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A Senhora do Sertão: A Festa de Sant’Ana de Caicó.

Thadeu de Sousa Brandão


PREFÁCIO Podemos proferir que o desafio antropológico de compreensão da cultura passa, parafraseando Roberto Da Matta1, pela transformação do exótico no familiar e do familiar em exóticos (DA MATTA, 1978, p. 04). O trabalho de Thadeu de Sousa Brandão, “A Senhora do Sertão: a festa de Sant’Ana de Caicó”, inscreve-se, desde o início, no exercício etnográfico de problematização do fenômeno lúdico-religioso de uma festa de padroeira, localizada no sertão norte-rio-grandense (Caicó, RN), a partir de sua própria condição de cientista social, estranhando o ordinário e relativizando o extraordinário. Trabalho antropológico, sociológico e ‘historiográfico’, cativa por sua leveza textual, às vezes literária, mas sem, contudo, perder o rigor metodológico tão aplaudido – e necessário – pelas ciências sociais. Para além da festa e sua construção enquanto objeto de estudo, a etnografia da festa de Sant’Ana de Caicó, realizada por Thadeu Brandão, ilustra não apenas os caminhos objetivos de uma pesquisa antropológica, mas, fundamentalmente, mergulha no universo simbólico investigado, destacando uma profunda e cativante inserção do pesquisador na teia de significados que envolve a historicidade de seu objeto. Trabalho de campo intenso e honesto, não oculta o que Roberto Da Matta (1978) chamou de “aspectos românticos” da disciplina antropológica, envolvendo o pesquisador numa rede de relações subjetivas para o êxito do ‘objetivo’ trabalho de campo aprendido na Universidade. Brandão, sem medo de descrever seu trabalho de campo, expõe seu anthropological blues – expressão aqui tomada de Jean Carter Lave –, incorporando em suas rotinas de campo aqueles aspectos extraordinários e carismáticos que emergem frequentemente no trabalho etnográfico, às vezes ocultados pelas rotinas oficiais dos manuais de pesquisa. 1 MATTA, Roberto da. O ofício de etnólogo, ou como ter anthropological blues. Boletim do Museu Nacional, Rio de Janeiro, n. 27, p. 01-12, maio de 1978.

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Apesar da tardia publicação – o trabalho data de 2002, fruto da dissertação de mestrado do autor defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Norte –, “A Senhora do Sertão” se apresenta como um fecundo exercício teórico-metodológico para o debate proposto. Problemáticas como identidade, representações sociais, religião, sociabilidade(s), tradição e modernidade implicam, ab initio, compromisso sociológico e antropológico para com a própria formação e desenvolvimento do pensamento social moderno. O autor não abre mão dos clássicos e da tradição funcionalista durkheimiana, tampouco da noção de cultura presente na antropologia interpretativa de Clifford Geertz. Localmente, a obra de Luís da Câmara Cascudo, bem como outras interpretações ‘nativas’ acerca da “invenção” do Nordeste, aprofunda o cenário histórico da pesquisa, tendo Caicó e sua festa de padroeira, Sant’Ana, o foco central. Segundo Brandão, a festa de Sant’Ana significa, para o caicoense, uma possibilidade de (re)construção identitária da própria condição de ser caicoense, possível a partir de símbolos pertencentes à festa. Eis a hipótese central do trabalho. Neste sentido, Caicó, cidade sertaneja localizada no semiárido potiguar, com sua festa, promove não apenas um evento festivo comum, mas um momento de reforço de sua identidade seridoense, sertaneja, católica, etc. A festa acontece nos últimos dez dias do mês de julho, iniciando-se numa quintafeira e encerrando-se num domingo. É realizada através de ‘eventos’ permanentes e esporádicos. São eles: 1. Abertura e encerramento, ambos com procissão e missa; 2. As novenas que ocorrem todos os dias da festa; 3. A feirinha Sant’Ana, ocorrendo na última quinta-feira; 4. O “Baile dos Coroas”, evento que congrega a elite local e estadual; 5. A Feira de Artes Manuais do Seridó; 6. Shows de cantores regionais e nacionais; 7. As barracas de “comes e bebes”, comercializados no entorno da Catedral. Esses momentos, como aglutinadores de sociabilidade, tornam-se marcantes para o caicoense que vive o momento da festa. Estar na festa significa algo para além da ludicidade. Expressa principalmente a possibilidade de reencontro com o sentimento de vida comunitária, algo próximo da noção de Gemeinschaft pensada por Ferdinand Tönnies, embora 3


continuamente minada pela própria divisão do trabalho e pelo avanço da modernidade capitalista, mesmo na aridez do sertão. Na festa, segundo Brandão, revigora-se a reconstrução da identidade de ser caicoense, seridoense e, sobretudo, como unidade maior, a identidade sertaneja. A partir do símbolo de Sant’Ana, sob o poder do catolicismo oficial e das práticas não oficiais (populares) do catolicismo, reforçam-se símbolos da própria condição de ser caicoense, símbolos ligados a formação histórica, econômica, cultural e social de Caicó. A função deste universo simbólico é ordenar e dar coesão ao quadro de referência em questão. A herança funcionalista mobilizada por Brandão afirma que a festa está ligada a estrutura social à qual surge, integrando os diversos atores sociais nos processos socializadores promovidos, dando fundamento social às representações sociais e identidades envolvidas. A festa, logo, dá significado às representações pré-existentes e aos papeis sociais presentes, legitimando e reproduzindo a tradição mesmo diante dos processos de modernização em curso. A tradição, papeis sociais e instituições, a partir da festa, recriam e reconstroem a noção de identidade caicoense. O trabalho foi dividido em quatro partes: introdução e três capítulos, um deles, conclusivo. Uma longa introdução, pormenorizando os caminhos teóricos e metodológicos do estudo. O primeiro capítulo, tentando compreender a história e o desenvolvimento sociocultural de Caicó, destacando as categorias tradição e modernidade. O segundo, tecendo uma descrição densa da festa, narrando passo a passo toda a preparação e realização do evento. O terceiro e último capítulo, trazendo as considerações finais. O trabalho de Brandão, ainda que produzido no início de nosso recente século XXI, torna-se leitura básica para interessados na cultura e na história de Caicó e do Rio Grande do Norte. Não apenas nos leva a pensar Caicó e o Seridó potiguar, mas, sobretudo, nossas redes de sociabilidades e significados tecidas no cotidiano, marcado pela sombra de nosso catolicismo e das práticas hegemônicas das festividades populares nordestinas. 4


Com linguagem sociológica e antropológica, contudo, sem prolixidade ou mesmo excessos do jargão científico das ciências sociais, e ainda com uma rica descrição da vida cultural, social, religiosa e econômica de Caicó, não deixa de ser uma literatura do homem sertanejo, uma história de sua vida cotidiana. Considero, pelo ‘ineditismo’ ainda vigente e pela amplitude abarcada, uma obra básica para o estudo da história do Rio Grande do Norte. Prof. Dr. Jean Henrique Costa Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN Mossoró, RN, 05 de abril de 2017

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Dedico este livro à memória de Luzardo Fernandes Monteiro e Suzi Azevedo, pelos quais homenageio a todos os atores sociais deste trabalho. Em nossas conversas, aprendi sobre o Sertão, sobre o Seridó, sobre as pessoas. Em suas amizades, descobri a saga do companheirismo e da nostalgia.

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SUMÁRIO

1. A CAMINHO DA FESTA.......................................................................................008 2. A PRECE DO VAQUEIRO.....................................................................................029 3. A FESTA DE SANT’ANA.......................................................................................072 3.1. A Preparação da Festa.........................................................................................073 3.2. O Iniciar da Festa................................................................................................079 3.3. A Feirinha de Sant’Ana.......................................................................................110 3.4. O Auge da Festa

..............................................................................................129

3.5. A Teofania da Festa: a procissão de Sant’Ana........................................................137 4. A SENHORA DO SERTÃO....................................................................................147 5. BIBLIOGRAFIA......................................................................................................155

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1. A Caminho da Festa Mas que prazer me dá quando novamente está Em Festa meu Caicó. Seu colorido das ruas, Suas garotas faceiras, verdadeira homenagem À Sant’Ana padroeira. O musical do coreto E a procissão que sai, coroas e reencontro, Os bailes tradicionais. O filho que vem rever, As feiras artesanais, que mostra todo o esmero, De quem ama... Por onde canta o artista E o turbilhão de turistas, para festejar Sant’Ana! (Música de Francisco Franklin de Souza & Fabiano de Cristo Magalhães Wanderley).

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As festas religiosas no Brasil são motivos litúrgicos católicos que herdamos de Portugal, ampliados pela contribuição africana, indígena e mestiça. Festas que, aparentemente idênticas na intenção oblacional, transformam-se e diferenciam-se pela convergência de vários fatores simbólicos, sociais e materiais, impulsionadas pela irreprimível necessidade lúdica do homem. Não apenas a necessidade funcionalista da festa justificaria um estudo, mas, também, seu intercurso social, econômico, político e, é claro, lúdico-religioso. Reconstrutora de tradições e palco de manifestações de modernidade, a festa religiosa, de padroeira, merece nossa atenção. É a partir da perspectiva de se analisar uma conduta quase que cotidiana e parte intrínseca e constitutiva da identidade nacional, que partimos. José Ramos Tinhorão (2000) mostra que a primeira festa realizada em solo brasileiro, após o descobrimento, foi a primeira missa: uma “confraternização étnica enriquecedora da alegre manifestação lúdica” dos portugueses no momento em que dois mundos distintos ali se encontravam. Já, naquele momento, os símbolos de poder, hierarquia e status se impunham nos símbolos da Igreja e do Rei, a cruz e o poste que trazia o brasão real, e no ritual e sua disposição, com os chefes eclesiásticos e os oficiais militares e nobres burocratas comandando o espetáculo (TINHORÃO, 2000, p. 17). Na América portuguesa era comum a festa constante. Duas coisas propiciavam-nas: a grande quantidade de gente desocupada (senhores, fidalgos, clérigos, e todo tipo de pessoas que viviam de rendas) e a enorme quantidade de feriados religiosos e cívicos. Afora tudo isso, a necessidade de se quebrar a dureza e a monotonia da vida cotidiana. Mas, com certeza, a famosa “predisposição à vida folgada”, tão aclamada pelos viajantes estrangeiros, era algo também impulsionado pela escravidão. Como mostrou Tinhorão (2000, p. 40), a possibilidade da vida ociosa dos que tinham quem trabalhasse em seu lugar só podia levar, é claro, ao preenchimento do tempo ocioso com festas e cantigas.

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Colocados sempre à margem das festividades públicas de caráter oficial, das quais participavam apenas na condição de meros espectadores, seria nas solenidades religiosas – especialmente nas procissões – que a “gente comum dos primeiros centros coloniais estava destinada a encontrar oportunidade de participar desde o século XVI” (TINHORÃO, 2000, p. 67). As festas religiosas saem das igrejas para as ruas, aproveitando-se as tendências de participação coletiva e sua sede pelo espetáculo. As massas participantes dessas festas seriam juntamente com os colonos pobres brancos, mazombos e os caboclos, as novas camadas de gente negra e mestiça que, ao se integrarem ao campo do trabalho por sua incorporação aos mais variados ofícios mecânicos, estariam destinadas a formar nas cidades o elenco e o público dessas festividades. Proibidas2, durante o século XVIII, as festas de santos populares continuariam a ser realizadas por todo o Brasil, porque os próprios padres, solidários com os fiéis, costumavam participar pessoalmente dessas alegres oportunidades de lazer. Pois “sendo possível recrear-se ao redor e dentro das igrejas, ao pé dos cruzeiros, vendo e seguindo imagens no andar ou diante dos registros de santos, o povo não perdia ocasião. Ia simplesmente. Meia hora de devoção. Dez horas de vadiação” (CASCUDO, 1999, p. 127). Este passado festivo nos remete a um presente onde a festa se mostra como o grande elemento agregador e renovador sócio cultural. Além de parte integrante da cultura e da identidade nacional, as festas são também aglutinadoras de sociabilidade. Tomamos aqui sociabilidade, segundo a tradição durkheiminiana, para quem esta era a tendência para a vida e a convivência em sociedade, uma força de atração para o convergir em grupo. Assim, ir a uma festa representa muito mais que o puro e lúdico ato de divertir-se. Representa também a perspectiva de se reencontrar com outros membros 2

As proibições das festas populares, agregadas à religiosidade e ao sincretismo, vinham constantemente do Santo Ofício, retirando das Confissões Tridentinas tal apoio. Eram consideradas pelos Padres mais ortodoxos, puras manifestações de luxúria, “ardis do demônio”, além de parecerem sacrilégio. Atrele-se a isso, a miscigenação imperiosa que se dava nas várias formas devocionais na América portuguesa: cristãos -novos marranos, superstições indígenas, africanas e européias juntas, se aclimatando e formando novas representações de religiosidade.

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da sociedade a que pertence; ir de encontro a uma rede de representações e de símbolos que emprestam sentido ao viver em comunidade e, como demonstraremos até o fim deste trabalho, do sentir-se pertencente a este grupo comunitário e societário. Desta necessidade de se pensar a festa como [re]construtora de identidades, optamos por refletir e, em última instância, interpretar uma festa de padroeira no interior do Rio Grande do Norte, nordeste do Brasil. Essa foi a Festa de Sant’Ana de Caicó, cidade encravada numa região do semiárido do Rio Grande do Norte chamada de Seridó. Nossa escolha se deve a alguns motivos objetivos e subjetivos. Os primeiros são a perspectiva de se analisar uma das maiores festas de padroeira do estado e, significativamente, quiçá, a mais importante. Outro motivo foi a percepção, instada no senso comum, das referências dadas a este evento. Pois, para o caicoense, este não é apenas um evento comum, mas também um momento de se reiterar e reforçar sua identidade social e cultural. Neste sentido, nosso principal objetivo neste estudo é perceber a Festa de Sant’Ana de Caicó como [re]construtora de identidades, a saber, a de caicoense (e, em última instância, a de seridoense), ressaltando-se as identidades e os conflitos que possam vir a ser percebidos e as representações pelas quais se criam, ou não, laços e fontes de solidariedade e de sociabilidade. Para isso, é importante tentar compreender a própria lógica da sociedade caicoense enquanto inserida em um contexto sociocultural específico a partir de sua festa principal, tomando a festa como paroxismo e fato revelador do social. O município de Caicó está localizado, como já dissemos, em pleno semiárido do Rio Grande do Norte, na porção sul do Estado, a 258 km de Natal, na Região do Seridó Ocidental, da qual é a maior cidade, com uma área territorial de 1.328 km2. Esta cidade é considerada um polo de convergência em relação às outras da região, no que tange ao setor de serviços – saúde, educação e comércio. Constando de aproximadamente 60 mil habitantes, Caicó é hoje o quinto município do Estado do Rio Grande do Norte em população e economia onde se destacam: a pecuária leiteira, a bonelaria, o setor de 11


serviços e outras pequenas atividades industriais. Em termos de importância cultural, Caicó possui um centro universitário, o CERES (Centro de Estudos Superiores da Região do Seridó), da UFRN, e é sede de Bispado, tendo por Bispo Dom Jaime Vieira Rocha. Inserido dentro do denominado “Polígono das Secas”, Caicó enfrenta cotidianamente, os efeitos da estiagem prolongada. As consequências sociais da seca se manifestam através do desemprego da força de trabalho rural, da intensificação do êxodo da população rural para a zona urbana, da disseminação de doenças nas aglomerações suburbanas que vão surgindo precariamente, pela desagregação de famílias inteiras que se dividem e se espalham em busca da sobrevivência em outros rincões. Assim, Caicó é, desde longa data, fornecedora de mão de obra para diversas regiões do Brasil e para Natal, a capital do Rio Grande do Norte. Os dados anteriores são significativos para se pensar a Festa de Sant’Ana. Por ser uma cidade que já teve uma expressiva força política e econômica, Caicó vive seu momento de decadência. Este é espelhado principalmente nas referências ao passado glorioso da cotonicultura. Além disso, ao ser uma cidade que exporta mão de obra, os caicoenses têm, na Festa de Sant’Ana, seu momento de retorno e de reintegração identitária com a sua cidade de origem. A festa de sua padroeira, sempre lembrada como a “Sant’Ana de Caicó”, para que não se confunda com as demais invocações da avó de Cristo, se inscreve, como o mais importante fenômeno religioso-profano do Estado, construtora e reconstrutora de identidades e de tradições que atravessaram séculos de colonização, se miscigenando, se modificando e se construindo ao longo do tempo. Cabe enfatizar que no momento da ocupação do Seridó pela pecuária, os primeiros vaqueiros escolheram a imagem de Sant'Ana como símbolo de proteção e materializaram suas esperanças religiosas quando construíram as capelas, sementes de futuras igrejas matrizes. Séculos após, para que fossem representados a riqueza, o progresso e o desenvolvimento do Seridó, escolheu-se como símbolo o algodão. Tal 12


escolha, que não é um lance de dados, concorreu para que este produto adquirisse a aura de elemento identitário do Seridó. À pecuária e seu símbolo: Sant'Ana, representando a tradição, fundiu-se a cotonicultura e a indústria do algodão: a modernidade e o progresso. Tradição e modernidade se confundiram assim no imaginário regional. Não apenas na devoção e na busca do progresso, mas entrelaçados numa justaposição que possibilita uma contínua recriação de ethos e da visão de mundo3 partir desses dois momentos-espaços. Com o fim da cotonicultura, resta Sant’Ana, agora não apenas símbolo da tradição, mas também de modernidade. E é a partir de sua festa que ela consegue aglutinar, num único símbolo, duas lógicas distintas que nunca estiveram separadas, pois sempre coexistiram juntas na cultura caicoense (Cf. BRANDÃO, 1999). Assim não apenas como símbolo de tradição e modernidade, mas principalmente enquanto símbolo identitário e aglutinador, Sant’Ana e sua festa aparecem como epicentro social e cultural de Caicó. É como construtora e [re]construtora de identidade, onde percebemos a sua maior importância. A Festa de Sant’Ana de Caicó acontece nos últimos dez dias do mês de julho4, iniciando-se numa quinta-feira e encerrando-se, dez dias depois, num domingo. A Festa de Sant’Ana de Caicó é um acontecimento mítico-temporal. Mítico, por que se funda e se institui, nas representações, como um ato divino: Sant’Ana intervêm em Caicó e é o seu epicentro. Temporal, por que, apesar do ciclo festivo acontecer todos os anos, a Festa encontra-se dentro de um contexto histórico específico e, por isso, sofre suas consequências e muda com ele (BRANDÃO, 1999, p. 29). Para Roger Caillois (1988), a reunião de muitas pessoas, que se movimentam, dançam, cantam, gritam etc., contribui para a produção de grande quantidade de 3

Por ethos compreenderemos o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estático e sua disposição, é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete. A visão de mundo é o quadro que se elabora das coisas como elas são na simples realidade, seu conceito da natureza, de si mesmo, da sociedade. Esse quadro contém as ideias mais abrangentes sobre a ordem (GEERTZ, 1989, p. 143-144). 4 Como mostrou Cascudo (1999, p. 122), sobre as festas religiosas e populares que ocorriam no Brasil de antanho: “Julho era o mês de Sant’Ana”. Isso bastando para descrever o calendário litúrgico devocional deste mês, totalmente dedicado à avó de Jesus. Julho também era o mês de encerramento das colheitas, que se iniciavam em maio e junho.

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"energia", que é redistribuída para todos os participantes. Ao mesmo tempo a festa é uma revitalização da memória social. Pois o indivíduo/grupo que participa da festa, vive a recordação de uma outra festa. Festa idealizada (“antiga”), que povoa a memória social, pois a festa representa o momento-espaço das emoções intensas e da metamorfose, tanto em nível individual como coletivo. Mas o tempo-espaço da festa é também vivido como um tempo sagrado, quando se reatualiza um evento que teve lugar num passado mítico. “Um eterno retorno”, no qual estes domínios são regenerados. É graças a este "eterno retorno", às fontes primordiais, que a própria festa se eterniza também5. Assim o tempo sagrado é pela sua própria natureza reversível, no sentido em que é, propriamente falando, um tempo mítico primordial tornado presente. Assim,

Toda festa religiosa, todo o tempo litúrgico, representa a reatualização de um evento sagrado que teve lugar num passado mítico, “no começo”. Participar religiosamente de uma festa implica a saída da duração temporal “ordinária”, e a reintegração do tempo mítico reatualizado pela própria festa (ELIADE, 1986, p. 81).

O tempo sagrado – a festa – opõe-se ao tempo profano, o tempo ordinário, sossegado, sujeito a regras preestabelecidas. Aquele é o tempo da efervescência, do extraordinário, do excesso e da pândega (CALLOIS, 1988, p. 95-96). A festa é o tempo das emoções intensas, da metamorfose do ser do homo religiosus. Por isso ele dedica à festa atenção, paciência, habilidade e vive na recordação de uma festa e na expectativa de uma outra.

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É importante lembrar que nossa opção por perceber a festa enquanto construtora de coesão social nos remeteu aos teóricos mencionados ao longo do trabalho. Mas, isto não implica desconhecimento dos autores que trabalham a percepção de festa enquanto geradora de conflitos como Jean Duvignaud (1983), que percebe o fenômeno como uma ruptura e/ou subversão da ordem. Do mesmo modo optamos por uma interpretação própria deste fenômeno sem deixarmos de travar conhecimento com autores como DaMatta (1990), Leitão (1997), Pordeus Jr (1993), Steil (1996), Teixeira (1994), Freitas (1996), Lanna (1995), e Amaral (1998), dentre tantos outros que trabalharam ou trabalham com festas enquanto fenômenos sócio-antropológico.

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O período sagrado da vida social [diferentemente da vida individual] é precisamente aquele em que as regras são suspensas e a licença como que recomendada. (...) Decerto a agitação desordenada, a exuberância da festa, respondem a uma espécie de impulso de detumescência. (...) Os excessos dos desvarios coletivos preenchem esta função: eles irrompem como uma brusca deflagração após uma longa e severa compressão (CALLOIS, 1988, p. 98).

Este excesso é necessário ao sucesso das cerimônias, pois, participando da virtude santa da festa, contribui para a renovação da sociedade (CALLOIS, 1988, p. 99). É a suspensão da ordem do mundo. É também por isso que os excessos são permitidos (CALLOIS, 1988, p. 112). A festa ocorre sempre numa fase crítica do ritmo das estações. Quando a natureza parece renovar-se ou quando se necessita de uma mudança visível: no início ou no fim do inverno nos climas árticos ou temperados; no início ou no fim da estação das chuvas na zona tropical (CALLOIS, 1988, p. 105). Enfim, a festa é o paroxismo da sociedade, purificadora e renovadora da sociabilidade; é o momento culminante da sociedade, seja no ponto de vista religioso seja no econômico. Deste modo, a festa não apenas comemora um momento crucial, mas o reatualiza. Ao repetir anualmente um fato cosmogônico, ela regenera o tempo e o tecido social, finalizando um “mundo” e recriando um novo. Como na festa se vive um tempo original, único, mesmo que se realize nela atividades do tempo ordinário, estas se revestem de caráter especial, pois estão no “tempo da festa”. Enfim, é este tempo que tornam possíveis os demais tempos, pois,

O homem religioso sente a necessidade de mergulhar periodicamente neste tempo sagrado e indestrutível. Para ele, é o tempo sagrado que torna possível o outro tempo, ordinário, a duração profana do acontecimento mítico que torna possível a duração profana dos eventos históricos (ELIADE, 1986, p. 102).

Caicó vive a espera e as lembranças da festa. A espera pode ser melancólica ou efusiva, mas esta espera é sempre esperançosa. Mesmo tendo sua população rural reduzida, a cidade convive com o dilema do desabastecimento de água. Se seu açude 15


principal, o Itans, “não toma água”, é sinal de que não houve um bom inverno. A possibilidade de calamidade povoa as representações dos moradores de Caicó e do Seridó, principalmente quando os períodos de estiagem se prolongam. Mesmo assim, se o ano é de seca, as lembranças dos anos de abundância dão ânimo para que a festa vindoura também seja de fartura: que Sant’Ana traga alegria e chuva! A Festa de Sant’Ana de Caicó tem vários momentos importantes. Dentre estes se destacam: a abertura e o encerramento, ambos os dois com uma procissão e uma grande missa; as novenas que ocorrem todos os dias da festa; a “Feirinha de Sant’Ana”, acontecendo na última quinta-feira, principal evento profano da festa; o “Baile dos Coroas” evento que agrega a elite local e estadual; a FAMUSE (Feira de Artes Manuais do Seridó); os “shows” de cantores regionais e nacionais, todas as noites; e, por fim, as barracas de “comes e bebes”, comercializados por todo entorno da Catedral. A reconstrução das identidades que a Festa de Sant’Ana revigora são: primeiramente a de caicoense e, em última instância, a de seridoense. São identidades que de certa forma apregoam e recriam ligação a um universo mais amplo e complexo: o sertão nordestino, que enseja não apenas identidades microrregionais específicas, mas, sobretudo, uma unidade maior e genérica, a identidade de sertanejo6. Para compreendermos o problema acima, tomamos como guia teórico a perspectiva weberiana de que uma cultura é uma teia de significados que o homem mesmo teceu, que Clifford Geertz mostrou ser composta de símbolos, que nada mais são do que representações sociais, às quais expressam ideias, valores e atitudes sociais mais significativas da coletividade (GEERTZ, 1989) . Elas expressam, conservam e reforçam uma situação social, um ethos e uma visão de mundo. Pois bem, visões de mundo são elaborações mentais e assim como os comportamentos são elaborações sociais da realidade e expressam a base comum de uma determinada ordem social. Daí que o papel de um universo simbólico, assim como o de um sistema religioso: é 6

Tomando aqui sertanejo enquanto o indivíduo identificado especificamente com o sertão nordestino, localizado na mesorregião do Semiárido do Nordeste.

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aglutinar, ordenar e dar coesão ao quadro de referência ao qual diretamente se reporta. Assim, em última instância, sempre ligada à estrutura social à qual surge, a festa apresenta o papel de integrar os processos socializadores separados e, ipso facto, de dar um fundamento social às representações sociais e às identidades coletivas.

Ela,

portanto, dá significado às representações e aos papéis sociais, os legitima, e os perpetua na tradição e no tecido social. Deste modo, é importante ressaltar a festa como fato revelador da sociedade. Revelador no sentido de construtor de identidades e de solidificador de representações sociais. A festa é âmago primevo e último da vida social: a define e a recria junto com a cultura e seus instrumentos de socialização, legitimação e exteriorização. O que as representações coletivas traduzem “é o modo como o grupo se pensa em suas relações com os objetos que o afetam” (DURKHEIM, 1995, p. XXIII). São exteriores aos indivíduos e exercem sobre estes uma coerção à qual não conseguem escapar. É a força da instituição apoiada sob suas representações impostas desde o berço. Podem, resumidamente, ser compreendidas como construções que atendem às necessidades impostas pelo contexto social. Assim, perante o mundo de objetos, de pessoas, de acontecimentos e de ideias, não estamos apenas equipados com automatismos, da mesma forma que não estamos isolados no vazio social: o mundo é partilhado com outros e neles nos apoiamos – às vezes, solidariamente, outras vezes, conflituosamente – para compreendê-lo, para gerenciá-lo ou para afrontá-lo. Embora haja um cruzamento, em geral, entre as representações sociais e individuais, é preciso levar em conta o estilo de vida e a rede social formada com as respectivas inserções do indivíduo na rede social estabelecida, isto é, a base social que fundamenta a cultura. Como colocaram Berger e Luckmann (1999), todos os “edifícios sociais de significação” são “transportados por uma coletividade particular”, ou seja, “pelo grupo que produz continuamente os significados em questão e dentro do qual estes significados

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têm realidade objetiva” (p. 118). Esse transporte, embora haja uma dose de autonomia, é preso ao grupo e ao seu contexto sócio-histórico-cultural. Assim, um determinado universo simbólico, com seus vários sistemas internos, serve como matriz de todos os significados socialmente objetivados e subjetivamente reais. Pois,

No interior do universo simbólico os domínios separados da realidade integram-se em uma totalidade dotada de sentido que os “explica” e talvez também os justifica (...). O universo simbólico é evidentemente construído por meio de objetivações sociais (BERGER e LUCKMANN, 1999, p. 132).

Deste modo, mesmo tendo uma plêiade de significados e ações possíveis dentro de um sistema e de um universo simbólico, um indivíduo utiliza apenas aqueles onde suas objetivações sociais lhe permitem. Quando um grupo torna-se grande e coeso, e suas representações sociais, subjetivadas e objetivadas, tornam-se majoritárias, uma identidade forte encontra-se em formação. A identificação social depende também do grau de socialização a que o indivíduo foi exposto e ao grau de conhecimento a que teve acesso. Quanto mais completa é a socialização, mais integrado está o indivíduo ao grupo social e mais solidário ele estará com os demais indivíduos e com as representações que dividem. Assim,

A identidade é formada por processos sociais. Uma vez cristalizada, é mantida, modificada ou mesmo remodelada pelas relações sociais. Os processos sociais implicados na formação e conservação da identidade são determinados pela estrutura social (BERGER e LUCKMANN, 1999, p. 132).

As estruturas sociais históricas particulares engendram tipos de identidade que são reconhecíveis em casos individuais. Assim, os tipos de identidade podem ser observados na vida cotidiana e também na extra-cotidiana. A identidade é fruto de uma dialética 18


entre o indivíduo e seu meio social, sendo influenciada por toda a totalidade do social (religioso, político, econômico, etc.). As instituições sociais, os papéis sociais, a tradição, e as formas de legitimação social são o substrato que constroem a identidade. Cada um, de sua forma, ajuda a caracterizar a identidade coletiva, que será mais ou menos coesa, dependendo da força com que as representações sociais estejam presentes. Durkheim nos lembra que o tipo ideal de uma sociedade cuja coesão resulta exclusivamente de semelhanças pode ser concebido como uma massa homogênea, cujas partes não se distinguiriam umas das outras (1995, p. 157). Como isto seria inconcebível, nossa sociedade, complexa, concebe várias formas de dessemelhança e, portanto, várias formas de identidade social. Mas que força social conseguiria aglutinar grupos tão heterogêneos do ponto de vista da divisão do trabalho? Durkheim novamente nos dá a resposta: a religião. Ela penetra toda a vida social, isso porque a vida social aí é feita de crenças e práticas comuns que extraem de uma adesão unânime, uma intensidade particular. O catolicismo, por exemplo, diz Émile Durkheim,

Pelo simples fato de ser uma religião idealista, concede ao pensamento e à reflexão um lugar bem mais amplo do que faz o politeísmo greco-latino ou o monoteísmo judeu. Não se contenta com ritos maquinais; é, sobretudo sobre as consciências que aspira atuar. É, pois a elas que se dirige, e mesmo quando exige da razão uma submissão cega, o faz falando-lhe a linguagem da razão. (...) Todo um sistema hierárquico de autoridades está organizado, e com maravilhosa habilidade, para tornar a tradição invariável (1982, p. 118).

Por isso, mais coeso e mais amarrado à tradição7. Quanto mais haja maneiras de agir e pensar assinaladas por um caráter religioso e isentas do livre exame, tanto mais a 7

É interessante pensar acerca do próprio caráter da tradicionalidade do catolicismo brasileiro que, em alguns aspectos e em algumas manifestações, aparece como um catolicismo internalizante. Este se caracterizaria “como um comportamento religioso e social orientado conscientemente por valores religiosos; o que implica explicação racional dos valores, normas e papéis religiosos; o que acarreta relativa diferenciação – e mesmo tensão – entre os valores religiosos conscientes e o sistema axiológico predominante na sociedade inclusiva” (PRANDI e

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idéia de um ser supremo estará presente em todos os pormenores da existência e farão convergir para um único e mesmo alvo as vontades individuais. Se a religião é vista como uma “sociedade”, quanto mais coesa esta, maior a coesão identitária em torno dela e/ou de seus símbolos. O essencial é que a natureza das representações sociais e dos símbolos sejam de natureza a nutrir uma vida social de suficiente intensidade e que deem conta de sustentá-la. Todavia, como os significados só podem ser “armazenados” através de símbolos (GEERTZ, 1989, p. 144), tais símbolos religiosos dramatizados em rituais e relatados em mitos, parecem resumir, de alguma maneira, pelo menos para aqueles que vibram com eles, tudo que se conhece sobre a forma como é o mundo, a qualidade de vida emocional que ele suporta, a maneira como deve comportar-se quem está nele, e a maneira como se vê dentro dele. A religião apoia e justifica – às vezes – os valores sociais. Isto decorre da capacidade de seus símbolos de formularem o mundo no qual esses valores são ingredientes fundamentais. Os significados desses símbolos influenciam os fatos exatamente por causa de seu significado para o grupo. Como disse Geertz, “nos rituais sagrados e nos mitos, os valores são retratados não como referências subjetivas, mas como condições de vida impostas, implícitas num mundo com uma estrutura particular” (1989, p. 149). Como em uma sociedade complexa – como a de Caicó, por exemplo – não encontraremos um único sistema de símbolos, mas vários deles. Um sistema religioso simbólico como a Festa de Sant’Ana de Caicó pode nos ajudar a compreender e interpretar a sociedade caicoense como um todo, em seu universal simbólico, ajudandonos também a entender como este sistema simbólico reconstrói a sua identidade. Isto na medida em que haja adesões conscientes ou inconscientes a um corpo de símbolos religiosos que exprimem e reforçam esta ou aquela identidade. PIERUCCI, 1996, p. 12), ou seja, caracteristicamente uma fé mais racionalizada e mais ascética, daquela forma enfatizada por Weber.

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A Festa de Sant’Ana de Caicó nos remete a uma outra perspectiva da festa: o conflito. Não apenas entre as esferas do sagrado e do profano, como também de conflitos internos: dentro da própria Igreja; entre os “festeiros”; entre os grupos sociais heterogêneos que internamente se ligam entre si por laços de pertença, parentesco, compadrio e patronagem; entre grupos políticos que disputam o poder local, estes ligados por sua vez a grupos estaduais; entre a Igreja e outras filiações religiosas pelo mercado de bens religiosos e mesmo entre a Igreja Oficial e o catolicismo popular. Para Alba Zaluar (1983) nas festas populares é visível a ação da Igreja, deslegitimando o catolicismo popular e suas práticas e impondo o catolicismo oficial e suas categorias e concepções religiosas. Carlos Rodrigues Brandão (1978) nos mostra que é em torno de algumas pessoas que toda a festa se organiza. Observados em sua atuação dentro dos rituais da festa, ou agindo ao seu redor, eles revelam três componentes qualificadores das ações de troca de serviço: (1o) o controle, ou os modos de exercício do poder de determinação sobre formas de procedimento exercido por alguns promotores da festa sobre outros; (2o) os bens, ou as formas de investimento de recursos da festa (dinheiro, comida, etc.), por parte de outros, em troca de seus serviços; e (3o) as homenagens, ou os modos simbólico de produção e direção do deferimento ritual de alguns promotores para com outros (1978, p. 40).

Os agentes da festa atuam sobre ela, ou em função de sua posição na sociedade local, ou em função de sua posição tradicional na própria Festa e estas, por sua vez, ocupam posições na sociedade local derivadas do modo como participam das relações de trabalho, tanto urbano como [sic] rural. Em certos casos, ocupam posições específicas na festa por causa das que ocupam na sociedade (BRANDÃO, 1978, p. 45-52).

Desta maneira, percebe-se que a rede de relações entre participantes da festa transporta para um campo de atuações simbólicas uma estrutura de modos de participação igual à da sociedade, aquela que ela organiza para produzir os seus bens e reproduzir as relações entre seus produtores sociais. Ou a festa coloca, em postos 21


diferentes, sujeitos – dominantes e dominados, apropriadores de trabalho ou assalariados – também diversos, segundo a posição de sua classe ou segmento de classe na sociedade, ou coloca-os, ainda, diferentes, nos mesmos lugares simbólicos, mas através de tipos de atuação e formas de presença igualmente diferentes na festa (Brandão, 1978, p. 60). Em decorrência da presença e do entrecruzamento de interesses divergentes de parte de segmentos sociais, inclusive os que estão dentro de uma mesma elite dominante, há tensões internas e externas sobre uma festa que, simbolicamente, articula pessoas de todas os grupos de sua sociedade. Na relação Festa-Igreja, pode ser localizado; o primeiro, entre os agentes que compõem as duas esferas e organizam as duas matizes; o segundo, na tensão entre tradição e atualização, entre a tradição folclórica e o espetáculo, ou melhor, na dicotomia entre a tradição e a modernidade; e, o terceiro, na relação etnia-classe social, entre os grupos que compõem a Festa e rivalizam-se entre si. Outros conflitos e antagonismos são mostrados ao longo da festa. Seja na ocupação econômica do espaço da festa, seja na ocupação do mesmo espaço pelos diversos grupos sociais. Os atores-espectadores articulam-se, a partir das estratégias dadas, situação econômica, seca e espacialidade, e de um conjunto de ações, táticas, que definem e [re] definem a festa, tornando-a, ao mesmo tempo, cenário, palco e plateia. Tendo em vista que todo espaço é construído, esse assume vários significados, conforme os indivíduos e grupos, tipos de apropriação e o tempo. Se as delimitações e demarcações não são percebidas de imediato, elas existem e são lidas com facilidade por aqueles que frequentam a festa, embora o mesmo não aconteça com o forasteiro, ignorante de códigos implícitos no enredo social (BRANDÃO, 1999, p. 47). Na Festa de Sant’Ana as relações entre ritual e comportamento comunicativo são estreitas, tendo a festa, em geral, as duas finalidades. Embora permaneça sendo de caráter religioso, ela mantém aspectos bastante secularizados que chegam a criar conflitos com a Igreja, pois muitas vezes a participação popular se dá mais pelo aspecto turístico, do divertimento e alegria, do que pelo aspecto religioso propriamente dito do 22


evento. Além disso, disputas pelo controle político e econômico da festa também são frequentes. O aspecto comunicativo aparece não apenas no âmbito propriamente religioso, de comunicação com o sagrado, mas também nos elementos que são introduzidos na festa. Isto tanto pode acontecer pela introdução de elementos profanos, como na introdução de elementos religiosos em pontos profanos. Uma outra característica da Festa de Sant’Ana de Caicó é a sua capacidade de por em movimento várias esferas do social. Também, outra característica importante é a sua capacidade aglutinadora. Do ponto de vista econômico a festa aglutina não apenas diversos serviços em decorrência da intensa atividade religiosa, mas aumenta sua renda geral com a chegada de milhares de visitantes e turistas. Do ponto de vista político, os diversos acontecimentos, religiosos e profanos, aparecem como uma excelente arena onde políticos, de esquerda e de direita, podem aparecer e serem vistos. E a festa é, também, o paroxismo da sociedade onde, do ponto de vista da sociabilidade e da construção de identidades, como já ressaltado, renova a sociedade. Pois é o momento de rever os velhos amigos: caicoenses da “diáspora”, que há muito foram embora em busca de oportunidades nos grandes centros urbanos de todo o país. Daí porque, não poderíamos esquecer de mencionar, a festa é também um fenômeno total. Melhor dizendo, é, para Marcel Mauss, um fato social total. Pois, ao articular vários domínios da vida social (econômico, religioso, político, etc.), realçam-na como um fenômeno social total (MAUSS, 1981). Assim, “todo fato é suscetível de múltipla codificação, fazendo sentido em diversos contextos e implicando em sua compreensão o conjunto “total” de relações que constitui a sociedade em estudo” (MAUSS, 1981, p.147). Deste modo, o ciclo festivo reúne não apenas todos os membros da sociedade, mas também todas as coisas. Neste momento,

Sociedades, grupos e subgrupos, juntos e separadamente, retomam vida, forma, força; é neste momento que partem para começar de novo; é então que se rejuvenescem algumas instituições, que outras se purificam, que outras mais são substituídas ou esquecidas; é 23


durante este tempo que se estabelecem, se criam e se transmitem todas as tradições (MAUSS, 1981, p.113).

Ao aparecer como fato social total, a Festa consegue ser não apenas uma representação lúdica de um dado evento mítico-temporal. É possível perceber também, como ressaltamos, um pouco de sua estrutura social, compreender seus símbolos e dar conta de sua realidade extra-festiva. E, como já efusivamente ressaltado, dar conta de como a Festa [re] atualiza e [re] constrói as identidades sociais e suas respectivas representações. Nosso caminho metodológico se pautou dentro da lógica da antropologia interpretativa e seu precursor Clifford Geertz. Este toma por base o pensamento weberiano no sentido em que se discute a cultura como uma teia de significados às quais o homem se amarra, e tenta buscar o sentido das construções socioculturais existentes. Apoia-se em etnografia, pela qual pode-se obter o significado das ações. Esse caminho, Geertz denomina de “descrição densa”, pois a maior parte do que precisamos para compreender um acontecimento particular, um ritual, um costume, uma idéia, ou o que quer que seja, está insinuado como informação de fundo antes da coisa em si mesma ser examinada diretamente. Assim, a análise é “escolher entre as estruturas de significação”. Códigos preestabelecidos socialmente, “e determinar sua base social e sua importância” (GEERTZ, 1989, p. 19). Isto é, perceber o que elas representam para cada sociedade e cultura em questão. Deste modo, fazer etnografia, nos diz Geertz,

É como tentar ler (no sentido de “construir uma leitura de”) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escritos ou não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios do comportamento modelado (1989, p. 20).

Assim, a etnografia enquanto descrição densa é um empreendimento antropológico, isto é, deve ser encarada em termos das interpretações das quais as 24


pessoas pertencentes ao grupo estudado submetem sua experiência. O que se inscreve é o fluxo do comportamento e do discurso que as formas culturais e as representações sociais ensejam. Mas não o discurso em sua totalidade, mas apenas naquilo em que nossos informantes nos permitem perceber. Assim, não inscreveremos o discurso social bruto. Por não sermos atores e não pertencermos àquela sociedade e cultura, não podemos fazê-lo. O que se inscreve no esforço etnográfico é uma interpretação deste discurso. Tudo isto lembrando que a cultura é também um contexto no qual os comportamentos, regras, instituições e processos podem ser descritos. Pensar este contexto, descrevê-lo com intensidade e interpretá-lo, eis o que é construir etnografia. Assim como compreender estruturas de significados socialmente estabelecidas, dar conta de sua lógica e interpretar o que os homens fazem delas. “É expor sua normalidade sem destruir sua particularidade” (GEERTZ, 1989, p. 24). Eis, da mesma forma, o empreendimento etnográfico. Para se fazer etnografia é preciso, necessariamente imprescindível, estar no campo e participar da vida social que se pretende estudar. “Estar lá e viver lá com intensidade”, isto é, sem outras preocupações que não a “captação” daquilo que Malinowski denominou de “os imponderáveis da vida social”. A observação participante implica na construção de uma ponte entre o pesquisador e o grupo social estudado. Implica também numa carga de subjetividade que às vezes traz alguns problemas ao antropólogo, mas que, em geral, fornece-lhe meios de poder dar conta, mais profundamente, daquilo que, longe da sociedade estudada, não poderia perceber. Diante de tudo isto, podemos dizer que nossa observação participante se deu, intensivamente, durante todo o período festivo, iniciando-se dez dias antes e terminando cinco dias depois da festa. Os dados a que se referem esta dissertação vão das Festas de Sant’Ana de Caicó de 1999 a 2001. Também foram necessárias várias idas a Caicó no período extra-festivo, para se dar conta das informações obtidas durante a Festa, retomar entrevistas e tentar compreender a própria construção da Festa neste período. 25


Laçamos mão, portanto, do diário de campo, como instrumento básico para auxiliar nosso empreendimento. Nele traçamos não apenas informações de pesquisa, mas nossos problemas e angústias deparados ao longo da pesquisa. Este foi apoiado por uma caderneta de campo, para anotações imediatas, fugidias, mas extremamente importantes para as reflexões posteriores. Nossas dificuldades foram muitas. Para o pesquisador, desconhecedor na prática de uma realidade sertaneja, tão distante da sua, litorânea, o primeiro desafio era entender o sertão. Mesmo sem a barreira da língua, impõe-se a barreira cultural e social. Ser aceito em uma sociedade que toma posicionamentos sociais e econômicos na estrutura social como extremamente relevantes, fez com que o pesquisador destruísse o primeiro dos mitos: a tão falada “hospitalidade caicoense”. Aqui a atitude de hospitalidade estava ligada ao reconhecimento de status que se revestia o indivíduo. Mesmo depois de tantas idas e vindas e tantos contatos, várias pessoas recusavam-se a conversar ou a dar entrevistas, principalmente por descobrirem que era um cientista social a fazê-las (isso quando sabiam o que “diabos era isso”). Interessante é que, as portas se abriram, após uma entrevista dada pelo pesquisador a um telejornal, de nível estadual. Após esse acontecimento midiático, ficou um pouco menos difícil esse acesso. Algumas questões nunca eram respondidas quando tocadas. Uma delas era sobre o papel da Igreja, a este tendo-se só elogios. Mas, nas conversas informais, sem gravador, caderneta e lápis, o pesquisador ia juntando uma fina teia que encobre a relação entre Igreja e Sociedade em Caicó. Outras questões, frutos da observação intensiva, foram coletadas pela inserção constante nesta sociedade. O caicoense fala muito quando elogia sua terra e mal abre a boca ao criticá-la. Ao vazio entre um ponto e outro, coube-nos perceber e interpretar. Nossas técnicas de pesquisa foram fundamentadas basicamente em entrevistas qualitativas abertas, semi-estruturadas, tentando construir com nossos entrevistados um diálogo, tentando captar subjetividades, significações, códigos, concepções, discursos. Os atores escolhidos foram desde os “agentes da festa” (Bispo, Pároco, organizadores, 26


políticos locais, empresários) até os participantes anônimos, moradores e visitantes (conforme tabela em anexo). Essas entrevistas se deram, na medida do possível e da abertura concedida dos entrevistados ao pesquisador, através da gravação em áudio, por um gravador portátil, num total de aproximadamente vinte horas de depoimentos gravados, ou de anotações na caderneta de campo. Buscamos nas bibliografias, revistas, folders e jornais locais – distribuídos ou não no momento da festa – um apoio para nossa pesquisa. Em especial demos destaque às músicas que falam da cidade e da festa e das revistas publicadas. Assim como também buscamos nas imagens da festa (fotografias e filmes), significados e códigos implícitos. Daí porque também justificar pela nossa opção de captar algumas “imagens” da festa. Através de uma câmera portátil amadora, o pesquisador pôde registrar momentos importantes da festa, cuja imagem ficaria relegada apenas à sua narrativa e à imprecisão de sua memória. A possibilidade de rever continuamente essas imagens no retorno ao seu locus vivendi, fez com que a precisão interpretativa e a densidade de pesquisa se elevassem um pouco mais. Deste modo, o pesquisador gravou, entre depoimentos e imagens, cerca de seis horas em vídeo VHS. Esta dissertação de mestrado é constituída, além deste capítulo introdutório, de mais três capítulos. O primeiro intitulado “A Prece do Vaqueiro”, parte de uma lenda, uma espécie de “mito fundante” da cidade, para tentar compreender sua história e desenvolvimento sociocultural de Caicó e suas mudanças até os dias atuais. O segundo capítulo é “A Festa de Sant’Ana”. Nada mais que a tentativa de construir uma descrição densa da Festa. Indo desde a preparação do evento, seus principais acontecimentos e seu fim, onde tentamos dar conta da multiplicidade dos fatos e ações ocorridas na Festa, centralizando, porém nosso grande objetivo: mostrar como se efetuam as [re] construções e [re] atualizações de identidades e representações sociais do ser caicoense dentro da festa de sua padroeira. O último capítulo prende-se às nossas últimas considerações e reflexões acerca do trabalho. “A Senhora do Sertão” é um pouco do que o título enfatiza: o senhorio 27


simbólico daquela que não impõe um reinado, mas um senhorio. Pois sem mandar em nada, ela sintetiza um pouco das aspirações de modernidade, à força da tradição da região. Simboliza também, a capacidade sertaneja de sobreviver e de continuar sempre. Sempre para ir a mais uma Festa. É também uma tentativa de sintetizar nossas considerações finais acerca do trabalho.

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2. A Prece do Vaqueiro Do vaqueiro da prece lendária, surge o manto do amor de Sant’Ana! (Trecho da Música de José Lucas de Barro)

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Há uma música, de autoria dos irmãos Luiz e Jaime Paulo Figueira, que fala do nascimento de Caicó a partir da prece de um vaqueiro. Coloca também, a música, Caicó como o “coração do sertão brasileiro, capital do Seridó”. Reconstrói as glórias passadas desta cidade do interior do Rio Grande do Norte, partindo de uma lenda, chegando aos seus vários topônimos e narrando a trajetória de vários filhos ilustres.

Foi da prece de um vaqueiro que nasceu o Caicó Coração do sertão brasileiro, capital do Seridó. Vila do Príncipe se iniciou, Cem anos atrás como cidade se firmou. Centro de glórias ide avante! Berço de luz que fez Amaro Cavalcanti8, Cultura brilhante! Foi da prece de um vaqueiro que nasceu o Caicó Coração do sertão brasileiro, capital do Seridó.

Outra música significativa é o Hino do Centenário de Caicó (Música do maestro Felinto Lúcio Dantas9 e letra de José Lucas de Barros). Mais completo do que o anterior, ele retrata também um pouco da história da cidade, referenciando-se, de início, aos mitos e lendas de vaqueiros e reses encantadas. Assim,

Do vaqueiro, da prece lendária, surge o manto do amor de Sant’Ana. Caicó, jovial centenária, que aos seus filhos queridos ufana. Pela voz das cachoeiras, Barra Nova e Seridó! Canta cantigas de inverno, saudação a Caicó! Caicó, das missões do Rosário, das alvoradas em belas manhãs. Sê tranqüila, no teu centenário, como as águas tranqüilas do Itans. Teu berço de duras rochas que fez parte Caicó! E o trabalho te elegeu, a rainha do Seridó! 8

Amaro Cavalcanti (1849-1919) foi um importante jurista caicoense. Irmão do Padre João Maria estudou nos Estados Unidos, sendo um dos primeiros brasileiros a terem direito de advogar na Corte Suprema NorteAmericana. Foi Senador no início da República, fazendo parte da primeira constituinte, Deputado Federal, Ministro do Supremo Tribunal Federal e Ministro da Fazenda no Governo de Rodrigues Alves. Foi também Ministro da Corte de Haia, na Holanda (MONTEIRO, 1999, p. 153). 9 Felinto Lúcio Dantas, natural de Carnaúba dos Dantas,, RN, é o mais representativo de toda uma geração de músicos da região do Seridó e do Rio Grande do Norte. Seu estilo erudito, com uma musicalidade voltada para os sons do sertão, fez dele um expoente da música erudita nacional. Outro nome a citar, também da mesma cidade e geração é o de Tonheca Dantas, autor da célebre valsa “Royal Cinema”.

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Teus novilhos de tantas jornadas se apascentam por vales e serras, Simbolizam as lides passadas, na conquista penosa da terra. Quadro de lutas e letras de inteligência e civismo! Nunca um filho teu negou, tributo ao patriotismo! Atalaia do alto sertão, não te vencem cruéis empecilhos. Caicó és farol de instrução, aclarando o talento dos filhos. Terra de luz e calor, fibras longas do mocó! Ó rainha centenária, coração do Seridó!

É da prece mitológica do vaqueiro que brota o amor de Sant’Ana por Caicó e pelo seu povo. Os locais celebrados, a religiosidade exaltada, tudo fazem de Caicó a rainha do Seridó. As lutas passadas juntam-se às lutas presentes, contra o clima implacável e a escassez de água. Mas a permanência do homem na região é fruto de sua coragem, obstinação, força e inteligência. Sua inteligência e saber formal acumulados, aliam-se às riquezas plantadas pelo homem, como o algodão, para fazer da cidade o epicentro regional. Mas o que essas músicas trazem de significativo é a aparente consciência social de que uma cidade tenha surgido de uma lenda e, por que não dizer, de um mito de origem. Aqui tomamos o conceito de mito discutido principalmente pela corrente antropológica da história das religiões. Assim, concordamos com Eliade (1972), para quem,

O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do princípio. (...) Narra como, graças às façanhas dos entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição, (...) ou como no nosso caso, uma cidade. Assim é sempre, continua, a narrativa de uma criação: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. (...) Os mitos descrevem as diversas e algumas vezes dramáticas, irrupções do sagrado (ou do sobrenatural) no mundo. É essa irrupção do sagrado que realmente fundamenta o mundo e o converte no que é hoje (p. 11).

Os mitos de origem também se caracterizam pela sua contínua repetição temporal. É o “eterno retorno”, a condição de se reviver temporalmente o mesmo evento ou ritual,

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que é periodicamente reconstruído pela sociedade e cultura a que pertencem. Deste modo, Por ocasião da reatualização dos mitos, a comunidade inteira é renovada; ela reencontra as suas fontes, revive as suas origens. A ideia de uma renovação universal produzida pela reatualização cultural de um mito cosmogônico é encontrada em muitas sociedades tradicionais (p. 37).

Nosso mito, colhido pela primeira vez textualmente há quase um século por Manoel Dantas, traz à tona toda uma realidade passada no início da colonização da região, no final do século XVII e início do século XVIII. Essa distância que nos separa desta realidade, impede-nos de aprofundarmo-nos no universo mental que o criou. Mas, de sobremaneira, não nos impede de tentarmos reconstruir e interpretar as várias matizes e significados possíveis que possibilitaram a construção desse mito e de sua [re] atualização através dos tempos até hoje. Assim, narra Manoel Dantas (2001, p. 97-98), Quando o sertão era virgem, a tribu [sic] dos caicós, célebre pela sua ferocidade, julgava-se invencível, porque Tupã vivia ali, encarnado num touro bravio que habitava um intricado mufumbal10, existente no local onde está, hoje, a cidade do Caicó. Destroçada a tribo, permaneceu intacto o misterioso mufumbal, morada de um Deus, mesmo selvagem. Certo dia, um vaqueiro inexperto, penetrando no mufumbal, viu-se, de repente, atacado pelo touro sagrado, que iria, indubitavelmente, mata-lo. Rapidamente inspirado, o vaqueiro fez o voto a N. S. Sant’Ana de construir ali uma capela, se o livrasse de tamanho perigo. Como por encanto o touro desapareceu. O vaqueiro destruiu a mata e iniciou, logo, a construção da capela. O ano era seco e a única aguada existente era a de um poço do rio Seridó. O vaqueiro fez novo voto a Sant’Ana para o poço não secar antes de concluída a construção da capela. O poço de Sant’Ana, como ficou, desde então, denominado, nunca mais secou. Reza a lenda que o espírito do Deus dos índios, expulso do mufumbal, foi se abrigar no poço, encarnando-se no corpo de uma serpente enorme que destruirá a cidade, ou quando o poço secar, ou quando as águas do rio, numa cheia pavorosa, chegarem até o altar-mor da matriz do Caicó onde se venera a imagem da mãe de Nossa Senhora.

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De mufumba, ou mufumbo, também conhecida como cipoaba, mato espesso de arbusto trepador cujas folhas são revestidas de pequenas escamas, cujas flores são amarelas.

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Interessante é que Dantas dá outra versão do mito, aparentemente um pouco mais recente e muito parecida com a primeira, exceto pelo seu final e por uma maior contextualização histórica. Eis que,

A tradição mais antiga é que, depois da revolta geral dos índios, em fins do século XVII, um fazendeiro abastado, saindo da casa forte de Jardim de Piranhas achou muito apropriado para uma fazenda de gados o local entre os rios Seridó e Barra Nova. Certo dia, indo em perseguição a um touro bravio, penetrou na mata de mufumbos existente à margem esquerda de um braço do rio Seridó. Chegando a uma clareira da mata, o touro investiu contra ele furioso. O fazendeiro vale-se, então, de N.Sra. Sant’Ana, prometendo edificar naquele lugar uma capela, se escapasse à morte que o ameaçava. O touro passou de lado e o fazendeiro iniciou, logo, a construção da capela, no local onde está hoje situada a bela matriz, sob a invocação de N.sra. Sant’Ana. O tempo era de seca e a água, tirada de um poço existente a nordeste, começava a escassear. O fazendeiro fez nova promessa a Sant’Ana para que não faltasse água à construção da capela. O poço não secou, e assim se tem conservado, até hoje, mesmo nas maiores secas, sendo conhecido como nome de Poço de Sant’Ana. Há, no fundo do poço, uma grande furna, que nunca pode ser explorada. Diz a lenda que, nesta furna, mora uma serpente enorme, que governa as águas subterrâneas. No dia em que a serpente morrer, a cidade de Caicó será destruída por uma inundação (DANTAS, 2000, p. 98).

Tomando as duas narrativas conjuntamente é interessante observar as similitudes e as diferenças entre elas. Primeiramente, temos um vaqueiro que cria gado e vive desta ocupação; depois, há a presença de um touro bravio preso num mufumbal; há também a intervenção de Sant’Ana duas vezes; tem-se um manancial de água que não seca; a construção da capela e o início (intrínseco) da cidade; e por último, a maldição de que a cidade será destruída por uma inundação feita por uma serpente que habita no poço. No que tange as diferenças observa-se que: a segunda narrativa é mais historicista, sendo inclusive situada no tempo e no espaço; na primeira narrativa, o touro é encantado e o milagre é visível, enquanto que na segunda narrativa o touro simplesmente passa ao lado; na primeira narrativa há uma referência direta às crenças dos indígenas que habitavam o local, evidenciado pela intervenção de Tupã, enquanto que na outra, não se coloca nem a mínima referência a estes.

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O padre Eymard Monteiro (1999) complementa a narrativa dizendo que quando da construção da capela, após a prece do vaqueiro, o poço esgota-se completamente. Os trabalhadores, ao largarem o serviço, deixaram as ferramentas à borda do poço vazio. No outro dia, encontraram-no completamente cheio “a ponto de ser preciso mergulhar para readquirir os instrumentos de trabalho” (p. 30). Interessantes são as lendas que existem em torno do poço:

Conta-se que uma moça dando à luz um filho, jogou-o no Poço de Sant’Ana, para que ninguém descobrisse a desonra. E a cabeça deste menino aparece, vez por outra, na superfície da água, sorrindo, macabramente, para os que lá estão tomando banho. Outra lenda fala que no reino encantado, na furna de pedra, debaixo da água, era tradição também que morava um negro desaparecido, certa vez, quando lá se banhava, brincando com os outros companheiros (p. 31).

Ao fim o padre entoa uma sugestiva ode-pedido ao poço encantado:

Ó meu Poço de Sant’Ana, tu és a imagem viva do homem que fraquejou, após anos de vitórias, vencendo todos os obstáculos da natureza. Aí eu te vejo acolhendo no seio das tuas águas mansas, os meninos de Caicó que, em bandos, se vão banhar, pulando da pedra que me diziam ser a entrada do teu reino. E nas tardes frescas, quando a brisa sopra acariciando-te, brandamente, vejo-te encrespando a tua superfície, como se quisesses me dar um adeus de despedida. Não seques mais para que não despertes a serpente encantada do teu reino e não se destrua a cidade que se mira, vaidosa, no espelho das tuas águas cristalinas (p. 32).

Essas narrativas evidenciam apenas duas grandes versões que não chegam a se conflitarem textualmente. Essas diferenças se devem, com boa chance de certeza, a versões do mesmo mito distanciadas pelo tempo e reconstruídas de acordo com a necessidade de seus ouvintes. A primeira mais mística e mais mitológica, enquanto que a segunda mais “racional” e mais historicista. Para o nosso interesse aqui, porém, atentamo-nos naquilo que as duas evidenciam como significativo para ajudar-nos a interpretar as representações e os símbolos existentes nessas narrativas. Elas são úteis 34


para o nosso trabalho de interpretar uma cultura ao longo de sua trajetória históricosócio-cultural. Para tanto, partiremos de cada um dos pontos mostrados anteriormente, onde trabalharemos cada um deles, partindo do mito para a história e depois retornando da história para as representações. Também é necessário lembrar que antes do homem vem a terra, e é sobre ela que precisamos nos debater primeiro. O sertão, duro e áspero tantas vezes retratado pelos cronistas e pela literatura11. Esta terra comparada ao deserto, o pano de fundo dos nossos mitos. Caicó está inserida no Sertão do Seridó. Sertão com todas as suas representações e facetas. Sertão árido e pedregoso. Tantas as pedras que temos a impressão de estarmos vendo ruínas de alguma civilização perdida. Esta foi uma das impressões de Euclides da Cunha. Pó e pedra, sol e calor. “Uma paisagem impressionadora” (CUNHA, 1975, p. 20), noticiou o jornalista. O martírio da terra, a secura do ar, a rudeza do homem. Eis as expressões cunhadas pela visão do cronista. Nos leitos dos rios, já secos, esparramam-se oásis verdes, pontos de descanso e vida. Onde o homem e os animais aconchegam-se e descansam. Onde matam sua sede com a pouca, rala e suja água que há. Quando há. É o sertão das pedras. Pedras infinitas. Dá-nos a impressão, como dissemos, de estarmos diante das ruínas de uma antiquíssima civilização. Uma verdadeira civilização de pedras:

Uma civilização que soube tirar das pedras, do ser inanimado da natureza, a sua subsistência. Que soube transpor o valor da pedra, para o pão. Então, pedra para nós tem valor de pão. Porque nós somos seridoenses, nós nascemos das pedras12. Nós somos de uma civilização da pedra.(...) Então a pedra que serve para lapidar as pessoas, serve para matar, serve, pela sua dureza, como sinal de crueldade, de aspereza, de dificuldade. Mas para nós as pedras se ergueram aqui, e se fizeram pão, as pedras se fizeram sonhos, as pedras construíram sonhos, as pedras foram petrificadas, no sentido mais poético da palavra.(...) [Cada pessoa] é também uma torre que se eleva das pedras para o céu. É um 11

Acerca de uma bibliografia mais específica sobre sertão, remetemos o leitor principalmente para: Djacir Menezes (1970), Otamar de Carvalho (1994), Iná Elias de Castro (1996), José Guimarães Duque (1980) e Euclides da Cunha (1975). Assim como a literatura nacional nos remete a Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Patativa do Assaré, etc. 12 Grifos Nossos.

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apelo vivo que brota do chão sedento, que brota desse chão empobrecido, muitas vezes infecto e árido que se eleva até o céu (GLEIBER DANTAS DE MELO, Seminarista).

É a capacidade ancestralmente imputada nas representações coletivas de que o sertão é a terra da adversidade e da rudeza. Mas é do deserto que brota a riqueza, e esta riqueza maior é o homem. A bíblia está cheia dessas representações. Assim como Moisés retirou água do rochedo (Ex 17, 1-7), destas pedras deverá brotar a vida apesar de tudo. A pedra é o alicerce seguro pelo qual algo pode ser edificado. Assim, Jesus conclama: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Pedra que cria, que eterniza. É a terra que eterniza a mais antiga das maldições:

Maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó te hás de tornar (Gn 3, 18-19).

E o homem é fruto da maldição da terra porque ele é pó, ele também é pedra. Mas o lamento do homem sertanejo deve chegar até o céu porque Deus, que também é rocha, que também é pedra, deve escutar o lamento do sofredor: “só em Deus repousa minha alma, só dele vem a salvação. Só ele é meu rochedo, minha salvação, minha fortaleza” (Sl 61, 2-3). Apesar de tudo o sertão é a Terra Prometida. É a terra para onde se volta e onde se encontra a raiz do homem. É a terra onde a água é a preocupação central. Onde tudo gira em torno da água. Onde uma bênção para um homem é “como uma chuva”, algo maravilhoso. A água que simboliza a soma universal das virtualidades; ela é fons et origo, o reservatório de todas as possibilidades de existência; ela precede toda a forma e suporta toda a criação.

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No inverno é o momento da revitalização da terra. Imediatamente a vida volta a brotar onde ela, aparentemente, deixara de apresentar-se. Com o inverno, vem as esperanças do sertanejo, esperança de poder sobreviver sem ter de deixar seu pó. Revitalizam-se os umbuzeiros, faveleiras, juazeiros, algarobas e juremas, revitaliza-se a flora e a fauna. Flores do sertão. Bichos do sertão. Euclides da Cunha chega a conclusão de que “o sertão é um paraíso” (1975, p. 45). Sua ressurreição das cinzas o faz uma verdadeira Fênix. Nas secas, esta “terra que Hegel não citou” (Cunha, 1975, p.47), morre novamente. Suas manhãs, espetáculos para os olhos e para a alma, tornam-se mais quentes e seus dias maiores. Seca-se tudo, águas, animais e homens. Inicia-se o martírio secular da terra. “O martírio do homem, ali, é o reflexo da tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da vida” (Cunha, 1975, p. 55). O homem ali é forte, pois o sertanejo é um forte, antes de tudo. Após a terra vem o homem. E os primeiros são os índios silvícolas, tapuias guerreiros que, desde seu total extermínio físico pelo colonizador branco, pouca coisa restou de sua cultura material e simbólica. Tapuia é um termo pejorativo dado pelos índios do tronco tupi que dominavam o litoral brasileiro na época da colonização. Significa simplesmente inimigo. Era uma grande macro-etnia pertencente ao grupo linguístico Jê, que habitavam o sertão e migravam constantemente nas épocas de estiagem e de seca. Na região onde hoje é o Seridó, habitavam os cariris, uma grande nação tapuia. Eles se subdividiam em pegas e panatis, na ribeira do Piranhas; em coremas e icós no curso do Piancó. Onde hoje se situa Caicó, ao que mostram documentos e evidências historiográficas, nunca houve uma tribo indígena com este nome. Ao contrário do que imagina a maioria de seus habitantes e do que está sedimentado no tecido social, das tribos que moravam na região onde hoje é Caicó, nenhuma delas se denominaram assim. As informações de Olavo de Medeiros Filho (1984, p.29-30), mostram que os denominados “gentios do Caicó” tinham mais a ver com a denominação na língua tapuia 37


para o rio Seridó, que eles pensavam ser uma continuação do rio Acauã . Caicó seria, pois, uma corruptela do tarairú queiquó, significando, rio do Cuó, o mesmo Acauã, pelo tupi (p. 144). Assim, o termo “gentios do queiquó”, era a denominação do local dos povos que habitavam próximo ao leito do rio Cuó, e não o topônimo do povo. Esses indígenas, como mostrou Luiz Assunção (1999, p. 30), eram visto pelos viajantes e colonizadores, já naquele momento histórico, como “gente singular”, gente que sobrevive às mais ferrenhas dificuldades e adversidades. As descrições dos indígenas, retirando-se toda a carga ideológica e etnocêntrica, mostravam homens robustos, altos, fortes, etc. Eram excelentes guerreiros e conheciam bem a região onde aplicavam técnicas de guerrilha para defesa e ataque de seus territórios. Como eram seminômades, podiam efetuar grandes deslocamentos em busca de comida, água e locais mais frescos para descanso. Sua alimentação básica estava restrita ao sistema de caça e coleta. Apesar disto eram excelentes artesãos e produziam redes de dormir e mantas com o algodão colhido na região. Confeccionavam sandálias com cascas de árvores e se adornavam para suas festas e rituais (ASSUNÇÃO, 1999, p. 36). Na época de seca, era comum, em suas andanças pelo sertão, levarem consigo embús, frutinha suculenta que apaziguava a sede e a fome. Acostumados com o clima árido, criaram alternativas de sobrevivência no sertão, algumas passadas ao colonizador, outras perdidas para sempre. Eram portadores de valores e costumes, cujos padrões culturais eram orientados pelas tradições do grupo, transmitidos pela oralidade e pela prática cotidiana. Assunção mostra que guerrear fazia parte da sobrevivência dessa gente. Guerrear com os potiguares do litoral; lutar pela sobrevivência em uma terra árida; guerrear com o invasor branco, que chegava impiedoso e aos milhares do além mar. Afinal,

Essa forma de vida reflete uma dupla forma de resistência: quanto àquela que se refere ao espaço geográfico, a terra, embora inóspita, mas também vida, e a manutenção do universo cultural e da nação indígena enquanto grupo social. Embora tendo alguns grupos o conhecimento e a convivência com a cultura branca invasora, principalmente 38


com os holandeses, isso não significa pacífica aculturação e assimilação (ASSUNÇÃO, 1999, p. 52).

Quando os povoadores começaram a adentrar no sertão13, com a devida licença de El Rei14, traziam consigo algo a que os nativos não estavam acostumados: o gado, isto é, caça em abundância. Habituado à falta de caça e ao rígido regime de estiagens que o obrigava a ter um estilo de vida quase nômade, o silvícola impressionou-se com a gadaria e elegeu-a como caça principal. O gado, como era criado solto, tornou-se presa fácil para as armas ágeis e velozes dos caçadores. Logo, vem o choque iminente entre os poucos povoadores armados de “paus de fogo” e espadas de aço e os milhares de silvícolas, tendo consigo para o combate, suas flechas e sarabatanas e um profundo conhecimento do local. Com o aumento da população de colonizadores o conflito transforma-se em guerra aberta. Com a data de sesmaria nas mãos, o proprietário, ou seu homem de confiança, metia-se caatinga adentro, à frente da boiada, margeando as ribeiras e riachos secos, fundamentos de futuros caminhos e estradas, para a fixação em margens mais propícias dentro de seus vastos domínios de várias léguas quadradas. Algumas dezenas de fazendeiros afixavam-se em torno de uma casa-forte, porto seguro, protegido contra o gentio bravo e indomável. Os moradores escondiam-se como podiam nas poucas casas fortes que existiam esperando o socorro do litoral. O denominado “levante dos tapuias” teve esse nome, pois, para o colonizador branco, o índio era passível de submissão sem mais problemas. Não se concebia que pudessem se sublevar à dominação branca. Os tapuias, porém, cada vez mais, vendo sua caça escassear-se, seja devido às mudanças climáticas, seja devido à 13

No caso do Seridó, segundo Medeiros Filhos, “o território já fora penetrado pelo elemento colonizador, desde antes de 1670, pois, naquele ano, já aparece o primeiro requerimento de sesmaria na região, de que se tem notícia” (1983, p. 9). 14 Pelo Regimento e Carta de Nomeação do Governador Geral do Brasil (1548-1549), os moradores não podiam entrar no sertão sem a licença direta do soberano. “Consciente e deliberada preocupação de reduzir o espaço econômico ao espaço administrativo, mantendo o caranguejo arraigado à praia. O povoamento e a colonização, de início, deveriam estar ao alcance dos instrumentos de controle e repressão da metrópole” (FAORO, 1975, p. 145).

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concorrência dos colonos ou à derrubada da mata por este, para a criação de gado, passam a pressionar violentamente, primeiramente matando o gado e depois os vaqueiros invasores, e suas famílias. Na ribeira do Acauã, a chamada casa-forte do Cuó era um dos pontos da resistência branca. Segundo Medeiros Filho (1984, p. 141), esta se localizava exatamente num local próximo à confluência dos rios Seridó, Quipauá (atualmente Barra Nova) e Sabugi. Fora construído ali, pois naquele local, “encontravam-se os três poços d’água permanentes, denominados genericamente de poço de Sant’Ana, capazes de fornecer água abundante e inesgotável aos habitantes do arraial” (1984, p. 142). A situação era tão perigosa para os colonos que houve a necessidade de ajuda de outras capitanias. A própria colonização da capitania do Rio Grande estava em risco, pois os indígenas ameaçavam aproximar-se do litoral. Criminosos eram convocados para lutar contra os indígenas com a promessa do perdão (MEDEIROS FILHO, 1984, p. 120). Mas o socorro só vem com a contratação dos mercenários do Terço dos Paulistas, sob o comando de Domingos Jorge Velho, que adentram na capitania a 05 de julho de 1688. Num pedido desesperado dos colonos o interessante é a resposta do caçador de índios, escravos, metais e pedras preciosas:

Logo depois deste requerimento respondéo o dito mestre de campo Dos. Georges Velho, que elle estava prestes para fazer toda a deligça para destroir todo o gentio, inimigo, tanto o que de prezte esta na Capitania como em outra qualquer presente poi não tinha a outro effeito 15(MEDEIROS FILHO, 1984, p. 129).

Assim era iminente a luta para destruir o “inimigo”, este ou qualquer um outro que desafiasse o poder constituído ou afetasse o Pacto Colonial. Domingos Jorge Velho vem, com as suas tropas, socorrer a capitania arrasada. Estas eram compostas em sua maioria, de mestiços e indígenas de outras etnias, amealhados aos milhares. Após sucessivos combates, chega a derradeira luta, “que teve destino a serra do Acauã, onde 15

Citado conforme grafia original.

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se achavam reunidos perto de dois mil bárbaros, que foram derrotados e mais de mil prisioneiros. Neste combate foi ainda aprisionado o rei Canindé” (MEDEIROS FILHO, 1984, p. 122). Derrotados os índios, aprisionados seus caciques, aniquilados seus xamãs, restamlhes a opção dos vencidos: o aldeamento sob a tutela da Igreja Católica. Os que não se submeteram, dispersou-se para morrer à míngua ou para encontrarem no vício da cachaça o último lamento de seu passado. Ler a carta de capitulação do Rei dos Janduís, Canindé, é verificar a rendição incondicional de um povo. A carta, transcrita na íntegra por Olavo de Medeiros Filho (1984), mostra a submissão total dos últimos tapuias da Capitania do Rio Grande. Nos seus pontos principais ela traz a exigência de El Rei de Portugal na completa “humilde e obediente” vassalagem de todo o gentio, “para sempre”. Cristianização em massa de todo o povo restante e obediência às autoridades locais constituídas pela Coroa. Perda de todas as terras que possuíam até o tempo da guerra, permitindo aos colonos brancos a posse total. Alistamento militar obrigatório nos momentos que a Coroa definisse. Monopólio real de toda e qualquer riqueza encontrada por qualquer gentio e, como golpe de misericórdia, aldeamento de todos os tapuias remanescentes em aldeias coordenadas e tuteladas pela Igreja e pela coroa. A única aparente cláusula a favor dos índios era a que proibia a sua escravização (p. 133-134). Isto, porém, na prática, não era conseguido em absoluto, pois, impedidos de viver sua vida tradicional, eram obrigados a trabalhar nas aldeias ou nos povoados e vilas quase como escravos. De sua organização social, política, cultural e econômica, quase nada restou. Com a destruição de seus líderes e a expulsão de seus pajés, toda a sua herança cultural perdeu-se. Aqueles eram os “guardiões da tradição” local. Responsáveis pela sua reprodução, foram impedidos de dar continuidade devido às acusações de bruxaria e práticas de culto ao demônio. Restaram apenas alguns traços de sua riquíssima herança cultural, transmitidos amiúde nos vários aspectos socioculturais do sertanejo, mas nunca admitidos 41


explicitamente como tais. Como por exemplo nas práticas de catolicismo popular, no caso das benzedeiras e de suas ervas e, no culto da jurema do catimbó nordestino, estudado mais atentamente por Assunção (1999). Vivo ainda nas tradições materiais da rede de dormir, das colchas de retalho, do gosto pela caça, do aluá bebido em dias de festa, na paixão pela farinha em todos os pratos, pelo jerimum, pela batata-doce. Insistente ainda nas coivaras, na carne pilada, no fumo de rolo tão apreciado... Pungente nas toponímias de serras, rios, riachos, plantas e animais. Mas, menos fácil de se mostrar, mas por isso nem menos visível, nos rostos e na fisionomia de tantos sertanejos. Nas suas superstições mais simples e mais cotidianas, e por fim, nas lendas e mitos que sobrevivem nos dias de hoje. Sua resistência tenaz e constante foi assimilada e absorvida pelos sertanejos que os substituíram na posse e na vivência nessas paragens áridas. Resistir foi sempre sua grande razão de ser, seu sentido. Assim, as formas de resistência dos dizimados cariris seridoenses passaram das guerrilhas abertas e agora – depois do holocausto consumado, impossíveis de se efetivarem, para a contumácia da sobrevivência cultural. Essa sobrevivência, além de se constituir nos costumes e tradições, foi transmitida e assimilada pela tradição religiosa, como já dissemos, no caso da umbanda sertaneja (Assunção, 1999, p. 258), e pelas lendas e representações que sobreviveram à hecatombe material. Mesmo assim, até fins do século XVIII, ainda irão se encontrar jogados a ermo aqui e ali, nas poucas terras devolutas ou agregando-se a um ou outro fazendeiro16. Após a pacificação geral17 vêm os primeiros fazendeiros e vaqueiros. Estes vieram com o gado. Ao descobrir-se numa terra de pastagem abundante, descobriu-se também uma terra onde a seca era algo sem solução. Assim como para o vaqueiro Fabiano, “a seca parecia-lhe como um fato necessário” (Ramos, 1998, p. 10). O fato de ver uma 16

Como mostrou Medeiros Filho em um pedido de data de sesmaria datado de 21 de janeiro de 1770 lê-se: “onde se achão [sic] [nas terras pedidas] umas casas dos gentios que se acham despersos [sic] de suas villas [sic]” (1981, p. 22). 17 Geral, pois ainda surgiriam, até meados do século XVIII, alguns poucos focos de resistência tapuia, logo esmagados (MEDEIROS FILHO, 1981, p. 28).

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nuvem enegrecida, sinal de boa chuva, era motivo de alegria. Se ela se vai “vencida pelo azul terrível, aquele azul que deslumbra e endoidecia a gente”, é a melancolia da espera de chuva novamente atrasada. Mas

Quando chovia a caatinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta, chocalhos de badalos de ossos animariam a solidão. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, sinhá Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a caatinga ficaria toda verde (RAMOS, 1998, p. 15).

Assim renasceria todo aquele mundo e o vaqueiro “seria o dono daquele mundo” (RAMOS, 1998, p. 16). Pois o vaqueiro e sua gente eram mais fortes que a seca e do que as atividades duras a que seu cotidiano lhes impunha. Eles eram como “as catingueiras e as baraúnas”, sua força vinha dali mesmo, pois “estavam agarrados à terra” (Ramos, 1998, p. 19). Esperança era só uma, de que “as secas desaparecessem e tudo andasse direito” (Ramos, 1998, p. 24). Ainda assim, seu mundo era o melhor dos mundos, pois embora não fosse realmente seu, de posse real, o era no uso, pois ele era o vaqueiro, “o dono daquele mundo”. A ocupação do sertão se daria apenas nos fins do século XVII. Dizimado o gentio, estavam livres os caminhos, beiras de rios, lembranças pálidas de água. Caminhos que vinham do litoral e dos vales do sul do rio São Francisco. Vinham primeiro os terrastenente, vaqueiros experientes e alguns escravos. Era necessário primeiro construir as primeiras casas, choupanas toscas, para a habitação humana18. Depois, dar forma aos primeiros currais de gado. Como mostrou Menezes (1970):

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A tradição oral fala do fazendeiro Caetano Dantas Corrêa, que, “ao chegar ao Seridó, este, à falta de casa em sua fazenda, ficou morando em uma furna, em companhia de seus vaqueiros, servindo-lhe de cozinheiro um seu escravo, de nome Gaspar” (MEDEIROS FILHO, 1981, p. 121), o que mostra um pouco da precariedade inicial da ocupação no sertão.

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As terras necessárias à criação do gado foram as grandes vias colonizadoras do Nordeste. Enquanto estas amplas e livres pastagens davam origem a sistema de vida diverso, nucleado em torno dos “currais”, mais distantes, nas zonas de mata e de brejo, se expandia a economia agrícola (p. 37).

A forma do criatório era simples. Durante a maior parte do tempo ficava o gado solto, procurando o pasto às margens de filetes de água, sendo buscados próximos ao pôr do sol, para dormir nos currais seguros, protegidos do roubo e da intempérie. Daí, porque, necessitava o vaqueiro ter experiência em montaria e adestramento. Tinha que saber derrubar uma rês, pôr-lhe a pata dianteira na base de seu pescoço, para que, assim, imobilizado, pudesse ser laçado e levado ao curral. Mas isso somente para os garrotes e reses mais bravias. Deste modo, é compreensível ver a cena do touro perdido num mufumbal. Necessitando de perícia, o vaqueiro teve trabalho em levá-lo ao curral. Enfrentar um animal dezenas de vezes mais pesado e de tamanha força era uma tarefa que exigia coragem e habilidade do vaqueiro. Mas quem era esse homem? Luís da Câmara Cascudo nos diz que vem do mestiço, do branco e do indígena em sua maioria. Pouco falante e cheio de pudor, orgulho rancoroso como seus avós cariris, sua vida “predispunha-se à democratização” (CASCUDO, 1984, p. 45). Vestido de couro, retirado do mesmo animal de convívio diário, o qual denominava como a um parente próximo. Nas missões de “dar campo” ao gado fugidio, eram a mesma alimentação e indumentárias que levavam vaqueiros e fazendeiros, amos e escravos. Também eram os mesmos os riscos e os perigos, advindos da caatinga seca e espinhenta, do sol e calor implacáveis e dos bandoleiros e animais selvagens que amedrontavam e criavam estórias fantásticas. Assim, “desenvolviam-se as virtudes idênticas de coragem, afoiteza, rapidez na decisão, força física, astúcia” (CASCUDO, 1984, p. 45). O ciclo, ou “civilização do couro” (MENEZES, 1970), com a paixão pela montaria, pelas armas individuais, pelo sentimento pessoal de defesa e desafronta, criou o “cabra da peste”. De início, um topônimo depreciativo para os negros 44


forros ou semiforros. Depois, sinônimo de “macho”, homem corajoso, valente, sem medo da dor e da morte. Ao mesmo tempo, era o amante da música, cantador sublime, que transformava suas aboiadas em verdadeiras óperas da caatinga. Violeiros, rabequeiros, sanfoneiros. Amantes sem fim do sertão e de sua solidão. Esse amor pela musicalidade era fortemente influenciado pelo aboio. Este “era o canto sem palavras, marcado exclusivamente em vogais, entoado pelos vaqueiros quando conduzem o gado” (CASCUDO, 1956, p. 39). Era o chamamento simples e melódico do trabalho do homem com o gado. A maior preocupação do vaqueiro no sertão, para manter a si e ao gado, era a obtenção de água. No final das estações secas, os poços naturais dos rios já se encontravam secos, fazendo com que se apelasse para as cacimbas. No caso da alimentação, com a terra ressequida e sem pasto, restavam ao gado algumas cactáceas, como o xiquexique. Ter um poço perene para dar de beber ao gado, assim como manter um pequeno pasto em torno deste poço, era extremamente importante nessas paragens. Daí a significação de um poço que não secava no leito de um rio. Após a ocupação, paulatina, construíram-se as primeiras habitações. As casas sedes de fazendas eram de pedra e cal. Eram simples e sisudas, assentadas em locais altos, para aproveitar os ventos mais frescos e amenos e por questões de defesa. Alpendradas, levantadas com madeira, sem eira nem beira. Rústicas e espaçosas para os homens e utensílios de sua época. Seu maior conforto parecia vir das redes rangedoras, amarradas nos caibros ou presas nos tornos, tradição passada pelas cunhãs matronas, que acostumavam as crianças desde cedo ao balanço das redes de algodão tecidas à mão. As casas não tinham

Nenhum jardim, apenas uma pequena “horta” onde se tinham as ervas de meizinha caseira, cravos e bogari para o enfeite de cabelos das moças. Ao lado, uma cocheira com alguns cavalos de sela, que o fazendeiro montava para percorrer as terras, visitar parentes e vizinhos. A sinhá e as moças montavam mais raro para ir à “rua” durante as festas religiosas, principalmente a da Padroeira, Natal e Ano Bom (LAMARTINE, 1996, p. 16). 45


Enquanto cresciam as vias de penetração do sertão, aumentando ao mesmo tempo as boiadas, nos currais iam-se construindo essas casas de alpendre hospitaleiro, em torno das quais construirão pequenos núcleos, com seus agregados caboclos, denominados de “moradores”, sócios não proprietários na empreitada pastoril. Apresentavam-se, esses núcleos, com “uma agricultura irregular, apontando nas terras ribeirinhas de riachos e rios, aleatória e insuficiente” (Menezes, 1970: p. 38). As mulheres brancas, poucas e raras, são substituídas de início pelas índias, em geral laçadas como gado, pelo sertão adentro. Logo, viriam a ser as donas de casa hospitaleiras e de olhar desconfiado, branqueando-se após uma ou duas gerações. O resultado é a guarda inconteste e a perpetuação garantida de algumas tradições tapuias passadas por estas mães sertanejas. Da alimentação ao plantio, dos costumes domésticos aos mitos e lendas, elas serão responsáveis pela miscigenação cultural que tanto assustou e maravilhou os viajantes do sertão. Também inconteste vai ser sobre elas o domínio masculino e patriarcal. Válido era a premissa que: “na casa o homem governava da porta do meio para fora e a mulher da porta do meio para dentro”. Em torno do gado tudo vai girar: da base alimentar – sob seu leite e sua carne – à estrutura social e cultural. Das relações estabelecidas entre os vários grupos sociais, o compadrio vai ser a mais comum. O gado, ao contrário da cana-de-açúcar, dava mais condições de alforriamento aos escravos e de emancipação dos empregados. Com a paga de uma rês para cada quatro nascidas, o empregado, e mesmo o escravo, podia aspirar a ter um mínimo de independência econômica. Mas, como a posse da terra estava nas mãos dos fazendeiros, seja pelo regime de sesmarias ou depois, pela lei de terras de 1850, os empregados tinham de fazer suas criações em lotes arrendados ou cedidos pelos fazendeiros, que se tornavam seus compadres. Além do gado bovino, criavam-se bodes e cabras, ovelhas e, principalmente, cavalos. Interessante é que os jumentos somente foram introduzidos após a segunda metade do século XIX (MEDEIROS FILHO, 1983: p. 23). Mais forte, resistente e mais 46


econômico, é de se estranhar sua falta. Mas, acompanhando a lógica cultural destes fazendeiros, onde a noção de fidalguia era acompanhada pelo status de montar a cavalo, não podemos deixar de compreender. Ademais, somente com o uso do burro-mulo, cruzamento híbrido da égua ou do cavalo, com o jumento ou a jumenta, darão um animal maior e mais resistente, assim como bem melhor adaptado à montaria. Em torno das fazendas de gado, próximas a riachos e poços, vão surgir os primeiros povoados e vilas. E, juntamente com estes primeiros arremedos de urbes, vieram os traços de religiosidade e fé. Olavo de Medeiros Filho nos diz que em Caicó, já em fins do século XVII, surge uma capela, na fazenda Penedo, antecessora da futura igreja matriz. Já em 1735, na instalação oficial do povoado, conforme as Ordenações Filipinas, sob a oferta do cearense Luiz da Fonte Rangel, é benta a primeira imagem de Sant’Ana pelo prelado Messias José Pereira. Esta pequena imagem barroca vai ocupar o altar mor da nova capela, a velha desaparecendo depois (1984, p. 143 e 149). Dezoito anos depois, é criada a Freguesia do Seridó sob a invocação de Nossa Senhora Sant’Ana, desmembrada da Freguesia do Piancó, Nossa Senhora do Bom Sucesso, abarcando todo o Seridó. Assim, a pequenina capela é elevada à igreja matriz sob a invocação da avó de Cristo19. O primeiro vigário da Paróquia será o Padre Francisco Alves Maia, que será o prelado da freguesia até 178820.

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Olavo de Medeiros Filho (1981) nos informa que a “edificação fora iniciada, simbolicamente, aos 26 de julho de 1748, quando ocorreu o levantamento de uma cruz, no terreno doado para a construção do templo” (p. 07). 20 Os Párocos da Freguesia e depois da paróquia serão 32 ao longo dos anos até os dias atuais. Foram eles: Francisco Alves Maia – 1748-1788; José A Caetano de Mesquita – 1788-1800; Inácio Gonçalves de Melo – 1789-1800; Fabrício da Porciúncula – 1800; José Gonçalves de Medeiros – 1800; Fabrício Xavier Vasconcelos – 1800-1802; Francisco de Brito Guerra – 1802-1845; Antônio Felix Barreto – 1810-1811; Manoel Teixeira da Fonseca – 1821; Manoel José Fernandes – 1845-1857; Francisco Justino P. de Brito - ...-1857; Francisco Rafael Fernandes - ....1889; Cônego Manoel Paulino de Souza – 1868-1878; João Avelino de Albuquerque – 18781885; Domingos Pereira de Oliveira – 1880-1885; Amaro Theot Castor Brasil – 1885-1894; Emídio Cardoso – 1895-1912; José Neves de Sá – 1913-1917; Cônego Celso Cicco – 1917-1928; Cônego João Clementino de Melo Lula – ...-1922; Bianor Emídio Aranha – 1928-1931; Natanael Ergias de Medeiros – 1929; Luiz Teixeira de Araújo – 1932 –1935; Luiz Gonzaga do Monte – 1935-1936; Walfredo Gurgel – 1936-1943; Severino Bezerra de Souza – 1937-1939; Expedito Medeiros – 1939; Mário Eugênio Damasceno – 1943; Eymard L’Eraistre Monteiro – 1943; Manoel Varela da Costa Pereira – 1944-1945; Aderbal Vilar – 1945-1948; Mons. Walfredo Gurgel – 1948-1950; José Celestino Galvão – 1950-1953; Onio Caldas Amorim – 1953-1961; João

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Elevada à Freguesia, fincados o cruzeiro e a permanência do vigário, estava impressa a presença certa da Igreja Católica nesses sertões. Ao lado do cruzeiro, finca-se o pelourinho, símbolo do poder real português. Pois,

O pelourinho simbolizava o núcleo legal: instrumento e símbolo da autoridade, coluna de pedra ou de madeira que servia para ater os desobedientes e criminosos, para o açoite ou o enforcamento. Com o pelourinho se instalava a alfândega e a Igreja, que indicavam a superioridade do Rei, cobrador de impostos, ao lado do padre, vigiando as consciências. Com as vilas se instaurava, nas praias e no sertão, a palavra rígida, inviolável e hierática das Ordenações. A colonização e a conquista do território avançam pela vontade da burocracia, expressa na atividade legislativa e regulamental (FAORO, 1975, p. 149).

Mais tarde, o Povoado de Caicó é tornado vila por decreto real de Sua Majestade D. Maria I, “a louca”, em 1788. O topônimo “Vila do Príncipe” era uma homenagem ao príncipe D. João, futuro, D. João VI. Do mesmo modo o Povoado de Martins vai denominar-se Vila da Imperatriz, devido à rainha, e o Povoado de Açu vai se chamar “Vila Nova da Princesa”, em homenagem à infanta de Espanha, Carlota Joaquina, que se casara, ainda menina, com o príncipe João. O primeiro governo municipal, conjuntamente com o Senado da Câmara e seus “homens bons”, vai ser presidido, pelo Capitão-mor Cipriano Lopes Galvão. A Igreja exercia atribuições de ordem administrativa da maior relevância, tais como: registros de nascimento, casamento e a morte eram suas prerrogativas jurídicas. Também a assistência social era encontrada apenas em suas paredes, assim como o ensino. O clero ordenava e regulava as relações domésticas, vigiando todas suas particularidades, dele dependendo a vida social da colônia, com as festas ao redor das igrejas, onde as dispersas populações se confraternizavam. As primeiras “famílias” que vieram a formar a sociedade de Caicó, somente vêm a se firmar realmente nas primeiras décadas do século XVIII. Pessoas advindas das Agripino Dantas – 1961; Itan Pereira da Silva – 1961-1964; Dom Manuel Tavares de Araújo – 1966-1967; Antenor Salvino de Araújo – 1968 até os dias atuais (DIOCESE DE CAICÓ, 1990, p. 30-31).

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capitanias vizinhas, Pernambuco, Paraíba e do reino, vão formar as “estirpes”, as “velhas famílias do Seridó” (MEDEIROS FILHO, 1981, p. 04). O povoamento ocorrerá gradativamente, obedecendo, assim, a duas grandes levas: “do leste para o oeste, através do Boqueirão de Parelhas; e do sul para o norte, partindo da serra da Borborema” (MEDEIROS FILHO, 1983, p. 09)21. Também cristãos-novos, alguns marranos, todos de tradição sefardita judaica, vão fazer parte das levas que darão forma à população daquelas paragens sertanejas. Interessante é perceber que, após a fixação, os descendentes dessas famílias começam a contrair matrimônio entre si, fazendo com que todo o Seridó fosse composto no futuro pelos mesmos troncos descendentes. Com o isolamento e a falta de conjugues, até mesmo junto aos gentios que já se esvaiam ou eram cobiçados pelos mais pobres, a solução foi casar-se com primos, tios e sobrinhos. Como mostrou Medeiros em sua pesquisa sobre as famílias formadoras da região, o século XIX, principalmente, iria ver esses casamentos consanguíneos com bastante frequência. A Igreja, que sempre desaprovou o casamento com parentes, vai dar com frequência aos nubentes “dispensas no parentesco de sanguinidade” ou “dispensa no parentesco a que são ligados” (1981, p. 49)22. Araújo, Medeiros, Costa, Pereira, Freire, Fernandes, Monteiro, Albuquerque, Dantas, Soares, Vale, Barros, Rodrigues, Santos, Melo, etc., serão os sobrenomes de pessoas que, invariavelmente e em algum grau, vão ter parentesco umas com as outras. Com a fixação do homem e do gado, importava agora a sobrevivência. A luta com o criatório, como dissemos anteriormente, girava sempre em torno da obtenção de água e alimentação para os rebanhos, à mercê dos anos bons ou ruins de inverno. Seus utensílios relacionavam-se com o criatório e os escravos, eram poucos, mas existiam. Variavam, dependendo do senhor e de suas posses, “de uma a trinta e duas peças” 21

Segundo Dantas, o povoamento do Seridó, “situado na grande bacia, que, em remotos períodos geológicos, as águas [do mar] cavaram, escorrendo, em torrentes impetuosas, do Planalto da Borborema até encontrarem as várzeas do Rio Piranhas” (2001, p. 39). 22 A página citada apenas serve como referência dos termos utilizados nas certidões de casamento emitidas pelos vigários. Por toda a obra é possível ver dezenas de exemplos se repetirem, principalmente no período que vai de idos de 1790 a 1840. Dado a escassez de documentos, é importante assinalar que, para o período, essas dispensas constituíam a maioria dos casos.

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(MEDEIROS FILHO, 1983, p. 31). Para o cuidado com o gado não se necessitava de muitos homens e, nas pequenas propriedades, um ou dois bastavam. Sant’Ana é escolhida como padroeira e símbolo da Igreja nessas paragens. Sant’Ana que é também padroeira dos pastores, aqui, padroeira primeira do vaqueiro e de suas gentes. Sant’Ana exprime em si todas as representações que incidem sobre sua filha Maria. É a mulher “boa”: discreta, calada, silenciosa. Fala quando sabe sua oportunidade de falar. Confia em seu marido e nunca reclama de nada. Suas tarefas são cumpridas sempre, sua vida é devotada à família, é amorosa e compreensiva. Sua sabedoria é sua bondade infinita. Perdoa sempre e nunca espera nada em troca. O culto público a Sant’Ana, avó de Jesus, mãe de Maria, foi aprovado pela Santa Sé em 1378, ano em que o Papa Urbano VI deu permissão aos católicos ingleses de o fazerem. Em 1584 o Papa Gregório XIII fixou a Festa de Sant’Ana para o dia 26 de julho. E, em 1879, Leão XIII23 o estendeu a toda a Igreja. No oriente a devoção a Sant’Ana é mais antiga. O proto-evangelho apócrifo de São Thiago24 diz que Joaquim e Ana, pais de Maria, eram donos de certa fortuna e, por isso, tendo uma vida abastada, suas rendas anuais eram divididas em três partes distintas: duas delas eram destinadas aos pobres e ao templo, em Jerusalém, e a última reservada para si. Eram felizes, mas não conseguiam ter um filho, e por isso se lastimavam a Deus. Um dia, um anjo os fez a seguinte revelação: “Joaquim, disse o mensageiro de Deus, tua oração foi ouvida. Uma filha te será dada, a quem darás o nome de Maria que desde a sua infância será consagrada a Deus e cheia do Espírito Santo”. Sant’Ana tem a mesma revelação. Essa narrativa é a mais conhecida sobre os pais de Maria e foi baseado nela – coletada da tradição oral na antigüidade – que a Igreja atesta o culto à protetora dos Pastores (FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO, 1982). 23

Leão XIII será também o papa a oficia4lizar o mês de maio como o mês dedicado à Maria. Seu pontificado será conhecido também como o criador da Rerum Novarum, a encíclica sobre a Doutrina Social da Igreja Católica. 24 O apócrifo de São Thiago é conhecido como o “Evangelho de Maria”, dedicado a exaltação e justificação da Santidade de Maria. Interessante é notar que a partir do mito do nascimento de Jesus, sua mãe também teria de ter um nascimento, do mesmo modo, sob a intercessão divina.

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A imaginação popular projeta sobre a figura de Sant’Ana palavras sapienciais e tem uma série de lendas que integram a biografia da mãe de Nossa Senhora. A raiz é antiga e se remonta ao evangelho apócrifo de São Tiago, e que foi utilizado por São Epifânio e São Gregório Nanziazeno, os quais dizem, conforme o relato anterior, que Maria foi concebida por um favor divino concedido a Ana e Joaquim. Assim como no caso do nascimento de Jesus, o nascimento de Maria esteve presente a aparição de um anjo prometendo a paz, estada em Nazaré e uma aparente concepção virginal. Mas, nos evangelhos canônicos, não há uma única menção à mãe de Maria (LLANOS, 1956, p. 757). O afeto dado a Sant’Ana é universal em toda a cristandade. O culto de Ana é bem antigo. Apoia-se, como dissemos, na devoção à Virgem Maria. Na Espanha e em Portugal, a devoção é tão antiga quanto a presença dos primeiros catequistas naquelas regiões.

Sant’Ana já era cultuada pelos primeiros godos cristãos e, quando os

portugueses desembarcaram no Brasil, trouxeram consigo esta devoção tão ampla em toda a Europa. Padre Antônio Vieira, o grande pregador da língua portuguesa, em um de seus sermões, o “Sermão do Nascimento da Mãe de Deus (Vieira, 1957, p.347-389), discute a importância do nascimento da mãe do Salvador, Maria, de qua natus est Jesus25. Para que nasceu Maria? Questiona o prelado. Se mesmo os evangelhos calam não pode calar o amor de Deus, diz. Diz também que, assim como os historiadores, é dever da Igreja de dar conta das minúcias do nascimento de Maria. É tangível a descendência de Maria, de Ana e Joaquim, que remonta até Davi e Abraão. Se Maria nasce para ser mãe do Cristo, Sant’Ana nasce para ser a mãe da mãe do Cristo. Ana, de qua natus est Maria. Ana é a última grande matrona da bíblia. Ela antecipa Maria no nascimento divino, e a antecipará nas graças de Deus.

Sant’Ana está mesmo na história da salvação. Ela vem em linha reta lá de Abraão, em linha reta de Davi, toda formando (sic) essa tecedura até chegar ao Redentor. Quando o 25

Maria, da qual nasceu Jesus (Mt 1,16).

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povo foi despertando mais e mais isso, o povo foi se afeiçoando, se aprofundando e tendo ainda mais fé. Veja, ela é a avó de Jesus. E a avó é mãe duas vezes. Será que um pedido de Sant’Ana a Jesus será que não chega a ser em dado momento, quase que uma ordem, enquanto Maria praticamente deu ordem a Jesus, - transforma água em vinho, faça um milagre, resolva essa situação. Ela praticamente deu uma ordem, como mãe. A mãe, então, ela avança muito e, com direito, e a avó, que é mãe duas vezes? Claro que Jesus, pela sua parte divina, ele é onipresente, onisciente, onipotente, e ele é independente, ele se basta por si mesmo. Na parte humana ele é como um de nós, menos no pecado. Hora, se a gente atende ao pedido de uma pessoa de quem a gente quer bem, imagine a mãe chegando e pedindo, - meu filho você não me falhe nisso! Quem é que não atende à avó que a gente quer bem, a um avó que realmente foi na sua vida um marco. - Meu filho você não falhe nisso aqui. Você não vai falhar. Então a gente olha pra Sant’Ana e achando que com ela nós vamos conseguir muitas coisas, porque dela vamos para Maria e de Maria vamos para Jesus (ANTENOR SALVINO DE ARAÚJO, Pároco da Catedral de Sant’Ana).

Do mesmo modo que Lutero26, o vaqueiro do mito fez uma prece e prometeu a Sant’Ana a edificação de seu templo. Feito o milagre era hora de cumprir a promessa. Mas, eis que a seca constante e avassaladora ameaçava a ereção da capela. Nova promessa e, com ela, a água necessária à edificação da casa do orago. Este poço, que se chamou desde então de “Poço de Sant’Ana” fica bem no leito do rio Seridó. À sua direita, nas margens do rio, é erigida a capela, depois igreja matriz e catedral. O poço que nunca mais secou foi o responsável pela manutenção do povoado durante muito tempo. Quando Frei Caneca passou por Caicó em 1824, referiu-se ao poço, cuja seca, por mais severa que fosse, não poderia secar (FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO, 1982, p. 19). Vai ser no entorno da igreja matriz de Sant’Ana e do poço fornecedor do líquido precioso para a subsistência humana, que a vida do povoado vai seguir e prosseguir. Moradores das fazendas ao redor vão viver basicamente pelo e para o gado. Suas devoções, boa parte do tempo, serão basicamente domésticas, onde as rezas de terço vão ser as devoções mais corriqueiras. Ajoelhados de frente aos oratórios caseiros, empilhados com os santos mais chegados: São José, a Imaculada Conceição, Sant’Ana, 26

Assim, até mesmo Martinho Lutero, pai da Reforma Protestante, era um fiel devoto de Sant’Ana. Foi por um voto à mãe de Maria, para que ela o livrasse de uma tempestade, que ele resolveu tomar o hábito de monge agostiniano.

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Santo Antônio. As ladainhas repetidas conjuntamente, com a presença dos homens ao menos uma vez por semana, eram a maneira mais rotineira de devoção. Pois, aos que moravam longe, somente nos dias de festa é que se podia ir “ver missa”.

Os proprietários rurais, movidos pelo zelo religioso, inventavam levantar capelas em seus sítios, doando meia légua de terra, para constituição do patrimônio das mesmas, condição indispensável para o atendimento das suas pretensões [que são a salvação de suas almas] (MEDEIROS FILHO, 1983, p. 95).

A preocupação com a morte era de fundamental importância no Seridó. Daí que várias irmandades religiosas vão se organizar para atender a uma constante demanda fúnebre.

Uma irmandade importante é a Irmandade do Santíssimo Sacramento da

Freguesia de Sant’Ana do Seridó fundada em 1756. Formada basicamente por “homens bons”, assumia uma clara conotação corporativista, fundamentada nas mesmas estruturas de hierarquia social, baseada em fortes laços de solidariedade e ajuda mútua. Eram também responsáveis por importante papel difundidor do cristianismo católico naquelas paragens tão escassas de material humano eclesiástico. Por terem surgido da necessidade de uma organização melhor dos espaços de sociabilidade, elas dominavam determinados ritos litúrgicos, principalmente os fúnebres, mas, como no caso da Irmandade do Santíssimo, toda a liturgia em torno das exposições do Corpo de Cristo (Coelho, 2000). A Irmandade de Sant’Ana, fundada em 1754 era outra entidade importante. Nas novenas solenes das antigas Festas de Sant’Ana, essa Irmandade era responsável não só pela paramentação e arrumação do rito, mas também pela doação dos fogos que estouravam nos momentos de elevação do sacrário (Monteiro, 1999, p. 46). Assim também, eram nas vésperas e durante a Festa de Sant’Ana que ocorriam os grandes ritos solenes e as grandes arrecadações e distribuições de esmola dessas irmandades. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, diferentemente das demais, era a única que aceitava homens pobres e de cor. Mas, no tocante às suas atividades 53


sociais e religiosas, era equivalente às demais. Sua devoção se voltava à Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, invocação identificada em toda a América Portuguesa com os escravos cristianizados. Em Caicó, essa irmandade for fundada em 1775 e ficou sendo a responsável pela efetivação da festa do Rosário, ocorrida em fins de outubro. Mais do que uma simples irmandade religiosa, sua presença é, por si só, um exemplo significativo da forte presença de escravos negros na região. Na ermidade do sertão, os espaços de sociabilidade e de encontro eram raros e, em geral, marcados pela religiosidade. Eram nas missas, cerimônias e festas de padroeira que os sertanejos podiam encontrar-se com seus longínquos vizinhos. No espaço da vida privada, o oratório doméstico vai funcionar, nesta sociedade de poucos curas, como uma espécie de relicário, onde eram guardados os santos de devoção familiar. As devoções aos santos eram generalizadas e constituíam-se como a mais forte forma de devoção nessas paragens. Como enfatizamos, o encontro de fim de tarde para a “reza do terço” entre as mulheres era comum e, quando não havia padres para celebrar a missa de domingo, os homens também participavam. A intimidade com o santo de casa ou com o santo de devoção de cada um, fazia com que a ortodoxia católica fosse ficando cada vez mais maleável. Tratava-se a Virgem Maria ou Sant’Ana da mesma forma que se travava ou pedia-se algo à própria mãe ou avó (MELLO E SOUZA, 1997, p. 155-220). Em Caicó, a Festa de Sant’Ana era, desde o início da formação da sociedade local, o principal evento socializador, assim como a Semana Santa, as primícias da colheita (nas festas de junho) e o Natal. Assim, era nos dias de Festa, que a família toda se reunia para ir à “rua”. O povoado enchia-se de gente de toda a redondeza e era, para muitos, o único grande momento de sociabilidade que tinham. Para moças e rapazes, era um momento raro de flerte e a possibilidade de um futuro casamento. Ficar solteiro ou “moça veia” não era muito agradável numa região onde as casas já eram tão distantes umas das outras. Esses momentos de Festas eram marcados pelas missas solenes e pelas novenas concorridas, onde o ponto alto era a exposição do Santíssimo Sacramento, onde, sob imenso foguetório, era ovacionada a padroeira. Archotes iluminavam as 54


parcas ruas, enfeitadas de bandeirolas. Comidas variadas, doces e bolos eram distribuídos. Um único baile, após a procissão de domingo, marcava o fim da solenidade. Momento único para os encontros finais, quando não raramente, os ocasionais raptos de noivas, findando em casamentos depois abençoados pelos pais. Essa sociedade que se forma, de início em torno do gado e de seu pastoreio, e depois, em torno do algodão e de seu cultivo, manufaturação e mercantilização, vai apresentar sempre um tipo particular de subcultura própria, marcada pela sua especialização ao pastoreio e à monocultura algodoeira, por sua dispersão espacial e por traços identificáveis no modo de vida, na organização da família, na estruturação do poder, nas representações de uma religiosidade propensa ao catolicismo mais tradicional. Num primeiro momento, a necessidade de recuperar e apartar o gado alçado nos campos ensejava formas de cooperação como as vaquejadas, tornando-se depois festas regionais. Do mesmo modo, o culto dos santos padroeiros e as festividades do calendário religioso – centralizado nas capelas e igrejas matrizes com os respectivos cemitérios, dispersos pelo sertão, cada qual com seu círculo de devotos representados por todos os moradores das terras circundantes – proporcionavam ocasiões regulares de convívio entre as famílias de vaqueiros de que resultavam festas, bailes e casamentos. Pois, afora essa convivência vicinal e que se circunscrevia aos vaqueiros da mesma área, o que prevalecia era o isolamento dos núcleos sertanejos, cada qual estruturado autarquicamente e voltado sobre si mesmo, na imensidade dos sertões. Essa cultura voltada para o criatório ensejará a construção de uma gama de produtos próprios, tendo o gado como seu epicentro. Como já havíamos dito, sua alimentação irá expressar essa característica, onde o leite e a carne de gado serão os principais alimentos. No mais a herança indígena estará fortemente presente na farinha de mandioca, na batata-doce, no feijão e em várias frutas locais, assim como no gosto

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infindável por carne de caça: preás, mocós, etc27. Do indígena, herdarão também o sertanejo as redes embaladoras e solícitas que, no calor abrasador e na falta de camas, será, por séculos o único local de repouso e dormida do homem do sertão. Acostumando-se, a se embalar desde bebê, primeiramente pelas cunhãs, depois pelas matronas, o sertanejo fará da rede de dormir parte integrante de sua identidade. Em torno desta sociedade pautada no gado e com certo grau de isolamento, vão surgir certos artesãos que darão conta das necessidades de instrumentos de trabalho e de uso doméstico. Desses destacam-se os ferreiros, carpinteiros – também chamados de carapineiros –, artesãos do couro, pedreiros e oleiros. Todos esses participavam de uma camada média que habitavam as pequenas vilas e cidades e sobreviviam de seus serviços. O poder político no sertão dos primeiros séculos era expresso pela posse de terras e de gado. Daí porque a patente das milícias corresponderia, a um título de nobreza, que irradiava poder e prestígio, cifrando-se nas promoções de graus e oficiais, as prometidas mercês do Rei àqueles que fizessem sua lei prevalecer. Esta organização militar formará uma primeira casta militar, aliando-se ao estamento burocrático nas vilas. Essas milícias moldavam a sociedade do interior, assegurando-lhes a disciplina, obediência e o respeito à hierarquia. O que dava status eram os galões, ser Coronel, Capitão-mor ou Sargentomor de milícias (FAORO, 1975, p. 192-196). Assim, o gado vai ser responsável pela criação de várias fortunas e poderio político na região e, até a chegada maciça do algodão na segunda metade do século XIX, será o principal motor da economia do Rio Grande do Norte28. Deste modo, algumas 27 Comidas que denotavam sustança e ajudam a manter a tão proclamada longevidade sertaneja: “Quando Cosme Pereira [da Costa] sentiu-se envelhecendo, adotou um hábito curioso: colocava, diariamente, junto ao pote d’água, uma cuia, cheia de paçoca de farinha de mandioca, carne seca e rapadura. Toda vez que ia beber água, enchia [sic] a mão de paçoca e comia, bebendo a água, em seguida. Tal regime alimentar talvez tenha-o ajudado a atingir a provecta idade de 97 anos” (MEDEIROS FILHO, 1981, p. 236). Cosme Pereira da Costa, de quem se contam muitas histórias, nasceu em 1768 e faleceu em 1865. 28 Ao contrário do que pensava Raimundo Faoro, para quem o ciclo do gado não construiu grandes riquezas ou foi responsável pelo poder de algum grupo na América Portuguesa e no Brasil Império (FAORO, 1975, p. 216). Um exemplo disto foi a tendência de assimilar, ao nome do fazendeiro, o nome da propriedade, como por exemplo, Leandro Gomes de Faria das Aroeiras, Joaquim Gomes do Queimado, ou mesmo o inverso como a

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figuras de proeminência política começam a aflorar no Seridó, como foi o caso do primeiro Presidente da Província do Rio Grande do Norte, com a independência do Brasil, o fazendeiro de Acari, Tomaz de Araújo Pereira29 a e o Padre Francisco de Brito Guerra, líder político da região que se tornará Senador vitalício do Império. Tomaz de Araújo era neto do mesmo Tomaz de Araújo, natural de Vianna, Portugal, que viera ocupar uma data de sesmaria no Acari, no início do século XVIII. Era aquilo que poderíamos denominar de “coronel” das velhas estirpes do sertão. Autoritário, tradicionalista e religioso, assume já com bastante idade e bastante debilitado fisicamente a Presidência da província, em 1823, a mando do Imperador. Acompanhou a revolta de 1824 e a anarquia que imperava na província. Fugiu de Natal, após levante militar, dentro de um barril transportado “à cabeça de Pae Banguela, o escravo fiel, que foi o companheiro inseparável de sua vida” (DANTAS, 2001, p. 45).30 Pe. Guerra foi responsável pela construção, no início do século XIX, do casarão colonial, em sobrado, ao lado da Matriz de Sant’Ana, onde era pároco. Por muitos anos, foi o primeiro e o maior sobrado de moradia da Província31. Também foi o responsável

fazenda Carnaúba que ficou conhecida pelo nome de seu proprietário e depois veio a ser o município de Carnaúba dos Dantas (LAMARTINE, 1980, p. 193). 29 Este o terceiro Tomaz de Araújo Pereira, neto do português Tomaz de Araújo Pereira, fundador da, talvez maior família (numericamente) do Seridó, os Araújo (MEDEIROS FILHO, 1981, p. 111). 30 Uma amostra da excentricidade e do poder econômico de Tomaz de Araújo foi o fato de ter enviado dois de seus filhos para estudar em Paris no colégio Luiz o Grande, no primeiro quartel do século XIX (DANTAS, 2001, p. 41). 31 Segundo Manoel Dantas (2000) o Padre Guerra fora colega de seminário (Olinda) e amigo íntimo do Padre Diogo Antônio Feijó, futuro regente do império, onde se encontrariam mais tarde na Corte, um como regente, o outro como Senador vitalício. Guerra foi o criador da primeira cadeira de latim do Seridó, que funcionou em sua própria casa por muitos anos. Era um homem que adquiriu hábitos desconhecidos no sertão. Dantas conta que “à volta do Padre Guerra do Rio de Janeiro, foram visitá-lo dois amigos, cujos nomes a tradição não conservou. O padre mandou servi-lhes o almoço, e no fim da refeição, depois de atacados, com a força de estômagos sertanejos, a carne assada, a galinha torrada, o queijo e outros quitutes da cozinha de um vigário rico que sabia tratar-se, o criado carioca apresentou aos hóspedes, numa rica salva de prata, dois magníficos charutos. Os pobres matutos ficaram em dificuldades, porque desconheciam o manjar que, por apresentarem em bandeja de prata, não poderia deixar de ser uma das iguarias finas do Rio de janeiro. Convencidos de que se tratava de uma comedoria, foram com o charuto ao dente, porém não lhes soube bem o gosto. Recorreram então ao expediente de corta-lo miúdo e come-lo com farinha seca. Assim repletos com tão saborosa sobremesa, voltaram à sala de visitas, onde o padre, obsequioso, perguntou-lhes: - Então, compadres, almoçaram bem? – Muito bem, respondeu um deles, mas aquele doce seco que nos deram no fim, era amargo demais. Só com farinha seca podemos tragá-lo. Conhecida a natureza do doce, o padre riu gostosamente da forma pela qual seus amigos

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pela mudança da primitiva imagem de Sant’Ana, por uma imagem maior e mais suntuosa, feita pelo mestiço Tomaz de Aquino, artista responsável pela Nossa Senhora da Igreja do Rosário dos Pretos em Caicó32 (MONTEIRO, 1999, p. 36). Esta, uma Sant’Ana Mestra sentada, em estilo barroco tardio, com manto dourado exaustivo, que a cobre como um xador mulçumano, típico das senhoras orientais, vai ser a imagem querida e cultuada na Matriz da Vila do Príncipe. Esta imagem, muito maior do que a outra, era mais facilmente vista e sua frontalidade permitia ao expectador e devoto, corresponder a uma atitude espiritual. Inspirava um temor respeitoso e uma devoção afetiva em meio à esplêndida magnificência, exaltando-se os elementos humanos, subjetivos e arbitrários. O dourado não é uma cor em si. Ele irradia, luz ativa. Irradia a própria imagem para o expectador e o transporta para o universo das representações em torno da santa. Sant’Ana parece estar num trono, mas na verdade ela está na cadeira de matrona, e sua atitude é de matrona, velha mãe sertaneja. Não é uma rainha que se apresenta, mas uma senhora. É a “Sant’Ana velha” como a chamam carinhosamente. Seu senhorio é seu lar, seu marido Joaquim e sua filha Maria. Na verdade, seu senhorio é o sertão, neste caso, Caicó. A pequena Maria que candidamente estende-se para ler o livro que está sob o colo de sua mãe fornece ao expectador a ideia de fragilidade e da necessidade de amparo. Sant’Ana tem um olhar distante, ela não olha para Maria, mas para o devoto. Sua mão direita ampara o livro aberto, a outra ampara Maria. Mas seu olhar estende-se para frente e, é neste olhar, que irão se deparar os devotos caicoenses ao longo das gerações. Olhar de avó e de mãe. Complacente, afetuoso, amoroso. O olhar de uma matriarca sertaneja, uma senhora do sertão. Esta imagem ficaria conhecida pelos caicoenses carinhosamente como a Sant’Ana Velha. Se em seu uso cultual as imagens de santos católicas saborearam o precioso baiano, e ainda hoje se relembra naquelas paragens o que bem se poderia denominar: a história do primeiro charuto no Caicó“(p. 19-20). 32 Há uma tradição que imputa a feitura da imagem a artesãos desconhecidos na Europa. Não se sabe, porém, qual a correta. Preferimos ater-nos a esta por ser a única documentada. Segundo Monteiro, nossa fonte, Tomaz de Aquino “viera de Pernambuco e quasi [sic] fez fortuna esculpindo imagens de madeira, chegando a ser, mais tarde, senhor de muitos escravos. Afeiçoou-se ao Pe. Guerra que lhe dava sempre serviços e por aqui viveu até o fim de sua vida” (1999, p. 36).

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aparentemente são todas iguais, elas diferem-se umas das outras pelas representações sociais que se constroem em seu entorno. Assim, Sant’Ana Velha vai torna-se símbolo identificador daquele povoado, vilarejo e depois cidade. O período seguido após o primeiro século de efetiva colonização, início de século XIX, viu nascer a produção que iria fazer do Seridó, a principal região econômica da então Província do Rio Grande do Norte. As mudanças estruturais advindas da produção de algodão vão trazer para a região uma efetiva inserção no mercado externo, retirando-a do anonimato do sertão. O algodão vai ser produzido primeiramente lado-a-lado com o gado e se constituirá como um complemento do criatório. O caroço de algodão servia para o gado comer e a pluma era vendida para os intermediários de grandes fazendeiros que as vendiam para as grandes firmas exportadoras. No Seridó, era o mocó, de fibra-longa, cujo caráter xerófilo lhe permitia sobreviver e produzir, mesmo nas áreas mais secas do sertão, um algodão de excelente aceitação no mercado mundial. Com a perspectiva de sobreviver através do algodão, principalmente após grandes períodos de seca que dizimaram a gadaria,

Cada criador procurou, então, fazer-se também lavrador de mocó, ocupando nessa tarefa as famílias de seus vaqueiros e, depois, gente especialmente atraída para os novos cultivos, povoando ainda mais os sertões semiáridos. Os cultivadores de algodão ingressam no latifúndio pastoril como meeiros, vale dizer, recebendo uma quadra de terra para cultivar o alimento que comeriam e outras para produzir colheitas de mocó, de que deveriam entregar metade ao proprietário. Assim, em cada fazenda, além da casa de telhas do criador, avarandada e provida de portas e janelas, e das rancharias singelas de seus vaqueiros, se acrescentavam as palhoças miseráveis que abrigavam os lavradores de mocó (RIBEIRO, 1995, p. 346).

O algodão exigia um beneficiamento básico antes de ser embalado e levado aos portos para a exportação. Esse beneficiamento era feito num primeiro momento na própria fazenda, que se tornava uma espécie de agroindústria primitiva. O baixo nível técnico da cotonicultura revelava-se já por ocasião do plantio, onde desde a semeadura 59


aos instrumentos utilizados eram precários e ineficientes. Afora isto, as pragas e as moléstias eram comuns e constantes, sem que se dominassem técnicas para a prevenção ou erradicação. O beneficiamento do algodão resumia-se à operação de separar os caroços da pluma e de sua eficiência dependia o comprimento final da fibra e a pureza da pluma (TAKEYA, 1985, p. 62-63). Sua vendagem para o mercado externo, principalmente em épocas de escassez mundial do produto, como a Guerra de Secessão Americana, quando os estados do sul não puderam mais exportar seu algodão, fizeram com que o mocó tivesse uma ampla aceitação. Afora isto, sua fibra longa e resistente, produzida a baixo custo e com mão de obra barata, era bem competitiva no mercado mundial. Assim, a cotonicultura passa a ser o principal produto gerador de riquezas do Rio Grande do Norte. Com a expansão da área de cultivo, que passa das várzeas dos rios indo bem mais além, o Seridó, bom como boa parte do semiárido do Rio Grande do Norte, passam a sentir uma extrema dependência desse produto. Deste modo, com a paulatina riqueza acumulada pelas elites do Seridó em torno do algodão, vai ser possível dar início a construção de uma identidade em torno do regionalismo seridoense e seu principal produto, o algodão. E, assim como o gado, o algodão irá inspirar nomes de municípios, identificando a origem destes com a cotonicultura, como por exemplo: “Ouro Branco”. Se num primeiro momento o gado e a pecuária eram símbolos identificadores, sob os quais as representações sociais buscavam pontos de referência e, em torno dos quais, um ethos e uma visão de mundo passam a ser construídos, o algodão e a cotonicultura passam a substituir esses elementos, e irão dar forma a uma identidade social pautada na riqueza advinda do ouro branco. Mas, como já dissemos, ao lado da produção de algodão, sobreviveria a pecuária bovina e caprina. Daí porque, elementos de identidade de universos diferentes vão se mesclar e construir símbolos agregadores que conjugavam o viver no sertão, o convívio

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e a luta com a seca, o trabalho com o gado, a produção do algodão e a religiosidade e o orgulho das tradições locais. Quando Zé Praxédi, o “Poeta-vaqueiro”, canta sua terra temos:

Siridó! Meu Siridó! Pedaço do meu distino. O meu tempo de minino Eu passei todo por lá. Sodade do meu recanto! O nosso chá: capim-santo. A arma branca: o jucá. O nosso argudão tem fibra! Como esse é qui num há! (ZÉPRAXEDI, 1979, p. 01).

Mesmo identificando-se com seu antigo ofício, o “vaqueiro” canta a força do algodão, o melhor que há. Canta ao mesmo tempo a saudade de sua terra, pois, lá já não mora mais. A seca, desde o início da colonização, ainda será o grande motivo do êxodo que empurraria milhares de sertanejos para longe de sua terra. Com a concentração de terras e a ampla falta de oportunidades para a maioria da população não resta outra alternativa a não ser partir para os grandes centros em busca de trabalho. Ir embora pensando na volta. Partir levando consigo hábitos e representações de sua terra, símbolos que o identificam como homem e sertanejo. As maiores secas, segundo a tradição, serão as de 1791-1793, que irá dizimar fortunas inteiras e milhares de vidas e, quase um século depois a de 1877-1879, também extremamente intensas. É devido a essa última seca, por exemplo, que os fazendeiros do Seridó e do sertão vão se desfazer de grande parte de sua escravaria, quando levas e levas de escravos são vendidos na praça de Recife, para depois serem revendidos para os cafezais do Sul33. Também será esta seca que irá ver a utilização em larga escala do burro no sertão do Rio Grande do

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Segundo censo realizado no Seridó no primeiro quartel do século XIX, os escravos negros representavam cerca de um quarto da população, onde quase dois quartos eram pardos e os demais brancos (LAMARTINE, 1980, p. 162).. O que demonstra não apenas a grande quantidade de escravos como também a grande tendência a miscigenação já confirmada em outras regiões do Brasil.

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Norte, por ser o único que sobrevivia a seca. “O burro tornou-se uma verdadeira providência para o transporte de cereais aos pontos mais distantes flagelados pela seca” (Dantas, 2001, p. 120). O algodão irá trazer, coincidindo com o Império e depois com a República, a figura do Coronel ao cotidiano do sertão. Dono de poder sobre suas terras e sobre a área de seu município – às vezes indo além dele –, o coronel irá receber a sua patente da Guarda Nacional. Num primeiro momento, ainda no império, esta patente lhe é entregue no lugar do título de nobreza tão almejado: no lugar de Barões, ganha o sertão Coronéis. Na República, vem a força do título, já nobiliarquizado com o passar do tempo. Assim, no campo, no distrito, no município, aparece o chefe político, o coronel solene, realista e autoritário. Com o predomínio das atividades agrícolas e pecuárias, no nosso caso o algodão e o gado, o corpo social urbano dependerá e circulará em seu entorno tal qual, sem ser, no entanto, um feudo. Assim, as cidades, entre elas Caicó, irão ser o centro de seu poder decisório e produtivo. Nelas irão se concentrar as usinas de beneficiamento de algodão. Nelas vão se fazer ouvir e obedecer. No Seridó, os fazendeiros de algodão irão exercer o seu poder paulatinamente, primeiramente no plano regional, ocupando cargos e intendências. Depois, com as figuras de José Augusto Bezerra de Medeiros e Dinarte Mariz, os “Coronéis do Seridó” vão alcançar sua proeminência e auge político estadual. Donos de usinas de beneficiamento de algodão, estas concentradas nas cidades, como Caicó e Currais Novos, eles vão exercer seu controle político através de currais eleitorais e também pela compra da produção de algodão a pequenos agricultores, feita por seus homens de confiança. Sem outras alternativas de venda, esses pequenos agricultores facilmente submetiam-se à vontade política de seus, invariavelmente, “compadres”. A sociedade da época irá ser, tanto quanto no tempo do ciclo do gado, patriarcal, tradicionalista e de forte caráter religioso. O poder, assim como a economia, estava na posse da terra, mas, pouco a pouco, passava a surgir novos grupos sociais, voltados ao

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comércio e a atividades médias ligadas à indústria. Neste período, as diversões se ampliavam um pouco, mas ainda se pautavam nas festas religiosas. Um exemplo bem significativo é tentar ver como era a Festa de Sant’Ana de Caicó, nesta época. Isto nos é possível através do único periódico editado em Caicó durante o século XIX34. No Jornal “O Povo”, já nos fins do século XIX, temos algumas notícias exclusivas sobre a Festa de Sant’Ana. Naquele período vigariava a “Freguesia da Gloriosa Sant’ Ana de Caicó” o Padre Amaro Theot Castor Brasil e é interessante a ênfase posta sob o clero pelo jornal. A Festa é noticiada em vários pontos. Sobre o seu final, a 03 de agosto de 1889, lemos que:

Terminou a festa da Gloriosa Sant’Ana no dia 28 de julho próximo passado. Houve novenas solenes com cantoria e exposição do Sacramento. Grande concorrência que aumentou extraordinariamente à medida que se aproximou o termo da festa. A música de diletantes da localidade exibiu-se maravilhosamente; bem ensaiada, afinada e harmoniosa, com um bom repertório de peças variadas e modernas. Da véspera ao dia da festa tivemos, como de costume, missa solene da irmandade do Sacramento, cantada pelo nosso prezado pároco Reverendíssimo Padre Amaro Brasil, acolitado por dois dignos sacerdotes o Padre Bento Barbosa e Padre Luís Marinho, que encarregou-se da epístola. Durante a missa, no intervalo apropriado, tivemos o prazer de ouvir da tribuna sagrada a palavra singela, fluente e correta do ilustre sacerdote Emídio Cardoso. Este ilustre sacerdote numa ascenação [sic] simples e agradável, numa dicção harmoniosa e natural, clara e expressiva, num estilo elegante e correto, expurgado nos vícios de uma declamação enfadonha e sediça, revelou-se um verdadeiro orador sagrado moderno, primando, sobretudo, pela clareza das ideias, nitidez da frase e simplicidade dos raciocínios, conseguindo captar a atenção religiosa de todos que o ouviram com visível satisfação e entusiasmo durante uma hora, em que pode-se dizer caíram pérolas e flores de seus lábios para o seio da massa enorme de povo que acotovelava em todo o corpo do templo. Sua reverendíssima foi modesto, como sói, mas eloqüente, maravilhoso e sublime. Terminou a missa por uma e meia hora da tarde. Não deixou de comparecer imponente e reluzente a oficialidade da Guarda Nacional. No dia seguinte, último da festa, teve lugar com todo brilho e esplendor de costume a missa de festa da Gloriosa Sant’Ana. A massa de povo era imensa; a Igreja apesar de espaçosa não comportou todos os concorrentes. Fez parte da missa os três sacerdotes do dia anterior e mais um auxiliar. Coube a honra do sermão da padroeira, como chamamos, ao ilustrado sacerdote Pe. Emídio Cardoso Barbosa. Esteve brilhante e majestoso como o do dia anterior.Sua Reverendíssima é sempre fecundo, corretíssimo e magnânimo na tribuna sagrada. Á 34

Pertencia a José Renault e tinha a direção de Diógenes Santiago da Nóbrega, Olegário Vale e Manoel Dantas. Funcionou de março de 1889 a setembro de 1892 (MONTEIRO, 1999, p. 80).

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tarde tivemos procissão acompanhada por umas quatro mil pessoas, segundo os melhores cálculos, que terminou pelo te deum. Apesar da seca que nos oprime, tivemos uma festa arrojada, que ainda uma vez atestou de quanto é capaz o povo másculo e viril do Seridó (MEDEIROS FILHO, 1988, p. 115-116).

Importante é assinalar aspectos que estarão presentes um século mais tarde nas Festas de Sant’Ana vindouras: presença das elites, representada pelas patentes da Guarda Nacional e suas famílias; festejos exuberantes e com ampla participação popular, muita música executada pelas melhores bandas da região; e, principalmente, uma seca que castiga profundamente aquelas paragens, mas não impede a concretização de sua festa maior. No ano seguinte, o jornal novamente noticia os melhores momentos da Festa de Sant’Ana. No noticiário do dia 20 de julho de 1890: “A 17 levantou-se a bandeira, e a 18 começaram as novenas com a solenidade do estilo; espera-se que seja animadíssima a festa” (MEDEIROS FILHO, 1988, p. 119). Depois relata que

Apesar dos incômodos do reverendíssimo Vigário vai à festa correndo regularmente, havendo na igreja todas as cerimônias e solenidades do costume. Ligeiramente devemos notar a falta de reverência em alguns dos circunstantes, máxime na ocasião da bênção do Santíssimo Sacramento nas novenas. Externamente os festejos têm sido um pouco desanimados. Poucos fogos de artifício, notando-se, todavia que alguns são dignos de apreço pela claridade e variedade das luzes, e citaremos entre outros o girassol do artista Joaquim Cordeiro e o amor-perfeito do Inácio de Loiola (MEDEIROS FILHO, 1988, p. 119).

A Festa ainda não havia chegado ao seu apogeu o que parece caracterizar o pouco brilho do narrador. Mas ao chegar no final da Festa vemos isto se modificar. Agora perceberemos o foguetório certeiro na elevação do Santíssimo; a preocupação com o esmero no trajar dos homens e das mulheres; a música, acompanhando o que havia de mais moderno. Importante é perceber que já aqui, o comércio tem seu momento mais forte. Deste modo, o número de 03 de agosto de 1890 enfatiza que:

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Terminaram em plena paz, no dia 27 do passado, os festejos da Gloriosa Sant’Ana, padroeira desta Paróquia. A concorrência de povo excedeu à expectativa. As novenas foram abrilhantadas com fogos de artifícios, salientando-se a 7a, 8a e 9a em que eles mais abundaram, queimando-se doze a quatorze peças em cada um. Houve missa solene nos dias 25, 26 e 27, com procissão à tarde no último dia. Foi oficiante em todas as missas, como de costume, o Reverendíssimo Vigário da Freguesia. Compareceram os vigários: Salviano, Machado e Pinto, tendo este pregado nas missas de sábado e domingo. Os festejos exteriores abundaram também. O comércio teve a sua semana de animação, e os pobres pais de família gemeram deveras as unhas dos negociantes, para poderem dar conta das meninas trajadas no rigor. Uma cousa [sic] não podemos deixar passar sem um ligeiro reparo. É um arranjo interno do tempo, que por adorno tem apenas uns velhos reposteiros e algumas flores artificiais, poucas e já usadas, notando-se ainda a vetustes das árvores e insigneas da Irmandade do Sacramento com o que parece já acostumado a nossa retina (MEDEIROS FILHO, 1988, p. 119).

Também os visitantes que vinham à Festa de Sant’Ana se faziam presentes. Característico era o acolhimento e a hospitalidade recebida, principalmente entre os mesmos membros de grupos sociais. Assim, no noticiário do dia 26 de julho de 1891:

Acham-se nesta cidade, onde vieram assistir à tradicional festa de Sant’Ana os distintos moços, dr. Vicente Veras, digno promotor público do Triunfo, seu irmão Miguel Martins Veras e Joaquim Saldanha. Ambos recém-chegados que vieram certamente dar brilhantismo à nossa festa com as suas presenças, os nossos cumprimentos (MEDEIROS FILHO, 1988, p. 108).

O auge da fartura algodoeira trazia a Caicó ares de modernidade e riqueza. A modernização da cidade vinha na remodelação de seu traçado, com a abertura de amplas avenidas, no estilo de bourlevar franceses. Esse clima trazia muitas novidades para a cidade que, em geral, apareciam durante a Festa de Sant’Ana. Como foi o caso do primeiro cinema de Caicó que chegou durante a Festa de 1910 e foi exibido na Prefeitura Municipal. Essas modernizações também se caracterizavam pela higienização da cidade e pela construção de um hospital e de uma barragem, o Itans35 (1935), que na 35

Foi construído nos anos de 1932 e 1935 pela Inspetoria de Obras contra as Secas. Foi inaugurada oficialmente em 02 de fevereiro de 1936. Sua capacidade hídrica é de aproximadamente oitenta milhões de metros cúbicos de água e, na época, era a maior do estado (MONTEIRO, 1999, p. 137). Mais de quatro mil homens trabalharam nela, a maioria, em troca apenas de comida, que era vendida nos barracões próximos ao canteiro de obras.

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época e por muitos anos, iria ser a maior do estado. Esta barragem seria responsável, não só pela sobrevivência da crescente população local, mas pelo próprio crescimento da cidade. Com o Itans, Caicó pôde ter um símbolo da luta contra a seca, uma batalha ganha contra a natureza tão dura. O Itans passaria a ser também um dos cartões postais da cidade e espaço de diversão e sociabilidade. Um símbolo identitário relacionado à fase áurea do algodão. Esse clima de modernização afetaria também a devoção a Sant’Ana. Em outubro de 1919, o Cônego Celso Cicco troca a imagem da Sant’Ana Velha por outra imagem mais nova, uma Sant’Ana mestra de pé. Com os protestos seguidos da população, que não compreendia a retirada de sua imagem de devoção, em 1935 o Padre Luiz Teixeira reintroniza a Sant’Ana Velha ao altar principal, onde após uma bela procissão, volta para o centro da devoção do povo caicoense (Monteiro, 1999, p. 36). Mais do que tudo, o povo passara a identificar a Sant’Ana Velha às suas devoções e à sua terra. A Sant’Ana mestra de pé era a Sant’Ana de Currais Novos, município que, com a riqueza advinda da extração da xeelita, competia com Caicó pela hegemonia econômica, política e cultural do Seridó. Assim, seria a Sant’Ana Velha, sentada, a verdadeira fonte de suas devoções e identificação regional. Afinal, esta era, para o povo, a verdadeira Sant’Ana de Caicó. O senhorio de Sant’Ana teria apenas este percalço. Em 1924 uma forte cheia do rio Seridó, proveniente de um ano atípico climaticamente, isto é, de muitas chuvas, inundaria o largo da Matriz e levaria água até o altar-mor. A promessa de destruição da cidade e da Igreja, feita pelo espírito indígena que habitava o poço do rio Seridó parecia prestes a se concretizar. Mas, não vindo a grande serpente para destruir a cidade e fazer cumprir a profecia, após a enchente a vida continuou como dantes. Tupã não cumprira a sua promessa. Ao menos naquele dia. O tempo passava e a rotina anual era de estiagem ou de parcas chuvas para o sertão do Seridó. Nalguns anos mais fortes, era premente a fuga desesperada de sertanejos para os grandes centros urbanos, naturais aglutinadores de oportunidades e de 66


esperanças. Mesmo no auge do algodão, os grandes centros continuariam a ser fortes pontos de afluência, seja em busca de melhores oportunidades, seja em busca de educação e ascensão social. Com o passar dos anos e das gerações, o algodão irá entrar em estado de franca decadência, acarretando o fim da principal fonte de renda e riqueza das populações locais. Numa estrutura social onde os fazendeiros, detentores da terra, dominavam os meios de produzir, só restava ao sertanejo a possibilidade de trabalhar para eles. Como as safras eram subsidiadas pelo fazendeiro, na condição de que, na colheita, o agricultor pagasse o débito e o uso da terra, na forma de “meia”

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, na ocorrência de secas

prolongadas, ficava o agricultor na miséria. Assim, não restava outra alternativa para este, senão ir embora, procurar outros lugares para viver. “O êxodo surgia então como um componente constante da realidade nordestina” (TAKEYA, 1985, p. 72). Apesar de toda a aparente abundância política e econômica, a base social pela qual se moldava aquela sociedade era uma estrutura hierárquica rígida pautada em sólidas e duradouras relações de compadrio. O Coronel, e depois dele os demais chefes políticos, são, acima de tudo, compadres. Deste modo,

A hierarquia abranda-se, suavizando-se as distâncias sociais e econômicas entre o chefe e o chefiado. O compadre recebe e transmite homenagens, de igual para igual, comprometido a velar pelos afilhados, obrigados estes a acatar e respeitar os padrinhos (FAORO, 1975, p. 634).

Das relações de trabalho à política local, eram os donos de terras e de poder que determinavam o que fazer, o que ter e em quem votar. As relações de dominação e o exercício do poder eram mascarados sob a forma de relações de amizade e de familiaridade. Esses líderes políticos eram uma espécie daquilo que Max Weber (1996, 36

Forma de arrendamento da terra, muito comum no nordeste brasileiro, pela qual o arrendador paga a metade da produção, ao final da colheita, ao arrendatário. No caso do agricultor sertanejo que produzia algodão, a exploração era dupla: no empréstimo, cujos juros eram exorbitantes e na meação, que tolhia o restante de sua safra.

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p. 233) classificou de honoratiores, ou seja, pessoas que gozam de um determinado prestígio social de tal natureza que conserva seu poder através da plena confiança de seus concidadãos, de modo voluntário e tradicional (compadrio). Isto também se dá pela retribuição que esse líder dá, seja através de segurança, assistência social, favores, alimentos, etc. A política assim, passa a ser não uma relação racional de responsabilidade democrática, mas uma relação de confiança entre compadres. Após a década de 1930, a organização do sistema produtivo e a estrutura da distribuição do algodão produzido no Rio Grande do Norte vão se configurar voltados para a exportação, onde os usineiros vão se despontar como principais agentes dessa estrutura. Deste modo, temos aqui o apogeu da produção e do poderio dos chefes políticos locais, colocando a região novamente em proeminência e despontando Caicó como sua “capital”. A elevação de Caicó à sede de Bispado e, consequentemente, da Matriz de Sant’Ana em Catedral, será também, fruto deste apogeu. Em 1939 foi criada a Diocese de Caicó que teve como primeiro Bispo Diocesano, o sonhador Dom José de Medeiros Delgado, paraibano de Pombal. Este fundou a primeira instituição escolar de nível secundário da região, o Ginásio Diocesano Seridoense (1942). A presença da Igreja Católica na região, que sempre fora marcante, apesar de dispersa, era agora imposta sob a força de um antístipe. Tinha-se agora, verdadeiramente, uma “Igreja do Seridó”, sob a invocação da Gloriosa Sant’Ana de Caicó. Deste modo, Caicó não apenas tornava-se o centro econômico e político regional, mas, para a maioria das almas católicas, o seu centro de fé, onde se encontrava o Sr. Bispo37. Um forte exemplo desta marca da Igreja foi a figura do Monsenhor Walfredo Gurgel. Filho de conhecida parteira, Dona Quininha, Mons. Walfredo vai chegar, assim como o seu antecessor de mais de um século o Padre Francisco de Brito Guerra, à 37

Os Bispos de Caicó ao todo serão: Dom José de Medeiros Delgado – 1941-1951; Dom José de Adelino Dantas – 1952-1958; Dom Manuel Tavares de Araújo – 1958-1978; Dom Heitor de Araújo Sales – 1978-1996; e Dom Jaime Vieira Rocha – 1996- até os dias atuais.

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proeminência política. Sem apoio das oligarquias locais lideradas pelo Cel. Dinarte Mariz, Walfredo Gurgel vai buscar esse apoio no então jovem e proeminente Aluízio Alves, sertanejo de Angicos. Após o mandato de Aluízio, Walfredo irá se tornar governador do Estado. Essa marca da Igreja Católica do Seridó na política será perpetuada na ação de seus padres e bispos, que vez por outra, utilizariam seu púlpito como palanque (MEDEIROS, 1976). Caicó, a partir dos anos 50 passaria, paulatinamente a tornar-se um centro aglutinador de serviços e de equipamentos urbanos que a tornariam, no futuro, um polo de serviços para a região. A partir dos anos 60, modificações ocorridas no setor têxtil, vão resultar em uma diminuição da utilização do algodão de fibra longa – o “mocó” -, pelo de qualidade inferior. Dentre outros aspectos que levaram à débâcle algodoeira é importante assinalar as oscilações frequentes no preço do produto no mercado externo que levaram a uma descapitalização das usinas e dos produtores. Com a importação em massa de algodão mais barato, instaura-se a crise do algodão no sertão do Rio Grande do Norte que vai culminar com a praga do bicudo na década de 1980 e o fim da produção no início da década de 1990, acabando assim, de vez com o “ouro branco” do Seridó38. Importante é perceber que essa decadência da cotonicultura no Seridó vai coincidir com a transformação, gradativa, de Caicó em um centro aglutinador regional de serviços. Ao mesmo tempo, a lembrança dos “tempos do algodão” ficará extremamente marcada nas representações sociais, onde a cotonicultura será sempre associada a tempos mais amenos e de fartura. Além disso, Caicó, nos últimos trinta anos, sofrerá um forte êxodo rural e uma ampla onda migratória para grandes centros como Natal, Brasília e São Paulo. Essa onda migratória trará consequências importantes para as representações sociais e a construção de uma identidade local. A saudade da cidade na infância; dos locais onde se brincava, namorava e vivia; das pessoas; da comida e das festas; construirão uma noção de 38

Para uma maior e mais aprofundada discussão sobre o assunto, remeto-os para os seguintes autores: Clementino (1986) e Takeya (1985) para a decadência da cotonicultura, e Morais (1999) para as transformações urbanas durante todo este período.

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representação da terra natal como idílica e como uma Terra Prometida. Sem se pensar nas dificuldades econômicas e de trabalho, Caicó passa a ser aquela terra onde as pessoas irão querer sempre voltar, ao menos uma vez ao ano. E este momento passa a ser a Festa de Sant’Ana. Tendo seu nascedouro como uma pequena festa de padroeira de interior, ela chegará, exatamente com o fim da cotonicultura, ao seu crescimento. Voltando-se para atividades terciárias, a população local passa a atingir demandas de mercadorias que vão ao encontro de um mercado consumidor transumante. Produtos passam a serem requeridos pela sua marca: “é de Caicó!”, “é do Seridó”. Queijo, carne de sol, manteiga de garrafa, objetos de artesanato em couro ou madeira, os bordados, as redes, tudo isso será posto nesse símbolo que representa a terra natal saudosa e idílica. Juntam-se a estes hoje, o boné, o picolé, ou mesmo a transmutação de um ethos e de uma visão de mundo que leva Caicó e seus símbolos para longe do sertão. Daí porque é tangível ver em algumas grandes cidades casas comerciais com o nome Caicó ou Seridó. Do mesmo modo o cancioneiro popular absorverá essas representações: “Ó mana deixa eu ir, ó mana eu vou só, ó mana deixa eu ir, pro sertão de Caicó”39. A Festa de Sant’Ana torna-se assim o evento aglutinador, sócio-cultural-religioso dessa expressão de saudade e de identidade. Ela passa a ser vista como aquele momento onde aquele caicoense saudoso e distante pode reencontrar seus amigos e tudo aquilo que o faz ser caicoense. Este instante de reencontro e sociabilidade agrega-se com o ver, sentir e estar na terra onde nasceu ou onde foi criado. Além disso, a Festa conjuga em si espaços para a saudação do religioso e do profano onde os visitantes e os caicoenses voltam suas atenções para aqueles símbolos que os identificam. Ir à Festa de Sant’Ana passa a ser uma peregrinação necessária ao caicoense distante. Sant’Ana torna-se um marco em sua vida não simplesmente pela fé, mas por conjugar em si, as representações sociais acerca do que é o ser caicoense. Como um 39

Estes versos, conhecidos nacionalmente, fazem parte do cancioneiro popular e têm sido objeto de várias versões e gravações, das quais salientamos as de Milton Nascimento, Alceu Valença e Elba Ramalho.

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eterno retorno, ir a Caicó e participar da Festa de Sant’Ana é ritualizar inconscientemente aquele momento em que um vaqueiro desmata um mufumbal para buscar uma rês perdida e, deparando-se com o perigo, entrega-se à Sant’Ana. Este ato de entrega é revivido na procissão e no “beija” de Sant’Ana, assim como nos momentos de devoção dos fiéis. Aflições e angústias são depositadas no colo da avó de Cristo. E, do mesmo modo como Sant’Ana gera água de seu poço para permitir a construção de sua igreja e da existência da própria cidade, Sant’Ana intervêm novamente nos clamores por água e bons invernos. Sant’Ana não é, pois, uma rainha que rege, detentora de poder absoluto. Ela é como uma matriarca sertaneja, uma Senhora, que exerce seu domínio a partir de sua filiação divina. Assim, a Prece do Vaqueiro é compreendida como um mito de origem da sociedade caicoense. Mito de origem no sentido de explicação fundante de suas origens, e também, arquetipicamente de sua Festa. Pois, ousamos novamente ressaltar, ao intervir na sociedade, Sant’Ana assume seu papel de demiurgo e sua primeira epifania deve ser repetida anualmente. A Festa de Sant’Ana de Caicó, dentre outras tantas coisas, é também, o eterno retorno dessa epifania primeira. A reatualização ritual de um mito de origem, a chegada da Senhora do Sertão do Caicó.

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3. A Festa de Sant’Ana Eu tirei uma semana para ir à Caicó Ver a Festa de Sant’Ana, pois não tem nada melhor. Vou rever os meus amigos, minha infância relembrar; Correr na roda gigante, com a Difusora a tocar. Sucessos de Chico Alves, Noel, Cartola e Braguinha E a saudosa refresca do Coreto da Pracinha. Vou rever as avenidas, Rio Branco e Seridó, Beber cerveja gelada, comer preá e mocó. Deixem-me falar de tudo, porque essa terra é minha, Se eu chorar é de saudade, do Coreto da Pracinha. (Música de Francisco Franklin de Souza e Manoel Felix Filho)

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3.1. A Preparação da Festa A Festa de Sant’Ana de Caicó vai muito além do próprio tempo festivo. Ela insere-se no tempo do cotidiano, extra-festivo, e é construída dentro dele. Assim, o tempo entre uma Festa e outra é o período de relembrar as Festas passadas e de pensar na organização das Festas futuras. A estrutura da Festa é toda entregue à Paróquia de Sant’Ana, cujo pároco, o Monsenhor Antenor Salvino de Araújo, é o presidente de um Conselho Paroquial de quarenta membros responsáveis pela estruturação do evento.

Antigamente um grupinho se reunia e fazia a Festa. Hoje não, a gente atinge a cidade inteira do Conselho Paroquial, através de todas as organizações civis e religiosas, atingimos a cidade inteira, e a região toda. Nossas reuniões começam em março, vem representantes de todos esses organismos, e a cidade e no campo Sant’Ana é bem visível, e nós estruturamos a região toda. E por fim é o Seridó todo. Cresceu muito nos últimos vinte anos. De D. Heitor para cá ela cresceu demais. Porque foi feito um Conselho Paroquial. Você trabalhar com algumas pessoas bem, mas trabalhar com um conselho, você trabalhar com quarenta membros que vão dizendo aos outros o que é isso, é muito bom. Também cresceu porque a comunicação hoje é bem mais fácil. Cresceu também porque a igreja possui três rádios. Cresceu também porque o clero aumentou, o povo mais instruído religiosamente falando, a região melhorou, hoje facilmente se vem à Caicó, foi tudo isso aí. Mas eu acho que o grito para o aumento dela foi a constituição do Conselho Paroquial, quarenta membros com os seus estatutos, então a partir daí foi do Episcopado de D. Heitor para cá. Então temos já com toda a franqueza uns vinte anos que a Festa realmente mudou e vai, ela mudou para maior, para melhor e vai mudar muito mais (MONSENHOR ANTENOR ARAÚJO, Pároco da Catedral de Sant’Ana, Caicó).

Para o Monsenhor Antenor as maiores dificuldades da Festa decorrem de sua montagem, tão grande que, desde a celebração até o tamanho da estrutura, tudo tende a se complexificar. A estrutura cada ano que passa aumenta mais, daí que desde o cordão do mastro que faz a bandeira subir, até se as âmbulas estão cheias das espécies eucarísticas, há de se ter o máximo de cuidado. “E, sobretudo gera, sob a cabeça do pároco, que é o maior responsável pela Festa de Sant’Ana” uma grande 73


responsabilidade. “As dificuldades são muito grandes, sobretudo para infundir bem a fé em Deus no Povo, o povo se doutrinar, crescer na graça santificante, há dificuldades”. Caicó não tem uma rede de hotéis, mas, “os hotéis são ainda as residências, são ainda os sítios próximos”. De todas as dificuldades, sem falar nas intempéries na seca, enumera também “a carestia” e,

Também agora esses apagões, mas [tudo] se enfrenta. Sant’Ana é tão grande que se enfrenta tudo e se atinge o objetivo que é celebrar uma esplêndida Festa. Onte-ontem eu falando sobre as dificuldades, um cidadão me respondeu: padre, tudo bem, mas Sant’Ana é maior do que tudo isso. E é mesmo (MONSENHOR ANTENOR SALVINO DE ARAÚJO, Pároco da Catedral de Sant’Ana, Caicó).

Também importante é a presença ativa do poder público municipal, que cuida praticamente de toda a estrutura básica da cidade para a preparação da Festa. Para o prefeito Roberto Germano, é responsabilidade da prefeitura:

A parte de arrumação, a maquiagem da cidade como se diz, toda a parte de limpeza... A gente se desloca mesmo na Festa de Sant’Ana. A parte de ornamentação da cidade, fogos, banda de música para que a Igreja possa fazer a novena, possa ter os fogos, a banda de música... Tudo isso é feita uma parceria importante entre a prefeitura e a paróquia. Nem um dos dois faria a festa só não. A parte de banheiros, sanitários... Toda essa parte de estrutura é bancada pela prefeitura (ROBERTO GERMANO, Prefeito de Caicó).

Dos problemas maiores a serem enfrentados o maior é a limpeza urbana diária da cidade. Dezenas de garis são contratados especialmente para a Festa de Sant’Ana para dar conta da grande quantidade de lixo depositado nas ruas de Caicó. Uma comissão da prefeitura é criada para gerir os problemas que aparecerem durante a Festa. São responsáveis por toda a organização de barracas, locais onde ficarão os parques, banheiros públicos, etc. Os mais comuns são barraqueiros invadindo a área de outros, o que é solucionado com muita diplomacia. São em torno de cem barracas que disputam espaço e clientes por toda a Festa. O critério de distribuição dessas barracas é 74


estabelecido de acordo com a procedência de cada barraqueiro: aqueles provenientes de Caicó têm preferência, assim como os da região. Os ambulantes que trabalham em carrinhos como: sorveteiros, pipoqueiros, etc., não pagam – ao contrário dos demais – uma taxa cobrada pela prefeitura. Cotas de energia elétrica e de água potável também são administradas pela prefeitura, juntamente com as empresas competentes (CAERN e COSERN)40. Numa cidade que vive em constante racionamento de água e em momento nacional de racionamento de energia elétrica, é importante racionalizar a estrutura para não atrapalhar o evento. Importante é assinalar a aparente harmonia entre a Igreja e a Prefeitura na construção da Festa de Sant’Ana. Em seus discursos, tanto uma quanto a outra apontaram sugestivas falhas do outro lado, mas, enfatizando sempre que “nada que comprometa a Festa”. Assim, percebe-se que os dois grandes pilares de organização da Festa de Sant’Ana são a Igreja e o Poder Público Municipal. Além destes, também a sociedade de Caicó tem papel importante na construção da Festa. Eventos importantes como a FAMUSE (Feira de Artes Manuais do Seridó) e os shows noturnos, por exemplo, são organizados por entidades civis e pela iniciativa privada. A primeira é organizada em conjunto pelo SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio à Pequena Empresa, Caicó) e pela CRACAS (Comitê Regional de Associações de Cooperativas Artesanais do Seridó) e é uma das mais importantes feiras de artesanato do estado. Os shows noturnos acontecem nos clubes locais sem interferência da Igreja ou da Prefeitura. Assim, Igreja, Prefeitura e sociedade são parceiros na construção da Festa de Sant’Ana enquanto evento mais amplo. No geral, é durante a Festa de Sant’Ana que a Paróquia arrecada o dinheiro necessário para a sua sobrevivência anual. Algumas críticas são sempre postas quanto à destinação do dinheiro arrecadado durante a Festa. Para o Bispo de Caicó, D. Jaime

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Companhia de Águas e Esgoto do Rio Grande do Norte (Estatal) e Companhia Social de Eletricidade do Rio Grande do Norte.

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Vieira Rocha, é tempo de lançar uma “idéia de dimensão social da Festa de Sant’Ana” 41

. Pois,

Se nós gastamos tanto com os bailes e clubes, é preciso que tenhamos também uma sensibilidade para a solidariedade que é o grande desafio para todo o mundo de hoje globalizado. (...) A partir da idéia lançada, podemos encontrar meios para adquirir recursos sem tomar de ninguém, sem estarmos conflitando com outros interesses, não. Não vamos acabar com as festas de clubes de modo nenhum. Apenas sugerimos que, por exemplo, quem vem a Caicó na Festa, tem um pedágiosinho, muito organizado, pra entrar na cidade pagaria um real, dois, aquilo ali seria uma finalidade, não é pra Sant’Ana não, é para as obras sociais, para atender mais aos pobres, promover mais a cidadania, para garantir a organização da própria Diocese que tem um serviço tão bonito, prestado a toda a região através de seus organismos de promoção humana e social (D. JAIME VIEIRA ROCHA, Bispo de Caicó).

Essa dimensão social da Festa parece atingir os anseios de grupos mais voltados para o social na sociedade de Caicó e dentro mesmo da Diocese. A ação da própria Igreja na construção do Plano de Desenvolvimento Sustentável do Seridó é uma amostra disso. Na figura do Bispo de Caicó, alguns veem uma liderança não partidária surgindo no Seridó. É o caso de José Rangel de Araújo, Presidente do SEBRAE/Caicó. Para ele

A ação da Igreja Católica hoje nos últimos dez anos tem melhorado muito porque ...tá havendo uma evolução na cabeças das pessoas que governam a cúpula da Igreja (...), o Dom Jaime, é uma pessoa de grande importância para a região (...) começou a trabalhar a fé das pessoas mas também trabalhando a questão social e política, contribuindo diretamente para que se mude para que se faça alguma coisa dentro deste âmbito (JOSÉ RANGEL DE ARAÚJO, Presidente do SEBRAE/Caicó).

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Acerca deste assunto, é preciso analisar que a participação da Igreja Católica em questões políticas e sociais se dá, no Brasil, a partir da década de 50. Antes, era notória a aliança da Igreja com grupos e ideias mais conservadoras neste setor. A partir da década de 60 a Igreja Católica, principalmente no nordeste e notadamente no Rio Grande do Norte, terá um papel importante na construção e reivindicação de obras sociais e nos movimentos políticos de vanguarda. Tudo isso, alia-se às conclusões das Encíclicas Sociais da Igreja, do Concílio Vaticano II e dos Concílios ocorridos na América Latina, em especial Medelin e Puebla. Para maiores informações sobre o assunto consultar: ANDRADE, 2000 e MAINWARING, 1989.

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Essa opinião é corroborada pelo Prefeito, Roberto Germano. Para ele, sem a presença do Bispo na construção do PDS (Plano de Desenvolvimento do Seridó)42, este não teria ocorrido. Isso se deu porque

A Igreja é muito forte e na hora em que D. Jaime convoca as forças na sociedade, vem todo mundo. Eu tava (sic) dizendo até hoje, pode fazer uma pesquisa hoje no Seridó, talvez o maior líder hoje no Seridó seja D. Jaime. (...) Na hora que D. Jaime convoca é diferente de um partido político convocar. Ai vem todo mundo, vem sindicatos, vem partido político, vem a sociedade como um todo. Então é um papel importante esse daí pelo poder de articulação da igreja de congregar. Eu sei que o poder de articulação de D. Jaime é tão forte que ele consegue atrair até as igrejas evangélicas para dentro. Então é importantíssimo esse papel de D. Jaime hoje no Seridó. Principalmente como PDS, a criação da Agência, isso aí eu acho que vai fazer com que o Seridó retome o seu crescimento (ROBERTO GERMANO, Prefeito de Caicó).

A expectativa frente à Festa de Sant’Ana anima boa parte dos moradores de Caicó: ânimo para os comerciantes que esperam melhores vendas; para as pessoas ligadas ao artesanato que aguardam bons negócios. Mas, são os visitantes que mais anseiam o retorno à terra natal. Está chegando o mês de julho, época final de inverno, se ocorreu este, ou prenúncio de mais estiagem. Entre um e outro, a Festa será um momento de agradecer ou pacientemente, pedir a intercessão de Sant’Ana, para realizar seu grande papel:

A Festa de Sant’Ana é uma chuva, é uma benção. (...) Como digo vulgarmente, é um estrondo! A Festa de Sant’Ana é uma expressão de centenas de departamentos que formam a grandeza de Caicó e do Seridó. Centenas de expressões, a Festa de Sant’Ana é aquele acontecimento que congrega todos os valores da família de Sant’Ana, aquele acontecimento que forma um brado de fé, aquele acontecimento que é um gesto de louvor sincero a Deus, e uma reverência toda especial à Sant’Ana, a nossa avó espiritual que entrou na história da salvação. (...) Que desejamos que faça bem a todos não só no crescimento espiritual, não só abrindo suas portas e janelas para a graça santificante, mas ainda o crescimento humano, e que chegue até os pontos mais pessoais de cada um, de cada pai de família, de capa pessoa, na Festa de Sant’Ana, arranje com mais facilidade o 42

O Plano de Desenvolvimento do Seridó foi elaborado para ser um pleno norteador do desenvolvimento sustentável da região. Atualmente existe uma agência de desenvolvimento cujo presidente é o Bispo D. Jaime Rocha. As discussões em torno do plano, com ampla participação da sociedade civil local, tiveram como grande incentivador e aglutinador também o Bispo de Caicó.

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dinheiro da feira, pague suas dívidas, que seja uma chuva para todos (MONSENHOR ANTENOR ARAÚJO, Pároco da Catedral de Sant’Ana).

Interessante é que ser uma chuva para todos significa não apenas a característica democrática da chuva de, ao cair, molhar a todos, mas também, a grande expectativa do sertanejo em relação à chuva. Chover significa a possibilidade de continuidade da vida da região. Significa também a construção de riqueza e abundância para o povo. Mesmo a expressão mais popular do Monsenhor Antenor esconde um significado caro ao caicoense: é o estrondo do trovão que anuncia sua redenção, a chuva. Para muitos, a figura do Monsenhor Antenor é crucial na construção e no crescimento da Festa de Sant’Ana nos últimos anos. Ele enseja, ao seu modo, a participação da sociedade na construção do evento. Como ressaltou Gleiber Dantas de Melo,

Esse homem encarnou de tal forma o amor a Sant’Ana, que ele hoje é símbolo da Festa de Sant’Ana. E foi com ele que a Festa de Sant’Ana tomou todo o impulso. Mas foi com ele, e ao mesmo tempo não foi. Foi com ele enquanto ele foi aquele vaqueiro que tocou o búzio, arrebanhou pessoas, conclamou pessoas para estenderem os braços para a paróquia, para fazer dessa Festa, este estrondo de fé que ela é hoje. E realmente a Festa de Sant’Ana começou a ter todo esse empenho, quando ele começou a contar... com todos os organismos da sociedade. Formando o Conselho Paroquial e englobando pessoas de todas as classes da cidade, de todos os setores, de todos os ofícios. A Festa de Sant’Ana começou a crescer a partir daí. Quando ela começou a ter pessoas da história do mundo, que acompanha o mundo, dentro dessa Festa de Sant’Ana pelo padre Antenor (GLEIBER DANTAS DE MELO, Seminarista).

A modernização da Festa de Sant’Ana também é pensada por vários grupos e pessoas. A prefeitura de Caicó tem um projeto de revitalização da pequenina ilha que fica ao lado do poço de Sant’Ana, encravada no leito do rio Seridó. Pensa-se em fazer ali um bosque, exatamente onde é o Poço de Sant’Ana. O projeto consiste em urbanizar a ilha e transferir alguns eventos da Festa de Sant’Ana para o local. Para o prefeito isso é importante pois: 78


Lá foi onde nasceu Caicó, lá no Poço de Sant’Ana. O Poço hoje é um depósito de esgotos, de dejetos. E nós pensamos em fazer o tratamento dessas águas antes que elas cheguem ao Poço de Sant’Ana. Porque não se admite que a História de Caicó seja ali toda invadida por esgoto (ROBERTO GERMANO, Prefeito de Caicó).

Como o projeto ainda não saiu do papel, a preocupação maior é como e onde receber os milhares de visitantes. A maioria tem que se conformar com a hospitalidade da população local. Esta hospitalidade que se expressa mais no recebimento de seus parentes e amigos do que na própria lógica do acolhimento e do recebimento. 3.2. O iniciar da Festa A Festa de Sant’Ana inicia-se antes mesmo da “alvorada” (abertura oficial). Na quarta feira há o encerramento da Peregrinação de Sant’Ana na zona urbana e rural de Caicó. Esta peregrinação – organizada pela paróquia – começou na zona rural no mês de maio, visitando, a cada sábado, uma propriedade. Na zona urbana, as visitas domiciliares começam em meados de junho, com uma missa de envio. O encontro das imagens peregrinas reúne, no cruzamento das avenidas Coronel Martiniano e Seridó, as famílias visitadas e que acompanharam, em seus bairros43, a peregrinação. Também a esse encontro chegam de Currais Novos a pé, um grupo de romeiros. São denominados de “Peregrinos de Sant’Ana” e somam cerca de cinquenta pessoas: homens, mulheres, jovens, adultos e idosos. Devotos que, durante quatro dias, percorrem a estrada que liga as duas maiores cidades do Seridó, ajudados por uma estrutura denominada de “carros de apoio”. Os participantes desta caminhada submetem-se a uma série de regras pré-estabelecidas por uma comissão organizadora. A caminhada ocorre a uma velocidade média de deslocamento de 04 quilômetros por hora, onde, durante o percurso são fornecidos água e frutas aos participantes, que param para fazer três refeições diárias. O custo desta peregrinação sai em média por cento e vinte reais por 43

Os Bairros são divididos pelas suas respectivas paróquias e abrangem quase todos os principais bairros da cidade e os “sítios”, isto é, a zona rural, pelas suas fazendas e pequenos aglomerados.

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pessoa, pagos por cada peregrino. Pernoitam em fazendas ou em pousadas ao longo do caminho. O evento é noticiado com destaque na mídia estadual. A cada ano, aumentam mais os participantes da caminhada, levada a cabo por pessoas da classe média local. Às dezoito e trinta horas, a grande caminhada dirige-se para a Catedral de Sant’Ana, sob a animação de cânticos religiosos e da Banda Recreio Caicoense44. Na igreja é celebrada missa de ação de graças por todos os fiéis devotos e peregrinos de Sant’Ana. No dia seguinte, quinta-feira, vem a “alvorada”, como é chamada a abertura solene da Festa de Sant’Ana, que inicia-se com uma procissão onde o estandarte de Sant’Ana é levado pelas ruas da cidade. A procissão é seguida por uma guarda especial composta de bombeiros-mirins, tendo a frente a Banda Recreio Caicoense. O clero vai ao centro, logo à frente do estandarte e atrás do crucifixo. Faixas acompanham a procissão, levadas por populares. A maioria das pessoas vai de branco e descalça. Muitas crianças seguem juntamente com os adultos, algumas vestidas de anjinhos ou de pequenas batinas brancas. Outras simplesmente esperam o cortejo passar, nas calçadas e escoradas nas janelas das casas. Todos vão rezando Ave-Marias. Crianças são levadas nos colos dos pais. São presenças marcantes juntamente com pessoas de todas as faixas de idade. Fotógrafos e cinegrafistas iniciam, juntamente com a alvorada, seu trabalho na Festa de Sant’Ana. Vendedores ambulantes acompanham a multidão vendendo água, refrigerantes, bebidas alcoólicas e picolés. Em alguns momentos há uma rápida mistura entre o povo e o clero, logo ordenada pela lógica da procissão, separando rigidamente todos os atores. Alguns políticos comparecem, mas o lugar de destaque é do prefeito da cidade, seguido do outro lado pelo seu principal adversário político. Um carro de som segue atrás da multidão, “puxado” por alguns seminaristas e jovens ligados a grupos da Igreja. Animam a procissão entoando máximas de louvor à Sant’Ana e cantando músicas conhecidas do culto litúrgico. Após o roteiro tradicional – Avenida Seridó, Av. Renato Dantas, Av. 44

Esta Banda de música é bastante tradicional na cidade e foi criada por Augusto Monteiro em 1 o de janeiro de 1908 (MONTEIRO, 1999, p. 101).

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Celso Dantas e Cel. Martiniano; voltando pela Av. Seridó – a procissão (que é considerada pela população local, bem pequena comparando-a com a procissão final) concentra-se em frente à Catedral de Sant’Ana, ornada com longos estandartes vermelhos em sua fachada, onde um palco ao lado do mastro do pavilhão está armado45. Os padres, juntamente com o prefeito, sobem no palco e o carro de som se posiciona ao lado direito deste. O estandarte, que contém o dizer: “Sant’Ana Gloriosa” juntamente com uma estampa da imagem de Sant’Ana de Caicó, é hasteado pelo Padre Edson Medeiros de Araújo, Vigário Coadjutor da paróquia de Sant’Ana, ao som do hino de Sant’Ana entoado por todos e tocado pela banda Recreio Caicoense. A multidão acena e lentamente o estandarte vai subindo até chegar ao seu local, onde permanecerá até o fim da Festa. O prefeito Roberto Germano é o primeiro a falar e com o discurso escrito, nas mãos, exclama:

Padre Antenor, Padre Edson, srs. Clérigos. No ensejo de mais uma tradicional Festa de Sant’Ana, a mais viva expressão de fé do povo do Seridó. Desejo como prefeito reverenciar aquela, a quem entrego o destino do nosso governo municipal. Não expresso somente o pensamento de um governante, mas uno-me igualmente como cidadão, e ardoroso devoto, aos pés de Sant’Ana. É a parte da tradição, na abertura da Festa, que o prefeito traga a sua palavra. Para dar boas vindas aos visitantes, peregrinos de Sant’Ana, a quem recebemos de coração. Os filhos que retornam e aproveitam esse momento para o feliz reencontro de seus entes queridos que aqui permaneceram. Para rever os amigos que ficaram. Para relembrar fatos. Para pisar de novo o chão querido. Os que hoje estão longe não o fazem por gosto, pela procura de novas oportunidades de vida, tantas vezes por necessidade. A falta de oportunidades fazem com que muitos filhos partam. Perguntam como o povo de uma região de seca, com tantas dificuldades, se preocupem em promover festas, mas é justamente ela a Festa de Sant’Ana, que nos faz permanecer juntos. Juntos e mais fortes para enfrentar tantas dificuldades. Religiosidade é a patente, a marca registrada da alma seridoense. Mesmo que pesem todas as diversidades, o nosso povo continua lutando e heroicamente vencendo todas as amarguras. Não fosse a fé inabalável nos poderes divinos, quem sabe a nossa gente já haveria sucumbido. A Festa está nas ruas, nas nossas almas, nos nossos corações. Está em todos vós, os filhos da solidariedade e da esperança de melhores dias. No desejo de ajudar a nossa Igreja de continuar a ser o farol que orienta ao cristão. Sob a hégide de Sant’Ana, e sob a guarda de seu manto protetor, seguindo sempre na busca de melhores dias. Pois ela tem sido, o leme seguro que dirige nossos rumos, ninguém melhor do que ela, que aqui chegou primeiro do que nós, trazida pela devoção e pela fé de nossos 45

O Carro de Som que puxa a multidão, a exemplo do que ocorrerá outras vezes e do que ocorre em outras Festas, é doado por um político local (Deputado Estadual). Visível é um pôster do político no alto do carro.

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colonizadores, sob a inspiração de quem havia encontrado boas pastagens e pouso com água farta. Senhor Bispo D. Jaime, Sr. Antenor. À todo o clero, às religiosas, os leigos que fazem a nossa Diocese. Uno-me para louvar com toda a humildade a nossa padroeira. E encarecer que me faça forte o bastante para seguir trabalhando pelo povo. E que Sant’Ana nos proteja!

Sant’Ana é assim colocada como “aquela a quem se entrega o destino do governo municipal”, ela é, ao menos pelos dez dias que se seguirão, a Senhora de Caicó. O prefeito reverencia também os séculos de religiosidade e tradição de Caicó e do Seridó. Lembrar das dificuldades e das pessoas ausentes; a seca, a falta de trabalho que as impele para longe; a felicidade do retorno à terra querida; reforçar aquilo que mais caracterizaria o povo seridoense: sua religiosidade. O próximo a falar é o Monsenhor Antenor Salvino de Araújo, pároco da Catedral de Sant’Ana desde 1960. Símbolo fundamental e animador da Festa. Seu discurso gira em torno da importância da Festa para o povo de Caicó e de como esta foi estruturada. Lembra que Caicó é a terra prometida e os caicoenses são o povo de Deus. Assim: Toda procissão é uma expressão religiosa. Aquele povo de Deus ao chegar à terra prometida, a terra em que corria leite e mel, é uma expressão de tudo quanto eles encontraram de bom. Então nestes dias, quando nós chegamos à terra prometida, a casa de Sant’Ana, para celebrar sua Festa. Nós vamos também provar, nós vamos não só reviver, mas vamos nos robustecer de uma alimentação muito superior como o povo da Terra Prometida...Quando se vai em busca de um orago. Toda caminhada tem uma meta repousando. Nós fizemos à pouco uma caminhada religiosa e tendo à frente o nosso orago que é a Bem-aventurada Nossa Senhora Sant’Ana. E, esta caminhada que fizemos é uma marcha. Não só representando a marcha do povo de Deus através da História, mas a marcha de cada um de nós em busca da casa do Pai. Irmãos, esta caminhada ela não só representou todo um trabalho de estruturação, para a Festa de Sant’Ana de cada ano, não só a equipe da Igreja, mas também a da Prefeitura de mãos dadas há anos, há dezenas... estruturamos e preparamos a Festa de Sant’Ana juntos e isso é uma bênção... Mas significa também a nossa caminhada, como fez outrora o povo de Deus, que chegou à terra prometida e provou dos alimentos da terra onde corria rios de leite e mel. Essa caminhada que nós fazemos a cada ano, antes da Festa de Sant’Ana não resta a menor dúvida de que é uma figura, é uma metáfora daquilo de que o povo de Deus fez e continua fazendo. A aí chegamos ao momento de hastear a bandeira, depois de uma caminhada, sempre o ideal é hastear uma bandeira, um estandarte, assim fizemos. E assim declaramos a Festa de Sant’Ana aberta e começada. Irmãos caríssimos. Nós aqui estamos e no trajeto por exemplo ouvir um hino como este, “Que povo é este”, mas que povo é este?, há de alguém dizer: são uns alienados padre. São uns inocentes por acaso? 82


Que povo é este? Que povo é este? São o povo fora da história? Pelo contrário. É um povo que vai morar no céu. É um povo altamente vivido e solidificado, banhado, purificado pelo sangue da cruz, o sangue de Jesus, o sangue redentor, o sangue do filho do Pai eterno, nosso irmão. Que povo é este? É o povo que vai morar no céu!

Sua fala agora se volta sobre a Festa, sua preparação e o seu esperado bom desempenho. Relembra as Festas antigas e as multidões que delas participaram. Sua ênfase é na singularidade de um povo único: o povo de Caicó.

Repassemos e desta preparação toda da Festa de Sant’Ana quantas vezes repassadas, estou até celebrando diariamente neste sentido... nestes trezentos anos de fé do Seridó. Quantas vezes multidões caminharam sobre as ruas e avenidas de Caicó e chegaram até aqui. Hastearam a bandeira e onde é que está esse povo? Onde está esse povo que assim fez, este povo já está morando no céu. E nós vamos seguindo a suas pegadas, graças a tudo quanto Jesus nos firmou de modo especial, graças a sua mensagem e culminada com a ressurreição. Irmãos, nós estamos aqui iniciando mais uma Festa de Sant’Ana nesses trezentos anos de fé católica em Caicó e no Seridó. Convençamo-nos de que somos verdadeiramente o povo que tem sentido. O povo que vive e sabe viver, um povo que tem a certeza de possuir uma alma imortal que não se acaba. Povo que tem a certeza em outra vida. É o povo que vai morar no céu. Por esta razão é que os sinos repicam e a hora é dita de fazermos mais uma passeata, mais uma caminhada, mais uma procissão e a multidão chega, a multidão chega... Porque é um povo consciente, um povo altamente convencido da sua missão. Um povo forte... Povo que vai morar no céu. E... aquele povo de Deus não chegar na terra prometida, a terra que corria leite e mel.... Corria leite e mel é uma expressão das bênçãos de tudo quanto eles encontraram e apanharam. Então nestes dias que nós chegamos à Terra Prometida, a casa de Sant’Ana para celebrar a sua festa, nós vamos provar, nós vamos também ver, nos vamos nos robustecer de uma alimentação muito superior, àquela do povo da terra de leite e mel. Nós vamos nos aproximar dos sacramentos, nós vamos nos aproximar das orações, nós vamos nos aproximar dos cânticos, vamos nos aproximar dos louvores e, sobretudo, nós vamos nos fortificar com a Eucaristia. (...) Irmãos caríssimos, não somos jamais aqui e nem estamos aqui, como povo inocente, como povo alienado, nós estamos aqui convictos de que somos o povo que há de morar no céu, graças a Jesus, o redentor, nosso irmão. Palavra do Senhor... Viva Sant’Ana de Caicó! Viva o povo Seridoense! Viva o povo de Caicó! Viva os Peregrinos de Sant’Ana! Viva a Festa de Sant’Ana! Viva os meninos sacerdotes que alegraram a procissão de Sant’Ana!

A visão de Caicó como uma terra prometida é vista também dentro de outros círculos, para o pároco é a “terra que emana leite e mel”. Mas, ao afirmar que o povo de Caicó é um povo que tem sentido, Monsenhor Antenor talvez nos leve a pensar que 83


nestas paragens o processo descrito por Max Weber como “desencantamento do mundo” não exista. A vida cristã parece renovada em uma roupagem nova, sob o manto de Sant’Ana. Assim como a fala do vigário, um hino tocado durante a solenidade chama a atenção pelo mesmo conteúdo. O Hino do Peregrino de Sant’Ana mostra a euforia do início da festa. Chegou o mês de julho, mês de Sant’Ana. É o momento da chegada dos peregrinos de Sant’Ana virem, em caravana, de longe. Canta a grandiosidade da festa para seus participantes: é um espetáculo de fé no sertão do Seridó! Para os peregrinos, “dez dias que abalam” seu mundo. Visitar o seu pó novamente. A continuação é paradoxal: a peregrinação a Caicó e a sua festa é comparada com a peregrinação que os judeus faziam ao seu templo todos os anos. Assim como Jesus era levado ao Templo para seu sacrifício anual, as crianças de Caicó de mãos dadas com seus pais, seguem ao seu Templo. O Seridó é a terra prometida, “de onde emana leite e mel”. Caicó é a Jerusalém, para onde acorrem as multidões de peregrinos todos os anos. Por último, vem a partida. O tempo cotidiano deve retornar e cada um deve seguir seu caminho. Mas fica a certeza da volta atenuando a melancolia da saudade. Fica a certeza de ter um farol simbólico a guiar os passos de cada caicoense, Sant’Ana. A promessa da volta é a promessa da reconstrução identitária. Uma nova festa virá, e com ela, os peregrinos de Sant’Ana46.

Caicó sê radiante, O teu sol já despontou! Novos raios te iluminam, Mês de julho já chegou! Multidões a ti acorrem, Filhos teus em caravana, Tuas filhas vêm de longe: Peregrinos de Sant’Ana!

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Hino do Peregrino de Sant’Ana de Caicó (Paródia do Canto de Comunhão da Campanha da Fraternidade1993, feita pelo caicoense Gleiber Dantas de Melo e Música do também caicoense José Edson R. de Freitas).

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Espetáculo de Fé, No Sertão do Seridó! Chega tarde e parte cedo Quem visita o nosso pó Peregrino de Sant’Ana, Sê bem-vindo a Caicó! Jesus Cristo, há 2000 anos, Peregrino nós o vemos Com seus pais ao Santuário Como hoje nós fazemos: Catedral – é Novo Templo, Nossa alma – é Belém, Seridó – é Terra Santa, Caicó, – Jerusalém. Quando chega a despedida Se apertam corações: Nos olhares a saudade, Na lembrança emoções. Peregrino a Catedral Por ti sempre vai rezar. A Sant’Ana tu prometas: “Para o ano hei de voltar!”.

A volta deve ser sempre no momento mais paradoxal, no âmago da sociedade: a Festa. Nela, o reencontro é grandioso e pode ser rememorado. O mais interessante é o encontro do caicoense. Pois, como disse Raimundo Inácio Filho (Lobão), vereador em Caicó:

Porque você pode estar onde estiver, quando chega a Festa de Sant’Ana, se você é filho de Caicó, você tem de vir a Caicó. Se não vier você fica... você chega na rua e vê aquele povo se abraçando. Porque faz dez anos que não vejo, cinco anos, quatro... é a coisa mais importante. A coisa mais interessante de tudo isso é a fé desse povo em Nossa Senhora Sant’Ana.

Para o seminarista Gleiber Dantas de Melo, a “Festa de Sant’Ana é o reencontro dos filhos de Caicó em torno de sua padroeira”. Beijar o solo que nasceu, ao menos uma vez ao ano é, para o caicoense, “necessidade intrínseca”. Esta necessidade é sanada com 85


a ida a Caicó e à Festa de Sant’Ana. Essa idéia está bastante presente nas representações sociais dos caicoenses. Isto posto,

Os filhos de Caicó, aqueles que moram fora, eles fazem tudo para tirar férias no Mês de Julho. Eu tenho um cunhado que ele tava à uns dois anos atrás, no período da festa, ele tava na Angola, ele todo dia chorava no período da Festa. Todo dia ele ligava pra cá, pra saber como é que tava, como foi. O caicoense quando está fora de Caicó, quando chega o período de Festa de Sant’Ana ele fica desesperado mesmo querendo voltar pra cá pelo amor pela cidade, pelo amor que ele tem... devoção à Nossa Senhora Sant’Ana. Isso aí é o que justifica... esse amor à cidade. Caicó é uma cidade bairrista. O caicoense ele gosta de Caicó, ele não admite, ele diz: Caicó é o melhor país do mundo, é a melhor cidade do mundo, tudo melhor... carne de Caicó é a melhor de que qualquer canto... os produtos daqui são melhores de que qualquer canto. O caicoense é muito bairrista realmente. Então é isso esse bairrismo faz com que ele volte a aqui para se reencontrar com os amigos e tal, o espírito de solidariedade hospitaleira do povo de Caicó, isso contribui para que ele sempre volte na Festa de Sant’Ana (ROBERTO GERMANO, Prefeito de Caicó).

É o momento do reencontro dos amigos que vêm de fora. A sociabilidade é sempre enfatizada quando a Festa de Sant’Ana é referida. Ela também é grandiosa, e essa grandiosidade é expressa em algumas comparações:

Ela é considerada uma das maiores festas, talvez do Brasil. Porque muita gente compara pelo número de habitantes com a do Sírio de Nazaré em Belém do Pará. Porque convergem para aqui mais ou menos, a população da cidade. Cerca de 50 mil pessoas que é quase a população da cidade. É mais ou menos comparado o Sírio de Nazaré em Belém do Pará que também é nesse sentido... é proporcional... se iguala a de Caicó com o Sírio de Nazaré. (...) O que eu mais gosto é da feirinha. Eu vou pras comidas típicas. Tomar uma caipirinha. Encontrar com alguns caicoenses que moram ausentes no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife. Aquele encontro agradável com essa turma que mora fora. Relembramos coisas passadas (GIRSON BATISTA PEREIRA, Farmacêutico).

Há também aqueles que pouco participam da Festa, pois alegam falta de condições financeiras para tanto. Mesmo assim, devotos de Sant’Ana, exaltam sua grandiosidade, mas reclamam que a Festa está muito elitizada:

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A Festa de Sant’Ana já foi melhor. No meu tempo só tinha baile no domingo, mas era divertido. Hoje a carestia ta [sic] grande mas ainda vem muita gente de fora: do Rio, de São Paulo, de Natal. A festa hoje é mais para rico. Pobre só vai pra assistir a parte religiosa e pronto. Não tem dinheiro pra tomar uma Brahma e fazer um lanche. A festa é mais pro povo de fora e pra quem tem dinheiro. O pobre só vai pras novenas e pra procissão. Mas a festa é bonita assim mesmo. Eu gosto. Sou devoto de Sant’Ana (FRANCISCO RIBEIRO DE FARIA, Carteiro aposentado).

Após o fim da novena todos se dispersam. A maioria das pessoas entram na Catedral e seguem para comungar a Eucaristia, enquanto outros se postam frente à Sant’Ana e fazem seus pedidos e agradecimentos. A igreja está tornada com estandartes com a frase tantas vezes lida e ouvida: “Salve Sant’Ana”. À noite, no pátio, à esquerda da Catedral, um jantar de confraternização é servido. Pessoas ligadas à Igreja e membros da sociedade mais tradicional47 comparecem, após o pagamento da senha. Pouquíssimos jovens estão presentes, estes começam uma rotina que será comum durante toda a Festa: o passeio pelas ruas e praças no entorno da Catedral. No dia seguinte, já na sexta-feira, assim como em todos os demais dias da Festa, às cinco horas da manhã, irão ocorrer as “Caminhadas de Fé”, verdadeiras peregrinações pela madrugada, saindo da Catedral, servem como exercício físico e momento de oração no silêncio do dia que nasce. Depois, o evento marcante pela manhã é a procissão dos idosos que sai do “calçadão” e segue pela Avenida Seridó até a Catedral. Desta participam velhinhos de várias paróquias da Diocese que chegam de ônibus fretados. A procissão é acompanhada pela Banda Recreio Caicoense e é aplaudida por onde passa. A grande massa é dividida segundo os vários clubes de idosos (denominados de clubes da “melhor idade”) de cada município participante. Vestem camisetas peculiares de santos padroeiros de suas cidades e envergam bandeiras e flâmulas, a maioria com homenagens das paróquias de vários municípios à Sant’Ana e sua Festa. À frente de todos está uma imagem de 47

É importante salientar que estes nem sempre se caracterizam pelo status econômico ou político. O status social também é garantia de pertencimento à elite caicoense. Assim, podemos perceber que descendentes de famílias tradicionais, fundadoras, participam desses grupos pela sua importância social apenas. Em geral, a classe média da cidade, é que faz parte da ampla maioria de membros desses grupos tradicionais.

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Sant’Ana, num pequenino andor coberto de flores. A multidão parece ser relegada apenas aos idosos e ninguém ousa acompanhá-los. Na Catedral realiza-se missa solene. Interessante é a ênfase do animador que lembra a todos que aquela é a Sé da Diocese, e que Sant’Ana é a sua padroeira. Todos estão ali por sua causa. O que denota uma preocupação da Igreja em Caicó em impor Sant’Ana como a grande padroeira do Seridó. Sant’Ana é padroeira das seguintes cidades do Seridó: Caicó, Currais Novos e Sant’Ana do Seridó, sendo que as demais 20 cidades têm outros padroeiros. Após a missa todos seguem para um clube local que tem o sugestivo nome de “Pingo d’Água” (CAERN – Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte). Há uma grande confraternização com lanches, muito forró e conversas. Não é mais momento de fervor religioso. Agora o que importa é divertir-se, e, para alguns homens, beber um trago no bar ao lado. À noite, assim como nas demais noites que se seguem, o evento mais importante, embora não seja o mais concorrido, é a novena de Sant’Ana, ocorrida na Catedral. É um grande espetáculo religioso com toda uma ênfase ritual e marcada por uma centralização em Sant’Ana. Sua preparação se dá na sacristia da Catedral onde se pode encontrar todos os sacerdotes presentes e a equipe de organização, assim como seminaristas e visitantes. Antes de dirigir-se para o altar, Monsenhor Antenor toca a sineta da sacristia, saúda uma imagem de Nossa Senhora e de Sant’Ana e em fila indiana, juntamente com os demais padres, diáconos e seminaristas, segue para o altar. Para se adentrar no espaço sagrado é preciso antes se preparar, entrar em sintonia com o numinoso. Um foguetório e o badalar de sinos avisam que está começando a novena. A banda de música Recreio Caicoense toca. O coral inicia seu canto, a saudação à padroeira segue-se uma aleluia. Os padres posicionam-se sob o altar-mor, onde o presidente da assembleia fica exatamente abaixo da imagem de Sant’Ana.

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As pessoas ocupam toda a nave e os espaços vazios dentro da Catedral. Dentro desta faz muito calor, e as pessoas estão constantemente se abanando. Do lado esquerdo, fora desta, um telão contribui para que aqueles que não puderam entrar assistam o culto, assim como um carro de som postado à frente da igreja leva para mais longe as palavras e cantos da novena. A maioria presente usa o branco como cor principal. Símbolo de pureza e castidade é a cor, juntamente com o azul, ligada à devoção Mariana, aqui, assimilada na devoção à Sant’Ana. Muitos vão pagar alguma promessa, outros vão por tradição. É fácil ver pessoas alheias ao ritual que estão ali para acompanhar conjugues ou amigos, e, que ficam do lado de fora conversando com conhecidos. No alto, de frente ao altar-mor, acima das portas frontais da Catedral, está o coro. Nele, pessoas ligada à paróquia e algumas autoridades assistem à novena, juntamente com seus familiares. É, talvez, o melhor local para se observar tudo, mas seu distanciamento impede uma participação mais ativa juntamente com os outros fiéis. Acompanhado do som de órgão, originado de um teclado eletrônico, um coral de vozes ritmadas e compassadas dão um ar cada vez mais solene e sacro à cerimônia. São aproximadamente trinta vozes mais o maestro, vestidos de túnica branca sob um pano vermelho, à moda dos corais tradicionais48. Incenso é queimado junto à imagem de Sant’Ana e de seu esposo, o tão esquecido Joaquim. O Santíssimo Sacramento é levado via procissão, atravessando a igreja e sendo depositado no altar para adoração. Após momentos de adoração, ele é elevado e uma estridente salva de fogos de artifício explode nos céus de Caicó. Mons. Antenor exclama: “Tudo isso por que Sant’Ana existe!”. O ritual é criterioso e sua observação é repetida todos os dias da novena. Para a eficácia do rito, importa seguir todos os detalhes. A função do rito aqui, mais do que dar uma lógica ao mito, é emprestar lógica à devoção à Sant’Ana.

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O coral, denominado de Coral de Sant’Ana é acompanhado pelo Padre Edson de Medeiros de Araújo, coadjutor da Catedral, com a assistência de Luciano e Maria Adélia Gurgel. Para a Festa de Sant’Ana conta com a orientação musical e regência do Professor José Eudo Bezerra, onde é realizada uma preparação específica (LIVRO DO PEREGRINO DE SANT’ANA DE CAICÓ, 2001, p. 87).

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Durante toda a Festa as luzes do campanário das duas torres, assim como a do galo da torre esquerda, permanecem acesas por toda à noite. A exaltação da Festa está expressa também em símbolos materiais. Assim, o galo, diz o pároco, “é banhado a ouro e quem quiser pode tentar roubá-lo”. Difícil mesmo é conseguir chegar até ele. A novena prossegue com a homilia principal e algum comentário do Monsenhor Antenor sobre a Festa. Estes giram sempre em torno de sua realização pelo conjunto da sociedade de Caicó. Das dificuldades de se realizar um evento “tão grandioso” por uma cidade que vive basicamente de serviços, pequenas e médias indústrias e artesanato. Enfatiza que apesar da seca e das dificuldades, Caicó é um ótimo lugar para se morar e “para quem gosta do sertão, tem tudo o que se precisa para viver”. Sua hospitalidade e sua cultura são marcas de seu povo. Seu bordado e seu artesanato são, para o padre, “de qualidade superior, admirados em todo o mundo”. Exalta, em livros vendidos pela paróquia, aquilo que para ele são “os três pilares da cultura do Seridó: Caicó, Acari e Currais Novos”. Esta forma de exaltar as principais cidades do Seridó mostra o quanto a forma de ocupação do território engendrou, de certa maneira, uma região integrada sócioculturalmente. Isto é expresso no discurso do pároco, para quem o Seridó, assim como Caicó tem uma cultura e tradição sui generis. Mas, sua identificação refere-se aquilo que poderíamos chamar de mais tradicional e arraigado ao passado regional. Interessante é a diferença de discurso entre o Mons. Antenor e o Monsenhor Ausônio Tércio (Vigário Geral da Diocese). Enquanto no primeiro temos um catolicismo tradicional e ritualístico, neste último, predomina um discurso mais engajado em termos sociais e religiosos. Seu Cristo é um Deus mais vivo e presente. Sua Igreja é mais politizada no evangelho. Daí que sua homilia parte do Ato dos Apóstolos e de sua reflexão acerca da Igreja Primitiva. O espírito de partilha que animava esses tempos é conclamado para ser revivido. Mostra que “é fácil dar esmolas, difícil é dar educação, ciência, saber, tecnologia, aquilo que dá independência ao homem”. Fala também da “necessidade de participar comunitariamente das decisões políticas e sociais 90


da sociedade”. Ao final de seu discurso, uma onda forte e acalorada de aplausos toma conta da Catedral. O carisma do mais velho padre da Diocese é demonstrado pelos fiéis. Aqui, é possível notar uma certa rivalidade entre os dois clérigos, o que mostra duas formas de ação eclesial também diferentes. Para moradores da periferia de Caicó, Monsenhor Tércio é um padre ativo, que se preocupa com os “pobres”. Já a visão que denotam do Monsenhor Antenor é a do “padre que só pensa em dinheiro”. Mais ligado às elites e a sociedade mais tradicional de Caicó. Para ele Caicó vai da Catedral de Sant’Ana até o Colégio Diocesano” . Ou seja, o que era Caicó até os anos 60. Ficando-se assim de fora a maior parte da cidade. Esta parte, excluída, é exatamente a zona mais pobre da cidade, fruto da imigração rural e regional de cidades vizinhas. Noutro dia de novena o Monsenhor Antenor pede que se “reze uma Ave Maria pela inteligência dos seridoenses”. Sua diligência volta-se sempre para a exaltação do seridoense e de seus aparentes predicados. Afinal para ele a singularidade do caicoense é

Ter sido um povo bem nascido... um povo bem nascido. E depois bem estruturado, orientado, protegido e ao mesmo tempo exigido desse modo. Um povo inteligente criativo, um povo dotado então, esse povo realmente é uma marca, e aonde chega o seridoense logo mais todo mundo nota e é alguém diferente. Veja que figuras temos do Seridó, nesses trezentos anos. E algumas apareceram, estão aparecidas vivamente. Outras ficaram por trás dos bastidores, mas também agindo. Então apareceram vivamente a figura do sr. Cardeal Eugênio, Mons. Walfredo Gurgel, Dinarte Mariz, a figura de Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, a figura do Dr. Juvenal Lamatirne, então tantas figuras por aí... mulheres também varonis, mulheres muito grande também (MONSENHOR ANTENOR SALVINO DE ARAÚJO, pároco da Catedral de Sant’Ana).

Para ele a figura da mulher foi de fundamental importância para isto. Seu espelho foi Sant’Ana a mãe da mãe mais perfeita. No Seridó, diz, muitas vezes

A mãe na família, a mãe é aquela equipe de apoio, por trás dos bastidores do marido, dos filhos, aquela equipe de apoio feliz, da família que possui uma mãe dessa qualidade. E o Seridó também foi muito feito por causa da mulher desse tipo dentro das famílias e, dando apoio, segurando, defendendo a família. Ela tem um papel brilhantíssimo dentro 91


da família e da história do Seridó (MONSENHOR SALVINO ARAÚJO, Pároco da Catedral de Sant’Ana).

Esta família que será responsável pela formação de um ethos tido como diferenciado. Assim, transparece-se uma forte ligação com Caicó, marcada nas representações dos caicoenses sobre a cidade. Estas são pautadas nas qualidades da cidade, no viver “em Caicó”, em sua “hospitalidade”, na qualidade de seu povo. Assim,

O caicoense é um pouco baiano. Ele é totalmente fiel à sua cidade. Ele gosta muito dela. Mas é a melhor cidade que eu acho para se morar. (...) É uma cidade que muitas pessoas não esquecem. (...) As pessoas que vêm aqui normalmente gostam de Caicó e isso é uma coisa que gratifica o caicoense e eu principalmente me sinto muito feliz. E sempre que posso falo muito bem de Caicó (JOSÉ RANGEL DE ARAÚJO, Pres. SEBRAE/Caicó).

Caicó também é reconhecida pelas suas diferenças e por aquilo que a caracteriza nas representações sociais como uma cidade sui generis. Desta maneira,

Ser caicoense é ter, na verdade, a esperança de algo que se pode conquistar... Caicó é uma cidade diferente de todas as cidades do Rio Grande do Norte, de todas as cidades do Brasil e acredito que do mundo. Eu conheço várias regiões do nordeste brasileiro e ainda não consegui ver uma igual ao Seridó e não vi nada igual ou mesmo comparado à Caicó. Ela tem uma característica que só quem vive, só quem conhece pode dizer como é Caicó. (...) É excelente, a geografia da cidade, o rio Seridó, o rio Barra Nova, o formato geográfico, a estrutura é algo monumental. Só existe mesmo aqui (FRANCISCO CANINDÉ DE FRANÇA, Advogado).

Caicó é também diferente por causa da Festa de Sant’Ana:

Caicó é uma cidade maravilhosa. (...) Onde as pessoas gostam muito dos visitantes. Uma cidade que tem uma Festa de Sant’Ana como esta que é maravilhosa que atrai visitantes de quase todo o Brasil e pra mim eu a considero uma cidade impressionante (MARCIAL ARAÚJO BATISTA, bancário).

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Também diz que ser caicoense é ser alguém que gosta de se sociabilizar com os outros. Alguém que também gosta de receber, principalmente na Festa de Sant’Ana, evento que, para ele, explicita essa característica. Afinal, “a cultura seridoense de gostar de conviver com as pessoas, de receber as pessoas... até pela própria influência da Festa de Sant’Ana... na Festa de Sant’Ana sempre vem aqueles visitantes e geralmente na Festa de Sant’Ana acontecem muitos eventos” (MARCIAL ARAÚJO BATISTA, Bancário). Essa hospitalidade, enfim, parece se expressar principalmente na Festa de Sant’Ana. Ela é sempre utilizada como exemplo para aquilo que os caicoenses têm de melhor. Deste modo, percebe-se também que esta hospitalidade é direcionada principalmente para os parentes e amigos que vem de fora. Ser caicoense, é também:

É a maior graça que a gente pode receber. Porque eu nunca ouvi a pessoa falar, assim, mal de Caicó, e muito menos dessa parte de... receber os visitantes nas casas... Caicó tem muito cuidado na Festa de Sant’Ana está sempre com a sua casa arrumada, pra receber os visitantes... eu acho que isso é muito importante... nem só na Festa de Sant’Ana, mas também no Natal que tem em família que todo mundo vem de fora, meus filhos ficam aqui... pra mim ser caicoense é muito bom, é muito gostoso. Eu nunca vou sair daqui (DENISE DANTAS FERNANDES, Dona de casa).

Do mesmo modo:

A religiosidade e o símbolo que ela é. Sant’Ana é a avó de Jesus. Uma trova minha: a voz de Deus, grande luz, que rege nossos destinos, Sant’Ana avó de Jesus, protegei os peregrinos. Quem vem para cá tem esse acolhimento, devido à familiaridade, o entrelace de famílias que nos temos de tudo quanto é canto. Do exterior vem gente para cá porque são nossos parentes. Então é um reencontro de parentes (NILSON DE BRITO, Poeta e funcionário público aposentado).

A identificação com Caicó também é relacionada com a religiosidade. Novamente sua hospitalidade é citada, mas aliada a alegria de viver. Ser caicoense é também ser um lutador. Um forte sertanejo que luta constantemente contra a seca. Caicó 93


Por sua afinidade cultural ela já orgulha as pessoas em ser caicoense. O caicoense é por demais um lutador. (...) Com toda essa seca, essa arguras da necessidade, da pobreza, o povo é pobre, mas é um povo alegre, inteligente, é um povo que procura sobressair da obscuridade. (...) É uma cidade que é alegre, hospitaleira, mas mesmo assim nós temos um prazer muito grande de morar em Caicó, temos um povo pacato, até certo ponto. (...) Nós temos aqui uma fé muito grande na nossa padroeira que é Sant’Ana, que foi o símbolo da nossa cristandade, aqui da nossa religião católica é Sant’Ana (NILSON DE BRITO, Poeta e funcionário público aposentado).

A cada dia da novena um membro de um grupo organizado traz uma mensagem para a comunidade. Um dia é do pessoal da saúde, outro do comércio, artesanato, caminhoneiros, serviços, caicoenses ausentes, peregrinos, visitantes, Irmandades Religiosas, etc. Cada mensagem traz as expectativas frente ao futuro do Seridó, de Caicó e de cada categoria. Traz também reclames e anseios frente ao poder público. O púlpito torna-se um lugar privilegiado, naquele momento, para ser ouvido, pois a Rádio Rural de Caicó, pertencente à Diocese, transmite ao vivo, para aqueles que não estiverem presentes, toda a novena. Assim como, via internet, é possível acompanhar, em qualquer lugar do mundo, o evento. O momento sagrado enche-se de profanidade política. Esses grupos, porém não se apresentam nas novenas conjuntamente e organizados. Acham-se dispersos e não comparecem como um grupo compacto. Assim, com exceção de seus representantes – que falam no púlpito – não se verão pessoas identificadas com cada setor. Também a imprensa da capital está presente. A Festa de Sant’Ana passará a ser noticiada em seus mais diversos acontecimentos pelos próximos dias, na televisão, rádio e jornais. O tom das notícias é sempre exaltador da Festa, mostrando seu lado lúdico e religioso. A novena chega ao fim e todos começam a cantar, ao refrão de “Boa Festa!”:

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A todos que festejam Sant’Ana e Joaquim e aqui reunidos rezando pelos seus, a todos que vieram com fé de devoção: Desejo boa festa de todo coração! Boa Festa... te desejo de todo o coração!

Num gesto inesperado, Monsenhor Antenor olha para a imagem de Sant’Ana e comenta:

Agora, vocês vão dizer: ô padre cabiloso [sic]. Eu não sei se eu sou ou não, eu só sei que eu sinto. Quando você vai fazer uma prece à Sant’Ana e fica ali num local que ela fica olhando pra você. Aí você faz a prece e fica olhando pra ela. Num dado momento você sente alguma coisa, ou nos olhos dela, ou nos lábios dela, ou na face dela. Acreditem se quiser.

Mais do que um momento pitoresco, aqui é possível notar que a devoção a Sant’Ana não se caracteriza por grandes momentos votivos e místicos. Ela não é uma santa milagreira e intercessora como outros santos, de modo que em Caicó não há salão de ex-votos para Sant’Ana. Ao denotar a “misticidade” da imagem, Monsenhor Antenor indiretamente nos lembra que, afora poucas manifestações votivas, Sant’Ana dá-se ao luxo de pouco misticismo em seu entorno. De outro lado, ela aparece mais como protetora de toda a cidade, mais do que de indivíduos e suas mazelas pessoais. Ao fim, ele abençoa a todos os fiéis e, virando-se para Sant’Ana, todos cantam seu hino49: Senhora doce e clemente Mãe da Graça e do perdão Abrigai-nos docemente Dentro em vosso coração! Salve Sant’Ana gloriosa Nossa amparo e nossa luz! Salve Sant’Ana ditosa Terno afeto de Jesus! Nossos filhos desta terra Os suplicam que sejais O seu refúgio na guerra E sua alegria na paz! 49

Música de Manoel Fernandes e Letra de Palmyra Wanderlei, encomendada em 1917 pelo Padre Luis Teixeira.

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Monsenhor Antenor agradece às famílias que fazem doações à Igreja e termina dizendo: “Viva Sant’Ana! Viva os peregrinos de Sant’Ana! Viva a Igreja do Seridó! Viva a Festa de Sant’Ana!”. É fundamental a participação do clérigo – assim como do clero – não apenas na construção da Festa de Sant’Ana, mas, fundamentalmente, na propagação da fé em Sant’Ana. Como dissemos, quando ele comenta sobre o episódio místico ou exalta a intervenção de Sant’Ana, o pároco também alia essa motivação religiosa à exaltação da terra. Sant’Ana é o que é por ser do Seridó, por ser de Caicó. Ao fim da novena a maioria das pessoas se dispersam. No pátio da Catedral, no seu lado esquerdo, uma seresta cantada por uma artista local embala o resto da noite no local. Comum, no encontro entre as pessoas, é escutar a saudação mais ouvida durante a Festa: Boa Festa! Quem gosta de um pouco menos de agitação permanece nas mesas e cadeiras postas no local e toma um refrigerante ou cerveja, acompanhado do pastel vendido pelo ambulante Eduardo Garcia, o “delicioso”. Este juntamente com sua esposa, faz pastéis de carne para vender durante a Festa, que as pessoas apelidaram de “Delicioso”. É uma amostra de como alguns caicoenses aliam a busca da sobrevivência material à participação na Festa de Sant’Ana. Na sacristia da Catedral, assim como na casa paroquial, o visitante pode adquirir uma lembrança da Festa. Pôsteres de Sant’Ana, imagens da padroeira, chaveiros, cadernos, etc., são vendidos juntamente com livros sobre a cidade e a diocese. Todas as lembranças associam-se de alguma forma à Festa e, quando não, como no caso dos licores feitos pelas monjas do Mosteiro das Clarissas de Caicó, exaltam a religiosidade local e o pertencimento à terra. Já a noite entrando alta, o povo tende a se concentrar em um dos bares e lanchonetes espalhados no entorno da Catedral e do centro da cidade. Algumas bancas de jogos de azar, carrinhos de cachorro-quente, vendedores de pipocas, de doces, lotam todo o espaço entre as calçadas e a rua. Alguns não são fixos e seguem vendendo 96


amendoins e castanhas torradas. A maioria das pessoas é de Caicó, moradores da periferia. Sua participação na Festa restringe-se ao trabalho, que garantirá uma renda extra para a família. O lado econômico da Festa aqui é também a possibilidade de sobrevivência de uma cidade com poucas oportunidades de emprego. Mesmo assim, a capacidade da população de gerar renda, como é assinalada pelo poder público, faz com que seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) seja o segundo do Estado (Cf. PLANO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO SERIDÓ, 2000, vl. 1). Esta capacidade se assinala principalmente pela informalidade das atividades, principalmente a produtiva: fabricação de queijo, bordados, artesanato em geral, artigos de couro, biscoitos, bonelaria, serviços, etc. Tudo isto eleva a renda familiar sem aparecer nas estatísticas oficiais de emprego e renda. Parques de diversões são armados e as crianças buscam imediatamente este atrativo, levando consigo seus pais e acompanhantes. Afora shows de banda de forró, que ocorrem em clubes locais e onde são cobrados preços considerados altos pela população, há poucas atrações culturais grátis para o povo durante a Festa de Sant’Ana à noite. Dentre estas aparecem shows com artistas locais e bandas estilizadas. Mas, em todas as noites, o comum são as bandas de forró em clubes locais, onde são cobrados ingressos. Um telão é colocado pela prefeitura, juntamente com um palco, na Praça da Liberdade (uma quadra após a Catedral). No primeiro, vê-se muita propaganda da prefeitura: obras realizadas, projetos futuros. Na Festa, aproveita-se um momento para a propaganda política oficial. No palco armado, jovens fazem diversas apresentações musicais estilizadas como dança country. Para Maria Nalva Medeiros Fernandes (dona de casa), existem opções, mas são poucas e mal divulgadas, além de se concentrarem em um ou dois dias pois,

Tão dominando aqui a parte de shows e só trazem forró. Forró, não é nem forró... Forró do Ceará. Eu acho que... É por isso que ontem teve o show no Jardim de Alá, com Marquinhos e a Morada do Samba e muita gente adulta. Eu acho que a gente tem que 97


pensar não só nos adolescentes, mas até porque nós pais, nós adultos, precisamos ter também... Gostamos disso. E prova que toda festa que tem boa, o pessoal vai. E o adolescente também vai. Você percebe que a música ela não tem idade. (...) Aqui em Caicó a parte de cultura é muito rica. Mas a gente lamenta...

Essa reclamação parece advir de outros grupos e pessoas. Principalmente daquelas envolvidas em organizações culturais ou que apreciam cultura popular e regional. A divisão entre faixas etárias aparece principalmente no que tange ao espaço físico. No entorno da praça da Liberdade (do Coreto), principalmente de frente à sua calçada que dá para a Av. Seridó concentra-se um sem número de adolescentes convenientemente trajados conforme a última moda. Também a divisão ocorre por grupos que ocupam as calçadas e bares: conforme as “turmas” que se estabelecem aqui e ali. A diferenciação é possível de ser determinada através dos trajes, do discurso e pela origem de cada membro do grupo. Trajar roupas de grife, conversar sobre a Festa e a última paquera, saber quem é filho da família tal, sobrinho, filho ou neto de fulano ou beltrano são coisas corriqueiras nas elites e na classe média de Caicó. Aqui o conhecimento trava-se através de um terceiro ator. Um visitante solitário dificilmente entraria numa dessas rodas de sociabilidade. Não apresentar marca de distinção social, cultural ou econômica, num espaço como Caicó pode significar ao estranho uma boa dose de dificuldade de sociabilidade. Esse “bairrismo” é fortemente ligado à identidade sociocultural de Caicó. Como coloca Dione Pontes, caicoense, arquiteta e moradora de Natal:

Eu tenho muito orgulho de ser caicoense. Tanto é que quando meu filho foi nascer eu o trouxe pra nascer aqui. O caicoense, a gente é muito bairrista. Adora isso aqui, ama de paixão. Então a gente sempre acha Caicó uma coisa grandiosa. Que vem, já nasce com uma certa cultura, um certo orgulho, um modo de ser caicoense, a gente não encontra nas outras... Pelo menos aqui, exceto no Seridó, eu não vejo outro lugar no estado você encontrar isso. Qualquer lugar que você vá, sempre vai ter um caicoense perto de você. Eu não sou daqui, sou de Campina Grande, da Paraíba, mas desde criança moro aqui. Então, eu de certa forma fiquei com a história e a cultura de Caicó, e eu assim, no estado do Rio Grande do Norte não tem uma identidade cultural, mas a região do Seridó tem

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uma identidade fortíssima e uma tradição que fica dentro da gente, e a gente tem realmente esse orgulho daqui de Caicó (DIONE PONTES, Arquiteta).

Roberto Germano, prefeito de Caicó concorda com a afirmação acima e diz que isso também tem a ver com a Festa de Sant’Ana, pois:

O caicoense quando está fora de Caicó, quando chega o período de Festa de Sant’Ana ele fica desesperado mesmo querendo voltar pra cá pelo amor pela cidade, pelo amor que ele tem... devoção à Nossa Senhora Sant’Ana. Isso aí é o que justifica... esse amor à cidade. Caicó é uma cidade bairrista. O caicoense ele gosta de Caicó, ele não admite, ele diz: Caicó é o melhor país do mundo, é a melhor cidade do mundo, tudo melhor... carne de Caicó é a melhor de que qualquer canto... os produtos daqui são melhores de que qualquer canto. O caicoense é muito bairrista realmente. Então é isso esse bairrismo faz com que ele volte a aqui para se reencontrar com os amigos e tal, o espírito de solidariedade hospitaleira do povo de Caicó, isso contribui para que ele sempre volte na Festa de Sant’Ana (ROBERTO GERMANO, Prefeito de Caicó).

No decorrer da Festa de Sant’Ana, o compromisso durante o dia para as pessoas que vêm de fora participar da Festa é matar a saudade da terra e dos amigos. O mais comum são os almoços e churrascos de confraternização, regados a muita comida regional, muita cerveja e muita cachaça. Estes encontros ocorrem em geral na casa de uma matriarca ou de um patriarca da família, o membro mais idoso ou o mais influente ainda vivo. Relembrar os momentos felizes na infância e na adolescência, falar do sucesso do presente em terras distantes e planejar o futuro, sempre pensando na volta a Caicó, no próximo mês de julho. A rodoviária de caicó, “Manoel de Neném”50, recebe por todo o período de Festa de Sant’Ana, um fluxo muito grande de ônibus, vindos em sua maioria, de Natal. Algumas faixas, colocadas pela Prefeitura de Caicó, trazem os dizeres: “Bem vindo, é Festa de Sant’Ana. Caicó os acolhe de braços abertos”. O visitante é uma das figuras centrais na Festa de Sant’Ana. Ele é responsável não apenas pelo reencontro e pela 50

Manoel de Neném foi uma figura pioneira no transporte de massa em Caicó nos anos 60. Era dono de um “mixto” que transportava pessoas e mercadorias e depois passou a possuir a primeira linha de ônibus do Seridó que ligava Caicó e outras cidades à capital.

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sociabilidade, mas também pelo dinheiro que circulará na economia da cidade nesta época. Época de Festa de Sant’Ana também é tempo de ir à feira livre de Caicó. Ocorre sempre aos sábados nas proximidades do mercado público municipal, entre as ruas Manoel Patrício de Figueiredo, Cel. Manoel do Vale e a Praça Governador Dix-SeptRosado. Todos os tipos de pessoas freqüentam a feira livre: pobres, ricos, homens, mulheres, idosos e crianças. Algumas barracas são rústicas, sem cobertura e feitas de madeira já deteriorada, outras seguem um padrão mais moderno e são padronizadas com cobertura e bancada forrada com napa. Outros feirantes vendem seus produtos sob uma lona ao nível do chão. É possível encontrar figuras como o Seu Adelço Medeiros, conhecido nacionalmente por ter aparecido no Fantástico e no Programa do Jô na Rede Globo de Televisão, como o “homem que faz tudo por dinheiro”: alugar redes para os visitantes dormirem em sua casa, guardar local em fila, vender o que pode, entre outros trabalhos. Devoto de Sant’Ana contribui com a organização da Festa fazendo alguns trabalhos para a paróquia, esperando, neste caso, o pagamento no além. Seu trabalho consiste, entre outras coisas, em ajudar a arrumar a Catedral e distribuir panfletos. A feira livre, por ocorrer ao lado do mercado público de Caicó, torna-se um apêndice deste e vice-versa. O mercado é apinhado de barracas que vende vários tipos de mercadorias populares além de servir alimentos. É o espaço de comercialização e sociabilidade. Onde o povo se encontra e vai comprar parte de gêneros de sua necessidade. Ao lado do mercado, barracas e bares tomam a rua e completam a feira. Homens bebem, mulheres e crianças fazem compras, pessoas comem nas barracas. Estas vendem em geral carne guisada, arroz de leite, feijão, mocotó de boi, linguiça da terra, costela de boi, carneiro torrado, caldo de fígado de gado, galinha torrada, etc. O mercado, assim como as barracas funcionam por toda a semana. A feira restringe-se ao sábado, permanecendo algumas barracas ao longo da semana. No outro lado da cidade, na Avenida Seridó, fica o mercado de carnes, chamado pela população de açougue. Como o nome diz, aqui se vendem carnes de todos os tipos. 100


Ao lado deste mercado funciona também uma pequena feira. Assim como barracas, que como as outras do mercado público, vendem comida e bebida. Em época de Festa de Sant’Ana, os mercados sentem a falta de vários produtos como: queijos, carne de sol, chouriço, linguiça da terra, manteiga de garrafa, nata,arroz do sertão, etc. Produtos que denotam identidade e são classificados e procurados, principalmente pelos forasteiros, como “produtos de Caicó” e do “Seridó”. Algumas firmas aproveitam o período de Festa de Sant’Ana para inaugurar suas lojas e filiais na cidade. Num momento de efervescência econômica para a cidade, empresários aproveitam para divulgar suas marcas e produtos. Após o almoço interessante é fazer vênia em uma rede preguiçosa. Com o calor abrasador, fica difícil aventurar-se pela cidade. No primeiro sábado da Festa, porém, pode-se proteger debaixo das árvores no pátio interno do Colégio Diocesano Seridoense, onde ocorre a tradicionalíssima festa do “ex-aluno”. Regada a muito vinho, wiskhy e cerveja, ela é animada por uma banda local e vara pelo fim da manhã até a noitinha. Jovens e adultos se confraternizam lembrando seus tempos de colégio. Fotografias de turmas antigas são afixadas nos corredores. O Hino do Colégio é cantado por um grupo, que, de papel na mão e muito álcool na cabeça, tenta dar harmonia à música composta pelo primeiro diretor, o ex-governador do estado, Mons. Walfredo Gurgel. Uma camisa, com o brasão do colégio é vendida no local. Todo o dinheiro arrecadado com a festa vai para um fundo de bolsas de estudo para jovens carentes, informa Suzinete Azevedo, uma das organizadoras. São também vendidos livros e cartões postais da cidade e distribuídos jornais do colégio e boletins informativos da Prefeitura de Caicó. Parte da elite atual de Caicó aqui estudou e é essa mesma elite que vem se lembrar “do seu tempo”. Hoje são empresários, políticos, magistrados, funcionários públicos, profissionais liberais, professores, etc. Aqui além da confraternização e da nostalgia, alia-se um forte espírito de sociabilidade, enfatizando-se sempre o ser caicoense e a Festa de Sant’Ana. Além disso, os laços entre os grupos que aqui se integram são 101


daqueles que formam a elite da cidade. Antes de mais nada, estudar no Diocesano e assim, participar depois da festa de seus ex-alunos é também denotar o fazer parte de um grupo privilegiado. No “cotidiano” da Festa, algumas atrações são tradicionais. É o caso da Banda Recreio Caicoense que, além de suas apresentações nos atos litúrgicos, toca duas vezes por dia de frente à catedral. Às cinco horas da manhã e ao meio dia é possível ir vê-la e ouvi-la executar marchinhas tradicionais de maestros seridoenses e valsas e folguedos conhecidos. Tradicional também durante a Festa de Sant’Ana é ir visitar suas “atrações turísticas”, dentre as quais destaca-se o Castelo de Engady, o Casarão do Padre Guerra, o Convento das Carmelitas e o Açude Itans. Interessante é que as três primeiras têm uma íntima relação com a religiosidade local. O Castelo de Engady foi construído pelo Monsenhor Antenor Salvino de Araújo para tornar-se um refúgio, uma espécie de eremitério. Mas, como o mesmo relatou, o local, de um lugar ermo e isolado, passou a ser rodeado de casas, o que, para o proprietário, impossibilitou sua existência enquanto tal. Mesmo assim, o Castelo vem atraindo a curiosidade dos visitantes. É feito basicamente de tijolos e tem um formato de uma pequena fortaleza medieval. Por dentro divide-se em quartos, salas, banheiros, uma cozinha, áreas descobertas e uma capela. Por fora um amplo espaço destinado a jardins (que não existem). Já o casarão do Padre Guerra, foi o primeiro grande sobrado colonial do Rio Grande do Norte e, durante boa parte de seu tempo como província, foi o maior. Atualmente o casarão pertence ao Estado do Rio Grande do Norte, à Fundação José Augusto, onde existem projetos para transformá-lo em centro cultural. Sua fachada singela e imponente, com suas grossas paredes de pedra e tijolo, demonstram um pouco da riqueza e do poder de seu proprietário. A visitação é tão irregular quanto a sua ocupação atual: na Festa de Sant’Ana só a partir da Feirinha é que era possível visitá-lo. O Convento das Carmelitas abriga monjas que vivem em reclusão monacal. A visitação é restrita e só pode ser feita do lado de fora, em respeito à clausura das monjas. 102


Quanto ao Itans, este é sem dúvida, um dos marcos de identidade desta terra. Mas, sua visitação depende daquilo que há de mais incerto em Caicó: a chuva. Em tempos de estiagem, ele permanece quase seco, impossibilitando sua visitação e usufruto pelos visitantes e moradores. Cada um desses locais expressa um pouco da identificação dos caicoenses pela sua terra. Ao se falar de Caicó, fala-se também do “castelo do padre”, “do mosteiro das freiras”, “do sobrado do padre”, do Itans. Com exceção deste último, todos os demais estão ligados ao sagrado e constituem-se como parte da presença da Igreja Católica na região. Porém, mesmo o açude Itans, quando em época de bons invernos e, consequentemente, de sangria, também se torna palco da manifestação do sagrado. É comum haver uma grande procissão religiosa até o açude, como ação de graças pelo bom inverno e pelo enchimento do principal manancial de água da cidade 51. Durante a Festa de Sant’Ana vários jornais, panfletos e revistas circulam em Caicó. Estas publicações que saem no período de Festa de Sant’Ana reportam-se, em geral, à Festa praticamente utilizando as mesmas palavras. Falam da prece do vaqueiro que deu origem à cidade e à Festa. Falam do milagre de Sant’Ana; da hospitalidade do sertanejo; da alegria e grandiosidade do evento. Algumas trazem votos de alegria e felicidade, paz e prosperidade à Caicó, sua padroeira e sua Festa. No jubileu da Festa de Sant’Ana em 1998, a Folha de Sant’Ana trazia:

O TRIUNFO DA FÉ Assim como o poço de Sant’Ana jamais secou, também a fé do povo de Caicó nunca esmoreceu. Agora, o Seridó comemora os 250 anos da Festa de Nossa Senhora Sant’Ana com o respeito e a admiração da cidade do Natal. Prefeitura do Natal. (Folha de Sant’Ana, ano 2, n. 2, p. 14).

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Segundo informações colhidas, o último ano em que isso ocorreu foi em 1995.

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Além de um exemplo geral de votos de outras cidades e comunidades, é interessante perceber que esta nota significa também a exaltação dada pela capital do Rio Grande do Norte a uma das mais importantes cidades do interior. Importante também perceber que a colônia de caicoenses em Natal é a maior concentração de caicoenses fora de Caicó. Mais interessante ainda é notar que a Prefeita de Natal, que, estando ou não no poder, não deixa de render homenagens à sua cidade de infância e à Festa de sua Padroeira. Assim como a Prefeita de Natal, políticos, empresários e personalidades preenchem a maior parte dessas publicações – às quais são sólidos contribuintes – com notas e fatos relacionados a estes. Também é possível ler artigos de membros influentes da Arquidiocese de Natal, como é o caso do Monsenhor Lucas Batista Neto. Com o título “um devoto de Sant’Ana”, lemos:

Foi assim que aprendi a amar a Festa de Sant’Ana. Há 55 anos atrás, nos ombros de papai, fui à passeata, abertura da Festa. Era o segundo filho do casal Julieta e doca. Ali bem na esquina da Celso Dantas com a Olegário Vale. Cresci e sempre fui fiel à novena. No começo por causa do parque de diversão: juju, cavalinho e roda gigante. Depois, coroinha de Monsenhor Walfredo, Padre Galvão, Padre Ônio e e Padre Antenor, aos pés de Sant’Ana, admirando a beleza da imagem que, sentada, ensinava como mãe e mestra de todos os meninos e meninas do Seridó. Neste tempo Caicó toda estudava e rezava. Passaram-se os tempos. Hoje volto como caicoense ausente, evangelizando em Natal, mas sem nunca perder o que aprendi em Caicó, quando era acalentado por mamãe, que cantava, embalando a minha rede: “Salve ó Sant’Ana gloriosa, nosso amparo e nossa luz, salve Sant’Ana ditosa, terno afeto de Jesus” (FOLHA DE SANT’ANA, ano 2, n. 3, p. 02).

Vemos que sua infância, seu contato com Sant’Ana e sua partida são compartilhadas com o leitor. São extremamente significativas, pois espelham tantas experiências semelhantes de aculturação em torno da família, da Igreja, “aos pés de Sant’Ana”, para depois se seguir à partida da terra. Assim como sua partida, também sua volta é cheia de melancolia e saudade do “caicoense ausente”. Significativa também é

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sua visão da Festa, visão de clérigo e de caicoense que aprendeu a vê-la com outros olhos:

Hoje, às portas do 3o milênio, de toda parte vem gente para integrar esta grande família do povo de Deus, que tem como padroeira a vovó de Jesus Cristo. É um momento forte para resgatar os laços culturais, familiares e fortalecer os sentimentos religiosos da região do Seridó. Convocamos todos para preservar esta Festa como um tempo de reencontro das famílias seridoenses. E também uma oportunidade para a nova evangelização. Os Bispos da América dizem que as “festas religiosas são expressões ou manifestações da fé popular. A religiosidade do povo em seu núcleo, é um arcevo de valores que responde com sabedoria cristã às grandes incógnitas da existência... proporcionam as razões para a alegria e o humor, mesmo em meio de uma vida muito dura”. Assim entendo que mesmo com a seca no Seridó e a falta d’água em Caicó, a Festa de Sant’Ana é um acontecimento grandioso. Aproveitemos para estreitar os laços de convivência familiar e exercer a fraternidade na acolhida aos visitantes e fazer da piedade popular: novena, beija de Sant‘Ana e procissão uma ocasião para a evangelização que deseja a Igreja (FOLHA DE SANT’ANA, ano 2, n. 3, p. 02).

Informações gerais sobre a cidade, a Diocese e outras atividades também estão presentes nestes periódicos. Propagandas de várias empresas relacionam suas atividades com a Festa de Sant’Ana. Algumas revistas trazem também propagandas oficiais e oficiosas de municípios da região do Seridó. Várias páginas são ocupadas por “colunas sociais”, com um turbilhão de fotografias de “seridoenses ilustres”. As mensagens de políticos para os Caicoenses nestas revistas e jornais também são parte integrante. Inclusive políticos do vizinho estado da Paraíba, onde Caicó tem uma grande relação, principalmente com Campina Grande, uma das “portas do sertão”52. A Prefeitura de Caicó mantém um boletim informativo avulso, distribuído gratuitamente durante a Festa de Sant’Ana, onde mostra obras realizadas pela administração e mensagens do prefeito e seus correligionários. Em geral, as notícias referentes diretamente à Festa de Sant’Ana são de otimismo e exaltação da cidade e de sua padroeira. Assuntos como segurança, organização, 52

Assim como Campina Grande na Paraíba, Caruaru e Petrolina em Pernambuco, Crato no Ceará e Juazeiro e Feira de Sant’Ana na Bahia, Caicó aparece como uma das denominadas vulgarmente “portas do sertão”. Isto decorre primeiramente de sua importância como distribuidoras de carne no sertão nordestino. Depois, com o fim do ciclo do gado, restou-lhes a proeminência cultural para as representações dos sertanejos.

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programação e expectativa da população são também discutidos. Sobre este último ponto, uma enquête realizada mostra que mais de 60% da população está otimista em relação à Festa. Mesmo assim, os mesmos 60% acham que a atual crise econômica atrapalhará a Festa. Sobre a participação na Festa, cerca de 68% dizem que sairão menos durante a Festa do que saíram em épocas anteriores53. Interessante é o comentário do Jornal sobre estes últimos dados:

Um fato curioso que poderia ser ressaltado é a tradicional previsão pessimista que é feita antes da Festa. Como nossa economia sempre caminhou em altos e baixos, tornou-se comum achar que o evento seria prejudicado pelo “liseu”. Porém, sempre que a Festa termina, percebe-se o engano (JORNAL DE CAICÓ, ano 1, n. 26, p. 12).

O que talvez o jornalista não saiba é que uma das grandes características da festa em geral é tornar-se o âmago e evento aglutinador do social. Assim, “lisos” ou não, a participação popular é ensejada pelo próprio “espírito da Festa”, ou seja, pela sua capacidade de agrupar todas as esferas do social, de colocá-las em movimento e de fazer a sociedade renascer. Daí que, sem dinheiro ou não, a Festa sempre terá ampla participação. Comentários acerca da Festa são variados. Alguns bem jocosos: “foi louvável o esforço do deputado Vidalvo Costa e do governador Garibaldi Filho em querer acompanharem [sic] os hinos religiosos da novena da última sexta feira. Parecia filme dublado”.54 Tanto para um quanto para o outro importa é o ser visto na Festa. Como já dissemos, a Festa é o grande palco social onde todas as esferas estão presentes. Para os políticos, é importante participar, mesmo que maquinem os hinos litúrgicos. Também há espaço para a crítica. É o caso da crítica feita a um folder distribuído pela prefeitura de Caicó durante a Festa. Neste, aparece a fotografia de uma queijeira que mostra amadorismo e uma sensação de falta de higiene no preparo do produto. O jornal comenta que: 53 54

JORNAL DE CAICÓ, ano 1, n. 26, p. 12. JORNAL DE CAICÓ, ano 1, n. 27, p. 03

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Como terá reagido o turista que leu o folder da Festa de Sant’Ana que a prefeitura distribuiu nas ruas? Numa foto de uma queijeira, dá pra notar o amadorismo de quem faz o queijo e de quem fez o panfleto (JORNAL DE CAICÓ, ano 1, n. 27, p. 03).

Ainda sobre o referido folder, além de alguns erros de ortografia, este peca pela não uniformização da tipografia. No mais, é um bom exemplo de como certos símbolos identitários são trabalhados para divulgar a cidade e a região. Nestes temos imagens e informações sobre a Festa de Sant’Ana, da Catedral, dos Negros do Rosário, das bordadeiras, artesãos, das festas, vaquejadas, do Itans, do BEC (Batalhão de Engenharia de Construção), do Atlético Clube Corinthians de Caicó, a Feira Livre, o Castelo de Engady e do Museu do Seridó. Além do caso do folder, há espaço para crítica mais ampla nesses periódicos. No tocante à organização e divulgação da Festa de Sant’Ana, a crítica incide sob o amadorismo quanto à divulgação da Festa, da acomodação dos visitantes e da segurança pública. A publicação oficial mais importante é o Livro do Peregrino. O Livro do Peregrino de Sant’Ana de Caicó é editado pela paróquia de Sant’Ana e é pago pelas contribuições da colônia de caicoenses em Natal. Assim como o livreto do Programa da Festa de Sant’Ana de Caicó é custeado pelos “filhos e amigos de Caicó, devotos de Sant’Ana, residentes em Brasília, DF”. O Livro do Peregrino é dividido em três partes. A primeira traz poesias, artigos variados e curiosidades sobre a Diocese de Caicó. A segunda parte traz artigos ligados à Igreja católica, de caráter mais doutrinário e teológico. A última parte traz a programação da Festa, juntamente com um roteiro da novena, ofício de Sant’Ana e São Joaquim e hinos religiosos da Festa. O Livro é vendido durante a Festa e ele serve de guia para os “peregrinos de Sant’Ana” que vêm para a Festa. Interessante é que muitas pessoas compram o Livro como lembrança da Festa para levar para casa. Em sua terceira edição, o Livro é uma amostra do tamanho e da 107


organização da Festa ao nível de Rio Grande do Norte, pois é o único do tipo no estado. Membros de outras religiões acompanham a Festa de Sant’Ana. Alguns chegam a participar ativamente. Como é o caso de Arlete Silva Andrade, artesã, Presbiteriana. Para ela,

Eu vejo a Festa de Sant’Ana, um momento de reflexão. Nós sabemos que são poucas aquelas pessoas que vão à Igreja, são poucos mas realmente tem. É mais a parte de Festa. Eu sou até... pra falar. Mas eu quero dizer que o importante, para o momento religioso, é um momento de confraternização e um encontro com Deus. Acima de tudo nesta vida nós temos que ter uma experiência, um encontro com Deus verdadeiramente, para que a gente possa ter sempre Deus, Jesus na nossa vida, e a gente superar e abrir a mente e os caminhos para aquilo que é correto. Então a Festa de Sant’Ana é bom [sic] mas...

O mas encerra sua opinião. Significativo é perceber que para uma protestante, é estranho a noção de fé exteriorizada praticada pelos católicos. Sua vida é marcada pelo seu encontro com Deus e isto a define. Sua recusa em falar abertamente só demonstra a força que o catolicismo tem em Caicó, principalmente na Festa de Sant’Ana. Mesmo assim, é uma das ativas participantes da Festa, especialmente da FAMUSE, onde ajuda a organizar. Outro exemplo é o de Marta Vale, moradora de Natal e também presbiteriana. Todos os anos, apesar de não ser católica, ela ajuda na construção da Festa junto à colônia de caicoenses em Natal, onde reside. Participa na igreja e é uma das mais empolgadas colaboradoras. O Pastor Salviano Germano de Oliveira da Igreja Universal do Reino de Deus em Caicó, baseia sua fala em sua interpretação da “palavra de Deus”. Assim,

Se eu for me basear pela palavra de Deus eu vejo que a Festa de Sant’Ana vai contradizer a palavra de Deus, porque Deus fala que não há outro Deus além do deus verdadeiro, do Deus vivo. Então se eu olhar pra uma santa e começar a fazer festas em prol daquela santa eu vou estar em geral idolatrando. O que é que acontece, pra eu não querer criticar ninguém, e nem querer falar mal de religião de ninguém, pra mim a Festa 108


de Sant’Ana, baseado na palavra de Deus, é totalmente errada (SALVIANO GERMANO DE OLIVEIRA, Pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, Caicó).

Sua crítica é cuidadosa e o pastor tem bastante cuidado ao falar desse assunto, como afinal todos os não católicos da cidade. Suas opiniões se centram naquilo que a Festa traz: prosperidade e dinheiro para a cidade. Mas suas críticas são também uniformes. Para eles, o “sentido da Festa”, isto é, a devoção à Sant’Ana, se desvanece frente ao lado profano. Deste modo,

A Festa de Sant’Ana atrai muita gente. Então a gente vê que as pessoas passam a gastar mais, a consumir mais, passam a ter uma outra visão... tem pessoas que vêm mais pelo divertimento, como a gente vê na cidade é a época que a cidade mais se enfeita. Época que mais o atual prefeito trabalha. É pra deixar tudo mais organizado, tudo mais bonito, que pra que as pessoas que vêm de fora vejam a cidade como uma atração turística. Terminam esquecendo o sentido real da Festa, que é a tradição da Igreja. No meu ver as pessoas vêm para cá no sentido de gastar mais, e se divertir... e finda esquecendo a tradição. Finda esquecendo qual o principal motivo de que ela veio (SALVIANO GERMANO DE OLIVEIRA, Pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, Caicó ).

A posição dos protestantes em Caicó, seja na ala mais tradicional seja em sua ala pentecostal, sempre se coloca em dois pontos: o de evitar a crítica aberta à Igreja e à Paróquia; e de voltar sua crítica principalmente para o comportamento das pessoas que preocupam-se mais com a exterioridade dos ritos, com a parte profana da Festa, do que propriamente a devoção “a Deus”. Sant’Ana, em si, jamais é referida como ponto de devoção, pois, afinal, nenhuma dessas religiões admite a intercessão e o culto aos santos. Assim, aqui se transparece mais a disputa pelo mercado de bens de salvação, onde os argumentos da minoria – dos protestantes – voltam-se para mostrar a pureza evangélica e àquilo. Sobre isso, o Bispo D. Jaime Vieira Rocha comenta que

Nós, a Igreja de Jesus Cristo, a igreja é Cristocêntrica, o centro de tudo é Jesus Cristo que veio ao mundo se encarnou, e dentro do mistério da Trindade, fundou a Igreja Católica, Pedro: tu és pedra e sobre esta pedra fincarei minha igreja. (...) A nossa fé, se tivermos um nível de instrução e de fé mais profundo ela é, deve ser cristológica. Os 109


santos são santos porque viveram o ideal do evangelho de Jesus Cristo, se configuraram a Cristo. Sant’Ana é a avó de Cristo, é a mãe de Nosso Senhor. Então é por isso que eu digo para o caicoense, para todos que fazem essa região, Sant’Ana cataliza os valores da família, os valores da família patriarcal, tradicional, do sertão, então Sant’Ana é a grande matriarca que reúne os filhos, que tem iniciativa. (...) Então Sant’Ana representa um sentimento religioso, um sentimento familiar, a organização familiar da região. Sant’Ana é a grande padroeira como se disse tanto, dos sertões. E aí, eu posso dizer, que a fé do povo seridoense está muito ligada à Sant’Ana. É uma fé católica, cristã, mas voltada para Sant’Ana. É preciso termos cuidado, para não darmos margem aos outros irmãos cristãos, das outras igrejas, dizer que nós estamos fazendo idolatria. Não é por acaso que colocaram uma placa luminosa na cidade: o rei desta cidade é Jesus. E pelo fato de Jesus ser o rei a rainha é Nossa Senhora, que tem como mãe, Sant’Ana. Sant’Ana está para o povo de Deus como Jesus está para Maria que é a sua mãe. Ai então é como a gente vai passar a entender isso, essa religiosidade, o amor, quer dizer, o sentimento religioso das pessoas se cataliza, se desenvolve, se confirma, na devoção à Sant’Ana.

Deste modo, com a hegemonia imposta pela Igreja Católica dentro do Seridó, no que se refere ao mercado de bens de salvação, é interessante perceber o cuidado com que o Bispo se refere à devoção a Sant’Ana. D. Jaime toma Sant’Ana, assim como também nós, como símbolo aglutinador de valores. Estes que expressam ethos e visão de mundo característicos desta região, desde o início de sua formação a trezentos anos. A fé do povo volta-se para Sant’Ana, mas a preocupação magisterial do Bispo é sempre tangenciada para pensar numa fé cristológica, voltada para o neto de Sant’Ana. 3.3. A Feirinha de Sant’Ana A Feirinha de Sant’Ana é, talvez, o principal acontecimento profano da Festa de Sant’Ana de Caicó. Isto porque além de ser o mais concorrido e esperado evento, é o que mais agrega visitantes e caicoenses. Sua organização, no que tange o espaço do largo da Catedral, isto é, suas imediações (Praça Monsenhor Walfredo Gurgel até a Avenida Seridó e lados direito e esquerdo da Catedral), fica por conta da paróquia. É estritamente proibido vender e comercializar qualquer coisa em suas imediações sem autorização da mesma. Vigilantes 110


ficam em pontos estratégicos impedindo que ambulantes mais espertos ou desavisados descumpram a ordem. As barracas existentes são postas de frente à Catedral, abaixo e ao lado do Arco do Triunfo, dentro da Praça Mons. Walfredo Gurgel. As centenas de mesas e cadeiras são postas logo abaixo das tamarineiras e algarobeiras protegendo as pessoas do sol. Lonas são postas nos locais onde não há proteção das árvores. Isto ocorre, porém, em todo o circuito de ruas, praças e avenidas que se seguem após o largo da Catedral. A Feirinha começa após as dez horas da manhã. O sol já se mostra bem disposto, mas ainda não atingiu seu zênite de calor. As pessoas vêm chegando e ocupando pouco a pouco seus espaços. No largo da Catedral irão ficar as famílias mais tradicionais de Caicó, assim como visitantes mais abastados e seus parentes. Essa distribuição espacial não é uma imposição implícita. Simplesmente, as mesas, colocadas sob as árvores de um lado a outro da praça, são ocupadas por esses grupos sociais. O hábito de estar naqueles locais sempre, em Festas passadas, implica que, esses grupos e não outros irão ocupálos. Políticos obrigatoriamente circularão por aqui. Muitos, como o governador do estado e senadores da república, ficarão em uma das mesas protegidas pelas árvores, sob os olhos dos passantes e da imprensa. Nos arredores da Catedral todas as barracas pagam tributo diretamente à Sant’Ana, ou seja, à Igreja. O pároco, Mons. Antenor Salvino de Araújo, recomenda que os fiéis “permaneçam” nos limites da feirinha, ou seja, nas barracas que pagam à Igreja. O problema é que a massa de pessoas não cabe dentro do espaço delimitado pela vontade clerical. No restante da Feirinha – que para o pároco da Catedral só “vale para o arredor da Catedral de Sant’Ana” – as pessoas ocupam uma das centenas de mesas, protegidas pelas lonas. Aqui vão ficar o povo propriamente dito, sem conotações genealógicas, nem fazendeiros ancestrais conhecidos. Apesar de não haver uma divisão física entre esses dois grandes grupos, eles não se misturam, a não ser quando circulam de um lado a outro. Não há intensa sociabilidade entre eles, pois esta acontece ao nível da comensabilidade, isto é, nas mesas. E cada 111


grupo permanece em seu respectivo espaço, e em sua mesa. Os encontros ocasionais, como dissemos, ocorrem na circulação dos grupos para outras partes do espaço da Feirinha. Os jovens em geral tomam os caminhos de um lado a outro, seja em busca de algo para comer ou beber, seja em busca de alguma paquera. O povo mesmo tomará o maior espaço da Feirinha. É o que seguirá pela Avenida Seridó afora (sentido rio Barra Nova), tomando as praças adjacentes, até a Praça da Prefeitura, o largo da Igreja do Rosário. Uma multidão imensa que come, bebe, conversa, dança, enfim, se sociabilizam uns com os outros, no reencontro dos amigos que há muito não se via. Mesmo com a divisão acima relatada, ao comerem e beberem juntos, os caicoenses reafirmam seus laços de pertença, de identidade. Como nos informa Pinto (1999) “a cozinha pode ser pensada como um veículo que permite ao indivíduo, através da aceitação de determinadas práticas, estabelecer uma relação de pertencimento a um determinado grupo” (p. 51). Muitos, principalmente aqueles que vieram de longe para a festa, revigoram seus laços ao identificarem-se com as comidas locais, simbolizadoras da identidade regional. Outro ponto importante é que as comidas vendidas e consumidas na feirinha, principalmente as consideradas regionais, são reflexo das condições de produção agrícola e dos hábitos culinários locais. Mesmo na forma de consumir, denotam estilos de vida e visões de mundo regionalista. Cascudo (1967) nos mostra que nosso menu está sujeito a barreiras intransponíveis, construídas pelo costume de milênios. O que chamamos de padrão alimentar nada mais é do que “uma rede comunicante de padrões alimentares equivalentes” (p.13). O prestígio que envolve nossos velhos pratos independem de qualquer utilidade nutritiva. Comemo-los simplesmente pela tradição. Concordando com esta afirmativa, Silva (1999) nos informa que,

Os hábitos alimentares resistem à mudança, mesmo que profunda, do ambiente social. Os emigrantes, por exemplo, embora abandonem algumas das tradições de seu país de origem, permanecem fiéis às tradições culinárias. Há uma ligação simbólica entre essas 112


tradições alimentares e a mãe-pátria. Conscientes ou não – mais freqüentemente, inconscientes – ao ingerir o alimento os indivíduos agem para reafirmar o critério de identidade. Os alimentos contendo um valor simbólico são oferecidos aos compatriotas e com isso há uma continuidade nessa relação, uma forma de comunhão (p. 41).

Para Cascudo (1967) “de todos os atos naturais, o alimentar-se foi o único que o homem cercou de cerimonial e transformou lentamente em expressão de sociabilidade” (p.28). De seu significado revitalizador, construiu-se sobre ela uma função simbólica de fraternidade, de convivência e de sociabilidade. É o antiquíssimo princípio da comensalidade, onde o banquete oficial e cerimonioso é sempre à noite. De dia, informal, mais festivo. “Comer certos pratos é ligar-se ao local do produto” (Cascudo, 1967, p.34). Assim como repartir o pão é sinônimo de solidariedade: companheiro vindo do latim cum panis, comer do mesmo pão, juntos55. Como mostrou Pinto (1999),

A família é o primeiro grupo com o qual os seres humanos partilham suas refeições. Esses momentos, ao longo de suas vidas, serão reproduzidos também com amigos, parentes ou colegas, porém nunca com inimigos (p. 67).

No mesmo ínterim, Pinto (1999) nos mostra que as refeições realizadas em comum

Reforçam o grupo e contribuem para sua coesão. Compartilhar uma refeição significa também partilhar sensações e por isso as celebrações rituais são acompanhadas por banquetes, para reforçar laços antigos e criarem-se novos (p. 68-69).

Na Feirinha come-se sentado, em uma das centenas de mesas e cadeiras de ferro, plástico ou de pé. Enquanto se degusta alguma bebida, come-se à toda hora e a todo lugar. Sant’Ana merece degustação vultuosa. A festa de igreja no Brasil, como nos 55

Como mostrou Pinto (1999), “A família é o primeiro grupo com o qual os seres humanos partilham suas refeições. Esses momentos, ao longo de suas vidas, serão reproduzidos também com amigos, parentes ou colegas, porém nunca com inimigos” (p. 67). Talvez por isso não se vê na Feirinha de Sant’Ana, políticos opositores sentarem-se juntos à mesa.

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lembrou Freire (2000) “é o que pode de haver de menos nazareno no sentido detestado por Nietzsche. No sentido sorumbático e triste” (p. 289). Beber e comer não apenas pelo santo, mas participar com ele, da comensalidade do sagrado na festa profana. Com alegria e abundância. Procura-se uma das dezenas de barracas e escolhe-se o que quer comer. O ritual é simples e modernizante, lembrando o de uma praça de alimentação de um shopping. Compra-se uma ficha em um local e depois se segue a outro para requerer o alimento pago. A maioria dos grupos permanecem próximos às suas mesas, alguns formando imensos corredores de mesas e cadeiras. Conversas, encontros e reencontros, onde novos e velhos amigos se confraternizam comendo e bebendo, em devoção à Sant’Ana . A alimentação na Feirinha é feita por barracas que vendem todos os tipos de comidas típicas e bebidas. Mesmo assim, é patente a influência modernizante das comidas exógenas e industrializadas. Já na década de 1930, Cascudo (1975) percebia o que chamava de a decadência da cozinha sertaneja. Isso se deve

Menos por sua própria essência do que pelo indesculpável acanhamento em mostrar-se. O primeiro cuidado de um fazendeiro de Minas Gerais ou São Paulo é provar que come bem e o que come é gostoso. O nosso sertanejo disfarça, esconde, mistifica sua culinária quando tem visitas. Crê ficar desonrado servindo coalhada com carne de sol, costelas de carneiro com pirão de leite, paçoca com bananas, milho e cozido, feijão verde, o mungunzá que o africano ensinou e a carne moquecada que ele aprendeu com o indígena (p. 26-27).

No sertão do Rio Grande do Norte, diz Cascudo (1975), a tendência é imitar o litoral no alimento. Tendência hoje, totalmente interiorizada, graças aos modernos sistemas de abastecimento e à massificação de padrões alimentares, efeitos da industrialização e da mídia. Mas, apesar disso, as comidas regionais sobrevivem e se adaptam às novas condições alimentares. Se no dia-a-dia veem-se nos lares sertanejos alimentos antes nunca vistos como pão de trigo, macarrão, saladas, maioneses, etc., são ainda valorizadas e incentivadas as comidas locais e identitárias. Daí porque, de lado a 114


lado com as comidas exógenas, a comida sertaneja é valorizada e consumida, principalmente em dias de festa, onde são reforçados laços de sociabilidade e identidade. No entorno da Catedral, cada entidade, família ou empresa fica responsável por uma barraca específica: uma cooperativa de médicos; bancos; empresas estatais; grupos de jovens da Igreja; a Universidade; Irmandades Religiosas; Lions Clube; Renovação Carismática; etc. Na Feirinha de Sant’Ana é fácil ver feijão verde, farofa d’água, macaxeira, carnede-sol, carne de carneiro e de bode torrado, galinha à cabidela, panelada, buchada, feijoada com carne seca, paçoca, arroz de leite, etc. Tudo isso regado a uma cervejinha gelada ou a goles de cachaça. A base de preparo de todas essas comidas está inscrita na história dessa região e faz parte das representações acerca do viver sertanejo e sua identidade. Assim, aqui e ali, barracas vendem comida à base de mandioca. Do indígena, nos relata Cascudo (1967), herdamos a farinha de mandioca. Comida que sacia sem a qual a refeição está incompleta. Para o sertanejo, nas longas viagens, bastava farinha e água. A carne era dada pela natureza. Deste modo, a “farinha é a camada primitiva, o basalto fundamental na alimentação brasileira. Todos os elementos são posteriores, assentados na imobilidade do uso multicentenário, irredutível, primário, instintivo” (CASCUDO, 1967, p.96). Gilberto Freire (2000) enfatiza que foi completa a vitória do complexo indígena da mandioca sobre o trigo, tornando-se a base do regime alimentar do colonizador. No nordeste boa é a farinha seca, outrora chamada de guerra. Assim,

Variado era o uso da mandioca na culinária indígena; e muitos dos produtos preparados outrora pelas mãos avermelhadas da cunhã, preparam-nos hoje as mãos brancas, pardas, pretas e morenas da brasileira de todas as origens e de todos os sangues (p. 191).

Da farinha temos o pirão. “Pirão é o pitéu, mulher bonita e desejada” (CASCUDO, 1967, p.108). Feito do caldo de peixe ou carne com farinha seca é 115


substancial e “pesado”. Sertanejo que não come pirão não está mais vivo. Comido com arroz (herança africana) e carne de gado, de criação ou peixe é prato principal ou “tiragosto” providencial. Acompanha a tradicional cachaça de cabeça. Em canto algum há de faltar farinha. “É como farinha em feira”, tem em todo lugar. Com a Mandioca faz-se a goma. Dela extraem-se muitos pratos. O mais típico – descendência das cunhãs – é a tapioca. Na Feirinha de Sant’Ana pouco a vemos, já digerida no café da manhã ou ainda sendo preparada para o jantar. No sertão a tradicional não vem com coco, mas com manteiga e queijo. É primeiro peneirada, secada e assada no tacho quente. Ainda fumegante é passada a manteiga e introduzido o queijo de mesma origem. Comida com coco – introduções mais recentes advindas do litoral – fica molhada e flexível. Sem ele, se não comida logo fica dura e imprópria ao paladar exigente. A macaxeira (um tipo de mandioca) é outra iguaria. Cozida na água e sal ou frita fartamente regada com manteiga de garrafa – predileção sertaneja, líquida, guardada em garrafas. Aqui e ali a vemos como tira-gosto, acompanhada de carne de sol ou linguiça da terra. Outro tubérculo é a batata doce, cozida ou assada. Boa com feijão de corda. Considerada mais substancial, é comida como PF (Prato Feito), mais popular e barato. Temperos sertanejos tradicionais são a pimenta-do-reino, o alho, o sal e o açúcar. Todos exclusivas heranças europeias. Comida sem tempero é comida indigesta. Faltar sal ou açúcar é pecado grave na culinária. Caldo bom é o apimentado. Quitute bom é o doce. O feijão é fundamental na alimentação sertaneja, assim como em todo o Brasil. Na Feirinha o vemos de todos os tipos, mas o mais procurado é o feijão verde e o preto, feito feijoada. Informa-nos Oswaldo Lamartine que “o feijão de arranca, mais cultivado em vazantes é, de comum, colhido ainda verde, nos meses de S. João ou Sant’Ana como reforço da panela empobrecida pelos meses de seca. Tão cedo o fazem, vale como designativo de fartura: ‘Fulano já está comendo verde...’” (1980, p. 77).

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Talvez a mais forte das heranças culinárias transmitidas pelos africanos que iam trabalhar no sertão, primeiramente como escravos de gadaria, tornando-se depois vaqueiros e cantadores tão proeminentes, depois como escravos de eito, sendo gastos nas lavouras de algodão. “Dizia-se pelos sertões o não ter um pé de feijão como símbolo da imprevidência descuidada e preguiçosa” (CASCUDO, 1968, p. 102). Mas a escolha, no sertão, é pelo feijão verde, cozido com bastante água e coentro e o feijão macassa, de corda, ou o branco. Sempre com farinha ou farofa de manteiga. O branco (ou o de corda) com arroz faz-se o baião de dois, acrescentando-se carne seca. Esta, aliás, está em todos eles. Saboroso, quando comido com queijo de manteiga, as cascas mais espessas, que amolecem (dentro da panela), além da carne fresca e de sol. O macassa com batata-doce e arroz é, às vezes, o único alimento de milhares de sertanejos. É a refeição, o sustento, a força promotora da energia humana. É fácil ver aqui e ali, em uma das barracas alguém que ainda cultiva o antiquíssimo hábito de amassar o feijão “fazendo-o pasta, dando trabalho ao garfo” (CASCUDO, 1968, p. 105). Muitos pratos acompanham galinha caipira. Esta, trazida pelo colonizador, logo tomou conta do interior do Brasil. Com seus ovos, surgem as fritadas, omeletes, doces maravilhosos (CASCUDO, 1967, p.279). Dela extraem-se o caldo de galinha, canja com arroz, para os adoentados, misticismo herdados dos escravos que a utilizavam para o sacrifício às suas divindades, daí seu poder profilático. Galinha é comida de pobre, que não tem dinheiro para comprar carne (CASCUDO, 1968, p. 280). Dia sagrado para comê-la é dia de Domingo, onde a noitinha toma-se uma canja quente reparadora para o enfrentamento da semana que se inicia. Boa para todas as pessoas e todas as idades é como um bom conselho: “conselho e canja de galinha não faz mal a ninguém”. Torrada, ou seja, assada totalmente, fazendo-se evaporar as substâncias líquidas, ou refogando-os com farinha e feijão de corda, verde ou branco, comendo-se amassando o feijão e a farinha com as mãos. Depois se toma o caldo, para degustar melhor a iguaria. Melhor do que isso, para muitos, é a “galinha à cabidela” que em outras paragens chamam de ao molho pardo. Feita do sangue da galinha talhado ao vinagre, retirado enquanto ainda 117


estava quente, ou seja, com a penosa ainda viva. Pedaços rejeitados pela estética são os mais apetitosos: sobrecu, moela, fígado, coração, pratos de tira gosto que acompanham uma cerveja gelada ou um gole de cachaça. As hortaliças e verduras são raras e quase não a vemos. Quando muito, tomates, cebolas e alfaces, e muito pouco. Aparecimento da modernidade e, em geral, presença no paladar e nas mesas dos grupos mais abastados. Tanto os descendentes indígenas quanto os negros não as tinham em grande conta (Cf. FREIRE, 2000, p. 195). Como mostrou Silva (1999, p. 94), o cardápio sertanejo sempre foi pobre de verdura que se resumia no tomate miúdo, coentro, cebola e bredo manjangome. Não há muito costume de servir-se de vegetais crus. Mesmo as hortaliças são cozidas e raramente cruas nas saladas, muito embora o coentro, enfeitador de farofa, do pirão e do arroz, sempre posta ao natural. Bom para o sertanejo é carne, tubérculos, frutas. As primeiras especialmente se forem de caça ou pesca: preás, antas, porcos-do-mato, nambus, pacas, aves silvestres (arribaçãs, rolinhas), tatus, peixes de rio, principalmente nos invernos e sem o conhecimento dos fiscais do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente). Muito procuradas são as carnes de criação, que são tidas com apreço no sertão. Assado ou guisado. Dele faz-se a memorável buchada de carneiro, pedaços do estômago do animal e de sangue talhado. Sustança garantida. O mesmo do bode, “recurso de todo o ano”. Sua continuidade no sertão foi tanta que passou a ser sinônimo de provisão de viagem e caça (CASCUDO, 1968, p. 215). De carne mais dura, demora mais para coser. Guisado ou assado é tido em boa conta. Bode assado e farofa, costelas de bode com farinha, ensopado de bode com arroz. “Duro como pai de chiqueiro”, referência a bode velho, intratável. Encontra-se também muita carne de porco. Indiferente às inferências muçulmanas e judaicas, o sertanejo é apreciador do porco, principalmente dos chouriços. A tradição do chouriço permanece no Seridó. Massa negra, doce e picante, comida pura ou acompanhada com farinha ou arroz. Demoram-se horas em seu preparo, que, de tão

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ritualizado, exige-se pelo menos dois dias. Com a carne do porco – de longe a mais apreciada – assada é certeza de alegria no paladar. A mais conhecida, vista e apreciada é a carne de sol, retirada do boi. Aqui leva a marca indelével, “é carne de sol de Caicó”, sinal de carne boa. Seu preparo típico é assado, comida quente com farofa, coentro verde e cebola, ou com farofa d’água, pirão de leite e feijão verde ou macaxeira. Bom do boi é a tradicional “carne-verde” do dia-adia. Faz-se também da carne de sol a paçoca. Torrada, pilada com farinha de mandioca e alguma cebola, sendo que alguns acrescentam a castanha de caju e/ou amendoim torrado. Boa é com bananas. Tradicional também é a panelada, pesada como chumbo. Imprópria para os estômagos sensíveis. Reúnem carne, jerimum, maxixe, quiabo, toucinho fresco e um pedaço de queijo de coalho, levados ao fogo. Exige tempo para ser preparada. Carnes sangrentas não são repasto bem vindo. Nenhum sertanejo, diz Cascudo (1968, p. 26), comia carne sangrenta, bife mal passado. Carne boa é assada ou bem cosida. Por aqui se encontram carnes assim. Os churrasquinhos são bem passados em geral e, salvo a exigência de um ou outro visitante, a maioria é deste modo, bem passada. Uma barraca de uma cooperativa de leite local expõe seu produto. É o “Leite de Caicó”. Além dele, coloca também amostras de uma novidade: queijo de cabra temperado. Com seu gosto peculiar acompanhado do tempero, este queijo tem um sabor forte que agrada aos paladares mais exigentes. Interessante é a valorização de um animal tipicamente identificado com o sertão e com sua alimentação, mas que ainda não tinha tido seu leite aproveitado para tal em escala comercial. A marca “Caicó” é identificada não apenas com a qualidade do leite, mas com a “sertanidade” do queijo. Os doces são apepiques renomados na Feirinha. De banana, mamão, de goiaba. Tradicional é o “filhós”. Feito de farinha de trigo e manteiga é frito no óleo e comido com mel de rapadura. Cascudo nos remete sua origem ao seu preparo: como filhos amados. Imperavam os “bolinhos amassados com leite e gemas de ovos e as mil 119


invenções de feilhós, filhoses, sonhos, coscorões” (1968, p. 260). Bolos de todos os tipos povoam a feirinha, seguidos de suspiros, raivas, beijos e cocadas. Alfenins, brancos e doces alegram as crianças com suas formas divertidas. Eles variam por conta das safras de frutas cultivadas ou nativas. Destas, a mais típica e saborosa, o umbu, de onde se faz a umbuzada, bebida forte, pastosa e doce. Lado a lado com as barracas de comidas típicas, concorrem com o paladar festivo as barracas e carrinhos que vendem cachorros quentes, aqui, como já mostrado anteriormente, elas são isentas de taxas. Invenção tipicamente moderna encerram em si todas as características do capitalismo industrial. Dos pães, todos embalados em sacos plásticos e do mesmo peso e tamanho, às salsichas, milho verde, ervilhas, todos estes enlatados. Aliam-se a estes as batatas palhas e carne bovina moída. Há também as barracas de cachorro quente self-service, onde além de todos os ingredientes anteriores, aliam-se cenoura picada, beterraba cortada em fatias finas, cebola, tomate, e outras tantas verduras e, para completar, molhos diversos como catchup, maionese, mostarda, molho inglês, etc. A forma de preparo, rápida e o preço, acessível a todos, faz com que, para amplos setores dos participantes, seja uma maneira eficaz de matar a fome. Como sem bebida não há festa e festa sem bebida não é festa, o beber aqui estabelece-se como ato supremo da Feirinha. Bebe-se muito e bebe-se de tudo, obedecendo às variâncias de local e de grupos. A cachaça é a mais consumida de todas as bebidas. Destilado da cana-de-açúcar que sobrevive aos séculos a fio. Barata e niveladora, atende aos gostos acostumados com seu sabor forte. Já dizia Cascudo (1986) que “vida de cabra é cachaça, ambivalência da frustração, a fuga à realidade opressiva ao eterno desajustado, hóspede de todas as culturas” (p. 44). Bebida de pobre. Cachaceiro é o pinguço, alcoólatra, pudim de cana. Beber cachaça ou, tomar uma de cana, como é utilizado, é, em geral, para os grupos mais pobres. Cana com caju e sal, costume antigo. Como mostrou Freire (2000), “do indígena, parece ter ficado no brasileiro (...) um gole de cachaça com caju e às vezes um

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pelo sinal para guardar o corpo precedem ordinariamente um banho higiênico. O caju para limpar o sangue” (p. 183). Cascudo novamente nos lembra que,

É a mais comunitária das bebidas. Para o bebedor não é uma subalternidade a escolha da aguardente. A humildade originária sublima-se pela sinonímia sonora, animadora, jubilosa. Sobretudo, no mundo pobre e fusco dos devotos, a Cachaça recebe véu e capela de alvura, candidez, beleza: Moça Branca, a Branca, Branquinha (1999, p. 45).

Não só pelo seu preço, acessível para a imensa maioria, mas pela sua trivialidade de funções, ela aparece em abundância, pura ou misturada a alguma fruta (em geral o limão) ou com algum refrigerante. A cerveja é muito consumida e ao lado da cachaça, torna-se a mais pedida. Bem gelada, para espantar o calor – assim também muitos preferem a cachaça – , ela acompanha as mais variadas comidas e contribui para a celebração da festa. Quem tem pouco dinheiro começa na cachaça ou em outra bebida mais forte, como o rum ou a vodca, e depois “lava com cerveja”. Para os grupos mais abastados, o whisky é a preferencial bebida. Servido, em geral, com gelo, ou mesmo puro, para os mais afoitos, é bebida privativa de quem tem dinheiro e poder. Os de marcas internacionais são os mais consumidos e os comentários sobre eles é que não são do Paraguai, isto é, falsificados. Estes, porém, são consumidos pelos grupos que não têm como adquirir os originais, mas primam pelo poder simbólico de consumir um símbolo de status. Isto faz também com que os grupos dominados social e simbolicamente venham “digerir” os valores dos grupos dominantes ao consumir produtos que imitam os consumidos por aqueles e de menor custo econômico e, de certa maneira, de maior valor simbólico. Quem vem de fora pode provar do Aluá, que tem origem indígena, feita de milho fermentado, misturado com sumo de tangerina, que, de fabricação caseira, assim como os licores, abundam de cheiros e gostos variados das bebidas tradicionais do lugar. Era o refrigerante das festas de antigamente, informa Dona Clélia Bezerra, caicoense 121


moradora de Natal. Seu consumo imoderado pode causar um pouco de indigestão, avisa o vendedor. É possível ver grupos de jovens que participam da feirinha. Sua participação é, quase sempre, exclusivamente, restrita aos eventos profanos, principalmente os shows de forró, nos clubes da cidade. Eles constituem uma parte significativa dos participantes da Festa de Sant’Ana. Fora do largo da Catedral, encontram-se os mais variados tipos de vendedores ambulantes. CD’s piratas, camisetas, rosários, santinhos, copos e canecos de alumínio, chapéus de palha, etc. Em todo o trajeto, além do intenso barulho de música e conversas animadas, misturam-se os gritos desses trabalhadores informais tentando ganhar um trocado a mais. É possível mesmo encontrar até mesmo imigrantes orientais ilegais, vendendo “muamba” contrabandeada e pirateada. Além de coisas para comer e beber a Feirinha oferece outros atrativos. A Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte toca, no fim da manhã, para a multidão no lado esquerdo da Catedral. No seu repertório, músicas do maestro seridoense de Carnaúba dos Dantas, Tonheca Dantas, como a valsa Royal Cinema. No Casarão do Padre Guerra, os Negros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário fazem uma apresentação de suas congadas e danças. O público desse espetáculo é basicamente formado por visitantes que se maravilham ao saber que existe folclore negro numa cidade onde estes pouco aparecem. CD’s e fitas cassetes com a musicalidade do grupo são vendidas no local. Uma exposição do “Magão”, um artista plástico local, lembra que, apesar de minguado e esquecido pelas autoridades, existe cultura popular local56. Cultura popular que aparece na voz de um par de violeiros que se apresentam dentro do casarão. Eles cantam sobre a Festa de Sant’Ana e lembram que:

Você que está ai parado bem na nossa frente 56

Este artista popular é o responsável no carnaval da cidade pelo bloco “Ala Ursa do Poço de Sant’Ana”, que foi criado pensando na revitalização do poço e da história da cidade. O bloco hoje é um dos mais tradicionais do estado.

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Fique ai mais tempo escutando a gente Pois na Festa ainda tem muita coisa pela frente. A saudade fere a alma do coração de quem ama Dificilmente a pessoa não passa por esse drama Mas só cura de verdade é na Festa de Sant’Ana.

Mas, o grande evento que chama a atenção extra-feirinha é a FAMUSE, a Feira de Artes Manuais do Seridó. Em seu XVIII ano de existência, ela congrega artesãos de todo o Seridó, mostrando aquilo que se tornou o maior gerador de renda informal da região: o artesanato. Organizada pela CRACAS (Comitê Regional de Associações de Cooperativas Artesanais do Seridó) e pelo SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio à Pequena Empresa, Caicó) em estandes padronizados na praça da Igreja do Rosário, ao lado da Prefeitura Municipal. Os estandes da FAMUSE variam entre os de bordados, redes, artigos de madeira, santeria, doces, metais, etc. A circulação de pessoas é intensa, todos à procura de levar, ao menos, uma lembrança do artesanato da região. O que mais chama a atenção são os refinados bordados do Seridó. Fabricados principalmente por bordadeiras de Jardim do Seridó, São José do Seridó, São Fernando, Jucurutu, São João do Sabugi, Jardim de Piranhas, Acari, Carnaúba dos Dantas, Serra Negra do Norte, Timbaúba dos Batistas e Caicó, essa tradição, advinda dos portugueses, era feita inicialmente à mão, como qualificação necessária ao casamento. No início, apenas as mulheres das classes dominantes bordavam por ter mais acesso aos instrumentos de trabalho. Com o passar do tempo e o advento da maquina de costura, o ato de bordar passou a ser semi-artesanal. Assim, passado de uma atividade puramente caseira, restrita ao consumo familiar, à atividade de renda familiar, destinado à venda, o ato de bordar se expressa em várias peças trabalhadas: estolas, viras, panos de bandeja, lençóis, toalhas de mesa, blusas, camisolas, etc. O reconhecimento dado ao bordado do Seridó deve-se principalmente à qualidade de seus produtos e a habilidade de suas artesãs. Os desenhos e traços vão

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desde motivos florais, infantis, até aos campestres e heráldicos (bem ao gosto mais aristocrático), levando um leve toque e sensibilidade aos panos e rendas (Batista, 2001). Peças em couro como sandálias e chapéus são também amplamente vendidos. Esboçam o ciclo do couro do sertão do Rio Grande do Norte, onde o Seridó era o centro. Chamam a atenção pela rusticidade do couro trabalhado e da simplicidade de seus desenhos e entalhes. Também quadros de pintura popular são postos à venda. Motivos religiosos e cotidianos são expostos em telas em alguns estandes. Em outros, várias peças de cerâmicas como vasos, moringas, potes e travessas são expostos. Assim também como galos de louça, pequenas carrancas e outras figuras antropomórficas. Aqui, vendem-se também comidas típicas, todas, porém, prontas para viagem. O visitante pode adquirir produtos que denotam identidade regional: rapaduras, doces, licores, filhoses, bolachas, sequilhos, chouriços, etc. A procura por esses produtos, como já dissemos, é mais do que a procura por comer algo que não se come na terra onde se mora. É também o compartilhar, ao comer, da identidade da terra onde esse produto foi feito. Comer algo, usar algo, de Caicó, é também, de certa forma, participar da identidade de caicoense. As redes vendidas destacam-se pelos motivos bordados em suas extremidades, pelas suas amplas varandas feitas em crochê e pelo seu fino acabamento. Algumas, grandes e espaçosas, são feitas exclusivamente para “quatro tornozelos”, ideais para sestas e feitas para o descanso. Produzidas em Caicó ou na região, são amostra do antiquíssimo hábito de dormitar e embalar-se em redes, herdado pelo sertanejo de suas avós indígenas. Numa região onde impera o calor, embalar-se numa rede após o almoço, para uma gostosa vênia, mais do que velho hábito é um justo remédio contra o velho “demônio do meio dia”. A FAMUSE, pela quantidade de pessoas que recebe e pela sua importância econômica para a região, torna-se espaço privilegiado para a presença de políticos. Estes circulam em grupos, acompanhados de um séquito de assessores e jornalistas. Um conhecido senador da república fala sobre o que ele acha ser a grande peculiaridade do 124


comportamento local: o “seridoísmo”, que para ele é o grande conjunto de características que impulsiona a sociedade local. Marcada esta por “determinação, luta e inteligência”, além de um profundo amor pela terra e senso de identidade local. Outro político, desta vez um deputado federal de influência nacional, fala da importância da FAMUSE e do artesanato do Seridó para a economia regional e estadual. Para ele, a Festa de Sant’Ana é uma

Convergência de hábitos, costumes, cultura do povo do Seridó. Ela está inscrita no calendário litúrgico, mas ela deve estar inscrita também no calendário cultural do Rio Grande do Norte. Por que aqui nós observamos, os costumes, as formas de agir, as formas de falar, a arte demonstrada pelo povo desta terra, tudo isso são traços de usos e de costumes que tornam essa Festa uma convergência cultural da maior importância para o nosso estado do Rio Grande do Norte.

A FAMUSE torna-se um evento à parte da Feirinha e da própria Festa de Sant’Ana, na medida em que sua importância, por si só, é significativa. Ela está inserida na rota de Feiras de Artesanato do país. Além de ser um momento de comercialização de produtos e de intercâmbio, é um excelente momento para se divulgar parte da cultura material da região. Por ocorrer um momento que tem um grande afluxo de pessoas na cidade, a FAMUSE torna-se um dos pontos altos da própria Festa. Para Arlete Silva Andrade, Presidente da CRACAS (Comitê Regional de Associações de Cooperativas Artesanais do Seridó), entidade que organiza a FAMUSE, o importante no momento é lutar para a viabilidade da construção de um “selo do Seridó”, para dar autenticidade à qualidade dos produtos e lutar contra a “pirataria” dos bordados, principalmente dos concorrentes do Ceará. O CRACAS tem o objetivo, informa Arlete, de tornar-se um fórum permanente de discussão para se conquistar uma política artesanal para o Seridó. Assim, “o CRACAS vai ser isso, a luta pela comercialização, pela divulgação e também a questão da matéria prima”. A FAMUSE conta também com atrações musicais que animam a Feira. Estas são basicamente cantores locais, violeiros e sanfoneiros, todos da região. 125


A Feira de Artesanato conta, ainda, com uma estrutura administrativa que inclui serviços de banheiros públicos, uma coordenação geral e uma pequena lanchonete. Num dos estandes da FAMUSE o visitante logo encontra uma mercadoria posta em destaque: são os produtos referentes ao Galo do Seridó, campeão estadual de futebol, o Atlético Clube Coríntians de Caicó. No estande, o visitante pode encontrar camisetas, bonés, botons, bebidas e outros produtos com a grife do clube. Além de ter sido o primeiro clube do interior do Rio Grande do Norte a ganhar o campeonato estadual de futebol, o Coríntians chamou a atenção por aquilo que mais o caracterizaria: ser de Caicó. “Com a força de Sant’Ana”, o time ganhou facilmente o campeonato, enfrentando e ganhando com facilidade dos tradicionais ABC e América da capital. Numa manchete significativa de um jornal da capital lemos: “Galo faz sertão virar mar de alegria”57. Se a profecia de Conselheiro não se realizou com a destruição de Canudos, cabe à “paixão nacional” realizá-la. Após grandioso desfile em carro de bombeiros e aclamação popular, fica o símbolo da vitória e de mais uma representação do orgulho de ser caicoense: o seu time do futebol. “Força, garra, capacidade de lutar e superar as dificuldades, do sertanejo caicoense” são reconfiguradas para os campos verdes do futebol. Aqui, o time da cidade torna-se mais do que uma simples efusão de alegria. Torna-se mais um símbolo identitário a ser consumido pelos caicoenses e visitantes. Torcer pelo Coríntians de Caicó é participar também desta identidade. É importante perceber-se, como dissemos no início deste capítulo, que a organização da Festa de Sant’Ana como um todo e enseja três matizes: a Igreja Católica, a sociedade e a Prefeitura de Caicó. Assim, a FAMUSE insere-se entre os eventos que, mesmo não estando ligados à padroeira, estão na programação da Festa de Sant’Ana. A FAMUSE torna-se uma iniciativa própria de uma entidade da sociedade civil local com ampla participação de uma parte significativa de pessoas que constroem a economia local. Do mesmo modo, cada um dos demais, Igreja e Poder Público, ensejam sua parte para a construção da Festa. 57

DIÁRIO DE NATAL, Natal, 24 jun. 2001. Caderno Esportes. p. 03.

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A Polícia Militar que patrulha as ruas durante a Feirinha usa um chapéu de cowboy, americanizando sua vestimenta. Se o intento do Estado é interiorizar o traje policial, o que transparece é uma descaracterização do trajar nordestino. Afinal, os vaqueiros sempre usaram chapéus de couro tipo “Napoleão” ou tipo “quenga”, e não chapéus de cow-boy ianques. As calçadas públicas, únicos locais onde alguém pode se movimentar, já estão quase intransitáveis por volta das 14 horas. Um turbilhão de pessoas vem e vão de um lado a outro, no trecho que vai da Catedral aos estandes da FAMUSE. Além disto, as mesas e cadeiras que já ocupavam as ruas começam também a ocupar as calçadas. Assim como também pessoas que mendigam ocupam alguns trechos. A Festa como momento aglutinador do social não pode deixar de trazer todos os grupos sociais ao seu espaço. Nela não podem deixar de comparecer nem mesmo os mais desvalidos, que encontram neste momento uma oportunidade de conseguir, também alguma renda. No entorno da Catedral, assim como em muitas calçadas, é possível ver famílias inteiras festejando. Com mesas sobrepostas, muita comida e bebida, o reencontro familiar também se dá na euforia da Feirinha. Em geral, essas comemorações se dão em torno do membro mais velho da família, que é quase sempre uma matriarca. Sentadas em cadeiras de balanço ou mesmo participando ativamente da Festa, elas inspiram em muitos a lembrança da padroeira. Nas barracas, alguns grupos fazem sua própria festa ao trajarem camisetas iguais, pintadas especialmente para a Feirinha. É o caso do bloco carnavalesco Isso Naquilo, que traz nas costas de sua camiseta o dizer: “Festa de Sant’Ana de Caicó 2001”. Segundo Paulo Azevedo de Medeiros, morador da Vila do Príncipe, é mais um momento para confraternização com os amigos. Interessante é notar que os grupos são bastante homogêneos não apenas em seus trajes, mas em seu comportamento etílico. Assim como no carnaval, a Festa de Sant’Ana é um momento de reafirmação de laços de solidariedade e sociabilidade entre essas pessoas, que se identificam não apenas com uma região ou cidade, mas também com um seu próprio e estreito microcosmo social: 127


neste caso o bloco de carnaval. Mas, se no carnaval em geral o que transparece é a inversão social, aqui o importante é a reafirmação de pertença a um grupo e a cidade. Com o calor aumentando ainda mais, indispensável é ter um leque sempre à mão. Estes são em geral de papel e são distribuídos por empresas que aproveitam o tempo da Festa para divulgar seus produtos, assim como trazem informações no verso do leque sobre a Festa, como, por exemplo, o Hino de Sant’Ana. Também é possível encontrar alguns leques com propagandas de políticos locais e regionais. É possível perceber como o econômico, o político e o religioso se intercalam. Pois no simples ato de abanar-se, tão necessárias aqui, essas esferas todas estão presentes. Um alto falante anuncia a presença de políticos constantemente. Mas este anúncio é realizado apenas àqueles que apoiam ou são apoiados pelo prefeito. Os demais circulam pela Festa acenando e falando com populares: são senadores, deputados, vereadores, prefeitos de outras cidades, o governador do estado, etc. Suas presenças são registradas por vários meios de comunicação de massa, os quais, na maioria são proprietários. À noite é momento de ir à novena de Sant’Ana. Por causa dela, a Feirinha, que teima em continuar noite adentro, é interrompida. Mas muitos não vão, pois a ressaca os impossibilita. Mas, o povo – membros de Irmandades religiosas, devotos – comparece e novamente, tomam todos os espaços dentro e fora da Catedral. Ela prossegue como os demais dias, e o ritual é repetido solenemente. É preciso exaltar a Sant’Ana, a provedora de Caicó. Após a novena, assim como em todos os demais dias, as opções são as mesmas. Mas o que muda é o povo. Este comparece cada vez mais e segue para as mesas dos bares, para as barracas de jogos, para os parques de diversões, para os clubes. Noite adentro é tempo de Festa, de sociabilidade, de reencontro.

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3.4. O Auge da Festa A Festa atinge seu auge na sexta-feira quando praticamente já não há espaço para mais ninguém se hospedar na cidade. Os hotéis, pousadas, motéis e casas de caicoenses estão apinhados de visitantes e turistas. Alguns chegam de ônibus fretado, trazendo toda a família consigo. Certos gêneros alimentícios chegam a faltar na cidade como o queijo de manteiga. Outros vão a preços exorbitantes para a população local, como a carne de sol. A multidão chega ansiosa por alimentos que não encontram em sua terra: importante é levar um pouco de volta, para matar a saudade de Caicó através de alguns de seus símbolos alimentares. Nos restaurantes apinhados, é possível distinguir os vários sotaques oriundos de todo o Brasil. Nas ruas, a cena mais comum é a do reencontro: alguém cruza com um amigo e exclama: “Fulano! Há quanto tempo?!?”. Segue-se um abraço e uma animada conversa sobre passado, presente e futuro. O reencontro continua a acontecer, agora com mais frequência, nas casas das famílias que se reúnem na Festa de Sant’Ana. Em volta do membro mais velho, uma avó ou avô ainda vivo, filhos, netos, bisnetos, tios, primos, “parentes e aderentes”, amigos e conhecidos. Uma mesa farta de comida regional, regada a muita cerveja, vinho ou cachaça celebra o reencontro tão esperado ao longo do ano. Momento de contar os sucessos e esquecer os fracassos. Tempo mesmo de matar as saudades da terra e da família. Antes do almoço, como em todos os dias de Festa, ao meio-dia em ponto em frente à Catedral de Sant’Ana, é possível ouvir músicas e marchinhas tocadas pela Banda Recreio Caicoense. O interessante é que além do saudosismo dos visitantes, que em suas terras não mais encontram bandas de metais deste tipo, está também a identificação com esse tipo de música. O Seridó já foi conhecido no estado – como falado anteriormente – pelos seus músicos e pelas suas bandas de música. À noite é o momento da Procissão Automobilística promovida pelos caminhoneiros e motoristas de Caicó. Uma longa fila de caminhões e carros percorre a 129


cidade fazendo um estridente buzinaço. À frente da longa procissão segue um carro de som e um caminhão que carrega um andor de Sant’Ana, cortejado por crianças vestidas de anjo, Sant’Ana e Joaquim. Este caminhão é uma doação de uma concessionária de caminhões da capital especialmente para este evento da Festa de Sant’Ana. Todos os anos, o caminhão é trazido da fábrica em São Paulo para a procissão. A marcha termina em frente à Catedral onde, para a novena, um caminhão em miniatura, com uma pequenina imagem de Sant’Ana por cima, será colocado num pequeno altar. Pois no primeiro dia de novena solene, o dia é dos caminhoneiros e motoristas. Isto é bastante significativo para uma cidade que depende muito das estradas para receber e escoar seus produtos e, mais do que nunca, uma terra que sobrevive exportando sua mão de obra. Para Eufrásio Elias de Oliveira, conhecido como “golinha”,

Tem caminhoneiro que vem de todos os lugares do país para a Festa de Sant’Ana. Eles vêm de longe, exclusivamente para a Festa. Nem que seja para passar apenas seis dias. Seja o que estiverem fazendo eles vêm (EUFRÁSIO ELIAS DE OLIVEIRA, Caminhoneiro).

Após a procissão de carros, vem à novena que hoje atinge seu ápice. Como nunca, a Catedral e seu entorno encontra-se cheia de pessoas, cada vez mais bem vestidas. O povo, juntamente com as elites, ocupa a igreja. Tantos uns, quantos outros, tentam mostrar seus melhores trajes. Há muitos que usam apenas branco, sinal de voto à Sant’Ana. Outros usam as fitas azuis e vermelhas de suas Irmandades Religiosas – Santíssimo Sacramento e Sagrado Coração de Jesus. A entrada dos clérigos dá o início da novena que é saudada por uma salva de fogos. Dá-se início ao novenário e a Ladainha de Sant’Ana, puxada pelo coral e pelas milhares de vozes é um espetáculo que emociona a muitos espectadores. Primeiras, segundas e terceiras vozes dão o tom à multidão que exclama ao final toda a descendência, ascendência e títulos sagrados e profanos da padroeira: 130


Sant’Ana, Filha dos Patriarcas, Avó de Jesus Cristo, Esposa de São Joaquim, Sogra de São José, Espelho de Obediência, Consoladora dos casados, Mãe das viúvas, Baluarte da Igreja, Caminho dos Peregrinos, Sant’Ana, nossa Padroeira, rogai por nós.

Sant’Ana é a protetora da cidade, da família e do povo. Ela é a mantenedora da ordem familiar e da tranquilidade da comunidade. Ela protege a mãe que não pode suster sua prole, pois ficou viúva. Ela consola os casais em crise, ela protege seus filhos que a buscam em sua Festa. Identificar-se com a cidade é identificar-se com sua protetora e sua Festa. A seguir tem-se a entrada solene do Santíssimo Sacramento que segue em cortejo da entrada da Catedral até o altar principal. Após momentos de adoração é o momento da incensação do Santíssimo, da imagem de Sant’Ana e de S. Joaquim e de toda a Catedral. Logo a igreja enche-se de um fumo forte e agradável, que chega a enevoar a visão do altar. Após a incensação e das orações ao Santíssimo Sacramento, uma estridente salva de fogos é ouvida. Monsenhor Antenor repete com entusiasmo a frase já esperada: “Tudo isso porque Sant’Ana existe!”. O povo ocupa toda a praça da Catedral. Já não é possível para muitos nem mesmo ver o telão disposto no lado esquerdo da igreja. Para a maioria, o único remédio é escutar e, assim, participar do novenário. Muitos mais escutam em suas casas, pela Rádio Rural de Caicó, nos bairros da cidade e nos sítios. Políticos e autoridades de todos os tipos estão na novena. Monsenhor Antenor abre um parêntese para dizer que filhos de Caicó ausentes mandam e-mails e ligações de saudade da terra mãe e se seu momento maior: a Festa de Sant’Ana. Fala do povo do Seridó, sua força, seu passado e seu futuro: 131


Um povo bem nascido, um povo bem orientado, um povo bem criado, um povo bem instruído, desde os primórdios que já chegou até, chegaram as letras, os nossos pais, avós, bisavós, trisavôs, quadravós, pentavós, foram verdadeiros mestres, verdadeiros sacerdotes do direito, do bem, da honradez, da seriedade. A família, o lar formava aquelas muralhas de proteção e no fim deu esse povo. Que por mais que o mundo cão jogue suas ventanias no fim diremos: que povo é este e vamos de novo responder: é o povo que vai morar no céu.

Fala também que a Festa tende a crescer cada vez mais e mais. Ela está acontecendo “estrondosamente!”. Um motorista de caminhão, Francisco Roberto Carneiro, faz o discurso em nome de sua categoria e realiza uma emocionada ovação à Sant’Ana, e coloca a todos os motoristas sob sua proteção. Chora também de angústia e reclama do desamparo por parte dos governantes que não cuidam da segurança das estradas: “Que Sant’Ana nos proteja!”, exclama. Aqui, diferentemente dos outros dias, é possível identificar um símbolo do grupo homenageado. Uma pequena réplica de caminhão, onde repousa uma imagem de Sant’Ana, é posta no altar direito da Catedral. Mas, como nos outros dias, não é possível identificar quem são os caminhoneiros, misturados ao povo, dentro e fora da igreja. Ao fim da novena é momento de dirigir-se aos bares e às festas que ocorrerão por toda a noite. Mas, entre um passeio e outro é fácil perceber homens elegantemente trajados de terno e gravata e mulheres de longo passeando pela rua. Em salões de cabeleireiros, mulheres preparam seus penteados para a grande noite: é chegado o Baile dos Coroas. O Baile dos Coroas para muitos, principalmente para aqueles que podem dele participar, é um dos pontos altos da Festa de Sant’Ana de Caicó. Aqui só se pode entrar travestido de terno e gravata completos, para os homens, e de vestido longo de noite, para as mulheres. Muitas são as histórias de pessoas ricas e conhecidas que foram “barrados no baile”, por ter esquecido uma gravata ou estar vestindo um vestido muito curto para os padrões do baile. Dentro deste, uma clássica banda toca música dos anos 132


50 e 60, acompanhado de muito bolero e música romântica. Notícia certa em nota de colunas sociais, inclusive em uma importante revista social de nível nacional. Ir ao Baile dos Coroas é ter a possibilidade de ostentar um status quo que se possui ou se pretende possuir. Mais do que uma simples festa para pessoas de nível econômico mais alto, o baile é uma possibilidade de demonstração de símbolos de poder social que traz consigo o ingresso em uma elite regional. A despeito do Baile dos Coroas a Festa nas ruas prossegue. As barracas estão tomadas de pessoas e o povo segue participando de jogos de azar, nas inúmeras barracas desse tipo na Festa. Crianças brincam num dos brinquedos dos parques de diversões. Mais tarde, os jovens procuram uma das festas nos clubes: é hora de dançar forró. Na volta da Festa, algumas pessoas vão para as inúmeras lanchonetes da cidade ou para a Praça Augusto Severo, onde se concentram trailers de lanche. Outras buscam, nos “barracos do açougue” um repasto mais substancial: caldo de mocotó, picado, chambaril, carneiro e bode torrados, etc. O segundo e último sábado da Festa de Sant’Ana – nono dia da Festa – é novo momento de reencontro. Também é momento de curar a ressaca do dia anterior tomando um bom caldo de mocotó de boi ou uma comida bem forte preparada em casa ou encomendada em uma das inúmeras cozinheiras e restaurantes locais. Dia também propício de se visitar amigos e parentes nos sítios circunvizinhos. Mais um dia para os infatigáveis consumidores de álcool, porem à prova seus, aparentemente, invulneráveis fígados. Neste dia é comum, como acontece com os demais, só que com mais intensidade, haver almoços em família. Esses almoços, como já relatamos, servem como forma de reencontro, onde familiares e amigos que há muito não se viam, reencontram-se e se sociabilizam, matando as saudades e relembrando o passado. A comida servida nesses almoços, assim como em toda a Festa, é extremamente regionalista. Arroz do sertão ao leite, carne de sol assada, picado de carneiro, bode torrado, batata-doce cozinhada, feijoada, galinha torrada. Exógeno mesmo somente o macarrão e um pequenino prato de 133


salada: tomates, cebolas e alface. Percebe-se que, assim como na feirinha e nas barracas, o alimento aqui é sempre aquele que traz à tona uma identidade com a terra. À noite, uma multidão se dirige ao último dia de novenário. Impressionante é o altar-mor da Catedral totalmente ocupado por flores do campo. No centro está Sant’Ana, soberbamente enfeitada com antúrios, crisântemos e outras flores mais claras que dão uma sensação que a imagem flutua sobre nuvens. Toda essa paramentação foi doação de uma família, fruto de uma promessa realizada há anos atrás e que se repete todos os anos. As flores são trazidas do interior de São Paulo exclusivamente para este fim. Essa doação, além de representar a fé votiva em Sant’Ana, representa também a possibilidade de oferecer um contra-dom à demiurga. Ou seja, Sant’Ana intervêm na vida da família, dando uma graça. Agora o momento da contra-graça deve ser reatualizado todos os anos. A aprovação pública demonstra o quanto esse ato tem de significativo socialmente. O Bispo de Caicó, D. Jaime Vieira Rocha, comparece à novena. Ao seu lado encontram-se o Monsenhor Antenor Salvino de Araújo e os demais clérigos e seminaristas. Após o canto do hino do Peregrino – hoje a noite é em sua homenagem – e a tradicional queima de fogos, a novena tem início. Neste dia, os paramentos do Coral de Sant’Ana mudam de cor: agora é bege o manto, sob a túnica branca. Entre as comunicações anunciadas, informa-se que a maior colônia de caicoenses fora da cidade, a de Natal, está construindo uma grande igreja, que irá ser consagrada à Sant’Ana, nesta cidade. Esta colônia, que já havia edificado uma igreja em homenagem à Sant’Ana, no conjunto Soledade II, na zona norte de Natal, agora edificará a igreja da zona sul, no bairro de capim macio. Dois grandes grupos que contribuem e participam de maneira diferenciada na Festa de Sant’Ana de Caicó, pois, o segundo, com mais poder aquisitivo, tem maior influência e integração na organização desta através de alguns de seus membros58. 58

Também na Festa de Nossa Senhora da Apresentação, padroeira da cidade do Natal, que ocorre em novembro, tendo seu dia o 21, as duas colônias de caicoenses da cidade participam ativamente com barracas de comidas típicas no largo da Catedral Nova de Natal. Uma imagem peregrina de Sant’Ana segue ao encontro de sua filha Maria. É o encontro simbólico dos caicoenses com a terra que os acolheu.

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Uma das participantes da caminhada dos Peregrinos, que foi de Currais Novos até Caicó, fala ao púlpito. Emocionada, manifesta a alegria de ter participado da caminhada e expressa a esperança e fé em Sant’Ana. Ano que vem quer ir de novo, assim como mais pessoas também. Apesar de não ser caicoense, mas casada há 35 anos com um filho da terra, ela assinala a emoção de sentir-se filha de Caicó, sentir-se filha de Sant’Ana. Fala daqueles que

Saem de Caicó, deixando para traz seus lares em busca de melhores oportunidades. Mas que se preparam todos os anos, [a] fim de acorrerem à Caicó no mês de julho. Essa força poderosa que nos guia é a fé em Sant’Ana, nossa mãe generosa. (...) Sant’Ana nunca abandonou os seus filhos. (...) Tudo entregamos à Sant’Ana: a saúde, o emprego, a união, a chuva, o amor. Sant’Ana sabe o que é bom para seus filhos. Boa Festa, que voltemos todos no ano que vem!

Hoje, como último dia de Novena de Festa de Sant’Ana, o povo, mais do nunca, está presente dentro e fora da Catedral. O lado esquerdo da Catedral, a Praça Monsenhor Walfredo Gurgel, e as imediações estão tomados pela população. Crianças, jovens e adultos se misturam. Todos, pobres e ricos levam seus melhores trajes.

Segue-se

a

Ladainha de Sant’Ana e S. Joaquim, depois a insensação que enche toda a Catedral. Chega o momento da homilia e o orador de hoje é D. Jaime. O Bispo fala sobre a Festa e a constituição, de todos, num só “corpo eclesial pela intercessão de Sant’Ana”. A comunhão da Igreja é com Jesus Cristo, sua mãe e sua avó. Sua ênfase é em Cristo e fala que os Peregrinos de Sant’Ana são os peregrinos de Cristo. É importante pensar em “ser igreja no novo milênio” com a ajuda de “Sant’Ana com a sagrada escritura na mão que nos ensina”. Também pede que os fiéis se inspirem nas primeiras comunidades cristãs de que fala os Atos dos Apóstolos, para renovarem a Igreja e para que participem mais desta. “Participação voltada para a Eucaristia e para o Evangelho”. Participação de fé e participação social. Aqui, como em outros momentos, sua fala traduzirá um discurso mais cristocêntrico, mais voltado às conclusões do Concílio Vaticano II em suas teses sociais e eclesiais. 135


Após a homilia do Bispo, o Santíssimo Sacramento é trazido, através do portão principal do templo. Um tapete vermelho é estendido. Ele servirá para a saída e a entrada de Sant’Ana no dia seguinte. O estourar de fogos anuncia que é momento de agradecer a padroeira mais um ano de Festa. Depois da eucaristia, é o momento de cantar o Hino de Sant’Ana. Antes, porém, o Monsenhor Antenor diz que “a Festa vem se desenvolvendo, se desenrolando, estrondosamente. Agora, defeitos por todos os lados. Entretanto, a graça de Deus, o amor de Deus, os dons divinos, rebolam aí em nossos corações. Então, valeu a pena”. Ele guia as pessoas dentro da Catedral, na hora do canto, como uma espécie de maestro. No púlpito, Monsenhor Antenor mostra-se novamente como um dos grandes artífices da Festa de Sant’Ana e uma de suas figuras mais significativas. Após o fim da novena, uma salva de fogos de artifício coloridos abrilhanta a noite. No “Pavilhão de Sant’Ana” (pracinha que se localiza ao lado esquerdo da Catedral) ocorre o tradicional, mas já não tão disputado “Leilão de Sant’Ana”. A participação popular é ínfima e poucas pessoas dele participam. No Leilão são comercializados todos os tipos de produtos. Importante é o gesto da doação e o da compra. Para tanto, os nomes dos doadores e dos compradores são anunciados em alto e bom som. Bolos, pastéis, galinha caipira, manteiga de garrafa, doces, licores, toalhas de renda, redes, etc., são adquiridos bem acima de seus preços de mercado. O arremate é feito ao longo dos meses que antecedem a Festa, alguns durante a peregrinação da imagem de Sant’Ana pelo município. Neste momento, pobres e ricos participam da mesma maneira. No segundo momento, o arremate, torna-se uma demonstração pública da capacidade para se pagar os preços mais altos. O leiloeiro brinca com o público, incentivando-o a comprar por preços maiores. Aqui, talvez pelo próprio esvaziamento de pessoas no local, pouco se gasta. O leilão, que em muitas festas é ponto alto, aqui fica restrito a um pequeno grupo. A Catedral mantêm suas portas abertas até tarde. As pessoas dirigem-se ao altar mor e prostam-se de frente à imagem de Sant’Ana, para fazer algum pedido ou 136


agradecer alguma graça alcançada. Algumas tiram fotos no altar para levar de lembrança para casa quando forem embora. Outras, moradoras do local, tiram fotos de recordação da decoração de flores que envolvem sua padroeira. Do lado de fora, o Arco do Triunfo, construído por ocasião da vinda da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima à Caicó, está iluminado e a estátua de Nossa Senhora de Fátima, tantas e tantas vezes confundida, por caicoenses e forasteiros, com Sant’Ana , está mais nítida. É o momento de prosseguir para as atrações, que, como já dissemos inúmeras vezes, são oferecidas para o povo. A Festa de Sant’Ana prossegue, em sua parte profana e noturna, noite e madrugada adentro. 3.5. A Teofania da Festa: a procissão de Sant’Ana No último dia de Festa de Sant’Ana, num domingo, o grande evento da manhã é a missa solene que começa às dez horas na Catedral. O Bispo e parte de seu clero estão presentes assim como os seminaristas da Diocese. Sua entrada é pela porta principal, através de um cortejo recebido pelo coral. As pessoas dentro levantam lenços brancos (lado esquerdo) e lenços amarelos (lado direito), distribuídos pelos organizadores da missa, estes ligados à Diocese. Os dois simbolizam o fogo do Espírito Santo, renovador da Igreja. Como proclama a música de abertura: “agora é tempo de ser Igreja”, é momento de participar. Do lado de fora a Banda Recreio Caicoense, após uma entrada que nos lembra uma banda militar, toca uma marcha conhecida. Seu traje é de gala, camisa branca e calça preta. A missa é inteiramente cantada, inclusive as leituras solenes. A única exceção é a homilia realizada pelo Bispo. Para este é importante atentar-se para:

O grande significado da Festa Sant’Ana é o poder subjetivo que ela tem de cada vez mais confirmar, ampliar [e] desenvolver, o sentimento religioso de um povo. Esse sentimento religioso se manifesta também pelos sentimentos humanos da fraternidade, 137


dos laços familiares, do amor à terra, à origem, à história, à memória, ao passado. Então a Festa de Sant’Ana é este momento por excelência, no qual nesses dez dias, as pessoas estejam onde estiverem, tiram férias e vêm para o Seridó, porque é a Festa de Sant’Ana. A Festa de Sant’Ana significa: reencontro de familiares, reencontro com a terra, reencontro com as origens, reencontro com a cidade e é um encontro tão benéfico que ele também se desenvolve não só no aspecto religioso, mas também cultural, no aspecto político, social.

Significativa é sua visão da Festa como um evento revigorante da vida social. Para ele “a Festa de Sant’Ana é como um reabastecimento, um momento que centraliza, reabastece e cada vez mais eleva os nossos sentimentos e nossa história”. Sua posição mais cristocêntrica traz Sant’Ana para longe do catolicismo popular executado por parte de seus fiéis. Enfatiza a catequese como base para a cristianização e a igreja como a “comunhão dos santos”. Assim seu discurso é inteiramente voltado para uma ação mais consistente da Igreja e dos cristãos na sociedade em que se inserem. Uma “eclesialidade consciente e participativa”. A participação popular na Missa é restrita. Muitos preferem acompanhá-la pelo rádio. Mesmo assim, a Catedral está bastante cheia de fiéis. Alguns devotos de Sant’Ana percorrem o caminho até o altar-mor de joelhos. A Missa parece ser um momento de encontro dos fiéis de Caicó com sua padroeira, mais íntimo. Ou seja, um encontro onde não se percebe a presença dos visitantes e mesmo, dos caicoenses ausentes que se encontram na cidade. A Missa se encerra e agora o importante é esperar a procissão. Para os devotos de Sant’Ana é o momento mais aguardado da Festa: a única vez em que a imagem de Sant’Ana sai de seu nicho no altar mor da Catedral ao encontro de seu povo nas ruas de sua cidade. À tarde, solenemente, seguindo a tradição, Sant’Ana é posta cuidadosamente num andor repleto de flores. Às 16 horas, o andor, levado por vários homens, com certa dificuldade, começa a sair da Catedral. Esses homens são voluntários e são em sua maioria

profissionais

liberais,

políticos,

empresários,

funcionários

públicos,

comerciantes, comerciários, etc. Carregar o andor de Sant’Ana é uma honra e denota 138


prestígio sagrado e profano. Sagrado, pela possibilidade de se entrar nas graças da santa. Profano, pela oportunidade de ser visto realizando um ato de piedade. Ao lado de Sant’Ana, num andor menor, vai S. Joaquim, seu esposo. A população aplaude de alegria sua saída e nem nota São Joaquim. O importante é que a Senhora do Sertão está indo ao encontro de seu povo. A procissão caminha seguindo pela avenida Seridó. Uma salva constante de fogos chama a população para seguir sua padroeira. À frente vai a Banda Recreio Caicoense em seu traje de gala. As Irmandades – Santíssimo Sacramento e Sagrado Coração de Jesus – seguem em fila indiana abrindo a procissão com suas bandeiras e flâmulas, juntamente com um carro de som, com o nome de um político (doado por este), que anima a multidão. Lentamente, milhares de fiéis, a maioria de branco, começam a caminhar e a seguir o andor. Logo, já há uma multidão à frente deste. Centenas de pessoas permanecem nas calçadas acenando com lenços e toalhas brancas. Nos umbrais das janelas e portas de muitas casas, panos brancos saúdam Sant’Ana. O branco, que significa aqui pureza, é amplamente utilizado e a ampla maioria das pessoas utiliza para acompanhar a procissão. É interessante notar que, antes, esta cor não era utilizada em cortejos religiosos com relação à Maria, Sant’Ana ou qualquer santo nos rituais católicos ou cristãos (em geral era utilizado o preto, cor da piedade). Branco estava ligado aos ritos fúnebres no sertão e ao casamento, sendo este mais tardiamente. Talvez por este último motivo, ser a cor da virgindade e da pureza, tenha sido atrelado à devoção religiosa. No mais, é também a cor dos pais e filhos de santo nos cultos afrobrasileiros e rituais kardecistas, também denotando pureza ritual. O andor vem trazendo Sant’Ana passo a passo. A imagem faz lembrar uma senhora aristocrática sendo carregada pelos seus servos de liteira. Ela olha maternalmente para baixo. O que ela vê é o seu povo que a contempla e a segue. No carro de som o hino de Sant’Ana é cantado repetidamente. Aqui e ali se reza uma avemaria. Aqui e ali se saúda Sant’Ana.

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O Bispo acompanhado de parte de seu clero vem logo à frente do andor. Os seminaristas e membros de entidades ligadas à Igreja seguem ao lado. Atrás dos andores – são Joaquim na frente e Sant’Ana logo atrás – o restante da imensa multidão que se forma. A rádio Rural de Caicó transmite ao vivo, para os que não puderam estar presentes. Pessoas vão de cadeira de rodas; de muletas; descalças; e vestidas de branco; algumas crianças vestidas de anjos; outras vestidas de Sant’Ana e Joaquim. Algumas senhoras levam pedras sob a cabeça. Algumas pessoas choram emocionadas. A devoção a Sant’Ana de Caicó aqui tem sua maior expressão. É também pela ritualização de um evento central, que uma sociedade individualiza algum fenômeno, “podendo assim, transformá-lo em instrumento capaz de individualizar a coletividade como um todo, dando-lhe identidade e singularidade” (DAMATTA, 1990, p. 31). Assim, a procissão e, portanto, a Festa de Sant’Ana, enquanto fenômeno individualizado e até certo ponto ritualizado, individualiza também o grupo, dando-lhe a possibilidade de se identificar com a cidade e com seus símbolos e representações, neste caso, Sant’Ana e sua Festa. Para Dona Teresinha da Silva, dona de casa e moradora do bairro Walfredo Gurgel, periferia de Caicó, importante é pagar a promessa à Sant’Ana. Há 33 anos operou-se de um seio e até hoje vem pagar sua promessa. Ir à Festa é maravilhoso pois

Eu adoro, a Festa de Sant’Ana. Durante o ano eu fico contando os dias sabe? Quando ela chega eu fico tão à vontade, tão feliz que não sei não. Se eu pudesse eu vinha todo dia, todo dia. Graças a Deus, pagar a minha promessa, se Deus quizer. E dá tudo certo. Uma vez que eu vinha assistir à novena e sofri um pequeno acidente por causa que ia entrar na Igreja, num sabe? aquele ato que vinha, eu não pude assistir a novena porque eu caí, levei uma queda muito grande, e tive que vim de pés sabe? Minha promessa... os meninos pediram pra vim me deixar na ambulância eu disse que não. Mas assim, só viva mesmo, mas terminei de assistir minha novena. Porque eu fiz essa promessa e estando doente ou não eu tenho que vir pra ela. Enquanto vida eu tiver é ASSIM (TERESINHA DA SILVA, Dona de casa).

Mesmo debilitada ela faz questão de comparecer à Festa. Tudo isso por sua devoção à Sant’Ana diz ela. Afinal, 140


Sant’Ana eu não sei não. É muita fé, é muita... é tanta coisa pra mim, ela significa tanta coisa. Eu amo, eu adoro ela, ai meu Deus, eu não sei não. Que eu hoje eu vejo eu curada por ela... eu era doente, eu era doente mesmo, não tinha fé de ficar boa nunca na minha vida, mas agora, Ave Maria não sei não... Graças a Deus e a Nossa Senhora Sant’Ana to aqui contando a história. E vou viver muitos anos pra contar ainda (TERESINHA DA SILVA, Dona de casa).

A procissão vai seguindo até dar a volta pela Avenida Coronel Martiniano e voltar pela Avenida Seridó novamente. Os homens que carregam o andor têm uma expressão facial de visível cansaço. Estão encharcados de suor. Mas seguem infatigáveis pela honra anual de levar o andor de Sant’Ana. Em frente à Catedral, um palco está armado à espera do clero, de Sant’Ana e da multidão. O coral de Sant’Ana está posicionado esperando sua vez de cantar. Quando chega o momento, ouve-se o som dos veículos batedores da polícia, o estourar de fogos: lá vem Sant’Ana de volta para sua Catedral. Lentamente ela avança, passa por sob o Arco do Triunfo e o andor posiciona-se ao lado do palco, exatamente de frente ao portão principal da Catedral. Papéis picados são jogados em cima da imagem. Uma profusão de fogos estoura anunciando a sua chegada. O Coral canta o Hino de Sant’Ana. Após a acomodação de parte da multidão, pois o restante continua a se acomodar, inicia-se a missa de encerramento da Festa de Sant’Ana de Caicó. O primeiro a falar é o Monsenhor Antenor Salvino de Araújo. Fala da grandiosidade da Festa, dos seus méritos, da hospitalidade do povo caicoense. Fala também da necessidade de se ter uma estrutura melhor para o futuro:

Excelentíssimo Sr. Governador do Estado. Autoridades aqui presentes, reverendíssimos sacerdotes, povo de Deus, povo da aliança. A Festa de Sant’Ana de Caicó é um monumento construído em nossa terra, pelos trezentos anos de um povo especial aqui vivendo pela fé, pelo trabalho, pela hospitalidade. Povo forte, que abraçou a mensagem da boa nova do evangelho. As bases foram lançadas do passado para a eclosão que hoje vemos. Essa Festa é mérito de Sant’Ana que preside essa gente, mérito de cada um, mérito do progresso, mérito da técnica, mérito da comunicação, mérito da fé. A hospitalidade é notável nesta terra, terra de santos, terra de heróis, terra de povo 141


que vai morar no céu. Mais uma vez, estrondosa, a Festa de Sant’Ana a primeira do milênio. Disse o Profeta Isaías: desdobrai vossas tendas, para que entre nelas o povo santo. Paróquia de Sant’Ana, Prefeitura Municipal, em que espaço físico receberemos esse povo daqui a cinco e a dez anos? No espaço do nosso coração, da nossa alma, sim, mas também, no espaço de uma rede de pousadas, rede de albergues. Já que no deserto onde moramos, não podemos pensar em rede de hotéis. As casas, os sítios próximos, as cidades vizinhas já estão cheias de hóspedes de Sant’Ana. Isto não é tão adequado. E os parques e barracas, em que lugar ajustado se assentarão? Algo a pensar nos próximos anos. Não há secas, não há carestia, não há apagões, que mudem o rumo da Festa de Sant’Ana de Caicó. A Festa é um monumento abençoado porque Sant’Ana existe. Festa de paz. Festa de multidões. Festa da família que chega. Festa dos peregrinos. Festa de Caicó. Tudo isto porque Sant’Ana existe. Você fez a Festa. Eu fiz a Festa. Nós fizemos a Festa. Que Deus nos abençoe, ide com Sant’Ana, vinde para Sant’Ana, mas voltem na Festa. Obrigado. Palavras do Senhor.

Depois de sua fala segue-se a missa. Após a leitura do evangelho, a homilia é feita pelo Bispo D. Jaime Vieira Rocha. Seu discurso é mais longo. Centra-se na Festa enfatizando a centralidade de Jesus Cristo. Tudo isso porque “Jesus Cristo existe”, ele parece querer dizer. Fala também de ecumenismo. Retoma a ideia de uma consequência social da Festa de Sant’Ana. Esta é vista como uma síntese da sociedade caicoense e por isso é necessário se extrair uma espécie de solidariedade social da Festa:

Tudo [isso] porque Sant’Ana existe. E Sant’Ana existe em função de Jesus Cristo aquele que no mistério da Trindade fundou a Igreja, Uma, Santa, Católica e Apostólica. E por isso temos o direito de como Igreja Católica, tomarmos consciência de que temos que ser uma Igreja ecumênica, porque a igreja de Jesus Cristo sendo católica, quando nós aprofundamos a identidade da nossa igreja, a vivência da nossa fé, no projeto ser igreja no novo milênio, fundamentado numa experiência da igreja primitiva, nos atos dos apóstolos, nós temos a graça de, portanto nos sentir a igreja de Jesus Cristo, portanto Una, Católica, Apostólica. E, por conseguinte, pelo fato de ser católica, ela é única. E a minha saudação de pastor, aos outros pastores das igrejas evangélicas no Seridó. A minha saudação a todos os fiéis, que nessa belíssima manifestação de fé, tendo rezado [e] vivido a graça de uma Festa jubilosa, radiosa, esplêndida, da gloriosa Sant’Ana. Agora podeis se perguntar, qual a conseqüência, quais as conseqüências pastorais da Festa de Sant’Ana que estamos encerrando? Eu vou dizer meus irmãos e minhas irmãs: primeira conseqüência e primeira obrigação, primeira graça, primeiro lucro da Festa de Sant’Ana deste ano, a nossa vivência e compromisso com o projeto ser Igreja no novo milênio, com a catequese, com a atenção aos jovens, com a escuta das famílias, com a pastoral do dízimo, com tudo aquilo que se compõe a parte social na nossa Diocese. O que, enfim, a Igreja nos pede na vivência, na comunhão na participação. Vejam meus irmãos e minhas irmãs, conseqüências pastorais, dessa tão grandiosa Festa de Sant’Ana do ano de 2001. nós ouvimos tanto falar em solidariedade. (...) É oportuno dizer que 142


quanto mais cresce o Seridó, quanto mais se organiza, quanto mais encontra os seus rumos, quanto mais se compromete com as mudanças, com as renovações estruturais, com a participação de todas as instâncias, com as políticas sociais e econômicas e culturais, certamente o Seridó vai se manifestando como uma região que é viável, que sabe o que quer, que tem uma bússola que tem um plano de desenvolvimento sustentável. Dentro desse contexto de uma sociedade, de uma região que se organiza e que se manifesta tão claramente, para o estado e para o país, celebramos com júbilo, com glórias, com honras e com alegrias a grandiosa Festa de Sant’Ana.

Para D. Jaime a Festa de Sant’Ana é também a síntese de todas as coisas positivas, de todas as ações que acontecem no Seridó, e também da tradição e “da nossa fé católica, do nosso povo católico organizado, do nosso povo que tem história, que tem tradições e preserva os seus valores”.

Seu discurso reitera a necessidade de

solidariedade:

Pois bem meus irmãos: solidariedade. Nós temos dois projetos para a região do Seridó. Foi lembrado durante a Festa de Sant’Ana, a cidade do idoso, a cidade Fazenda da Esperança, como representando um esforço da sociedade civil organizada, na qual está inserida a Igreja de Jesus Cristo, a Diocese de Caicó. Então esta sociedade civil organizada, esta Igreja inserida na sociedade, como sinal de esperança, como sinal de vida, como sinal de Jesus Cristo Luz do mundo, traz para nós a consequência pastoral da Festa de Sant’Ana. E poderemos dizer: o que mais podemos fazer com a tão grandiosa Festa de Sant’Ana? Será que ela não tem uma hipoteca social? Será que ela não tem um dever e uma consequência de solidariedade, para que toda a grandiosidade da Festa que toma conta da cidade se revista uma solidariedade, e em vista de uma partilha, de uma pequena percentagem, de um milésimo de toda a renda que passa por Caicó nesse tempo em função da Cidade do Idoso, para a Pastoral dos Idosos, em função da Pastoral Social da Igreja, em função da Fazenda da Esperança, para acolher, regenerar, salvar, dar a vida aos que são dependentes químicos, das drogas. E nós caminhamos na procissão dessa tarde com uma grande faixa, “vida sim, drogas não”. Então meus irmãos e minhas irmãs, como pastor dessa Igreja, pela vontade de Deus, pastor dessa Igreja do Seridó, tenho a graça a alegria, de com todos vocês nessa praça, encerrar com ação de graças a Deus, a gloriosa Festa de Sant’Ana. Fica esta proposta. Fica este apelo. Fica esta lembrança das consequências pastorais da Festa de Sant’Ana no início do novo milênio. Queremos ser Igreja no novo milênio. Uma Festa de Sant’Ana tão gloriosa ela pode também se constituir, num elemento, num meio, numa oportunidade a ficar para o fortalecimento de todas as ações da pastoral social, as ações da Igreja, as ações da sociedade civil organizada, que tem o direito de estender todos esses valores tão nobres, tão celebrados... de providenciar a Eucaristia para todas as comunidades. E nos estamos envoltos da sagrada Eucaristia.

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Seu apelo agora destina-se aos clérigos de sua Diocese, principalmente àqueles que parecem discordar de suas ideias ou àqueles que não têm mais ânimo para nenhuma inovação.

Caicó nunca teve um muro de padres que tem hoje. Meus queridos irmãos no sacerdócio, meus queridos padres de Caicó, não deixemos que as comunidades da periferia não tenham missa dominical todas as semanas. Porque pelo grupo, pelo número de padres, que a oração, que povo de Deus pela reza constituem aqui como grande dom para a nossa Igreja, tantas vocações, tantos sacerdotes. Deus nos ajude a essa consequência pastoral, visível missionária da Festa de Sant’Ana. Fazendo com que possamos ir ao encontro das periferias, dos irmãos que estão mais afastados. E em cada capela, em cada comunidade, haja a graça da sagrada eucaristia, todas as semanas, uma vez por semana, ou no sábado ou no domingo. É isto meus irmãos a minha palavra de pastor, alegre, gratificado pelos dons que o Senhor nos concede e pelas graças do Espírito Santo, lançar estes apelos como consequências pastorais da grande Festa de Sant’Ana do novo milênio do ano 2001. Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Muita Paz, que a Senhora Sant’Ana abençoe e proteja a todos.

Vê-se assim um discurso mais engajado politicamente. Um discurso antenado com as conferências latino-americanas realizadas pela Igreja Católica nos anos oitenta. Desenvolvimento, paz e segurança são pedidos lado a lado com uma solidariedade cristã e fraterna. A hipoteca social cobrada da Festa de Sant’Ana é sua grande novidade. Após quase seis anos como Bispo, vem sua grande interferência na Festa de Sant’Ana. Ao fim da missa, Sant’Ana retorna lentamente para dentro da Catedral. Um show pirotécnico, doação de um clube local, ilumina o céu sob a Catedral. A imagem de Sant’Ana é colocada ao centro da nave da igreja. Agora, mais do que nunca, ela está ao alcance do seu povo. Tem início assim o “Beija de Sant’Ana”, momento onde a multidão de fiéis começa a fazer fila para dar um beijo ou tocar em sua padroeira, fazer um voto ou agradecer uma graça. Mais do que nunca, é o momento de levar uma lembrança de Sant’Ana: uma flor do andor ou dos nichos. Em pouco tempo já não há mais nenhuma delas. Todas são levadas pelos fiéis. Mais do que simples flores, elas representam a presença material do sagrado que cada um pode possuir e levar para casa. Lembrança 144


também da procissão e da Festa. Pessoas doentes são levadas para tocarem na imagem. Devotos e penitentes, alguns com cactos e pedras sob a cabeça, quase todos descalços, também vêm fazer seu pedido ou agradecimento. Enquanto isso, em pontos estratégicos (ao centro da nave da Catedral, em frente à imagem de Sant’Ana e outra próxima à imagem de Joaquim) alguns homens seguram baldes plásticos. Nestes serão depositados as doações dos fiéis para o Beija de Sant’Ana. Em pouco tempo os baldes são recarregados e esse ritual prossegue por várias horas. A multidão não cessa de chegar e sair da Catedral. Recorda o ritual do beija mão do monarca brasileiro na época do império. Mas aqui não se beija a imperatriz, mas Sant’Ana, a Senhora do Sertão. Do lado de fora, na Avenida Seridó, o carro de som prossegue animando uma pequena multidão de jovens com músicas da Renovação Carismática Católica. Cantando, dançando e erguendo as mãos o grupo segue num “louvor à céu aberto”. É o único momento – afora a barraca na Feirinha – em que se observa a presença ativa do movimento na Festa. Mesmo assim esta presença aparece fora dos rituais litúrgicos da Igreja. A Festa ainda prossegue à noite com o funcionamento dos bares ao longo da noite. Mas, para a maioria dos visitantes, é hora de arrumar as malas e partir. Seguir para suas cidades, algumas longe, outras mais perto. Levam consigo a dor da saudade, a alegria de ter estado em Caicó e revisto amigos e parentes. A alegria de ter comido novamente aquele repasto tão caro às suas lembranças, com um tempero tão sertanejo. Levam a certeza de serem filhos de uma terra que consideram única. Uma terra que padece sob o cruel castigo da seca, mas que para eles tem a beleza de ser a terra onde nasceram, criaram-se e onde podem sempre retornar. Este eterno retorno se dá, para muitos apenas em julho, na Festa de Sant’Ana. Assim, ser devoto de Sant’Ana não é apenas participar do sistema religioso que ela engendra. É, antes de qualquer coisa, identificar-se com sua Festa, com sua cidade. Afinal, ela não é apenas Ana, a Bem-Aventurada mãe da mãe do Salvador dos cristãos. 145


Ela é Sant’Ana de Caicó, a Senhora dessas paragens. A avó dos sertanejos que partiram e dos que ficaram. Ela condensa, em si, não apenas as aspirações de tradição do povo de Caicó, mas até mesmo suas propostas de modernidade. Ela e sua teofania condensam e reconstroem, enfim, o tão falado ser caicoense.

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4. A Senhora do Sertão Senhora doce e clemente Mãe da Graça e do perdão Abrigai-nos docemente Dentro em vosso coração Salve Sant’Ana gloriosa Nosso amparo e nossa luz Salve Sant’Ana ditosa Terno afeto de Jesus Vossos filhos desta terra Os suplicam que sejais O seu refúgio na guerra E sua alegria na paz! (Letra de Palmira Wanderley e Música do Maestro Manoel Fernandes)

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É possível afirmar, como dissemos no início deste trabalho que a Festa de Sant’Ana de Caicó é o evento aglutinador, sócio-cultural-religioso de uma expressão de saudade e de identidade. Ela passa a ser vista como aquele momento onde aquele caicoense saudoso e distante pode reencontrar seus amigos e tudo aquilo que o faz ser caicoense. Este instante de reencontro e sociabilidade agrega-se com o ver, sentir e estar na terra onde nasceu ou onde foi criado. Além disso, a Festa conjuga em si espaços para a saudação do religioso e do profano onde os visitantes e os caicoenses voltam suas atenções para aqueles símbolos que os identificam. Ir à Festa de Sant’Ana passa a ser uma peregrinação necessária ao caicoense distante. Sant’Ana torna-se um marco em sua vida, não simplesmente pela fé, mas por conjugar em si, as representações sociais acerca do que é o ser caicoense. Como um eterno retorno, ir a Caicó e participar da Festa de Sant’Ana é ritualizar inconscientemente aquele momento em que um vaqueiro desmata um mufumbal para buscar uma rês perdida e, deparando-se com o perigo, entrega-se à Sant’Ana. Este ato de entrega é revivido na procissão e no “beija” de Sant’Ana, assim como nos momentos de devoção dos fiéis. Aflições e angústias são depositadas no colo da avó de Cristo. E, do mesmo modo como Sant’Ana gera água de seu poço para permitir a construção de sua igreja e da existência da própria cidade, Sant’Ana intervêm novamente nos clamores por água e bons invernos. Mas, Sant’Ana não é, pois, uma rainha que rege, detentora de poder absoluto. Ela é como uma matriarca sertaneja, uma Senhora, que exerce seu domínio a partir de sua filiação divina. Assim, a Prece do Vaqueiro é compreendida como um mito de origem da sociedade caicoense. Mito de origem no sentido de explicação fundante de suas origens, e, ousamos dizer, arquetipicamente, de sua Festa. Pois, ousamos novamente ressaltar, ao intervir na sociedade, Sant’Ana assume seu papel de demiurgo e sua primeira epifania deve ser repetida anualmente. A Festa de Sant’Ana de Caicó, dentre outras tantas coisas, é também, o eterno retorno dessa epifania

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primeira. A reatualização ritual de um mito de origem, a chegada da Senhora do Sertão do Caicó. Essa chegada que é [re]atualizada ao longo dos tempos traz constantes modificações na forma como Sant’Ana deveria ser homenageada. As mudanças viriam conforme a situação econômica, política e cultural da região. Até o auge e a decadência da cotonicultura, a Festa da Sant’Ana de Caicó jamais deixaria de ser uma pequena festa de padroeira de interior, com todas as suas características mais salutares. Após a cotonicultura e a transformação da cidade num centro de aglutinação de serviços e uma forte emigração de parte de sua população para centros urbanos maiores, a Festa passou a ter uma importância maior. Simbolizaria não mais a homenagem dos caicoenses à sua padroeira, mas seria uma forma de homenagem dos caicoenses àquilo que eles sempre prezaram e àquilo que os constituem como tal. Seus símbolos, costumes, hábitos culturais arraigados, hábitos alimentares, etc., passaram a ser valorizados para os seus visitantes (pois assim são chamados os caicoenses que migraram) e para os que ficaram. Sant’Ana torna-se esse símbolo identificador mais forte por ser ela a principal homenageada no momento da Festa. Ela não é a Festa em si, mas ela congrega essas aspirações e [re]atualizações identitárias que se processam neste período e que se seguem mais além. “Caicó de Sant’Ana”, ou, “Sant’Ana de Caicó”, passam a ser sinônimos significativos, onde o sentido de um não existe sem a presença do outro. Essa [re]construção de identidade se processa durante a Festa de Sant’Ana, indo, porém, além dela. A associação dos indivíduos com a Festa é realizada através da autoidentificação com elementos que, para estes, definem o ser caicoense. Dentre estes elementos destacam-se símbolos materiais e espirituais, hábitos culturais e vultos e personagens da história local. Dos primeiros é possível perceber: o açude Itans, o poço de Sant’Ana, a Catedral de Sant’Ana, o “Arco do Triunfo”, as Serras e os dois rios que cortam a cidade (Barra Nova e Seridó), a própria cidade de Caicó, a seca, os muros de pedra, as festas tradicionais, etc. Dos hábitos culturais podemos citar: “a hospitalidade da cidade”, “sua calma”, “a força e o brio do caicoense frente à seca e às dificuldades”, 149


“a capacidade deste de adaptação”, “sua inteligência”, etc. Dos vultos e personagens sempre lembrados o mais antigo é o Padre Brito Guerra, seguindo-se ex-intendentes municipais, como Otávio Lamartine e o Coronel Martiniano, até vultos mais recentes como os ex-governadores José Augusto, Dinarte Mariz e Monsenhor Walfredo Gurgel. Atualmente a grande figura lembrada é o Bispo D. Jaime Vieira Rocha, (mesmo sem ser nascido em Caicó) como grande líder local. Todos esses símbolos, construídos ao longo do tempo e da história são parte integrante das representações sociais que definem, também, o ser caicoense. Este se identificar com Caicó é também um identificar-se com aquilo que a torna sui generis para a região e para as demais cidades do Estado e do sertão nordestino. Antes de ser norte-riograndense ou sertanejo, o caicoense é do Seridó e de Caicó, e esta ênfase é sempre ressaltada por todos eles. As formas de sociabilidade e de reencontro que se apresentam durante a Festa de Sant’Ana aparecem das mais diversas formas. Seja através do estar em família e entre amigos, nos almoços e festinhas caseiras. Seja a partir dos reencontros nos vários espaços públicos de sociabilidade como os bailes, os bares, os eventos religiosos ou como na feirinha ou mesmo nas procissões. O reencontro passa a ser uma das grandes características da Festa de Sant’Ana de Caicó: rever os velhos amigos é também relembrar acontecimentos passados, é também forma de [re]atualizar o ser caicoense. Durante a Festa, além de todos esses elementos serem reafirmados, outros são postos à tona. Durante a Feirinha de Sant’Ana, por exemplo, além de se perceber a forte divisão na ocupação espacial da mesma, onde a estrutura social é fortemente enfatizada, é possível perceber como o ato de comer e beber juntos pode demonstrar essa [re]construção identitária. Mesmo com a divisão relatada – onde membros da elite posicionam-se em determinados locais pré-estabelecidos e os demais membros da sociedade em outros, fora do Largo da Catedral – ao comerem e beberem juntos, os caicoenses reafirmam seus laços de pertença e de identidade. Muitos, principalmente aqueles que vieram de longe para a festa, revigoram seus laços ao identificarem-se com 150


as comidas locais, simbolizadoras da identidade regional. Outro ponto importante é que as comidas vendidas e consumidas na feirinha, principalmente as consideradas regionais, são reflexo das condições de produção agrícola e dos hábitos culinários locais. Mesmo na forma de consumir, denotam estilos de vida e visões de mundo regionalista. Comer carne de sol de Caicó ou tomar aluá, passa a representar mais do que degustar este ou aquele repasto. São reafirmações simbólicas de identificação com aquilo que se considera fazer parte do ser caicoense. Isto também é muito bem demonstrado na Feira de Artesanato que ocorre durante a Festa. Aquilo que se convencionou a chamar-se de “marca do Seridó” ou “produto de Caicó”, é enfatizado e representado como artesanatos e produtos de qualidade e que não se comparam aos de outras regiões. Esta representação vai além do artesanato, principalmente quando “produtos de Caicó” são associados diretamente com produtos sertanejos, como ocorre em muitas lojas desses produtos em Natal e em Brasília. Mais do que isso, como já dissemos, importa para o visitante é que, ao consumir um produto de Caicó, consome-se mais do que carne de sol, manteiga de garrafa ou queijo, consome-se uma parte de uma identidade que se integra com estes produtos. A Festa de Sant’Ana de Caicó nos mostra também como a relação entre o sagrado e o profano, assim como das demais esferas do social se entrelaçam e se constroem naquela sociedade. Não há uma nítida divisão entre nenhuma dessas esferas e uma perpassa a outra, sem fronteiras delimitatórias definidas. Se o papel do Bispo ou dos padres é gerir seu rebanho no plano espiritual, também seu papel mostra-se com a preocupação pelo desenvolvimento político, cultural, social e econômico de sua grei. As figuras de D. Jaime Vieira Rocha e a do Mons. Antenor Salvino de Araújo, como figuras de discursos bem definidos e diferenciados entre si, denotam também o círculo de apoio que os agrega. Enquanto o primeiro é encarado como uma liderança moderna, com um discurso eclesial socialmente engajado, o segundo aparece como aquele “festeiro” tradicional, âmago da Festa e idealizador de sua grandiosidade. Mais do que discursos diferentes têm-se aqui duas formas de controle social por parte da Igreja Católica, duas 151


estratégias, diferenciadas. A primeira que utiliza os discursos do Concílio Vaticano II e dos encontros de Puebla e Medelín para dar tom a uma fala social e politicamente engajada, de tom ecumênico, mas calcada pela soberania da Igreja Romana. Deste aproximam-se mais as lideranças políticas de esquerda e partes do empresariado local que lutam pelo desenvolvimento regional. O segundo discurso, mais conservador neste sentido, aproxima-se mais dos grupos sociais mais conservadores e dos membros mais idosos da sociedade. Um, é hoje considerado “a grande liderança não partidária e unificadora do Seridó”. O outro, é o “coração e o âmago da Festa de Sant’Ana”. Dois lados de uma mesma moeda, diríamos. Cada um tem maneiras diferenciadas de pensar a Festa e isto se reflete também no modo como pensam a Igreja na região. Para o Bispo, importa pensar a “parte social da Festa”, através de uma contribuição social da sociedade para construção de obras sociais específicas. Para o Pároco, interessa pensar na grandiosidade do evento, na sua estrutura, para que se possa angariar mais recursos. Primeiramente estes se destinariam para manter a Paróquia, para que depois se possa pensar na parte social, nos necessitados. Também os demais grupos, católicos ou não, que constroem a Festa de Sant’Ana de Caicó, parecem preocupar-se com a “finalidade social da Festa”. Pois, a Festa deve ter uma finalidade mais nobre do que simplesmente ser uma festa de padroeira. Para outros, seu fim está delimitado: deve celebrar Sant’Ana e ser um evento grandioso de sociabilidade e de reencontro. Com seus vários momentos tão embaralhados fica complicado delimitar o que é e o que não é na Festa. Quase tudo denota a política, mesmo o mais banal dos discursos e o mais singelo dos folders e das atitudes. Tudo gira em torno do econômico na medida em que, toda a Festa é pensada como um meio de se arrecadar dinheiro para a paróquia e para a Diocese, assim como para a cidade. Assim, quase tudo é pensado em termos de angariar fundos para esta ou aquela instituição ou empresa. Também os discursos, passeios, folders e notas nos jornais e revistas são pensados em termos de ganhos de capital político, onde todos querem aparecer de alguma forma. Mesmo a Igreja utiliza a 152


Festa como seu grande momento de marketing cultural e político. Suas insatisfações são ditas nos púlpitos através de seus pregadores. Seus reclames e seus pedidos são feitos nos grandes momentos da Festa onde ela exprime também anseios de toda a sociedade, como no caso dos constantes pedidos por água para a cidade e a região. Nas revistas, jornais e panfletos distribuídos durante a Festa, assim como nas propagandas televisivas e em outdoors, é possível perceber que os símbolos se convergem para a Festa e para a cidade, tentando mostrar um pouco de sua própria grandiosidade e viabilidade. Daí porque, aos poucos, as elites e os organizadores da Festa venham se preocupando em torná-la um evento turístico, sem que ela perca sua grande característica: a de ser um evento aglutinador da sociedade caicoense, de seus filhos ausentes em torno de Sant’Ana, seu grande símbolo identitário. Enquanto uma festa de padroeira do catolicismo popular a Festa de Sant’Ana de Caicó é uma festa que enseja um paroxismo cosmogônico da sociedade a que pertence. Por acontecer no mês de julho, final das colheitas nesta parte do hemisfério sul, a Festa de Sant’Ana, uma mãe representada com a sua filha, enseja o pedido dos sertanejos por água e fertilidade. Se o ano é de fartura, o ensejo é agradecer as dádivas divinas. Se for de seca e estiagem, resta ao sertanejo pedir à mãe e avó Sant’Ana a vinda da água que renova a terra e faz renascer a vida no sertão. Como protetora da cidade, seu papel simbólico é o de revitalizar os laços sociais, protegendo Caicó de todos os males. Sua teofania, na Festa, é o momento onde Sant’Ana intervêm na região e pode revigorá-la, em todos os aspectos. Ela é, como dissemos, a Senhora deste sertão, como as matriarcas sertanejas que cuidavam de tudo em casa, obedientes e senhoras do lar. Aquelas mesmas que, quando viúvas, tomavam per si o mando senhorial que pertencia a seus maridos, reafirmando com a mesma força os laços de compadrio e as relações de poder existentes. Indo além do tempo festivo, a Festa de Sant’Ana de Caicó atravessa o tempo do extraordinário e alcança o tempo cotidiano. Seja através das lembranças da Festa passada, seja através da organização da nova Festa a porvir. Este “eterno retorno” da Festa de Sant’Ana não apenas reatualiza a sociedade em questão, como põe em 153


movimento suas lendas e representações que ajudam a [re]construir identidades e laços de sociabilidade. Ao revigorar o tecido social, a Festa reforça também a identidade a qual esse tecido se agrega: a de caicoense e, em última instância, a de seridoense. Quando o cantor Chico César, natural de Catolé do Rocha, sertão paraibano, escreveu uma música intitulada “A Prosa Ímpurpura do Caicó”, ele resolveu falar de uma cidade que ele conhecia quando ia menino, às suas feiras. Ele chama Caicó de arcaico e faz um trocadilho com isto: Ha! Caicó arcaico, em meu peito catolaico tudo é descrença e fé. Há! Caicó arcaico, meu cashcouer mallarmaico tudo rejeita e quer. Assim Caicó é cheia de contradições para o compositor: ela é arcaico, porque seu arcaísmo esta dentro dela mesma. Ela é descrença, talvez no seu futuro tão incerto pelas estiagens e pelo fim de suas perspectivas econômicas. Mas ao mesmo tempo ela é fé: fé em Sant’Ana e no futuro que traz em si a esperança. Caicó é o cashcouer mallarmaico de Chico César. É também o é com é sem, milhão e vintém, todo mundo e ninguém, pé de xique-xique, pé de flor, todas as contradições numa só palavra Caicó. Pode ainda ter em si o relabucho velório, videogame oratório, high-cult simplório, amor sem fim desamor. Trazendo assim a alegria e a tristeza, a tradição e a modernidade, o tudo e o nada. Traz também o querer e o não querer, traz os impaupérios das elites e das massas, traz seu olhar de cego pedinte que olha para quem passa no mercado público, mas quem sabe passeia pela lua: sexo no-iê, oxente Oh! Shit, cego Aderaldo olhando pra mim, moonwalkman. Caicó exprime a ambigüidade de ser pequena e o querer ser grande. De ser tradicional pensando em ser moderna. De ter suas elites falidas pensando alto no poder. Sua fé é expressa do modo mais profano possível. Suas Festa mais popular é, ao mesmo tempo, a mais elitizada. Tudo isto é Caicó. Ar-Caicó!

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A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó  

Análise sociológica e antropológica da Festa de Sant'Ana de Caicó. Publicada da dissertação de mestrado do autor em 2002.

A Senhora do Sertão: a Festa de Sant'Ana de Caicó  

Análise sociológica e antropológica da Festa de Sant'Ana de Caicó. Publicada da dissertação de mestrado do autor em 2002.

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