QUADRINHOS
O repórter que não pára de crescer Criado há 83 anos, Tintim, a obra-prima de Hergé transposta para o cinema por Spielberg, chega ao século 21 com vigor renovado. POR CESAR SILVA Assim como todas as artes, os quadrinhos também têm o seu cânone, um conjunto das obras que melhor representam a sua história e o estado da arte conforme a avaliação de críticos e estudiosos. Quando um especialista precisa evocar o cânone dos quadrinhos, alguns trabalhos emergem de imediato: Flash Gordon, de Alex Raymond; Príncipe Valente, de Harold Foster; Asterix, de Urdezo e Goscinny; Tio Patinhas, de Carl Barks; Peanuts, de Charles Schulz, e Tintim, de Hergé. Tintim é um caso especial dentro das histórias em quadrinhos canônicas, porque entre elas é aquela que suscita o maior número de polêmicas. Isso advêm de muitos componentes mas, principalmente, do estranhamento em relação aos conceitos, idéias e cultura de uma época, registradas por seu autor, Georges Prosper Remi, ou Hergé (que é como se pronuncia, em francês, “RG”, as iniciais de seu nome). Nascido em 1907, em Bruxelas, Bélgica, Hergé trabalhava no jornal católico Le Vingtième Siècle como editor do suplemento infantil Le Petit Vingtième. Em 1929, o diretor do jornal, abade Norbert Wallez, encomendou uma história em quadrinhos em que houvesse um menino e um cachorro. Hergé criou Tintim, um jovem jornalista investigativo que vive grandes aventuras acompanhado de um fox terrier branco chamado Milu. Não por acaso, em sua primeira aventura Tintim visita a então União Soviética na série Tintim no País do Sovietes (Tintin au pays des Soviets). Também encomendada pelo religioso, que era um homem extremamente conservador e anti-comunista, ele queria fazer uma campanha em seu jornal contra a ideologia comunista, tida como propagadora do ateísmo. A aventura foi desenhada em preto e branco ainda sem o detalhamento e a sofisticação características de Hergé, e publicada em capítulos, causando furor entre os jovens leitores. Tanto que no dia em que seria publicado o último episódio, o jornal promoveu, com atores reais, a dramatização da chegada de Tintim a Bruxelas, e milhares de jovens correram ao porto para ver o personagem desembarcar. Hergé não conhecia a União Soviética e baseou toda a narrativa no livro Moscou
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JORNAL DA ABI 374 • JANEIRO DE 2012
Sans Voile, do excônsul belga na Rússia, Joseph Douillet, cuja visão da política soviética não era nada favorável. Esses conceitos foram repetidos por Hergé na história, o que lhe rendeu algumas polêmicas. África colonizada Em 1931, dando continuidade ao talento viajante de seu personagem, Hergé produziu outra aventura desenhada em preto e branco, Tintim no Congo (Tintin au Congo), país que era então uma colônia belga na África. Hergé nunca havia visitado o Congo e acabou produzindo uma trabalho repleto dos conceitos estereotipados correntes na época, com um retrato dos africanos nada realista e um conceito geral a favor do colonialismo. Mais tarde, Hergé reconheceu os erros da obra e a redesenhou, desta vez a cores, melhorando a arte e amenizando alguns aspectos. Mas ainda hoje o trabalho colhe críticas e processos legais em algumas partes do mundo. A seu favor, contudo, cabe dizer que Tintim no Congo é o álbum mais popular do personagem na África. Nos anos seguintes, Hergé produziria histórias com cada vez mais qualidade, como Tintim na América (Tintin en Amérique, 1932) e Os Charutos do Faraó (Les Cigares du Pharaon, 1934). Em O Lótus Azul (Le Lotus Bleu, 1936), uma história que se passa
na China ocupada pelos japoneses, Hergé contou com a assessoria de Tchang Tchong -Jen, chinês que demonstrou ao artista o valor de uma boa pesquisa. Daí em diante, o trabalho de Hergé ganhou contornos mais realistas, como se pode ver em O Ídolo Roubado (L’Oreille Cassée, 1937), A Ilha Negra (L’Ile Noire, 1938) e O Cetro de Ottokar (Le Sceptre d’Ottokar, 1939). Com a ocupação da Bélgica pela Alemanha em 1940, o jornal Le Vingtième Siècle foi fechado, interrompendo pela metade a publicação de Tintim no País do Ouro Negro (Tintin au Pays de l’Or Noir), aventura que seria completada somente dez anos depois. Mas Hergé não ficou sem produzir, e passou a publicar novas histórias de Tintim no jornal Le Soir, controlado pelo governo nazista. As histórias desse período são menos políticas, como O Caranguejo das Pinças de Ouro (Le Crabe aux Pinces d’Or, 1941), com a estréia do irascível Capitão Haddock, A Estrela Misteriosa (L’Étoile Mysterieuse, 1942), O Segre-
Em sua primeira aparição no suplemento Le Petit Vingtième (ao lado uma edição de junho de 1931), Tintim era muito diferente e seu esperto cãozinho Milu até falava.
do do Licorne (Le Secret de la Licorne, 1943) e O Tesouro de Rackham o Terrível (Le Trésor de Rackham le Rouge, 1944), no qual surge o Professor Girassol, um genial cientista meio surdo. Com a retirada das tropas nazistas em 1944, Tintim parou de ser publicado no Le Soir. Em 1942, a Editora Casterman comprou os direitos de publicação de Tintim e implantou o formato de álbum em cores que hoje caracteriza as edições franco-belgas. Todas as histórias antigas foram adaptadas para o novo padrão, exceto Tintim no País do Sovietes, que nunca foi retrabalhado, sendo continuamente republicado exatamente como na primeira vez, em preto e branco. Em 1946, foi lançado na Bélgica o semanário Le Journal de Tintin, que aproveitava o prestígio e a popularidade de Tintim para publicar também outros personagens que se tornaram referências dos quadrinhos belgas, como Blake & Mortimer, Michel Vaillant, Ric Hochet e Bruno Brazil. O periódico foi continuamente publicado até 1993. Dois anos depois, Hergé retomou o ritmo de publicação com As Sete Bolas de Cristal (Les Sept Boules de Cristal), seguido por O Templo do Sol (Le Temple du Soleil, 1949) e Tintim no País do Ouro Negro (Tintin au Pays de l’Or Noir, 1950). Em absoluto clima de Guerra Fria, Hergé levou seus personagens a uma alunissagem bem sucedida quinze anos antes do Projeto Apolo, em Rumo à Lua (Objectif Lune, 1953) e Explorando a Lua (On a Marché Sur la Lune, 1954). É curioso notar que a história apresentou idéias que, mais tarde, os cientistas da Nasa aproveitariam na viagem real. Completam a obra de Hergé, O Caso Girassol (L’Affaire Tournesol, 1956), Perdidos no Mar (Coke en Stock, 1958), Tintim no Tibete (Tintin au Tibet, 1960) – sua história mais dramática –, As Jóias da Castafiore (Les Bijoux de la Castafiore, 1963), Vôo 714 para Sydney (Vol 714 Pour Sydney, 1968) e, o último deles, Tintim e os Pícaros (Tintin et les Picaros, 1976). Aventura incompleta Pouco antes de sua morte, em 3 de março de 1983, Hergé iniciou a produção de uma nova aventura, Tintim e a Alfa-Arte