MISE EN ABYME 2019

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L A P I C I N U M O R T A E T Z I U L O Ã S

E M Y B A N E E S I MCÃO VASCO

© Joana Dilão

SOLTEIRO

A R AÚJO

1A3 19 MARÇO 20


“O que se faz do mundo e o que dele se exprime”?

Há tempos, numa troca de mensagens, Paula Sá Nogueira explicou-me como é que tudo funciona: “Primeiro, a Mariana [Sá Nogueira/figurinista] invade-nos. Depois, eu e o Vasco [Araújo/artista plástico], que já nos invadimos pela surra, invadimos a Mariana. Ela, como é esperta, não explode logo porque sabe que ainda faltam vir mais 3 ou 4 [Ana Libório, Diogo Bento, Patrícia Silva, Raimundo Cosme, Sónia Baptista], e faz-se de mula. Nós pensamos: está bem, Abelha! Depois chegam os outros, fresquinhos, cheios de ideias, candura e energia, e começa a sessão de estalada. Depois de alguns jantares, muito amor, uma ou duas garrafas de bom vinho e cigarradas a dar com um pau, a coisa estreia, que é como quem diz: invadimos a plateia. O Pinter tem uma peça, das pequenas, que se passa numa fábrica onde os trabalhadores estão em greve. Acaba assim: “Capataz: Mas afinal o que é que eles querem? Delegado Sindical: Problemas!”. O imaginário do Teatro Cão Solteiro é feito de referentes emocionais, com a consciência de que não é só a arte que mata. As suas peças vão quase sempre ao encontro, em confronto e para ensaio, de arquétipos, problemas que predominam, cientes de que quem transforma pequenos em grandes problemas não faz exactamente o contrário com a mesma facilidade – é a vida! – e que, em vertigem,

(E. Glissant, Poética da Relação)

Criam-se problemas?

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desejamos morrer. Um problema enorme!

“cada coisa está como que num espaço de possíveis estados de coisas. Posso pensar neste espaço como vazio, mas não posso pensar a coisa sem o espaço” (L. Wittgenstein, Tratado LógicoFilosófico). Que espaço é o do teatro?

Relembrando-nos, entre outras coisas, os telões do teatro e das óperas, os cortes espaciais de Lucio Fontana, a tensão entre figura e fundo, a Rotura de Ana Hatherly, a figura de um avejão e o episódio dramático de Raul Brandão (“Fizeste-a bonita, estragaste a vida toda”), a monumentalidade anacrónica, os estereótipos do discurso amoroso e do discurso do fim da vida (tarde demais!), a iconoclastia e o cinismo, Mise en Abyme é mais uma tentativa crítica de reflectir sobre os dispositivos canónicos de criação e de encenação, teatrais e artísticos, procurando abrir espaço, fazer espaço, valorizando a indeterminação e os constantes desencontros semânticos. Meter a cena do avesso em cena. Um festim de problemas. Ok!

“Posso chegar a um espaço vazio qualquer e fazer dele um espaço de cena” – começa assim o livro que Peter Brook escreveu sobre O Espaço Vazio (teatro), relembrando-nos, ainda, que há um “teatro do aborrecimento mortal”. Ufff, vamos mesmo ficar bem? Imaginem um espelho a ver-se ao espelho. Pode o tédio ser mortal? Mise en Abyme é uma obra para teatro de Cão Solteiro & Vasco Araújo, realizada a partir de um texto de José Maria Vieira Mendes, Morte do Desejo (Um argumento para um filme que não se filma). Este texto já tinha sido utilizado por Vasco Araújo, como base para a construção de uma das suas peças, Capriccio (2018), integrando, monumentalmente, a exposição Morte Del Desiderio, na Galeria Francisco Fino (2018). Mise en Abyme é assim título e conceito de base para a dramaturgia deste espectáculo, pensado em torno da ideia de morte do desejo. Este, como sabemos, é mais ou menos uma praga, porque o desejo, de facto, nunca morre (?), até quando apenas

Este capriccio teatral entre Cão Solteiro e Vasco Araújo explora a livre combinação de elementos arquitectónicos, reais ou idealizados, ruínas da antiguidade retrabalhadas e figuras diversas, de acordo com uma variedade de declinações que podem variar entre o grotesco, o visionário, o pitoresco e o elegíaco. É uma obra sobre a forma como a norma nos aprisiona – sobretudo no modo como desejamos e ambicionamos dominar xs outrxs e o futuro –, autoreflectindo-se em 3


quantidade de pensamento que esta gente mete em cima da mesa. É sobre a permanência tóxica dos “gestos vazios” nas relações entre todxs e todxs. Problemática da coexistência.

muitas variações do mesmo, reproduzindo vontades e banalidades emocionais. É sobre como estar no tempo. Sobre o que nos faz abrir a boca e sobre o que dizemos, da forma como dizemos, ad nauseam, as formas que nos formam. É sobre estas coisas que estão dentro das coisas que estão dentro das coisas e dentro das coisas. Como sublinha Vasco Araújo, “o melhor que podemos fazer, enquanto não temos um conhecimento perfeito do nosso ser, e do nosso ser em confronto com os outros, é conceber um princípio de perplexidade, viver em perplexidade, obrigando-nos a escolher sempre o caminho do conhecimento e não da ignorância. Precisamos dos outros como espelhos para o nosso conhecimento, para o conhece-te a ti mesmo. ‘O conhecimento é trágico, mas torna-nos, a todos, mais Humanos’” (citação retirada da instalação Todas as Histórias (2018), com texto a partir das tragédias de Ésquilo, Eurípides e Sófocles, e com citações do artigo Cobardia silenciosa, de João Sousa Monteiro). A obra Mise en Abyme é um diálogo entre o tédio e a perplexidade. Ou seja, é sobre nós, pessoas aborrecidas e perplexas, e aborrecidas na perplexidade. É sobre a interrupção. E é impressionante, a propósito disto, e durante os vários meses de ensaios que fui acompanhando, com perplexidade mas nunca aborrecido, a qualidade e a

Há dias em que é particularmente difícil relacionarmo-nos. A chuva, o cansaço, as rotinas desportivas, as doenças e os tratamentos que se repetem ou os trabalhos e projectos que se complicam. Trocamos mensagens sem grande sentido, quase forçadas, sem grandes expectativas. Geramos diálogos carregados de coisas vazias. Desejamos. E o tédio... vem paradoxalmente deste excesso de acção, desta urgência de comunidade. Isso di-lo M.G. Llansol: “tudo o que eu até hoje tenho escrito é procurar saber como se pode escrever a Regra do desejo mútuo, a regra que tu dizes da Comunidade”. Há dias em que é tão difícil fazer parte. Pois Mise en Abyme surge no seguimento de várias colaborações entre Cão Solteiro e o artista plástico Vasco Araújo, que se iniciaram com a peça A Portugueza, em 2009, e continuaram nas peças A Africana, em 2012, A Antológica, em 2014, e Isto é uma tragédia, em 2017. Um trabalho contínuo sobre como não fazer parte, enquanto atitude inútil, mas essencial. Ouvido num dos ensaios de Mise en Abyme: “Ser fiel ao que estou a sentir porque sinto-me a conviver com o mundo que não tem nada que ver comigo”. 4

Operando sobre a crescente atrofia emocional do desejo, lacerado, branqueado, quebrado, limitado, desconectado da memória e da comunidade, Mise en Abyme apresenta-nos uma suposta desintegração das formas tradicionais de experiência e de relação humanas, assinalando o tédio que, na vida de todos os dias, reduz o evento histórico a uma ideia hipócrita ou anedótica de ruína. Componente fundamental da vida, o eterno retorno do mesmo, o tédio, surge da repetição de gestos sem sentido e vazios, numa mecânica semântica entorpecedora dos sentidos e emoções. Apresenta-nos uma visão do futuro que olha para o mundo como passado. Problema da História!

Mise en Abyme dá voz a reflexões singulares, que são poéticas, trágicas e engraçadas e, muitas vezes, tudo ao mesmo tempo. Poderíamos dizer que dependem de um sequenciamento de múltiplas imagens ou linhas ou tons discursivos que concorrem na elaboração de uma sensação de alienação fixe e de desequilíbrio, ou ainda, talvez, desadequação. Assume como central a possibilidade de uma tarefa ética da destruição, ou seja, “destruidora da introspecção superficial, da consoladora ideia do universalmente humano, da criatividade do amador, e das frases vazias” (Susan Sontag, Sob o Signo de Saturno). Cão Solteiro é uma companhia de teatro formada em Lisboa, em 1997, e segundo nos diz a Wikipédia, produz “um teatro de imagem e de situação onde o universo cénico e o conflito criado prevalecem sobre o contar de uma história”. Citando a própria companhia, “Cão Solteiro é essencial na sua absoluta inutilidade pública”. Esta atitude perante a actualidade — mais futuro, menos passado — reflecte-se obviamente na forma como arquitecta e problematiza os textos, os figurinos – afirmações conceptuais, estéticas e éticas, problemas que actuam sobre tudo e todxs –, os cenários e os vários elementos plásticos que integram as suas obras. Um dia serão ruínas.

“Que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas, a tal ponto que temos de as destruir, falsificar (...). Mas quando, no fim, elas se revelam ocas, inatingíveis, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcineia – que salvámos – não pode amar-nos” (G. Agamben). Podem começar a ranger os dentes. Pedro Faro, duas semanas antes da estreia O autor escreve segundo a antiga ortografia

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Descubrimiento

Curriculum Vitae

Creo en un gran descubrimiento. Creo en el hombre que hará el descubrimiento. Creo en el espanto del hombre que hará el descubrimiento. Creo en la palidez de su rostro, en su náusea, en el sudor frío en la parte superior del labio. Creo en sus apuntes en el fuego, del primero al último ardiendo en cenizas. Creo en la dispersión de las cifras, en su dispersión sin remordimiento. Creo en la prisa del hombre, en la precisión de sus gestos, en su libre albedrío. Creo en la destrucción de las tablas, en el derramamiento de líquidos, en la extinción de la llama. Sostengo que se conseguirá, que no será demasiado tarde, y que ocurrirá sin testigos.

A Queimada é uma fêmea de Buteo de Harris também conhecida como Águia de Harris (parabuteo unicinctus) nascida a 24/03/2007. Para além do trabalho normal em controlo de avifauna, nomeadamente para espantamento de outras aves em aeroportos, aeródromos, aterros sanitários e em cidades, tem sido bastante utilizada para voos de demonstração em vários tipos de eventos: Feiras Medievais, tendo voado em algumas das mais importantes como Aljubarrota, Óbidos e Silves; Actividades com crianças, escolas, jardins infantis, creches; Feiras de Caça e Pesca, como Expocaça Santarém desde 2019, Feira da Caça e do Mel de Miranda do Corvo, Póvoa da Isenta, Feira da Caça da Carapinheira, Feira da Caça e Pesca do Turcifal; Participou em diversas peças de teatro em Óbidos Vila Natal e na Feira Medieval de Óbidos; Desde dezembro de 2015 é uma das aves que integra a exposição permanente de aves de rapina na Falcoaria Real de Salvaterra de Magos.

Nadie lo sabrá, seguro, ni la esposa, ni la pared, ni el pájaro: por si canta. Creo en la negativa a participar, creo en la carrera arruinada, creo en la inutilidad de muchos años de trabajo. Creo en el secreto llevado a la tumba. Estas palabras planean por encima de las normas. No buscan apoyo en ningún ejemplo. Mi fe es firme, ciega y carece de fundamentos. wislawa_szymborska /_paisaje_con_grano_de_arena_v_1_0 biblioteca_el_calamar_te_vigila

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© Joana Dilão

1 a 3 março teatro estreia

MISE EN ABYME CÃO SOLTEIRO & VASCO ARAÚJO Sexta e sábado, 21h, domingo, 17h30 Sala Luis Miguel Cintra; m/16 €12 a €15 com descontos CONVERSA COM OS ARTISTAS

3 março, domingo, 17h30

moderação de Pedro Faro, Crítico e Historiador de Arte

Criação: Cão Solteiro & Vasco Araújo; Texto: José Maria Vieira Mendes; Cenografia: Vasco Araújo; Figurinos: Mariana Sá Nogueira; Desenho de Luz: Daniel Worm d’Assumpção; Sonoplastia: Emídio Buchinho; Escultura/ cabeça: Rui Vasquez; Costura: Aldina Jesus, Rosário Balbi, Teresa Louro; Apoio à cenografia: Daniela Cardante; Apoio aos figurinos: Inês Ariana; Apoio aos figurinos (pintura): Nuno Tomaz; Produção e fotografia: Joana Dilão; Atores: Ana Libório, Diogo Bento, Patrícia Silva, Paula Sá Nogueira, Raimundo Cosme, Sofia Freitas Abreu, Sónia Baptista, Vasco Araújo; Pássaro: Queimada – F&C -Falcoaria Cetraria; Voz-off: André Godinho; Texto para folha de sala: Pedro Faro; Outros textos (caosolteiro.com/ a publicar futuramente): Maria Sequeira Mendes, Nuno Fonseca; Apoios: Junta de Freguesia da Misericórdia, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Culturgest, Teatro Praga, Rua das Gaivotas 6; Agradecimentos: Joana Gomes Cardoso e Paula Nunes/EGEAC, Carla Madeira, Eunice Gonçalves, Otelo Lapa, Clemente Cuba, André e. Teodósio, Pedro Barreiro, Andreia Carneiro, Maria Braga, Maria Isaura Braga, João Brandão, Maria João Tomaz, António Gouveia Coprodução: Cão Solteiro e Maria Matos Teatro Municipal – Temporada 2017/18 em colaboração com o São Luiz Teatro Municipal Nenhum animal sofreu maus tratos, físicos ou psicológicos, durante o treino e/ou atuação neste espetáculo.

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

Direção Artística Aida Tavares Direção Executiva Joaquim René Assistente da Direção Artística Tiza Gonçalves Programação Mais Novos Susana Duarte Adjunta Direção Executiva Margarida Pacheco Secretária de Direção Soraia Amarelinho Direção de Produção Mafalda Santos (Diretora), Andreia Luís, Catarina Ferreira, Margarida Sousa Dias, Mónica Talina, Tiago Antunes Direção Técnica Hernâni Saúde (Diretor), João Nunes (Adjunto) Iluminação Carlos Tiago, Nuno Samora, Ricardo Campos, Sérgio Joaquim Maquinistas António Palma, Paulo Lopes, Paulo Mira, Vasco Ferreira Som João Caldeira, Gonçalo Sousa, Nuno Saias, Ricardo Fernandes, Rui Lopes Vídeo João Van Zelst Manutenção e Segurança Ricardo Joaquim Direção de Cena Marta Pedroso (Coordenadora), Maria Tavora, Sara Garrinhas, Ana Cristina Lucas (Assistente), Rita Talina (Camareira) Direção de Comunicação Elsa Barão (Diretora), Ana Ferreira, Gabriela Lourenço, Nuno Santos Bilheteira Cristina Santos, Diana Bento, Renato Botão

TEATROSAOLUIZ.PT