OPENARENA
New s letter d o Ob ser va tór i o Pol í t ico V J a n/ Fev/ Ma r 2014
P RI M AVE RA S P OL ÍT I C A S | PE RGUN TA & RE SPOSTA | L I VROS | AG E N D A
Direcção do Observatório Político Cristina Montalvão Sarmento Joana Ferreira Marta Ceia
Patrícia Oliveira Paulo Barcelos Suzano Costa Editorial
Armando Marques Guedes Colaboradores
Ana Rita Ferreira Ana Sofia Santos
João Cardoso Rosas
Joana Graça Feliciano
Manuel Filipe Canaveira Pedro Sobral Rui Coelho Edição
Joana Ferreira
Patrícia Oliveira
Composição e Organização Joana Ferreira Capa
Henri Matisse, The Snail (1953)
ø
Contactos Observatório Político
Av. Elias Garcia, 123 - 7º Esq. 1050-098 Lisboa - Portugal Tel.: (+351) 21 820 88 75
geral@observatoriopolitico.pt www.observatoriopolitico.pt
4
Editorial
Armando Marques Guedes
6
Primaveras Políticas: A Primavera dos Povos Pedro Sobral e Rui Coelho
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Pergunta & Resposta
Ana Sofia Santos e Manuel Filipe Canaveira
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Left & Right: The Great Dichotomy Revisited João Cardoso Rosas & Ana Rita Ferreira
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A Biografia do Poder Joana Graça Feliciano
13
Parcerias Observatório Político Ana Sofia Santos
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Agenda
Review & Preview
ED I T O R I A L
Pr i ma vera s Po lítica s Prof. Dou tor Ar ma n do Ma rq ues Gued es Membro do Consel ho Consultivo Na ciona l
A
expressão “Primavera” tem sido usada para de-
al” por um regime sempre atento à necessidade de pleno
é óbvio, exprimir um período de um marcado florescimento
excessos dos seus Estados-clientes sujeitos à “soberania
notar períodos de liberalização política nas mais
emprego dos seus cidadãos) por uma pesada invasão mil-
variadas comunidades políticas. A metáfora, como
itar provinda de uma Moscovo sempre preocupada com os
e visível vitalidade. A conotação politico-ideológica que lhe
limitada” que Brejnev tão bem delineara. Deu-se uma alter-
tem sido atribuída, sem surpresas, varia. Foi-o, em primei-
ação climática abrupta, por assim dizer.
ro lugar, num 1848 apelidado Le Printemps des Nations ou
Mais recentemente, o termo foi também utilizado nas famo-
Le Printemps des Peuples; como o foi, com o termo Primav-
sas Primaveras Árabes que tanto têm marcado os primeiros
era Croata, em finais dos anos 70 do século XX e em relação
quatro anos desta segunda década do século XXI. Aqui, a
com a adopção da língua Croata na então Jugoslávia; ou
expressão foi retomada: já quando Hafez al-Assad, o pai do
ainda, à mesma época, na dita Primavera de Pequim e da
actual ditador sírio, morrera em 2001, se tinha falado com
“liberalização”, sobretudo económica, que lhe deu corpo.
ardor irredentista de uma Primavera em Damasco. Uma
Talvez, no entanto, tenha sido antes, em 1968, que oa ex-
Primavera, essa, que nunca chegou. Mais próximos de nós,
pressão ganhou foros de cidade, quando da tentativa de
os movimentos “pró-Russos” – amplamente orquestrados
“liberalização”, na Checoslováquia, do Partido Comunista
por Moscovo e por tropas russa de operações especiais in-
de Alexander Dubcek, na célebre Primavera de Praga: uma
filtradas na Ucrânia – têm vindo a ser apelidados por fonts
infausta “Primavera” em que esta se viu esmagada e Dub-
do Kremlin ou dele próximas, como uma Primavera Russa.
cek deposto (depressa foi reciclado como “guarda florest-
Num como noutro caso, o que está em causa é uma asso4
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Ap el i da r um movi mento d e “Pr i mavera”
"
vi sa n ão desc revê-lo, e mui to menos expl icá-lo, ma s a ntes
"
a vo nta d e polí tica d e o ena ltecer.
ciação sistemática de uma transição política – ou de expec-
e sem fundo, sobretudo aquelas mais ligadas a ideias de
trata, por isso, tanto de um conceito com verdadeira utili-
to, de ouvir falar dentro em pouco de uma Primavera Eco-
tativas de que ela venha a ocorrer – e processos políticos
fertilidade.
inovadores que se quer significar serem de fruição. Não se
Com um pedigree destes, pouco nos admiraríamos, decer-
dade analítica, ou sequer dotado de uma fundamentação
nómico-Financeira Portuguesa em maio de 2014. Ora ain-
empírica clara. Estamos antes perante uma adjectivação
da bem. Os mercados reagiriam seguramente de maneira
que visa dar um spin positivo a acontecimentos que nos
positiva ao speech act, tal como aconteceu há um par de
agradam e que militam (ou parecem fazê-lo) na direcção
semanas com a Grécia. Em política as palavras têm a eficá-
de uma “abertura” – uma outra metáfora do mesmo tipo.
cia de armas de arremesso – o que tem feito as delícias de
Pelos exemplos dados e vista a intencionalidade das alu-
muitos construtivistas, como os da Escola de Copenhaga.
sões estabelecidas vislumbra-se bem a dimensão de inten-
É de facto sempre mais entusiasmante falar de coisas que
cionalidade em jogo. Apelidar um movimento de “Prima-
não existem, e ao fazê-lo criá-las. Em particular quando se
vera” visa não descrevê-lo, e muito menos explicá-lo, mas
trata de utilizar expressões de alçada teleológica. Fica-nos
antes a vontade política de o enaltecer. Trata-se de um acto
bem, essa busca messiânica incessante de um transcenden-
politico performativo cujo objectivo é mobilizar gente e
te. E resulta, ao que se murmurava – segundo Jorge Luis
disposições numa opinião pública sempre friável ou que-
Borges – na Biblioteca de Babel.
bradiça. O colorida da escolha metafórica ajuda; as estações do ano caem sempre num copo ao mesmo tempo com
5
ø
P R I M AVER AS P O L Í T I C AS
Pr i ma vera s Po lítica s A Pr i m avera d os Povos por Ped ro Sobra l e Rui Coel ho Esta g iá r ios Aca d émicos
O
ano de 1848 figura na História como um dos que maior impacto teve nas estruturas políticas con-
temporâneas. Nesse período, grande número de
revoltas populares terminou com a estabilidade autocrática da maioria dos países europeus (França, Áustria, Hungria, Itália ou Alemanha) vivia. É, ainda, o ano em que o
Manifesto do Partido Comunista, com autoria de Marx e Engels, é apresentam ao público.
Ideologicamente marcadas pelo socialismo utópico, libera-
lismo e nacionalismo, as insurreições assinalaram o final da aliança entre as camadas sociais mais desfavorecidas e
a burguesia, consolidando o poder e a representação desta classe.
O Professor José Adelino Maltez aponta, na actual conjuntura política global, paralelismos com o contexto de 1848.
As primeiras décadas do séc. XXI têm sido, realmente, um período de crise económica e instabilidade política que pode ameaçar a hegemonia das estruturas características do século passado.
Tal como 1848, o ano de 2011 foi marcado por uma intensa
erupção de focos de agitação popular em diversos pontos 6
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( …) fo i u m a no de i nc rível a ctivid a d e revolucioná r ia
"
por to do o m u n do. I ns pira d o pela Pr i mavera Ára b e, a s o c u p a çõ es em Wisconsi n, a s revolta s contra a s med i da s de a uster id a d e na Europa e Rei no U nid o e a s o cpu a çõ es pelos I n d ig na d os es pa nhóis e p elos g regos n a Pra ça Synta gma, o movi mento O cc upy es p a l h ou - se por 2 55 6 cid a d es, em oi tenta e d ois países
do globo, como refere Thomas Nail: “(…) foi um ano de incrível actividade revolucionária por todo o mundo. Inspirado pela
Primavera Árabe, as ocupações em Wisconsin, as revoltas con-
tra as medidas de austeridade na Europa e Reino Unido e as ocpuações pelos Indignados espanhois e pelos gregos na Praça
Syntagma, o movimento Occupy espalhou-se por 2 556 cidades, em oitenta e dois paises”
É possível observar entre tais fenómenos de resistência, um
regresso da ideologia dominante nas revoltas de 1848: o so-
cialismo utópico, hoje apresentado sob uma miríade de outros termos, como autonomismo, anti-autoritarianismo, horizontalidade, zapatismo, democracia directa… (na opinião de David Graeber e Andrej Grubacic).
Tal como no período da chamada Primavera dos Povos, a agitação social fez-se acompanhar de uma forte reacção populis-
ta, hoje notavelmente observável em países tão diversos como Grécia, Japão, Hungria, França e Ucrânia.
Todos estes paralelismos, mesmo que circunstanciais e passa-
geiros, sensibilizam-nos para a importância instrumental da História na compreensão do presente e preparação para o futuro.
ø
7
"
P R I M AVER AS P O L Í T I C AS
PE RGU N TA & RE SPOSTA Pr i mavera s a Les te por Ana Sofia Sa ntos eMa nuel Fi l ipe Ca naveira Esta g iá r ia Aca d émica | Investig a dor Dou tora do
P: Será que os podemos referir à situação actual da Ucrâ-
porque, dizia, a tecnicização é o grande perigo da Filoso-
uma questão que eu próprio não fiz a mim mesmo. Pre-
(o meu filósofo de eleição), só a obra filosófica suscep-
nia como uma nova Primavera de Praga?
fia universitária, porque a afasta das coisas. Das coisas
R: Pedem-me que escreva uma página para responder a
concretas, evidentemente, porque, como já afirmava Kant
tende-se que diga se eu acho - sempre esta doxa a per-
tível de vulgarização interessa, já que as outras apenas
seguir-me e a exigir que eu finja dar uma resposta com
dissimulam os absurdos com o nevoeiro da sofisticação
conteúdo epistemológico - sobre a seguinte questão; é a
aparente (Carta a Garve, 7 de Agosto de 1783).
invasão russa da Crimeia um nova Primavera de Praga?
Por isso não me vou meter por esses caminhos de saber
Responderei dubiamente (como era timbre do oráculo
se esta Rússia que “invade” a Crimeia é a mesma União
de Delfos): direi que é, num certo sentido; direi que não
Soviética que entrou em Praga. Se esta Rússia respeita
é, noutro. Como assim? Bem, às vezes é necessário tor-
ou não os acordos internacionais que subscreveu, por-
nar as coisas simples e desviar-nos dessa maldição dos
que, como realista que sou (Kissinger é o meu estratega
cientistas políticos menores que acham que as respostas
de eleição), sei bem que estes neoliberais amarram go-
problematizantes é que trazem prestígio académico. Mas
vernos, povos e indivíduos, a contratos leoninos que, em
eu penso como Cioran, que acreditava não ser necessá-
determinadas circunstâncias, “arrancaram” aos necessita-
rio inventar sem cessar novas palavras e termos técnicos,
dos ou aos incautos. Pretender que Putin honre aquilo que 8
OPEN ARENA
Yeltsin prometeu a Clinton após ter feito palhaçadas que
filhos, como se fossem bens privados.
belo embrulho feito com as páginas do manual de Direito
verberam os habitantes da Crimeia de exercerem os seus
levaram o norte-americano a não poder conter o riso, é uma sandice completa, mesmo que ela se apresente num Internacional Público e com um laçarote de Geoestratégia que ignore a Geografia (para já não falar da História).
Reflexão madura, dizem, acerca dos perigos que pairam sobre a ordem mundial, sem dizerem que esta “ordem”,
Mas esse tempo passou. Desapareceu na Europa Ocidental
a partir do século XII, exactamente nos países que hoje direitos autonómicos (algo não de todo inaceitável numa república ucraniana que já era autónoma) e preferirem pertencer a um país que é verdadeiramente o seu.
Os Boémios e os Moravos, vulgarmente chamados checos
Prete n d er q u e Pu t i n h onre aq u i l o q u e
"
Ye l tsi n pro mete u a C l i nton a pós ter fei to pa l h a ça d a s q u e l eva ra m o nor te-a mer ica no a n ã o p o d er co n ter o r i s o, é u m a s a n d ice com pl eta m esm o que el a se a p r e s e nt e nu m b e l o emb r u l h o f e it o c o m as p á g ina s d o ma nu a l d e Di r ei to Inte r na ci o n a l P úb l ic o e c o m u m l a ç ar ote d e G eo e s t r at é g ia qu e ig no r e a G e o g r a fia
"
unívoca e sem alternativa, imposta após o colapso da an-
(os eslovacos não tanto) acreditaram na Primavera de
lidade, a qual não se esgota em livre circulação de bens,
parece, festejam a primavera russa, pelo menos por en-
terior, não é de facto internacional, porque não aspira a criar um consenso em torno de uma ideia de universapessoas e serviços.
Já estou nas últimas linhas e ainda não disse se a Primavera da Crimeia é comparável à Primavera de Praga. Não ar-
risco responder, mas posso, com “candura”, adiantar para esse debate “maduro”, que eu não cheguei a ver nenhum
Jan Palach da Crimeia auto-imolar-se. O que eu vi foi uma
multidão de russos da Crimeia (a esmadora maioria dos habitantes da Península) rejubilarem por se terem liber-
tado dessa estupidez histórica que é dar territórios por via administrativa, como se ainda vivessemos na Alta Ida-
de Média, quando uma concepção patrimonial do Estado
Praga e acabaram no inverno soviético; os da Crimeia des-
confiaram do inverno de Kiev e, na opinão deles, segundo quanto.
É essa a diferença.... julgo, salvo melhor opinião (daquelas que incluem gráficos e percentagens).
Quanto ao paralelismo (talvez mais similitude) entre as
duas primaveras, talvez se possa dizer que os checos e os russos da Crimeia lutaram ambos pela liberdade das
suas pátrias. Só que uns perderam, e por isso choraram; os outros ganharam, e por isso sorriram, de novo por enquanto...
levava os monarcas a dividir reinos e impérios pelos seus 9
ø
L I VR O S
L E F T AND RIGHT T h e G rea t Dic hotomy Revisi te d E d ição de João Ca rdoso Rosa s e Ana Ri ta Fer re ira C a m b r id g e: C a mbr i dg e Scho la r s Pub l i s h i ng , 2013 por João Ca rdoso Rosa s & Ana Ri ta Ferreira Professor Univer si tá r io | Investig a dora As socia da
O
livro Left and
démico, nem apenas aos agentes políticos, mas a todos os
my Revisited [Esquer-
Este Left and Right encontra-se dividido em sete sec-
Right:
The
cidadãos, que poderão encontrar aqui ferramentas para
Great Dichoto-
uma participação política mais esclarecida.
da e Direita: A Grande Dicotomia
ções. A primeira secção é composta por um capítulo in-
Revisita-
trodutório que nos dá desde logo a conhecer a história
da], editado por João
da dicotomia esquerda-direita e do critério que melhor
Cardoso Rosas e Ana
tradicionalmente permite estabelecer esta distinção – o
Rita Ferreira e publi-
critério da igualdade. Além disso, este capítulo estabelece
cado pela Cambridge Scholars
as várias dimensões segundo as quais esta pode ser ana-
Publishing
lisada – procurando o seu significado substantivo, atra-
em Dezembro de 2013,
vés de estudos empíricos, estudando a sua relação com as
trata o tema da dicotomia
ideologias e mesmo com os partidos políticos –, fazendo
esquerda-dire-
um breve resumo de cada uma delas.
ita, congregando pela
A segunda secção, cujo título é “The Great Dichotomy
primeira vez numa mesma obra, perspectivas teóricas e
Theorized” [“A Grande Dicotomia Teorizada”], foca-se pre-
empíricas sobre o tema. Este livro procura aprofundar os
cisamente na análise do significado substantivo, do con-
estudos existentes sobre a divisão política entre “esquer-
teúdo, da “esquerda” e da “direita” políticas e da antítese
da” e “direita”, quer nas áreas mais próximas da Filosofia
que estes termos estabelecem entre si. Apesar de alguns
e da Teoria Política, quer na área da Política Comparada,
dos autores que contribuíram para esta secção procura-
de modo a tratar as várias dimensões de análise desta di-
rem contestar a visão clássica segundo a qual a esquer-
cotomia e a produzir um retrato abrangente deste tema.
da é consistentemente – ao longo do tempo e nas várias
A “grande dicotomia” entre esquerda e direita caracteri-
geografias – mais igualitária do que a direita, a maioria
zou sempre a política pluralista, desde a sua emergência
perfilha e desenvolve esta ideia, dando-lhe um importan-
durante a Revolução Francesa. Os termos “esquerda” e “di-
te fortalecimento teórico.
reita” são centrais na história política dos últimos séculos
A terceira secção do livro é dedicada ao tema “Left, Right
e parecem voltar a assumir uma particular relevância nos
and Ideologies” [“Esquerda, Direita e Ideologias”] e trata,
dias de hoje, no contexto da actual crise económica. As-
precisamente, a relação entre o continuum esquerda-di-
sim, compreender os seus significados, os resultados dos
reita e as ideologias políticas – as ideologias “clássicas”,
estudos empíricos, as suas interpretações em diferentes
mas também as novas ideologias. Alguns capítulos subli-
momentos históricos, localizações geográficas e contex-
nham a ideia de que cada ideologia ocupa um ponto espe-
tos culturais, é da máxima importância para compreender
cífico deste espectro político que vai de um ponto espacial
a política moderna e contemporânea. É isso que este livro
a outro oposto, mas podendo a sua posição variar com o
procura fazer, pretendendo chegar não só ao público aca-
contexto cultural, ou com o momento temporal, consoante 10
OPEN ARENA
os seus competidores ideológicos (por exemplo, o libera-
A sexta parte é dedicada a “Special Case Studies” [“Estu-
direm o espaço político). Outros capítulos desta secção
procurando perceber a incidência e o sentido atribuído à
lismo pode ser considerado como de direita ou como de
dos de Casos Especiais”], uma vez que os autores se de-
esquerda, dependendo das ideologias que com ele divi-
bruçam sobre os casos do Brasil, da China e da Bósnia,
mostram-nos como algumas ideologias (por exemplo, o
dicotomia esquerda-direita em cada um destes países. O
nacionalismo) podem ser transversais, podendo ser adop-
caso da Bósnia, por ser tão particular no contexto euro-
tadas, quer pela esquerda, quer pela direita (ou simulta-
peu, assim como os casos do Brasil e da China, por terem
neamente pelos dois lados do espectro político).
ganho tanto peso político na política mundial nos últimos
A quarta parte desta obra, com o título “Ideologies and
anos, têm relevância particular na continuação desta aná-
Political Parties” [“Ideologias e Partidos Políticos”], tra-
lise empírica, que procura compreender os valores dos
ta a relação entre ideologias e partidos políticos. Sendo
eleitores de esquerda e de direita em diferentes contex-
certo que não há uma correspondência simples entre os
tos. Mais uma vez, com todos estes capítulos, se reforça a
partidos e as ideologias que estes dizem perfilhar, os au-
ideia de que a dicotomia tem um significado amplamente
tores que colaboraram nesta secção mostram, ao analisar
resistente, uma vez que é aceite em contextos tão diver-
a dimensão ideológica de partidos que colocam desafios
sos, como os estudos empíricos demonstram.
às ideologias tradicionais – o Partido Trabalhista britâ-
A sétima e última secção, “Philosophical Considerations
nico sob a liderança de Ed Miliband, a facção Tea Party
Revisited” [“Considerações Filosóficas Revisitadas”], tra-
do Partido Republico dos EUA, o Die Linke (A Esquerda)
ta a relevância que a dicotomia esquerda-direita pode as-
alemão, o Partido pelos Animais e pela Natureza portu-
sumir na reflexão filosófica. Os vários capítulos que aqui
guês – como, apesar disso, a dicotomia esquerda-direita
encontramos introduzem a análise da dicotomia partindo
é absolutamente relevante na sua categorização e compreensão.
do pensamento de alguns dos mais importantes autores
A quinta secção deste Left and Right é de-
de filosofia política, quer de esquerda, quer de direita,
dicada à comparação sobre o sentido dado a estes termos
como Isaiah Berlin e Raymond Aron, Amartya Sen e Mil-
e a esta dicotomia em diferentes países. Como o seu título
ton Friedman, Chantal Mouffe e F. A. Hayek. Esta parte de-
indica – “Empirical Applications in Cross-Country Com-
dicada às contribuições filosóficas permite-nos perceber
parison” [“Usos Empíricos em Comparação Entre Países”]
como a dicotomia esquerda-direita, sendo claramente po-
–, os vários capítulos procuram identificar de que forma
lítica, não se restringe à política quotidiana, mas é antes
os valores políticos dos votantes em diversos países se
uma ferramenta que nos permite interpretar e simplificar
relacionam com a sua identificação com a “esquerda” ou
o pensamento político. ø
com a “direita”. Todos os contributos aqui apresentados provam a extraordinária resiliência desta dicotomia, que continua a sobrepor-se a outras que com ela podiam riva-
lizar e continua a manter um significado implícito que é reconhecido em diferentes pontos do globo.
11
L I VR O S
A B I OGRA F IA DO PODE R C a r reira s Po lí t ica s no Pa r la me nto Por tug uês Au tor ia d e Br u no G o nça lves B er na rdes Li s b oa: Fon te da Pa lavra, 2013 por Joa na Gra ça Fel icia no Esta g iá r ia da Associa ção Ti to d e Mora is
A
“biografia
no sistema de recrutamento dos partidos portugueses
um ensaio e estu-
51); os factores que suscitaram o interesse pela política
do
do
poder”
analítico
sobre
resulta
(pág.35-38); a relevância do sistema de quotas enquanto
de
“entrave à qualificação do parlamento” ou não (pág. 47-
entre os entrevistados e o impacto que a revolução de-
os moldes e padrões
mocrática de 1975 teve nesse sentido (pág. 57-65); assim
da carreira política
como os níveis da militância partidária e os caminhos do
portuguesa. A fim de
recrutamento (pág.67).
traçar um profiling dos
elementos
Para o investigador na pessoa de Bruno Bernardes, os
que
elementos primordiais na constituição e ascensão em
constituem o trajec-
carreiras políticas são o capital técnico e político dos
to político, o autor utiliza
como
recrutados. No universo partidário as estruturas do seu
case-
recrutamento privilegiam de forma natural o capital polí-
study o parlamento,
tico, abrindo progressivamente espaço para a necessidade
baseando-se nas per-
do capital técnico, a fim de fortalecer o conhecimento tec-
spectivas de 19 deputados do Partido Socialista (PS) e do
nocrático das suas estruturas e instituir uma elite política
Partido Social-Democrata (PSD) da XIX legislatura.
mais forte.
O prefácio do professor catedrático José Adelino Maltez
Através dos resultados obtidos nas entrevistas biográfi-
introduz o autor e o tema explanando de forma exímia
cas da amostra seleccionada dos deputados, “a biografia
uma imagem histórica e panorâmica sobre a “necessidade
do poder” conseguiu beneficiar do perfil sociodemográ-
de governabilidade e de liderança” e os “problemas clássi-
fico traçado, assim como do entendimento que se atingiu
cos de degenerescência” dos regimes políticos.
sobre os factores que influenciam a construção das car-
O objectivo principal a que se propõe Bruno Gonçalves
reiras políticas, mormente: relações familiares, o mérito
Bernardes com o presente livro é o de fazer uma “des-
e o percurso partidário.
crição da evolução das carreiras políticas em Portugal”.
Quanto ao regime de incompatibilidades e a profissio-
Consegue atingir essa finalidade através de uma ampla
nalização política, a conclusão é a de que esta última
análise sobre o assunto, tomando em consideração dife-
“depende de uma permanência na vida política e
rentes elementos: as técnicas de selecção e formação dos
partidária que não pode ser satisfeita quando não existe
membros da elite política, os constrangimentos institucio-
autonomia financeira, ou quando a carreira profissional
nais e o sistema de profissionalização que têm adulterado
não é flexível o suficiente”, deste modo se justifica o ac-
o modus operandi da construção das carreiras políticas.
tual teor semiprofissional nas carreiras políticas dos de-
No decorrer do estudo debate-se a dicotomia “político de
putados.
carreira” e “carreiras políticas” apresentada por Mattozi
Nas palavras do autor: “o estudo das carreiras políti-
e Merlo em 2008 (pág.27 e 28); os factores pertinentes
cas é relevante para o aprofundamento da realidade dos 12
OPEN ARENA
PARCE R IAS O B SE RVATÓ R I O PO L Í T I C O
Ma is va nta g ens pa ra memb ros O P
por Ana Sofia Sa ntos Esta g iá r ia Aca d émica
partidos, dos agentes políticos e da formação de elites
O Observatório Político tem vindo a estabelecer diversas
actualidade existente na literatura portuguesa no que se
estabelecidos, os membros associados do OP têm apenas
políticas” (pág.28).
Este livro veio de facto colmatar e enriquecer o défice de refere ao estudo da ascensão ao poder, aos constrangimentos do recrutamento, à estruturação das elites políticas e ao profissionalismo do papel do político.
O que engrandece este ensaio é o constante exercício do contraditório nas diversas temáticas, o explanar das diferentes perspectivas sobre os assuntos recorrendo a autores de referência e a exemplos análogos internacionais.
O autor conseguiu colocar eficazmente as suas competências na área das Relações Internacionais e Ciência Política, em prol de um estudo político de organização e análise
parcerias com instituições de cariz cultural e educativo.
Para usufruir destas parcerias e ter acesso aos descontos de apresentar os seus cartões de associado no acto de pagamento junto da instituição parceira. Consulte aqui a lis-
ta dos nossos parceiros e o desconto em vigor nas suas actividades.
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da informação muito bem estruturado.
Uma leitura obrigatória para todos estudantes, investi-
gadores e interessados em percepcionar os meandros do poder político português no que concerne à ascensão de elites e à formação de carreiras políticas. ø
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AG E N DA
AG E N DA | RE V I E W JANEIRO
10 13-17 22 27 30 31 19 28 28 4-5
Lançamento do livro “Entre África e a
Europa - Nação, Estado e Democracia em Cabo Verde” sob organização de Mestre
Suzano Costa e da Prof. Doutora Cristina Montalvão Sarmento.
École
d’Hiver
-
Redes Políticas no Portugal
Contemporâneo.
Seminário de internacionalização do ensino, organizado pelo OP e Sciences Po Paris, Campus de Poitiers.
Sessão de abertura do Curso de Formação Avançada em Diplomacia na América Latina, em parceria com a Universidade Lusíada. Lançamento Séminaire
da
II
Edição
OP/Sciences
Internacionais,
Po:
do
Cours
Conferêncistas Doutora
Cristina
convidados,
Montalvão
Sarmento
e
Professora Professor
Doutor Manuel Filipe Canaveira. Painelistas, Mestre Patrícia Oliveira e Dr. Carlos Vargas, Mestre Catarina Gama.
10
Lançamento da nova obra da Colecção de Estudos
Políticos
do
Observatório
Político, Utopia Realista, da autoria da
Investigadora Doutorada, Doutora Maria João Cabrita.
Relações
Segurança
e
Mundialização (RISM), que decorre até ao mês Abril em Sciences Po-Campus de Poitiers.
Lançamento do livro A Biografia do Poder: Carreiras Políticas no Parlamento Portu-
guês da autoria do Investigador Associado,
Mestre Bruno Gonçalves Bernardes.
Working Paper #39 d “A Comunicação
FEVEREIRO
Estratégica
da
Nato”,
da
autoria
da
Investigadora Associada, Mestre Marta Ceia.
Coordenação do Curso de Formação Avançada em Diplomacia na América Latina é convidada a participar na Tertúlia Diplomática sobre a
Crise da Argentina, com S. Exa. o Embaixador da Argentina Jorgue Argüello, na Livraria Ferin. Working
Coelho.
paper
#40
“Politipédia-
Repertório Português de Ciência Política” dos estagiários académicos Pedro Sobral e Rui
Manuel Filipe Canaveira, foi o convidado do Jornal das 19h da RTP Informação. Working
paper
#41
“O
Envolvimento
Democrático dos Movimentos Sociais” da autoria do Investigador Associado do OP,
Mestre M.J. Alves.
Abertura da III edição do Programa de Estágios
académicos
e
curriculares
do
Observatório Político para jovens estudantes
e recém-licenciados a decorrer de Abril a Junho de 2014. MARÇO
11 24
Investigador Doutorado do OP, Prof. Doutor
Colóquio tural
going
Shattering
Responses Crisis
Iberia
to
(UC
an
-
CulOn-
Berkeley). 14
24
O Investigador Associado, Mestre Alain
Montalvão Lantoine é o correspondente do OP em Kiev, Ucrânia.
OPEN ARENA
AG E N DA | P RE V I E W
doutorados, membros do Conselho Consultivo Nacional e
ABRIL
1 3 4 7
membros associados.
17
Em parceria com a Academia ISCTE-IUL e à seme-
lhança do ano passado, o Observatório Político irá receber, durante o mês de Abril, um grupo de alunos
do ensino secundário proporcionando a estes jovens a possibilidade de conhecerem a atividade do OP. Assinatura
de
uma
parceria
com
a
tividades. MAIO
Alliance
Incrições
Française de Lisboa, proporcionando aos seus asso-
ção
ciados 10% desconto nos cursos desta instituição.
Bocage, proporcionando aos seus associados 10% desconto nos espectáculos e outras ac-
abertas
Avançada
Autárquica.
Assinatura de uma parceria com o Centro Europeu
Assinatura de uma parceria com o Teatro
para
em
Coordenação
o
Curso
Democracia
científica:
de e
Prof.ª
FormaGestão
Doutora
Cristina Montalvão Sarmento e Mestre Bruno Gonçalves
de Línguas, proporcionando aos seus associados
Bernardes. Coordenação Executiva: Dra. Ana Sofia Santos e
5% desconto nos cursos desta instituição.
Dr. João Mártires.
A Investigadora Associada do Observatório Político,
Mestre Patrícia Oliveira foi a convidada do Jornal 2 da RTP2.
7-8
O
pou
Observatório no
III
Estratégico:
Político
Encontro
América
partici-
“Triângulo
Latina
–
Europa – África” (Lisboa, 7 e 8 de Abril), organizado pelo Instituto para a Promoção e Desenvolvimento da América Latina (IPDAL), a Caixa Geral de Depósitos (CGD) e a
II Edição do Seminário de Internacionalização Spring Re-
nel “Triângulo Atlântico: Relação Estratégica.”
gia, EUA)
Accenture. O evento contou com a participação da Diretora
search School, co-organizado pelo Observatório Político e
do OP, Prof ª. Doutora Cristina Montalvão Sarmento no pai-
14-16 Faculdade
de
Economia
-
VII
Congresso
Associação
a Sam Nunn School of International Affairs (GATECH, Geor-
da
Portuguesa
de Ciência Política, na
Universidade
de
Coim-
bra, que conta com a participação de 24 membros do Observatório Político, entre investigadores associados e
15