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Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicanálise Av Cristiano Machado nº 640 Sala 1501. Sagrada Família. Belo Horizonte – MG CEP.:31030-514 Telefax: (31) 3241-2042 www.nepp.com.br

Revista de Psicanálise Ano 1 – Número 1 – MAIO 2013


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PESQUISA REALIZADA PELA EQUIPE NEPP - NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICANÁLISE

EQUIPE: - Rosiane Cláudia da Silva – Psicanalista Clínica – Pedagoga – Coordenadora de cursos e projetos - Valéria Maria Porto Trinchero – Psicanalista Clínica – Pediatra – Hebiatra - Diretora Clínica do NEPP

Supervisão Geral: Prof. Sérgio Costa – Psicanalista Clínico e Didata – Presidente do NEPP

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POLÍTICA, TELEVISÃO, RELIGIÃO E CRIMINALIDADE Prof. Sérgio Costa

Estes são os meios de que dispõe o capitalismo para tomar o lugar que está desocupado no ator social? (vazio) Quando falo deste lugar desocupado e vazio, tenho que pensar em duas ordens de grandeza que sempre mexem com o ser humano: espaço e tempo. E o que mais chama a minha atenção no trabalho clínico é a ordem crescente da inibição. Uma vez essas energias retidas e represadas no ego do sujeito, é criada a angústia e essa angústia é traduzida em sintomas. No governo Fernando Henrique muito se falou e criticou o neoliberalismo, movimento vivido por volta de 1665, com mais intensidade na Inglaterra, e que fez com que a Europa, em 200 anos mais ou menos, tivesse um impulso muito grande em todos os setores, com uma diferença que, na Alemanha, o romantismo e o nacionalismo fizeram com que o povo alemão desse uma contribuição muito grande ao teatro, filosofia e, uma tremenda arrancada nas

pesquisas e desenvolvimento do conhecimento psíquico humano. Anos depois, na França, havia um movimento político muito grande contra a igreja católica, principalmente dos representantes da área da saúde mental. A política para uma arquitetura da instauração e implantação da patologia da histeria. Os líderes deste movimento Charcot e Gambett inspiraram o jovem médico Sigmund Freud, que em 1927, escreveu o texto “Sintoma, angústia, inibição”. A Europa passava por grandes momentos de angústia e inibição e tinha, como sintoma, uma massa de pessoas sofrendo de uma moral sexual civilizada e como resultante: “doenças mentais modernas” (vol. IX).

Brasil: 2000 Um povo inibido, com medo, tenso. Um verdadeiro “mal-estar. Nos anos 90, o Brasil atinge o ápice muito forte de dúvidas, por uma massa de informações e um arco-íris de possibilidades e desajustes na política e na religião. Fernando Collor de Melo, mexendo na energia instintual de seu povo, causou um grande desequilíbrio

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gerando um desafeto, confiscando o dinheiro dos brasileiros. Foi punido o nosso pai totêmico, por ter traído o tabu de mexer naquilo que os seus filhos mais esperavam que ele controlasse. Daí o aparecimento dos jovens carapintadas, uma nova geração de brasileiros...(totem e o tabu) evidenciando assim, a punição de sua transgressão. A política Fernando Henrique acalma o coração do povo(...). Desperta de novo o sabiá, o boitatá, o uirapuru. Morre a andorinha. Conclui-se assim, através desta metáfora, a possibilidade de um equilíbrio na ordem social. Movimentos MST, CUT, PT, como urubus, atacam e promovem um ritual macabro de desestabilização do psiquismo do nosso povo, gerando medo e instabilidade. Sexo, drogas, criminalidade, com seus comandos especializados e bem preparados, tomando conta de um país. Um Estado-mãe omisso. A mídia jogando as informações no ar, de uma forma isolada e congelada, sem uma abordagem sociológica e sem uma seqüência dos porquês dos fatos ocorridos, nos deixando com calafrios de medo das notícias. Leva-me a pensar em uma política de guerrilha para

desestabilizar a situação. Como governar? Uma classe média oprimida. E as religiões se alastrando como erva daninha. Analfabetos sendo ordenados em massa, enquanto a igreja católica assiste em estado de estupor, as conseqüências dos seus erros do passado, e o seu declínio. Movimentos de mulheres, mães, donas de casa, profissionais, esposas..., na busca da realização de seu sexo (gozo), desejo inerente ao ser humano. Brigas entre as igrejas de todas as denominações(...), e o que é pior: em nome de Deus. “Irmão só ajuda irmão”. A TV, uma máquina forte, interfere na nossa intimidade tendo, na mídia, o marketing influenciando e fabricando “Feiticeiras e Tiazinhas”. Sexo... princípio do prazer(...). O Estado aumentando impostos, taxas de telefonia, aumento de combustíveis, falta emprego(...). Uma política acabando com os setores de saúde e educação. Anarquia total entre duas forças poderosas massacrando o ego do povo brasileiro que está sem norte. Igrejas de todas as denominações disputando adeptos. A religião se encontra num enorme mercado pessoal. Monique Evans, em entrevista para uma revista, diz que seu programa sobre sexo

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(sacanagem pura) é abençoado pelo Deus da sua igreja evangélica. Cultos satânicos nascendo; cultos à maconha em festas de hotéis fazenda. Política, narcotráfico. O marketing do demônio para vender Deus. Os bandidos na mídia a toda hora dominando o mundo, mesmo dentro de presídios de segurança máxima, tornando a criminalidade um poder paralelo tão forte quanto o Estado. As multinacionais manipulando os preços dos remédios, mesmo contra a política de preços do governo. A desestruturação da família, a fomentação das doenças mentais. Hoje, poderia se dizer que os profissionais da área da saúde mental são meros repetidores de Freud sobre o mal estar na comunicação(...). Mas venho alertar, que até a própria psicanálise está em crise. Uma teoria que resiste a mais de cem anos, e que hoje é disputada em tribunais por aqueles que bebem em suas águas e que também a depreciam, até pela própria linhagem de Sigmund Freud, sua neta Sofia Freud, psicóloga, a qual não poupou palavras depreciativas contra o avô, no seu artigo publicado na revista, “Superinteressante”, em janeiro de 2003.

O Brasil está vivendo qual filosofia? Qual política? Continua repetindo “Entradas e Bandeiras, colônia de exploração?” Quem não virar “irmãozinho”, não tem mais chance no mercado de trabalho? Nós temos que ser a cara do nosso país? Um povo sem cultura, um povo analfabeto, um povo sofrido? Um povo visto no mundo todo como o povo do “jeitinho”? Os esmoleiros? Saltimbancos com os movimentos radicais? Até quando vamos viver a lenda de marketing “Robin Wood”? Agora, a grande pergunta especulativa feita por Machado de Assis em 1881, em “O Alienista”, que já vislumbrava o futuro do Brasil: “A grande casa verde?” A casa dos doidos(...)?

PODERÍAMOS PENSAR EM UM MAL ESTAR NA CIVILIZAÇÃO? Rosiane Cláudia da Silva

No meu modo de entender, a agressividade vem se alastrando no momento em que o indivíduo, enquanto ator social, não tem, bem definido, o seu papel social qualificado. As

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normas sociais não são impostas de modo claro e definido. Com a perda dos rituais e a maldição imposta pela superação das normas do totem pelo pai totêmico, os seus filhos caem em desgraça (...) e se tornam proscritos. Até porque o estado de bem-estar social, caracteriza-se exatamente pela oferta de bens e serviços destinados a proteger o indivíduo, mesmo que precariamente, de uma dependência absoluta em relação ao mercado e à capacidade de provisão da família, assegurando aos cidadãos, graus distintos de segurança e bem-estar nas várias etapas do ciclo de vida. O Brasil é vítima de suas próprias relações psíquicas burguesas e do tripé: líderes religiosos, líderes políticos, empresários; só estes levam vantagem em tudo, não tendo medidas para os seus desejos e o não reconhecimento das suas funções de pais totêmicos e, por conseguinte, os seus atributos para com os demais sujeitos do cenário social. RE-NASCIMENTO E RECONHECIMENTO DO PAI: QUAL PAI? PAI BIOLÓGICO OU PAI SOCIAL?

Um novo nascimento para a paternidade, um “renascimento” do Pai? É necessário. Um reconhecimento de suas funções e de seu papel, reconhecimento sociológico (objetivo, factual) e moral (subjetivo, nutrido de gratidão)? É recomendável. Um reconhecimento biológico (nos casos de crianças abandonadas, adotadas, órfãs)? É discutível e discutido. Tocamos aqui a angústia existencial crucial da condição masculina: a incerteza da paternidade. A mãe, radiosa porque “realizada” assim que se torna mãe, desconhece tal angústia. O laço paterno, pareceme, jamais poderá ser, no plano físico, tão carnal, tão intenso, tão profundo quanto o laço materno. “Em nenhum momento, os homens experimentaram a sensação física de “gerar um filho”, ainda que, certamente, tenham ajudado a concebê-lo... mas, no fundo, nem tiveram a sensação de o “gerar” – exceto, mais tarde, psicológica e socialmente, enquanto pai “social”.” UMA REVOLTA PARA A FUNÇÃO PAI

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Que estranho encaminhamento levou, além das exigências do trabalho científico e da objetividade sociológica, uma ardente e antiga militante da causa feminista a tomar a defesa dos homens, vítimas do “avanço” dessa causa, desses múltiplos pais condenados a viver uma experiência cruel de solidão moral, enquanto seus filhos são tirados de sua afeição pela ação conjungada das mães emancipadas e dos juízes impregnados de estereotipias ultrapassadas? Por um lado, certamente, o destino infeliz desses pais ejetados, desestabilizados, desvalorizados, e os efeitos nefastos de sua exclusão da tríade parental sobre o desenvolvimento dos filhos, e por outro lado, o interesse das próprias mulheres: “se vocês não reintroduzirem os pais no circuito, estarão contribuindo para a pauperização acentuada das mulheres, para a sua solidão e vulnerabilidade irreparáveis”. Sem dúvida, os homens não gostarão muito que seja desvelada sua impotência, sua derrota, o fim de suas ilusões. Alguns se queixam de estarem destronados. Suas queixas não encontram eco na

mídia, pouco preocupada em defender a antiga ordem. Alguns, mais conscientes e menos numerosos, tentam organizar a resistência e criam “centros para homens”, ou “centros de crise para homens”, sinal de que está chegando uma nova consciência e, talvez, uma revolta organizada contra os excessos da liberação da mulher. Liberação, aliás, legítima. Quanto aos outros homens, a maioria, reagem através da indiferença, da incredulidade, da desconfiança. Assim, para além da revolta contra o pai e através de uma possível revolta dos pais, o renascimento do pai e o reconhecimento dos pais, em suas funções específicas, deveriam aparecer como sendo o “coroamento feliz da luta das mulheres pela igualdade e a garantia contra a solidão das mães”. Que a dor do “desligamento” conjugal possa dar lugar, pouco a pouco, ao termo de um trabalho adulto de luto, e graças a uma vontade vital de renascimento, ao sentimento de uma “nova aliança” entre os amantes desunidos, no interesse dos pais excluídos, nos interesses das mães abandonadas, mas,

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acima de tudo, no real interesse dos filhos “fragmentados”. E que então a fórmula “tal pai, tal filho”, tornando-se “tais pais, tais filhos”, seja encarada como a expressão de um otimismo razoável, que pode ser enxergada com mais clarividência em DIREITO DE FAMÍLIA.

DIREITO DE FAMÍLIA E PSICANÁLISE Texto Pesquisado e desenvolvido pela equipe do Nepp

“Para a Psicanálise a sexualidade é a ordem do desejo. Pode o Direito legislar sobre o desejo, ou será o desejo que legisla sobre o Direito? Afinal, se há uma norma é porque a ela se contrapõe um desejo. Os Dez Mandamentos só foram criados por existirem aqueles dez desejos, ou ainda, “o Direito só existe porque existe o torto” (Giorgio Del Vecchio). “Devido ao limite deste trabalho, deter-me-ei a dizer de algo que advém de uma práxis como advogado na área do Direito de Família e da observação e escuta de mais de quatorze anos de casais separados e histórias de constituição e desconstituição

de famílias. Assim, ao invés de trazer as teorias, os fundamentos de uma e de outra, ou a interlocução possível, falarei de sua aplicabilidade no campo do Direito de Família”. “O advogado familiarista depara-se constantemente com problemas que transcendem os elementos meramente jurídicos. Muitas vezes o conflito não é somente dessa natureza, embora aparente sê-lo. É necessário perceber o texto e contexto do conflito, a linha e a entrelinha do litígio. Se atentarmos para a mensagem inconsciente, que nos chega pelo discurso das demandas que geram conflitos, poderemos desenvolver melhor nossa atuação como advogados.” “Influenciado por grandes mestres do Direito, como Giorgio Del Vecchio, Kelsen, Pierre Legendre, Caio Mário da Silva Pereira, João Baptista Villela, dentre outros, passei a buscar no ato de advogar algo que pudesse dar respostas mais eficientes e eficazes para a solução dos conflitos. Observei que nas demandas objetivas e concretas que me chegavam, algumas coisas não eram ditas. Não que eles não tivessem consciência. Havia algo inconsciente, não dito.” “A Psicanálise remeteume a elementos e a

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instrumentos que ampliaram e fizeram-me entender melhor o objeto do meu trabalho: o discurso do meu cliente, Freudianamente, é escutar o que está por detrás do discurso, ou como Lacan, o que está entre o dito e o por dizer”. “Antes de pensar na aplicabilidade do pensamento e da técnica psicanalítica na vida de um advogado familiarista, é preciso retomar o conceito de família”. “Para o Direito, o conceito de família esteve sempre ligado a dois elementos fundamentais: consangüinidade e casamento formal e solene. Mas a realidade nos tem dado outra noção de família. Primeiro, porque o elemento da consangüinidade não é fundamental para a sua constituição, pois se fosse não seria possível no Direito o instituto de Adoção. A esse respeito João Baptista Villela muito bem já o demonstrou, em seu trabalho publicado em 1979, sob o título A Desbiologização da Paternidade. Segundo, porque o casamento não é mais a única forma de constituição de família, conforme diz o art. 226 da Constituição Federal: pela união estável (concubinato), pelos pais e seus descendentes.”

“Mas a questão da família vai além de sua positivação nos ordenamentos jurídicos. Tanto é que ela sempre existiu e continuará existindo, desta ou daquela forma, em qualquer tempo ou espaço. O que muda é apenas as formas de sua constituição. Talvez, a partir do momento em que os juristas e julgadores entenderem a família sob um conceito mais amplo, a legislação que a regulamenta não sofra tantas modificações, como vêm ocorrendo nos últimos tempos. As ordenações sobre Direito de Família nunca mudaram tanto em tão pouco tempo. É preciso entendê-las acima da história, já que é uma instituição que atravessa o tempo e espaço: é a célula básica da sociedade e está aí desde os primórdios.” “Se buscarmos em outras disciplinas o conceito de família, veremos que ela se apresenta também de variadas formas: patriarcal ou matriarcal, poligâmica ou monogâmica, como grupo natural de indivíduos unidos por uma dupla relação biológica, que por um lado, a geração dá os componentes do grupo, e por outro, as condições de o meio e desenvolvimento dos mais novos, mantendo este grupo, enquanto os adultos garantem a sua reprodução e manutenção.”

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“Mas será mesmo a família uma organização natural? O que verdadeiramente mantém e assegura a existência da família? Será a lei jurídica associada ao afeto e aos laços de consangüinidade?” “Para o psicanalista francês Jacques Lacan, a família não é natural, é cultural. Por isso é que ela se apresenta das mais variadas formas, de acordo com as diferenças culturais. Para ele, a família não se constitui apenas de um homem, uma mulher e filhos, ainda que casados solenemente. Ela é, antes de tudo, uma estruturação psíquica, onde cada um de seus membros ocupa um lugar definido. Lugar do pai, da mãe e dos filhos sem, entretanto, estarem necessariamente ligados.” “Tomando a idéia de Lacan e de Villela, e atrevendome a divergir dos conceitos mais estáveis em Direito, posso dizer que a família não é natural. É cultural. Ela não se constitui de um macho, de uma fêmea e de filhos. Ela é uma estruturação psíquica, onde cada membro tem um lugar definido. Para se ocupar o lugar do pai, da mãe e do filho, não é necessário laço biológico. Da mesma forma, a mãe ou o pai biológico podem ocupar este

lugar no momento em que entregam o filho para ser adotado, por exemplo. Pode ser também que, não obstante os laços formais e de consangüinidade, o pai ou a mãe não ocupem, por alguma dificuldade interna, o lugar de pai ou de mãe, tão necessário (essencial) à nossa estruturação psíquica e à nossa formação como seres humanos e sujeitos. Apenas para ilustrar, um canil, com macho, fêmea e filhotes, jamais constituirá uma família, embora naturalmente unidos, pois falta-lhes justamente a passagem da natureza para a cultura. Os cães podem até ter uma “certa inteligência” (escolher caminho mais curto para chegar ao alimento, por exemplo), mas são incapazes de reconhecer o erro. Para isso seria necessário o “simbólico”. Esse passo para o simbólico, só o homem deu, e é justamente isto que nos diferencia dos outros animais e que nos permite constituir uma família, ou melhor, compor uma estruturação familiar.” “É uma estrutura familiar, que existe antes e acima do Direito, que nos interessa investigar. E é mesmo sobre ela que o Direito vem, através dos tempos, tentando legislar com o intuito de ajudar a mantê-la para que o indivíduo possa existir

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como cidadão, pois sem essa estrutura onde há lugar definido para cada membro, o indivíduo seria psicótico. É aí que se estrutura o sujeito e estabelecem-se as primeiras leis psíquicas. Quando estas se ausentam, faz-se necessária a lei jurídica para sobrevivência do próprio indivíduo e da sociedade. Em outras palavras, quando a estrutura familiar não é capaz de se sustentar na originalidade em que foi constituída, a lei jurídica pode vir em seu socorro.” “Por mais que o Direito, através de suas normas, tente alcançar o justo e o equilíbrio das relações familiais, há algo que lhe escapa, algo não normatizável, pois essas relações são regidas também pelo inconsciente. Freud, em seu texto de 1915, O Inconsciente, faz a indagação: ‘Como devemos chegar a um conhecimento do inconsciente? Certamente, não só o conhecemos como algo consciente, depois que ele sofreu transformação ou tradução para algo consciente(...)’. “Para ele, o inconsciente se manifesta em atos que poderíamos considerar os mais banais: palavras, ditas distraidamente, sem que quiséssemos dizê-las, ou em

lugar de outras; esquecimentos; lapsos; atos falhos e outros atos que, trazidos à consciência, denunciam algo do inconsciente. Por exemplo, esquecer o número do telefone ou perder o endereço do advogado; demorar a levar a documentação necessária; esquecer a consulta; dizer um nome em lugar de outro, etc.” “Mais tarde, Lacan veio demonstrar e afirmar que ‘o inconsciente é estruturado como a linguagem’. Mas não há espaço aqui, nos limites deste trabalho, para tecer maiores considerações e teorizações sobre definições do inconsciente. Interessa-nos entender, ainda que grosso modo, como ele funciona e qual a sua influência no discurso de nossos clientes. Nós trabalhamos com o discurso, com a linguagem. Daí precisarmos nos escutar. Nós, advogados de família, somos também profissionais da escuta, assim como os psicanalistas.” “Se fizermos uma leitura atenta de um processo de separação litigiosa, por exemplo, poderemos constatar que toda a discórdia ali encobre fatos. É uma relação de amor e ódio mal resolvida, ou mal começada, que aparece no discurso objetivo, consciente, através daquela manifestação.

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Basta raciocinarmos que, em geral, o motivo pelo qual se litiga é sempre patrimonial, material e, portanto, “objetivo”. Sendo assim, bastaria às partes raciocinarem fria e objetivamente para solucionarem o litígio. Isso geralmente não acontece, porque questões afetivas e de outra ordem estão misturadas àquilo que deveria ser objetivo e prático. Um processo de separação deveria ser visto sob dois ângulos ou em duas partes: uma objetiva e concreta e outra afetiva. O nosso trabalho deveria ser, então, pontuar essa mistura, a confusão estabelecida pelas partes. Obviamente, isso não é tão simples, pois as razões apresentadas para litígio, na recepção das partes, estão, além de contaminadas pela emoção, geralmente encobrindo um outro discurso. O nosso trabalho deveria ser desmontar o discurso da aparência para que surja o verdadeiro motivo do litígio. Não é mesmo simples, pois há interesses e toda uma cultura jurídico-processual de cultivo por trás do fato.” “Neste sentido, a lei 8.408/92 veio fazer intervenções. Estabeleceu que as partes poderão requerer a separação judicial pelo decurso de prazo de um ano, ou seja,

não há mais que se falar em culpa na separação sem mencionar culpa. As pessoas não precisarão mais revelar ao Estado sua intimidade. Essa conquista é uma grande evolução, já que apresenta os motivos justificadores de uma separação. Segundo a enumeração da lei, nem sempre era viável, pois na maioria das vezes, era impossível de se provar. E na realidade, os verdadeiros motivos de uma separação não são aqueles elencados pela lei. São na verdade, motivos aparentes. Por exemplo: se aparece uma terceira pessoa em uma relação conjugal, isto pode não ser a verdadeira causa da separação, mas a conseqüência de um relacionamento que já deixara espaço para isso e que apresentava sinais de deterioração. As agressões físicas, da mesma forma, se acontecem é porque algo já está ruído, mas não constituem propriamente a causa. Com essa lei, vemos uma tendência do Estado de afastar-se das questões de foro mais íntimo, ao estabelecer separação sem culpa, que, aliás, é o que vêm ocorrendo nos mais avançados ordenamentos jurídicos. Certamente já se percebeu que os verdadeiros motivos de uma separação não são aqueles

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elencados pela lei, mas algo mais remoto e mais profundo entre os sujeitos.” “É como dizer-se que, embora o casamento não esteja indo bem, ‘não vou me separar por causa dos filhos’. Isto, além de um preconceito em relação à separação, é uma grande mentira para si mesmo. Ora, separar é muito difícil e só se faz em último caso e às vezes nem mesmo em último caso. É difícil assumir o desejo de se separar. Muitas vezes acaba-se mantendo a aparência do casamento. Estabelecem-se relações extraconjugais, paralelas, para suportar a relação oficial. Ora, os filhos são meras desculpas. É o discurso consciente sobrepondo-se ao desejo inconsciente. Numa análise rápida da situação, percebemos que os filhos estarão melhores à medida que os pais estiverem melhores: juntos ou separados. O divórcio pode ser sempre um mal menor.” “Uma outra observação para nossa reflexão é a incômoda situação de atuarmos como advogados das duas partes separantes. No que não se possa sê-lo. Mas quando há pendências a serem discutidas com a ajuda do advogado, ficamos sempre ensejando fantasias, em ambos, de que

estamos inclinando mais para um ou outro. Verdadeiro ou não o fato de inclinar-se mais para um lado, é muito mais cômodo aos clientes entenderem que o que não lhes agrada é o advogado. Muda-se então de profissional. Não é raro as pessoas ficarem trocando de advogado, sempre deslocando a responsabilidade da nãoseparação ou do litígio para os profissionais. É muito mais fácil achar que a culpa ou a responsabilidade de não chegar a um acordo é do advogado. Enquanto isso, se mantém a relação prazerosa da dor.” “Como Freud observou, as relações sociais mais íntimas são justamente as que mais estão sujeitas à eclosão de conflitos. Amor e ódio, por exemplo, nem sempre são excludentes. Eles apenas se polarizam. Nós amamos e odiamos. Assim é a natureza humana, assim são os vínculos familiais. É certo que a família hoje está diferente. A sua transformação é a reivindicação de ampliação do espaço de liberdade das pessoas.” “Como vimos, as relações familiares são intricadas e complexas, pois comportam elementos objetivos (jurídicos e normativos), afetivos e inconscientes. Perceber as sutilezas que as entremeiam é

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transcender o elemento meramente jurídico, para resolver de maneira menos traumática, mais rápida e menos onerosa os problemas que nessa área nos são apresentados. Nós, advogados familiaristas, precisamos ter uma outra escuta, perceber além do meramente jurídico, para que possamos, como

profissionais, contribuir para a melhoria das relações humanas.” Neste contexto temos que observar a família e seus comportamentos. Tomemos alguns dados de época de manifestações de programas de TV que influenciaram a família:

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“A regra eficiente é o pecado” Anos 60 Nas alternativas do mundo moderno, qualquer forma de controle é ineficaz. É curioso como as três instituições básicas: a sociedade familiar, empresa e Estado caminham na direção de um pacto, passando a vigorar o conceito cidadania. Filhos, funcionários e cidadãos: os compromissos recíprocos passam a substituir a visão primitiva.

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“Sou do tempo que...” Anos 70 Grávida não usa biquíni, hoje ela dita a moda. O alarde em torno da mulher desquitada converteu-se hoje, em naturalidade total. O discurso e as palavras sempre estão em avanço se comparados com as atitudes reais.

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“Uma família em transição” Anos 80 Educar filhos sem os erros dos pais; mas não é fácil. A frenqüência da família católica na igreja do bairro também escasseou. A dificuldade da busca de valores.

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“Por um pouco de trauma” Anos 90 Agir de forma espontânea, falar, conversar e ter abertura. Ressurgimento do tradicionalismo nas relações familiares. Dúvidas e indecisão.

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“Hans Kelsen (18811973), apesar de inicialmente, apontar em seus trabalhos a distinção entre a teoria pura do Direito e a especulação psicossociológica, mais tarde concebe a soberania do Estado em termos da Psicanálise de Freud, seu contemporâneo. Pelo menos é o que registra em seu texto, O Conceito de Estado e Psicologia Social, onde a todo instante faz referências aos textos de Freud, especialmente Totem e Tabu, Psicologia das Massas e Análise do Ego. Também em sua última obra, Teoria Geral das Normas, em que reformulou alguns conceitos, traz uma importante contribuição para a aproximação Direito e Psicanálise quando, investigando sobre a origem das leis, remete-nos a um regressum infinitum, onde cada norma é determinada por uma norma superior, deparando-se com fictio como origem, como a primeira lei do Pai (non du père). Não estariam Freud e Kelsen falando de uma mesma lei? A lei jurídica e a lei ‘psicanalítica’ não se entrecruzam ou têm uma mesma origem?” Cito também o texto Criminalidade por Sentimento

de Culpa (1915). Hoje está a delinqüência, a cada dia mais cedo, na realidade dos jovens. O intercâmbio e as misturas entre ficção e realidade são constantes e têm limites, muito ambíguos. Os programas de televisão têm que ser revistos no caráter ético, filosófico e político, principalmente nas telenovelas para a pré-adolescência e adolescência, que são significativos. A equipe do Nepp, após ter levantado estas questões e convidada por algumas escolas de Belo Horizonte para ministrar palestras para pais e mestres, notou uma maciça presença de jovens atentos e participativos com perguntas sobre tais fenômenos que estamos vivendo. Entrevistamos 180 jovens e levantamos alguns problemas de ordem social que estão interferindo no psiquismo humano. A partir daí forjamos algumas questões que o Estado não pode fugir em tentar resolver. E a Psicanálise, com seu cunho de movimento político, através do Nepp, tenta dar a sua contribuição com esta pesquisa e a realização da

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última jornada que abordou tais questões.

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PERFIL DA FAMÍLIA MINEIRA A PESSOA MAIS IMPORTANTE DA FAMÍLIA 74% 66%

48% 47%

MÃE

34%

PAI IRMÃS IRMÃOS AVÓS/AVÔS

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ASSUNTOS QUE CONVERSAM COM OS PAIS

PERFIL DA FAMÍLIA MINEIRA 28% 29%

MÃE

PAI

29% 27%

26% %

24%

20% 21% 19%

19%

18% 15%

16%

15%

14%

12% 11% 9%

DOENÇA

DINHEIRO

RELIGIÃO

NOTICIÁRIO

VIZINHOS

POLÍTICA

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FUTEBOL

MÚSICA

8%

NOVELA

6%

SEXO


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PERFIL DOS FILHOS PÚBLICO PESQUISADO - 180 JOVENS VIDA EM COMUM

53%

51% 49%

24% COMPANHIA

23%

UNIÃO

DISPUTAS ENTRE IRMÃOS

48% 30% 22%

BRIGAS DESOBEDIÊNCIA PROBLEMAS FINACEIROS

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VIVERIA SEM OS FAMILIARES, MAS SENTIRIA FALTA NÃO VIVERIA SEM ELES VIVERIA SEM SENTIR FALTA DA FAMÍLIA


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PERFIL DA FAMÍLIA MINEIRA / VIDA EM COMUM VANTAGENS

DESVANTAGENS

FAZEM REFEIÇÕES 75%

65%

51%

50%

35% 25% União

Companhia

BRIGAM POR... 52%

Desobediência

Problemas Financeiros

TV Ligada

Conversando

Viveria sem os familiares, mas sentiria falta deles.

48% 53% 44% Bagunça

Não poderia viver sem eles.

06% Poderia viver sem sentir falta deles.

Desobediência dos filhos

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A IMPORTÂNCIA DO PAI NA FAMÍLIA 80% 60% 50%

50%

40%

20%

NO EQUILÍBRIO CONTROLE DA SOBRE OS FILHOS

66%

DO MÃE

PORQUE BRIGAM : DINHEIRO PARA LAZER

IMPÕE RESPEITO NA FAMÍLIA

FILHOS

70% 60%

FILHAS 40%

34% 30%

SEGURÂNÇA FINANCEIRA

MÃE FAZ NO LAR

FALTA

MÃE FICA DISPONÍVEL

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O QUE É CONDENADO NO COMPORTAMENTO: MÃE/PAI

TRAIR O PAI BATER NA MÃE

65%

NÃO DAR FAMÍLIA

35%

ATENÇÃO

A

NÃO SUSTENTAR A FAMÍLIA SUSTENTAR FAMÍLIA

25% 15%

OUTRA

TRAIR A MÃE COM OUTRA

10% NÃO CUIDAR DA CASA

Revista de Psicanálise Ano 1 – Número 1 – MAIO 2013


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“A Psicanálise simplifica a vida. Ela fornece o fio que conduz o homem para fora do labirinto”. Sigmund Freud

RESENHA DA JORNADA NEPP Prof. Sérgio Costa

O NEPP veio com a seguinte proposta para essa jornada: “Chamar a atenção da sociedade para o inconsciente e suas manifestações”. Já há algum tempo, nossa equipe vem desenvolvendo uma pesquisa sobre o inconsciente e suas manifestações no sujeito como ator social no seu meio. A necessidade de invadir um lugar proibido ou sagrado, ou até mesmo visto como um rompimento de um rito, é interpretado simbolicamente na semiótica da Psicanálise, como forma de neutralizar sentimentos de inferioridade, e uma capacidade de superar leis, porque as leis não estariam sendo cumpridas pelos seus mandatários. Mas a mídia que transmite os absurdos em

horário nobre, levando os adolescentes a verem maciços fatos em forma espetacular, sem sua historicidade; manchetes de jornais com chamadas em recorte, congelando e ignorando a complexidade do crime cometido pelo sujeito (...); os registros são feitos de forma generalizada, sem escala de valores. Não há registros de punição e retenção dos impulsos nos mais jovens. Todas as características fisiológicas da idade são somadas a um novo modelo familiar, onde a figura da autoridade paterna está sendo ejetada dos lares, criando-se um sentimento de abandono e uma raiva muito grande por se sentirem rejeitados. Freud, em seu trabalho intitulado “Delinqüente por Sentimento de Culpa” (1915), comenta: “certos indivíduos experimentam um vago e torturante mal-estar – um sentimento de culpa, cuja causa ignoram e que só se atenua desde que, pratiquem um delito para que possam ser punidos”.

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Qual seria a origem desse sentimento de culpa que preexiste ao crime? Freud adverte que está no Complexo de Édipo, isto é, nos impulsos parricidas e incestuosos não devidamente superados pelo sujeito. A ação acusadora do superego atormenta o indivíduo. Então, para aliviarse, ele pratica o crime, logrando com isso, obter o duplo vínculo: o de descarregar através de atos e investidas de superação das leis ditadas pelas normas sociais suas pulsões edípicas e, ao mesmo tempo, o de atrair para si próprio, o castigo reclamado pelo superego. Um paralelo que eu gostaria de fazer, para poder provar esta premissa, é citando uma frase de Freud, na qual ele adverte que as crianças “são más” para provocar o castigo, e que uma vez alcançado isso, se mostram tranqüilas e contentes durante algum tempo. Constata-se, assim, que a delinqüência juvenil estaria dentro dos parâmetros dos produtos neuróticos dos conflitos edipianos (pulsão

inconsciente ao incesto, ao parricídio), onde seu olho de energia nascente teria uma data cronológica para o seu nascimento entre quatro e sete anos de idade. Poderíamos fazer um paralelo, que com freqüência a neurose substitui o delito e vice-versa, e a diferença entre um e outro, se encontra na direção que toma a descarga dos impulsos. Partindo dos fundamentos do inconsciente, parece possível deduzir que: 1. A violência é derivada dos impulsos do ID, por ser anti-social, fundamentado na lei de que ele é amoral, não permite derivação nem repressão alguma, e descarrega diretamente sob forma de crime, roubo, violação, etc; 2. De uma má formação do SUPEREGO que, coincidindo com um EGO utilitário e epicurista, dá lugar à execução hipócrita e dissimulada dos mesmos atos delitivos;

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3. A possibilidade da hipertrofia do SUPEREGO que cria no EGO um sentimento de culpabilidade, levando-o à realização do delito como meio autopunitivo e expiatório de suas tendências incestuosas infantis; 4. O ideal de EGO, como somatório, que averigua a realidade propiciando desconforto por não ter tido parâmetros de limites na infância, coloca o sujeito em cheque: “Quando vou ser eu? Porque eu não posso ser você? Só você como ‘outro’ tem competência para tanto?” Segundo Freud, o sentimento de culpa já existente no pré-consciente leva o indivíduo a realizar o delito, como resultado de subtrair algo que ele mesmo julga ser o “fatal destino”. A consciência de culpa pode resultar da reativação do remorso, em virtude do parricídio primitivo ou ainda, da persistência e impertinência, perseverantes

dos desejos incestuosos inconscientes. Em tal caso, o delito representa para o sujeito a sua libertação: quando descarrega tais impulsos e sofre os castigos impostos pela lei, sua sensação é de alívio. Algo análogo acontece nos delírios de autoacusação, e o portador de patologia mental de grande monta, pede aos gritos castigo e tortura (...). Nos delírios de perseguição o SUPEREGO se “exterioriza” e inflige à consciência do EGO, o castigo que sua individualidade merece, por sua perversidade préconsciente. Se às vezes o perseguido se torna perseguidor, comete o homicídio contra um inocente. Nós teríamos que repensar sobre os valores morais éticos, dos mecanismos reguladores das leis sobre os seus governantes e sobre a mídia sensacionalista. Assim também, do “Homem-Deus”, líder religioso que esquece as suas funções de homem “com Deus”, e se torna tirano e agente adoecedor (...).

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Cabe aqui, também, a lembrança do artigo de Freud datado de 1908, “Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna”: “Nossa civilização repousa, falando de modo geral, sobre a supressão dos instintos. Cada indivíduo tem que renunciar uma parte dos seus atributos a uma parcela do seu sentimento de onipotência ou ainda das inclinações vingativas ou agressivas de sua personalidade”. O vigor original e a velocidade do instinto sexual variam de indivíduo para indivíduo. Assim também, acontece com um quantum dessa energia que vai e pode ser equalizada pelo “ego”, através do mecanismo de defesa de sublimação. Em os “Três Ensaios para uma Teoria Sexual” (1905), Freud trata de uma questão capital para a educação, ao mostrar que o impulso sexual humano – a pulsão sexual – pode ser decomposto em funções parciais. Os programas de televisão e os noticiários vêm estimulando o imaginário do sujeito, com grandes cargas

de estímulos desconexos e seus filtros, mais a política da desestruturação familiar. Estes sujeitos se tornam atores sociais, que vestem os personagens que a mídia vende, e não vêem na justiça homens de alma (psique) imaculada que possam representá-la, para lhe ditar as égides da lei. Será que esta trama não seria um alerta para a sociedade, que está exalando o mau cheiro da deteriorização do pai totêmico que já está morto?! Em todos os poderes, nós temos conhecimento pela mídia, de corrupção e conluios de seus mais altos representantes. E é através da investigação da clínica psicopatológica que o psicanalista trabalha e enxerga os desvios, perturbações e anormalidades – “Como vaso de cristal quebrado”, como diz Freud em sua metáfora, onde chama a atenção para uma observação apurada no formato especial de cada pedaço da estrutura característica do cristal inteiro – os pedaços se quebram obedecendo às linhas de força determinadas pela

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disposição singular, estrutural das moléculas daquele vaso – Freud quis nos dizer que muito pode se saber sobre a estrutura psíquica, caso se estudem seus “desequilíbrios”, suas rupturas. E é com essa proposta que o NEPP se lança, corajosamente nesta pesquisa, para nos nortear sobre as possíveis moléculas e estruturas contaminadas que estão quebrando tantos vasos humanos... E só aí talvez, poderemos “juntar os nossos cacos para construirmos o nosso vitral” (Adélia Prado).

Glossário: Epicurista: partidário do epicurismo; materialista; que busca o prazer.

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ADOLESCÊNCIA, SOCIEDADE CIVILIZADA E VIOLÊNCIA Valéria Maria Porto Trinchero “Detrás de la mascara de uma adolescência difícil, esta el rosto de uma sociedade difícil, hostil y que no desea compreender” A. Aberastury

INTRODUÇÃO A adolescência é um processo que ocorre durante o desenvolvimento evolutivo do indivíduo, caracterizado por uma revolução biopsicossocial.No entanto, até o final do século XIX, a adolescência não era reconhecida socialmente pelos adultos como uma etapa do ciclo vital. Antes desta época, entendia-se que o indivíduo passava diretamente da infância à idade adulta, sem transitar por um estágio intermediário. Assim, podemos entender que a etapa denominada adolescência vem caracterizar-se como uma das idades da vida a partir do século XX.

No processo de desenvolvimento a puberdade é conceituada como a etapa de modificações físicas que levam à maturidade reprodutiva, enquanto que a adolescência é fundamentalmente psicossocial. São processos que ocorrem concomitantemente , porém as velocidades de maturação de cada setor são distintas e individualizadas . Apesar de o conhecimento humano ter evoluído em relação ao desenvolvimento biopsicossocial a essência do comportamento persiste graças a características pulsionais inerentes à espécie. Sigmund Freud, criador da psicanálise, vem sistematizar o que as religiões, a mitologia e os poetas tentavam explicitar : as vicissitudes da alma humana. Através das guerras, violência urbana ou a nível familiar, percebemos os impulsos agressivos de nossa espécie. A cultura vigente vem influenciar, dimensionar e caracterizar estes impulsos. Em nossa sociedade a vulgarização do privativo, a

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perda de referência entre o individual e o coletivo, a liberalização do comportamento sexual e a inesgotável violência urbana flagrada diariamente pela mídia fazem com que o homem, de certa forma, não difira, em sua essência pulsional, de seus ancestrais. A civilização, faz com que haja adequações da expressão da vida pulsional , através da tentativa de equilíbrio entre a satisfação instintual e as demandas do superego como instância reguladora parental e social. Devemos, entretanto, diferenciar os conceitos de agressão e hostilidade. Este último, provém do latim hostis, que quer dizer inimigo. A hostilidade carece da ambigüidade implícita no termo agressão, é sempre destrutiva ou ao menos tem a finalidade de destruição. É o sentimento concomitante e subjacente à violência . Assim, podemos definir violência como uma forca motivadora, um impulso consciente e inconsciente dirigido a causar dano. A violência não deve ser considerada como algo que herdamos e sobre o qual não

podemos fazer nada a respeito. A hostilidade excessiva pode ser considerada uma patologia transmissível de pessoa a pessoa, grupo a grupo, e basicamente no contato dos pais com os filhos, de geração a geração. O infante humano demanda grandes quantidades de amor e segurança e, através dos cuidados adequados de sua mãe, introjeta seus sentimentos de satisfação. A mãe limita a ansiedade num primeiro momento de vida, satisfazendo as necessidades e contendo as angústias de seu bebê. Não poderemos, então, separar afetos de limites. Mães superprotetoras ou negligentes acabam gerando filhos intolerantes à frustração, e pessoas intolerantes à frustração costumam tomar à força o que querem; assim, a violência substitui a satisfação do desejo de interação adequada, do cuidado com o outro tão vital ao ser humano no início de sua caminhada.

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ADOLESCENTE VIOLÊNCIA

E

Para compreender o adolescente violento temos que situá-lo em seu momento biopsicossocial. A adolescência começa com uma forma de “violência” produzida pela natureza, que são as transformações físicas da puberdade; diz-se que o adolescente é expectador e não ator de seu processo de crescimento. É também uma fase de profundas mudanças psicológicas, uma etapa de incertezas, de construção de identidade na qual deve se desligar de sua situação anterior infantil e, para tanto, ataca buscando limites externos que o contenham. Em nossa sociedade os adolescentes encontram uma enorme gama de escolhas, são livres para escolher entre as mais variadas religiões, deparam-se com diversos códigos morais, encontram-se frente a uma série de grupos diferentes com crenças diferentes e práticas diversas. Outras vezes, por medo antecipado do fracasso, buscam como identidade uma posição onde não haja o

perigo de fracassar, porque a identidade já é a do próprio fracasso (marginalidade, violência, fracasso escolar,...) Assim, a conduta violenta pode ser considerada como uma defesa ante ameaças externas e internas, numa fase de crise de identidade, durante o desenvolvimento dela mesma.

CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS DO ADOLESCENTE VIOLENTO O adolescente violento vê a si mesmo em um mundo ameaçador, suas experiências dolorosas anteriores (negligência, abuso, superprotecão) lhe ensinaram que o ambiente é hostil. A emoção fundamental é a desconfiança. Seus principais traços são baixa auto estima, excessiva desconfiança, tendência a justificar a violência, hipersensibilidade a proximidade física, “permissão” para ser violento (perante padrões parentais), baixa tolerância à frustração, dentre outros.

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Através de traços de temperamento como a impulsividade, a constante busca de novas sensações, a falta de controle sobre seus impulsos e desejos, percebe de forma equivocada as condutas dos demais, julgando como negativas suas ações.

O ENVOLVIMENTO FAMILIAR E SOCIAL A infância e a adolescência são períodos críticos e vulneráveis do desenvolvimento humano. Fatores como a hostilidade, os maus tratos físicos e psíquicos, influem negativamente também pelas situações conflitivas e depressivas que geram. Dentre os elementos “contemporâneos”, cogitados como causa do aumento da violência entre os adolescentes, temos como fator central o declínio da figura do pai que vem sendo subtraído por vários elementos da atualidade. O pai, atualmente ausente ou extremamente desvalorizado, já não representa a lei e deixa

vago o lugar de autoridade na família, impossibilitando a introjeção da “lei” pelos adolescentes. A mãe, como figura ambivalente, passa do afeto à indiferença, da rigidez moral à cumplicidade, confundindo seu papel materno com a permissividade extrema para angariar a simpatia e “amizade” de seus filhos. É nesta situação caótica de desestrutura familiar que vai ser construída a identidade do adolescente violento.

CONCLUSÃO Ao transitar pela adolescência para chegar ao mundo adulto, o ser humano se depara com um mundo idealizado em regras e normas sociais freqüentemente diferentes daquele em que vive. Tem então que vivenciar suas contradições, o que contribui para incrementar os seus conflitos, num processo que por si só já é rico em contradições.

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Fatores como as relações com o ambiente familiar, a sociedade, os vínculos precoces com o par parental estão sendo cada vez mais estudados, ficando evidente sua participação nos casos de condutas violentas por parte destes adolescentes. Crianças rechaçadas ou extremamente protegidas, carregam ao longo de sua trajetória de vida, um sentimento de inferioridade que vai ser uma fonte inesgotável de ira e ódio. Os pais, ao incentivarem em seus filhos uma certa capacidade competitiva para que possam atingir as metas impostas por nossa sociedade, deveriam notar a tênue linha entre egoísmo e hostilidade; teriam que perceber que o bem estar de uma sociedade depende de que seus membros contribuam para tanto, porém, nossos modelos atuais de êxito se baseiam muito mais na medida em que o sujeito é capaz de extrair seu bem estar da própria sociedade.

Bibliografia: 1) Aberastury,A. e Knobel, M. : Adolescência Normal, Porto Alegre, Artes Médicas 1992 2) Áries,P. : História Social da Criança e da Família, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan S. A., 1981 3) Freud, S. : O Mal Estar na Civilização 4) Freud, S. : Totem e Tabu 5) Levisky, D. L. : Adolescência Reflexões Psicanalíticas, São Paulo, Casa do Psicólogo ,2001 6) Ruiz,C. A. A. e Marcos, F. E. , Aspectos Psicológicos de la Violência en la Adolescência, Estúdios de Juventud N 62/03

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