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O JOVEM ANARQUISTA JOテグ ANGLIN

2011


1ª Versão - Texto não revisto

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ÍNDICE

Introdução A educação da criança perante as ideias novas O progresso Associações de classe Desarmonia social Ilusões e iludidos A instrução Um grande e insigne vulto A questão social Anti-militarismo Esclarecendo Insistindo Dr. Sousa Júnior Anti-militarismo O alcoolismo O lupanar A pena de morte em França O proletariado universal Situação desesperada Miséria 1º de Maio Liceu “Antero de Quental” Obra “gloriosa” Eliseu Reclus Os revoltosos de Barcelona Os revoltosos de Barcelona (continuação) Iniquidades A inquisição moderna 1º de Maio Sociedade Protectora dos Animais Sociedade Protectora dos Animais Francisco Ferrer Sociedade Protectora dos Animais Dr. Miguel Bombarda Leão Tolstoi Protestando Académicos Referências Bibliografia recomendada Notas biográficas

5 11 12 13 14 16 18 20 22 24 25 27 30 31 33 35 37 39 41 43 45 47 49 50 53 55 57 59 61 62 63 64 66 67 68 70 72 73 74 75

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INTRODUÇÃO

O gosto pela leitura, em geral, nomeadamente de quase tudo ao que aos Açores diz respeito, fez com que há alguns anos, possivelmente em 1996, tenha chegado às minhas mãos uma separata da revista “Insvlana”1 dedicada ao jornal de inspiração anarquista “Vida Nova”2, de Ponta Delgada, que terei lido e não dado muita importância. Em 2010, no âmbito do meu envolvimento na defesa dos animais, ao pesquisar sobre Alice Moderno, precursora dos actuais movimentos de defesa do ambiente e amiga dos animais, deparei-me com um texto de João Anglin, no jornal A Folha3, que primeiro havia sido publicado no “Vida Nova”.

A leitura, quase simultânea, da História dos Açores, de Carlos Melo Bento, onde o Dr. João Anglin era apresentado como “professor liceal de grande mérito pedagógico, legionário nacionalista e um dos importantes esteios do regime” (Bento, 2010, p.130) e do livro “A oposição ao Salazarismo em São Miguel e em Outras Ilhas Açorianas (1950-1974) ” onde a dado passo pode ler-se que o Liceu Antero de Quental, em pleno regime salazarista conservava sob a gestão do Dr. João Anglin “significativos traços democráticos” e que aquele “estava longe de ser uma figura autoritária e era coadjuvado, nas suas funções, por professores de tradições democráticas, como o meu pai4 e o Dr. João Bernardo Rodrigues.” (Miranda, 2009, p. 117) despertou-me a curiosidade em conhecer melhor a personalidade do Dr. João Anglin que foi durante muitos anos reitor do Liceu Antero de Quental, escola onde frequentei os antigos 6º e 7º anos do Ensino Liceal, hoje correspondentes ao 10º e 11º anos de escolaridade.

A seguir, com vista a conhecer melhor a vida e a obra do Dr. João Anglin, o primeiro passo foi, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, consultar todos os exemplares 1

Órgão do Instituto Cultural de Ponta Delgada, publica-se desde 1944.

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O Jornal Vida Nova publicou-se, quinzenalmente, em Ponta Delgada entre 1908 e 1912 e intitulava-se de “órgão do operariado micaelense”. Foi seu director Francisco Soares Silva, proprietário de um atelier de pintura decorativa. Existe um trabalho sobre o jornal, datado de 1995, realizado no âmbito do Seminário “História Económica e Social Contemporânea”, da Universidade Lusófona, da autoria de Licínia Correia, que foi publicado, em 1996, na Revista “INSVLANA”, vol. LII. 3

Jornal criado por Alice Moderno. Publicou-se, em Ponta Delgada, entre 1902 e1917.

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Dr. Lúcio Miranda, professor de matemática, pai de Sacuntala de Miranda e casado com D. Fedora Serpa de Miranda. Faleceu em Londres, onde se encontrava exilado.

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disponíveis do “Vida Nova”, fotografar todos os textos da sua autoria e depois lê-los. Terminada, digamos, esta primeira fase, fui procurar, na minha pequena biblioteca particular, todas as publicações sobre ele ou da sua autoria.

Através da investigação, até à presente data, não exaustiva, que fiz, pois limitou-se ao Jornal Vida Nova e a algumas obras de João Anglin, escritas após a sua adesão ao Estado Novo, pode-se concluir que, na sua adolescência, ele foi um militante libertário, já que não se limitou a “uma adesão intelectual à doutrina”, mas teve uma actividade de relevo “no sentido de difundir e alargar o raio de influência social” do ideal anarquista (Freire, 1992, p.27), como o demonstram os textos que publicou no mencionado jornal.

Antes de apresentar uma transcrição de vários textos do jovem João Anglin, com a caligrafia actualizada e com notas da minha autoria, apresento, a seguir, alguns parágrafos sobre o seu pensamento durante o período que vai de 8 de Junho de 1908 a 22 de Abril de 1911.

O 1º de Maio, data comemorada em Portugal desde 1890 (Fonseca, 1990), foi tema usado por João Anglin em dois textos. Para além da denúncia da situação degradante em que viviam (e vivem) os mais explorados, nomeadamente os operários, há nos textos uma mensagem de denúncia do capitalismo e da transformação da data, por alguns, em dia de “festas e patuscadas” e uma palavra de esperança numa revolução que “se não fará esperar muito”. Só quando tal acontecer, escrevia Anglin, aquele dia deixará “de ser um dia de protesto e de luta para ser um dia de festa e regozijo universais”.

O combate aos vícios, como o tabagismo e o alcoolismo, foi um dos temas que ocupou muitos anarquistas, de tal modo que numa Conferência realizada em Alenquer, em 1923, foi “aprovada uma tese que condenava o alcoolismo e o tabagismo “como determinantes da decadência física do homem” (Sousa, 1989, p.100). A propósito do alcoolismo, João Anglin lançou o seguinte apelo: “Operários micaelenses! Abandonai a imunda taberna, esse antro de penúrias e desgraças; deixai de frequentar essas nojentas espeluncas que não vos prestam outro serviço senão o de arruinar a vossa saúde e consequentemente a de vossos filhos; renunciai a tudo isso e trabalhai com 6


ardor pela causa da vossa emancipação que é uma causa justa, equitativa e racional”.

O Vida Nova, pela pena de João Anglin, foi também um dos pioneiros, nos Açores, na chamada de atenção para os maus tratos infligidos aos animais domésticos, nomeadamente aos animais de tiro (bois, cavalos e burros). Os seus apelos, que eram simultaneamente denúncias pelo facto das palavras não se traduzirem em actos, foram importantes, ou mesmo decisivos, no sentido da criação da Sociedade Micaelense Protectora dos Animais, que viria a ser legalizada a 13 de Setembro de 1911, mas que começou a ter um funcionamento efectivo com a chegada à sua presidência, em 1914, de Alice Moderno. Com efeito, foi com esta que a vida da SMPA alterou-se por completo, tanto no que diz respeito à tomada de medidas conducentes a acabar com os maus tratos que eram alvo os animais usados no transporte de cargas diversas, nomeadamente os que transportavam beterraba para a fábrica do açúcar, como na tomada de medidas com vista à educação dos mais novos.

O anti-militarismo foi, também, um assunto que não esteve ausente das preocupações e textos de João Anglin e do Vida Nova à semelhança do que acontecia noutros jornais nacionais que publicavam cartas/apelos aos soldados ou cartas destes a descrever a vida nos quartéis (Freire, 1992). Num congresso anarquista realizado em 1911 foi aprovada uma tese onde era afirmado que “o militarismo provoca a inversão sexual, sífilis e alcoolismo. Homens degenerados e máquinas de matar” (Freire, 1992, p.330). João Anglin, para além considerar os quartéis como “focos de imoralidade e ociosidade” escrevia que com a incorporação no exército perdiam-se braços produtores (na agricultura) e quem beneficiava era “o Estado e toda essa corte de satélites que em torno dele adejam, porque assim é mais um autómato a servi-los, mais uma lança a defendêlos”.

A influência da Igreja Católica na sociedade micaelense foi um dos alvos do combate de João Anglin como se pode confirmar através da leitura de alguns dos seus textos, nomeadamente os que polemizavam com o jornal São Miguel e o intitulado “Miséria”, escrito em defesa do contramestre da banda regional e de outros militares que foram detidos por não se terem confessado. Neste texto, para além da denúncia do militarismo, o autor, tal como outros anarquistas, mais do que combater os fundamentos da religião, 7


aponta as suas baterias para os “ministros” que corrompem “as sublimes doutrinas do fundador do Cristianismo”.

A leitura atenta do que escreveu João Anglin sobre a igreja e a religião leva-nos a concluir que o seu anti-clericalismo está associado à ligação existente, segundo os anarquistas, entre o clero e a sua oposição ao avanço da ciência. A propósito, escrevia o jornal A Lanterna, publicado em 1901 (Vallladares, 2000, p. 67): “E por que perseguem os padres a ciência? Porque sabem que quando o povo tiver uma cultura científica e bem sólida, os padres não terão mais o que comer. Porque sabem que quando a ciência abrir os olhos do povo, ele verá claramente a inutilidade, a monstruosidade, a podridão dos padres e horrorizado, os banirão. Porque sabem que quando o povo tiver ciência suficiente verá que os padres são inimigos do homem, da família, do país, da humanidade.”

Na maioria dos textos de João Anglin a educação e a instrução são os temas principais. Segundo ele, a sociedade retrógrada em que vivia só poderia ser destruída por meio da instrução que segundo ele é: “O único guia seguro que dirige os povos pela estrada que conduz à civilização; ela é também o meio eficaz para as massas proletárias se libertarem do jugo que lhes impõe a burguesia. Só por meio de uma instrução baseada nos princípios da justiça e do amor, é que o povo compreenderá os seus direitos e gritará bem alto: Queremos liberdade.” É por estar convicto que “as pessoas educadas para a liberdade e igualdade enxergariam o mundo a partir de uma óptica, bastante distinta daquela filtrada pela ideologia que justificava a dominação e a exploração” (Valladares, 2000, p. 23) que João Anglin toma partido por Francisco Ferrer e Guardia, criador da Escola Moderna pois, segundo ele, nas Escolas Racionalistas “o ensino é baseado unicamente na razão, havendo da parte dos professores o máximo cuidado em não inculcar às crianças ideias que a ciência 8


rejeita e a razão reprova. D’est’arte em lugar de escravos submissos as Escolas Racionalistas formavam homens rebeldes e conscientes, fortemente preparados para a luta contra a tirania”.

Contrariamente ao propalado pelos três grandes inimigos do anarquismo, o Estado, a Religião e o Capital, a acção dos anarquistas ao longo dos tempos tem privilegiado a propaganda e a violência só foi usada por correntes minoritárias ou por indivíduos isolados. De acordo com Freire (1992, p. 350) os anarquistas “identificando no estado, na propriedade privada açambarcada, no militarismo, no fanatismo religioso ou patriótico, etc., formas permanentes de violência, e desejando que esta situação cessasse - cessando com ela também a violência - não viam outro meio senão o uso de uma outra violência, esta justa, legítima e necessária, para atingir tão altruísta e benfazejo fim.”

Em muitos dos textos escritos por João Anglin há um apelo contínuo à instrução e educação e só esporadicamente surgem palavras apoiando a necessidade do uso da violência, de que é exemplo o seguinte extracto: “Multidões de famintos, cobertos de andrajos que vos afundais no lodaçal da miséria, reflecti na vossa situação desesperada, compenetrai-vos dos direitos que vos assistem, acordai da apatia em que até aqui tendes permanecido

e

levantai-vos

impetuosamente,

revolucionariamente,

destruindo os males que vos oprimem, exterminando os vampiros que vos atormentam”. A citação referida, está inserida no texto intitulado “O proletariado universal” que começa com um extracto de William Godwin. Ao escrever o mencionado texto João Anglin ter-se-á inspirado naquele autor ou no texto que abaixo se transcreve de Eça de Queirós (1979, p. 4): “As revoluções não são factos que se aplaudam ou se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade.

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Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regímenes, com as tiranias, são maiores ainda. …… As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias.”

Através da leitura dos textos da autoria de João Anglin, com aproximadamente cem anos, pode-se constatar que tanto a nível regional como a nível mundial tanto e tão pouco se alterou pelo que ainda, ao contrário do que ele dava a entender, está muito longe e é tortuoso e íngreme o caminho para uma sociedade mais justa, fraterna e pacífica. Mas, tal como referia Luce Fabbri: “É mais importante o caminho – até à anarquia -, do que a meta – porque à meta não se chega nunca e, em contrapartida, o caminho é o concreto. É muito importante que o caminho se torne coerente com a finalidade, pois é a única coisa palpável que temos. Se abandonamos o princípio como forma de chegar mais rápido à meta, suicidamo-nos”5

Pico da Pedra, 7 de Abril de 2011

T. Braga

5

Utopia, nº 6, p. 82

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A EDUCAÇÃO DA CRIANÇA PERANTE AS IDEIAS NOVAS6

A instrução é o assunto que hoje preocupa os espíritos e prende as atenções de todos quantos desejam o bem-estar da humanidade. Porém, na nossa fraca compreensão, o ensino não deve ser ministrado às crianças de um modo que só se procure tirar delas o mais possível, isto é, ensinar-lhes somente o que os programas exigem, para as poder habilitar ao exame de instrução primária e … mais nada. Não; o professor deve, desde já, ir incutindo no ânimo da criança o amor por toda essa massa evolutiva que se chama humanidade; deve ir lançando neste campo tão produtivo, a semente que mais tarde há-de germinar e produzir frutos cujo sabor agradável as gerações vindouras apreciarão. Não basta instruir uma criança, é também necessário educá-la. Urge mostrar-lhe, ainda que em ligeiros traços, o que é a humanidade, e como devem existir laços de confraternização entre os homens; dar-lhe uma pequena notícia acerca dos que trabalham mais denodadamente para conseguir a resolução do grande problema da emancipação humana; enfim, dar-lhe os indispensáveis esclarecimentos, para quando entre na senda da vida, saber com quem trata, e não se deixar ludibriar por essa turba de gananciosos que a todo o transe a querem perder. O trabalho tudo vence. Juntando a educação à instrução tudo se conseguirá. Ponta Delgada, 8-6-1908 J.A.

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Vida Nova, nº 3, p.2, 10 de Junho de 1908

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O PROGRESSO7

O progresso é a evolução contínua que se produz diariamente em tudo e qualquer meio mais ou menos culto. O sábio em seu gabinete de trabalho, o operário em sua oficina, o agricultor em seus campos, todos, todos diariamente progridem. O primeiro, fruto do seu estudo e preservação, dá à luz suas invenções, enriquecendo a ciência a grande mestra da humanidade; e o segundo procura por todos os modos sobressair aos da sua arte, tornando a obra mais perfeita, isto é, fazendo com que esse ramo de trabalho progrida; o terceiro, graças ao seu labor, tira da terra os valiosos dons que ela produz, cooperando, também desse modo, para as leis inquebrantáveis do progresso. Há porém uma poderosa alavanca que reage contra as densas trevas da ignorância e transpõe todos os obstáculos que se opõem ao progresso. Essa poderosa alavanca é, sem dúvida alguma a instrução. É ela o único guia seguro que dirige os povos pela estrada que conduz à civilização; ela é também o meio eficaz para as massas proletárias se libertarem do jugo que lhes impõe a burguesia. Só por meio de uma instrução baseada nos princípios da justiça e do amor, é que o povo compreenderá os seus direitos e gritará bem alto: Queremos liberdade. J.A.

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Vida Nova, nº 5, pp. 2 e 3, 10 de Julho de 1908

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ASSOCIAÇÕES DE CLASSE8 Estas associações prestam a todas as classes um serviço valiosíssimo, não só porque afastam um indivíduo do caminho que o conduziria à desgraça e talvez ao crime, mas também porque esclarecem o espírito (por meio de conferências ou outros quaisquer meios de propaganda) tornando-o conhecedor de um certo número de coisas indispensáveis à vida. Assim, todas as classes deviam ter as suas associações. No nosso meio, os operários mais do que ninguém necessitam delas, porque, salvo raras excepções, o único entretenimento (se acaso se pode chamar entretenimento) que eles possuem é a taberna, onde gastam o seu salário levando ao seio das suas famílias a desordem, a fome e a desgraça. Felizmente que na nossa cidade de Ponta Delgada, já existe uma que tem prestado óptimos serviços à classe a que se destina, não só por conferências de grande alcance ali realizadas mas também porque possui um excelente gabinete de leitura onde os empregados do comércio podem facilmente procurar o pão do espírito. Que grande felicidade adviria aos proletários se estes possuíssem as suas associações!

Poderiam

sem

embargo

algum

educar-se,

instruir-se,

e

pedir

desassombradamente a garantia e a efectividade dos seus direitos. No nosso meio, infelizmente, tal não acontece; mas virá o momento fatal em que eles, de uma vez para sempre se libertarão do jugo tirânico que por enquanto lhes é imposto. A hora fatal há-de soar, e o actual sistema social há-de submergir-se no fundo dum oceano revoltoso para não mais aparecer. Mas como derrocá-lo? Como exterminá-lo definitivamente? Só por meio da instrução. Quando o povo tiver a nítida compreensão dos seus direitos, quando ele se libertar da ignorância em que jaz e que é tão conveniente para os conservadores do sistema que agora está em vigor, então terá a verdadeira felicidade. J.A.

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Vida Nova, nº 6, p. 2, 29 de Julho de 1908

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DESARMONIA SOCIAL9

O dia surgira belo; o Sol, despontando no horizonte com seus raios ainda pouco luminosos, dava vida e animação a toda a natureza; a fresca brisa da manhã era como um bálsamo dulcíssimo suavizando toda a obra da criação; os passarinhos nas árvores entoavam um hino harmonioso, sentindo-se alegres e felizes por verem a luz de mais aquele dia. Toda a natureza se sentia alegre e jubilosa, pois que tudo era harmonia, concórdia e paz. Todos os animais se sentiam felizes, porque eram livres; todos se sentiam alegres porque ia começar mais um dia de trabalho pela própria conservação e sustento dos filhos; um trabalho que sintetiza amor, abnegação; um trabalho que lhes é benignamente imposto pela Providência e não um trabalho como o que é brutal e estupidamente imposto ao pobre operário que toda a vida geme oprimido e tiranizado. Enfim, reinava em toda a natureza uma santa harmonia e jubilo que só os seres felizes podem conservar. ҉

Ao passo que na natureza tudo vive alegre e pacificamente, entre os homens tal não acontece nem acontecerá por muito tempo, porque sem haver uma transformação radical em tudo o que reverta em prol duns e contra os outros, existirá sempre intrigas, ódios, ganâncias, etc. Enquanto o povo permanecer nas trevas da ignorância, há-de ser sempre oprimido; mas um dia que ele se liberte do obscurantismo em que jaz então travar-se-á a luta, e a vitória certamente redundará em proveito do mesmo povo, pois que ela combate pela razão e pela justiça. É por isso que a instrução convém aos amigos do progresso, que não aos retrógrados e optimistas. A desarmonia social só é resultante da opressão que as massas populares actualmente sofrem, porque se elas não fossem tiranizadas como o são reinaria sempre completa harmonia e sossego.

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Vida Nova, nº 7, p.2, 11 de Agosto de 1908

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҉

Dirá o bom leitor amigo: Arre, tanto falar em opressões e tiranias! É verdade que empregamos frequentes vezes estas palavras, mas é-nos completamente impossível deixar de proferi-las, porque são elas que, postas em prática, embaraçam seriamente o povo, e nós como democratas que somos, não podemos deixar de as dizer, na defesa dos legítimos interesses das classes proletárias. J.A.

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ILUSÕES E ILUDIDOS10

A ideia grandiosa e sublime que pretende emancipar a humanidade aflita não é uma utopia ou uma impossibilidade, nem os seus sinceros e verdadeiros adeptos são fantasiosos ou utópicos. Não. É irrisório e até inacreditável que muitas pessoas ilustradas ou ignorantes julguem que é uma coisa totalmente impossível, o povo reivindicar os direitos a que tem jus. Quem pensa dessa forma, quem vê as coisas por esse prisma, navega em mar, aliás irrequieto, de ilusões. O povo que continuamente sofre privações de toda a espécie que anda quase nu – e muitas vezes temos ocasião de presenciar esse facto – tiritando de frio nas longas noites de inverno, sem ter uma almofada em que recostar a cabeça ou uma manta com que cobrir-se, não tem toda a razão em pedir a reivindicação dos seus direitos!? E ainda há quem lha negue! … Enquanto uns vivem no maior luxo e magnificência, comendo as belas viandas, bebendo o excelente Champanhe, frequentando bailes e clubes, passeando de carruagem com um cocheiro de libré e uma magnífica parelha inglesa, viajando no Mediterrâneo ou partes circunfluentes, outros há que vivem na maior miséria, comendo pão com sardinha amarela, bebendo água simplesmente; frequentando as oficinas e campos para ganhar um mísero vintém, percorrendo longas caminhadas, enviados pelo patrão em busca de algum rendeiro mau pagador. E não há nada que lhes possa garantir uma velhice feliz e tranquila! É triste e muito triste. A sociedade actual está assim constituída, e permanecerá incólume ainda por muito tempo. Ah! Mas os ecos da luta titânica que se há-de travar já ressoam por todo o mundo! Os altos poderes governativos têm lançado mão de todos os subterfúgios para abafar a já tão falada questão social.

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Vida Nova, nº 8, p. 2, 24 de Agosto de 1908

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De nada, porém lhes valerão todos esses subterfúgios, que o clarim da revolta já atroa nos ares. Todas as opressões deixarão de existir e os rostos macilentos que denotam fome desaparecerão por completo. Assim se constituirá a “sociedade nova e feliz que há muito ambicionamos”. J.A.

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A INSTRUÇÃO11

Poderosíssima alavanca do progresso, a instrução é indubitavelmente o maior precursor e o melhor meio com que os sinceros e leais apóstolos do bem podem contar, para a realização do seu ideal grandioso. É o maior precursor, porque ela é como que uma “guarda avançada” que caminha à frente dos povos que a possuem, dirigindo-os e encaminhando-os pela estrada, que os há-de conduzir à felicidade. É o melhor meio, porque só por ela é que se conseguirá esse grande desideratum que de há séculos se vem cada vez mais arraigando no espírito dos que pretendem o bem-estar comum dos homens. A instrução é uma luz cujos raios luminosíssimos penetram através da mais densa escuridão e se repercutem através das mais densas trevas; ela é um farol bonançoso e radiante que se reflecte no obscurantismo das multidões, produzindo um benéfico efeito. Mas qual é a conveniência que os conservadores têm em querer que o povo permaneça na eterna ignorância? Ah! A ignorância do povo é sobremaneira conveniente para os comilões e para os parasitas que à custa do mesmo povo se banqueteiam e vivem comodamente. O povo tem que lutar contra esses gananciosos exploradores da humanidade aflita e para obter a vitória é necessário que seja sólida e convenientemente instruído. O campo é grande e é preciso trabalharmos muito para atingirmos o nosso alvo. Ainda há milhares de cérebros que necessitam de luz e muita luz. Todos nós devemos trabalhar unanimemente para conseguirmos um fim que vise a destruição completa dos opressores e a felicidade dos pobres e oprimidos. Esse fim só se consegue pela instrução. Por enquanto a Humanidade está presa por um forte grilhão; urge pois libertá-la. Todos os amigos do progresso e da liberdade bem compreendida devem esforçar-se de comum acordo por conseguir a realização do seu ideal, que é um ideal de paz e amor, instruindo as massas populares e mostrando-lhes desse modo o verdadeiro e único caminho que as há-de conduzir à sua completa emancipação.

11

Vida Nova, nº 9, p. 2, 11 de Setembro de 1908

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҉ Infelizmente, neste desgraçado país - Portugal – pouco ou nada se tem feito para a instrução. O dinheiro do povo não se aplica em seu proveito; aplica-se em adiantamentos, que é como quem diz em comezainas e divertimentos. O operário, o camponês, vítimas do Capitalismo, trabalham constantemente sob um Sol abrasador para ganharem uns míseros vinténs com que sustentarem-se e aos seus; pagam todos os anos contribuições pesadíssimas, porque a organização actual assim lhes exige e no final de contas, o seu dinheiro que tanto trabalho e fadigas custou reverte em prol desses que criminosamente o governam!! É vergonhoso! O povo desconhece o fim que tem o produto do seu trabalho, porque é ignorante. É necessário pois, elucidar-lhes a inteligência e mostrar-lhes claramente como o fruto do seu labor é aplicado em sustentar a vida ociosa desses que hoje estão investidos do poder. J.A.

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UM GRANDE E INSIGNE VULTO12 Léon Tolstói!13 Eis aqui o nome duma individualidade literária conhecida, em todo o mundo culto; eis o nome dum homem cujas doutrinas resplandecem de luz, moral e amor; eis finalmente o nome dum dos maiores revolucionários do nosso tempo. Tolstói tem imortalizado e vulgarizado o me de muitas formas, entre as quais sobressai a da sua abnegação extrema. Possuidor, que era, de uma avultadíssima fortuna agraciado com o título de conde, a que não liga, todavia, a menor importância, abandonou por completo a familiaridade dos áulicos e burgueses, para conviver com as vítimas do Capital. Hoje, vê-se reduzido à miséria, vivendo apenas do produto da venda das suas magníficas obras. Devido ao seu desinteresse é que os zoilos e vis e os ignorantes pretendem menoscabar e ofuscar o brilho desse grande velho chamando-o louco!! Néscios. Como pode ser louco um homem que continuamente dá à luz da publicidade obras que imortalizam o seu nome e assombram o mundo!? Tolstói pode ter o seu fraco, como quase todos os homens de talento o têm; mas, louco! Loucos são esses que por ignorância assim o intitulam. ҉

Como é sublime e belo ver um homem desinteressar-se de todas as comodidades que uma colossal fortuna lhe proporciona para se aproximar dos infelizes e cooperar com eles na grande obra emancipadora da Humanidade!? Só almas verdadeiramente compassivas, aliadas a psicologias fraternais, produzem rasgos de generosidade como este a que me estou referindo, que tornam para sempre simpática a memória de quem os pratica. Tolstói tem a verdadeira compreensão da igualdade universal. 12

Vida Nova, nº 10, p.2, 28 de Setembro de 1908

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Um dos maiores escritores de todos os tempos, Tolstói (1828-1910) foi pacifista e defendeu uma vida simples e em comunhão com a natureza. Embora Tolstói não se incluísse entre os anarquistas, alguns pensadores consideram-no próximo do anarquismo e outros integram-no no denominado anarquismo cristão.

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Assim a tivessem todos. Homens desta natureza só de tempos e tempos aparecem para, com os seus corações diamantinos beneficiarem a Humanidade; a Providência parece predispô-los para o bem e para a virtude, arraigando nos seus corações um acrisolado amor pelos seus semelhantes oprimidos. Eles são, por isso, dignos de toda a nossa consideração e respeito. Através da sua rápida passagem por este mundo, deixam como atrás de si um rasto luminoso que nos adverte a nunca mais os votarmos ao esquecimento. Neste caso está o grande e imortal Tolstói. J.A.

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A QUESTÃO SOCIAL14

A questão que hoje mais preocupa e embaraça os governos é a incontestavelmente a questão social, porque ela, além de lhes retardar a marcha danificadora, prossegue cada vez mais impetuosa na esteira do progresso, levando por toda a parte o grito da revolta e o frémito da indignação e prejudicando de um modo verdadeiramente ameaçador os magnates e os burgueses. E então, todos esses senhores, vendo que ela cada vez toma maior incremento e assume maiores proporções, unem-se de comum acordo, perseguindo-nos como cães danados e movendo-nos por toda a parte uma guerra muda e inclemente, como muito bem diz o camarada Homem Cristo, filho15. Até nos povos, ainda os mais conservadores, como os súbditos de sua graciosa majestade, os ecos da revolta agora iniciada já se fazem ouvir, como bem o demonstram os apupos e assuadas de que foi alvo o duque de Connanght. Mas ainda não é tudo; estes acontecimentos, aliás significativos, da ocasião, são apenas ligeiros sintomas de próxima ou longínqua revolução; são simplesmente vagos murmúrios dos sucessos fatais do tempo futuro. Os decantados e célebres tempos em que a nobreza e o clero massacravam e escravizavas estupidamente os povos, já passaram; ainda hoje, infelizmente, há massacres e tiranias, impróprias da época em que vivemos. Essas tiranias e massacres produzidos pela burguesia e pelos que querem implantar um regime teocrático e beatífico só fazem exacerbar cada vez mais animo e revoltar o espírito das multidões. Olhando agora um pouco para os funestos acontecimentos que têm lugar em cada estado, vemos a bárbara Rússia onde as carnificinas e os morticínios contra os nossos camaradas, sucedem diariamente e onde a pliça faz proezas só próprias de tigres; a civilizada América onde, se algum libertário se ergue para falar em defesa do seu ideal é logo preso e conduzido à …cadeia eléctrica; o esfacelado Portugal onde o despótico cacique juiz de instrução, manda prender injusta e cobardemente cinco anarquistas só por quererem transformar esta sociedade vil e gananciosa, numa sociedade nova, feliz, e livre de preconceitos e velharias e por se dizer que estavam implicados na já enfadonha 14

Vida Nova, nº 11, p. 3, 12 de Outubro de 1908

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Homem Cristo Filho, de seu nome Francisco Manuel Homem Cristo (1892-1928) foi intelectual, escritor e activista português que, tendo iniciado a sua actividade pública como anarquista, acabou por se tornar num activista antidemocrático, amigo de Mussolini e admirador do fascismo italiano.

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questão do regicídio; a civilizada França onde Mr. Clemenceau que levou 30 anos consecutivos a pregar às massas o ideal anarquista, castiga severamente os causadores dos motins populares durante as greves de Draveil e Vigneux. Todos estes estados, uns democráticos, outros monárquicos constitucionais e ainda outros monárquicos absolutos se levantam como um leão agonizante e ferido, perseguindo-nos, aviltando-nos e oprimindo-nos sempre. É por isso que nós trabalhamos com mais ardor do que nunca, “instruindo os cérebros, fraternizando os corações e revoltando os espíritos”. J.H.A.

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ANTI-MILITARISMO16 Na formosa aldeia de …, residia a viúva dum honrado trabalhador que morrera juntamente com alguns dos seus companheiros, quando procediam à abertura de um túnel, que comunicava com uma cidade próxima. Essa mulher, envelhecida mais pelo sofrimento e desgostos anteriores do que pela idade, tinha um filho - único ente que a terrível parca lhe deixara – rapaz robusto e saudável que à custa do árduo trabalho de cultivar os campos, conseguia sustentar-se e à mãe. Ambos se amavam terna e afectuosamente. Os dias sucediam-se uns aos outros, e nada alterava a doce paz e alegria que sentiam aqueles dois entes, apesar da pobreza que os rodeava. O filho, mourejando pelos campos, no estio sob um Sol ardentíssimo, ou no Inverno entre espessas camadas de neve, costumara-se a ouvir o mavioso cântico dos pássaros e o doce balido das ovelhas; a mãe no recanto da sua humilde habitação, ora tratando da limpeza da mesma, ora preparando o escasso alimento de cada dia, sentia no sei intimo uma alegria inexplicável… Assim

viviam

ambos, em

harmonia

e

paz

inigualáveis,

amando-se

reciprocamente. ҉

Ah! Mas quão efémera e passageira é a alegria dos pobres!! Num taciturno e sombrio dia do mês de Novembro, circulara pela aldeia uma triste nova, que pusera em sobressalto quase todas as famílias da pequena povoação. Chegara a junta de inspecção aos recrutas que naquele ano deviam servir no exército e armada. Que tristeza e angústia não sentiu aquela pobre mãe, ao ver o filho brutalmente arrancado do lar doméstico, para se ir domiciliar nesses focos de imoralidade e ociosidade a que chamam quartéis!? Continua17 J.H.A.

16

Vida Nova, nº 13, p. 2, 16 de Novembro de 1908

17

A continuação deste texto só ocorreu no nº 17 do jornal Vida Nova, editado a 13 de Janeiro de 1909.

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ESCLARECENDO18 O S. Miguel19, que é como quem diz O Retrógrado, publicou no seu nº 177 um artigo intitulado Pedagogos Portugueses em que pretendia, ou para melhor dizer, em que se esforçava por demonstrar o estado lastimável, sob o ponto de vista religioso, em que se encontravam os apóstolos da instrução em Portugal. Só tarde lhe fazemos os comentários precisos por este jornal ser quinzenário e por outras razões que escusamos expor. Referimo-nos simplesmente a uma parte do aludido artigo por ser a que mais nos importa; é a seguinte que diz: “Numa festa escolar, realizada há pouco nas províncias, o sub-inspector que a ela presidiu, depois de muito arengar às crianças sobre coisas religiosas e políticas, recomendando-lhes o desprezo pela religião e a desobediência aos poderes constituídos, fê-las desfilar perante uma bandeira encarnada, símbolo da anarquia, do ódio e da carnificina, que tiveram de saudar, em obediência a um tal pedagogo, funcionário do estado”. O que é que o colega entende por anarquia? Julga talvez que é a desordem, a confusão; julga que os libertários pretendem constituir uma sociedade em que se manifestará, como agora, o ódio e a carnificina?20 É uma obra de caridade ensinar os ignorantes, e nós vimos praticá-la, porque o colega neste ponto labora em grande erro. Os anarquistas ambicionam uma sociedade em que desaparecerão por completo todas as injustiças, todas as tiranias e todos os males que afligem e consomem a desgraçada e sofredora humanidade; uma sociedade em que claramente se manifestará o amor entre todos os homens, sem distinção de raças; em que se manifestará o bem estar universal e o individual; em que a liberdade, pura ilusão de hoje, mas perfeita realidade no futuro, se evidenciará de modo positivo, em que haverá a igualdade e a fraternidade, 18

Vida Nova, nº 14, pp. 1 e 2, 30 de Novembro de 1908

19

Jornal semanal religioso-social que se publicou, em Ponta Delgada, entre 1905 e 1911. Foi seu director o padre José Rebelo Cordeiro. 20

Passado mais de um século após a publicação deste texto, a anarquia continua a ser conotada, pelos seus inimigos, com “desordem, bagunça, baderna” enquanto para os anarquistas, “a anarquia é interpretada positivamente, como condição única da liberdade e da organização solidária entre os homens” (Gallo, 2006, p. 16). A propósito, o sociólogo João Freire (1992, p. 26) escreve: “o anarquismo propõe, como desejável e possível, o estabelecimento de um meio social fundado sobre o máximo de liberdade para os indivíduos e, simultaneamente, um máximo de equidade (igualdade, justiça, harmonia, solidariedade e integração) nas necessárias relações que eles estabelecem ao viverem em sociedade.”

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não como as pregam os socialistas autoritários ou católicos que também contribuem para trazer os povos sob um jugo despótico, mas uma igualdade e uma fraternidade de que participarão todos os homens. A significação da palavra anarquia, segundo a dão alguns dicionários cujos autores também comungam de princípios conservadores, não é a de confusão ou desordem. Não, caro colega. O ideal libertário é sublime; a missão dos seus sequazes é civilizadora; eles anelam a felicidade e o bem-estar de todos os povos; a ciência será facultada a todos os homens, e portanto avançará e progredirá muito mais rapidamente do que agora, constituindo assim um bem e um benefício para toda a humanidade, e não, como actualmente sucede, só para uma parte privilegiada dela. Examine e investigue o colega sobre esse assunto, e verá se o que dissemos é não verdade. Ponta Delgada J.H.A.

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INSISTINDO21

O São Miguel, seguindo sempre o vergonhoso e aviltante lema da hipocrisia e da falsidade que lhe são peculiares e até mesmo convenientes, vem no seu nº 179 arengar sobre assuntos que mostra desconhecer em absoluto. Assim, descurando por completo da matéria que tratamos nosso último número, esforça-se mas em vão, por insinuar que mais que ninguém anela a felicidade das classes proletárias e que essa felicidade jamais se poderá fruir sobre a face da Terra. Tartufos! Como podeis vós desejar a felicidade das massas produtoras se sois os próprios que, iluminando-as com bentinhos, rosários ou escapulários, lhes exigis dinheiro em troca desses artificiosos expedientes de exploração?! Como se compreende, vis criaturas, que por ocasião do jubileu do Papa, milhares de bispos e arcebispos atravessassem o oceano em luxuosos paquetes, enquanto igual número de operários se estiolou e definhou a trabalhar e a produzir obras mirificamente executadas que nos enlevam e assombram, para esses mandriões usufruírem e gozarem agora?! Para saberdes, oh hipócritas que “coais um mosquito e engolis um camelo”, que nós não vivemos de ideais quiméricos, lede as seguintes belas palavras do imortal Kropotkine22: “Vós todos que possuis talentos, conhecimentos úteis e honestos, vinde mais as vossas mulheres, pô-los ao serviço de quem deles precisa tanto. E sabei que se vierdes, não como senhores mas como irmãos, não para governar mas para cooperar; menos para ensinar do que para entender a aspiração das multidões obscuras, para as sintetizar e para as formular, para que depois, trabalhando com ardor juvenil, as fazer realizar na vida, - sabei que então mas apenas então, vivereis uma vida bela e racional, e que o sentimento de acordo estabelecido entre a consciência e a acção, vos dará forças de quem nem tínheis mesmo suspeitado. A luta pela verdade, pela justiça, pela igualdade, que achareis de melhor na vida?”. O mesmo filósofo escreve: “Somos poucos? Contemo-nos e vejamos quantos sofremos a injustiça. Cavadores que trabalhamos para os mais e comemos aveia para

21

Vida Nova, nº 15, pp.1 e 2, 17 de Dezembro de 1908

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Kropotkine (1842-1921), geógrafo e escritor russo, foi um dos principais pensadores políticos do anarquismo, do fim do século XIX, sendo considerado também o fundador da corrente anarco -comunista.

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lhes dar o pão, somos milhões de homens. Operários que tecemos a seda e o veludo para andarmos vestidos de farrapos, somos multidões também. Soldados que recebemos as balas para que os oficiais recebam as comendas, - pobres tolos que temos até hoje fuzilado os nossos irmãos - bastará que voltemos as caras para que tremam os que nos comandam. Somos, enfim, a multidão imensa, um grande mar que pode engolir tudo”. Sabei pois, oh cínicos do S. Miguel, que o nosso ideal se há-de um dia converter em realidade; essa formidável legião de trabalhadores, sendo convenientemente instruída e educada, há-de um dia levantar-se como um leão possante e pedir arrogantemente a garantia dos seus direitos; e então a força de que actualmente dispõem os governos será impotente para conter os que clamam justiça, ante a sua acção destruidora e ao mesmo tempo reedificadora. Sabei pois que não somos utopistas. ҉

Acusais também os libertários de muitos e horrorosos crimes. Não somos apologistas do crime; antes o condenamos acremente. Nunca procurais saber, porém, quais as causas que os motivaram, se elas são justas ou injustas; se obedeceram simplesmente ao desejo de matar, ou se foram estimuladas pelas crueldades e injustiças que contra os libertários se praticaram.23 Da nossa parte temos a história que confirma o que dizemos. Também podemos perguntar: quantos crimes horrorosos tem a igreja praticado em nome do Cristianismo? Que fez Torquemada? Que fez o para Alexandre VI? Que fizeram os Borgias altos dignitários da Igreja que tão célebres se tornaram pelos seus crimes? Que fizeram tantas outras feras que, pretextando servir a Deus, torturavam e matavam aos milhares de seus semelhantes? Que serviços prestou à humanidade o odioso e ignóbil tribunal da inquisição?

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De facto houve anarquistas, sobretudo no final do século XIX, que recorreram a acções violentas, mas seria mais correcto afirmar que tal recurso foi também usado por outras correntes políticas. Freire (2009) num texto publicado na Revista A Ideia apresenta um quadro da autoria do Memorial Institute for Prevetion of Terrorism onde são contabilizados entre 1 de Janeiro de 1968 e 1 de Julho de 2007 diversos actos violentes e o número de mortes ocorridos. Através da sua leitura pode-se concluir que os anarquistas são responsáveis por apenas 121 do total de 4 723 incidentes, por uma morte no total de 9 800 e por 16 feridos num total de 26 925, sendo o maior número da responsabilidade de grupos nacionalistas ou separatistas, seguido dos comunistas ou socialistas e dos religiosos.

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Ah insensatos! Mais tínhamos para vos dizer, mas a falta de espaço com que sempre lutamos, obriga-nos a por ponto no assunto. Por agora só nos limitamos a aconselhar que não digais mais disparates, para não incorrerdes no desagrado dos homens criteriosos e de carácter. P. Delgada, 8-12-908 J.H.A.

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DR. SOUSA JÚNIOR24

Temos agora ocasião de presenciar um grande rasgo de filantropia que só por si basta para imortalizar o nome de quem o praticou. É o caso da ida espontânea à ilha Terceira do distinto homem de ciência Sr. Dr. Sousa Júnior25. A missão a que este ilustre cavalheiro se propôs é tão simpática e humanitária, que não podemos deixar de registar nas colunas deste quinzenário o grande exemplo de abnegação e fraternidade que nos acaba de dar o Dr. Sousa Júnior; não podemos deixar de manifestar o nosso caloroso aplauso por tão grande feito de heroicidade, prestando ao mesmo tempo uma sincera homenagem a esse grande vulto que, abandonando o conforto e tranquilidade do seu lar, a alegre companhia dos seus numerosos amigos, o exercício regular da sua clínica, tudo, enfim, se meteu a bordo de um vapor para ir à terra natal socorrer os seus semelhantes que se acham atacados desse terrível morbus a que chamam peste bubónica. Um facto desta natureza que claramente nos revela as apreciáveis qualidades deste ilustre médico, não se pode votar ao olvido, porque nos mostra até à evidência a grandeza de alma desse homem que voluntariamente se prontificou a auxiliar os seus irmãos desamparados. ҉ É um dever “sagrado e indeclinável” tornar patente aos olhos do público feitos que enobrecem e imortalizam os seus autores. É por isso que vimos publicamente manifestar o nosso respeito e admiração por um homem que tem jus a isso e a muito mais ainda. Bem-haja, pois, o ilustre médico. J. H. A.

24

Vida Nova, nº 16, pp. 1 e 2, 30 de Dezembro de 1908

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António Joaquim Sousa Júnior (1871 -1938) foi um médico e político republicano nascido na Praia da Vitória, Ilha Terceira, tendo sido deputado ao Congresso Constituinte de 1911 e, por duas vezes, Ministro da Instrução Pública de governos da Primeira República Portuguesa. Foi um militante republicano progressista antes da implantação da República e membro da Maçonaria deste 1909 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Joaquim_de_Sousa_J%C3%BAnior). Sousa Júnior foi colaborador assíduo do jornal Vida Nova, onde manteve uma secção intitulada “Crónicas Vermelhas”.

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ANTI-MILITARISMO26 (Continuação do nº 13) O mancebo veio para a cidade: aí vestiram-lhe uma farda, colocaram-lhe uma espingarda ao ombro e adestraram-no em diversos exercícios marciais, isto é, ensinaram-lhe o melhor meio de matar os seus semelhantes, quando estes, cansados de tanta infâmia e de tanta injustiça, se revoltassem contra uma vil sociedade que iniquamente os explora. Quem lucrou com a incorporação deste rapaz nas fileiras do exército? Simplesmente o Estado e toda essa corte de satélites que em torno dele adejam, porque assim é mais um autómato a servi-los, mais uma lança a defendê-los. A agricultura, esse copioso manancial de vida, perdeu um braço produtor e a pobre mãe que tinha o filho por único amparo, foi obrigada a sujeitar-se a um rude trabalho que lentamente lhe abreviava a existência. Mas ainda não é tudo. Aquela alma boa, costumada à doce paz e tranquilidade da aldeia, habituada à vida quase patriarcal dos campos, sofreu uma completa transformação. De dócil que era transformou-se em bruto. De ingénuo e bondoso tornou-se um estúpido imbecil que a nada atendia e que a nada ligava importância, em virtude da péssima educação que recebera na caserna. ҉

Acabado o tempo do serviço, recolheu à aldeia a recomeçar as suas lides campestres. Já não era o rapaz meigo e afável doutros tempos; era quase um carrasco que maltratava os seus companheiros de trabalho e até a própria mãe. Gastava o salário na taberna ou à banca de jogo, não se importando com a miséria em que jazia aquela que lhe deu o Ser. Eis aqui caro leitor, os desastrosos efeitos do militarismo; há ainda outros muitos que não menciono por me escassear o tempo e o espaço. Tolstói diz que o exército foi sempre a base do poder e é ainda na actualidade o seu único apoio. 26

Vida Nova, nº 17, pp.1 e 2, 13 de Janeiro de 1909

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Todo o homem que pensa livremente e que não se prende a preconceitos e velharias, não pode deixar de revoltar-se contra este terrível obstáculo do progresso e do rejuvenescimento da humanidade, porque, segundo o mesmo escritor o poder pertence sempre àquele que comanda o exército, e dos Césares romanos até aos imperadores russos e alemães, o maior cuidado dos potentados é o exército. Ponta Delgada 31-12-908

J.H.A

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O ALCOOLISMO27

Entre todos os males que actualmente definham e debilitam a sofredora humanidade o alcoolismo ocupa incontestavelmente um dos primeiros lugares. O álcool! Implacável inimigo da espécie humana que todos os anos arrasta desapiedadamente à sepultura milhares de vitimas! Terrível flagelo que vagarosas e lentamente consome milhares de vidas! Dolorosa estrada que conduz ao crime, à miséria, à fome … Operários micaelenses! Abandonai a imunda taberna, esse antro de penúrias e desgraças; deixai de frequentar essas nojentas espeluncas que não vos prestam outro serviço senão o de arruinar a vossa saúde e consequentemente a de vossos filhos; renunciai a tudo isso e trabalhai com ardor pela causa da vossa emancipação que é uma causa justa, equitativa e racional. Segundo uma recente estatística vemos que o alcoolismo dá origem anualmente a 52 mil delitos e crimes; em 170 mil tuberculosos contam-se 130 mil alcoólicos; além disso produz por ano 60 mil casos de loucura passageira ou incurável!!! É horroroso! Mas o que é deveras notável é que esta indústria, apesar de todos os males que produz, goza da protecção de alguns governantes e constitui uma boa fonte de riqueza para o Estado e para muitos comerciantes, que auferem prodigiosos lucros, em virtude do largo consumo que ela infelizmente tem. Enquanto ao povo – o zé pagante – esse definha-se, perde a actividade e a energia, graças às desastrosas consequências que resultam do emprego excessivo desse flagelo que se chama o álcool; não se cuida da sua educação; não se trata de melhorar a aviltante situação em que o colocaram os preconceitos, os privilégios, a amontoação de riquezas nuns e a negra miséria em outros. Todos estes factos se dão, tudo isto existe para vergonha da espécie humana!! Só o eficaz influxo da anarquia pode destruir e eliminar para sempre estas infâmias que a sociedade burguesa astuciosamente arranjou para seu único proveito e utilidade. Porém, quando raiar a aurora daquele grandioso dia em que todos os povos se amarão confraternalmente poderemos gritar com toda a força dos pulmões: acabou-se a fome; findaram-se as guerras; derribaram-se as prisões; aboliu-se o crime; extinguiu-se

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Vida Nova, nº 18, p. 2, 29 de Janeiro de 1909

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a propriedade privada; desapareceu o alcoolismo. Todos serão livres, todos serão iguais, então se respirará o ar puro da liberdade de que já se manifestam uns ligeiros sintomas. Ponta Delgada, 6-1-909 J.H.A.

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O LUPANAR28

Quantas vezes ao passar pelas ruas habitadas por essas infelizes que a sociedade atirou à margem, não me ocorrem ao cérebro pensamentos de revolta por me lembrar de todas as causas que motivaram aquela desventura!? Sim, porque a prostituição, obra ignominiosa da sociedade, é uma consequência funesta de todas as artimanhas e preconceitos ardilosamente arranjados e cuidadosamente inoculados no coração do povo, para manter o regime capitalista e burguês. A sociedade para se ver livre deste flagelo - a prostituição - criou a honra, em virtude da qual a mulher que cair em tamanho infortúnio é abandonada por todos e, se quiser matar a fome, tem que inscrever-se em livros especiais para ver assegurado o negro pão que, ainda assim, muitíssimas vezes falta. A vida dessas desventuradas é a verdadeira síntese da miséria e do sofrimento; cheia de amarguras, repleta de infelicidades, ela é a consequência deplorável e o reflexo denunciador de todas as torpezas e infâmias que caracterizam a presente organização social. Para quem devem conseguir, porém, as nossas queixas, os nossos protestos? A quem devemos dirigir as nossas reclamações? A uma sociedade constituída por exploradores gananciosos, parasitas torpes e capitalistas sôfregos de interesses pessoais donde provém a miséria de tantas famílias e a fome em tantos lares! A uma sociedade onde predomina o preconceito, onde impera a ignorância, onde prevalece a desgraça e onde vegeta o crime. Sim; é um dos resultados mais ignóbeis de todas estas baixezas, é, sem dúvida alguma o lupanar. ҉

Se algum dia, caro leitor, te segredarem no ouvido que uma rapariga pobre mas formosa se enamorou do filho de um rico e que este a engravidou; se te disserem que deste amor resultou um filho, não te admires disso, porque estes factos são a prova mais 28

Vida Nova, nº 19, p. 2, 10 de Fevereiro de 1909

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evidente do quanto a sociedade actual é capaz, e representam de um modo irrefutável a injustiça e a maldade dos homens. Mais tarde, porém, se ouvires dizer que ela, abandonada por todos e escarnecida por muitos, foi arrastada à prostituição e findou seus dias miseravelmente, muito menos te deves admirar porque estes casos se repetirão frequentes vezes, enquanto não raiar a brilhante aurora da anarquização mundial. Ponta Delgada, 15-1-909 J.H.A.

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A PENA DE MORTE EM FRANÇA29 A criminalidade tem-se ultimamente desenvolvido de uma maneira aterradora. Os governos lançam mão de todos os meios ao seu alcance a fim de a diminuir, mas por mais esforços que empreguem nunca a poderão evitar ou pelo menos minorar, porque as causas dos crimes nunca cessarão de produzir os seus efeitos enquanto permanecerem as coisas tais como actualmente se encontram. É um facto comprovado que apesar das punições infligidas aos criminosos o número destes não diminui, antes de dia para dia aumenta consideravelmente. É o que está sucedendo na França. O parlamento desta nação, temendo a alteração da tranquilidade publica restabeleceu a pena de morte30 por causa dos apaches que frequentes vezes invadem a capital; esta lei é por todos os motivos odiosa e revoltante. A criminalidade, fruto da sociedade Capitalista, só desaparecerá quando todos os homens estiverem solidamente educados e instruídos segundo os princípios da justiça e do amor que deve existir entre a espécie humana. De contrário, nada se poderá conseguir. A cidade de Paris, como todos sabem, tem sido teatro de horrorosos crimes; ninguém o contesta; mas também ninguém pode contestar que se esses crimes se praticam é porque os seus autores foram educados na escola da devassidão e da libertinagem. Se desde crianças esses indivíduos fossem guiados pela estrada que conduz à prática do bem e da virtude, nada disso sucederia, nem teríamos a lamentar desgraças que entristecem os nossos corações de homens de sentimentos. É na instrução e principalmente na educação que está a chave do aperfeiçoamento humano. Fora disto serão baldados todos os esforços que se empreguem a bem do melhoramento moral da humanidade, e todas as tentativas que se realizem para diminuir o número de crimes, serão inúteis e improfícuas. É preciso convencermo-nos destas verdades.

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Vida Nova, nº 20, p.1, 25 de Fevereiro de 1909

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Em França, a pena de morte só viria a ter totalmente abolida da lei em 1981. Em Portugal, em 1867 a pena de morte foi abolida para crimes de delito comum e em 1911 para crimes militares, tendo sido restabelecida, em 1916, para alguns destes crimes. Em 1976, no nosso país, a pena de morte foi abolida para todos os crimes (Botelho, 1987)

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De resto, se as penas impostas aos criminosos amedrontam muita gente e obstam a que outros delitos se pratiquem, não nos devemos basear nesse facto para apoiar a actual organização social, porque temos a firme e inabalável convicção de que por meio de punições e violências a humanidade jamais se afastará do caminho falso em que a colocaram os seus exploradores. Ponta Delgada, 15-2-909 J.H.A.

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O PROLETARIADO UNIVERSAL31

A circunstância de alguém possuir em abundância coisas de quem outros se acham absolutamente privados é uma fonte perene de crimes. Godwin32

Oh párias desventurados que passais despercebidos aos olhos dos tiranos, oh escravos agrilhoados pelas potentes cadeias da ignorância, oh pequeninos e humildes que sofreis um aviltante jugo, quando vos libertareis vós? Quando gozareis a liberdade tão suspirada e querida? Multidões de famintos, cobertos de andrajos que vos afundais no lodaçal da miséria, reflecti na vossa situação desesperada, compenetrai-vos dos direitos que vos assistem, acordai da apatia em que até aqui tendes permanecido e levantai-vos impetuosamente, revolucionariamente, destruindo os males que vos oprimem, exterminando os vampiros que vos atormentam. Que importa o desdém com que sois tratados pelos poderosos? Vós constituireis a maioria actualmente subjugada, mas possuindo a nítida compreensão de que também sois homens e de que deveis compartilhar das regalias que outros gozam, erguei-vos sem hesitações, porque assim tereis alcançado a felicidade e o bem-estar de que tanto careceis. Compreende-se que, pretendendo libertar-vos do cativeiro que vos é imposto, sejais olhados com indiferença e desprezo por aqueles que têm como principal objectivo a constante dominação dos povos. Mas se a vitória está do vosso lado, se o futuro se apresenta auspicioso, para que desanimar? É verdade que tendes muitos inimigos a combater; todavia, eles serão vencidos se vos lançardes impavidamente à arena do combate. Não há motivo para desfalecimentos. Operários que tudo produzis e pouco ou nada aproveitais do vosso labor, ponderai sobre a triste situação em que vos achais, olhai atentamente as circunstâncias que vos rodeiam, estabelecei a comparação entre a vossa existência e a do rico que vive 31

Vida Nova, nº 21, p. 2, 11 de Março de 1909

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William Godwin (1756 -1836) foi um jornalista, filósofo, político e novelista inglês que é considerado como préanarquista.

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entregue aos divertimentos e prazeres e vinde para o nosso campo lutar pela libertação integral da Humanidade. Lutar e viver! E se é preciso reagir contra as violências do poder, contra as repressões brutais exercidas pelos governantes, não é menos necessário que vos desembaraceis dessa legião de parasitas que, aproveitando-se da protecção que lhe é dispensada pelo Estado, empregam todos os expedientes, os mais vis e mesquinhos, a fim de granjearem adeptos para as suas doutrinas, inculcando no ânimo do povo inexperiente princípios que só servem para o amoldar às actuais circunstâncias e para o obrigar a conformar-se com o presente estado de coisas. Esses homens são os mais rancorosos inimigos do progresso e da felicidade das massas produtoras; entre eles está compreendido o padre, que se não é dos mais perniciosos, é todavia o que mais influência tem no espírito das multidões ignorantes e por isso lhes comunica sem grande custo as suas ideias, as quais, como facilmente se depreende, visam unicamente a conservar as mesmas multidões na miséria e no obscurantismo. Camaradas! Urge que nos unamos para combatermos com energia os adversários da Verdade e da Justiça e redimirmos a humanidade sofredora. Ponta Delgada, J.H.A.

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SITUAÇÃO DESESPERADA33

A envilecida e humilhante situação em que se encontra o proletariado de todo o mundo tem sido bastas vezes descrita com tanto sentimento e originalidade, que julgo tarefa quase inútil vir aqui delineá-la nos seus aspectos mais horrendos e cruciantes … A fome e a miséria espreitam vigilantemente à porta do trabalhador para, num dado momento por ela penetrarem, trazendo consigo todo esse fúnebre cortejo de choros e de gemidos, de dores e de sofrimentos … A luta pela vida, o formidável combate pela existência, é um problema que diaa-dia se torna de mais difícil resolução em vista das tremendas crises que por toda a parte se têm reflectido e ainda pela excessiva careza dos géneros de impreterível utilização. Mas porque se dão estes tristes factos? Porque os Capitalistas, os implacáveis verdugos das classes produtoras preferem que os comestíveis se deteriorem nos armazéns mas …dá-los a quem tem fome, isso nunca. A Riqueza Social, que devia ser propriedade de todos e não monopólio de privilegiados, está pessimamente distribuída por meia dúzia de pedantes que a empregam simplesmente nas suas comodidades, não se importando com a desgraça dos seus semelhantes, com os padecimentos de seus irmãos … Enfim, tudo o que actualmente se passa no mundo não é mais que uma comédia e os farsantes são os ridículos sugadores do povo. ҉

No nosso peito, porém acalentamos a fagueira esperança de que há-de vir dias de paz e felicidade para os operários. Elas não serão os esternos escravos sacrificados ao arbítrio de seus senhores; não, porque o trabalhador de hoje tem conseguido ilustrar-se à custa do seu próprio esforço, e um longo estudo sobre a organização das actuais sociedades leva-o a crer que elas se apoiam unicamente no roubo e na mentira; daí a aversão que ele consagra a tudo o que se opõe ao caminhar do progresso e à boa marcha dos “novos ideais”.

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Vida Nova, nº 22 , pp. 1 e 2, 27 de Março de 1909

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Falando de operário ilustrado, refiro-me, é claro, àquele que vive nos meios onde abundam as associações cuja utilidade é soberanamente conhecida e onde não existe o baixo preconceito que caracteriza as terras pequenas e acanhadas como a nossa. O proletário micaelense jaz infelizmente em profundo e vergonhoso letargo, de que é urgente despertar, para isso é necessário que abandone a imunda taberna, origem de muitas desgraças e gérmen de muitos crimes. Ponta Delgada J.H.A.

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MISÉRIA34

O exército é a escola da miséria, da imoralidade e do crime. A. Hamom. O confessionário é o túmulo da consciência, o sepulcro da dignidade humana e da liberdade. Padre Chiniquy35

Por não querer confessar-se achasse há mais de quinze dias detido no quartel o Sr. Ezequiel Saraiva, contramestre da banda regimental, que a nosso ver e no de toda a gente que pensa livremente procedeu com sensatez e segundo os ditames da sua consciência, recusando prostrar-se aos pés de um homem que de maneira alguma lhe podia perdoar as faltas, pois que o Mártir do Golgotha não conferiu a ninguém o direito de absorver culpas, direito este que infelizmente os seus supostos ministros para si arrogam, corrompendo assim as sublimes doutrinas do fundador do Cristianismo. Há porventura alguma lei que obrigue os militares a confessarem-se? Não nos consta, pois a Carta Constitucional diz que ninguém pode ser perseguido por motivo de religião, uma vez que respeite a do Estado e não ofenda a moral pública. Em face desta disposição do “código fundamental” e de outras que poderemos citar se necessário for, como se compreende a detenção do Sr. Saraiva no quartel? Visto que a confissão não é obrigatória, quais são os motivos porque se priva um homem do convívio da família e dos amigos? Os motivos bem sabemos quais são? O maldito militarismo enquanto subsistir há-de ser a causa primordial de todas as injustiças e vilezas que aviltam o género humano. Nós, socialistas libertários, combatemos esse grande mal porque é ele que protege os tiranos contra as justas indignações dos oprimidos e porque serve de sustentáculo aos parasitas e sugadores do povo produtor. É também ele que todos os anos rouba à agricultura milhares de braços e arrebata bruscamente do seio de suas famílias os mancebos mais válidos e robustos que vão para a caserna aprender a odiar o seu semelhante. 34

Vida Nova, nº 23, pp.1 e 2, 13 de Abril de 1909

35

Ex-padre, autor do livro “O Padre, a mulher e o confessionário”

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Pelo que se refere à confissão já dissemos e podemos provar que ela não foi instituída por Cristo. Sabe-se que foi no quarto Concílio de Latrão, celebrado no ano de 1215, presidido pelo papa Inocêncio III, que se obrigou, sob pena de pecado mortal (!) os crentes de ambos os sexos, depois de atingirem o uso da razão, a confessarem-se a sacerdotes pelo menos uma vez cada ano (Conc. Sat IV. Cau. 21). O “senão comum” reprova a confissão; nenhum homem tem poder de perdoar pecados, porque muitas vezes acontece ser o próprio confessor mais iníquo do que o penitente. Ora, o Sr. Saraiva, raciocinando um pouco recusou confessar-se, pelo que lhe damos toda a razão, tanto mais que esse acto é puramente voluntário. Por idêntico motivo estão também detidos cinco músicos da banda regimental. A quem compete pedimos que restitua a liberdade a esses homens que nenhum mal praticaram e que portanto não devem sofrer. Ponta Delgada Abril de 1909 J.H.A.

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1º DE MAIO36

Aos operários micaelenses Ainda há pouco era a terra envolta por um manto de prata, os campos tinham um aspecto desolado e a vida corria monótona e triste; nenhuma flor ostentava o colorido de suas pétalas; já não se ouvia o silvo da máquina e milhares de operários sem trabalho vagueavam pelas ruas padecendo os horrores da fome e do frio; criancinhas desamparadas, tiritando, encostavam-se aos umbrais das portas e procuravam abrigo durante as noites tempestuosas; a miséria e a desolação assentaram arraiais entre os desprotegidos da sorte. É assim que decorre o Inverno para os pobres, para os sem pão e sem abrigo. Se é certo que a desventura do proletariado é em todo o tempo e por toda a parte a mesma, é todavia inegável que durante a quadra fatal e dolorosa - o Inverno – ela se nos apresenta mais triste e cruciante do que nunca. Mas após esse tempo sombrio e funesto surge a Primavera com seus sorrisos e encantos, cheia de poesia que nos enleva a todos e rejuvenesce o coração. É então o esplendoroso Sol de Maio, esse glorioso dia em que humildes da terra num clamor universal protestam altivamente contra as infâmias e crueldades de que são vítimas, é hoje apenas, como diz Ernesto da Silva, “o prenúncio da intensa e nova aurora destinada a iluminar um dia o Mundo transformado pela solidariedade e amor entre os homens emancipados na Cidade Moderna já entrevista e anunciada em visões de paz universal por filósofos altruístas”. É um dia de revolta e não de festas e patuscadas37, como muitos pretendem; é um dia em que os operários, compreendedores dos seus direitos, erguem a fronte abatida 36

Vida Nova, nº 24, p. 2, 1 de Maio de 1909

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Com o objectivo de reivindicar a redução da jornada de trabalho para 8 horas de trabalho diário realizou-se, a 1 de

Maio de 1886, em Chicago, nos Estados Unidos da América uma greve que contou com a participação de 350 mil trabalhadores. Na sequência de um confronto entre a polícia e os grevistas foi convocada uma manifestação para o dia 4, tendo no decorrer desta morrido um polícia, resultado de uma explosão, e sido assassinados 80 operários. Foram presos alguns dos líderes, dos quais depois de encerrado o processo, em Outubro de 1887: 4 foram enforcados, 5 condenados à morte, 3 condenados a prisão perpétua e 1 foi morto, em circunstâncias estranhas, na prisão.

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e verberam, aliás com toda a razão, a ignóbil sociedade actual, proclamando desassombradamente a era nova de amor e felicidade. É finalmente o dia em que os párias esfarrapados patenteiam bem claramente os seus verdugos, o ardor revolucionário que os anima e impulsiona à luta final que precederá a chegada aos Novos Tempos. João H. Anglin

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LICEU “ANTERO DE QUENTAL”38 Com o título que nos serve de epígrafe publicou o nosso colega da “Mocidade” um artigo em que apresentava o alvitre de se chamar ao nosso liceu “Liceu Antero de Quental”, lembrando também o mesmo colega que era “um esquecimento extraordinário e inexplicável da parte dos micaelenses” o não se colocar uma lápide no edifício onde soltou os primeiros vagidos o imortal poeta das Odes Modernas e dos Sonetos. Estamos plenamente de acordo com o prezado colega, tanto mais que no nº 9 deste quinzenário em artigo firmado pelo camarada Soares Silva, lê-se: “A rua do Castilho tornou-se célebre por ter sido berço de Antero de Quental39 e residência do grande António Feliciano de Castilho40. Na casa onde morou o tradutor do Fausto, desde há muito que colocaram uma lápide de bronze. 38

Vida Nova, nº 28, p. 2, 25 de Julho de 1909

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Antero Tarquínio de Quental (1842 -1891) foi escritor (poeta, ensaísta e filósofo) que teve um papel importante no movimento da Geração de 70. Foi doutrinador e propagandista republicano e socialista, tendo sido um dos redactores do programa do Partido Socialista Português (1875 -1933) que o via mais como um meio de educação social do que de tomada de poder. Um pouco antes, em 1872, foi co-fundador da Associação Fraternidade Operária, representante, em Portugal da Primeira Internacional Operária. Foi o autor, sob anonimato, das seguintes publicações: O que é A Internacional; O Socialismo Contemporâneo, O programa da Internacional, etc. A título de curiosidade deixamos aqui um extracto do opúsculo “O que é A Internacional”: «Mas nós, trabalhadores, que assistimos, espectadores enojados, à comédia tristíssima dos governos da burguesia, que sabemos a soma de baixeza, de intriga, de vilania e de corrupção que representam um parlamento, um ministério e um jornal subsidiado, deixemos que passe por nós, na sua dança macabra, toda essa corte dos milagres , que nem ao menos como a outra, tem a franqueza do cinismo, e não nos indignemos com as vaias dos histriões oficiais ou oficiosos, que, em verdade, não o merecem. ... O programa político das classes trabalhadoras, segundo o Socialismo, cifra-se em uma só palavra: abstenção . Deixemos que esse mundo velho se desorganize, apodreça, se esfacele, por si, pelo efeito do vírus interior que o mina. No dia da decomposição final, nós cá estaremos então, com a nossa energia e virtude conservadas puras e vivas longe dos focos de infecção desta sociedade condenada. A todos os partidos, a todos os governos, e todos os salvadores faremos uma só pergunta: e a reforma social ? Se nos responderem com negativas ou com evasivas, tê-los-emos por inimigos - pouco importa que se chamem monarquia, constitucionalismo, ou república. Para o povo não há senão uma República: a República Democrática Social. Essa é a dos trabalhadores, é a da Internacional: que só essa seja também a nossa! » (http://www.ocomuneiro.com/paginas_01_antero_o_que_e_a_internacional_1871.htm) 40

António Feliciano Castilho (1800-1875) foi um escritor romântico, polemista e pedagogo que viveu em Ponta Delgada de 1847 a 1850. Foi redactor do Agricultor Micaelense, impulsionador da Sociedade dos Amigos das Letras e das Artes e fundador e redactor de A Verdade.

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Agora lembramos aos que por justiça compete fazer o mesmo, colocando na Escola de Desenho Industrial uma pequena inscrição onde se possa ler “Casa onde nasceu Antero de Quental” o mais ilustre filho desta terra, glória nacional e um dos mais intrépidos defensores da humanidade oprimida”. ҉ Só os homens que se sacrificam pelo bem da humanidade é que tem jus à nossa consideração e respeito. Os verdadeiros heróis não são os vencedores de batalhas, que para esses a glória consiste somente no morticínio; são os que se dedicam com todas as forças da alma pela emancipação do povo trabalhador. Neste último caso está o grande Antero; prestandolhe o tributo da nossa homenagem, não fazemos mais que um dever, pois na sua rápida passagem pelo mundo deixou um rasto luminoso a que a posteridade saberá dar o verdadeiro valor. João H. Anglin

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OBRA “GLORIOSA”41 Até que enfim o governo francês pediu a sua demissão! … Está consumada a obra. O Sr. Clemenceau conseguiu o que desejava. O sonho dourado de toda a sua vida, a sua preocupação constante era chegar às culminâncias do poder; não tinha outras aspirações, conseguiu um dia esse desideratum e … sentiu-se feliz! Antes de mais nada convém notar que o ex-presidente do conselho nasceu no seio das classes trabalhadoras. Durante trinta anos consecutivos pregou às massas o ideal libertário, proclamando a greve geral revolucionária e tomando parte nas agitações do povo operário, como já aqui tivemos ocasião de dizer. Mais tarde foi eleito deputado pelos socialistas e como tal tomou assento na câmara; aí começou a sua carreira política, até que chegou a ser chefe do governo. Não resta dúvida que o governo do Sr. Clemenceau foi um governo despótico a toda a prova. Os seus aliados da véspera, aqueles que seguiam o ideal que ele patrocinava e defendia com tanto ardor, foram justamente as vítimas da sua ambição desmedida e do seu desejo ardente de dominar tudo e todos. Assim, os causadores dos motins populares durante as greves de Draveil e Vivneux, foram severamente castigados. O Sr. Clemenceau também concebeu a infeliz ideia de dissolver a Confederação Geral do Trabalho, a mais poderosa confederação do operariado francês! Mui ajuizadamente andou, porém, o ex-presidente do conselho em não por em prática tal ideia, porque então as coisas mudariam de aspecto e a sorte lhe seria adversa. Não sabemos ao certo qual a causa que fez baquear o ministério Clemenceau; cremos, todavia que foi a greve dos empregados dos correios e telégrafos. Durante esta greve o Sr. Clemenceau veio mais uma vez patentear a sua arrogância autoritária, provando assim que nunca teve convicções e que sempre foi levado por interesses pessoais. E como fim desta gloriosa obra temos a acrescentar a pena de morte, a odiosa lei que será a eterna ignomínia do Sr. Clemenceau e do parlamento francês. João H. Anglin

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Vida Nova, nº 29, p.1, 31 de Julho de 1909

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ELISEU RECLUS42 No dia 4 de Julho do ano corrente fez precisamente quatro anos que na capital da Bélgica faleceu o grande geógrafo e sociólogo cujo nome encima estas linhas. Eliseu Reclus43, autor da famosa “Geografia Universal” em dezanove volumes e do não menos célebre trabalho “O Homem e a Terra”, não foi somente geógrafo eminente que enriqueceu com os seus numerosos escritos a literatura científica do século dezanove, foi também apostolo, e vigoroso propagandista do sublime ideal libertário que nele teve um dos seus mais valentes e intrépidos caudilhos. A sua vida foi uma luta constante. Até ao fim pelejou corajosamente, mas aquela inteligência fecunda e prodigiosa, aquele organismo vigoroso, sucumbiu ao peso dos anos e aos estragos de uma doença fatal. Para melhor elucidarmos os leitores acerca deste vulto verdadeiramente colossal, vamos fornecer-lhes algumas notas biográficas que colhemos de um artigo firmado por Pedro Kropotkine e publicado na revista “Amanhã”: “Eliseu Reclus nasceu a 15 de Março de 1830, na Gironde em Saint-Foy-la Grande. Seu pai era um pastor protestante, um homem digníssimo; um desta raça vigorosa que sustentará muitas lutas para manter o seu direito de crer sem ser como ordenava a Igreja: um homem que viveu toda a sua vida amando o camponês, o homem curvado sobre a terra. A mãe de Reclus era também uma mulher pouco vulgar. Passará toda a vida ensinando na escola. Tinha já perto de setenta anos, quando viu que havia uma lacuna em sua instrução. Não sabia física. Pôs-se então a estudá-la conscienciosamente, e no fim de um ano, já a ensinava a seus discípulos. A família era numerosa. Eram doze filhos, sendo Elias o mais velho e Eliseu o segundo. Era a pobreza, e desde então Eliseu ganhou e conservou em toda a vida esse respeito pelo pão que tantas vezes em sua mocidade, foi seu único sustento e no qual voltava de tão boa vontade. Um pão e uma maçã ou uva, era quanto lhe bastava para viver e trabalhar.

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Vida Nova, nº 30, pp.1 e 2, 19 de Agosto de 1909

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Jean Jacques Élisée Reclus (1830-1905) foi um geógrafo e anarquista francês. A sua presença em Lisboa foi um impulso ao incremento da propaganda anarquista e à criação de vários grupos anarquistas em Portugal (http://ccl.yoll.net/texto5.htm).

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Fez os seus primeiros estudos universitários na faculdade protestante de Montanban. Seu pai queria fazer dele um pastor. Mas breve se desembaraçou dos prejuízos religiosos, e com seu irmão Elias, partiu em breve para Berlim onde o grande geógrafo Karl Ritter atraía então uma juventude ávida de se instruir em suas grandes e belas generalizações sobre a vida da terra e seus habitantes. Uma grande parte do caminho andaram-nos a pé, em companhia de um cão para o qual, à noite, reservavam a sopa, enquanto os dois irmãos se contentavam com pão seco. … Após o golpe de Estado de Dezembro de 1851, os dois irmãos tiveram de abandonar a França. Eliseu então gastou seis anos em viagens. Residiu na Irlanda. Dirigiu-se depois aos Estados Unidos e à Guiana, - viagem que ele contou num livrinho de uma esquisita beleza Viajem à Serra Nevada de Santa Marta e que lhe inspirou mais tarde as mais belas generalizações da sua obra A Terra. Desde 1865 fazia já parte da Internacional isto é, desde as primeiras reuniões em que ela se constituiu em 1864; e, muito antes de se fundar a Aliança de Bakunine, já Eliseu era membro da associação secreta fundada também por Bakunine em Itália, em 1864, e chamada Fraternidade Internacional, - associação dissolvida em 1869. Em 1867-68, Eliseu estava em Paris e publicava a sua obra monumental A Terra cujo volume primeiro Os Continentes, o colocou imediatamente no primeiro plano dos geógrafos do nosso século. Foi em Clarens, em 1872, que começou a sua obra principal a Geografia Universal, da qual apareceu o primeiro em 1876 e o último, o décimo nono, dezoito anos mais tarde, em 1894. Reclus fundou com Lefrançais e Jukovesky, uma revista mensal, Le Travalleur. Em Genebra fez a conferência Evolução e Revolução, cujas conclusões anarquistas escandalizaram seus numerosos amigos e sábios admiradores. Deixou a França a valer e foi fixar-se em Bruxelas. Só se decidiu a voltar à sua terra natal quando na questão Dreyfus começou a despertar a consciência do povo francês. Na primavera do ano passado (1904) terminava Eliseu Reclus a sua bela obra O homem e a Terra”. ҉

Com a morte de Reclus a ciência perdeu um dos seus mais belos ornamentos o operariado mundial um dos seus mais valorosos defensores. Não receou nunca pegar 51


numa arma e combater ao lado do povo proletĂĄrio nas suas lutas contra os tiranos, pelo que muitĂ­ssimas vezes arriscou a vida. Agosto de 1909 JoĂŁo H. Anglin

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OS REVOLTOSOS DE BARCELONA44

O povo espanhol, revolucionário e irrequieto por excelência, acaba de dar ao mundo mais uma prova dos seus elevados sentimentos. Não quer a guerra45. Os nossos irmãos de Espanha entendem e muito bem que essa mentira que se chama o amor pátrio não é senão uma das muitas burlas infames de que os dominadores da Humanidade se servem para agrilhoar com mais segurança os pequeninos que lhes estão sujeitos. Os inocentes filhos do povo são enviados para a África, para essa região doentia e as mais das vezes ingrata ao europeu, afim de hostilizarem o pobre rifenho, arriscando a vida e deixando na mais triste desolação os filhos queridos, a esposa e a mãe idolatradas. Sacrificam-se centenas de homens, deixam-se as famílias dos soldados a braços com a miséria e tudo isso para quê? Para sustentar caprichos e ambições dos governos, para satisfazer a desmedida ganância de meia dúzia de capitalistas que não querem ver os seus interesses lesados. E para isso são imoladas no altar marroquino as vitimas que vão vingar as afrontas e ofensas sofridas pela Espanha oficial!! Isto é revoltante e impróprio da pretendida civilização do século das luzes. A despeito de todos os epítetos injuriosos que, como granizo, caíram sobre os revolucionários, não podemos deixar de reconhecer que este movimento que fez passar maus bocados aos governantes espanhóis, é um excelente prenuncio da Revolução Social que, qual astro grandioso, desponta no horizonte como uma luz por enquanto muito ténue, mas que não tardará a alcançar o zénite , espargindo sobre a Humanidade jorros de luz benéfica e purificadora. A imprensa burguesa aproveitou esta bela ocasião para acoimar os revolucionários, qualificando-os de bandidos, ladrões, assassinos, etc., quando, afinal, a ideia altruísta e nobre: um protesto contra a guerra, contra a chacina cruenta que lançaria milhares de famílias na mais negra miséria, privando-as do braço forte que entre fadigas e tribulações lhes ganhava o Pão quotidiano. 44

Vida Nova, nº 32, p. 2, 14 de Setembro de 1909

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Guerra levada a cabo pela Espanha contra Marrocos, cujos fracassos militares levaram o governo a mobilizar reservistas que eram oriundos da classe operária já que os ricos podiam fugir ao recrutamento pagando uma determinada quantia ao Estado. Aquando do embarque de tropas, eclodiu um motim, espontâneo, que se ampliou, tendo os revoltosos incendiado cerca de cinquenta igrejas e conventos (Safon, 2003).

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Que importa que os revolucionários destruíssem conventos sumptuosos de estilo gótico, árabe ou bizantino? É verdade que esses edifícios representam as mais belas manifestações da Arte, mas aos olhos dos que anelam uma época de melhores dias, dos que marcham à conquista de um futuro melhor, tudo isso simboliza um passado vergonhoso, de dominação opressiva e nós não vivemos do passado, antes corremos esperançosos e cheios de entusiasmo a caminho da Sociedade Nova; transpondo todos os obstáculos, rompendo os densos véus da ignorância, acabando com os preconceitos absurdos que caracterizam a falsa civilização dos nossos dias. (Conclui) João H. Anglin

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OS REVOLTOSOS DE BARCELONA46 (Conclusão)

Enquanto o povo se digladiava nas ruas batendo-se denodadamente com a tropa, os chefes republicanos tinham recolhido a penates. A criminosa cobardia daqueles que até aí se arvoravam em defensores e amigos do povo é mais uma afirmação incontestável de que se os trabalhadores alguma coisa quiserem conseguir têm de o fazer por suas próprias mãos. “A emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores” dizia Karl Marx. Com efeito estas palavras encerram uma grande verdade. O operário nada tem a esperar dos que o dirigem, senão traição e abandono nos momentos críticos. Os que se dizem seus amigos dão às de vila Diogo quando o vêem envolvido em luta contra os opressores; servem-se dessa amizade falsa e postiça para, sem grande custo, o explorarem, deixando-o depois de boca aberta quando se trata de por em execução as doutrinas até aí apregoadas. Mas … vamos ao movimento revolucionário na Catalunha. Como se vê da correspondência para o jornal A Vida (47), o chefe do partido socialista espanhol Pablo Eglésias, alvitrou a ideia da Greve Geral como meio de protestar energicamente contra a guerra, ideia esta que imediatamente foi recebida com agrado. Houve conferências e meetings com idêntico fim, mas o gabinete de Madrid entendeu que devia proibir essas manifestações pacíficas, mandando fechar todos os centros operários e círculos republicanos como se vê da referida correspondência. E já que o governo tentava abafar a voz do povo de uma maneira violenta, este passou da palavra à acção, insurgiu-se e aí temos nós uma revolução que talvez se pudesse evitar se o ministério da Marinha procedesse de um modo mais cordato. Mas… já diz a sabedoria popular: há males que servem de bens, e o movimento revolucionário que recentemente rebentou na Catalunha é um exemplo bem frisante do

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Vida Nova, nº 33, p.2, 28 de Setembro de 1909

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A correspondência a que me refiro é muito mais digna de crédito do que as que foram enviadas ao Diário de Notícias e a outros jornais da capital, as quais são um conjunto de informações falsas e mentirosas, ao passo que o autor desta analisa os factos com a máxima imparcialidade expondo-os ao público tais como efectivamente se deram (J. H. Anglin)

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quanto pode o proletariado quando está animado de boa vontade, quando é impelido por verdadeiros sentimentos libertadores. Sendo ele hoje, como é, na sua maior parte, ignorante e fanático, o que sucederá quando estiver solidamente educado, quando possuir uma orientação bem definida? P. Delgada Setembro de 1909 João H. Anglin

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INIQUIDADES48

Compulsando a história da humanidade nela encontramos páginas aurifulgentes, grandiosas, sublimes, que nos relatam feitos de heroicidade inaudita, que nos mostram eloquentemente quanto os Mártires da Liberdade têm sofrido para que ela não baqueie ante e a tirania feroz e repulsiva dos monstros que pretendem amordaçar a sua voz suave e melodiosa. O sangue dos denodados campeões da Nova Ideia tem corrido a jorros, os Mártires sobem serenamente as escadas dos patíbulos para que a Verdade triunfe, para que seja destruída a iniquidade, para que desapareça a mentira. E, felizmente, não tem sido inútil todo esse atroz sofrimento, porque embora os Verdugos da Humanidade exterminem as vidas dos que pedem mais Luz, as Ideias, contudo, permanecem e frutificam como a semente espalhada em fértil terreno. Não foi em vão que Cristo “regou com o seu sangue as urzes do Calvários”, porque a sua doutrina sublime, apesar de deturpada e adulterada pelos que se dizem seus ministros, tem atravessado os séculos; não foi debalde que Giordano Bruno, Lourenço de Gusmão, Galileu e tantos outros sofreram horrorosos tormentos, porque a ciência que tanto amavam e por quem deram a vida, tem defendido radiosa Luz entre a espécie humana. Assim também Francisco Ferrer49, a infeliz vítima da malta reaccionária, dessa horda de facínoras que para vergonha nossa ainda campeia infrene, acaba de ser cobardemente assassinado em Barcelona. A reacção desde há muito tramava contra a existência desse grande vulto, desde há muito tentava perdê-lo. Buscou a ocasião propícia e achou-a. Estão saciados os ódios, estão satisfeitas as feras!! 48

Vida Nova, nº 33, p.1, 10 de Novembro de 1909

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Francisco Ferrer y Guardia (1849 - 1909) foi um pensador anarquista catalão, criador da Escola Moderna (1901). Foi condenado à morte e fuzilado em 13 de Outubro de 1909 por ter sido, injustamente, acusado de ser o instigador da revolta popular da Semana Trágica, em Barcelona. Com o ensino racionalista que “não nega nem afirma coisa alguma que não seja demonstrável segundo a ciência, que não seja compreensível ao raciocínio humano e demonstrável com a maior evidência” (Vida Nova, nº 37) e que “deve abraçar ….o estudo de tudo o que é favorável à liberdade do indivíduo e à harmonia da colectividade, sob um regime de paz, amor e bem-estar para todos sem distinção de classe nem de sexo” e que deve “difundir conhecimentos sobre a higiene e as ciências” e preparar “bons aprendizes, bons empregados, bons trabalhadores de todos os ofícios”, Ferrer pretendia “inculcar na infância o desejo de conhecer a origem de todas as injustiças sociais a fim de que, por esse reconhecimento, ela possa em seguida combatê-las e opor-se a elas” (Safón, 2003).

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Ferrer morreu, os seus ferozes inimigos conseguiram um desejo ardente, deram largas aos seus tigrinos sentimentos. Porém, não importa; Ferrer desapareceu do rol dos vivos, mas o seu nome ilustre será sempre relembrado por aqueles que lutam pelo bem da Humanidade, por aqueles que ainda sentem arfar no peito verdadeiros sentimentos de Liberdade. A sua obra de grande Educação é um padrão imorredouro a aureolar-lhe o nome. Coração diamantino, alma bondosíssima, Ferrer representava dum modo bem perfeito todas as justas aspirações do proletariado; por isso era amado e querido de todos os que sofrem o peso vil das injustiças sociais e o seu bárbaro assassinato originou protestos veementes e enérgicos dos homens livres e conscientes da Europa. Com a sua obra vasta e generosa, Ferrer tornou-se o espectro negro do jesuitismo espanhol, o seu horrível pesadelo. Forçoso era exterminá-lo. Era necessário, urgentíssimo, embora se recorresse aos meios mais infames, apagar essa brilhante Luz que iluminava milhares de seres ávidos de conhecer a Verdade. Milhares de pessoas iam beber, às escolas por ele sustentadas, a água límpida e pura da Instrução Moderna, único guia seguro que conduzirá os homens à vereda do Bem. Semelhante obra não convinha de maneira alguma à clericalha conservadora e hipócrita. Era preciso matar quem tão nobremente procedia. O proletariado de todo o mundo jamais esquecerá esse hediondo crime que constitui uma afronta à Ideias da Liberdade, às Ideias altruístas de que Ferrer era um sincero apóstolo e um valoroso caudilho. Ponta Delgada. João H. Anglin

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A INQUISIÇÃO MODERNA50

São de todos sobejamente conhecidos os repugnantes crimes praticados por esse execrando tribunal religioso que na idade média rabeava à solta como uma fera que se evadisse da jaula e corresse pelas ruas de uma cidade, infundindo terror a seus habitantes. Nessa época de obscurantismo é estúpida superstição em que a mentira se enraizara fortemente no espírito dos povos, as ideias, por altruístas e nobres que fossem não podiam de maneira alguma transpor as barreiras que a religião lhes apresentava, sendo imediatamente atassalhadas uma vez que se não coadunassem com as doutrinas teológicas dos verdugos de tonsura. O pensamento era obrigado a limitar-se ao estreitíssimo âmbito dos absurdos religiosos que pela tortura e pela fogueira firmavam o seu domínio. Todo aquele que tivesse a audácia de pronunciar uma palavra de verdade, pretendendo dissipar aquelas medonhas trevas, sofria infalivelmente as tremendas consequências do seu arrojo. Ora, apesar de termos entrado numa fase de acentuado progresso, acontece hoje pouco mais ou menos o mesmo; a civilização hodierna está envolvida por um ambiente saturado de convenções que urge exterminar. Essas convenções, porém, constituem a tábua de salvação dos governantes, do capitalismo, dos sugadores do povo, enfim, que se que se arrimam as elas como o náufrago ao rochedo. Há da parte dos dirigentes grande interesse em conservar essas mentiras de pé, porque no dia-a-dia em que se desmoronarem por caducas e inadmissíveis, a exploração e a pilhagem terminarão com elas e por consequência o trabalho e não a ociosidade presidirá à existência de todos os homens. A despeito das medidas repressivas com que todos os governos se têm munido, os explorados, contudo, não deixam afrouxar a sua voz, antes a tornam mais vigorosa e possante como há pouco sucedeu em Espanha onde o povo catalão mostrou que não estava disposto a sustentar os caprichos de um governo reaccionário nem a defender os interesses do jesuitismo que tem parte importante nas minas do Riff.

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Vida Nova, nº 36, pp. 1 e 2, 30 de Novembro de 1909

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Como claramente se depreende, os mais intemeratos caudilhos da causa dos oprimidos são perseguidos pela malta burguesa, que se serve de meios infames para conseguir o seu intento. Para provar esta afirmação basta lembrarmo-nos de Ferrer, o sublime fundador da Escola Moderna que pagou bem caro o grande amor que dedicava à Humanidade; como ele muitos outros terão igual fim porque todas as grandes conquistas dos povos têm sido alcançadas à custa de muito sangue, sangue bendito que rega a formosa árvore da Liberdade fazendo-a produzir saborosíssimos frutos. Ponta Delgada João H. Anglin

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1º DE MAIO51

Foi num congresso socialista realizado em Paris em 1886 e presidido por Júlio Guesde que se fixou o 1º de Maio52 como um dia em que as classes trabalhadoras de todo o universo protestassem energicamente contra a actual constituição da sociedade e reclamassem a garantia dos seus direitos até agora postergados da mais injusta maneira. Em todas as grandes capitais do mundo, onde a par da opulência se encontra a mais negra miséria, o operariado abandona neste dia as fábricas e oficinas e sai à rua a desafiar para a luta o seu implacável adversário o capital. Destas manifestações de protesto resultam sempre sérios e graves conflitos com a polícia que, quando se trata de abafar a voz dos que clamam justiça, redobra de fúria e brutalidade. Há prisões, ferimentos, mortes até. Nada disso, porém amedronta os famintos que exigem o negado pão porque eles têm a sue lado a justiça e a verdade e quando os homens combatem por uma causa justa e verdadeira coisa alguma os atemoriza ou desanima. Assim como não há meio de aplacar as furiosas vagas do oceano revolto, assim também serão inúteis todos os esforços empregados para deter a onda revolucionária que a pouco e pouco vai desmoronando o caduco edifício da sociedade contemporânea. Nem a prepotência dos governos, nem o respeito a velhos preconceitos e tradições farão com que os homens se conservem na degradante situação em que se acham. Não, que eles vão finalmente compreendendo que é possível viver uma vida mais feliz do que a actual, bastando tão-somente para isso um esforço comum, penoso, é certo, mas de resultados esplêndidos. Os erros grosseiros e as mentiras torpes que de há séculos envolvem a humanidade vão de dia para dia desaparecendo graças à obra redentora da ciência. Tudo nos anuncia que a Revolução é inevitável e que ela se não fará esperar muito. O 1º de Maio deixará então de ser um dia de protesto e de luta para ser um dia de festa e regozijo universais. João H. Anglin

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Vida Nova, nº 43, 1 de Maio de 1910

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Ao contrário do que o autor afirma, foi três anos mais tarde, em 1889, que, em homenagem aos mortos de Chicago, a Segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, decidiu convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário.

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SOCIEDADE PROTECTORA DOS ANIMAIS53

Uma das mais manifestas provas da ignorância do nosso povo é a feroz brutalidade que usa com os pobres animais que na maioria dos casos lhe são um valioso auxílio na luta quotidiana pela vida. Estes repugnantes espectáculos que diariamente se repetem nas ruas desta cidade nada atestam a favor da nossa boa terra, antes a desconceituam aos olhos dos estrangeiros que nos visitam os quais nos terão na conta de brutos a julgar por essas cenas bárbaras de que são vítimas os pobres animais indefesos. Com isto não queremos dizer que o povo seja mau, porque de há muito está provado que não há homens maus. O que há apenas é essa crassa ignorância por cuja perpétua conservação tanto se empenham os políticos e governantes. Um dia virá em que essas atrocidades serão por completo eliminadas, mas antes de se chegar a essa época de felicidade era bom que alguma coisa se fizesse no sentido de melhorar a sorte desses pobres seres que tantos serviços prestam ao homem e que em recompensa recebem forte pancadaria quando porventura se encontram impossibilitados de trabalhar tanto quanto os seus donos exigem54. É para evitar estas bestialidades que existem as Sociedades Protectoras de Animais55. Na nossa terra já alguém se lembrou de fundar uma sociedade destas e se não nos enganamos chegaram a ser elaborados os estatutos mas até agora não nos consta que além deste se tenham empregado outros quaisquer esforços para a realização dessa excelente ideia. Os órgãos da imprensa local que tanto alarde fizeram quando se apresentou o alvitre da fundação de uma Sociedade Protectora de Animais calaram-se misteriosamente sem que até hoje saibamos o motivo desse súbito silêncio. Do mesmo modo o público o desconhece e por isso pedimos que nos digam qual o fim que levaram os estatutos da Sociedade: se foram dormir o sonho dos justos no cesto dos papéis velhos e inúteis ou se ainda existem para algum dia terem a sua aplicação. João H. Anglin

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Vida Nova, nº 48, p. 1, 15 de Agosto de 1910 O porblema dos animais de tiro

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SOCIEDADE PROTECTORA DOS ANIMAIS56 Em primeiro lugar cumpre-nos agradecer à distinta colega d’ “A Folha”, a transcrição que fez do artigo que com o título acima publicamos no penúltimo nº deste quinzenário. Todos aqueles que no meio da indiferença quase geral têm a audácia de lançar uma ideia grande, generosa e de fins humanitários e altruístas, encontram no seu caminho mil dificuldades e obstáculos que à primeira vista parecem gigantescos e insuperáveis, mas que facilmente desaparecem havendo boa vontade e verdadeiro amor à causa. As grandes empresas conseguem-se à custa de grandes sacrifícios, confirmandose deste modo a veracidade do conhecimento dito popular: - grande nau grande tormenta. Quanto mais renhida for a luta, maior e mais brilhante será a vitória. Portanto, urge renovar essa generosa campanha a favor dos animais para que sejam eliminadas cenas bárbaras que todos os dias presenciamos e que repugnam os homens de sentimentos. É esta uma questão que nos interessa a todos, porque todos temos a obrigação de manter o bom conceito em que esta terra é tida. De outra forma os estrangeiros nossos visitantes julgarão que estamos em plena civilização marroquina. Como “A Folha” apelamos também para a Imprensa esperando que ela saberá cumprir a nobilíssima missão a que se destina e para que foi criada, de defensora intransigente da verdade e da justiça. João H. Anglin

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Vida Nova, nº 50, pp. 1 e 2, 18 de Setembro de 1910

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FRANCISCO FERRER57

Agora que se aproxima o primeiro aniversário das tristes ocorrências que se desenrolaram em Espanha e que remataram com o hediondo assassínio de Francisco Ferrer, impende-nos a obrigação indeclinável de render uma homenagem sincera à memória daquele que tanto se esforçou por minorar a grande dor humana, inoculando nos corações o Amor e nos cérebros a luz. A despeito das malsinações infames e calúnias torpes em que a reacção quis envolver o Mártir, a sua figura austera e digna será sempre lembrada com saudade pelos que sofrem, ao passo que eles, os hipócritas e embusteiros, terão como galardão da sua obra o desprezo das multidões e a maldição dos vindouros. É que Ferrer propagava um ideal de Amor e de Paz; eles por toda a parte pregam o ódio e a guerra. Ferrer era a encarnação da bondade e da abnegação; eles personificam a iniquidade e o egoísmo feroz. Ferrer espalhava a fulgurante luz da Instrução; eles tentam apagá-las para que ninguém lhes veja as sinistras figuras. Basta olhar a obra gigantesca de Ferrer, para se avaliar imediatamente nele o pedagogista que conhecia profundamente a psicologia infantil e cujos processos de ensino satisfaziam completamente às mil necessidades a que é preciso atender durante o desenvolvimento intelectual de uma criança e o revolucionário que preparava o advento de uma época de felicidade para o género humano. Eram brilhantíssimos os resultados obtidos nas escolas fundadas por Ferrer e disso dão uma prova clara as lições de crianças de 9 a 15 anos, das Escolas Racionalistas, que se podem ler no livro de Simões Coelho, Quem é Ferrer, publicado o ano passado. Nas Escolas Racionalistas como o próprio nome indica, o ensino é baseado unicamente na razão, havendo da parte dos professores o máximo cuidado em não inculcar às crianças ideias que a ciência rejeita e a razão reprova. D’est’arte em lugar de escravos submissos as Escolas Racionalistas formavam homens rebeldes e conscientes, fortemente preparados para a luta contra a tirania. Eis o que a reacção temia.

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Vida Nova, nº 51, p.1, 15 de Outubro de 1910

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As Escolas Racionalistas constituíam para ela um enorme e constante perigo. Era necessário, pois, aniquilá-las, assassinando Ferrer. Levaram a cabo esta última infâmia mas nunca conseguirão a primeira, tenham disso a certeza. Já não poderão sufocar a semente que tantas gerações têm regado com o seu sangue bendito. 10-10-910 João H. Anglin

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SOCIEDADE PROTECTORA DOS ANIMAIS58 Vimos n’ “A Folha” que em breve se realizarão na redacção daquele semanário algumas sessões nocturnas em que serão elaborados e discutidos os estatutos de uma Sociedade Protectora de Animais. Será convidado para presidente o Sr. António José de Vasconcelos. Folgamos com a notícia. Oxalá que desta vez se leve a cabo tão humanitária ideia. Era bom que toda a imprensa local se agitasse nesse sentido como é do seu dever. Como dissemos no nosso último nº é esta uma questão que nos interessa a todos e portanto todos se devem esforçar por conseguir que ela em breve seja uma realidade. Assim o esperamos. J.A.

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Vida Nova, nº 51, p.1, 15 de Outubro de 1910

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DR. MIGUEL BOMBARDA59 Por telegrama enviado ao “Correio Micaelense” soube-se que havia sido assassinado em Lisboa, por um louco, o ilustre sábio e valente propagandista do livre pensamento Dr. Miguel Bombarda60. É com profundo pesar que registamos aqui este triste acontecimento, pois a morte de um homem como o Dr. Bombarda não pode passar despercebida visto que representa inegavelmente uma perda enorme para a humanidade e para a ciência. Todos os que amam sinceramente as ideias liberais, as ideias que dia a dia vão avassalando a humanidade inteira, não podem deixar de sentir uma dor intensa ao lembrarem-se que para sempre desapareceu na incessante voragem do túmulo aquela individualidade que tantos e tão brilhantes provas dera da sua alta inteligência e vastíssima erudição. O professor Bombarda, além de clínico abalizado que se dedicara particularmente a estudos sobre psiquiatria, evidenciou-se também como apóstolo do ideal republicano que defendia e propagava com valentia e convicção. Foi um publicista notável, um polemista distinto e orador fluente. No derradeiro momento revelou ainda a sinceridade das suas convicções declarando que queria ser enterrado civilmente, sem pompas e numa sepultura rasa. Que descanse em paz. J.A.

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Vida Nova, nº 51, p. 2, 15 de Outubro de 1910

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Miguel Augusto Bombarda (1851 - 1910) foi médico psiquiatra e político republicano português, tendo feito parte do comité revolucionário que implantou a República em 5 de Outubro de 1910. Por ter sido assassinado por um doente mental a 3 de Outubro, Miguel Bombarda, que foi considerado o chefe civil do referido comité, não assistiu à queda da monarquia. Era acerrimamente anticlerical, tendo deixado uma declaração com o objectivo de ser enterrado civilmente: “Eu, Miguel Augusto Bombarda, lente da Escola Médica de Lisboa, de 59 anos de idade, casado, nascido no Rio de Janeiro, mas português, morador hoje no hospital de Rilhafoles, filho de António Pedro Bombarda, não professando a religião católica, desejo que, por ocasião do meu falecimento, me seja feito o enterro civilmente e por ser esta a minha espontânea e consciente vontade, quero que fielmente se cumpra.” (http://www.vidaslusofonas.pt/BOMBARDA.htm)

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LEÃO TOLSTOI61

Já não pertence ao número dos vivos o grande propagandista e genial escritor Leão Tolstoi. A sua pena que tantas e tão brilhantes páginas produziu, jamais voltará à arena para combater vícios e crimes da sociedade contemporânea; não mais se abrirão aqueles lábios dos quais continuamente pendia um sorriso para os desgraçados – reflexo puro de uma alma cheia de bondade e abnegação. O amor é a única e suprema lei do homem, proclama o grande filósofo. Só ele deve guiar os homens e tudo que lhe seja contrário ou prejudicial deve ser rejeitado. Deste modo devemos repudiar a Propriedade, O Direito62 e o Estado. Não se concebe nada mais belo nem mais sublime! No futuro a Humanidade inteira livre por completo da tirania e da mentira, unida para sempre pelo Amor! Palavra pequenina, é certo, mas que muito exprime. Ela é a divisa daqueles que trabalham por implantar sobre a terra o império da justiça e equidade. Só ela preside aos seus actos e habita seus corações. Da lei do Amor conclui o filósofo que se não deve resistir ao mal pela força. A resistência passiva é a maneira mais eficaz de eliminar o mal. Todos aqueles que, por meio da violência, tentam destruir o despotismo de que são vítimas, não fazem senão tornar mais sólido e poderoso esse despotismo. Se um homem qualquer se arvorar em tirano e me quiser impor à força a sua vontade, eu, recusando terminantemente obedecer-lhe embora me aplique os mais cruéis castigos, farei que ele em breve se dissuada desse intento; o que sucede com um homem dá-se com um grupo de homens, com um governo, enfim. Pelo contrário, se eu empregar a violência para me libertar do meu opressor ele armar-se-á até aos dentes e empregará dupla violência, obrigando-me assim a prestar-lhe vassalagem. A doutrina de Tolstoi é simplesmente sublime. Toda abnegação e amor, desprendimento do nosso bem-estar em proveito do próximo. Doutrina profundamente filosófica, possui na Rússia milhares de adeptos fervorosos e sinceros. Ela tem abalado 61

Vida Nova, nº 53, p. 1, 15 de Dezembro de 1910

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Sobre a questão do direito, é interessante conhecermos o que pensava Tolstoi sobre as leis: “Muitas constituições foram criadas de modo a fazer com que as pessoas acreditassem que todas as leis estabelecidas atendiam a desejos expressos pelo povo. Mas a verdade é que não só nos países autocráticos, como naqueles “supostamente” mais livres as leis não foram feitas para atender a vontade da maioria, mas sim a VONTADE DAQUELES QUE DETÊM O PODER. Portanto elas serão sempre, e em toda a parte, aqueles que MAIS VANTAGENS POSSAM TRAZER À CLASSE DOMINANTE E AOS PODEROSOS. Em toda a parte e sempre, as leis são impostas utilizando os únicos meios capazes de fazer com que algumas pessoas se submetam à vontade de outras, isto é, pancadas, perda da liberdade e assassinato. Não há outro meio.” (http://livrosbpi.com)

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até aos alicerces o despotismo daquele desgraçado país onde o povo trabalhador é explorado e massacrado de uma maneira inaudita. Foi em defesa desse povo vilipendiado e escarnecido que ele consagrou toda a sua vida e todo o seu génio cintilante. Foi inspirado nas lágrimas e nas dores desse povo que ele produziu as suas mais belas páginas. Compreendeu o seu sofrimento e soube traduzi-lo com uma sublimidade e elevação incomparáveis. Estudou-o no seu estoicismo admirável, viu quando ele era bom e sofredor, observou o seu martírio e amou-o para sempre. A obra de Tolstoi é vastíssima, sendo as suas obras-primas os romances “Ana Karenina” e “A Guerra e a Paz”. São também notáveis os seus livros “Escravidão Moderna” e “Os prazeres cruéis”. ҉

A notícia do seu falecimento não nos sobressaltou. Pela leitura dos jornais sabíamos que o grande escritor vinha há tempos sofrendo de uma doença fatal, sendo além disso bastante avançado em idade, pois contava já 82 anos. Nascera em 1828 na aldeia russa de Iasnaia Poliana. A morte na sua faina diária de ceifar vidas, devia ao menos deixar de exercer o seu triste mister em homens como Tolstoi para que a acção benéfica de tais homens sobre a Terra, jamais cessasse.

O desaparecimento dessas individualidades representa uma perda incalculável para toda a humanidade. Eles morrem, é certo, mas deixam-nos uma obra que o poder dos séculos jamais poderá demolir, uma obra imortal. João H. Anglin

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PROTESTANDO63

Por toda a parte a burguesia prevendo, ante a atitude ameaçadora dos famintos e dos parias, a próxima queda do seu reinado de corrupção e iniquidade, de todos os meios se serve para ferir, matar, perseguir os denodados campeões da Ideia Redentora, os precursores dessa época de paz e felicidade que idealizamos e por cujo advento trabalhamos com todo o nosso entusiasmo, com toda a nossa convicção e sinceridade. Por toda a parte a burguesia é a mesma. Por toda a parte é ela feroz e sanguinária, infame nos seus meios de defesa contra aqueles que, à face da razão e da justiça, lhe apontam as suas negras manchas e lhe mostram os seus horrorosos crimes. A sentença iníqua e crudelíssima que condenou à morte aqueles gloriosos mártires que na história ficaram conhecidos pelo nome de Mártires de Chicago, é um exemplo frisantissimo desta verdade. A burguesia americana vendo que eles, com a altivez própria de quem possui integridade e nobreza de carácter, não temiam clamar bem alto contra a injustiça e contra a prepotência, tratou imediatamente de lhes abafar a voz, assassinando-os cruel e impiedosamente. O fuzilamento há pouco levado a cabo em Espanha, do grande pedagogista F. Ferrer, é mais uma prova evidente da sanha feroz que os burgueses votam àqueles que se esforçam por livrar a humanidade das garras aduncas e descarnadas. A burguesia espanhola de acordo com a clericalha procurou desembaraçar-se definitivamente desse homem que era para ela um espectro medonho e temível. E para vergonha nossa consegui-o. Agora cabe a vez à burguesia japonesa que intenta (se já não o fez) assassinar alguns dos nossos camaradas que pelo seu amor e dedicação à causa da Humanidade têm cometido o terrível crime de propagar ideias livres. São eles o Dr. Dejeniro Kotuku, sua esposa e mais 24 revolucionários. O Dr. Kotuku, que por meio da imprensa, quer por meio do livro tem feito uma intensa e activa propaganda e por isso lhe têm movido feroz perseguição e agora inventam uma mentira torpe e monstruosa, acusando-o de conspirar contra a família imperial, para o condenarem à morte. É espantoso! É inacreditável! E no entanto é a dura e triste realidade!

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Vida Nova, nº 55, p. 2, 15 de Janeiro de 1911

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Em vários países já foram levantados veementes protestos contra esse crime nefando que o governo japonês pretende praticar. Os camaradas da França, Inglaterra, América, Bélgica, Suíça, já fizeram ouvir a sua voz. Os libertários da região portuguesa ergueram também o seu grito de protesto contra tamanha iniquidade. Em face de uma questão desta natureza seria falta grave e imperdoável conservarmo-nos silenciosos e por isso, destes rochedos perdidos na amplidão do oceano, bradamos com toda a força dos nossos pulmões contra essa nova afronta que os déspotas pretendem fazer à Humanidade. João H. Anglin

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ACADÉMICOS64

De regresso da formosa cidade de Angra do Heroísmo encontram-se entre nós os académicos micaelenses que foram visitar os seus colegas naquela cidade. Não precisamos encarecer as vantagens das excursões que vêem estreitar cada vez mais as relações entre os povos açorianos e especialmente entre a mocidade estudiosa que tanto delas necessita, já por serem recomendadas pelos modernos preceitos pedagógicos, já por constituírem um esplêndido meio de distracção e de folga. Escusado será dizer que foram

muito

bem

recebidos

manifestando

exuberantemente a população de Angra alegria que tinha de os acolher promovendo festas em sua honra e tratando-os com toda a urbanidade que é particular aos terceirenses. Houve duas récitas pelos académicos micaelenses, que agradaram muito, recebendo os intérpretes entusiásticos aplausos do público. No meio da alegria geral só houve uma ocorrência lamentável pelas suas consequências más. Foi o facto de alguns membros (que segundo consta não são terceirenses) da direcção da sociedade recreativa “Popular Angrense” terem publicado panfleto dirigido à academia micaelense por esta se recusar a promover uma récita a favor do cofre daquela sociedade. Embora os académicos tivessem prometido o contrário, é isso perfeitamente desculpável visto desconhecerem por completo o fim da mencionada sociedade, que é apenas para recreio dos seus associados, e ainda pelo facto de existirem instituições de beneficência que se encontram a braços com mil dificuldades e que por isso carecem de auxílio para se poderem manter. É verdade que pretendem transformar a “Popular” em associação de socorros mútuos, mas o futuro é bastante incerto e só devemos contar com o presente. Foi portanto correctíssima a atitude dos académicos e só merecem as nossas censuras os tais cavalheiros que constituem uma parte da direcção da sociedade “Popular Angrense”. 20-04-911 João H. Anglin

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Vida Nova, nº 60, p.2, 22 de Abril de 1911

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REFERÊNCIAS

Bento, C. (2010). História dos Açores 1935-1974. Ponta Delgada: Publiçor. Botelho, C. (1987). Reflexões sobre a pena de morte. Lisboa: Amnistia Internacional. Correia, L. (1996). Vida Nova, um jornal anarquista micaelense. Separata da Revista “INSVLANA”. Instituto Cultural de Ponta Delgada, Vol. LII. Fonseca, C. (1990). O 1º de Maio em Portugal. Lisboa: Antígona. Freire, J. (1992). Anarquistas e operários. Ideologia, ofício e práticas sociais: o anarquismo e o operariado em Portugal, 1900-1940. Porto: Edições Afrontamento. Freire, J. (2009). De onde vem a violência. A Ideia nº 66, pp. 3-9. Gallo, S. (2006). Anarquismo uma introdução filosófica e política. Rio do Janeiro: Robson Achiamé, editor. Miranda, S. (2009). Estudante presa em Lisboa, “Uma vergonha familiar” na ilha. In Mesquita, M. (Org.). A oposição ao Salazarismo em São Miguel e em Outras Ilhas Açorianas (1950-1974). Lisboa: Tinta-da-China. Queirós, E. (1979). Primeiro de Maio. Lisboa: O Jornal. Safón, R. (2003). O Racionalismo combatente Francisco Ferrer y Guardia. São Paulo: Editora Imaginário, Rio de Janeiro: Instituto de Estudos Libertários, São Paulo: Nu-Sol. Sousa, M. (1989). Últimos tempos de acção sindical livre e do anarquismo militante. Lisboa: Antígona. Valladares, E. (2000). Anarquismo e Anticlericalismo. São Paulo: Editora Imaginário, Rio de Janeiro: Instituto de Estudos Libertários, São Paulo: Nu-Sol.

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BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA

Para além da bibliografia citada apresenta-se uma lista de publicações que poderão ser úteis a que pretender aprofundar os seus conhecimentos sobre o ideário e movimento anarquista.

Abreu, C., Freire, J. (Orgs.). (1980). Adriano Botelho, memória e ideário. Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação e Cultura. [livro sobre a vida e a obra de Adriano Botelho, anarquista que nasceu em Angra do Heroísmo, em 1892, e faleceu em Lisboa, a 1 de Maio de 1983]

Ferrer y Guardia, F. (1910). La escuela moderna. Barcelona:Publicaciones de la Escuela Moderna. Gomes, A. (2005). A educação libertária segundo Aurélio Quintanilha. Dissertação de mestrado. Universidade do Minho. Acedido em 4 de Março de 201, de http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/4917/1/A%20Educa%c3%a7 %c3%a3o%20Libert%c3%a1ria%20segundo%20Aur%c3%a9lio%20Quintanilha. pdf [Aurélio Quintanilha nasceu em Angra do Heroísmo em 1892 e faleceu em Lisboa em 1987. Foi professor universitário e investigador de renome internacional, tendo sido anarcosindicalista]

Préposiet, J. (2007). História do anarquismo. Lisboa: Edições 70 Queirós, C. (2008). Se não puder dançar esta não é a minha revolução: aspectos da vida de Emma Goldman. Lisboa: Assírio & Alvim. [este livro é dedicado a Maria da Luz Medeiros, natural da Lomba de Santa Bárbara, São Miguel]

Kudriavaia, N. (Org.) (1988). L.N. Toltói Obras Pedagógicas. Moscovo: Edições Progresso. Rodrigues, E. (1982). A oposição libertária em Portugal 1939-1974. Lisboa: Editora Sementeira. [o livro apresenta um resumo biográfico de vários anarquistas, alguns dos quais açorianos]

Samis, A. (2009). Minha pátria é o mundo inteiro. Neno Vasco, o anarquismo e o sindicalismo revolucionário em dois mundos. Lisboa: Letra Livre.

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NOTAS BIOGRÁFICAS

João Hickling Anglin, filho de Thomas Hickling Anglin, natural de Inglaterra, e de Maria da Conceição Nunes, açoriana, nasceu numa casa da Ladeira das Águas Quentes, em Ponta Delgada, a 17 de Abril de 1894. Frequentou a instrução primária e o curso liceal em Ponta Delgada, tendo vivido nesta cidade até aos 18 anos de idade, 1912, data em partiu para Coimbra onde se matriculou na Faculdade de Letras. Foi entre 1908 e 1911 que escreveu para o jornal anarquista Vida Nova. Em 1915, assentou praça como recruta no 2º Grupo de Companhias de Saúde, onde esteve no serviço activo até 1916. Em Maio de 1917, concluiu o grau de Bacharel na referida Faculdade e de 1917 a 1919 partiu para Angola, fazendo parte de uma companhia de infantaria. Em 1923, fez Exame de Estado, tendo ficado habilitado para o magistério liceal (Filologia Germânica). Depois de exercer as funções de professor provisório, no Liceu de Ponta Delgada, a partir de 15 de Outubro de 1921, foi nomeado professor efectivo a 30 de Setembro de 1923. Exerceu o cargo de reitor do Liceu de Ponta Delgada de 1926 a 1935 e de 1939 até 17 de Abril de 1964. Foi director da Escola do Magistério Primário de Ponta Delgada de 1943 a 17 de Abril de 1964. Foi presidente da Junta Geral de Ponta Delgada em 1945 e 1950. Presidiu ao Instituto Cultural de Ponta Delgada. Faleceu no dia 28 de Dezembro de 1975.

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O Jovem Anarquista João Anglin