a-dia jurídico é uma boa ideia. Portanto, nos últimos anos vem publicando seus trabalhos em blogs e outros pequenos canais online. Feppa Rodrigues São Paulo/SP Designer de formação, ilustrador por vocação e fotógrafo nas horas vagas. Seus desenhos impressionam

pela técnica. Em seu sketchbook, muitos traços suaves, cores fortes. Descobriu que lápis, tinta e canetas coloridas lhe trazem liberdade. Só assim, se sente completo. Fernanda Ito São Paulo/SP Designer e ilustradora, cursou Design Digital, desenho e aquarela. Atua em agências de design desenvolvendo projetos de embalagem e identidade visual desde 2011. Paralelamente, dedica-se a ilustração (técnicas digitais e aquarela), incluindo-a em seus trabalhos. Seus principais temas de estudos e influência são a pauta LGBTT, o feminismo interseccional e as questões de urbanismo das cidades. Gustavo Ribeiro Sanchez São Paulo/SP Pós-graduado em Gestão Cultural pelo Centro de Pesquisa e Formação do SESC e graduado em História pela FFLCH-USP, atuou ao longo de seis anos no Museu da Pessoa, pelo ponto de cultura Conte sua História, como articulador de rede e produtor cultural. Ainda nessa instituição, viajou por todo o Brasil ouvindo histórias de vida que lhe ensinaram sobre a diversidade da cultura nacional. Em 2011 fundou a Ação & Contexto com Thiago Majolo, uma empresa de comunicação e branding especializada na construção, preservação e divulgação de marca, cultura e conhecimento. No ano de 2015, participou dos congressos de História Oral das regiões sul e sudeste, onde apresentou seu trabalho: ‘Usos da História Oral como estratégia de pesquisa qualitativa no campo da cultura’.

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Izumi Sanma (IZM) São Paulo/SP Ilustrador publicado no Brasil e exterior, trabalha sob o selo Go-Guy Express, retratando seus interesses e as histórias que o rodeiam. Colaborou com ilustrações e zines no festival Pop Porn em 2014 e 2015, e desenvolve um trabalho autoral focado na condição humana, retratando o cotidiano e o corpo que nele habita.

Láion Pessôa São Paulo/SP Ilustrador baiano que mora em São Paulo desde 2008. Desistiu da faculdade de Design na FAU-USP, cursou desenho na Quanta Academia de Artes e hoje trabalha como ilustrador freelancer e quadrinista. Participa de publicações independentes e produz quadrinhos autorais para sua página Giboia.

Kadu Nunes Sorocaba/SP Publicitário e designer gráfico de Sorocaba, atua profissionalmente em agências. Paralelamente, desenvolve trabalhos sociais voluntários como comunicador/designer, tendo criado para APAE Sorocaba, CRP-SP, UNESP Bauru. Hoje, é responsável pela comunicação e eventos culturais da Parada LGBT de Sorocaba.

Maiara Moreira São Paulo/SP Graduada em História pela FFLCH-USP, tem formação complementar em Antropologia e Gênero, Museologia e Preservação do Patrimônio Cultural e Histórico. Recebeu Menção Honrosa no 19º SIICUSP pelo estudo sobre distinção de gênero em anúncios publicitários no início do século XX. Trabalhou no Museu Paulista da USP, Museu da Energia e Museu da Pessoa. Como ativista feminista e lésbica, integrou o coletivo Marcha das Vadias São Paulo, tendo organizado eventos sobre violência de gênero, pornografia feminista, militância trans e representação da mulher na mídia.

Karina Freitas São Paulo/SP Formada em Comunicação Social com ênfase em Designer Gráfico, aluna do último ano do curso de Letras com habilitação em linguística oferecido pela USP, trabalhou por mais de cinco anos com comunicação interna empresarial, jornal corporativo mensal e peças de marketing e publicidade. Foi também responsável pela comunicação à rede de agências do Banco Safra, bem como pela publicação e mapeamento de processos para elaboração textual de manuais de procedimentos internos.

Maria Rita Casagrande São Paulo/SP 34 anos, Paulista, Gorda, Bissexual, Mãe, Balzaquiana e Baixinha. Estudou moda, trabalha com web e fala sobre direitos humanos. Criou o True Love, blog sobre cultura lésbica e bissexual, coordena o Blogueiras Negras e é parte do Coletivo Audre Lorde de Lésbicas e Bissexuais Negras.


Maurício Rodrigues Pinto São Paulo/SP Bacharel em História, pela FFLCH-USP e especialização em Sociopsicologia, na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), atualmente é mestrando do programa Mudança Social e Participação Política, da USP. Realizou pesquisas em projetos de história oral e também trabalhou como educador em museus e projetos de educação não-formal. Corinthiano, no seu mestrado tem se dedicado a pesquisar a homofobia e a misoginia recorrentes no futebol e a atuação de grupos e coletivos de torcedorxs que reivindicam a participação de mulheres e pessoas da comunidade LGBT nas práticas e lugares que dão sentido ao futebol no Brasil. Murilo Abarca São Paulo/SP Cursou Comunicação Visual com ênfase em Design Gráfico pelo Centro Educacional Senac, onde desenvolveu um livro ilustrado com estética oriental. Trabalhou no Itaú Unibanco por dois anos desenvolvendo layouts, apresentações e materiais gráficos tanto para circulação interna quanto externa, participou da equipe que desenvolveu os projetos do Bike Sampa, e da renovação das agências. Cursou diversos cursos focados em aplicações das artes pelo Senac Santo Amaro, além de ter cursado por quatro anos o curso de Desenho da AreaE – Escola de Artes. Atualmente é integrante da Ação & Contexto, onde procura estabelecer novas relações e diálogos com o Design Social por meio de novas tecnologias.

N Rosa São Paulo/SP Artista multimídia baseada em São Paulo, Brasil. Investiga as relações entre corpo, gênero, raça, feminismo, bissexualidade e lesbianidade. Entre seus projetos, estão fotografias, vídeos, performances e ilustrações. Também publica e participa de zines e publicações independentes diversas. Paula Izzo São Paulo/SP Cenógrafa, designer, ilustradora e diretora de arte, formada em Arquitetura pela Universidade Mackenzie em 99. Mãe de filhos de duas mães, ativista diária nas causas lgbt e feministas. Cenografou para diversas redes de televisão e para o teatro. Como diretora de arte, desenvolveu identidade visual, projetos editoriais e design gráfico para clientes como Correios, SESI, SESC e clientes independentes. Atualmente desenvolve projeto piloto para um Espaço do Brincar no SESC Santos, aplicando conceitos e necessidades atuais para o desenvolvimento da primeira e segunda infância. Pedro Moreira São Paulo/SP Graduado em Licenciatura em Artes Visuais pela UNESP, vive e trabalha em São Paulo. Explora através do desenho e da fotografia questões sobre corpo, gênero e sexualidade. Participou da 5ª edição da Mostra 3M de Arte Digital no Instituto Tomie Ohtake com uma série de autorretratos e atualmente atua como educador na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

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Poliana Santos Pracuch São Paulo/SP Formada em Administração de Empresas pela Universidade Paulista e Design Gráfico e Motion Graphics pela Escola Panamericana de Artes (EPA), extendeu sua formação com os cursos de curta duração com foco em História da Arte e do Design. Um continua estudante, gosta de aprimorar seus conhecimentos em técnicas de impressão, tipografia e caligrafia, grafismos e handcraft. Atualmente, trabalha na Ação & Contexto, na criação e desenvolvimento de materiais gráficos online e offline para instituições educacionais e culturais.

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Raphael Oda São Paulo/SP Formado em design em 2015 onde desenvolveu seu trabalho de conclusão de curso uma historia em quadrinhos muda só com a comunicação gráfica, que visa apresentar uma lenda brasileira. Participou do projeto Chefes Especiais realizado na faculdade, onde desenvolveu um design social apresentando um livro de receitas ilustrado para pessoas com carência. Atualmente trabalha com ilustração para materiais didáticos. No tempo livre realiza obras em papel, chamado de “papercut” abordando os mais diversos temas. Tiago Rodrigues Sorocaba/SP Publicitário, Designer e Ilustrador de Sorocaba, São Paulo. Trabalha como Diretor de Arte na agência de publicidade Atua, em Sorocaba e é aluno especial do Mestrado em Artes Visuais da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Em seus projetos explora

diversas técnicas, desde as digitais às analógicas. Foi designer e ilustrador voluntário na comunicação da Parada LGBT de Sorocaba em 2015. Thiago Pereira Majolo São Paulo/SP Mestre em História Social pela FFLCH-USP e Psicanalista pelo Sedes Sapientiae, trabalhou por mais de oito anos no Museu da Pessoa, tendo ocupado por fim o cargo de Gestor de Acervo. Publicou artigos na Revista de História da USP, além de outras revistas especializadas, e foi vencedor do Prêmio SESC de Literatura, 2013, categoria Crônicas. É autor de muitos livros de memória e memória institucional, como Coleção A Casa e as suas Histórias (A Casa e Eu / A Casa e a Comunidade). São Paulo; Memórias da Literatura Infantil e Juvenil. São Paulo: Editora Peirópolis, 2009; Transformações Amazônicas. São Paulo: Museu da Pessoa, 2011, entre outros. Participou do 1° Congresso Internacional de Novas Narrativas, 2015 promovido pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE). É sócio fundador e diretor da Ação & Contexto. WIRU São Paulo/SP Atua no mercado como ilustrador, animador e Game Designer, mas sua paixão é pelos quadrinhos. Produz fanzines homoeróticos desde 2005 e, em 2012, foi convidado para publicar na Revista Junior, onde é cartunista. É criador do Nick Duvidoso e da super-heroina drag queen Shangrilayla. Foi artista convidado das três últimas exposições do Pop Porn Festival.


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Livro Histórias de Todas as Cores  

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