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Jornal da ABI 383

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DEPOIMENTO ZIRALDO, 80 ANOS

Jornal da ABI – Você veio para o Rio de Janeiro para se tornar desenhista. Conte esse início em Minas. Desde quando começou a paixão pela história em quadrinhos? Quais foram seus inspiradores? Ziraldo – Toda a minha geração, de qualquer área de formação; todos os que tomaram conhecimento de livro, de literatura, todo mundo conhece e tem uma certa influência do Monteiro Lobato. Na verdade, não acredito nem em uma influência, mas em uma certa nostalgia. O Lobato povoou intensamente a infância da minha geração. Toda a entrevista que eu dou, preciso falar sobre a presença do Lobato na minha vida, com Pedrinho, Emília, aquela coisa toda. E principalmente porque na minha geração, especificamente no grupo escolar, o Lobato era controverso. A Igreja Católica tinha problema com ele; o pessoal anticomunista tinha problema com ele.... mas as professoras se encantavam com Reinações de Narizinho, As Caçadas de Pedrinho, o Sítio do Pica Pau Amarelo, o Jeca Tatu. O Jeca Tatu foi a primeira história em quadrinhos humorística que eu li. Vendendo ankilostomina, que era remédio contra as doenças da época, o bicho-do-pé. Ele calçou botinha nas galinhas. Aquilo foi emocionante – ver as galinhazinhas de botinha para não pegar bicho-do-pé. Mas Lobato não era meu amigo de infância. Meus amigos de infância eram o Batman, Super-Homem, Tarzan. Os livros da minha primeira infância eram de uma editora católica de Juiz de Fora que fazia muito livrinho para criança. Lembro de um chamado O Que Eu Li e Ouvi. Meu pai era muito pobre, mas foi estudar em Juiz de Fora para trabalhar na Academia de Comércio. Trabalhava varrendo o internato e o salário dele era estudar de graça, com comida, roupa lavada. E se formou guarda-livros. O quadro de formatura dele está na família até hoje. O retratinho na parede. Se formou com o Magalhães Pinto... Daí ele veio para Caratinga e trouxe muito livro da Academia. Ou ele afanou ou ele comprou ou ele ganhou. Mas tinha muito livro em casa. Muito. Eu passei a vida inteira brincando com livro, desenhando nos livros, destruindo os livros. Sempre que meu pai voltava de viagem, o presente era livro. Sempre. E minha mãe gostava muito de ler romance. Tem um que marcou, Um Clarão Riscou o Céu. Lembrei dele agora... Meu pai era um morador importante da cidade e sempre era escolhido para fazer discurso. E nunca fez um discurso que não fosse original. Tinha mania de escrever, de inventar parábola. Às vezes era muito engraçado. Ele também tinha uma letra admiravelmente bonita. Caderno de caligrafia. Tanto a minha mãe quanto o meu pai e meus avôs maternos, eram pessoas notáveis. Eles eram completamente fora dos padrões da minha

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JORNAL DA ABI 383 • OUTUBRO DE 2012

No Pasquim, Ziraldo homenageou os personagens de sua infância criando desenhos memoráveis no Poster dos Pobres.

infância. Veja só: o sonho da minha mãe era juntar dinheiro para me dar o Tesouro da Juventude. Era o sonho da vida dela. E todo Natal não tinha dinheiro para comprar. Um dia, fui na casa de uma professora minha que tinha o Tesouro da Juventude na estante. Dona Didi do Ramos – o Ramos era um advogado. Minha mãe falou pra ela: “O sonho da minha vida era dar o Tesouro da Juventude para o meu filho”. Aí, a professora começou a me emprestar. Acabava de ler um volume e levava para a Dona Didi. Então, pegava outro volume. Eu li o Tesouro da Juventude todo emprestado. Eu nunca tive. Depois de velho comprei, lógico. Acho que ainda tenho aqui. O Tesouro da Juventude era um computador. Tinha resposta para tudo. E tinha todos os autores infantis: Collodi, Andersen, Grimm... todas as histórias infantis estavam ali, reduzidas. Era uma coisa emocionante. Aquela coisa do livro,

da mão... Mas a minha vida começa quando eu descubro o gibi. Aí é que é forte! Tinha um padre chamado Oto, que era muito rigoroso, um sujeito inteligente, convicto, fundamentalista mesmo, católico. Fundou a Cruzada Eucarística, da qual fiz parte. E ele proibiu a gente de ler gibi. Jornal da ABI – Na época, havia uma campanha forte contra os gibis. Você lia escondido? Como fazia? Ziraldo – Eu lia história em quadrinhos quando sobrava alguma edição, porque o jornaleiro era da minha rua, mais pobre. Minha rua não tinha calçamento. Botei isso num livro, chamado O Menino Quadradinho. Um dia eu estava voltando da missa das 10 horas, passou o jornaleiro – chamava Zé Biscoito – com o Gibi que trazia a estréia de um herói chamado Titã. Logo no mês seguin-

“Porra! Meu pai é um transgressor! Está me ajudando a desobedecer o padre!”

te, apareceu O Globo Juvenil com o Super-Homem. Então o jornaleiro passou gritando, pegou um e falou: “Toma o Gibi!” E eu falei: “O que é isso, ô, Zé? Eu não tenho dinheiro, como eu vou pagar? O Padre Oto falou que eu não posso ler isso!” E ele: “Deixa de ser besta, menino. Seu pai tá jogando sinuca ali, depois eu cobro dele”. Aí pensei: “Tô perdido. Meu pai era muito católico, como é que vai pagar gibi para mim?” Quando eu cheguei em casa, papai perguntou: “Que revista o Zé Biscoito te deu?” Eu mostrei e disse: “O senhor pagou?”. E ele: “Claro que eu paguei”. Papai era guarda-livros, tinha renda muito pequena. E ele perguntou: “É mensal?” Respondi que era e meu pai falou: “Vou falar para ele te dar todo mês”. Aí eu vibrei! “Porra! Meu pai é um transgressor! Está me ajudando a desobedecer o padre!” Também tinha o barbeiro da rua que se chamava Yuiu e comprava todos os gibis. Aí, meu pai combinou com ele para me passar pela metade do preço esses gibis que ele lia. Então eu tinha todos: Gibi Mensal, O Globo Juvenil Mensal, o Mirim, o Gibi Semanal, o Globo Juvenil Semanal, o Lobinho. Assim, eu virei desenhista de história em quadrinhos. Jornal da ABI – Como era o nome do barbeiro? Ziraldo – Ele se chamava Yuiu. Quer dizer, era conhecido por esse apelido. Como todo barbeiro, era bom de papo e, com isto, sabia conquistar a amizade dos fregueses. Ele era um jovem. Meu pai, bem mais velho do que ele, achava que o Yuiu era um belo sujeito! Fantástico desencavar essas lembranças. Deve ser a primeira vez, em quase sessenta anos, que repito o nome do Yuiu. Jornal da ABI – Nessa época você já desenhava? Ziraldo – Eu já desenhava quando nasci. Jornal da ABI – E como era sua infância? Ziraldo – Minha mãe me exibia muito. Quando chegava visita, os meninos podiam brincar; eu tinha que tomar banho, me arrumar e ir para a sala conversar. Lembro um dia que eu fui buscar no armazém um pacote de macarrão, um quilo de arroz e um quilo de qualquer outra coisa. Sei que eu vim com um saco, um cereal qualquer aqui, outro ali, e não tinha onde colocar o macarrão, que era um pacote comprido, azul. Eu usava aquela calça de suspensório fixo; então enfiei o pacote de macarrão entre os suspensórios e vim carregando tudo. Vinham duas senhoras e, ao verem minha sacada, uma comentou: “Que menino danado! Olha a solução que ele deu para carregar o macarrão!” E a outra: “Ah, é o menino inteligente da Zizinha”. Eu tinha fama de ser inteligente na cidade. E desenhava todos os cartões de festa, os convites, fazia jornalzinho na rua com os meninos.

Minha lembrança mais antiga é de três anos. Quem fala que lembra bem dos três anos está mentindo, porque o cérebro não registra. São vagas lembranças. Morreu meu avô. Eu lembro do tumulto no quarto e tal, mas a gente só organiza os fatos a partir dos seis, sete anos. Aí você se localiza no tempo, no espaço. Por exemplo, eu uso as músicas de Carnaval a partir dos seis anos, para identificar um período. Quando eu fiz seis anos, sei que eram seis anos porque lembro da música “...Será você a tal Suzana/, a casta Suzana do Posto Seis?...”, que é do Carnaval de 1938. E quando eu quero situar um fato qualquer, vejo a música a partir de um livro que guardo a sete chaves: O Carnaval Carioca Através da Música, de Edigar de Alencar, editado pela Livraria Freitas Bastos em 1965. Sua história vai de 1840 a 1965. É uma referência para mim. A música de sucesso do Carnaval marcava o ano. Pois eu tinha três anos, estava desenhando... lembro dos pés das pessoas em volta de mim, e eu deitado no chão. E uma voz dizia: “Ele está dizendo que isso é um tatu.” E eu lembro de ter pensado: “Estou dizendo é o cacete! Isso é um tatu, minha senhora!” Lembro direitinho – que antipatia dela. Eu caprichei. E esse tatu, três anos depois, quando eu já desenhava tatu para burro, meu pai mandou para Folha de Minas. Em 1938, a Folha de Minas publicou meu primeiro desenho. Eu tinha cinco anos. Fiquei na dúvida em que ano foi publicado. Mas pela música Jardineira, eu sei, foi em 1938. “Ó jardineira, por que estás tão triste...” Jornal da ABI – Você era uma criança calma? Ziraldo – Calminho nada. Era hiperativo, mas entendia tudo. Até hoje sou. Mas não tomei trequetol nem fiz eletroencefalograma, nem tinha psicólogo. Tinha era liberdade completa. “Menino, não enche o saco, vai brincar na rua”. Voltava para casa para lavar os pés e dormir. Tomava banho quarta e sábado. Era uma coisa muito libertária. Jornal da ABI – Tomava banho duas vezes por semana? Não fazia calor?


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Jornal da ABI 383 by Francisco Ucha - Issuu