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silêncio do Parque Metropolitano de Pituaçu abriu a guarda que governa os espaços infinitos. No grande edifício modernista construído na entrada principal do parque, por trás de uma porta de metal, uma voz sobe até o último tom e emite impropérios: “É uma armação, meu filho, que essa mulher está fazendo! Essa mulher é uma maluca agressiva!”. Berros, brados, gritos. Mais um instante e a porta corre para o lado, iluminando a figura mística de Mario Cravo Jr., ouvido grudado ao telefone celular. Do outro lado da linha, o filho Ivan Cravo busca acalmar os ânimos. A pendenga envolve a instalação de uma nova linha telefônica na sede do Espaço Cravo, nome de batismo do parque de esculturas a céu aberto onde estão expostas cerca de 50 peças do artista, objetos tridimensionais estáticos, móveis, sonoros. Mario entra no carro, quer ir ao ateliê, localizadoamaisoumenoscemmetros,na parte alta do parque. Traz numa das mãos pedaços de outro telefone, este espatifado no calor da discussão. Entrega-o ao motorista André Luiz, nas horas vagas auxiliar para assuntos extraordinários, e pede para o ajudante tentar consertá-lo. Com a outra mão faz o sinal: “Em frente”. Não há tempo a perder. Em poucos dias, será aberta sua primeira exposição nos últimos nove anos, tempo longo demais para um artista de sua importância e que, como se isso não bastasse, não para de produzir aos 88 anos de idade. Avelhicesetransformounumdostemas preferidos de seu discurso transbordante, exatamente porque Mario Cravo a odeia: “Só quem é velho sabe o que isso significa. Os limites do corpo, do fazer força, do levantar e andar”, enumera estorvos.

“Quanto mais um dia, menos um dia”, sintetiza a consciência da morte. Mas Mario Cravo não se entrega. “A vida é uma luta, meu filho”, repete. “E temos que lutar”. Para o escultor e pintor, o pioneiro da arte moderna na Bahia, autor de tantas esculturas incorporadas à paisagem urbana de Salvador e dezenas de outros trabalhos em museus de Nova York a Jerusalém e do Rio de Janeiro a São Petersburgo, lutar é continuar a criar. “Ele sempre está criando”, confirma o galerista Paulo Darzé, que divide com o próprio Mário a curadoria da exposição, cuja abertura está marcada para a próxima sexta-feira, dia 29, às 19h, na Paulo Darzé Galeria de Arte. “Apesar da idade, é um menino. Se empolga, vibra com a produção do evento”.

GRAFITEIRO Terceira mostra de trabalhos de Mario Cravo organizada por Darzé, esta terá um traço de novidade: perto de 90% das peças em exibição, diz o galerista, são de trabalhosrecentes,feitosnosúltimosdoisanose jamais vistos pelo público. As figuras de exus, uma de suas marcas registradas, estarão presentes junto com as grandes esculturas de latão, ferro e aço que o consagraram. Paulo Darzé destaca também algumas peças antigas – portas de madeira transformadas em exus em alto-relevo –, mas são as possibilidades de uma nova matéria-prima, o grafite, que têm atraído cada vez mais o escultor. A relação de Mario Cravo com o material começou há mais ou menos seis anos, quando num lote de sucata – o ponto de partida de grande parte de suas obras – ele comprou placas de revestimento de fornos industriais. As chapas começaram a ser usadas como calço, para apoiar estruturas e nivelar terrenos. Em pouco tempo, mudaram de utilidade, o que não surpreende

Cravo O PRIMEIRO

Aos 88 anos, o escultor baiano Mario Cravo Jr. abre exposição na próxima sexta-feira, na Galeria Paulo Darzé. Noventa por cento das peças são de trabalhos recentes e que nunca foram vistos pelo público. Pioneiro da arte moderna na Bahia, o artista continua criando sem cessar no Espaço Cravo, onde fica seu estúdio e o parque com suas esculturas a céu aberto, em Pituaçu

Texto VITOR PAMPLONA vpamplona@grupoatarde.com.br Fotos RAUL SPINASSÉ raulspina@gmail.com


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quem conhece o processo artístico constante de Mario Cravo. “Ele não se apega a um material. O que vem na sua cabeça, ele faz”, comenta Paulo Darzé. Para Mario, experimentar é uma consequência de sua natureza:“Comeceiatrabalhar,lixar,recortar.Ografitecortacom facilidade”.Oresultadoestápenduradonasparedesdogalpão ondefuncionaseuateliêeespalhadoemcimadeumamesano mesmo local: esculturas sinuosas, tridimensionais ou em alto-relevo, de brilho fosco e formas variadas, que serão exibidas na exposição. Em sua maioria, são de pequeno porte. Mario enfatiza: “As pessoas tendem a valorizar peças grandes, mas escultura é escultura, não importa o tamanho”. Ato contínuo, pede ao repórter e ao fotógrafo: “Passa a mão, é um material extremamente sensual. Esta aqui parece uma planta, uma folha, uma xoxota”, aponta uma peça. “O que vem na cabeça”. A textura lisa, insinuante das esculturas impressiona. As curvas e a temperatura, quase fria, impulsionam o desejo de ficar horas acariciando-as, alisando a superfície polida e percorrendo as dobras inventadas pelo artista.

PIONEIRO O poeta e crítico de arte Wilson Rocha (1921-2005) anotou que “a experiência da forma, a vivência criativa e o senso tátil da matéria” guardam a origem da excepcionalidade da obra e da pessoa de Mario Cravo Jr. na arte brasileira moderna e contemporânea. Sua trajetória, desde a primeira exposição individual em Salvador, no longínquo ano de 1947, e nas que se seguiram, após a temporada de estudos com o escultor iugoslavo Ivan Mestrovitch, na Universidade de Syracuse, em Nova York, cidade onde viveu por cerca de dois anos no final da década, expõe uma preocupação que a crítica de arte Matilde Matos traduz como uma das grandes características de sua arte: procurar nas raízes culturais baianas a inspiração para o seu trabalho, na forma, material e conteúdo. Junto com outros pioneiros do modernismo na Bahia – Carlos Bastos, Genaro de Carvalho, Carybé, Jenner Augusto e Rubens Valentin –, Mario foi um dos primeiros a fazer isso nas artes visuais, adicionando às temáticas da nossa realidade o código da expressão artística universal . “Foi também o que mais provocou, sempre tentando e resolvendo meios, técnicas, materiais, mergulhando fundo para trabalhar com e não contra o material escolhido, tirando partido do que tinha à

O escultor Mario Cravo Jr. encara a velhice como um desafio diário


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MARGARIDA NEIDE / AG. A TARDE

XANDO PEREIRA / AG. A TARDE

IRACEMA CHEQUER / AG. A TARDE

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Obras públicas: Cruz Caída (Praça da Sé); Oxalá (Sede dos Correios, Pituba); e Fonte da Rampa do Mercado (Praça Cayru)

mão,sempremantendoseusvalores”,afirma a crítica (leia texto na pág. 28). Nesta lista estão madeira, ferro, latão, cobre, aço inoxidável, resina de poliéster, fibra de vidro, pedra-sabão e grafite. Mario acrescenta o que considera (apenas) outro suporte, o computador. Digitalmente, produziu mais de três mil gravuras, armazenadas na memória do computador de seu escritório no ateliê. Mas cansou do teclado e do mouse: “Parei, desisti. A máquina é fria”, indica mais uma vez a natureza física, concreta, tátil de sua arte. Tocar nos materiais, estudar e conhecer intimamente suas propriedades é fundamental para perceber o que um monte de sucata, por exemplo, quer ser. Mario tem na ponta da língua uma palestra sobre a íntima relação entre seu trabalho e o lixo industrial: “Um dos personagens importantes da minha vida, nos últimos 30, 40 anos, é o sucateiro. Onde eu estive fui atrás de sucateiros, que aos poucos foram descobrindo minhas formas preferidas. Então, estabelece-se uma relação de empatia”. Guarda viva na memória a imagem do sucateiro Pisca-Pisca, dono de um ferro-velho na Linha Verde, que constantemente tirava o telefone do gancho e avisava o artista: “Seu Mario, venha aqui que tem um material que o senhor vai gostar”. Transformar em arte o que iria para o lixo faz dele um precursor de uma prática explorada à exaustão por uma série de artistas contemporâneos. Símbolo da maneiracomoMariointegraissoaocotidiano, o casal de exus construído a partir de bici-

cletas velhas de trabalhadores que o auxiliam no ateliê afasta qualquer sinal de falsa modéstia: “Isso me dá um orgulho da porra, um material usado por um funcionário meu, e que pode ser recriado com um tema para mim já clássico, digamos”.

OFICINA Para transfigurar o lixo industrial, grande parte doado por empresas, Mario frequenta diariamente o ateliê no Parque de Pituaçu. Até pouco tempo atrás, passava o dia inteiro lá, rotina que mudou após o agravamento da asma crônica de Lúcia, sua mulher há 66 anos, com quem teve quatro filhos. A bengala na mão, companheira inseparável há anos, não o impede de vencer as inclinações do terreno. Dentroeforadogalpão,pedaçosdemetal, madeira ou resina e esculturas em manutenção disputam espaço com máquinas de cortar, dobrar, soldar, equipamento habitual de fábricas. O cenário da oficina de trabalho completa-se com dez fiéis escudeiros: Benício, Joel, Antônio Luiz, Daniel, Nilton, José Jorge, João, Manuel, Bernabé e Alex .Os ajudantes são quem, hoje em dia, coloca a mão na massa seguindo à risca as instruções do mestre. Todos têm de seis a 12 anos de trabalho com Mario Cravo, com exceção de Antônio Luiz,omaisantigo,quejápassoudos15.Já estão calejados no trato com os materiais e com o velho escultor, que diz ter dois métodos de trabalho. Um é instintivo, resulta da conversa interior entre o artista e o material. O outro ele apelida de “punheta”:

“Você faz desenho, estudo, maquete. É um desafio que você se faz”. Mario ri muito, brinca, provoca, gosta de avacalhar. Quando quer, também briga, é ranzinza, implicante. “Eu falo alto, mas não mordo. Ainda”. O humor pueril e ainsolênciaestratégicasósãoescanteados diante de um assunto que ainda o comove muito: a perda do filho Mario Cravo Neto, fotógrafo, morto em decorrência de um câncer de pele, em 2009, aos 62 anos. Conhecido por retratar a religiosidade afro-baiana, premiado no Brasil e exterior, Mariozinho renovou obras do pai por meio da fotografia. Criando cenários, texturas de fundo e iluminação para as esculturas, extraiu delas intensa expressão registrada em livro. Os dois falavam a mesma língua, eram parceiros: “Meu filho, amigo e colega”, Mario Cravo não represa a emoção. Mas o gene criador do primeiro Cravo sobrevive e chegou à terceira geração. Filho de Cravo Neto e fotógrafo como o pai, Christian Cravo, 37, carrega adiante o DNA artístico da família. “Acho difícil dizer até que ponto fui influenciado, mas teria sido difícil eu não atuar nas artes. Meus brinquedos eram justamente as madeiras, ferros, pedaços de acrílico espalhados pelo ateliê do meu avô”, diz. Christian reconhece a influência dos Marios, mas valoriza o outro galho da árvore genealógica: “Agrada-me a ideia de ter herdado o pique dos Cravos e a disciplina dos Christensen, minha família materna”. Satisfeito, o avô acrescentaria: “Autocrítica é a melhor avaliação. Ainda”.

O escultor com o filho Mario Cravo Neto (1947-2009), acima; com o escritor Jorge Amado (1912-2001), abaixo; e com a mulher, Lúcia, com quem está casado desde 1945

ARQUIVO A TARDE

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Mario Cravo Jr. em seu ateliê, no Parque de Pituaçu

VÁ LÁ Paulo Darzé Galeria de Arte. Rua Chrysippo de Aguiar, 8, Corredor da Vitória. Abertura dia 29, às 19h. Visitação: seg. a sex., 9h às 19h, e sáb., 9h às 13h

A facilidade de criação de Mario Cravo Jr. MATILDE MATOS Diante da ambiguidade instalada na arte, desde que artistas apressados passaram a assumir a estética do feio e grotesco como caráter de contemporaneidade, essa exposição de trabalhos dos últimos seis anos de Mario Cravo Jr., na Galeria de Arte Paulo Darzé, vem esclarecer como é fazer arte contemporânea. Venho acompanhando de perto as artes visuais há mais de meio século e sempre me causou admiração e espanto a facilidade da criação de Mario Cravo Jr., que faz de simples visita à sua oficina de trabalho uma aventura estonteante que jamais se esquece. Ali a versatilidade do trabalho diário do artista se evidencia na criação em andamento e em peças já concluídas, seja em desenho, pintura, gravura, infogravura e esculturas, na grande maioria, criadas na madeira e com diferentes metais ou transformadas de peças utilitárias que o tempo relegou. O cativante casal de exus nessa exposição resultou de bicicletas quebradas dos

ajudantes da oficina do artista; a portentosa cruz, Mario compôs com tubos de antiga adutora, presente de um amigo. Na exposição Mario CRAVO Jr., o público vai ter a feliz oportunidade de ver suas peças dos últimos seis anos, com o brilho avermelhado do cobre, dourado do latão e prateado do aço inoxidável, alternando-se aos discretos cinzas e quase negros dos grafites, raros e irresistíveis, à vista e ao tato, descoberta original de Mario. Único artista a usar o grafite na arte, ele diz como o encontrou. Frequentador do famoso ferro-velho de Pisca-Pisca, o artista recebeu dele uma quantidade de irreconhecíveis peças arrebanhadas de um incêndio. Semelhantes a tábuas enroladas em velhos papéis colados, sujas, Mario as usava como suporte e, por acaso, descobriu depois que eram grafites. Com esse material, que na sua definição é “carbono gentil, irmão ‘soft’ do diamante”, o artista vem dando asas à imaginação, ao criar placas de parede e pequenas esculturas, explorando nos cortes o brilho natural do grafite, começando a

inserir uma linha alva ou de outra cor na suavidade do quase negro, sugerindo nas formas seu modo de ver elementos que nos remetem à natureza, ou nos passam as ideias que atravessam sua “memória, morte e vida”. Nosmetaisounografite,ressai,alémda originalidade da criação, o cuidado com o acabamento perfeito que retém a luz e exalta as cores originais dos metais nas peças. Mario Cravo fez há pouco tempo notável escultura de 4,50 m x 2,40 m para ser colocada numa praça em Olheiros, cidade pequena, próxima a Lisboa, a pedido dos criadores de uma homenagem à poética da língua portuguesa. Usando, além do ferro, o aço inoxidável, o latão e o cobre, os agudos ângulos das formas geométricas da escultura provocamarefraçãodaluz,enquantoosolexalta as cores e, sob o verde da árvore, onde foi colocada, até na fotografia, ela reluz seus tons como pura poesia. « Matilde Matos, da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte) e Aica (Associação Internacional de Críticos de Arte)

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O primeiro Cravo