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10 perguntas para pensar

setembro de 2009


10 perguntas? 10 perguntas? 10 perguntas porque é um número redondo, são tantas como os dedos de duas mãos (ou de dois pés, se preferirem). São 10 perguntas, que por certo, trarão consigo outras, muitas mais, sobre a nossa cidade e as formas de fazermos Setúbal. A presente pequena edição, surge porque mais uma vez chamam-nos a escolher aqueles que irão administrar Setúbal; e estes, os que se candidatam, lançando slogans vazios, falam-nos como se o nosso quotidiano se passasse na Praça du Bocage. Como se Setúbal fosse apenas o seu centro, e as restantes áreas do território estivessem condenados ao esquecimento. Setúbal é mais que o seu Centro Histórico, Avenida Luísa Todi e Frente Ribeirinha. Sim, são10 perguntas. 10 perguntas porque não me sinto esclarecido. 10 perguntas à espera de respostas, propostas, caminhos a seguir.


1_ Setúbal, como lá chegar? Setúbal tem o mais caro movimento pendular do país. Mais que pagar um preço alto por viver em Setúbal e trabalhar ou estudar em Lisboa (ou noutra cidade do percurso). É acima de tudo, um desincentivo à fixação de empresas e pessoas. Um enorme obstáculo à mobilidade de conteúdos e serviços. A gravidade é ainda acrescida pelo fraco número de comboios/hora e pelo incompreensível tempo de viagem (parando sempre em todas as estações e apeadeiros). A ausencia de visão estratégica é ainda assinalada por uma única paragem dos comboios da Fertagus, longe do centro económico da cidade, longe dos Ferryboats (não contribuindo para o potencial turístico da região), longe do polo universitário, longe do polo industrial.


movimentos pendulares em Portugal:

fonte: www.transpor.pt


2_ Na cidade, de autocarro? Vai andando, mano! Vale a pena dizer quais os benefícios de um bom sistema de transportes públicos? Foquemo-nos então no que é um bom sistema: Uma sequencia de interligações eficazes, com cruzamento de linhas em pontos essenciais – paragens de comboios, barcos, ou outros que a cidade possa ter – os chamados “interfaces”. Estes costumam ser espaços de acontecimentos: comércio, lojas do cidadão, encontros, desencontros... Um sistema de transporte públicos eficaz é o principal incentivo à sua utilização e à sua viabilidade económica. A afluência do transporte na paragem não é intercalada por esperas intermináveis. Não é suposto ser incerta a possibilidade do autocarro aparecer ou não. O transporte público também deve existir ao fim-desemana. O transporte público não é necessariamente uma frota em segunda-mão, proveniente de um país nordico qualquer no qual se dispensa a circulação de ar até nos meses quentes... Vá, vamos pôr as coisas de forma simples: um bom sistema de transportes públicos incentiva a compra de bilhetes e passes; comprar carro próprio costuma ser incentivado pelos fabricantes de carros.


3_ porquê reabilitar do Centro Histórico? O Centro Histórico de Setúbal é um documento vivo, património, memória da génese da nossa cidade. Faz sentido reabilitá-lo. Mas, a que custo devemos fazêlo? É que Setúbal não é só o seu Centro Histórico, numa cidade que oferece uma baixa qualidade de vida urbana à maioria dos seus habitantes, que se apresenta como uma manta de retalhos, numa cidade construida sem um fio condutor, sem unidade urbana reconhecível, sem oferecer uma qualidade equiparável na diversidade dos seus territórios; quanto valerá dourar a cereja que não tem bolo sobre o qual assentar? Existe toda uma cidade, que mesmo construída no século XX, também é feita de modelos urbanos e habitacionais desactualizados e envelhecidos. Reabilitar o centro histórico, sim! Mas, ninguém quer chegar à “eurodisney” atravessando catastrofes urbanas que todos ignoramos só porque são do século passado! Reabilitar o centro histórico não deveria ser tão desejável como ter uma vida urbana pulsante na totalidade do território que faz a cidade?


4_ Setúbal, qual a sua identidade? Setúbal é o seu centro histórico e toda a história que construímos à sua volta. Uma história constituída pelas sucessivas expansões do limite da cidade e das quais fazem parte o Bairro dos Pescadores, Peixe Frito, Bairro do Liceu, Grito do Povo, Terroa, Vanicelos, Bela Vista, Viso, Vale do Cobro, Casal das Figueiras, Mateigadas, etc. Mais que um conjunto de realidades heterogéneas, trata-se de um conjunto de realidades heterogéneas sem eixos unificadores da identidade urbana setubalense. No percorrer de qualquer uma das principais vias da cidade somos surpreendidos por uma confusa diversidade de linguagens do espaço urbano: diferente número de faixas de tráfego automóvel, diferentes regras, diferente mobiliário urbano, diferentes candeeiros, diferentes pavimentos, diferente tratamento dos espaços verdes, em suma, a promoção de diferentes qualidades de vida para pessoas que assim o são, desigualmente setubalenses.


5_ Vale da Rosa, para quê uma nova Setúbal? Sim, já sabemos, o grande estádio do Vitória! Mas, como é que a autarquia (em dificuldades económicas) pensa administrar mais territorio (iluminação publica, espaços verdes, saneamento básico, transportes públicos, manutenção das vias) com o mesmo número de população a pagar impostos? Aumentar os impostos municipais? É que, vivemos num país com excedente habitacional até 2050, com crescimento demográfico negativo, vivemos numa cidade que está a perder população... Mais territorio urbano corresponde à redução da densidade populacional nos bairros existentes, à diminuição da viabilidade económica dos seus espaços comerciais, ao atraso dos processos de renovação dos bairros existentes por iniciativa privada. Queremos promover uma politica de abandono, ao invés de uma política de regeneração?


6_ porque o Sado tem golfinhos, Setúbal é uma cidade ecológica? Nem mais, é que também temos ecopontos. Temos golfinhos e ecopontos, logo somos ecológicos, sustentáveis, amigos do ambiente e recicláveis. Os nossos transportes públicos são fantásticos, os espaços públicos são vibrantes de vida, nunca ninguém abateu sobreiros, os principais eixos viários são corredores verdes, têm ciclovias, garantem a continuidade fitológica em toda a extensão urbana, e, há um lince ibérico em cada esquina. Neste aspecto, somos uma verdadeira cidade-modelo, a nossa priveligiada inserção geográfica assim nos obriga. Viva Setúbal, amiga do ambiente.


7_ o que é um setubalense? A verdade universal é que o setubalense é pescador, fala “charroque”, sempre viveu na praça du bocage, no troino, ou nas fontainhas. O setubalense tem a sua traineira atracada na doca; para o setubalense o Vitória não é um clube, é uma religião. Sempre foi assim, e sempre será; ou não! Setúbal sempre foi habitado por uma população muito heterogénea e essa é a maior prova do seu comopolitismo. No espaço intra-muralhas do século XIV existia a mouraria e a judiaria. Durante a época medieval, o seu fabuloso porto serviu de interposto comercial do sal, vindo povos de toda a europa buscá-lo aqui, e aqui assentando arraiais. Durante 4 anos, D. João II transfere a sua corte para Setúbal. O domínio filipino é particularmente implacável com a população setubalense. No fim do século XIX começam a chegar os povos da Ria de Aveiro. Com as fases de industrialização do século XX, chegam os alentejanos. Com a revolução chegam as populações das ex-colonias (retornados e outros). Mais recentemente, na decada de 1990 chegam brasileiros e os povos das ex-republicas soviéticas. Como qualquer grande cidade, somos uma mistura de culturas, credos, civilizações. Qualquer cidade deveria saber receber e lucrar com o melhor das diferentes culturais que a compõe. No nosso caso, em vez de procurarmos as vantagens da sua integração, escolhemos segregar o maior (melting pot) caldeirão cultural da cidade – a Bela Vista (onde hoje se falam mais de 40 línguas e onde, à margem de Setúbal, se cruzam diariamente povos de todo o mundo).


8_ a cultura é sempre subsidio-dependente? Não existe cultura enquanto não existir uma cultura de acesso à cultura. É que a cultura não é só feita de “operas de sidney”, “bibliotecas de alexandria” ou “guggenheim’s de bilbau”! Nesses sítios, tocam e expõem os melhores dos “artistas de domingo” que deveriamos ser todos nós. Os chamados “artistas de domingo” são individuos normais, que no seu tempo livre tocam um instrumento, pintam uns quadros e que dentro da sua comunidade fazem elevar o nível cultural e que semeiam o habito de ir a eventos culturais. Não é dificil, é que se calhar as pessoas gostavam de saber tocar outro instrumento que não a flauta – aquela que todos semi-aprendemos na escola preparatória. Se calhar, mesmo sem especial vocação, gostavam de experimentar “escrita criativa”, “trombone”, “desenho”, “sapateado”, “cozinha oriental”, “yoga”... Não será o esquema da cidade criativa – cidade cultural – uma rede de espaços de aprendizagem por bairro? Espaços onde, em horas pós-laborais e a preços comportáveis, todos fariamos elevar um pouco a nossa cultura colectiva, ganhando o hábito de a fazer rentável.


9_ Cada coisa no seu sítio? Mais que saber onde deveria/deverá ser a feira, não devemos questionar a separação de funções na cidade? É que existe um conflito ideológico entre o dispersar e o concentrar. Por um lado, o ideal do subúrbio calmo, distante das confusões, onde só a casa existe; por outro, a ideia de uma urbanidade pulsante, densa, rica na concentração de pessoas, funções, oportunidades, empregos, trocas, etc. Esta, a cidade que temos, e a que se propõe – dispersa – é também uma cidade de distâncias; cabe-nos pagar esta deconcentração de funções com o preço das infraestrutras (estradas), do transporte (€ e tempo), e, com a dispersão de interesses e oportunidades de negócio: é que dois negócios próximos um do outro não se limitam a concorrer entre si, também atraem pessoas para as imediações do negócio concorrente (como eram os restaurantes na av. luisa todi em dias de feira, como o centro comercial do bonfim em dias de jogo, como o aki perto do jumbo... Oportunidades geradas pela proximidade). Concentrar, dispersar? Há que escolher e pagar a factura.


10_ porque é que os candidatos não falam destas coisas? The one million dollars question! É tão melhor atirarem-nos chavões vazios como “reabilitação ecosustentável dos largos”, “complexo multi-poli-cultural”, “biblioteca e parque multi-geracional”, “animação, revitalização e modernização do comércio tradicional”, “terminal de cargueiros para congressos”, “mais e melhor desporto”, “feira no viso” ou “mais golfinhos no sado”! Isso a par com o alcatroamento e pintura de vias (que todos fizeram) na véspera das eleições, só aumenta a noção generalizada que não existe uma estratégia global para Setúbal. Se calhar não é bem assim, lá nos programas eleitorais, esperançosamente, talvez tenham escrito alguma coisa como “planeamento estratégico” mas, planos e estratégias há muitos. Na nossa já adulta democracia, já é mais que tempo dos partidos assumirem políticas urbanas para que nós – eleitores – mais que escolher candidatos, pudéssemos escolher ideais de cidade; da nossa cidade!


ESTA VERSÃO É PROVIS ÓRIA!! Nota:


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