PERSONAGEM
O NOSSO
ZÉ CARIOCA, AGORA SETENTÃO P OR C ELSO S ABADIN
6 de fevereiro de 1943. Há 70 anos estreava nos Estados Unidos o desenho animado Alô, Amigos, produzido pelos estúdios de Walt Disney. Junto com ele, fazia também seu début nas telas de cinema um simpático papagaio trajando paletó amarelo, chapéu palheta, gravata borboleta, e tocando cavaquinho: Joe Carioca. No Brasil, Zé Carioca. O desenho de apenas 42 minutos de duração (tecnicamente, sequer é considerado longa-metragem) vinha carregado de uma importância estratégica muito maior do que as crianças da época poderiam supor. Disney, sempre afinado com as diretrizes oficiais do Governo norte-americano, criou e produziu Alô, Amigos como peça de propaganda da chamada “Política da Boa Vizinhança”, pela qual os Estados Unidos tentavam seduzir as nações latinas para que elas não sucumbissem aos ideais nazifascistas, por ocasião da Segunda Guerra Mundial. Estreitando laços culturais e afetivos entre os países latinos e o american way of life, os Estados Unidos tentavam assim não apenas garantir a adesão latina para o lado dos aliados, como também, e principalmente, solidificar o extenso mercado consumidor de México, América Central e América do Sul, num momento em que o mercado europeu estava debilitado. Não por acaso, Alô, Amigos é o único filme em toda a história da Disney que estreou antes na América do Sul: no Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 1942. O desenho animado é resultado de uma espécie de “missão diplomática” que levou um grupo de artistas norte-americanos para conhecer a América Latina. O próprio Walt Disney fez parte do grupo. A viagem faria bem ao desenhista/empresário, que naquele momento enfrentava uma onda de greves em seu estúdio. Ele desembarcou no Brasil em 16 de agosto de 1941 e imediatamente se encantou com as dimensões da floresta amazônica, já que a primeira escala foi em Belém. Diz a lenda que foi na capital paraense que ele ouviu Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, que mais tarde faria parte da trilha sonora de Alô, Amigos. Parada seguinte: Rio de Janeiro, três dias depois. Incensado pela mídia, 28
JORNAL DA ABI 387 • FEVEREIRO DE 2013
Disney posa ao lado do Presidente Getúlio Vargas, participa de eventos, e coordena sua equipe de quase 20 artistas que saem pela então capital federal desenhando seus pontos turísticos mais significativos. Uma celebridade internacional visitando o País, somada à natural tendência de parte da imprensa em produzir
Zé Carioca esteve presente no número 1 de O Pato Donald. Abaixo, a primeira revista do Zé Carioca.
REPRODUÇÃO
O papagaio verde e amarelo criado por Walt Disney atravessa sete décadas de peripécias e chega aos nossos dias como o malandro de bom coração e divertido.
factóides, aliada à necessidade da indústria hollywoodiana de criar mitos, acabou inevitavelmente produzindo uma série de informações que jamais saberemos serem ou não verdadeiras. Consta, por exemplo, que num evento promovido pelo Comitê Brasileiro de Estudos de Produções Cinematográficas Interamericanas, no Hotel Glória, Disney ouviu uma série de piadas de papagaio, ficou fascinado com a importância da ave no imaginário popular brasileiro, e ali decidiu criar o Zé Carioca. Outros dizem que a inspiração veio do sambista Paulo da Portela, que Disney conhecera ao visitar a escola de samba Unidos da Portela. Há também quem defenda a tese que Zé Carioca foi inspirado num guia turístico da comitiva de Disney, enquanto outros atribuem a vestimenta do papagaio a um certo Dr. Jacarandá, figura conhecida das ruas cariocas, nos anos 1940. Atribui-se ainda ao cartunista J. Carlos (José Carlos de Brito e Cunha) uma certa influência que ele poderia ter sobre os traços do personagem. Afinal, sua obra era apreciada por Disney, que chegou a convidá-lo para trabalhar em seus estúdios. Versões mais românticas imaginam o próprio Walt, solitário em seu quarto de hotel no Rio de Janeiro, criando o personagem num pequeno pedaço de papel qualquer. Esta é mais difícil de crer. Criado, enfim, o carioquíssimo papagaio, sua voz é “entregue” a um dublador paulista: José do Patrocínio Oliveira, mais conhecido como Zezinho, músico nascido em Jundiaí, irriquieto, falador, brincalhão, que teria sido indicado a Disney por influência direta de ninguém menos que Carmen Miranda. A Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood, encarregada de anualmente premiar os melhores filmes e talentos do cinema, acabou levando Alô, Amigos talvez um pouco a sério demais, e em 2 de março de 1944 lhe outorgou um improvável prêmio Oscar de... Melhor Documentário. Com o sucesso, Zé Carioca acabou estrelando também Você já foi à Bahia? (The
Three Caballeros), em 1944, ao lado do Pato Donald e do galo mexicano Panchito. No filme, o Brasil é representado pelo segmento Baía, onde Zé Carioca e Donald dançam com Aurora Miranda em Salvador. Zé participou ainda do antigo programa de TV Disneylândia, fez aparições especiais em Uma Cilada para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit?), de 1988, e nos seriados animação OK Mundongo do Mickey (Mickey Mouse Works) e O Point do Mickey (House of Mouse). Primeiros passos
Fora do mundo do cinema e dentro do mundo dos quadrinhos, as histórias de Zé Carioca eram desenhadas e publicadas originalmente nos Estados Unidos. Em seu livro Para Reler os Quadrinhos Disney, Roberto Elísio dos Santos classifica os primeiros anos de Zé Carioca nas hqs como “Fase Americana” do personagem. É onde ele assume contornos de um sem-teto malandro e de caráter pouco confiável. Na história O Rei do Carnaval, de dezembro de 1942, o quadrinista Carl Buettner mostra Zé Carioca se fantasiando de assaltante para tentar entrar, sem convite, no baile de Carnaval do Cassino da Urca, para ali tentar seduzir uma bela sambista de traços inspirados em Carmen Miranda. Trata-se da primeira história em quadrinhos de Zé Carioca produzida especificamente para o formato gibi, e não mais como tira de jornal. Ela foi publicada na edição 27 da revista Walt Disney’s Comics and Stories, e saiu pela primeira vez no Brasil na edição de número 8 de Pato Donald, em 1951. Também com os traços de Carl Buettner, mas com roteiro de Chase Craig, a história A Volta dos Três Cavaleiros marca a estréia em quadrinhos do trio Zé Carioca, Panchito e Donald. A trama ridiculariza as maneiras irreverentes da dupla latina, cujos hábitos extravagantes constrangem Donald junto aos seus conterrâneos norte-americanos. De acordo com Roberto