Page 1

RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

NESPEREIRA FUTEBOL CLUBE

RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Festejando os 60 anos do Nespereira FC... A História que todos sabem, mas ninguém conhece! Ercílio Galhardo Neto

2012

1

DE 1988

A

2011


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA A primeira vez que vi o Nespereira FC a jogar no campeonato distrital, o Nespereira jogava na 3ª Divisão, e o clube era presidenciado por Adelino Soares, no qual me recordo, de não haver bancadas, o campo era extremamente pequeno, todo cercado por blocos de tijolos de cimento, e os balneários rudemente feitos, no subsolo, onde tinham umas escadas, que davam acesso ao campo. Estavamos na época de 1989/90. Meu Pai, Alfredo Galhardo, fez questão de me inscrever e meu irmão, Francisco, como sócios do Nespereira, tendo pela primeira vez, o cartão de sócio. Mal sabia eu, que ali nasceria uma das minhas maiores paixões associativistas. Nessa época, o Nespereira prometia lutar pela subida, e o Nespereira apresentava um plantel fantástico, que continham nomes que ficaram na história do clube, como Adriano, Bernardes, Pereira, Luís Pinto, o cabeludo Vítor Oliveira- que era suplente, mas entrava sempre para marcar golos- Tó Mané, entre muitos outros. Os jogos começavam geralmente às 15h, mas por volta das 14h45 já estava o campo todo cercado de público, e, ouvíamos o Sr. Laurentino Alves Pinto, numa espécie de barraquinha localizada por cima das escadas dos balneários, onde ele, numa aparelhagem de som, ligadas por aqueles fios pendurados que passavam por cima das nossas cabeças, ligados a uns altifalantes obsoletos, ele apresentava o alinhamento das equipas que jogavam. Sobre esta época, apenas posso dizer que me recordo, dos jogos duramente disputados, das goleadas que o Nespereira dava- até que me recordo que houve um jogo, em que o Nespereira ganhou por 4-0, e o pessoal criticou dizendo que o Nespereira tinha jogado mal!-, e da conquista do campeonato nesse ano, assim como a subida para o 2ª Divisão Distrital. Durante alguns anos, estive meio desligado do futebol, tendo regressado ao meu interesse, nas férias de 1992, quando o meu primo Cláudio Oliveira, me convidou para participar nuns treinos que iriam haver, porque o clube estava com idéias de fazer uma equipa de juvenis. Eu aceitei o desafio, mas como quase não conseguia agüentar uma corrida, e tinha muito pouca habilidade técnica, fui treinar para guarda-redes. O treinador da equipa era um senhor meio calvo, de uma calma tremenda, sempre com um sorriso, mas muito interventivo, chamado Isidro Semblano. Recordo-me que, no primeiro treino que tivemos, fui dos primeiros a chegar, estando lá um rapaz magrinho, meio loiro, muito calado e sério, de olhos azuis, que já vinha vestido de casa, com um equipamento bordeaux da Avibom, que não era outro senão o atual “capitão” Nuno Cardoso. Após alguns treinos, acabamos por ser selecionados quase todos, e, assinamos pelo Nespereira FC. O primeiro plantel de juvenis (época 1992/93), era treinado por Isidro Semblano, auxiliado por Cláudio Oliveira, na gestão de Amadeu Teixeira, e os jogadores foram: Pedro”Bela” Semblano, Charanga, Ercílio “Cilinho”, Nuno Cardoso, Nuno Carlos, Bateira, Renato, Carlos “Lobo”, Helder “Raposo”, Zé Luís (da Generosa), Betinho, Henrique, Vítor Semblano, Márcio Correia, Filipe “Barra Azul”, Luís “Pêga”Semblano, Simão Pinto, Rui Dias, Nandito, Ruizito, Manuel “Batoques” e Mário “Nicho” Abrantes. Eu pouco ou nada (!!!) joguei, porque eu era o suplente do suplente! Mas ficava imensamente feliz por fazer parte do grupo. Lembro-me que o nosso primeiro jogo, foi contra o Carvalhais, e que nós ganhamos. Obviamente, a equipa era muito guerreira, muito valorosa, mas não era taticamente inteligente, pois dependia imensamente da habilidade de Ruizito, da precisão de passe do Nandito, e da força do Nicho. O Sr. Isidro não era um treinador que gostava muito de estar constantemente a mudar de jogo para jogo. A equipa base para ele era, geralmente, esta: Pedro “Bela” na baliza; Nuno Cardoso, a lateral direito; a centrais, eram o Nuno Carlos e o Bateira; e a lateral esquerdo, o problemático Renato, colecionador de cartões vermelhos; a 2


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA “trinco” geralmente jogava o Filipe, que ia alternando com a posição de lateral esquerdo, quando o Renato era expulso; e depois no meio campo, jogava o Nandito e o Luís Semblano, que na primeira época, era sempre um dos sacrificados nas substituições; depois a jogar nas alas, ele punha o Ruizito, no lado esquerdo, e do lado direito, ora era o Manuel “Batoques”, ora era o Simão Pinto, com o Mário “Nicho” a ser o ponta-de-lança.

Nós demonstrávamos uma alegria sem precedentes, às vezes, com jogo marcado para as 10 horas da manhã, e nós a sairmos de Nespereira, com uma geada tremenda, e um frio quase polar, para irmos para Viseu, S. Pedro do Sul, Lamego, em carrinhas particulares, com o pessoal apertado, mas com uma disposição para jogar fora do comum. Mesmo com as dificuldades, que eram a falta de condições, as péssimas estradas, a equipa demonstrava uma garra exemplar. O nosso primeiro equipamento era uma camisola branca muito fininha, com detalhes nos ombros pretos, e, com uma cruz de malta, com o patrocínio a dizer “Móveis Belita”; os calções eram pretos, assim como as meias. Muitos dos nossos jogadores, quando era Inverno, jogavam de camisola interior, para combater as temperaturas da serra que cercavam as localidades onde jogávamos. Fizemos a primeira época bem, terminando em 7º lugar,mas mesmo assim, o nosso treinador, viu que haviam falhas na equipa: a insegurança do Pedro, a falta de alguma força no meiocampo, e a falta de mais alguém na frente de ataque. Na segunda época, a equipa deixou de ser juvenis, e passou para a categoria de Júniores, já contando com Rogério, Nuno Fonseca, China, Pedro “Cangalhas” Lutero, e Kosta, acabando esse campeonato em 4º lugar. Na época de 1994/95, com a indisponibilidade de se poder inscrever alguns dos jogadores que foram acima referenciados, a equipa voltou à antiga base dos juvenis. Então, tivemos o primeiro jogo num campo relvado, que foi em Lamego, contra o Sp. Lamego, no estádio local. Chovia imenso, o campo estava todo empapado, e quem nos orientou naquele jogo, foi o treinador dos seniores, Mário João. 3


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Com aquela chuva imparavel, o Nespereira chegou ao intervalo perdendo por 8-0, num jogo em que fazia-se um “carrinho” para chegar à bola, e o jogador ia parar só nas grades, ou muros que limitavam o terreno de jogo. E recordo-me de um golo, marcado pelo avançado do Sp. Lamego, em que ele pega a bola no meio-campo, passa pelo Filipe, passa pelo Nuno, passou pelo Bateira, e depois pelo Nuno Carlos, e ainda passou pelo Pedro, marcando um golo fabuloso, fruto da nossa inexperiência em relvado. Enquanto o jogo decorria dentro de campo, o treinador Mário João apenas abanava a cabeça negativamente, e já resignado, olhou para o “banco”, viu as opções que tinha, e muito seriamente perguntou para nós todos: - Há alguém aqui que saiba jogar à bola? O Helder “Raposo” muito solicito, saltou do banco, levantando o braço, e dizendo entusiasticamente: -Eu!Eu!Eu! Aí, o Mário João, muito calmamente respondeu para ele: - Então senta-te, que eu já vi, que não tenho ninguém para substituir!- provocando uma onda de gargalhadas no “banco”, pela cara de espanto que o próprio Helder ficou com a resposta do Mário João. Outra das recordações que guardo desse jogo, foi de que, sendo o primeiro jogo num relvado, o entusiasmo era tal, que o próprio “banco” não conseguia ficar quieto, e o Carlos “Lobo” e o Vítor Semblano brincavam ao lado, feito crianças, atirando-se para o relvado, escorregando naquele piso, passando completamente ao lado do jogo. O final do jogo foi um 10-0, que não vou dizer que teria sido humilhante, mas foi uma lição de maturidade, que nos mostrou que nós precisávamos de empenhar mais para atingirmos objetivos maiores. Outro dos jogos dessa época que e ficaram marcados, foi um em Resende, que acabou sendo histórico, foi o de Resende. Para essa recordação, transcrevo um artigo que o atual capitão do Nespereira FC, Nuno Cardoso, escreveu para um jornal, que se falará mais para a frente, sobre esse jogo em Resende, que o Nespereira esteve perdendo, e acabou ganhando por 8-4, na casa do adversário: “Pediram– me para falar sobre um dos jogos mais marcantes na minha carreira de futebolista, e eu aqui estou para o contar. Mas não vou descrever com floreados, mas sim como aconteceu de verdade, para que sirva de exemplo para aqueles que não têm fé e que podem conseguir coisas fabulosas. Então começa assim: houve em tempos, uma equipa do Nespereira F.C., das camadas jovens, mais propriamente dos juniores, que praticava um futebol espectáculo, de encher o olho como se costuma dizer. Essa equipa foi fazer um jogo a Resende com a equipa local. Nesse jogo a partida estava a ser bem disputada, mas desde cedo, a equipa da casa começou a ser bem mais perigosa do que a nossa e sem surpresas chegou ao golo. O pior não foi o golo, mas sim o segundo golo momentos depois. Para agravar a situação, o guardião Pedro Semblano foi expulso, antes do intervalo. Como nós nesse ano já estávamos habituados a começar o jogo a perder não ficamos surpreendidos. E com menos um jogador, ainda antes do intervalo, conseguimos chegar ao empate por duas bolas. Começou a segunda parte e o Resende voltou a adiantar– se no marcador, para 3-2. Nós voltamos a empatar 3-3, pouco depois. Para desespero nosso eles voltam a marcar e o resultado passa para 4-3. Nós nunca desistimos da luta, e fomos a melhor equipa em todos os 4


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA campos que jogamos e, para que a história não fosse diferente, nem a nossa mentalidade o era, fomos em busca da vitória. E lá conseguimos o empate 4-4, logo a seguir fizemos o 4-5, e sucessivamente até atingirmos o final com um 4-8 a nosso favor. Um resultado para a história do meu clube de sempre– NESPEREIRA FUTEBOL CLUBE!- (nunca se esqueçam deste nome, principalmente os mais novos que são o futuro do mesmo). Chegamos nesse ano a fase final do Camp. Dist. De Viseu, pela segunda época consecutiva, sem derrotas. Marcamos 99 golos, ganhamos 7-1 ao primeiro classificado e ficamos em segundo no campeonato devido alguns empates. Mas o mais importante disto tudo, é que fomos durante umas épocas uma família onde fomos unidos e caminhamos no mesmo sentido para ajudar o Nespereira F.C. a ser respeitado no distrito de Viseu. A conclusão que eu quero que se perceba desta história veridica , é de que nunca desistam do vosso objectivo, mesmo com as condicionantes que se sobrepõem. E aos meus colegas de futebol, para nunca se esquecerem de dar tudo o que têm pelo vosso/nosso clube. Queria agradecer ao falecido senhor Isidro Semblano por tudo que me ensinou e também aos meus colegas de sempre: Pedro Semblano, Márcio Correia, Nuno Carlos, Luís Semblano, Filipe, Nandito, Ruizito, Mário “Nicho”, Mota, Bateira, Simão, Manel “Batoques”, Ercílio, Rogério, Pedro “Cangalhas”, Kosta, “Xaqueca”, Vítor “Lobo”, Sérgio (Cinfães), Renato, Nuno Semblano, Hélder “Raposinho”, e aqueles que me esqueci de mencionar. Foi o maior prazer de sempre fazer parte desta equipa fantásticada qual eu apelidei “Os Invencíveis”. Aos companheiros de agora, que sejam sempre felizes neste clube. “ Esta, considero uma das melhores descrições do que era a equipa dos júniores do Nespereira, naquela época, feitas pelo “capitão” Nuno Cardoso. Nessa mesma época que demonstramos aqui, uma oscilação grande de opostos, ainda podemos dizer que o Nespereira, nessa época ficou em 2º lugar, classificando-se pela primeira vez para a fase de qualificação para a Divisão Nacional, num jogo em Sernancelhe, em que vencemos, e saímos de lá festejando entusiasticamente essa qualificação, e, mesmo assim a equipa da casa, de Sernancelhe, com um mau perder, acabou por resolver tentar agredir e estragar a nossa festa, atirando garrafas de cerveja para dentro dos balneários, que até, o Renato e o Mário, estavam tomando banho, e tiveram que sair dele, na ponta dos pés, porque no chão se encontravam vidros espalhados das garrafas, e também da janela partida pelos adeptos,ou jogadores do Sernancelhe. Essa fase, era disputada por seis equipas, e apenas o primeiro classificado do grupo iria ascender à Divisão Nacional. Não nos correu muito bem essa fase, em que lutávamos muito para conseguirmos agüentar a pressão de equipas mais bem preparadas, com melhores condições de trabalho, e também com a simpatia da arbitragem. Mas há um jogo que até hoje sorrio ao me lembrar dele...a nossa deslocação à Repeses, para jogarmos com o Repesenses- que na altura, era financiada pelo antigo “internacional” português, que na altura jogava no Sporting CP, Paulo Sousa. Saímos muito cedo, no autocarro da “Asadouro”, levando connosco um “reforço”, que era o Vítor Kosta, que o Sr. Isidro decidiu levar para fortalecer o nosso ataque, visto que naquele jogo, o “Nicho” estava castigado. Então entramos em campo, e muito cedo, marcamos o primeiro golo, com um golo do Kosta, que ficou tão entusiasmado, que festejou aquele golo com tanta raiva, que correu para os seus colegas de equipa gritando efusivamente: 5


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA - Caraças! Vamos lá pessoal Vamos ganhar isto! Ó! Quem nos dera!!! Aquilo foi apenas um pequeno gostinho...porque o Repesenses massacrou-nos depois, vencendo-nos por 13-1. Depois chegamos, de noitinha, à Nespereira, e lembro-me de passarmos perto do Café “Barra Azul”, onde se juntava toda a juventude nespereirense, que aguardava por saber o resultado, e, os que estavam no café, levantavam o polegar para nós, para tentar saber se tínhamos ganho o jogo, e nós, levantamos também, em tom de cinismo, como se tivéssemos ganho. O Pedro, com aquele jeito entusiasmado dele, olhava a cena e fazia um comentário dizendo-nos: - Olha o pessoal...eles estão perguntando-nos se nós ganhamos! O Kosta, meio desiludido, e irritado com a derrota, e com o comentário, no seu tom sério e impávido, respondeu ao Pedro: - Ganhamos! Ganhamos sim!Ganhamos...mas foi juízo! Nessa época, a equipa dos juniores sofreu uma perda terrível de jogadores, mas que com felicidade continuaram no Nespereira, sendo o caso do Nandito, do Ruizito, do Luís Semblano, do Pedro Semblano, do Mário “Nicho”. Mas nessa mesma época, de 94/95, presidida pelo “excêntrico” presidente Daniel Bastos, o dono da Escola de Condução, a equipa dos seniores do Nespereira FC, estava apostada em subir para a 1ª Divisão Distrital, tendo um leque de jogadores fenomenais, como Marcelo, Da Rosa, Skif, Luís Pinto, Hernâni, João Bernardo, Varito, Vítor Andrade,Mouta Pinto, entre outros, orientados pelo “bravo” treinador Mário João, que tinha vindo do Boavista FC, que na altura disputava a 1ª Divisão Nacional. Falando do presidente Daniel Bastos, há um episódio dele, que o torna imortal, nos compêndios do Nespereira FC. Num jogo do Nespereira, o árbitro marca um pênalti a nosso favor, e obviamente todos ficamos satisfeitos, mas notamos uma serenidade meio curiosa, no rosto do presidente, que na altura olha, para o Mário João, e pergunta-lhe: - O árbitro marca falta, e porquê é que o guarda-redes não mandou fazer barreira? O Mário João riu-se na altura, mas explicou-lhe a diferença entre um pênalti e uma falta, com o presidente a entender, mas este episódio acabou por ficar eternamente ligado a pessoa de Daniel Bastos. Já sobre Mário João, esse era um treinador das camadas jovens do Boavista FC, de origem africana, que foi trazido para o Nespereira pelo Daniel Bastos. Mário João era uma pessoa muito boémia, e muito sociável, gostando imenso de conviver com os jogadores e com os dirigentes. Era um incentivador para todos os jovens, e gostava imenso de ver os treinos cheios de gente. Só que, em dia de jogos ele virava um autêntico “bicho”! Perdia facilmente as estribeiras, xingava efusivamente os seus próprios jogadores, fosse quem fosse, se fizesse algo que ele considerasse errado! Taticamente era muito inteligente, e sabia aproveitar bem as capacidades de cada um. Ele mesmo dizia: “Nós não precisamos ter apenas onze jogadores, precisamos ter uma equipa inteira”. Recordo-me que ele chamou o Mário “Nicho” para jogar, e o “Nicho” estava no banco, quando na segunda parte, ele manda-o aquecer, e depois de entrar o Mário começa a dar mais ênfase ao ataque, mas como era habitual da idade, qualquer “toquezinho” faz logo um jogador cair...aí, o Mário numa disputa com um adversário, caiu, e começou a se queixar, quando se levantou em pé coxinho, e deslocou-se na direção do “banco” de suplentes, solicitando ao treinador: - “Mister”! “Mister”! Dá-me gelo que estou lesionado! 6


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA O Mário João franziu o sobrolho, olhou diretamente para o “Nicho”, e cortando alguns pequenos “elogios” característicos do Mário João, ele deu um berro típico que ecoava no campo do Olival inteiro, dizendo: - Seu...! Volta mais é para o campo! Vai jogar! Deixa-te de mariquices! E recordo-me que o “Nicho” arregalou os olhos, espantado com a reação do treinador, e, voltou as costas ao “banco”, franzindo também o sobrolho, e baixando a cabeça, voltando novamente ao jogo, esquecendo da lesão que tinha tido! Nessa época, o Nespereira acabou em 1º lugar da Zona Norte, disputando o titulo de campeão com o Parada de Gonta. Primeiro, o Nespereira jogou em casa, contra o Parada de Gonta, num jogo com muita chuva, e com o terreno todo empapado, em que o Nespereira venceu por 1-0, graças a um remate cruzado na entrada da área, do Quim. Na segunda mão, em Parada de Gonta, o Nespereira perdeu por 3-0, mas acontecendo uma situação insólita, que foi, a de que, quando a equipa do Nespereira chegou à Parada de Gonta, para disputar o jogo, deram conta de que, faltava o equipamento do Nespereira, e então naquele jogo, o Nespereira viu-se obrigado a jogar com o equipamento alternativo do Parada de Gonta. No ano seguinte, o Clube começou a ser gerido pelo “capitão” do Nespereira, Hêrnani Andrade. Hêrnani era uma pessoa muito calma, de poucas falas, mas muito concentrado. Era- e penso que ainda o é!- uma pessoa muito ambiciosa. Ele pegou no Nespereira na 1ª Divisão Distrital, para jogar contra equipas fortíssimas como Mangualde, Souselo e Mortágua, e, quis montar uma equipa forte a nível distrital, indo buscar o Prof. Evaristo para auxiliar Mário João. Foi buscar jogadores como o Canário e Teles entre outros que ele conseguiu manter da época passada, aproveitando também muitos dos juniores que tinham passado a seniores. O Nespereira fez uma época tranqüila, aproveitando muito bem do fator casa, acabando em 7º lugar, na primeira época que o Nespereira jogou na 1ª Divisão Distrital. Este ano ficou marcado pela proeminência do central Canário; os golos de Teles, festejados com o seu típico salto mortal, que repetiu tantas vezes; assim como a precisão de Marcelo. No final da época, apesar do bom ambiente que o clube vivia, o Nespereira perdeu, na época seguinte (1996/97), importantes jogadores, como Marcelo, o uruguaio Da Rosa, e também perdeu o treinador Mário João. Antes de começar a época, Hernâni e a Direção, deram conta de que havia aspectos do clube, que necessitavam de mudar, e então, ele decidiu aumentar o terreno de jogo, e construiu a bancada que existe atualmente, junto com o salão de bailes. Hernâni Andrade foi talvez o presidente mais preocupado não só em gerir aquilo que tinha em mãos, mas também em melhorar as coisas que já existiam. Por isso, nesse ano, ele melhorou o aspecto do bar, pondo umas mesas de ping-pong no salão de baile, que durante a época de Verão eram geridas por duas simpáticas raparigas que tomavam conta do bar, de maneira muito competente: Ana Sofia Teles e Cristina “Vilarinho” Pereira. Aí, Hernâni Andrade, que foi eleito novamente, foi buscar um antigo símbolo do clube, para colmatar a saída do treinador Mário João: Magalhães! Magalhães foi guarda-redes do Nespereira, na década de 80, e, era uma pessoa extremamente calma, inteligente e muito metódico. Dava muita importância aos lances de bola parada, que nessa época tornou-se no forte do clube. Nessa época (1996/97), o jogo de apresentação do Nespereira, era contra uma equipa que 7


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA estava na 1ª Divisão Nacional, que tinha subido recentemente, chamada Felgueiras FC . O Felgueiras era orientado então, por um treinador na altura desconhecido, chamado Jorge Jesus, e trouxe ao Olival jogadores famosos da altura, como Avelino, Bozinovsky,Acácio (que é natural de Alvarenga- Arouca, freguesia vizinha) Lopes, Baroni, Rosário, Kristic,Lopes da Silva, Clint, entre outros. Não posso precisar quanto acabou, o jogo, mas lembro-me que o Felgueiras ganhou-o, mas não com grande margem. No final do jogo, foi aquela corrida para os balneários, para pedirem autógrafos aos jogadores do Felgueiras. O Nespereira apresentou, na minha opinião, a equipa mais forte de sempre, com a continuidade de João, Canário, Marcos, Zé João, Hernâni, Skif, Teles, e a “cimentação” de alguns ex-juniores como é o caso de Luís Semblano, Ruizito, Nicho e Pedro Semblano, como elementos essenciais para a equipa.

Primeira vez, que o Nespereira iria encontrar dois adversários concelhios de grande peso: o Cinfães, que tinha descido da 3ª Nacional, e vivia sempre nessa oscilação, num verdadeiro “sobe e desce”, e, o Souselo que era uma equipa muito forte, sempre candidata a subida. Nessa época, Magalhães iniciou a época meio trémula, não conseguindo encaixar um esquema tático que agradasse aos adeptos e à própria diretoria, e foi exatamente num dos “derbys”, contra o Cinfães, no Estádio Cerveira Pinto, ainda pelado, que o destino de Magalhães iria ser decidido. O Nespereira enfrentou o Cinfães de forma corajosa, mas não teve pernas para o talento, nem de Marcelo, nem de Tártaro, que desfizeram a equipa nespereirense, e, assim fizeram o Cinfães vencer por 3-0. Nessa mesma semana, Magalhães seria demitido do cargo de treinador, apesar das “más-línguas” contarem que a sua demissão foi fruto do fato do mesmo remeter Hernâni para o banco de suplentes! A escolha seguinte para treinar foi a de António Salazar Galhardo, que voltou ao cargo de 8


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA treinador após 10 anos de interregno de ligação com o Nespereira, visto que ele treinava as camadas jovens do CD Cinfães. António Salazar era um treinador muito próximo dos jogadores, mas muito exigente, e com alguma rigidez, embora não fosse considerado simpático! A sua vinda veio equilibrar um pouco mais as contas, e veio perrmitir ao clube, mais alguma confiança, e esperança nas táticas utilizadas. O rigor de António Salazar veio trazer um novo fôlego à equipa! Jogo inesquecível, foi o da segunda volta, em que, o Cinfães visitou o Olival. A última vez que o Nespereira tinha se cruzado com o Cinfães, em jogos oficiais pelo campeonato, foi em 1979/80, quando o Cinfães subiu à 2ª Divisão Distrital, retornando a este “derby” 17 anos depois. O campo estava lotado de público, que cercava o terreno do jogo, com uma moldura humana fenomenal, divididos entre o lado da bancada sendo ocupado pelos adeptos do Nespereira FC, e o lado dos “bancos” de suplentes, era ocupado pelos adeptos do Cinfães. Recordo-me de chegar ao Campo, e o jogo tinha acabado de iniciar, e o Nespereira apresentava este “onze”: João; Rui Bateira, Marcos, Hernâni, Canário; Quim, Paulo Moura, Vítor Andrade, António Joaquim, Teles e Nuno Pinto. O Nespereira iniciou bem o jogo, marcando o primeiro golo de livre cedo, por Paulo Moura,um verdadeiro nº 10, primo do nespereirense Carlos “Pinheiro”, que foi “descoberto” num torneio juntamente com o seu irmão, Marco, um central muito eficaz, e o seu primo António Joaquim, que era de uma velocidade tremenda. A velocidade de António Joaquim era tanta, que um dia, num dos treinos, ele começou a correr em direção à linha lateral para tentar pegar a bola ainda dentro do campo, mas a sua alta velocidade o fez ir contra o muro de blocos de cimento, baixinho, que ele virou completamente, caindo do outro lado. Voltando ao Paulo Moura, este era um médio muito preciso e inteligente, e um dos melhores especialistas em bolas paradas que passou por Nespereira. O Nespereira marcou cedo o primeiro golo, mas logo de seguida, num novo livre, Nuno Carlos marcou o 2-0, levando o público ao êxtase. Ao intervalo, o Nespereira ganhava por 2-0. Mas, após o intervalo, o Cinfães voltou mais decidido, e cedo marcou o 1-2, num pontapé de canto, em que João não conseguiu defender o cabeceamento do atacante cinfanense. A maneira de jogar do Nespereira começou a fraquejar, mas nunca desistiram, embora a pressão do Cinfães fosse imensa. O público cinfanense fazia pressão sobre o “bandeirinha”, tendo na altura que, o diretor Cláudio Oliveira, apelar ao sistema interno de som, para pedir aos adeptos, alguma contenção na maneira de se expressarem. O jogo estava quase chegando ao fim, quando o Cinfães, de livre, através de Tartáro, conseguiu evitar que o Cinfães saísse dali derrotado, empatando assim o jogo, que ficou marcado por ser a melhor receita da bilheteira de sempre do Nespereira. Durante um período, o treinador António Salazar não pôde dar os treinos, com Hernâni Andrade a orientar várias vezes o treino, e de repente, um dia, este aparece no treino para informar que, não poderia mais continuar a assumir o cargo de treinador, porque foi convidado pela Federação de Bombeiros, para assumir o cargo de Coordenador- Geral dos Bombeiros do distrito de Aveiro, tendo sido muito acarinhado pelos jogadores. Então, para substituir o “Professor”, veio o Cabral. Cabral foi indicado pelo ex-treinador do Nespereira, Mário João, e era um funcionário da Petrogal. Era um senhor meio mulato, com um ar meio cínico, e na terça-feira de treino, e ele já levava referenciado por Mário João, o Varito, que ele disse logo de caras: 9


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA - Tu és o Varito? O Mário João falou muito de você! Mas avisou-me para ter cuidado contigo, porque às vezes gostas de te portar mal.- Os dois riram-se, com o Varito dando aquelas gargalhadas interrompidas, típica dele. Varito, é o filho do Sr. Joaquim do Leopoldo, que também chegou a jogar futebol no Nespereira, em tempos mais idos. Jogou no Cinfães, e depois optou pelo Nespereira, sendo sempre um jogador muito rápido e explosivo, mas às vezes muito indisciplinado. Cabral com o seu sotaque tipicamente africano, começou a treinar de maneira dura, e um pormenor dele que me recordo, era ele para chamar o Carlos Bateira, que era mais conhecido por Bateira, ele demonstrou alguma dificuldade, trocando sempre o nome dele por “Bandeira”. O primeiro jogo de Cabral foi uma deslocação à Cambres (Lamego), para defrontar a equipa local. Mas as coisas não correram muito bem para ele, e uma das modificações que ele fez que mais me ficaram marcadas, foi a inserção de Luís Semblano, que jogava a médio ofensivo, como lateral direito, e a inserção de Nuno Cardoso, que jogou a médio centro. O Nespereira perdeu por 4-1. No treino seguinte de terça-feira, que geralmente era de recuperação física, Cabral fechou o plantel durante 30 minutos, no balneário, e deu um sermão tremendo nos jogadores, pelo resultado em Cambres. Apesar de não fazer parte da equipa, lembro-me que estava lá para treinar, e então, calçamos todos as sapatilhas, e subimos as escadas de acesso ao campo. Depois lá, ele explicou que queria que nós corrêssemos encostado pela parte da bancada, na direção da Feira Franca, e depois quando chegássemos ao final da linha, cruzaríamos na diagonal, atravessando o campo todo, até ao canto oposto do lado do caminho do Borralhal, seguindo depois pela linha de fundo, do lado do caminho do Borralhal, em direção à entrada, chegando ao canto, e fazendo a diagonal, atravessando o campo novamente. Este trajeto foi repetido durante 60 minutos aproximadamente, e me lembro que foi talvez um dos treinos mais cansativos que já vivenciei e não fui apenas eu, que me cansei, pois vi muitos dos jogadores demonstrando cansaço extremo. Para finalizar, o treinador, ainda pôs todo o mundo a subir as escadas da bancada, tendo alguns que aí, já nem conseguiram subir, pela dor nas pernas. Fazendo um pequeno interregno aqui, para recordar um jogo importante, que os juniores do Nespereira, fizeram pelo campeonato, em que ia disputar contra o Sp. Lamego, no Olival. A freguesia de Nespereira passou na altura, por uma situação extremamente dolorosa, que foi a morte do Rui Soares, num acidente. Rui Soares era conhecido por Rui “Badejo”, e era filho do dono do Café Clube, Ricardo Soares e da D. Anunciada. Nessa altura, a freguesia ficou extremamente consternada com a perda de Rui, enchendo o seu funeral, como nunca tinha se visto. No dia do seu funeral, até o tempo fechou, demonstrando a tristeza dessa sua perda. Uma semana depois do funeral, com o jogo contra o Sp. Lamego à porta, o “capitão” dos juniores, Nuno Cardoso veio ter comigo e perguntou-me se eu o ajudava, fazendo uma camisola para ele utilizar durante o jogo, com os dizeres “Rui...Não te esqueceremos!”. Obviamente não recusei, e fiz a camisola. No dia do jogo contra o Sp. Lamego, lembro-me perfeitamente, de ter ido assistir, e ver o candidato de sempre, Sp. Lamego que vinha confiante para vencer mais uma vez no Olival, contra nós. A estatística era contra nós! Nunca conseguimos ganhar o Sp. Lamego! Ainda por cima, perdendo jogadores importantes para os seniores, como o Nicho, Renato, Nandito, Ruizito, Pedro, Luís Semblano e Bateira, sobrando apenas o Nuno Carlos, Filipe Fonseca e o Nuno Cardoso. 10


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Mas, o Nespereira iniciou bem o jogo, e, começou a sobressair a genialidade de um “baixinho” sempre sorridente, da Feira Franca, chamado Pepe. Pepe marcou um belo golo contra o Sp. Lamego, que levou o Nespereira a vencer para o intervalo. Na 2ª parte, o Sp. Lamego apertou com o Nespereira, mas lá atrás estava uma dupla de “centrais” que conseguiam resolver qualquer situação mais complicada- Nuno Cardoso e David! O Lamego começou a não achar recursos para virar o placard do jogo, e recorreu imensamente às faltas, sobretudo em cima do Pepe e do Nuno Carlos. E, já perto do final, numa falta sobre Nuno Carlos, o árbitro assinala a devida falta. O Sp. Lamego fez a barreira, aí Nuno Cardoso corre para a bola decidido, e num pontapé fenomenal, amplia o resultado para 2-0, festejando sobre lágrimas, exibindo a camisola que foi feita em homenagem a Rui, que era o seu primo direito. Nuno correu em direção ao banco de suplentes, em lágrimas,vendo-se ali uma das primeiras certezas da determinação, e da vontade de vencer de quem é, atualmente, o “capitão” do Nespereira FC. Voltando novamente aos séniores...Inesquecivel, também nessa época eram os lançamentos longos feitos pelo Celso, que eram quase meio-golo. Celso é filho do Sr. Fonseca de Vila Viçosa, e fez o seu trajeto de formação futebolística no Boavista FC. Era avançado, bem preparado fisicamente, e com um excelente pontapé. O treinador Cabral era um “tipo porreiro”, mas muito genioso. E demonstrou a sua geniosidade, quando numa terça-feira, Marco, irmão de Paulo Moura faltou ao treino, e depois reapareceu na quinta-feira. O plantel estava todo equipado, preparado para mais um treino, quando Cabral entrou no balneário seriamente, preparava-se para dar as indicações de treino, olhou para o Marco e lhe perguntou: - Foi você que faltou ao último treino? Marco, que era uma pessoa de poucas falas, demonstrando sempre alguma timidez, olhou surpreso para o “mister”, e respondeu: - Sim. Fui eu! Então, mudando completamente o semblante, levantou o tom de voz, e sem ouvir a justificação de Marco, virou-se para o mesmo, esticou o braço em direção a porta, e disse: - Então, podes desiquipar-te, porque jogador que falta ao treino não é opção para mim! O Marco não respondeu, apenas baixou a cabeça, num primeiro momento, e depois abanou –a negativamente, mas sem sequer discutir a decisão do treinador. A reação do plantel inteiro foi de surpresa total, e de espanto! Cabral continuou na orientação do clube até ao final da época, mas, apenas deu para a manutenção, aproveitando bem o fator casa, e dos outros clubes estarem habituados a jogarem em terrenos bem maiores, não perdendo nenhum jogo em casa, até o final da época. Nessa época, o Nespereira terminou em 8º lugar, perdendo apenas em casa contra o Nelas, ainda sob a orientação de António Salazar, e empatando 3 jogos em casa. O Nespereira apenas venceu fora contra o Silgueiros. A equipa do Nespereira FC, ainda foi nessa época deslocar-se a Suiça, para participar de um torneio de futebol, que acabou ganhando. Mas, a Direção do Nespereira FC, demonstrou que não era apenas o futebol que existia, iniciando assim uma época de bailes, durante aqueles invernos frios e chuvosos. Aproveitando o excelente salão do clube, a Direção gerida por Hernâni Andrade, começou a fazer todos os sábados de noite- e nos domingos de tarde, quando o Nespereira jogava fora!- bailes, onde tocavam dois excelentes grupos: o “Sons do Ardena”, que era constituído por elementos 11


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA nespereirenses, Lino de Paradela (vocalista), Quim do Aleixo (guitarrista), Daniel Botelho (baixo), Hermínio Tavares (teclados) e Quim Botelho (bateria); e também pelo grupo de Vilar de Arca , “Gerasom”. Os dois grupos alternavam as suas atuações entre si. Geralmente, o povo nespereirense saia dos cafés, e quando viam os holofotes acesos, se dirigiam para o Campo do Olival, para ir ao baile. Chegando pela porta lateral, as pessoas encontravam geralmente muitas mulheres dentro do salão, sentadas naqueles bancos compridos, e os homens tendenciosamente, ficavam na porta, esperando ver atentamente quem eram as “miúdas” que estavam presentes, para avaliar se podiam pagar a entrada para o baile. Os bailes, geralmente, estavam cheios e em alturas festivas, como Natal e Carnaval, o salão não tinha espaço para tantos pares de dança. Víamos as pessoas suarem em bica, dançando entusiasticamente, principalmente músicas populares, num ambiente que apresentava um calor intenso, e olhávamos para as janelas, e víamos as próprias embaciadas, escorrendo, assim como as paredes brancas do salão. O baile no seu auge, geralmente chegava à meia noite e meia, às vezes uma hora. A partir daí, podíamos ver os mais entusiastas, amigos da noite, e os mais resistentes, que apenas se agüentavam graças aos copinhos de bagaço, ou às tigelinhas de vinho tinto, servidos na parte de baixo, na tasquinha rudemente construída, onde o Sr. Armando Duarte, e a Dª Adelaide Lira tomavam conta pacientemente, agüentando os discursos, as confissões e as lamúrias dos bêbados que por lá passavam. Voltando ao futebol, na época seguinte (1997/98), Hernâni Andrade voltou a ser eleito Presidente, mas deu conta que, o orçamento do Nespereira era muito baixo, e não conseguiria agüentar as exigências de alguns jogadores, que participaram na época transata, perdendo assim jogadores muito influentes como o Celso, Paulo Moura, entre outros. De fora apenas ficaram Canário, Teles e Skif, tendo Hernâni Andrade assumido que ia tentar fazer uma equipa com a “prata da casa”, indo buscar jogadores nespereirenses como Nelo Puck, Henrique Jorge (que voltou após ter sido dispensado pelo treinador Cabral), e um jovem virtuoso, de pés tortos, conhecido pela disposição e velocidade chamado Toninho “Mainça”. Então, Hernâni contratou um treinador conhecido por “Cigano”. “Cigano” era um treinador muito silencioso, tendo uma metodologia de treino desadequada para o campeonato que o Nespereira praticava, e, desde cedo conquistou a desconfiança e a antipatia dos jogadores. O seu extremo silêncio durante os treinos, e a distância com que se relacionava das pessoas, não o ajudou muito. O Nespereira FC parecia uma equipa muito inexperiente, disputando a 1ª Divisão Distrital, e logo no primeiro jogo, que disputou em casa, contra o Vouzelenses, o Nespereira perdeu 4-0. O ínicio da temporada não foi nada bom, e a virtual ausência de “Cigano”, era tal, que após cinco jogos, a Direção, após uma reunião com os jogadores, decidiram dispensar o treinador. Então, aí Hernâni Andrade resolveu recorrer ao treinador dos juniores do Nespereira, na altura, Isidro Semblano. Isidro Semblano pegou numa equipa em decadência, em que os jogadores “estrangeiros” eram muito criticados, mesmo no seio do balneário, que se vivia uma rivalidade entre, aquilo que os próprios jogadores chamavam de “os do Maninho contra o resto”. “Os do Maninho” como se referiam, eram os jogadores oriundos da Vista Alegre. A Vista Alegre era uma fonte de excelentes jogadores, todos muito rápidos e tecnicamente evoluídos, casos de Varito, Ruizito, Nandito, China, Toninho Mainça, Henrique Jorge, Rique, Nelo Rambana, Paulo e Tonito.Não querendo generalizar, uma parte deste grupo de jogadores, eram muito geniosos e críticos, em 12


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA relação às opções dos treinadores, não aceitando muito bem o “banco” de suplentes, embora fossem sempre muito preponderantes para o bem-estar do plantel. Um jogo que não sei definir, se é para recordar, ou se é para esquecer, foi o “derby” no Olival, com o Souselo. A rivalidade entre as duas equipas é muito antiga! Nessa altura, o Nespereira atravessava uma época muito fraca, e necessitava urgentemente de uma vitória, principalmente num “derby” para reanimar a equipa. Então o Nespereira cilindrou completamente o Souselo, que parecia perdido, e a meio da 2ª parte, vencia por 2-0. Num lance rápido, o Nespereira marcou o 3-0, ouvindo-se os festejos efusivos na bancada de sócios de Carlos Valente, um adepto fervoroso do Nespereira FC. Mas, infelizmente, aquele terceiro golo do Nespereira proporcionou a ele a última alegria que teve na vida! Pois, naquele momento de alegria, Carlos Valente teve um enfarte fulminante, que ainda foi socorrido por Domingos Andrade, mas o seu socorro não bastou, falecendo assim num jogo do Nespereira FC contra o Souselo. O Nespereira ainda marcou mais um golo, mas naquele jogo, nem o quarto golo foi festejado pelos adeptos nespereirenses, que apenas choravam o enfarte de Carlos Valente. Esta época foi para esquecer! O Nespereira não conseguia resultados relevantes, e assim chegou ao último jogo, no Olival, contra o Tabuaço, precisando de vencer o jogo para passar o Tabuaço na classificação, e sair da linha d’água, para garantir a manutenção. Recordo-me de que, ainda na primeira parte, o Nespereira marcou o 1-0, através de um golo de Fernando, e depois “murchou”. Ainda conseguiu dar luta, na 2ª parte, agüentando a pressão do Tabuaço, com o público efusivamente a tentar incentivar a equipa. Falando em público, nesse mesmo jogo, há um lance que a bola sai das quatro linhas, o adepto Júlio Soares pega na bola, e se recusou a entregar a bola ao jogador, abraçando carinhosamente a bola, e aconselhando cinicamente calma ao lateral esquerdo do Tabuaço, que se dirigia para o árbitro informando-o da situação. O árbitro dirige-se ao “banco” e pediu uma nova bola. Então ali, “queimou-se” algum tempo, e o lateral dos visitantes não estava satisfeito com os comentários engraçadinhos dos adeptos nespereirenses, e quando a bola solicitada chegou ao jogador do Tabuaço, Júlio Soares resolveu entregar a bola que tinha contido. Mas, o jogador do Tabuaço explodiu, e quando Júlio atira a bola para perto dele, ele impulsivamente chutou a bola propositadamente contra o público, gerando uma pequena revolta ali. Para piorar a situação, o Tabuaço empatou, aumentando a ira do público. No final, o Nespereira empatou, resultado que não servia para garantir a manutenção, e vimos os jogadores como Canário, Nuno Carlos e Ruizito, completamente consternados, com esta situação, descendo de divisão, para a 2ª Divisão Distrital. No final da época, ouviam-se boatos de que Hernâni Andrade abandonaria a presidência do clube após a sua descida, não se sucedendo conforme o que se constava. Pois, Hêrnani Andrade assumiu a presidência por mais um ano. Ainda surgiu a possibilidade do Nespereira FC ficar na 1ª Divisão Distrital, se, o Tabuaço se inscrevesse, mas desistisse de participar no campeonato. Mas isso não aconteceu, pois o Tabuaço não se inscreveu na AF Viseu, dando lugar a uma outra equipa da 2ª Divisão Distrital que subiu para ocupar o lugar do Tabuaço. O Nespereira, para a época 1998/99,perdeu imensas figuras importantes: Nuno Carlos, Nuno Cardoso, Canário e Teles (Cinfães); Pepe (juniores Cinfães); Fernando, Pereira e Nicho (Ac. Fornelos). O treinador escolhido para orientar o Nespereira FC foi o Prof. Diamantino, vindo de Arouca. 13


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Diamantino era uma pessoa reservada, mas muito expressiva no que se referia a futebol, sendo bastante impulsivo nos jogos. Era um treinador que dava muita importância ao aspecto tático, sendo sempre visto nos treinos, com a sua prancheta, onde ele explicava um por um, as funções que queria que cada jogador exercesse nas posições. O Nespereira renovou o seu elenco, baixou o seu orçamento e acabou com os treinos de quinta-feira, pois agora, a realidade era outra: 2ª Divisão Distrital. O jogo de preparação do Nespereira FC foi contra o GD Alvarenga. O “vizinho” Alvarenga foi convidado e aceitou o convite, indo disputar um jogo amigável, que começou com um golo cedo de Luís Pinto, e depois, um pênalti mal assinalado pelo assistente, levou o Nespereira a marcar o 2-0. O jogo era arbitrado pelo saudoso Isidro Semblano. Após o intervalo, o Nespereira ampliou a sua vantagem, e ganhava por 4-0, com o Alvarenga a reduzir para 4-1. Mas, de repente, há um lance em que Isidro Semblano marca uma falta a favor do Nespereira, e o jogador do Alvarenga não aceitou, indo encostar-se a Isidro Semblano, insultando e depois, agredindo, acabando por Isidro Semblano responder à agressão, surgindo ali o seu filho, Luís Semblano, que estava jogando, que sem hesitação, foi defender o seu pai, e dando azo assim a uma autêntica batalha campal que se passou ali, no que supostamente era para ser um jogo amigável. Durante essa época, foi de realçar a intensa entrega dos jogadores da Vista Alegre, que fizeram uma época até estável. O primeiro jogo dos seniores foi com o Castro Daire, em casa. O jogo prometia ser de uma intensa virilidade, devido à alguns incidentes passados a uns anos em Castro Daire. Mas muito pelo contrário, o jogo acabou por ser de uma correcção por parte de ambas as equipas. Hernâni Andrade apresentou a seguinte formação: Pedro; Rique, Ricardo Jorge, Bino, Quim; Luciano, Ruizito, Luís Semblano, Vítor Andrade, Puck; Toninho Dias. O Nespereira praticamente entrou a perder, com Quim a conceder um penalti aos visitantes e com estes a converterem-no. A defesa do Nespereira mostrava– se muito confusa e desorientada, concedendo muitos espaços para as entradas dos avançados castrenses. Mas, Vítor Andrade, num pontapé de canto, marca o golo do empate para o Nespereira. Mesmo assim, não teve muito tempo para festejar, pois o Castro Daire, logo de seguida, marcou o 1-2, aproveitando– se dos espaços de Ricardo Jorge e da atrapalhação de Bino. O Nespereira não conseguia fazer o seu jogo, pois o adversário jogava pelo ar, praticando um futebol feio e fazendo o Nespereira pratica– lo também. Ao intervalo o Nespereira perdia por 1-2. Na segunda parte, o Nespereira mostrou– se mais ofensivo, aproveitando a velocidade de Ruizito e a imaginação de Luís Semblano e Vítor Andrade. Nessa altura dá– se a entrada de Hernâni . E foi da sua cabeça, num pontapé de canto, que surgiu o golo do empate do Nespereira. Numa confusão, o Nespereira acaba por marcar -apesar de contestado pelos visitantes que alegaram que a bola não teria ultrapassado totalmente a linha de golo. E naturalmente, através de uma jogada entre Ruizito e Luís Semblano, o Nespereira beneficiou de uma grande penalidade. Luís Semblano foi chamado a marcar e marcou, virando o resultado para 3-2. O Nespereira ainda beneficiou de mais uma grande penalidade sobre Ruizito, mas que Luís Semblano permitiu a Salazar defender. Há um jogo que não se esquece, que foi o jogo em casa com o S. João da Pesqueira. Lembro-me de, como habitualmente fazia, ter-me dirigido ao Café Barra Azul para passar o tempo, encontrando com o Filipe Fonseca, que jogava no Nespereira FC, naquela altura. Então 14


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA perguntei-lhe qual seria o “onze” contra o S.João da Pesqueira, com ele me explicando que iria jogar Varito, Nelo Rambana, Toninho Mainça, entre outros. Depois, me desloquei para o campo de futebol, onde iria haver baile! Lá vi os jogadores que o Filipe tinha dito que iriam ser titulares, a se divertirem nas “noitadas” dos bailes. Todos sabiam que Hernâni era uma pessoa muito exigente e disciplinado, e que tinha avisado que não queria o pessoal em noitadas, antes dos jogos. De repente, perto das 2h da manhã aparece no salão do baile, o Presidente do Clube, vestido com um sobretudo, e com as mãos nos bolsos, exibindo um sorriso maroto, e silencioso. Entrou, olhou e depois se retirou sem dizer nada. Só sei dizer, que no dia seguinte, da equipa que o Filipe Fonseca tinha me dito que ia ser, os titulares “bailantes” ficaram no “banco” de suplentes, apresentou a seguinte equipa: Carlos; Ricardo Jorge, Ricardo, Hernâni, Jorge Pereira; Quim, Filipe Fonseca, Vítor Andrade, Paulo, Ruizito; Luciano. Com esta equipa o Nespereira surpreendeu a massa associativa, que contava com um meio campo completamente diferente. Mas a equipa começou muito confusa. O S.J. Pesqueira aproveitou– se e marcou logo de rajada o 0-1, com algumas dúvidas se o avançado pesqueirense estaria em fora de jogo no momento do passe. O Nespereira tentou reagir, mas a confusão era muita no último terço de terreno, com Ruizito a tentar empurrar o S.J.Pesqueira. E enquanto procurávamos o empate, o S.J.Pesqueira é que marcava. Uma tentativa de passe de calcanhar de Hernâni, na nossa defesa, entrega a bola ao adversário que bate Carlos, num remate de belo efeito. O Nespereira não desistia, e ainda levou a bola a “beijar” a barra da equipa adversária, por duas vezes: uma num livre de Filipe Fonseca, outra por Luciano. Ao intervalo, o Nespereira perdia por 0-2. Na segunda parte, o Nespereira entrou a sufocar, mas quase que o S.J. Pesqueira marca, já com Carlos ultrapassado e Hernâni em cima da linha a evitar o golo. Pouco depois, Ruizito é derrubado dentro da grande área e é assinalado a penalidade. Vítor Andrade, marca e permite a defesa ao guarda redes visitante. Mas o 1-2 chegou numa confusão dentro da grande área, onde a bola é rematada contra diversos adversários, surgindo Ruizito na boca da baliza a finalizar. Pouco tempo depois, Luciano é derrubado (?) dentro da grande área, e é assinalado o penalty. Ruizito marcou e não falhou. Era o 2-2. Faltavam 20 minutos para o fim. E quando a tendência era o do 3-2, chegou um balde de água fria. Um centro remate a que Carlos não conseguiu defender correctamente dá aos visitantes o 2-3. Mas mesmo em desvantagem, o Nespereira não baixou os braços e empurrou o São João para a sua defesa. Até que no último suspiro, Filipe Fonseca consegue igualar a partida, fazendo o 3-3, na sequência de um pontapé de canto. Um jogo de heróis, com sangue, suor e lágrimas… mas que apenas nos valeram um pontinho. O Nespereira terminou esta época em 7º lugar. No final, foi a despedida de Luís Semblano, que saiu do Nespereira para jogar no Pedrouços, na AF do Porto. Nessa mesma época de se recordar também, a boa prestação que a equipa de juvenis do Nespereira FC tiveram no seu campeonato, orientados pelos treinadores Rui Soares (Ruizito) e Tonito Vieira, no qual vou recordar aqui um jogo. No dia 24 de Janeiro de 1999, numa manhã soalheira de Domingo, os juvenis do Nespereira receberam os Unidos de Resende. A equipa de Rui Soares alinhou com: Mário Lobo; Filipe, Pira, Mexa, Vilarinho; Ervilha, Rui Teles, Sérgio Silva; Bruno, Sergito, Gonçalves. O Nespereira tinha umas contas por ajustar com os Unidos do Resende, derivado à grave lesão que estes provocaram no nosso jogador Carlos Silva (actualmente atleta do Sporting Clube de 15


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Portugal), aquando da nossa visita à Resende. O Nespereira entrou em campo, pressionando os resendenses contra o seu terço de terreno. E foi através de um livre de Rui Teles, que o Nespereira se pôs em vantagem. Um pontapé bem colocado a não dar qualquer hipótese ao guarda redes adversário. De seguida surge o 2-0, num remate rasteiro cruzado de Sergito. Os juvenis foram para o intervalo a vencer por 2-0. Na segunda parte, o Nespereira volta pressionante e beneficia de uma grande penalidade sobre Ervilha, que Sérgio converte no 3-0. Após isto, os U. Resende pouco ou nada jogaram, tendo tempo de ver dois jogadores seus expulsos e mais dois golos do Nespereira: um de Isaias ( que entrou a substituir Gonçalves), e mais outro de Sergito. Na altura, sinal mais para Rui Teles, Mexa, Sergito e Sérgio Silva. No final da época, Hernâni Andrade decidiu que havia chegado a hora de deixar a presidência do clube, e então, após algumas assembléias em que muito se discutiu e se debateu sobre o futuro do Nespereira, após muitos apelos dos adeptos, Isidro Semblano resolve assumir a presidência do clube, na época de 1999/2000. Isidro Semblano, era um dos elementos mais antigos do clube, sempre ligado ao mesmo, desde a sua fundação de direito, em Maio de 1977. Assumiu importantes papeis dentro doclube, sendo o impulsionador e o grande visionário que orientou a “Geração de Ouro”, que deu excelentes frutos, como Nuno Carlos, Luís Semblano, Nuno Cardoso, Bateira, Nicho, Mota, Nandito, Ruizito, entre outros. Pena foi, que desta geração, os valores dela, eram temidos por todos os adversários, mas não reconhecidos pelos selecionadores da AF Viseu, que nunca chamaram um destes jogadores para representar a seleção de Viseu. Isidro Semblano tinha um poder de persuasão imenso, e era muito inteligente e perspicaz. Sempre com aquela postura calma e amigável, e com um leve sorriso ia gerindo muito bem os grupos que orientava. Era muito respeitado, porque também respeitava os outros. Isidro Semblano sempre se apresentava nos treinos, de fato-de-treino, e com um boné, escondendo a sua careca. Mesmo em dias de jogos, levava sempre um chapéu para proteger a sua cabeça. Nessa época, de 1999/2000, Isidro Semblano resolveu recorrer aos elementos mais antigos, como Alfredo Correia e Carlos Duarte, e pô-los também nos Corpos Gerentes do clube. Desta época, não posso falar muito, porque não me recordo de nenhum jogo que terá sido relevante, a não ser, de um pequeno pormenor, em que no jogo com os Leões da Beira, em Nespereira, o Bateira foi tão duro com alguns jogadores adversários, que os mesmos juraram vingança, e na segunda volta, o Bateira arranjou maneira de ser expulso no jogo anterior à ida para os Leões da Beira, para não ter que verificar se era verdade, ou não, a promessa de vingança dos adversários. Nessa época, o Nespereira acabou em 9º lugar. O Nespereira ainda aderiu à prática do Karaté Shotokan. Muito incentivado por Hernâni Andrade, este foi o impulsionador da adesão desta prática, para os mais jovens residentes em Nespereira. As aulas de Karaté eram dadas pelo Mestre Bateira, e durou cerca de 5 anos, terminando em 2004, quando Hernâni Andrade abandonou o futebol definitivamente. Nesse mesmo ano, começaram os aproveitamentos do salão, para o que foi chamado de “Noites Loucas”, que eram uma adaptação, no salão, de uma discoteca. Luzes apagadas, com apenas uma luz fraquinha, que piscava perante um adaptador artesanal, manuseado por nós alternadamente; a mesa de som dos “Sons do Ardena”, ligadas à minha aparelhagem de som, e a um leitor de CD’s portátil, do Jorge Pereira. O salão ficava cheio de juventude, que se deslocava para ouvir as músicas de discoteca da altura. Os DJ’s eram o DJ Jorge, DJ Bela e DJ Cilo. O DJ Jorge iniciava a noite, com música techno e disco, com o Pedro, depois passando 16


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA mais axé, com músicas de Banda Eva, Terrasamba, Daniela Mercury e Banda Cheiro. Eu, era mais direcionado para o Rock.A festa agüentava até às 5/6 h da manhã. Mal sabíamos, que aqui com esta festinha, estava-se a dar o primeiro passo para uma revolução cultural, que futuramente viria afetar muito a tradição nespereirense. Falando em tradição, não podemos esquecer também, que todas as sextas-feiras, a partir de Fevereiro/Março, o salão era cedido ao Rancho Folclórico de Nespereira, presidido por Idalete Teles, que ali ensaiava as danças, pelo seu ensaiador Fernando Soares. Os ensaios do Rancho, apesar de serem ensaios, também acumulavam muita gente no salão do clube, que iam para ver, e algumas vezes para participar das danças. Voltando ao futebol, preparava-se a época de 2000/2001. Em vésperas de Assembleia Geral do Nespereira FC, estava eu a descer a Escadaria 4 de Julho, que dá acesso à Junta de Freguesia de Nespereira, quando cruzei com o presidente do clube, Isidro Semblano, que esteve falando comigo, e assim, me convidou para fazer parte dos corpos gerentes. Eu prontamente aceitei, e assim assumi o meu primeiro cargo no Nespereira FC, de vogal da Direção. A partir daqui, deixo de relatar as coisas como adepto, mas passo a relata-las como dirigente desportivo. Isidro Semblano optou por escolher como treinador dos seniores, um jogador do Nespereira, bem conhecido e acarinhado por todos: Vítor Andrade. Vítor Andrade é um dos jogadores mais tecnicistas que o Nespereira teve. Sempre com semblante sério, e de falar muito pouco, adepto fervoroso-quase doente-pelo Benfica, Vítor Andrade tinha acabado de tirar o curso de treinador recentemente. Com o seu ar sério, conseguia levar quase tudo para a brincadeira, recordando-me de uma pequena entrevista, que fiz a ele para o jornal “Gazeta Nespereirense”, em que perguntei-lhe quais os seus objetivos para a época que se aproximava, e ele respondeu: - Bom...Primeiro, vencer os jogos; depois, vencer o campeonato; e por final, ganhar a Liga dos Campeões!- terminando esta passagem, com um sorriso cínico, mesmo sem dar a entender que estava brincando. Logo na primeira reunião, recordo-me de ver aquela salinha, que estava posicionada no lado direito da escada que dava acesso ao salão, toda cheia de várias pessoas sempre ligadas ao futebol. Isidro Semblano, Hernâni Andrade, Júlio Semblano, Amadeu Teixeira, Jorge Monteiro, Toni Resende, Claúdio Oliveira, Rui Semblano, Ricardo Teles, Américo Pinto eram alguns dos nomes que faziam parte dos corpos gerentes do clube. Ali, sendo a minha primeira reunião, todos resolveram dar as suas opiniões sobre as necessidades do clube, e me lembro, que cheguei na minha altura de falar, e, sem medo propus que o Nespereira FC poderia ter uma equipa feminina. A proposta não foi levada a sério, e até foi gozada pelos presentes! Na altura, Nespereira tinha um grupo de raparigas muito talentosas com a bola, que era o caso da Maria João Tavares, Vera Pinto, Célia Fonseca, Ana Maria Gonçalves, Marcela Almeida, que às vezes, eu via elas jogarem futebol na escola, e eram umas autênticas vencedoras. Apesar de tudo, a proposta nem foi levada a sério, inicialmente! Mas, recordo-me que na reunião, Isidro Semblano pediu o empenho, disponibilidade e a dedicação de todos os elementos dos corpos gerentes. Aí, eu me disponibilizei para ajudar em alguma coisa, caso fosse necessário, e o presidente olhou para mim, e me perguntou se eu daria uma ajuda ao treinador dos Infantis, Armindo Ramalho. Meu primeiro papel no Nespereira FC, foi como treinador dos guarda-redes das camadas jovens. Que equipa “infernal”! Eram muito travessos 17


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA aqueles miúdos! O Carlos, guarda-redes era o pior. Um loirinho, de olhos claros, com cara de anjinho, mas no fundo era um diabinho autêntico! Não parava quieto, tinha a mania que era engraçadinho,como é natural da época que viveram. Nessa altura, jogava nos infantis, o João Ramalho- que era o chorão da equipa-, o Itália, o Carlos Miguel, o Vítor Diogo, o Rafael Cardoso, o João Carlos, o Picheleiro, entre outros. Lembro-me de num jogo, em Satão, que o Armindo Ramalho não podia ir para o “banco” porque tinha sido expulso do “banco”, num jogo dos seniores, pois além de treinador dos infantis, Armindo também era massagista dos seniores, e no jogo anterior tendo sido expulso não podia ir para o banco, durante 10 dias que acumulou de castigo. Então, no “banco” de suplentes ficou o Sr. Isidro e eu, que me estreei no “banco” de suplentes, como dirigente, em Satão. Mas a estréia não correu nada bem, pois o Nespereira foi goleado por 10-1, com um golo de João Carlos, de livre. Antes, porém, na viagem, lembro-me de fazermos a viagem numa Renault da Junta de Freguesia, com apenas três lugares, levando os miúdos atrás, numa alegria tremenda, só incomodada quando, perto de Cabril, o Jorge “Picheleiro” pediu para pararmos porque se sentia enjoado, e então paramos para o dito jogador regurgitar, enquanto os outros elementos gozavam da situação, brincando com ele. Naquela época, gerou-se uma discussão, porque o Nespereira pretendia que Carlitos- filho de Carlos Duarte- assinasse pelo clube, mas o Cinfães ameaçava não facilitar essa aquisição! Então, na altura, chegou-se a coagitar, através de uma idéia de Amadeu Teixeira, que sugeriu que o Nespereira fizesse um contrato de jogador profissional, para Carlitos, com descontos da Segurança Social, e tudo. Só que o Cinfães facilitou, e deu a carta para Carlitos, permitindo assim que o Nespereira pudesse incluir este jogador no seu plantel. Carlitos fez a sua formação quase toda no Cinfães, mudando apenas uma época, em que assinou pelos Iniciados do FC Porto, sendo titular no FC Porto, deixando no “banco” Helder Postiga. Depois, voltou para o Cinfães, e aí acabou a sua formação, jogando no clube da terra natal: Nespereira. Era conhecido pela sua maneira de jogar explosiva, e a maneira como rematava para os golos, maior parte das vezes de bico. O Sr. Isidro tinha por hábito, fazer rotatividade de dirigentes, para irem para o “banco” de suplentes, como delegados, nos jogos dos seniores. Eu comecei a acompanhar os jogos dos seniores, e logo no primeiro jogo em casa, o Nespereira defrontou a equipa duriense do Boassas, vencendo por 6-0, com golos de Celso, Mainça, Puck, Sérgio Silva (nesta altura jogava ainda a extremo) e um “bis” de Carlitos. Jogos desta época, que me ficaram na memória, foi o Boassas- Nespereira, no Campo do Facho, que ficou marcado pelo regresso de Jorge Ramalho- que esteve vários anos na Suiça- ao Nespereira FC. Na altura, Pedro Semblano era o titular da baliza do Nespereira, mas lesionouse após o jogo em Lamelas, em que fez uma excelente exibição, embora não tenha conseguido evitar a vitória da equipa do Lamelas. Durante um período de 5 jogos, Edgar Vasconcelos foi o titular da baliza, mas a sua atuação na derrota contra o Santacruzense, deixou sérias dúvidas a Vítor Andrade, na permanência de Edgar na baliza. Aqui entra a perspicácia de Isidro Semblano, que enquanto o clube se via “apertado” na baliza, o Presidente já assediava Jorge Ramalho para fazer parte do plantel. Voltando ao jogo de Boassas...na primeira volta, o Nespereira cilindrou completamente o Boassas, por 6-0, no Olival. O campo do Boassas, denominado Campo do Facho, é um campo de dimensões pequenas. Os 18


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA balneários situavam-se acima do nível do terreno do jogo, onde o acesso a eles era feito por um corredor feito de blocos de cimento, que faziam assim uma espécie de túnel até aos balneários. As bancadas do campo, se encontravam a uns 8 metros de altura do terreno, mesmo por cima dos bancos de suplente. Sendo um “derby”, a equipa da casa demonstrou imensa garra, e pouco a pouco foi dominando o jogo, chegando ao intervalo ganhando por 2-0. Mas ainda antes do intervalo, aconteceu algo de insólito na bancada. O tempo estava cinzento, e eu estava fazendo os meus apontamentos, quando vi o meu adepto vizinho, o Matinhas da Pertença, atender seu telemóvel, e respondendo em tom alegre: -Estou?...Ah!Sim!...Onde estou? Estou aqui na terra dos cães!- referindo-se assim à Boassas. Obviamente, os adeptos locais não gostaram do que ouviram, e rapidamente começaram a ameaçar que o iriam atirar da bancada abaixo, sendo rapidamente resolvida a situação com a ajuda dos adeptos mais contidos que afastaram o Matinhas dali. Entretanto, no jogo, o Boassas ia conseguindo uma consistente vitória, ganhando por 4-0, sendo reduzido por Toninho Mainça, que fez o 4-1 quase no final. Mas o jogo ficou marcado por uma série de lances mais duros existentes entre Rique e Quim Miguel, em que o jogador do Boassas, mais explosivo ia ameaçando constantemente, e Rique apenas respondia com os seus típicos lances mais durinhos, com entradas de carrinho, etc. No final do jogo, os jogadores se deslocavam para o túnel, e de repente os comportamentos aqueceram de tal modo, que foi uma cena de pancadaria épica, em que, qualquer jogador que entrasse naquele túnel, era fustigado de pancada, correndo aqueles 20 metros, até o largo dos balneários, que ficou mais parecendo um ringue. Hernâni fez impor o seu enorme físico, agarrando Quim Miguel, que se encontrava raivoso e sedento de pancadaria, pelo pescoço, e encostou-o contra uma parede de metro e meio, e falou-lhe claramente: - Ou portas-te como um homem, ou vais virar desta parede, e cais na estrada! O árbitro encontrava-se na porta do balneário, olhando para aquela confusão espantado, e dizendo: - Mas o que se passa? Porque é que eles estão assim? Eles não ganharam? Imagino se eles não ganhasse! Ia ser uma guerra! O público encontrava-se pendurado por cima do túnel, inflamados pela situação que assistiam, mas houve um que se saiu mal...e muito mal: o Matinhas! Este começou gritando o nome dos jogadores do Nespereira, dizendo em voz alta “Dá-lhe Hernâni!Dá-lhe Rique!”, com os adeptos do Boassas a verem o “caldo já entornado”, a agredirem o Matinhas, salvando-o a intervenção de Carlos “Lobo”, que abraçou Matinhas, e correndo, tirou-o do meio da fúria popular. Jorge Ramalho era outro dos alvos da fúria dos boassenses, devido ao seu estilo sério e corajoso, sem medo de ninguém, embora ninguém se tenha virado contra ele. Mas recordome, que a esposa de Jorge Ramalho, Teresa Ramalho, na altura, chegou perto do portão de acesso aos balneários, e pediu-me para trazer a ela, as chaves do Mercedes CLK, que Jorge trouxera da Suiça, temendo uma reação inconsciente do público contra Jorge, indo Jorge Ramalho connosco, na carrinha. Para facilitar as coisas, a GNR pediu reforço policial, porque viu o público imenso que aguardava a saída da equipa, ameaçando a integridade física do Nespereira. Após cerca de uma hora de espera dentro dos balneários, a equipa saiu dos balneários, em direção às carrinhas, cercado pelos efetivos da GNR. Apesar da presença da GNR, ainda ouviram-se vários 19


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA insultos. Após as entradas nas carrinhas, dirigimo-nos para casa, mas não sem antes passarmos pelo Hospital de Cinfães, para sabermos como estava o Matinhas, que foi preciso ir lá, porque necessitou de levar alguns pontos na cabeça. Outro jogo desta época, que me marcou, mas por uma situação mais hilariante, foi a deslocação à Moimenta da Beira, na penúltima jornada. O Tarouquense lutava pelo 1º lugar, renhidamente com o Moimenta da Beira, e o Tarouquense só necessitava de ganhar o seu jogo, e que o Moimenta não ganhasse o jogo contra o Nespereira. Íamos para Moimenta da Beira, no mini-autocarro, conduzido pelo presidente Isidro Semblano, atravessando a serra enevoada, até que chegamos ao estádio municipal do Moimenta da Beira. Os jogadores desceram primeiramente, e se dirigiram para os balneários, seguindo os dirigentes, e então, um diretor do Moimenta da Beira, se dirigiu ao Sr. Isidro Semblano, trazendo uma carteira de cheques e uma caneta e dizendo isto, mesmo antes de dizer “Boa tarde”: - Quanto o Tarouquense vos pagou para vocês nos ganharem? Nós damos o dobro! O semblante calmo do Sr. Isidro não afetou em nada, e este, somente respondeu para o diretor: - Não se preocupe...vimos aqui para jogar! Obviamente vamos tentar vencer!- cortando a conversa, e dirigindo-se rapidamente para o balneário! Chegando ao balneário, após a palestra de Vítor Andrade aos jogadores, Isidro Semblano comentou a situação com os presentes, que não se mostraram muito espantados com a dita proposta, mas com Vítor Andrade a responder prontamente: - Nem pensar! Nós vimos aqui para ganhar! E, não ganhamos aquele jogo, porque fomos muito ineficazes no ataque, mas muito seguros na defesa, com Jorge Ramalho a fazer uma exibição fantástica, que o Nespereira perdeu apenas por 1-0, por um pênalti assinalado a Hernâni. O jogo contra o Castro Daire, em Castro Daire, também é memorável, pelo resultado inesperado que o Nespereira conseguiu, num campo considerado muito difícil por todos os adversários, até porque é um campo de extensões imensas. Ficou marcada pela chamada de Pira, para ocupar a posição de lateral-esquerdo. O Nespereira conseguiu arrancar uma vitória fantástica por 2-1, marcando Vítor Andrade o 1-0, de falta, com o Castro Daire a empatar já na segunda parte, e depois, Celso, num rápido contra-ataque conseguiu fazer o Nespereira vencer o jogo, que foi assistido por dois ex-treinadores do Nespereira: Mário João (1994-96) e Cigano (1997). Pela negativa também fica o jogo em casa, contra os Unidos de Resende/97, em que, o Nespereira está a ganhar por 4-1, ao intervalo, com golos de Mainça, Puck, Carlitos e Celso, mas na segunda parte, fraquejou e deixou fugir a vitória, permitindo que os Unidos de Resende empatassem o jogo, que acabou em 4-4. Há detalhes muito engraçados da passagem de Vítor Andrade como treinador do Nespereira, como, ele a anunciar o “onze” inicial no quadro, e depois chamaram-lhe a atenção que ele tinha escrito ali doze jogadores, provocando o riso entre os atletas e ele mesmo. A confiança de Pepe de que ia jogar,e discutia com Sérgio Silva, que queria usar a camisa nº10, e depois acabou por ficar no “banco” de suplentes. Outro episódio caricato, foi numa ida a Sernancelhe, em que a caminho, paramos em Parada de Ester, para almoçarmos no restaurante do Sr. 20


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Urbano. O Sr. Isidro tinha encomendado lá o almoço, e, perguntou antecipadamente ao Vítor Andrade, o que queria que os jogadores almoçassem. Então, Vítor pediu que encomendasse spaghetti cozido e bifes grelhados, com salada. O Sr. Isidro encomendou isso, e, chegando lá, o Sr. Isidro pediu para os dirigentes, vitela assada com batata, arroz e salada. A acompanhar-nos ia o Sr. Carlos Duarte e Nelson Valente, que foram peregrinos de todas as saídas do Nespereira. Então, quando começaram a aparecer as travessas de comida, Hernâni Andrade, com seu jeito muito brincalhão, e fruto da sua característica de ser um “excelente garfo”, saiu de perto dos jogadores, e em tom jocoso, disse que também era diretor- e na verdade, era. Era Vice-Presidente!- e se aproximou das travessas de carne assada, não deixando o seu irmão, Vítor muito satisfeito com esta atitude. Nessa época, deram-se dois passos importantes para duas atividades que acabariam por ser abraçadas mais tardiamente pelo Nespereira FC. A primeira, no que me toca, nasce de uma situação muito caricata!Nespereira, em 2000, estava a ser visitada por um grupo de missionários que, através dos seus discursos e das suas palestras, e demonstrações de comportamentos, sem Nespereira dar conta, modificou completamente a visão do povo em relação à Igreja Católica. Bom...mas isto não tem nada a haver com futebol! Mas isto que se vai passar, sim! Então, a minha Mãe, resolveu convidar o grupo de missionários para irem comer uma feijoada à brasileira lá em casa, e, eu aproveitei, e como adoro feijoada, me empanturrei daquela maravilha no almoço. Como é hábito bem português, no final do almoço subimos aquela ladeira bastante íngreme que liga a Feira Franca de baixo à Feira Franca de cima, para nos deslocarmos ao Café Emigrante, do mais benfiquista dos donos de café eu já conheci, Armando Oliveira, para levar os visitantes a tomarem um cafezinho. Chegando lá no café, que estava cheio de clientes, vejo entrar o Artur Vieira, muito apressado, e se dirigiu ao balcão, falando com o Pepe, e quando eu me dirigia ao balcão para pagar a despesa, o mesmo se dirige a mim, e me disse: - Ó Ercílio...não te apetece ir para uma patuscada? Eu, empanturrado de uma feijoada, olhei estranhamente para ele, sorri e disse: - O que? Acabei de comer! Pelo amor de Deus! Aí Artur, explicou-me direito o que era: - Não...Arranjamos aí um joguinho em Sta. Maria da Feira, precisamos de malta, e não temos...vá lá! Até o Pepe vai! Fiquei pensativo naquela altura, se aceitava o convite, mas tive em consideração, o pedido por ter vindo do Artur Vieira, e tendo em consideração também, o grupo de ex-jogadores que, em época de Verão, nos deslocávamos no final da tarde, todas as terças e quintas, ao pavilhão de Pindelo, para jogarmos futsal, e resolvi aceitar. Fui ao campo do Olival buscar o meu equipamento de futebol, pus num saco e dirigi-me ao Café O Imigrante, onde estavam à minha espera. Dividimo-nos em três carros, e partimos em direção à Santa Maria da Feira. Chegando à Santa Maria da Feira, encontramos Bernardo, um brasileiro, residente naquele concelho, mas que exerceu a profissão de chapeiro, por muitos anos, em Nespereira. Ele nos guiou até Tarei, onde íamos jogar contra uma equipa de veteranos do Soutense. Recordo-me de chegarmos ao campo, estarmos à espera de que acabasse um jogo de juniores que ali estava tendo, enquanto isso, um dos jogadores do Soutense, começou a contar-nos o histórico deles, falando que recentemente tinham jogado com os veteranos do FC Porto, do Boavista, e eu a pensar para mim, “que cabazada que vamos 21


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA levar aqui!”. Eramos onze certinhos, e aí, entramos nos balneários para nos equiparmos, quando o Artur Vieira pergunta para o Paulo Soares: - Quem vai à baliza? Tu ou o Cilo? O Paulo Soares não demonstrou muita preocupação e indicou-me para ser o guarda-redes. O “onze” era apelativo: Ercílio; Álvaro, Vilarinho (o pai), Domingos, Paulo Soares; Fernando Nésia, Toni Resende, Jorge Soares, Pepe; Artur Vieira e Tonito. As expectativas de um bom resultado eram fracas devido ao fato de sermos apenas onze jogadores, todos despreparados fisicamente, contra uma equipa cheia de jogadores, com um banco de suplentes, e muito mais entrosados que nós. Mas, lembro-me que marcamos cedo, aos 19’, com um golo nascido de uma jogada individual de Pepe. Os adversários não apertaram muito também, embora tenham enviado uma bola ao poste da minha baliza, e que apenas fiquei a olhar, nem me fazendo ao lance. Na segunda parte, a coisa mudou completamente, e, ajudados pelo cansaço físico da nossa equipa, principalmente do lado esquerdo, fomos autenticamente massacrados, e refiro, que de todos os jogos que já realizei, este talvez terá sido o mais bem sucedido, porque consegui fazer defesas, que nem os meus colegas esperavam, nem mesmo eu. Guardando na lembrança uma defesa, em que, num pontapé de canto, a bola cruzou a área toda, surge um adversário que rematou cruzado, eu me fiz à bola, e consegui defender, mas com a bola ressaltando para o outro lado, tendo havido um outro adversário que tentou chutar a bola em jeito, e eu, consegui me levantar, e fui buscar a bola no cantinho, desviando para canto, me perguntando até hoje, como consegui defender aquela bola, que irritou imensamente os jogadores do Soutense. O resultado final foi de 1-1, terminando o jogo num restaurante perto dali, onde fezse um convívio muito salutar. Aqui nasceu a base dos atuais veteranos do Nespereira FC! Pois, este tipo de jogos com convívios eram aliciantes, e chamaram a atenção de Isidro Semblano e Hernâni Andrade, que logo montaram um esquema para regularizar a equipa de veteranos do Nespereira. A segunda, foi a minha persistência em fazer a equipa feminina de futebol. Quando os infantis começaram a chegar ao final do campeonato, eu abordei o Sr. Isidro Semblano, e questionei-o se poderia fazer um treino com as raparigas, nas quartas-feiras de tarde, depois que acabasse o campeonato dos infantis. Ele não se opôs, e me autorizou. Aí, começaram os primeiros treinos da equipa feminina de Nespereira, que treinou cerca de dois meses, antes de ter o seu primeiro jogo, em Travanca, num mini-torneio, que ganhamos por 5-2, com 2 golos da Vera Pinto, 2 da Cristiana e um da Célia. Aqui começou a base da equipa feminina. Elas eram treinadas por mim, e pelo meu auxiliar, o Daniel “Vilarinho”, que muito me ajudou na preparação física delas. Após uma época que o Nespereira conseguiu subir novamente na tabela, acabando em7º lugar, com Carlitos se revelando como o goleador da equipa, com 8 golos na época, seguido de Mainça, com 7. Na transição da época 2000/01 para a época 2001/02, o Ac. Fornelos tinha entrado em competição, só que estava na 3ª Divisão Distrital, e tentavca angariar jogadores para o seu plantel. Havia um jogador muito virtuoso em Nespereira, oriundo de Fornelos, chamado Sergito. Sergito estava a chegar à idade dos seniores, era um jogador muito veloz e muito raçudo. Jogava cada jogo como se fosse o último! Claramente, o Ac. Fornelos aliciou-o, e ele naturalmente aceitou, mas... ele precisava da carta de liberação do Nespereira FC. Na altura, o Ac. Fornelos não se deu ao trabalho de mandar um 22


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA ofício a pedir a carta para o Nespereira, deixando esse trabalho ao serviço do próprio jogador. Isso, em certa parte, indignou o Sr. Isidro Semblano, e, ele com toda a astúcia dele e perspicácia, recusou dar essa mesma carta ao jogador, até porque o Nespereira FC é que havia formado Sergito, desde pequeno. Fruto também da rivalidade secular, existente entre os clubes vizinhos, começaram uma troca de acusações, entre alguns dirigentes do Ac. Fornelos e o Sr. Isidro Semblano. Sabendo que a lei favoreceria o Nespereira, Isidro Semblano entendeu nunca levar isto como questão pessoal, mas sim como uma questão de defesa dos interesses do clube. Então, Isidro Semblano- e a Direção do Nespereira também!-tomou a decisão de apenas liberar Sergito, se o Ac. Fornelos pagasse o valor estipulado por lei, segundo a FPF, por causa de o Nespereira FC ter formado o jogador. Alguns dirigentes do Ac. Fornelos não aceitaram bem esta decisão firme do Nespereira FC, e então, num domingo, perto da capela de S.Brás,já em horário de missa, um dos dirigentes do Ac. Fornelos se dirigiu ao Sr. Isidro Semblano, e após uma breve troca de palavras, e acusações que o dirigente do Ac. Fornelos fez, este agrediu fisicamente o Sr. Isidro Semblano, na porta da capela. Esta situação indignou não só a Direção da altura, como uma parte da população nespereirense. O Nespereira FC emitiu um comunicado público, redigido por Cláudio Oliveira, em que se condenava completamente a atitude inconsciente e violenta do dirigente do Ac. Fornelos. Isidro Semblano- no meu ponto de vista, como diretor- estava defendendo os interesses do clube, não querendo abrir mão de um jogador que foi formado pelo Nespereira FC, e que poderia ser um potencial craque para o plantel, assim de mão beijada, ainda por cima, para uma equipa rival. Mas muitos nespereirenses não conseguiam ver por esse prisma, e acreditavam que isto seria uma birrice de Isidro Semblano em relação ao Ac. Fornelos, entendendo que o clube deveria liberar o jogador sem quaisquer custos para o Ac. Fornelos. No final, o Ac. Fornelos acabou por pagar o valor estipulado por lei, e ficou com o Sergito, no seu plantel. Para a época seguinte, Isidro Semblano foi reeleito para o seu terceiro mandato como Presidente do Nespereira FC. Nessa época, de maneira simples, ele resolveu chamar para treinador do Nespereira FC, um ex- jogador do Nespereira FC, muito idolatrado pelos adeptos do clube, que era conhecido pela sua imensa força, e poder de finalização, na década de 90: Mouta Pinto! Mouta Pinto estava treinando a equipa de juniores do Cinfães, e se não me engano, treinou a equipa que esteve disputando o Campeonato de Juniores Nacional. Era uma pessoa que sabia impor respeito, embora também fosse muito brincalhão. E sentia o jogo! Para ele cada jogo, era como se fosse o último! Entusiasmava-se e passava esse entusiasmo para os jogadores! Nessa época, o Nespereira fez a sua melhor época de sempre, apenas batida pela época em que subiu da 2ª Divisão Distrital, para a 1ª em 1994/95. Os números dizem tudo: 15 vitórias, 6 empates, e 5 derrotas, com 63 golos marcados (segunda melhor marca de sempre) e 37 golos sofridos. Jogos que se recordam bem, foi uma deslocação do Moimenta da Beira ao Olival, que o Moimenta da Beira viria para lutar para a subida. Na altura, quatro equipas estavam no topo da tabela, lutando pela subida (Castro Daire, Lamelas, Sernancelhe e Moimenta da Beira). Este jogo foi muito importante para relançar o Nespereira FC, na luta pela possibilidade da subida. 23


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Influenciados por uma época fenomenal que o Sporting CP fez na época passada, e que fora campeão, que jogava João Pinto, Jardel, Hugo Viana, Jardel sempre que marcava um golo, levantava a camisola com os dizeres: “Será do Guaraná?”. Então, por influência do Cláudio Oliveira, pois a idéia partiu mesmo dele, este pediu se eu não faria umas camisetas com uns dizeres jocosos. Recordo-me que fiz quatro camisolas, uma para o Hernâni, que dizia “Será da velhice?”, pois Hernâni era o “capitão” da equipa e o mais velho dos jogadores; outra para o Pepe, dizendo “Será das noitadas?”, porque Pepe era uma pessoa muito boémia, e adepto de noitadas; e as outras duas camisolas já não me lembro para quem foram, nem os dizeres. Estas duas eu me recordo, porque, o Nespereira ganhou 4-0 ao Moimenta da Beira, e Hernâni marcou um golaço de cabeça, e Pepe também marcou, com os dois a festejarem, mostrando as camisolas com os dizeres, provocando o riso no público. No último jogo, o Nespereira se deslocou a São Martinho de Mouros, em Resende, para defrontar a equipa local, e apenas necessitava de ganhar o jogo para subir de divisão. O Nespereira adiantou-se, e estava ganhando por 2-1, quando o “capitão” do São Martinho de Mouros se dirigiu ao Sr. Isidro Semblano, ao intervalo, e disse: - Se vocês nos pagarem 350 contos, nós vos deixamos ganhar o jogo! Mas o Sr. Isidro Semblano, não sei se terá sido por confiança, ou mesmo por ética, respondeulhe negativamente. Na 2ª parte, o Nespereira acabou perdendo o jogo por 4-2, acabando em 4º lugar, frustrando assim o sonho de subir de divisão. Nessa época também, quem subiu de divisão, da 3ª para a 2ª foi o Ac. Fornelos, que na próxima época já iria disputar o campeonato connosco, prevendo-se assim o retorno dos “derbys” vizinhos. Entretanto, tem um jogo de juniores que o Nespereira FC fez, em casa, contra o “rival” Cinfães, que até hoje quando me lembro, começo a rir de certas coincidências que a vida tem. Num sábado, cruzei-me com a Juliana Amaral, que ia para o campo ver o jogo do Nespereira contra o Cinfães, até porque o seu namorado – na altura, apelidado de “Gato”, que era de Piães- jogava no clube concelhio. Não me recordo do resultado, mas, lembro-me que no final do jogo, saiu uma cena de pancadaria entre o “Gato” e o Vilarinho. Muitos devem se perguntar...o que é que isto tem a haver? Porque naquela altura, mal sabia o Vilarinho que iria namorar firmemente, no futuro ainda algo distante, com a ex-namorada do “Gato”. Uma coincidência incrível! Na época da Páscoa de 2002, a equipa feminina de futebol, apesar de não ser oficial, disputou um torneio de Páscoa, em Espadanedo, com o Presidente, Isidro Semblano a nos emprestar a “velha” carrinha Peugeot, que era conduzida pelo Daniel “Vilarinho” para nos deslocarmos a Espadanedo, todos os sábados de tarde, para jogarmos. Mas como sempre,eu não podia levar as jogadoras todas, e assim obrigou-me a fazer algumas escolhas, tendo eu, que deixar de fora dois elementos muito queridos para o plantel, mas que eu considerava que poderiam render muito mais do que aquilo que rendiam na altura: Marcela e Teresa Duarte. Durante muito tempo, tive que ouvir as “indiretas” da Marcela para mim. Recordo-me que, por causa da Marcela, a Maria João chegou a me ameaçar, em pleno Café Barra Azul, que se a Marcela não fosse, ela também não iria. Mas falei com ela, e tentei chama-la à razão, e ela acabou sendo a capitã- que sempre foi- da equipa feminina. Já a Teresa, falei com ela, sentando-me na mesa para lhe explicar a minha opção, e após eu ter-lhe dito, que ela poderia render muito mais, que ela poderia melhorar, ela entendeu perfeitamente, e aceitou de forma pacifica a minha escolha. 24


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Neste torneio, vencemos, saímos invictos, só com vitórias, e com o melhor ataque do torneio, após uma vitória esmagadora sobre o Travanca. Recebemos o troféu da mão do vereador do Desporto, prof. Manuel Domingos, e ainda, o Presidente da Junta de Freguesia de Nespereira, Prof. Mário Teixeira,pagou-nos o jantar no Restaurante Mirante da Boavista. Esta vitória, apesar de não ser muito valorizada, e até mesmo ter passado ao lado, da própria população nespereirense, foi uma vitória que chamou imensamente a atenção do Sr. Isidro para aquele grupo de miúdas que se esforçavam por ganhar pelo Nespereira FC.

Durante este período, começam a surgir alguns contra-tempos na gestão do clube, como por exemplo o problema da eletricidade. A Junta de Freguesia de Nespereira foi presidida durante vários anos por Isidro Semblano, que filiava o PSD. Mas, nas eleições de 2001, o PSD optou por apoiar o candidato Prof. Mário Teixeira. Então, Isidro Semblano quando soube, resolveu não desistir e apoiado por vários nespereirenses, fez uma lista associada ao CDS/PP. A campanha foi muito ativa, cheia de trocas de acusações, o que fez destas eleições muito concorridas, mas mesmo assim, Prof. Mário Teixeira venceu as devidas eleições. Os dois conseguiram votos suficientes para dividir a Junta de Freguesia, mas como se previa o ambiente entre o Prof. Mário Teixeira e Isidro Semblano não era dos melhores, devido a muitas mágoas retidas das coisas ditas em campanha. O Prof. Mário Teixeira decidiu começar a “varrer a casa”, e nos seus arrumos, descobriu que a eletricidade do Campo do Olival era toda arcada pela Junta de Freguesia de Nespereira. Não sei se por birrice ou por ética, a Junta de Freguesia avisou que não iria mais ajudar nas despesas da eletricidade do Nespereira FC, e que iria mandar cortar a conta que existia na EDP. Este assunto deu uma dor de cabeça tremenda à Direção do Nespereira FC, que de repente se viu a braços com a hipótese de ficar sem energia eletrica, por aquilo que toda a população considerava, não ser uma atitude contra o clube, mas sim contra o seu presidente. Fizeram-se Assembleias Gerais, o presidente da Junta de Freguesia, na altura esteve presente, argumentou as suas opções, foi debatido várias vezes,até chegar ao fim, e reconhecer que havia necessidade de legalizar, passando a eletricidade para o nome do clube, deixando assim de haver ajuda da Junta em relação ao clube. Ainda antes do final da época, Isidro Semblano arranjou um torneio de equipas veteranas, para 25


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA disputar em França. Como os descobridores portugueses, há 500 anos, à procura da glória e ao serviço da pátria, um grupo de veteranos de idade, mas jovens na mente, saíram no dia 16 de Maio de 2002, em direcção à França, com o intuito de mostrar aos outros povos a garra nespereirense que os nossos compatriotas esperavam ver em campo. Após uma viagem longa e cansativa– mas muito bem humorada– lá chegamos ao nosso destino, em Clichy– sous– bois, nos arredores de Paris. Fomos instalados num hotel simpático, juntamente com um grupo de estudantes polacas, checas, húngaras e romenas que chegaram em Paris à mesma hora. O meu companheiro de quarto na primeira noite, foi o Varito. Passamos uma grande parte da noite a jogar cartas. Na manhã seguinte, logo às 8 horas já estávamos a pé, para nos prepararmos para o jogo. O meu entusiasmo em jogar num torneio como este era tal, que, eu nem me lembrei que era dia do meu aniversário. Só me lembrei, porque a minha Tia Zélia, não conseguia ligar para mim, e então ligou para a Profª Fernanda Resende, esposa do Sr. Toni Resende, e aí reveloulhe que eu fazia aniversário, e que queria falar comigo. Foi quando a Profª Fernanda veio então me dar os parabéns, é que eu “voltei à terra”, e lembrei-me que realmente que era o dia do meu aniversário. O nosso primeiro adversário foi uma equipa argelina ( da terra do Zidane), a quem batemos facilmente por 3-0, no estádio local, com golos de Almerindo e Vítor Andrade (2). Algumas horas depois voltamos a jogar contra a equipa do Amis Clichy, a quem também vencemos por 1-0, mas desta feita com um golo de Varito. Após isto fomos almoçar, e de seguida a equipa argelina, perguntou– nos ao nosso capitão– Isidro Semblano– se poderíamos emprestar o guarda redes suplente– neste caso, eu!- porque o guarda redes deles tinha fracturado a clavícula. O convite foi aceite, apesar do meu enorme medo, por jogar por uma equipa muçulmana. Apesar de tudo o jogo até correu bem…”ganhamos” 1-0 à equipa da casa! Não sofri nenhum golo– o que foi um milagre! Entretanto, o Nespereira apenas necessitava de uma vitória para se qualificar para a final. Num jogo muito duro, já perto do final, Isidro Semblano faz um passe cruzado, e Toni Resende surge no segundo poste a marcar o golo que iria nos dar a vitória e o passaporte para a final do torneio, despoletando uma enorme ira na equipa dos Águias de Paris. Já no final da tarde fezse o último jogo para se cumprir o calendário, em que fomos derrotados pelo Lusitânia de Clichy. A Final estava marcada para o dia seguinte! No dia seguinte, fomos passear pela Cidade Luz, conhecendo os diversos pontos turísticos de Paris. À tarde, voltamos para jogar, e qual o nosso espanto, quando vemos que os nossos adversários tinham ido buscar os melhores jogadores das outras equipas para nos ganhar! Entramos no jogo sem medo, e fomos muito perdulários até! No final o resultado era 0-0, Recorreu– se aos penalties! Nunca pensei viver uma sensação de angústia tão grande, ainda por cima, com o estádio apinhado de portugueses a assistirem e a torcer por nós! Vítor Andrade bate o primeiro penalty e marca. O adversário remata à trave. Almerindo bate… e marca, pondo o Nespereira fez 2-0. O adversário, remata, e permite à Artur uma grande defesa, Isidro Semblano, bate o terceiro e marca… agora era só o adversário falhar! Num momento angustiante no banco, todos estavam em pé, mas o sr. Toni Resende diz– nos: “ainda não vencemos!”. O adversário corre e manda a bola por cima da barra! Foi uma explosão de alegria no Estádio. Parecia que tínhamos acabado de ganhar um Campeonato do 26


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Mundo! Por incrível que pareça, essa era a sensação, no meio dos risos, choros e aplausos dos adeptos presentes. A alegria era tanta, que eu me lembro de algumas crianças virem ter connosco, pedir autógrafos, camisolas e até as minhas luvas!!!! Foi memorável! Relembrando os dezassete irredutíveis lusitanos: 1– Artur;2– Álvaro; 3– Hernâni;4– Domingos; 5– Alfredo; 6– Tonito; 7– Vítor Andrade; 8– Paulo Soares; 9– Varito; 10– Isidro Semblano; 11– Toni Resende; 12– Ercílio; 13– Tavares; 14– Eduardo;15– Almerindo; 16– Paulo Marques; 17– Paulo Cardoso. Só se demonstrou que “velhos são os trapos!”

No regresso a Portugal, chegando em Nespereira, as esposas dos “veteranos” prepararam um pequeno lanche, no Café Soares, onde nos esperavam. Esta época fica marcada também pelos festejos dos 50 anos do Clube, que a 31 de Maio de 2002 festejou com uma grandiosa cerimónia em honra do clube. Nessa altura, fez-se um grandioso almoço, no Salão do Clube, onde foram convidados todas as entidades, inclusive ex-presidentes do Nespereira FC, e foi assinado um protocolo de filiação entre o Nespereira FC e o Boavista FC, que na altura acabara de ser campeão nacional, e era presidido por João Loureiro, que esteve presente. Na altura do discurso, o Sr. Isidro Semblano referiu que “poderia ter sido o FC Porto, Sporting CP ou até o SL Benfica, mas que optou pelo Boavista por ser um clube mais próximo, e que tinha a simpatia de todos os adeptos. Já João Loureiro referiu que “estava orgulhoso pelo fato do Boavista conseguir expandir os seus horizontes socialmente”, dando de presente ao Clube, uma enorme pantera prateada, símbolo do Boavista. As cerimônias terminaram, quando houve um jogo entre o Nespereira FC e o Boavista FC, em que a equipa visitante se apresentou apenas com os juniores, vencendo o jogo por 1-0. Na época seguinte 2002/03, recordo-me de Isidro Semblano, vir-me convidar para assumir o cargo de Secretário de Direção do Clube, e eu fiquei entusiasmado, mas, mesmo assim, de certa forma, disse para ele: - Só aceito o seu convite se inscrever a equipa feminina no campeonato em Viseu. 27


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Ele sorriu, e afirmou que o iria fazer. Fiz de conta que acreditei, pois eu sabia como o Sr. Isidro era uma pessoa bastante persuasiva e convincente, e pensei silenciosamente para mim “Bom...o que ele quer é que eu seja o Secretário da Direção, e para isso me promete que vai inscrever, mas vai acabar por nem se lembrar”! Após mais algumas vezes de reunião, entre ele e eu, ele foi-me dizendo que já sentia algum cansaço, e queria preparar alguém para assumir toda a carga burocrática do clube, escolhendo-me a mim, e convidando-me a fazer um curso que ia haver em Viseu, da Federação Portuguesa de Futebol, para Secretário Técnico de Futebol. Eu prontamente aceitei, e dei conta de que a minha função seria como a de um secretário-técnico mesmo. Nesse Verão, realizou-se a primeira Semana da Juventude, e eu estava na organização, e num dia, que estava sentado numa das salas de aula, da Escola da Feira, onde se encontrava a Feira do Livro, a tomar conta do evento, recebo uma chamada do Sr. Isidro Semblano. Atendi, e recordo-me dele me falar, um pouco em tom desanimador: - Ercílio? Olha tenho uma notícia para ti! Este ano vais ter muito mais trabalho! Eu curiosamente perguntei-lhe porquê, e a sua resposta foi esta: - Porque eu inscrevi as “miúdas” no futebol, e vai haver o Campeonato de Futsal, e elas vão participar! A minha primeira reação foi de uma alegria tal, que, não sabia se havia de rir, se havia de chorar. Só depois, quando fui falar com o Sr. Isidro é que este me explicou quem eram os adversários, o que se fazia, etc. Mas a vida mete-nos em cada uma,não é? Nunca fui jogador de futsal, não gostava de ver futsal, e acabei treinando uma equipa de futsal. A primeira pessoa a quem dei a notícia, foi ao Daniel Vilarinho, meu adjunto. Ele também ficou muitíssimo entusiasmado. Entretanto começa a minha corrida para saber mais sobre a modalidade, e muito e ajudou a Ana Sofia Teles, que me emprestou um livro da Universidade, sobre Futsal; e a Mariana Santos, que na altura trabalhava na Junta de Freguesia, num departamento da Câmara Municipal lá instalado, que rapidamente, me arrumou o regulamento de utilização do Pavilhão Municipal Armando Costa. Entretanto, Isidro Semblano começou a preparar a época seguinte (2002/03), e então surge um novo contratempo nos planos de Isidro Semblano- e nos meus também! Daniel Vilarinho, ainda júnior, demonstrou interesse em se transferir para o Gondomar, após ter treinado lá, e o Gondomar também ter demonstrado interesse no jogador. Só que, Isidro Semblano, após reunião com a Direção, decidiu não aceitar esse pedido de transferência, tentando utilizar os mesmos argumentos que foram utilizados com o Sergito, na altura que o Ac. Fornelos pretendia o jogador. Daniel Vilarinho era um central bastante eficaz, e muito bom nas marcações, e Isidro Semblano pretendia aproveita-lo para a equipa sênior. Mas após a notícia da recusa, Daniel Vilarinho decidiu não jogar pelo Nespereira, como protesto contra a decisão diretiva. Só que aqui entra o meu debate! Revoltado com o fato, Daniel Vilarinho recusava ativamente jogar pelo Nespereira FC, só que ele era o meu adjunto na equipa feminina, e, após uma conversa minha com ele, ele aceitou continuar a me ajudar a treinar as “miúdas”. Só que, quando fui pedir a Isidro Semblano para inscrever Daniel Vilarinho como dirigente do clube, a resposta que recebi foi esta: - Não posso Cilo...o Daniel sabe bem que, se quiser continuar aqui, tem que jogar aqui! Para inscreve-lo, ele tem que parar com essa birra! 28


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Como conhecia o Presidente, eu sabia que ele era uma pessoa bastante decidida, e não ia adiantar de nada tentar debater a idéia do Sr. Isidro. A mim, nada mais me restou, senão dar a notícia ao Daniel, de que ele não ia poder ser o meu adjunto, por causa de um diferendo completamente à parte da situação em causa, e que acabou por me prejudicar. Mas mesmo assim, Daniel Vilarinho não deixou de me dar apoio, e sempre acompanhou atentamente a progressão da equipa feminina. Voltando à gestão, Isidro Semblano, demonstrava imenso entusiasmo na época que se avizinhava, e então resolveu inscrever o Nespereira nas seguintes categorias, na AF Viseu: 2ª Divisão Distrital- Zona Norte; Taça Sócios de Mérito; Infantis, Iniciados, Juvenis, Júniores, Futsal Feminino. O Nespereira FC era o clube, sem ser concelhio, que mais votos tinha na AF Viseu, nessa época. Após isto, o próprio presidente assumiu a função de treinador do Nespereira FC. O primeiro jogo que o Nespereira teve nessa época, foi contra o Lobanense, em casa, para a Taça, e que o Nespereira venceu por 3-0. Jogos para recordar dessa época, tem a deslocação de Nespereira a Moimenta da Beira. Moimenta da Beira apresentava-se como uma das equipas candidatas à subida de divisão, e ainda não tinha perdido um único ponto. Isidro Semblano, que costumava jogar em 4-4-2, dessa vez, optou por jogar em 4-5-1, com Carlitos a ser o único atacante, e pedindo para Quim vir apoiar a defesa, do lado direito, até porque era a estréia do “inexperiente” Rui Teles como titular, principalmente a jogar a defesa direito. O Nespereira marcou a meio da primeira parte, através de um contra-ataque de Carlitos, indo para o intervalo a ganhar por 1-0. No ínicio da segunda parte, o Moimenta da Beira empatou o jogo, e começou a pressionar imenso, mas com o Nespereira a defender muito bem, com Hernâni e Nuno Cardoso em evidência, durante o jogo todo. Então, numa jogada de contraataque, pela direita, Sérgio Silva cruza a bola, e Vítor Andrade apareceu no segundo poste marcando o 1-2, explodindo de alegria o “banco” nespereirense. O Nespereira recuou, e a partir daí, conseguia defender muito bem, e o tempo ia passando, aumentando a fúria do público do Moimenta da Beira. Numa determinada situação, Isidro Semblano resolve tirar Rui Teles, e faz entrar José Júlio. Na saída de Rui Teles, um senhor já de certa idade, com um capacete na mão, acompanha-nos desde o meio de campo até ao nosso “banco”, a insultar o Rui Teles, e ameaçando, mas com o Rui Teles impávido e sereno, sem ligar ao que o adepto dizia. Nessa altura, ele encostou-se ao nosso “banco” e continuou a insultar, só que desta vez, o “banco” inteiro. Eu, numa tentativa de acalmar os ânimos, dirijo-me ao senhor, e digo-lhe: - Ó meu senhor! Não há necessidade disso! Não precisa se exaltar assim. Mas, o homem não me deu ouvidos, e começou a me insultar, só que eu com o meu jeito às vezes destemido, respondi para o senhor: - O senhor podia ter mais juízo na cabecinha...já tem idade! Maldita hora que abri a boca! De repente, vejo uma multidão que estava encostada à grade, deslocar-se em direção ao banco, e nos fazer passar cerca de 15 minutos debaixo de insultos constantes. Voltando ao jogo, mesmo no final, já em tempo de descontos, num pontapé de canto, o Moimenta da Beira empata o jogo, evitando a derrota em casa. No final, já na saída do campo, um dos jogadores do Moimenta da Beira se dirigiu a mim, encostou o dedo à minha cara, e ameaçou-me, chegando depois vários outros jogadores do Moimenta da Beira, que me cercaram, e de repente senti um impacto na minha cabeça, que 29


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA foi o guarda-redes do Moimenta da Beira, que me agrediu, com um soco na parte de trás da cabeça. Fui salvo pelo Puck, que entrou no meio da confusão, e me retirou dali empurrandome para fora! Nos vários anos que estive no futebol, foi a única vez que me agrediram! Ainda tentei falar com o árbitro, que assistiu a tudo, mas este negou ter visto algo! Esta foi a minha primeira lição para o futebol distrital: Em caso de confusão, ali prevalece a lei da selva! Vence o mais forte! Não vale a pena tentarmos recorrer às autoridades, como a arbitragem para resolver uma situação deste gênero. Depois, na semana seguinte, tivemos outra deslocação complicada: Sernancelhe! Num campo imenso, o Nespereira jogou com o Sernancelhe, de maneira bem renhida, e muito corajosa! O Nespereira esteve ganhando por 3-1, com golos de Nuno Cardoso, e dois tentos de Carlitos. Paulo Monteiro fez uma exibição espectacular contra o Sernancelhe, sendo ele o assistente dos dois golos de Carlitos. O Sernancelhe ainda reduziu para 2-3.Mas, no final, num livre, Sérgio Silva e Jorge Ramalho atrapalham-se, e Sérgio Silva acaba por fazer auto-golo, permitindo ao Sernancelhe o empate. No final, os jogadores do Sernancelhe estavam muito exaltados, e protestavam contra o árbitro, e após a equipa do Nespereira já ter entrado para os balneários, alguns jogadores do Sernancelhe agrediram fisicamente o árbitro, na entrada do acesso aos balneários. Isidro Semblano ainda estava do lado de fora, e como foi preciso a intervenção da GNR, para retirar o árbitro do meio da confusão, Isidro Semblano encostou-se ao árbitro que estava sendo abraçado pelo oficial da GNR, e que ameaçava os jogadores de prisão, caso alguém tocasse nele, e disse muito discretamente: - Senhor árbitro, isto é um escândalo! Ponha isso no relatório! Se for preciso, eu serei sua testemunha!- Mas, creio que o árbitro nem deverá ter referido este incidente no seu relatório. O regresso de um “derby” também é motivo de referência. Neste caso, com o Souselo. Em casa do adversário, o Nespereira começou o jogo de melhor forma, aos 7’ de jogo, Paulo Monteiro, de cabeça, põe o Nespereira em vantagem no campo do Souselo. Após isto, o jogo começou a endurecer, e o nosso guarda– redes Jorge Ramalho, teve de sair substituído por Pedro Semblano. O Nespereira iria sofrer o golo do empate ainda antes do final da primeira parte. Na segunda parte, Isidro Semblano, mexe na equipa, e troca Rui Teles por Pepe, e Paulo Sérgio por José Júlio. A imaginação de Pepe não ajudou muito na altura, e o Souselo, num lance muito duvidoso, iria alcançar a vantagem, num lance precedido de uma falta inexistente. No final do jogo, depois de ganharem o jogo, o guarda redes e o capitão da equipa, na altura dirigiram– se ao público nespereirense, maioritariamente mulheres, e fizeram gestos obscenos, debaixo do olhar indiferente do árbitro, realizando uma triste figura!!! Nessa época, baseado numa folha que Isidro Semblano fazia semanalmente, com os resultados e classificações dos campeonatos, e expunha nos diversos cafés da freguesia, idealizei uma espécie de folheto, tipo jornal chamado “Bola do Ardena”, com os resultados, equipas e apreciação do jogo, que mostrei ao mesmo, mas ele não se mostrou muito interessado no possível projeto, que o deixei na gaveta. A partir do próximo jogo, o ambiente dentro do balneário nespereirense iria ficar mais pesado. O Nespereira recebeu a equipa do Carvalhais, e a equipa visitante marcou primeiro, saindo para o intervalo, ganhando por 1-0. A meio da segunda parte, o Carvalhais aumenta o marcador para 0-2, mas logo de seguida, num pontapé livre, Nuno Cardoso reduz para 1-2, vindo a correr para mim e dedicando-me aquele golo que nunca mais vou esquecer. O público nespereirense reanima, e tenta incentivar a equipa. Só que, num lance em que Jorge Ramalho 30


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA hesitou na saída da bola, o Carvalhais marca o 1-3, resultado que finalizou o jogo. Então, Hernâni numa situação de desespero e inconformado com o resultado, já dentro do balneário, agarra na braçadeira de capitão, atira-a contra o chão, e reclama: - Não temos nem guarda-redes, nem avançado! Com esta frase, Hernâni despoletou um sentimento de antipatia, por parte de dois elementos que ocupavam aquela posição: Jorge Ramalho, que é uma pessoa bastante geniosa e impulsiva; e Carlitos. Mas não era só isso que estaria afetando o clube naquela altura. Nesta época, Isidro Semblano começa a demonstrar alguns sinais de fraqueza, e a queixar-se imenso de dores de cabeça, chegando-me a contar na saída de um treino, um episódio, que na altura não valorizei muito, mas que depois, acabei por compreender. Isidro Semblano virou-se para mim, e começou a descrever que tinha sonhado com a Guerra do Ultramar, e que parecia tudo tão real, que ele acordou com uma dor de cabeça, que ainda não tinha passado até aquela hora. Obviamente, achei que fosse qualquer coisa que tivesse a haver com o sonho. Então chegamos na altura do primeiro grande “derby” vizinho, após 24 anos de interregno deste clássico, que tinha sido disputado pela última vez, em 1978: Fornelos vs Nespereira. Nesse domingo, Isidro Semblano convocou toda a equipa para almoçar na Churrasqueira Faria, e eram 11h, estávamos almoçando e ouvindo o discurso incentivo do Presidente. Após o almoço dirigimo-nos para Macieira, para nos prepararmos para o jogo contra o Ac. Fornelos. Ainda esperávamos no “banco” sem a equipa se equipar, quando vimos o árbitro chegar junto com mais um elemento. O árbitro era jovem e chamava-se Nuno Ventura. Eu fui falar com ele, como delegado ao jogo, e então explicou-me que o seu outro auxiliar não podia ter ido, e assim seria decidido entre os delegados de jogo, quem iria ser o auxiliar. Eu já tinha em mente, o massagista do Nespereira FC, Armindo Ramalho, que já estava bastante habituado com a devida representação, e então decidimos que seria por cara ou coroa, sendo o Armindo Ramalho, o auxiliar. O Fornelos marcou ainda na primeira parte, através de Sergito. Mas o jogo acabou sendo de uma imensa dureza, e até o público era duro com os jogadores. Num lance perto da linha lateral, entre Nuno Cardoso e Sergito, a mãe de Sergito fez um comentário nada agradável sobre a vida pessoal de Nuno Cardoso, demonstrando a que ponto chega a ignorância das pessoas no futebol, quando a mãe de Sergito é prima direita de Nuno Cardoso. Ao intervalo o Nespereira perdia 1-0 para o Ac. Fornelos. Na segunda parte, um senhor- dito distinto- de Vilar de Arca, que se comentava, era o grande investidor do Ac. Fornelos, resolve agredir Armindo Ramalho com um guarda-chuva, com este a exercer a função de auxiliar. Foi constatado e até o mesmo Armindo Ramalho, deu queixa do sucedido. No final, o Nespereira acabou perdendo por 1-0. Na entrada para os balneários, encontrava-se um pevidoso de boné e óculos, que se dirigiu a Nuno Cardoso e lhe disse: - Para o ano jogas cá! Mas Nuno, que sempre foi um jogador muito dedicado e fiel ao clube, nunca demonstrando sinais de mercenarismo algum, nem exigindo que o clube lhe pagasse algo, apenas respondeu: - Nem morto jogo aqui!- terminando assim a abordagem que o pevidoso fez a sua pessoa. Mas mesmo assim, o pevidoso continuou ali na entrada dos balneários, e, abordou o presidente e treinador do Nespereira FC, Isidro Semblano, provocando-o e agredindo verbalmente, com acusações sem nexo nenhum. Foi a única vez que vi, Isidro Semblano 31


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA também ficar completamente irritado, parou na porta do balneário e começou a discutir com aquela triste figura. Aí, apareceu Hernâni que já tinha entrado, e eu, que estava chegando do balneário do árbitro, e interferimos, incentivando Isidro Semblano a entrar, mas com aquele irritante pevidoso sempre a agredir-nos verbalmente, perdi a paciência e dirigi-me a ele: - Faz o favor de se calar? Acha que eu tenho medo de ti? Olha o que és, e olha para o que o Nespereira é!- entrando de seguida para o balneário, muito irritado com vontade de espancar aquela figura irritante. Após uma paragem de duas semanas, o Nespereira iria jogar um jogo, que apesar de não parecer muito significativo, acabou por sê-lo. O Nespereira deslocou-se a São Martinho de Mouros, para defrontar o último classificado da tabela. O Nespereira iniciou o seu domínio desde cedo, e logo nos primeiros dez minutos marcou o 0-1, através do lateral-esquerdo China, e perto do intervalo, Varito ampliou o placar para 0-2. Na segunda parte, o Sâo Martinho de Mouros ainda conseguiu marcar o seu golo de honra, mas foi a única coisa que fez, pois o Nespereira dominou o jogo todo. Mas devem estar a perguntar “O que é que este jogo teve de tão significativo?”. Foi o fato, de que este, foi o último jogo que Isidro Semblano orientou, antes de adoecer. Esta semana, entre o jogo de São Martinho de Mouros e o recebimento do Boassas, foi uma semana de incertezas que a maior parte da Direção não tinha noção. Isidro Semblano era um homem muito reservado, e não era muito de partilhar a sua vida pessoal com ninguém, mas mesmo assim, os elementos diretivos que mais acompanharam este progresso da sua doença fui eu, o Cláudio Oliveira e o Rui Semblano. Apesar de acreditarmos que ele iria agüentar esta dura caminhada, para mim a certeza de que a sua doença era mesmo muito grave, veio numa noite de terça-feira, em que fui visitar a Lurdes Cardoso, irmã do Pepe, e ao sair do portão de sua casa, por volta das 19 horas, estava chegando Isidro Semblano de carro, acompanhado de sua esposa, e então, ele pára ao meu lado, abre o vidro de sua janela, pegou em algumas capas, que ele fazia se acompanhar sempre, relativamente à assuntos do clube, e muito abatido me entregou as capas, dizendo: - Ercílio, explica ao Hernâni que não dá para eu ir ao treino, e ele que treine. E olha, estão aqui estas pastas, vocês assumem isso a partir de agora! Eu, claramente, fiquei estarrecido com a atitude dele, e perguntei-lhe: -Mas o que foi? O que se passa? A resposta de Isidro Semblano foi curta e simples: - Estou doente.- mas não entrou em detalhes, deixando-me a braços com aquela situação. Naquela noite de terça-feira, chamei o Hernâni no gabinete da Direção, e transmiti-lhe o que o Sr. Isidro tinha me dito, com o Hernâni a ficar também surpreso. Então, Hernâni resolveu assumir a responsabilidade que lhe cabia, e eu fui fazer o anúncio aos jogadores, do que se passava. Recordo amargamente, que me pus em frente ao quadro, olhei para os jogadores, e lhes dei a notícia de que o Sr. Isidro deixava de ser Presidente no ativo, assumindo o cargo, Hernâni Andrade. O desânimo foi evidente, assim como a emoção. Imagem que não me esqueço, é a de no momento em que dei a notícia, o Carlitos, com os olhos brilhando, me questionou: - E quem é que vai ser o nosso treinador agora? Eu sabia do diferendo existente entre Carlitos e o Hernâni, devido ao jogo de Carvalhais, e tremi na hora da resposta, temendo uma reação menos boa de Carlitos, mas acabei dizendo: - É o Hernâni! 32


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Tudo muito confuso no ínicio, aquela situação adversa foi uma dor de cabeça sem precedentes, porque, apesar do jeito reservado de Hernâni, eu entendia que aquela responsabilidade não estava nos seus planos, e era angustiante para ele. Na sexta feira, Cláudio Oliveira marcou uma reunião de toda a Direção, para dar mais detalhes da situação do clube, e solicitar a todos os elementos da Direção, uma maior entre ajuda dos elementos, em consideração à situação que o clube passava. Porque na verdade o clube não tinha uma direção, tinha um grupo da direção, porque naquela farta lista de 20 nomes, geralmente 5 ou 6 trabalhavam realmente, realçando imenso aqui, o trabalho árduo de Toni Resende como Tesoureiro. A verdade também, é de que, muitos dos que aceitavam entrar para as listas de Corpos Gerentes, na verdade, não tinham intenção de realmente colaborar com o clube, mas sim, arranjar uma montra, na qual pudessem ser vistos como dirigentes associativistas, ou então, entrar de graça nos jogos de futebol, sem ter que pagar o bilhete. Mas isso prevalece até hoje! Com Hernâni a comandar a equipa, o Nespereira teve uma fase muito boa, em que conseguiu três vitórias consecutivas, marcando 11 golos, e sofrendo 3. Dessa sequência de três jogos, o mais marcante foi sem dúvida, a deslocação a Alvite. Era impossível tentar contornar este jogo que foi o exemplo da garra nespereirense e do valor existente na nossa terra. O Nespereira necessitava de ganhar o jogo com o Alvite para confirmar a manutenção tranquila do Clube, acabando por ser um jogo extremamente heróico da parte dos nossos jogadores. Em pleno Fevereiro friorento, o Nespereira deslocou– se à Alvite, em Moimenta da Beira. Antes de sair, há dois pormenores que não me esqueço...primeiro, o massagista Armindo Ramalho faltou e fomos para Alvite, só com o saco de massagista. O segundo, foi a reclamação de Sérgio Silva que queixava-se de que lhe doía imenso o nariz, naquela manhã. O Alvite estava praticamente condenado à descida de divisão e tinha perdido por 4-0 em Nespereira. O frio intenso que se sentia, mais levava os adeptos a se aconchegarem perto de um bidão com fogueira criada pelos próprios adeptos. O Nespereira apresentou a seguinte equipa: Jorge Ramalho; Rui Teles, China, Hernâni, Quim; Sérgio, Paulo Sérgio, Paulo Monteiro, Vítor Andrade, Carlitos; Mainça. O Nespereira pressionou no 1º tempo o Alvite, chegando ao golo, através de uma grande penalidade transformada por Paulo Monteiro. Ao intervalo, o Nespereira ganhava por 0-1. Após isto, o árbitro resolveu tornar– se a figura do jogo. Primeiro, Sérgio Silva é acertado com uma bola no nariz e começa a deitar sangue. O árbitro, deixa Sérgio Silva ser assistido fora de linhas de campo, mas logo a seguir, mostra o cartão amarelo– neste caso, o seu segundo– a Sérgio, expulsando-o, e alegando de que Sérgio estaria dentro do campo a ser assistido. O Alvite num lance de cabeça ganha uma bola e marca o empate. O Nespereira corre atrás do prejuízo, mas logo a seguir, uma bola disputada entre o adversário e Paulo Sérgio, o árbitro nada marca, e acaba por expulsar Paulo Sérgio alegando de que este o teria insultado. 2 minutos depois, o assistente chama o árbitro, e este por sua indicação expulsa Vítor Andrade, que perseguiu o árbitro em fúria reclamando com ele. Com 8 jogadores em campo, o Nespereira agora só poderia defender… mas mesmo assim, num lance entre Hernâni e outro jogador, Hernâni faz falta e o árbitro– para variar!- mostra o segundo amarelo a Hernâni, que também é expulso. A confusão acaba por ser geral...Hernâni era o capitão, Vítor Andrade que era o vice-capitão já tinha sido expulso, e ele não sabia a quem entregar a braçadeira, tendo Jorge Ramalho pego na mesma e assumido essa função. Hernâni ainda tentou se dirigir para o 33


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA banco de suplentes, mas o árbitro não autorizou, e no banco de suplentes, apenas se encontrava eu, na função de delegado. Já com Isaías e Júlio em campo, o Nespereira defendia, defendia… até que numa sobra de bola perto da nossa grande área, China, lança Mainça, que em corrida consegue controlar a bola, passa por dois adversários e o guarda redes e marca o golo que nos deu a vitória, e imortalizando estes jogadores que com apenas 7 conseguiram vencer 10. No final, esta vitória soube tão bem, que todos festejamos como se tivessemos ganho um campeonato. Eu ainda acabei sendo expulso mesmo depois do jogo, por ter ido cumprimentar o árbitro e lhe ter dito: - Parabéns...bonita palhaçada que aqui fez!- dizendo depois ele para mim, que eu estava expulso. Refleti sobre a situação, e quando fui buscar as fichas de jogo, pedi desculpas pela minha atitude, retirando ele assim essa minha expulsão, que nem foi referenciada no relatório de jogo. Depois disso, passamos por uma crise de resultados, marcando muito poucos golos, e também indo visitar Calde, onde reencontramos o mesmo árbitro de Alvite, e com o Calde a vencer por 1-0, com um fato muito interessante a acontecer. Após o jogo, Vítor Andrade encontra no chão, o distintivo da AF Viseu, geralmente utilizado pelos árbitros, e pegou-o na intenção de da-lo novamente ao respetivo árbitro. Só que aí, o árbitro deu conta de ter perdido o distintivo e foi procura-lo, até que o público caldense começou a dizer que era Vítor Andrade que estava com o objeto procurado. Quando Vítor se dirigia para o árbitro para lhe entregar o distintivo, este expulsa Vítor Andrade, mesmo depois do jogo terminar, sem este ter feito nada. Este ato foi tão irritante, que Hernâni Andrade ainda ligou para a AF Viseu para tentar liberar Vítor, mas foi infrutifero. Até, nessa altura, a AF Viseu estava fazendo uma vistoria aos campos de futebol, e no dia que resolveram vir aqui, que era o Secretário Geral, Carlos Silva, este foi bombardeado por Hernâni Andrade, que desabafou tudo acerca da situação ridicula de Calde. E também tivemos dois “derbys” bastante marcantes: primeiro, o Souselo nos visitou. E aí, o Nespereira até entrou melhor, e no final da 1ª parte ganhava por 1-0, com um golo fantástico de Pepe. Na segunda parte, Jorge Ramalho lesiona-se, mas mesmo assim continuou jogando, e sofreu quatro golos, acabando pelo Nespereira perder assim em casa, para o Souselo. O outro, foi o último jogo da jornada, que era o Nespereira vs Fornelos. Ainda me lembrando do tal pevidoso irritante do primeiro jogo, resolvi jogar nos “bastidores” também! Na altura, apenas era permitido no “banco” um treinador credenciado, dois delegados e um massagista. Então descobri, que no Ac. Fornelos, o treinador não era credenciado, e o massagista ia como delegado, junto com o irritante pevidoso. Calei-me na altura, mas preparei a vingança. No dia do jogo, já com as fichas de jogo prontas, o Ac. Fornelos apresentou as fichas de jogo conforme eu esperava, e então, foi a vez de eu entregar as fichas de jogo, e aí, levando o Regulamento das Provas da AF Viseu, eu avisei o árbitro, que havia uma irregularidade nas fichas de jogo do Ac. Fornelos, e mostrei-lhe o regulamento, e então o árbitro reconhecendo a irregularidade chamou o dito delegado do Fornelos, e o irritante chato, vendo que iria ter que fazer novas fichas de jogo, ainda tentou vir com falinhas mansas para mim, argumentando: - Vá lá... deixe isso passar! O rapaz que é massagista, mal sabe ler! Ele não é nada! Só que cortei-lhe rispidamente: - Não adianta! É uma irregularidade! O Sr. Árbitro é que sabe! 34


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA O árbitro não cedeu, e acabou exigindo que o Fornelos fizesse novas fichas de jogo e retirasse um dos elementos do banco,tendo decidido que o massagista ficaria de fora, com o delegado do Fornelos a insultar-me do lado de fora. Muitos poderão considerar esta minha atitude de mesquinhez perante a situação, mas não foi! Apenas retribuímos aos outros aquilo que eles nos dão! Do meu ponto de vista, a pessoa foi arrogante, pretensiosa e merecia uma pequenina vingança pela figura patética que fez na primeira volta, em Fornelos com o presidente Isidro Semblano. O jogo foi duro como sempre, mas muito disputado...casa cheia, sempre a puxarem pelas suas equipas, um excelente ambiente! Até que Carlitos fez o 1-0 ainda na 1ª parte, e aí o público de Fornelos começa a perder as estribeiras com o árbitro...verdade seja dita, que o árbitro também era muito inseguro, e às vezes trapalhão. Mas, o delegado do Fornelos, não cansava de se aproximar do nosso banco, e insultar o auxiliar do nosso lado, chegando mesmo a me fazer intervir por duas vezes, pedindo para ele voltar para o banco de suplentes dele. Perto do final do jogo, o árbitro marca uma grande penalidade a favor do Nespereira, e, assim Paulo Sérgio converte-o, aumentando a vantagem do Nespereira. No final do jogo, o público de Fornelos em fúria, invadiu o Campo do Olival, e dirigiram-se ao árbitro, com todos os jogadores, de Fornelos e do Nespereira a tentarem acalmar os ânimos de um público enfurecido, que queria claramente bater no árbitro. No meio da situação, recordo-me do Hernâni segurar um senhor já de certa idade que ia levando um cajado, e ameaçava que ia dar com o cajado no árbitro, tendo-se conseguido acalmar o senhor. Nesse ano, o Nespereira terminou em 5º lugar, com a sensação de que poderia ter feito melhor campeonato nessa época. Nessa mesma época, vou falar aqui em traços gerais, da primeira e única-pelo menos até agora- equipa de futsal feminino que existiu no concelho de Cinfães. Os treinos eram, geralmente, aos sábados de tarde, quando não havia jogo. Pois muitas das nossas jogadoras estavam estudando ou trabalhando fora. O campeonato era curtinho, pois apenas tinha 5 equipas a disputa-lo: nós, Cabanitos (Carregal do Sal), Piaget (Viseu), U. Estação (S. Pedro do Sul) e AFS Viseu. Relembro-me perfeitamente, da necessidade que tive de recorrer ao Rui Semblano, para lhe pedir que patrocinasse o equipamento, o que ele não negou, e até mandou faze-lo de maneira muito bonita. Nós começamos bem o campeonato, goleando o Cabanitos em casa, e indo ganhar a Viseu, com o Piaget, após termos chegado ao local do encontro, e os árbitros terem faltado ao jogo, que era numa sexta-feira à noite. Então, entre os delegados das duas equipas sortearam-se dois elementos do público, que foram os escolhidos para arbitrarem o jogo. Ganhamos calmamente o jogo. Depois, na terceira jornada recebíamos o U. Estação. Jogo este que nunca mais esquecerei para o resto da minha vida, pois considero que neste jogo perdi o campeonato! E ali com o selecionador do futebol feminino a assistir! Jogando tão bem, rapidamente, ainda na primeira parte, estávamos ganhando por 3-0, quando o meu excesso de confiança, num resultado folgado, me fez cair no erro de desvalorizar a equipa adversária, e comecei a rodar as jogadoras. A situação mais engraçada para mim, foi uma finta que a Célia faz, em que ela para a bola em frente à jogadora, que atentamente fica esperando o movimento da Célia, e esta começa a dançar em frente da bola, com a adversária ficando admirada com o movimento, com a Célia a passar pela adversária. Mas de engraçado o 35


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA jogo só teve isto. Porque, no momento em que, a Ana Maria tentou aliviar a bola, e esta saiu meio enroscada na direção da nossa própria baliza, traindo Bete, e fazendo o primeiro golo das “miúdas” dos U. Estação, o jogo mudou de tal forma, de figura, que eu até nem reconhecia a equipa. Em poucos minutos estávamos perdendo por 3-4. Fomos para o intervalo perdendo, e fiquei pior na segunda parte, quando sofremos mais dois golos, e desperdiçamos três livres através da Cristiana. Eu me lembro, que fiquei tão chocado, no terceiro livre, que cai de joelhos no chão. Foi um jogo que tudo correu mal! Perdemos a liderança, e não sabíamos que ali perdemos o campeonato. Depois na outra saída fomos a Viseu, jogar contra o AFS Viseu, onde jogava a atual guarda redes da Seleção Nacional de Futebol Feminino: Neide Simões- só que naquela altura ela ocupava a posição de pivô e era uma desconhecida. Para começar, naquele dia, era aniversário do Sr. Armando Soares, em Vila Nova de Gaia, e o Rancho tradicionalmente se deslocava à sua casa para participar, o que nos fez alguns desfalques na equipa. O grupo era de 14, e ali só se encontravam 9. Resolvi castigar neste jogo a Ondina, devido à uma atitude que ela teve com o árbitro, no jogo passado, em que quando ele lhe mostrou o cartão amarelo, ela estendeu a mão, como se estivesse ameaçando que lhe iria bater. Eu não gostei de tal atitude, e então optei por deixa-la no banco, nesse jogo. O jogo começou muito mal, e as garotas pareciam que estavam perdidas no jogo. Rapidamente estávamos perdendo por 4-0. Então chamei a Ondina, e só lhe disse assim: - Entra e destrói tudo! Substitui a Paula Simões pela Ondina, e logo após termos sofrido o quarto golo, na saída do meio-campo, Ondina pega na bola passa pelas adversárias todas, e marca um golaço. Chegamos ao intervalo a perder por 4-3. Mas logo no ínicio da segunda parte, Cristiana marcou o empate. Mas, o AFS Viseu conseguir marcar um golo bastante duvidoso, que me pareceu ter entrado pela rede lateral, mas que acabei não discutindo. Cristiana e Ondina conseguiram dar a volta por cima, e puseram o jogo em 6-5, que vencemos com muita garra. Depois disso, fomos a Carregal do Sal, onde goleamos 11-1 os Cabanitos, ressalta-se aqui a paragem em Viseu, para jantarmos por conta do clube, onde por indicação do Sr. Nelson Valente, e por incentivo do Sr. Fernando Tavares que nos acompanhou, fomos jantar picanha na brasa com feijão preto, o que deu uma conta gigantesca, que depois me valeu uma chamada de atenção do Hernâni Andrade, por causa deste jantar. Após este jogo, recebemos o Piaget e ganhamos, e depois...íamos para a decisão do título contra o Unidos da Estação, em S.Pedro do Sul. Este jogo, eu sabia que iria ser muito complicado! Pois necessitávamos de vencer este jogo, e esperar que o U. Estação perdesse um ponto no jogo seguinte. Chegamos cedo à S.Pedro do Sul, na carrinha da Paróquia, que ia conduzida pelo Fernando Tavares, e então, num ambiente calmo lá fomos nos distraindo como podíamos, apesar de eu estar muito nervoso com aquele jogo. Uma coisa boa de se realçar neste jogo, foi a quantidade de adeptos nespereirenses que se deslocaram até S. Pedro do Sul para apoiar a equipa. Viam-se faixas, bandeiras, cachecóis do Nespereira no lado direito da bancada, de quem está no terreno de jogo. Os adeptos do U. Estação também vieram em peso, munidos de bombos, tambores, fazendo uma enorme festa. O jogo começou e atrás do nosso banco de suplentes encontrava-se a claque sampedrense, que ensurdecia-nos com os seus bombos. Eu ia ficando sem voz, pois cada vez que eu 36


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA precisava intervir, necessitava de gritar muito alto, para as jogadoras me ouvirem. Reparei desde cedo que a Ondina estava muito nervosa, e que cada vez que eu chamava por ela, para lhe dar qualquer indicação, ela fazia de conta que não ouvia. Então, ainda na primeira parte resolvi tira-la para pôr a Paula Simões. Ondina era uma jogadora muito evoluída tecnicamente e muito forte, só que o que tinha destes atributos, também o tinha de indisciplinada e explosiva. Fomos para o intervalo perdendo por 1-0. Então voltei a meter a Ondina na equipa! O Nespereira parecia estar mais ofensivo, e o público nespereirense se entusiasmava e incentivava as miúdas, até que num contra-ataque nosso, Ondina se isola, e uma adversária agarra Ondina fazendo-a cair. O árbitro marca penalty, e já levava o cartão vermelho na mão...só que Ondina explode, e levantando-se, reage com um murro na adversária, valendo às duas adversárias a expulsão. Fui buscar a Ondina no portão, e acompanhei-a até à porta do nosso balneário, ignorando os insultos a ela. Só que não consegui ignorar depois o que vi!!! A voltar, vi o meu irmão, Xyko, sendo agredido por uma multidão em fúria, e gravei a cara de um dos agressores-um que tinha vindo por trás e acertado um soco por trás no Xyko. Obviamente, os adeptos nespereirenses defenderam a sua honra, e vi o Sr. Joaquim Teixeira, fiel seguidor da equipa feminina, juntamente com sua esposa, assim como o Sr. Tonecas Teixeira, e sua esposa, defenderem o Xyko, de ser atirado da bancada abaixo. Aqui, eu perdi toda e qualquer razão! Perdi a cabeça, e apesar dos apelos da Maria João, da Célia e da Isaura-esta última ainda me agarrou e tentou evitar que eu saísse do “banco”. Atravessei o balneário das adversárias, e com aquele rosto do agressor gravado na minha mente, subi na bancada, e quando lá cheguei as coisas já estavam acalmando, só que acabei por reacender a situação, porque fui ter com o agressor e acabei por responder-lhe na mesma moeda. A confusão reinstalou-se...lembro-me de ver o Pedro Semblano, de braços no ar, pedindo calma, mas sempre a dar uns pontapézinhos matreiros por baixo, do Carlitos, agarrar num dos adeptos do Unidos, que estava tentando rasgar uma faixa nossa, e atira-lo uns degraus abaixo. O árbitro parou o jogo, ficou assistindo a situação, enquanto a GNR pedia reforços para o gimnodesportivo de S.Pedro do Sul. Sai dali graças a intervenção do Vilarinho, Rui Teles e de um amigo que o Rui tinha levado para dormir em sua casa, no fim de semana, que me empurraram para fora da bancada, levando-me até a porta da entrada para os balneários. Mesmo assim, ainda fui provocado por um “miúdo” que dizia: - Vamos partir os dentes ao bacano! Irritado, e vendo que o que o miúdo queria era dar nas vistas, empunhei a minha mão e somente lhe respondi: - Passa aquela porta ali sozinho para ver o que te acontece!- e então passei a porta, sem que aquele adolescente me persiguisse e voltei ao “banco” de suplentes. O jogo recomeçou após esta confusão, mas ficamos mais frágeis, e, ainda por cima, o árbitro, por indicação do cronometrista, que tinha sido “envenenado” pelo dirigente do Unidos da Estação, acabou por me expulsar do banco, alegando que eu tin há feito gestos menos próprios para o público, gerando em mim uma revolta sem precedentes, que me fez perder a cabeça com o cronometrista, que cheguei a ameaça-lo! Afinal ali era o jogo do tudo ou nada! Para mim aquele era o jogo da minha vida! O Nespereira foi-se abaixo, e acabamos por perder por 8-5, e chegou no final, senti uma imensa tristeza, quando o árbitro apitou, e até hoje é a imagem que não me sai da cabeça. Isaura caiu de joelhos no chão chorando, Paula Costa olhava para cima entristecida, Cristiana 37


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA cumprimentava as adversárias palidamente, Maria João também estava muito cabisbaixa, enquanto a equipa da casa festejava a vitória do campeonato. Os adeptos nespereirenses aplaudiram muito as nossas jogadoras. Entretanto, eu estava na porta do nosso balneário, acompanhado de Ondina, que chorava convulsivamente, e de um guarda que estava ali para nos proteger. Entretanto, virei-me para a Ondina e disse-lhe: - Vai lá cumprimentar as adversárias, e dar-lhe os parabéns.- embora até mesmo eu, não tivesse vontade nenhuma de ter aquela atitude de cortesia! Mas sabia que a equipa dos Unidos não tinha qualquer culpa na situação que se passou...até ao momento! Quando Ondina estende a mão para uma das adversárias e lhe dá os parabéns, a resposta dela foi iniciada por um insulto: - Achas que vou te apertar a mão?- e acabou agredindo a Ondina, que ficou a sangrar do nariz. E isto tudo, nas barbas do guarda, e de mim. Eu, indignado voltei-me para o guarda e perguntei-lhe: - Isto não é flagrante de uma agressão? Ele virou-se para mim e disse: - Eu não vi nada! Então aí fui tomado por uma revolta tremenda que me acabou por ter uma atitude menos bonita com a adversária que agrediu a Ondina, reacendendo novamente a confusão na entrada do balneário, com a Teresa e a Marcela a me empurrarem para dentro do balneário. Lá, somente queria me sentar, e não falar com ninguém! Até que a GNR trouxe os adeptos de Nespereira para os nossos balneários, e depois disso, saímos escoltados pela GNR, até às nossas viaturas, debaixo de ameaças, insultos e tentativas de agressões, de uma multidão enfurecida que nos aguardava do lado de fora do pavilhão. Fomos escoltados pela GNR até ao limite do concelho de S.Pedro do Sul. Entretanto recebi um telefonema da Rádio Lafões, a querer uma breve entrevista sobre o jogo, e a analise que eu fazia do que se passou, a minha revolta era tanta que a minha resposta acabou sendo esta: - Nós pensávamos que estávamos entrando num complexo desportivo, mas depois dei conta que estava num jardim zoológico, porque os adeptos de S. Pedro do Sul parecem todos animais! Esta resposta parece ter sido muito contestada, porque depois disso, o jornalista Eduardo Boloto, me ligou, e comentando a minha entrevista, falou que muitos sampedrenses criticaram esta minha citação, e se indignaram ligando para a Rádio. Só que, como há os que não gostam, também há os que gostam! E o dirigente do Carvalhais e do Santacruzense- ambos rivais dos clubes da sede do concelho- também me ligaram para me incentivar. Só que naquele momento, não havia nada que me incentivasse!Tinha eu uma tristeza tal, porque ali foi como se tivesse ido abaixo três anos de trabalho- e às tantas até foi ali! Nunca consegui culpar as jogadoras pelo sucedido, mas culpo-me sim, dessa derrota do campeonato. Não sei se foi por inexperiência, se foi por incompetência...só sei que perdemos o campeonato, e essa derrota está-me entalada para sempre na garganta. Muitos, após lerem isto, devem estar comentando: “Olha...os culpados são sempre os mesmos, o Ercílio e a Ondina!” Sinceramente, pela confusão, não sinto qualquer culpa, porque sempre ouvi dizer que “quem não se sente, não é filho de boa gente”, e relembrando uma conversa que o Rui Teles teve 38


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA uma vez com o Paulo Rodrigues, quando este se mostrou com vontade de ser presidente do Nespereira- mas muito antes de sê-lo!- em que Rui explicava ao Paulo, que se nos roubam, geralmente roubam-nos sem nós vermos! Mas no futebol não, no futebol roubam-nos de forma descarada! É como se alguém metesse a mão no nosso bolso, e tirasse o dinheiro, o telemóvel tudo pela nossa frente, e ainda sorri para nós. Então, não guardo qualquer culpa nesse sentido, porque, acho que defendi a camisola do meu clube, e nunca fui mercenário, nunca cobrei nada ao Nespereira. Estava lá porque gostava! E eu sempre tentei priorizar a união da equipa! Defendia- e defendo- o clube, acima de tudo! O único sentimento de culpa que tenho, é a de não conseguirmos vencer o campeonato, e aí sim, podem me culpar pelo não-sucesso no campeonato! Porque para mim ficar em 2º lugar ou em último é a mesma coisa, porque quer dizer que não ganhamos. A minha expulsão em São Pedro do Sul valeu-me um processo disciplinar na AF Viseu, que caso fosse considerado culpado, poderia ficar entre 3 a 5 de anos de suspensão , com a Direção na altura, a não demonstrar qualquer interesse em me defender, então eu tomei a iniciativa de rebater aquelas alegações ridículas de que estava sendo acusado no relatório do árbitro, que referia que eu teria “feito gestos provocativos para o público, e ofendido os adeptos”. Sem poder contar com qualquer iniciativa da Direção, resolvi então me defender, recorrendo ao meu Tio António Salazar Galhardo, que fez a minha defesa, e enviou-a para o Conselho de Disciplina, e também para o Conselho de Arbitragem, pedindo um recurso e para podermos expor a defesa, apresentando assim várias testemunhas para minha defesa, que foram o sr. Joaquim Teixeira, o Sr. Tonecas Teixeira e a Ana Maria, vice-capitã da equipa, e se deslocaram a Viseu, para depor em meu favor. No final, acabei por levar apenas 10 dias de suspensão, e ¢27 de multa. O último jogo das “miúdas”, elas recebiam o AFS Viseu. Nesse dia, caso curioso aconteceu! O Sr. Fernando Tavares ficara responsável dos transportes de todas equipas, e naquele dia, marquei com as jogadoras, para estarem presentes no Campo, às 13 horas. Mas, entretanto, com todas as jogadoras de Nespereira, ali presentes, não apareceu ninguém. Então, resolvi ir atrás do Sr. Tavares, na Feira, mas acabei encontrando-o no Restaurante Betenando, comendo. Entrei no restaurante, e perguntei-lhe onde estava o transporte, e ele com aquele ar bem-disposto dele, sempre sorridente, virou-se para mim, e olhou meio surpreso, perguntando-me se naquele dia ia haver jogo. Respondi afirmativamente! Então, ele põe uma das mãos na cabeça, e, lamenta-se comigo, dizendo que esquecera de solicitar a carrinha para o padre. Obviamente, a minha reação foi de surpresa, e alguma vontade de discutir o tema, mas o à-vontade do Sr. Fernando Tavares, não o permitia, porque aquele jeito bem-disposto dele, desestimula qualquer discussão mais acesa. Então ouvi a proposta de solução que ele me apresentou, que seria de as jogadoras que tivessem carro, levassem-no para Cinfães. Não havendo solução, então segui a sugestão dele, e quando cheguei para as jogadoras propondo isso, elas obviamente torceram o nariz, e passei por ser eu o irresponsável da situação, e tendo que ouvir reclamações sobre desgaste de carros, combustível, etc. Então, como era o último jogo convoquei todas as raparigas, inclusive a Ondina(castigada). Mas mesmo assim, iria sobrar uma! Então tive que tomar uma decisão... uma das duas teria que ficar de fora, ou Lurdes ou Dulce. Questão que se tornou polémica! Optei por deixar de fora a Lurdes, porque esta foi a mais jogo que Dulce,Lurdes tinha mais minutos de jogo. Então por isso, foi a minha opção! Mas, uma parte da equipa não aceitou muito bem a minha 39


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA decisão, e recordo-me de ouvir alguns comentários algo desagradáveis da parte de algumas jogadoras, o que me entristeceu muito. Para piorar a situação, ainda aparece o Sr. Fernando Tavares, que entrou pelo pequeno gabinete que eu utilizava no Pavilhão Armando Costa, a reclamar para mim, que devia ter posto a Lurdes na Ficha de Jogo, e que era para eu corrigir, senão ele não iria para o “banco” como delegado ao jogo. Irritado, mas respeitando o Sr. Tavares, não gostei daquela atitude, e acabei por desabafar: - Desculpe Sr. Tavares! Mas a decisão é minha! Quem as treina sou eu! Quem é que gasta os sábados todos a treina-las? Sou eu! Quem é que as acompanhou nestes últimos três anos? Sou eu! Então o treinador sou e... e eu é que decido! Quanto ao fato do senhor ser delegado, vem aí o Cláudio, o Rui e o Sr. Isidro, qualquer um deles pode ser delegado.- terminando assim a conversa. Apesar de não gostar do que ouviu, o Sr. Tavares acabou sendo o delegado ao jogo, pois eu estava castigado naquela altura. Surgiu então, nos balneários, o presidente do Nespereira FC, Isidro Semblano, já claramente debilitado, que fez questão de dirigir algumas palavras de agradecimento às “miúdas” e até de incentivo para a próxima época. Nesse jogo, chegamos a estar a vencer por 3-0, e acabamos por deixar fugir a vitória, com um empate a 3 golos.

Aqui terminou a minha carreira de treinador da equipa feminina, que afirmo que gostei imenso, mas que considero que não estive à altura das jogadoras que tinha no plantel. Embora considero que a equipa nunca foi bem uma equipa no coletivo, pois dependia imenso das individualidades de todas. O meu ponto de vista é de aquela equipa jogava uma espécie de futebol sul-americano, dependente da técnica de cada uma. Comparando com a campeã, 40


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Unidos da Estação, acho que a campeã era mais coletiva, sabia circular a bola melhor entre elas, enquanto nós não sabíamos fazer muito isso. Ainda, fomos convidados para um torneio quadrangular, em Moimenta da Serra, em Gouveia, para jogarmos um torneio entre as campeãs da AF Guarda, AF Vila Real, AF Aveiro e AF Viseu. Já com as relações entre mim e a Direção, meio tremidas, recordo-me que, grande parte das jogadoras não puderam ir ao jogo em Moimenta da Serra, e acabei por chamar outras jogadoras que não estavam inscritas, mas que treinavam connosco: Eduarda, Liliana, Tânia Sofia e Patrícia Andrade. Nós não tínhamos carrinha para ir, valendo-nos em parte, a boa vontade do futuro marido de Bete, que levou uma parte das “miúdas”, e o Nuno Cardoso, que na altura, trabalhava numa auto-escola, e então, pedi-lhe para ele me emprestar a carrinha que utilizava. Nuno ainda titubeou, mas perguntando-me quem ia conduzir, eu respondi-lhe que era o Paulo “Moleza” Soares, que tinha carta de condução. Ele me indicou onde ia deixar a chave, e muito cedo saímos de Nespereira, em direção à Moimenta da Serra. Paramos em Viseu, onde almoçamos no McDonalds, e depois fomos para o nosso destino. Lá chegando, perdemos os dois jogos, e acabamos em 4º lugar. No regresso, com a história de deixar cada rapariga em sua casa, acabamos por chegar muito tarde, e lembro, que estando a chegar em Carvalhais, Patrícia Andrade recebeu uma chamada de seu tio, Joaquim Andrade, mais conhecido por “Cambão”, e este ameaçou-me pelo telefone, porque já era meia-noite, e a sua sobrinha era muito nova para estar acordada aquela hora. Passando a Cruz, perto da casa do casal Resende, uma moto veio na nossa direção, e depois, ele parou a carrinha, e eu muito rapidamente tranquei a porta, esquecendo de fechar a janela, e entre as ameaças e reclamações, Joaquim ainda agarrou no meu braço, e com força, quase me deslocava o braço, reclamando da tardia vinda de sua sobrinha. Outro motivo de orgulho que guardo, é a convocação de Cristiana Teixeira, para um estágio da Seleção Nacional Sub-18, indicado pelo selecionador da AF Viseu. Foi a primeira- e primeiro também- atleta do Nespereira Futebol Clube a ser convocada para a Seleção Nacional. Na altura de um curso de Dirigentes de Futebol, que realizamos eu e o presidente do Nespereira FC, em Viseu, falamos com o selecionador de Viseu, sobre a equipa feminina, na qual ele mesmo elogiou, que o Nespereira tinha uma excelente equipa, mas que apenas poderia aproveitar três jogadoras dali, por causa da idade (Ondina, Dulce e Cristiana), por serem sub-18. Conversa puxa conversa, ele demonstrou muita admiração pela Cristiana, e aí eu falei-lhe na Ondina também, pois junto com a Cristiana, elas eram as melhores marcadoras da equipa. Só que a sua resposta foi de que, Ondina nunca seria convocada por ser muito inidsciplinada, e não ter gostado da sua atitude no jogo do Nespereira FC vs Unidos Estação. Aqui terminou a história de uma equipa feminina, que durante 3 anos, conseguiram fazer 26 jogos, angariaram 19 vitórias, 1 empate e 6 derrotas. Marcaram ainda 125 golos e sofreram 61. Estas jogadoras, que fizeram parte deste projeto foram: Nome

Morada

Nº de jogos/ golos

Maria Elisabete Lopes Rodrigues

Lourosa

25/1

Eduarda Isabel da Silva Monteiro

Cale- Souselo

1/0

Maria João Monteiro Tavares

Fundo de Vila

19/ 2

Marcela Mendes de Almeida

Pereira

13/0

41


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

Teresa Manuela Silva Duarte

Azibozo

14/0

Isaura Manuela Fonseca Cardoso

Pedra Afurada- S. Cristovão

20/6

Ana Sofia Andrade Teles

Barroco da Feira

6/0

Cristiana Maria Noronha Teixeira

Feira

19/54

Ana Maria Ferreira Gonçalves

Vila Chã

22/10

Paula Cristina Silva Simões

Tarouquela

21/19

Paula Cristina Pinto da Costa

Oliveira do Douro

9/5

Célia Cristina Mendes Fonseca

Sta. Marinha

21/10

Vera Bravo

Travassos

3/0

Vera Pinto

Granja

1/1

Dulce Marlene Ramalho Espincho

Feira Franca

8/0

Elisa Monteiro Tavares

Fundo de Vila

5/1

Maria de Lurdes Leitão Cardoso

Feira Franca

10/0

Liliana Sofia Silva Pereira

Cinfães

1/0

Patrícia

Carvalhais

3/2

Ondina Patrícia Carvalho Rodrigues

Travanca

12/24

Andreia Betânia Carvalho Rodrigues

Travanca

1/1

Carina Rodrigues

Vila Chã

1/0

Sofia Pinto

Vista Alegre

2/0

Marlene Duarte

Fundo de Vila

2/0

Mariline

Vista Alegre

2/0

Tânia Sofia

Feira Franca

1/0

Cláudia Fonseca

Loureiro

1/0

Cláudia Rangel

Vila Chã

1/0

Patrícia Andrade

Souto

1/0

Entretanto, o presidente do Clube, Isidro Semblano ia ficando muito debilitado, e Cláudio Oliveira resolveu organizar um jantar de amigos, do Sr. Isidro Semblano, na Churrasqueira Faria, onde estiveram presentes várias figuras ligadas ao futebol de Cinfães, entidades políticas e outras figuras sociais ligadas a Isidro Semblano. No dia 5 de Agosto de 2003, Nespereira recebe a notícia do falecimento de Isidro Semblano. Foi um momento muito triste para o clube nespereirense! Isidro Semblano, além de ser reconhecido pelos mais antigos como um excelente jogador, um dos históricos jogadores, é reconhecido pelos mais jovens como um excelente orientador, que fez de um grupo de “crianças” que jogavam à bola, jogadores de futebol. Isidro Semblano foi o corajoso homem que em alturas que o Nespereira FC ameaçava entrar numa grave crise, ele agarrou e geriu o clube, chegando a abrir mão da sua vida pessoal, prejudicando a própria família em prol dos interesses do Nespereira FC. Pena é que nós todos não soubemos reconhecer isso, com ele em vida, e acabamos por ser egoístas, quase que pressionando e nos dirigirmos a ele, como se a gestão do clube fosse uma obrigação sua. O velório de Isidro Semblano realizou-se em sua casa, na Feira Franca, junto de sua família, e presentes estiveram todas as entidades a que Isidro Semblano esteve ligado. A bandeira do Nespereira FC esteve junto a ele, e uma camisola do Nespereira FC foi posta junto de si, para o acompanhar e quem sabe, até, nos iluminar nas decisões que tomamos. A equipa de 42


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Veteranos do Nespereira FC decidiu que a partir daí, o nº 10, jamais seria utilizado pela equipa veterana, em respeito ao líder que desaparecia naquele momento. O desaparecimento de Isidro Semblano fechou um ciclo no Nespereira FC, de estabilidade, de credibilidade, de influência. Isidro Semblano era o único elemento nespereirense conhecido pela parte admnistrativa da AF Viseu, na altura. Com a morte dele, a estrutura diretiva do Nespereira ficou ligeiramente abalada, com Hernâni Andrade a assumir essa responsabilidade temporariamente. Nessa altura, começam a aparecer as dividas que o Nespereira FC tinham pendentes, todas registradas em ata, o que tornou a situação da sucessão de uma nova direção, numa situação extremamente delicada. Na primeira Assembleia Geral, apresentei uma lista, mas foi reprovada, e então, surgiu uma discussão na Assembleia, se se entregaria as chaves do clube à Junta de Freguesia, ou se, se fazia outra assembléia, esperando o aparecimento da lista. Instigado pelo Prof. Mário Teixeira, Hernâni Andrade aceitou formar uma Comissão Administrativa, para a próxima época 2003/2004, formada por novos elementos, como Prof. Mário Teixeira, Álvaro Pinto, Alberto Bessa e o Prof. Luís Semblano. Na primeira Assembleia, através de uma proposta de Hernâni Andrade e Cláudio Oliveira, decidiu-se homenagear Isidro Semblano, propondo a mudança do nome do Campo do Olival, para Parque de Jogos Isidro Nunes Amaral Semblano, num jogo que iria ser a cerimônia de homenagem. Então, Hernâni Andrade falou comigo, e o jogo seria os veteranos do Nespereira FC contra a primeir a equipa dos juniores de 1993/94, criadas por Isidro Semblano. O jogo realizou-se a 30 de Agosto, com o Campo do Olival cheio, e com a bancada completa com a presença do Presidente da AF Viseu, e do Presidente da Câmara Municipal de Cinfães, Prof. Pereira Pinto.Os veteranos apresentaram este “onze”: Artur; Álvaro, Alfredo, Domingos, Hernâni, Marcos, Paulo Bateira, Júlio Ribeiro, Ricardo, Jorge Pinto (Vítor Andrade), Dinis, , Tonito. Já os Juniores/93, apresentaram o seguinte “onze”: Pedro Bela (Cilo); Nuno Cardoso, Renato, Nuno Carlos (Nuno Fonseca), Bateira, Filipe (China); Pedro Lutero, Luís Semblano, Carlos Pereira (Mainça); Kosta, Mário Nicho. As diferenças físicas eram bastante evidentes, para a equipa de juniores. Todos mais altos, Renato mais largo- que até rasgou a camisola ao vesti-la!- assim como Pedro Lutero e Mário Nicho. Ao intervalo, o resultado era 1-1, com golos de Kosta e Hernâni. Na 2ª parte, a minha entrada para defender a baliza fez os veteranos chutarem mais, e o resultado acabou sendo 5-4, a favor dos veteranos. Esse jogo relembra-me uma situação bem curiosa, que foi a minha entrada no jogo, na 2ª parte. Nunca tendo sido um jogador com capacidade de vingar no meio futebolístico, ainda dava para “remendar” quando havia algumas falhas nas equipas. Como eu, meu pai e minha mãe também sempre tiveram noção disso. Então, no momento em que entrei no jogo, por incrível que pareça, o meu maior adversárioquero dizer adversária!- acabou sendo a minha Mãe, porque quando a bola se aproximava da grande área que eu defendia, ela, no meio do público presente na bancada, levantava-se e começava a gritar na minha direção: - Sai daí Ercílio! És um “frangueiro”!- Parecendo que não, estas palavras se tivessem vindo de outra pessoa, não me afetariam nada, e até-talvez! Dentro das minhas limitações!- me incentivassem a fazer uma boa atuação. Mas, quando elas vem da Mãe, acabam por deitar muito abaixo uma pessoa. Durante aquela segunda parte, foi constante ouvir aquilo de minha Mãe. A tal ponto, que até 43


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA mesmo, os meus colegas de equipa começaram a se irritar, a me perguntar porque ela estaria assim, e eu somente encolhi os ombros, como se não soubesse de nada! A determinada altura, o árbitro, que era o Armindo “Nelito" Semblano assinalou um pênalti a nosso favor. Poderia ser o 4-4. Então, o Mário ‘Nicho” Abrantes e o Nuno Cardoso fizeram-me sinal para ir até a grande área, e o Pedro Lutero veio ter comigo, e disse-me ao pé do ouvido: - Converte a penalidade para mostrar a tua Mãe que não és assim tão mau! Com o apoio dos meus amigos, cheguei perto da grande área, e até senti alguns risinhos cínicos, e ouvi algumas frases de gozo, pelo fato de eu bater a grande penalidade. Olhei para aquela bancada cheia, onde vi a minha Mãe de costas para o campo, e aquele público incrédulo na minha conversão. Respirei fundo, olhei para o Artur- que reparei que estava um pouco descaído para o meu lado direito-, olhei para a bola, e corri em direção à bola, descaindo para o meu lado direito,chutando a bola para o meu lado esquerdo à meia altura. O Artur adivinhou o lado para que chutei, mas a sorte, naquele dia estava do meu lado, porque a bola foi muito junta ao poste, e entrou, sendo este o único golo que marquei pelo Nespereira. Lembro que após isto, o golo foi muito festejado por todos os meus “colegas” de equipa, que fizeram um “montinho” em cima de mim, em frente à bancada. Este episódio pode parecer irrelevante para quem lê, pois não é um episódio propriamente clubistico. Mas para mim, que o escrevo, marcou-me imenso. Após o final do jogo, fomos para a entrada do Campo do Olival, para descerramento de uma placa, e depois dos discursos, Luís Semblano e sua irmã, Sandra Semblano, filhos de Isidro Semblano, descerraram a placa que homenageia e imortaliza uma das figuras mais importantes- senão a mais importante!- da História do Nespereira Futebol Clube, nomeando o Campo do Olival em Parque de Jogos Isidro Nunes do Amaral Semblano, num momento que emocionou imenso todos os presentes. Ainda no Verão de 2003, se iniciaram nas instalações do Nespereira FC, as obras exigidas pela Comissão Técnica da AF Viseu. Mas também começaram uma série de complicações, pois o Nespereira chegou a correr o risco de não poder sequer participar do campeonato, devido à uma divida pendente que o Nespereira FC tinha no Hospital Santo António, devido a uma lesão que Adriano, ex-guarda redes do Nespereira FC, na década de 80/90, contraiu, e depois deixou como se a divida fosse do clube. Esta questão ficou pendente durante muitos anos, chegando a se discutir sobre a idoneidade do próprio Adriano. Mas em cima da hora, o Prof. Luís Semblano, se dirigiu ao Porto, no Hospital, para pagar a respetiva divida, conseguindo pôr o Nespereira FC no campeonato, após a séria ameaça. Para essa época, que se avizinhava, o Nespereira FC perdeu dois importantes jogadores, devido à um conflito de idéias na altura, que foram Carlitos, que se transferiu para o AD Fornelos, e Jorge Ramalho, que foi jogar no GD Resende. Entretanto, Hernâni Andrade e sua Comissão Administrativa escolheu como o técnico do clube, Manuel António. Manuel António, foi um dos maiores ídolos do Nespereira FC, e ficou marcado como um dos melhores marcadores do clube, na década de 70/80. Naquela altura, ele estava treinando as camadas jovens do Beira-Mar, sendo então chamado pela Comissão Administrativa do Nespereira FC. Muito metódico e de fácil trato, Manuel António era um treinador muito habituado a mexer constantemente e um incentivador da imposição jovem em campo, o que fez com que os adeptos nespereirenses estranhassem muito o seu trabalho. 44


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Nesta época, como estava fora da Comissão Administrativa, não acompanhei tanto os jogos do Nespereira, mas recordo-me de dois jogos bastante interessantes naquela temporada. O primeiro foi em Resende, contra o GD Resende, em que Manuel António resolveu apostar em Ricardo “Ervilhais” Pereira para exercer a função de lateral-direito, fazendo uma excelente exibição. Mas nesse jogo, o Nespereira começou a ir para o intervalo perdendo por 1-0. Mas numa segunda parte espetacular, o Nespereira deu a volta ao resultado, indo ganhar por 1-3, em casa do adversário. Mas, no segundo jogo, a história foi completamente ao contrário. Em Nespereira, o Resende começou perdendo por 3-0, indo ganhar por 5-3, o que provocou uma imensa revolta no público presente, e essa mesma revolta acabou sendo transferida para o próprio banco, que assistiu o seu “delegado”, Prof. Luís Semblano, ameaçar agredir o árbitro do jogo, com uma barrigada valente. No final da temporada, Hernâni Andrade demonstrava um nítido desgaste com todas as situações do clube, e assim o “capitão” resolveu dar um término na sua carreira futebolística, despedindo-se assim do Nespereira FC, após mais de três décadas ligado a clube. Hernâni Andrade é um dos símbolos do clube, e após o desaparecimento de Isidro Semblano, a saída de Hernâni Andrade veio a terminar com a gestão desinteressada, apaixonada e vencedora que o Nespereira FC tinha até ali. Para a próxima época (2004/05), por motivos políticos, devido à aproximação das eleições autárquicas, o Prof. Mário Teixeira- na altura presidente da Junta de Freguesia local-, que procurava valorizar os seus companheiros partidários, incentivou o “padeiro” Reinaldo Gonçalves a assumir a presidência do Nespereira FC. Este, com alguma relutância aceitou, mas foi buscar Álvaro Pinto, para seu “vice”, e inseriu Vítor Hugo Pinto como secretário, e Sónia Gonçalves como Tesoureira, regressando eu como segundo-secretário. Reinaldo Gonçalves era um homem de muita boa disposição, mas muito explosivo. Digamos que é um homem que se aconselha a que ninguém lhe pise os calos. Geralmente ninguém sabia quando ele estava bem-humorado ou quando ele era irônico, pois falava sempre naquela voz rouca dele, numa altura terrível...e mesmo quando chamava a atenção, que ele berrava, sempre terminava com um sorriso e rematando com um dizer engraçado. A partir daqui, o Nespereira FC começou a ressentir-se de um certo “mercenarismo” por parte de alguns jogadores, que deixaram de jogar por querer vencer, mas sim, jogavam na esperança de que essa mudança de dirigentes inexperientes, viesse a trazer algum proveito financeiro, visto que os clubes vizinhos estavam quase todos pagando salários altíssimos aos jogadores. Então, alguns dos próprios jogadores da terra, começaram a utilizar um discurso de reclamações, de que não tinham condições para cumprir, de que os outros clubes estavam todos a pagar aos seus jogadores, etc. Criando assim um certo ambiente desconfortável nos balneários. Aqui começa o ínicio da fase mercenária de alguns jogadores no Nespereira, deixando a fase ambiciosa da equipa. Muitos jogadores “atiraram o barro à parede”, tentando se beneficiar financeiramente do clube, mas a direção sempre recusou pagar. Então,esses mesmos jogadores vendo que não teriam esse beneficio, deixaram de jogar para vencer , e passaram a jogar simplesmente porque gostavam de jogar, porque o futebol estava-lhes no sangue! Aquela garra antiga, ambiciosa, lutadora acabara ali, no momento, em que esses jogadores afirmavam-se bons jogadores e tentavam conseguir salários do clube, deixando de ser jogadores para serem mercenários do futebol. 45


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Esta época marca o regresso de Jorge Ramalho e de Carlitos ao Nespereira, que estavam no GD Resende e no AD Fornelos, respetivamente. Manuel António assumiu o cargo de treinador pelo segundo ano consecutivo. O Nespereira deslocou-se a Souselo, para um jogo que marcava o regresso de Paulo Monteiro ao Nespereira, e neste “derby” concelhio, o empate foi o resultado, mas também fica registrado o ambiente quentíssimo que se viveu nas bancadas de Souselo. Com as tradicionais adeptas idosas, e fervorosas, que iam munidas de testos e panelas, fazendo um barulho ensurdecedor, e insultando os jogadores e adeptos nespereirenses a torto e direito, numa determinada altura, Alfredo Ramalho, que se encontrava mais afastado de nós, resolve responder às provocações do público, e então, só vi o guarda-redes do Souselo, Manuel “Bandalho”- que se encontrava lesionado, assistindo o jogo da bancada- atirar-se do cimo da bancada, com o pé em riste, em direção ao Alfredo Ramalho, agredindo o nosso adepto. Após alguma confusão, conseguiu-se tirar o Alfredo, do meio dos adeptos souselenses, e puxou-se para o lado dos adeptos nespereirenses. Mas mesmo assim, o coitado não teve sossego, e durante o jogo inteiro foi insultado constantemente. A determinada altura, ele decide sair do recinto, para ir ao bar beber qualquer coisa, e então, saiu pelo portão tranqüilo...só que voltou alguns minutos depois, com nítidas marcas de agressão, e em jeito meio teatral, agarrou-se às redes, e deixou-se cair no chão, para tentar chamar a atenção das forças policiais que lé estavam presentes, mas de nada adiantou. Naquele jogo, que acabou num empate a 0, os adeptos nespereirenses ainda foram agredidos com pedradas das adeptas souselenses, no final, acertando até a esposa do presidente Reinaldo Gonçalves, inclusive a filha mais nova, que esta levava no colo. Recordo-me que o ínicio da época não foi a melhor o melhor para Manuel António, e no final de um jogo, em que o Nespereira perdeu em casa, Álvaro Pinto criticou fortemente o treinador, e este acabou se demitindo. No jogo seguinte, ainda sem treinador, quem assumiu o cargo interinamente foi Vítor Andrade, no jogo em casa contra o Santacruzense. Mas já na semana seguinte, Reinaldo Gonçalves já tinha encontrado um novo treinador: Joaquim Jorge. Joaquim Jorge foi um jogador moçambicano do Vitória de Guimarães, emprestado pelo FC Porto, na década de 60, que atuava na posição de defesa-central. Estava em Penafiel, e assim, foi contratado para assumir o cargo de treinador. O seu primeiro jogo pelo Nespereira, foi contra o Boassas, no Campo do Facho, em que o Nespereira perdeu 3-0, com o regresso de Rui Teles a titularidade, após 3 épocas sem aparecer como titular. A passagem de Joaquim Jorge não foi das mais felizes, trazendo apenas uma coisa boa, na altura: Helder! Helder era um jogador do Paredes, que estava vindo de uma longa paragem por lesão. Então chegou aquele jogador que Joaquim Jorge definia como “espetacular”. Helder era um médio, muito tímido, ligeiramente gago, e bastante humilde. As suas mãos bastante rudes, todas calejadas, denunciavam a dificuldade de vida que tinha no dia-a-dia, trabalhando na Construção Civil. Nesta altura, o Nespereira atravessava uma péssima fase, estando a lutar pela manutenção na 2ª Divisão Distrital, e atravessando uma crise de resultados, com Joaquim Jorge. A inserção de Helder veio a dar novo alento à equipa. Mas num sábado de tarde, eu, que morava nos Vales, com Patrícia, minha ex-companheira, resolvemos- também incentivados pelo meu irmão- organizar uma pequena festa de noite. Pouco a pouco, foram-se juntando em minha sala, muitas amigas, e na cozinha, à volta da 46


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA lareira, estavam os rapazes- alguns jogadores também- que se divertiam a conversar alegramente, sempre com cerveja ou vinho a acompanhar.Nessa noite, a festa acabou às 7h30 da manhã! No dia seguinte, um domingo, o Nespereira recebia em casa o Arguedeira, e aí, nesse dia, apesar de alguns jogadores estarem ressacados,o Nespereira voltou a fazer uma exibição de luxo, goleando o adversário, por 5-1, num jogo em que o público voltou a despertar ânimo. A posição do Nespereira era delicada na classificação, dependendo do último jogo, a permanência ou não na 2ª Divisão. O último jogo era com o Sernancelhe, em casa, e o Nespereira necessitava ganhar para garantir a permanência, visto que o Arguedeira receberia o Resende, que era o último classificado. Sabiamos que havia muito jogo de bastidores, e que o Arguedeira teria oferecido um prémio ao Sernancelhe para estes vencerem em Nespereira. O jogo foi muito nervoso, e muito disputado, mas os golos não apareciam, e chegou-se ao intervalo com 0-0. Na segunda parte, o Nespereira marcou o 1-0, logo no ínicio da segunda parte, através de Nuno Cardoso. Mas, passados 2 minutos, num livre, o Sernancelhe empata o jogo, e festeja efusivamente o golo. O Nespereira começou a carregar cada vez mais sobre o Sernancelhe, que empatado, se meteu na defesa, inviabilizando todos os ataques, recorrendo muitas vezes às faltas. O público nespereirense começava a ficar nervoso, todo em pé, esperando uma atitude vitoriosa. O jornalista da Rádio Lafões me ligava, e sempre me ia pondo a par dos resultados, inclusive o do Arguedeira, que ganhava. Num determinado lance, Carlitos se dirige a nós, e, perguntou-nos quanto tempo faltava para o final. Hernâni, que assistia ao jogo, ansioso também, respondeu que faltavam 5 minutos. Carlitos, correu para a área adversária, incentivando os jogadores a pressionarem mais. Aos 90’, o Nespereira estava na 3ª Divisão, e para piorar a situação, já em tempo de descontos, Joaquim Jorge resolve tirar Rui Teles, para pôr Paulo Sérgio, passando Helder para lateralesquerdo, revoltando imenso o público presente, e Rui Teles que não entendeu o porque de substituir, estando em desvantagem e quando não havia tempo para queimar. O povo todo apreensivo esperava uma reação, quando o Nespereira ganha um pontapé de canto, e nesse pontapé de canto, aos 95’, Carlitos cabeceia e marca o 2-1, provocando uma explosão de alegria no Isidro Semblano. No final, o Nespereira festejava a permanência na 2ª Divisão. Mas esta época fica marcada pelo processo instaurado ao presidente do Nespereira FC, Reinaldo Gonçalves, pela Justiça e pela AF Viseu, por alegada agressão que o árbitro do jogo Boassas- Nespereira, João Cunha, acusou e se queixou judicialmente, alegando que o presidente o terá abordado na estrada que liga Boassas a Tendais, e aí, o terá agredido, arrastando este processo por mais de um ano. Algum tempo depois, o árbitro João Cunha, foi apanhado num esquema de corrupção, tendo sido pego após um jogo, a receber dinheiro de dirigentes do Sp.Lamego. Foi preso e acusado junto com Fernando Dias, por corrupção, pela Policia Judiciária. A quebra entre Reinaldo Gonçalves e Álvaro Pinto, foi outro dos episódios que marcaram a época desportiva, porque dentro da Comissão Administrativa parecia haver duas facções: a facção de Vila Chã e a facção da Vista Alegre, porque o motivo da discórdia entre os dois, nunca vieram de discussões abertas e claras, mas sim, de comentários “venenosos” que ambos eram vitimas, porque havia gente tendenciosa que ia falar mal de Álvaro Pinto para Reinaldo Gonçalves, e vice-versa, criando uma relação algo “gelada” entre os dois, que nunca 47


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA discutiram. A única coisa que se notou foi o desinteresse repentino de Álvaro Pinto, que deixou de aparecer às reuniões e apenas ia ver os jogos. Reinaldo Gonçalves decidiu formar uma nova lista para a época 2005/06, e assim, apenas substituiu o “vice” Álvaro Pinto por José Ribeiro. Reinaldo Gonçalves era o presidente, mas o seu “guru” realmente, a pessoa que orientava o presidente nas suas ações, mais técnicas, mais a haver com a parte coletiva, era Jorge Ramalho. Jorge Ramalho, desde que chegou ao Nespereira FC, em 2000/01, assumiu-se como uma verdadeira “ponte” entre a equipa e a Direção, após o falecimento de Isidro Semblano. De todos os jogadores, ele sempre foi o mais interessado nas questões administrativas, e ajudando a procurar soluções que pudessem vir também de dentro do clube. Reinaldo Gonçalves e a Direção decidiu então voltar a chamar para assumir o cargo de treinador, Mouta Pinto. Era a segunda vez que Mouta Pinto assumia o cargo de treinador. Helder resolveu ficar no Nespereira, e uma das minhas lutas pessoais, como dirigente confirmou-se: a contratação de Marco “Jardel” Montenegro. Marco Montenegro era um avançado, formado no Cinfães, na “geração de ouro” do Cinfães, que depois jogou no Oliveira do Douro e no Fornelos, que eu estava há vários anos, tentando convence-lo para vir jogar em Nespereira. Nessa época, também com a ajuda de Mouta Pinto, ele acedeu e foi inscrito como jogador do Nespereira. Uma das primeiras atitudes da Direção, foi um pouco pessoal...Reinaldo Gonçalves e José Ribeiro incitaram a que a primeira coisa que se fizesse fosse a mudança das fechaduras das portas do clube, pois eles afirmavam que haveria um certo abuso da parte do Rancho, na utilização do Salão do Nespereira FC, acabando mesmo por mudar as fechaduras. Outra decisão polémica foi deviso uma carta que o sócio Cláudio Oliveira, mandou dirigida ao clube, e que o presidente ficou visivelmente irritado, e convocou extraordinariamente uma reunião da direção, para discutir uma possível interdição de Cláudio Oliveira às instalações do clube, e uma extinção de Cláudio Oliveira como sócio do clube. Recordo-me que discutimos imensamente esta decisão, e consegui fazer que a direção visse que essa medida poderia ser, além de polémica, seria inconstitucional, e contra os estatutos do clube, acabando por ser uma medida que não foi para a frente, apesar da insistência de Reinaldo Gonçalves e Fausto Coelho. Reinaldo Gonçalves tentou reavivar as relações entre o Boavista FC e o Nespereira FC, mas após uma reunião no Estádio do Bessa, a inércia do Boavista, relativamente aos pedidos que o Nespereira FC tinha, continuaram e nesse momento, percebeu-se que a filiação do Nespereira FC no Boavista, não passava de uma jogada de fachada do Boavista, que não demonstrou interesse algum em ajudar o nosso clube. A Direção deslocou-se várias vezes à cidade do Porto, para angariar fundos para a publicidade. Eu acompanhei o Presidente Reinaldo Gonçalves e Fausto Coelho, por duas vezes ao Porto. Numa dessas idas ao Porto, para angariar fundos, saímos no ínicio da tarde, após ao almoço. Aí, após uma tarde de angariação, por muitas lojas e empresas de nespereirenses radicados na cidade tripeira, o presidente, portista aferroado lembrou-se de que naquela quarta-feira, de que o FC Porto jogava em casa, para a Liga dos Campeões, contra o Internazionale de Milão, e então, muito persuasivo, ele convenceu um sportinguista-eu!- e um benfiquista- Fausto Coelho a irmos ver o jogo. Sentamos perto da claque dos Super Dragões, na cabeceira, e aí assistimos o FC Porto vencer por 2-0, o Inter de Milão. 48


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

Nessa época, Mouta Pinto resolveu chamar seu irmão, Agostinho Mouta Pinto- que também já fora jogador do Nespereira, na “era Isidro Semblano”- para auxilia-lo como treinador-adjunto. Mouta Pinto foi o implementador do celebre “grito de guerra”, que a equipa solta, antes dos jogos, dentro dos balneários: “Quem tem tesão, tesão, tesão? Nespereira!Nespereira!Nespereira!” O primeiro jogo do Nespereira foi em casa, contra a equipa que, na época anterior, tinha sido campeã da 3ª Divisão, o Parada de Ester, e tem uma forte ligação afetiva com o Nespereira, após 10 anos que os dois clubes não se encontravam em competições oficiais. O jogo começou muito mal, com o Nespereira chegando ao intervalo, reduzido a 10, por expulsão de Marco Montenegro, e com o treinador-adjunto expulso também, e a perder por 20. Na segunda parte, o Nespereira caiu em cima dos adversários de Parada, e acabou empatando o jogo a 2 golos, com tentos de Carlitos e Jorginho. Semanas depois, o Nespereira deslocou-se a Souselo. Nesse jogo em Souselo, ambas as equipas pareciam empenhadas no ataque, mas de repente num ataque do Souselo, o “capitão” Nuno Cardoso lembra-se de dar um chutão para aliviar a bola da sua área, e esse pontapé acabou indo na direção da baliza do Souselo, e o guarda-redes do Souselo, Manuel “Bandalho” acaba por permitir um grande “frango”, deixando a bola entrar facilmente, surpreendendo até Nuno Cardoso. O Souselo viu-se obrigado a pressionar, e assim abriu mais espaços, e num rápido contra-ataque, Carlitos fez o 2-0, com que o Nespereira chegou ao intervalo. Na segunda parte nada mudou, e o Nespereira acabou por vencer este “derby”, mas mesmo perto do final, o árbitro demonstrou muita coragem, onde num lance fortuito, o guarda-redes de Souselo, resolve agredir Bateira, e, após algum empurra-empurra, o árbitro expulsou o jogador souselense, que como é habitual nele, resolveu dar o seu “show” de agressividade, tendo que, três jogadores do Souselo leva-lo para os balneários. Esta época ficou marcada pelas grandes goleadas que o Nespereira dava em casa (5-1 ao Vilamaiorense, 4-1 ao Boassas, 4-1 ao Sernancelhe, 5-2 ao Sul), mas também por alguns maus resultados bastante exagerados (6-0 em Parada e 6-1 em S. João Pesqueira). O Nespereira só foi vencido em casa contra o Souselo. Um jogo bastante expressivo do poderio nespereirense, em casa, foi quando o Nespereira recebeu o líder invencível Carvalhais. Vinha um Carvalhais confiante, quase com a subida 49


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA assegurada. Nós procurávamos os quatro pontos que nos faltavam para assegurar a manutenção. Quando me encontrei com o árbitro à porta de seu balneário para entregar as fichas de jogo e receber as instruções, já aí não me agradou o seu discurso “ditatorial” e a extrema confiança do assistente de que tudo no jogo iria correr bem! Iria! Se esse mesmo assistente não fizesse uma linda asneira logo aos 51 segundos de jogo… marcou uma grande penalidade contra o Nespereira! Alegou que na cobertura de uma bola Ricardo Valente terá lhe dado com a mão. O Carvalhais marca o 0-1. O Nespereira foi correr atrás do prejuízo e num livre de Nuno Cardoso, marca o empate, dedicando o golo ao colega injustiçado: Ricardo Valente. O jogo começa a ficar nervoso, e do “banco” vem as primeiras reações, com o árbitro expulsando Mouta Pinto e o seu irmão, por alegada ofensa. Mas ainda na primeira parte, o Carvalhais marcou num livre à entrada da área o 1-2. Volta outra vez o Nespereira a correr, e num lance fortuito Paulo Sérgio marca o empate. Empate esse que prevaleceria até ao intervalo. Ao intervalo, o Presidente do Nespereira, Reinaldo Gonçalves e o “vice” José Ribeiro, resolvem tirar algumas satisfações com o árbitro, acabando ambos por serem reconhecidos pelas autoridades policiais conforme o árbitro ordenou. Após o intervalo, o Nespereira voltou com vontade de ganhar, pressionando o Carvalhais, que apenas tentava jogar no contra ataque. De repente, sem quaisquer motivos, o árbitro resolve expulsar o treinador do Nespereira e seu adjunto. O clima fica quente no Olival! Os adeptos nespereirenses extasiados, gritavam, torciam e festejavam, até que um jogador do Carvalhais, fez este comentário: “Isto é mesmo um inferno!” E de repente, surge quem para resolver a situação? O “Mágico”! Pepe num remate sem hipótese, tira da sua cartola, um golo que valeu três pontos ao Nespereira, mais o fim da invencibilidade do Carvalhais. O Ferreira de Aves também visitou o Nespereira, e necessitava de vencer em Nespereira, para continuar na corrida à subida de divisão. Uma derrota do Ferreira de Aves, em Nespereira, arredava o Ferreira de Aves da subida. E, num jogo bastante chato, o Nespereira beneficia de um livre, e aí, Nuno Cardoso marcou o 1-0, resultado que terminou com os sonhos do Ferreira de Aves. Esta foi também, a última vez, que o Nespereira venceu o Ferreira de Aves. Desde essa época, o Nespereira só perdeu ou empatou com esta equipa de Satão. Outro jogo bastante expressivo, foi a deslocação ao Vilamaiorense. Um jogo que tiveram 7 golos! O Nespereira esteve ganhando por 2-0, com golos de Jorginho e Paulo Monteiro, mas o Vilamaiorense chegou a estar a ganhar por 3-2. A reação nespereirense veio de um livre de Nuno Cardoso, que empatou. E, já perto do final, Marco Montenegro dá vitória por 4-3 ao Nespereira. Nesta época (2005/06), o Nespereira acabou em 5º lugar, com Jorginho a ser o melhor marcador da equipa, com 12 golos marcados. Reinaldo Gonçalves decide então não continuar na presidência do Nespereira FC. Durante aquele período de interregno, Ricardo Teles assume-se como um dos instigadores à candidatura de Álvaro Pinto à presidência do Nespereira FC, mas este hesita, e numa noite, em que por acaso vou passando em frente ao Café Soares, já tarde da noite, encontro o Sr. Toni Resende e o Sr. Álvaro Pinto, encostados na porta conversando sobre o futebol. Lá, Toni Resende me parou, e me perguntou se eu ajudava, caso eles decidissem fazer uma lista para a 50


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Direção. Eu não hesitei, e tendo em conta a estima que tenho pelo Sr. Toni Resende e pelo Sr. Álvaro Pinto, prometi ajuda-los em tudo. Obviamente, que depois vim a saber, através de um elemento da Direção, que o Sr. Ricardo Teles não me queria diretamente naquele setor, por achar que eu era polémico demais, e armava confusão demais, e estrategicamente, remeteram-me para secretário do Conselho Fiscal. A Secretária da Direção foi a Ana Sofia Teles, que exerceu essa função com muito primor, podendo eu mesmo dizer, que foi a melhor secretária da Direção, que o Nespereira FC teve. Responsável, consciente, cumpridora dos compromissos, ela não falhava. Então, baseado naquela antiga idéia do jornal sobre o campeonato, propus a possibilidade de reavivar este pequeno folhetim, que nomeei de “A Bola do Ardena”. O sr. Álvaro aceitou e deu força ao projeto, assim como o Sr. Toni Resende.

51


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

O “Bola do Ardena” era trabalhado no mesmo dia de domingo. Eu chegava no domingo, do jogo, esperava a ligação da Rádio Lafões,que me dava os resultados todos, depois começava a fazer os textos, e inseria-os num programa para fazer o jornal. Após a edição, eu imprimia um exemplar, que na manhã seguinte seria fotocopiado na Junta de Freguesia, quando o Daniel Vilarinho ainda trabalhava lá. A nova Direção do Nespereira FC, para a época 2006/07, ficou marcada pelo regresso de António Salazar Galhardo ao clube, mas desta vez, como Presidente da Assembleia Geral; Mário Abrantes, que após vários anos encantando e sendo considerado como uma promessa do futebol, assumiu o cargo de secretário da Assembleia Geral; e de António Pedro Galhardo, ex-jogador na década de 80, que assumiu o cargo de Presidente do Conselho Fiscal. Nesta época, várias foram as mudanças que AF Viseu implementou nas competições. Após o boato que lançaram sobre a extinção da 3ª Divisão Distrital, no fundo, a única coisa que aconteceu foi a modificação dos nomes das Divisões. A antiga 1ª Divisão passou-se a chamar Divisão de Honra; a antiga 2ª Divisão passou- se a chamar 1ª Divisão; e a antiga 3ª Divisão passou-se a chamar 2ª Divisão. A partir daqui, todos os clubes que se inscreviam na AF Viseu, são obrigados a competir também na Taça Sócios de Mérito, tendo calhado ao Nespereira, o Resende, como adversário. Esta época marcou também o regresso de uma equipa de juniores ao Nespereira, sendo orientada por Sérgio Silva e Nuno Cardoso. 52


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Outra das grandes marcas desta época foi a contratação de Hugo Maciel (ex- Fornelos), que por afinidade, assinou pelo Nespereira FC, após uma discordância com a direção do Fornelos, devido à contratação que o Fornelos fez, do polémico guarda-redes souselense, Manuel “Bandalho”. A Direção optou por escolher para treinador, um homem que já passara pelo Nespereira, oriundo de Castelo de Paiva, António Lopes. António Lopes foi treinador do Nespereira nas décadas de 80 e ínicio da década de 90, e trouxe consigo dessa vez, Pedro Alves, como seu adjunto. Mas António Lopes veio a pegar um Nespereira completamente diferente daquele que orientou há anos atrás. Com uma equipa mais técnica, não tão forte fisicamente, António Lopes parece ter favorecido a força, surpreendendo todos os adeptos, deixando Jorginho e Paulo Monteiro no “banco”, e inserindo André “Comotutepões” no onze-base. A equipa, desde cedo não concordou com as opções do treinador, e, o lateral-direito João Paulo foi o primeiro a demonstrar o seu desagrado, no jogo da Taça, contra o Resende, chegando no final do jogo, e dizendo para alguns dirigentes e jogadores, que não apareceria mais, se o Lopes fosse treinador. Lopes continuou a fazer as suas opções, mas os resultados não apareciam. A própria equipa criticava, e o próprio treinador começou a sentir uma certa insegurança. Os números também não favoreciam. Em 6 jogos oficiais, o Nespereira já tinha sido eliminado da Taça, estava em 8º lugar, com apenas 1 vitória (contra o Armamar, um dos candidatos à descida de divisão),e dois empates- ainda por cima, em casa-, e duas derrotas. Álvaro Pinto e Ricardo Teles foram muito pressionados pela equipa, que através do sub capitão Sérgio Silva, veio a convocar uma reunião com o presidente, para pedir a demissão do treinador António Lopes, considerando que a equipa não confiava no trabalho dele. Era a 6ª jornada do campeonato, e o Nespereira iria receber o Sul (último classificado). Álvaro Pinto, pediu para o treinador vir mais cedo ao Parque de Jogos Isidro Nunes do Amaral Semblano, e assim o presidente comunicou-lhe que após o jogo daquele domingo ele seria demitido. Então, visivelmente abatido, António Lopes fez a sua escolha do “onze”, fez a sua palestra, e depois na hora do “grito de guerra”, até foi o Nuno Cardoso, que usou da palavra, e disse para se ganhar o jogo, para dedica-lo ao treinador. Apesar de não ter sido um jogo bonito, na segunda parte, o Nespereira mostrou todo o seu saber, marcando 4 golos sem resposta, golos esses de Paulo Sérgio (2), Nuno Cardoso e Pepe. No final do jogo, António Lopes saiu visivelmente emocionado, e despediu-se tristemente dos seus jogadores e dirigentes do Nespereira. Mouta Pinto foi a opção para substituir António Lopes, e no treino de terça-feira, em jeito de surpresa, Mouta Pinto entrou pela porta dos balneários, provocando uma onda de felicidade entre os jogadores nespereirenses. O primeiro teste que Mouta Pinto teve foi em Alvite. Na noite anterior a ida para Alvite, inaugurava em Nespereira, um pequeno espaço, estilo bar, chamado “Santa Sede”, propriedade de Filipe Pereira- atualmente padre- e de Sara Sousa. Todos quiseram participar nessa inauguração, e por isso foram vistos muitos jogadores lá até tarde da noite, alguns até de madrugada. Mas no dia seguinte, todos estavam preparados para irem a Alvite, e então, num dia muito chuvoso e frio no alto da serra, o Nespereira não poderia ter começado melhor. Aos 50 segundos de jogo, o Nespereira marcou o 0-1, através de Pepe, que isolado na cara do 53


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA guardião adversário não perdoou. Após isto, o Nespereira começou a se retrair, e chegou a deixar o Alvite contra atacar perigosamente. Tanto foi, que aos 31’, num isolamento perante Hugo Maciel, o jogador alvitense fez como Pepe, e não perdoou, empatando o jogo. Até ao intervalo, o empate prevaleceu. Após o intervalo, a equipa voltou a entrar com outras ganas e pareceu mais segura e mais objectivas, também nos faltando um pouco de sorte. Estava precisamente o presidente a dizer isto, e Paulo Sérgio tenta um remate de fora da área– que nos parecia ir acabar ao lado da baliza– até que uma poça de água “trava” a bola e Carlitos, que foi o único a acreditar correu em sua direcção e bateu sem dificuldade o guarda redes da casa. Volta o Nespereira a estar em vantagem no marcador.1-2. A partir daí o Alvite caiu completamente e só conseguiu atacar esporadicamente duas vezes, sem perigo para a nossa baliza. O Nespereira controlava o jogo calmamente, até que num pontapé de canto Pepe– sim, o Pepe!- ganha uma bola de cabeça ao guarda redes e marca o 13. Como de costume, em Alvite, no final do jogo, a direção do Alvite fez um pequeno convívio, assando umas barrigas de porco e umas febras, recebendo muito bem os adversários. Um jogo para recordar, foi o “derby” com o Fornelos. A Direção do Fornelos apregoava aos quatro ventos, que iria lutar pela subida, que tinha uma equipa excelente, que tinha um treinador fantástico, que eu, a determinada altura, em tom irônico, numa pequena nota, no “Bola do Ardena” referi-me ao Fornelos, como o “Chelsea”. Os diretores do Fornelos levaram aquilo como provocação, e num jogo completamente cheio, a rebentar pelas costuras, de público, fizeram questão de sublinhar isso. Um excelente dia para se jogar futebol, já se a sentir o frio do Inverno a chegar, mas muito ensolarado. O Nespereira vinha de uma série de quatro jogos sem perder, enquanto o Fornelos vinha de uma série de seis jogos sem vencer, sendo a sua última vitória em Outubro. As alterações de Mouta Pinto foi a inclusão de Carlitos, no lugar de Bateira, e o “regressado” João Paulo, no lugar de Rui Teles. O Nespereira começou bem o “derby”, podendo marcar muito cedo por Carlitos que se isolou perante Manuel “Bandalho”, mas… não conseguindo bater o guarda redes. Mas num pontapé de canto de Hélder, surge o 1-0, pelo “Mágico”. Pepe, concretizou de forma excelente o cruzamento. E minutos depois, de forma quase igual mas a passe de Jorginho, cabeceou de forma mortal, aumentando a sua conta e a do Nespereira. 2-0. Foi pena é que apenas durou um minuto… logo a seguir, o Fornelos marca o 2-1 numa desmarcação, em que os jogadores do Nespereira ficaram a pedir fora de jogo. Nada de mais até ao intervalo. Ao intervalo, um dirigente do Fornelos, resolve insultar os dirigentes do Nespereira, especialmente a mim, e acusar-nos de manipulação de resultados,até que cheguei a um ponto de desgaste, e acabei respondendo-lhe: - Não fui eu que fui fotografado a almoçar com o árbitro, perto de Resende!- fotografia essa, que tenho até hoje, e que consegui através de um jogador do Resende, que era meu colega, e suspeitou da movimentação. Obviamente a discussão aumentou de tom, mas mesmo assim, não me coibi das minhas convicções, perante o pevidoso de boné. Após o intervalo, o Nespereira parece ter adormecido e parecia contentar– se em gerir a magra vantagem. Permitiram muitos espaços pelas linhas, aos jogadores adversários, acabando o Fornelos por empatar, provocando uma enorme euforia– algo demasiada- nos 54


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA adeptos, já em tempo de desconto. Durante os festejos do golo do empate do Fornelos, o guarda-redes do Fornelos, resolve se dirigir para a frente da bancada nespereirense, e de forma grotesca, baixa os calções, põe as mãos dentro da sua roupa intima, como se pusesse a mão nos testículos, e a provocar o público nespereirense que ficou revoltado e indignado com semelhante atitude. No final do jogo, Jorge Ramalho, com seu estilo muito calmo, mas olhar fixado em Manuel “Bandalho”, entregou as luvas à Pereira- que na altura jogava no Fornelos-, e este, conhecendo bem Jorge Ramalho, ainda tentou segurar-lhe o braço, e falar com ele, mas o silêncio e o olhar de Jorge denunciava tudo. E aquela determinação era mortal! Na entrada do túnel, lembro-me que Jorge dirigiu-se a Manuel “Bandalho”, e mandou-lhe semelhante soco, que o corajoso brutamontes do guarda-redes do Fornelos, que metia medo a todo mundo, caiu pelas escadas abaixo inconsciente, como se fosse uma flor. Nessa situação, um jogador do Fornelos começa a correr em direção à Jorge, mas Vilarinho rapidamente intervém, e aí começou uma cena de pancadaria sem precedentes, com muitos empurrões, muitos socos, muita confusão nas entradas dos balneários, com Hugo Maciel a arrastar Vilarinho do meio da confusão. O pevidoso de boné gritava disparatadamente, chamando-nos de “palhaços” e “anormais”, e quando o cerco apertou para o lado dele, cobardemente ele recuou e se fechou no balneário. O Presidente Álvaro Pinto e o vice-presidente Ricardo Teles, também mostraram a sua indignação à Direção do Fornelos, mas ajudaram os dois jogadores que estavam sendo alvo de ameaça pelo público nespereirense, a saírem dali do Parque de Jogos Isidro Semblano, sem sofrerem qualquer agressão. Foi necessário a GNR, entrar com o jipe, com a traseira encostada na entrada do túnel, por onde saíram os dois jogadores provocadores da situação conflituosa (Manuel “Bandalho” e Vivas), que foram agredidos verbalmente, de forma gratuita pelos adeptos nespereirenses presentes. O público se aglomerou na saída do túnel e na saída do Parque de Jogos, revoltado e claramente indignado.

55


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

Não sei se será assim, mas ao Nespereira este empate deve ter sabido tão a derrota, quanto ao Fornelos soube à vitória. Outro dos jogos memoráveis daquela época, foi o jogo em casa do Parada. O Parada ocupava a segunda posição, e levava a fama de ser uma equipa bastante difícil de se bater em casa. Mouta Pinto até fez uma promessa. Caso o Nespereira não perdesse em Parada, ele faria francesinhas para todo o plantel. Todos sabiam que seria um jogo difícil. O Parada aposta na subida e a perda de pontos nesta altura dificultava– lhe a vida. Mas… deu uma ligeira impressão de que os jogadores do Parada, estavam à espera de um Nespereira que apenas fosse marcar presença. O inicio não podia ter sido pior para os visitantes. Logo, aos 15’ já estavam a ganhar por 2-0. O povo de Parada já virava as costas ao jogo e contava com mais uma vitória caseira. Mas, quando a esmola é demais… Nuno Cardoso resolveu começar a demonstrar a garra de Nespereira. Aos 26’, de livre, Nuno Cardoso bate Loureiro, num dos seus melhores livres batidos, reduzindo o resultado para 2-1. O Parada ficou um pouco perdido, e o Nespereira começou a pressionar cada vez mais forte, até que no minuto 31, num cruzamento da direita, a bola passa por toda a defesa do Parada, e sobra nos pés de Jorginho, que sem piedade empatou o jogo. Ao intervalo, o próprio presidente do Parada, afirmava “não estar à espera deste resultado!”. Na segunda parte, o Nespereira ganhou por completo o meio campo do Parada, não os deixando fazer o seu jogo. Sérgio Silva, Hélder e Paulo Monteiro foram essenciais na manutenção da posse de bola do Nespereira. Jorginho e Pepe, foram dois perigos apontados à baliza adversária. No final, o presidente do Parada, naquela altura, o empresário hoteleiro Urbano, ficou furioso com a prestação da sua equipa, chamando imensamente a atenção ao treinador, na saída do jogo. Já a equipa de Mouta Pinto, sorria de alegria pelo ponto conquistado, após estar 56


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA perdendo por 2-0. Outro jogo memorável foi a deslocação à São João da Pesqueira. O S. J. Pesqueira liderava o campeonato, era uma equipa considerada bastante difícil, devido aos seus jogadores Jóia e Semedo. No dia anterior, o bar Santa Sede esteve lotado, e alguns jogadores estiveram presentes até perto das 5 horas da manhã, ajudando até os donos do estabelecimento. 7 horas da manhã, com um frio tremendo, começou-se a aglomerar os convocados para a deslocação à São João da Pesqueira, inclusive os quatro juniores chamados: Itália, Jorge “Picheleiro” Castro, Marcelo e Diogo. O Nespereira encontrava-se com uma lista muito extensa de impossibilitados, como André, Vilarinho, Caritos e João Paulo, que estavam suspensos; Ricardo Pereira, Rui Teles, Paulo Sérgio e Bruno Daniel, lesionados, mas estes últimos dois, acompanharam a equipa, para fazer número; e Bateira e Fábio, que não puderam estar presentes devido a motivos pessoais. Mouta Pinto teve alguma dificuldade em montar a equipa, tendo que recorrer ao guarda-redes suplente, Jorge Ramalho, para ocupar a posição de lateral-direito. Chegando em São João da Pesqueira, Paulo Sérgio deu conta que não tinha levado o cartão da AF Viseu, que tinha pedido para entrar de graça num jogo na semana anterior, e não tinha com ele o Bilhete de Identidade, obrigando-me assim, a falar com o árbitro Adelino Duarte, para pedir uma tolerância, e preenchi as fichas de jogo, e aí, desloquei-me para o quartel de bombeiros de S.J. Pesqueira, onde liguei para a Mariana, mulher de Paulo Sérgio, e pedi-lhe se ela me enviava um fax com a fotocópia do BI de Paulo Sérgio. Muito solicita, Mariana atendeu e deslocou-se ao quartel dos BV de Nespereira, enviando a fotocópia do documento para mim. Numa correria sem precedentes, fui quase em cima da hora da chamada, entregar o fax para o árbitro, e assim arranjar maneira de Paulo Sérgio poder nos acompanhar para o banco. Quando o Nespereira chegou ao Campo Municipal, após o almoço, pensou que não haveria jogo, derivado ao denso nevoeiro que existia na altura. Mas, bastaram cerca de vinte minutos para o nevoeiro se dissipar, e haver condições para haver jogo. A equipa da casa dominou o jogo desde ínicio, com as constantes tentativas de desmarcação de Jóia, mas que Jorge Ramalho aniquilou bem. Sérgio Duarte também se realçou ao demonstrar ser um central muito certinho, sem tendência para inventar em zonas perigosas. E ao minuto 28, o Nespereira marca o 0-1. Pepe, quase sem ângulo , remata, Carlos Oliveira não consegue evitar, e no segundo poste surge Jorginho que mete a bola dentro da baliza. Era a euforia no banco do Nespereira, e a ira dos adeptos pesqueirenses contra a sua equipa. O Nespereira conseguiu chegar ao intervalo a vencer. Na segunda parte, o Pesqueira, apertou no acelerador , mas não conseguia passar por uma defesa de betão, que ao mínimo remate, este só encontrava pernas, ou Hugo Maciel– com duas excelentes intervenções! Jorginho ainda teve, isolado, a hipótese de matar o jogo, mas exagerou nas fintas, acabando por ser desarmado já na pequena área. O S.J. Pesqueira atingiu o golo, ao minuto 83, numa desmarcação, que apanhou toda a defesa desprevenida. O Nespereira jogou semanas depois com o Fornelos, no Campo do Cruzeiro. Jogo esperado com muita expectativa, devido aos acontecimentos da primeira volta. O jogo começou num ambiente algo tenso… o Ac. Fornelos, pressionava imenso, mas logo no primeiro ataque nespereirense Carlitos, de maneira mortífera, marcou o 0-1. O Nespereira, depois recuou um bocadinho, e perdia muitas bolas divididas no meio campo. Obviamente, o árbitro, também ajudava!!! Até que, num lance Márcio deixa fugir Sergito, que fez o empate 57


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA para o Fornelos! O Fornelos apertou ainda mais, e quando tentávamos atacar, ou se era travado em falta e não marcava, ou em foras de jogo muito duvidosos… Pouco depois, Sérgio Duarte deixa escapar Xano, que faz um centro rasteiro para Celso, que pôs o Fornelos em vantagem…2-1. Até ao intervalo, o árbitro fez vista grossa a duas grandes penalidades nítidas: uma Pedro Camelo, mete a mão à bola, dentro da grande área, outra foi uma falta a meio metro do árbitro, sobre Márcio, que foi autenticamente ceifado. Ao intervalo, é nítido que o Nespereira jogava contra 14. Se assim já era mau, então ficou pior na 2.ª parte… quando o bandeirinha, instigado por um adepto– e até talvez intimidado pelas suas muletas!- chama o árbitro, e este expulsa directamente Nuno Cardoso, sem este ter feito nada. Minutos depois, num rápido contra ataque, Celso marca o 3-1. E o Nespereira passou por um período meio perdido, e valeu– nos as grandes defesas– aliás enormes!!!- de Hugo Maciel. No final do jogo, após o apito do árbitro, o Nespereira ia para descer, quando havia uma pequena conversa entre o nosso guarda redes suplente e o guarda redes do Ac. Fornelos. Mas, surge sempre alguém a tentar inflamar, como foi o caso de um jogador magrinho do Fornelos…que atualmente até é Presidente da Junta de Freguesia de Fornelos. Após isto, algumas trocas de palavras, até amenas, como entre eu e o “capitão” do Fornelos– Fernando– em que até sou obrigado a concordar com ele, que teria nos dado uma lição… mas se nós não fossemos “roubados” pela arbitragem. Essa foi a minha resposta! A descer para os balneários, há sempre alguém, que resolve “borrar a pintura”, como foi o caso do Presidente (????) do Ac. Fornelos, ao insultar o nosso presidente… O seu filho Vítor Hugo doeu– se obviamente, e irritado, ainda foi preciso puxa– lo para os balneários...mas nesse instante, o guarda presente, puxa do cacetete e não fosse o seu colega a ordenar para o guardar, teríamos tido uma tragédia. Já a descer, de novo para os balneários, há um cobarde– que não encontro outra palavra para definir alguém assim– que da janela dos balneários, começa a atirar água contra os nossos jogadores. Após isso, tudo voltou à normalidade, e viemos embora. Ao intervalo, fui insultado constantemente por um adepto, que se encontrava de muletas, mas que resolvi não responder no momento, escolhendo apenas responder posteriormente através de uma crônica sobre o jogo. Crónica essa que inflamou uma acesa discussão, que depois acabou tornando-se pessoal. Em que, o dito adepto de muletas do Fornelos- que nomeei de “entulho”!- insultou a minha família, e, eu obviamente não admiti tal situação, e resolvi responder. Nessa situação, Carlos Lento resolveu contra-atacar, e começou a tentar me atacar de maneira pessoal, na qual eu não me intimidei,e acabei utilizando as mesmas armas que ele, e acabamos por trocar algumas palavras mais azedas pela internet. Essa situação se arrastou, talvez por dois, três meses, porque recordo-me de um dia estar trabalhando no bar Santa Sede,e de repente, aparece-me o filho do dito adepto, Helder “Postiga” Lento, que veio tirar satisfações comigo, devido à crônica, na qual ele queria exigir que eu pedisse desculpa publicamente pelo que disse do pai dele. Mas obviamente, eu neguei, e disse-lhe: “Se o teu pai vier pedir desculpas a minha Mãe, posso até pensar nessa situação!Mas quem começou com isso, foi o teu pai!”, terminando aqui a conversa com Helder. Na semana seguinte, o Nespereira recebeu o Parada. Sob um calor intenso, o jogo continha todos os ingredientes para ser uma magnifica partida: duas grandes equipas, mais um 58


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA excelente árbitro, e a possibilidade do Parada sair do Olival campeão, dependendo do resultado do São João da Pesqueira. O jogo iniciou com a defesa do Nespereira um pouco perdida, e o Parada a atacar de maneira organizada e venenosa. E foi num lance assim, que um nespereirense de seu nome Vítor Andrade teve um surto de inspiração, e após tirar um defesa do seu caminho, rematou sem hipótese para Hugo Maciel. Vítor ainda correu, mas foi logo abraçado pelos seus companheiros. Após ter se livrado de seus companheiros, este juntou as duas mãos e, como em sinal de desculpa, ergue– as ao público que aplaudiu a sua atitude. Até ao final da primeira parte, o jogo parecia que iria continuar não muito favorável a nós… Mas, na segunda parte, o Nespereira voltou a aparecer “à Nespereira” e pressionou mais o Parada, que agora só jogava no contra ataque. Contra ataque este que proporcionou uma grande penalidade a favor do Parada, mas que Hugo Maciel defendeu de forma espectacular. Quanto mais o tempo passava, mais os nervos iam ficando em franja, e vimos o nosso treinador expulso, e logo de seguida, Carlitos que recebe o segundo amarelo. Num lance de bola parada, já em tempo de desconto, Fábio num lance confuso, introduz a bola na baliza do Parada, e acaba com a festa antecipada dos adeptos de Parada de Ester, empatando o jogo a 1-1. No final da época, o Nespereira atingiu o 6º lugar, e Pepe foi o melhor marcador da época, com 16 golos marcados, em apenas uma época.

Na sequência desta época, a Direção de Álvaro Pinto resolveu dar continuidade ao seu trabalho. Esta época demonstrou o tato que Álvaro Pinto, tem para gestão, conjuntamente com o Tesoureiro, Toni Resende, fazendo um excelente trabalho financeiro, em prol do patrimônio clubistico. 59


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA O único defeito que, em minha opinião, Álvaro Pinto tinha, era o fato, de como trabalha com muitos clientes, ouvia muitas opiniões, e por vezes, deixava-se influenciar por opiniões completamente venenosas e tendenciosas, que poderiam prejudicar o ambiente de trabalho. Também conheci o mau humor de Álvaro Pinto! Quando o jogo corria bem, ele lá demonstrava o seu sorriso, e ouvia os comentários alegremente. Mas quando o jogo corria mal, logo na segunda-feira, ele “descarregava” toda a sua ira em mim e no Toni Resende. Aquele senhor grisalho, começava a falar dentro do balcão, olhando de lado, e depois vinha sentar-se na mesa, enumerando falhas e a sua opinião, que sempre respeitei. Com ele, aprendi a ouvir e calar, porque não havia maneira de contra-argumentar, além de que era muito teimoso e forte nas suas opiniões. O bom disto, é que após o descarregamento da sua ira, ele esquecia completamente o assunto, e voltava à boa disposição facilmente. Mas quando tinha que dar uns puxões de orelhas, ele dava sem piedade! Já Toni Resende, era de uma paz tranquilissima. Sentava-se na mesa do café, fumando o seu cigarro, e apenas ouvindo as conversas entre eu e Álvaro Pinto, e somente intervinha quando achava necessário. Mostra uma sabedoria sem igual, e uma sensibilidade fantástica. Muito responsável, é um exemplo vivo de responsabilidade no cumprimento das suas funções. Mas aconteceram-me duas situações, que me deixaram completamente de rastos, nesta Direção. A primeira foi o Torneio do Nespereira FC. Tive a idéia de propor ao presidente, a realização de um torneio pelo clube, a fim de podermos ver alguns jogadores que pudessem vir a fazer parte do plantel nespereirense. Sim. Foi concordado! Organizou-se, fez-se tudo certinho, mas da Direção, apenas apareciam o presidente e o tesoureiro para ver os jogos, mas ninguém da Direção para ajudar, tendo que recorrer ao Nelo “Puck” e ao Rique, para me arbitrarem os jogos. A primeira fase correu tranquilamente, mas a coisa azedou foi na meia-final. Era um jogo entre o Construções do Ardena e Travanca, e o jogo acabou empatado. Eram os pênaltis! Rique, que estava arbitrando o jogo, não sabia que no regulamento, a decisão por grandes penalidades, eram de apenas 3, e não 5. Ao final de 3 penalidades, o Construções do Ardena ganhava o jogo. As penalidades continuaram. Só que o Construções do Ardena perdeu as duas últimas grandes penalidades, e o Travanca não desperdiçou, ganhando. Na minha distração, para ser sincero, nem me recordava do regulamento...até que surge Domingos, com o regulamento e alega essa alínea, tendo eu que concordar com o que estava escrito, e coube-me a mim informar a equipa de Travanca, que ficou muito revoltada com a situação, me insultou, me ameaçou, mas fui firme e dei a final ao Construções do Ardena. Só que os jogadores de Travanca ameaçavam que iriam aparecer no dia da final, para disputar o jogo. No domingo, que estava marcada a final, nem apareceu o Construções do Ardena, com medo de haver algum confronto, nem apareceu o Travanca, que apenas me ligou o presidente do AD Travanca, que me ameaçou e me insultou do piorio. E, no final, quando foi para receberem os troféus, a equipa da Churrasqueira Faria recusou-se a receber o troféu, o que me provocou uma ira enorme naquela altura, que fui obrigado a conter, porque senti naquela situação toda um fracasso tremendo, mais meu, do que do clube, porque o clube apenas deu o nome, e ficou com o dinheiro das inscrições. Esta situação me desapontou tremendamente, e me recordo, que o Pedro Lutero ainda foi dos poucos que se dignou a falar comigo da situação, pedindo desculpa, e só me recordo que lhe disse: - Vocês fizeram isso, porque era eu que estava à frente...se fosse outro vocês não o fariam!60


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA acabando por descarregar a fúria, num simples jogador do Churrasqueira Faria. Esta foi a minha primeira tristeza! A minha segunda, foi num dia que eu entrei no Café Soares, e Ricardo Teles me diz que na próxima época não era para fazer mais o “Bola do Ardena”, em formato papel, e então, eu admirado olhei para Álvaro Pinto, esperando uma reação, mas que ele nem esboçou, remetendo-se ao silêncio, acabando assim o jornal que informava a população nespereirense, dos resultados do Nespereira. Naquele final de Verão, resolvi ir para França trabalhar, num emprego sazonal que durou 5 semanas, mas que me fizeram chegar aqui já com o campeonato a rolar. Mas, disto não me esqueço, que após mais de 24 horas de viagem, de França para Portugal, cheguei a Nespereira num sábado, na hora do almoço mais ou menos, e não encontrei a minha Mãe, em casa, quando a vizinha me disse que ela tinha ido para o “Campo da Bola”, porque era o almoço do Lar. Então fui lá ter com ela, e no regresso cruzo com Ricardo Teles, que viu-me e pediu-me para acompanhar a equipa de juniores, que ia ser treinada por Rui Teles e André Pinho. E eu, acabado de vir de uma viagem cansativa, acabado de sair de um autocarro, acabei por me meter no mini-autocarro- que a Direção decidiu comprar ao Ermesinde- para acompanhar a equipa de juniores para jogar em Castro Daire. A partir desse dia, passei sempre a acompanhar a equipa de Rui Teles e de André Pinho, relembrando-me de uma vitória bem suada dos seus pupilos, contra o Paivense. Quando todos olhavam de lado para esta equipa, e comentavam em surdina rebaixando o valor destes jovens, eis que apareceram eles, vindos de uma deslocação à Vila Nova de Paiva, com um 1-0... não contra nós, mas sim a nosso favor. Num jogo, que quem acompanhou- infelizmente, apenas os treinadores, um director e o motorista!viu o esforço da equipa nespereirense para levar de vencida o Paivense. Na primeira parte, Tiago Soares ainda tremeu com uma bola no ferro da sua baliza, mas na segunda parte o Nespereira superiorizou-se- com Gil a ser um autêntico Cristo no meio dos centrais paivenses- e dos pés de Miguel surgiu um golo magnifico de Nuno Rocha, que no meio das duas torres paivenses ganhou a bola e de cabeça marcou o 0-1, ao qual o árbitro anulou alegando fora de jogo de Nuno. Mas, minutos depois, o guarda redes do Paivense entornaria o caldo do jogo, agredindo Gil com um pontapé dentro da grande área, mas com o árbitro, muito atento a marcar grande penalidade. Grande penalidade, marcada por Miguel, que não desperdiçou, e deu o golo ao Nespereira.A partir daí, o Nespereira foi obrigado a recuar e até ao final, conseguiu levar de vencida o Paivense. Naquela época, a opção para orientar os seniores continuou sendo Mouta Pinto, que assim completaria a sua quarta temporada no Nespereira FC. O primeiro jogo que vou recordsar aqui dessa época, foi uma vergonha! Foi o exemplo de roubalheira completa! Num magnifico domingo, o Nespereira recebeu o Ferreira de Aves, um jogo que prometia ser do melhor, derivado às classificações de ambas (4º lugar e 3º lugar, respectivamente). O Nespereira alinhou com o mesmo "onze" de Resende, tendo como novidades a inserção do júnior Tiago Soares e a volta de Carlitos, que se encontravam no banco. O Nespereira começou o jogo muito bem, e sempre a atacar. Jorginho era uma das peças mais acutilantes do ataque nespereirense, apesar de por duas vezes, ter sido autenticamente agredido em frente ao árbitro assistente, e nada ser assinalado. Começou aqui o show da arbitragem! Incrivelmente, o árbitro começa a "amarelar" os jogadores do Nespereira, usando uma dualidade de critérios anormal em jogos de futebol... as faltas eram quase iguais a ambas 61


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA as equipas e o árbitro só puxava de cartão aos jogadores do Nespereira. Mas, voltando ao jogo, ao minuto 23, Jorginho arranca para a linha ganha posição e cruza rasteiro, aparecendo Marcelo no segundo poste, a marcar o 1-0. O Ferreira de Aves começou a apertar, e num remate rasteiro, Jorge Ramalho faz uma fabulosa defesa, desviando a bola para a barra e de seguida evitando a recarga do avançado ferreirense. Ao intervalo o resultado era um 1-0. Após o intervalo, o Nespereira começou da melhor forma, com Bateira a ganhar posição e a marcar um golo de bandeira, que fazia o 2-0. O filme melhorava para o Nespereira, mas iria ser um terror. Minutos após o 2-0, o Ferreira de Aves num livre, cruza para a grande área e no segundo poste aparece o ponta de lança da equipa visitante que marca o 2-1, numa falha de marcação da defesa nespereirense. E voltou o show do árbitro!!! Expulsa o jogador do ferreira de Aves, por alegada falta sobre o guarda redes. O Nespereira tentava gerir o resultado, mas numa infelicidade de Jorge Ramalho o Nespereira sofreu o golo do empate. Um cruzamento rasteiro da esquerda e Jorge enfia a bola na própria baliza. De seguida, o árbitro mostra um cartão vermelho directo à Márcio, sem aparente razão, Márcio ainda encetou uma reação violenta, mas foi travado por Vilarinho e Nuno Cardoso... No momento seguinte, após uma arrancada de Jorginho, este passa pelo adversário, mas é travado em falta dentro da grande área, com o árbitro a não marcar a grande penalidade e a acabar por penalizar Jorginho com um cartão amarelo. O árbitro assistente do lado do Olival- demonstrou ter alguns sinais de esquizofrenia grave!!! Pois já ouvia e sentia coisas que não se passavam!!! Como por exemplo, sentiu alguém a empurra- lo, quando a distância da linha de campo, para a vedação é de cerca de 1,5 m... e depois o pior, veio a chamar o árbitro, e acusou Jorginho- somente o nosso melhor jogador, neste jogo!!!- de o chamar de "maluco",a reacção de Jorginho perante a amostragem do cartão vermelho foi tão emocionante, que provocou a revolta em todos os que estavam no campo. Jorginho, numa atitude de surpresa saiu do campo em lágrimas, tendo sido expulso sem nada ter dito. Nesta altura, o Nespereira jogava mais com o coração do que com a cabeça, e o Ferreira de Aves, marcou o 2-3, naturalmente... No final do jogo, o senhor árbitro Pedro Saraiva, fez uma exibição tecnicamente boa, sendo extremamente má... péssima até, disciplinarmente. Após o jogo, ainda expulsou-me, porque não me consegui conter, e me dirigi a ele, perguntando-lhe quanto é que o Tarouquense teria lhe pago para expulsar os melhores jogadores do Nespereira. No final, o público e jogadores esperavam o árbitro na saída dos balneários, e quando o árbitro esperava uma reação violenta e agressiva, estes começaram a aplaudir a má atuação da arbitragem. Este jogo provocou semelhante indignação nos jogadores e à equipa técnica, que mal a equipa nespereirense se recolheu, esta decidiu, incentivado pelo treinador Mouta Pinto, a fazer uma manifestação de protesto na AF Viseu. Neste momento, comecei a achar que Mouta Pinto, já não se sentia muito à vontade com a Direção, e não se revia na política de gestão de recursos humanos. Álvaro Pinto recusou-se a acompanhar o protesto, e Ricardo Teles não se fez de rogado e decidiu acompanhar o protesto, assim como Toni Resende. O protesto vinha algumas semanas após dois árbitros terem sido detidos, pela Policia Judiciária, a receberem dinheiro de dirigentes do Sp. Lamego. Assim no dia 27 de Novembro de 2007, cerca de duas dezenas de pessoas se dirigiram à Viseu, para protestar contra a vergonhosa arbitragem do Nespereira vs Ferreira de Aves. O Presidente da Junta de Freguesia, Prof. Mário Teixeira acompanhou e assim, entrou numa 62


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA reunião particular que houve entre o Presidente da AF Viseu, Dr. Alberto Ferreira, Prof. Mário Teixeira, Toni Resende e Ricardo Teles. Entretanto, do lado de fora, ficamos sabendo de outro escândalo... o Nespereira ficou a saber que, nos castigos atribuídos ao seu clube, Vilarinho, que jogou os 90 minutos, tendo apenas um cartão amarelo, foi o punido com 3 jogos de castigo, no lugar de Márcio... mais um erro revoltante do árbitro Pedro Saraiva. Jorginho apanhou 2 jogos de castigo, eu apanhei 1 mês de suspensão, mais 150 euros de multa, enquanto o clube apanhou 125 euros de multa, o que provocou uma enorme ira em Vilarinho, que ao saber deste fato, ainda tentou argumentar, mas já sem nada poder se fazer. Na saída da reunião, Toni Resende disse ao jornalista da agência Lusa, que interpretou que o que se passou em campo foi “falta de bom senso e de concentração da equipa de arbitragem” e ainda completou com “a AFV disse que lamenta, mas que está escrito. Saímos com a missão cumprida, porque mostrámos a nossa indignação. Vamos reunir a direção mas, em princípio, não vamos mais além que isto", não prosseguindo realmente com a situação. Sérgio Silva, na altura sub-capitão do Nespereira, também foi bastante caústico nas suas declarações e disse “domingo vamos jogar contra o primeiro (Tarouca) e o Ferreira de Aves, que é o segundo, vai jogar contra o Resende, que é o terceiro" e esclareceu que "Pode haver beneficiados, mas queremos acreditar que não tenha sido com essa intenção". Eu também acabei fazendo declarações para o Jornal do Centro, considerei que “no actual estado do futebol, em que a palavra do árbitro faz lei, e nem sequer temos hipótese de defesa, não vale a pena andar no desporto”, e deixei a acusação: “Há árbitros em Viseu que mentem nos relatórios, que são arrogantes, prepotentes e que abusam do poder que têm”.

63


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Passadas algumas semanas, numa tarde agradável de domingo, o Nespereira recebia o Ceireiros, de Beselga. O jogo começou muito bem, com ambas as equipas a proporcionarem um bom espectáculo aos adeptos maioritariamente nespereirenses...O Ceireiros começou por ser mais perigoso, ameaçando por duas vezes a baliza de Jorge Ramalho, numa delas fazendo parar a respiração a todos os presentes. A partir daí, o Nespereira começou a acelerar, mas tinha muitas dificuldades na finalização... Pepe e Jorginho desperdiçaram dois bons lances. Mas, tanto se foi à fonte que, Pepe numa boa jogada pela direita marcou o 1-0. Mas, logo de seguida, num lance no meio campo, Paulo Monteiro é advertido com um cartão amarelo- sem motivo-, mas responde rispidamente ao cartão e o árbitro Nuno Vaz, mostra-lhe o segundo amarelo. O árbitro de Abraveses, logo de seguida, vai ao banco e expulsa o massagista do Nespereira! Com os olhos todos voltados para o banco, de repente Vilarinho é expulso... no espaço de 3 minutos, o Nespereira viu a sua equipa reduzir em 2 elementos (tirando o massagista).Após isto, foi o apito para o intervalo. Na segunda parte, o Ceireiros tentou pressionar mais, mas graças à inteligência táctica do Nespereira, este aproveitou- se dos espaços do Ceireiros, e de rajada, através de Jorginho e Pepe, num golo memorável, atingiam o 3-0 rapidamente. Realce ainda para o penalty falhado por Jorginho, que permitiu a defesa ao guarda- redes do Ceireiros. O Nespereira foi baixando o seu nível de jogo, e já perto do final, um avançado do Ceireiros manda a bola ao poste. E, nos últimos 8 minutos (!!!) de desconto, um lance individual pelo extremo esquerdo da equipa visitante, passa por João Paulo, e centra para a cabeça do avançado, que não deu qualquer hipótese a Jorge Ramalho. Ainda assim, perto do final, o árbitro viu uma penalidade cometida por João Paulo, e assinalou a grande penalidade, a que o extremo ceireirense conseguiu converter. O Nespereira era realmente perseguido pelos árbitros distritais. Um jogo mesmo muito memorável dessa época, foi o recebimento do “candidato” Tarouquense. Num belo domingo, Nespereira e Tarouca mobilizaram- se para assistir a mais um jogo para o Campeonato Distrital da AF Viseu. Mouta Pinto fez apenas uma alteração relativamente ao jogo do Nespereira com o Ferreira de Aves: a introdução de Marcelo no "onze" e a manutenção de Jorginho no "banco". O Nespereira começou muito mal o jogo, sendo mesmo empurrado para o seu terço defensivo, e logo aos 2', uma boa jogada do ataque tarouquense, Vilarinho salva em cima da linha, o Nespereira do primeiro golo. Primeiro golo esse, que foi inevitável, após uma extrema sufocação, e num canto do lado direito do ataque de Tarouca, em jogada estudada, o Tarouquense marca o 0-1, com muitas culpas para as falhas de marcação e a falta de pressão contínua que o Nespereira não exercia. O Nespereira parecia perdido, sem qualquer ligação entre a defesa e o ataque, e o Tarouquense não jogava bonito, mas era mais eficaz. O Tarouquense, jogava através de rápidos contra- ataques, mas não demonstrava grande futebol. O meio campo tarouquense ganhava tudo e não deixava o Nespereira jogar. Num lance tipico da equipa da serra, uma bola é aliviada na defesa, a bola sobra para Nuno Cardoso que tenta atrasar de cabeça para Zé Manuel. O guarda- redes, mais adiantado, tenta evitar o canto, cedendo um lançamento lateral. Nesse mesmo lançamento, o ataque tarouquense consegue aumentar a sua vantagem, através de Simão. Era o 0-2. 64


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA O Nespereira tenta responder, mas apenas conseguiu através de um lance individual de Sérgio Silva, que remata por cima. A partir daqui, surgiu Carlitos, que num primeiro lance, em que é desmarcado, não consegue desfeitear o guarda - redes de Tarouca. Depois, num lance de Pepe, este desmarca Carlitos, que quase sem ângulo, remata por cima da trave. Ao intervalo, vimos ainda o jogador Paulo Ferreira virar-se para Simão,apontando para Carlitos, e dizendo em tom irônico: - É este que dizias que era o perigo? De perigoso não tem nada!- rindo-se em tom de deboche. Após uma primeira parte de uma pobreza franciscana por parte do Nespereira, a equipa da casa via as coisas muito dificeis para si. Na segunda parte, Mouta Pinto substitui Sérgio Duarte por Jorginho. E o Nespereira parecia muito mais esclarecido e jogava mais em toda a largura do campo. E Sérgio Silva dá mais um aviso, rematando por cima da barra. Mas, aos 52', num lance de muita força, Marcelo, ganha a bola ao central tarouquense, e de meia volta, na entrada da grande área, este reduz o marcador. Era o 1-2. A equipa do Nespereira moralizou- se, e sem dar hipótese, começamos a assistir a um grande show chamado Carlitos. Carlitos, numa série de ressaltos, dentro da grande área, remata e marca o 2-2. O Tarouquense, demonstrou muita dificuldade em defender- principalmente nas alas. E de repente, de fora da área, de pé esquerdo, Carlitos marca o 3-2, marcando o golo da tarde. Exultava o público nespereirense, após a reviravolta no marcador. Mas, o Nespereira não baixou os braços, e continuou a atacar, e por duas ocasiões, Jorginho consegue ganhar espaço, mas remata por cima da baliza. Num pontapé de canto, ainda Paulo Monteiro cabeceia, e deu- nos a sensação do central tarouquense cortar a bola com a mão dentro da grande área, mas aceita- se a decisão da equipa de arbitragem. O Tarouquense, nos últimos quinze minutos, ainda tentam pressionar o Nespereira para a sua área, mas o Nespereira atacava muito perigosamente a baliza tarouquense. E é num dos ataques venenosos do Nespereira que Carlitos recebe a bola, e "cavalgando", e marcando o 4-2. Era o canto do cisne para o Tarouquense. O Tarouquense já não mostrava discernimento, nem tinha tempo suficiente para voltar a ficar em vantagem. Minutos depois, o árbitro António Cardoso apita para o final. Arbitragem muito contestada pelos adeptos e dirigentes tarouquenses, mas que a nível, tanto disciplinar, como a nível técnico esteve bem, sabendo nós das diferentes interpretações e subjectividades das decisões da arbitragem.

65


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

No final da época, Álvaro Pinto já dava mostras do desgaste destes dois anos de gestão, e optou por sair, após ter conseguido deixar as contas do clube todas certinhas, sem qualquer divida.Mas entretanto, pairava a mesma dúvida de sempre...Quem será o sucessor? Houve muita hesitação, e voltou a pairar o fantasma do encerramento do clube. Com a saída de Álvaro Pinto, confirmou-se assim as saídas de Ricardo Teles, Toni Resende e Ana Sofia Teles e eu. Então começaram a surgir vários nomes como hipótese para suceder Álvaro Pinto, como: Paulo Rodrigues, que afirmava estar disposto a levar o Nespereira a Divisão de Honra; Pedro Semblano, Jorge Ramalho, José Ribeiro, Hernâni Andrade e Vítor Andrade. Mas nenhum destes candidatos dava um passo para enfrentar o desafio. Foi então, que tive a idéia de convidar Jorge Ramalho e Nuno Cardoso para um jantar no Restaurante Mirante da Boavista, onde a pretensão era discutirmos o futuro do clube. Nesse jantar, apresentamos soluções, trocamos opiniões, e vimos o que se poderia fazer pelo sucesso do clube. Nesse dia comprometi-me a ajudar Jorge Ramalho, de maneira informal, pois não era minha intenção fazer parte da Direção, caso ele decidisse avançar com a candidatura. E aí, Nuno Cardoso também mostrou algum entusiasmo, e ali vi uma possibilidade de salvação do Nespereira. Não sei se esse jantar teve alguma influência nas decisões de ambos, para avançarem com uma lista de direção! Após três assembléias fracassadas, na terceira, Nuno Cardoso comprometeu-se por realizar uma nova direção, chegando assim a fazer a lista com Jorge Ramalho a encabeçar essa mesma lista. Jorge Ramalho é o exemplo vivo de que para se ser presidente, não é preciso ter dinheiro, mas sim vontade de trabalhar. Jorge já fez de tudo pelo clube, desde jogador, até treinador, 66


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA massagista, roupeiro, e foi um autêntico trabalhador pelo Nespereira. A parte mais temível de Jorge, seria mais propriamente a sua explosividade, mas durante a primeira época até nem denunciou essa sua característica. Teve um grupo de diretores também que o auxiliaram muito, em alguns aspetos, ligados ao balneário, mais propriamente, porque a nível administrativo não estava muito bem auxiliado, como todas as outras direções anteriores. Nessa mesma lista, marca-se o regresso de Cláudio Oliveira como Presidente da Assembleia Geral, e a inserção de Pedro Semblano, na direção. António Pereira foi a escolha pessoal de Jorge Ramalho. António Pereira é um nespereirense bastante reservado, campeão distrital da 3ª Divisão por 2 ocasiões ( uma por Nespereira, outra por Fornelos), como jogador. Este foi o seu primeiro trabalho como treinador. António Pereira escolheu o canelense André Pinho, para seu treinador-adjunto. O primeiro jogo do Nespereira FC para o campeonato de 2008/09 era contra o Fornelos. Nessa altura, por motivos de saúde eu encontrava-me no Hospital de S. Teotónio, em Viseu, num coma profundo. Por isso, transcrevo aqui, a notícia do jogo Nespereira vs Fornelos, escrito pelo jogador e treinador Bruno Daniel Monteiro: “Dia 12 de Outubro, do ano de 2008, data da primeira jornada da 1ª divisão distrital, Zona Norte. O Nespereira FC recebia no seu reduto a equipa do Fornelos, um derby logo a começar o campeonato. E se para a equipa do Fornelos este seria mais um derby como tantos outros, para o Nespereira seria um jogo muito importante, carregado de muito sentimentalismo. Ercílio Galhardo, amigo e companheiro de todos os nespereirenses encontrava-se em estado muito grave no Hospital São Teotónio, em Viseu. Era ele a grande motivação para este jogo. Se havia jogo que queríamos ganhar era este, pois enquanto o nosso AMIGO lutava pela vida no hospital, nós iríamos lutar até ao último segundo do jogo por esta vitória, que se fosse conseguida, seria para ele, na esperança de ser um importante estímulo para que depressa ele voltasse pra junto de nós. O início do jogo foi muito equilibrado, característico de todos os derbys, com muita luta a meio campo. Ao longo da primeira parte foram aparecendo algumas oportunidades de golo para ambas as equipas, mas nenhuma delas foi concretizada. Chegávamos então ao intervalo com um empate a zero. No início da segunda parte o Nespereira começou a ter algum ascendente no jogo, desperdiçando duas boas oportunidades para marcar, através de Carlitos e Sérgio. Mas viria a ser o Fornelos a adiantar-se no marcador. Numa jogada algo fortuita, Miguel ganhou a bola no meio campo e depois de ganhar dois ressaltos apareceu isolado perante Jorge Ramalho, fazendo o 1-0 para a equipa do Fornelos. No recomeço do jogo a equipa do Nespereira lançou-se para cima do Fornelos procurando a igualdade de imediato, que foi conseguida poucos minutos depois, através de Vitor Andrade. Depois de um pontapé de canto, a bola atravessou toda a área do Fornelos, indo parar aos pés de Vitor Andrade, que com muita calma e classe fez a bola passar por cima de Maciel, guardaredes do Fornelos. Não contente com o empate, o Nespereira continuou à procura do segundo golo, dominando completamente a partida por esta altura. O segundo golo viria a aparecer passado alguns minutos. Depois de um cruzamento do lado direito do ataque do Nespereira, Carlitos recebeu a bola no centro da área, virou-se para a baliza e rematou rasteiro junto ao poste, fazendo o 21 para o Nespereira. Era a festa de todos os nespereirenses. Até ao final do jogo destaque para a expulsão de Miguel, marcador do golo do Fornelos, 67


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA devido a uma entrada muito dura sobre Vilarinho, que acabaria por sair lesionado, e de uma grande defesa de Jorge Ramalho, numa jogada em que um jogador do Fornelos apareceu isolado. Poucos minutos depois, o jogo terminava com a vitória do Nespereira, com toda a equipa muito emocionada, a dirigir-se ao centro do terreno e a dedicar a vitória ao GRANDE Ercílio que continuava a sua luta pela vida no hospital.” Jogo memorável foi num dia agradável de Outono, em que o Nespereira deslocou-se a Oliveira do Douro, a fim de enfrentar a equipa da terra. No tipico campo pequeno, onde a distancia da linha da grande área para a linha lateral é de apenas 2,3 m de distância, o Nespereira começou bem o jogo, e logo de ínicio, Gil ganha uma bola, passa pelo Guarda-redes oliveirense, e não consegue finalizar da melhor forma. Ambas as equipas ainda se estudavam, quando Thiago domina dentro da grande área, e é "ceifado" pelo lateral esquerdo do Oliveira, com o árbitro a assinalar a grande penalidade. Jorginho, correu para a bola e marcou o 0-1. O Oliveira cresceu, e começou a cair em cima do Nespereira,descaindo mais para o lado esquerdo da nossa defesa. Rui Duarte foi uma dor de cabeça para Márcio, que cedo levou um cartão amarelo. Renato, de cabeça, quase marca o empate com a bola a bater no poste. Minutos depois, Rui Duarte, domina a bola dentro da área, e Márcio faz falta para grande penalidade. Márcio leva o segundo amarelo, e é expulso. Na grande penalidade, Renato marcou o empate. O Oliveira, continuou a procurar a vitória, mas nada conseguiria antes do intervalo. Após o intervalo, o Nespereira voltou a jogar inteligentemente, de forma organizada e fria, não concedendo espaços aos adversários, e lançando contra ataques venenosos. E num dos espaços, que o Oliveira concedeu a Pepe, o "Mágico" da saída do meio campo, remata, a bola bate no chão, desvia num pequeno rego que o terreno de jogo faz, e proporciona ao público presente, o golo da tarde. Um grande golo para o "Mágico", um grande "frango" para Moca. Era o 1-2. O Oliveira, resolveu voltar à carga, mas não conseguia ultrapassar aquela muralha defensiva nespereirense: Pereira- Vila- Nuno- Sérgio. Entretanto, enquanto o jogo se passava lá dentro, cá fora passava outro espectáculo... o guarda redes oliveirense, responde à umas provocações do público, e visivelmente, irritado dirige-se, para o público, mas recuando. Algum público, que nem presente estava na hora e no local da situação, resolve se atirar contra os portões de entrada do recinto, com muitos a porem o adepto oliveirense fora do recinto. Enquanto isso, começou o show de Thiago. Thiago foi o mais venenoso dos atacantes nespereirenses, e dele nasceu o terceiro golo. Ganhou a bola, nas costas de Hilário, e rematou permitindo à Moca uma excelente defesa, mas largando a bola, e já sem ângulo, faz um passe rasteiro com um defesa do Oliveira, que vinha pressionado por Ísaias, a meter a bola na sua própria baliza. Era o 1-3, e parecia a conformação do Oliveira, relativamente, à derrota! Marcelo, ainda teve a hipótese de marcar o 1-4 , mas não teve o engenho para marcar. De sublinhar, ainda a agressão de Moca a Marcelo, na frente do árbitro, durante uma jogada, mas com este a nada assinalar. Grande vitória do Nespereira, num campo extremamente dificil! A partir daqui, o Nespereira teve uma quebra de forma nítida, e como exemplo disso, tem o jogo que fez com o Ceireiros, em Nespereira. Este não iria ser um jogo muito feliz para a equipa do Nespereira, e isso começou a notar-se logo desde o início do jogo, devido à má 68


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA entrada na partida da equipa da casa. O Nespereira nestes primeiros minutos de jogo não conseguia assentar o seu futebol e o Ceireiros aproveitou o desacerto da equipa da casa para inaugurar o marcador. Depois de um cruzamento do lado direito do seu ataque, o avançado do Ceireiros recebe a bola, completamente sozinho e faz o 1-0 sem grandes dificuldades. A equipa da casa teria de ir agora atrás do prezuízo e logo após o golo teve várias oportunidades para empatar, principalmente por Carlitos, mas nenhuma delas foi concretizada. Sensivelmente a meio da primeira parte, Jorginho recebe uma bola do lado esquerdo do seu ataque, entra na área e parte para cima do adversário, fintando-o, mas este último, numa entrada fora de tempo, acaba por fazer falta para grande penalidade. Rui Teles assumiu a responsabilidade e... falhou o primeiro remate, conseguindo no entanto, fazer o golo através da recarga. Era o golo do empate para o Nespereira. Após o golo, inexplicavelmente, o Nespereira voltou à monotonia e desorganização que apresentou no início da partida, e o Ceireiros, uma vez mais, aproveitando esta desorganização Nespereirense, adiantou-se no marcador, já muito perto do intervalo. Depois de uma falha da defesa Nespereirense, a bola sobra para o avançado do Ceireiros que limita-se a empurrar a bola para a baliza. Chegávamos então ao descanso com o Ceireiros a vencer por 2-1. No início da segunda parte, o Nespereira tornou a entrar muito mal na partida e o Ceireiros tal como na primeira parte tornou a aproveitar-se disso muito bem. Logo nos primeiros minutos desta etapa complementar, um jogador do Ceireiros, surge sozinho pelo lado direito do seu ataque e perante a saída da baliza de Jorge Ramalho, chega à bola primeiro que este último e faz um surpreendente 3-1 para o Ceireiros. O Nespereira tentou responder de imediato, esgotando mesmo as três substituições logo nos primeiros minutos desta segunda parte. Mas hoje, decididamente não parecia ser o dia do Nespereira FC, pois eram criadas bastantes oportunidades para marcar, mas a bola parecia não querer entrar na baliza do Ceireiros. A bola batia no poste, batia em jogadores contrários, ia ao lado, ia por cima, o guarda redes defendia...parecia que não iria mesmo entrar mais golo nenhum na baliza do Ceireiros. A cinco minutos do fim do jogo, quando já muitos poucos acreditavam, Jorginho recebe uma bola no lado esquerdo do seu ataque, faz a finta ao defesa contrário e cruza tenso para a área, aparecendo Gil ao segundo poste a encostar para golo. Era o segundo golo para o Nespereira e o renascer da esperança num resultado melhor, apesar de faltar muito pouco tempo. Minutos depois o Nespereira sofre uma falta à entrada da grande área, um livre mesmo ao jeito do capitão Nuno Cardoso. Nuno parte para a bola, chuta...e o guarda redes faz uma grande defesa! O Nespereira parecia destinado mesmo a perder este jogo! Mas já durante o período de compensação, Thiago Oliveira recebe uma bola sobre o lado esquerdo do ataque, ganha a linha e cruza de imediato para o segundo poste, onde aparece Jorginho a finalizar para o golo do empate, quando já quase ninguém acreditava!No minuto seguinte o jogo terminava com o resultado final em 3-3. No dia 11 de Janeiro, começou a 2ª volta da 1ª Divisão- Zona Norte da AF Viseu, com mais um derby concelhio entre Fornelos e Nespereira. António Pereira apresentou a seguinte equipa: Jorge Ramalho; Rui Teles(Gil), Márcio, Vilarinho, Nuno Cardoso; Marcelo, Paulo Monteiro, Sérgio Silva, Pepe ( Vítor Andrade); Thiago, 69


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Carlitos (Jorginho).Antes do jogo, o treinador do Nespereira, António Pereira, foi homenageado, pelos largos anos que representou o Académico de Fornelos, como jogador. Já no jogo, o Nespereira iniciou muito bem, lutando taco-a-taco, com o Fornelos, não dando espaços á equipa de Fornelos, mas com esta a pouco a pouco, foi ganhando espaço e desgastando a equipa nespereirense, que até aí só tinha conseguido causar perigo, através de lances de bola parada, e com Maciel a corresponder com uma grande defesa. Aos 21', o árbitro Pedro Saraiva não marca uma grande penalidade a favor do Fornelos, numa bola dividida dentro da grande área.E aos 34', Paulo Costa, o "trinco" do Fornelos, consegue isolar-se e remata fora do alcance de Jorge Ramalho, mas com a sorte a bafejar o Nespereira, pois a bola bate no poste. Chegou-se ao intervalo, e o empate de 0-0, prevalecia no marcador, prometendo uma boa 2ª parte.Nota ainda, para a triste figura que o delegado do Fornelos-o dito pevidoso de boné- fez, ao após ter feito uma homenagem ao treinador do Nespereira, dirigir-se ainda ao árbitro, e "tentar" que António Pereira fosse "expulso" do banco de suplentes, alegando que não estava inscrito na ficha de jogo!!! Só que, ele é que não conseguia ver o nome inscrito na área! Com amigos destes... Voltando, ao que interessa, ao jogo! Logo, aos 6 segundos da 2ª parte, Vilarinho tenta fazer um passe atrasado para Rui Teles, mas o estado do terreno, que estava um autêntico "lameiro", trava a bola em metade do trajecto, que é roubada pelo avançado fornelense, que isola-se e chuta, a bola passa por baixo das pernas de Nuno Cardoso, e marca o 1-0. Em 10 minutos completamente arrasadores, o Fornelos, numa tentativa de ataque do Nespereira, Rui Teles tenta virar o jogo, falha o pontapé dando a bola para a trás, esta é ganha por Miguel, que ganha, progride no terreno, os defesas do Nespereira, não lhe tiram a bola, e na saída de Jorge Ramalho, este marca o segundo golo do Fornelos. O Nespereira ainda demorou um bocado a reagir, apesar das entradas de Jorginho, que deu mais velocidade, e Vítor Andrade, que deu mais posse de bola à equipa.Já na parte final, num brinde da defesa de Fornelos, Jorginho isola-se e remata por cima da trave, desperdiçando uma das melhores hipóteses. E perto do minuto 90', num corte da defesa de Fornelos, o guarda redes recebe a bola, e o árbitro considera atraso, e marcou livre indirecto. Nesse livre indirecto, Nuno Cardoso, marcou o 2-1, com o Nespereira tendo apenas 4 minutos, para poderem empatar o jogo. E, numa missão que parecia quase impossível, Thiago isolou-se, e quase marcou o empate, mas a enormidade de Hugo Maciel não permitiu tal, defendendo o remate do brasileiro nespereirense. Outro jogo para relembrar pelas situações anômalas, não pelo resultado é o Nespereira vs Carvalhais. Num dia extremamente gelado, e pouco convidativo ao futebol, o Nespereira recebeu o líder do campeonato, o Carvalhais. António Pereira fez alinhar a seguinte equipa: Jorge Ramalho; Pedro Cardoso ( Isaías), Márcio, Vilarinho, Nuno Cardoso; Quim ( Vítor Andrade), Sérgio Silva, Paulo Monteiro, Pepe (Paulo Sérgio); Carlitos, Thiago. E assim, no momento em que o jogo começou, todo o público e os intervenientes do jogo, foram premiados com um início de uma enorme queda de saraiva, sob nossas cabeças, não perdoando, e levando os mais intrépidos espectadores a recorrerem às bancadas para se protegerem do rigor do tempo. 70


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Entretanto, no jogo, após um período de estudo por ambas as partes, o primeiro grande remate partiu dos pés de Sérgio Silva, que fora da área rematou certeiro ao ângulo da baliza, permitindo ao guarda redes carvalhense a defesa da tarde para canto.Nesse período o Nespereira pressionou, e parecia mais decidido a vencer o jogo que o Carvalhais. Com Pepe a servir de “maestro”, este pautou imenso o jogo ofensivo nespereirense, e com Carlitos a ganhar muitos ressaltos na defesa de Carvalhais, ao Nespereira faltou o que tem sempre faltado: sorte! O Carvalhais foi melhorando o jogo, e ao mínimo espaço rematavam, tendo ainda dois remates perigosos: um numa defesa de Jorge Ramalho, que ainda largou a bola mas voltou a defender, outra num remate que passou ligeiramente ao lado da baliza de Jorge Ramalho! Entretanto, o Carvalhais com mais frieza, num lance do lado esquerdo do seu ataque, cruza a bola e marca o 0-1, de forma injusta. O Nespereira não merecia estar a perder! Após isto, o Nespereira voltou outra vez ao ataque, e logo de seguida, num lance em Carlitos ganha uma bola no meio da defesa do Carvalhais, quando vai rematar, permite ao guarda redes mais uma boa defesa. De repente, os jogadores de Carvalhais, de forma cínica, atiravam-se para o chão e berravam em altos sons, conseguindo tirar aos jogadores de Nespereira, alguns cartões amarelos desnecessários.E é de um livre, arrancado assim, que o Nespereira sofre o 0-2. A bola é bombeada para a zona de ataque, e o Carvalhais de forma mortífera, não perdoa e marca o 02. O Nespereira bem tentou reagir, mas até ao intervalo, nada conseguiu fazer, senão defender o ataque carvalhense. Após o intervalo, António Pereira mete Vítor Andrade, no lugar de Quim. Volta o Nespereira com mais posse de bola, e numa jogada excelente conduzida entre Pepe, Thiago e Paulo Monteiro, este de primeira, remata alto, fazendo um chapéu ao guarda redes do Carvalhais, que, apesar de ser um belíssimo golo de Paulo Monteiro, não isenta o guarda redes carvalhense de alguma culpa, no golo sofrido. Era o 1-2. O Nespereira, atacou e atacou, começando a sufocar de forma incrível o Carvalhais. A equipa visitante, não conseguia atacar em condições, com o Nespereira a ocupar muito melhor os espaços do meio campo.Entretanto, começou-se a ouvir um certo burburinho do outro lado, enquanto Paulo Sérgio substituía Pepe. Do lado do Olival, apercebeu-se de dois espectadores que da discussão, passou-se a vias de facto, numa acesa discussão. O seu filho, interviu prontamente, evitando aumentar a gravidade da situação, enquanto mais um espectador nespereirense, na intenção de separar e acalmar os ânimos, foi arrastando o senhor visitante, que berrava muito alto, para longe do senhor que serviu de rastilho para a situação. Entretanto, o jogador do Carvalhais, que se encontrava no banco e pronto a substituir algum jogador dos visitantes, de seu nome Jorge Rafael Cruz Lopes, com o número 17 na dorsal, agrediu o espectador nespereirense que tentava separar a situação, levando uma guarda chuvada prontamente, da parte do sobrinho do espectador. A partir daqui, a situação descambou completamente, com os próprios jogadores em campo a intervirem a fim de acalmar os ânimos, que se encontravam deveras exaltados.Após uns minutos de exaltamento, e do amontoamento de gente encontrada da parte de dentro e de fora do campo, no espaço entre os bancos, tudo se sanou, continuando o jogo. Mas a situação realmente afectou a concentração dos jogadores de ambas as partes, apesar 71


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA do Nespereira, nitidamente atacar ferozmente, mas não conseguindo ser eficaz no último terço do campo de jogo. Já o Carvalhais optou pela velocidade dos seus avançados- e diga-se, também optou pelo teatro exagerado!, quase conseguindo num desentendimento de Jorge Ramalho e Nuno Cardoso, aproveitar para marcar o terceiro golo. O Nespereira passou 91 dias sem vencer um jogo em casa. Acabando a sua “maldição”, num jogo com o Arguedeira, no Parque de Jogos Isidro Semblano. O Nespereira entrou muito confiante, e nos primeiros minutos tomou logo conta do jogo, se apercebendo da "fraqueza" do Arguedeira, relativamente ao seu "onze".Na tarde chuvosa que os poucos adeptos enfrentaram, estes eram poucos, mas eram exigentes, pois pediam uma "goleada à antiga" aos jogadores.E, como a chuva caia, também as oportunidades apareceram como a chuva. A vontade de ganhar dos adeptos era tanta, que na primeira oportunidade, num livre de Vilarinho, Sérgio Silva aparece sem marcação, e cabeceia... com os adeptos a gritarem golo antes do remate, e a bola a passar ao lado do poste. O Nespereira sufocou autenticamente o Arguedeira, mas não conseguia desfeitear o guarda redes adversário.Pepe, num lance fenomenal, desmarca Thiago, que isolado começou o show de "tiro ao ferro", rematando por cima do guarda redes, mas acertando no poste da baliza.Num pontapé de canto, do lado direito do ataque nespereirense, Thiago volta a cabecear, mas acertando na barra da baliza. O Nespereira foi-se cansando, e foi cedendo mais algum tempo de posse de bola ao adversário, mas que não conseguiu atacar com perigo a baliza de Jorge Ramalho. Ao intervalo, o resultado era um empate "ensosso" a 0. Após o intervalo, o Nespereira voltou outra vez, com o intuito de marcar, e desperediçou mais uma mão cheia de golos.Mas o Arguedeira, também voltou mais arisco, e num contra- ataque perigosissimo, o seu avanço se isola e sozinho perante Jorge Ramalho, finta-o, mas este consegue fazer a mancha, e o remate sai sem força, com Vilarinho a salvar o golo do Arguedeira. E, num lance de desmarcação, Pepe se desmarca e dentro da área é brutalmente empurrado pelas costas pelo adversário, com o árbitro a marcar o respectivo penalti.Grande penalidade marcada por Nuno Cardoso, que rematou colocado e rasteiro, mas com o guarda-redes quase a ir buscar a bola. Era o 1-0. A partir daqui, o Nespereira estava mais com cabeça fria, e Thiago num remate, proporciona ao guarda-redes visitante uma boa defesa. Num lance de Jorginho- que tinha entrado para o lugar de Paulo Sérgio- este na esquina da área, remata de meia volta, marcando o 2-0, num excelente golo, já perto do final. Então, Pereira faz entrar Pirica- que recebe uma enorme ovação!!!- para o lugar de Pepe. E Jorginho, num último folego, isolou-se e, com Pirica a seu lado, tenta passar a bola por cima do guarda redes, não conseguindo desfeitear novamente este. No final da época, a equipa nespereirense acabou em 9º lugar, mas acabou sendo a pior defesa do campeonato, juntamente com o Ceireiros, e também foi a equipa com mais derrotas, juntamente com o Sezurense (12 derrotas). António Pereira optou por não continuar a exercer a função de treinador do Nespereira, mas indicou o seu adjunto, André Pinho para o cargo de treinador. Jorge Ramalho seguiu o conselho de António Pereira e entregou a função de treinador a André 72


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Pinho. Nessa época, o Nespereira perdeu Jorginho para o Viseu e Benfica. O Nespereira não começou nada bem o campeonato, tendo em 3 jogos, apenas 1 ponto, e os adeptos já falavam em crise dentro da equipa. Num jogo da Taça, calhou no sorteio, uma deslocação à Farminhão, no concelho de Viseu. Saindo cerca das 9h30 da manhã, de Nespereira, eram 11h30 quando todos chegaram ao Fontelo para almoçar, tendo ainda tempo de assistir o final do jogo Viseu e Benfica vs Ferreira de Aves, em Escolas. Depois do almoço, a equipa nespereirense, deslocou-se para Farminhão, encontrando um campo enorme, e boas instalações, no complexo desportivo. André Pinho resolveu mexer na equipa e deixou Rui Teles, Ruizito e Carlitos fora da convocatória, e apresentando o seguinte "onze": Jorge Ramalho; Paulo Tiago(Pedro Cardoso), Vilarinho, Bruno Daniel, Nuno Cardoso; Sérgio Silva, Diogo, Paulo Sérgio(Vítor Andrade), Pepe; Vítor Hugo(Miguel Vieira), Marcelo. Testando alternativas, André Pinho apostou na inclusão de Paulo Tiago a lateral-direito, encostou Vilarinho na esquerda, inserindo Bruno Daniel no eixo da defesa. Os primeiros minutos foram de estudo, por parte de ambas as equipas, com o Farminhão a ter mais posse de bola, mas sendo o Nespereira, o primeiro a rematar com perigo, ao min. 13, através de uma excelente jogada entre Paulo Sérgio e Pepe, com este último a rematar contra um defesa, conseguido canto. O Farminhão começou a crescer, e pouco a pouco, ia conquistando a linha esquerda, do seu ataque, deixando Paulo Tiago com os "nervos em franja". Aos 17' o médio do Farminhão arrisca, de longe, rematando por cima da barra da baliza de Jorge Ramalho. Aos 23', descaído na direita, o Farminhão volta a tentar o golo de longe, obrigando Jorge Ramalho a defender. Numa altura em que o Nespereira estava a subir de forma, o Farminhão, num contra-ataque, obriga Jorge a mais uma boa intervenção. Mas aos 36'um mau entendimento entre o defesa do Farminhão e o seu guarda-redes, quase dava num golo, com Marcelo a fazer um chapéu ao guarda-redes,mas saindo ao lado. Ao intervalo, o resultado era 0-0, e André Pinho a resolver mexer na equipa substituindo Paulo Tiago por Pedro Cardoso. E logo no ínicio da 2ª parte, aos 48', Marcelo desmarca Pepe, que descaído na direita, faz um golão, encontrando apenas o guarda-redes adversário, e com muita classe, faz um "chapéu" marcando o 0-1. Aos 50', Pepe volta a rematar de longe, obrigando Cunha a uma grande defesa para canto. Desse canto, Marcelo quase marca de cabeça. O Faminhão começou a mexer as suas peças, e a tentar conquistar mais o meio-campo nespereirense, mas era o Nespereira mais perigoso, com uma excelente jogada entre Vítor Hugo e Pedro Cardoso, com este a rematar ao lado. O Farminhão cresceu, e aos 66', num ataque da direita, o atacante passa por Bruno Daniel, rematando ao lado. Quatro minutos depois, Nuno Cardoso, de livre, obriga Cunha a uma defesa atabalhoada. Aos 76', acontece o caso do jogo. O Farminhão tenta atacar no lado direito, o jogador cruza, Vilarinho mete o peito à bola, e o "bandeirinha" pressionado pelo público, assinala penalti, levantando a bandeira, e com o árbitro a assinalar o castigo máximo. Adrien marcou assim o empate. 73


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Mas não durou muito o empate, Nuno Cardoso cruza na direita, e Marcelo de cabeça, volta a dar vantagem aos visitantes, aos 79'. A equipa da casa não dava o jogo por perdido, e aos 84', num excelente cruzamento na direita, obriga o avançado farminhense a cabecear, quase marcando o empate. Aos 87', o avançado da casa isola-se, e perante Jorge Ramalho, não consegue desfeitea- lo, obrigando-o a defesa da tarde. E já em tempo de descontos, Pepe descaído na direita remata- quase do meio-campo-, obriga Cunha a uma defesa espalhafatosa, que seria a defesa da tarde, se nao fosse dar em golo. Quando o guarda-redes mete a mão à bola, esta sobe e faz um arco, batendo no chão e entrando devagar, sendo um "pato" do guardião da casa. No final, boa arbitragem da equipa de arbitragem, falhando apenas no lance do penalti contra o Nespereira. E pelos vistos, se os jogos do campeonato estavam correndo mal, os da Taça, davam gosto de ver. O Nespereira pegou na 2ª eliminatória, o Molelos que estava na Divisão de Honra. André Pinho resolveu fazer novas alterações no seu “onze” optando pela seguinte equipa: Ricardo Semblano; Pedro Cardoso, Márcio, Vilarinho, Nuno Cardoso; Sérgio Duarte, Sérgio Silva, Marcelo; Pepe, Toninho, Carlitos. O Nespereira iniciou bem, logo no primeiro minuto, com uma excelente desmarcação de Pepe na direita, a rematar para defesa segura do guarda-redes do Molelos. Mas aos 5’, começa um “espectáculo” de dualidades de critérios da parte do árbitro. Toninho na defesa chuta a bola para a frente, Marcelo ganha de cabeça, e o mesmo Toninho numa corrida espectacular, isola-se e é empurrado por um adversário, dentro da grande área, e o árbitro nada marca, apesar de Toninho não cair. Mas, aos 8’, um pouco contra a corrente do jogo, em que o Nespereira dominava, num lance muito duvidoso, que começa na direita do ataque do Molelos, o nº11 não consegue dominar a bola dentro de campo, mas o árbitro assistente permite que o lance continue, e o médio do Molelos recebe a bola na entrada da área, marcando um golo espectacular, sem hipóteses para Ricardo defender. O Nespereira não baixou os braços, e respondeu logo de seguida, com Sérgio Duarte a cruzar na direita, e Toninho remata ao lado. E aos 13’, o Molelos ataca novamente, e de fora da área um jogador remata, Ricardo defende, mas a bola sobra para o avançado, que marca o 0-2, reclamando muito os jogadores do Nespereira alegando um fora-de-jogo do adversário que marcou o golo. O jogo diminui o ritmo, e o Molelos foi gerindo o jogo conforme lhes convinha, atacando aos 32’, e num lance dentro da área, Márcio faz falta sobre o jogador tondelense, mas com o árbitro a não assinalar nada. No minuto seguinte, há uma falta perto da grande área do Molelos, e Pepe, encarregue de bater o livre, o guarda redes defende, mas Nuno Cardoso, na recarga não consegue marcar o golo. Aos 40’, um livre frontal à baliza nespereirense, numa jogada combinada para a direita, o avançado do Molelos cruza rasteiro, mas os seus dois colegas, a meio metro da linha de golo, chegam atrasados, não conseguindo aumentar a vantagem. Ao intervalo, o Nespereira perdia por 2-0 , em casa, mas com o árbitro a ser muito contestado pelos adeptos nespereirenses. Na segunda parte, logo ao minuto 46, o Nespereira entra mais aguerrido e com vontade de 74


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA atacar, com Sérgio Duarte a tentar desmarcar Pepe, com o defesa a tentar passar para o seu guarda-redes, e Pepe intercepta, mas falha. O Nespereira impôs um ritmo ofensivo bastante intenso, e aos 47’, Carlitos isola-se, passa pelo guarda-redes e depois chuta, com o defesa do Molelos a evitar o golo, mas a bola para mesmo em cima da linha de golo, com Toninho a surgir, e a marcar o 1-2. O Nespereira dominava completamente o jogo nesta fase, e aos 59’, Carlitos desmarca-se, volta a passar pelo guarda-redes, remata, mas o mesmo guarda-redes recuperou bem, evitando o golo e cedendo canto. E aos 61’, Toninho isola-se e perante o guarda-redes não falha, rematando, mas esta muito devagar vai ao poste, surgindo Carlitos que fez o 2-2, empolgando os adeptos presentes, e motivando os jogadores nespereirenses. Aos 67’, Sérgio Duarte desmarca Pepe, na esquerda, que tira o defesa do caminho, e remata para a intervenção segura do guarda-redes. E aos 69’, é a reviravolta no marcador. Cruzamento na direita, e Carlitos surge no meio da grande área, a cabecear mortalmente para o 3-2. O jogo endureceu um pouco, e começou-se a haver mais faltas, mas mesmo assim, aos 73’, Toninho, na direita, desmarca Márcio na esquerda, que remata para boa defesa do guardaredes visitante. Aos 80’, um cruzamento da direita do Molelos, cruza o campo todo e sai pela linha lateral, com o árbitro assistente a marcar lançamento a favor do Molelos, quando a bola nem bateu em ninguém do Nespereira. Pedro Cardoso agarra a bola para lançar, o adversário agarra em Pedro Cardoso, e este com um gesto liberta-se do adversário, com este a atirar-se ao chão aos berros, e com o árbitro a expulsar Pedro Cardoso, pelo “teatro” do jogador do Molelos. Reduzidos a dez, o Nespereira recuou mais na defesa, tentando manter a vantagem, mas, aos 88’, o avançado do Molelos, isola-se na direita, e remata à barra da baliza de Ricardo. Mas, o Nespereira não conseguiu aguentar a pressão do Molelos, e aos 90’, o jogador visitante desmarca-se na direita, cruza para o segundo poste, surgindo dois avançados, com um a rematar e Ricardo a evitar o golo, mas na recarga, o Molelos não perdoou, marcando o empate, e obrigando assim ao prolongamento. Após um breve interregno, o jogo recomeçou, e logo aos 92’, numa desmarcação na direita, o extremo molelense faz o cruzamento, e o ponta-de-lança visitante marca o 3-4. O Nespereira não baixou os braços, e Pepe, aos 98’, desmarca Sérgio Silva, que remata ao lado da baliza. E aos 111’, o Molelos dá um golpe mortal - parecia mortal –ao Nespereira, quando o avançado do Molelos isola-se e remata para o 3-5. Mas o Nespereira parecia não querer desistir, e aos 114’, Vítor Hugo quase reduz, obrigando o guarda- redes visitante a uma boa defesa. Realce também, para um lance em que Pepe é agredido pelo adversário, com um pontapé na cara, em frente ao árbitro assistente, e desta vez o árbitro não expulsou o jogador. Mas quando o árbitro já tinha dado o tempo de desconto, Miguel desmarca Pepe, e este de frente para a baliza, fora da área, remata para um golo fantástico, a reduzir para o 4-5, que foi o resultado final, acabando por ser eliminado da Taça, mas mostrando finalmente, uma exibição convincente ao público nespereirense. No domingo seguinte, o Nespereira jogou de novo em casa, só que desta vez para o campeonato, onde iria receber o líder invicto Arguedeira e o Nespereira como penúltimo da 75


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA classificação, com apenas 2 pontos, e sem vencer em casa.

O Arguedeira começou cedo impondo o seu ritmo de jogo, e a sua capacidade atlética, aproveitando a velocidade dos seus alas, que logo aos 5’, através de uma desmarcação na esquerda, leva Vilarinho a cometer falta dentro da grande área, e o árbitro Bruno Pereira a marcar grande penalidade, com Edmilson a marcar o 0-1. Mas, quando se esperava uma reacção do Nespereira, surge um balde de água fria para o Nespereira, com Bernardino a se desmarcar na esquerda, e a centrar para o surgimento de Edmilson, na grande área que faz o 0-2. Parecendo um pouco perdida, a equipa do Nespereira aproveitou a desacelaração do Arguedeira , que começou a tentar controlar o jogo, e aos 9’, Toninho desmarca-se na esquerda, passa por Leonel, rematando às malhas laterais da baliza do Arguedeira. O Nespereira começou a querer esboçar alguns ataques, e um deles, ao minuto 15, foi Marcelo que ganha a bola na esquerda, centrando para Pepe que não consegue concretizar em golo. Aos 19’, Marcelo ganha a bola na grande área e depois remata para defesa de Careca, que evita o golo. Apesar da maior pressão nespereirense, o Arguedeira controlava o jogo, e muito calmamente tentava beneficiar de algum espaço e desconcentração que o Nespereira pudesse dar na defesa, e aos 33’, Marcelo, de cabeça, desmarca Carlitos, que no interior da grande área remata para defesa do guarda-redes visitante. O Nespereira começou a crescer, e a tornar-se mais perigoso, aos 38’, Pepe, num livre na esquerda, cruza, para Sérgio Silva desviar para uma defesa segura de Careca. Aos 42’, num mau atraso da defesa visitante para o guarda-redes, Pepe ganha, e quase marca, conseguindo ainda um pontapé de canto. Desse mesmo pontapé de canto, Pepe cruza, e Nuno Cardoso cabeceia, reduzindo a desvantagem para 1-2. Realce ainda, para um lance em que Sérgio Duarte, faz uma entrada mais dura sobre um adversário, e o árbitro perdoa-lhe o segundo cartão amarelo. Chegou-se ao intervalo, com o Nespereira a perder por 2-1. Após o intervalo, André Pinho, introduz Vítor Hugo no jogo, que substituiu Pepe, que esteve muito apagado e perdido, na primeira parte. E logo ao primeiro minuto, o Nespereira demonstrou que iria lutar para um resultado melhor, com Toninho, a rematar de fora da área, por cima da barra da baliza do Arguedeira. E aos 49’, Marcelo na direita, abre para Sérgio Silva, que com muita classe, cruzou rasteiramente, com Careca a não conseguir interceptar, e com Carlitos a igualar o marcador, fazendo o 2-2. Era a euforia entre os adeptos nespereirenses. Mas, se os adeptos nespereirenses estavam eufóricos, mais ainda ficaram, aos 54’, quando numa desmarcação de Toninho, Marcelo de fora da área, aproveita-se da má colocação de Careca, e marca um golo de placa, virando o resultado, agora favorável ao Nespereira, por 3-2. Mas a partir do minuto 57’, começou a confusão… Márcio disputa uma bola na lateral, com Gil, em frente ao banco do Nespereira, quando Sérgio Silva consegue ganhar a bola, Gil agride com um pontapé por trás, Sérgio Silva. Sérgio Silva sente-se e atira-se ao pescoço de Gil, perguntando-lhe irritado “Que merda é essa?”. Gil não hesitou ee começou a agredir gratuitamente Sérgio Silva, e depois todos os que tentavam separar.Os elementos do banco do Nespereira tentaram separar a situação, quando surgem jogadores do Arguedeira a agredir os diversos elementos do Nespereira. No 76


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

meio da confusão, surge um dito suplente do Arguedeira, chamado Daniel Teixeira, que começou a agredir fisicamente os diversos jogadores, suplentes e equipa técnica do Nespereira, tendo “aquecido” o ambiente, e eu vendo aquele jogador a correr na direção do nosso banco, já cego de qualquer razão, empunhei um soco no jogador, tendo ele caído em frente ao banco, onde de seguida, Ricardo Semblano e Rui Teles trataram de imobiliza-lo.Naquela altura, só se viam empurrões, murros, pontapés, agarrões, enfim, uma grande confusão que se arrastou durante cerca de 10 minutos. A determinada altura, dei conta de que alguém me estava segurando pelas costas,e vi um jogador, que até era o “capitão” do Arguedeira, a vir na minha direção, e eu mandei-lhe um pontapé na barriga, só que mesmo na frente do árbitro assistente. Foi aí, que voltei a mim, e tive noção de ter feito asneira. Com o árbitro a intervir, este expulsou primeiramente, Sérgio Silva, e depois Gil, mas voltando atrás, e resolvendo anular o cartão vermelho a Sérgio Silva, mostrando-o a Sérgio Duarte. Ricardo Semblano, que estava no banco também foi expulso, assim como eu, que sai, mostrando ao árbitro, a agressão que tinha sido vitima, com o sangue que tinha ainda no lábio superior, mas tratei de o cumprimentar e reconhecer o meu erro, dizendo-lhe que eu tinha sido bem expulso. Os adeptos irritados com a situação manifestaram-se, e chegou-se a temer, mesmo, algo mais grave, mas não passando apenas de manifestações verbais. Tanto que, o presidente do Arguedeira filmava a confusão, e se não fosse Hernâni Andrade a intervir, os adeptos nespereirenses teriam agredido e partido a máquina de filmar do presidente arguedeirense. Após todos se acalmarem, o jogo voltou ao normal, mas desta vez de 10 para 10. E quando o Arguedeira tentava tirar partido da maior capacidade atlética, aos 67’, Marcelo ganha uma bola no meio-campo, e progride até chegar à grande área adversária, “senta” Careca, e marca o 4-2, dando um maior alívio à equipa da casa, que procurava a primeira vitória da época 2009/2010. O Arguedeira começou a fazer maior pressão, mas os nervos também não ajudavam, assim como o cansaço que se fazia sentir em ambas as equipas, e assim, o Nespereira ia ganhando sempre algum tempo, com o Arguedeira a conseguir reduzir para 3-4, já em tempo de descontos, mas não conseguindo o empate. Arbitragem boa de Bruno Pereira, embora prejudicativa no momento da confusão, ao Nespereira, esquecendo-se de expulsar o jogador do Arguedeira que se deslocou do banco deles, para o banco do Nespereira, para agredir os elementos; o guarda-redes Careca, que quase empurrou um GNR, e que quase agredia o árbitro; assim como o massagista Augusto Ferreira, que tentou agredir-me, durante o jogo. Mas, de resto, o árbitro esteve bem, assim como os seus auxiliares. Antes do jogo, ouvimos nos balneários deles, o treinador durante a palestra, dizer que era fácil nos bater, e que eles seriam o Real Madrid desta divisão. Então no final me dirigi para o treinador deles e disse: - Se vocês são o Real Madrid, nós somos o que? O Barcelona?- e naquele meu estilo tipicamente cínico, dei um sorrisinho e virei as costas vindo embora! Mas o Nespereira mostrou-se muito irregular,com os maus resultados do Nespereira prevalecendo, e chegou-se à última jornada, dependente do resultado do Vilamaiorense. O jogo era em casa contra o Vouzelense. Ao Nespereira bastava ganhar. Caso o resultado fosse outro, bastava ao Vilamaiorense perder, pois se o Vilamaiorense empatasse, e o Nespereira perdesse, o Nespereira iria para a liguilha, disputar quem iria descer de divisão. 77


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

Quando tudo se decidia no último jogo do campeonato, o Nespereira FC acabou por claudicar frente à aguerrida formação do Vouzelense, perdendo em casa por 1-2 e ficando dependente do resultado do Vila Maior que, perdendo por 4-1, acabou por beneficiar a turma cinfanense que, mesmo derrotada no seu reduto, acabou por confirmar a manutenção na 1º Divisão Distrital de Viseu. Este foi, sem dúvida, um jogo para esquecer….por vários motivos! Jogo irritante foi contra o Fornelos. Dias antes, quando soube quem seria o árbitro do Fornelos vs Nespereira, descobri que ele era um conhecido meu, e entrei em contato com ele, e expliquei-lhe a situação que o Nespereira vivia, e ele acedeu em ajudar o Nespereira, no jogo contra o Fornelos. O Nespereira ia então para o “derby” concelhio, precisando apenas de uma vitória para garantir a manutenção. O Nespereira entrou bem no jogo e conseguiu mesmo surpreender a formação da casa, conseguindo abrir o activo bem cedo, logo aos 9 minutos, por intermédio de Carlitos, que finalizou da melhor forma um cruzamento perfeito para cima da área do Fornelos. A equipa de Victor Vasconcelos tentou reagir de imediato, mas os visitantes não se atemorizaram e mantiveram uma toada ofensiva forte, desperdiçando até algumas oportunidades para aumentar a vantagem. O Fornelos procurou chegar ao empate e o golo só não aconteceu porque a trave devolveu, aos 39 minutos, um potente remate de Celso, um avançado em dia de inspiração, que já perto da primeira metade viu um golo anulado, por provável fora de jogo. Igualdade que chegaria já nos descontos da primeira parte, aos 47 minutos, num lance de belo efeito concluído por Ricardo, seguindo-se uma fase de alguma supremacia dos homens da casa que, empolgados com o empate conquistado, evidenciaram forte vontade de abrir mais o último reduto da equipa visitante. E foi aos 73 minutos que, uma vez mais Celso, no miolo da área, não desperdiçou a oportunidade de uma recarga com êxito para desfazer a igualdade e inverter a situação. No entanto, os comandados de André Pinho não se deram por vencidos e, forçando o ataque, conseguiram mesmo fazer a equipa da casa recuar no terreno e defender a vantagem com “ unhas e dentes “, evidenciando alguns calafrios e provocando algumas faltas, que o árbitro foi castigando com amostragem de alguns amarelos. E foi no último quarto de hora, ocasião em que visitantes já tinham de novo equilibrado partida, que a história do jogo poderia ter sido outra, com um desfecho bem diferente, com duas grandes penalidades a serem desperdiçadas pela nossaequipa, primeiro aos 77 minutos por Pepe, e depois por Vilarinho aos 83 minutos, com o guardião Hugo Maciel a ser o verdadeiro herói da jornada, com duas grandes defesas a empolgar os adeptos locais e a consolidar a vitória caseira, deixando-me completamente irritado, porque naquela situação senti que todo o meu trabalho semanal para tentar garantir a manutenção, acabou sendo infrutífera, além de ter que aturar um adepto do Fornelos, de Travanca, que é GNR, mas que passou a segunda parte toda a me insultar, no banco. Vergada ao peso de uma derrota tangencial, a equipa de Nespereira só se pode queixar de si própria, até porque fazendo um bom jogo e merecendo pontuar numa fase de imperativa necessidade, deixou fugir uma vitória que esteve perfeitamente ao seu alcance…há dias de azar !!!

78


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

Depois da excelente exibição no “ derby” de Fornelos, nada fazia prever que a formação orientada por André Pinho estivesse nesta partida tão apática, muito abaixo das suas possibilidades e não demonstrasse a dinâmica de vitória que se exigia neste jogo decisivo, que despertava expectativas. A verdade é que, contra um adversário visivelmente mais forte e com uma estrutura mais organizada, o Nespereira até entrou melhor no jogo e deu a entender que queria resolver as coisas por iniciativa própria, sem necessitar da ajuda de terceiros, obrigando a equipa contrária a recuar no seu reduto e a reforçar a linha defensiva, dominando a primeira metade com uma estratégia embora simples, mas que resultou eficaz. E foi num perigoso contra-ataque que, aos 30 minutos, Sérgio Duarte abriu o activo para a formação de Nespereira, num golo de belo efeito e pleno de oportunidade, fazendo crer que o entusiasmo da equipa cinfanense potenciava uma atitude vencedora e bem encaminhada para festejar a manutenção num ambiente caseiro, de alegria partilhada com adeptos e massa associativa, até porque, já antes, os nespereirenses reclamaram um penalty justo, por derrube de Toninho bem dentro da área visitante. Mas logo a seguir, aos 37 m, uma paragem forçada do jogo, por lesão do guarda-redes visitante, que viria a ser substituído, alterou o rumo dos acontecimentos e a equipa forasteira parece que ganhou mais garra e vontade de dar a volta ao resultado. E o empate chegou depois do intervalo, aos 56 minutos, por intermédio de Meireles, que num remate bem colocado bateu o guardião Jorge Ramalho, bastante infeliz na recepção do esférico, para pouco tempo depois, ser desfeita a igualdade, num oportuno golpe de cabeça de Bispo a aproveitar bem um cruzamento para o miolo da área nespereirense, desta vez isento de qualquer culpa o guardião local. Como lhe competia, o Nespereira tentou reagir de imediato, mas o reduto defensivo dos visitantes estava coeso e bem estruturado e as maiores situações de perigo iam sendo anulados logo á entrada da área, o que deixava perceber que a equipa de Vouzela ia defender a vantagem com naturalidade, procurando depois, o avanço no terrenos dos homens da casa, para explorar o contra ataque. Só que, aos 77 minutos a história do jogo ficou manchada por um caso vergonhoso, que originou a violência e agressões entre os jogadores de ambas as equipas, com cenas de pugilato e pancadaria no meio do campo, com os poucos efectivos da GNR presentes a mostrarem-se impotentes para segurar o ímpeto agressivo dos atletas e de alguns assistentes que, entretanto, também se quiseram juntar à contenda, entrando pelo recinto de jogo. Talvez, motivado por algumas picardias anteriores, Carlitos deixou um adversário estatelado no chão e o árbitro de imediato mostrou-lhe o caminho do balneário com um vermelho directo, decisão que o avançado nespereirense não aceitou bem e, numa atitude reprovável e inqualificável, correu a “ despejar “ a sua revolta para o atleta vouzelense deitado no solo, pontapeando várias vezes, sem lhe dar hipótese de defesa. A situação piorou porque todos começaram a correr em direção a Carlitos e ao adversário que estava no chão, que de repente vi Pedro Cardoso correr em pleno vôo, com o pé em riste, acertando um pontapé num adversário. Houve uma certa hesitação da parte do “banco”, em relação à intervir, mas acabamos mesmo por nos dirigirmos ao centro do terreno, para tentar separar a confusão. Ricardo Semblano ainda acabou 79


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

agredindo o central do Vouzelenses, e depois em debate de razões, e o treinador do Vouzelenses lá falou qualquer coisa que não agradou a Jorge Ramalho, com este a desferir um murro no treinador, que ficou com a boca ensangüentada, acabando por ser expulso posteriormente, e vendo também a Mãe de Carlitos, Rita Monteiro, que tentava invadir o campo, mas que foi prontamente parada pelos guardas presentes e dirigentes.

Uma atitude lamentável que estragou definitivamente o jogo, com os atletas a envolverem-se em agressões, com dirigentes a tentar acalmar os ânimos e a GNR a tentar impedir a invasão do campo e a proteger a equipa de arbitragem que, mesmo assim, ainda, conseguiu identificar e expulsar alguns jogadores de ambas as equipas, intervenientes na contenda, ficando a partida interrompida mais de um quarto de hora. Depois de se mostrar tentado a não prosseguir a partida, alegando falta de condições de segurança, o trio de arbitragem acabou por aceder às “ negociações “ connoscodelegados de ambas as equipas- e informou-me que havia sido expulso três jogadores do Nespereira, e o jogo acabou por ser reatado 15 minutos mais tarde, com o Nespereira com oito e a equipa de Vouzela com apenas nove jogadores em campo. Quando cheguei ao “banco”, André estava mandando Miguel Vieira vestir a camisola de guarda-redes, julgando que Ricardo Semblano havia sido expulso, mas aí informei que não, tendo Ricardo ido para a baliza do Nespereira. O tempo restante, nada trouxe de novo a uma jornada que poderia ter terminado em harmonia e saudável convivência desportiva, até porque, sendo o resultado do Vila Maior desfavorável, o Nespereira FC mesmo derrotado em casa, acabou por assegurar a manutenção, e seria bem escusado passar por esta vergonhosa situação que, certamente, em termos de acção disciplinar, lhe vai trazer alguns dissabores. 80


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA

Apesar do reforço da GNR, que entretanto chegou, o final da partida decorreu sem incidentes, mau grado a possível apresentação de queixas registadas à força de segurança, por alguns envolvidos na agressões que marcaram negativamente um jogo, que tinha tudo para ser uma festa em final de época. O treinador nespereirense André Pinho era, visivelmente, um homem triste e desiludido, pelo que nem sequer valia a pena ouvir a opinião do técnico que, tudo fez, para que a equipa de Nespereira pudesse sair prestigiada e de cabeça levantada no final do campeonato. Chegando nos balneários, as palavras de Ruizito marcaram imensamente, quando informou que era o último ano que ele jogava futebol, e que não queria uma despedida assim. No final o Nespereira acabou em 10º lugar,quase descendo de divisão. Jorge Ramalho também optou por não dar continuidade ao seu trabalho como presidente do Nespereira. Nesta gestão de Jorge Ramalho, este conseguiu consolidar o trabalho das camadas de formação, nas camadas mais novas. Após algum tempo de hesitação, Paulo Rodrigues decidiu avançar com a candidatura para a presidência do Nespereira FC. Sem experiência alguma, Paulo Rodrigues, diz que foi incentivado pelo seu “vice” Amadeu Teixeira a aceitar o cargo. Visto como um possível desastre, todos os elementos da “cúpula” nespereirense, decidiu não alinhar, deixando Paulo Rodrigues sozinho, com as pessoas que ele queria que o acompanhassem: Armindo “Nelito” Semblano e Amadeu Teixeira, esperando que houvesse alguma reação por parte da direção anterior. Da direção anterior, eu acabei sendo convidado, e fui para o cargo de Secretário da Direção. Paulo Rodrigues era um “sonhador” muito tagarela. Mas com imensa vontade de vencer realmente! No dia 17 de Julho de 2010, Paulo Rodrigues tomou posse e assim, começou logo a trabalhar, em prol do clube. Auxiliado por Acácio Santos, Paulo Rodrigues foi buscar o treinador José Alves, que foi exjogador do Leixões. Num convívio feito a partir de um porco no espeto, Paulo Rodrigues apresentou à Direção e aos jogadores, José Alves, e informou da contratação de Sandro (ex- Amigos da Cave/94) e o regresso de Helder (ex- Rio de Moinhos). Nisso, a sua contratação era gratuita, mas a dos jogadores que pretendia já não era assim. Todos os jogadores foram negociados, entre o Presidente, eu e o Tesoureiro, Aníbal Semblano. Branco, Paulo Fernandes, Cadinha, Helder, Mexicano, Bruno Teixeira, Carneiro, Jorginho, Lino, João Eugénio, Pedro Vilarinho, Sandro e Valter foram as aquisições do Nespereira para a época 2010/2011, sendo a época que mais aquisições teve de sempre. José Alves trouxe consigo também o adjunto Guerra, e o fisioterapeuta inglês Andrew Shore. José Alves era um treinador bastante carismático, e bastante exigente, mas também muito explosivo. Um dos jogadores que Paulo Rodrigues queria que assinasse pelo Nespereira, era Carlitos, mas Amadeu Teixeira, não quis, alegando que a inscrição de Carlitos era desnecessária, e que ele era um jogador completamente dispensável, porque estava forte fisicamente e era indisciplinado. Esta informação acabou fugindo, e caiu nos ouvidos da Mãe de Carlitos, que chegou a tirar satisfação com o próprio “vice” do clube. O seu primeiro desafio foi a deslocação para a Taça, a Canas de Santa Maria. A comitiva 81


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA nespereirense saiu eram 10 horas da manhã, acompanhados de alguns adeptos que fizeram questão de se deslocarem para ver o jogo. Parou-se em Viseu, para almoçarem, no Lanxeirão, perto do IPJ, no Fontelo, seguindo-se depois o trajecto para Canas de Santa Maria. Arbitrado por Tércia Santos, o treinador José Alves, apresentou o seguinte “onze”: Branco; Cadinha, Diogo Batista, Vilarinho, Nuno Cardoso; Marcelo, Mexicano, Vítor Andrade(Sérgio Silva); João Eugénio (Hélder), Jorginho e Sandro (Paulo Fernandes). O Nespereira começou o jogo muito confiante, e logo cedo, aos 5 m, marcou o primeiro golo, através de um remate muito bem colocado de Diogo Batista, que na entrada da área não perdoou. O Canas de Santa Maria era uma equipa muito dura, que jogava muito perigosamente, pondo em risco por diversas vezes, os jogadores do Nespereira, mas com a árbitra em causa, a deixalos fazerem esse mesmo jogo. Aos 22 m, o Canas de Santa Maria marca, através de um livre no lado direito da defesa nespereirense, em que numa falha de marcação no segundo poste, permitiu ao avançado da casa, marcar o golo do empate. A partir daqui, o jogo perdeu um bocado o sentido, e começou-se a ver muita dureza em campo, e muitos jogadores no chão. Ao intervalo, o resultado era o empate a um golo. Na segunda parte, José Alves optou por tirar Vítor Andrade e João Eugénio, e meter Sérgio Silva e Helder, no meio campo. O Nespereira tentava progredir no terreno, mas muito dificilmente conseguia, derivado à dureza dos jogadores da casa. Mas, eis que surge o lance do jogo… numa tentativa de ataque do Canas de Santa Maria, Branco vê-se sozinho com um adversário isolado, e agarra a bola fora da área, tendo a árbitra e o seu assistente visto, e marcado livre indirecto, e expulsando Branco. Na sequência do lance, José Alves, logo substituiu Sandro, pelo guarda-redes suplente Paulo Fernandes. A jogar com 10, o Nespereira ainda teve momentos de aflição, mas que conseguiu se sair muito bem, tendo dois lances de realce. Um, Diogo Batista consegue se isolar, e em frente ao guarda-redes remata a à figura deste, e noutra, Marcelo quase consegue marcar o 1-2, mas com a bola sendo salva em cima da linha de golo, pelo defesa da casa. Assim, chegou-se ao final, com um empate, recorrendo-se ao prolongamento. No dito prolongamento, nada de mais se viu, a não ser o sempre duro e perigoso jogo da equipa da casa, que tudo tentou para levar às grandes penalidades. No final dos 120 minutos, foi mesmo necessário recorrer às grandes penalidades, com Vilarinho a ser o primeiro a bater, e a converter em golo. De seguida, o defesa do Canas de Santa Maria permite a Paulo Fernandes, uma excelente estirada, evitando a conversão da grande penalidade, tendo seguido depois, Nuno Cardoso, Marcelo e Helder a converterem, e por fim o guarda-redes do Canas de Santa Maria, a falhar, rematando ao lado. No final, vitória do Nespereira, na 1ª Eliminatória, seguindo junto com o Fornelos, para a próxima eliminatória, sendo as únicas duas equipas cinfanenses “sobreviventes” na Taça. A explosividade de José Alves ainda valeram-lhe algumas dores de cabeça- a ele e a nós, dirigentes- como em Moimenta da Beira, que ao ser provocado resolve insultar o público, ou em Arguedeira, em que, ameaça agredir um adepto, tendo depois o público todo querido 82


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA “acertar-lhe o passo”, tendo sido expulso do “banco” em duas ocasiões: uma contra o Campia, em casa, e outra em Castro Daire, fora. O Nespereira deslocou-se à cidade de Tarouca, a fim de defrontar a equipa do Arguedeira, para a realização da 4º Jornada da 1ª Divisão. O Nespereira encontrava-se em 3º lugar, com 6 pontos, enquanto o Arguedeira, vinha motivado de um empate, num terreno nada fácil, como o de Moimenta da Beira, e se encontrava em 4º lugar com 5 pontos, apenas um do seu adversário. José Alves resolveu fazer algumas alterações, e após o anúncio da impossibilidade de jogar de Marcelo, em que Lino entrou, José Alves tirou Sandro, para meter Bruno Teixeira no “onze” inicial. No relvado sintético do Municipal de Tarouca, o árbitro Tiago Rodrigues deu inicio ao jogo, com o Nespereira a ser o primeiro a atacar, através de uma jogada iniciada por Sérgio Silva, que desmarcou Diogo Batista na esquerda, e este cruza, surgindo Bruno Teixeira no segundo poste, que não conseguiu concretizar por duas vezes seguidas. O Arguedeira tentava aproveitar a velocidade das suas alas, principalmente através de Lukinha, que estava mais descaído na direita. Passou-se um período de pressão arguedeirense, que constantemente, tentava ganhar a linha de fundo, mas com a defesa do Nespereira, sempre muito concentrada a defender, a evitar a concretização do golo. Num jogo muito táctico, principalmente no meio-campo, aos 21’,o Arguedeira consegue desmarcar Lukinha, nas costas da defesa nespereirense, que passa por Branco, mas este, não consegue evitar o contacto, derrubando assim o adversário, e com o árbitro Tiago Rodrigues a assinalar grande penalidade a favor do Arguedeira, expulsando Branco, com um cartão vermelho directo. Jorginho que se encontrava lesionado, e já estava preparado para ser substituído por Sandro, acabou por ser substituído por Paulo Fernandes, que entrou no momento da grande penalidade. Na sequência da grande penalidade, Lukinha bate o penâlti permitindo a defesa de Paulo Fernandes, que rechaçou a bola para a frente, e com Lukinha na recarga a rematar por cima da baliza. Isto parece que enervou um pouco o Arguedeira, que apesar de estar com um elemento a mais, pareceu que ficou um pouco perdido, e muito dependente da velocidade dos seus alas. Aos 28’, André faz falta sobre Bruno Teixeira, na entrada da grande área, com o árbitro a assinalar falta frontal. Na sequência do livre, Lino remata encostado ao poste esquerdo de Quim, com este a fazer uma grande estirada, evitando o golo do Nespereira. No minuto seguinte, o Arguedeira beneficia de um livre no lado direito do seu ataque, em que, Edmilson remata contra a barreira, ganhando um canto. O Arguedeira tentou “crescer” novamente no terreno, e tornou-se mais pressionante, obrigando o Nespereira a uma ginástica táctica incomum nas hostes nespereirenses, apesar de nem sempre correr bem, como foi um caso, em que, aos 31’, Lukinha se desmarca na direita, ganhando espaço e rematando por cima da baliza de Paulo Fernandes. Aos 40’, o Nespereira beneficia de um livre na direita, batido por Cadinha, que cruzou para o meio da área, surgindo Lino que dá de cabeça para a entrada da grande área, surgindo Nuno Cardoso, que aguenta uma falta cometida sobre si, e remata por cima da baliza. O Nespereira teve a sua melhor hipótese, perto do intervalo, aos 44’, num pontapé de canto, 83


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA no lado esquerdo, executado por Diogo Batista que cruzou para o segundo poste, surgindo Lino, que cabeceou ao lado, às malhas laterais da baliza de Quim. Ao intervalo, o resultado era um empate a 0 golos. Na segunda parte, o Nespereira voltou mais confiante e mais objectivo que o Arguedeira, que optou pela tentativa de pressão mais física, mas sempre com os olhos postos na velocidade dos seus alas. Aos 47’, Cadinha, numa jogada individual, ganha espaço, e de longe remata para uma boa defesa de Quim, com Helder a repetir o seu colega, mas de mais longe, aos 51’, rematando sem muita força, mas de forma traiçoeira, com o guarda redes da casa a deixar a bola escapar para canto, com muita sorte. Aos 57’, Pauleta isola-se num contra-ataque, e disputando a bola com Nuno Cardoso, não consegue concretizar, acabando no chão, com o sobrolho aberto. Nesta altura, José Alves resolveu mexer na equipa, e assim substituiu o cansado Lino pelo atacante Sandro. Logo no minuto seguinte à sua substituição, aos 60’, Cadinha, na direita, cruza, surgindo Sandro no segundo poste, dominando bem a bola, mas rematando ao lado. E aos 65’, o Arguedeira tem a melhor oportunidade da segunda parte, com uma jogada na direita de Gil, que cruzou a bola para o meio da área, Paulo Fernandes não consegue interceptar, e surgindo Nuno Gomes, no segundo poste que cabeceou para a baliza aberta, mas surgindo Vilarinho, que salva o Nespereira de sofrer um golo, em cima da linha. Nos minutos seguintes, então notou-se um maior nervosismo, e alguma perda de controle por parte dos jogadores do Arguedeira, que se tornaram muito mais duros, e notou-se claramente, as constantes picardias entre Cadinha e Edmilson, com Edmilson a agredir claramente Cadinha, no meio campo, e a provocar entradas duras no jogador nespereirense. Esta sequência de situações levou a uma clara irritação do banco nespereirense e dos seus jogadores, que tentavam chamar a atenção do árbitro e do seu auxiliar para a situação que do campo, transferiu-se para fora, com um claro bate-boca entre o público e o treinador do Nespereira, José Alves, criando-se ali, um ambiente, em que a GNR foi obrigada a intervir para garantir a segurança do banco nespereirense, devido a alguns adeptos do Arguedeira, que demonstraram intenção de agredir o treinador do Nespereira, sanando-se rapidamente a situação. O tempo passava e o Arguedeira, tentava pressionar mais, e jogar mais em ataque continuado, tentando beneficiar do factor de jogar com mais um que o Nespereira. Já com João Eugénio em campo, no lugar do lesionado Bruno Teixeira, o Nespereira optou por jogar no contra-ataque, tendo no último quarto de hora, sido a equipa mais perigosa do jogo, beneficiando das melhores hipóteses. Aos 83’, Sérgio Silva na direita, consegue desmarcar Sandro, que em velocidade remata ao lado, e passados 3 minutos, volta a ser desmarcado por Cadinha, mas surgindo desta feita na esquerda, passando por um dos centrais do Arguedeira, e rematando à figura de Quim. Aos 90’, os adeptos do Nespereira ainda gritaram “Golo”, quando Sandro consegue desmarcarse, domina bem a bola, e rematou rasteiro para uma defesa bonita de Quim. No final do jogo, um empate que pode ser considerado um bom resultado, num campo que tradicionalmente, para o Nespereira não é nada fácil! A arbitragem de Tiago Rodrigues pode-se considerar aceitável, embora tenha pecado em alguns pormenores disciplinares, como na expulsão de Helder, por acumulação de amarelos, 84


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA aos 90+3, mas demonstrando uma postura bastante profissional. Jogo memorável foi o derby entre o Nespereira e o Oliveira do Douro, em Nespereira. No dia 21 de Novembro de 2010, o Nespereira FC realizava mais um jogo em casa, para a 5ª jornada da 1ª Divisão Distrital da AF Viseu, desta feita, num “derby” concelhio contra o Oliveira do Douro. O jogo prometia ser interessante, com duas equipas bastante aguerridas e audazes, como tem sido durante os anos anteriores. José Alves, apesar de castigado, esteve assistindo o jogo perto do banco de suplentes, da sua equipa, sendo esta, orientada realmente pelo treinador-adjunto, Albino Guerra. José Alves, optou por “arriscar” este “onze”: Branco; Cadinha,Mexicano, Nuno Cardoso, Vilarinho; Sérgio Silva, Pepe, Helder; Jorginho, Sandro, Lino. Jorginho, que veio de uma lesão, foi opção certa para José Alves, que também optou por deixar Diogo Batista no banco, por alegada lesão. Com um tempo instável, mas convidativo o suficiente para assistirem um jogo de futebol, o “Isidro Semblano” teve uma moldura humana bastante considerável, até porque de Oliveira do Douro, deslocaram-se imensos adeptos, principalmente do sexo feminino. O jogo iniciou-se, com o Oliveira do Douro a atacar, e o Nespereira a ter algumas dificuldades em sair com a bola controlada, até porque, fisicamente, a equipa duriense era bastante mais forte que a nossa. Foi então que aos 3’, o Oliveira consegue um livre no lado esquerdo do ataque duriense, e então nesse mesmo livre, batido por Zé Mário, Branco sai-se mal, larga a bola, e então, Palito com a coxa, acerta na bola, rematando, quase sem querer, por cima, causando os primeiros calafrios na defesa nespereirense. O jogo no meio-campo começou a endurecer, e então numa sequência de um lance de uma bola dividida, entre Kekes e Sérgio Silva, o último ganha a bola, com o jogador oliveirense a acabar no chão, reclamando falta, mas Sérgio Silva continuou, desmarcou Sandro, que descaído na direita, já tinha passado pelo guarda-redes Moka, quando este “traça” completamente, fora da área, Sandro, que acaba estatelado no chão. Esta foi a jogada que chamou mais a atenção para todo o jogo, porque, nisso tudo, o árbitro não marcou falta, surgiram os primeiros protestos, e então, o árbitro mostra o primeiro cartão amarelo a Jorginho, aos 7’. O jogo estava fervoroso, e o Nespereira parecia começar a tentar atacar, cada vez mais, e já começava a mostrar alguma superioridade, mas aos 10’, Jorginho ganha no um para um a Mosteirô, e é agarrado por este último, acabando no chão, mas com o árbitro a interpretar que Jorginho simulou uma falta, acabando por mostrar o segundo cartão amarelo ao mesmo, e expulsando-o assim, criando um ambiente de protesto imenso entre o público presente, e mesmo dentro das linhas. Após a saída de Jorginho, que saiu do campo em lágrimas, José Alves opta por mexer na equipa, e tira Pepe, metendo Pedro Vilarinho. Não tendo muitos resultados práticos inicialmente, o Nespereira ficou um tempo de cabeça perdida, e o Oliveira conseguia jogar mais prático, e ser mais objectivos. Então, aos 21’, numa jogada na grande área do Nespereira, Palito, remata para a baliza, Branco defende para a frente, e surge a defesa da casa a aliviar a bola para fora. Aos 27’, o Oliveira chegaria ao golo que “gelou” os adeptos nespereirenses todos, num cruzamento do lado esquerdo, de Zé Mário, que cruzou com conta e medida para Kekes que 85


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA surgiu oportunamente entre os centrais nespereirenses, e marcou assim de cabeça o 0-1. O Nespereira tentou responder logo, e aos 31’, Helder, de longe, remata para defesa apertada de Moka. O jogo continuava a ser viril, embora se apercebesse que o público não estava satisfeito com a arbitragem, que durante o jogo todo, demonstrou uma dualidade de critérios, e conseguiu fazer muitas asneiras no desempenho das suas funções. Aos 36’, Lino consegue passar pelo defesa esquerdo do Oliveira do Douro, centra para o surgimento de Pedro Vilarinho, que remata para defesa segura de Moka. Até ao intervalo, quem fazia a festa, era a claque do Oliveira do Douro, que ganhava, ao intervalo, por 1-0. Após o intervalo, o Nespereira não fez modificações, apenas sendo o Oliveira do Douro, que decidiu substituir Vítor Hugo por Renato, tentando se aproveitar da superioridade numérica da equipa visitante, escolhendo um jogador mais rápido. O Nespereira voltou na segunda parte, mais objectivo, e essa intenção, viu-se aos 49’, quando Moka, numa reposição de bola, falha, chutando mal a mesma, e esta cai nos pés de Helder, que tenta fazer um chapéu ao guarda-redes visitante, mas o mesmo consegue recuperar a posição e defende para canto. Logo de seguida, no minuto 53, Nuno Cardoso alivia mal, e Jorge André ganha posição e remata ao lado da baliza de Branco. Aos 57’, cruzamento na esquerda para o centro da grande área do Oliveira, e Sandro foi completamente “traçado” por Zé Mário, com o árbitro Adelino Duarte, a assinalar grande penalidade para o Nespereira. Apesar dos diversos protestos que a equipa do Oliveira do Douro fez, discordando da decisão do árbitro, este manteve a sua posição, e assim, Cadinha, aos 58’, fez o golo do empate, que levantou o animo ao “Isidro Semblano”. Foi a vez do Oliveira do Douro ficar meio perdido no jogo, e entretanto, num daqueles períodos relâmpagos do Nespereira, que tem nos habituado nos últimos jogos, três minutos depois, aos 61’, contra-ataque do Nespereira, com Pedro Vilarinho a chegar antecipadamente a uma desmarcação, aproveita a saída de Moka, remata para a baliza, esta bate na barra, e depois no chão, surgindo Lino, que de cabeça, aproveitou para marcar o primeiro golo no campeonato, seu segundo no Nespereira, pondo a equipa da casa, em vantagem, pondo o público nespereirense em estado efusivo. A partir daqui, o Oliveira do Douro perdeu realmente a sua objectividade, apesar de ter lutado imenso, mas o jogo viril, que o Oliveira do Douro nos habituou, começou a tornar-se violento e perigoso, com imensas faltas ríspidas. Aos 71’, o Nespereira, na esquerda, cruza para a grande área, surgindo Hélder, no meio, sozinho, a rematar por cima da baliza duriense. Aos 74’, o Oliveira tem uma excelente oportunidade, através de Palito, que rematou para uma defesa excelente de Branco. Logo de seguida, numa jogada disputada entre Cadinha e Kekes, ambos se envolvem, com Cadinha a ser agredido pelo jogador visitante, surgindo um burburinho, junto ao banco oliveirense, em que houveram alguns empurrões entre jogadores, equipa técnica, suplentes, acabando o árbitro por expulsar Kekes e Diogo Batista. O ambiente começou a ficar mais pesado entre os bancos de suplentes, que acabaram por se envolver numa espécie de trocas de palavras nada simpáticas entre alguns elementos, com 86


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Renato também a trocar alguns “elogios” com o treinador do Nespereira, Albino Guerra. O jogo estava muito nervoso, mas o Nespereira parecia melhor psicologicamente, parecendo controlar as investidas do Oliveira do Douro. Aos 87’, Bruno Teixeira, que tinha entrado para render Sandro, consegue passar na direita, pelo defesa do Oliveira, e quase marca, num cruzamento rasteiro traiçoeiro, com Moka a defender. Já mesmo de cabeça perdida, o Oliveira subiu e arriscou, com o Nespereira a defender bem, e num contra-ataque, em que Vilarinho subia isolado com a bola, Mendes rasteira por trás, o jogador nespereirense, sendo expulso pelo árbitro Adelino Duarte. Do livre, Nuno Cardoso tentou a sua sorte, mas não conseguiu acertar na baliza. No final, nervos à flor da pele, da parte da equipa do Oliveira, com alguns elementos da equipa visitante, a criarem uma confusão dentro do campo, tentando tirar satisfações com a equipa técnica do Nespereira, e ameaçando a integridade física da comissão técnica do Nespereira, quando esta for visitar Oliveira do Douro. Nelinho se encontrava insuportável, insultando todos, ameaçando todos, até que cheguei a um ponto que já não o aturava mais e disse-lhe “os cães ladram e a caravana passa!”, o que o irritou mais ainda! Ainda se demorou a recolherem todos aos balneários, com muitos protestos e muito barulho da parte dos adeptos oliveirenses, que insultaram o árbitro na entrada do túnel. Sandro ainda aproveitou para agredir à traição, Renato, sendo prontamente reprovada esta atitude, por todos os presentes do Nespereira. O Nespereira demonstrou uma garra e uma força fenomenal, neste jogo, conseguindo dar a volta ao resultado, jogando com menos um. Ultimamente, nos jogos do Nespereira contra o Oliveira do Douro, tenho criticado imenso a postura dos nossos jogadores, porque uma grande parte deles se afirmam amigos dos outros jogadores, e tem medo de fazer uma falta necessária para travar um adversário. Mas os outros, não! Nós somos amigos dos de Oliveira do Douro, mas pelos vistos eles não são nossos! Porque acabamos sempre com alguém lesionado, sempre por levar cacetada. E nós a jogarmos, às vezes parecíamos “amaricados”, com medo de aleijar alguém! O pessoal tinha que se mentalizar que jogar é para ganhar. Os jogadores podem estar ali só por ter prazer em jogar, mas quem dirige e quem paga para ver, quer ver o clube ganhar. Por isso, as amizades para mim, ficam do lado de fora do campo. Até porque os amigos perdoam, os adversários não! O Nespereira foi conseguindo ser invencível em casa, até a altura de chegar o Fornelos, que valeu a primeira derrota do Nespereira FC perante o Fornelos, em casa. José Alves foi um treinador bastante polémico, e também muito contestado. Fora o Nespereira só conseguiu o empate como Arguedeira, perdendo todos os jogos. Em casa, ganhava, mas não satisfazia o público, que detestava literalmente o “veterano” avançado Lino, que consideravam muito ineficaz. Apesar do Nespereira passar muito tempo na parte de cima da tabela, muitas coisas iam se passando nos bastidores, bastante prejudiciais ao clube. Foi a constante ausência do presidente durante a semana, e os comentários exagerados do “vice”, que ao invés de tentar resolver as situações, optava por “tirar a água do capote” e criticar a ausência do presidente; foram as goleadas de Castro Daire e de Mortágua; a denúncia de um jogador contratado, que afirmou que o treinador cobrava uma comissão, para cada jogador contratado, para ele jogar; a progressiva desistência dos jogadores contratados; 87


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA as degradantes condições de trabalho à nível elétrico, e ainda a chamada da Câmara Municipal que reuniu com todas as associações do concelho, para informar que iriam fazer cortes nos subsídios, de cerca de 10%- situação até que resolvi intervir, indo ao púlpito dizer que compreendia-se o motivo dos cortes, mas que também haveria necessidade de fazerem-se cortes nas Festas de S. João-, etc. A determinada altura, o “vice” Amadeu Teixeira, resolve pedir a demissão do cargo que exercia, devido a discordâncias com o presidente Paulo Rodrigues. Amadeu Teixeira era muito polémico e impulsivo, acabando por vezes, por falar coisas publicamente, que deixavam a Direção em situações bastante complicadas. Um dia, no jantar de Natal do Rancho, já com as relações meio tremidas, Amadeu Teixeira resolve acusar publicamente na frente de todos, Paulo Rodrigues, de incompetência e de só se querer exibir, com Paulo Rodrigues ouvindo todas as acusações de Amadeu Teixeira. Todos esperavam uma acesa reação de Paulo Rodrigues, mas este deixou Amadeu Teixeira falar tudo, e depois que ele acabou, revelou publicamente que foi Amadeu Teixeira que foi à casa dele para convence-lo a assumir a presidência do clube, com o argumento de que os dois seriam os injetores de dinheiro do Nespereira FC, e aí, Paulo até o acusou de não estar cumprindo com a parte dele, pois os dois teriam acordado, cada um pagava um mês a totalidade da folha de salários, só que Amadeu Teixeira pagou apenas um mês, e Paulo Rodrigues teria pago já três meses, porque Amadeu não terá se interessado por pagar um mês da folha de salários. Paulo Rodrigues ainda acusou Amadeu Teixeira de se ter interessado pela sua pessoa, para Presidente, por saber que Paulo, pelos seus negócios não podia estar presente a 100%, durante as semanas, e que o interesse de Amadeu seria de mandar ali no clube, e o Paulo injetar o dinheiro. Só que o tiro saiu-lhe pela culatra, porque apesar de tudo, Paulo apesar da sua ausência, sempre foi muito interessado e muito fiscalizador, denunciando logo, que não gostava de abusos. Esta discussão acabou com o ambiente total de concordância entre os dois, e então, Amadeu Teixeira pediu a sua demissão. Só que aí, com a demissão de Amadeu Teixeira, o salário de dois jogadores (Bruno Teixeira e Jorginho) era um compromisso pessoal dele, e ele não demonstrou qualquer interesse em pagar esses salários, tendo que ser Paulo Rodrigues a assumir esse compromisso sozinho. Paulo Rodrigues, conhecido pelo apelido “Barrento” foi alvo de bastante escárnio, de bastante critica, porque era visto como “novo-rico parolo”, mais interessado em demonstrar a sua riqueza, do que propriamente em ajudar o clube nespereirense.Mas, só mesmo quem trabalhou com o Paulo, pode dizer que afinal ele não era nada disso. Paulo é ambicioso, mas nesta situação, ele nunca tinha estado por dentro do futebol, e não sabia como o esquema funcionava. Paulo Rodrigues, realmente entrou com vontade de soltar algum dinheiro para o sucesso do clube, mas contava com o apoio financeiro de Amadeu Teixeira-que prometeu dividir as despesas do clube com ele- e com Acácio Santos, que era o maior patrocinador do Nespereira. Mas Paulo não tinha noção, que os números eram tão elevados! Mas mesmo assim, Paulo tentou ainda fazer com que o clube rendesse mais, reavivando os bailes nas noites de sábado, o que já criava uma receita razoável. Mas mesmo assim, após a saída de Amadeu Teixeira, assumi o cargo de “vice”, e foi aí, que descobrimos através de um jogador, que, o treinador apesar de não ser pago, cobrava uma comissão aos jogadores do Porto, que ele tinha indicado, de cerca de 50 euros por mês, e um 88


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA dos jogadores se recusou a pagar essa quota. Quando foi descoberta essa estratégia, Paulo Rodrigues queria demitir imediatamente o treinador José Alves, mas o clube estava bem classificado, e não se poderia mandar o treinador embora, com o clube em boa forma. Só que, resultados começaram a ser escassos, e no momento da goleada em Mortágua para a Taça, em que o treinador informa de repente, que o lateral esquerdo Diogo Batista não queria mais jogar no Nespereira, começou-se a ver o início da decadência daquela equipa. Ainda na época de José Alves, o clube passou por uma situação complicada, que foi durante os treinos à noite, um cabo de alta tensão, roçava constantemente na malha-sol, do lado do caminho do Borralhal, e provocava um curto-circuito, que estava cortando a eletricidade constantemente, além de ser um perigo para qualquer criança que poderia se arriscar a pôr a mão na malha-sol e haver uma eletrocussão . Liguei muitas vezes para o Atendimento ao Cliente da EDP, e eles nunca demonstraram interesse em resolver a situação. Então, num dia eu liguei, pedi para o piquete passar lá, e impus a mim mesmo, o prazo de aquela situação estar resolvida até o meio-dia do dia seguinte. No dia seguinte, passei pelo campo e fui ver se a situação estava corrigida, e então nada tinha sido feito. Aí, já revoltado, eu resolvi ligar para a EDP, e fui obrigado a inventar uma mentira. Acabei dizendo para as atendentes da EDP, que tinha havido uma eletrocussão de uma criança naquele local, por culpa do cabo que roçava na malha-sol. Passado algumas horas, já estava resolvida a situação, pois mandara imediamente o piquete para corrigir a situação, mandara uma equipa de psicólogos para o Hospital de Cinfães, e um engenheiro da EDP, que se deslocou a Nespereira para se inteirar do ocorrido. Eu sabia que esta atitude iria acabar por sobrar para mim, mas encarei-a como uma atitude necessária para evitar que pudesse haver uma tragédia por desinteresse e incompetência da EDP. De repente, à tarde, recebi uma chamada do dito engenheiro da EDP que pediu para que me deslocasse ao local, para falar comigo. Chegando lá, trinta minutos depois, eu vi um engenheiro a querer dar-me sermão, e a ameaçar processar-me e ao clube, devido à falsa ocorrência. Ainda assim, disse que não queria a malha sol, encostada ao poste da EDP, mas aí, respondi prontamente, dizendo-lhe que o clube não queria o poste da EDP, dentro do terreno do clube. No final, apesar da má disposição que o engenheiro ficara, o ocorrido não passou disso, mas conseguimos resolver uma situação que representava um perigo para a própria comunidade. Entretanto, o ambiente não era o melhor para a comissão técnica. E a gota de água para José Alves foi o jogo contra o Fornelos. José Alves fez alinhar o seguinte “onze”: Branco; Cadinha, Pedro Cardoso, Vilarinho, Nuno Cardoso; Mexicano, Helder, Sérgio Silva; Pepe, Jorginho, Lino. Com a casa cheia de 450 pessoas, e num ambiente escaldante, por ser o jogo entre o 2º e 3º classificado, ainda empatados com o mesmo número de pontos. O jogo iniciou com uma jogada rápida de contra-ataque, com Marante a lançar, na esquerda, para João Ricardo, que centrou rasteiro, não surgindo ninguém no meio da grande área para finalizar, logo no primeiro minuto. O Nespereira respondeu, logo aos 3’, com Pepe a desmarcar Lino, que passa pelo adversário, e isola-se, rematando contra as pernas de Vieira. O Nespereira parecia querer tomar conta do jogo, e aos 5’, Lino, no meio da grande área, após cruzamento de Sérgio Silva, na direita, consegue dar para Jorginho, que fora da grande área, remata em jeito, por cima da barra. Aos 8’, nasce o primeiro lance polémico da arbitragem, em que, Lino é isolado, e marca golo, sendo-lhe anulado, por alegado fora-de-jogo, assinalado pelo árbitro assistente, provocando 89


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA alguns protestos no público. No minuto seguinte, Pedro Cardoso, na esquerda, retira um cruzamento, que quase resultou em golo, passando muito perto da barra da baliza, e fora do alcance do guarda-redes do Fornelos. Aos 10’, Jorginho, em rapidez, consegue bater Luís Cardoso, mas Quim vai aliviar, chutando contra Jorginho, que ganhou, e em velocidade, ganha a linha, ainda passa por outro adversário, cruzando rasteiro, mas Lino a chegar atrasado, não conseguindo finalizar. O Fornelos voltou a atacar, e num centro na direita, de Ricardo Macedo, a bola sobra para João Ricardo, no lado oposto, que remata em jeito, de primeira, ao lado da baliza de Branco. O Fornelos equilibrou o jogo mais um pouquinho, e, começou-se a notar um pouco, o nervosismo nos bancos de suplentes, com o técnico visitante a ser mais exuberante nos protestos com o árbitro, que falhou imensamente, com remates ao lado, marcando pontapés de canto, entradas duras sem cartão, alívios do adversário para lançamentos, marcando lançamentos ao contrário, foras-de-jogo mal assinalados. E num desses erros, aos 20’, numa clara falta do lateral-direito do Fornelos sobre Jorginho, o árbitro marca falta a favor do Fornelos, em que Quim bate para a direita, para João Ricardo, que passou facilmente por Pedro Cardoso, cruzando para Nandinho, que rematou ao lado. Aos 24’, Celso, num dos seus lançamentos venenosos, cruza para a grande área, surgindo Nandinho, que cabeceia forte, permitindo a Branco, uma excelente defesa para canto. A partir daqui, o jogo sofreu uma forte quebra, com um futebol fraco, em que, a bola quase não passava pelo meio-campo, com ambas as defesas a chutarem a bola para o ar, tentando que sobrasse, num erro da defesa adversária. Num desses lances, aos 35’, numa bola aliviada por Vieira, Helder remata de longe, muito perto da barra da baliza de Júlio. Aos 39’, num cruzamento da esquerda do Fornelos, a defesa nespereirense tremeu, e a bola sobrou para Pedro Cardoso, que aliviou mal, na grande área, sobrando para João Ricardo, que rematou por cima. Ao intervalo, o jogo estava empatado a zero, num jogo que prometia muita disputa na segunda parte. Na segunda parte, sem mexerem nas equipas, ambas as equipas começaram a denotar alguma fraqueza no caudal ofensivo. Quando, na parte do Nespereira, Pepe denotou algum cansaço, e José Alves preparava a substituição, na saída de Pepe, para a entrada de Pedro Vilarinho, João Ricardo, aos 54’, faz um cruzamento, na esquerda, Branco defende largando a bola, que fica a passear perto da linha de golo, surgindo ainda Vilarinho que tentou salvar, mas Marante consegue finalizar, marcando o 0-1. O Nespereira tentou partir para cima dos adversários, em busca da recuperação do resultado, e aos 57’, Lino, encostado na direita, larga a bola para Pedro Vilarinho, que remata para defesa calma do guarda-redes visitante. Período de asfixiamento do Nespereira, sobre o Fornelos, em que a equipa da casa, aos 61’, através de um cruzamento da esquerda, de Jorginho, pôs a defesa fornelense em aflição, e assim, Helder na sobra, remata ao lado. Um autêntico de erros incompreensíveis do árbitro, levaram o jogo a começar a tomar uma toada cómica, com erros infantis, que prejudicavam ambas as equipas. Aos 72’, Mexicano em jogada individual, rodeado por três adversários, na esquerda, conseguiu libertar a bola para Sérgio Silva, que rematou fora da área, em jeito, com Júlio a defender com uma palmada, a bola para canto. 90


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Dois minutos depois, na sequência do pontapé de canto, o Fornelos consegue elaborar um contra-ataque, com Matinhas a ganhar espaço, e a rematar para uma boa defesa de Branco. O Nespereira via o tempo passar, e começou a jogar o “tudo por tudo”, e numa sequência de cruzamentos para a área, aos 78’, numa dessas bolas, Júlio sai-se, mas larga a bola, esta sobra para os pés de Mexicano, que remata com selo de golo, mas com o guarda-redes do Fornelos, mesmo desposicionado consegue fazer uma defesa espectacular, podendo-se chamar mesmo de “milagre”. Aos 84’, Vieira faz falta sobre Valter, e na sequência do livre, Nuno Cardoso, remata certeiro para defesa segura de Júlio. E, aos 88’, o Fornelos dá o golpe final nas esperanças nespereirenses, através de um contraataque de João Ricardo, que isola-se e assim, marca com classe, o 0-2. No final do jogo, vitória justa do Fornelos, com uma exibição fantástica de Júlio, que foi um dos grandes “culpados” do Nespereira não ter empatado o jogo. Relativamente à arbitragem…pouco se pode referir a exibição de Carlos Rodrigues, que se pode limitar a três palavras: EXTREMO PESSIMAMENTE MAU! Não por ter prejudicado o Nespereira- que também fê-lo!-, mas sim, porque prejudicou ambas as equipas, foi permissivo demais e completamente trapalhão no momento das decisões. No final, houveram ainda algumas cenas de “trocas de galhardetes”, entre os jogadores Quim e Lino, que resultou numa pequena confusão, na entrada do túnel, mas sem maiores incidentes. Nessa mesma semana, a Direção decidiu ter uma conversa com o treinador, e então, o presidente afirmou que havia jogadores contratados no plantel, que não estavam sendo opção, e que o treinador poderia dispensar pelo menos dois jogadores, sugerindo a dispensa de Lino e de Sandro. José Alves não aceitou, e após a participação de Guerra, este admitiu não ter mais condições de trabalho, e pediu a demissão. Então, falou-se com jogador por jogador, e apenas Lino e Sandro foram dispensados, com Mexicano e o fisioterapeuta Andrew Shore a se demitirem, em sinal de solidariedade para com José Alves. Mas nem tudo foi mal nesta orientação de José Alves... neste período, o Nespereira- até ao jogo com o Fornelos- era invicto em casa, e sob sua orientação, o Nespereira atingiu pela primeira vez na sua história, os oitavos-de-final da Taça Sócios de Mérito. Durante uma semana, a Direção do Nespereira correu atrás de um treinador, e essa tarefa ficou a meu cargo, na qual a minha primeira opção foi Joca Lamas Fausto (ex-treinador de Sernacelhe e do Ferreira de Aves),que na altura estava livre, e porque era conhecido de vários jogadores do plantel nespereirense. Consegui falar com ele, mas já tinha aceite um convite do Ferreira de Aves, no dia anterior, e depois por indicação do mesmo, contratou-se o extreinador adjunto do Oliveira de Frades, Tiago Dias. Chegamos a acordo via telefone, e ele levaria o seu adjunto, Fernando Ferreira. Então, no jogo com o Vouzelenses, quando chegamos ao restaurante, foi a primeira vez, que tive contacto visual com Tiago Dias. Tiago Dias, que estava no U.D. Sampedrense, até Novembro de 2010, como treinador-adjunto de Fernando Silva, disputando a 3ª Divisão Nacional, e que foi campeão da Taça Sócios de Mérito, pelo GD Mangualde, na época 2007/08, como treinador-adjunto; este foi auxiliado pelo treinador Fernando Ferreira, que se encontrava no Ac. Viseu. Esta foi a primeira experiência de Tiago Dias, como treinador principal de uma equipa sénior. 91


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Apesar de ter estado presente no jogo em Vouzela, não foi ele que orientou a equipa, tendo sido delegado esse cargo a Bruno “Bigodes” Monteiro. Na vinda desse jogo de Vouzela, paramos em Parada de Ester, no regresso, para comermos umas sandes de vitela assada, e lá encontramos um grupo de caçadores, que tinham três javalis caçados. Um deles foi leiloado, e quem é que acabou por compra-lo? A excentridade de Paulo Rodrigues! Semanas depois, Paulo Rodrigues fez um farto almoço em sua casa, assando o javali, convidando para esse almoço eu e o Nelo Puck. A estréia da nova equipa técnica deu-se em Campia. O treinador Tiago Dias apresentou o seguinte “onze”: Branco; Cadinha, Paulo Sérgio, Vilarinho, Nuno Cardoso; Helder, Sérgio Silva, Bruno Teixeira; Pedro Vilarinho, Jorginho, Valter. Surpresa para a titularidade de Paulo Sérgio, que substitui assim o lesionado Pedro Cardoso, no papel de lateral esquerdo. Aos 5’, Bruno Teixeira tenta uma jogada individual na esquerda, tenta rematar, mas a defesa do Campia alivia, surgindo na segunda linha, Paulo Sérgio, que rematou para defesa segura do guarda-redes da casa. Depois, aos 7’, Bruno Teixeira na esquerda consegue desmarcar Jorginho, que fugia na diagonal, na direita para o meio, consegue dominar a bola, passa pelo guarda-redes Cunha, que toca em Jorginho, fazendo um penâlti, em que o árbitro Vítor Silva, nada assinala, marcando apenas pontapé de baliza. Num campo muito grande, e com duas equipas um pouco desinspiradas, o futebol do “pontapé para o ar” foi a táctica mais utilizada por ambas as equipas. Aos 23’, um defesa do Campia faz uma falta grosseira sobre Cadinha, mas o árbitro nada assinalou, os jogadores do Nespereira ficaram a contestar, o Campia lança um contra-ataque, em que o avançado se desmarca, Branco sai-se, chuta mal, vai recuperar, o avançado do Campia agarra-o, Branco ainda consegue aliviar, e depois um médio consegue chutar, tentando um chapéu, mas o remate sai muito alto, passando perto da barra da baliza nespereirense. E aos 29’, uma excelente jogada na esquerda, desmarca Nando, que mesmo no limite consegue fazer um cruzamento excelente, para o segundo poste, surgindo Ferraz, que marca o 1-0, de cabeça. Depois disso, o Nespereira tentou recuperar atrás do prejuízo, mas o futebol defensivo do Campia não permitia grandes jogadas, e também notava-se um pouco de desinspiração da equipa visitante, enquanto o Campia mostrou-se uma equipa bastante organizada e muito certinha defensivamente. Ao intervalo, o resultado era de 1-0, a favor da equipa da casa. Na 2ª parte, o Nespereira iniciou mais agressivo, e com mais vontade de marcar, e logo no primeiro minuto, Pedro Vilarinho na direita, se desmarca, e centra, surgindo Valter no meio que cabeceia, obrigando Cunha a uma excelente defesa para canto. O jogo prometia, e aos 47’, na sequência do canto, batido por Paulo Sérgio, Nuno Cardoso aparece no meio da grande área e cabeceia vitoriosamente, e Cunha defende a bola já dentro da baliza, rechaçando-a para fora, com o árbitro a não assinalar o golo que o Nespereira marcou! O Nespereira “sufocou” o Campia, e aos 51’, Nuno Cardoso faz uma excelente desmarcação, da direita para a esquerda, para Jorginho, que surgiu isolado, e com apenas Cunha pela frente, remata contra as pernas do guarda-redes, falhando uma oportunidade claríssima de golo. 92


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA A partir daqui, o Nespereira parece ter perdido um bocado a clarividência, e o Campia ia defendendo o resultado, embora tenha se notado claramente os erros claros da “figura do jogo”, o árbitro Vítor Silva, que deixou o jogo endurecer, com faltas duríssimas de ambas as partes, com direito a algumas amostragens de cartões, e que o árbitro optava por fazer de conta que eram faltas simples e sem maldade. Aos 80’, excelente cruzamento na esquerda de Alegria, que desmarcou Nando, que, isolado rematou por cima. Dois minutos depois, foi a vez do Nespereira ameaçar, com Pepe a se desmarcar, e isolado, a rematar por cima. O jogo estava muito disputado e os lançamentos compridos, eram muito solicitados de parte a parte, e, aos 89’ num desses lançamentos, Vilarinho cabeceia mal a bola, surgindo o avançado do Campia, que pressionado por Nuno Cardoso, não conseguiu rematar em condições. No minuto 90, na sequência de um livre batido por Cadinha, Vilarinho surge no segundo poste, mas falha o alvo. Depois aos 96’, vem um dos lances mais escandalosos dos últimos tempos, em que o Campia faz um contra-ataque pela esquerda, o avançado cruza rasteiropara a grande área, surgindo o avançado do Campia que remata a bola para o interior da baliza de Branco, a bola bate no ferro do interior da baliza e saiu para fora, e quando todos pensavam que era golo, tanto os jogadores do Campia, como os jogadores do Nespereira, surpreendentemente nem árbitro, nem fiscal de linha, não viram golo, marcando apenas um lançamento inexplicável! No final, ambas as equipas apresentaram as suas reclamações à equipa de arbitragem, valendo apenas o civismo de ambas as equipas, perante a cegueira do árbitro. Na semana seguinte, o Nespereira iria receber o Moimenta da Beira, e o clima antes do jogo, até já estava bastante quente, devido à troca de declarações entre eu e alguns dirigentes do Moimenta da Beira, pela internet. Mas, na sexta-feira, dia 4 de Fevereiro de 2011, eu estou em casa, acabando de almoçar, quando recebo uma chamada do Sérgio Silva, que me ligou para me informar que- na altura até entendi 6-havia “miúdos dos iniciados” que se tinham afogado, e pediu-me para me inteirar da situação. Minha primeira atitude foi ligar para o Paulo Rodrigues, para ver se sabia algo sobre a situação, e aí, ele me informou que já estava no local. Como sempre, as informações eram sempre dúbias, e com a habitual especulação, com uma parte do povo a afirmar que o facto tinha se ocorrido nas “piscinas de baixo”, outra parte que eram nas “piscinas à beira do Campo da Bola”. Mas os factos conforme foram apurados realmente, segundo as notícias dos diversos meios de comunicação social, foram de que, os dois adolescentes, que “terão acedido ao interior das piscinas saltando a vedação”, segundo o comunicado oficial da CM Cinfães, ou por “um buraco existente na vedação”, conforme foi mostrado no Telejornal das 20 h da SIC. O acidente ocorreu nas piscinas descobertas, apesar de encerradas à esta altura do ano, e o comunicado da autarquia afirma que “quando os bombeiros chegaram ao local, encontraram os dois jovens, em calções, no interior da piscina”. Após cerca de 1h45m de manobras de reanimação, realizadas pelos elementos do INEM, que estiveram acompanhados do helicóptero, duas ambulâncias e o médico do Centro de Saúde, o INEM acabou por confirmar o óbito às 15h45, de ambos os jovens. Os jovens foram João Alves, residente em Pindelo, de 13 anos, atleta do Nespereira FC, na camada de formação de Iniciados; e o outro é Pedro Leitão, de 14 anos, também atleta do 93


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Nespereira FC, residente na Feira. Logo, começou uma correria tremenda, após a confirmação da morte dos dois jovens, para adiar o jogo dos seniores Nespereira vs Moimenta da Beira, cancelar a GNR, mandar faxes para a AF Viseu, etc.

Com todas as actividades suspensas- à excepção da Montaria ao Javali-, todos quiseram partilhar do sentimento de pesar, com os pais e familiares dos dois jovens. Os sentimentos começaram por volta das 14h30, no Salão de baixo do Centro Paroquial de Nespereira. A família dos dois jovens, muito sentidos com a situação, lá receberam amigos, colegas, professores, do João e do José Pedro, que já entravam consternados, mas saiam em lágrimas. Toda a estrutura do Nespereira FC esteve presente, desde a Direcção, Assembleia Geral, plantel sénior, plantel iniciados e plantel Escolinhas, que depositaram nas urnas, uma camisola do Nespereira FC. Após esta parte dos sentimentos, o Padre realizou uma missa de corpo presente, na Igreja, de onde seguiu o respectivo cortejo fúnebre, em direcção ao Cemitério local, onde foram sepultados. No dia 13 de Fevereiro, o Nespereira FC deslocou-se à Sernancelhe, a fim de cumprir mais um jogo, esta da 14ª jornada do Campeonato Distrital da 1ª Divisão- Zona Norte. Tiago Dias levou apenas 17 jogadores, visto que um dos convocados, João Eugénio, se encontrou com um vírus gripal, que lhe impediu de poder fazer parte dos eleitos, em cima da hora. Precisando de pontos, devido à situação difícil que a equipa vive, sem marcar um golo, desde 19 de Dezembro, mais propriamente há 407 minutos. Então Tiago Dias optou pelo mesmo “onze” que jogou em Campia: Branco; Cadinha, Paulo Sérgio, Vilarinho, Nuno Cardoso; Sérgio Silva, Helder, Bruno Teixeira; Pedro Vilarinho, Jorginho, Valter. A surpresa veio na convocação de Carlitos, que após alguns meses, volta a vestir a camisola do Nespereira. Com uma chuva e um vento algo irritantes, o clima amainou e permitiu uma tarde de um excelente espectáculo de futebol, como o que se viu em Sernancelhe. O Sernancelhe começou o jogo logo a pressionar, com um passe longo de Schwartz da esquerda para a direita, surgindo Oliveira na grande área que domina a bola, e remata com força, a bola bate em Paulo Sérgio, desviando, e com Branco a defender evitando o golo do Sernancelhe. O Nespereira ainda estava a tentar estudar a equipa adversária, e tentava construir algumas jogadas atacantes, até que numa perda de bola, China lança Boguinha, aos 3’, que se isola, mas com Branco a se adiantar e a aliviar a bola para longe da grande área nespereirense. Aos 8’, o Nespereira fez o seu primeiro remate, através de uma bola ganha de cabeça no meio campo, por Valter, e depois por Sérgio Silva, com Pedro Vilarinho a ganhar também de cabeça, dominando a bola, e ganhando algum espaço, para o remate que deu numa defesa segura de Micael. Dois minutos depois, Bruno Teixeira “rouba” uma bola a China, que era o último homem da defesa sernancelhense, isolando-se, e sozinho frente a frente com Micael, remata ao lado da baliza do Sernancelhe. O Sernancelhe resolveu “apertar” mais um bocadinho, e Schwartz passa por Cadinha, 94


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA ganhando a linha na esquerda, e cruzou rasteiro, surgindo Calhau, que remata perigosamente, mas por cima da barra. Aos 29’, Pedro Vilarinho ganhou uma bola no meio campo do Sernancelhe, desmarcando Jorginho na direita, que rematou por cima da baliza de Micael. Aos 35’, Paulo Sérgio faz uma falta sobre Boguinha, dando a um livre que foi batido por Oliveira, e Helder alivia de cabeça, mas Schwartz de longe, faz um remate fenomenal, acertando na barra da baliza de Branco, criando assim o momento mais perigoso do Sernancelhe, na 1ª parte. Aos 42’, Jorginho numa jogada individual, passa pelos defesas do Sernancelhe, e é rasteirado, ficando a dúvida se seria pênalti ou não, com o árbitro a assinalar uma falta perigosíssima na entrada da grande área do Sernancelhe. Este livre foi batido por Bruno Teixeira, que rematou desastradamente ao lado. Ao intervalo, o empate aceitava-se bem, num jogo que foi muito bem disputado por ambas as equipas. Na 2ª parte, o Sernancelhe voltou a entrar a carregar, e Oliveira na direita, cruza para a esquerda, para Schwartz, que ganhando espaço, rematou para defesa segura de Branco. Aos 49’, Vilarinho faz um mau alívio, desmarcando Schwartz, que oportunamente rematou, permitindo a Branco, a defesa da tarde. Num período de muita luta no meio campo, o Sernancelhe sabia bem que queria a vitória, pressionando imensamente o Nespereira, mas com a equipa visitante também a ser muito concentrada e a não permitir que o Sernancelhe conseguisse jogar de maneira perigosa. Aos 70’, numa confusa jogada na grande área do Nespereira, os avançados do Sernancelhe insistiram em rematar, encontrando sempre uma muralha defensiva do Nespereira, que não permitiu a bola chegar á baliza, mas sobrando para Schwartz, que quase acidentalmente, marca, com a bola a passar rasteiro e devagar ao lado do poste direito de Branco. O Sernancelhe resolveu arriscar mais, abrindo mais alguns espaços ao Nespereira, que viu aos 79’, Jorginho ganhar a linha direita, entrando na grande área, e fazendo um cruzamento rasteiro, para o interior da mesma, mas não surgindo ninguém para fazer a emenda. Dois minutos depois, foi Pedro Vilarinho, que individualmente saiu com a bola, e de longe, rematou por cima da baliza do Sernancelhe. E mesmo no finalzinho, aos 90’, o Nespereira teve a sua melhor oportunidade, num contra ataque, em que Carlitos no meio campo, desmarca Pepe na esquerda, que isolado, consegue passar para Jorginho, que em frente ao guarda redes da casa, remata em jeito, mas permitindo a defesa do mesmo. Um excelente jogo de futebol, com ambas as equipas a respeitarem-se mutuamente, e com uma arbitragem de José Gomes, completamente irrepreensível, conseguindo controlar o jogo, e sendo muito correcto nas suas decisões, e muito justo. Entretanto, começa a se aproximar a data da minha vinda para o Brasil, e o meu último jogo pelo Nespereira, como delegado foi em Oliveira do Douro, contra a equipa local. O Nespereira deslocou-se à Oliveira do Douro, neste dia 27 de Fevereiro de 2011, para disputar mais uma jornada, neste caso a 16ª do Campeonato Distrital da 1ª Divisão- Zona Norte da A.F.Viseu. Tiago Dias resolveu mexer na equipa devido à algumas condicionantes, então resolveu iniciar o jogo com este “onze”: Branco; Cadinha, Pedro Cardoso, Vilarinho, Nuno Cardoso; Sérgio Silva, Helder, Pepe; Pedro Vilarinho, Jorginho, Carlitos. 95


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA O jogo iniciou com o Oliveira do Douro a querer tomar as rédeas do jogo logo cedo, em que logo aos 2’, Renato consegue se desmarcar e remata rasteiro para defesa de Branco. Mas logo de seguida, aos 5’, o Oliveira do Douro marcou, num lançamento de linha lateral, do lado esquerdo, em que a defesa nespereirense parece ter adormecido, com Nesco a ganhar no primeiro poste de cabeça, e depois surgindo Renato, que marcou o 1-0 para a equipa da casa. O Nespereira ainda tentava se refazer do golo, quando Hilário, aos 8’, faz um passe tenso, na direita, desmarcando Renato que remata mortalmente, mas a bola encontrou no caminho Vilarinho que evitou o 2-0. Evitou momentaneamente, porque aos 12’, numa autêntica fotocópia do primeiro golo, o Nespereira sofreu o segundo golo, numa confusão na grande área. Era o 2-0 para a equipa da casa. No minuto seguinte, surge o primeiro imprevisto para o Nespereira, quando Jorginho se lesiona sozinho, e Tiago Dias vê-se obrigado a substituir, entrando Vítor Hugo para o lugar do lesionado Jorginho. Aos 17’, Branco bate mal uma bola, que sobra para Victor Hugo (do Oliveira do Douro), que se isola, passa por Branco, mas este toca no jogador oliveirense, fazendo grande penalidade, e que o árbitro prontamente marcou, expulsando ainda o guarda-redes nespereirense, obrigando assim Tiago Dias a “sacrificar” Pepe, para entrar Paulo Fernandes. Na execução da grande penalidade, Renato marca muito mal, rematando ao lado. O Nespereira apático, e sem poder algum, via nas arrancadas de Renato e Victor Hugo, um perigo constante, e aos 22’, em outro lançamento de linha lateral, o Nespereira sofre o 3-0, por Victor Hugo, num lance idêntico aos dois golos já sofridos. A equipa do Nespereira não conseguia jogar, e quando a bola chegava à defesa do Oliveira do Douro, os seus centrais rebatiam muito bem, lançando logo contra-ataques perigosíssimos para o Nespereira. Aos 27’, o Nespereira ainda sofre o 4-0, em mais um lançamento de linha lateral do lado esquerdo, com Mosteirô a surgir no segundo poste finalizando bem o golo. Aqui, é que o Nespereira parece ter acordado um bocadinho, e mostrou alguma vontade de corrigir algo, com Pedro Vilarinho a ganhar a linha direita, cruzando, e com Manuel a sair-se bem, socando a bola para fora da grande área, Sérgio Silva ainda tenta rematar, mas encontrou uma muralha defensiva do Oliveira do Douro, e Vítor Hugo remata por cima da barra. Aos 29’, o Nespereira beneficia de um livre na direita, com Manuel a falhar a intersecção e Vilarinho falha no segundo poste a finalização. O Oliveira aqui parecia ter tirado um pouco o pé do acelerador, e a defesa do Nespereira parece ter acertado mais nas marcações, surgindo depois apenas um lance aos 44’, em que Victor Hugo aparece na grande área, cabeceando para defesa de Paulo Fernandes. Ao intervalo, o Oliveira vencia por um expressivo e justo 4-0. Ainda antes do reinicio da partida, o dirigente (???) do Oliveira do Douro, Nelinho, desloca-se ao banco do Nespereira, para me insultar, sem motivo algum. Na segunda parte, o Nespereira apesar de jogar com menos um, e após a entrada de João Eugénio para o lugar de Pedro Cardoso, o Nespereira parecia um pouco mais clarividente e parecia ganhar mais algum espaço no meio-campo do Oliveira do Douro. Aos 54’, numa jogada de Sérgio Silva na esquerda, este cruza rasteiro, mas não aparece ninguém para finalizar no meio. 96


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA O Oliveira do Douro não demorou a responder, e aos 57’, e num excelente lance, Victor Hugo isola-se e remata mortalmente, mas Paulo Fernandes executa uma excelente defesa, desviando a bola para a barra, e com J.André depois a não conseguir finalizar, rematando contra um emaranhado de pernas nespereirenses. Aos 60’, o Nespereira beneficia de um pontapé de canto na esquerda, em que Hélder falha no primeiro poste, mas logo surge Carlitos, que para a bola, remata uma primeira vez, e depois, na segunda vez consegue finalizar reduzindo para 4-1. O Oliveira do Douro, incentivado pela sua claque, resolveu voltar à carga, e aos 63’, Victor Hugo isola-se e remata rasteiro, desviando a bola de Paulo Fernandes, mas a bola sai ao lado da baliza nespereirense. Entretanto, percebe-se que há uma pequena confusão do lado oposto do “banco”, em que a GNR vê-se obrigado a intervir contra os adeptos do Oliveira do Douro, chegando a empunhar os cacetetes. Quando o Nespereira parecia mais entusiasmado e mais atacante, este sofre mais um balde de água fria, com um contra-ataque do Oliveira, em que Renato parece estar em fora de jogo, mas com o árbitro assistente a não assinalar nada, e com Renato a passar facilmente por Paulo Fernandes e marcando o 5-1, aos 68’. Aos 76’, Sérgio Silva na direita cruza a bola tensa, para o segundo poste, surgindo Carlitos, que remata mal e sem grande perigo para Manuel. Quatro minutos depois, Pedro Vilarinho ganha posição, mas acaba rematando ao lado. Os últimos dez minutos da partida foram de grande tensão, começando com um comentário infeliz de um adepto de Nespereira que provocou o guarda-redes do Oliveira do Douro, e este prontamente respondeu, insultando a assistência, acabando por provocar uma movimentação de adeptos do Oliveira do Douro, que se deslocaram da bancada para junto dos adeptos nespereirenses , havendo algumas trocas de palavras mais acaloradas entre adeptos nespereirenses e oliveirenses, obrigando à intervenção da GNR, que até pediu mais reforços. Também houve uma falta assinalada sobre Palito, de Cadinha, a que este terá agredido Cadinha, gerando assim uma aglomeração de jogadores à volta de ambos. E aos 87’, o Oliveira do Douro marca o 6-1, através de Zito, que se isola e bate assim Paulo Fernandes. No final, ambas as equipas se separaram, para agradecer aos seus adeptos presentes, mas, mesmo assim, alguns jogadores do Oliveira do Douro insistiram em tirar algumas satisfações com Cadinha, e havendo uma acesa discussão entre o projecto frustrado de jogador de futebol, agora dirigente do Oliveira do Douro, Nelinho, e eu, surgindo o massagista do Oliveira do Douro, que num “triste espectáculo” de fúria, parecia querer agredir todos os que lhe aparecessem pela frente, mas acabando tudo bem. Vitória justíssima e incontestável do Oliveira do Douro, que mostrou imensa disciplina e muito treino, provando ser uma equipa muito difícil em sua casa, num jogo em que praticamente o Nespereira apenas assistiu, vendo o Oliveira do Douro jogar. Relativamente à arbitragem, nada a argumentar, num jogo “derby”, que se previa, seria caloroso e difícil, mas em que Bruno Pereira conseguiu controlar muito bem, tanto a nível técnico, como a nível disciplinar, que se sublinhe, até nem foi um jogo violento em campo, muito pelo contrário do que se previa. Na saída, algumas cenas de selvajaria, má educação e falta de bom senso por parte de alguns adeptos, marcaram este jogo, com cerca de vinte pessoas, maior parte idosos, ou mulheres 97


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA completamente mal educadas, sem noção de postura, a insultarem alguns elementos da comitiva nespereirense, com estes a desprezarem completamente esta atitude reprovavel. Custa-me a crer, que ainda existam lugares, em que as pessoas vivam o futebol- não me refiro nem a jogadores, nem a dirigentes do Oliveira do Douro, que foram muito correctos- como se o campo de futebol fosse uma arena, e, alguns adeptos incentivem à violência, num comportamento pré-histórico e animal! Na saída, vimo-nos obrigados a sair com escolta policial, a nos proteger, havendo ainda algumas tentativas de agressão a mim e ao Cadinha, mas com o presidente Paulo Rodrigues logo a ser a única pessoa que tentou proteger, metendo-nos na carrinha, onde assim mesmo ouvíamos os diversos insultos que nos eram dirigidos. Infelizmente, esta foi a minha despedida do Nespereira FC! Triste pela derrota e pela ineficácia! No final, fazendo uma análise destes meus anos todos ligados ao Nespereira FC, cheguei a conclusão que posso dizer que saio muito feliz por ter feito parte desta “família” que é este clube, que sempre respeitei e respeitarei até o final dos meus dias. Mas também posso dizer que sai muito frustrado, porque meu objetivo pelo clube era vencer, e muitas vezes vi os dirigentes e alguns jogadores, desinteressados desse objetivo vencer, olhando apenas para os seus próprios umbigos, não respeitando aqueles que trabalham nos bastidores numa tentativa de que o clube seja bem sucedido, vendo que o objetivo de vencer um jogo era secundário. Sai frustrado porque no fundo, acabei não ajudando o clube a subir de divisão, mas sim ajudei o clube a sobreviver durante estes anos. Porque esta constante sobrevivência levou a que o Nespereira, neste momento, seja o clube que esteja há mais tempo na 1ª Divisão Distrital (14 anos consecutivos), tendo visto clubes virem da 2ª Divisão, e subirem para a Divisão de Honra, como casos de Carvalhais, Fornelos, Abraveses, Alvite, Castro Daire e Arguedeira, enquanto nós passamos estes 14 anos numa sobrevivência total, sem qualquer ambição. Bem sucedido não é aquele que consegue sobreviver com o que tem, mas sim aquele que consegue crescer com o pouco que tem. E até hoje, desde a gestão de Isidro Semblano, nenhuma gestão mostrou nem ambição de crescer, nem competência para tal, apenas optando pela política de sobrevivência. Critico também imenso os adeptos, que com razão exigem, mas não ajudam. Criticar e falar mal dos que trabalham em prol do clube não é a melhor forma de ajudar o clube. Ajudar é apresentar soluções conscientes no local certo, no momento certo. Não é falar mal pelos cafés! Agora se me perguntarem a quem eu tiro o chapéu, nestes anos todos de futebol, eu respondo: a Isidro Semblano, obviamente, porque deu a sua vida em prol do Nespereira FC, de forma desinteressada e com muito amor ao clube. Pena é que o reconhecimento desse seu trabalho já foi tardio. Outra figura que se merece que se tire o chapéu, é Hernâni Andrade, porque é o último sobrevivente da geração vencedora, e ainda tentou incutir essa mentalidade numa nova geração, e foi um dos mais ambiciosos e conscientes elementos do Nespereira. Merecia ter saído de forma mais reconhecida do que foi. Jorge Ramalho, que veio contrariar a mentalidade de que para se ser presidente é preciso ter dinheiro. Assim como existe o mito de que para se ser político não é preciso ser-se inteligente, basta ser-se popular, este mito também existe no futebol, só que para se ser presidente do clube não é preciso ser-se inteligente, nem ter vontade de trabalhar, basta ter-se dinheiro. 98


RETALHOS DE UMA VIDA CLUBISTICA Jorge Ramalho veio demonstrar que há que se ter vontade de trabalhar. Se não fosse ele, o clube provavelmente teria acabado, e pode não ter sido bem sucedido nos resultados desportivos, mas a sua atitude e vontade de trabalhar levaram-no a um fato que deve ser reconhecido por todos, que é a vontade de não deixar o clube cair. Além de que apesar da sua explosividade ser muito criticada por muitos-até por jogadores- ela era incompreendida. Jorge Ramalho era explosivo porque sentia o peso daquela camisola, e sentia amor pelo clube. Valores que certos jogadores, não tinham em conta, e que para eles vencer ou perder, era indiferente, porque o que lhes interessava era jogar. Nuno Cardoso e Bruno “Bigodes” Monteiro. Ambos os jogadores, sempre foram fiéis ao clube da terra, e nunca demonstraram nenhum sinal de “mercenarismo” ou “prostituição futebolística”, mostrando que o seu amor ao clube está acima de qualquer valor monetário que lhes possam oferecer e sempre dispostos a ajudarem o clube. Nuno Cardoso é o “capitão” do Nespereira, e merece todo o respeito dos adeptos e dos nespereirenses todos. Já Bruno “Bigodes” Monteiro, passou e passa constantemente por um autêntico calvário, sabendo que não é uma das primeiras opções de qualquer treinador, mas nunca se coibindo de dar a sua prestação ao clube, sem nunca cobrar nada a ninguém, além de estar a fazer um excelente trabalho nas camadas jovens do Nespereira. Toni Resende, pela sua idoneidade e seu carácter responsável, sendo um ponto de equilíbrio racional, entre a inexperiência das Direções, e a explosividade e indignação dos dirigentes. Falando pessoalmente, penso que ele era o único dirigente que me conseguia “segurar”em situações complicadas, que os nervos já haviam me rompido. Mas, todos aqueles com quem me cruzei e trabalhei, merecem toda a minha admiração e respeito, e guardo imensas amizades e carinho por todos. Peço que desculpem a minha franqueza, em algumas situações que descrevi, mas neste caso, são fatos que se passaram. Reintero a minha admiração pelo Nespereira FC e a minha felicidade por me terem dado a hipótese de trabalhar por este clube familiar. Uma conclusão que cheguei com estes anos de experiência, é de que, o futebol é uma autêntica máfia. Quem pensar que para se ser campeão, basta ter bons jogadores, está muito enganado. Porque o futebol joga-se muito nos bastidores. Logo no ínicio da época, já sabemos através de funcionários da AF Viseu, quem será os candidatos à subida. E depois, durante o decorrer do campeonato corre muito dinheiro, entre clubes e árbitros, entre clubes que são candidatos que oferecem prêmios a outros clubes para vencerem outros candidatos, enfim...o futebol é mesmo uma máfia! Estas páginas podem nunca virem a ser publicadas, mas se forem, acredito que haja em algumas situações descritas, pessoas que dirão que o que escrevi é mentira. Pode haver quem queira esconder estas páginas, porque sabe que a verdade pode alterar muita coisa. Mas em qualquer caso, por mais que desmintam, ignorem ou escondam o que escrevi, o que aqui está é somente a verdade! E por mais que digam que isto é mentira, eu me defendo dizendo que as pessoas podem dizer que isto é falso, mas aqui contra-argumento com esta frase... a verdade não se diz, ela sente-se. E aqueles que desmintirem tudo o que escrevi aqui, se meterem a mão na consciência, saberão que a mentira virá deles, que não assumem a verdade dos fatos. Ercílio Galhardo Neto

99


Retalhos  

livro sobre a história do nespereira

Advertisement
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you