Do Rio ao mar – Impressões do Brasil

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PROJETO TURISTA APRENDIZ

Do Rio ao mar Impressões do Brasil

Praga Conexões 1a edição

Rio de Janeiro 2015


Do Rio ao mar: Impressões do Brasil © Praga Conexões © Turista Aprendiz Coordenação Maria Pereira Consultoria e organização Roberto Taddei Isabel Ostrower Textos Bruna Alves Bruno Lima Caroline Rodrigues Davi Nascimento Douglas de Paulo Emely Helen Estefani Basilo

Fabrícia Mello Gabriel Leonne Gabriel Mação Guilherme Cunha Juliana Lourenço Karen Campos Luana Batista

Revisão Heyk Pimenta P 436r

Orientação Textos Alice Souto Flávio Mello Guilherme Gonçalves Rafael Zacca

Lucas Silva Robson Casciano Thainar Xavier Thamires Bonifácio Valeska Angelo

Projeto gráfico e capa Fernando Timba

Pereira, Maria Do Rio ao mar: Impressões do Brasil. / Maria Pereira (Org.) – Rio de

Janeiro: Praga Conexões, 2015.

Inclui Bibliografia, Projeto Gráfico ISBN 978-85-69208-00-6 1. Poesia. 2. Literatura Juvenil. 3. Literatura Brasileira. I. Pereira, Maria.

II. Título.

CDD - 22.ed. – 869.91




Dentro das variadas maneiras de se definir o que é Cultura, a dimensão antropológica vem ganhando cada vez mais força nas políticas públicas, oferecendo uma compreensão que vai bem além daquilo que é produzido por indivíduos ou coletivos, reforçando a interação e a modelagem de identidades e de diferenças. O projeto Turista Aprendiz utilizou com maestria conceitos e instrumentos baseados nesta dimensão, ampliando a reflexão de jovens sobre os possíveis modos de existência e de convivência. Este era o objetivo central do eixo de Formação do Favela Criativa, programa da Secretaria de Estado de Cultura, da qual este projeto faz parte: além de disponibilizar ferramentas fundamentais para a sustentabilidade de empreendimentos e projetos culturais, contribuir para a qualificação da formação cultural e artística de jovens de diversos territórios. Com o Turista Aprendiz, eles viveram a incrível experiência de ser estrangeiros no próprio país, dando um novo sentido para as suas raízes. Assim, o projeto torna-se um importante resultado de um dos programas mais arrojados e transformadores da Secretaria, o que nos traz imensa alegria.

Eva Doris Rosental Secretária de Estado de Cultura Vera Schroeder Superintendente da Leitura e do Conhecimento



Por acreditar que o trabalho cultural e educativo, apesar de apresentar resultados no longo prazo, é sem dúvida a ação mais eficaz para cristalizar o comportamento do cidadão, é um grande prazer para a Light fazer parte do Programa Favela Criativa, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura, ANEEL e o Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID. Composto por um conjunto de projetos, o Programa Favela Criativa oferece formação artística e especialização em gestão cultural a jovens de 20 favelas do Rio de Janeiro e estabelece canais de diálogo entre eles, possíveis parceiros e patrocinadores potenciais, e também fomenta a reflexão sobre a cidadania e sustentabilidade através da Cultura, beneficiando três mil pessoas de forma direta e 40 mil, de forma indireta. E certamente o Turista Aprendiz atingiu esse objetivo, ampliando as referências culturais dos jovens, desenvolvendo suas habilidades de expressão e reflexão sobre seu papel na sociedade.

Equipe Light


Sumário 10, Apresentação,

Maria Pereira, Roberto Taddei e Isabel Ostrower

14, Prefácio

Carlito Azevedo

26, Fabrícia Mello Relato Lírico

34, Davi Nascimento

Céu; Lembrança; Noite em Sagarana

38, Luana Batista

Caminhos do Norte

44, Bruna Alves

Região do Pajeú; Umbuzeiro; Oh, senhor!

53, Guilherme Cunha

Abismo; Hematita: Procura-se: em verso ou prosa; Caligem

61, Gabriel Leonne

Tortura de Classe; Borborema; O menino que aprendeu a mandar beijos para o céu

73, Robson Casciano Árvore da lembrança

79, Karen Campos

Nos pés das pedras-vidas

89, Valeska Angelo

Dois Irmãos – parte I, II e III; Dabucuri


97, Thamires Bonifácio Terror à beira rio

101, Juliana Lourenço Os quatro gatos

116, Gabriel Mação

O Mbaêtata

123, Thainar Xavier

O homem do coração de pedra

137, Estefani Basilo

Projeto Luz

152, Caroline Rodrigues

Do tambor ao mar

158, Emely Helen

Oxente

160, Lucas Silva

Olho d’água; Coração de folhas; Cerrado Seco

163, Bruno Lima

Uma história para lembrar

169, Douglas de Paulo

Uma Aventura em Manaus, conhecendo o desconhecido

173, Sobre os autores 178, Agradecimentos


Apresentação Vinte jovens cariocas partiram em viagens para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país em janeiro de 2015. O objetivo era visitar cidades muito distantes do Rio de Janeiro, abrir-se ao choque cultural e experimentar um deslocamento etnográfico para, a partir dessa vivência, produzir textos não ficcionais, poéticos, ou criar histórias ficcionais que ecoassem a viagem. Antes, porém, todos eles participaram de um semestre de aulas e oficinas de criação literária ao longo de 2014, dentro da primeira fase do Projeto Turista Aprendiz, realizado nas Bibliotecas Parque de Manguinhos, Rocinha, Alemão e Estadual, que integra o Programa Favela Criativa. Bruna Alves, Gabriel Leonne, Estefani Basilo, Emely Helen e Fernanda Vidal viajaram para cidades dos estados de Pernambuco e Paraíba, capitaneados por Flávio Mello, também professor do grupo no primeiro módulo do curso. Conheceram seus mercados e feiras livres, museus de arte popular, praias, rodas de ciranda e capoeira. Participaram também de oficinas de ritmos e de recitais de poesia, interagindo com artistas da região.

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Apresentação

Davi Nascimento, Guilherme Cunha, Karen Campos, Lucas Silva e Thainar Xavier fizeram um percurso que chamaram de O coração do Brasil é vasto, passando por Brasília, onde entraram em contato com coletivos de jovens artistas e percorreram trilhas da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Depois, em Sagarana, distrito de Minas Gerais, mergulharam no universo que marcou a obra de Guimarães Rosa, participando de festas de Folia de Reis, conhecendo as veredas da região e as histórias dos sertanejos. A aventura foi conduzida por Maria Pereira, coordenadora do Turista Aprendiz. Bruno Lima, Caroline Rodrigues, Juliana Lourenço, Luana Batista e Robson Casciano seguiram a rota Do reggae ao batidão, ao lado do educador Guilherme Gonçalves, que já acompanhava parte dos alunos desde a Oficina ministrada na Biblioteca Parque de Manguinhos. Na capital do Maranhão, conheceram pontos de cultura, museus, trabalhos de confecção de instrumentos musicais e dançaram o tambor de crioula, expressão de matriz afro-brasileira que compõe nosso patrimônio imaterial. Em Barreirinhas, visitaram os Lençóis Maranhenses e depois seguiram para Belém, onde foram recebidos por um coletivo de teatro. Finalizaram a viagem na Ilha de Marajó onde, hospedados numa vila de pescadores, sentiram a força dos búfalos brasileiros e aprenderam a dançar o carimbó.

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Fabrícia Mello, Gabriel Mação, Douglas de Paulo, Thamires Bonifácio e Valeska Angelo escolheram viajar para a Amazônia, no roteiro Raízes indígenas e o canto das águas, conduzido pela educadora e também produtora do Projeto, Alice Souto. Encharcado de chuva e navegando por imensos rios, o grupo percorreu Manaus, participou de saraus com poetas da região e, depois de uma longa travessia pelo Rio Madeira, chegou finalmente a Porto Velho. Nessas viagens etnográficas, os jovens passaram por uma formação sólida, sendo desafiados a conviver com diferentes grupos sociais e confrontar suas percepções sobre o Brasil. Neste livro, coleção dos textos produzidos após as viagens, esses jovens autores partilham as marcas de uma jornada inédita em seus contos, poemas e relatos, e nos fazem reencontrar o turista aprendiz Mário de Andrade. Não apenas no registro etnográfico, mas, principalmente, na exploração do choque cultural como redefinidor de nossa própria identidade, elaborada aqui a partir da narrativa em gêneros diversos. Qual é o Brasil que surge a partir do contato entre adolescentes de comunidades do Rio de Janeiro com conterrâneos nas regiões mais distantes do território nacional? Quais são, afinal, as narrativas que começam a se desenhar neste início de século 21 entre jovens 12

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Apresentação

brasileiros e que precisamos conhecer para participar deste enigma chamado nação? É este o convite que fazemos aos leitores deste livro, que se abram aos universos apresentados aqui, ficcionais ou não, como registros de um país ao mesmo tempo sonhado e esquecido. E, assim como nas viagens de Mário de Andrade, que o exercício da alteridade fortaleça nossa capacidade de enxergar, no outro, aquilo que também somos ou esperamos ser.

Isabel Ostrower Maria Pereira Roberto Taddei (Idealizadores do Projeto Turista Aprendiz)

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Prefácio Ao terminar a leitura deste extraordinário livro que reúne poemas, contos e narrativas de novíssimos escritores do Rio de Janeiro, livro que nos leva a visitar lugares tão distantes e de nomes tão belos, lugares reais, como São José do Egito, Catarata dos Couros, Cachoeira das Jibóias ou a comunidade ribeirinha de São João do Tupé; livro que nos faz experimentar sabores tão especiais como o do taperebá, do camu-camu, do tambaqui assado e do jaraqui frito; que nos confronta com retirantes, manauaras, pajés, e até com o lendário Mbaêtata; que nos faz dançar com tantos ritmos, do reggae ao tambor de crioula; enfim, ao terminar a leitura deste extraordinário livro, é impossível não exclamar: o Brasil ficou mais perto de todos nós, ficou maior, ficou mais nosso. A literatura sempre foi a arte de transformar desvantagem em vantagem, o longe em perto, o impossível em corriqueiro. Muito antes da invenção do avião, ela, a literatura, nos fazia voar em tapetes mágicos, viajar no tempo e no espaço, sempre alimentando o nosso sonho de conhecer o que não conhecíamos, de entender o extraordinário, tocar o intocável. E tudo isso para ampliar a vida, negar suas insuficiências, conhecer suas potencialidades, contribuir para que 14

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Prefácio

floresçam todas as flores do possível, que ainda vivem só como semente enterrada no jardim do impossível. Quando um grupo de escritores e poetas, como esses aqui reunidos, se dispõe a viajar para além de si, turistas aprendizes, nômades do coração, olhando, registrando, conhecendo, enriquecendo sua capacidade crítica e inventiva com novas cores, novos sabores, novas relações humanas, a literatura passa a, além de instruir e divertir, cumprir sua missão mais secreta: transformar. Como o próprio nome do projeto que o gerou sugere, Turista Aprendiz, Do Rio ao mar - impressões do Brasil é um livro cheio de trajetos, itinerários, errâncias, dos mais longos aos mais curtos. Dos mais velozes, como a incrível perseguição entre cães e gatos de “Os quatro gatos”, de Juliana Lourenço, um texto cheio de tensão e suspense pelas ruas e vielas de São Luís do Maranhão, aos mais lentos, vertiginosamente lentos, como a viagem de barco pelo Rio Madeira, no Amazonas, narrada por Fabrícia Mello em “Relato lírico”, que retrata tão bem e sem máscaras o desejo e as dificuldades do processo sempre necessário de encontro com o “outro”, com o diferente. Este é um livro cheio de brasileiros. O poeta Mário de Andrade, cujo livro Turista aprendiz inspirou o projeto que originou esse novo livro, certa noite, estando em casa, em São Paulo, teve uma

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espécie de “iluminação profana” que descreveu belissimamente no poema “Descobrimento”: DESCOBRIMENTO Abancado à escrivaninha em São Paulo Na minha casa da rua Lopes Chaves De supetão senti um friúme por dentro. Fiquei trêmulo, muito comovido Com o livro palerma olhando pra mim. Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus! muito longe de mim Na escuridão ativa da noite que caiu Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos, Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Faz pouco se deitou, está dormindo. Esse homem é brasileiro que nem eu Este livro também é cheio de brasileiros que nem todos nós, com suas histórias, suas vidas. Vidas que conhecemos um pouco mais agora, graças ao fenômeno da literatura e da imaginação, que diminuem as 16

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Prefácio

longas distâncias de um país tão imenso, graças ao olhar atento e ao verbo ágil e seguro desses novos mestres-aprendizes da narrativa. É assim que no excepcional conto “Caminhos do norte”, de Luana Batista, somos apresentados a um personagem que narra em primeira pessoa suas aventuras pela Ilha de Marajó para pagar uma dívida. A jovem Luana se põe no lugar do personagem, organiza uma narrativa em monólogo com mestria absoluta, cede sua voz a este personagem de modo tão vivo e natural, que é como se ele estivesse na nossa frente, conversando com a gente, contando sua vida. “Esse homem é brasileiro que nem eu”. E agora faz tão parte da gente quanto aquele outro brasileiro lá do Norte, pálido e magro, do poema de Mário de Andrade. É assim também que no conto “Região do Pajeú”, de Bruna Alves, de intensa simpatia social, nos deparamos com uma família fugindo da seca, da dor, num calvário que termina em conquista e poesia. Todos os membros dessa família são brasileiros, como nós. E uma de suas poucas posses, a vaca Jurema, só realça essa atmosfera de falta e escassez. Se como já se disse, somos humanos e nada do que é humano nos é estranho, nós somos um pouco essa família fugindo de tudo o que impede a vida de brotar. Deixando um pouco em segundo plano a questão social, mas sem esquecê-la, e privilegiando o aspecto psicológico, também de intenso

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valor literário, “Abismo”, de Guilherme Cunha, parece ser o texto que mais empenho colocou na criação e fixação de um personagem: Ema. Uma mulher tão rica de tensões internas e valor dramático que é quase maior que sua história, quase do tamanho de todos os muitos fenômenos naturais que a cercam e abraçam. “Sou errante e um passo em falso me faz feliz”, diz Guilherme Cunha em outro de seus textos, definindo muito de sua poética. Guilherme Cunha trabalha na fronteira entre a prosa e o poema, de modo que talvez seja interessante ressaltar aqui, agora, os autores que escolheram a poesia, ou foram escolhidos por ela, para sua expressão particular. O que ainda nos coloca sob o generoso descortinar do mundo realizado por Mário de Andrade, que é tanto o prosador genial de romances como Macunaíma e Amar, verbo intransitivo, como o poderoso poeta de Paulicéia desvairada e Clã do Jaboti. Davi Nascimento é o poeta do cosmos e dos elementos. Em Brasília, mais que qualquer outra coisa, ele vê o céu, uma boca enorme que ameaça comer tudo; sua poesia fala dos raios, do vento e da água. Não perde de vista o homem, mas é o seu ambiente, o planeta e sua circunstância cheia de luz e mistério (“sons que se diluem / no escuro do sertão”) que acendem nele a chama do poema.

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Prefácio

Em seus poemas e na prosa de “O menino que aprendeu a mandar beijo para o céu”, Gabriel Leonne gira o radar poético para o outro extremo: em lugar da dimensão cósmica de Davi, ressalta aqui o cotidiano feito de violência e injustiça: “Invadiram minha casa /Reviraram meu armário / Dizendo “cadê a porra da droga?” /Ajoelhei implorando pela vida”. Açude, feijão roxo, colheita de milho, uma exuberante proliferação de frutas e o real do semiárido nordestino são alguns dos elementos concretos que sustentam sua poesia. Uma mescla de narrativa cotidiana com alto lirismo é o que nos traz a poesia de Valeska Angelo. Sua viagem pelo rio, pelas populações ribeirinhas, é feita de recorte de vozes, de imagens, de citações literárias (Iracema, de José de Alencar, e Macunaíma, de Mário de Andrade, fazem parte desse recorte). Com uma rica sonoridade, esses poemas atingem o ponto alto na tematização lírica e política da cor negra no poema “Dabucuri”: “Da mesma forma que no céu negro / dentro da água escura / lembrei do meu nego / Estou debaixo da água / Um zumbido / Zumbi dos Palmares / Aqui ele é de cor parda”. Emelly Helen realiza no poema “Oxente” uma aproximação brusca e de alta voltagem poética entre a atividade de plantar, colher e preparar a refeição, com a escrita e a leitura de poesia. Com olhos atentos para o que vê, e ouvidos abertos para o que escuta, a poeta

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atua como uma câmera e um gravador ao mesmo tempo. Seus versos fluem como cinema. Nisso, seus poemas, aparentemente tão diferentes da produção de Lucas Silva, com ela se assemelha. Pois também Lucas Silva fala da criação que vem da terra semeada e da criação que vem da mente dos poetas, mas enquanto na poesia de Emelly o que ressalta é a alegria, dos versos de Lucas o que sobressai é o espanto, ele escreve poemas que buscam reproduzir o grande espanto diante da magia e do mistério da criação. Para ele o coração é “Tambor / Máquina de vida / Fonte de mistérios”. De grande sofisticação literária, usando recursos complexos para falar do tempo, da memória, da viagem e da descoberta, é o conto “Árvore da lembrança”, de Robson Casciano. Cheia de referências míticas, essa narrativa envolve índios, totens, vida selvagem, a floresta, a figura do antropólogo, e esses elementos surgem aos nossos olhos enriquecidos por uma espécie de confusão mental do narrador, o que dá, kafkianamente, grande qualidade literária ao texto. A perda de contorno exato das coisas significa aqui, paradoxalmente, um ganho de sentidos possíveis para tudo. Karen Campos, em “Nos pés das pedras-vidas”, desenvolve vários níveis narrativos. Ela começa analisando a narrativa jornalística sensacionalista, daí salta energicamente para um nível narrativo antagô20

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Prefácio

nico ao do jornal popular: o poema. “Morro, como as ondas da jiboia / nos pés das pedras-vidas. / Renasço como o dia, / reconstruindo. / Me refazendo / somente para ti, Sertão.” Por fim, desenvolve uma espécie de imitação da narrativa oral em volta da fogueira, narrativa com todos os toques hiperbólicos típicos da tradição oral. Também Thamires Bonifácio, no conto “Terror à beira rio”, se utiliza de recursos narrativos tradicionais, que já são apresentados na primeira linha: “Na cidade de Javé, no baixo Rio Madeira, muito se fala de um acontecimento que até hoje aterroriza as famílias.” E passa-se daí à história. Como em outros textos do livro, aqui a morte de uma jovem é o motor da história. Como se vê, muitos desses novíssimos escritores de Do Rio ao mar – impressões do Brasil, não só se deixaram influenciar pelas paisagens e lugares visitados, mas trazem profundamente arraigados um modo de fazer literatura que tem longa tradição no nordeste, das narrativas orais às histórias de cordel. Uma das mais curiosas experiências apresentadas neste livro traz a assinatura de Gabriel Mação, trata-se do texto: “O Mbaêtata”. Aqui se vai, num salto sem escalas, do depoimento pessoal (inclusive utilizando os nomes dos companheiros de viagem do projeto Turista Aprendiz) ao lance surreal e mágico (como a aparição do Boitatá, o Mbaêtata do título), que impõe um desfecho originalíssimo

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ao enredo. Não menos surreal é a narrativa, quase cinematográfica pela precisão das imagens, de Thainar Xavier, “O homem do coração de pedra”. Tratando um tema sério, o mais sério de todos os temas, aquele que William Shakespeare resumiu na preciosa fórmula “ser ou não ser?”, Thainar construiu um verdadeiro poema em prosa cheio de detalhes e delicadezas sobre a pulsão de vida e a pulsão de morte. “Projeto luz”, de Estefani Basilo, é outro texto que chega ao limite da auto-ficção. Também construído como depoimento direto da viagem do grupo ao estado de Pernambuco, o texto de Estefani põe em cena os outros turistas da equipe, Bruna Alves, Gabriel Leonne, Emely Helen, Fernanda Vidal além do professor orientador. Porém, o recurso da narrativa dentro da narrativa nos coloca em contato com um drama cotidiano em dois tempos, um presente e um passado, da personagem Leninha, uma brasileira como nós, para recordar o já citado poema de Mário de Andrade. Aqui não se sabe em momento algum, ao contrário do texto de Thainar, quando se passa da realidade para a ficção. “Do tambor ao mar”, de Caroline Rodrigues, é um daqueles textos, citados no início desse prefácio, montados sobre trajetos, itinerários e velocidades. Uma rodoviária, uma casa no litoral, uma festa típica, um caso de confronto entre aqueles que Mário de Andrade chamava de “os donos da vida” e os que apenas a tentam viver, e outra 22

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Prefácio

viagem, dessa vez no tempo, confrontando duas visões do mundo, dois instantes e um desejo. Neste conto se pode ler uma frase que talvez seja representativa de toda a aventura do Turista Aprendiz: “o Brasil não tem distância quando se trata de paixão.” Também uma história de paixão, mas centrada no universo juvenil, é o que lemos em “Uma história para lembrar”, de Bruno Lima. Relato que troca o final feliz pelo final aberto, sugestivo. Como abertas ainda estão as estradas todas, pelo país e pela vida, para estes jovens autores. E muitos deles se encontram na narrativa que fecha o volume, “Uma Aventura em Manaus, conhecendo o desconhecido”, de Douglas de Paulo. Aqui estamos de novo em território amazonense, com tudo o que isso supõe de pés d’água, chuva de meteoros, esplendor cósmico enfim: “No caminho, vimos um arco-íris pela janela direita do ônibus. Do lado esquerdo, o sol se punha e o céu era alaranjado. Chegamos a Ponta Negra no finalzinho do dia. Dava para ver diversos tons rosados, avermelhados, azulados e um pouco da mistura de azul escuro com preto. Era a noite chegando.” Não se podia pedir final melhor para essa aventura que nos levou a correr com cães e gatos pelo Maranhão, molhar os pés em Sagarana, dançar na Ilha de Marajó, fugir da seca do Pajeú, entrar no açude, brilhar como hema-

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tita em Alto Paraíso, pendurar bandeirinhas em Borborema, sentar à beira do Rio Preguiça (Maranhão), ouvir histórias de velhos no sertão mineiro, aprender a belíssima palavra “dabucuri”, revisitar crimes na região do Rio Madeira, desaparecer goela adentro do Boitatá, contemplar o voo das araras azuis de Catarata dos Couros, receber a benção do sol Recife, questionar o amor num cais de São Luis, ouvir poetas em São José do Egito, mirar o mistério da vida num olho d’água, navegar de voadeiras ao encontro de pajés. No início desse prefácio anunciei que o Brasil tinha ficado mais perto, maior, mais nosso. Do Rio ao mar – impressões do Brasil, fruto do projeto Turista Aprendiz, reunindo uns poucos jovens e uma série de mestres empenhados, dá em grande medida a ideia de toda a potencialidade contida nesta terra. Não hesito em dizer que a literatura brasileira também chegou mais perto de nós, também ficou maior e também ficou mais nossa, graças a esses novíssimos autores. Se de algum modo consegui despertar a curiosidade dos leitores para esse livro, estou recompensado. Agora é assumir o seu lugar à mesa, longa mesa brasileira de tantos sabores ainda por descobrir, e mergulhar os cinco sentidos na leitura.

Carlito Azevedo 24

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Fabrícia Mello Relato Lírico Os Turistas nas alturas... Cortando as nuvens, atravessando os estados brasileiros, seguimos nós, os aprendizes, perdendo nossa naturalidade carioca e nos metamorfoseando manauaras, dispostos a nos entranharmos nas experiências e mergulhar na imensidão negra que foi capaz de sensibilizar os poetas e fazer transbordar de amores até o mais desatento ao som do uhaa! Por cima dos banzeiros, ao gosto do taperebá e deslumbrados com a paisagem que a natureza tratou de esculpir, seguimos, viajando com o corpo, a mente e os sentidos, seguimos nós, aprendizes, à caça de novas experiências e com a bagagem cheia de curiosidade...

Acelera Diego! Chegamos em Manaus perdidos do Rio de Janeiro, do horário e do nosso guia, Diego, que tinha a incrível missão de nos guiar pelas aventuras que nos aguardavam pelos rios, pelas matas e construções arquitetônicas, pelos pratos tradicionais, pelos ônibus que sempre nos causaram muito sono, pelos vocabulários e pelas histórias... Mas Diego sempre 26

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Fabricia Mello

chegava atrasado, acredito que propositalmente, afinal, essa condição aumentava muito nossa ansiedade. Foi assim que esperamos quase todas as manhãs por ele, aguçados, e ele chegava no mesmo ritmo do barco que nos transportou a Rondônia, mas isso já é uma outra história.

Sorvete de quê? O sorvete, ah, o sorvete! Nossos paladares se atentaram aos primeiros sabores peculiares amazonenses. Senhores, cogitem a possibilidade de experimentar uma dessas delícias, mas, por favor, não idealizem nada comum, nenhum sabor tradicional, nada de morango ou chocolate... Pensem no Cupuaçu, Açaí verdadeiro, Tucumã das estrelas, Buriti, Camu-camu ou uma tapioca diferente, transformados em sorvetes da massa, um sabor incrível e forte, nada leve.

A tecnologia já chegou por aqui... Aquele estereótipo de índio que todos acreditam, de um ser com cocar e uma lança na mão, pronto a matar quem se arrisca a entrar em sua mata, ainda existe sim. Contou-nos um senhor no barco que uma dona chamada Maria morava sozinha na mata próxima a uma tribo indígena e presenciou um evento em que os índios se juntaram para matar um homem branco, que entrou na mata e se relacionou com uma índia, mataram o cujo a pauladas...

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Mas felizmente aquela não foi a tribo que conhecemos. Visitamos uma tribo “civilizada”, que por apenas dez reais por pessoa concordou em mostrar os seus rituais. Mas senhores, não sejam apressados e nem tirem conclusões precipitadas, esse dinheiro era apenas para a manutenção da oca, afinal toda casa tem seus custos. Assistimos ao curioso ritual de recepção. Alguns possuíam até Facebook, isso mesmo! Os índios, ou pelo menos boa parte deles, também começaram a desfrutar da tecnologia atual, eles não são mais os mesmos que Cabral encontrou por aqui. Isso é bom, pois se naquela época tivessem acesso a esses meios, não teriam sido enganados tão facilmente...

Dois irmãos e uma mesma velocidade: No quarto dia de viagem seguimos para o barco e, pelo rio Madeira, que por dentro de sua lama esconde algumas ferinhas que podem devorar algum corajoso que ouse imergir em sua tranquilidade, fomos guiados. Talvez, senhores, este seja o capítulo mais extensivo do relato, o resultado do tédio e de inúmeros sentimentos diferentes que se contrariavam e se anulavam durante a estadia no barco. O barco, que se chamava “Dois irmãos”, era bem velhaco e capenga. Durante a viagem fez inúmeras paradas indesejáveis, que nos deixa-

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Fabricia Mello

vam sempre impacientes. Ele era grande, com três andares, o piso de uma madeira antiga e esburacada, a pintura já estava lá pelo fim e os banheiros tão sujos que às vezes chegavam a ser assustadores. Pelo teto, espalhava-se uma quantidade insuficiente de salva-vidas. No primeiro andar ficavam os mantimentos, no segundo, muitas redes estendidas e os camarotes, no terceiro havia um ponto de distração, o salão onde acontecia a manifestação da música popular brega amazonense. Na calada da noite, às margens do Madeira, casebres foram se destacando em toda sua simplicidade e despertando dúvidas de como alguém tinha a tamanha coragem de morar na beira do rio tendo como vizinhos cobras, corujas e jacarés, e ainda usando como meio de iluminação o velho lampião... Já na hora de dormir, bichos resolveram nos amedrontar. Em plena noite era como se estivessem recorrendo ao lugar que era deles por direito, besouros e baratas voadoras estacionaram na pia do banheiro impedindo o trâmite, uma lacraia completamente envolvida nos lençóis nos arrancaram gritos... A lentidão da travessia era agonizante e, por isso, dou um conselho a qualquer turista que pense em fazer esse roteiro: Pense muito bem! Principalmente se for algum morador de cidade grande acostumado com o ritmo acelerado da vida, ou então alguém que sofra de

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síndrome do pânico... Para os senhores terem uma fagulha de ideia, ficamos em um barco grande de três andares, porém com a velocidade de uma formiga. Durante o percurso, outro barco da mesma proporção passou por nós e as pessoas a bordo nos acenaram com tom irônico nas faces, além de deixar escapar muitas gargalhadas. Parecíamos atração turística, pela nossa tamanha vagarosidade. Uma casa flutuante atravessou o rio de uma margem à outra, com o dobro da nossa velocidade e, para nos deixar ainda mais pasmos, as canoas, isso mesmo!, as canoas ficavam a perder de vista de tão rápidas. Já não bastava toda essa lentidão, o barco parou. Algo de errado no motor fez com que a viagem não pudesse mais continuar, fomos tomados por desespero, era inacreditável o que acontecia... Ficamos parados próximo a um matagal que nos separou por metros da imensa floresta que moldava os arredores do rio. Os mosquitos, aquelas pestes, queriam nos devorar e a água barrenta não dava nem para arriscar um mergulho. Disseram alguns curiosos que apenas à noitinha iríamos retornar à lentidão do barco. E o que nos restou? Esperar... Esperar... Esperar... Enquanto para muitos o dia foi corrido, para nós, os turistas aprendizes, passou bem devagarinho. Como essa gente manauara suporta encarar uma trajetória dessas com tanta tranquilidade? Será que só turistas se sentem aflitos assim? 30

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Fabricia Mello

Mais tarde o barco retornou à sua funcionalidade em uma lentidão tão severa que eu estava esperando o momento em que também os ribeirinhos iriam rir de nós. No meio de uma boa prosa, um bicho estranho invadiu o camarote e interrompeu a conversa... Por alguns segundos nos entreolhamos para observar a reação alheia. Quando um de nós se espantou, todos, num pulo de desespero, saíram correndo gritando: Acho que é um rato! Todos do barco se alarmaram e subiram para suas redes. Por instantes foi o maior auê... Até que um senhor gritou: - É um pequeno inseto, sem desespero! Na terceira noite, quando me ajeitava para deitar e a música brega já ia diminuindo de volume, um som perseverante de buzina começou a soar por todo barco, a luz ia e voltava e os passageiros se puseram à beira do barco perguntando-se: O quê há? Eu gelei, tremi e tentei não me concentrar naqueles burburinhos, mas era inevitável pois, segundos depois, o barco parou e veio a notícia: vamos ancorar! Tem uma forte chuva chegando por aí, se continuarmos já era... É melhor não arriscar. E a tempestade foi diminuindo, até que cessou.

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Boto, traz a alegria de volta! Olho para o rio Madeira, o clima hoje está meio fúnebre, céu cinzento e um interminável chuvisco parece afetar todos os passageiros, alguns se jogam em suas redes, outros se juntam aos amigos para participar de algum joguinho sem graça. Olhaaa, o boto!!! Alguém grita. Arrisco-me a assisti-lo e a contemplar o pulo de uma criaturinha feliz que talvez possa me contagiar. Mas ele parece fugir de vista, pula lá longe, próximo às margens. Quando eu já ia desistindo, ele me presenteia com o ar de sua graça...

Gotas de desespero: Dentro do bendito barco passamos a maior parte dos problemas de choque cultural. No penúltimo dia, já no finzinho da tarde, uma forte tempestade nos atingiu, no meio do percurso as águas começaram a entrar pelos cantos, as lonas tiveram que ser esticadas a fim de conter a rajada. A imagem que se via era o branco da chuva tentando ofuscar a bela paisagem que a essa altura já havia me enjoado. Felizmente a tempestade logo cessou... “Deus ouviu minhas preces”.

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Fabricia Mello

O encontro das águas: Formado a partir dos afluentes Gabriel, Thamires, Alice, Fabrícia, Valeska e Douglas, somos o “Rio Amazonas”. Agora, senhores, nossa junção acontecerá no encontro das águas. Se acaso um dia passar por lá e observar aquele encontro, não se esqueça: somos nós, os turistas aprendizes, nos reunindo novamente!

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Davi Nascimento Céu Que boca é o céu Que ameaça comer Brasília Tudo cabe no céu da boca As hélices e turbinas Cabem os prédios As torres de TV Cabem todas as igrejas O céu comeria Cada peça do avião Retorcendo com a língua Cada cabo de carga A língua desse céu Ora ou outra se pinta como A língua das crianças Rosa quando não laranja Roxo quando não vermelho Sempre áspero e sem forma

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Davi Nascimento

A boca devoradora Paira sobre as cabeças Ignoramos a ameaça em silêncio Dizem que por vezes Brasília Fica mais próxima da garganta Ainda mais próxima do que a noite E tudo termina em raio No bater dos dentes

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Lembrança Toques líquidos do sino de vento O som do sino de vento transpassa O vidro a pedra e se derrama por toda casa Permeia o espaço como o anjo transpassa Os campos as árvores as ruas os prédios E sopra nos meus ouvidos o mesmo líquido A mesma água

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Davi Nascimento

Noite em Sagarana Todo sono em Sagarana É castanha do cerrado As rosas pendem De tão escuro O mato molha nossos pés Notívagos Convites que o vento sussurra Máquinas em galpões Calado mistério que jaz Em cada grão de arroz Cada fibra de algodão Líquidos nossos passos Fincadas à sombra Garras de onças Cortam o silêncio Lunar O voo da coruja E dos morcegos Sons que se diluem No escuro do sertão

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Luana Batista Caminhos do norte Então, você quer ouvir minha história... Companheiro, eu cresci na periferia de São Luís do Maranhão, num lugar chamado Bairrinho. A maioria das pessoas pobres de lá tem problemas em casa, e comigo não foi diferente não, sabe? Papai era usuário de cocaína desde que me lembro e nossa família estava na dureza. Lá nessa área acontecem muitos roubos, nos noticiários não se fala noutra coisa. Eu nunca tinha pensado em me envolver naquilo, pois apesar das dificuldades, eu via longe, e corria atrás de ser uma pessoa digna e instruída. Minha melhor lembrança de São Luís é o reggae. O reggae acalma, vem da cultura africana e de lugares de sofrimento. Lá no bairro tinha um grupinho que sempre me convidava pros descaminhos. Eram tempos duros lá em casa, naquela semana meu pai tinha chegado muito machucado por conta das dívidas. A gente sabia que era um aviso de que o pior estava para acontecer. Isso assustava muito a gente, sabe? Mamãe chorava a noite inteira, no cantinho dela. Naquela situação eu me vi obrigado a fazer o que nunca pensei... Eu pensava sozinho: o que é o certo a fazer? Eu sabia o que tinha de

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Luana Batista

fazer, mas não era o certo. Foi assim que eu me vi procurando o tal grupo. Marcamos o assalto numa loja de eletrodomésticos lá perto mesmo. Com o dinheiro do roubo, eu pagaria todas as dívidas do meu pai e não deixaria ele morrer, estava preparado para o que fosse. No dia combinado, eu e mais quatro seguimos para a loja, eu fiquei na porta de vigia enquanto os outros anunciaram o assalto. Os pensamentos seguiam em minha cabeça: o que estou fazendo aqui? E essa arma? Não quero matar ninguém, só quero salvar uma vida, uma família, parece até irônico... Era tanta adrenalina que ainda hoje parece um sonho, eu lembro de pouco. Sei que na hora de ir embora, demos de cara com a polícia, que tinha sido acionada. Os outros deram no pé com o dinheiro, mas foram pegos e presos, eu soube depois... Eu consegui escapar, me meti numa feirinha de rua, joguei a arma fora, tomei um ônibus qualquer e fui sem rumo nem direção. A única coisa que tinha em mente era que não voltaria. Eu tive muita vergonha. Fui parar no porto e dormi numa canoa. Eu estava decidido a fugir e a conseguir esse dinheiro por meu pai. Fiquei um tempo pelo porto. De dia eu tirava um troco carregando mercadoria e de noite, dormia por lá. Certa vez, eu tive uma conversa com um canoeiro que dormia estacionado na doca e des-

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cobri que ele trabalhava na Ilha de Marajó. Ele me ofereceu uma oportunidade pra trabalhar no porto da Ilha. Tinha até um lugar pra ficar. Era a minha chance, a oportunidade pra juntar um dinheiro. A viagem seria longa e o trabalho puxado. Trabalho de estivador, dizia ele. Eu não tinha nada a perder. Chegando pelo rio, vi as docas e a costa da Ilha onde faria meu novo começo. Estava sozinho e sem minha família, mas otimista. Esperava não demorar tanto aqui. O trabalho era pesado mesmo. Com o tempo, aprendi a pescar e larguei o porto, que não dava dinheiro. Agora eu ficava na feira e na pescaria. Já conhecia o local, me dava com as pessoas. Era bem diferente do meu bairro, gostei demais desse lugar. Mas eu não estava em paz, tinha o meu objetivo. Enquanto trabalhava, pensava somente nisso. Nesta época, depois de um tempo numa pousada barata para trabalhadores do porto, morei com uma família de pescadores numa dessas casinhas de madeira na beira do mar. Eles foram muito bons pra mim. Estar junto ao mar me acalmava, e por alguns instantes os pensamentos ruins sobre meu pai iam com as águas. Após o trabalho, eu costumava voltar para a casinha, descansar um pouco e ir à praia fazer uma boa caminhada. Terminava contemplando o fim de tarde e dando um mergulho para garantir minha higiene mental. As pessoas 40

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Luana Batista

eram quietas e muito humildes. Eram como os búfalos que andam por aqui, que são fortes para carregar o peso, mas parecem sempre mansos. E assim as semanas seguiram... O dinheiro que eu ganhava era pouco, mas sobrava para juntar, e isto me confortava. Telefonei para os meus pais, mas não contei onde estava. Disse que quando eu juntasse o dinheiro, voltaria. Meu pai não foi mais ameaçado, mas sua dívida ainda existia, e a tensão era constante. No mais, morar na Ilha não foi difícil. Os costumes foram sendo incorporados em mim. Quase sem perceber fui me tornando um típico morador. Por mais que a gente trabalhasse, a preguiça fazia parte do clima, e o tempo corria diferente. Fiz novas amizades num centro comunitário perto da minha casa, onde encontrei o pessoal animado do carimbó. Quis entrar para o grupo, e eles me receberam bem. Além de distração, pensei que a dança poderia me dar um rumo, uma nova perspectiva das coisas. Entre essas pessoas conheci alguém especial, uma moça de olhar sereno, sorriso doce. Me encantei logo de cara e parecia que ela também gostava de mim. Nas aulas de dança, era sempre meu par e me ensinava os passos com paciência e delicadeza. Eu não faltava nenhuma aula, só pra ver aquele anjo, que dançando parecia voar. Um dia, depois da aula, eu a chamei pra dar uma volta pela Ilha. A gente

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conversou timidamente, tomamos água de coco e nos beijamos. Depois ficamos juntos e, desde esse dia até hoje, nunca faltou coco nem beijo pra gente, eu e minha Chiquinha. Mas como eu te dizia, teve uma tarde que o porto estava cheio e apareceu um trabalho arriscado. O povo precisava se alimentar, faltava peixe e um temporal se anunciava, com cada trovão... Eu precisava do dinheiro e fui pro mar junto com um companheiro. Nosso barco era pequeno e velho, mas assim mesmo a gente foi. Enquanto esperava a rede, pensando no meu anjo, o céu escureceu. O barco sacolejava sobre o mar agitado. Nos afastamos da praia e eu não conseguia enxergar mais nada. Então uma onda alta levantou o barco e o virou. Num segundo, parei no fundo do mar, desnorteado. Nadei buscando a superfície na escuridão. Ondas grandes bateram em mim com força, eu bebi muita água. Quando pude respirar, abri os olhos e não vi mais o barco. Não podia mais voltar. Fechei os olhos e pensei por um momento: e se me entrego, se me deixo morrer, aqui, agora... Mas na minha cabeça passaram meus pais, passou Chiquinha e meus sonhos mal começados. Tirei forças disso e comecei a nadar sem parar. Recuperando o fôlego, pude enxergar uma pequena luz. Nadei naquela direção, até sentir meus pés encostarem na areia. Andei um pouco e me joguei na areia seca, meus braços estavam tão pesados e o cansaço tão grande que cheguei a pensar que era uma 42

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miragem. Depois, fui acordado pelos pescadores locais e levado para um posto médico. Nosso barquinho também estava lá, pois a maré havia baixado. Meu companheiro estava internado, mas sobreviveu também. Ele foi resgatado por um dos barcos da praia. Depois deste acidente, decidi voltar a São Luís para tentar salvar minha família. Meu anjo me esperou em Marajó. Ao chegar no Bairrinho, nem passei em casa, fui direto para o traficante negociar a dívida de meu pai. Lá, coloquei minhas economias na mesa e contei minha história, de um modo mais resumido que esse que te conto agora. Ele me disse que estava tudo resolvido, que a dívida já não existia, que tinha sido paga e que meu pai tinha deixado a cocaína. Fui correndo para casa e confirmei o que tinha ouvido. Meu pai disse que a minha luta o inspirou na sua mudança, e que estava se tratando em uma clínica, por vontade própria. E que pagou sua dívida com os rendimentos da vendinha. Daí eu voltei, companheiro, e construí esse lugarzinho que você vê aqui. No final de tudo, penso que foi o amor que me trouxe pra cá. Aqui eu o encontrei, e sou eternamente grato por isso. Tudo na minha vida veio desse mar, de onde eu vim. Essa é mais ou menos a minha história. E então, o que o senhor vai comer?

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Bruna Alves Região do Pajeú Eu era um menino franzino e orelhudo, que morava no sertão de Pernambuco com meus pais. Filho único, fazia o que queria quando eles estavam cuidando do sítio, trabalhando. Subia no pé de umbu, catava seriguela, montava nas cabritinhas, esbanjava e explorava tudo o que tinha ao meu alcance. Um dia, fui até o açude me refrescar, como sempre fazia, e vi que estava secando. De pé eu tremulei... Se-can-do?! Mil coisas se passaram em minha mente, uma mente de menino com 12 anos, que não sabia fazer outra coisa além de merendar na escola. Logo depois, vi um bezerro morrer. Sua mãe não tinha mais leite. Vi os olhos de minha mãe molhados mesmo sem ter o que beber nem poder catar o milho que não vingou. Não chovia há anos. Ela não ganhava nem o do pão, porque não tinha onde colher e nem o que colher. O cafezal estava seco. Se-co! Cheio de mato, queimado de sol. O dono das terras cagava pra nós, agricultores. Nós que cuidávamos de sua terra. Mas ele tinha outras, tinha água e morava no litoral.

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Bruna Alves

Minha família vinha de uma longa linhagem de retirantes. Pobres que dependiam de facão, macaxeira e fogão a lenha. Éramos retirantes sem ter o que fazer com o gado morrendo, as cabras desfalecendo, nem borboletas havia mais na minha cozinha. Arrumamos nossas trouxas e fomos embora, nós, duas cabras e nossa vaca, que se chamava Jurema e carregava três tonéis de água na carroça. Fomos embora! Papai, mamãe e eu. Na metade do outro dia já estávamos a 20,7 km em direção ao Norte. Passamos por Brejinho. Continuamos... Sabe do que eu tive medo? Do frio, do vento naquela estrada de terra à noite, do breu que era estarmos sozinhos no sertão. Passaramse dias... Não tomava banho há meio mês. Comida? Comia os tatus e passarinhos que papai caçava para não ter que matar as cabritas. Elas davam-nos o leite, que faz bem para os ossos, fortalece! Jurema carregava as trouxas e mamãe não aguentava mais andar, sentia dor em tudo e por todos. Para dormir tínhamos dois lençóis e uma lona. Eu me divertia. Eles diziam que estávamos de férias. Mas com o passar das noites e as dificuldades em encontrar o que comer,

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percebi que estávamos a milhas de casa. Na verdade, eu vi que a nossa casa agora era onde encontrássemos água! As pernas foram fraquejando, a mente foi enlouquecendo debaixo de um sol de 45º e um frio de 12º de noite. Já estava cansado! Mamãe não se aguentava de dor e Deus não me aguentava de tanto ouvir pedir proteção para que não fosse atacado por nenhum bicho selvagem. A água acabou! Outra vez... No meio da noite vi papai cavar com uma pazinha de pedreiro um poço no barro seco para esperar juntar água. Estávamos perto de uma estrada conhecida dele. Disse que seus pais também já tinham parado ali. Lembrou-se que em seu tempo também havia porcos selvagens. Ele os temia, pois suas presas mais fáceis e indefesas eram os retirantes. “Eram porcos com presas enormes que tinham cara de malvados”, disse meu pai. Eu, já assustado, ouvi um uivo bem de longe. Acho que naquele momento só pensava em não ser comido por nenhum lobo, porco selvagem, lobisomem, ou sei lá. Minha mãe nada falava, mas estava sentindo o mesmo. Do nada, percebemos que o poço estava enchendo, estava mesmo funcionando. No dia seguinte acordamos mais uma vez com o barulho do sininho de Jurema, que comia capim. Andamos mais um pouco e logo 46

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percebemos no horizonte uma margem de casas, talvez... Sei lá! Nós andávamos a passos de formiga, né... Não tínhamos mais o que fazer quando eu percebi uma cruz. Ela só podia ter vindo de Deus, nosso Pai. Era uma igreja singela e amarela como ouro, gritei meus pais e Jurema. As cabritinhas, que estavam amarradas, vieram também! – Painho e Mainha, ói lá longe. Aquilo lá é uma igreja, num é? Minha mãe chegou a chorar: “Deus ouviu minhas preces.” Meu pai disse: “Depois de mais de 200 km, tava na hora de achar uma cidadezinha que prestasse. Tenho fé que lá tem o que a gente precisa.” Andamos até a cidade. Ao chegar na igreja e conversar com o Padre Cícero, que tomava conta da paróquia, meu pai contou a nossa história e ganhou um pedacinho de terra deles. Lá conseguiríamos nos reerguer e fazer da nossa lona um barraco, quem sabe do barraco uma casa de sopapo e futuramente uma de tijolos e alvenaria. Meu pai, emocionado com um sorriso de orelha a orelha, olhou para minha mãe e disse: “Estamos no Rio Grande do Norte, ao norte de São José, na região de Jucurutu. Acho que agora conseguimos nos virar por alguns meses. Tem escola, água e muito serviço pra nós. De fome a gente não vai morrer e menos ainda de sede, o Padre disse que podemos construir uma cisterna como a da igreja e usar pra irrigar as

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plantas, tomar banho e dar de beber à Jurema e às cabritinhas. Vamos criar João aqui!” Eu já estava de banho tomado e preparado para a missa. Era domingo e Deus queria falar comigo - sempre fui devoto de nossa mãe, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré. E sei que quando avistei aquela cruz lá no alto era para eu crescer aqui. Jucurutu não tinha muita coisa a oferecer, mas eu sabia que ia ser ótimo nossa estadia. Durante a missa, agradeci à minha Mãe Nossa Senhora e pedi que viesse muita chuva para irrigar toda a região e o Pajeú também. Para que pudéssemos plantar, logo naquela semana, e recomeçar do zero. Após a missa, agradecemos novamente ao Padre Cícero e fomos para o nosso barraco. Ao chegar no terreno atrás da igreja, percebemos que havia uma plantação de palma e, no cantinho, um mandacaru sem espinho que estava florindo. Sorrimos daquela situação e fomos descansar, pois o dia seguinte seria longo. Em uma semana já fui à escola. Ficava na mesma paróquia que nos recebeu tão bem. Era completamente diferente da escola que frequentava quando morava em Pernambuco. Tinha água, merenda e gente que sempre tentava ajudar nossa família. Era um paraíso perto do sertão. 48

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Bruna Alves

Mas eu sentia falta de uma coisa só... Não tinha glosa, não tinha repentista e nem tinha cordelista na nova escola. Então, eu recitava e declamava alguns versos que aprendi lá no Pajeú: “Cajueiro abaixa a galha que eu quero chupar caju menina traga a cachaça que eu quero tomar Pitu menina diga a seu pai que eu quero casar com tu.” Logo fiz colegas e amigos. Pude curtir minha juventude novamente e aproveitar a água do rio que banhava Jucurutu com minhas novas amizades. Cresci. Terminei meus estudos e logo quis mais, muito mais. Meus pais estavam bem por lá. Tinham tudo o que pediram a Deus. Mas eu queria mais que água, comida e horta, mais que vaca e cabra pra cuidar. Eu queria desenvolver minha língua, meus conhecimentos sobre os lugares, principalmente sobre o sertão e a cultura nordestina. Eu escrevia sobre tudo, tudo o que eu imaginava ser, viver futuras aventuras, conhecer novos costumes, tudo, tudo. Estava louco pra ir para a faculdade.

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Me inscrevi no vestibular. Fiz e passei. Me inscrevi para Letras e passei, para Agronomia e passei. Então eu fui viver. Fui morar, estudar e trabalhar para o lado de outra cidade. Quando dei por mim estava morando na Paraíba, declamando poesia nos cafés de João Pessoa e escrevendo livretos. Hoje, participo de projetos patrocinados pela Secretaria de Cultura de Campina Grande, dou aula na graduação de Literatura e publico contos como este.

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Bruna Alves

Umbuzeiro Eu e um umbuzeiro Conheci um nordeste inteiro Comi comida com tempero E peguei cabra na mão Eu e o sertão Vi a caatinga, a seca e o molhado Cheguei a suar um bocado Até num açude entrei Me molhei Me banhei com a água que o boi lambeu Fui eu e a Paraíba Fui eu e o Pernambuco Fui eu e a Bahia Fui eu e Deus No meu sertão

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Oh Senhor! Tenha paciência com essa juventude Que tem nojinho de entrar no açude Sabia que tem quem beba dessa água? Não. Não é do seu interesse! Se o nordestino bebe ou come o problema é dele. Mas se o carioca deixa de lavar a mão é problema do mundo. Então ...? Não. Não é! Meu caro, todo esforço é muito suado E zoado pelo povo desunido da minha terra Mas o que eu posso fazer sozinho? Não é muito, mas sei que o que é escrito É lido e o que é visto sempre existiu!

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Guilherme Cunha

Guilherme Cunha Abismo Crepúsculo. Ema já podia ver o céu se transformando com o pôr do sol que gradativamente descia sobre as nuvens. Estava na hora, o poente era o convite para que esse momento seguisse num ritmo poético. Ela estava pronta, podia sentir a água em seus pés, carregando-a para o abismo que estava a poucos metros. As forças das águas atuavam em suas canelas, às vezes contrárias ao fluxo, às vezes em direção ao destino. Em passos curtos, Ema caminhava. Enquanto isso, o vento lhe contava ao pé do ouvido seus próprios segredos. Ela podia ouvir, vindo das profundezas de seu consciente, uma música quase esquecida, abafada. Olhando ao seu redor, podia ver nas margens do rio em que caminhava, árvores de troncos solitários erguidos num convite ao abraço. Neles se viam faces que estampavam sorrisos enormes e faziam escorrer lágrimas de seiva. Ema continuava caminhando enquanto borboletas dançavam e tocavam amigavelmente as palmas de suas mãos. No momento em que as delicadas libélulas, que repousavam nas pedras que estavam no caminho, levantaram voo para que Ema pudesse passar, ela olhou para baixo e viu um semblan-

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te na água: era o seu rosto... Não aquele que vira no espelho assim que acordara pela manhã, mas seu rosto quando tinha dez anos. Ema sorriu, pois estava usando o batom vermelho de sua mãe, que sempre a proibiu de usar. Levou as pontas dos dedos aos seus lábios, tocando -os. Estavam quentes e macios. Olhou então para seu corpo e estava usando o vestido que ganhara para sua primeira apresentação de balé. Os pássaros cantavam uma melodia em tons precisos, similares ao de um piano, e Ema rodopiava sobre as águas. Tentava recordar-se da coreografia de sua primeira apresentação de balé e, de alguma maneira, realizava-a com perfeição, como se não controlasse suas articulações. As borboletas se confundiam com as pétalas das flores que eram sopradas pelo vento, ambas participavam com Ema de sua dança. Em ritmos leves, continuava a caminhar sobre as pequenas pedras da água. Com corpo e alma em sincronia. De repente, a melodia dos pássaros foi cortada pelo estrondo de um trovão. Ema olhou para as nuvens negras no céu e, ao fundo deste cenário medonho, também podia ver clarões que a cada pestanejada davam vida a uma imagem que Ema ainda não conseguia distinguir. Sobre as águas continuou, mesmo com a tempestade. A correnteza que atuava sobre suas pernas agora parecia mais forte, como se quisesse atraí-la às pressas para o seu destino final. Já não se via flores, já não se via mais cor. Tudo era 54

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cinza em Ema, seu vestido de balé se transformara em trapos velhos que sua mãe guardava no porão. E com a agitação das águas, Ema já não conseguia mais enxergar seu rosto sobre as pedras. O clarão novamente apareceu no céu, e desta vez Ema pôde enxergar a silhueta que se estampava atrás das nuvens. Pôde ver, então, duas mãos que só se uniam com muita dificuldade, como se de alguma forma estivessem sendo obrigadas a se separar. Nos dedos de uma das mãos, pôde ver, claramente, o anel que tinha ganhado de seu primeiro amor. O anel que usava desde a primeira vez que fora posto em seu dedo. O “para sempre” esculpido brilhava com a luminosidade dos raios. Uma daquelas mãos, que unidas estavam sobre os céus, era de Ema. A outra portava também um anel, e Ema percebeu que era a mão delicada, de dedos finos, de seu primeiro. Ele que viveu momentos intensos ao lado de Ema, mas que também viveu momentos fora de si. Ele que preenchia vazios com insanidade e loucura. Ele que correspondia um amor de forma facciosa. Ele que deixava infinitas feridas no coração de Ema, que sempre se recompunham involuntariamente. Ele que, com suas perplexidades, completava as incertezas que ela suportava. Passaram momentos tão reais e ao mesmo tempo tão superficiais que, para Ema, o sentimento entre os dois era impreciso. Mas tal imprecisão fazia crescer cada vez mais afeição por esta pessoa, que

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oferecia não um simples romance, mas a vertigem das margens de um abismo. E agora já não passavam de lembranças. Seu amor já não era mais presente, nem futuro. Só a assombrava com um passado que Ema tentava esquecer. Ele se foi, de uma forma tão... Injusta. E agora os relâmpagos e nuvens negras se transformaram no sol laranja de fim de tarde de que ele tanto gostava. Ema continuou a caminhar. Já não via, não ouvia e nem sentia. Ema já estava prestes a chegar ao abismo, a vibração da queda d’água se fazia sentir nas suas entranhas. Tudo ao seu redor deixava de ser mágico, eram apenas árvores por árvores, pedras por pedras, Ema por Ema. De alguma forma, Ema não conseguia mais ver seu corpo, como se estivesse e também não estivesse ali em sua pluralidade. Finalmente, Ema deu seu último passo antes de não ter mais passos para dar. Estava na beira de tudo. Imóvel, de olhos bem fechados, por alguns instantes. Com a cabeça erguida, sem olhar para baixo. No fundo de sua mente, podia ouvir, crescendo, aquela composição, antes abafada, dos porões da memória. Tomou coragem, inclinou sua cabeça para baixo, e aos poucos foi abrindo os olhos. ABRIU. A trilha sonora cessou. Ema estava perplexa, pois não via o que imaginara. Não avistava a queda d’agua. Não avistava natureza. Não havia vista. Ema percebeu que embaixo dos seus pés só havia carros, trânsito, ruas, pessoas e pessoas, andan56

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do, correndo. Ao seu redor, prédios, arranha-céus, guindastes. Ema já não sentia mais a brisa de antes, e o som dos pássaros que antes cantarolavam era agora barulho de buzinas e obras. Tudo era plano piloto disforme, o concreto da capital. Ema não entendia porque o abismo que imaginava já não era o que via, porque sua vida não saíra como o planejado, porque tantos problemas e preocupações, porque seu amor não estava ao seu lado, porque uma voz em sua cabeça a todo tempo narrava tudo que via, ouvia, fazia, sentia e pensava. Eram muitas dúvidas. Mas Ema não tinha tempo, estava na hora, o sol já estava se pondo, transitando, convidando-a. Foi como a primeira vez quando o viu, ele que sempre se despedia com um convite, dizia: “Me encontre no pôr do sol”. Seu amor era o abismo, a que Ema, finalmente, se entregou.

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hematita Pedras expostas em formato de cachimbo e fumaça. O antropólogo nos propunha uma oferta: Das preciosas, seis seriam nossas por um preço especial. Mas ainda tínhamos que comer, e os recursos eram limitados, quase escassos. Voltamos logo (falamos). Sem compromisso, jantamos. Com os trocados restantes, retornamos às compras. Escolham a que brilhar para cada um (falou). E, para mim, brilhou, naquela noite em Alto Paraíso, hematita. “hematita: auxilia na circulação do sangue e reumatismo. Melhora a autoestima.”

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Guilherme Cunha

Procura-se: em verso ou prosa Turistas desconhecidos com ânsia de criação são flagrados em diversos pontos de Brasília cometendo calúnias. Boatos procedem ao fato de que o grupo foi flagrado subindo os blocos do Teatro Municipal, num feito totalmente imprudente e que desrespeita a arquitetura de Niemeyer. Não satisfeitos com tal ato, a quadrilha também foi vista desmazeladamente em mergulhos no Pontão do Lago Sul, onde os banhistas são proibidos. Testemunhas, que almoçavam lagostas nas margens do lago ou que estavam de passagem em suas lanchas, relataram que o grupo não só mergulhou como também pegou pororocas como se estivessem na Praia de Ipanema. Uma guia do Congresso Nacional ainda prestou queixa para a polícia local alegando que os mesmos tentavam entrar de penetra em uma das visitas guiadas. Os turistas seguem desaparecidos.

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Caligem Eu gosto da sensação de andar no escuro. Não sinto medo, sinto a explosão na minha mente. Quando ligo a lanterna, me guio por um feixe de luz que ilumina o caminho de terra à minha frente e que me dá a segurança de que uma finalidade existe em algum ponto desta diretriz retilínea, mesmo que ainda não seja hábil para alcançar esta realidade. Ainda assim, ouço diversos sons que, num simples movimento, desmistificam a imagem que a priori enxergo às cegas em meu inconsciente. Porém, não me contento. Quando a desligo, posso sentir além dos limites que meus sentidos me reservam, que não satisfazem minha conduta moral. Despoluo o céu que me designa milhares de constelações e estrelas céleres. Vejo muito além do que fótons elétricos podem me proporcionar. Posso pressupor infinitudes quando não distingo os planos a guiar-me próprio. Sou errante e um passo em falso me faz feliz.

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Gabriel Leonne

Gabriel Leonne Tortura de classe Invadiram minha casa Reviraram meu armário Dizendo “cadê a porra da droga?” Ajoelhei implorando pela vida Gritos e lamentos não cessavam As crianças só choravam Fui arrastado para o beco Mergulharam minha cabeça na água, Me encostaram o fio desencapado. “Coloca o saco no infeliz!” Acordei com tapa na cara, Mas o pesadelo nunca acabava Sob o bute preto suplicava piedade E reafirmava, “sou um trabalhador”.

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Depois das marcas da injustiça Disseram: “Vaza vagabundo Tu é mais um favelado”. Saí desorientado, ensanguentado As lágrimas iam me lavando. Entrei no meu barraco E abracei a todos desesperado. Respirando mais aliviado Agora fico sentado no banco Aguardando o próximo esculacho.

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Gabriel Leonne

Borborema Grande terra redonda Vida terrena de rua Fecundo solo seco Que com o sereno A morte se esverdeia Terreiro com rachaduras de pés Sinal de trabalho duro Boca sedenta falando poesia Até o açude vai Caminhando em cantoria Na semeadura do brejo Lanço fava branca, orelha de vó Feijão roxo e guandu Todos na cova da vida Planto o milho em janeiro Para colher em São João Maracujá, acerola, mamão

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não preocupam Porque da feira nunca desaparecerão. De janeiro a abril No semiárido nordestino Desta formosura só sai uma brasileira A seriguela filha do caju Quem a acompanha é estrangeira. A jaca indiana suculenta E a manga verde amarela Quem na folia olha seu rodado Diz que é baiana sua forma bela. A graviola entra no carnaval Com sua forra carnuda Falsa espinhuda! Balançando no pé até julho. O abacate, a pitomba A cada dia de carnaval 64

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Gabriel Leonne

São foliões diferentes Ora garrafinha ora redondo. O cajá e a jabuticaba Nunca chegam a tempo da folia Ficam sempre rezando Com São João, Toinho e Pedro Pendurando as bandeirinhas E acendendo a fogueira. Menina caseira envergonhada É a goiaba rosada Chega na feira em agosto Passa pela fruteira E volta em outubro para casa. São Chico talhando em angico Abre a colheita do Sabiá; Laranja, aroeira e limão Já montando a árvore de Natal Decorando com pitanga e pinhão.

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O menino que aprendeu a mandar beijos para o céu Numa cidade no Nordeste brasileiro, zona de labuta, semiárida e de mata branca, vivia alegremente, numa casinha bem humilde mas espaçosa, um menino cuja graça era Turmalino, moleque arteiro e sagaz, que morava com seu pai e sua avó. Passava o dia brincando na beira do açude, mergulhava, rolava na lama da margem, montava nas ovelhas, cabras, bodes, e em tudo que andava e divertia, corria, corria e corria mais, imitava os pássaros durante todo alvorecer. Seu pai, Jandir, boiadeiro de sexta geração, dominava uma manada como ninguém, exímio cavaleiro. Como pai dedicado que era, ensinou Mali, chamado assim em sua casa, como lidar com todas as intempéries da profissão. Vovó Inhá era uma cabocla que se desdobrava para fazer as vontades do moleque. Uma vó que dava gosto de ficar perto. Passava o dia inteirinho cuidando dos serviços de casa. Quando ia ao quintal, colocava seu chapeuzinho de palha com três fuxicos na aba, olhava a plantação e regava, dia sim, dia não, seus milhos, mandiocas, favas, feijão, verduras e legumes plantados no barranco perto do casebre. Ela é quem tomava conta de tudo quando Jandir tinha que transferir 66

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Gabriel Leonne

a boiada de região. O tempo em que ele ficava longe de casa era grande, pois tinha que cruzar todo o latifúndio da família para encontrar pastos saudáveis. De suas viagens, Jandir sempre trazia grandes histórias: um jacaré que aparecia para dar um oi, uma cobra peçonhenta no meio do gado. Sem contar que, quando alguns dos boiadeiros deixavam a retaguarda e a onça surgia e pegava um boi, toda a manada se debandava e para reestabelecer a ordem só com muita experiência e jogo de cintura. Mali se sentava na varanda com seu pai depois dessas longas viagens. Ele era um menino curioso e adorava prosear. No fim das histórias, vinha com aquelas invenções de menino arteiro que se acha homem feito, falando pelos cotovelos sobre as atitudes corajosas que tinha em seu dia a dia de brincadeiras. O pai ria... Ria de montão daquelas mitologias. Todas as noites vovó Inhá contava uma das histórias que ouvira de sua mãe, descendente da tribo dos tabajaras, e o menino dormia com ar de sonhador. Logo ao acordar, Mali levantava e corria por toda a casa a gritar: – Bom dia! Bom dia! Papai, vem tomar café! Jandir, que estava sempre pelo terreiro conversando com seus primos e amigos de trabalho, ouvia a doce voz e ia depressa para a cozinha. Chegando, dava um abraço em seu filho e o levantava, em

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seguida um beijo na testa de sua mãe. Então, o café era servido para Jandir, e com leite para Mali. Pãozinho fresquinho e broa, feitos no fogão a lenha do quintal, brotavam na mesa das mãos da velha cabocla. Assim transcorriam as poucas manhãs em que o pai de Mali não estava viajando. Mas, não demorava muito, o moleque arteiro, com seu cabelo de fogo e suas pintinhas amorenadas na maçã do rosto, ia se embrenhar na mata dizendo que era um dos personagens indianistas da história de sua avó. Sempre com uma vara de pau na mão, desbravava aquele mesmo local. Por ser tão inventivo, criou um espaço por entre o bambuzal onde realizava brincadeiras autênticas, sozinho, ou melhor, com seu potinho de palha cheio de louva-a-deus. Criava cabaninhas com a galhada do chão; com o barro vermelho, pequenos morros como o que sua avó plantava; com as linhas de tricô de Inhá, fazia varinhas de pescar; mas nunca conseguia encher o seu buraquinho no chão, porque a água era sugada rapidamente pela terra esturricada. Seu brinquedo preferido era um caminhãozinho de madeira que o pai trouxera da feira de Caruaru, com suas quatro rodas vermelhas e um barbante amarrado em sua frente, ele era puxado vigorosamente pelo menino, que subia nos piores lugares, só para ver como o caminhãozinho se saía. 68

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Gabriel Leonne

Não existia nada que impedisse o moleque de abrir um sorriso de ponta a ponta, mesmo quando vovó Inhá não o levava ao ensaio de maracatu. Mali ficou durante uma manhã inteira quebrando bambu com pedra dizendo que era para fazer a lança de caboclo do maracatu. Inhá era uma baiana do movimento, ou simplesmente dama do passo, e não deixava de participar dos ensaios. Começara a levar Mali para ver a festa, com o acordo dele se comportar e ficar quietinho durante a reunião e também com a promessa de comprar, na volta para casa, um doce de abóbora, que o menino adorava, na tendinha do seu Maneco. Mali, apesar de toda sua simpatia, era um menino muito tímido para falar com adultos estranhos na rua. Em certo momento do maracatu, ele entrou na ala das baianas e se meteu por entre os panos coloridos da saia de sua avó. Ela percebeu logo e ficou impressionada com a peripécia do moleque. Mirou-o com olhar de esporro, mas não demorou muito para cair na risada. Antes que vovó Inhá falasse algo, Mali se mandou com a criançada, fazendo brincadeiras de rua. No fim de toda folia estava a carroça do Bastião, compadre e empregado de Jandir, esperando Inhá e seu neto que cambaleava de tão cansado. Naquela noite, Inhá se despediu das amigas e caminhou gritando por Mali, que logo apareceu e deram as mãos, continua-

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ram os dois caminhando pela Rua Calunga. Quando chegaram na altura da tendinha do seu Maneco, Mali puxou o braço de sua avó e apontou para a venda. Inhá já sabia o que o moleque queria, era o seu doce predileto. Ela pegou sua bolsinha, decorada com ponto cruz que ela mesma fez, puxou algumas moedas, e pediu para ele apanhar um doce de abóbora e um de batata para Jandir, enquanto aproveitava para pegar um quilo de sal. Maneco adorava quando eles passavam por ali, afinal Jandir era seu fornecedor e amigo de bar. Inhá pagou os doces e o quilo de sal, agradeceu a Maneco e desejou boa vendagem. Na saída estava Bastião, aguardando os dois, que subiram na carroça e debandaram para o sítio. Já em casa, o moleque deixou o doce de batata de seu pai numa caixinha de madeira que ficava na mesa da cozinha. Sua avó foi esquentar a água para o banho. Sem perder tempo, Mali sentou na porta de entrada olhando para o quintal e começou a abrir seu doce, maravilhado, e comeu vagarosamente para que demorasse a acabar. Enquanto comia não conseguia pensar em nada, a não ser no sabor. Quando terminou, ficou muito pensativo... Sua avó estranhou o silêncio e seguiu para onde ele estava. Viu o menino de cabeça baixa, ajoelhou com dificuldades, levantou a sua cabeça e viu que uma lá70

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Gabriel Leonne

grima escorria. Inhá deu um forte abraço e perguntou o que havia acontecido para ele estar tão sentido. O menino não sabia o que dizer, apenas miava tristonho. Até que depois de uma longa conversa ele desabafou: – Vovó, eu não sei o que acontece comigo. O meu amigo fala uma palavra que eu não tenho para quem falar, por isso eu fico triste. Inhá, experiente que só, já sabia do que se tratava e pensava na resposta. No entanto, ela perguntou: – Ocê sabe que vó sempre vai estar ao seu lado. O que te deixa triste? – Eu... Eu... Não encontrei mainha. Meu amigo falou que toda mãe ia tá no maracatu, mas não encontrei a minha. – Ocê sempre está com a sua, por isso não encontrou. O menino parou de chorar e continuou escutando sua avó: – Bote sua mão no peito e sinta. Tá vendo aquela estrela lá no céu? Aquela! A mais brilhante. Então, sua mãe mora lá e quando anoitece ela acende o fogo só procê consegui olhá a estrela, que brilha... Brilha.... Como uma Turmalina colorida. O menino abriu um sorriso tão grande, e pensou alto: – Mainha liga a estrela só pra mim...? – Sim, só procê. Me dê um abraço e vamo entrá pra banhá.

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Os dois se levantaram, se abraçaram e quando Inhá ia fechar a porta, Mali olhou as estrelas mais uma vez. Eles ficaram parados até vovó falar que estava na hora de ir. Mali colocou uma mão no coração e com a outra mandou um beijo para o céu. Eles entraram e Inhá fechou a porta.

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Robson Casciano

Robson Casciano Árvore da lembrança Sento-me às margens do Rio Preguiça, que não me transmite essa sensação, mas sim contemplação. As árvores emparelhadas por toda a imensidão compõem uma paisagem única. Pelo estado da madeira, talvez meu barco não suporte mais do que alguns dias, mas há de me aguentar, decidido que estou a seguir o convite das águas. Pulei delicadamente para a sua popa, a fim de não prejudicar as emendas feitas à minha navegação. A correnteza me trouxe um galho grande, espesso, com um trevo de quatro folhas na ponta. Decidi que este seria meu remo. Mexo com o galho para frente e para trás tentando movimentar a embarcação, mas está acordoada, então a solto – e a acalento. Começo então minha viagem ao tempo desconhecido. Busco uma árvore que revelará o meu passado e meu destino, e sei que estou perto. Passo por dentro de um canal e alcanço os bancos de areia, onde faço questão de saltar. A solidão destas pequenas ilhas é como a minha, elas e eu estamos perdidos no tempo. Esqueço às vezes minhas preocupações para observar os pássaros cruzarem o céu azul, gorjeando feito a canção do Danúbio da Orquestra

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de Viena. Na pequena ilha, encontro um cupuaçuzeiro, que me traz um sentimento azedo. Mesmo assim, o pego e separo a casca dura de cor castanho-escuro do fruto, e o levo até minha boca. As sementes brancas, as cuspo. “Tão duro quanto isso somente a minha realidade, e meu medo de saborear os fragmentos ácidos em minha memória”, penso comigo. Avanço vagarosamente, com medo de perder a trilha. Sempre que passo por alguma árvore deixo uma fitinha de Nossa Senhora da Aparecida, para reconhecer o meu caminho. Passo agora perto de um Farol, que cogito visitar, mas opto por não ir. Se eu me distraio um pouco meu passado ficará no fundo desse rio para sempre. Sigo para o norte e chego até a pororoca, onde o rio corre depressa para o encontro das águas. Estou tão longe da vila que só me restam duas fitinhas. Não ouso ir adiante, mantenho-me fora do alcance do mar violento. Paro meu barco contra uma rocha lodosa, grande. O lugar me parece familiar. Minha cabeça começa a ficar confusa, como se entrasse em um turbilhão. Então me recordo daquela noite: estava frio, escuro como um breu, partíamos de volta para casa em um barco, quando batemos em algo e, neste momento, estava eu na proa. O impacto imediatamente me jogou para fora e caí de cabeça em uma rocha. Antes de perder a consciência, havia alguém gritando por mim, mas o rosto era escuro, como se faltasse luz na memória, ocultando-me esta peça do quebra-cabeça. 74

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Robson Casciano

Não tenho tempo de me recuperar desta lembrança, tenho de

continuar, e estou tão cansada... Recuo um pouco para seguir as fitinhas e ter a segurança de que poderei retornar ao píer, todavia meu cérebro me prega peças e atribui lembranças a lugares por onde não passei. A memória é a última coisa em que posso confiar. Ponho-me a pensar com o rosto mirado para as águas, que dizem ser o espelho da alma. O espelho reflete meu rosto com uma interrogação. De onde vem a esperança de que encontrarei minha alma naquela árvore? Entro pela floresta, seguindo a intuição, que é meu único norte neste momento. Ouço barulho de mato sendo levemente pisado, seguido por um grunhido baixo. Esta sensação eu já havia conhecido antes. Lembrome de uma caça, um índio trajava tanga, tinha um cordão com presas, uma lança e um arco e flecha nas costas. Sobre o seu corpo, uma tinta verde parecia camuflá-lo. Havia também um homem branco carregando uma câmera fotográfica, estávamos correndo no meio de uma floresta junto de uma presença assassina, a lança foi arremessada contra essa presença, que foi silenciada após um urro. Lembro de pensarmos que tínhamos vencido, mas, sorrateiramente, saltou sobre o homem branco a cria do animal ferido que, sedenta, desviou-se das flechas que lhe disparavam e prosseguiu com sucessivos ataques a jugular do índio. Sua silhueta deixava transparecer sua fúria. Depois, seguiu em minha dire-

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ção e me encarou durante um longo instante e seguiu seu caminho. Sua face escurecia conforme retrocedia, deixando somente a mim e os corpos largados ao chão. Diante desta visão brutal, questiono-me sobre quem era o “homem branco”, pois ele estava presente em outra memória, mas não consigo ver seu rosto. Começo a conectar as peças e me lembro vagamente de uma foto enterrada sob uma árvore. Uma árvore que era, para mim, um totem. Recordo de tirar aquela foto, onde ele parecia feliz ao centro de uma roda de índios. Durante este lapso, segui a corrente do rio, e agora tenho em minha frente um píer antigo. Ao pisar nas madeiras velhas, elas rangem. Ando por alguns minutos e chego num acampamento de casas de bambu, que parece uma aldeia abandonada. Forço a porta de uma cabana, que se abre. Entro em uma sala repleta de teias de aranha e formigas. Encontro ao centro uma escultura colorida, feita artesanalmente, com formato de cabeça de onça. Fuxico outras cabanas e descubro que nelas existem objetos como este, que eu reconheço serem totens. Representam espíritos da natureza. Cada pessoa tem seu espírito ligado a um totem, que o fortalece e o protege, mas que também tem influência sobre seu comportamento. Rebuscando meus objetivos, lembro-me da tal foto soterrada, e volto até 76

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a primeira cabana. Algo tinha me levado até ela, talvez o próprio totem. Cavo com minhas próprias mãos a terra embaixo do chão de madeira e encontro a fotografia. Lembro-me então que antes daquela caça de trágico final, a tribo estava reunida para um rito de passagem, todos rodavam, cantavam e murmuravam palavras. Homens e mulheres mostravam suas vergonhas a todos, e a única coisa que lhes cobria o corpo era a tinta vermelha. No centro da roda estava o homem branco, o mesmo da caçada. Resolvi fotografar, quando finalmente recuperei a consciência de que aquele que estava ao centro era o meu pai, mas ainda não sabia o porquê de estarmos ali. Esta era a foto que eu buscava. Meu pai com os índios, que já não estão mais aqui. Junto da foto há uma carta, onde está escrito: “Os exploradores querem este território por sua riqueza natural e mão de obra barata. Para terem a percepção de tal grandeza com os próprios olhos, eles querem a sua ajuda, mesmo sabendo que você é um antropólogo, e não um bandeirante. ” Olho pela janela da cabana e vejo o grande açaizeiro de quase vinte metros que eu via no escuro de minhas lembranças. Sim, eu me lembro de tudo... Quantas manhãs eu passei debaixo desta árvore, junto das crianças índias, enquanto meu pai fazia sua pesquisa na tribo. Meu pai e o índio foram as vítimas daquele filhote de onça que vingava o seu cria-

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dor. Ele me deixou viver como se dissesse “estamos quites”. Depois disso, fui adotada pelos índios que me deram como talismã o totem da onça. Disseram-me que havia uma ligação entre nós, já que eu sobrevivi a seu ataque na floresta. Depois a tribo foi expulsa pelos exploradores. Houve uma luta. Eu caí no rio ferida e fui arrastada pela correnteza, até bater com a cabeça em uma rocha e perder a consciência. Quem gritava por mim, na minha queda, era meu pai pajé adotivo, sendo levado embora pelos homens armados. Não posso descrever como tais memórias me fazem sofrer, chego a pensar que preferia não as ter recuperado. Retorno ao rio e não encontro meu barco. Estou sozinha e longe de tudo. Olho para as águas e me vejo claramente. Tenho olhos de onça ferida, que me ajudarão a encontrar meu caminho.

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Karen Campos

Karen Campos Nos pés das pedras-vidas O Sensacionalismo não é um gênero jornalístico novo. Em 1946, findado o Estado Novo, Francisco Clementino, diretor do Jornal do Commercio, enviou Pedro Simas Oliveira à pequena cidade de Sagarana, noroeste de Minas Gerais, para investigar o caso de uma moça que fora enterrada viva. Diz o diário de Simas que, chegando à cidade, o jornalista encontrou uma feira de alimentos, onde buscou suas primeiras informações. Teria sido ali que encontrou um contador de histórias, já em idade avançada. Ao entrevistá-lo sobre o caso da enterrada viva, Simas foi convidado para saber mais sobre essa história à moda antiga – à noite, diante de uma fogueira, junto a outros ouvintes. Antes, porém, o contador o levaria até a casa da falecida. Os papéis contam de uma casa abandonada. Pedro pôde entrar sozinho e vasculhou cada canto, em busca de alguma pista concreta. Entrou no quarto que provavelmente era o da moça, tudo estava no lugar. Uma estante com livros no canto esquerdo, a cama bem feita. Do lado

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da estante, uma escrivaninha que tinha sido totalmente vasculhada. Muitos papéis foram postos em cima da cama, entre eles uma carta com o poema que ora se reproduz: Morro, como as ondas da jiboia nos pés das pedras-vidas. Renasço como o dia, reconstruindo. Me refazendo somente para ti, Sertão. Mais uma vez, o barro, vermelho sangue. Sangue da terra Sangue dos meus. Quero de volta, umedecer a pele sentir o corpo pulsar viver. E mais uma vez. Morrer! 80

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Karen Campos

Essa carta foi encontrada junto aos papéis do jornalista, que morreu no mesmo ano, três semanas depois de voltar da viagem. A matéria não foi publicada. O Jornal do Commercio considerou que o material encontrado era insuficiente e desinteressante. Segue abaixo um dos relatos transcritos pelo jornalista Pedro Simas Oliveira a respeito da noite na fogueira. Está datado de 21 de abril de 1946. Exatos 30 dias antes da morte do autor. Nele, quatro moradores conversam. Noite da Fogueira Virgílio: Como dizia procês, era início do dia aqui mesmo, nas redondezas de Sagarana, perto do riachinho, que a menina Sara morreu de amor... Enésio: Calma moço, cê tá contando tudo adiantado! Essa estória correu sozinha todos os cantos dessa cidade. Era começo do dia em Sagarana e o sol já cantava na cabeça da gente. O galo berrava despertando quem tinha de despertar. A brisa fina trazia o leve cheiro de mata fresca, recém moiada. As águas do correguinho que passava lá embaixo, estava tudo quente, àquela hora da manhã! O dia ia ser... Virgílio: Mas cabra, cê demora por demais, desenro...

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Enésio: Calma homi!. Virgílio: Ia dizendo o quê? Enésio: Que... Sara era o nome da moça, bonita até. De estrutura fina. Jeitosinha. E amava o meio irmão Homero. Moço trabaiador, sabe? Morava com Sara, desde quando perdeu os pais, num acidente, na Cachoeira das Jiboias. Mas essa é outra história... Virgílio: Meu Jesus... Só termina no raiá do dia! Enésio: A moça tava lá, debruçada na janela, espiando o moço no meio do pasto, que já cedinho tava tratando de arrumar o carro de bois. Mais tarde naquele dia ia fazer uma entrega nos meados de Arinos. Lá praquelas bandas. O dia tinha acabado de clarear. Os bichos cantava um novo dia. Seu Lino, o pai de Sara, decerto estava nas estradas, a caminho da cidade. Dona Ema, mãe de Sara, parece que estava na cozinha, a modo de preparar um lanche pro menino levar na viagem. Porém, cês não sabe! Esse tal dia a moça Sara tinha separado para se confessar ao moço. Um amor que guardava desdos tempos de menininha, ainda debruçada na janela de sua casa miúda. Lembro que me contaram que a moça estava lembrando de um tempo longe daquele. De quando eies dois passeavam nas beiras das veredas. 82

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Karen Campos

“A noite estava escura como um prego”. A nuvem pesada, aproximava deies. Até que pegou. Por ora, continuaram na chuva, correndo. Aproveitando do lamaçal de terra, misturada com foia, chuva... Mas logo voltaram pra casa tincando. Moço! Chegaram lá com os coração nas mão. Sentaram na varanda coberta e lá desataram uma conversação serena. Sem os dois dá conta, foram chegando perto, e mais perto até que... Os pai de Sara chegaram da cidade. Virgílio: Bem se sabe que naquele dia eies se apaixonaram! Enésio: Ara! Dá pra calar essa matraca, Virgílio? Virgílio: Ôxe, volta pra estória, homi! Para de dá xingo n’eu. Enésio: Aí, a moça se desbruçô da janela. Foi andando na direção do moço Homero. Com os nervos tremósos, tanto quanto podia se estar. Ninguém sabia o que aconteceu. Só o que se sabe é que a moça tinha uma maldição. Lena: Não entendi, Tio Enésio! Ela já morreu? Acabou a estória? Virgílio: Calma moça, que ainda tem chão pra andar! Enésio: A menina Sara foi andando junto da cerca. E quando chegou perto do moço bambeou e caiu durinha. Com corpo rijo. Homero pegou a moça nos braços e levou de volta pra casa.

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Na casa, a mãe andava pra cima e pra baixo. Não se sabia o que fazer. Até que pediu pro moço pegar a carroça e buscar o pai e o Dr. Emílio. E assim o moço fez. Cês carece de saber que a moça tudo ouvia. Sentia tudo. Mas não podia mover nenhum lugar do corpo. Não porque não queria! Não conseguia mesmo! O pai de Sara chegou desmontado em lágrimas. Dr. Emílio tratou logo de entrar e ver o acontecido. Ninguém acreditou que só de olhar ele dissesse que a moça havia morrido. A própria quis desmentir, mas não conseguia. O doutor examinou, daqui, dali, e deu o veredito. Morta mesmo – era um mequetrefe. Nada se sabia das coisas. Moço, Sagarana toda já sabia do acontecido. Ô povo! Parece até que a notícia foi no vento! Dali a pouco, foi chegando gente que nem se sabe donde. E depois de encher a casinha, ficaram tudo debaixo das árvores. Cada pouco entrava de vez em quando. De fato, não se fez conta da cabeçada de gente que foi. Todos careciam de ver a bela moça, petrificada, igual morta. Toda de branco. No centro da sala. O padre foi o último a aparecer. Sisudo sempre. Para o gosto da mãe, anunciou o início da leitura. Discursou um pequetito sermão, uma ave-maria, dois padre-nosso. E foi, e ponto. O moço de tão abalado, coitado, não teve sangue a modo de ficar ali. Subiu ao quarto da moça, 84

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antes de tudo. E lá ficou, vendo na espreita as nuvens negras formando no longe do céu. Adiante. Da janela viu saindo primeiro Seu Lino. Logo mais atrás, Dona Conceição. Os seis primos mais chegados levando a moça. E chorou mais ainda. Desviou os olhos. Logo tornou a olhar. A comitiva vinha atrás. Aquele tanto de gente, entoando uma ladainha. Uma tristeza só... O sol foi coberto. E a nuvem negra chegou, escurecendo tudo. Mas chuva não se via ainda. Caminhada durou pouco. A casa deis era perto do cemitério, ali embaixo, ocês passaram perto, vindo pra cá! Não ouviram nada? Lena: Não mesmo. Pra falar a verdade, não seria de meu gosto! Enésio: Aí, disseram, não se sabe quem, que a moça Sara, quando criança, teve um troço desse. Enquanto brincava, na escola. E, no mesmo dia, o seu Doutor, das bandas de Paracatu, daquelas beiradas de lá, examinou a menina e disse que ela tinha uma probleminha, mas que era só ficar de zoio nela. A moça, coitada, ficou apagada um tempão. E, quando chegou em casa, nada contou pra mãe. Lena: Quantos anos ela tinha, tio? Enésio: Moça, ela era pequetita, de dez anos... Em casa, subiu direto ao quarto. Escreveu uma cartinha, como fazia todos

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os dias. Nada se sabe o que tinha nela. A moça escrevia que só. Dormia com os papéis. Destacou a cartinha do diarinho e pôs dentro da fronha. O moço Homero, ainda na janela. Triste que só ele. Ficou mais um tempo e saiu, deitou na cama da moça e... Cês num sabe! Contaram que quando ele pôs a cabeça no travesseiro, ouviu o barulhinho. Era a carta. Pegou e leu... A comitiva, naquelas altura, já tinha dispersado. Cada qual prum lado. Disseram que a coitada ouvia o choro do povo. As lamúria toda. Lena: Mas como, tio? Ela não estava morta! Enésio: Moça, dá pra ouvir sem resmungar? Aí, quando chegaram no cemitério, nunca se viu despedida mais rápida. Foi saindo um, dois, três. Quando se viu, só tinha os pais da moça. Sozinhos. Tiveram d’enterrar a fia! A moça viva, lá dentro, respirava tão fino. Quase não usava o ar. Lá dentro sofria. Não sei como souberam, só sei que se sabe que tentava mexer o corpo, gritar, e nada. Ouvia o som agoniante da terra, caindo e caindo. E nada se podendo fazer. A coitada só tentava, tentava. Em vão. O moço depois de ler a carta enlouqueceu. Andou de lá a cá. Virou. Mexeu no papel. Riu. Chorou. E saiu ticado. Aturdido. Foi atrás da casa, pegou a enxada, e voltou a correr, mais ainda.

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Karen Campos

Moço! O homi correu por demais! Chegando no pé do túmulo, me parece... Delina: Ô, Enésio, contando mentira pras visita de novo? Enésio: Mentira uma merda, cê não tava com eu quando ouvi. Delina: Nem era preciso! Gente, trouxe procês uns bolinho, venham logo. Virgílio: Deixa aí, muié, depois eis come! Enésio: Então, gente, o moço Homero começou a cavar e cavar... Aí logo Sara ouviu, menino, alguma coisa, e sentiu seu corpo voltando aos poucos. Mexeu os dedos, e tudo foi voltando. Aí a moça começou a se debater, gritar, e o moço ouviu. Moça! Ele cavou o mais rápido possíve. Só que não adiantou muito não, porque o barulho parou. E a moça morreu! A menina Sara tinha dado seu último suspiro quando o moço abriu a cova... A danada da chuva aproveitou a hora e desatinou a cair. Ali perdido, o moço chorou, com a moça nos braços. E a noite ficou num escuro que só vendo. Chuva caindo de jeito. Doía até lombo. Virava e mexia um raio cortava o céu no meio. E o moço lá, caído no chão. Aí, estava eu e a moçada em volta da fogueira, como hoje. E, de repente, um vento frio passou, quase que apagando o fogo. Deixou ele baixinho. Uma neblina veio chegando perto. Até que

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ouvimos um som de lamento, que saía da mata de trás de nós, igualzinho aqui. A diferença é que a casa ali acesa não tinha naqueies tempos não. Moço! Um grito fino saiu da mata escura, e de novo o vento frio, que dessa vez trouxe um papel plainando, que caiu perto d’eu. Moço! Me meti num medo, mas fui espiar. Pra quê? Quando peguei no danado do papel, tava escrito: De Sara, para os meus queridos de Sagarana. Na hora senti um arrepio e taquei o troço pra queimar no fogo.

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Valeska Angelo

Valeska Angelo Dois irmãos Parte I Ninguém pode mandar no que é dele! – a mulher do barco disse A índia tinha olhos de mel Enquanto o barco desliza tem um homem sorrindo para as matas lembrando da sua virgem a indiazinha dos olhos sem nome da cor do rio madeira Ninguém manda no homem que fincou algumas madeiras na beira do rio Ah! Rio de Janeiro, ainda és cidade maravilhosa? Desbravo as serpentes do mundo serpenteando o rio olhando tudo quatro crianças prematuras

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e uma senhora caduca em frente ao grande teatro maior que a jiboia que se entrelaça em meus braços dentro da rede Um salto entre as estrelas e um encontro em ponta negra Uma lua Entre o cinza e o negro mais negro que o índio Macunaíma mais preto que as meias do menino que acaba uma rima na rede do pesqueiro Caboclo da Terra de facão na mão que matou um peixe no Rio Solimão

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Valeska Angelo

Dois irmãos Parte II Entres as nuvens, o inferno, mais quente que o brega dessa gente, se abre no horizonte E nas matas o mistério latente entranhado na raiz do solo sagrado criado por entidade Tupi Dessana Criança santa diz que gosta de mim mas não me dá comida Me sinto uma menina A gente dessa terra já conhece os botos insetos que sugam nosso sangue

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enquanto um caboclo dá o sangue pra cuidar do pulmão Será que aqui o ar é mais puro? Tão puras como essas crianças que margeiam o rio hoje a noite é breu É Deus.

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Valeska Angelo

Dois irmãos Parte III Aflita um ser que aos poucos me devora Piranha do rio negro chega forte e lasca a madeira que me cobre O sol quente as águas barrentas a saudade Nunca serei viajante enquanto houver meus pais me esperando na esperança Hoje sonhei com asfalto o asfalto onde jaz viva uma plantinha. Dois irmãos é o que eu tenho agora e no dia da minha ida e em toda a minha vida Porque em toda cidade há igrejas?

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Filhos e mais filhos de tantos ribeirinhos crentes na fé carentes de quê? A mesma carência escondida no asfalto O suor é o mesmo Procurando se livrar do sofrimento de ser o que sou de ser quem sou Nem no meio da mata minha condição se afasta As copas das árvores sussurram Você é nada Nada

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Valeska Angelo

Dabucuri Faço uma busca Procuro destroços Ouço o som das águas E a queda de um barco alavancado por um banzeiro vai quebrar vai partir ao meio Da mesma forma que no céu negro dentro da água escura lembrei do meu nego Estou debaixo da água Um zumbido Zumbi dos Palmares Aqui ele é de cor parda Ohhdabucuri! Ohhdabucuri! Seja bem vindo a Manaós dançando pra celebrar sua chegada Pode entrar Dança do ventre Gerada do ventre

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Filha de algum Arigó Bebeu leite da árvore Seringueira Nunca voltaram pra sua Terra Ceará. Cortado pela linha do Equador uma linha traçada na parede das casas Dizendo até aonde a água chegou. Por dentro das matas o que há? Na margem ribeirinha há uma mulher com uma dúzia de meninas. Quero fugir Próxima parada Terra Arigóca Lá eu vi gente cheia de vida e um pouco soFrida Lá nos galhos da castanheira eu nunca me Kahlo. No coração do meu Velho há um Porto que serra as Madeiras e me leva de novo para as fronteiras de um povo que ainda faz o mundo respirar 96

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Thamires Bonifácio

Thamires Bonifácio Terror à beira rio Na cidade de Javé, no baixo Rio Madeira, muito se fala de um acontecimento que até hoje aterroriza as famílias. Moradores relatam com tristeza a morte trágica de Ana Lídia, uma cunhã muito bonita que faleceu nas águas do Rio Madeira. Devido a esse fato, muitas pessoas têm evitado nadar na região do acidente, já que em dado momento do dia o rio se torna violento. A questão é que nem todos os moradores sabem dessa informação, tampouco do acidente, por isso muitos turistas insistem em dar mergulhos, no entanto... Nem sempre voltam. Numa tarde de domingo, um grupo de turistas oriundo de uma cidade do interior teve como programação visitar o tal lugar. Já estava tarde e resolveram então armar acampamento, acenderam uma fogueira e montaram a barraca. Foi quando ouviram um choro que soava como um miar desafinado. Todos ficaram em desespero, pegaram lanternas e seguiram até o local de onde vinha o som. O miado os levou até uma clareira rodeada de árvores, onde se esconderam atrás de uma castanheira esperando ouvir o ruído novamente. O medo era aparente na face de cada membro do grupo. Não

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demorou muito e apareceu uma sombra que, em silêncio, deslizou seu corpo sobre o tronco de uma árvore até sentar-se sobre suas raízes. Ficaram imóveis observando-a durante um tempo. Ansiosos para saber o que de fato era, o grupo foi se aproximando. A verdade é que, a cada passo dado, a angústia aumentava assustadoramente. Com lanternas em punho, iluminaram o vulto que, sob a intensa luz, fez reluzir o rosto de uma jovem. Estava muito ferida, seminua, aparentando ter sido atacada. Assustados, resolveram levá-la ao acampamento para cuidá-la melhor. Próximo ao meio-dia, todos estavam apreensivos, mas felizes por terem salvado uma vida. Quando começaram a servir o almoço, perceberam que a barraca estava sendo aberta e dela saindo a jovem que eles tinham acabado de resgatar. Ela tinha baixa estatura e muitas escoriações, mas ainda assim continuava bonita. Ela sorriu para todos e, a partir desse gesto carinhoso e afirmativo, foi convidada a se sentar com eles, iniciando assim uma longa conversa. A moça revelou que lembrava-se de pouca coisa. Afirmou que enquanto estava em casa, sozinha, um vizinho invadiu a sua residência e a atacou violentamente. Ela conseguiu se livrar e mesmo com muito medo conseguiu fugir. No entanto, veio a se perder ao longo do caminho. Como estava há horas caminhando e sem se alimentar, sofreu um desmaio e quando acordou estava no acampamento. 98

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Thamires Bonifácio

Todos se comoveram com a história. Mas como estavam muito cansados, combinaram de ir à delegacia ao entardecer, depois que descansassem um pouco. Horas depois, Carolina, uma integrante do grupo, acordou e se deu conta de que algo errado estava acontecendo. Ao apalpar a cama ao lado, a encontrou vazia. A jovem que tinha sido salva pelo grupo havia sumido. Após horas caminhando pela beira do rio, Carolina avistou de longe a jovem ajoelhada diante da margem. As mãos estavam sob as águas, sua palidez ainda era visível, mesmo com a pouca luz do entardecer, e os cabelos lisos e negros cobriam seu rosto. Carolina ficou anestesiada pelo horror ao ver a jovem vomitar pequenos peixes ainda vivos e hesitou em chamá-la. Então, correu até o acampamento para pedir ajuda, mas o tempo foi insuficiente. Horas depois, já na madrugada, os amigos não tinham mais forças para fazer orações. As equipes de busca e salvamento não davam mais respostas. Caía uma forte chuva no local, os troncos desabavam nas águas devido às fortes correntezas, o frio era intenso e todos desistiram de esperar. No dia seguinte, o grupo foi convidado a se apresentar na delegacia. Chegando lá, foram informados de que teriam que reconhecer um corpo ou, pelo menos, o que restou dele. Ao verem as fotos, tiveram

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certeza, era Carolina. Não fora um simples afogamento, depois das buscas terem sido finalizadas, a polícia recebeu um chamado de pescadores da região. Quando chegaram ao local, se depararam com uma cena terrível. Os peixes capturados tinham um enorme tamanho, o que costuma ser fora do comum para aquela espécie de candiru, peixe típico da Amazônia, e eles regurgitavam uma gordura amarela. Mais à frente, submerso na beira do rio, se encontrava um corpo que claramente tinha servido de alimento para os animais. Até então, o mistério fora resolvido, mas onde estava a jovem resgatada? Esta nunca foi encontrada, nem sequer seu nome as pessoas sabiam. Ela simplesmente desapareceu, mas a polícia informou que naquela semana não fora registrado nenhum desaparecimento. O último caso que ocorreu nas mesmas circunstâncias foi o de Ana Lídia, há alguns anos atrás. Também pouco se sabe sobre ela, tinha cabelos negros e sumiu de casa. Moradores disseram tê-la visto mergulhar no rio com um vizinho. Seu corpo nunca foi encontrado e o vizinho está foragido. Amigos e parentes da garota acreditam que seu fantasma perambula na região e assusta banhistas, dizem que ela está em busca de justiça. Mantenhamos expectativas. A polícia investiga a relação entre os casos e, em nota, afirmou que o caso Ana Lídia será reaberto. 100

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Juliana Lourenço

Juliana Lourenço Os quatro gatos Certa noite, vinham descendo as ladeiras do Reviver dois pares de gatos. Um gato malhado de branco, preto e laranja, um preto, um cinza bem peludo e um laranja. Tudo vira-lata. Alguns com cara de gato de madame (o Preto, o Cinza e o Laranja; o Malhado não, esse tinha cara de vira-lata mesmo). Apesar de ser o menos interessante à simples vista, o Malhado era o mais malandro. O Cinza era vaidoso demais com seus pelos e bigode. O Laranja já era largado e mais camarada que o anterior. O Preto era desconfiado e falava pouco, mas era gente boa; e o Malhado era o mais extrovertido, descolado. Era vira-lata com muito orgulho e dizia que os da sua raça têm um pouco de todas as raças felinas, por isso se achava sortudo. “Viva a miscigenação!”, ele dizia. De fato, vira-lata tem um pouco de tudo: o formato da cabeça de um, os pelos de outro, o rabo assim, as patas tal, tudo num só gato. Os quatro amigos felinos iam distraidamente descendo a ladeira lado a lado na rua larga. Quem visse, acharia inusitado. Sempre andavam tarde da noite para passar despercebidos, mas não tão tarde

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a ponto de perder a agitação da Praça Nauro Machado. Com todo aquele molejo que só os gatos e os brasileiros têm, desciam as ruas, viravam esquinas e brincavam entre si. Apesar de fazer de tudo para não chamar a atenção (o que era difícil, visto que eram muito barulhentos), uma senhora que estava na janela (como todos os dias) os viu passar e comentou com o marido que estava dentro de casa entretido com o futebol. Com uma voz aguda, gritou: – Olha lá, Zé, a raça mais vagabunda que existe: os gatos! Sempre de telhado em telhado, nunca fazendo nada pra agradar Nosso Senhor Jesus Cristo! Dera eu ser gata e ficar assim, de bobeira! – os gatos perceberam que o comentário era sobre eles e riram alto. – Minha Senhora – começou o Cinza – apenas estamos curtindo as sete vidas que Deus nos deu de bom grado. Se Ele quisesse que trabalhássemos, nos tinha feito burros ou humanos, ou coisa do gênero. – Imagine que gata gorda e feia ela seria! – disparou o Laranja. As piadas continuavam e a robusta senhora negra ficava cada vez mais constrangida e furiosa. – Zé, olha o que esses gatos filhos da puta tão falando de mim! Cê num vai fazer nada não?! Em resposta, ouviu-se de dentro da casa uma voz alta e rouca: “Quem mandou mexer com os gatos?! Agora cala a boca e me deixa 102

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ver o jogo! Fecha essa janela!” Aos resmungos, a senhora entrou, mas não sem antes mostrar o dedo do meio em riste para os gatos, que se fingiram de ofendidos. Virando a esquina, estava a Homero de Paz. Uma rua estreita com casarões coloniais, altos, coloridos, com grandes janelas e portas, que naquela hora da noite estavam fechadas. A rua fazia curvas suaves em sua descida. A luz amarela que emanava dos postes lhe dava um ar sombrio. Tudo parecia dormir ou jazer morto num leito amarelado. Aquilo dava uma sensação estranha ao Cinza, que tentava tirar da cabeça essa ideia mórbida. Logo se distraiu ao observar o parceiro Laranja rasgando um saco de lixo por ter sentido um cheiro bom. O Malhado olhava inquieto para o final da rua. – Tô ouvindo passos... Tem alguém vindo. Todos acompanharam seu olhar, esperando ansiosamente saber quem virava a esquina. De repente, rompe-se no ar, lá embaixo, um som de risadas. Eram os cachorros da vizinhança. Cinco grandes cachorros, todos pitbulls muito mal encarados. O líder do bando se chamava Brutos, um cachorro musculoso e esbelto. Bonito, o danado, e mau. Tinha acabado de ganhar a cicatriz na cara que o deixara famoso. Cicatriz que ia da testa passando pelo olho esquerdo. Brigou feio com o líder anterior do bando. Disse que tinha se cansado de ser

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subordinado e ia virar patrão, pois não tinha gênio para seguir ordens de quem não sabia mandar. Estava de saco cheio de ver seus amigos de bando sendo feitos de idiotas pelos gatos da vizinhança, decidiu que isso mudaria quando tomasse posse. Brutos ainda não tinha visto os gatos. Dois cachorros de cada lado seu, e ele lá, no meio. Risonho e assustador como só um cachorro com uma cicatriz gigante pode ser. Estavam bêbados e animados. Pareciam voltar do Reviver. “O negócio lá deve estar quente”, comentou o Malhado, meio fora de contexto, por puro nervosismo. Sentia o coração bater forte, num ritmo confuso e descompassado; a frieza nas patas e a cabeça a fervilhar. Os amigos o olhavam nervosos esperando uma reação. Nada. – Puta merda, se virem a gente, vai dar encrenca! – disse o Laranja, com a cara toda suja de molho. – A noite tá bonita e boa demais para terminar com a gente apanhando deles. Vamos passar batidos, correr o máximo que der. Acho que em pelo menos duas quadras, eles deixam a gente em paz. – Duas quadras? Malhado, duas quadras é demais! Quanto seria isso em quilômetros? Ou melhor, quanto seria isso em ruas? – disse o Laranja em protesto. – Seriam umas cinco ruas contando com essa – ele falou obser104

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vando os cachorros subindo a rua sem os notar devido à evidente embriaguez. – Olha, eu estou a favor do Laranja – disse o Cinza que estava cagado de medo. De fato, eram cachorros bem grandes e nada amigáveis àqueles que andavam por aquelas bandas. E a última coisa que aquela matilha queria era topar com gatos arruaceiros que desciam das ruas de cima fazendo baderna. Os gatos das ruas de cima nunca se deram com os cachorros daquela região, mas aqueles quatro camaradas tinham histórias com tais caninos, ou melhor, tinham diploma em fazer os coitados de otários. O plano dos gatos parecia bom, e mais, que daria certo. Mas se desse, não haveria história pra contar. Claro que deu errado. Quando os cachorros chegaram no meio da rua, viram os gatos e ficou um clima de “o que esses malditos estão fazendo aqui?”. Já, por parte dos gatos, a sensação foi “pronto, danou-se!”. Os cachorros pareciam não acreditar que os gatos tiveram a audácia de aparecer por aquelas bandas, “a área deles”. Os gatos, por sua vez, estavam paralisados de medo, sem ação e sem ter o que fazer senão correr (loucamente). – Malhado, não tem outro jeito? – perguntou o Cinza com um nervosismo notável. – Não – disse o gato com o rosto impassível.

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E de fato não tinha. A rua, apesar de longa, era estreita. Não era possível escalar e nem entrar nos casarões, já que estavam completamente trancados. Não havia qualquer espaço em que os gatos pudessem se esconder. Os casarios eram todos coladinhos. A única via de fuga estava bloqueada pelos cachorros. Apesar do medo, o Preto foi o primeiro a correr. Ele deu o pontapé em direção ao final da rua. Todos ficaram surpresos em ver aquele vulto preto avançando com tamanha velocidade. Era difícil até de acompanhá-lo com os olhos de tão rápido que fugiu. Laranja disparou logo depois, seguido pelo Malhado, e o Cinza foi o último. Ele não corria bem. Era gato, mas não era ágil. Muitas vezes se questionava se era de fato gato, pois suas habilidades de felino eram tão limitadas... “Você só precisa fazer mais exercícios, praticar mais seus pulos e sua corrida”, diziam os amigos do bando. Ele não dava ouvidos. Nasceu mesmo para ficar no conforto de um bom lar, não nas ruas correndo de cachorros babões e ranzinzas. Corria o mais rápido que suas patas podiam aguentar. “Até que estou indo bem”, pensou. Não estava. O braço-direito de Brutos, Hérico, estava bem atrás dele pronto para pegá-lo quando ele cansasse, o que logo-logo iria acontecer. Malhado era o único que segurava um pouco a corrida, sabendo da limitação do amigo sedentário. Preto parecia um relâmpago. 106

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Cinza seguia o Malhado, que seguia o Laranja, que seguia o Preto que, à frente, mostrava o caminho conforme as ruas surgiam. Nem sabia mais onde estava. Olhava as ruas apavorado à procura de uma localização. “Que diabo de rua é essa? Que beco é aquele? Pra onde leva? Preciso de uma localização urgente!”, pensava com seus botões. Preto foi subindo uma rua íngreme, sem suspeitar de que lugar era aquele. No topo, alcançou uma praça que ficava no ponto mais alto do Centro Histórico. A Praça Alto Bragança era vazia. Não era uma área nobre, mas era contemplada com algo que quanto mais perto do centro, mais se perdia: a tranquilidade. Tinha mesas daquelas em que os senhores jogam xadrez ou dama nas tardes mornas. Bancos de madeira com os pés pintados de verde escuro mostravam não serem novos, mas bem preservados, o que permitia que as senhorinhas sentassem para conversar sobre as futilidades diárias durante os crepúsculos quentes. Os postes foram calculadamente postos ao redor da pracinha circular e perto das ruas, de modo a iluminar tanto a praça quanto o seu entorno. A “pracinha de cima” (como era chamada), apesar do diminutivo, era na verdade o oposto. O que tornava aquele lugar especial era o que havia no meio dele. No seu coração estava uma enorme árvore de Pau-Ferro que ninguém sabia dizer como ou quando, mas cresceu forte e frondosa

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bem ali. Diziam que antes de tudo aquilo se tornar uma grande ladeira, a árvore podia ser avistada de longe no topo do morro. Quando o sol se retirava para brilhar em outros cantos, deixava escorrer lentamente seus raios por detrás dos telhados coloniais das casas antigas. A descida dos raios produzia uma visão quase mágica da copa verde e alta da árvore, iluminando cada folhinha de seus galhos. O vento as balançava, fazendo as folhas farfalharem sobre os que se refrescavam debaixo delas. No entanto, naquela ocasião em que os gatos corriam perigo, o frondoso Pau-Ferro era apenas uma árvore enorme no meio de uma praça vazia. Devido ao tamanho e à grande quantidade de folhas e galhos, a luz não penetrava no interior da árvore, dando a ela um ar de “assombrada”. Preto passou batido pela árvore, mas chegou a ver o Laranja correr sobre ela na vertical e desaparecer dentro da copa quase sem movê-la. Na mesma direção que a árvore estava, havia uma rua. O gato seguiu direto e sumiu descendo a rua. O Malhado o seguiu, mas não o Cinza. O Cinza ficou atrás com Hérico no seu encalço. Ele estava longe do restante do grupo, não fazia ideia de onde ir e perdeu os companheiros de vista. Seguiu seus instintos, e estes (erroneamente) o levaram para a rua da esquerda. Mas ele continuou a plenos pulmões pensando consigo mesmo “esse cão não se cansa?”. Tudo que passava 108

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na cabeça do seu adversário era como apertar o pescoço gordo do gato com a mandíbula, quando o pegasse. Depois de um tempo, a sensação de que não aguentaria por muito mais dominou-o. Cinza estava exausto e Hérico poderia estar também, mas a exaustão não abalava seus músculos. Ele corria atrás do Cinza com a língua grande e rosada para fora, tentando pegar o máximo de ar possível. Tudo o que ambos ouviam eram as próprias respirações ofegantes e o batimento forte dos corações cansados como um tambor contra os tímpanos. A pressão fazia suas cabeças latejarem, os corpos pareciam em chamas. Mas Cinza preferia correr a descobrir o que aconteceria se parasse. A rua descia até onde a visão permitia. Estava quieta, toda a gente dormindo. De repente, sem saber de onde, Hérico tirou fôlego para gritar. – Rapaz! Ei, gato! Espero que esteja me ouvindo, – sentia a garganta queimar e a voz falhar – pois tô que não aguento mais. Faz favor, vamos fazer um acordo. Cinza estava muito assustado para dar ouvidos. “Não confio nos da sua raça! Não tem acordo nenhum!” – Nem eu na sua, rapaz! Mas vamos, me deixe lhe propor algo. – Te ouço... – Que tal desistirmos disso? Eu posso dizer pros meus companheiros que te matei e você e os da tua laia somem de lá.

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– Não te creio... – aquilo parecia muito suspeito para ele, nunca soubera de nenhum cachorro querendo fazer acordo com um gato. – Olha, você está mesmo me irritando, mas eu estou tão exausto que deixo de lado minha raiva só para poder ir para casa. Estou muito bêbado, meu estômago está dando voltas, minha cabeça rodando, meus olhos estão quase fechando, eu preciso dormir, comer algo. Estou quase desmaiando e sei que você também. Vamos parar. – Sei não... – Então se você não quer trégua, mesmo que você escape de mim, uma marca eu vou deixar, um pedaço do rabo faltando, uma pata quebrada, um osso exposto. Garanto, não serei gentil quando eu te pegar! – Aquilo fez o Cinza engolir a seco. Sentiu-se mole como quem vai desmaiar e deixar as forças se esvaírem. Os dois seguiram em marcha lenta e chegaram ao cais. Estava escuro, a não ser por uma lâmpada que pendia num poste velho. A cena parecia final de filme de terror onde o mocinho foge do monstro. O gato não tinha para onde fugir. O Cais das Dores era apenas uma ponte onde embarcações de todos os tamanhos ficavam amarradas em volta. Naquela noite, tudo o que se podia ver eram as águas escuras, frias e salgadas do mar. Cinza foi correndo até o final da ponte sem notar que esta acabaria e ele daria com a água. Quando notou, conteve os passos, mas o cachorro 110

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vinha logo atrás enlouquecido. Ou ele pulava, ou era abocanhado. Ele não sabia nadar, Hérico sim. Com certeza morreria afogado. Que pobre fim, não? Depois de tudo isso, morrer afogado. Depois de pensar por um minuto, pulou. Sentiu a água gelada entrar-lhe pelas narinas e pela boca sufocando-o. Sentiu-se pesado dentro d’água, como um saco de batatas afundando. Com dificuldade extrema, tentou por a cabeça para fora d’água, em vão. Bateu as patas tentando nadar, mas não servia. Viu o cachorro no cais olhando-o se afogar com um sorriso malicioso no focinho. Depois de muito se debater, desistiu. Afundou solto, permitindo o corpo tragar a água para os pulmões na procura por ar. Sobre a ponte, Hérico olhava satisfeito o inimigo parar de se debater. Soltou uma gargalhada alta e deu meia-volta, ansioso para avisar os companheiros que pelo menos um tinha ido. Faltavam três. Os dois gatos chegaram no Reviver fazendo a maior bagunça. O lugar estava cheio, havia pessoas dançando, música ao vivo e muitas mesas de bares nas calçadas. Quando os dois gatos passaram correndo e pulando em todos os lugares que podiam, seguidos por quatro pittbuls que faziam o mesmo, o caos foi total. Era mesa pra lá, gente caindo pra cá, bebidas ali, pessoas xingando aqui. Os gatos eram muito rápidos e, por serem menores, não eram tão vistos, ao contrário dos cachorros que eram maiores e mais barulhentos (latiam his-

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tericamente). Era um alvoroço só. Quando as pessoas os viam derrubando a mesa e as bebidas, ou elas próprias, batiam neles. Chutavam com força, acompanhando os chutes com ofensas. Os gatos cruzaram um grupo de rapazes que já estavam para lá de altos, mas neles só roçaram os rabos. Os moços olharam os vultos passarem por suas canelas e riram, mas quando foi a vez dos cachorros passarem querendo pegar os gatos, não acharam graça. Os dois gatos subiram em uma árvore alta que ali estava e negaram-se a descer. Os cães se puseram ao redor da árvore, latindo para que os gatos se rendessem. Os rapazes da mesa foram atrás dos pittbuls cobrar satisfação. Um rapaz alto, de cabelos cacheados, ombros largos e rosto comprido tomou a frente dizendo: – Seu cachorro idiota, você derrubou minha bebida! – falou alto, para todos ouvirem. Falou cuspindo, estava bêbado. – Não se mete! – respondeu Brutos rosnando. – Me meto sim! Você me deve uma bebida e vai me pagar, ou vai ver só! Nesse instante, o cão se afastou da árvore, deixando os amigos de olho nos gatos e foi em direção ao rapaz ousado para olhar bem no rosto dele. Era visível que o guri não tinha medo do bicho. Enquanto Brutos se aproximava, ele não deu um passo para trás, nem tirou os 112

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olhos dele. Talvez fosse a bebida que o deixasse corajoso, mas nos seus olhos havia um brilho lúcido. – Você sabe com quem está falando? – perguntou Brutos em tom ameaçador. – Sim, com um saco de pulgas que se acha melhor do que eu. – Não me chame assim, já matei um por muito menos que isso. – Não tenho medo de você. – Vejo que não. Brutos foi com tudo abocanhar a perna do rapaz, mas este foi mais rápido e chutou com força a boca aberta do cão, que caiu de lado com a boca sangrando e dois dentes a menos. Sem esperar, o garoto partiu pra cima do cão, que ainda estava se recuperando do chute bem dado. Chutou-o mais seis vezes em vários lugares diferentes. Para finalizar com chave de ouro, deu outro no focinho. Seus companheiros, no primeiro chute, já tinham abandonado o líder, que ficou sozinho caído no chão inconsciente. Os gatos surpresos e assustados ainda estavam na árvore sem acreditar na cena. Desceram desconfiados, ainda mais o Preto que, pelo fato de sua coloração, sofria preconceito devido à superstição do povo. Aos poucos o ambiente foi se acalmando. Os gatos saíram de coitadinhos e ganharam mimos daquela gente inocente. Dali a pouco, chegou o

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Laranja que, depois de se safar um tempo na árvore, quis saber dos amigos e seguiu seus rastos. Quando o sol estava anunciando sua vinda, deixando o céu rosado, e todos estavam cansados e indo para casa, os três parceiros se jogaram na calçada e puseram-se a recordar como tinha sido a noite. – Meu Deus, que noite foi essa? – comentou o Laranja, pensando na corrida louca que dera. Os amigos limitaram-se a concordar com a cabeça. Ficaram em silêncio durante um tempo. – E o Cinza? – disse o Malhado que, como um lampejo, lembrou da imagem do companheiro ruim de briga e de corrida. – Ele não estava atrás da gente? Deveria estar aqui! – falou o Preto. – Pois é! A última vez que o vi ele estava logo atrás de mim! Que belos amigos somos, deixamos o gordo sem auxílio. Quem sabe onde ele está agora? – Aqui! – gritou o Cinza saindo detrás de um poste e causando um enorme susto na gataria. Preto chegou a soltar um berro, para o prazer de Cinza que seguia os amigos há um tempinho, com o plano de assustá-los. Ainda eletrizado, contou como as coisas se sucederam naquela noite. Depois que Hérico foi embora, um senhor que morava ali perto do 114

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cais, numa casinha sobre palafitas, ouviu o barulho de algo se batendo. Cinza já estava inconsciente quando foi retirado da água fria. Seu Antônio e sua senhora cuidaram do gato que passou o resto da noite lá, recuperando-se. O velho contou que seus filhos, já crescidos, moravam em lugares muito melhores que aquela casinha pobre e que, quando insistiam em querer tirá-lo dali, ele respondia “Não, eu sou uma árvore e aqui minha raiz se fixou.”. Era um homem estudado e inteligente, apesar de extremamente humilde. Cinza aceitou um pote de leite e se mandou. Chegou ao Reviver cheirando os rastros dos cães e gatos, pedindo informação aos bêbados e a outras pessoas que naquela hora do dia se dispersavam de volta a suas casas. Cansados, os companheiros se despediram e cada qual foi catar seu pedaço de chão para dormir. Antes de sumir na esquina, Cinza escutou o Malhado chamar-lhe e virou com os olhos amarelos e grandes brilhando. – Amanhã tem Tambor de Crioula, meu velho! Acho justo irmos pra bagunçar mais um pouco. Na noite seguinte, voltariam à sua rotina de eventos imprevisíveis. Aquela sim, foi uma noite... Mas essa é outra história.

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Gabriel Mação O Mbaêtata Foi na madrugada do terceiro dia que tudo parou. Eu pensei que seria legal, é verdade. No primeiro dia foi encantador, todo o verde, o céu de várias cores, o rio imenso que parecia café com leite. Mas após três dias no barco, tudo parecia chato, nada mais era novidade. O que eu queria mesmo era um momento de aventura, que algo acontecesse e fizesse com que todos pulassem de suas redes. E então, na madrugada, ninguém esperava por isso: as luzes se apagaram e o barco parou de navegar. A maioria das pessoas estava dormindo. Eu levantei da minha rede e fui até cada um dos meus amigos, companheiros de viagem. A luz do celular me ajudou a chegar até eles. Valeska, a poesia ambulante, estava dormindo de boca aberta, como sempre, e nem percebeu o acontecido. Ela tem uma enorme facilidade de escrever poemas, por isso a chamo assim, poesia ambulante. Douglas estava acordado e mergulhava cada vez mais fundo em uma empolgada conversa com as senhoras da República Dominicana. Esse menino já conhecia metade dos tripulantes no primeiro dia da viagem.

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Gabriel Mação

Chegou a vez de Alice, a capitã do grupo. Quando me aproximei, pensei que estava acordada, mas dormia com uma máscara nos olhos, que imitava os enormes olhos abertos de Carmen Miranda. Quase morri de susto. Havia ainda Fabrícia, “a mais corajosa do grupo”, mas me lembrei que ela fora para o camarote, com medo dos insetos do Rio Madeira. Só restava Thamires, que estava acordada com a cara emburrada. Aproximei-me e perguntei: – O que houve? Que cara é essa? – Essa mulher aqui do lado não me deixa dormir, fica se debatendo igual um peixe boi – respondeu com uma cara... Perguntei se ela sabia o que havia acontecido com o barco que estava encostado na margem do rio. Thamires começou a andar até a frente do barco e disse que ia perguntar ao capitão o porquê do barco estar parado e da luz ter acabado. – O combustível acabou, vamos ter que ficar de bubuia até amanhã de manhã, quando um barquinho chega com gasolina – disse o capitão com sotaque amazonense. A hora demorava a passar, já eram duas da manhã e ficamos encostados na mureta do barco, Thamires e eu, admirando a escuridão da floresta que nos cercava. A madrugada estava sem estrelas e o

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único som era dos grilos que pareciam dar um baile de tão alto que gritavam: - Cricri, cricri, cricri... Depois de um tempo ali parados, vimos uma luz meio alaranjada que passou no meio da escuridão, na floresta. Foi como um reflexo por entre as árvores. Thamires e eu nos entreolhamos com cara de curiosidade e susto. – Você viu aquilo? – perguntou ela. – Claro que vi! Ela caminhou para perto da escada que levava para a parte debaixo do barco. – Onde você vai? – Será que tem alguma possibilidade da gente ir atrás daquela coisa? Demorei um pouco para raciocinar. O que ela havia proposto? Ela pensa que é Indiana Jones ou o quê pra sair entrando na floresta atrás de uma luz voadora? Eu sei que não era algo comum, uma luz muito diferente, parecia fogo, não era muito pequena a ponto de ser um vagalume, mas também não era tão grande para ser um disco voador. – Thamires, você ficou louca? Não podemos descer do barco e sair 118

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Gabriel Mação

pela floresta, ainda mais a uma hora dessas. – Eu sei que é arriscado, Gabriel, mas também sei que você está louco por uma aventura, assim como eu, não é verdade? – Bom, isso é verdade. Realmente não aguento mais o tédio neste barco, já são três dias sem fazer nada, só vento, mato e água. – Então, o que você está esperando? Vamos logo lá embaixo! É... Ela me convenceu e lá fomos nós descendo as escadas com cuidado para não fazer barulho. Por alguns instantes, não pude acreditar no que estávamos fazendo, descer do barco a uma hora daquelas seria a última coisa que eu faria, ainda mais no meio da Amazônia. Era hora de pular para fora do barco. – Você primeiro – disse Thamires. –De jeito nenhum, primeiro as damas. – Seu medroso! Ploft! E lá se foi ela. – Espere por mim! Ploft! Consegui pular. O mato estava molhado e em nossa frente não se via nada além da escuridão. – Thamires, você troxe a lanterna? – Sim, a lanterna do celular.

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Click! – Agora sim consigo ver alguma coisa.  À nossa frente algumas árvores bem altas pareciam muralhas, e os grilos continuavam a fazer barulho. Começamos a andar para dentro da mata. – Pra onde será que aquela coisa foi? – Não sei, Thamires. Acho que foi pra esquerda. No caminho conversávamos baixinho sobre o que poderia ser a luz que vimos: – Será que foi o Curupira? – perguntei. – Claro que não, Gabriel! Isso é só uma lenda. – Ah, pode ser verdade, tanta gente fala nele. Talvez a Caipora ou a Mãe-de-Ouro. – Mãe-de-Ouro?! – perguntou Thamires com dois tons de surpresa a mais na voz. – Sim, você nunca ouviu falar dela? Diz a lenda que a Mãe-de -Ouro é uma mulher que se transforma em bola de fogo e fica voando perto das jazidas de ouro para protegê-las dos ladrões – respondi com um tom de erudição improvisada. – Mas tem ouro por aqui? – Não sei, talvez tenha. Mas e se for a Mula-Sem-Cabeça? 120

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Gabriel Mação

– Uma mulher que transou com um padre? Por que não foi o padre quem virou mula? – Ah, você sabe. Na época em que a lenda foi criada, a igreja católica dominava a população e o padre era uma espécie de santo. Então, se alguém estava errado, com certeza não era a igreja – expliquei para ela. – Caipora, Curupira, Mãe-de-Ouro, Mula-Sem-Cabeça... O que mais poderia ser a coisa que avistamos? – MBAÊTATA! – disse uma voz grave e rouca atrás de nós. – Ah...! Quem disse isso? – gritou Thamires. – Desculpa ter assustado vocês - respondeu um homem alto e moreno. – Quem é o senhor? – perguntei.  – Rogério, moro ali na frente, numa casa perto do rio. E vocês ? O que estão fazendo aqui? – O combustível do nosso barco acabou, ficamos encostados ali na margem. Aí vimos uma luz passar na floresta e resolvemos segui-la respondeu Thamires. – Mas o que o senhor disse? Bata... – indaguei com curiosidade. – Eu disse Mbaêtata. – E o que é isso?

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– Isso é a coisa que vocês viram. Mbaêtata é uma cobra maceta, no lugar dos olhos tem duas bolas de fogo. – O senhor está falando sério? – Mas é claro, meu jovem! O que você acha que eu ia estar fazendo aqui fora a uma hora dessas? Seu Rogério mostrou a espingarda. – Pra que o senhor está atrás do Mbaêtata? – Meus jovens, esse monstro está acabando com as minhas galinhas. Só essa semana já se foram oito delas. Sem falar que se eu capturar o bicho vou conseguir uma boa grana e ficar bem famoso aqui no Amazonas. – Thamires – comecei a falar – acho que já está na hora de voltarmos pro barco.

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Thainar Xavier

Thainar Xavier O homem do coração de pedra O sol estava a pino quando Alberto Onofre Ferreira da Conceição, ou Dr. Onofre, como gostava de ser chamado por seus colegas do Supremo Tribunal, caminhava em direção às Cataratas dos Couros. O grupo de turistas à sua volta estava em êxtase, com unânimes expressões de contentamento e admiração diante da paisagem. Pela trilha, uma pequena estrada de terra com pedras escorregadias, a principal atração era a mata e a estranha fauna do cerrado. Araras azuis voavam em direção ao infinito e as montanhas acendiam com os raios solares. Na chegada à nascente dos Couros, a água translúcida formava uma piscina que escorregava por uma abertura e despencava pelo paredão. Onofre detestava tudo isso. Odiava ter que estar debaixo do sol escaldante, odiava estar suando feito porco, odiava ter que sorrir para essa gente. Aliás, ele não gostava de gente. A descida até a prainha foi a mais sacrificante. Seu coração de pedra pesava mais de dez quilos. Onofre se arrastava pelo caminho, humilhado. “Vou matar a Luciethe!”, pensou. “O que ela tem na cabeça? Sabe muito bem que eu

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odeio essa coisa de natureza, por mim isso aqui já tinha se tornado um condomínio de luxo!” – Seu Onofre, tá tudo bem aí? – perguntou o guia. Ele deu um breve aceno com a cabeça, com ar enfurecido, disfarçando um risinho no canto da boca. Nada iria atrapalhar seus planos. Respirou fundo e prosseguiu. Depois de longos minutos, chegaram até a segunda parte dos Couros. Uma enorme poça, rodeada de rochas esculpidas pela força da água. O rio tinha um aspecto tranquilo, mas sua correnteza parecia pronta para levar a alma dos marinheiros de primeira viagem. Os lábios de Onofre se curvaram num sorriso lúgubre. Eis o lugar perfeito! Diminuiu o ritmo, deixando-se ficar para trás, e esperou até que aquele terrível grupo de gente feliz desaparecesse de sua visão. Retirou o par de tênis italiano que comprara recentemente, ajeitou-o num canto perto de uma pedra, ao lado de sua pochete de couro preta e o bilhete que escrevera previamente para esta ocasião. Onofre caminhou vagarosamente pelo rio, tomando cuidado para não escorregar. Embora o clima continuasse quente, seu corpo já não transpirava tanto. Seu coração fazia que ia explodir. Pesava, puxava os ombros para dentro. Tinha de fazer um esforço tremendo. De repente, seu corpo estremeceu diante da imagem mais terrivelmente 124

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bela que já tinha visto. O rio desembocava num grande desfiladeiro. “Deve ter pra lá de 20 metros. Isso é ótimo, será uma morte e tanto. Já vejo a notícia nos principais jornais de Brasília, aqueles abutres abomináveis! Espero que na eternidade eu não tenha que olhar pra cara de nenhum deles. Aliás, quando eu me for, vou assombrar minha ex-mulher pra sempre, aquela salafrária, ainda bem que não vai herdar nada!” A ideia de que a ex-mulher ficaria pobre lhe causou uma crise de risos. Onofre ria fino e desritmado. “Onofre, acalme-se. Você precisa se concentrar, talvez fosse bom pensar em algumas últimas palavras. Uma oração talvez fosse prudente nesta hora, afinal, você foi batizado. Então vamos lá, deve ser fácil fazer isso... Rezar. Pai nosso que estais no céu...” Seus olhos se abriram imediatamente. Sentia que não estava sozinho, havia alguém se aproximando. “Droga! Nem na hora da morte essas pessoas me deixam em paz!” Ao se virar, tudo o que viu foi uma garotinha, que o encarava com grandes olhos. Ergueu as sobrancelhas e resmungou alguma coisa que parecia um xingamento. A menina não podia ouvir, estava distante, mas seu olhar de curiosidade lhe chamara a atenção. Por um instante, Onofre sentiu que a menina sabia de tudo.

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A menininha continuava parada na areia quando o guia chegou com o grupo de turistas. Um homem parou ao lado dela e acompanhou a direção do seu olhar. Onofre se resignou a responder o cumprimento do homem, bufando. “Tenho que esperar esse povo ir embora, não posso executar meu plano na frente deles.” O grupo resolveu dar uma pausa para o lanche. O guia, que aparentava ser o pai da menina, era alto, magro e tinha os cabelos longos em trança. A menininha mostrava o mesmo nariz e tamanho dos olhos. Sua pele, da cor de canela, tinha um brilho dourado que iluminava seu rostinho redondo. Ela piscou profundamente, querendo enxergar melhor na claridade e buscar novamente o paradeiro de Onofre. Avistando-o, sentou ao seu lado na beira do rio e lhe ofereceu seu melhor sorriso. – Oi – disse a menina timidamente. – Olá – resmungou Onofre depois de um tempo, sem desviar o olhar da cachoeira. A garota não deixava de mirar o peito de Onofre. Tentava disfarçar, mas sua curiosidade era maior. Volta e meia olhava para o rio, mas logo retornava sua atenção para Onofre, pensando no que iria falar. – Qual o seu nome? 126

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– Não tenho nome – Onofre bufou, rabugento. – O meu é Marguelli! O senhor é médico? – Não, sou procurador da República. – O que um procurador da República faz? – Bom, eu... Isso não interessa, não é assunto pra criança. Os dois ficaram em silêncio. A garota olhava para o rio e Onofre praguejava mentalmente por ter que conversar com uma criança. – Você tem quantos anos? – Digamos que eu já fiz muitos aniversários. – Eu já fiz dez aniversários – disse Marguelli empolgada, contando os dedinhos das mãos. “Aniversários demais”. Ele sentiu um leve rubor de irritação, queria que aquela gente fosse logo embora, queria ficar sozinho e fazer logo o que precisava. – Por que o seu coração é assim? Onofre sentiu como se tivesse levado um soco no estômago, a menina lhe pegara tão desprevenido que começou a tossir, fingindo um engasgo. Mas a falta de ar era verdadeira, sua garganta ardia e sua cabeça latejava. Levantou-se depressa, pegou suas coisas e fugiu. Correu toda a trilha com as mãos no peito, suportando o coração. Naquele final de tarde, Onofre não conseguiu dormir depois do

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pesadelo que o invadiu. Sonhara que seu coração engolia seu corpo, transformando-o numa estátua de pedra. À noitinha, enquanto virava de um lado para o outro naquela cama barata, o telefone tocou. Era sua irmã. Ele hesitou em atendê-la, mas as badaladas insistentes do celular acabaram vencendo-o: – E aí maninho, curtindo a viagem? – Claro que não. – POR QUÊ?! Você está num lugar MARAVILHOSO! – A voz cheia de vida da irmã piorava a enxaqueca que lhe atormentava. – Você sabe que eu não gosto de sair de casa, ainda mais para ficar na natureza. – Bebeto, deixe de ser mal humorado! Te dei essa viagem de presente, pra você relaxar. – Eu não estou nem um pouco relaxado, Luciethe! – Olha, por que você não dá uma volta, pensa um pouco na vida, quem sabe até arruma uma namorada, você tá precisando. Onofre desligou o telefone, não suportava mais a voz da irmã. Não suportava o cheiro de mofo daquele quarto misturado com incenso barato, precisava beber, precisava de um uísque escocês. Resolveu sair. A lua iluminava a pequena cidade de Alto Paraíso, dando ao lugar uma aura mística. Pelas ruas, jovens e velhos barbudos, hippongas do 128

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melhor grau passeavam com seus cachorros de estimação. Os bares estavam lotados de turistas eufóricos, mas os restaurantes quase todos fechados. Onofre procurou por seu uísque em cada bar, tudo que encontrava era vinho e cerveja de má qualidade. Sentiu o estômago reclamar e se deu conta de que não comia desde o café da manhã. Foi até a lanchonete em frente à pracinha, deu uma olhada rápida no cardápio, não gostou de nada. A atendente bonitinha, impaciente com sua demora, sugeriu tapioca com pequi. Na falta de um sanduíche de mozzarella de búfalo com tomate seco, e simpático à beleza da moça, acabou aceitando. Não conseguia parar de pensar na pergunta que a garotinha fizera. “Por que o seu coração é assim?” Como ela sabia? Estaria seu coração ficando aparente? Encarou seu peitoral no espelho do bar. Enquanto afundava em pensamentos, a tapioca lhe foi servida. Ele deu uma mordida despretensiosa e até que gostou, “sabor estranho, certamente nobre”. Com a barriga cheia, começava a achar que Alto Paraíso não era de todo ruim, havia algo de agradável naquele lugar, talvez fosse a lua cheia ou talvez tivessem colocado alguma coisa na tapioca. Onofre não sabia... Mas a sensação era de paz. Seu coração ficara mais leve, ele achou quase inacreditável. Por um instante uma faísca de espe-

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rança se acendeu em seus olhos. Poderia haver uma cura para este mal? Ele esboçava um leve sorriso, quando topou com um jovem alto, moreno, meio sujo, que trazia enormes alargadores nas orelhas. – Boa noite, txai. Tô sentindo uma vibração em você, shazam! Pô, compra um cristal aí, pra dar uma força. – Não, obrigado, já estou de partida. – Pô, não vai não. Olha, vou fazer o seguinte: você leva duas pedras que eu faço por quinze reais, fechou? – Eu não tenho interesse em pedras. – Fecho por dez, aí tu escolhe a que quiser. – Ouça, rapaz, eu não vou comprar nenhuma pedra! – Tá bom, txai, beleza, já entendi. Que a paz de Jah te acompanhe. Onofre respondeu um xingamento tão feio que não será escrito aqui, saiu pisando fundo e bufando de raiva. Odiava vendedores ambulantes, ainda mais os que fediam. Qual era a dificuldade dessas pessoas em ouvir um não? Entrou numa rua deserta onde a única luz vinha das três ou quatro casas ao redor, viu um bar que parecia vazio no final da rua. Tinha aparência um tanto diferente, com símbolos tribais esculpidos nas paredes, iluminação de candelabros antigos, um espaço para meditação. Na varanda, algumas mesas onde se reuniam uma jovem to130

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cando violão, um senhor bebendo seu vinho e um artesão com suas bijuterias. – Boa noite – disse o artesão. – O bar está fechado? – adiantou-se Onofre. – Está. Mas pegue uma cadeira e beba conosco. Onofre, na vontade de beber, assentiu, sentou-se perto do grupo e logo ganhou uma taça. O artesão mostrava para o senhor sua caixa de pedras. A cada gole de vinho, o senhor admirava um novo cristal. Onofre tinha começado a se arrepender de ter parado naquele lugar. Que vinho doce, detestável! Antes que pudesse se levantar, o artesão, um chileno, tirou da caixa um de seus melhores cristais e entregou para ele. – Veja, o cristal mais puro de Alto Paraíso. Tome, fique com você. Sinto que você precisa dessa energia, che, vamos, pegue! Ao tocar na pedra, Onofre sentiu uma força transpassar por seu corpo. Não sabia explicar se isso era possível, a pouca luz não lhe deixava enxergar nada que pudesse ser diferente. Perguntou quanto custava a pedra, e o vendedor disse que era um presente. Achou estranha a atitude dele, mas não questionou, não queria mesmo mexer no bolso. O grupo conversou durante um bom tempo, bebeu, e curtiu a mulher tocando seu violão. Onofre ficou de observador embriagado.

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Algo estava acontecendo naquela noite, algo que Onofre não sabia ao certo o que era. Sentiu seu coração de pedra estalar levemente dentro do peito. O chileno o convidou para irem à casa de um amigo, havia uma fogueira lá esta noite. A casa tinha um enorme quintal. No centro, a fogueira acesa, ao redor, bancos de madeira, cobertores estendidos pelo chão e muitas almofadas. Tinham pelo menos vinte pessoas ali, uns contavam suas histórias, outros tocavam instrumentos e outros apenas contemplavam as estrelas sob o calor aconchegante do fogo. O anfitrião falava da magia de Alto Paraíso, seu discurso era belo e impactante, suas palavras ecoavam pela mente de Onofre, como uma profecia. “Alto Paraíso é só o início da transformação do mundo, assim como as rochas estão se tornando cristais, esse também será o caminho natural do homem. Você tem o poder de escolha, hoje você pode escolher ter uma vida de amargura ou uma vida de perdão e paz, você pode escolher ser uma rocha ou escolher o caminho da purificação, sendo um cristal.” Onofre reconheceu o anfitrião, era o guia, provável pai da Marguelli. Aquela era a casa da Marguelli? Olhou para os lados procurando a menininha. Ela estava do outro lado da fogueira, atenta ao discurso do pai, fazia carinho num cachorro que estava deitado perto 132

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dela. Onofre se lembrou do filho e de como ele gostava de cachorro. Sentiu os olhos enchendo de água. Como sentia falta do seu filho! Seu coração de pedra deu mais uma fisgada. Na manhã seguinte, Onofre estava bem mais disposto, tomou o suco verde oferecido pelo hotel e foi andar pela vizinhança. Cumprimentava todos que via pela frente, fotografava as árvores, entrava nas lojinhas, comprou até um presente para Luciethe. Quando chegou à loja de produtos naturais, viu uma mulher com os cabelos loiros presos num coque milimetricamente arrumado, óculos escuros que cobriam quase todo o rosto, e vestido vermelho gritante. Só podia ser Jezebel, sua ex-mulher. Onofre ficou tão surpreso em vê-la que pensou que fosse um espírito maligno que tinha vindo atormentá-lo. Suas pernas começaram a tremer e sua cabeça a latejar. Seus olhos assumiram um tom ameaçador e seu rosto ficou roxo de tanta raiva. Antes que pudesse pensar, deu um passo para trás e começou a correr. Tinha que sair dali, tinha que ir para um lugar bem longe. Seu coração estava mais pesado do que nunca, era muito difícil carregá-lo. Mesmo assim, subiu uma encosta até chegar a um antigo templo em ruínas. O mato cobria algumas das construções. Apesar de estar deteriorado pelo tempo, o lugar possuía uma energia que o

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distinguia dos outros parques. Sentou no tronco de uma árvore que estava caído perto de uma das construções. Sua respiração era ofegante, mas tentava se controlar. Botou a mão nos bolsos procurando a carta que havia escrito para a hora de sua despedida. “O que ela está fazendo aqui? Justo aqui! Essa mulher quer me enlouquecer, maldita! Eu seria capaz de...” Seus pensamentos foram interrompidos com a chegada de Marguelli, que segurava um coelho com a pata machucada. – Oi – disse a menina sorridente. – O que está fazendo aqui sozinha? – Vim procurar o Sr. Tomás – disse apontando para o coelho. – O que houve com ele? – Ele se machucou numa armadilha, tenho que fazer um curativo. Quer me ajudar? – Esse não é um bom momento... Por favor, gostaria de ficar sozinho agora. Onofre olhou nos olhinhos de Marguelli e viu os olhos do seu filho. – Tome, segure o Senhor Tomás – ela insistiu. Marguelli colocou o coelho nos braços de Onofre, que segurava o bicho de forma desajeitada. Ela, então, pegou em sua mochila um 134

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vidro de mertiolate e atadura para enfaixar a pata do bicho. Em pouco tempo os dois tinham cuidado do animal, que parecia mais calmo. Onofre continuava com o bichinho nos braços. Sem pensar, passou a mão pela cabeça do Sr. Tomás. Seu coração de pedra pareceu ter sido atingido por um raio. Dessa vez o estalo foi tão alto que olhou para Marguelli, procurando testemunha. – Seu Onofre, posso fazer uma pergunta? Por que seu coração é assim? – Marguelli... Eu não sei... Acho que ele é assim desde quando eu era criança. Quando meu pai foi embora, depois minha mãe... E o meu filho... Meu coração ficava mais duro a cada ano, a cada aniversário não comemorado, a cada briga sem motivo... A voz de Onofre fraquejava, ele tentava esconder as lágrimas que escorriam pelo canto do olho. Eram muitas lembranças, lembranças que ele evitara durante a vida toda, sentimentos que pesavam o seu coração. A verdade é que seu coração era petrificado pelo acúmulo de sentimentos nunca extravasados. Marguelli abraçou Onofre como abraçava seu pai. O silêncio pairava no ar trazendo uma paz que era sentida de longe. Tentou acariciar seu coração, pegá-lo com suas mãozinhas. Onofre se lembrou da profecia do pai de Marguelli. Sabia que era chegado o momento, ele

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tinha de deixar a pedra para trás. A luz invadiu o seu coração como uma flor que desabrocha no deserto. Um leve tremor percorreu o parque. Marguelli mal podia acreditar no que estava vendo. Afastou-se de Onofre para poder enxergar direito. Pasmos diante do que estava acontecendo, viram o coração do homem rachar por completo e começar a descascar. O cinza da pedra dava lugar a um branco translúcido que se espalhava pelo peito de Onofre feito um ribeirão de águas cristalinas. Sua pedra no coração virara um coração de cristal. De volta a Brasília, ao procurar a carteira para pagar a corrida de táxi, sentiu um pequeno volume no bolso. Pegou-o e, quando abriu sua mão, deparou-se com o coração de cristal que o amigo chileno lhe dera de presente.

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Estefani Basilo Projeto luz O sol de Recife parecia nos dar bom dia com brilho e calor intenso. Era o mesmo sol, todos sabíamos, mas era diferente a sensação. Era a primeira vez que estávamos ali e nossos corações estavam a mil. O aeroporto era bem movimentado, do jeito que mostram os filmes, lojas de diversos tipos se espalhavam pelo local. O nosso professor Fábio, engraçado como sempre, veio com seu sorriso gigante e seus sapatos mocassim. Por trás dos óculos de grau, seus olhos escuros também estavam emocionados. Ele deixou que andássemos pelo aeroporto, porém Emília, Nanda e eu continuávamos sentadas, vigiando as malas. Observei meus outros amigos se afastarem. Os cachos escuros de Brum pulavam junto com sua animação. Já Bil mantinha o sorriso branco no rosto, os olhos escuros diminuindo conforme o tamanho de seu sorriso: – O que vamos fazer depois daqui? – perguntei. – Acho que alugar um carro e ir a João Pessoa – disse Emília com as bochechas comprimidas pela risada.

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– Por aí! – Nanda gargalhou, passando a mão nos cachos, rebeldes como os meus.

Nanda sacudia meu braço violentamente para me acordar: – Chegamos, Esther. – Até que enfim! – sorriu Emília abrindo os braços e se espreguiçando já do lado de fora do carro alugado, um Doblô. Passei a mão no cabelo, na blusa rosa, na saia jeans e saí do carro. O professor apertou a campainha e quem abriu foi uma moça, Alice, ela tinha um olhar infantil. Na porta da casa nos deparamos com outra mulher, já mais velha, loira e cheia de graça. Se chamava Nina. – Oi meninos, que prazer. Sejam bem vindos – ela disse com jeito doce. A casa dela... Sem palavras! Era uma mansão na verdade. Na varanda havia duas espreguiçadeiras e uma piscina incrível em formato arredondado. A casa era pintada de branco com acabamento em madeira marrom. Na parte de cima tinha uma pequena sacada e no muro uma namoradeira. Entramos na sala sofisticada. Nina nos mostrou um quarto onde 138

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poderíamos deixar as malas. Na parede tinha várias fotos, dois sofáscamas e um armário branco. Passamos quase todo aquele dia na piscina e depois conversando com Nina.

No dia seguinte, a manhã foi calma e gentil, nós pudemos fazer tudo ao nosso tempo. Porém já tínhamos atividades para mais tarde. Iríamos almoçar na casa de dona Leninha, uma senhora de idade. Leninha era um doce, como a maioria das senhorinhas que eu conhecia. Parecia ter mais de 80 anos, se movia com dificuldade com a ajuda de uma bengala de madeira. Ela era gordinha, tinha a pele flácida e com marcas de sol, os cabelos de neve presos num coque no alto da cabeça. Joana, uma moça que trabalhava na casa, nos serviu água, sentamos na sala, prontos para conhecê-la mais. Ela foi muito pobre na infância, e vivia com o pai e o irmão mais novo em Massaranduba, até que aos 20 anos casou-se e foi morar com o finado marido em João Pessoa. O único filho, Miguel, morava no Rio de Janeiro desde os 27 anos.

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Na verdade, nem mesmo durante o almoço eu prestava atenção no que Leninha falava. Eu observava mais os retratos espalhados pela sala, cuja figura ressaltava uma mulher belíssima com roupas escandalosas para a época, roupas que pareciam mais fantasias de Rainha de Bateria. Seria Leninha? E se fosse, ela estava nos escondendo algo? Por quê? O tempo passou devagar até que o nosso professor anunciou a nossa partida. Todos se despediram de Leninha, eu não: – Professor, posso ficar aqui? Ele olhou como se já fosse negar, mas fez o contrário: – Tudo bem. Nós vamos ficar na praia, te buscamos antes ou depois do jantar? – Depois! – disparei de imediato. Olhei para Leninha que sorriu – depois do jantar. Esperei que todos saíssem, junto com Joana, e sentei no chão de frente para Leninha: – Só sobrou você, criança. O que quer de mim? – perguntou segurando minha mão. – Quero saber sua história. – Minha história? – ela riu e um olhar distante se fez – Na sua 140

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idade, eu já era casada e tinha uma filha. – Filha? Achei que tivesse casado aos 20 e que só tinha um filho. Ela então esticou a mão e abriu a gavetinha da estante ao seu lado, me entregou um porta-retrato branco e rosa com a foto de um bebê deitado de vestidinho vermelho com sapatos e laços combinando, com um sorriso encantador. Eu olhei para Leninha e logo ela começou a falar com uma voz cansada e rouca: Nasci em abril de 1928 e me chamo Helena Prado, mas desde que me entendo por gente sou chamada de Leninha. Sempre tive uma vida complicada, de família muito pobre, uma mãe falecida e um irmão mais novo, eu fazia tudo dentro de casa desde pequena e meu pai trabalhava para nos sustentar. Na época era difícil chegarmos no científico. Mas eu diria que minha vida começou mesmo em dezembro de 1944, quando aos 16 anos, tive uma filha e a chamei de Mariana. Meu marido, Carlos, alguns anos mais velho, era um negro forte por conta do trabalho pesado de pedreiro. Logo que engravidei, ele construiu uma casa pequena para morarmos os três juntos. No ano seguinte, no mês do meu aniversário, fui sorteada e ganhei uma cabra do Fundo Rotativo Solidário, que privilegiava um jovem com uma cabritinha. A primeira cria fêmea eu deveria dar

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a eles, para que outro jovem tivesse a oportunidade. Trabalhava em casa lavando e passando para fora, e além disso eu fazia artesanato de cadernos, o que mais me rendia lucro, principalmente em épocas de volta às aulas. Desde muito pequena sei desenhar, então eu desenhava o que as crianças me pediam em cartolinas, que eu plastificava e se tornava a capa. Folhas em quantidades diferentes recheavam o caderno. No dia do meu aniversário, eu estava alimentando a cabra, que batizei de Fine, quando Carlos chegou e me abraçou por trás: – Feliz aniversário, meu amor. – Obrigada de novo – sorri. – E Mariana? – Logo mais acorda para mamar. – Eu trouxe um presente para você – ele tirou da calça jeans velha dois papéis e me entregou. Quando eu vi o que era, meu queixo caiu: – Dois ingressos para assistir à Banda Eternal hoje à noite? Mas meu amor, e as despesas? – Andei economizando e seu pai me ajudou. – Mas eu nem tenho o que vestir – resmunguei.

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– Tenho certeza que sua amiga Ângela terá algo. Acha que seu pai fica com nossa filha? – Obrigado, Carlos. Eu te amo. – Eu também te amo, e quero você bem bonita hoje à noite. Mas agora eu preciso voltar ao trabalho, venho te buscar às 20 horas. Eu usava um vestido vermelho de alcinhas tão apertado que deixava meus seios saltados, e estava bem mais alta com os sapatos de salto fino de Ângela. Eu não me arrumava assim desde o meu primeiro encontro com Carlos, quando tinha apenas 15 anos. Peguei Mariana nos braços no mesmo momento que Carlos bateu na porta. Olhou-me de cima a baixo e disse: – Ângela, estou com medo de perder minha esposa hoje. – Bobo! – eu ri. – Só temos que deixar Mariana com meu pai e irmão. Foram mais de duas horas eletrizantes de show. Eu cheguei a tirar os sapatos para pular e dançar com meu marido. Franci, o cantor da banda, jogou rosas no fim do show, e consegui pegar uma. Quando a banda saiu do palco, logo entrou outra, mas Carlos me puxou levando-me para trás do palco, onde ficava o camarim de Franci. Não eram muitas pessoas, já que a maioria ficou para ver a outra banda.

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Quase uma hora depois Franci apareceu rodeado de seguranças: – Franci, um autógrafo, por favor! – berrei quase ultrapassando a barra de segurança que passava do meu umbigo. O segurança me barrou: – Tira a mão da minha mulher – disse Carlos. O pequeno confronto chamou atenção de Franci, que me olhou e disse: – Deixe o casal passar. O segurança abriu passagem e mostrei a língua para ele feito criança birrenta. – Como se chama? – Helena. Franci me olhou de cima a baixo e me senti quase nua com aquele vestido: – Quase 1,70m, jovem, cabelos ondulados, olhos bonitos, sorriso infantil e corpo de modelo – ele disse sorrindo. Eu dei um passo para trás procurando Carlos, que apertou minha mão: – Desculpe se fui grosseiro. É que estou procurando uma dançarina e o seu perfil é perfeito. Se souber dançar, é claro. – Eu sei dançar – respondi grosso. 144

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– Se quiser, farei uma turnê de três meses pelo Brasil, faço contrato por esse tempo somente se quiser, depois te deixo aqui mesmo em Massaranduba. Eu comecei a sonhar. Eu como dançarina da Banda Eternal viajando pelo Brasil por três meses! – Carlos! – olhei-o cheia de sonhos. – Nem pensar! Você não vai ficar rebolando a bunda e se esfregando nele. Esqueceu que você tem uma família? – Eu disse que pago muito bem por mês? – instigou Franci. – Carlos... – comecei, mas não soube terminar. – Eu disse que não, Leninha. – Bem, se ele mudar de ideia, nos vemos amanhã às 7 horas na rodoviária. Leve os seus documentos – Franci pegou minha mão descaradamente e beijou. Não deu nem tempo de dizer tchau, pois Carlos me arrastou para longe dali. Deitada na cama de barriga para cima eu deveria já estar dormindo, mas era difícil com tudo aquilo na minha cabeça. Carlos me abraçou e disse baixinho: – Seu lugar é aqui Leninha, comigo e Mariana.

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– Mas... – eu o olhei e sentei. – Vou ganhar um bom dinheiro e, se soubermos investir podemos ter uma vida melhor. – Eu disse NÃO, Helena! Seu não foi tão firme que me assustou e acordou Mariana. Eu levantei para pegá-la e, com ela aninhada em meus braços, disse: – Eu vou Carlos. Você já deu a sua opinião. – Você ainda é menor de idade. – Mas eu tomo conta do meu próprio nariz. Naquela noite não dormi, fui incapaz de pregar os olhos. Às 5 horas da manhã eu já estava de malas prontas. Chamei meu irmão para me ajudar, eu ainda tinha que me despedir de meu velho pai e ganhar a sua benção. Sabia que de nada adiantaria me despedir corretamente de meu marido. E as minhas coisas já estavam no carro velho emprestado do vizinho. Cheguei à rodoviária exatamente às 7 horas. Franci e toda a banda estavam lá esperando o seu ônibus particular. Franci me recebeu com um beijo no rosto: – Sabia que viria. Essa é sua filhinha? – perguntou mexendo com a menina. – Sim, Mariana – sorri. – Mas não se preocupe, meu irmão irá levá-la. 146

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– Venha comigo um minutinho – disse Franci me levando. Entramos juntos no ônibus e ele pegou Mariana que sorriu e a deitou no banco. Então bateu uma fotografia de minha filha sorrindo: – Para levar durante a viagem – explicou. Sorri agradecida. E então foi só pé na estrada. Os três meses da minha vida foram rolando pelos cantos mais lindos do Brasil. Conheci Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e todo lugar tinha seu jeito especial de me encantar. Nosso tempo não parava, Franci parecia querer só a minha atenção, quase sempre me agarrando pela cintura ou atrapalhando minha coreografia para dançar comigo nos shows. Quando já estávamos subindo de novo para o nordeste, hospedados em um hotel, todos saíram para comemorar, mas eu não quis, preferi ficar em casa e acabei escrevendo para minha família. Foi neste dia que me dei conta das verdadeiras intenções de Franci. Ele bateu na porta do quarto e entrou sem esperar resposta. – Muitas saudades da tua filha? – Muitas – eu sorri – Talvez eu perca mesmo o marido quando voltar. – Então você terá a mim – disse colocando a mão na minha perna.

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Eu me levantei e fui até a cozinha pegar água. Ofereci a Franci, mas ele apenas sorriu, eu o ignorei. Terminei de beber água e ele se levantou e tirou o copo de minha mão, então me beijou. Eu fiquei tão surpresa que não soube o que fazer. Deixei-me ser beijada por aquele segundo, quando ele se afastou, eu disse: – Não repita isso. Eu sou casada e amo meu marido de corpo e alma. Franci sorriu, passou a mão nos cabelos e disse: – Um dia você vai me pedir esse beijo, Helena – e saiu. Desde esse dia Franci mudou comigo. Ao invés de me agarrar e me elogiar, ele dizia que eu fazia tudo errado e me desprezava. Franci passou a me maltratar. Tive que aguentar por mais um mês, afinal, contrato é contrato. Quando meu último dia na Banda Eternal chegou, já estávamos em Campina Grande. Como o show só seria a noite, dava tempo suficiente de ir à casa. Mas quando cheguei logo dei falta de tudo, da cabra, das galinhas, de Carlos e muito da minha filha. Chamei por Carlos, mas não houve resposta. Ninguém pode imaginar como fiquei. Disse para mim mesma que Carlos nunca seria capaz. Mas a confirmação veio quando cheguei à casa de meu pai:

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– Eles se foram, Leninha – disse meu pai quase chorando. – Carlos nunca aceitou sua decisão, mas nunca imaginei algo assim. Ele vendeu a cabra e todas as galinhas. Há um mês, ele não deixou a menina aqui no horário de seu trabalho, então entendemos tudo. – Polícia! – disse como súplica, como se chamasse o próprio Deus. – Já demos queixa. Mas disseram que como você os deixou e Carlos é o pai biológico da menina, pouco podem fazer – disse meu irmão. Meu pai me aninhou em seus braços e naquele momento quis voltar a ser menina e caber em seu colo por inteiro, ou quem sabe voltar ao ventre de minha mãe.

No dia seguinte, após o almoço, nos arrumamos e fomos à praia do Jacaré. O sol deixou nossas fotos em tom alaranjado, numa beleza sem igual, porque ali era especial, o sol começava a se deitar, e a música suave que saía da flauta do músico no barco se levantava, assim como a lua. Sem nada para fazer à noite em casa, fiquei de bobeira deitada na

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cama. Quando me deu sede, fui até a cozinha para pegar água, mas logo que entrei percebi um clima tenso no pessoal sentado à mesa, todos com cara de defunto. Inclusive Nina e Alice: – Ai gente, o que foi? – perguntei. – Esther... – começou o professor incapaz de terminar. - Esther, querida, Dona Leninha faleceu esta tarde – disse Nina. Na hora perdi a vontade de beber água e de fazer qualquer coisa. Eu queria só dormir. Dormir e poder sonhar com Leninha. Naquele momento, qualquer lembrança dela ficou embaçada, coberta pela fina camada de lágrima que se formava nos meus olhos. Acordei com muito frio. Sem abrir os olhos procurei o lençol, mas encontraram primeiro do que eu e me cobriram. Abri os olhos, Emília e Nanda estavam lá, velando meu sono: – Você está bem? – perguntou Emília me fazendo cafuné. Neguei e funguei para não chorar. – Vai ficar tudo bem. – Eu sei. É que ela só teve tempo de me contar sua história. – Talvez era só o que ela precisava. Suspirei como se o ar pudesse limpar a minha dor, mas não limpou. Então perguntei: – Como souberam? 150

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Estefani Basilo

– Joana ligou. Foi ver Dona Leninha de manhã e ela já estava passando mal, à tarde, ela acabou parando no hospital com insuficiência respiratória. As meninas não entenderam o meu sentimento por ela, e nunca iriam entender. Do mesmo jeito que só poderia imaginar a dor de Leninha quem fosse mãe.

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Caroline Rodrigues Do tambor ao mar Foi uma longa viagem da rodoviária de São Luís até a casa onde eu seria acolhida. Talvez porque pesassem em meu corpo as doze horas de estrada, a falta de sono e o jejum, que cortei com um café com leite e bastante açúcar antes de tomar o ônibus municipal. Da janela, meus olhos seguiram as casas e os lugares de comércio, sempre coloridos, obedecendo um padrão harmônico. Meu pensamento entrava pelas portas enormes e os janelões espalhados. Pessoas iam e voltavam tornando a cidade viva por toda a tarde, ao contrário da noite, que eu veria deserta e obscura. Quando cheguei ao litoral, a tarde acabava de cair e poucas travessas eram iluminadas. Eu as cruzei depressa, tomada por uma sensação de medo e mistério. São Luís me recebeu com frieza, as cores do dia se apagaram e as portas e janelas fecharam seus cadeados. Chegando ao instituto ComoVer, fui recebida pela Darcy, responsável pelas atividades do lugar. Dalva, sua filha, também esperavame à porta, e chamou-me para entrar com um longo abraço. Nossa empatia foi imediata, talvez por termos a mesma idade, os mesmos sonhos de dançarina, os mesmos calos.

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Caroline Rodrigues

– Como foi de viagem, Helena? Animada para dançar amanhã? Aceita uma xícara de café com pão? – Tudo bem, agora que cheguei! Estou ansiosa!

Conversamos um pouco e nos retiramos. Estendi minha es-

teira de dormir no quarto, junto das outras meninas, Dalva entre elas. Ali tive um sonho estranho, no qual corria pela noite deserta de São Luís carregando uma tocha na mão. No sonho, eu sabia que estava sendo perseguida por um leão branco, e que o fogo que eu carregava era a única maneira de me defender. Um tambor tocava ao fundo, e eu o buscava. Acordei suada e contei o sonho a Dalva, que tinha insônia, mesmo depois de dançar a noite toda. Pela manhã, chegando ao Reviver, fizemos nosso cortejo até o Larguinho. Foi tempo de cozinhar todos os preparativos, que também triscamos. A caracterização das dançarinas estava pronta, as saias rodadas, tecidas e estampas à mão. Experimentamos as blusas rendadas, flores, colares, pulseiras, torças. Assim que o dia escureceu no Larguinho, os tocadores começaram a afinar o couro da parelha em frente à fogueira. Armamos nossa roda e o fogo foi aproveitado para as tochas que iluminavam o entorno. Em seguida, os instrumentos foram arrastados pelos tocadores, que estavam nus da cintura para cima.

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A animação foi feita pelo canto puxado pelos homens e o som da parelha. O coro se levantou em louvor aos santos protetores. Após pedir proteção, passamos ao canto festejando o povo negro. Nele, a roda se formou conforme as dançantes se apresentavam individualmente, cumprimentando os tocadores. Acompanhamos o ritmo com palmas, animando-o com gritos. As cinturas giravam para brincar as umbigadas e pungar, convidando os que compõem a roda para entrar na dança. Três tambores tocavam, o crivador, o meião e o roncador. Dalva, entusiasmada, veio com sua marcação de passo na minha direção. Arriscamos passos livres e variados, seguindo o compasso cada vez mais veloz dos tocadores. A chama das tochas dançava acompanhando nossa cintura. De repente, a iluminação revelou sombras se aproximando. O tambor parou. Da direção do Palácio dos Leões, sete homens brancos sugiram da escuridão. Seu chefe se apresentou questionando: – Como ousam festejar na minha propriedade? – Estamos fora da sua residência! Podemos festejar na Avenida Pedro II! – Ordeno que essa zoeira acabe agora mesmo! Não aceito festança de negros na minha propriedade! – Se sente superior por ser filho do coronel? Você não dá ordens, não somos escravos! 154

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Caroline Rodrigues

– Homens, acabem com tudo! Diante daquela confusão, percebia que os olhos dele estavam fixados em mim, e me perguntava por que aquele homem extremamente rude me trazia uma sensação estranha. Por que estaria me olhando? Me reparei retribuindo os olhares, mas logo desviei. Senti vontade de pôr um ponto final nesse pensamento. Perguntei a Darcy quem era aquele homem. – Esse é Chico, da família Cavalcante, são conhecidos por sua riqueza, abusando do poder com violência na região... Como ordenado pelo Sr. Cavalcante, os homens atacaram os nossos com pauladas. Para nos proteger, estes usaram golpes de capoeira, que lhes davam grande vantagem sobre os brancos. Mesmo durante a confusão, continuamos com o ritmo dos tambores. O suor escorria, saias rodopiavam para um lado e para o outro. Os tocadores não pararam, batendo no couro com a mesma força com que os pés saltavam na roda de capoeira que se formava. Gritos e palmas acompanhavam os compassos da melodia, dando força para quem estava lutando, protegendo nossa festança. Chico não entrou na briga. Seus homens perdiam a luta e abandonavam seus cassetetes de madeira. Alguns foram derrubados no chão da avenida em frente ao palácio. Aos poucos, os capangas foram desistindo e escaparam. Chico permaneceu, me olhando. Fui tomada

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pelo impulso de fugir daquela cena, agarrei uma tocha e corri em direção à praia. Atravessei a fachada do palácio e vi acima de mim a estátua branca do leão. Cheguei a pensar que ela saltaria sobre meu corpo. Finalmente, pus os meus pés no mar. Eu conhecia aquele homem, do tempo em que ele esteve embarcado na Vila do Pesqueiro, de onde vim. Ele tentava se aproximar de mim, me agradar. Eu tinha medo dele, sei como são os navegadores. Um dia, ele foi embora e me deixou uma carta, que eu li e atirei no mar. E lá estava eu no mesmo mar, e sabendo que ele viria até mim. Eu segurava minha tocha quando vi sua sombra se aproximar. Naquele momento, lembrei-me do sonho e um arrepio percorreu meu corpo. Ele me perguntou se eu tinha lido a carta. – A carta em que você dizia “o Brasil não tem distância quando se trata de paixão.” Nem seu destino você me disse, só me deixou a esperança de um novo amor, lembranças e um rastro no mar, que não fiz questão de seguir! – Eu era muito jovem, sempre estive aos mandos do meu pai. Perdão se te causei tamanho desconforto, não foi minha intenção. Eu quis voltar pra te ver, mas tenho minhas responsabilidades aqui. Você sempre vagou por minha mente por todo esse tempo, por mais que não tenhamos nos encontrado. O destino nos deu uma segunda chance. 156

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Caroline Rodrigues

Por mais clichê que soassem, as palavras dele mexeram comigo. Que estranha coincidência aquele sonho e este encontro, logo aqui nesta cidade, para onde vim sem olhar para trás e sem intenções de voltar. Minhas pernas ficaram trêmulas e a tocha se apagou enquanto as ondas batiam em nós.

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Emely Helen Oxente Arroz? Feijão? O que é isso? É impressionante Como alguns simples caroços, Temperados, fazem uma refeição boa Enchem o estômago e o coração De qualquer pessoa Agricultores? O que é isso? São jovens Dedicados àquilo que gostam Semeando, semeando Cidade da poesia? Onde é isso?

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Emely Helen

São José do Egito É a casa dos poetas Tudo falado é agora Acordado ou dormindo Para recitar não tem hora Paraíba? O que me diz sobre isso? Quem tem a visão de seca Deve se impressionar Com o tanto de água Que tem por lá E não é só de água não Também tem suas praias Suas paisagens, manias Costumes, gírias E seu jeito paraibano de ser “Oxentemainha” Vamos comigo conhecer

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Lucas Silva Olho d’água Terra mágica Pura de criação Brota a vida de vida A suavidade é uma mera lágrima que escorre Faz crescer um mundo Que de pouco a pouco se Forma Pura forma Beleza sem fim E o seu dom me transborda Em plenitude...

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Lucas Silva

Coração de folhas Suas veias fazem correr Brotos Vida Transformada em saber (Você e o conhecido mais desconhecido) Onde o coração que pulsa Não sangra Chora sem lágrimas Bate como Tambor Máquina de vida Fonte de mistérios

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Cerrado seco Virgem verde sangue mistérios da vida grilo salvo moradia água que corre pra cima para quando estiver preso sem saída Borboletas azuis.

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Bruno Lima

Bruno Lima Uma história para lembrar Esta história começa com um garoto que chamaremos de Alex e que, com seus onze anos, já tinha sua cota de problemas. De segunda a sexta-feira era possível avistar um grupo correndo atrás de um único garoto de pernas finas, que com facilidade cortava as ruas de São Luiz, dissolvendo o bando perseguidor de rua em rua. Não era um garoto popular, isso era perceptível a todos que passassem em frente ao portão da escola quando o sinal batesse. Era o que menos sabia lutar, era perseguido, e as brigas vinham a ele como a montanha para Maomé. Como você pode perceber, Alex era um garoto-problema. Alex também tinha amigos. Júlia e André andavam com ele, e participavam de suas aventuras. Júlia era uma menina tímida, que só saía por incentivo de sua mãe, que a encorajava a brincar com os vizinhos. André era o típico dono da bola, um garoto animado e cheio de si, até ouvir os gritos de sua mãe chamando para dentro de casa, com apelidos que deixavam sua cara corada. Eram só os três, e isso era o máximo que a vida oferecia a Alex. Até que ele ouviu boatos de que alguém estava para se mudar para

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as redondezas. Um dia, em uma destas confusões, Alex se viu encurralado e preso por cinco garotos em um beco sem saída, prestes a levar uma surra. Mas ele, orgulhoso, respirou fundo, jogou a mochila para o lado e tentou abrir caminho derrubando um dos membros do grupo. Foi ele que encontrou o chão, onde os cinco chutaram-no covardemente. Alex não gritava, não pedia ajuda, apenas ficava em silêncio esperando aquilo acabar. No meio desta selvageria, uma pessoa entrou na sua frente para protegê-lo dos trogloditas mirins. Ela disse algumas coisas, que Alex não ouviu por estar confuso, com o pensamento voado. Quando ele “voltou” à consciência, viu os agressores indo embora, debochando dele. Olhou depois para a garota de olhos claros e cabelos longos que o destino lhe enviou. Ela perguntou se Alex estava bem, mas ele, envergonhado, correu dali segurando o choro. No caminho, lembrou que não agradeceu à menina que, além de muito bonita, arriscou-se por ele. Ele não tinha sequer o nome dela. As cenas se repetiam na sua cabeça, os golpes, a menina, e ele tentava voltar a si enquanto rumava para casa. Chegando à casa, Alex reparou que tinha esquecido sua mochila naquela rua sem saída. A esta altura, voltar lá para buscá-la estava fora de cogitação. A menor possibilidade de topar com aqueles cinco 164

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Bruno Lima

de novo o apavorava. Perder a mochila era, para ele, o menor de seus problemas. Sua mãe, preocupada com os episódios da vida de Alex, passou remédio em seus machucados e mandou que ficasse fora de confusões, em vez de colecioná-las. Tempos depois, a campainha da casa de Alex tocou. Ele assistia à TV quando, gritado por sua mãe, viu a garota que há dias o tinha salvado. Ela acenou para ele com a mochila em mãos, pronta para lhe entregar. Disseram “oi” um para o outro e Alex pegou a mochila. – Você esqueceu isso lá. Toma, é sua. – Obrigado, mas como descobriu onde eu moro? – Perguntei à Júlia e ela me disse. – À Júlia? – Sim, somos vizinhas agora. Prazer, meu nome é Carol, e o seu? A impressão repentina da beleza de Carol lhe tirou a atenção por um segundo, fazendo com que ele demorasse a responder o próprio nome e, consequentemente, ficasse com cara de idiota na frente dela. – É... Alex. – Tá, até mais, a gente se vê. Ele começou a visitar a casa da Júlia todos os dias com o intuito de ver Carol mais uma vez. E se viam. Juntos, não se comportavam como na companhia de outros amigos. Havia entre eles um senti-

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mento novo. Não brincavam muito e conversavam horas seguidas, a ponto de a família dela, toda vez que via Alex chegar, chamá-la para dentro de casa, com o objetivo de afastá-los. Porém, quanto mais tentavam, mais os dois ficavam próximos. Alex e Carol contavam um ao outro sobre tudo. Eram amigos inseparáveis. Carol costumava dizer que amigo como ele só existia um na vida, e Alex também a elogiava enquanto acariciava os cabelos dela sobre seu colo. Certa vez, seus olhares se encontraram e o silêncio tomou os dois. Aproximaram-se um pouco. Por impulso, ela o beijou. Os dois nunca souberam o quanto o beijo durou. Permaneceram mais um tempo mudos, olhando fixo um para o outro, até que Carol, envergonhada, virou-se para ir embora. Alex a segurou pela mão e, com uma voz trêmula, sussurrou: – Quer namorar comigo? – Hahã, quer dizer, sim – ela disse, antes de beijá-lo na bochecha e ir embora. – Nos vemos! Eles se divertiam juntos, mas só se aproximavam mais quando estavam escondidos de seus pais, já que estes não aceitavam o relacionamento por uma razão que nem eles mesmos sabiam. Mas isso não mais importava para o casal. Ficaram especialistas em improvisar 166

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Bruno Lima

“esconderijos” para namorar. Alex aprendia muito com ela, com o jeito dela ver as coisas, mesmo sendo de sua idade. Três anos se passaram e o namoro escondido continuava. Apesar de todos na rua saberem, os pais deles permaneciam na ignorância. Alex via Carol todo dia. Mas parecia que sua sorte estava mudando. Após três dias sem encontrá-la, foi até a rua dela mas, para sua surpresa, viu a família carregando malas para o carro. A irmã mais velha de Carol o notou e se aproximou. – Estamos nos mudando, meu pai conseguiu uma oportunidade no Rio de Janeiro. Carol está muito triste de se afastar de você, passou os últimos dias fechada no quarto. Disse pra mim que se te encontrasse seria pior. Em poucos segundos, o coração de Alex acelerou e congelou. – Agora vai embora, antes que meus pais te vejam! Ela disse que vai te escrever. Quem sabe vocês não se encontram aqui ou no Rio.

Alex buscou o olhar de Carol na sua janela, e o encontrou. Os

dois miraram um ao outro com os olhos embaçados. Tão novo como aquele sentimento era a perda. Na vida as coisas vêm e vão, agora ele sabia disso. Foi embora chutando objetos pelo caminho, olhando para baixo. Melhor apanhar do que viver isso, pensou num instante de descontração.

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Esta história foi há muito tempo. Depois disso, Alex apanhou algumas outras vezes dos garotos. Carol, ele não viu mais. Como dizem por aí, virou história. Nem todas as histórias têm final feliz. O que importa é terem uma palavra dizendo: continua...

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Douglas de Paulo

Douglas de Paulo Uma Aventura em Manaus, conhecendo o desconhecido Turistas Aprendizes... Nós somos, fomos e seremos. Junto com os amigos Gabriel, Valeska, Fabrícia, Thamires e Alice, embarcamos para a aventura de passarmos dez dias conhecendo e explorando a Amazônia. Começamos no dia dezesseis de janeiro de dois mil e quinze, quando aterrissamos em Manaus. Logo pudemos sentir o clima úmido da cidade. De repente, quando menos esperávamos, fomos surpreendidos por um baita pé d’água, uma chuva de meteoros, com pingos gigantes que pareciam furar nossa pele. Inundados por tanta chuva, conseguimos encontrar nosso guia, Diego, morador de Manaus, que ficou encarregado de apresentá-la a nós. Começamos pela visita a Ponta Negra. No caminho, vimos um arco-íris pela janela direita do ônibus. Do lado esquerdo, o sol se punha e o céu era alaranjado. Chegamos a Ponta Negra no finalzinho do dia. Dava para ver diversos tons rosados, avermelhados, azulados e um pouco da mistura de azul escuro com preto. Era a noite chegando.

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Avistamos o Rio Negro e então chegamos mais perto. Segundos depois, passou um vendedor com uma bacia na cabeça, cheia de saquinhos com banana frita. É isso mesmo, banana, e o gosto era bem parecido com as batatas chips que comemos. Não aguentamos de ansiedade e entramos no rio de água morna e cor escura. Ao olharmos debaixo d´água, víamos tudo negro, como se nossos olhos estivessem vendados. Também conhecemos o histórico Teatro Amazonas, com suas colunas que formam uma lira, e que nos impressionou pela acústica e beleza. Em cada coluna, um escudo grafado carregava nomes de músicos e artistas como Beethoven e Shakespeare, entre outros. No topo das colunas, um céu com imagens de dança, teatro, tristeza e alegria. O salão, com assentos bem vermelhos, parecia repleto de morangos maduros diante de um palco onde a arte fazia festa. Não pudemos deixar de visitar também o Tambaqui de Banda, um restaurante onde experimentamos a comida regional. Comemos tambaqui assado, pacu e o famoso jaraqui frito. Como diz o ditado: “quem come jaraqui, não sai mais dali.” Continuamos nossa aventura pela Praia da Lua, que recebe as águas mornas do Rio Negro. Tomamos dois banhos ao mesmo tempo, numa mistura de quente e frio, pois chovia na hora em que está170

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Douglas de Paulo

vamos mergulhando e nossos corpos piravam com uma sensação que nem mesmo sei explicar. Visitamos também a comunidade ribeirinha São João do Tupé. Foi preciso pegar uma voadeira para chegar ao local. Voadeira, para quem não conhece, é um barco pequeno onde cabem cerca de oito pessoas, incluindo o piloto, e que, pulando devido ao banzeiro do rio, viaja rápido e parece que vai nos derrubar a qualquer momento, com bastante vento na cara e muita adrenalina. Conhecemos o pajé da aldeia, chamado Kissibi, e seu filho Reginaldo. As casas da comunidade eram de madeira e algumas de tijolos. Havia uma enorme oca e ao lado uma árvore cheia de Urucum, fruto que eles usam para tingir o corpo. Reginaldo nos mostrou como se faz a tinta: abre-se a planta, esfrega-se os dedos nas sementes e depois aplica-se a tintura na pele. Quanto mais maduro estiver o fruto, mais vermelha será a tinta. O pajé então pediu para que sentássemos, pois iria começar a fazer um ritual de inicialização. Ele nos mostrou seus instrumentos, fez algumas danças, e nos chamou para participar. Foi como se tivéssemos crescido no local. Voltando para a voadeira, Regis e o pajé nos contaram histórias da região. Eles têm celulares modernos, com redes sociais, fazem contato com o exterior, e o pajé Kissibi já tinha até visitado a França.

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Nossa última parada foi novamente em Manaus, para participarmos de um sarau na Livraria Valer. Lá conhecemos os artistas locais Lucinha Cabral, Dori Carvalho e Tenório Teles. Devo destacar que Lucinha parecia ter engolido um passarinho, quiçá um tuiuiú da Amazônia, pois fazia sons inexplicáveis com a boca.

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Sobre os autores

Sobre os autores Bruna Alves Bruna tem 20 anos, é moradora da Zona Norte do Rio de Janeiro e estuda no município de Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Cursou o Turista Aprendiz na Biblioteca Parque do Alemão.

Bruno Lima Bruno tem 18 anos, estuda no Colégio Estadual Compositor Luiz Carlos da Vila e mora em Manguinhos. Foi aluno do Turista Aprendiz na Biblioteca Parque de seu bairro.

Caroline Rodrigues Caroline tem 16 anos, mora com os pais na comunidade da Rocinha e está na 2a série do Ensino Médio. Cursou a Oficina na Biblioteca Parque da Rocinha.

Davi Nascimento Davi tem 17 anos, mora em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Acaba de concluir o Ensino Médio na Escola Municipal Thomas Mann. Sua formação no Turista Aprendiz foi na Biblioteca Parque Estadual.

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Douglas de Paulo Douglas tem 19 anos, é estudante, nasceu e cresceu em Niterói, mas mora atualmente na comunidade da Rocinha onde cursou a Oficina na Biblioteca Parque local.

Emely Helen Emely está com 15 anos e acaba de concluir o Ensino Fundamental na Escola Municipal João Barbalho. Fez a Oficina Turista Aprendiz na Biblioteca Parque do Alemão.

Estefani Basilo Estefani tem 17 anos, mora em Ramos e está iniciando a 2a série do Ensino Médio no Colégio Estadual Jornalista Tim Lopes, no Complexo do Alemão. Cursou o Turista Aprendiz na Biblioteca Parque da mesma comunidade.

Fabrícia Mello Fabrícia tem 18 anos, mora no bairro de Santa Cruz, zona oeste carioca, e estuda no Colégio Estadual Erich Walter Heine. Cursou o Turista Aprendiz na comunidade da Rocinha.

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Sobre os autores

Gabriel Leonne Gabriel tem 18 anos, vive com sua família na zona oeste do Rio de Janeiro. Cursa o Ensino Médio na FAETEC, mas acaba de passar para Jornalismo na PUC-Rio. Fez o Turista Aprendiz na Biblioteca Parque do Alemão.

Gabriel Mação Gabriel Mação tem 19 anos e mora na zona norte
do Rio de Janeiro. Cursou o Turista Aprendiz na Biblioteca Parque de Manguinhos.

Guilherme Cunha Guilherme tem 18 anos, mora na Tijuca, concluiu o Ensino Médio no Colégio Pedro II e entrou para o curso de Estudos de Mídia na Universidade Federal Fluminense. Participou da Oficina na Biblioteca Parque Estadual.

Juliana Lourenço Juliana mora em Inhaúma, zona norte do Rio, tem 17 anos e faz o Ensino Médio no Colégio Estadual Compositor Luiz Carlos da Vila. Foi aluna do Turista Aprendiz na Biblioteca Parque de Manguinhos.

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Karen Campos Karen tem 20 anos, mora na Cidade de Deus, zona oeste do Rio de Janeiro. Está empenhada no cursinho pré-vestibular para entrar para a faculdade de Letras. Cursou o Turista Aprendiz na Biblioteca Parque Estadual.

Luana Batista Luana tem 19 anos, nasceu em Niterói, mas mora na comunidade da Rocinha desde pequena. Faz parte do Grupo de Break Consciente da Rocinha (GBCR) e cursou o Turista Aprendiz no seu bairro.

Lucas Silva Lucas cresceu em Nilópolis, município da Baixada Fluminense, mas hoje mora em Paquetá (ilha da Baía de Guanabara – RJ). Tem 16 anos e estuda no Centro Educacional Ebenezer. Participou da Oficina na Biblioteca Parque Estadual.

Robson Casciano Robson tem 17 anos, é violinista, toca na Escola de Música da Rocinha e estuda no Colégio Estadual André Maurois. Morador da Rocinha, cursou a Oficina na Biblioteca Parque de sua comunidade. 176

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Agradecimentos

Thainar Xavier Thainar tem 19 anos e mora em Realengo. Acaba de se formar na FAETEC e ingressar na faculdade de Serviço Social da UFRJ. Foi aluna do Turista Aprendiz na Biblioteca Parque Estadual.

Thamires Bonifácio Thamires tem 15 anos, mora em Bonsucesso e estuda no Colégio de Aplicação da UFRJ. Cursou a Oficina na Biblioteca Parque de Manguinhos.

Valeska Angelo Valeska tem 18 anos, mora na zona norte do Rio de Janeiro e acaba de se formar no Colégio Estadual Mato Grosso. Cursou o Turista Aprendiz na Biblioteca Parque de Manguinhos.

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Agradecimentos Agradecemos imensamente a solidariedade das instituições que nos acolheram durante as viagens pelo estado do Rio de Janeiro e pelo país. Sem o apoio desta rede e a receptividade de seus produtores, coordenadores e jovens atendidos, o Projeto Turista Aprendiz seria inviável. ASPTA – Agricultura Familiar e Agroecologia (Campina Grande – PB) Associação Beneficente Arcanjo Gabryel (Penedo – RJ) Associação das mulheres do Pesqueiro (Ilha de Marajó – PA) ASSORAC Raízes da Cultura (Campina Grande – PB) Casa de Cultura Arigóca (Porto Velho – RO) Casa de Cultura Manoel Gonçalves de Souza Portugal (Rio Claro – RJ) Casa do Coletivo Dirigível (Belém – PA) CDDH – Centro de Defesa dos Direitos Humanos (Petrópolis - RJ) Ciep 465 Dr Amilcar Pereira da Silva (Quissamã – RJ) Colégio e Curso Eximius (Araruama – RJ) CRESERTÃO (Sagarana – MG) Ecovilinha (Alto Paraíso – GO)

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Agradecimentos

Escola Estadual Augusto Meshick (Petrópolis – RJ) Fora do Eixo Instituto Manaós (Manaus – AM) Jovens de Expressão (Ceilândia – DF) Laborarte (São Luiz – MA) Mau Mau Galeria (Recife – PE) Movimento Cultural Supernova (São Sebastião – DF) PIM – Programa Integração pela Música (Vassouras – RJ) Ponto de Cultura “Arte nos lençóis” (São Luiz – MA) Ponto de Cultura Aprendendo a Construir Arte e Cultura (São Luiz – MA) Ponto de Cultura Lumiar (Lumiar – RJ) Pousada Serra da Bocaina (Paraty – RJ) Prefeitura de Rio Claro (Rio Claro – RJ) Quilombo do Campinho (Paraty – RJ) Sarau Café e Prosa ( João Pessoa – PB) Secretaria municipal de educação de Manaus (Manaus – AM) Secretaria municipal de educação de Quissamã (Quissamã – RJ) Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Massaranduba (Massaranduba – PB) Sobrado Cultura Rural (São Pedro da Serra – RJ)

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Aos nossos anfitriões pelas cidades do estado do Rio de Janeiro e do país, e aos escritores e artistas que gentilmente aceitaram trocar conosco durante esta jornada, seremos eternamente gratos. Guardamos, com respeito e admiração, a convivência maravilhosa e as sementinhas que plantaram nos turistas aprendizes.

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Alex Varella

Écio Salles

Ana Cristina Ribeiro

Elizeu Braga

Andrea Alves

Erick Moraes

Ângela Melim

Flavia Avla

Antônio Cícero

Gonçalo Ferreira da Silva

Antônio Marinho

Gustavo Praça

Aziel Lima

Heyk Pimenta

Bruno Borja

Isaac Mendes

Bruno dos Santos

Ivan Anjo Diniz

Bruno Gaudêncio

Jesse Andarilho

Carlito Azevedo

José Renato Vianna

Creuza Barbosa

Keila dos Santos

Cris Penante

Lana Almendra

Diego Batista Gama

Leize Maciel

Dori Carvalho

Leninha

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Agradecimentos

Lucinha Cabral

Rafael Bacelar

Luiz Filho Igbá

Raphael Vidal

Luiza Borba

Regina Mourão

Manoel Belizário

Ricardo Chacal

Márcio Calixto

Steven Bates

Matheus Mineiro

Suzy Lopes

Michelle Azevedo

Tenório Telles

Ovídio Poli Junior

Virgílio

Patrícia Azevedo

Zelma Rabelo

Paulo Dagomé & família

Zezito Freire

Pedro Lago

Waldeci

Ramón Rivera

Waldir Júnior

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Por fim, agradecemos à maravilhosa equipe que construiu essa primeira edição do Projeto. Estamos juntos e misturados até o final!

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Alexandre Aquino

Janete Farias

Alice Souto

Julia Barreto

Clarissa Calado

Marcelo Castañeda

Eduardo Lamas

Patrícia Azevedo

Fernanda Schnoor

Paulo Almeida

Fernando Timba

Rafael Zacca

Flávio Mello

Ricardo Mölnar

Guilherme Gonçalves

Simone Vieira

Glenda Albuquerque

Valeska Angelo

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Rio de Janeiro, abril de 2015



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