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Editorial S

ai este segundo número da Vertigem com o baixar das temperaturas deste fim de Outono. E, se o frio faz aumentar a motivação dos escaladores, tanto de bloco como de vias, também nós, Vertigem, queremos carregar a fundo no pedal da motivação. Para esse efeito, nada melhor do que ir buscar os testemunhos, em forma de artigo, dos escaladores que não se poupam a rebentar a sua pele, tendões, pulsos, tornozelos e tudo o mais que lhes apareça à frente, quando perseguem as suas ilusões verticais e vertiginosas. Esses escaladores é que fazem a revista, eles são a Vertigem e quase que se poderia dizer que tudo o mais é apenas suporte e montagem, bandeja mais ou menos dourada em que vos servimos emoções, histórias e viagens ou, numa palavra, sonhos. Abrimos com uma crónica do escalador Tiago Lourenço (a.k.a. Texas) e do seu particular primeiro contacto com o famoso monólito Naranjo de Bulnes. Saltamos para o México, numa viagem colorida em busca do vale de Basaseachi e das suas paredes, contada pelo escalador Leopoldo Faria (a.k.a. Leo). Regressamos e vamos pela mão da Isabel Boavida até à falésia do Meio Mango, junto ao Cabo Espichel, para encontrar uma escalada de sonho ou de pesadelo, mas nunca de sono. Esta é uma escola que num ápice conquistou o seu lugar ao sol. É, definitivamente, uma falésia nascida do mito da Atlântida e que veio para ficar.

Numa época em que nos obrigam a comer pão com pouco sal surge esta escalada bem salgada! Contra a corrente, portanto, aqui vos apresentamos o Mango! Depois, sentámo-nos uma noite à conversa com André Neres, tentando saber de onde veio e para onde vai, este escalador sobredotado e nascido sob a lua cheia do encadeamento sem esforço aparente. Saídos desta entrevista vamos perder-nos em Sintra, guiados por João Pedro “Pena” entre os dispersos sectores de bloco da Tapada. E das pequenas pedras regressamos de novo ao Naranjo ou Pico Urrielo (como preferem muitos) para uma viva descrição do grande feito que foi o encadeamento em livre da via Pilar Cantábrico pela cordada Francisco Ataíde e Carlos Simes (a.k.a. Cuca). Acabamos com um artigo b-a-ba, mas sempre necessário, sobre as cordas a que nos atamos e quais devemos levar, para onde e porquê. A fechar a revista, o selo cómico da BD politicamente incorrecta do escalador não menos politicamente incorrecto, Paulo Roxo. Como última nota, neste número, e porque se para os leitores a Vertigem é “à borla” mas já para nós “sai-nos do pêlo”, salientamos ainda a inclusão de duas páginas de publicidade de uma empresa que confiadamente deu o primeiro passo, acreditando no projecto Vertigem. Esperamos chegar a um ponto no futuro em que sejam os leitores a dizer “chega de tanta publicidade!”. Entretanto, enquanto esperamos sentados a pensar nos blocos, vias, montanhas e viagens de amanhã, fiquem com mais este número da Vertigem. Filipe Costa e Silva Direcção Editorial

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Conteúdo 6>7

Lesão, desmotivação, Naranjo e Redenção Crónica

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Basaseachi, México Viagem

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Meio Mango Artigo

34>42

André Neres Entrevista

44>53

Tapada de Sintra Artigo

54>60

Naranjo de Bulnes Artigo

62>69

Cordas Técnica

Galeria

Fotográfica

Humorroxo Cartoon

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48>50


www.vertigem-mag.com Direcção: Filipe Costa e Silva

Direcção Editorial: Filipe Costa e Silva

fcs@vertigem-mag.com

fcs@vertigem-mag.com

Frederico Hall Silva fred@vertigem-mag.com

Nuno Pinheiro nuno@vertigem-mag.com

Direcção de Arte: Frederico Hall Silva fred@vertigem-mag.com

Colaboração Especial: Francisco Ataide Ricardo Alves

Agradecimentos: Colaboradores: Carlos Vieira Alexandre Marques Daniela Teixeira Isabel Boavida João Pedro Pena Leopoldo Faria Nuria Garcia Paulo Roxo Pedro Pimentel Rodrigo Viana Machado Rui Pereira Tiago Lourenço

Publicidade: info@vertigem-mag.com

Colaborações: info@vertigem-mag.com

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LESÃO, DESMOTIVAÇÃO, NARANJO E REDENÇÃO Texto

Tiago Lourenço “Texas”

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lguém muito conhecido disse qualquer coisa como a longevidade do escalador desportivo estar directamente relacionada com a sua capacidade de reagir positivamente às lesões. Não sei quem o disse, por isso não vou poder começar esta crónica com uma citação, daquelas mesmo à séria, com aspas e tudo. Posso apenas começar por dizer que, sendo assim, talvez não tenha um futuro brilhante como escalador. Os que me conhecem estarão a pensar “Só agora é que percebeste isso?”. A verdade é que as sucessivas tendinites que sofri em todos os dedos (excepto os polegares) e em ambos os cotovelos, não me têm deixado apertar à vontade e têm posto à prova a minha perseverança. E, como escalador desportivo que sou, gosto de (tentar) apertar. Por isso mesmo, foi com a cabeça em tudo menos na escalada que aceitei um convite para passar uma semana nos picos da Europa, com paragem obrigatória pelo fabuloso Naranjo de Bulnes. “Vou fazer umas belas caminhadas”, pensei eu. Mas, para quem ponderava mudar de ofício, terá sido uma atitude tão inteligente como a do ex-toxicodependente que vai fazer uma

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passeata pelos becos do Martim Moniz. E, talvez por isso, me esqueci de tirar os pés-de-gato e o arnês do fundo da mochila quando preparei a viagem. Pode parecer um lugar-comum mas é no meio da montanha que, muitas vezes, temos a noção da nossa pequenez. O que não deixa de ser útil – é sempre bom ver as coisas de uma outra perspectiva. E, no meio da parede, apercebo-me que não sou mais que um ponto negro na cara leste do Naranjo. Uma borbulha pronta a ser esmagada por um calhau com mais personalidade. Mas é também naquele oceano vertical que encontro uma liberdade que dez anos de escalada ainda não me tinham permitido conhecer. Neste terreno, as protecções não abundam e pouco contribuem para balizar a via. Cada um é livre de seguir o seu caminho, aproveitando como sabe e bem entende as concessões que a parede lhe oferece. A rocha, embora tantas vezes percorrida, continua surpreendentemente virgem e deixa-nos escolher o nosso rumo, apontando subtilmente o percurso através da elegância das suas falhas e deixando a nossa imaginação fazer o resto. Cabe a cada um de nós fazer o melhor uso possível da


táctica que Pedro Pidal e Gregorio Perez usaram para conquistar este imponente maciço pela primeira vez – que é, no fundo, aquilo a que se resume a escalada – subir pela maneira mais fácil. A vertigem dos números que motiva os escaladores desportivos foi substituída pela vertigem das alturas que inebria os escaladores da clássica. Neste lugar, o grau pouco importa: A julgar pelos diversos impropérios proferidos pelo guia que gentilmente me deu boleia neste turismo vertical, ele parece-me mais preocupado com outros números – o número de metros que o separa da última protecção e o número de metros que lhe sobram até conseguir entalar um dos amigos que leva no arnês. É através da vibração da corda (que a centenas de metros do solo mais me parece mais um cordão umbilical) que nos une que me apercebo que navegar na parede, entre vagalhões de rocha desprotegida que atingem a dezena de metros de altura, deixa pouco espaço para a brincadeira dos graus. Este é um novo terreno de jogo, bem maior que aquele que eu conhecia, com mais possibilidades e muito mais exigente em todos os aspectos. Este é um jogo de decisões, mais cerebral e, sobretudo, mais psicológico. Uma luta

interior com aquele Demónio a quem convencionámos chamar “medo”. Se o quisermos vencer neste jogo, temos de nos juntar a ele, ouvir as palavras que nos sopra ao ouvido e negociar com ele antes de tomar qualquer decisão. É verdade, já me esquecia de referir o nome da via que fizemos – “Amistad com el Diablo, V expo”. E, lá está, mais importante que o “V” que sucede ao nome, é o “expo” que sucede ao “V”. Já no final da escalada, numa trepada fácil e sem corda, corro ansiosamente rumo ao topo deste monólito perdido na cordilheira Cantábrica. Ao mesmo tempo, volto a descobrir a excitação que é fazer aquilo que une todos os escaladores – os das expressos, os dos crash-pads, os dos entaladores e os dos piolets. A excitação de chegar ao cume, de subir ao ponto mais alto que encontrarmos. Por último, uma referência ao título desta crónica. Se andas desmotivado ou a contas com uma lesão, recomendo uma visita ao melhor médico que conheci. Vive em Espanha e dá pelo nome de Naranjo de Bulnes.

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A blocar no profundo vale de Basaseachi

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A casa da Dona Ă‚ngela, em Basa seachi

Leopoldo Fa ria (Leo) dian te das parede s de Potrer


MÉXICO

Vinte dias em Basaseachi Texto

Leopoldo Faria

Fotografia

Leopoldo Faria, Nuria Garcia

Levo já meia hora às voltas perdido entre a densa vegetação dos vales de BasaBasa seachi. O forte declive do vale juntamente com os cerca de 40 quilos que carrecarre go fazem com que me desloque tão lento como uma tartaruga, obrigando-me a concentrar em cada passo que dou com a ajuda dos meus bastões. Já sem esperança de encontrar os meus companheiros antes do anoiteanoite cer, faço uma pausa para descansar e penso no que me levou até este lugar no fim do mundo!

ro Chico

Basaseachi

Potrero Chico

Cidade do México 9


Joseba e Leo a tomar o “café da manhã”, Deserto de Huasteca

A primeira vez que ouvi falar de Basaseachi foi em 2009 quando escalava em Rodellar, nos Pré-Pirenéus espanhóis. Aí conheci o Daniel, um mexicano que decidira trocar a vida cosmopolita pela pacatez desta aldeia, para viver o seu sonho, estar junto das montanhas. No pequeno refúgio onde trabalha, passámos inúmeros serões em conversas intermináveis sobre o sonho de explorarmos e conhecermos novos lugares. Ele falava-me do seu enorme desejo de viajar pelo México e com frequência evocava as enormes paredes perdidas no meio dos vales de Basaseachi, a maioria delas sem nunca terem sido tocadas pelo homem. Quatro meses depois, em Fevereiro de 2010, estávamos no aeroporto de Barcelona acompanhados de mais dois amigos espanhóis, prontos para embarcar numa viagem de mês e meio, rumo ao desconhecido desses vales. Basaseachi é uma pequena aldeia perdida entre as montanhas da Sierra Madre no norte do México. Com cerca de 60 mil quilómetros quadrados de extensão, este sistema montanhoso é quatro vezes maior que o Grand Canyon, ostentando um dos mais

“Às seis e cinco da manhã éramos despertados por uma sirene atrás de nós – a polícia! Pela primeira vez na minha vida senti-me a subornar alguém e a cooperar directamente com a corrupção.” longos e profundos barrancos do mundo inteiro, chegando em alguns casos a atingir quase 2000 metros de profundidade. Foi nas florestas profundas destas montanhas que viveram durante séculos os índios Tarahumara. Depois da ocupação espanhola, por volta do ano de 1500, este tímido povo refugiou-se nos vales destas montanhas. Seria o começo da exploração do ouro, que duraria até aos dias de hoje. Os índios, esses foram desaparecendo, engolidos pela força da sociedade moderna e da destruição que lhe é característica. As minas são agora propriedade de uma empresa canadiana e os mineiros vivem engaiolados em autênticos campos de concentração, prisioneiros do medo e da indiferença, protegidos dos constantes conflitos e balas perdidas entre o exército e os narcotraficantes. Com o desaparecimento do povo de Tarahumara e com a rápida industrialização do país, os vales ficaram desertos, não tendo restado mais do que plantadores de ópio e cannabis, vivendo num completo isolamento

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Em pleno Treking para o El Gigante


Wey numa das muitas pausas para a mecânica

do resto do mundo. Lembro-me de uma conversa que tive com o José e o Daniel, plantadores há diversos anos, contando eles como eram monótonos os seus dias, não tendo mais do que um ao outro para conversarem durante os meses que aí passavam. Um outro habitante destas montanhas e que tanto nos ajudou na nossa aventura, o senhor Don Santiago, com cerca de 80 anos, passou grande parte da sua vida a pastar o seu rebanho na imensidão dos vales de Basaseachi, e era fascinante ver como revivia com saudade os tempos que aí passara e a maneira efusiva como descrevia a beleza do local. Mas a nossa expedição começou na capital, a Cidade do México, que com cerca de 22 milhões de habitantes é uma das cidades mais populosas de todo o mundo. A nossa bagagem pesava perto de 200 quilos, sendo a maior parte equipamento de escalada. Viajar com todo esse peso não ia ser tarefa fácil e como não iríamos investir todo o tempo numa só zona, decidimos comprar um jipe para viajarmos até Basaseachi no estado de Chihuahua, aproveitando assim para explorar um pouco mais do país enquanto o atravessávamos rumo ao norte. Adquirir um veículo foi mais rápido e fácil do que esperávamos e no dia seguinte à nossa chegada, já tínhamos comprado um GMC Sierra V8 de 1982 que, apesar de literalmente engolir combustível, se adequava perfeitamente à viagem que nos esperava. O que não foi tão rápido e fácil foi sair da capital. Por causa das medidas governamentais

para a redução do tráfego na Cidade do México, o nosso veículo não podia circular às terças-feiras, e por isso arrancámos na segunda à noite para assim evitarmos o caos que é o tráfico da capital. Mesmo contando com a mão experiente do meu amigo Daniel ao volante, não nos livrámos de várias horas perdidos entre as infindas ruas e avenidas da cidade, até que ao fim de três horas de deambulações chegaram as seis da manhã, hora a que o nosso carro deixava de poder circular. Às seis e cinco éramos despertados por uma sirene atrás de nós – a polícia! Pela primeira vez na minha vida senti-me a subornar alguém e a cooperar directamente com a corrupção, que neste país está quase totalmente institucionalizada. Apesar de ter sido o próprio polícia a estabelecer um preço para fechar os olhos, isso não deixou de me causar algum mau estar, mas depois a situação atingiria contornos hilariantes, quando ao tentarmos regatear um pouco o preço a pagar-lhe, pois não tínhamos dinheiro suficiente, este nos disse que nos acompanharia até ao multibanco mais próximo e,

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como se não bastasse, enquanto éramos seguidos de perto, ouvíamos através do seu megafone: “más rápido, más rápido!”… vá lá não se lembrou depois de nos multar por excesso de velocidade! Esta não seria a única história com polícias que teríamos durante a viagem, outras houve, algumas apenas com intervalos de 10 minutos entre elas. Em algumas zonas havia já um pouco de medo enraizado nos habitantes, associada a histórias de autênticos assaltos. Foi enquanto cruzávamos o deserto de Huasteca, perto da cidade de Monterey, que fomos avisados vezes sem conta de como podia ser perigoso e aconselharam-nos a não obedecer às ordens de paragem por parte da polícia. Aparte de toda essa tensão, cruzar o deserto de Huasteca foi uma experiência fascinante, onde pudemos contemplar desde o deserto árido até autenticas selvas tropicais, sempre rodeados de enormes paredes de calcário, algumas com quase 1000 metros de altura. À medida que nos aproximávamos do estado de Chihuahua, o medo da polícia corrupta era esquecido. Íamos entrar dentro de um estado com algumas das mais perigosas cidades do mundo, onde reina a criminalidade associada ao famoso narcotráfico. Os primeiros sinais dessa realidade violenta apareceram logo à entrada de Hidalgo del Parral, quando nos deparámos com um enorme cartaz cheio de fotos de rostos de homens e mulheres, acompanhados da famosa expressão: ”Procura-se”; mas sem nos intimidarmos, aí mesmo fizemos uma pequena paragem para almoçar. O restaurante tinha as suas paredes repletas de imagens e

fotos de Pancho Villa, antigo criminoso, mas também um revolucionário que lutou durante anos pela reforma agrária e contra a ditadura no seu país, sendo ainda hoje lembrado como um herói nacional. Fomos prosseguindo a nossa viagem evitando longas paragens em aldeias ou pequenas vilas, pois o ambiente era literalmente de cortar à faca, sempre com militares a patrulhar as ruas e com barricadas montadas à entrada e saída das povoações. Uma das coisas que nos tinham aconselhado vezes sem conta, era para não conduzirmos de noite, conselho que displicentemente não tivemos em conta. Numa das estradas nacionais a sul de Chihuahua, depois de horas a fio ao volante, sou surpreendido por um enorme pneu de camião no meio da faixa de rodagem. Já sem tempo de parar ou desviar-me do obstáculo, embatemos com alguma violência na roda, o que por pouco não causou o nosso despiste. Foi um dos primeiros sustos que tivemos, com o episódio a repetir-se numa outra estrada, novamente sem nenhuma consequência de maior. Se me perguntarem hoje se o norte do México é uma zona segura, eu diria que respeitando os conselhos que nos dão e tomando alguns cuidados, não é muito inseguro. No nosso caso, acho que tivemos muita sorte! Depois de finalmente chegarmos a Basaseachi sentimo-nos um pouco mais tranquilos, aí tínhamos já um amigo mexicano que nos esperava e um quarto na casa da dona Ângela, que simpaticamente nos recebeu. Aquecidos por uma lareira constantemente alimentada e saboreando os deliciosos petiscos preparados pela dona Ângela, aí passámos três dias a repousar e a organizar

Pelas estradas do México na “Monster Truck” GMC

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“Senti nesse momento que todo o esforço tinha já sido recompensado! Depois de nos instalarmos e acendermos uma enorme fogueira, festejámos a nossa chegada àquele lugar com que tanto sonháramos.”

Leo num dos mais belos largos da via (7c+)

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“O que também criava alguma adrenalina eram os blocos que à mínima força se desprendiam, desde pequenos calhaus a autênticos frigoríficos que volta e meia passavam a poucos metros do assegurador.” Mais um furo e hora de brincar com o macaco

Um dos ma

O nosso guia para Basaseachi, o calmo Don Santiago

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Vista para o


aus caminhos a que sujeitámos a “velhinha” GMC

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El Gigante


acompanhar com todo o prazer até ao nosso destino, revelando revelando-nos ainda que conhecia um caminho que não tardaria mais de três horas. Assim, no dia seguinte, pela manhã, passámos nova novamente em sua casa, desfrutámos de mais um longo café ao sabor das suas histórias e com ele partimos rumo ao desconhecido. Percorremos uma hora de jipe, no que foi uma autêntica prova de todo o terreno, até chegarmos ao fim do que em tempos fora um caminho e que agora era um princípio, o princípio da nossa aventura! Depois de pararmos, fizemos uma divisão do peso e rapidamente nos apercebemos que não iríamos conseguir car carregar tudo na primeira viagem, mas ainda assim tentámos levar o máximo possível para que não tivéssemos de voltar todos a subir. Eu, por teimosia e um pouco de ingenuidade, decidi le levar o máximo que achei suportável, o que significava que tinha cerca de 40 quilos às costas! No entanto, ainda mesmo antes de entrarmos na fase da descida, eu já tinha alguma dificuldade em acompanhar o resto do grupo, que era guiado por Don Santiago. Antes de começarmos a vertiginosa descida, fizemos uma pe pequena paragem no ponto mais alto do monte onde estávamos. Desde aí já se podiam avistar inúmeras paredes gigantescas que se estendiam ao longo de um imenso vale verdejante, entre elas estava o El Gigante, uma impressionante parede de 900 metros e a única a ter sido escalada por anteriores expedições.

O desconcertante e emocionante diedro do 2º largo (7c+)

toda a logística necessária para permanecer no vale durante 20 dias. O primeiro problema com que nos deparámos foi encontrar alguém que nos pudesse guiar até ao leito do vale, onde se encontravam as enormes paredes de que o Daniel tanto nos tinha falado. A maioria das pessoas com quem nos aconselhámos falavam de uma aproximação de seis horas a pé, e com os cerca de 300 quilos de material e comida que teríamos de transportar, necessitaríamos de animais para nos apoiar no carregamento de todo esse arsenal. E todas as pessoas eram unânimes em afirmar que o único homem que nos poderia ajudar era o senhor Don Santiago, pois este era o único que possuía animais e que conhecia os vales como a palma das suas mãos. Quando chegámos a sua casa fomos recebidos com a sua vigorosa simpatia e vontade de conversar, mas ao observarmos a sua avançada idade ficámos um pouco desiludidos e sem esperança que dali pudesse vir qualquer ajuda. No entanto, depois de horas de conversa sobre as suas experiências na imensidão desses vales, o calejado ancião disse-nos que embora já não possuísse animais, nos poderia

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Assim que começámos a descer os quase mil metros de desní desnível, entendemos porque levava este caminho apenas metade do tempo do que nos tinham dito inicialmente. A inclinação era tão acentuada que tínhamos com frequência de nos agarrar aos tron troncos das árvores para abrandarmos o balanço que adquiríamos a cada passo, a juntar a isso, o caminho era quase imperceptível no meio de tanta vegetação, salvando-nos o senhor Santiago, que acompanhado da sua catana ia reabrindo todo o caminho, para assim podermos ver onde pisávamos. Ainda assim, aconteceu estar cuidadosamente a cravar os meus bastões para controlar a velocidade dos meus passos e manter o equilíbrio das minhas pernas, quando de repente ouço atrás de mim: “Piedraaaa!, ao olhar para cima vejo uma rocha aos saltos, do tamanho de uma bola de futebol, voando na minha direcção. Nesse instante os 40 quilos que transportava deixaram de ter peso e corri a toda a

“Todos os sacrifícios e perigos que vivêramos, assim como a selvagem inospicidade e imensurável beleza do lugar, proporcionaramnos momentos inesquecíveis.”


velocidade, protegendo-me atrás de uma árvore, a pedra não atingiu ninguém e tudo não passara de um grande susto, mas alertou-nos para o cuidado que era preciso ter com o sítio onde colocávamos os pés. A penosa descida não teria realmente tardado mais de três horas, se não fora o facto de o peso me ter atrasado ao ponto de me perder do resto do grupo. De início não me preocupei demasiado, pois sabia que a única coisa que tinha de fazer era descer o vale em direcção ao rio, no entanto, ia observando atentamente o caminho e frequentemente era possível ver as marcas deixadas pelos meus amigos e pelos seus bastões cravados na terra. Continuava assim, sem grandes preocupações, até que a certa altura o trilho se dividia em vários caminhos tenuemente marcados. Foi o princípio de um grande dilema psicológico. Decidia-me por um e alguns metros depois achava que não havia marcas de por ali alguém ter passado, voltava então para trás e tentava a minha sorte noutra direcção. De uma forma convicta dizia a mim próprio “Agora sim!” e seguia o novo caminho, até que desta vez a vegetação ficava demasiado densa para permitir que alguém tivesse passado por ali, voltava então novamente para trás e começava a não acreditar que fosse possível encontrá-los antes do anoitecer. Assim andei durante 40 dolorosos minutos, às voltas perdido e quando estava prestes a desistir, ouvi alguém gritar o meu nome. Não queria acreditar, era o meu amigo Joseba que tinha regressado à minha procura, finalmente iria deixar de caminhar rumo a lado nenhum! Seguimos juntos em direcção ao resto do grupo e uma hora depois encontrávamo-nos todos junto do rio. Apesar do tempo que estive perdido, a descida tardou bem menos do que esperávamos, no entanto, era visível na cara

de todos a expressão desoladora causada pela ideia de mais tarde ter de subir. Junto desse rio decidimos fazer uma pausa para recuperarmos um pouco o fôlego. As dores nas pernas e costas eram insuportáveis, mas como faltava já pouco tempo para ser noite, Don Santiago sugeriu que continuássemos, pois ainda tínhamos cerca de uma hora de caminho até ao local onde queríamos montar o acampamento. Enquanto caminhávamos junto do rio era impossível ficarmos indiferentes à imensidão e beleza do que nos rodeava, as enormes pedras ao longo do rio polidas pela força ininterrupta das águas, as árvores gigantes que abafavam sonâncias sem fim, as enormes paredes que rodeavam todo o vale e espelhavam o último raio de sol… Senti nesse momento que todo o esforço tinha já sido recompensado! Depois de nos instalarmos e acendermos uma enorme fogueira, festejámos a nossa chegada àquele lugar com que tanto sonháramos. No dia seguinte despedimo-nos de Don Santiago e começámos a nossa exploração. O nosso objectivo inicial era escalar a famosa cascata Piedra Volada, que tem aproximadamente 400 metros de altura e é conhecida como a maior cascata do México, embora só se formando nos períodos mais chuvosos. Começámos por fazer um reconhecimento do percurso que nos levaria até à base desta parede, mas depois de muito esforço a desbravar caminho, deparámo-nos com uma pequena parede que impossibilitava a nossa progressão. Apercebemo-nos que seriam precisos no mínimo três dias de trabalho para superar esse obstáculo e alcançar a base da cascata com todo o material que necessitaríamos. Tendo apenas vinte dias, optámos por uma outra parede com uma aproximação mais fácil. Decidimos então tentar a nossa sorte no El Gigante…

A preparação do material para o El Gigante

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O infinito Deserto de Huasteca

Apesar de ter mais do dobro do tamanho da Piedra Volada, a aproximação a esta parede não tardava mais de quinze minutos desde o nosso acampamento, facilitando toda a logística de carregamento do material. A aventura começou e logo nos primeiros metros de escalada compreendemos porque é que a maioria das vias já existentes eram artificiais complicados. A fraca qualidade da rocha, a juntar ao reduzido número de fissuras, impossibilitava uma progressão rápida e segura, obrigando-nos a puxar o berbequim com frequência. No entanto, mesmo um pouco desiludidos por não ser possível progredir de uma forma mais “limpa”, também estávamos entusiasmados com o facto de pormos os nossos limites à prova, e isso foi exactamente o que aconteceu! Ao contrário do Daniel e do Emanuel que iam a maior parte do tempo em artif, o Joseba e eu optámos por um estilo mais desportivo, escalando em livre o mais que podíamos ou que a nossa consciência deixava, isto é, até que a distância da última protecção se tornava demasiado grande. Nessas alturas, com uma sensação de secura na garganta, vinha o desespero de procurar rapidamente uma saliência onde encaixar uma unha, para assim podermos subir o berbequim e colocar outra protecção. A maioria das vezes as unhas eram precárias e obrigavam a ter uma mão numa presa ou a fazer um pouco de pressão por trás da unha para que esta aguentasse enquanto fazíamos o furo, muitas foram as vezes em que não aguentou, mas por sorte ou azar a segunda unha nunca cedeu ao choque. Em alguns casos podíamos ter curtido “baldos” de 30 metros! Esses foram

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sem duvida os momentos de maior tensão que vivi na escalada. Outro contratempo que também criava alguma adrenalina eram os blocos que à mínima força se desprendiam, desde pequenos calhaus a autênticos frigoríficos que volta e meia passavam a poucos metros do assegurador. Felizmente, a única coisa em que acertaram foi numa das cordas fixas que se encontrava nos primeiros largos, o que causou um belo susto ao Wey quando ao rapelar se apercebeu do estado da corda que tinha acabado de passar pelo Gri. Depois de diversos dias de escalada, tínhamos aberto 300 metros de via e a distância ao solo começava a ser muito grande para todos os dias ter de jumariar até ao ponto mais alto e de aí seguir abrindo. Era tempo de montar um primeiro acampamento suspenso nesse ponto. Apesar de assim pouparmos muito tempo e esforço e da sensação indescritível que é acordar nas alturas com uma vista privilegiada sobre o enorme vale, viver na vertical também tem as suas desvantagens, limitando em muito o acesso a algumas comodidades, como a higiene e a alimentação. Embora ainda faltasse mais do dobro para atingirmos o cimo da parede, estávamos todos bastante confiantes, pois esta segunda metade aparentava rocha de muito melhor qualidade, o que possibilitaria uma escalada mais rápida e segura. Não podíamos estar mais enganados! Após mais 100 metros de escalada, chegámos a um beco sem saída. Em todas as direcções que tentávamos pro-


gredir a rocha piorava a tal ponto, que não era concebível a ideia de continuar. Era o fim da nossa aventura vertical. Restava-nos o desafio de encadear os largos já abertos, o que sabíamos que também não seria tarefa fácil, visto que estávamos todos bastante cansados e que dois dos largos seriam provavelmente oitavos. O segundo largo revelou-se, na minha opinião, o mais espectacular, com um diedro bastante técnico que nos obrigou a contorções e espremidelas, até descobrirmos que não passava de uma questão de jeito e de alguma força também, claro! Já o penúltimo dos largos, que tinha uma dificuldade semelhante ao segundo, não motivava ninguém a prová-lo por se ter que jumariar mais de 300 metros. No entanto, depois de muito chatear o Joseba, lá consegui convencê-lo a assegurar-me numa última tentativa, pois era o nosso último dia no vale e este era o único largo por encadear. Como ainda teríamos de fazer a violenta caminhada de saída, combinámos que não daria mais de dois ensaios ao largo, ou seja, teria de ver bem os passos no primeiro e não poderia falhar no segundo, o que é óptimo para quem gosta de escalar com pressão, que não é o meu caso. Depois de solucionar todos os passos no primeiro ensaio, senti-me bastante confiante que não sairia dali sem encadear aquele largo. Descansei dez minutos e estava já pronto para o ensaio decisivo. Corri pela primeira parte, que não passava de 7a, e rapidamente cheguei à secção de boulder que dava acesso à reunião. Com toda a concentração do mundo, para não cometer nenhum erro, fui

fazendo todos os passos e quando estava já a poucos metros do final, parte-se uma presa de pé e lá vou eu a voar… Apesar da combinação, o Joseba motivou-me a dar um último “pegue”, pois tinha ficado demasiado perto de conseguir. Mais dez minutos de repouso e lá estava eu na terceira tentativa de encadear aquele teimoso largo, mas, definitivamente, não era o meu dia de sorte. Exactamente no mesmo lugar onde se tinha partido a presa de pé no ensaio anterior, era agora uma presa de mão que cedia e me atirava mais uma vez para baixo, não me deixando outra alternativa senão desistir. O facto de não termos alcançado o nosso objectivo não nos deixou um sabor a desilusão. Todos os sacrifícios e perigos que vivêramos, assim como a selvagem inospicidade e imensurável beleza do lugar, proporcionaram-nos momentos inesquecíveis e impossíveis de descrever. Tal como a dolorosa subida final e o sentimento de avistar o nosso jipe no cimo, num misto de retorno ansiado e de abandono desse vale encantado que por vinte dias fora a nossa casa.

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MEIO MANGO Escalada mar e sol Texto

Isabel Boavida

Fotografia

Ricardo Alves, Rui Pereira

Já o sol vai alto e não se avista uma nuvem no céu. Na estrada, já a atravessar a serra da Azóia, avistamos ao longe com uma incrível nitidez, o manto de casas da cidade de Lisboa e ainda mais ao fundo as cores vivas do Palácio da Pena, que sobressaem sobre o verde húmido da floresta de Sintra. Abre-se um sorriso na cara. Hoje o dia promete! No Espichel e com a mochila às costas, o vento sopra forte e empurra-nos em direcção ao mar. Olhamos o profundo azul do mar e avistamos a ténue linha de horizonte. Ainda que em silêncio é impossível não nos questionarmos ”Será que vai estar bom? Será que a rocha vai estar seca?” Tudo indica que sim, tudo indica que hoje vai ser um bom dia. E assim palmilhamos a sinuosa e inclinada descida que nos leva até à grande laje do poças.

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“O Meio Mango é sem dúvida uma das grandes pérolas de escalada recentemente descobertas em Portugal. É um local de beleza singular que nos convida não só a escalar, mas também a apreciar o mar imenso que parece não ter fim.”


ŠRicardo Alves

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Resenha histórica Decorria o ano de 2005 quando o Nuno Pinheiro, o Paulo ”o Pregador” Santos e o Rodrigo ”Guga” Ramos, em busca de falésias virgens se foram encontrar nesse mesmo local, mas sem certezas quanto ao seu destino final. Por sorte deparamse com um velho pescador que, como se o peso da idade não lhe tivesse cruzado a vida, caminhava afoito falésia acima. Nas mãos a cana de pesca e um balde cheio de sargos e de peixe pombo, deixavam adivinhar não só as potencialidades do local para a pescaria mas, mais importante ainda, desvendavam que ali havia acesso, ali havia ”caminho” até ao mar, até às míticas escarpas do Cabo Espichel. O Guga não deixou passar nem mais um instante sem interpelar o pescador. No seu melhor brasileiro e entre um fugaz ”Bom dia” atirou para a questão essencial ”Donde é que você tá vindo? Há caminho até lá em baixo?”. O pescador mirou-os aos três que aparentavam ter ar de tudo menos de pescadores e alertou-os que ”Caminho

“foi ver os escaladores brincarem aos parquesaventura, cruzando tirolesas de um lado para o outro, a divertirem-se mais a dar mergulhos para o mar do que propriamente a escalar e a deliciarem-se com as lambujinhas ao final do dia.”

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há, mas não é fácil. Eu já perdi a conta das vezes que trepei e destrepei esta falésia e só o volto a fazer porque tenho uns Reebok.“ E com um sorriso de orelha a orelha ostentou com devido orgulho os seus Reebok brancos como cal a aparecerem por debaixo da calça de fazenda. Mesmo sem uns Reebok nos pés lá se aventuraram no que futuramente seria baptizado como ”destrepe do mal” para chegarem à famosa laje de pedra, hoje palco do sector poças. O cenário pareceu-lhes idílico, longe da correria das cidades e das construções de cimento. Até onde a vista alcança só se vê mar, cruzado de vez em quando por alguma traineira ou barcos de recreio. Mas as paredes, essas, pareceram-lhes desinteressantes e principalmente descontínuas. Desmotivados pela rocha, que lhes pareceu podre e fissurada e já de olhos postos em terra, dali saíram com a certeza que o melhor seria equipar a vizinha serra da Azóia e deixar aquelas escarpas para outras primaveras.


E assim, foram precisos esperar mais 4 anos para que o Nuno sofresse de uma nova lesão e se visse novamente motivado para equipar. Desta vez, em dia de grande temporal o Nuno Pinheiro e eu voltámos ao local. Eram meados de Fevereiro e as ondas alimentadas pela força do mar varriam com uma brutalidade desmedida a laje de pedra do sector poças, transfigurando-se em fortes jactos de espuma branca que subiam falésia acima. Este cenário dantesco fez-nos viajar na memória até à data em que os nossos corajosos descobridores tentavam combater a força do mar para cruzar o famoso ”Cabo da Boa Esperança”. Deve ter sido numa tempestade igual a esta que o cargueiro nigeriano ”River Gurara” sucumbiu às fortes ondas e ali em frente do sector Poças se afundou no ano de 1989. A força desta tempestade iluminounos o espírito e rapidamente nos apercebemos que a rocha nada tinha de podre, era aliás muito forte e compacta. Passado uma semana o Meio Mango já contava com três linhas na cartola, a ”7 pegues”, a ”Só a Reebok”e a ”River Gurara”. As vias aparentavam uma dificuldade entre o 6a e o 6c e fizeram os deleites de quem

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©Ricardo Alves


“O que ainda não se sabia era que a escalada no Mango era especial e que simples 8 a 10 metros de via poderiam custar 7 ou muitos mais pegues. As presas revelaram-se menos honestas do que pareciam...”

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Isabel Boavida contribui para a “Dívida Externa”, um 7b+ do sector Poças.

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©Ricardo Alves


“Olhamos o profundo azul do mar e avistamos a ténue linha de horizonte. Ainda que em silêncio é impossível não nos questionarmos ”Será que vai estar bom? Será que a rocha vai estar seca?”.” 26 Filipe CS a apertar sem retórica nas regletes perfeitas da “bLA, bLA, bLA”, 8b de antologia.

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©Ricardo Alves

Ricardo Belchior na ultimate route do Petzl SEA Trip, a “Margem Sul”, 8a

©Ricardo Alves

lá foi escalar no primeiro fim-de-semana de escalada do Meio Mango. O que ainda não se sabia era que a escalada no Mango era especial e que simples 8 a 10 metros de via poderiam custar 7 ou muitos mais pegues. As presas revelaram-se menos honestas do que pareciam e mais ao estilo aplatado e semi-lateral, mas que também não é bem lateral, regletas pequenas com sal no topo e alguma humidade de fim de dia para apimentar a coisa. Foram precisos 7 pegues repartidos entre dois dias de escalada para que a via de aquecimento fosse encadeada e recotada para 7b. O Nuno ao ver a estética e dureza das linhas já se tinha ido embora de berbequim na mão e já rapelava no sector do Cabo da Boa Esperança, ainda sem acesso por terra, e furava incansavelmente a ”O Senhor das Anilhas” que viria a ser uma das vias mais duras do Meio Mango, a clássica ”Margem sul” e um dos ex-líbris da zona, a ”Casa dos Bicos”. Passaram-se os finsde-semana e as vias iam surgindo ao sabor do berbequim ávido do Nuno. Outros, como eu e o Emílio, timidamente ajudaram para a causa equipando algumas vias que o Nuno ainda não tinha tido tempo de furar.

Hugo “Fifty” prova e reprova na bloqueira via “Ratas del aire”, 7b+

©Ricardo Alves

As vias foram surgindo exponencialmente com a ajuda preciosa da Petzl, que fornecia as plaquetes de aço inox, e com a ajuda dos membros da Sociedade de Equipadores Anónimos (SEA). Além de se equiparem mais e mais vias havia ainda um problema que urgia resolver “Como passar de um sector para o outro nos lugares em que o mar escavou um canal abrupto e o acesso se torna impossível?” O Francisco Ataíde tratou do assunto montando a tirolesa que antes dava acesso ao sector Cabo da Boa Esperança. “Antes”, porque esta tirolesa já não existe, já foi levada pela força do mar e substituída por outra mais forte e robusta, desta vez construída pelas mãos do Rui Rosado. Mais tarde, também o Miguel “Mike” Loureiro se lançou a conquistar novos troços de parede inacessível e de berbequim na mão montou a segunda tirolesa e os degraus que dão acesso ao sector mais longínquo até ao momento, o sector Degraus. Aí, equipou diversas vias que ainda esperam primeiro encadeamento. Estas vias, apesar de estarem menos acessíveis estão num dos melhores sectores do Meio Mango.

Travessia para o sector Baía com o mar debaixo dos pés

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©Ricardo Alves


Mário Inocêncio luta para se manter à tona na “Mau tempo no Canal”, 7b+ E foi ver os escaladores brincarem aos parques-aventura, cruzando tirolesas de um lado para o outro, a divertirem-se mais a dar mergulhos para o mar do que propriamente a escalar e a deliciarem-se com as lambujinhas ao final do dia no Café do Senhor Fortunato. Todos os dias de escalada no Meio Mango eram uma agradável surpresa, com novas vias todos os dias a serem encadeadas. Outros que se maravilharam com as tirolesas foram os pescadores que viram assim aumentar grandemente a sua área de pesca, pois “a rocha do vizinho tem sempre mais peixes do que a minha!”. Os pescadores, habituados a tratar o ”destrepe do mal” por tu (aliás, o recorde da descida é deles com apenas 7 minutos), não se intimidaram com a passagem das tirolesas. Para eles uma simples camisola e um cinto de couro fazem as vezes dos sofisticados arneses, que nós escaladores ostentamos como apenas mais um artefacto que nos distingue deles. Muitas foram as vezes que os tentámos alertar para o perigo dessas passagens precárias e até fizemos publicidade às marcas de arneses e às lojas para que também eles se pudessem equipar como nós. Um dia, estávamos nós a escalar junto à ”Casa dos Bicos” quando ouvimos gritos. Olhámos em redor e rapidamente avistámos um pescador a correr em busca do nosso auxílio. Um dos pescadores tinha deixado cair a tão preciosa camisola e o cinto de couro ao mar. Lá os socorremos, emprestando um dos nossos ‘artefactos’ para cruzar a tirolesa. Como agradecimento fomos presenteados com um saco cheio de sargos. Que maravilha, pensámos! Mas quando tivemos que sair do Meio Mango com o material de escalada mais os quilos de peixe, já os deitávamos pelos olhos.

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Petzl SEA Trip Passados 2 meses de muita furadeira e martelada e com as falésias sorridentemente apetrechadas de mais de 50 vias o encontro de escalada, Petzl SEA Trip, podia finalmente ter lugar. Faltava encontrar um nome apropriado para a zona de escalada. Para manter a tradição e as origens culturais do local perguntámos aos pescadores o nome daquela zona. O mais velhote e por isso o mais sabedor respondeu ”Meio Mango” e nós exclamámos ”Quê?”. Era impossível não nos interrogarmos incrédulos sobre o que raio é que a fruta vinda do Brasil tinha a ver com aquele local e porquê Meio e não inteiro?! Como o mar falava mais alto, revolto naquela espuma branca característica do local, dificultando a conversa, insistimos na exclamação

©Rui Pereira


“entre os escaladores existem os amantes do Meio Mango, que dia após dia lá vão ver se é hoje que as condições vão estar ideais, e existem os que odeiam o Mango, que estiveram lá uma vez e tão cedo não pensam regressar.”

Kimie Kon na ultimate route do Petzl SEA Trip “Cabo dos trabalhos”, 7b ”Quê?”, mas a mesma resposta surgiu: ”Meio Mango!” e dali não saia, ”Meio Mango!“. Bom, apesar de estranho era o som que nos chegava aos ouvidos, por entre o forte acento das gentes do sul e o som estrondoso do mar. E assim ficou, “Meio Mango”. Os escaladores aderiram ao nome e a zona é hoje conectada com essa famosa fruta tropical. Só um ano mais tarde é que viemos a descobrir o então verdadeiro nome do Meio Mango. Na carta de pesqueiros da região de Sesimbra não há lugar para dúvidas, nem erros de interpretação ou audição, está escrito ”Gaiteiro Memanco”. E realmente é impossível não ver o paralelismo e a semelhança fonética entre Meio Mango e Memanco (que vem de “meio manco”). Mas um nome é um nome e passados já tantos dias de escalada já ninguém quer ver o Meio Mango mudar de nome e assim ficou e assim ficará.

©Ricardo Alves

O encontro foi um sucesso, ocorrendo num dos melhores dias de Meio Mango, com boa aderência e frio q.b. O Rui Rosado aproveitando a ocasião, montou a tirolesa de acesso ao sector Baía e para o dia do encontro providenciou uma tenda que serviu de casa-de-banho pronta a satisfazer as necessidades dos demais participantes. Com devido orgulho, a organização conseguiu colocar lá em baixo a equipa de reportagem da SportTv, mais os adicionais kilos do equipamento de reportagem. Os espanhóis apareceram em número considerável para investigar mais uma zona que lhes é acessível dentro dos horizontes de quem vive

Dois sonhadores inventam novas vias na Cova de Santa Linha

©Ricardo Alves

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Francisco Ataíde a tentar “Matar o bicho”, 8a em Badajoz. Os sectores foram inundados por um mar de gente que queria experimentar a escalada à beira do Atlântico. A já clássica via “Margem sul, 8a” foi a ultimate route para a classe elite masculina, mas ficaria sem ser encadeada nesse dia. Quando o dia deu lugar à noite, todos os participantes se juntaram na casa do Condomínio Fechado na S. da Azóia, para uma sopa, bifanas grelhadas e ao som de um Dj, tudo organizado pelo trio p#&@ da rambóia, Pedro “Primo” Nogueira, Miguel Loureiro e João “Pujan” Caldeira.

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Os últimos meses... Com o passar dos meses as vias foram sendo encadeadas e muitos FA foram feitos. A subida da fasquia do grau deve-se ao André Neres que conta, para além de muitos dias no Mango, entre inúmeros banhos e alguma escalada, com o encadeamento das vias mais duras da zona “Blablabla, 8b”, “O Senhor das Anilhas, 8b+” e “O Adamastor, 8c”. Ainda por lá existem muitos projectos


O ritual de passagem para o Cabo da Boa Esperança

©Rui Pereira

Neste verão, A. Neres equipa no Poças a “Dívida externa”, um 7b+ ao estilo Meio Mango. E para finalizar as aberturas, numa empreitada de um seco dia deste Outono, surgem dez novas vias, maioritariamente sextos graus, pelas mãos do Francisco Ataíde e Filipe Costa e Silva, sempre com a preciosa ajuda dos contribuintes do SEA.

As Vias ©Ricardo Alves

à espera de serem escalados e encadeados, como a “Linha Amarela” (entrada directa do Senhor das Anilhas) proposta de 8c+ e a “Mar de Bering”, ambas equipadas pelo André Neres ou a “AVC2”, esta última equipada pelo Nuno e que até à primeira reunião já está encadeada e cotada de 7c+. Em Março de 2009, Rui Araújo equipa no sector Baía a 1ª via de largos, a “Shangai Express, 7a+”, com 90 m. Por essa altura, o Emílio também ali equipa duas linhas de 30 a 35 metros, “Esporrão mágico”’ e “Gente boa”, esta última com o Peniche e o Rosado.

A escalada no Meio Mango é peculiar e entre os escaladores existem os amantes do Meio Mango, que dia após dia lá vão ver se é hoje que as condições vão estar ideais, e existem os que odeiam o Mango, que estiveram lá uma vez e tão cedo não pensam regressar. É este misto de emoções que mostra tratar-se de um local muito especial. É nunca saberes ao certo se é hoje que vais poder encadear o teu projecto de dias ou se vai ser um dia salgado, mais apetitoso para banhos que para a escalada. A variedade do tipo de presas é abundante, embora, entre regletes, aplates e presa grande, as presas que se destacam são os tacos-aplates meio laterais, onde é preciso mover o corpo para procurar fazer a devida oposição contra o sentido da gravidade. O magnésio desaparece facilmente da rocha, principalmente das vias duras que vêem poucos transeuntes entre cada tempestade.

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Algumas vias têm épocas muito próprias e até horários de escalada, como por exemplo a “Margem Sul” que tem luz verde apenas das 15h às 18h. Por isso, não esperem do Meio Mango o típico sector fast-food, com fácil acesso, boas condições e fáceis encadeamentos. Em média, as vias têm 20 metros de altura, embora mesmo nas vias mais curtas nos pareça sempre que escalámos 20 metros, tal é a abundância de passos e a “extraprumidade” das vias. Mas as vias de bloco mais explosivas também por lá se encontram, não fossem a “Fada do lar, 7c”, “O galheteiro e o saleiro, 7c”, “Abalakova, 7c+” ou a “Dívida externa, 7b+”, vias onde a dificuldade se concentra num número ínfimo de passos e as condições de aderência excepcional são muito apreciadas. Apesar de ter fama de zona de escalada só de altas dificuldades, com vias extraprumadas ao sabor das ondas, o Meio Mango alberga mais de trinta vias de sexto grau, sendo que a maior concentração de 6a’s e 6b’s está no sector Baía. São de destacar as vias: “Hoje não é o dia, V”, “A baía do Salitre, 6a”, “Pernodependentes, 6a”, “Traineira, 6b+”, “Passo de sapo, 6b+”, “Amanda uma espécie de dinâmico, 6c+” e “Salmoura Espichel, 6c+”. Sem dúvida, pela quantidade e qualidade das vias, o grau 7a e 7b é rei no Meio Mango e não se podem perder a clássica das clássicas “Casa dos Bicos, 7b”, “Destrepe do mal, 7a+”, “O regresso do Baubau, 7a”, “Cabo das Tormentas, 7b”, “River Gurara, 7b” e o “Lesionado abençoado, 7b”. Para quem gosta de maratonas de escalada e acabou de comprar a sua nova corda de 80 metros aventure-se pela “Gente boa, 6a+”, “Esporrão Mágico, 6c” e a linha mais óbvia do sector poças que apresenta uma escalada muito peculiar, a “Mango e Meio, 6c+”. Não esquecer ainda o pouco frequentado sector Degraus (cruzar duas tirolesas e uma especial travessia de degraus de ferro assusta muita gente) que alberga vias de grande qualidade: “Dança in Diana, 7b”, “Refúgio das Freiras, 8a” e, porque não, a “O poço da morte”. Mas o potencial para abrir novas linhas é por enquanto inesgotável e seguramente, muitas mais irão surgir.

Download do croqui 32

As imperdíveis lambuj grande Sr. Fortunato

A zona: fauna, cultura e grutas O Meio Mango localiza-se nas escarpas do Cabo Espichel, que é um dos locais mais impressionantes da margem sul, graças às abruptas falésias esculpidas pela força do mar. Este local, agreste e exposto ao vento marítimo, é pouco rico em aves nidificantes, mas rico na variedade de aves marinhas. No mar, junto ao Meio Mango, é possível observar a cagarra, a gaivota-argêntea e o corvomarinho-de-crista. Em dias de mar calmo é comum também verem-se golfinhos a brincar junto à costa, como o golfinhocomum, o golfinho-roaz e o golfinho-riscado, espécies residentes no estuário do Sado. Comemoram-se este ano os 600 anos de culto à Nossa Senhora do Cabo que, conta a lenda, apareceu a um casal de idosos neste lugar no ano de 1410. Ali se construiu o Santuário de Nossa Senhora do Cabo no século XVIII e em estilo maneirista e barroco. Unido ao Santuário encontram-se um conjunto de dependências que serviam de refúgio para os peregrinos. O Farol do Espichel foi construído em 1790, sendo o primeiro farol marítimo instalado nas costas de Portugal. Em 1926 já funcionava com electricidade e hoje em dia tem um alcance de 26 milhas. A complexidade geológica da zona do Cabo Espichel promove a existência de diversas grutas de interesse espeleólogo internacional. São exemplo disso a Gruta do Frade, uma das mais belas de Portugal e a maior a sul do Tejo, a Gruta do Meio na costa oeste do cabo e que possui testemunhos de erosão que lhe conferem uma estrutura invulgar e a famosa Gruta do Zambujal que foi a primeira cavidade portuguesa classificada com o estatuto de interesse espeleológico. Não é por isso de estranhar encontrar os espeleólogos do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul a beber cervejas e a comer lambujinhas no Café do Senhor Fortunato, tendo também eles aparecido vestidos a rigor, leia-se com o fato de exploração das grutas, capacete e frontal, na festa do Petzl SEA Trip. O Meio Mango é sem dúvida uma das grandes pérolas para a prática de escalada recentemente descobertas em Portugal. É um local de beleza singular que nos convida não só a escalar, mas também a apreciar o mar imenso que parece não ter fim. A Este, as inúmeras falésias e covas fazem-nos crer que por ali ainda muitas vias se podem escalar, a Oeste, a cara do Adamastor recortada na rocha faz-nos lembrar as intempéries que são o cenário deste palco e que aqui criaram estas grutas e formas únicas que nos possibilitam viajar na nossa imaginação. O pôr do sol já se difunde no horizonte e as cores vermelhas do sol deixam lugar à tão desejada brisa marítima que finalmente nos arrefece o espírito. É tempo de ir embora… Se eu podia escalar longe do mar? Poder podia, mas não era a mesma coisa.

Sector Poças à cunha n


jinhas do

Mário Inocêncio no seu segundo desporto “salto para o Canal”

©Ricardo Alves

no grande dia do encontro Petzl SEA Trip

©Rui Pereira

Tiago Martins aquece no “Regresso do BauBau”, 7a

©Ricardo Alves

Rui Rosado levanta os cotovelos na “Casa dos Bicos”, 7b

©Ricardo Alves

©Ricardo Alves

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André Neres é um escalador da Geração 2000 e foi a 2000 à hora que entrou no mundo da escalada. Com uma evolução meteórica, talhado desde o princípio para as competições de escalada, rapidamente se juntou ao pequeno grupo de escaladores mais fortes do país. Neste momento, está à frente do ginásio de escalada Boulder Area e também lidera o Campeonato Nacional de escalada e de bloco.

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entrevista Entrevista

Fotografia

Filipe Costa e Silva Francisco Ataide Alexandre Marques

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VERTIGEM: Como começaste isto da escalada? AN: Comecei com dois amigos, o Panelas e o Margarido, que fazem caça submarina. Em Odivelas havia uma loja de desporto que para além da caça também tinha coisas de escalada. Na altura em que eles começaram a escalar com o dono da loja levaram-me também. Tinha acabado de fazer 15 e a primeira vez foi no Monsanto, numa parede artificial. Durante 3 semanas só escalei aí, ninguém me levou à rocha, mas um dia eles apresentaram-me o Mário [Mimoso] e foi ele que me levou à rocha. VERTIGEM: Que papel teve o Mário Mimoso (“GoodBoy”) na tua escalada? AN: Foi fundamental. Fundamental, primeiro a nível psicológico, porque ele era muito motivador, fazia ter muita auto-confiança e depois a nível de disponibilidade ele era incrível, basicamente eu tinha um motorista e um assegurador privado. Para tudo o que eu quisesse de escalada ele estava lá. Ele na altura estava reformado e apoiava-me muito. VERTIGEM: Havia mais miúdos que escalavam com o Mário? AN: O Mário tentou apoiar mais pessoas, por exemplo o Leo [Leopoldo Faria] e a Marisa mas eles depois seguiram caminhos diferentes. Esses dois amigos com quem comecei a escalar tinham o mesmo apoio que eu, mas ao fim de 2 ou 3 meses desistiram porque não estavam assim tão motivados e o ritmo era puxado. Neste momento sei que o Mário treina alguns miúdos. VERTIGEM: Como é que foi a tua evolução nesse primeiro ano? AN: Eu considero que foi bastante rápida, em termos de números fiz 7a+ com 5 meses de escalada, aos 7 meses 7c+ [a Circus nas Buracas do Casmilo] e depois parti o pé e estive parado. Mas antes de um ano depois de ter começado a escalar fiz 7b+ à vista e 8a trabalhado.

VERTIGEM: Como é que aconteceu isso de partires o pé?

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AN: Foi na Rampa (sector do Portinho da Arrábida) no top da Tótó (7c). Não consegui chegar ao puxador final e então optei por chapar da pinça anterior, puxei corda e no momento em que a corda está a entrar no mosquetão o meu único pé em apoio saltou e vim com a corda na mão. O segurador ao que consta ficou sem reacção e pimba, queda no chão. Estive desde as 7 da tarde até às 2 da manhã para que me tirassem da rampa. Quando lá estava pensava que era só inchado, que no dia seguinte já ia escalar, mas foram 3 fracturas no pé esquerdo, operação, etc. Foi o fim das férias, um mês a treinar de gesso e depois voltar mais forte. VERTIGEM: Eras um escalador fanático, sempre a escalar e treinar? AN: Era bastante fanático. Ao princípio, até fazer 7c ou 7c+ não treinava, mas depois comecei a treinar um bocadinho no muro do GMES, numa garagem muita mitrada em Sintra. Era extremamente fanático, escalava sábados e domingos e pelo menos 3 dias durante a semana. Lembro-me de um dia escalar nas Buracas, passar pela Guia, escalar no muro do Monsanto e ainda ir treinar ao GMES. Lembro-me também de escalar na Guia à chuva e, por exemplo, fazer a Levitação a pingar com o incentivo do Mário. VERTIGEM: Ao princípio eras superfanático mas depois estiveste largos meses sem escalar, como é que evoluiu a tua motivação? AN: Eu passei por várias fases, a primeira super-motivado, depois o declínio do fanatismo e depois uma fase em que até deixei de escalar completamente, que se deveu um pouco a começar a trabalhar, trabalhava à noite no aeroporto e era difícil conciliar com a escalada. Mas acho que perdi um pouco o fanatismo porque na altura eu na realidade não gostava assim tanto de escalar, escalava um pouco por ego, porque tinha provavelmente algum jeito e as pessoas reconheciam isso e sabia-me bem, mas quando as coisas começaram a ficar mais complicadas, aí era preciso encontrar mais motivação que eu não tinha na altura. Entretanto vais crescendo e ficando mais maduro e percebes que realmente gostas e aí já não

“Era extremamente fanático, escalava sábados e domingos e pelo menos 3 dias durante a semana. Lembro-me de um dia escalar nas Buracas, passar pela Guia, escalar no muro do Monsanto e ainda ir treinar.”


AndrĂŠ Neres na Cabo dos Trabalhos 7b, Meio Mango

ŠAlexandre Marques

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é preciso encontrar essa motivação, já é uma coisa mais natural porque já gostas mesmo de escalar. VERTIGEM: Então gostas mais de escalar agora do que na altura? AN: Sim, por motivos diferentes. Agora gosto mais de escalar pelo prazer de escalar e não só por aquela coisa de encadear e fazer a via pelo grau. VERTIGEM: E o que é que te atrai agora na escalada, o que é que encontras de mais importante? AN: A nível pessoal é o desafio em si, saber os teus limites, estar sempre a testá-los e ultrapassá-los. E também me motiva o ambiente em si que existe na escalada, as viagens, as pessoas, o modo de vida dos escaladores, a cultura... que não se encontra noutros desportos que pratiquei. VERTIGEM: Fala-me das vias que te marcaram. AN: Humm... o meu primeiro 7a, a Assusta mas não custa, na Guia, que provavelmente não é 7a, mas que era aquele patamar do sétimo grau. A Marsupilami [no Portinho da Arrábida] porque foi o meu primeiro oitavo. E recentemente, a Welcome [to Tijuana - Rodellar] porque foi o primeiro 8c e não estava à espera. Vinha de uma temporada em que não estava a escalar muito porque estava a construir o muro do BoulderArea e numa viagem curta acabou por sair a via. VERTIGEM: As vias à vista não te marcaram tanto? AN: Também, sobretudo o 8b que fiz à vista, o único até à data, a Non Stop em Terradets. Marcou-me muito porque foi a maior luta que já tive a escalar.

André Neres na Cabo dos Trabalhos 7b, Meio Mango

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VERTIGEM: Apesar de teres encadeado alguns dos boulders mais duros que tens perto de casa e de teres feito 8A de boulder, não levas muito a sério o boulder e preferes a desportiva. A que se deve isto? AN: Eu encontro mais facilidade no boulder, principalmente a nível psicológico e a nível do desafio sinto muito mais satisfação quando encadeio uma via dura ©Alexandre Marques


do que um bloco duro, apesar de também desfrutar muito de um bom bloco. VERTIGEM: No Meio Mango tens sido responsável pelos primeiros encadeamentos das vias mais duras. O que tens a dizer dessas vias e desta escola? AN: Essa escola salvou-me a vida! Basicamente, porque já estava a ficar sem vias nas escolas à volta. Surgiu o Mango e foi espectacular porque tem um potencial, a meu ver, quase inesgotável. Vou ter ali muito trabalho até encadear tudo o que está e o que é possível equipar. A rocha é de excelente qualidade, o sítio e a escola são incríveis e está ainda muito pouco explorado, 30 ou 40%. Para mim é a melhor escola de Portugal, para a desportiva da alta dificuldade é o futuro e dificilmente vejo aparecer alguma coisa melhor que o Meio Mango. Em relação às vias, têm-me dado muito prazer, porque independentemente do grau são muito boas. Apesar de às vezes ser duro porque tenho trabalhado muitas das vias sozinho. VERTIGEM: O que faz com que os projectos em portugal, apesar de demorarem a sair, raramente ultrapassem a barreira do 8b+? AN: Eu antes achava que era por não talharmos como em Espanha ou em França e não haver por isso vias homogéneas e fáceis de encadear, mas na realidade acho que as vias estão proporcionais ao tamanho do nosso biceps! Nós ainda não estamos fortes o suficiente para encadear 9a’s e 9a+ porque eu vejo que eles já existem, é só equipar e meter mãos à obra. VERTIGEM: Achas que o estilo também dificulta? AN: Sim, em Espanha tens super-projectos de 30 ou 40 metros que dependem muito mais só da forma física, que são muito mais evidentes. Aqui há cada vez mais desse estilo, sobretudo de grau mais baixo, mas em geral é preciso buscar um pouco as vias e encontrar a dificuldade.

VERTIGEM: Encadeaste um 8c+ no ano passado em El Chorro. Achas que a tua

“encontro mais facilidade no boulder, principalmente a nível psicológico e a nível do desafio sinto muito mais satisfação quando encadeio uma via dura do que um bloco duro.” André Neres na Cabo dos Trabalhos 7b, Meio Mango

©Alexandre Marques

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“as vias estão proporcionais ao tamanho do nosso biceps! Nós ainda não estamos fortes o suficiente para encadear 9a’s e 9a+ porque eu vejo que eles já existem.”

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André Neres na Zona 0 8b, Siurana, Espanha

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©Alexandre Marques

evolução passa por encadear vias fora de Portugal? Ou vez antes o teu primeiro 9a a aparecer cá? AN: Sinceramente, vejo que no Meio Mango vou ter 9a’s ou um pouco mais, mas não sei se será o primeiro porque vejo-me também a trabalhar vias duras lá fora e as duas coisas são possíveis. VERTIGEM: Aos 17 anos ganhaste um carro no concurso de escalada “Subir as amoreiras com ventosas” em directo para o programa Alto Risco da SIC. Isso fez de ti uma vedeta na escola e mudou a tua adolescência ou não? AN: (risos) Uma vedeta propriamente não fez, mas momentaneamente um bocadinho. As pessoas reconheciam-me na escola e fora dela e ainda hoje é fácil recordar esse episódio e quase todas as pessoas se lembram, mas já não sabem quem é que eu sou, já há muitos anos que se esqueceram. VERTIGEM: Qual foi e como correu a tua primeira competição de escalada? AN: Foi em Cascais, em 2001, no primeiro ano de começar a escalar e ganhei no meu escalão. Depois, na minha primeira competição sénior, na Exponor do Porto, empatei com o Fred [Frederico Silva] em primeiro lugar. VERTIGEM: Actualmente o campeonato português de escalada dá a impressão de estar morto ao nível dos seniores. Porquê o abandono e a apatia dos escaladores? O que é que falta para termos competições como “lá fora”? AN: Falta tudo! Basicamente, falta tudo. Falta um campeonato bem organizado, faltam provas com qualidade, faltam coisas que as pessoas se esquecem, mas que são um aliciante, como os prémios, porque as pessoas não ganham nada por competir. Acredito que se agora começássemos a ter competições em que o primeiro ganha 500 euros, o segundo 400 e o terceiro 300 e por aí em diante, provavelmente teríamos mais gente a ir, mais gente a ver, mais seriedade na própria competição. Neste momento os escaladores estão um pouco cansados do mesmo estilo de competições, é preciso inovar um bocado, mudar um pouco.

VERTIGEM: Costumas participar em quase todas as competições, tendo também já participado em várias provas internacionais e sei que sonhavas em conseguir fazer o circuito inteiro. O que te atrai na competição numa altura em que parece que menos escaladores se interessa? AN: Eu não acho que internacionalmente a competição esteja a decair. Acho que está a tomar um rumo diferente da escalada, assim como a escalada desportiva e o boulder se separaram. Neste momento a competição é uma disciplina aparte da escalada em rocha, ou seja, o escalador para ser bom em competição tem que se dedicar de uma maneira completamente diferente do que à rocha, tem que ter uma disciplina completamente diferente e viver de outra forma, porque é um desporto que já está num alto nível de exigência. VERTIGEM: Não se pode ser um “friki” na competição? AN: Pode, mas provavelmente não se conseguem grandes resultados. Ou és um sobredotado, o que também acontece pois existe um ou outro, ou então tens que ser um Patxi [Usubiaga] que não é sobredotado, mas é uma máquina de sofrer e de treinar. VERTIGEM: Começaste agora um treino mais sério com o apoio da escaladora basca Irati Anda, o que esperas conseguir deste treino? AN: Espero basicamente evoluir a nível físico, porque é aquilo que eu sinto que me falta mais, assim a nível de resistência. De resto, com ela o que me falta não consigo adquirir, que é a experiência, que só se consegue indo às competições internacionais. É um misto das duas coisas, o que me falta para obter melhores resultados. VERTIGEM: Achas que treinar com método é o segredo da evolução na escalada ou achas que até para treinar é preciso já ser forte? AN: Eu acho que existem várias maneiras de evoluir na escalada. Pode fazer-se um plano de treino no muro ou pode-se fazer

um plano de ”treino na rocha”, escalando bastante, mas qualquer pessoa pode evoluir de ambas as formas. Com maior ou menor sofrimento, chega-se lá. VERTIGEM: E por falar de fortes, qual foi o escalador que mais te impressionou nas competições e na rocha? AN: Nas competições de vias foi o Ramon [Julian]. Quem não acompanha as competições pode achar que não, mas fisicamente está realmente um patamar acima dos outros todos. A nível de bloco o [Adam] Ondra é impressionante e não só a nível de competições. Ele veio revolucionar um pouco a escalada e provar que não tens que ser o Patxi. Ele não treina muito, escala bastante e treina um pouco em muro antes das competições para se habituar ao plástico e é bastante eficaz a escalar e consegue ter os resultados. VERTIGEM: Fazes parte de uma geração de escaladores que se iniciaram muito novos no 8º grau, à semelhança do José Abreu e do Leopoldo Faria que ainda hoje em dia continuam a ser dos melhores. O que achas que levou a essa evolução tão rápida? E porque razão não aparece outro grupo de escaladores jovens tão marcante? AN: Acho que é em grande parte por coincidência. Mas se calhar não. Nesse grupo escalávamos todos muito juntos e isso é muito bom para a motivação e para evoluir. Existem escaladores novos com qualidade, eu acho que sim e vão aparecer mais, não sei é se são tão bem conduzidos como nós fomos. Nós tomámos um rumo que foi positivo para a nossa evolução. Éramos motivados para escalar e ir à rocha, para provar coisas duras e fazer as coisas da maneira certa. Nesta altura há pessoas que têm qualidade mas que não estão a fazer isso, não vão muito à rocha, não provam vias duras e não escalam à morte. São muito fortes e alguns têm muito jeito, mas mesmo para a competição precisam de ser bem direccionados para fazerem as coisas certas.

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VERTIGEM: Qual foi o teu primeiro patrocínio? Que papel é que teve e quais são os teus actuais patrocinadores? AN: Foi da Petzl e Beal, em 2003. Foi bastante bom porque sempre tive uma relação bastante boa com eles, sempre tive mais ou menos tudo aquilo que precisava e isso já apoia bastante mesmo a nível financeiro, porque não se gasta tanto dinheiro em equipamento.Também houve sempre outros apoios, como a nível de organização de eventos de escalada, e é muito bom estar inserido num grupo que trabalha como é o caso do grupo da Petzl/ Beal em Portugal e sentes que alguém te dá valor. VERTIGEM: Num mercado e comunidade pequena como em Portugal como vez a questão dos patrocínios e dos patrocinados? AN: Eu vejo que neste momento patrocínios a sério não existem, porque não há volume de negócios que justifique uma marca pagar a alguém. Num futuro em que haja evolução e prosperidade acho que vai ser mais fácil. De qualquer das formas, também acho que há muitas pessoas que são patrocinadas que não levam a sério os patrocínios e que de alguma forma põem as coisas um pouco más. É preciso levar a sério os patrocínios. É uma troca comercial e temos que promover a marca que nos apoia e temos que falar dela, bem, supostamente! VERTIGEM: Há dois anos lançaste-te na aventura de abrir um rockódromo (i.e.ginasio de escalada). Como tem sido essa experiência? Que pontos positivos e que principais dificuldades houve? AN: Tem sido interessante. Eu gosto bastante de negócios e é bom poder aliar a escalada com ter um negócio. Um ponto positivo é estar no sítio que é o ponto de encontro da comunidade de escaladores. Os escaladores saem do trabalho e vêm relaxar, conversar e treinar, e vêm ao sítio onde eu trabalho! Eu não preciso de me mexer, é fixe! Também, poder treinar é um aspecto bastante importante, ter uma estrutura boa e com qualidade, mas na realidade não tenho treinado assim tanto, tirando esta última fase onde realmente usufruí do muro. Dificuldades

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houve algumas, primeiro a fase do investimento que foi puxada. Depois, a fase da construção do muro também foi bastante dura, foram precisos três meses a trabalhar a sério e se não fosse o Marco Neves tinha sido impossível. Houve mais pessoas, mas o Marco foi fundamental. Uma fase menos boa é sempre o Verão, em que as pessoas vêm menos e perde-se dinheiro. Como qualquer negócio, quando se está em crescimento, tem as suas coisas menos boas. VERTIGEM: Como empresário nesta área qual é a tua visão do mercado e como esperas que evolua? AN: Eu acho que é fundamental haver este tipo de estruturas e acho que a escalada em Portugal vai crescer muito mais quando houver muros bons, do que quando a Federação receber dinheiro do Estado. Porque são os muros que realmente metem as pessoas a escalar, apesar de o reconhecimento desta Federação ser importante também. Mas são os muros que criam uma comunidade de escaladores. Por exemplo, nos Estados Unidos existem imensos muros porque existe essa cultura, mas essa cultura também foi criada de certa forma, ou seja, as pessoas começam a escalar pelo muro e ficam e trazem gente nova e cria-se um mercado. E havendo mercado, há dinheiro e há todas as condições, as marcas investem, os patrocinadores investem, as pessoas esforçam-se, existem eventos, visibilidade, etc. VERTIGEM: Falaste em eventos. Por exemplo, encontros como o que aconteceu no Meio Mango, apoiado pela Petzl, que importância crês terem para a modalidade? AN: Eu acho que são extremamente importantes por vários motivos: Primeiro, porque divulgam as escolas recémequipadas, como aconteceu com o Meio Mango ou Casal Pianos, que são sítios espectaculares e assim é mais fácil trazer de repente toda a gente para que os conheçam. Depois, para além de se conseguir angariar algum dinheiro para equipar novas vias, são encontros muito agradáveis, passa-se um excelente dia e cria-se uma dinâmica muito boa entre os escaladores e no ambiente.

São muito bons e deviam-se fazer mais! VERTIGEM: Fala-se muito de federações, mas na verdade as últimas escolas, nomeadamente as que referiste, nascem directamente da mão do SEA (Sociedade de Equipadores Anónimos) sem qualquer apoio institucional. O que achas que falha e que vantagens têm este tipo de associações informais? AN: A nível institucional falha o dinheiro, quando não há dinheiro não há nada! O SEA não passa de um blog que existe para que as pessoas conheçam quem equipa e quem sempre equipou, porque os fundadores do SEA e quem trabalha, são exactamente os mesmos que equipavam vias há 10 anos! Basicamente, o que o blog faz é mostrar contas e mostrar trabalho e serve também para que as pessoas possam ajudar, para que não sejam sempre os mesmos a pagar. É extremamente importante e as pessoas deviam apoiar mais! VERTIGEM: Escalador e pai aos 22 anos. Ser pai não dificulta a vida de um fanático? AN: Se for bem negociado, não! (risos) Dificulta mais a nível emocional, porque queres ir numas férias e não é só o jogo de cintura que é preciso ter para ir, mas também porque te custa estar longe dos teus filhos, mas acho que não, que é uma questão de logística. VERTIGEM: Para terminar, que projectos de escalada tens em mente num futuro próximo? AN: Tenho alguns, assim de repente faço tenções de começar a treinar a sério novamente em Dezembro, por um período de 6 meses, para estar em top de forma em Julho que é quando vão ocorrer três competições importantes, o campeonato do mundo em Arco e dois da copa do mundo, em Chamonix e Briançon. São todas relativamente perto e em fins-desemana seguidos. Outro projecto, é uma via que me está a motivar bastante no Meio Mango, que é a Linha amarela. Acho que essa via vai ser bastante dura, na casa do 8c+. Gostava de a encadear antes que começasse a chover muito, aliás, esse é o problema do Meio Mango, é que os projectos estão muito condicionados pelas condições das estações do ano.


“a escalada em Portugal vai crescer muito mais quando houver muros bons, do que quando a Federação receber dinheiro do Estado. Porque são os muros que realmente metem as pessoas a escalar.” 43

André Neres na Senhor das Anilhas 8b+, Meio Mango

©Alexandre Marques


Tapada de Cintra Artigo Fotografia

João Pedro Pena Ricardo Alves

Lar de algumas das melhores linhas de Sintra e com um entorno muito selvagem, a Tapada, tal como o nome indica, é um local com uma densidade de mato anormal, assemelhandose por vezes a uma selva tropical. Os primeiros a explorar a zona foram o Macau e o Leo há já alguns anos, mas a dificuldade em descortinar blocos por entre a vegetação e até mesmo chegar a eles, levou a que a zona ficasse em águas de bacalhau...

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Mário Inocencio um dos “locals”, no Bicho do Mato 7a+

©Ricardo Alves

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©Ricardo Alves

Jorge Brás no Pé à mama 6b+


Leo num dos ex-libris da zona, o excelente Zeitgeist 7b+/c ©Ricardo Alves

Foi por volta de finais de Março de 2007, que uns fanáticos desconhecidos, o Don David e o Rui Pedro, ao passear pela recta do autódromo resolveram entrar numa estrada ao acaso e foram dar com um imponente bloco coberto de musgo e trepadeiras, hoje em dia conhecido como o Bloco da Prisão, um dos ex-líbris de Sintra. Esta preciosa informação acabou por chegar aos locals da Serra e rapidamente a zona começou a sofrer investidas e aberturas por parte do Macau, Pena e Rasta principalmente. Ao longo de um ano foram abertos blocos ininterruptamente, surgindo centena e meia de pérolas de granito e um bom punhado de linhas de sétimo grau.

Jorge Brás no Broa de Milho 6a

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©Ricardo Alves


O autor do artigo e um dos maiores fanáticos de sintra no Bafo do dragão 7a+

©Ricardo Alves

A qualidade e variedade da rocha também são imagens de marca da Tapada. Temos do granito tipo arenito, com um tacto macio como sabão, característico do sector Éden, Arca de Noé e FHM, ao granito comedor de pele típico do sector dos Países Baixos. No sector do Gigante encontramos rocha do tipo “Meca”, com um granito muito areado e uma aparência esburacada, como se a rocha estivesse sido sujeita a qualquer tipo de efervescência e formado bolhas.

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Mário Inocencio faz “cara de mau” perante o Perigo Iminente 49 7b+

©Ricardo Alves


Ricardo Belchior tenta escapar no Prison Break 7c, num sector com muito ambiente 50

ŠRicardo Alves


Rita Silva uma “convertida” aos blocos de Sintra, no Green Mango 6a

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©Ricardo Alves


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©Ricardo Alves

Gonçalo Franco no Cubo um projecto duro de roer


Como Chegar

Vindo pelo IC19 e chegando à rotunda do Ramalhão (final da radial de Sintra N9), seguir a estrada para a direita e após passar as bombas de gasolina da BP, virar à esquerda e logo depois à direita, entrando na Av. do Conde Sucena. Antes do largo da feira de S. Pedro (Largo D. Fernando II), virar à esquerda seguindo as indicações para Santa Eufémia. É uma subida muito íngreme em calçada, com um zig-zag apertado, seguido de outra subida íngreme em betão. No topo dessa subida temos uma curva para a direita com uma entrada à esquerda para uma estrada de terra (atenção que se vê bastante mal a entrada devido a inclinação das estradas).

Sector Grande Canhão Pode-se optar por estacionar logo nas imediações dessa entrada ou percorrer cerca de 500 metros pela estrada de terra até ao parque do 1º sector (Grande Canhão). Alerta-se para o facto da estrada estar com muitas valas e buracos devido às últimas chuvadas. O parque do Grande Canhão fica logo após uma grande subida, do lado esquerdo, é bastante largo e esta ao lado de um aglomerado de pedras com uma vista panorâmica para o Tejo.

Sector Éden, Países Baixos, Arca de Noé, Purgatório e Cruz Alta Para o sector Éden, Países Baixos, Arca de Noé, Purgatório e Cruz Alta, o melhor é seguir a pé pela estrada, passando por um grande high-ball à direita e pouco depois apanhar um trilho de BTT que surge à esquerda. Esse trilho é o trilho visível no mapa geral dos sectores. Também é possível entrar mais à frente (150mt), pelo trilho do lado esquerdo que dá acesso directo ao Éden.

Sector Bloco da prisão: Desde Lisboa vindo pelo IC19 e chegando à rotunda do Ramalhão (final da radial de Sintra N9), virar à esquerda na direcção de Cascais/Autódromo. Após passar a 2ª rotunda, virar na primeira estrada à direita e ao fundo tomar a estrada de terra. Nesta estrada vai haver 2 bifurcações nas quais é seguir sempre pela da direita. Mais à frente surge um muro e umas casas do lado direito e o melhor é parar o carro antes do portão, do lado esquerdo. O bloco situa-se um pouco antes, mesmo atrás da fonte de água e é bastante visível da estrada de terra. Pede-se o favor de ser o mais discreto possível, dado estar ao lado de um estabelecimento prisional.

Blocos recomendados Bonita Prateleira, Green Mango, Nirvana, Marés Vivas, Bafo do Dragão, Visionaire, Arca do Noé, Zeitgeist, Pé-à-Mama, Lagarta Titânica, Placa do Gigante, Sardanisco, Prison Break, Diamante Branco, Operação Relâmpago, Piano, Monólito, Planador, Punho de Lúcifer e Mosca Chéché

Download do croqui

Alerta-se que é fácil uma pessoa desorientar-se nesta área, dado que a vegetação é muito densa e os trilhos podem ficar rapidamente cobertos por fetos ou obstruídos por árvores que caem. Pede-se também bom senso e a subtileza de todos, dado que a maior parte dos sectores se encontram em zonas privadas.

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Naranjo de Bulnes Revisitado Picu Urriello- Naranjo de Bulnes 27 de Agosto de 2010 A nuvem escondia uma vez mais o Cuca, mas eu sabia que a corda nos continuava a unir, assim como nos unia o desejo de continuar e podermos finalmente festejar os emocionantes largos que já tínhamos conquistado. Porém, a nuvem também escondia os exigentes largos que ainda faltavam e que tínhamos subestimado… Dois dias antes, saíramos da tenda com as pernas e ombros ainda doridos, fruto da longa caminhada de aproximação da véspera com toda a comida e material que conseguimos encaixar nas grandes mochilas. Como planeado, no primeiro dia escalámos os quatro primeiros largos do Pilar Cantábrico. Ao contrário do habitual nesta via, não levávamos nem estribos, nem pitons. Queríamos fazer uma ascensão totalmente em livre, num só dia, encadeando todos os largos e para isso era fundamental conhecer de antemão esse primeiro tramo, tecnicamente o mais difícil da via. Não era a primeira ascensão neste estilo e pelos relatos dos escaladores precedentes, do calibre de um Iker Pou ou Josune Bereciartu, que falavam do compromisso e dificuldade da via, sabíamos que não ia ser uma tarefa fácil. A expectativa era enorme e a via não nos desiludiu. A escalada em livre por vezes desvia-se alguns metros da linha original, o que obriga a contínuas travessias, nem sempre muito evidentes e a saltar, por vezes, vários buris seguidos. Estes buris, apesar de terem 30 anos e de apenas superficialmente penetrarem na rocha, não estão ainda totalmente deteriorados e mesmo se alguns saltarem, o continuo extraprumo e as reuniões (felizmente com uma plaquete mais moderna), farão com que as quedas não tenham consequências demasiado graves. Igualmente nos apercebemos que a via não daria tréguas. Os largos são exigentes e contínuos e as reuniões, todas elas suspensas, não permitem recuperar muito entre os largos. A rocha, embora seja de alta qualidade é extremamente abrasiva e constitui também um teste à nossa motivação. 54

Atardecer sobre o Naranjo de Bulnes. A linha de sombr


ra divide a face Oeste da Noroeste e marca com precisรฃo o traรงado do Pilar del Cantรกbrico

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Carlos Simes “Cuca” navegando entre os buris do primeiro largo.

Depois de alguns voos em busca das melhores variantes, já com a pele e a energia à beira da ruptura, no final do quarto largo decidimos que era hora de descer, o que num extraprumo acentuado não foi uma manobra fácil. Apesar de não termos encadeado os largos, estávamos contentes com as soluções que encontrámos para os escalar em livre e sobretudo com a qualidade e exigência da via. Encadear estes primeiros largos já por si seria um bom desafio! O segundo dia amanheceu limpo mas as poucas cordadas que tentaram escalar na face Oeste foram obrigadas a desistir pelo forte vento. Apesar de alguma ansiedade foi um bom dia para descansar e delinear uma estratégia. Como o peso determinaria o sucesso do encadeamento, reduzimos ao mínimo o material, a água e comida a levar. As previsões para o dia seguinte não eram muito animadoras, mas sabíamos que o resto da semana seria ainda pior. Deixámos a decisão para o amanhecer. Depois de uma noite chuvosa o dia amanheceu nublado e extremamente ventoso. Desliguei rapidamente o despertador e voltei-me para o outro lado. Era demasiado cedo para começar mais um dia de lenta espera e acima de tudo para enfrentar uma semana de mau tempo. Mas o Cuca não pensava da mesma maneira e saído do seu bivaque, voltou-me a acordar.

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Francisco Ataíde, na via Rojo Libanés nos Horcados Rojos, uma parede vizinha ao Naranjo.

- Vamos! Vamos! É hora de escalar! O período na Escócia tinha-o feito esquecer que não há só dias muito maus e também que os dias maus não dão para escalar! Parecia demasiado motivado, demasiado para tentar argumentar do interior da tenda. Depois de não poder adiar mais, fui obrigado a sair e da mesma maneira obrigado a tomar o pequeno-almoço e, ainda por cima, a ir até à base da parede! Como não me cabia a mim o primeiro largo, continuei sem argumentar, perplexo pela sua determinação, só igualável à determinação do vento em atirar-me ao chão enquanto dava segurança. Era agora a minha vez de escalar. Tentar escalar este primeiro largo serviria pelo menos para descongelar um pouco e ainda incrédulo do que estávamos a fazer ali, cheguei à reunião. - Isto está impossível! Podemos continuar mas isto não vai dar nada! Tentava demovê-lo para que desistisse, mas o seu olhar inalterável obrigou-me a aceitar que teria de tentar escalar mais um largo, auto-convencendo-me de que pelo menos serviria para adiar um pouco a inevitável monotonia da espera. O alento de começar um largo de 8a protegido por buris ferrugentos, completamente congelado, não era muito, mas depois de conseguir aquecer as mãos um pouco lá comecei a escalar. O incrível largo rapidamente me conduziu ao crux, que surpreendentemente consegui fazer e já abstraído do frio e do


vento só pensei em encadear o resto do largo. Não pude deixar de gritar de surpresa e alegria, e quando nos voltámos a juntar na reunião, os dois concordámos que apesar do forte vento e do largo que se seguia ser ainda mais difícil e extraprumado teríamos de o tentar. Voltava a ser a minha vez de escalar primeiro. Movimento a movimento lá fui deixando para trás o crux do começo, os pitons duvidosos do meio, o chumbo do passo duro e o solitário buril que protege a longa travessia final.

mais difícil do que o que os croquis marcavam e que muitos dos que tinham escalado em livre esta via tinham sido obrigados a repeti-lo. O atraso no começo e as condições climatéricas não nos permitiriam o luxo de tentá-lo duas vezes e uma queda significaria o fim do encadeamento. Estávamos demasiado contentes para nos sentirmos pressionados e mesmo que não encadeássemos tudo, escalar num só dia esta via já seria motivo de maior alegria. Mas também não íamos desistir...

Só tínhamos escalado 3 dos 15 largos que constituem o Pilar Cantábrico. Ao vento que continuava a soprar tinha-se juntado agora o nevoeiro, mas também a motivação que mais do que nunca estava ao rubro. A incerteza relativa à meteorologia não permitia descansos pelo que iniciei mais um largo, desta vez menos extraprumado, mas ainda mais técnico. Rapidamente cheguei ao lugar onde dias antes tinha voado mais do que a conta e onde só tinha passado com recurso ao artificial. Respirei fundo, esqueci os metros e os anos que me separavam da protecção do último buril e lancei-me para o invertido que desta vez me pareceu mais hospitaleiro. A pele começava a ressentir-se e o sangue começava a manchar algumas das presas, mas nada disso me preocupava agora. Os largos que tínhamos ensaiado anteriormente tinham chegado ao fim e entrávamos agora no desconhecido e no nevoeiro. Mas não havia outro caminho nem vontade de o procurar.

Sem tirar o impermeável, única protecção contra as antipáticas nuvens que a alta velocidade tinham invadido todo o céu, cabia agora ao Cuca enfrentar o quinto largo. Lutando contra as pequenas presas e as plaquetes recuperáveis que teimavam em não entrar, navegou neste mar de calcário tentando decifrar o caminho a seguir entre os espaçados buris até que a gravidade não deu mais tréguas. Não sem dificuldades e mais percalços, lá chegou à segurança de mais uma reunião. Eu tinha agora uma ideia do melhor caminho para este largo pelo que, cravando os dedos na rocha afiada e acariciando as lâminas que mais pareciam de barbear, não desperdicei o valioso “flash” e encadeei o largo. A partir daqui esperávamos largos consideravelmente mais fáceis.

Na noite anterior tínhamos descoberto que o quinto largo era

A nuvem escondia uma vez mais o Cuca, mas eu sabia que a corda nos continuava a unir, assim como nos unia o desejo de continuar e podermos finalmente festejar os emocionantes largos que já tínhamos conquistado. Sabíamos que o cume estava mais perto e que as dificuldades teriam que acabar, mas tínhamos

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subestimado estes largos que apesar de um grau mais baixo, haviam de revelar-se bastante complexos e esgotariam todas as nossas energias, tornando-se mesmo nos largos decisivos para o encadeamento. Nenhum de nós pensava em desistir e sem abrandar o ritmo continuámos até que a primeira plataforma digna desse nome chegou. Agora sim as dificuldades tinham acabado e dentro de pouco tempo estaríamos na segurança da Via Rabada-Navarro, onde o Pilar Cantábrico, através de uns últimos largos fáceis desemboca. Seria o lugar ideal para uma boa pausa não fosse o céu carregado e que nos indicava que não podíamos abusar da sorte. Esse mesmo céu facilitou a decisão de não desperdiçar a oportunidade de atravessar um pouco antes para a Rabada e deste modo poder alcançar o cume mais depressa. Percorremos rapidamente os últimos largos e foi com alegria que fomos subindo acima do nevoeiro e por fim pudemos despir os impermeáveis e desfrutar dos últimos metros de escalada. Escalávamos agora mais lentamente, agarrando as mesmas presas que 10 anos antes tínhamos agarrado, quando tratávamos de terminar outra via no meio de uma tempestade terrível. Desta vez a montanha deixou-nos desfrutar de um entardecer alucinante e concretizar o sonho de escalar em livre esta via incrível. Já no cume adiámos um pouco mais o fim deste sonho e a entrada de novo no nevoeiro molhado, mas foi com alegria que, já de noite, chegámos ao refugio onde nos acolheram, como sempre, com entusiasmo e onde pudemos apreciar uma merecida garrafa de sidra e um belo jantar.

Ficha Técnica Picu Urriello (2519 m) - Pilar del Cantabrico 550m, 15 largos (os 4 últimos comuns com a via Rabada-Navarro) Primeira ascensão: Antonio Gómez Bohorquez y Jesus Galvez, 1981 Dificuldade 6b+/ A2+ (8a+ em livre)

Material utilizado: - 2 cordas gémeas de 7,7mm, - 16 expresses, - friends até ao camalot nº 2, - entaladores - plaquetes recuperáveis

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Entrevista a flash por: Filipe Costa e Silva FCS: Porque escolheram esta via em particular? A exposição da via foi parte da motivação? Francisco Ataíde: Em 1995 vi umas fotografias numa Desnivel com o Daniel Andrada que acabava de liberar pela primeira vez a via na sua totalidade. Eu tinha escalado no Naranjo nesse verão, pela Leiva, que foi entretanto reequipada, mas que nessa altura tinha buris bastante velhos, semelhantes aos do Pilar. Talvez por isso a ascenção do Dani me tenha impressionado tanto. A Oeste do Naranjo é um paredão que sempre me atraiu. Já escalei várias vias nesta parede mas nenhuma no desplome da Bermeja, um impressionante extraprumo na parte esquerda desta face. Em 2000, com o Cuca tinhamos como objectivo escalar aí a via Principado de Asturias, uma via de artificial extremo mas que nunca chegámos a concretizar. Dez anos depois propuz-lhe voltar ao Naranjo para tentar outra via extrema, a mítica Pilar del Cantabrico, mas desta vez em livre, algo que me motiva mais actualmente. Com um bom companheiro de cordada e antes que a reequipassem, era a altura certa para tentá-la.

a humidade, a areia e a caca dos pássaros! FCS: Em relação à divisão dos largos o que é preferível, o 2º de cordada ir sempre a jumarear ou revezarem-se como 1º de cordada? Fran: Quando os dois queremos escalar em livre só há uma opção viável – revezar-se entre 1º e 2º de cordada escalando sempre em livre. Mas isso implica escalar de segundo com mochila e poder levar muito menos material, água e comida. Na realidade parece-me quase sempre mais fácil escalar tudo à frente, mas ir mais ligeiro e confortável, porque quem só jumareia carregará tudo, desde os sapatos e roupa, ao material extra e pode-se levar água, comida e material de sobra. Hoje em dia promove-se muito o individualismo, mas escalar como cordada, para mim tem o mesmo mérito e o encadeamento é algo mais mágico. FCS: O que são esses famosos “buris” que abundam no Naranjo? Fran: Os míticos buris são basicamente parafusos de 8 mm de espessura que eram metidos à pressão num furo de 7

FCS: Passaste muito medo nesta via? Fran: Os buris dão bastante ambiente à via, mas depois de ver o Cuca a voar no primeiro dia, achei melhor não pensar mais nisso e fingir que voava igualmente descontraído… No segundo dia a motivação para o encadeamento e a incerteza do tempo eram mais importantes, pelo que o medo passou para segundo plano. Na verdade, passei mais medo na última via que fiz no Espinhaço, a directa da Mancha Branca, num daqueles dias de condições terríveis, em que ao calor se juntam o sal,

mm, feito previamente à martelada. Os que abundam no Naranjo são a versão caseira, em geral com 10 a 20 mm de comprimento e sem qualquer elemento de expansão. Ao parafuso pode ser acrescentada uma plaquete fixa em chapa de 2,5 mm de espessura (face aos 4 mm das plaquetes actuais) ou ficar simplesmente o buril para ser usado com uma plaquete recuperável. A resistência do conjunto depende muito do artista, mas também da qualidade do material com que foi fabricado e da corrosão. Nos anos 80 surgiram os spits que superavam em muito a resistencia dos buris e nos anos 90 os pernos e as plaquetes que todos conhecemos. FCS: Em Portugal há lugar para estas vias ou só temos “paredinhas” já cheias de plaquetes por todo o lado? Fran: Paredes e vias desta envergadura não existem, mas há lugar para vias de autoprotecção ou mistas, mais curtas, mas com bastante compromisso. A desportiva e a falsa permissa de que a escalada tem que ser segura afasta muita gente destas vias em que o empenho, a criatividade e o auto-contolo são os factores determinantes. Não são vias para escalar todos os dias, mas são vias que pelas sensações que transmitem são muito mais marcantes. FCS: Acreditar que os Buris aguentam é uma questão de fé ou eles aguentam mesmo? Carlos Simes “Cuca”: Os do Pilar aguentaram, mas estavamos mentalizados para a eventualidade de saltarem – de resto, até chegámos a rir-nos sobre quem arrancaria mais! Como em muitas situações de es-

Apesar de terem 30 anos, a maioria dos buris que tivemos que testar estavam bastante melhores do que este! 59


Já a meio da caminhada, o Naranjo de Bulnes deixa-se ver pela primeira vez.

calada auto-protegida, sobre equipamento antigo, com grandes afastamentos (ou numa mistura de ambos), é uma questão de avaliar perigos reais e ser racional no afrontamento dos medos. Neste caso, extraprumava muito, sendo depois vertical e limpo de formas, assim que fomos tranquílos. Também, comparativamente aos encontrados noutros sítios, a título de exemplo Montserrat, pareceram-nos em boas condições. FCS: Quantos metros abaixo dos pés ficam mesmo esses buris? Cuca: Ao arranjar soluções para passar em livre, afastam-se dos pés não só em distância vertical como também horizontalmente (no caso das travessias). O mais longe talvez tenha sido 5/6mts. Testados! FCS: É verdade que os tickmarks já chegaram ao Naranjo? Cuca: Chegaram e devem estar para ficar,

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não só ali mas em todas as vias duras em livre que se andam a fazer. No mês anterior, o Pilar tinha sido encadeado por uma cordada Basca e encontrámos magnésio nos largos. Em bastantes secções serviu de pouco, pois, assim como eles, tivemos de experimentar todas as sequências possíveis, ir à esquerda, em frente, à direita... e todas tinham tickmarks. A implicação destes é a mesma que nas vias desportivas – os “à vista” estão facilitados – e o problema em vias largas é que muito provavelmente não se desce a escovar as presas. FCS: Achas que faria sentido re-equipar a via com pernos em vez dos buris? Cuca: Se tivesse sido aberta de baixo com plaquetes teria um ambiente semelhante ou até maiores afastamentos. No caso de ser reequipada acabaria “cozida” a chapas diminuindo muito a exposição que se encontra. O público potencial seria outro e o carácter da via distinto. Uma opção para

vias deste tipo talvez passe por reequipar com métricas inferiores e chapas de dimensão parecida aos buris. Há umas a que chamam “cagaboltes” que são um perno de 8 mm com uma chapa fina a condizer. Acho que apurar com os buris não é má opção. FCS: Esta via dura e exposta que fizeram motiva-vos a fazer mais algum outro projecto do mesmo género? Cuca: Acabámos a actividade com boas sensações e falámos de outros objectivos. Há muitas paredes com grandes e duras linhas para se fazer: ali, noutros maciços da Europa e fora. Parece-me importante estar em sintonia com quem se escala em parede, partilhar de filosofias comuns em respeito à escalada e ir às vias no mesmo “mindset”. Nestes aspectos foi, novamente, uma grande experiência e apenas repetível nas condições de amizade e preparação que partilhámos.


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Cordas: a qual se atar? Artigo Fotografia

Francisco Ataide Francisco Ataide Carolina Vallejo

Como os chapéus, cordas há muitas e consoante a escalada a realizar algumas poderão ficar-nos a matar e outras, ao contrário, serem desaconselhadas e matar-nos mesmo! Este artigo, focado mais na escalada de vias de vários largos, pretende dar a conhecer os tipos de cordas existentes, as suas características e diferentes aplicações. Para a escalada desportiva de um largo a única opção prática é a corda simples, mas em parede a escolha não é tão evidente. Factores como o comprimento dos largos e dos rapeis, o percurso da via, a eventual necessidade de abandono e o tipo de protecções, devem ser tidos em conta para a eleição da corda mais indicada. Dentro das cordas dinâmicas existem três grupos: simples, duplas e gémeas. Vejamos então as características de cada um, as vantagens e desvantagens e o uso aconselhado. 62


Mich desfrutando de uma corda simples de última geração na Thanks God Ledge (Half Dome, Yosemite, E.U.A)

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Tipologias

Cordas simples Marcadas nas pontas com o símbolo , com um diâmetro compreendido entre os 8.9 e os 11,0 mm e um peso entre 52 e 75 g/metro.

Vantagens mais baratas menor peso total que duas cordas duplas ou gémeas manuseamento mais simples maior facilidade de “jumarear”

Desvantagens só permite rapelar metade do comprimento total da corda maior atrito em largos em ziguezague necessitam de muitas fitas grandes para fazer prolongamentos, aumentando consequentemente o comprimento das quedas

Uso indicado em parede Vias rectilíneas com largos curtos ou onde estamos seguros não necessitar de abandonar. Paredes em que a descida se faz andando ou através de rapeis curtos. Também indicado para vias difíceis ou vias de artificial, em que o segundo de cordada sobe com “jumares”, podendo ser necessário completar com outra corda para os rapeis.

Exemplos “Fiesta de los Biceps” La Visera (Riglos - Espanha). Via de 8 largos curtos. Descida a andar.

Jumareando o grande tecto da The Nose (El Capitan,

64 Yosemite, E.U.A.)

Salathé Wall, El Capitan (Yosemite - EUA). Via de 1000 m em livre e artificial, geralmente escalada em vários dias em que o segundo sobe com “jumares” e em que se leva outra corda para subir o petate*.


Cordas duplas Marcadas nas pontas com o símbolo e com diâmetros geralmente compreendidos entre 8,0 e 9,0 mm, usam-se em pares mas passa-se uma só corda por cada protecção. Pesam entre 40 e 48 g/metro (cada uma das cordas).

Vantagens permitem rapeis mais longos (todo o comprimento da corda) ao proteger-se alternadamente evita-se muito o atrito em largos irregulares, muito comuns em vias grandes baixo factor de choque, muito importante em escalada clássica permitem escalar em cordadas de 3 em que cada segundo de cordada se ata a uma só corda maior protecção em caso de queda de pedras ou arestas cortantes

Desvantagens ao serem usadas aos pares o peso total é mais elevado não são muito aptas para o segundo de cordada “jumarear”, sobretudo as de menor diâmetro (8-8,1 mm)

Uso indicado em parede: São as cordas mais polivalentes numa parede, indicadas para a maioria das ocasiões. Especialmente adequadas para vias clássicas e irregulares. A melhor opção para cordadas de 3.

Exemplos Quase todas as vias do Naranjo de Bulnes (Espanha), com vias longas, irregulares, rapeis grandes e com clima instável que pode obrigar ao abandono.

Carolina Vallejo usando cordas duplas na via Hechizos del viento no Mallo Pisón (Riglos, Espanha)

Ordesa (Espanha), com vias irregulares e com muitas arestas cortantes. 65


Cordas gémeas Marcadas com o símbolo e com diâmetros geralmente compreendidos entre 7,5 e 8,0 mm. Usam-se em pares e são inseparáveis (passagem obrigatória de ambas as cordas por todas as protecções). Pesam entre de 37 e 40 g/metro (cada uma das cordas). É preciso ter em conta que nem todos os aparelhos para dar segurança estão indicados para estes diâmetros.

Vantagens mais leves que as duplas permitem rapelar todo o comprimento da corda maior protecção que uma só corda em caso de quedas de pedras ou arestas cortantes

Desvantagens Mais pesadas que uma corda simples (a soma das duas cordas gémeas) tem de se proteger obrigatoriamente ambas as cordas em todas as protecções maior atrito que com cordas duplas. não permitem cordadas de 3

Uso indicado em parede São cordas menos polivalentes e por isso as menos usadas. São indicadas para vias em que o peso é um factor determinante, para vias rectilíneas com eventual necessidade de abandono ou com rapeis longos.

Exemplos Verdon (França). Grandes vias desportivas rectilíneas e com acesso por longos rapeis.

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As cordas gémeas e duplas permitem longos rapeis. Carolina Vallejo descendo do The Mace (Sedona, Arizona, E.U.A.)

Pilar del Cantabrico (em livre), Naranjo de Bulnes (Espanha). Via de alta dificuldade em que o peso é fundamental, mas onde a necessidade de abandono está sempre presente.


Cordas duplas

técnica e prática Todos os escaladores já usaram cordas simples. As cordas gémeas apesar de desconhecidas da maioria, são na prática uma corda simples dividida em duas e usam-se da mesma maneira que as simples, passando obrigatoriamente ambas as cordas por todas as protecções. O único cuidado será na selecção de um aparelho para dar segurança que seja compatível com os diâmetros tão reduzidos. Já na utilização de cordas duplas a técnica não é tão intuitiva e muitas dúvidas facilmente surgem. Em teoria, devemos proteger só uma corda por cada protecção de forma alternada. Na prática, no entanto, depende e aí as opiniões dividem-se. Eu aconselho a proteger as duas na primeira protecção a seguir à reunião, sobretudo se for uma protecção muito fiável, porque, apesar da corda resistir a uma queda de factor 2, se protegermos uma só corda é difícil o assegurador não a deixar deslizar na mão em caso de uma queda de factor tão elevado. No resto do largo protejo alternadamente se a via é rectilínea ou, se é uma via sinuosa, deixo uma corda para as protecções à direita e outra para as protecções à esquerda. O mais importante é nunca cruzar as cordas, porque nesse caso o que poderíamos ganhar com estas cordas em termos de atrito, volta-se contra nós. Com a prática outras questões surgirão, mas o bom senso deve imperar, tendo sempre em consideração que ao proteger as duas cordas aumentamos bastante a força de choque (mesmo que as cordas também possam ser usadas como gémeas). Na comparação das cordas é preferível olharmos para o “peso por metro” do que para o diâmetro, pois este é um parâmetro mais orientativo, pois a medição é menos exacta e varia de marca para marca. Por exemplo, encontramos cordas de 9.4 mm mais finas que outras anunciadas de 9.2 mm! Também, ao longo da vida útil de cada corda, é o parâmetro que mais varia e de maneira diferente consoante cada marca. A “força de choque” é um factor bastante importante que mede a capacidade de absorção de energia de cada corda. Quanto mais baixo este valor melhor. Em vias desequipadas ou em gelo, uma menor força de choque pode fazer a diferença entre a protecção aguentar ou saltar e nas vias desportivas pode aumentar significativamente o conforto numa queda e minimizar o impacto na coluna vertebral. O valor de “quedas UIAA” corresponde ao número de quedas de factor 1,77 que a corda aguenta em laboratório e dá uma ideia da robustez de cada modelo. É de referir que algumas cordas duplas foram aprovadas também como gémeas e há mesmo uma corda, a Joker da Beal, que passou os testes para os 3 tipos de uso. Outros aspectos como a maleabilidade, a durabilidade e a forma como envelhecem (ficar grossa e dura como um carapau ou manter-se maleável!) só poderão ser apreciados com o tempo e no terreno Assim, em função do uso pretendido e claro está, do preço, estaremos agora em condições de seleccionar a melhor corda.

Na mítica Astroman (Washington Column, Yosemite, E.U.A.) as cordas duplas permitem uma eventual retirada caso os off-width se mostrem demasiado assustadores

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Tabela Comparativa Tendo em conta as principais marcas de cordas existentes no mercado português, seleccionámos cinco modelos de cada marca, cujas características principais se encontram resumidas no seguinte quadro.

Modelo

Beal

www.beal-planet.com

Diâmetro

Tipo

Peso/Metro

Força de Choque

Quedas UIAA

Joker

9.1 mm

53 g

8.2/6.0/9.5 KN

5/20/>25

Flyer II

10.2 mm

64 g

7.4 KN

9

Ice Line

8.1 mm

42 g

4.9 KN

7

Cobra II

8.6 mm

48 g

5.1 KN

16

Ice Twin

7.7 mm

37 g

7.4 KN

15

Kite

9.2 mm

55 g

8.7 KN

5

Osprey

10.3 mm

71 g

9.2 KN

9

Merlin

8.0 mm

44 g

6.7 KN

13

Kestrel

8.5 mm

48 g

6.5 KN

16

Apus

7.8 mm

42 g

6.7/10.3 KN

8/20

9.2 mm

53 g

8.2 KN

5

Element

10.2 mm

69 g

7.8 KN

12

Oxigen

8.2 mm

42 g

5.2 KN

8

Dynamic

8.3 mm

48 g

5.8 KN

10

Duolight

8.0 mm

42 g

9.0 KN

16

8.9 mm

52 g

9.5 KN

5

Supersafe

10.2 mm

69 g

8.8 KN

11

Phoenix

8.0 mm

41 g

6.0 KN

7

Genesis

8.5 mm

48 g

6.0 KN

12

Twilight

7.5 mm

38 g

9.9 KN

15

Duran

10.4 mm

69 g

9.1 KN

9

Accord

8.2 mm

43 g

9.7/6.3 KN

15/5

Gemini

7.9 mm

39 g

8.3/5.7 KN

16/5

Master

9.2 mm

53 g

6.8 KN

5

Ambition

10.2 mm

66 g

8.0 KN

13

Master

7.8 mm

38 g

8.5/5.7 KN

17/6

Ambition

7.9 mm

40 g

8.0/5.6 KN

17/6

Master

8.5 mm

48 g

8.0/5.5 KN

17/10

Edelrid

Única Corda Certificada para os 3 usos

Corda com força de choque mais baixa do mercado

Corda gémea mais leve do mercado

www.edelrid.de

Performance

Edelweiss www.edelweiss-ropes.com

Serenety

Mammut www.mammut.ch

Singing Rock

www.singingrock.com

9.2 10.2

Tendon

7.8

www.mytendon.com 7.9

8.5

O primeiro modelo apresentado de cada marca corresponde à corda simples mais leve, seguindo-se depois um modelo também de corda simples, polivalente e robusto. Seguem-se depois as duplas mais finas e uma dupla mais robusta e por fim as cordas gémeas. As informações apresentadas são as divulgadas pelos fabricantes.

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Corda simples mais fina e leve do mercado


Lorna Illingworth numa ascenção no dia à The Nose (El Capitan, Yosemite, E.U.A.). A corda simples não permite uma descida dos quase 1000 m desta via, mas facilita a subida em “jumares” ao segundo de cordada

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Galeria Fotogrรกfica


Aos 6000 metros, no campo I, a Daniela e eu aguardávamos por uma oportunidade para iniciar a nossa tentativa ao “Esporão dos franceses”, no Gasherbrum II (8.035 m), uma via apenas repetida duas vezes. No entanto, a presença do jet-stream adivinhava ventos ciclónicos em altitude, fácilmente reconhecíveis sobre o Gasherbrum I. Teriamos de esperar mais uns dias para tentar realizar o nosso sonho. 71

Colecção de Daniela Teixeira e Paulo Roxo


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Galeria Fotogrรกfica


Nuno Pinheiro em Dezembro de 2007 ensaia a “Morte em dois actos”, um 3º largo de 7a+ em Sesimbra. Esta via ficou tristemente conhecida por ter sido o local da morte do maior equipador português, uma velhinha Hilty que furou Portugal (e Espanha) de cima a baixo e de trás para a frente. Em homenagem a via ficaria sem a ultima protecção e um runout generoso. 73

Fotografia: Rui Pereira


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Galeria Fotogrรกfica


Speedriding: uma modalidade recente que mistura o parapente e o ski usando asas especiais. Nesta foto, Yoan Castagnoli, um jovem local, voa para a vit贸ria desta manga de freeride da Samoens Speedriding Cup 2010, surpreendendo tudo e todos ao pulverizar os dois favoritos.. 75

Fotografia: Pedro Pimentel


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Galeria Fotogrรกfica


Mário Inocêncio numa passagem de ano em Albarracin atira-se a um bloco completamente ao seu estilo. Entretanto e hoje em dia, este ex-vidrinhos, já não tomaria um tecto como este por uma placa vertical onde julgava estar-se a meter. Para o caso o grau do bloco é irrelevante. 77

Fotografia: Rui Pereira


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Galeria Fotogrรกfica


Rodrigo Ramos (a.k.a. Guga) em maio de 2008 e a entrar no crux de um 7b+ de nome impronunciável em Zillertal (Áustria). Nesta tentativa à vista a gravidade venceria o escalador, a razão/desculpa: não é fácil passar dos extrapumos de calcário cheios de puxadores de Rodellar para o estranho e desconcertante gnaisse de Zillertal. 79

Fotografia: Miguel Catita


HumorRoxo Por Paulo Roxo

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Vertigem Mag Nº2 Novembro/20101