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Voz da Leste, edição 002

São Paulo, SP/ Zona Leste, Novembro de 2013

PERIFERIAS EM LUTA

Pelo fomento à periferia e outras questões...

POR UMA MEMÓRIA CIGANA NA ZONA LESTE Entrevista a Nicolas Ramanush, da Embaixada Cigana do Brasil

GRUPO DE TEATRO POMBAS URBANAS 24 anos de existência


EDITORIAL

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Novembro de 2013

A PERIFERIA NÃO DORME NUNCA! É com um imenso prazer que lançamos agora a segunda edição do Jornal Voz da Leste. Não pensem que houve um vazio entre a última edição e esta, ao contrário estamos na luta diaria, constante, na linha de frente ou acompanhando e apoiando os coletivos e movimentos que fazem com que as periferias até possam ser, muitas vezes, bairros dormitórios, mas nunca um lugar onde se dorme. Lembramos que quando muitos disseram em junho passado que o “Brasil acordou” outros lembraram que a” PERIFERIA NUNCA DORMIU!” O Fórum de Cultura da Zona Leste, que esta publicação faz parte, se articulou com outras periferias, notadamente da Zona Norte, Zona Sul e as periferias centrais como A Favela do Moinho e criaram uma Mostra Cultural da Periferia com fins artísticos e políticos. Queremos mostrar que já fazemos um trabalho há anos e sem dinheiro público que lhe baste. Denunciamos a falta de investimento ampla nas periferias, notadamente na Cultura, e exigimos uma LEI DE FOMENTO À PERIFERIA dotada com ORÇAMENTO PRÓPRIO e 2% do orçamento do município para a Cultura. Temos que comemorar que na última Conferencia Municipal de Cultura a perifa estava em peso e fez valer sua voz ali nas deliberações aprovadas.Também comemoramos a aprovação do VAI II que continua um processo de financiamento público das bordas da cidade no fazer cultural de SP. Contudo, sabemos que essa grana ainda é pouco, mas é um avanço considerável para regiões que recebem apenas 0,7 desse dinheiro. Aproveitamos para denunciar a ameaça de despejo de vários coletivos periféricos de suas ocupações culturais. Casos do Sacolão das Artes na zona sul, e do CDC Vento Leste e Coletivo Alma na zona leste. Espaços de referencia para suas comunidades que há anos vem construindo com arte o debate sobre o existir e viver nesta cidade. O Jornal Voz da Leste, apoia esta luta! Nesta edição denunciamos o Metrô de São Paulo com seus problemas cotidianos e a denuncias do desvio de R$ 425 milhões durante os 20 anos de governo do PSDB em nosso estado. Trazemos também a memória dos ciganos na zona leste, povo ancestral de cultura muito rica. Matérias sobre o fazer cultural e da memória da zona leste, dicas culturais, das lutas periféricas e dos movimentos sociais também recheiam nossas páginas mais uma vez. Como disse Rosa Luxemburgo, “quem não se movimenta não sente as correntes que o aprisiona”. Então vamos nos mexer! Boa Leitura, tamo junto! Marcel C. Couto e Elaine Mineiro - Editores

São Paulo, Novembro de 2013.

EXPEDIENTE

Elaine Mineiro e Marcel Cabral Couto • Arte e Diagramação: Lese Pierre, Paloma Valéria dos Santos, Patrícia Portugal e Patrícia Mayumi Ishirara • Ilustração: Ruana Negri • Jornalistas: Aurélia Cavalcante, Lívia Lima e Maurício de Moraes Noronha (Muro) • Colaboradores: Adailton Alves Teixeira, Antonio Miotto, Coletivo ALMA, Dimitry Uziel, Edu Sereno, Escobar Franelas, Débora Freitas, Daniel Marques da Silva, Danilo Morcelli, Hugo Paz, Instituto Pombas Urbanas, Leandro Hoehne, Ligia Costa, O Augusto, Queila Rodrigues, Ruana Negri, Thabata Ottoni, Thales Alves, Vandei Oliveira Zé • Parceiros: ANEL-SP, Casa de Cultura do Itaim Paulista, Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes, Coletivo DAR, GRCS Escola de Samba Unidos de Santa Bárbara e Sarau o Que Dizem os Umbigos • Administração: Adriano Borges, Elaine Mineiro, Marcel Cabral Couto e Simone Estrela • Contatos: e-mail: vozdaleste@gmail.com; facebook: https:// www.facebook.com/VozDaLeste; Blog: vozdaleste.blogspot.com; • Anúncios: anunciosvozdaleste@gmail.com; Cel: 963811073 (Marcel) • Gráfica: Taiga Gráfica e Editora Ltda. Tiragem: 3.000 exemplares. • Editores:

Realização:

Ilustração: Ruana Negri


Sacolão das Artes / Voz da Sul Foto: Rogerio Gonzaga

AS VOZES “Trabalhadores do mundo inteiro, uni-vos!”

(manifesto do Partido Comunista)

REAÇÃO SOMOS TODOS DOUGLAS! Texto: do portal da ANEL - Assembléia Nacional de Estudantes - Livre. Em 29 de Outubro de 2013

POLÍTICA

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PERIFERIA EM LUTA

Quanto mais avançam as forças de produção da vida no sistema capitalista e, consequentemente, a exploração da classe trabalhadora, o chamado de Marx se reafirma com mais intensidade, levando os trabalhadores a se reorganizarem na luta contra a opressão e exploração da sociedade atual. Muitas foram as formas históricas dessa organização: ligas, movimentos, sindicatos, partidos, etc. Hoje a conclamação à luta é feita pelos coletivos organizados nas periferias das cidades – Entenda-se por periferia não só um espaço geográfico afastado do centro, mas o espaço onde, dentre outras coisas, reside um conjunto da classe trabalhadora; um lugar onde a cultura é produzida e fruída por essa classe. Ao longo desses últimos anos, houve um deslocamento no jogo de referências e remissões que o termo periferia parece mobilizar. Não mais entendida apenas como local de pobreza, privação e sofrimento passível de comiseração, a periferia passa a ser um termo utilizado como marcador da presença ativa de populações vistas não sob o signo da fragilidade, mas da potencialidade. (Tiarajú, 2013). É com a perspectiva de potencializar ainda mais a organização popular nas periferias que o Fórum da Zona Leste, após vários encontros, organiza, junto com companheiros de outras quebradas, de outras zonas de São Paulo, a Mostra Das Periferias, unindo ação política e estética. A mostra tem por tema a criação do Fomento Periferia, lei que possibilita a sustentação material

dos diversos trabalhos que já são desenvolvidos nos cantões da cidade, e teve sua abertura no dia 12 de outubro na favela da Paz. No dia 13 de outubro, o Sacolão das Artes teve o prazer de sediar o primeiro encontro formativo da Mostra, no qual se fez uma retomada histórica da origem do Fórum e se discutiu os avanços e possíveis empecilhos para a realização da lei. O Sacolão das Artes, espaço ocupado por trabalhadores das artes, produtores culturais e movimentos sociais, vem participando de ações com o Fórum Z/L que visam à ampliação

da discussão e reflexão acerca dos nossos afazeres, enquanto sujeitos históricos do nosso tempo, que culminem em ações práticas de transformação da realidade. Uma das ferramentas para essa transformação, além das discussões e reflexões propostas pelo Fórum, é o jornal Voz da Leste, que cumpre um papel fundamental na disseminação dessas iniciativas, travando, na trincheira da comunicação, da palavra, da notícia, mais uma batalha dessa mesma guerra contra a mercantilização do pensamento. É com esse mesmo intuito que nós, da Sul, bus-

camos organizar, a exemplo dos companheiros da Leste, um Fórum Da Sul e um jornal Voz da Sul (por enquanto um blog), numa tentativa de somar ainda mais as nossas forças, pois, agora que já temos voz, queremos mais, queremos cantar o sol de um novo mundo oriundo da força de nossos braços e do peso da nossa arte. Periferias do mundo inteiro, uni-vos!

Nesta segunda-feira, 28 de outubro, o funk da Vila Medeiros, Zona Norte de São Paulo, abafou mais um tiro no caminho da juventude negra da periferia do Brasil. Douglas Rodrigues tinha apenas 17 anos e provavelmente muitos sonhos a concretizar, como qualquer jovem, quando foi abordado por um policial militar com um tiro no peito e morreu sem entender o motivo de estancar seus sonhos. A população de Vila Medeiros, porém, não se aceitou ter que enterrar mais um morto em silêncio. Numa verdadeira homenagem póstuma gritaram pelas grandes avenidas da cidade e atearam fogo em ônibus e caminhões, pois não aturam mais que a única chama a se acender pelos mortos da periferia seja a chama das velas dos milhares de mães que acompanham o

cortejo dos corpos, em geral negros e pobres, que povoam a cidade mais populosa do país e que morrem como Douglas, sem saber o porquê. Como não bastasse a clara truculência da PM de São Paulo, sentida na pele todos os dias pelas periferias, no dia 3 de setembro a Rota ganhou uma “Salva de Prata” da câmara de vereadores dessa cidade, um prêmio que, segundo os vereadores do PTB, homenageia os “verdadeiros heróis dessa sociedade” e ainda pra completar no Rio de Janeiro a Condor, empresa que produz armas “não letais” foi homenageada pelo O Globo com o prêmio “Faz Diferença”. Empresa essa que teve sua produção gasta reprimindo os protestos que tomaram conta do Brasil e que de certa maneira também são um grito da periferia negra que não agüenta mais ser tratada

com a brutalidade dos estados através da PM. Sobre o assassinato do jovem Douglas, o PM que disparou o tiro está sendo acusado de homicídio culposo, que significa homicídio sem intenção de matar, o que não há perícia que explique na situação em questão, já que Douglas foi atingido com um tiro no peito, enquanto passava em frente a um bar. É preciso que Geraldo Alckmin, que sempre apóia a ação da PM se manifeste e tome uma atitude não apenas por esse crime, mas por ser mais este. É ainda um absurdo que a presidente Dilma dê uma declaração prestando solidariedade e afirmando a desigualdade e violência pela qual passam em jovens, como se fosse uma agente passiva no quadro em questão. Não dá mais pra tolerar que em todos os atos e em

todas as ruas das favelas brasileiras sejamos vigiados por “heranças da ditadura militar”, como é a PM, instituição essa que se baseia apenas na repressão a população, com requinte de crueldade. Até a ONU já se pronunciou em defesa da desmilitarização dessa instituição truculenta, que forma na verdade assassinos em série e não heróis. É necessário que Dilma tome uma atitude em defesa dos milhares de Douglas que povoam nosso país, que desmilitarize a PM e crie uma polícia controlada pelas comunidades, sem fins repressivos. Assim quem sabe diminuirão as velas dos milhares de cortejos fúnebres, que tem cor, idade e classe social! SOMOS TODOS DOUGLAS! PELA DESMILITARIZAÇÃO DA PM!


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EM DEBATE

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Ato de abertura da 1ª Mostra Cultural das Periferias - Pela Lei de Fomento à Periferia. Itaquerão [Foto: Queila Rodrigues]

FCZL: PERIFERIAS EM LUTA #pelofomentoàperiferia e outras questões...

O

s dois primeiros meses de 2013 foram marcados por intensas mobilizações e discussões entre grupos periféricos organizados em plenárias e encontros: paralelamente regiões como Ermelino Matarazzo, Guaianazes, Cidade Tiradentes, Itaquera, Penha, São Miguel, Itaim Paulista e mais tarde São Mateus, articulavam-se, localmente, e debatiam sobre as condições de vida e fruição cultural de seus bairros. Participavam destas reuniões não só artistas e coletivos, mas também gestores de equipamentos públicos e pesquisadores, possibilitando importantes momentos de troca e construção de saberes coletivos. “Nunca fechados para novas ideias”, era o que dizia o cartaz de divulgação do 2º Encontro Zona Leste, antevendo o que estava por vir. Naquela mesma noite a articulação de Guaianazes chegou junto e propôs a integração das agendas e a formação de uma rede comum na região. “PESSOAS DIFERENTES, IDEIAS DIFERENTES, ANSEIOS DIFERENTES, BAIRROS DIFERENTES, MAS COM UM MESMO OBJETIVO:VALORIZAÇÃO PARA QUEM FAZ ARTE E CULTURA NA ZONA LESTE”

(Informativo do Encontro Zona Leste)

Texto: Harika Maia e Queila Rodrigues Fotos: [1] Daniel Marques e [2] Queila Rodrigues

O Fórum de Cultura da Zona Leste se consolidou neste processo coletivo com a clareza de que tratava de questões locais e estruturais, interligadas pela histórica e desigual lógica da urbanização e política paulistana. Entendendo-se parte de um contexto integrado e complexo. A organização é regional, mas de interesse comum à outras periferias. “Periferia é periferia em qualquer lugar”, já cantavam os Racionais Mc´s lá na Zona Sul. A leitura que se faz da questão cultural é transversal e estrutural, passa por todas as esferas da sociedade e interage com as forças políticas em jogo. Acreditando na potência criadora e crítica das práticas dos sujeitos periféricos, o FCZL defende a valorização das manifestações artísticas e culturais locais, marginalizadas justamente por não serem passíveis de troca e lucratividade segundo a racionalidade do mercado, uma vez que seu fazer artístico está baseado nas redes solidárias e comunitárias, não submisso aos valores hegemônicos e voltados prioritariamente a um público com baixa capacidade de consumo e acesso inconstante às produções e atividades artístico-culturais.

O objetivo é criar um espaço aberto e continuo de discussão sobre políticas públicas (governamentais ou não) e estimular a produção artísticocultural nas periferias da cidade. Defende-se a ampliação dos horizontes de oportunidades e possibilidades de projetos de vida que possam ser pensados fora do esquema do mercado de trabalho tal como se encontra hoje; pela vida não pautada na necessidade de reprodução da força de trabalho; por uma conscientização emancipatória do indivíduo e a possibilidade de construção de projetos coletivos.

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“NA ÓTICA DO CAPITALISMO NÓS NÃO SOMOS COMPETENTES. NÃO PRODUZIMOS MERCADORIA, NOSSA PRODUÇÃO É SIMBÓLICA”

(Carta do Fomento).

O que o Fórum propõe é dar maior visibilidade à periferia, reconhecendoa como parte integrante da cidade e valorizando as criações culturais desenvolvidas pelos sujeitos periféricos. Pois são estes que, por meio da arte, poetizam o cotidiano e tornam visíveis e manifestas suas questões e lutas. A condição periférica leva o artista-cidadão à luta política.

Entrega das pautas do FCZL ao prefeito Fernando Haddad. Itaim Paulista


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Seminário de Políticas Públicas

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“Na América Latina, são uma perigosa espécie em extinção: as organizações dos sem terra e dos sem-teto, os semtrabalho, os sem-tudo: os grupos que trabalham pelos direitos humanos; os lenços brancos das mães e avós inimigas da impunidade e do poder; os movimentos que congregam vizinhos de bairro; as frentes de cidadãos que lutam por preços justos e produtos saudáveis; os que lutam contra a discriminação racial e sexual, contra o machismo e contra a exploração das crianças; os ecologistas; os pacifistas; os voluntários da saúde pública e os educadores populares; os que promovem a criação coletiva e os que resgatam a memória coletiva; as cooperativas que praticam a agricultura orgânica; as rádios e televisões comunitárias; e muitas outras vozes da participação popular, que não são setores auxiliares dos partidos nem capelas submetidas a qualquer Vaticano. Com frequência, essas energias da sociedade civil são acossadas pelo poder, que as vezes chega ao ponto de enfrentá-las a tiros. Alguns militantes tombam pelo caminho, crivados de balas. Que os deuses e os diabos os tenham na glória: são as árvores que dão frutos as que mais levam pedradas.” IN.: De pernas pro Ar - Eduardo GALEANO

Para a organização do trabalho desenvolvido e para qualificar esta ação, formaram-se grupos de trabalho nas áreas de: “formação”, “políticas públicas” e “mostra cultural”. A primeira formação se deu em maio e teve como temática a construção social e simbólica da periferia e do sujeito periférico. O convidado para o debate foi Tiarajú D´Andrea, artista e integrante do Coletivo Dolores Boca Aberta, que defendeu, este ano, a tese de doutorado “A formação dos sujeitos periféricos: cultura e política na periferia de São Paulo” (USP). Em seguida foi a vez do GT de políticas públicas mostrar a que veio. Com o intuito de debater ações e políticas públicas, o grupo realizou nos dias 20 e 21 de julho o “O 1º Seminário de Políticas Públicas para a Periferia”, no CDC Vento Leste – escolhido por ser um espaço ocupado por coletivos independentes (Coletivo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes, Coletivo da Albertina, Grupo Teatral Parlendas, Grupo de Dança Amigos Para Sempre, Banda Nhocuné Soul, Esquadrão Arte-Capoeira) e estar sob ameaça de despejo pela prefeitura, assim como tantos outros espaços culturais da cidade.

Para fomentar os debates, foram convidadas algumas pessoas que já desenvolvem trabalhos na área e poderiam contribuir com o processo de aprofundamento da discussão, dentre elas: Luiz Carlos Moreira (diretor da Cia. Engenho Teatral), Ana Paula do Val (pesquisadora e militante) e representantes da Secretaria Municipal de Cultura, como o secretário Juca Ferreira, seu assessor Guilherme Varella e os coordenadores Gil Marçal e Renato Almeida. Entre música, poesia, maracatu, intervenções estéticas e muito debate, foi possível pontuar demandas comuns e bandeiras importantes: FOMENTOS: aprovação do Programa VAI 2 (aprovado pela Câmara em 16.10); implantação dos Pontos de Cultura (SMC) e simplificação da prestação de contas; transparência e democratização para o uso da verba destinada à Quebra da Cultural e fim dos mecanismos de incentivos via renúncias fiscais, como a lei Rouanet , o Proac ICMS, a lei Mendonça e o enfrentamento à aprovação do projeto de lei “Zé Renato” – que, se aprovado, deve destinar mais R$ 13 milhões de reais à pequenos produtores teatrais (linguagem artística que já possui um fomento específico);

ORÇAMENTO: destinação de 2% à Secretaria Municipal de Cultura, garantido em lei – com projeção de aumento de 10% em 10 anos – e destinação de no mínimo 1% do PIB ao MINC; GESTÃO: necessidade de transparência no uso do recurso público; qualificação dos funcionários que trabalham nos equipamentos culturais; mapeamento das iniciativas existentes e criação de canais de participação popular na gestão das políticas públicas; EQUIPAMENTOS CULTURAIS: indispensável melhoria da estrutura dos equipamentos existentes e necessidade de construção de outros; desburocratização para a utilização destes espaços; e combate à gestão privada dos equipamentos públicos; ESPAÇOS INDEPENDENTES: apoio, regularização e cessão de uso aos espaços públicos ociosos ocupados e geridos por grupos independentes;mapeamento de locais ociosos com potencial para ocupação cultural; PLANOS: necessidade da cidade de São Paulo aderir o Plano Nacional de Cultura e elaborar o Plano Municipal, com a reativação e discussão do papel desempenhado pelo Conselho Municipal de Cultura.

Dentre inúmeras pautas existentes e prioritárias, geradas por um processo histórico marcado pela exclusão das periferias nas políticas públicas de cultura pensadas para a cidade (cuja maior população é periférica), a bandeira prioritária do FCZL é a construção de uma política de apoio ao trabalho de grupos com trajetórias consolidadas, mas que não se encaixam nos critérios das leis de fomento existentes. Os coletivos integrantes do Fórum reconhecem e defendem a importância e potencialidade de programas como o VAI (I e II), mas também suas limitações, sobretudo orçamentárias, se comparado à outros investimentos públicos restritos à linguagens específicas e/ou com menor alcance, tanto do ponto de vista da produção, quanto da fruição, por isso, pensando em políticas integradas, complementares e mais democráticas, o FCZL propõe o Fomento à Periferia.

O FOMENTO PERIFERIA tem sido pauta permanente de discussão com outros movimentos periféricos da cidade, porém suas características principais já foram desenhadas: • Um programa estruturado em lei, com dotação orçamentária própria e mecanismos de reajustes pré-estabelecidos; Uma Política que deve: • Contemplar projetos culturais de coletivos das periferias paulistanas; • Visar a estruturação e potencialização de trabalhos continuados; • Direcionar-se às múltiplas linguagens artísticoculturais. (As práticas dos artistas e grupos periféricos estão entrecruzadas por trajetórias e vivências que configuram uma cena cultural rica de diversidade e experiências que não estão limitadas a uma ou outra linguagem artística); • Ter caráter distinto do programa VAI no que se refere à faixa etária (sem restrição como no VAI I), ao tempo de duração e ao montante de recursos destinados por projeto (no mínimo R$ 100.000,00). “FOMENTO À PERIFERIA, uma política pública capaz de estruturar econômica e poeticamente as coletividades das quebradas” (trecho do Manifesto Periférico: pela lei de fomento à periferia). Articulado a outros movimentos culturais periféricos, o FCZL promove entre os meses de outubro e novembro a 1ª Mostra Cultural das Periferias, com atividades artísticas diárias e mesas de formação política, na cidade e Grande São Paulo. São as periferias unidas mostrando sua força e potencia por meio da arte. O Fórum segue seus trabalhos na promessa de não deixar a peteca cair. Para isso convidamos todos que se identificam com estas pautas a participarem das reuniões abertas. Para saber mais, acesse a página do facebook: www.facebook.com/forumdeculturadazl forumdeculturadazonaleste@gmail.com


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PRÓXIMA ESTAÇÃO:

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SUFOCO

Linha Vermelha do metrô, principal meio de transporte da zona leste, carece de investimentos e deixa os usuários cada vez mais insatisfeitos Texto: Lívia Lima

“No vocabulário ferroviário, os espaços dos trens em que se transportam pessoas são chamados carros. Vagão é para transportar bicho”, aprendeu Maria Alice Alves durante um passeio turístico. Isso explica para a nutricionista, moradora da Vila União, o porquê de, este segundo termo ser o mais utilizado para se referir ao metrô. “Ninguém se respeita, é desumano”, desabafa. Diariamente, Maria Alice e mais de 1,1 milhão de pessoas utilizam a Linha 3 – Vermelha da Companhia do Metropolitano de São Paulo, o Metrô. Principal meio de transporte público que liga a zona leste às outras regiões, a linha vermelha é, também, a que transporta mais passageiros em toda a cidade. Segundo dados de 2010 da Comunidade de Metrôs, a Comet, organização que reúne representantes dos 12 maiores sistemas de metrô de diferentes países, o sistema paulistano é o mais lotado do mundo, e chega a transportar 11,5 milhões de passageiros a cada quilômetro de linha, realizando cerca de 4,5 mil viagens diárias. De acordo com orientações da Comet, o limite de lotação dos vagões deveria ser de 6 usuários por metro quadrado. Entretanto, na Linha 3 – Vermelha, transporta-se, em média, 8 pessoas, sendo que, nos horários de pico, o número chega a 11. “Pegar metrô no horário de pico sempre rende situações ruins, ainda mais para mim que embarco na estação Tatuapé, onde os trens já estão superlotados. Quando tenho algum compromisso de manhã e preciso utilizar o metrô, saio com bastante antecedência e conto com a sorte para conseguir embarcar”, conta a estudante Carolina Pedroso. “No Carrão, devido à superlotação, entrei em atrito com um usuário; estava deixando o povo entrar e ele foi me empurrando para o lado, alegando que eu não estava ajudando, que estava fazendo corpo mole e facilitando a entrada de mais gente. Houve uma discussão e quase que

acabamos em briga. Isso é bem desagradável”, relata o estagiário Leandro Toledo, morador de Artur Alvim. Além da superlotação, as constantes falhas estão entre as principais queixas dos usuários. Em 2012, de acordo com a Secretaria dos Transportes Metropolitanos, o Metrô apresentava, em média, uma falha a cada 21,5 mil viagens, o que representa um problema a cada cinco dias. Isso faz com que os moradores das regiões mais periféricas tenham que sair cada vez mais cedo de casa para chegar ao trabalho, à escola, considerando os cada vez mais previstos atrasos. ESTAMOS AGUARDANDO A MOVIMENTAÇÃO DO TREM À FRENTE... Os investimentos em infraestrutura e alternativas para a superlotação dos trens são desproporcionais em relação ao aumento da quantidade de passageiros. Conforme dados divulgados pelo próprio Metrô, em 2010 foram investidos R$236 milhões enquanto em 2011 o valor diminuiu para R$188 milhões. A redução no orçamento não atingiu apenas a Linha Vermelha. Com exceção da Linha 1- Azul, todas as outras sofreram cortes

EM JULHO, UMA DENÚNCIA DA TRANSNACIONAL ALEMÃ SIEMENS, AFIRMOU QUE, HÁ MAIS DE 20 ANOS, DESDE O GOVERNO DE MÁRIO COVAS, E EM CONTINUIDADE, NOS DE JOSÉ SERRA E GERALDO ALCKMIN, TODOS DO PSDB, ACONTECE UM CARTEL NAS LICITAÇÕES PÚBLICAS DE OBRAS E MANUTENÇÃO DOS SISTEMAS DO METRÔ E DA COMPANHIA PAULISTA DE TRANSPORTES METROPOLITANOS (CPTM).

nos investimentos entre 2010 e 2011, enquanto o número de passageiros aumentou quase 2% no mesmo período. Em 2012, o estado de São Paulo pretendia destinar R$9,3 bilhões para melhoria e expansão do sistema metroviário, entretanto, até este ano, apenas R$3,4 bilhões foram gastos, 37% do previsto. A falta de investimentos, associada às recentes denúncias de corrupção nas licitações do Metrô e da CPTM, coloca a administração da empresa e o Governo do Estado de São Paulo ainda mais em suspeita. Em julho, uma denúncia da transnacional alemã Siemens, afirmou que, há mais de 20 anos, desde o governo de Mário Covas, e em continuidade, nos de José Serra e Geraldo Alckmin, todos do PSDB, acontece um cartel nas licitações públicas de obras e manutenção dos sistemas do Metrô e da Companhia Paulista de Transportes Metropolitanos (CPTM). A Siemens, que compunha o cartel de, aproximadamente 11 empresas, juntamente com a francesa Alstom, a canadense Bombardier, a espanhola CAF e a japonesa Mitsui, dentre outras, relatou a existência do grupo com o

objetivo não ser penalizada. Segundo a transnacional, o esquema envolvia pagamento de propinas e desvio de dinheiro público por meio de concorrências com preços superfaturados para manutenção, aquisição de trens e realização de obras. A investigação revela que o cartel superfaturou cada obra em 30%. Segundo o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e o Ministério Público, os documentos da Siemens indicam que mais de R$425 milhões dos cofres públicos foram desviados. Apesar das evidências, o governador Geraldo Alckmin afirma que o estado é apenas vítima do esquema, e que o cartel era desconhecido da gestão tucana. CUIDADO COM O VÃO ENTRE O TREM E A PLATAFORMA... Enquanto isso, na estação Vila Matilde, portas de segurança instaladas há 3 anos e que não funcionam são também alvo de investigação. O Ministério Público suspeita de “prejuízo ao erário e atos de improbidade administrativa”, alegando que, com base em processo no Tribunal de Contas do Estado, a proposta que previa 48 portas, em 18 esta-

ções, por R$ 72,5 milhões, foi reduzida para 24 portas, mas sem mudança no orçamento. O MP também investiga o porquê de as empresas Trends Engenharia e Poscon, que adquiriram a licitação, não terem até hoje colocado as portas em funcionamento nas molduras instaladas naVila Matilde, cujos gastos foram de R$ 11,8 milhões. Em meio a escândalos de corrupção, falta de investimentos, superlotação e falhas constantes, os moradores da zona leste são os principais prejudicados. A região mais populosa da cidade precisa de melhor infraestrutura e de que o direito de ir e vir dos cidadãos seja garantido de forma digna. “Além da modernização do sistema, o que resolveria parte dos problemas operacionais e daria mais agilidade para o metrô nos horários de pico, a ZL precisa de mais opções de transporte para chegar ao centro”, acredita a estudante Carolina. “A construção de novas estações e a descentralização empresarial contribuiriam para uma grande melhora no metrô”, afirma Leandro. Com informações da Revista Isto É, jornais Folha de S. Paulo, O Estado de São Paulo e Brasil de Fato, e da Rede Brasil Atual. 1


POLÍTICA

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DESEMBARQUE PELO LADO ESQUERDO DO TREM... Sucesso na internet, a página no Facebook “Zona Leste Depressiva”, no ar há 1 ano, possui mais de 75 mil seguidores e transforma em humor e sátira o cotidiano dos moradores da região nos transportes públicos, mas também presta serviços de utilidade pública, divulgando informações e notícias de interesse local. A seguir, entrevista com o administrador da página, um técnico de informática, morador de Guaianases, que prefere que sua identidade não seja revelada: Por que decidiu criar a página Zona Leste Depressiva? A página foi criada com o intuito de fazer e trazer humor para a galera da Zona Leste. Como sabemos que o Facebook é a maior rede social no momento, então logo foi optado pelo Face. Por que o transporte público é o principal tema da página? O foco da página sempre foi os bairros e o transporte público. O transporte público em especial, percebo que rende uma maior interação dos curtidores da página. Por mais que os posts tenham o foco no humor, se percebe que em um mesmo post, dezenas de pessoas abordam assuntos diferentes.

Vou citar um exemplo: Recentemente fizemos um post em “luto” pela linha 702P-10, que foi desativada pela SPTrans. No post várias pessoas reclamaram da exclusão dessa linha, já outras brincaram, outras deram soluções viáveis para quem usava essa linha. Isso é uma coisa muito bacana, pois acabamos vendo diversos pontos de vista e opiniões. Você costuma receber comentários com muitas reclamações do metrô? Lembra-se de um caso em especial? Diversas reclamações, entre as mais comuns estão ouvir música sem fone de ouvido, a falta de uso de perfume e “encoxadas” que acontecem no metrô. As pessoas enviam histórias? Fotos de situações no metrô? Enviam sim, inclusive incentivo a enviarem sempre, pois boa parte das histórias e fotos acabam virando posts na página, isso acaba sendo muito interessante pois acaba tornando a página um poder de comunicação em massa da Zona Leste. Quais posts fizeram mais sucesso? Vou citar aqui 3 posts que fizeram até o momento mais sucesso:

1º Post com uma sátira onde mostra o perfil dos usuários em cada linha do metrô, onde na linha vermelha, a aglomeração é tremenda. 2º Post que faz uma sátira a superlotação na estação Brás da CPTM, bastando chegar com um violão lá, tocar e cantar para ter um “público” de “milhões” de pessoas. 3º Post criado agora no inverno mostrando o bairro de “Artur Alvim” coberto por neve (montagem). Quais são, em sua opinião, os principais problemas do metrô? Com certeza a superlotação, problema este causado por falta de investimento e visão de futuro do governo estadual de décadas pra cá. O governo municipal tem sua parcela de culpa já que quando se deixa de investir em ônibus e alternativas que facilitem a locomoção dos ônibus, a população tende a migrar para o carro ou metrô. O que você acha que deveria ser feito para o metrô atender melhor a demanda da zona leste? Infelizmente não há uma medida a curto prazo a ser tomada. Nossos governantes precisam trabalhar em conjun-

to quando o assunto é transporte coletivo, independente de partido político. Algumas soluções que nossos governantes vêm tomando e que com o tempo surtirão efeito, como aumentar a malha ferroviária e as expandir para os extremos da capital. Infelizmente demorará alguns anos até que novas linhas de metrô/ monotrilho saiam do papel. Já o Poder municipal vem criando faixas exclusivas de ônibus, falta agora aumentar a frota de ônibus e liberar essas faixas para taxistas e fretados. Para você, é o transporte público que faz a zona leste se tornar “depressiva”? Do meu ponto de vista e da grande maioria dos curtidores da página, com certeza o transporte público deixa a Zona Leste Depressiva, em especial as regiões periféricas.

“EM MEIO A ESCÂNDALOS DE CORRUPÇÃO, FALTA DE INVESTIMENTOS, SUPERLOTAÇÃO E FALHAS CONSTANTES, OS MORADORES DA ZONA LESTE SÃO OS PRINCIPAIS PREJUDICADOS. A REGIÃO MAIS POPULOSA DA CIDADE PRECISA DE MELHOR INFRAESTRUTURA E DE QUE O DIREITO DE IR E VIR DOS CIDADÃOS SEJA GARANTIDO DE FORMA DIGNA.”


FOTOGRAFIA

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MARCHA MUNDIAL DAS MULHERES

No Cine Olido [ av. São João – centro], na tarde de domingo[25/08], ocorreu a chegada das delegações e a apresentação do 9º Encontro Internacional sobre a Marcha Mundial das Mulheres para as delegadas internacionais. A Marcha Mundial das Mulheres é um movimento feminista internacional que surgiu no ano 2000 como uma grande mobilização que reuniu mulheres do mundo todo em uma campanha contra a pobreza e a violência. Na sequência na Galeria Olido [avenida São João - centro] abertura da exposição Feminismo em Marcha. Abertura Marcha Mundial das Mulheres 2013. SÃO PAULO/SP, Brasil 25/08/2013. Fotos: Antonio Miotto

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FOTOGRAFIA

MPL CONTRA CORRUPÇÃO DO METRÔ

Liderados pelo MPL[movimento do passe livre de SP] movimentos sociais e sindicatos concentram-se no vale do anhangabau e marcham pelas ruas do centro da cidade contra o propinoduto tucano, e também, exigindo mudança na lógica de gestão dos transportes metroferroviariário na cidade de São Paulo. Sao Paulo/SP, Brasil - 14/08/2013. Fotos: Antonio Miotto.


POLÍTICA

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10 ANOS DE MTR (MOVIMENTO DE TEATRO DE RUA) Texto: Adailtom Alves Teixeira1

No dia 03 de novembro de 2003 foi realizado a I Overdose de Teatro de Rua, marcando o início do Movimento de Teatro de Rua de São Paulo (MTR/SP). A ação foi a forma encontrada para mostrar as produções dos grupos e chamar a atenção do poder público para essa modalidade teatral. Assim, antes mesmo de viradas culturais, os artistas de teatro de rua ocuparam o Boulevard da Avenida São João, no centro da cidade de São Paulo apresentaram seus espetáculos por mais de 12 horas seguidas. Naquele momento, além de chamar a atenção do poder público, os grupos teatrais de rua chamavam a atenção também da imprensa, já que não tinham nenhum espaço para divulgarem seus trabalhos e como para o poder público o que contava era que os mesmos tivessem saído ou não

em determinados jornais, tornava-se um ciclo vicioso: sem história com a imprensa, sem reconhecimento. Artistas teatrais de outros espaços também não viam com bons olhos os teatristas de rua. Dessa forma, era uma “pedrada” para três coelhos. E deu certo. Afinal, se não havia produção ou se não existiam – como se escutava a época – como era possível realizar uma programação tão extensa e tão diversificada? Quinze grupos participaram da I Overdose e depois vieram mais quatro. Isso tudo, em certo sentido é passado. Hoje são muitos os grupos que tem ocupado as ruas, mesmo quem não fazia teatro de rua descobriu as possibilidades dos espaços abertos para se expressarem. Que bom! Bom para a cidade e para a população, pois esse é o espaço mais democrático que há. Nada

prende o espectador de rua, a não ser o interesse pela obra. O MTR/SP fez diversas Overdoses de Teatro de Rua, debates, seminários, publicou a revista Arte e Resistência na Rua e sempre lutou por políticas públicas de cultura. Seus integrantes participaram também da criação da Rede Brasileira de Teatro de Rua, que hoje, na categoria teatral, é o único movimento organizado nacionalmente. Além disso, o MTR/SP realiza desde 2006 a Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas, que sempre primou, seja em sua programação e na escolha dos homenageados, por pessoas e coletivos que tem feito resistência cultural, como o próprio Lino Rojas que dá nome à Mostra. Bem como César Vieira e Teatro Popular União e Olho Vivo, Ilo Krugli e o Vento Forte, Movimento Popular Escambo Livre de Rua,

Movimento de Teatro Popular de Pernambuco, entre outros. O MTR/SP surgiu no bojo de politização no meio cultural puxado pelo Movimento Arte Contra a Barbárie no fim dos anos 1990 e de lá pra cá, muitos foram os coletivos que foram criados e que acabaram, mas o MTR permaneceu, pois sua tônica é a solidariedade. Apesar de ter começado na capital logo se espraiou pelo estado chegando ao interior, litoral e Grande São Paulo. As Overdoses não são mais realizadas, mas a Mostra de Teatro Lino Rojas esse ano chega a sua oitava edição e acontecerá em dezembro próximo de 03 a 07 e ocupará, mais uma vez, o Boulevard da Avenida São João no centro de São Paulo e terá como tônica rever a história desses 10 anos de resistência do MTR/SP. Que venham outras tantas décadas.

MOVIMENTOS CULTURAIS

Adailtom Alves Teixeira é ator, diretor de teatro; mestre em artes pelo Instituto de Artes da Unesp.


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FRAN

MEMÓRIA ZL nava à noite e viajava pra poder competir. Uns faltavam nos jogos porque o patrão não liberava pra jogar, um cara que era campeão paulsita fazendo isso, né? A gente tem jogadores do Inter que saíram pra Portugal, Itália, mas o grande legado que o Inter deixou, pra mim, foi a lição de amor ao esporte. A gente era um “família”, não um time de futebol.

ENTRE VISTA

Texto e Foto: Escobar Franelas

“Francisco Carlos da Silva, conhecido por todos como Fran, nasceu e mora em Itaquera. Com 42 anos, dedicou sua vida ao esporte, primeiro como goleiro de futebol de campo. Seus 1,69m, porém, não permitiram vôos muito altos e o Fran foi então para o futsal, onde conquistou títulos por todos os clubes pelos quais jogou. Aposentado das quadras, dirige a Associação Esportiva e Cultural Kaue Itaquerense, (http://www.aeckaue.com.br/), pintou uma pista de atletismo ao lado de sua casa, bem pertinho do futuro estádio de abertura da Copa do Mundo, onde prepara crianças e adolescentes para o esporte, dá aulas de inclusão digital e não para de treinar e cuidar da saúde e do corpo. Numa manhã um pouco fria do outono paulista, fomos recebidos por ele na sua rua Nicolino Mastrocola, de onde brotam ações sociais sortidas e no atacado. De onde estamos não vemos as obras do enorme estádio, mas somos incomodados à toda hora pelo barulho dos caminhões que entram e saem dos canteiros, assim como pelas vans e ônibus que vão para o terminal do metrô e pelo trem que passa aos fundos. Fran é tranqüilo e constrói seu raciocínio sempre reelaborando cada frase. Talvez por isso sua fala nunca seja linear. Movidos por essa curiosidade é que fomos ouvir suas histórias, saber de onde tira tanta gana pra viver. E compartilhar.” “goleiro é igual jogador de basquete, se não tiver tamanho, sem chance!” (...) Eu via no esporte a oportunidade de transformar minha vida de garoto, eu praticava enquanto meus amigos preferiam ficar na rua. Fui um garoto que gostava muito de correr, saltar, jogar... Ironicamente, era o menor da turma, e o menorzinho sempre vai pro gol, né? (rindo) Aprendi a jogar bola nessa mesma rua que hoje vocês estão vendo. A gente colocava duas pedras e fazia um “rachão”. Eu não tinha medo, arrancava a cabeça do dedo, ralava cotovelo, joelho... Aos 16 anos tive a primeira oportunidade de jogar futebol de campo pelo São Paulo mas o técnico disse “olha, eu nunca vi um goleiro tão ágil debaixo dos ´três paus´ mas, infelizmente, goleiro é igual jogador de basquete, se não tiver tamanho, sem chance!” Meu sonho era jogar campo, não era futsal. Foi aonde a decepção veio, sabe? Fiquei sem querer saber de bola, chorava. Na minha cabeça eu achava que com 1,69m eu poderia jogar me tornar um atleta profissional no campo. Hoje eu tenho essa noção de que isso é impossível. Foi quando eu fui para o futsal. Passei por diversas equipes defendo a FIFUSA – uma outra federação, que não é ligada à FIFA – tive a oportunidade de ser campeão dos Jogos Metropolitanos, campeão paulista, dos Jogos Abertos, dos Jogos Regionais. Peguei a Seleção Paulista já pela regra da FIFA, não pela FIFUSA.

Mais ou menos 16 anos já participava dos jogos da Liga e um dia um dos caras me viu jogando na quadra da Basílica da Penha e falou, “esse pequenininho aí é danado, né?” Na época me chamaram para um time que estava disputando um juvenil e iria disputar a 1ª divisão de futsal. Comecei a treinar e nem teve juvenil para disputar o Campeonato Paulista, só teve o time principal. Fiquei como terceiro goleiro, era o “Juvenil”, e comecei a viajar com os caras pra disputar o Campeonato Paulista, o Estadual. Nas competições, era sempre o “Juvenil” que pegava o café, buscava o suco, essas coisas de jogador mesmo. Comecei a pensar “puxa, acho que estou virando um jogador, né?” (rindo) Dentro do futsal, que é considerada um modalidade amadora, comecei a vivenciar que poderia viver daquilo. “em nosso país dentro do esporte é como qualquer outra profissão, pouquíssimas pessoas ganhando muito e muitas pessoas ganhando pouco” (...) Na minha época a gente tinha um salário mas não era como o salário de hoje. Por exemplo, você pega agora um jogador da Liga Nacional, ele ganha 30, 40, 50 mil. Antes não era assim. Tenho agora 42 anos, deixei de jogar em 2008, meu último clube foi o Suzano. Era uma equipe com jogadores que já tinham passado pela seleção, mais maduros. Dois anos depois que saí, o Suzano foi disputar a Liga Nacio-

nal com jogador com salário de 10 mil por mês. Aí a gente fala, “caramba, há dois atrás eu estava lá com um salário de mil reais...” Tem essas coisas que a desigualdade, a inversão de valores em nosso país dentro do esporte é como qualquer outra profissão, pouquíssimas pessoas ganhando muito e muitas pessoas ganhando pouco. Fui um atleta universitário com bolsa de 100%, tinha que me formar, a consciência de que o futebol não iria me render condições para sustentar minha família, pelo menos naquele momento. “Muitas vezes, em minha vida, eu estava no lugar certo, na equipe certa, no momento certo” (...) Eu, com 13, 14 anos, já jogava no time profissional da comunidade. Mas Deus sabe o que faz. Se fosse pra ser, eu teria nascido com 10cm a mais. Mas com 1,69m tive que ir para o salão. Às vezes algum amigo me fala “o homem que ganhou tudo” mas eu não sou esse cara. Fui muito mais um atleta dedicado do que um atleta de talento. Dei muita sorte, cara! Tenho essa consciência que treinei muito, treino até hoje. Cinco da manhã e estou aqui, correndo, fazendo “tiro” de 200, 500, 800. Não preciso mais disso por estar com 42 anos mas é minha dedicação... Moro na zona leste e ganhei torneio de seleções jogando pela zona norte numa final contra a zona leste! Muitas vezes, em minha vida, eu estava no lugar certo, na equipe certa, no momento certo.

“o Inter é guerreiro, só tem pinguço e maloqueiro” (...) Voltei a jogar em 2003, a minha melhor fase, já na regra FIFA, pela equipe do Internacional. O Inter era amador, virou profissional. Foi aonde eu tive as maiores alegrias, as maiores paixões, vividas dentro do futsal. Essa questão de você ter a torcida o tempo inteiro gritando, apoiando... Os caras trabalhavam o dia inteiro e chegava no final do dia – os jogos geralmente eram à noite – eles alugavam e “rachavam” um ônibus, às vezes pagavam um lanche para os jogadores. A alegria deles era ver o Inter jogar, gritavam, “o Inter é guerreiro, só tem pinguço e maloqueiro”. Era uma equipe amadora que disputou profissionalmente os campeonatos da Federação Paulista. A gente foi campeão paulista, metropolitano... Meu filho, hoje com 17 anos – na época com 6, 7 anos – fala “poxa, pai, o melhor time que você jogou foi o Inter da Zona Norte, né?” Que disputou o Campeonato Paulista de Futsal. Não era só a questão das dificuldades que a gente passava, por exemplo, a gente saía de São Paulo para ir jogar em Adamantina, ou outra cidade, com 800, 900 km de distância, viajando numa Kombi. E a nossa alimentação era pão, queijo, presunto e refrigerante. A gente tinha identificação com a torcida, com o time, com a equipe. Costumávamos dizer que o Inter era um “time de operários”, porque todo mundo trabalhava durante o dia, trei-

“estamos bem perto de dois megaeventos, que é a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e que nossos atletas não conseguem ganhar o mínimo possível” (...) Fiquei três anos no Inter. Quando falo do Internacional assim, machuca, cara. Os caras trabalhavam o dia inteiro. Eu era dos poucos que já tinham passado por outros clubes. O melhor pivô com quem joguei na minha vida, morreu dentro de uma quadra. Porque era um atleta amador, tinha se profissionalizado, trabalhava como cobrador o dia inteiro, teve câncer, depois retornou a uma quadra, até que teve uma taque do coração. Quanto s jogadores que poderiam estar profissionalmente vivendo do esporte! Que possuem talento e hoje estão trabalhando o dia inteiro, de pedreiro, cobrador de ônibus, motorista, assistente administrativo. Então a gente começa a analisar se vamos ver que estamos bem perto de dois megaeventos, que é a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e que nossos atletas não conseguem ganhar o mínimo possível para viver do esporte, que tipo de incentivo estamos dando para estas pessoas? Qual o legado destes dois megaeventos? “Um dos clubes mais profissionais que passei foi o Suzano” (...) Um dos clubes mais profissionais que passei foi o Suzano, onde a gente tinha psicólogo, preparador físico, fisioterapeuta, médico, que chegou a disputar a Liga Nacional. Acho que o fato do Suzano ter ganhado quase tudo o que disputou é porque algumas prefeituras ainda dão condições para os atletas. Foi mais importante o Suzano ganhar o Jogos Abertos do que o Troféu Cidade de São Paulo, porque o que dá ibope nas cidades são os Jogos Aberto, os Regionais. Por isso esse investimento... (...) Tive uma passagem por Mogi também, fui campeão paulista pela 1ª divisão. Minha estréia foi no banco, quando virou o jogo o treinador me falou “vai lá agora”. Normalmente isso não acontece, de trocar o goleiro. Mas era o primeiro jogo e tive a felicidade de fazer uma boa partida no 2º tempo. *apoio na entrevista: Roberto Maty, Jonas Pascini, Marcelo Henrique, Gilberto Amaro e Rodrigo Mendes


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POR UMA MEMÓRIA CIGANA DA LESTE ENTREVISTA A NICOLAS RAMANUSH, DA EMBAIXADA CIGANA DO BRASIL É preciso que os gadjes reconheçam que o gitano faz parte de sua memória cultural

ARTIGO Texto: Leandro Hoehne Fotos: Acervo da Embaixada Cigana do Brasil

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uando se é discutida a constituição do povo brasileiro, em geral, são citadas as matrizes indígena que aqui estava, européia, com os portugueses e, posteriormente, com os imigrantes, que aqui chegaram, e os negros para cá traficados como força de trabalho escravo. Pouco se estuda, e quase nada se sabe, sobre o quanto o povo cigano, de diferentes origens, também influenciou nossa formação a partir de suas artes, costumes, modos e meios de se fazer comércio, produzir metalurgias e etc. Não é pequena a complexidade em se abordar o assunto, uma vez que os grupos ciganos sempre estiveram marginalizados na história. Foram tão massacrados quanto os judeus nas investidas fascistas e nazistas na Europa e, ainda hoje, permanecem guetizados em diversos países do leste europeu, Turquia, Itália e tantos outros países pouco tolerantes ao redor do mundo. No Brasil a percepção dessa realidade fica nublada e de difícil diagnóstico, uma vez que o país possui de forma constituída uma política de tolerância às diversidades, porém, simultaneamente, não possui políticas estruturadas de identificação e suporte específico às diferentes etnias, agrupamentos e culturas que o compõe. Ao contrário do resto do mundo, onde os ciganos são muitas vezes classificados e forçados a permanecer em outro estrato social, a realidade cigana no território nacional mistura-se com a realidade do povo como um todo, próprio de um país socioeconomicamente desigual. O que, por um lado, mostra-se positivo à

comunidade cigana, como ser tratada como qualquer outro cidadão, por outro sua massificação traz, no processo histórico, perdas identitárias e desconhecimento de suas raízes no todo cultural brasileiro. Em um futuro próximo será inaugurado o Memorial da Zona-Leste, promessa política que pretende dar conta da complexidade deste imenso território da cidade de São Paulo que, entre outras particularidades, concentra uma população maior do que muitos países do globo. Ao olhar para quem são essas pessoas, no intuito de compor o Memorial, mais uma vez foram levantadas as matrizes indígena, sobretudo a partir das tribos guaianazes que aqui guardavam nossos mananciais,

jesuíta, que aqui chegou com a missão de catequizar os índios e abrir caminho para dominação das terras e controle das bacias hidrográficas do Tietê, e nordestina, a partir da forte migração na década de 70, responsável pelo principal inchaço populacional da região. Mais uma vez é necessário perguntar, e os ciganos? Não são poucas as histórias contadas pelos avós e bizavós que aqui chegaram por volta da década de 40 e 50 sobre a passagem de grupos nômades, de características incomuns, para fazer negócios nos povoados de Ururaí (hoje São Miguel Paulista e região). Também não são poucas as histórias de ciganos na Vila Zelina, no outro extremo leste, bairro formado a partir da ocupação de

migrantes do Leste Europeu. Hoje, quem está acostumado a usar os trens da linha BrásCalmon Viana, cotidianamente vê ciganas com roupas coloridas, dentes de ouro e falar cantado usando o trem para chegar no centro de São Paulo vindo de seus acampamentos em Itaquaquecetuba e Itaim Paulista. Diante disso é preciso questionar sobre o porquê da cultura cigana não ser identificada como um dos pilares de nossa formação enquanto povo. Mesmo que a questão não seja abordada pelo viés antropológico, mas artísticocultural, muito pouco se conhece do que é preservado da cultura tradicional e como os grupos ciganos hoje influenciam e são influenciados pela

Acampamento cigano do grupo Calón, em Itaquecetuba - SP

cultura. Nem mesmo Darcy Ribeiro abordou detidamente a questão, embora escreva em defesa do povo cigano em alguns de seus escritos. Para tanto, na intenção de olhar para essa lacuna e propor reflexões sobre o tema, entrevistei Nicolas Ramanush, antropólogo e presidente da Embaixada Cigana do Brasil, organização reconhecida internacionalmente pelo trabalho de resgate e preservação da cultura, além do auxílio aos cidadãos ciganos brasileiros. Entrevista essa que se segue:


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cetuba, porém dois grandes acampamentos o de Itaquaquecetuba e Itaim Paulista são os principais. O primeiro há 15 e o segundo 20 anos no mesmo local. Em termos de porcentagem, eles são muito mais influenciados do que o contrário: na relação social do dia-a-dia possuem uma visibilidade marginalizada literalmente (estão à margem da sociedade à margem da própria periferia). E não raro recebem “ajuda” de missões evangelizadoras que interferem nos valores culturais tradicionais. Como a Embaixada Cigana do Brasil atua nessas comunidades? - Entre 2009 e 2011 desenvolvemos alguns projetos, sem ajuda financeira de governos, e apenas contanto com nosso fundo de caixa. Foram projetos que viabilizaram acesso à cidadania: aquisição de documentos, explicações sobre higiene básica e até mesmo ajuda com cestas básicas de alimentação. Hoje não atuamos mais junto aos acampamentos. Desenvolvemos projetos que dão visibilidade à situação em que eles sobrevivem, por falta de políticas públicas de integração.

Nicolas, qual o seu ponto de vista com relação a certa invisibilidade histórica da cultura cigana no Brasil? - O primeiro grupo a chegar ao Brasil em 1574, foi o Calon. Se a nossa invisibilidade ainda permanece é porque há um interesse em torno da manutenção desse sistema. Entramos para a “história da cultura brasileira” através do viés tendencioso encontrado em anedotas, crendices populares e generalizações da mídia. Dessa forma, o não cigano conhece, apenas, uma “estorinha” a nosso respeito: escrita pela mão do preconceito e revisada pelo estereótipo. Quais são as principais influências do povo cigano

na formação do povo brasileiro, seja na cultura, especificamente, seja na história como um todo? - O lundu em gravura, de Rugendas, mostra: ciganos e negros que dançam ao som do violão e bandolim e pessoas tocando castanholas. O “bródio” ou fandango cigano é sem sombra de dúvida o pai do lundu; e obviamente, uma das principais influências ciganas na cultura brasileira. E as primeiras profissões brasileiras foram trazidas e desenvolvidas por ciganos: ferreiros, ourives, artesãos de prata e cobre em utensílios de cozinha e meirinhos (oficiais de justiça). Isto em uma época em que os ameríndios do Brasil, que eram a maioria nestas terras, sequer imaginavam o valor

tecnológico da metalurgia: usavam pepitas de ouro penduradas no pescoço, cujas denominavam de itajuba (pedra amarela).Portanto, influenciamos o desenvolvimento deste gigante Brasil. Especificamente na zonaleste de São Paulo, o que se conhece sobre passagens e ocupações ciganas na região? Atualmente quais comunidades ciganas existem na região e, na sua opinião, como elas influenciam a dinâmica social e cultural local e como são influenciadas? - Fazendo parte da história da região podemos citar os acampamentos de São Miguel, Manuel Feio, Vila Zelina, Itaim Paulista e Itaquaque-

Qual a opinião da Embaixada com relação ao Estatuto dos Povos Ciganos proposto ao Congresso Nacional? Ele resolveria a lacuna existente no reconhecimento da cultura cigana nacionalmente? - Os defensores desse absurdo Paulo Paim (senador) e Luciano Mariz Maia (procurador federal) propagam que existe a necessidade de se realizar micro-leis a respeito dos ciganos. Ora, se a sociedade brasileira é comum a todos (“um país de todos” segundo propaganda do governo), porque devemos “criar” leis que protejam especialmente a uma minoria? E para essa pergunta, talvez os mesmos Paim e Mariz venham a responder: “ porque os ciganos são historicamente discriminados”. Neste caso basta apenas FAZER VALER as leis de nossa Constituição! Pois, somos brasileiros de etnia cigana e não uma minoria alienígena. Fizemos o êxodo de um país, Índia, que nos separava em “castas” e parece

que a politica do Brasil também caminha nesse sentido. O que vem acontecendo há séculos é simples de entender: o próprio Estado não cumpre as leis que tem e “inventa” novas leis (que fatalmente também não serão cumpridas), apenas como estratégia de caça ao voto ou para cumprir agenda governamental ligada à ONU ou aos Direitos Humanos. E enquanto se perde tempo discutindo novos Estatutos, jogam a Constituição no lixo. O hipócrita é o homem que, no próprio nome da Lei, quebra as leis da Carta Magna (Magna Charta Libertatum = Grande Carta das Liberdades). A Embaixada Cigana do Brasil acha importante a inclusão do povo cigano nos memoriais da cidade e do país como sendo um povo constitutivo de nossa identidade? Se sim, qual seria a maneira mais apropriada de incluí-los? - Sim, a inclusão nos memoriais do país nos dará a visibilidade ideal: a verdadeira. Não somos seres misteriosos ou exóticos desses que encontramos nas visões da literatura, tampouco, seres malvados como observamos, generalizados, nos meios de comunicação. Somos brasileiros de etnia cigana, participamos do desenvolvimento histórico para o que hoje se concebe como sociedade brasileira ou cultura brasileira ( como prova disso temos O Dia Nacional do Cigano que foi instituído em 25 de maio de 2006 por meio de decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em reconhecimento à contribuição da etnia cigana na formação da história e da identidade cultural brasileira). A maneira mais apropriada é a divulgação do conhecimento: todo e qualquer preconceito se fundamenta em crenças pessoais ou sociais e a única forma de acabar com ele é a divulgação da verdade.


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RECORDAÇÃO

COLETIVO ALMA CELEBRA 10 ANOS DE ALIANÇA É com grande satisfação que neste ciclo primaveril consagramos 10 anos de atuação do Coletivo ALMA na região de Itaquera, zona leste de São Paulo. Texto: Thabata Ottoni e Coletivo ALMA

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erado por jovens moradores do Conjunto José Bonifácio, o Coletivo ALMA nasceu de encontros,digamos, literários e marginais, onde a partilha e criação de poesias foi o ponto de partida para as discussões e reflexões que gerassem práticas possíveis para as questões sociais, culturais e principalmente as ambientais, que envolviam e afetavam o nosso cotidiano. Em 2004 a montagem teatral Antes que a Terra Fuja deu um jeito de entrar nos prédios da COHAB II para percorrer e permear os corredores e garagens como espaços de vivências comunitárias que aproximassem nós, moradores, dos nossos vizinhos e do lixo gerado em nossas casas. Dessa ocupação e mobilização artística geramos o documentário “Saindo da Lixeira”, produzido em 2009.

E foi indo e vindo, quebrando cimento, “do trabalho pra casa, da casa pro trabalho”, dispersando e germinando sementes de todo jeito (apesar de muitas vezes, sem muito jeito) que o coletivo tem encontrado brechas no asfalto que fazem crescer um jeito de vivermos a arte e por meio dela, a vida como um todo. Atualmente desaguamos por terra e ar com a circulação da nova montagem (Des) água e o documentário “Ritos de Rios e Ruas” pela região do Alto Tietê Cabeceiras. Com o projeto “Rios de Nosso Lugar” estabelecemos profundo diálogo com professores da rede pública do bairro. São ações diversas - ora com apoio de editais, ora e sempre com a mão na massa e o pé na jaca total - onde reinventamos Feiras de Trocas Solidárias, Sarau

Lundu, Danças e Andanças, participando de fóruns regionais, conselhos distritais e municipais e afins, entre cidades e florestas, corpos, contradições e idéias em movimento. Seguimos avante aos levantes do mastro e sem deixar de pegar a rabeira dos bons ventos “lestianos”, seja via editais, políticas públicas ou de privadas, ou simplesmente nas sutis oportunidades de nos relacionarmos melhor uns com os outros e com a natureza. Como “mastreiros” em alto mar, completamos a décima e longa travessia pelas infinitas tentativas de fazer esta canoa coletiva não virar sem antes reaprendermos a remar, a conhecer ou chegar em algum lugar comum. E essencialmente, reconhecermos o desconhecido dos lugares perdidos, que ainda habitamos enquanto seres vivos.

E a vela do barco vai assoprar neste terceiro sábado de outubro (dia 19) lá no Barracão - sede atual do Coletivo. Esta construção abrigou nossos parceiros de luta da “CRUFFI- Cooperativa de Reciclagem União Faz a Força” de Itaquera e, há pouco mais de um ano, habitamos e revitalizamos este espaço público com arte pública. Convidamos a todos para partilhar nossas memórias e abrir a roda deste novo ciclo num ritual nostálgico entre bolo de tapioca, músicas, exposição de fotos da nossa trajetória, performances, intervenções e reencontros de toda a trilha que nos moveu até aqui.


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GRUPO TEATRAL POMBAS URBANAS

COMPLETA EM OUTUBRO DE 2013, 24 ANOS DE EXISTÊNCIA Texto: Assessoria de imprensa Pombas Urbanas Fotos: Acervo Instituto Pombas Urbanas

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história deste coletivo tem inicio em 1989, no bairro de São Miguel Paulista a partir do projeto “Semear Asas” do diretor peruano Lino Rojas, tendo como base a pesquisa sobre a formação do ator, linguagem e dramaturgia. O grupo consolidou-se formando um repertório de 13 espetáculos, em sua maioria textos de autoria de Lino Rojas, criados a partir de estudos cênicos coletivos. Sua pesquisa se caracteriza pelo investigação contínua sobre a cidade de São Paulo e seus habitantes e na construção de uma linguagem cênica que traz a poética do jovem brasileiro Contemporâneo. A primeira montagem da companhia, chamada “Os Tronconenses”, foi apresentada em 1991 no FEPAMA. Nesta ocasião, o grupo, inesperadamente, foi vencedor de 5 prêmios: melhor pesquisa de linguagem cênica, melhor espetáculo, melhor atriz e revelação de ator e atriz. Com este mesmo espetáculo, a companhia participou em 1995 da 47ª Reunião Anual da SBPC, do 10º ENTEPOLA – Encontro de Teatro Popular Latino Americano em Santiago do Chile e da 2ª Mostra de Teatro Jovem Montevidéu no Uruguai. Em 1997, com o espetáculo “Ventre de Lona”, que trata da questão do abandono, contando a história de um bebê abandonado na porta de um Teatro abandonado recebeu o Prêmio Estímulo Flávio Rangel / FUNARTE na categoria “Consolidação de Pesquisa de Lingua-

gem Cênica”. “Ventre de Lona”, teve 2 temporadas na Cidade de São Paulo: a primeira no Centro Cultural Elenko KVA, em 1998, e a segunda na Sala Arte do Novo TBC – Teatro Brasileiro de Curitiba o espetáculo de rua “Mingau de Concreto” e a mini-tragédia para palco italiano “Uma Baleia Perto da Lua”. Desde sua formação, o grupo ministra cursos de teatro em diversas Regiões da periferia de São Paulo, transferindo o conhecimento produzido em sua pesquisa para jovens e adolescentes destas regiões. O processo de formação do ator desenvolvido pelo grupo tem despertado a atenção de artistas e educadores da cena teatral e educacional brasileira e Internacional, pois sua prática e método de pesquisa estão plenamente Alinhados com a arte contemporânea que privilegia a formação humana e global do indivíduo. Lino Rojas, ator, diretor e dramaturgo (falecido em Fevereiro de 2005, aos 62 anos), aplicou a metodologia que desenvolvia com o grupo na coordenação de cursos de teatro como o Curso Técnico Ator do SENAC – Centro de Comunicações e Artes (Lapa), prestando diversas assessorias a projetos culturais voltados para o jovem. Com seus espetáculos e cursos, o grupo participou de eventos no Brasil e exterior como o “8º e o 10º Encontro Nacional Comunitário de Teatro Jovem” (2003 – 2005), em Medellín – Colômbia, organizado pela Corporación Cultural

Nuestra Gente, o “XXI Festival Internacional de Oriente” (Venezuela – out/ 2001), o “X Festival Internacional de Teatro de La Habana” (Cuba – Set/ 2001), o “9º Festival de Teatro de Curitiba – Mostra Oficial” (mar/ 2000), “Temporadas Populares” em Brasília – DF, “2ª Mostra Internacional de Teatro Jovem no Uruguai” (Montevidéu – out/ 96, “10º ENTEPOLA” – Encontro de Teatro Popular Latino Americano (Santiago do Chile – jan/ 96), encontro com Ariane Mnouchkine do Theatre Du Soleil, Paris – França em ensaio aberto do espetáculo “Ventre de Lona”, encontro com o professor Jean Biarnés da Universidade XIII de Paris, “47º. Reunião Anual da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (São Luís do Maranhão – jul/ 95) Em 2003, o grupo ganhou o 3º edital do Programa Municipal

de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo com o projeto “Da Comunidade aoTeatro, doTeatro à Comunidade”, que durante dois anos previa a multiplicação da experiência do grupo para jovens da zona leste. Em janeiro de 2004, o grupo conseguiu a cessão em regime de comodato por 20 anos de um galpão no bairro Cidade Tiradentes, um dos bairros mais populosos da cidade (mais de 300 mil moradores, em sua maioria afrodescendentes), distante 40 km do centro. O galpão estava abandonado há quase 10 anos e a primeira intervenção teatral foi feita em meio aos escombros para uma plateia de 50 crianças e familiares, o início da transformação de um local que era marcante em suas memórias como um espaço de violência e abandono. Em 2012, cerca de 22 mil pessoas passaram pelo Centro Cultural, formando uma rede de moradores - jovens, crianças

e seus familiares, que se envolvem diretamente no processo artístico e comunitário que fazem parte. É desta forma que os integrantes do Pombas Urbanas compreendem e exercem sua condição de artistas: situando sua pesquisa e produção teatral junto à sociedade com o desenvolvimento de propostas práticas e concretas de acesso à arte, desenvolvimento de conhecimentos e ferramentas para que populações historicamente marginalizadas possam produzir e refletir sobre sua realidade por meio da arte.


CULTURA Coletivo ALMA lança documentário sobre o Tietê Filmada em dez municípios, a obra traz uma reflexão sobre o processo de urbanização da região metropolitana Fruto de uma expedição de dez meses pelas comunidades do Alto Tietê, registrando muitas dos contrastes e das riquezas culturais e ambientais da região, o documentário “Ritos de Rios e Ruas” terá este mês suas primeiras exibições em São Paulo. O vídeo traz uma série de relatos, com diferentes pontos de vista,

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sobre as transformações ambientais e sociais em curso nos municípios banhados pelo rio, desde suas nascentes, em Salesópolis, até chegar à Capital. “A falta de diálogo entre as cidades é um processo revelado nas vivências dos moradores entrevistados. O rio Tietê traz possibilidade de real conexão entre as diferentes comunidades, mas isso tem sido ignorado” lembra Alexandre Falcão, coordenador geral do projeto. O lançamento em solo paulistano será no Barracão do Coletivo ALMA, em Itaquera, no dia 15 de junho, às 19h, e as

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exibições prosseguem na Galeria Olido, na República, nos dias 21 e 22 de junho às 19h e dia 23 às 17h. Todas as atividades são gratuitas. O projeto é realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e conta com patrocínio da EDP e COMGAS, além do apoio do Instituto EDP, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e de diversos parceiros. Para saber mais informações sobre o calendário de atividades, que prossegue até o segundo semestre de 2013, basta acessar www.ritosderioseruas.org

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FICA A DICA

Contato: Letícia Elisa Leal Projeto Ritos de Rios e Ruas 96761-8653/ 2056-0253

FICA A DICA NoctVillains

Texto e Foto: Dimitry Uziel

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La Escada

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Duo formado em 2008 por Roxy Perrotta (voz) e Vagner Sousa (violão), sobreviventes do pós punk brasileiro.Vagner, integrante da banda The Concept e, Roxy, ex-integrante da X-Devotion, ambos com mais de duas décadas de música no cenário do rock paulista. O NoctVillains permeia entre o folk e o dark por inevitável influência e sem dificuldade, apresentado um bom “Primitive Rock”. www.facebook.com/noctvillains

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La Escada é uma dupla de artistas visuais que experimentam e desenvolvem projetos artísticos voltados para a esfera publica, intensificando o questionamento e o impacto que a arte produz. Mais sobre em nosso blog: www.laescada.blogspot.com Agradecemos! La Escada www.laescada.blogspot.com laescada@hotmail.com


EDU SERENO

Compositor, músico e poeta

Nosso primeiro vídeo ao vivo, gravado no Studio 8, um tiquinho antes do nosso lançamento. http://www.youtube.com/watch?v=coDrdzEAzZ0 Esse é no Studio Sp, um show incrível que fizemos recentemente antes da casa fechar: http://www.youtube.com/watch?v=dJyXi4dtzcU Essas são músicas gravadas ao vivo em um show para o projeto Band in The Box: https://soundcloud.com/ramo-produtora/sets/edu-sereno-mitb-lado-a Esses são os melhores momentos de uma entrevista nossa na CBN. http://www.youtube.com/watch?v=XxDbNwKslvg O link para download do ‘Esquinas, Janelas e Canções’: http://www.amusicoteca.com.br/?p=7621

SAIBA MAIS

CULTURA

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Novembro de 2013

Edu Sereno é compositor, músico e poeta. Nasceu na zona leste de São Paulo, onde cresceu cercado por uma diversidade musical e cultural significativa. Arranhando o teclado de seu pai, dedilhando violões de amigos, cantando por ai, aos 16 anos compôs sua primeira música e aos 19 cantava pelos bares com suas bandas de bairro. Com pitadas de serenidade e ausência de fronteiras no gosto musical, em 2012 Edu Sereno se juntou ao músico e produtor Rafa Moraes, para encontrar o tempero perfeito e dar vida à seu primeiro EP ‘Esquinas, Janelas e Canções’, com participação de Fernando Nunes, Érico Theobaldo, Beto Vasconcelos, Natan Oliveira, entre outros. Para traduzir o universo do ‘Esquinas, Janelas e Canções’ e levar isso aos palcos, as escolhas na formação da

CAMILA FREITAS Poetisa moradora do Itaim Entrevista e Foto: Antônio Miotto

A Camila poetisa é uma tentativa de ser voz, de se fazer ecoar nos outros. De tentar traduzir aquilo que é angústia, alegria, segredo dentro de mim e que pode ser de outros e outras também. Há alguns anos atrás escrevi um poema a partir de uma frase de “Joana D’arc” em uma peça de teatro que assisti, e num determinado momento da peça ela gritava: “Minhas vozes já não cabem mais em mim...”. É assim que me sinto como poetisa, minha

poesia é uma forma de libertar essas vozes que vivem em mim, criações, sentimentos, revoltas, revoluções internas e externas. Eu sou como essa Joana D’arc que já não cabe mais no seu silêncio e que precisa ser voz. 1 - Sobre o tenda literária, de projeto ao concreto....o que foi/é ? A Tenda surge de uma vontade que algumas pessoas sentiam de fazer alguma coisa. Nós não íamos a Saraus, mas

banda foram muito importantes. Começando pelo baixista Beto Vasconcelos, que por estar envolvido desde a produção do EP e conhecer Edu há muitos anos, já sentia e sabia quais notas e pausas seriam fundamentais afim de encontrar o ‘’molho’’ perfeito junto de Bruninho Marques, jovem mais muito experiente na bateria, de sonoridade única e levadas certeiras. Para duelar nas guitarras e pedais com Rafa Moraes (que além de produzir o EP junto com Sereno também toca charango, dobro, Violão e dirige musicalmente a banda) foi convidado Marcelo Sanches, que além de trazer seus timbres e riffs particularmente urbanos, também agregou com sua presença de espírito. Lançando o ’Esquinas, Janelas e Canções’ em lugares e projetos como Puxadinho da Praça, Centro Cultural Rio

Verde, Sofar Sounds, Studio SP, Sarajevo Club e Band in The Box, os shows tem sido de grande público e de muita intensidade. Suas canções são como uma coleção de histórias, onde hora somos os protagonistas, hora os expectadores. Com sua sonoridade universal e urbana (World Music) e ao mesmo tempo brasileira, Edu vai dividindo ao longo do espetáculo suas sensações e experiências, que de tão humanas e pessoais rapidamente estabelecem laços com cada alma presente, arrancando aplausos, sorrisos e até lágrimas por onde passa. Sereno traz em cada canção as esquinas de seu bairro, árvores e paisagens, ruídos e murmúrios, amores e desamores, e toda sorte de coisas que se pode cruzar por essa vida, tão somente compartilhando conosco o que o mundo compartilha com ele.

tínhamos uma ideia do que era um Sarau, e já usávamos a poesia nas nossas atividades e já entendíamos a intervenção poética como instrumento de transformação. Os nossos primeiros Saraus aconteceram numa sala muito pequena que era a sede do IPJ (Instituto Paulista de Juventude) e que não cabia muita gente, e por isso sempre no auge dos saraus nós saíamos do espaço fechado e caminhávamos até uma praça que ficava perto de lá. E foi assim meio sem querer que nós descobrimos a praça como espaço. O projeto Tenda Literária só surge em 2009 com o apoio do VAI. Foram dois anos em que ocupamos praças da Zona Leste da cidade para levar a poesia, e poetas e artistas da periferia para debaixo da nossa tenda e para que as pessoas pudessem ter contato com arte e fazer arte também. A tenda tem algumas particularidades, a primeira é que é um sarau publico, não tem lugar fixo, acontece em praça pública e por isso pertence a quem quiser contribuir com ele. Em segundo lugar, o formato não é muito comum, o microfone está aberto a quem quiser se apresentar, os livros estão sempre dispostos no chão para quem quiser pegar e escolher uma poesia na hora e se apresentar, além disso, antes do Sarau, sempre abrimos espaço para uma roda de

conversa com temas sociais, ou sobre a literatura periférica. Atualmente, o projeto se sustenta através de parcerias com outros projetos, pois já não temos financiamento. No entanto, nossas “pernas” se estendem para além da zona leste, hoje caminhamos por vários cantos da cidade, graças aos parceiros. 2 - O que a jovem camila freitas, olha [ entre o presente e o futuro ] Olho no espelho do presente e sinto que colhi os frutos do que plantei no passado. Trabalho, Poesia, Amigos, Lutas diárias, fazem parte do presente, no entanto, nada é tão sólido, nada é tão real que não possa ser modificado, por isso mais uma vez me faço semente, gesto novos planos, Sonho com um mundo melhor, com um trabalho melhor, com um novo livro, com resultados melhores e por isso volta a deitar a terra fecunda para florescer amanhã e colher novos frutos.


CULTURA

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Novembro de 2013

CARTA DO COLETIVO “O QUE DIZEM OS UMBIGOS?!” em REPÚDIO AO QUADRO DE FUNCIONÁRIOS DA CASA DE CULTURA DO ITAIM PAULISTA e ao DESCASO COM OS COLETIVOS CULTURAIS LOCAIS e a COMUNIDADE Texto: Sarau “O que dizem os Umbigos?!”

“...O ÚLTIMO A SAIR, ACENDE A LUZ!” Portas fechadas da Casa de Cultura do Itaim Paulista.

A Casa de Cultura Itaim Paulista, fundada em 1985 (uma das Casas de Cultura mais antigas de São Paulo) atualmente com 28 anos de existência, encontra-se em estado de desistência e abandono pelo poder público e consequentemente, pelos usuários e artistas, cansados de serem mal recebidos e mal tratados e por terem que lidar com a precariedade não só do atendimento, mas também da limpeza, falta de organização, técnicos e equipamentos. Esta Casa é fruto da luta histórica dos movimentos populares de cultura da região. Criada e fundada à partir de dois movimentos o EADC e o CAM (que com as trocas de gestão também foi obrigado a deixar o espaço), há tempos não cumpre seu papel original, enquanto espaço PÚBLICO de cultura. Muitos coletivos após o MPA tentaram resgatar sua história de luta, levando atividades culturais, sempre em busca de garantir o espaço aos artistas e moradores locais. Ação, infelizmente barrada pelos milhares de problemas que a Casa de Cultura e seus funcionários vem acumulando ao longo do tempo. PORTANTO, A OCUPAÇÃO CULTURAL “O QUE DIZEM OS UMBIGOS?!”, REALIZADA NA CASA DE CULTURA DO ITAIM PAULISTA, NÃO É POR ACASO... MAS SIM POR DESCASO!

Sucateado pela ausência de investimento, estrutura e organização por parte do poder público nas gestões anteriores, permanece na mesma situação na gestão atual. A falta de equipamentos, recursos técnicos, recursos humanos qualificados, organização interna e o descaso com os artistas e a comunidade local é gritante, desumano e infringe o direito à cultura “garantido” na Constituição Federal, assim como na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Mesmo diante desta realidade e tratamento obtido, o Sarau “O que dizem os Umbigos?!” (que em 2013 completou 4 anos de (r)existência), realizou por 3 anos esta atividade no espaço mencionado, sujeito à boicotes de todos os

RESISTÊNCIAS

gêneros. Porém, exaustos de enfrentar os desmandos de um local público, gerido de maneira privada, os Umbigos passaram a realizar o Sarau, na Escola de Samba Unidos de Santa Bárbara (também no Itaim Paulista), afim de garantir a realização efetiva desta ação cultural, assim como atender dignamente os artistas e público participante. Entretanto, entendendo este espaço como direito e conquista do poder popular, o coletivo “O que dizem os Umbigos?!” não se isentou da necessidade de continuar lutando para que a Casa de Cultura seja, de fato, do Itaim Paulista. E para tanto, criou uma ação de Ocupação Cultural neste espaço, recebendo mensalmente, artistas parceiros para desenvolver alguma atividade artística aberta ao público. Esta ação, não só compõe a agenda da Casa, desde Julho, como, nesta edição, também integra a programação da 1ª Mostra Cultural das Periferias - #pelaleidefomentoàperiferia, organizada pelo Fórum de Cultura da Zona Leste.

No último sábado, dia 26/10, o coletivo convidado a fazer a Ocupação Cultural junto com os Umbigos foi o SLAM da Guilhermina. A Atividade foi realizada no horário previsto e dentro das condições estabelecidas pelo espaço, entretanto, ao final da ação (por volta das 21h), enquanto os coletivos e o público presente registravam algumas fotos e guardavam os materiais para deixar a Casa, um dos funcionários apagou as luzes com todos dentro do espaço, alegando que “deu o horário dele”. Na tentativa de conversar a respeito do ocorrido, questionar a sua atitude e expor a necessidade de que, enquanto funcionário público, ele deveria acompanhar a atividade até o final, aguardando minimamente as pessoas saírem da Casa, antes desligar as luzes do espaço, o mesmo funcionário respondeu com a seguinte frase: “deu minha hora, eu desligo mesmo!” e fechou a porta na cara de todos: coletivo organizador (O que dizem os Umbigos?);

coletivo convidado (SLAM da Guilhermina); e público presente (comunidade local e de outras regiões). Botados para fora com as bolsas abertas, materiais por guardar e lanche dos convidados nas mãos (que aliás, tivemos que retirar à força da cozinha, pois nem isso ele se propôs a esperar), restou-nos a possibilidade de nos reunir na praça, em frente à Casa de Cultura, para organizar as nossas coisas antes de ir embora e compartilhar com os presentes um pouco de comida, indignação e a certeza do motivo pelo qual realizamos esta ocupação. Esta não é a primeira vez que acontece este tipo de atitude desrespeitosa com quem deveria ser muito bem recebido nesta Casa e este não á um caso isolado e restrito ao Coletivo “O que dizem os Umbigos?!, mas sim uma realidade presente e gritante em grande parte dos espaços públicos, cuja estrutura não atende as atividades locais e funcionários despreparados e inconscientes do seu papel nestes espaços, literalmente, fecham as portas para ação cultural e para comunidade local. Mediante uma luta histórica, somada à inúmeras reclamações e manifestações feitas, por diversos coletivos em prol do melhor funcionamento das Casas de Cultura, assim como de outros espaços públicos, questionamos a manutenção deste quadro e reiteramos a necessidade URGENTE de que alguma providência seja imediatamente tomada. Pois, já estamos cansados de #discursosemSP e o que queremos e necessitamos é de #atitudesemSP! Que tal agora?

DEMANDAS URGENTES, IMPRESCINDÍVEIS E ÓBVIAS • Devolução imediata da Gestão das Casas de Cultura para a Secretaria Muncipal de Cultura; • Orçamento próprio e transparência orçamentária do espaço; • Reforma da Casa (atualmente encontra-se depredada, como a porta grande de ferro da entrada quebrada, vazamento nos banheiros; bebedouros enferrujados); • Pessoal capacitado para os respectivos cargos (isso implica na troca de todos os funcionários atuais); • Permanência da Coordenação no espaço e acompanhamento das atividades culturais, durante sua carga horária de trabalho; • Contratação de técnicos de som, equipe de divulgação, bibliotecários, técnicos de luz, seguranças, faxineiros, oficineiros, atendentes, etc • Compra e manutenção de equipamentos necessários para realização das atividades; • Equipamentos de Luz e Som de qualidade; • Manutenção de banheiros, bebedouros, etc.; • Trabalho de divulgação da Casa (informativos e agenda que cheguem ao conhecimento da população, não só sua existência como também as ações desenvolvidas no local); • Programação Compartilhada e fiscalização popular; • Liberdade de uso do espaço sem a necessidade de ofícios burocráticos (em situações em que a Casa encontra-se vazia); • Organização para o uso de equipamentos, (que devem ser marcados, desmontados e guardados pelos técnicos de som contratados após os eventos); • Mudança do horário de fechamento da Casa de Cultura, para, no mínimo 22h.


ARTE

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Novembro de 2013

CRACOLÂNDIA Texto: Danilo Morcelli, escrito em 2009/ Foto: Antonio Miotto

Centro de São Paulo. A sujeira da calçada cheira à ocre. O cheiro de urina e do esgoto que sobe quente é perfume. É o de menos em uma cidade como esta. Uma sinfonia ao longe. Sussuros. Passos esguios, ligeiros, aflitos. Luzes. Anjos? Estrelas? Mal trapilhos. São Paulo Fashion Week, uma das modelos dez anos depois. Trinta anos, desgrenhada, rosto cinza, de gestos nervosos,

caminha na passarela. Perdeu o nome. Prostitui-se em hotéis imundos e debaixo das árvores da Praça Princesa Isabel. É HIV positivo. O rosto e as feridas purulentas pelo corpo. O programa são cinco reais, às vezes a agilidade gera lucros. Prostitutas idosas, menores, trombadinhas, mulheres e crianças, nenhum pudor, alguma gritaria. Escutas telefônicas no esgoto, câmeras por detrás das vidraças. Brigam por

Dentre as tradições e costumes populares brasileiros encontram-se as feiras livres, expressando hoje a sua luta pela sobrevivência. Com o crescimento dos supermercados e as mudanças dos espaços da cidade, as feiras livres existentes desde meados do século XVII, se manteem beirando processos de marginalização. Adaptando-se aos elementos e estruturas que surgem ou se conectam aos espaços públicos. As feiras são de todos, não existem muros. Reúnem a vizinhança e mantém o contato pessoal, preservando o bolso do consumidor. O feirante é simpático, lhe oferece frutas e negocia o preço. Ele quer fidelidade! Quer dizer, ele e ELA! Já que a participação das mulheres no comando das barracas listradas tornou-se constante

sob sol ou chuva, entre os caixotes com verduras. Assobio pra cá, piscadinha pra lá, tagarela para você olhar e comprar. O comércio é um meio, já que o fim envolve o conhecimento e a prova de novos produtos, assim como o envolvimento com diversas pessoas ou até mesmo comunidades culturais. Lugar cheio de arte, onde a criatividade e o manejo do corpo impulsionam o entrosamento dos indivíduos distribuídos em meio a riqueza de cores e composições que nos deixam felicitados, e enlouquecidos pelas papilas gustativas quando encontramos o queijo derretido do pastel e o frescor levado a garganta pelo caldo de cana gelado. Nas feiras a vida brota e muitas vezes floresce, por meio de sílabas ao ar e olhares perambulantes.

um pouco de droga. O brilho da pedra chama. Defecam na frente todos, fazem sexo em qualquer lugar, atacam de forma repulsiva. Escarram, abrem suas feridas, vomitam. As fezes espalhadas pela calçada: perdem todos os traços de humanidade. Que humanidade? A doença tem nome e sobrenome perdidos que sem história, passeia incômoda pela cidade à procura

de uma toca, uma lóca, que permita-lhe acender em paz. A tragada é um real, a pedra é dez. A satisfação custa pouco (dura pouco). Princesa Isabel. Usuários de Crack concentram-se todas as tardes. A ronda dispersa, muda dança que fala: “A cracolândia não é um lugar. Fazemos parte de ti. A cracolândia somos nós usuários. Apenas mudamos de endereço”.

CRÔNICAS

VERDE MADURO Texto e Foto: Ruana Negri


ARTE

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CPTM II

POESIAS

No balanço do trenzão. Durmo, acordo, já é mais uma estação, Levanto, to no banco cinza, falta de atenção. Cento, durmo, finjo uma oração. Chiclete um real, traident um real, Perco a concentração. Meu vizinho lê autoajuda e eu poesia na mão, Peço ajuda ao meu vizinho, qual a próxima estação? “Senhores passageiros um minuto de sua atenção, meu filho tem uma doença grave, problemas no coração”. Fecho os olhos pra não ver, a realidade do irmão. Mão no bolso pra ajudar, “Desculpa, hoje eu não tenho não”. Chocolate um real, suflear um real, só aqui na minha mão. A mina do lado passa mal, chega a cair no chão. A tiazinha grita: “É sistema nervoso, gravidez ou pressão”. “Moço não empurra, quer sentar?” Digo, não. “Moço não empurra, cuidado com a marmita, tem ovo, tem feijão”. A galera do telemarketing tá naquela falação, Fala do cliente, fala da PA e da falta de educação. R$ 3,20 que abuso, pra andar nessa confusão! Não aceito, vou reclamar, vou fazer manifestação. “Senhores passageiros, teremos, greve, haverá paralisação”. “Que absurdo”! Grita o tio, “trem parado, não dá não”. Penso eu vendo a cena, que puta contradição. Já misturou tudo, opressor, oprimido, oposição e situação.

TELEFONE: 11 963811073 VOZDALESTE.BLOGSPOT.COM FACEBOOK.COM/VOZDALESTE ANUNCIOSVOZDALESTE@GMAIL.COM VOZDALESTE@GMAIL.COM

“Amendoim crocante, só aqui na minha mão”. Empurra, vai descer? Empurra, vou fazer baldiação. Mais um dia amassado no balanço do trenzão. Por Vandei Oliveira Zé

O HOMEM DO ABRAÇO HORIZONTAL A verticalidade traz instabilidade ao seu corpo Talvez, por isso, o mesmo ande desengonçado. Um andar malemolengo que traz no topo da cabeça um chapéu de palha. Objeto que ajuda a manter suas ideias dentro de seu corpo, apesar desses pensamentos líquidos tentarem escapar pelos buracos, estes são formados pela quebra da palha. Falando em quebra, têm o seu olhar Que se ofusca com a luz, escondendo o tom e o som azul Que ele possui e propõe. Assim sonha, com o pé manchado de desejos e Cheios de coisas para contar Quando o estica na horizontal seu sangue flui e a circulação quase não tarda a falhar. Nessa posição, nem o chapéu consegue estancar a fruição do seu pensamento Tudo se torna real, até um simples abraço horizontal. Por Ruana Negri (São Paulo/2012)

DOUTORANDO O doutor apunhalou O coração da pobre moça Pela vereda de tuas coxas. Assassinou a virgem De tua alma. Soprou a clemência Sem a obediência Apalpou tua graça. Assassinou seus desejos De amar A quem nunca amou. Por Hugo Paz

Novembro de 2013

E AÍ, FI?

FRIA ESPERANÇA

O boteco fechou cortaram sua luz só tem zé povim a chapa esquentou

Viadutos saltam sobre os barracos Carros mais bem cuidados que crianças Em um tempo de fria esperança Vida que caminha aos solavancos.

e aí, fi? mas fi, e você? você já não come é zoado pelos ôto você não faz rima não dança na festa e aí, fi? está sem seu pai não fez nem SENAI não tem um carrinho não pára de beber não pára de fumar só cospe pra cima a chapa esquentou a manhã já veio o busão já veio a chuva já veio já veio a descrença e a fome voltou e a dor não sumiu e o cigarro acabou e aí, fi? E aí, fi? Seu olharzinho de marra sua frieza constante sua mesa não farta seus discos de rap seu medalhão de bronze sua bombeta da Adidas sua total consciência seu silêncio – e aí? Com a chave na mão quer ligar a moto não existe moto quer beber vinho mas a garrafa secou quer pegar umas mina mina tu não tem mais E aí, fi? Se você morasse na Vila Madalena se você tocasse pick up eletrônica se você ganhasse na Mega Sena se você vivesse Mas você não vive você é mole, fi! Com má companhia Que nem bicho solto com essa agonia essa parede sem reboco que não dá pra encostar sem rottweiler branco que cague na calçada o mundo te pára, fi! mas fi, te pára por quê? Por Thales Alves

A esperança que venceu o medo Tornou-se, ela própria, atropelo Fruto de acordo e conchavo União de classes, falso enredo De um tempo difícil, obscuro, Em que a vida importa pouco Vale muito mais o grande lucro; Tempo de ajudar os grandes bancos Queimar índios, expulsar mendigos Derrubar barracos dos barrancos. Por Adailtom Alves Teixeira – 04/11/13

SONETO DO ARTIGO PRIMEIRO ô brasil tão soberano, que é toda a periferia, vamu si juntar um dia e bolar um novo plano. fazer valer nossa vontade e parar de tanta demora, já que a cidadania mora muito longe da dignidade. ninguém representa meu ser na comedia chamada eleição que a televisão põe no ar. eu quero é ter o poder de mostrar insatisfação não indo na urna votar. Por O Augusto


Jornal Voz da Leste - Novembro de 2013  

2ª Edição do Jornal Voz da Leste

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