A CHARGE VAI PARA O CIBERESPAÇO Durante mais de 100 anos as charges foram exclusividade dos jornais e periódicos humorísticos. Com a revolução digital, porém, começou a haver ligeira migração para a nova midia. Em 1995, ainda na época dos monitores de fósforo preto, quando a Internet no Brasil começava a engatinhar, o cartunista Julio Mariano criou o Charge Online (www.chargeonline.com.br). A partir de então começaram a entrar na rede seus trabalhos e mais os dos colegas de todo o País que quisessem participar. A idéia pegou e o Chargeonline conquistou um fiel público, no qual se inclui o colunista José Simão, da Folha de S. Paulo, que sempre cita charges que encontra por lá. Por dia aparecem de 50 a 60 charges fresquinhas que os próprios chargistas publicam diretamente através de um processo online bastante simples. A charge fica no ar durante um dia com o crédito dos jornais locais onde originalmente saíram. As visitas andam hoje pela casa do 1,5 milhão de pageviews por mês e durante os seus doze anos de existência o Chargeonline coletou vários prêmios. Mesmo assim, continua no vermelho. Sua única fon-
te de renda é a receita dos pequenos anúncios do Google, que mal dá para cobrir a despesa do tráfego do site. Mariano pondera que, associado a algum portal, poderia multiplicar sua visitação, mas isso tiraria a independência do site: – Não quero entrar nessa porque os portais pertencem a grupos jornalísticos rivais e não gostariam de hospedar trabalho da concorrência. Mesmo assim, nem todos os cartu-
nistas brasileiros estão no site. Alguns simplesmente não se lembram de enviar as charges; outros, por estarem presos a contratos de exclusividade. Clicando no ícone de Chico Caruso no Chargeonline, aparecem apenas um aviso falando que o jornal O Globo, “insensível à importância cultural de nosso trabalho”, não autoriza a veiculação das charges, e um link para a charge de Chico na edição virtual do jornal.
Mariano vem mantendo heroicamente o site, que, além das dificuldades financeiras, volta e meia sofre com ataques de hackers que tentam tirar do ar o site só de maldade. Mas pretende continuar comandando seu heróico exército brancaleonesco de cartunistas até o fim. O criador do Chargeonline nasceu em Colatina, ES, em 1950, e mora no Rio de Janeiro desde 1968. Publicou no Pasquim e em O Globo, fez charges diárias na Última Hora por 11 anos e em praticamente todos os jornais alternativos dos anos 70 e 80. Ganhou vários prêmios em Salões de Humor e foi um dos primeiros cartunistas a usar computador como ferramenta de trabalho.
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO AROEIRA Renato Luiz Campos, o Aroeira, nasceu em Belo Horizonte em 1954. Um dos desenhistas mais talentosos do humor brasileiro, Aroeira ocupou o nobre espaço da charge diária nos principais jornais do Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, O Globo e atualmente O Dia. Chargista e capista superpremiado, deu cara e elegância às várias edições da revista Bundas e do Pasquim21. Músico amador e diletante, toca saxofone na banda dos Irmãos Caruso. OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO OTA Otacílio d’Assunção, o Ota, nasceu em 1954 e desde 1971 publica charges e tiras, além de ter desenvolvido uma carreira paralela na área editorial e também como jornalista. Por mais de três décadas editou a revista Mad em três editoras diferentes e, durante a sua gestão na Vecchi, teve o mérito de ter aberto o mercado para o desenhista de quadrinhos nacional ao lançar diversos títulos totalmente editados no Brasil; chegou a editar cerca de mil páginas por mês. Seu estilo tosco é mais apropriado para a sátira de costumes, e sua série O Relatório Ota na revista Mad
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o tornou famoso. Mas em 2003 ele criou a tira de sátira política O Reino Encantado de Dom Ináfio da Filva, lançada assim que Lula assumiu a presidência do Brasil. A série é um pastiche das tiras clássicas O Reizinho e Mago de Id e situa os mesmos elementos da atmosfera política brasileira atual num fictício reino governado pelo monarca Dom Ináfio, um homem do povo guindado à condição de rei. Ináfio estreou no Pasquim 21 em janeiro de 2003 e com o cancelamento da publicação transferiu-se para o Jornal do Brasil, onde sai até hoje.