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Sergio Mello *** Temporada de Caรงa Aos Ossos que Tanto Doem no Inverno Ladeira em Carrinhos de Supermercado Explicando a Morte para Crianรงas de 6 Anos Summer


Coleção Primeiras Obras, 6 Ivam Cabral (organizador)

Apoio Cultural


Sergio Mello *** Temporada de Caรงa Aos Ossos que Tanto Doem no Inverno Ladeira em Carrinhos de Supermercado Explicando a Morte para Crianรงas de 6 Anos Summer


Prefรกcio

Raramente Acontece um Olhar com Carinho mรกrio bortolotto 7 Temporada de Caรงa 13 Aos Ossos que Tanto Doem no Inverno 67 Ladeira em Carrinhos de Supermercado 115 Explicando a Morte para Crianรงas de 6 Anos 163 Summer 211 5


Prefácio

Raramente Acontece um Olhar com Carinho *

Tenho almoçado sozinho com meus coturnos sem cadarço e meu olhar perdido na janela do restaurante. Uma taça de vinho que sempre derrama algumas gotas no meu casaco. Dia desses entrou no restaurante um cara que me lembrou o Ivo de Ladeira em carrinhos de supermercado, ou talvez ele tenha me lembrado o meu amigo Nelson Peres que fez a primeira leitura do texto lá no Masp. Só sei que eu podia acompanhar o seu andar triste enquanto tentava escolher a mesa e já procurava um garçon com aquele olhar um pouco conformado de “ok, vou ter que esperar para ser atendido”. * Raramente Acontece um Olhar com Carinho é o nome de uma música de Guilherme Lamounier.

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Aí entrou uma ex-namorada no restaurante, alguém em quem, um dia, eu achei que podia confiar minhas feridas. Minha enfermeira de plantão. Alguém que diria: “Cuidado. Esse lado pra cima. Ele é frágil”. Lembrei de uma velha música do Belchior enquanto ela apenas me cumprimentava com um aceno de cabeça. Um jeito distante de aceitar a minha presença no mesmo lugar que ela e lembrei do mesmo Ivo falando: “Nada é mais constrangedor que a formalidade típica entre duas pessoas que foram íntimas um dia”. Conseguia ouvir o clone do Ivo dizendo aquilo para o garçon que veio atendê-lo, embora ele provavelmente estivesse apenas e formalmente dizendo: “Acho que eu vou comer o capeletti ao forno e tomar uma taça de vinho”. Penso que poderia ter sobrevivido àquele almoço se o passado não tivesse me acenado e perturbado a minha paz. Acho que eu queria que ela tivesse me olhado “com a vontade de um cão preso na coleira”. Mas ela apenas me acenou com um ar distante enquanto devia estar pensando numa salada mista ou qual8


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quer coisa do tipo. Assim são os personagens de Sergio Mello. Eles podem ser encontrados nos lugares mais prosaicos. Numa loja de conveniência ou num bar mal-afamado com uma juke box que só toca velhas canções de Neil Sedaka ou algo do tipo. Eles moram em casas pequenas onde a luz não entra com facilidade. Eles ouvem Chet Baker na penumbra e sempre tem um passado mais ou menos sombrio. E em algum momento de suas vidas vão ter que enfrentar esse passado. E talvez não sobrevivam a ele. Alguns vão empunhar uma barra de ferro e esperar pelo inevitável. Sergio Mello leu Tennessee Williams e Sam Shepard com a atenção de um gato que vê o peixe sendo fisgado da frigideira e hoje vive com intensidade entre corridas ao submundo, partidas de vôlei e afagos na sobrinha, desde que gritou o que achava ser seu segredo na Mercearia São Pedro depois de já ter bebido várias. Então nossa amiga Clarinha Averbuck falou com afetação blasé: “E daí? Grande coisa. Eu também”. Sergio talvez tenha pensado não sobreviver ao seu segredo. Os personagens 9


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dele também temem por isso o tempo todo. E naquela noite enquanto ele parecia aliviado dirigindo o seu carro fui pensando nos homens e nos seus segredos, fui pensando no nosso instinto de sobrevivência. No coração de plástico que implantaram em nosso peito e esqueceram de avisar que era frágil. Então fico pensando que não preciso mais dessas lembranças todas. De acreditar que “o travesseiro um dia cobra”. Vou escrever a minha história e Sergio vai escrever a dele com a nobreza & coragem que lhe são peculiares. E ele não é o tipo de dramaturgo que esconde as pistas de sua história particular em suas histórias públicas. Elas estão lá. É só ficar atento. Como fazia Zé Vicente, por exemplo, só pra citar um dramaturgo brasileiro genial e mais próximo de nós. Sergio Mello é antes de tudo um poeta refinado, alguém capaz de imagens assombrosamente belas como as batatas palito frigindo na peça Aos ossos que tanto doem no inverno. Sergio não tem noção de como foi importante pra mim trabalhar como ator nessa peça, na fase de vida em que me encontrava. 10


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Mas sei que ele tem noção exata da ternura & da melancolia que brota dos seus versos tristes disfarçados em diálogos teatrais. Então aquele sujeito que bebe comigo & joga bilhar & fala de livros de Raymond Carver & é meio tímido quando tá sóbrio ou quando tem que falar em público & de quem eu tive dúvidas quando li o primeiro texto (só quando li os poemas do Sergio é que entendi o imenso talento e toda a confusão) se tornou um dramaturgo personalíssimo. Então não vá achar que você vai ler esses textos e compreender toda a encrenca se em algum momento não se confundir com os personagens, não ouvi-los atentamente sussurrando em seus ouvidos “a vida não me reservou nada de esplêndido, mas eu fui lá e arranquei dela”. Esse é um mundo frio onde “raramente acontece um olhar com carinho”, mas nos textos de Sergio eles insistem em arder de um jeito quase inexplicável, então é possível acreditar que um sujeito que estava disposto a atirar na cabeça do outro, minutos depois vá até o quarto buscar um cobertor para que o seu desafeto não passe frio 11


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deitado no sofá. Sergio há muito já entende generosamente que não há como passar por cima de nossos sentimentos mais simples. E isso faz toda a diferença. Mário Bortolotto

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Temporada de Caça

Cena 1 Manhã. Sala de casa humilde. Eva está sentada. Ouve música antiga e triste no rádio. Elisa entra. Acabou de acordar. Usa camisola e meião de jogador de futebol na perna esquerda, que é manca. Ao notar a filha, Eva desliga o rádio rapidamente.) Eva (relutante) – Bom-dia. Elisa – Não precisava. Eva – Só tô sendo educada. Elisa – Tô falando do rádio. Podia ter deixado se quisesse. Eva – Cê nunca gostou dele. Elisa – Não lembro de já ter reclamado. 13


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Eva – É, mas dá pra ver... Pela sua perna... Elisa – Quer dizer que se eu estendesse a mão pra uma cigana, ela ia recusar e me pedir pra levantar o vestido? Eva – Eu doei todos pra Campanha do Agasalho. Elisa – Eu sei o que que cê fez com eles. Eva – Com exceção daquele cinza, cê sabe, o que não era de segunda mão... Cê não tá arrependida, agora, tá? (Elisa senta-se. Pausa curta.) Elisa – Meu rosto deu uma desabada mesmo. Eva – Oi? Elisa – Depois do acidente. Veio parar na canela. Que nem uma calça dois números maior. Eva – Não entendi mas não precisa repetir. Já sou velha há tempo suficiente, já. A ponto de saber que uma repetição certamente viria em gritos. Elisa (em tom elevado) – Cê mesma não tá falando, mãe, que percebe se eu gosto ou 14


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não de alguma coisa só de olhar pra minha perna? Eva – Não precisa gritar. Eu ouvi, só não entendi direito. Elisa (em tom adequado) – Até antes do acidente era o meu rosto que demonstrava esse tipo de coisa. Como acontece com todo mundo. Porque é no rosto que as pessoas olham enquanto conversam. É assim que elas ficam sabendo se devem avançar ou não. Eva – Eu só quis dizer que cê fica balançando a perna o tempo todo quando não tá gostando de alguma coisa. É por isso que eu sei. Elisa – Que uma música não tá me agradando? E quando eu manco, hein, mãe? Quando eu manco será que é porque eu tô infeliz?... Eva – Cê sabe que não vai ser como era. Elisa – Faz sentido, então. Eva – O médico avisou que iam ficar sequelas. Mesmo depois da fisioterapia. Cê só precisa se acostumar, isso leva tempo. Elisa – Eu já me acostumei, mãe. Dois anos já. Só tá faltando as pessoas fazerem o mesmo. 15


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Eva – Tá vendo? Fica dando ouvidos pra o que essa gente aí fora diz, depois fica aí. Bando de gente miserável. Cambada de ignorantes. A cada dia que passa eu sinto mais ódio desse lugar, sabia? Se eu pudesse me mudava daqui agora mesmo. Levantava dessa cadeira – não perdia tempo preparando mala nem nada – e ia pra bem longe, pro limite do meu idioma... Você, não, né? Até parece que gosta daqui. (Elisa levanta-se e segue em direção à cozinha.) Eva – Aonde é que cê vai? Eu te disse bom-dia (Elisa hesita)... Eu disse agora há pouco, não faz nem... (Pausa curta.) Eu andei pensando numa coisa que li outro dia numa revista. O poder curativo das coisas que a gente se propõe a fazer assim que acorda. Ainda em jejum. Elisa – Cê mesma disse que não ia dar pra comprar jornal hoje, esqueceu? Eva – Não, eu sei. Elisa – Então por que a ironia? 16


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Eva – Oi? Elisa – Eu não consigo farejar um emprego, mãe. Preciso de um jornal pra isso. De preferência, do dia. Eva – Não, não, eu só quis dizer que se você, por exemplo, tomasse um copo d’água toda manhã, em jejum, isso podia mudar alguma coisa... Quer dizer, eu só não sei exatamente o quê, porque parece que pra cada pessoa funciona de um jeito. Elisa – Mãe, eu tô começando a ficar preocupada com você, sabia? Eva – Foi com base nesse estudo que eu li – não, porque isso é ciência, com gente de branco por trás, tubo de ensaio –, foi com base nisso que eu tava pensando que, se você concordasse, é claro, a gente podia aderir ao bom dia aqui em casa. Que que cê acha? De manhã, ainda em jejum. É só a gente acordar e dizer uma pra outra... Elisa (para si) – Que o meu seja suportável, isso sim. Eva – Isso foi um sim? Elisa – Vem cá, eu não posso trocar essa sua 17


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água aí em jejum por um copo de leite gelado, não? Eva – Não, não é isso. Elisa – Cê sabe, mãe, que eu não sou ninguém sem um copo de leite gelado, de manhã. Eva – Que horas são agora? Eu fiquei de visitar o seu irmão. Que horas são agora? Será que cê pode botar os óculos e (aponta um relógio de parede) ver as horas pra mim? Elisa – Já revirei a casa inteira atrás deles... Eva – Seu irmão pagou uma fortuna por aqueles óculos. Elisa – Eu sei. Sua existência se resume em não me deixar esquecer isso. Eva – Encomendou com a armação que cê queria e tudo. Impressionante como, hoje em dia, vaidade e saúde caminham em calçadas opostas. Elisa – Que vaidade, mãe? Que vaidade? Eu não lembro sequer a última vez que passei um batom. Eva – Pois eu lembro. Se pintou como se fosse fugir com o circo, saiu sem levar os óculos e deu no que deu. 18


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(Pausa curta. Elisa solta um riso sem querer.) Eva – Um ônibus esmaga a sua perna e cê ainda ri? Elisa – É que eu lembrei de uma piada... Aquela dos dois tomates atravessando a rua. (Pausa curta. Ambas seguem em recordação melancólica.) Eva – Na época, eu pensava que cê nunca mais fosse voltar... daquele hospital imundo... Elisa – Lembra das minhas costas quando eu cheguei? Era uma ferida só. Eva – Também, quase 1 ano em cima de uma cama. E aqueles ferros todos enfiados na sua perna? Pareciam uma grelha... Elisa – Lembra da minha cabeça empesteada de piolho? Ai, dá agonia só de lembrar. Eva – Nem na época da escola cê teve tantos... Elisa – Pois é. E o que que eu tenho hoje, hein, mãe? Um título vitalício de aberração do bairro por causa dessa perna, é isso?... 19


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Eva – E 30% de um salário mínimo por mês de indenização da companhia de ônibus. (Pausa curta. Elisa ri novamente.) Eva – Os tomates, de novo? Elisa – Cê queria o quê? Hein? Encostar a orelha na porta do meu quarto e ouvir soluços?... Não. Chega. Cansei... Tô até pensando em mandar uma carta pra Adidas ou pra Nike, pedindo uma indenização também. Eva – Cê foi atropelada por um ônibus, não por um par de tênis de corrida. Elisa – É, mas aposto que pra esconder o que sobrou da minha perna passo mais tempo usando meia de atleta do que qualquer um patrocinado por uma delas. E essas meias que vão até o joelho não são baratas, não, cê sabe disso... Cê acha que alguma delas podia se interessar? Eva – Eu só acho que cê já devia ter aprendido. Faz dois anos e você ainda aí. Elisa – Quem devia ter aprendido alguma coisa aqui é você, mãe. 20


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Eva – Eu? Elisa – É, a parar com essa história de que as pessoas só colhem o que plantam. Um jardim bonito pode atrair as pragas mais terríveis, sabia?... Às vezes, eu acho que cê deve ter uma explicação bem absurda pra justificar o que aconteceu comigo. Sei lá, que na composição do batom que eu usava no dia do acidente havia partículas de imã suficientes pra atrair um ônibus. Ou que o problema tava na cor vermelha do batom, que fez com que o ônibus viesse na minha direção que nem um touro ensandecido. Às vezes, eu acho que cê é bem capaz de pensar esse tipo de bobagem. Só pra ter companhia pras suas sessões de autocomiseração. Eva – Eu acredito em justiça divina. E vaidade é pecado. Sempre teve entre os sete. Elisa – As tragédias acontecem e pronto, mãe... Se existisse mesmo justiça divina, um bebê, por exemplo – que tá isento, puro –, não nasceria, sei lá, com uma doença rara ou com os pezinhos virados pra trás. 21


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Eva – É pra pagar pelos pecados dos pais dele. Elisa – E quem é que vai sofrer com isso? Não é o próprio bebê? Eva – É, mas aos olhos dos pais... Se um dia cê for mãe, cê vai entender. Vai entender que às vezes a dor pode ser bem maior em quem observa a dor... Elisa – Se um dia eu for mãe, essa é boa... Mãe, cê lembra quantos anos eu tenho? Eva (olhar fixo na filha) – Uns... Não, não pode ser. Se cê tivesse a idade que eu pensei agora não seria possível ter saído de mim... Elisa – É, meu rosto deu mesmo uma desabada nesses últimos tempos... Eva – Elisa, não é implicância minha, não. Eu só insisto pra você usar seus óculos porque sem eles, com 20 graus de miopia, você pode ignorar não só a justiça divina, mas também que ônibus existem. (Pausa curta. Levantando-se.) Bom, eu preciso visitar seu irmão. (Elisa ameaça novamente seguir em direção à cozinha.) 22


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Eva – Onde é que cê vai? Elisa (hesita, bufa) – Pegar meu copo de leite. Não preciso dos óculos pra isso. Eva – Coalhou. Elisa – Quê? Eva – Tive que jogar no ralo da pia. Cê sabe, o cheiro. Elisa – De novo? Eva – Outra queda de energia durante a noite, só pode ser. A casa do sujeito aí da frente até amanheceu sem luz. Pelo menos, a da varanda não tava acesa, como de costume. (Indo até a janela.) Aliás, deixa eu dar mais uma olhada... Elisa (para si) – Geladeira de merda, viu. Eva – Que que cê disse? Elisa – Essa geladeira tá velha, mãe, caindo aos pedaços, já deu o que tinha que dar. Eva – Eu também tô velha já. Será que eu também sou feita disso que cê acabou de falar? Elisa – A única calça jeans que eu tenho tá pendurada atrás dela pra secar há uma semana e ainda nada. Uma semana que eu não saio de casa por causa disso. 23


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Eva – Exagero seu. Elisa – Exagero meu? Desde a missa de quatro anos que cê pediu pra rezar pro Mauro. Eva (ríspida) – Isso lá é jeito de falar do seu irmão? Elisa – Eu tô falando da geladeira. Eva – Tá falando dele, sim. Tá falando dele. Da morte dele como se fosse um copo que tivesse se espatifado no chão e não houvesse outra alternativa senão a de limpar, ali, na hora. Elisa – Credo, mãe, eu só falei da geladeira. Eva – Que ele me deu... Elisa – É que já faz tanto tempo. Eva – Isso não é da sua conta, cala a boca... Não vai ser só porque você quer que eu vou me desfazer das coisas que ele me deu, tá ouvindo?... Inferno... Inferno, inferno. (Pausa curta. Segue ferida.) Sabe qual foi a única coisa boa que o seu pai me ensinou?... Foi a enxergar o tamanho do amor que eu sinto pelo Mauro... Elisa – Cê sempre disse que meu pai não prestava. 24


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Eva – Nunca prestou, é diferente... Só quando ele pegou liberdade condicional na prisão, eu fui saber que o contrário disso, que incondicional, é o tamanho do amor que uma mãe sente pelo filho. Nem sei se incondicional é exatamente uma escala de medida, mas isso não importa... Até então eu não tinha um nome pra isso. A única coisa que eu sabia é que tinha alguma coisa a ver com o mar – não dá pra ver onde termina. (Pausa curta.) Elisa – Esse seu amor aí... ele é só pelo Mauro? Eva (desconversa) – Cê não me deixou terminar. Elisa – Eu te dei tempo suficiente. (Pausa curta.) Eva – Às vezes... isso sempre acontece no começo da noite... eu tenho a sensação de que o seu irmão vai voltar da fábrica... Quatro anos já e eu ainda acho que ele vai voltar 25


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da fábrica... e atirar o macacão sujo no meu rosto, como ele sempre fazia, lembra?... “Já chegou, meu filho?”... “Não, mãe, tô lá ainda”... (Ri. Aos poucos, riso vai se transformando em comoção.) Agora é só esse buraco. Um vazio... Eu não sabia que o vazio podia ocupar tanto espaço... Se cê soubesse como eu sinto falta do meu menino, se cê pudesse imaginar... Depois que ele se foi, meu coração se transformou numa foca suja de óleo diesel... morta na beira do mar... (Blecaute. Fim da cena 1.)

Cena 2 (Mesmo cenário. Elisa e Rosemiro chegam da rua, molhados, apesar de ele portar um guardachuva. Ela usa jeans, ele, uniforme de carteiro e carrega uma bolsa característica.) Elisa – Obrigada pela carona. Rosemiro – Pela companhia, cê quis dizer. Elisa – Não, no seu guarda-chuva. 26


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Rosemiro – Ah, que é isso. Se pelo menos cê tivesse vindo debaixo dele. Elisa – Eu te avisei. Rosemiro – Não, eu sei, eu sei... Meu, é muito difícil – eu diria até raro, hoje em dia – ver uma mulher a fim de tomar chuva. Elisa – Como assim? Rosemiro – Repara. É só cair um pinguinho – às vezes nem é do céu, é do ar-condicionado de algum prédio – e a mulherada já sai tudo correndo com a mão na cabeça pra proteger o cabelo... (Elisa ri.) Cê já enfiou um graveto num formigueiro? Faz isso que cê vai ver como as mulheres se comportam em dia de chuva... Você não. Elisa – Às vezes, cê é engraçado. Rosemiro – Jura? (De olhos fechados.) Fala de novo, vai... Elisa (desconversa) – Sua mulher não acha o mesmo, não? Rosemiro – A Sandra? A Sandra não acha nada. Até porque dá um trabalho procurar. Ela tem muita preguiça... Cê acredita que a companhia de luz cortou a energia de casa, 27


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hoje cedo? E não foi por falta de grana, não, porque faz um mês que eu dei a grana pra ela pagar na casa lotérica. Me pergunta se ela pagou. Elisa – É, minha mãe disse que a varanda de vocês amanheceu sem luz hoje. Rosemiro – Pois é. Eles chegaram bem cedo. Elisa – Quer dizer, não que a minha mãe fique bisbilhotando vocês... Rosemiro, acho que cê não tinha que ter vindo me trazer até aqui. Cê tá em horário de trabalho. Rosemiro – Não teve dever nisso, não, Elisa. Foi um prazer... E nessa cidade tudo empaca quando chove mesmo. Por que que não pode acontecer o mesmo com algumas cartas? Elisa – É, mas acho melhor você ir. Rosemiro – Eu tô me separando da Sandra. (Pausa curta.) Só me agradece pela companhia, então. Quer dizer, já que o meu guarda-chuva só serviu pra atrapalhar mesmo... Elisa – Obrigada... Rosemiro – Elisa, eu não tenho que ir. Elisa – A minha mãe, Rosemiro. Ela pode tá voltando. 28


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Rosemiro – Ela me odeia, né? Elisa – Não, não é isso. Ela só tá assim pelo que aconteceu. Rosemiro – Bom sinal. Elisa – Quê? Rosemiro – É que me odiando tanto do jeito que a dona Eva me odeia, se ela tivesse em casa, já ia ter me botado pra correr. Elisa (num tom elevado, apenas por constatação) – Mãe?... Mãe?... Ela não deve ter voltado do cemitério ainda. Deve tá em algum lugar esperando a chuva passar. Rosemiro – Meu, eu fui tentar manter o guarda-chuva em cima da sua cabeça e, olha só pra mim, também tô ensopado. Elisa – Ai, desculpa. Vou pegar uma toalha. Rosemiro – Não, não precisa. Elisa – Não, a culpa foi minha. É rápido. (Elisa sai de cena.) Rosemiro (em tom elevado) – Eu faria muito mais que isso, sabia?... Tá me ouvindo?...

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(Elisa volta usando roupas secas, secando os cabelos. Carrega toalha e roupas para Rosemiro.) Elisa – Eu trouxe também umas roupas do Mauro. Acho que dão em você, cês tinham mais ou menos o mesmo corpo. (Rosemiro chora seco, com o rosto enterrado entre as mãos. Dura apenas alguns segundos. Elisa o observa, compassiva, sem dizer nada. Pausa.) Rosemiro – Meu, desculpa aí... Elisa – Não, claro. Rosemiro – Eu gostava muito do seu irmão. Elisa – Eu sei. Rosemiro – Cê acredita em mim? Elisa – Claro que sim. Rosemiro – Por que que a sua mãe não acredita nisso, então, pô? Por que que ela só sabe me acusar do que aconteceu? Elisa – Rosemiro, tá sendo muito difícil. Pra todo mundo. Essas coisas só o tempo mesmo... O Mauro também gostava muito de você. Rosemiro – Eu não tive culpa. 30


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Elisa – Eu sei. Rosemiro – Eu não tive culpa, Elisa. Elisa – Eu sei disso. Eu já disse que acredito em você. Rosemiro – Merda. Eu pedi tanto pra que ele não fosse com aquela camisa... Elisa – Olha, a gente não precisa... falar disso agora. Rosemiro – Eu insisti tanto, tanto... Falei mais de cem vezes pra ele. Ou que ele fosse com uma outra camisa por cima, pelo menos, e tirasse só lá no estádio. Mas não, ele disse que era uma ocasião especial, que era a primeira vez que ele tava indo a um estádio de futebol, tinha que ser a caráter, com o escudo do time dele no peito. Teimoso do jeito que ele era... Meu, quando eu vi os caras da torcida adversária subindo no ônibus minhas pernas queimaram na hora, começaram a tremer, elas tremiam pra valer mesmo. Antes de parar no ponto, eu até gritei pro motorista, pra que ele não abrisse a porta, mas parece que ele não ouviu, não sei, tava muito barulho... Subiram uns 15 31


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caras. Eles já entraram gritando, fazendo uma puta zona. Elisa – O resto eu já sei, Rosemiro. Rosemiro – Não. Cê não sabe, não. Elisa (ríspida) – Eu não quero saber dos detalhes. Eu não preciso saber como foi que meu irmão foi espancado até a morte. Rosemiro – Quem disse que é aí que eu quero chegar?... Antes que eles vissem o Mauro, eu... eu mudei de lugar. É, eu fui pra outro banco, cê sabia disso?... Seu irmão fez o mesmo, ele veio atrás de mim, mas... eu empurrei ele, Elisa. É, eu mandei ele ficar no outro banco, no que a gente tava, bem longe de mim... Eu não queria que os caras da torcida adversária pensassem que a gente tava junto... Cê precisava ver os olhos de pavor dele, ali, sozinho. Ele olhava pra mim como quem diz – a gente tá junto, cara, não me deixa sozinho, não. Mas eu continuei, continuei fingindo que não conhecia ele. (Descontrolado.) Eu fui um covarde, porra, um filho da puta de um covarde. Eu deixei o meu melhor amigo ser surrado até a mor32


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te na minha frente e não fiz nada. Elisa, eu deixei o Mauro morrer sozinho dentro daquele ônibus. Eu não fiz nada, Elisa. Eu não fiz porra nenhuma pra ajudar o seu irmão. Porra nenhuma... (Pausa longa.) Elisa – Cê agiu certo. Rosemiro – Quê? Elisa – Eu acho... Que que ia adiantar? Se cê tivesse feito alguma coisa, ia ser só uma morte a mais, eles eram muitos, cê mesmo disse. Rosemiro – Por que que cê não tira essa roupa, hein? Elisa – Quê? (Rosemiro tira a camisa.) Elisa – Que que cê tá fazendo? Rosemiro – Trocando a camisa. Não tô a fim de pegar um resfriado. Elisa – Eu já troquei de roupa. 33


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(Rosemiro, sem camisa, encara Elisa por alguns instantes. Logo ela fica encabulada.) Elisa – Rosemiro, a minha mãe... Rosemiro (vestindo camisa seca) – Que se foda a sua mãe. Elisa (ferida) – Quê?... Sai da minha casa. Rosemiro – Eu não vou sair. Elisa – Então eu chamo a Sandra. (Rosemiro a agarra e a beija. Ela resiste no início, mas acaba cedendo.) Elisa – Por que que cê se casou com ela, hein, seu...? Rosemiro – Pra ter o que abandonar. Quando a gente fosse fugir. Escuta uma coisa – seu irmão sempre me pediu pra cuidar de você, no caso de ele faltar e a sua mãe também. E eu vou fazer o que ele me pediu. Eu vou cumprir a promessa que eu fiz pra ele. Elisa – Minha mãe já deve tá chegando. Rosemiro – Ela não vai voltar. Elisa – Tá bom. 34


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Rosemiro – Eu tô falando sério, Elisa. Sua mãe não vai voltar. Elisa – Não quero nem ver se ela te encontrar aqui. Depois não fala que eu não avisei. Rosemiro – Elisa, sua mãe foi embora. Eu tô falando sério. Eu vi ela entrando num ônibus. Ela tava carregando bagagem e tudo. Elisa – Bobo. Rosemiro – Ninguém me falou, não. Eu vi. (Rosemiro volta a beijar Elisa, que já não retribui, desconfiada.) Rosemiro – Que que foi? Elisa – Espera. Rosemiro – Tá ruim? Que que foi? Elisa (desvencilhando-se dele) – Do que que cê tá falando? Que história é essa? Rosemiro – E não fui só eu que vi, não... Elisa – Embora pra onde? Rosemiro – Sei lá pra onde. Se não foi pra casa do caralho, espero que tenha sido pra bem perto.

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(Elisa segue em direção ao quarto da mãe.) Rosemiro – Se cê acha melhor ver com os próprios olhos... (Após instantes, Elisa retorna, atônita.) Elisa – Ela levou tudo, Rosemiro. Ela levou tudo. Roupa, bijuteria, fotografia, tudo que era dela. O armário dela tá vazio. Não tem mais nada lá dentro. Rosemiro – Não falei? Elisa – O que que tá acontecendo, meu Deus? Isso não faz sentido. Rosemiro – Calma, Elisa. Elisa – Bem que ela falou. Hoje de manhã, ela disse que tinha vontade de sumir daqui. Rosemiro – Ela fala isso há anos. Pro bairro todo. Elisa – Não, mas hoje, não sei, ela falou de um jeito estranho, diferente, com um brilho esquisito nos olhos. Sabe as últimas palavras de alguém que vai morrer, que depois cê descobre que parece que a pessoa já pres36


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sentia tudo? Por que que ela fez isso, meu Deus? Por que que ela fez isso comigo? Rosemiro – Me fala uma coisa, Elisa – faz de conta que a gente voltou no tempo, você e o Mauro são crianças... Elisa – Do que que cê tá falando? Rosemiro – Me escuta. Cês são crianças e a sua mãe pode mandar um único filho, sei lá, pra Disneylândia. Faz de conta que ela tem grana só pra mandar um, não importa. Quem que cê acha que ela ia mandar? Elisa – Será que cê não tá vendo que não tá ajudando em nada? Rosemiro – O que prendia a sua mãe aqui era o Mauro. Ele morreu, logo não há mais razão pra ela continuar aqui. Elisa – Já faz 4 anos que o Mauro morreu, por que só agora? Rosemiro – Foi o tempo que ela precisou pra armar tudo. Meu, tem assalto a banco que demora bem mais. (Pausa curta.)

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Elisa – Ela sempre fez planos de ir embora. Ela sempre tava tentando um jeito de arrumar dinheiro pra isso. Eu só achava que... Rosemiro – Que cê tava incluída nos planos? Elisa – Eu só achava que ela não ia ter coragem. Ela já tá velha, puta que pariu. (Pausa. Com tristeza que, aos poucos, se transforma em orgulho.) Minha mãe fugiu de casa... Minha mãe fugiu de casa, Rosemiro, dá pra acreditar nisso?... Fugiu, fugiu como uma adolescente... Danadinha... Quer saber?... Quer saber? Eu só espero que ela seja feliz... É. Pelo menos, a maior parte do tempo. Rosemiro – É isso... Meu, já tá mais do que na hora de você tocar a sua vida. Elisa – E ai dela se não me mandar um cartãopostal, ai dela. (Os dois riem. Pausa curta.) Rosemiro – Elisa, cê não acha que... Elisa – Minha vida? Acho. Acho, sim. Rosemiro – Eu tô falando da nossa. Elisa – Ãn? 38


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Rosemiro – Eu vou deixar a Sandra. Hoje mesmo... Quero te levar pra Santa Catarina, que que cê acha? Tenho lugar pra ficar lá, já planejei tudo... (Elisa abre os botões da blusa, com ar maroto, de costas para Rosemiro, que não a percebe.) Eu buzino duas vezes. No final da tarde, eu venho te pegar e buzino duas vezes. Eu só preciso passar em casa pra pegar umas coisas, que que cê acha?... Cê vem comigo? (Elisa vira-se pra Rosemiro e tira a blusa, de costas para a plateia. Ele sorri para ela. Blecaute. Fim da cena 2.)

Cena 3 (Mesmo cenário. Eva está olhando pela janela, com uma felicidade sádica nos olhos. Rosemiro entra ajeitando a roupa que era de Mauro, vindo do quarto, e esbarra em algum objeto.) Eva (sem se virar) – Eu não disse, filha, que tinha alguma coisa errada, hoje de manhã? 39


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Não é normal a luz da varanda daquele cafajeste amanhecer apagada... Rosemiro – Mas não deve ser por isso que a senhora tá tão animada, né, dona Eva? Eva – Você?... Que que cê tá fazendo aqui na minha casa? Como foi que cê entrou? Rosemiro – Calma, eu só vim trazer a Elisa. Eva (apavorada) – O que que cê fez com a minha filha? Cadê a minha filha? Rosemiro – Calma, dona Eva. Ela só deu uma saída, daqui a pouco tá de volta. Eva – Saiu? Como saiu? Pra onde é que ela foi? Rosemiro – Tava chovendo muito, a senhora não voltava, ela ficou preocupada. Eva – Escuta aqui, seu malandro, fica longe da minha filha. Fica bem longe dela. Rosemiro – Eu só encontrei ela na rua, começou a chover e eu ofereci meu guarda-chuva pra ela até aqui. Só isso. Eva – Agora sai da minha casa. Sai daqui. Rosemiro – Desculpa, mas eu não posso. Eva – Não pode? Como não pode? Rosemiro – Eu sei que já parou de chover. Mas 40


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é que a Elisa tá com meu guarda-chuva, sabe? Ela pegou emprestado pra ir procurar a senhora. Eva – Cê tá de brincadeira comigo, seu moleque? Rosemiro – Não, claro que não. É que o guarda-chuva é da firma. E se eu voltar pro Correio sem ele, vou acabar me encrencando. Eva – Eu vou chamar a polícia... (Eva pega o telefone e disca.) Rosemiro – Me admira muito a senhora, viu. Uma alma tão caridosa, me enxotando da sua casa, assim, como se eu fosse um mendigo. Quer dizer, mendigo não, né, a senhora tem um carinho tão grande por esse tipo de gente. (Eva desliga o telefone). Rosemiro – Até traz eles aqui pra dentro da sua casa. E no meio da noite ainda, o que é muito mais louvável. Afinal, tanto universi41


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tário solto por aí com isqueiro no bolso, a gente nunca sabe. Eva – Cê tá achando que eu sou o quê? Rosemiro – Uma velha. É só isso que a senhora é. Uma velha. Que espera a filha dormir pra colocar em prática hábitos noturnos um tanto quanto peculiares. Com morador de rua, catador de papelão. Depois ainda dizem que as mulheres não se sentem atraídas por homens que têm carro... Os seus, por exemplo, tão sempre puxando aquele carrinho cheio de tralhas. E parece que quanto mais ensebado, quanto mais repugnante, melhor, né?... Meu, não sei como a Elisa não acorda com o cheiro deles. Eva – O que que cê veio fazer aqui? É alguma coisa do meu filho? Rosemiro – Eu só queria que a senhora soubesse que da minha janela eu também vejo coisas. Eva – O Mauro me dizia que ele tinha uma camisa que você gostava muito. Uma colorida, bem tropical. Ele até falava que cê queria comprar uma igualzinha. 42


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Rosemiro – Taí, já que a senhora tocou no assunto, eu queria uma coisa do Mauro, sim. Eva – É só pedir. Rosemiro – Eu queria que alguém trouxesse ele de volta. (Emociona-se. Pausa curta. Após se recompor.) Fica fria, eu não vou entregar a senhora pra Elisa, não. Eva – Eu posso te pedir uma coisa? Pelo meu filho, posso te pedir?... Fica longe da minha filha. Por favor. Eu queria que cê nem olhasse pra ela. Rosemiro – Aí eu já não posso garantir... Eu sou homem, dona Eva. Não sei se a senhora sabe, mas os olhos são a segunda coisa sobre a qual a gente não tem lá muito controle. Eva – Vagabundo. (Rosemiro avança em direção a ela, apontando o indicador em seu rosto.) Rosemiro – Escuta aqui, eu sou trabalhador, tá certo? Sempre fui. E a senhora sabe disso... Dezoito anos de Correio já, nunca recebi 43


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uma advertência... Vagabundos são esses seus amantes aí. Bando de andarilhos... Eva – Assassino. Rosemiro – Cuidado, hein, dona Eva. Eu posso contratar um advogado e processar a senhora por calúnia. Eva – Por que não experimenta? Rosemiro – Consideração ao Mauro. Só por isso. Eva – Cê devia era ser proibido de pronunciar o nome do meu filho. Rosemiro – Ele era meu amigo. Eva – Contra a minha vontade, fique você sabendo... E o coitado nem pode ver que eu tava certa. Rosemiro – Meu, eu nunca consegui entender por que que a senhora nunca foi com a minha cara, sabia? Eva – A gente não vai com a cara de desconhecido. Você eu conheço bem. Rosemiro – Desde que eu era moleque é essa implicância, pô. A senhora nunca deu uma aliviada. Eva – Eu tenho ódio de você. Eu seria capaz de 44


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colher assinaturas pra brigar por um feriado nacional no dia que você morresse. Rosemiro – Uma homenagem? Então eu tenho chance. Eva – Prensado contra um muro por uma carreta, com a lança do portão enfiada na barriga, depois de escorregar do telhado enquanto consertava a antena da tevê. Uma morte bem feia e lenta. E eu ia tá lá – ah, ia –, bem na sua frente, só pra tirar dezenas de fotos da sua agonia. E ainda ia pedir pra você sorrir. E depois, depois eu ia usar as fotos pra mandar fazer um livro bem grande, daqueles caros, sabe, capa dura, só pra enfeitar a mesa de centro da minha sala. Rosemiro (impressionado) – Pô, dona Eva... Eva – Eu ainda vou te ver morto. Do mesmo jeito que eu vi o meu filho dentro daquele ônibus. Rosemiro – Uma acusação, agora uma ameaça. Parece que a senhora tá mesmo a fim de se encrencar, né? Eva – Eu te conheço bem. Você e a sua cambada. Bando de salafrários... Cês acham 45


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que eu não sei, né? Eu sei, sim. Eu sei exatamente o que que cês fazem naquele jogo maldito. Rosemiro – A senhora tá falando do bilhar? (Aproxima-se dela. Cochicha, irônico.) A gente esconde bolas dentro de buracos. Mas não conta pra ninguém, não, tá?... Qual é, dona Eva? Não vai dizer que a senhora resolveu ter uma postura mais participativa no bairro e entrou pra liga das senhoras do “eles tão fumando droga”. (Elisa entra, vem do quarto.) Elisa – O que que ela tá fazendo aqui? Eva – Elisa? Rosemiro – Meu, ainda bem que cê acordou, viu. Eva – Acordou? Mas ela não tinha...? Elisa, cê tava no quarto?... (Eva estapeia Rosemiro, furiosa. Ele não se incomoda.) Seu vagabundo ordinário. Você não falou que ela tinha saído, cafajeste miserável? Rosemiro – Tchau, Elisa. 46


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Elisa – Rosemiro? Rosemiro – Fala. Elisa – Da minha parte tá tudo pronto, viu? Cê sabe, aquilo lá. Eva – Não pode ser, meu Deus, não pode ser. Rosemiro – Eu tô indo fazer a minha. Elisa – Duas buzinadas, eu não esqueci. Rosemiro – Duas buzinadas. Eva – De que diabos cês dois tão falando? Hein?... (Rosemiro sai.) Eva – Que que esse malandro tava fazendo aqui dentro, Elisa? Elisa – O Rosemiro não é malandro. Eva – É malandro, sim. Ordinário, cafajeste, sem-vergonha. Elisa – Que que cê quer aqui? Eva – Como o que eu quero aqui? Elisa – Se esqueceu alguma coisa, fica à vontade. Faz de conta que eu fui dar uma volta. Eva – Por que que cê tá falando assim comigo?... Elisa, eu tô falando com você. 47


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Elisa – Que é, saco? Eva – Que que aquele sujeito queria? Que que ele tava fazendo aqui dentro da minha casa? Elisa – Sua casa? Eva – E não é? Sua também. Elisa – Cê foi embora, esqueceu? Eva – Como embora? Eu não tô aqui, falando com você? Elisa – Sempre detestou nosso bairro, os vizinhos, essa casa. Eva – Eu nunca te escondi isso. Elisa – Por que que voltou, então? Eva – Voltou de onde? Eu tava no cemitério. Fui visitar seu irmão, como faço há quatro anos, nunca faltei um dia. Elisa – Alguma coisa deu errado, né? Só pode ter sido. Eva – Elisa, te deram alguma coisa pra beber? Deixa eu cheirar seu hálito. Elisa – Sai, mãe... (Eva a pega pelos braços e cheira o hálito dela. Pausa curta.) Sabe o que eu mais odeio em você? Eva – Você me odeia? 48


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Elisa – Esse seu fingimento. (Caricata.) “Desliguei o rádio porque você não gosta”, “Acho que a gente podia aderir ao bom dia aqui em casa”, “Fui visitar seu irmão, nunca faltei um dia”. Esse seu tonzinho fingido me dá sabe o quê? Nojo. Nojo não. Como é que eu vou explicar. Vergonha, acho. De ter saído de você. Também não é isso. Bom, deve ser mais ou menos o que cê sente pelo fato de a gente nunca ter conseguido se mudar daqui. Elisa – Aquele sujeito colocou coisa na sua cabeça, né? O que foi que ele te disse? Elisa – Seu armário tá vazio, mãe. Eva – Ele disse isso? Elisa – Eu tô dizendo. Tá vendo só o fingimento? Eu mesma vi. (Eva vai até seu quarto. Após alguns instantes retorna ainda mais desesperada.) Eva – O que que tá acontecendo aqui, Elisa? O que que cê fez com as minhas coisas? Por que que cê jogou tudo pela janela? 49


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Elisa – Eu não joguei nada. Eva – Por que que tá tudo molhado, espalhado lá no jardim? Minhas roupas, meus sapatos, tudo. Tudo que é meu tá espalhado lá fora. (Elisa vai conferir, enquanto Eva procura algum vestígio na sala. Elisa volta calmamente.) Elisa – Cê pensou em tudo, né? Eva – Oi? Elisa – Voltou, esparramou lá fora tudo o que tinha levado. Qual é o plano, hein, mãe, pode falar? Eva – Que plano? Não tem plano nenhum. Elisa – Te viram entrar num ônibus. Eva – Quando? Elisa – Hoje. Com bagagem e tudo. Eva – Eu? Eu tava no cemitério esse tempo todo. Elisa – Cê ia embora sem mim, mãe. Pode falar. Ia me deixar aqui sozinha. Eva – Foi ele, não foi? Ele que inventou tudo isso. 50


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Elisa – Ele só me trouxe em casa. Eva – E por que que ele tava aqui na sala e você no quarto? Hein?... Responde, Elisa. (Pausa curta.) Vocês dois... você sabe, vocês não foram pra cama, não, foram?... Você e aquele sujeito, eu tô falando. Cês não tiveram relação, não, né?... Elisa – Ele tá se separando da Sandra. Eva – Ah, meu Deus... Ah, meu Deus... (De um lado pro outro como uma barata tonta, chorando. Elisa se mantém indiferente.) Não... Não... Não... Isso não tá acontecendo, meu Deus... De novo, não. De novo, não... (Blecaute. Fim da cena 3.)

Cena 4 (Mesmo cenário – Eva está sentada, estática, olhar vazio. Elisa vem do quarto com uma bolsa de viagens. Pausa.) Eva – Onde é que cê vai? Elisa – Santa Catarina. 51


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Eva – Lá faz um frio... Elisa – O Rosemiro vai passar pra me pegar. Eva – Claro que sim. Elisa – Ele já deve tá chegando. Eva – Claro. (Pausa curta.) Eu já te contei por que que a nossa rua tem o meu nome?... Homenagem do seu pai... É, ele tinha uns amigos lá na prefeitura, mexeu os pauzinhos e conseguiu mudar... (Com ternura.) Eu fui muito apaixonada pelo seu pai... Elisa – Mas cê sempre disse que... Eva – Eu ainda lembro como foi que a gente se conheceu, sabia?... Ele apareceu do nada. Praticamente se materializou na minha frente. Até hoje eu não sei como foi que ele fez aquilo, de onde foi que ele saiu... Mal sabia eu que quando acontece assim, depois de um susto, é pra melhorar ou desgraçar de vez com a vida da gente... Ele tava segurando um filhote de cachorro. Um vira lata, magro, bem sujo. Devia ter pegado na rua, ali, naquela hora. Bem a cara dele... Ele perguntou se eu queria cuidar dele?... Elisa – Do cachorro? 52


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Eva – Cê sabe que eu nunca gostei da sujeira que esses bichos fazem. Mas ele ficava insistindo – “Fica com ele, vai. Ele gostou de você”. Ele falava isso o tempo todo. “Mas ele não tá nem me vendo, moço, ele tá dormindo”, eu falava (Elisa sorri.)... Cara de pau, isso é que ele era... Ele disse que eu tinha jeito de mulher que usa cotonete pra limpar o canto das coisas. Cê sabe o que ele quis dizer com isso? Eu nunca soube se isso foi um elogio... O cachorro, segundo ele, era pra eu ir treinando, porque logo eu ia ter que cuidar de dois filhos dele... Nove meses depois nasceram o Mauro e você. (Pausa curta. Eva tira os óculos de Elisa de dentro do vestido, visivelmente emocionada, e os coloca sobre a mesa. Elisa a observa.) Elisa – Meus óculos? Eva – Pois é. Elisa – Onde é que tavam? Eva – Comigo. Elisa – Com você? 53


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Eva – É, eles sempre tiveram comigo... Eu pensava que, depois do acidente, cê não ia mais ter coragem de sair de novo sem eles. Ou sem mim... Pensava que cê tivesse desenvolvido alguma espécie de trauma... Bobagem a minha... Elisa – Mãe, você...? Eva – Não sei se cê tem percebido, Elisa, mas de uns tempos pra cá eu venho acordando antes de você... Desde que eu doei seus vestidos... É pra jogar o seu leite fora. É, pra quando você acordar, eu falar que tinha coalhado. Claro, tomando o cuidado de umedecer bem o seu jeans já seco e pendurar ele atrás da geladeira, de novo... O jeans é o objetivo. O leite é uma espécie de efeito colateral, senão como é que eu vou sustentar a possibilidade de ter tido uma queda de energia durante a noite? Elisa – Cê tava me boicotando, mãe? Eva – Te protegendo. Eu tava te protegendo, será que cê não vê isso?... Desde que o Mauro morreu é só isso que eu tenho feito... Mas parece que não adiantou nada, né? 54


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Eu falhei... Quando é que eu ia imaginar que você ia sair de casa usando um jeans molhado? Elisa – Pra todos os efeitos, era da chuva. Eva – A previsão do tempo, é claro. Como eu fui burra. Elisa – Eu precisava andar um pouco. Já não aguentava mais ficar presa aqui dentro. Eva – Eu te pedi tanto, Elisa. Eu te pedi tanto, tanto... Elisa – O quê? Pra não ter ninguém? Eva – Não desse bairro. Elisa – Desde que eu era criança você espanta todo mundo que tenta se aproximar de mim. Eva – Os homens daqui não prestam. Elisa – Ah, é? Então por que que só você pode? Eva – É justamente por isso que eu posso afirmar isso. Porque eu conheci o seu pai. (Elisa ri. Pausa curta.) Elisa – Sabe o que eu acho, mãe? Eu acho que esse tempo todo privada dos óculos fez 55


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com que a minha audição se desenvolvesse mais do que o comum. Parece que com os animais também é assim, né?... Às vezes me pego ouvindo coisas mínimas, sabia? Dia desses, por exemplo – era capaz de jurar ter ouvido o estrondo de uma migalha de pão caindo no tapete do quarto... O lado ruim é que faz tempo que eu não sei o que é o silêncio absoluto... Nem de madrugada. E sabe por quê? Eva – A falta dos óculos, cê já disse. Elisa – As suas festinhas aqui em casa contribuíram muito... Eva – Festinhas? Elisa – Um joelho que estala quando se anda com cuidado, sabe, com os sapatos nas mãos. Risinhos filtrados por travesseiros... um monte de “não” dito baixinho e de forma que nem todos os “sim” do mundo transmitiriam tanta aprovação... Eu sempre ouvi tudo do meu quarto, mãe. Eva – Elisa, eu... Elisa – Não me interessa o que que cê faz ou deixa de fazer. Com quem cê faz. Aliás, 56


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pelo contrário, eu sempre quis que cê tivesse uma última chance, mãe. Quis mesmo. Eu achava que só assim cê ia parar de tentar me impedir de ter a minha primeira... (Emocionada.) Eu já tô beirando os 50 e até algumas horas atrás eu... eu ainda era virgem, mãe... O que significa, automaticamente, expulsão de qualquer rodinha de meninas de 13, 14 anos, sabe por quê? Falta de assunto... Hoje, de manhã, cê veio com aquela história maluca de bom dia em jejum, mas cê já chegou ao ponto, logo depois da morte do Mauro, de propor coisa bem pior, lembra? Cê queria que a gente ficasse sentada, ereta, a maior parte do tempo, já que a gente tinha perdido o direito ao plano de saúde dele e que, andando de um lado pra outro, alguém podia cair e abrir a cabeça... Agora eu tô é fodida... Vou ter que fazer 30 anos caberem dentro de 5... E o que é ainda mais cruel – com essa minha cara desabada... 30 anos dentro de 5... Bom, pelo menos não preciso mais torcer pra passar documentário sobre tribo 57


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indígena na tevê. Agora já vi um cacete, e ao vivo... Eva – Precisa falar assim? Elisa – Por quê? Tô parecendo uma local? Deixa de bobagem, mãe, a gente morou aqui a vida inteira... Mas agora a gente vai sair, né?... Só que cada uma pro seu lado. Eva – Elisa, eu... Elisa – Só me fala uma coisa – quando foi que tudo ruiu, hein? Eva – Oi? Elisa – Tô falando do meu pai. A paixão toda... Eva – No dia em que eu soube que tava grávida dele, soube também que ele já tinha uma outra família... Um pouco antes de vocês nascerem, eu tomei coragem, fui lá e contei tudo pra mulher dele... Elisa – E? Eva – Ela me tratou como uma Testemunha de Jeová... Elisa, quando eu conheci o seu pai, ele tava preso. Tinha saído só pro feriado de Páscoa. Um tempo depois, ele pegou liberdade condicional, mas aí ele se mandou daqui do bairro com a família dele. 58


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Elisa – Ele nunca ligou nem nada? Eva – Ele chegou a me escrever, sim. Mas pra pedir desculpas... Pra dizer que toda aquela história de cotonete no canto das coisas era mentira... E que só tinha me levado pra cama pra... pagar uma dívida de jogo. Elisa – Quê? Eva – Pois é. Ele tinha perdido no bilhar. No mesmo maldito bilhar que tem até hoje no bar da esquina. Não é melhor você se sentar, não?... Elisa – Não, tô bem assim. Eva – Tem certeza? (Elisa encara a mãe, esperando que ela diga algo. Pausa curta.) Eva – Tem um dia no ano – não sei qual exatamente – que os homens aqui do bairro promovem um campeonato de bilhar... Eles fecham o bar e passam a noite inteira bebendo e jogando aquela porcaria... Sabe qual é o castigo pra quem perde?... Elisa – Dar dinheiro? 59


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Eva – Levar uma mulher pra cama. Elisa, não vamos falar disso agora, não é hora. Elisa – Não, eu quero saber. Eva – A mulher tem que ser solteira e... não muito bonita, senão não seria castigo... Ela é escolhida pelo ganhador, e o perdedor tem que seduzir a coitada e levar ela pra cama... E eu fui uma delas... Elisa – Cê tá brincando... Eva – Não. Não tô, não. Tava tudo na carta que seu pai me escreveu quando saiu daqui... Ele só foi embora porque infringiu uma das regras lá e foi expulso. Foi por isso que ele se mudou com a família dele; do contrário, ele podia até ser morto. Parece que tem polícia envolvida, até político... Pelo amor de Deus, Elisa, ele me pediu pra não contar isso pra ninguém. Se isso sair daqui, nem sei o que pode acontecer. Elisa – Meu Deus, que absurdo... (Pausa curta.) Eva – O seu irmão também tava envolvido. 60


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Elisa – O Mauro não... Eva – Todos os homens daqui estão, Elisa. É uma tradição maldita, passa de pai pra filho. (Pausa curta) Depois que o Mauro morreu, eu fiquei com muito medo... Eu acreditava que era pelo seu irmão que você tinha sido poupada, até então... Foi por isso que eu não quis que você saísse mais de casa, eu não queria que você fosse mais uma vítima deles. Elisa – Cê tá querendo dizer que... Eva – Não, você é linda... Mas o sujeito que cê diz que vai te levar pra Santa Catarina te enganou. E ainda teve a cara de pau de dizer na minha cara que era amigo do seu irmão... Elisa – Eu sabia. Eva – Eu sei, eu devia ter te contado antes. Elisa – Claro. Eu sabia. Eva – Eu tinha medo de você não acreditar em mim. Elisa – E a tonta aqui dando ouvidos pra essa mentira absurda. Eva – Elisa... 61


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Eva – Vê se põe uma coisa na sua cabeça, mãe você não vai me separar do Rosemiro. Eva – Ele te enganou, será que cê não tá vendo? Elisa – Não quero ouvir mais nada. Eva – Provavelmente foi o bando dele que entrou aqui pra atirar minhas roupas no jardim. Tudo pra você acreditar que eu tivesse mesmo ido embora. Elisa – Cala a boca. Você é doida... Eu podia ter morrido naquele acidente, sabia? E por sua causa... Cê podia ter me matado, mãe. Eva – Não, eu só queria te poupar. Elisa – Se eu tivesse de óculos, eu podia ter visto o ônibus. Eva – Eu tive medo. Eu tive muito medo que aquele assassino se aproximasse de você. Elisa – Ele não teve culpa da morte do Mauro. Eva – Teve. Teve sim. Elisa – A assassina aqui é você. Eva – Não. Não, você tá bem depois da fisioterapia, quase não manca. Olha só pra você, Elisa. 62


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Elisa – Não é de mim que eu tô falando. Eu tô falando do Mauro... Você matou o meu irmão. Eva – Quê? Elisa – Você matou o meu irmão. Eva – Não fala uma coisa dessas. Elisa – Ele só foi ver aquele maldito jogo no estádio por sua causa. Porque você nunca deixou ele trocar a tevê. Eva – Você tá querendo encobrir aquele cafajeste. É isso que você quer. Foi ele que arrastou o Mauro praquele lugar. Elisa – Pra não ter que ver futebol numa teve preto e branco. Numa merda de tevê preto e branco de 14 polegadas. Eva – Não é merda, não. Foi o Mauro mesmo que me deu. Elisa – Com o primeiro salário dele... Onde já se viu? Em pleno ano 2000 ter que ver futebol numa tevê preto e branco minúscula... As de hoje em dia até congelam a imagem, coisa que nem essa geladeira faz. Eva – Era só ele ter comprado uma dessas que congelam. 63


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Elisa – Como? Eva – Ele ganhava muito bem na fábrica, cê sabe. Elisa – Avisasse ele, então, porque cê sempre ficou com quase todo o ordenado dele. Eva – Não. Ele que me dava. Ele se sentia bem fazendo isso. Ele era um filho de ouro que, ao contrário, dos homens daqui, não gastava tudo com jogo e bebida. Elisa – Ah, claro que ele era um filho de ouro. Se matava naquela fábrica pra tentar realizar um sonho que nem era dele. Desperdiçava os melhores dias e noites do ano, tendo a expectativa de vida diminuída em cada hora extra. Tudo pra você se mudar daqui. Tudo pra você, pra você, pra você. Todos esses anos. Sempre pra você. Eva – Chega... Chega, por favor, chega. Eu não aguento mais isso. Eu não aguento mais... (Pausa longa. Eva se recompõem e entra numa espécie de estado letárgico. Ouvimos ruído de carro buzinadas. Pausa curta.)

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Elisa – Ouviu?... Ouviu isso?... Foi buzina, não foi?... É o Rosemiro. É o Rosemiro. É o carro dele. Ele veio me buscar... (Elisa ameaça sair, mas hesita por alguns instantes. Em seguida, parte, deixando Eva olhando para o nada, letárgica. Pausa.) Eva – Lá faz um frio... (Pausa. Após alguns instantes, Elisa volta, derrotada. Eva não se move.) Elisa – É só o carro da companhia de luz... Acho que vieram religar a energia da casa da frente... (Luz cai em resistência.) Fim

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Aos Ossos que Tanto Doem no Inverno (Pequena sala suja e bagunçada. Chico está sentado numa poltrona velha, inquieto. Ele bebe numa garrafa de uísque, já meio bêbado, enquanto segura uma espingarda apoiada no chão, feito uma bengala, de costas para a porta, de perfil para a platéia. Há um fio de sangue seco em seu rosto, escorrido da cabeça machucada. Carlos bate à porta.) Chico – Tá aberta. Carlos – Licença. (Chico não se move. Pausa.) Trouxe sua carteira... como a gente combinou... (Chico levanta-se e aponta a espingarda para Carlos. Pausa curta.) 67


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Carlos – Que isso, cara? Chico – Uma espingarda de caça, não tá vendo? Carlos – Eu sei que... Chico – Que é uma espingarda de caça? Não, cê não sabe. Mas posso adiantar que tá carregada, isso ajuda no seu próximo palpite? Carlos – Eu vim desarmado. Chico – Fecha a porta. Carlos – Eu também já tava de saída... Chico – Eu mandei fechar a porta. (Carlos vira-se para fechar a porta.) Chico – Assim não. Carlos – (Contraindo-se como se se defendesse de uma pancada) Calma, merda... Chico – Não dá as costas pra mim, porra. Carlos – Cê tá muito nervoso, Francisco. Chico – É pra ficar de frente pra mim. Olhando aqui, ó, no meu olho. Bem no meu olho. E fecha a porta com uma mão só. Sem se virar. Carlos – E que que eu faço com a outra? 68


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Chico – Que outra? Carlos – Com a outra mão, com essa aqui. Chico – Espera um pouco. Deixa eu pensar... Põe na cabeça. É, põe essa mão na cabeça e fecha a porta com a outra. Não, não, tive uma ideia melhor. Põe as duas mãos na cabeça e fecha a porta com o pé. Carlos – Assim? Chico – Como é que cê sabe meu nome, hein? Carlos – Vi no seu rg. Chico – Agora tranca a porta e joga a chave aqui, perto do meu pé. Carlos – Posso abaixar a mão? Chico – Eu mandei fazer isso? Carlos – Pra trancar a porta. Preciso usar uma das mãos. Chico – Então espera. Preciso pensar mais um pouco, essas coisas não são assim... Pra trancar a porta pode. E vê se para de ficar complicando tudo, hein. (Carlos tranca a porta e joga a chave.)

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Chico – Agora joga a sua arma também. Câmera lenta, hein. É pra pegar ela com a ponta dos dedos, bem devagar, como se tivesse pegando alguma coisa podre. Carlos – Olha, eu— Chico – Não, não. Esquece. Não joga ela, não. Tive uma ideia melhor. Eu sempre tenho idéias, sabia? Vivo tendo uma porção delas, o tempo todo. Primeiro solta a sua arma no chão e depois empurra ela com o pé até aqui, consegue? Consegue fazer ela vir arrastando até aqui? Carlos – Eu tô desarmado. Chico – Quê? Carlos – É o que eu tô tentando te falar. Chico – Tá pensando que eu sou algum idiota, é? Carlos – Não, claro que não. Chico – Ok. (Em posição de tiro.) Eu sempre quis ter um olho mágico na minha porta mesmo. Carlos – Não. Olha, pode me revistar, Francisco... Chico – Para de me chamar de Francisco, 70


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porra. Cê nem me conhece pra me chamar de Francisco. Ninguém me chama de Francisco, caralho. (Pausa curta.) Acho que eu não tô sendo claro, né? Presta atenção, vou tentar só mais uma vez... Cadê a porra da arma que cê usou pra me assaltar agora há pouco lá fora? Carlos – Tá em casa. Eu deixei ela em casa. Chico – Levanta a camisa. Carlos – (Levantando a camisa e a mantendo levantada.) Olha, eu só vim devolver a sua carteira, cara. Sei que pode parecer estranho, mas... Chico – Não, deixa eu ver se eu entendi. Você me rouba e depois quer devolver o que roubou, é isso? Carlos – Eu não disse que podia parecer estranho? Chico – Pensa que eu vou cair nessa, é? Carlos – Eu tô arrependido. Chico – Dá uma volta, anda, gira, gira, gira. Deixa eu ver atrás de você. Quem é que me garante que não é um plano pra roubar a minha casa também? 71


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Carlos (girando sem parar) – Mas foi você que sugeriu a sua casa. Quando eu te liguei, lembra? Chico – Só uma volta, eu disse. Tá achando o quê? Que eu tenho cara de alfaiate? (Pausa curta.) Que que cê queria, hein? Que a gente marcasse onde? Numa casa de chá? Nós dois comendo biscoitinho de nata. Carlos – Não, não é isso... Chico – E vê se abaixa essa camisa, porra. Fica com esse umbigo sujo aí apontado pra mim... Já sei. Cê queria que a gente marcasse num depósito abandonado, né? É isso. Desses bem distantes de tudo, onde as pessoas só vão pra despachar serviço sujo. Como nos filmes, né? Carlos – Eu só achei estranho, só isso... Você marcar aqui na sua casa com um cara que acabou de te roubar, pô. Expor sua mulher, seus filhos, sua família. Chico – Olha bem pra esse lugar... Olhou? Agora me responde – tá com cara de que tem alguma alma feminina por aqui? Não, mediúnica que seja. 72


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Carlos – E a 3x4 na carteira? Chico – Do que cê tá falando? Carlos – Na sua carteira. De uma loira, cabelo curtinho... Ela é sua mulher? (Chico não responde.) Engraçado, ela tava sorrindo na foto. Sabia que eu nunca tinha visto alguém sorrindo numa 3x4 antes?... Parabéns, viu, ela é muito bonita. Quer dizer, com todo respeito. Chico – Eu não sei se já deu pra perceber, mas sou eu que faço as perguntas por aqui. Carlos – Claro, cê que manda. É que eu pensei que... Chico – Que eu tivesse uma senhora inteirona, uma filha adolescente gostosinha, um cofre com joias e dólares moqueado atrás de algum quadro, foi isso que cê pensou, né? Fala pra mim, por acaso cê viu Cabo do Medo na TV ontem à noite? Carlos – Viu o quê? Chico – Cabo do medo. De Niro, Nick Nolte... Carlos – Passou ontem? Chico – É o que eu tô te perguntando, idiota. Vem cá, e se eu fosse um cara, digamos, co73


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mum? Com uma mulher, uma filha, e resolvesse expor – foi esse o termo que cê usou, né? – a minha bela família a um sujeito como você. O que que cê ia fazer, hein? Carlos – Eu? Ah, eu acho que eu ia ficar meio constrangido. Chico – Em me roubar, violentar a minha família e ainda me deixar vivo pra me lembrar de tudo até o meu último dia, é isso? Carlos – Deus do céu, eu jamais faria isso. Quem ouve cê falando assim até pensa que... Além do mais, que que eu poderia querer roubar aqui? Chico – Como? Carlos – Que que eu poderia querer... Chico – Não precisa repetir, eu ouvi. Eu ouvi o que cê disse. (Pausa curta.) Porra, mas e o meu patrimônio? Não conta? A minha tv, o meu som, os meus cds de jazz... Carlos – Eu não gosto de jazz. Chico – Ah, não, é? Carlos – Quer dizer, não muito. Prefiro música clássica. Chico – Um ladrão que ouve Mozart. 74


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Carlos – Prefiro Chopin, acalma. (Chico segue em direção ao som, num rompante.) Carlos – Que que cê vai fazer, hein? Olha, eu sou um cara eclético... Musicalmente falando, sim, eu... (Chico liga o som. Um Chet Baker melancólico começa a tocar. Ambos ouvem por um tempo. Chico de costas para a platéia.) Carlos – Na verdade, eu... não conheço muito bem jazz, foi só isso que eu quis dizer. Minha irmã, sim. Ela tinha até aulas de jazz quando era pequena. Chico – Dança aí. Carlos – Quê? Chico – Isso mesmo que cê ouviu, dança aí. Carlos – Mas eu não sei fazer isso. Chico – (Virando-se para Carlos.) A sua irmã não era dançarina? É só lembrar o jeito que ela dançava. Ou você não consegue porque 75


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a sua cabeça (simulando tique de Carlos) não para de balançar desse jeito ridículo aí? Cê já tentou fazer ela parar? Hein? Parece até a cabeça daqueles bulldogs de enfeites que a gente vê no vidro traseiro dos táxis. Carlos (ofendido) – Será que cê não vê que isso não foi feito pra dançar, porra? Isso é jazz, não é? Não uma salsa. (Chico desliga o som, surpreso com a constatação de Carlos. Pausa.) Chico – Até que cê aprende rápido, alguém já te disse isso? É meio esquisitão, tudo, mas burro cê não é, não... Sabe quem tava cantando, pelo menos? Carlos – Isso eu já não sei. Chico – Chet Baker. Puta cara, viu. Já ouviu falar dele? Carlos – Posso até já ter ouvido, mas agora não lembro. Chico – O vendedor da loja de discos me disse que ele se atirou da janela de um hotel lá em Amsterdã. E cê aí com medo de mor76


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rer... Tem vergonha, não? (Pausa curta.) Tá vendo aquele quadro ali? Um amigo meu que pintou. Vai valer um puta de um dinheiro depois que ele morrer, sabia? (Remedando Carlos.) ‘O que é que eu poderia querer roubar aqui?’ Eu tô só esperando... Às vezes eu ligo pra casa dele – só pra dar uma sondada, sabe? –, a mulher dele atende e eu pergunto – ‘O Fernando tá aí?’ Ela responde – ‘Tá, ele tá pintando, quer falar com ele?’ Eu digo – ‘Não, não, eu não quero incomodar.’ Daí eu desligo... As pessoas não costumam dar muita pelota pra quem tá vivo, cê já reparou? Carlos – Deve ser porque, sei lá, tanta gente viva por aí. Chico – Do que cê tá falando? Carlos – Nos supermercados, nos parques, no metrô. Onde quer que cê vá, hoje em dia, tem gente viva. Chico – É... tem muita gente viva por aí mesmo. Gente demais até. Eu e você, inclusive. Carlos – Que isso... Eu ainda tenho muita coisa pra fazer por aqui. 77


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Chico – Ah, é? O que, por exemplo? Carlos – Ah, sei lá... cumprir a minha missão, talvez. Chico – Que merda é essa de ‘cumprir missão’? Aliás, o que que cê faz, hein? Tem alguma profissão? Carlos – Eu? Eu mexo com uns lances aí de... (balbucia) arte. Chico – Quê? Um artista, foi isso que cê disse? Carlos – Pode rir, se quiser. Chico – E qual a sua especialidade? Quer dizer, além de encher a cara todo dia, acordar tarde. É isso que artista faz, não é? Ah, e além de roubar as pessoas também... Canta, pinta quadros, escreve livros, borda panos de prato, enfia o lóbulo da orelha no ouvido... Carlos – Na verdade, eu tô desempregado. Chico – É, eu sei como é... Porra nenhuma pra fazer, cê vai lá, pega uns quatro ou cinco cds, daqueles brindes da aol, né? Cola um no outro de um jeito meio desordenado, pra ficar bonito, pendura na parede e pronto, tá lá uma escultura, (caricato) uma obra de arte... Grande bosta. Grandessíssima bosta. 78


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Carlos – É, eu faço esculturas, sim. Chico – Eu sei. E continua sendo uma grande bosta, uma bosta enorme, uma bostona... Conheço desempregado fodido metido a artesão de longe. Carlos – (Ofendido.) Escultor. Eu sou um escultor. Mas não de cds da aol. Quer dizer, também, mas... Chico – Só tá faltando cê me dizer que isso tudo aí é uma terapia ou algo do tipo. Carlos – A gente precisa manter a cabeça funcionando... O último emprego formal que eu tive foi há uns 7 anos. Isso. Numa bosta de fábrica de chuveiro, sabe o que é isso? De lá pra cá eu só tenho tentado sobreviver. E esse foi o único jeito, fazendo esculturas. Chico – É, eu também tô desempregado. Faz um tempo já, também. 4 anos... E de lá pra cá tenho feito uns bicos por aí. Quer dizer, fora esperar o pintor daquele quadro morrer, essas coisas. Carlos – Cê tem a maior pinta de quem fez Senai.

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Chico – E eu fiz. O bairro todo fez. Não sei se você sabe, mas cê tá num bairro operário. Carlos – Por que cê tá desempregado, então? Quer dizer, o que não falta por aqui é fábrica. (Pausa curta.) Já sei... Foi mulher, né? Chico – Que mulher o quê. Carlos – Só pode ser. Pé na bunda. É, tem uns que dá até pra esquecer o sobrenome... Foi a da 3x4? (Chico aponta a espingarda para o rosto de Carlos, num rompante. Pausa.) Chico – Que que é, hein? Cê tá na minha casa, esqueceu? Carlos – Desculpa aí, cara. Chico – Esse seu lance aí de artesanato. É artesanato, sim, escultura o caralho. Por acaso é uma terapia pra controlar a sua vontade de matar? Carlos – Eu não tô entendendo. Chico – Pra você não sair por aí intimidando as pessoas, como fez comigo agora há pouco lá fora. 80


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Carlos – Eu sou um cara inofensivo, pô. Chico – Ah, claro. Quase um anão. Só ameaçou me matar, enfiando o cano da porra de um revólver enferrujado na minha boca, né? Abre a boca. Carlos – Calma aí. Chico – Abre a boca, porra. (Carlos abre e Chico enfia o cano da espingarda.) Tem um gosto ruim, não tem? (Carlos balança a cabeça positivamente.) E chupa direito... como se tivesse chupando um pau. Você já chupou um pau alguma vez na sua vida? Hein, fala. (Carlos balança a cabeça negativamente. Chico tira a espingarda da boca de Carlos e se afasta.) Carlos – (Após cuspir.) Eu me apavorei, pô, cê não queria me passar a carteira... mas eu jamais ia fazer isso aí. Chico – O quê? Me matar? Carlos – É, eu— Chico – E seu eu fodesse a sua filha de 11 anos, hein?... Humm, acho que agora eu te peguei, né? E na sua frente ainda. Bem debaixo do seu nariz. Claro, isso supondo 81


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que cê tenha uma filha de 11 anos, nem sei se cê tem filhos. Carlos – Não, eu não tenho. (Pausa curta.) Chico – Todo mundo sente vontade de matar, às vezes, ô... Qual é a sua graça? Carlos – Nenhuma. Chico – Seu nome. Carlos – Ah, Carlos. Chico – Mas não é uma vontade qualquer que torna alguém capaz de matar, não, Carlos... É um tipo de vontade específica. Que fica escondida dentro não sei se do peito ou da cabeça... Não apita em porta de banco, não é vista em raios-X de aeroporto. É como uma dessas doenças fatais e sem sintomas que vão deixando a carne azul, aos poucos... E quando chega a hora, quando a gente menos espera, ela se manifesta... saltando como aquele pino idiota de peru de Natal, sabe, pra dizer que ele tá pronto pra ser servido. A vista turva... Isso quer dizer que 82


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cê tá pronto. Pronto pra matar... Quer ver? Cê me acha capaz de te dar um tiro bem no meio do peito, aqui, agora? Carlos – Não. Quer dizer, não precisa fazer isso. Chico – Viu só, Carlos? Viu só como os papéis se invertem, de repente? Ainda há pouco era você que tava aí no comando. E eu me cagando todo, a duas quadras daqui. Só duas quadras daqui, dentro do meu território. E você lá... no comando... E aí, Carlão, como é que é ser a presa, hein? (Carlos balança a cabeça negativamente.) Quer saber? Tudo culpa desse tal de, como é que é mesmo o nome? Fuso horário, movimento de rotação, Trópico de Câncer, essa porra toda. Porque uma hora cê até que tá por cima, mas outra cê tá é beijando a lona, completamente fodido. Não dá pra mudar isso. (Pausa longa.) Os seus ossos também doem no inverno? Carlos – Meus ossos?... É, às vezes, sim. Os das costas. Chico – Os meus doem muito... Doem pra valer... 83


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Carlos – Olha, eu não roubei nada da sua carteira, tá tudo aqui. Eu não sou ladrão, não, cara... Chico – Cê é meio esquisitão, isso sim. Carlos – Então, por que que a gente não esquece isso tudo e— Chico – Tá legal... Cê tem razão. Carlos – Tenho? Chico – Tem. E eu jamais te daria um tiro, se cê quer saber. Carlos – Não? Chico – É, eu não levo muito jeito... Senta aí, vai. Fica à vontade... Bebe alguma coisa? Carlos – Tem cerveja? Chico – Vou pegar. (Pegando cervejas na geladeira.) Escuta, que tipo de artesa... quer dizer, de escultura é essa aí que cê faz? Carlos – Eu reproduzo pequenas zonas comerciais de beira de estrada. Em miniatura, saca? O posto de gasolina, a loja de conveniência, o deserto. Chico – Só isso? Sempre o posto de gasolina e a loja de conveniência?

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Carlos – E o deserto. Eu comecei fazendo de papel, daí acabei indo em cana e... Chico – Cê já teve preso? Carlos – Pois é. E por incrível que pareça foi lá que eu me aprimorei. Ampliei meus horizontes, saca? Pra você ver, né... Lá eu aprendi a mexer com outros tipos de materiais também, tipo vidro, plástico, alumínio e... Chico – E o quê? Carlos – É que lá eu aprendi que paulada na sola do pé dói pra caralho também... Tanto quanto os ossos no inverno. Chico – Eles faziam isso lá? Carlos – É, eu me recusava a lavar a cueca da rapaziada, o pau comia e eu sempre ia parar no castigo. Mas isso é uma outra história... Sabia que eu faço escultura só com coisa que eu vou catando no lixo? Chico – Seu merda, tirando o emprego dos vira-latas. Carlos – Que isso, Francisco?... Eu deixo o resto de comida pra eles. Pego só garrafa, panela furada, brinquedo quebrado, cd da 85


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aol. Só o que as pessoas não querem mais mesmo. Nem os vira-latas. Chico – Olha, cara, posso te pedir um negócio? Não me chama mais de Francisco, não. Carlos – Claro, cê já tinha dito. Chico – É, eu já tinha. Prefiro que me chamem pelo meu apelido, é melhor. Carlos – E qual é? Chico – Chico. Carlos – Tá certo... Sabe como os franceses me apelidaram, Chico? De `O mágico´. Claro que eles falavam isso em francês, né... É porque eu transformo lixo em arte. Eu consigo fazer com que as pessoas paguem pra ter aquilo que elas, um dia, jogaram fora, não é do caralho? Chico – Porra, cê já teve na França, é? Carlos – É, os caras me convidaram pra expor lá, uma vez. Tudo pago. Uma vernissage, saca? Chico – É verdade esse negócio aí de que francês fede? Carlos – Ah, alguns, sim. Mas nem todos. Chico – E o lugar onde a Lady Di morreu? 86


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Carlos – Que que tem? Chico – Ah... é maneiro lá? Carlos – Eu não vi. Chico – O que que cê foi fazer lá, então, pô? Vendeu alguma coisa, pelo menos? Carlos – Quatro peças. Acho que tá bom, né, pra uma primeira vez. Chico – Vendeu caro? Carlos – Nada... Chico – Como não? Carlos – Eu era desconhecido, na época... Quer dizer, ainda sou, né... Chico – Cê nunca pensou em morrer, não? Carlos – Eu? Pra quê? Chico – Suas esculturas podiam valer muito mais, com isso. Claro que o preço varia de acordo com o tipo de morte, né... Velhice é o que é menos valorizado – por isso acho melhor cê ir se apressando, escuta o que eu tô dizendo – homicídio costuma valorizar um pouco mais, mas o bom mesmo é suicídio. Carlos – Que nem o cantor de jazz? Chico – Tá vendo como cê aprende rápido? 87


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Cê é meio esquisitão, tudo, essa sua cabeça aí, mas... Carlos – Mas eu nunca tomei um pé na bunda. Chico – Quê?... Quem tomou um pé na bunda aqui? Carlos – Você mesmo. Da loira. Ela não tá aqui, pelo menos... E se você guarda a foto dela na carteira é porque ainda sente alguma coisa. Chico – (Após respirar fundo, tentando se conter.) Suicídio demonstra que cê era um artista atormentado, cheio de fantasmas angustiantes, um desses gênios incompreendidos. As pessoas se amarram nesse tipo de coisa. Carlos – Então cê deve ter pagado uma fortuna no cd desse músico de jazz aí, o... Chico – Chet Baker? 7 paus numa promoção de supermercado. Carlos – Peraí... Cê tá querendo dizer que esse cara foi pular de uma janela de hotel lá na puta que pariu só pra ter cd vendido por 7 paus? 88


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Chico – Ei, ei, não é bem assim. Carlos – Sai muito mais barato se enforcar no cano do chuveiro de casa, pô. Chico – Fato isolado, não dá Ibope. Será que cê não tem um pingo de visão de marketing? Carlos – Tá bom. Então me explica uma coisa, ô espertão. Até quando cê vai ficar parado aí segurando a minha cerveja? Daqui a pouco já tá quente. Chico – Pô, foi mal... Esqueci... Mas antes só uma coisa... (Chico pega a espingarda e com o cabo dá uma pancada na cabeça de Carlos.) Carlos – Ai... puta que pariu... Que que cê tá fazendo, porra? Tá maluco, cara? Chico – Sangrou? Carlos – Ai, caralho... Tá doendo. Tá doendo pra porra. Chico – Não, não sangrou ainda. (Dá uma nova pancada.) 89


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Carlos – Ai... que merda é essa, desgraçado... Filho da puta, para com isso... Tá querendo me matar, é? Chico – E agora? Tá sangrando? Carlos – Cê arrebentou a minha cabeça... Tá sangrando (mostra o dedo sujo de sangue), olha aqui, ó. Chico – Agora sim... Agora pode beber sossegado aí. Carlos – Cê é maluco ou o quê? Puta que pariu... O que foi que eu fiz, porra? Chico – Tá descontado, ó. (Aponta o machucado em sua cabeça.) Carlos – Mas eu pensei que já tava tudo acertado entre a gente. Chico – Agora sim. Carlos – Porra, eu... eu tô meio zonzo. Tá sangrando pra caralho... Chico – Escuta, cê brigava na rua quando era moleque? Carlos – Cê não tá vendo que eu tô precisando de algum troço pra estancar esse sangue todo, porra? (Anda de um lado para o outro procurando algo.) 90


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Chico – Quando eu era moleque, eu era fissurado nesse negócio... Mas tinha que ser uma briga honesta... Carlos – Acho que eu vou ter que ir pro hospital... Chico – ... um a um, sabe do que eu tô falando? Mão limpa mesmo. Nada de soco inglês, tchaco, pedra, essa merda toda. Carlos – Mas eu não posso. A polícia tá no meu encalço... Chico – Às vezes, eu... voltava machucado pra casa. (Carlos põe um pano sobre o corte e mantém cabeça baixa.) Sabe o que o meu pai fazia? Ele me pegava pelo braço e me mandava levá-lo até a casa do moleque que tinha brigado comigo. Mas não era pra reclamar com o pai dele, não... Ele queria era ver quem tinha levado a pior, analisar o estrago que um tinha feito no outro, ver quem tinha perdido mesmo. Se fosse o meu oponente, tudo bem, a gente voltava pra casa. A gente voltava pra casa sempre em silêncio. Ele não dizia uma palavra, eu não fazia diferente. De vez em quando, eu... olhava pro rosto 91


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do meu pai, no caminho, e via sua feição de que tava tudo normal. Nem certo nem errado, só normal. Mas quando era eu que tinha perdido a briga, quando isso acontecia, eu tomava outra puta de uma surra. E ali mesmo, na frente do moleque que já tinha me jantado na porrada. Era humilhante demais. Muito humilhante mesmo. Então eu passei a ser um cara precavido... sempre procurava fazer um estrago igual ou, se possível, maior nos moleques que eu brigava. Carlos – Seu velho já morreu, caralho. Ele não pode medir o estrago que cê fez na minha cabeça. Ele se matou, esqueceu? Chico – Como cê sabe que...? Carlos – O bilhete na sua carteira. Chico – Mas o problema não é esse. Carlos – Como não? Seu pai se matou, porra. Chico – O problema é que ele não tava nem aí pra quem tinha vencido. Ele só queria mesmo era saber se eu tinha perdido, sabe do que eu tô falando? O problema dele era comigo. Ele só queria um motivo, o filho da puta. 92


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Carlos – Olha, eu preciso cair fora. Tô falando sério, pô... Chico – Onde cê pensa que vai? Carlos – Pra casa, prum hospital, sei lá. Dou um nome falso, digo que tô sem documento... Chico – (Apontando a espingarda para Carlos.) Cê não vai pra lugar nenhum. Carlos – Sabe qual é o seu problema, Chico? Muito filme de faroeste na cabeça. Chico – Quietinho aí, eu já disse... Nem mais um passo... Carlos – Aí, não falei?... Por que que cê não enfia essa porra no cu e para de me encher o saco, hein?... Olha só pra você, cara... Não sabe mais o que faz pra me manter aqui dentro. Vem cá, cê não deve ter muito amigo aqui no bairro, né? Chico – Eu não preciso disso. Nunca precisei. Carlos – Os vizinhos devem te dar as costas quando você passa, fala aí. Chico – Tô cagando pra eles. Carlos – É... tudo por causa de uma mulher que prometeu que vinha e te deixou esperando até hoje aí, com o pau na mão. 93


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Chico – Eu tô te avisando... Carlos – Daí você começou a achar que sem mulher não precisava mais de banhos regulares, cortar as unhas, limpar as orelhas... O que não serve pra bebida, claro, porque se a gente pegar a sua alma, aposto que dá até pra torcer, não dá, não?... O que uma piranha loira que sorri numa 3x4 não faz, hein? (Chico tenta atirar e nada acontece.) Carlos – (Rindo.) Olha só pra isso, nem atira mais. Chico – Claro que atira, quer ver?... Ela só precisa de uma limpeza, meu pai usou na Revolução de 30... Carlos – Me passa a chave aí, vai. Chico – A carteira primeiro... A chave só depois que eu conferir se você não tá levando nada. (Pausa. Os dois se encaram por um tempo.)

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Carlos – (Após jogar a carteira.) Pode conferir, tá tudo aí. E nem vem que dinheiro não tinha. Só documento... Um adesivo com seu tipo sanguíneo, em caso de acidente e... claro, uma 3x4 de mulher e um bilhete de um pai suicida. Ah, e um monte de nota fiscal também. De 5, 8 anos atrás... Parece que cê não tem feito muita compra nos últimos anos, né, Chico? Chico – Toma a sua cerveja aí, vai... Só enquanto eu confiro tudo, não vai demorar... Se quiser mais, tem na geladeira. É só abrir e pegar. (Carlos aceita. Pausa.) Carlos – Cê é um doente. Chico – Qual é, Carlão? Cê devia era me agradecer, isso sim. Sua cabeça até parou de ficar balançando o tempo todo, daquele jeito... Cara, aquilo já tava me dando nos nervos, sabia?... Carlos – Cê não tem um daqueles estojos de primeiros socorros por aqui, não? 95


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Chico – (Inspecionando sua carteira) Não, acho que não. Carlos – Tenho medo dessa porra infeccionar... (Vira a garrafa de uísque sobre a ferida.) Você mora mesmo sozinho aqui? Chico – Hum-hum. Carlos – Isso significa ‘nada pra comer’, acertei? Chico – É, acertou. Carlos – Cê devia se casar qualquer hora dessas... (Tentando conter o riso.) Com a loira da 3x4, por exemplo. Chico – Ela tá morta. Carlos – (Sério.) Pô... eu sinto muito. Chico – Depois sou eu que ando vendo muito filme. Carlos – Não entendi. Chico – Ninguém diz ‘eu sinto muito’ na vida real. Carlos – Eu só tava tentando ser razoável, só isso. (Pausa.) E como foi que...? Chico – Não dá pra gente mudar de assunto, não?

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(Pausa.) Carlos – Vocês foram casados? (Chico bufa. Pausa.) Eu sou casado. Quer dizer... era, né. Até antes de vir pra cá. (Pausa curta.) Cê não vai me perguntar por que eu não sou mais agora? Chico – Não, não vou. Carlos – Ela me abandonou. Sei que cê não quer saber mas eu tô dizendo. (Pausa curta.) Saca ruído caseiro?... Ruído caseiro, tipo tampa do vaso escapando da mão e batendo com tudo, aquela descarga longa que a gente dá de madrugada e o barulho parece ser bem maior do que realmente é... Resistência do chuveiro, sabe, quando cê abre bem pouco pra água ficar mais quente... aquelas risadas ridículas de auditório na tevê portátil da cozinha, chiado de batata palito fritando... Saca essas coisas?... Essas coisas podem fazer um cara feliz quando ele volta pra casa... Mas hoje... quando eu cheguei... não tinha mais nada disso lá. (Pausa curta.) Ela costumava fazer também uma monta97


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nha de roupas no pé da cama – que toda mulher costuma fazer, saca? –, pra passar no dia seguinte. Hoje, quando eu entrei, até fui direto pro quarto, pra ver se tava lá, mas... porra nenhuma... Nem o motor da merda da geladeira deu aquela pipocada enquanto tive lá dentro... enquanto lia a porra de um bilhete que ela deixou... Tudo pra ficar ainda mais deprimente o cenário devastador que é uma casa abandonada pela mulher da gente. (Pausa curta.) Sabe o que tava escrito? Olha pra mim, Chico, tô falando com você. Chico – Fala, caralho. Carlos – Sabe o que tava escrito no bilhete que ela me deixou?... “Você é mais frouxo do que a alça de um sutiã velho”... Dá pra acreditar nisso? (Pausa curta. Chico cai na gargalhada, que contagia Carlos também.) Carlos – Do que que cê tá rindo? Chico – Do mesmo que você. 98


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(Os dois riem por mais algum tempo e param. Pausa.) Carlos – Engraçado... eu pensei que cê nunca ria. Agora há pouco tava aqui pensando nisso. Pensei que cê devia ser mais um desses caras rabugentos, que furam a bola da molecada da rua quando ela cai no quintal. Chico – (Desconversa.) E cê não sabe pra onde ela foi? Carlos – Ela não aguentava mais um marido desempregado dentro de casa, isso sim. Picou a mula, tá na razão dela... O cara quando tá desempregado, Chico, ele vai ficando meio louco, saca? Mulher nenhuma aguenta... Desconfio até que seja excesso de palavra cruzada. Já pensei até em processar essa porra, pra ver se montava numa grana, mas quem sou eu diante do império milionário desses passatempos de merda?... Todo mundo quer mais é que o tempo passe, isso sim. (Pausa curta.) Nunca consegui fazer nem o nível fácil dessa porra, e você? Chico – Palavra cruzada? Nunca me interessei. 99


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Carlos – Tem gente por aí que faz o nível difícil, na maior. Chico – Eles olham na folha de respostas. Carlos – Taí. Sabia que eu nunca tinha pensado nisso? (Pausa curta.) A sua mulher também te deixou um bilhete quando, cê sabe, quando ela, que nem seu pai— Chico – Sai daqui, filho da puta. Sai daqui, vai. Chega... (Abre a porta.) Carlos – Calma aí, Chico, foi só uma pergunta, pô. Chico – Você não pode, né, seu merda. A polícia tá atrás de você. (Bate a porta. Pausa.) Carlos – Lembro que o que mais me deixava puto na minha mulher era... ‘seu vagabundo’, ‘seu inútil’, que ela lançava, assim, como se tivesse pedindo mais uma dose. Como que ela queria que eu arranjasse um emprego, me fala?... Chico – Cê deve ser uma merda de escultor, hein... Carlos – (Ferido.) Sou bom pra caralho. Cê não sabe de nada. Chico – Ah, é? E a grana do que cê vendia? 100


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Carlos – Que que tem? Chico – Não dava nem pro pão e leite? (Pausa curta.) Carlos – Eu nunca consegui vender porra nenhuma. Chico – Tá vendo? Carlos – Mas não é porque elas são ruins, não. Eu só... nunca mostrei pra ninguém, só isso. Chico – Como não? E a França e...? Carlos – Eu nunca tive lá. Chico – Que merda de artista é você, hein? Tem vergonha da própria arte. Carlos – Que artista, Chico? Onde cê tá vendo artista aqui? Chico – Você não disse que era um escultor? Carlos – Escultura é artesanato, pô, coisa de mulher. Eu fui chão de fábrica desde moleque. Pegava no pesado mesmo... Que mulher que ia querer ter um marido escultor dentro de casa? Chico – Então ela não sabia que você...? Carlos – Não, não sabia. Esculturas... A gente arruma cada merda pra se ocupar quando 101


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tá fodido. Tudo pra fingir que não é com a gente. Chico – Mas você é um artista, porra. Eu sei... É esquisito, tudo, mas se a sua mulher soubesse disso, talvez ela nem tivesse caído fora. Carlos – Cê não sabe de nada. Chico – Bom, se bem que... Carlos – Se bem que o quê?... Fala logo, merda. Chico – Dia desses, eu li em algum lugar que um artista demora, em média, uns 10 anos pra começar a ser reconhecido. Isso em vida, hein... Quantos anos cê tem? Carlos – 43. Cê acha que já acabou pra mim, é? Pode falar... Chico – Acho que cê não tem mais idade pra despontar, não. Carlos – Como assim, despontar? Chico – Virar um popstar... Exigir centenas de toalhas brancas em hotel, declarar aos jornais que trepou com a sua mãe na infância, é isso que artista faz, não é?... Olha, acho melhor cê já começar a pensar na ideia de um reconhecimento póstumo. 102


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Carlos – Depois de morto, cê tá querendo dizer? Chico – É só a gente pensar numa morte bem chocante pra atrair as pessoas pra sua obra. Se você quiser, posso ser o seu agente. Carlos – Mas aí eu já vou tá morto. Não vou poder usufruir... Não vou comer ninguém nem nada. Chico – Aí é com você. Meu trabalho ia ser só cuidar da sua obra. Pra que ela não morresse também. Carlos – Não sei, não, viu... Chico – Pensa. Tem tempo. A gente começou a beber agora... Carlos – Porra, Chico... Mas logo depois de 4 anos puxando cana? Eu queria aproveitar minha liberdade um pouco, pô... Chico – Cê ainda não me disse qual foi a cagada. Carlos – Eu matei ela. Chico – Quem? Carlos – A minha mulher. Chico – Sua mulher? Como? Carlos – Dei dois tiros na vagabunda. 103


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Chico – Mas... espera aí... a sua mulher não te abandonou? Carlos – Me trocou por outro, a vaca. Chico – Não entendi... Como é que cê pode ter sido preso há 4 anos por ter matado ela, se você me falou de um bilhete que ela deixou quando cê chegou em casa hoje? Carlos – Quanto tempo faz que cê tá desempregado, Chico? Uns 7 anos, como eu, né? Chico – 4 anos. Carlos – Claro, 4 anos. E por que cê não arranjou um emprego nesse tempo todo? Chico – (desconversa.) Não tem emprego. Carlos – Qual é, Chico, cê não tá num país pós-guerra, não. Claro que tem emprego. Não sei se você sabe, mas cê tá num bairro operário, esqueceu? Chico – Isso não quer dizer nada. Carlos – Como não? Chico – Cê mesmo tava dizendo aí que ficou desempregado, aí começou a fazer escultura. Carlos – Eu nunca soube fazer outra coisa. 104


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Chico – Aí, agora você admite, tá vendo? Agora você admite. Carlos – Mas o seu caso é diferente, a gente sabe disso. Chico – Porra nenhuma. Não tem emprego, é só isso. Simples assim. Carlos – É só olhar pra você, Chico... A gente logo vê por que cê não arranja um emprego... Cê já desistiu, cara. Chico – Não fode, porra. Carlos – É isso mesmo. Olha pra você. Deve ficar pelos cantos da casa bebendo e ouvindo jazz. Dia e noite a mesma coisa. Cê já desistiu, cara. E foi por causa dela. Chico – Cala a boca, porra! Cala essa sua boca, artesão de merda. Artesão filho da puta! Tá pensando que é quem, hein?... Seu monte de lixo... (Pausa. Chorando.) Eu sinto... Eu sinto muito a falta dela, cara... Carlos – Como foi que ela morreu? (Chico não responde.) Olha, fica frio... Não precisa dizer, se não quiser. Sei como é isso. Chico – Não, você não sabe porra nenhuma. Porra nenhuma, tá ouvindo? 105


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Carlos – Tá, eu não sei. Chico – Matou a própria mulher, como é que pode saber? (Pausa. Já não chora mais.) Cara, dia desses, eu... apaguei as luzes, acendi umas velas e... fiquei chamando. Carlos – Que é isso, Chico? Cê acredita nessas... Chico – O diabo... Eu queria ver quanto que ele dava pela minha alma... pela minha alma encharcada de uísque... Eu só queria saber quanto que ele tava disposto a pagar, só isso. Mas não pelo dinheiro. A gente só ia fechar negócio, eu não ia cumprir a minha parte no trato e ele ia voltar depois pra um acerto de contas. Deve ser assim que as coisas funcionam, né? Carlos – E ele? Chico – Nem o cheiro da loção de enxofre. Não deve ter se interessado, provavelmente... Eu sou um fodido mesmo... Hoje, quando eu acordei, pensei que meu dia tinha chegado, sabe. Que de hoje não ia passar. Todo dia eu só penso nisso. Apontar um revólver pra minha cabeça e puxar 106


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o gatilho. Mas eu não consigo, porra. Eu não consigo... Daí cê me apontou aquele revólver hoje, enfiou aquele cano na minha boca e eu pensei – ‘É hoje, porra, é hoje’. Mas você... deu pra trás... não atirou nem porra nenhuma... Por que cê não atirou, seu filho da puta? Hein? Carlos – E segurar mais essa bronca? Tá maluco, é? Isso não ia levar a nada, pô. Nenhum de nós... A não ser que eu ou você fosse um cantor de jazz, como cê tava dizendo aí. Chico – (Pega a carteira e abre.) Olha só como ela era linda, quer ver? Carlos – Quem? Ah, eu já vi. Era mesmo. Chico – Cê vai ver... Carlos – Eu já vi, pô. Chico – Cadê a foto dela?... Carlos – Eu já vi, Chico. Não precisa... Chico – Tava aqui. A foto dela tava aqui. Carlos – Eu peguei. Pronto... Chico – Cê pegou? Por que cê pegou? Carlos – Escuta, raciocina um negócio comigo. Chico – Por que cê pegou a foto? 107


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Carlos – Quanto tempo faz que a sua mulher morreu? Chico – Quatro anos, 2 meses e 6 dias. Cê só pensa nisso, porra. Cê só pensa em datas, datas, datas. Carlos – Eu tava em cana, esqueceu? Chico – Então pensa nas suas datas, porra, não nas minhas. Quer saber desde quando eu tô desempregado? Desde que minha mulher foi assassinada, há 4 anos, respondi sua pergunta? Tá satisfeito agora? A porra da minha vida parou há 4 anos... Agora me dá a foto dela, vai. Carlos – Quatro anos e isso não te diz nada? Chico – Como assim, caralho? A foto. Carlos – A minha também. 4 anos. Chico – E daí? Que que eu tenho com isso? Foi você que fez a merda, não foi? Carlos – A minha se chamava Denise. Chico – A minha também, mas... Carlos – Acorda, cara, eu tive preso 4 anos. Chico – Foda-se o tempo que cê teve preso, porra. Eu só quero a...

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Carlos – Vê se acorda, porra. Fui eu que matei a Denise. Chico – A sua Denise. Carlos – Que queria ser sua. Que ia ser sua... Foi por isso que ela morreu. Porque ela tava tendo um caso contigo. Chico – Não, ela não era casada... Carlos – Isso foi o que ela te disse. (Pausa curta.) Eu já tava desconfiado, na época. Fui atrás só pra confirmar... E vi vocês dois naquela lanchonete do Bob’s... Era lá que vocês combinavam sempre? Chico – Então foi você que...?... Claro. Pode ser. Como eu vou saber? Eu nunca quis ver o assassino... Carlos – Ela enganou nós dois. Chico – Puta que pariu... Que diabo tá acontecendo aqui?... (Em direção ao telefone, meio zonzo) É 190, 103 ou...? Carlos – Qual é, Chico? (Arranca o fio do telefone da tomada.) Você leva a minha mulher, me bota em cana e quer foder com o resto de vida que eu ainda tenho? Deixa de ser egoísta, porra. (Pausa curta.) A vida 109


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na cadeia não é pra ninguém, não. Cê faz idéia do que são 4 anos sem um banho quente naquele lugar? Hein? Cê faz ideia do que é ter um bando de negão olhando pro seu rabo como se ele fosse uma torta holandesa? Hein, você tem?... Não, claro que cê não tem ideia... E ainda apanhando quase todo dia... Pensa que eu não sei que eu sou meio esquisitão, como cê tava dizendo aí? Claro que eu sei. Muita pancada na cabeça, meu chapa. Deve ter afetado alguma coisa aqui dentro. Chacoalha um despertador quebrado e cê vai ver como é que é... É por isso que de vez em quando ela dá esses trancos... Cara, eu nunca mais vou conseguir me aproximar de uma mulher, por causa disso... E os desgraçados lá dentro ainda pensavam que eu tava tirando uma com a cara deles. Daí eu apanhava ainda mais e... Chico – Que que cê quer aqui, hein? Veio me matar também? Carlos – Se eu quisesse fazer isso, já tinha feito quando te assaltei. 110


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Chico – Por que não fez, então? Por que não facilitou tudo? Carlos – Porque era isso que cê queria. (Pausa curta.) Cê não teve culpa, cara... Olha, faz uma semana que eu saí da cadeia. Fugi. Prisão de interior, sabe como é. Minha casa ficou fechada esse tempo todo. O tal bilhete que eu te falei ficou lá também. 4 anos. Só hoje eu fui ler... Ela ia sair de casa pra ficar contigo, não posso te culpar de nada. Ela ia porque queria. Já tava na sua. Chico – Foi por isso que cê matou ela, então? Porque você perdeu? Carlos – Sabe, Chico, o problema é que eu sempre fui um cara meio orgulhoso. E ela sabia disso... Se ela tivesse chegado pra mim e dito que queria ficar contigo – `Olha, o pau dele é maior que o seu e tal...´, tudo bem, hoje cês tariam juntos, provavelmente, três filhos com nomes bíblicos, essa porra toda... Mas não. Ela preferiu ir levando os dois lados e ver no que ia dar. Deu merda. O fuso horário, o movimento de rotação, o Trópico do caralho... Turvou a vista, por111


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ra... Deu merda. (Pausa longa.) Eu ainda consigo lembrar dos meus ossos doendo naquela noite... Primeira noite em cana... A primeira de 4 invernos que eu ainda ia mofar ali dentro. Chico – Ela disse mais alguma coisa no bilhete? Carlos – ‘Você é mais frouxo do que...’. Chico – Fora isso, porra. Carlos – Ela preferiu você, cara. Chico – E que que isso adianta agora? (Pausa. Chico põe Chet Baker novamente. Mantendo-se de costas pra plateia.) Carlos – Ei... que que cê tá fazendo?... Já vai vir com essa porra de jazz, de novo? Chico – Pode começar a correr... Te dou 10 minutos de vantagem. Carlos – Mas... eu tava pensando em ficar aqui esa noite... Quer dizer, se você não se importasse, é claro... Olha, eu não tenho ninguém, Chico. Só você, cara. E queira ou não queira, a gente tem uma ligação, não 112


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tem? Somos dois viúvos fodidos... Escuta, amanhã a gente podia falar dela. É, relembrar um pouco, que que cê acha, hein? E depois de amanhã a gente podia fazer o mesmo. Depois de amanhã também. E depois e depois e depois... (Chico encara Carlos. Pausa.) Chico – Você... não se importa de dormir aqui na sala? Carlos – Claro que não... Onde eu dormia era bem pior, se cê quer saber. Chico – Bom, tá meio frio... Só vou pegar um cobertor no quarto e já volto. (Chico sai. Sobe música. Carlos toma um gole de cerveja e se acomoda confortavelmente na poltrona. Luz cai em resistência.) Fim

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Ladeira em Carrinhos de Supermercado (Sala de casa humilde. Ivo está sentado numa poltrona, olhando um pequeno e velho álbum de fotografias, sorrindo ternamente. Lia entra com uma xícara de café, vindo da cozinha. Ela caminha muito devagar, sem desviar os olhos da xícara; às vezes para e retoma com cuidado extremo, pra não derramar o café. O cenário se tornará escuro, aos poucos, conforme a tarde vai caindo.) Lia – Quer ouvir alguma coisa? Ivo – Tá bom assim. Lia – Nessas horas, eu sempre ponho alguma coisa pra tocar. Ivo – Só sobraram essas? Lia (derrama um pouco de café no pires) – Merda. 115


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Ivo – Queimou? Lia – Fui olhar pra você. Ivo (levantando-se) – Quer ajuda? Lia – Não, não precisa... Ivo – Não chegou a cair no chão. Lia (retornando à cozinha. Desta vez, sem cuidado com a xícara.) – E o Eliseu ainda fala que pires é a coisa mais inútil numa casa. Na maioria das vezes, tá limpo depois de usar e mesmo assim a gente lava que nem uma idiota. Ivo – Aonde cê vai? Lia – Deve ter um copo limpo no armário. Pode ser de vidro? Ivo – Por mim, não precisa. Lia – Tem uma caneca que o Eliseu ganhou na festa do Rotary. Daquelas que nunca saem do fundo do armário. Ivo – Lia, é só café. Lia – Na camisa tem outro nome. Ivo – Eu passei aqui pra ver a minha irmã. (Lia hesita.) Não no que seja lá no que ela tenha se transformado, nesses últimos tempos.

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(Lia coloca a xícara sobre o móvel mais próximo a ela, não tão próximo a Ivo. Os dois se sentam, ela primeiro. Pausa curta.) Ivo – Já vi que eu não vim numa boa hora. Lia – Cê só não telefonou. Ivo – Vergonha, eu acho. Lia – De quem? Ivo – Daqui. De encontrar tudo armado aqui. Lia – Uma armação? Ivo – Como se uma assistente social fosse chegar a qualquer momento... Nada é mais constrangedor que a formalidade típica entre duas pessoas que foram íntimas um dia... Lia – Eu só queria ter dado um jeito na casa. A pia tá um nojo, demiti a empregada, andou sumindo umas coisas. Ivo – Dinheiro? Lia – Joias. Ivo – Joias. Lia – Bijuterias. Mas que tavam guardadas numa caixinha de joias.

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Ivo – Entendi. Lia – Um par de brincos... Até presunto andou sumindo da geladeira. Ivo – Cê conta as fatias? Lia – Que tipo de gente cê acha que eu sou? O Eliseu compra de peça inteira. De um cara que passa lá no escritório. Ivo – De que adianta contratar uma babá pra vigiar um filho, hoje em dia, se cê tem que vigiar a babá?... Lia – Sabia que o nível de estresse de uma dona de casa é igual ao de um alto executivo de uma multinacional? Ivo – Estresse é coisa de quem não mete. Lia – Não, foi comprovado. Por cientistas de uma universidade dessas Carolinas aí, não sei se do Sul ou do Norte. Por que que cê acha que eu demiti a empregada? Ivo – Ela não te roubou? No teu lugar, eu tinha mandado era prender. Lia – Os brincos tavam no porta-luvas do carro do Eliseu. Eu esqueci que tinha deixado eles lá... O que que eu vou fazer? Ultimamente, tem sido tanta coisa nas minhas costas que 118


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quando chega a noite eu tô moída. Nem vejo o Eliseu chegar. Ivo – Tá vendo? O que foi que eu disse sobre estresse?... Mas eu não vou negar que lá em casa, às vezes, a manutenção falha e a Raissa também precisa de uma revisão. Seu marido devia ter mais sensibilidade pra isso, pô. Lia – Ivo, eu preciso te contar uma coisa. Se eu não dividir isso com alguém, sou capaz de enlouquecer. Há umas duas semanas, teve uma madrugada que eu acordei morrendo de sede... Ivo – Peraí. Isso aconteceu mesmo há duas semana ou foi hoje? Lia – Não, há duas semanas. Ivo – É que cê tem uma mania, cê sabe, de contar um fato que acabou de acontecer, mas começando pelo dia que o médico deu um tapinha no seu traseiro, depois cê começou a chorar. Lia – Deixa pra lá, esquece. Ivo – Continua, continua... Lia – Eu acordei morrendo de sede. O que 119


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tem sido difícil acontecer porque, como eu te falei, ando cansada, dormindo como uma rocha. Ivo – Nem espera o marido voltar do trabalho. Já entendi. Lia – E detalhe – o Eliseu não tava na cama. Já eram o quê? Quase quatro da manhã. Ivo – Eeee. Lia – Mas tinha uma luz acesa na cozinha. Uma luz fraca. Pensei na porta do microondas aberta. Ele tem mania de deixar a porta do microondas aberta. E dava, também, pra ouvir uns sons estranhos lá dentro. Uns gemidos, alguém ofegante, sabe? Ivo – E?... Lia – Era o Eliseu. Ivo – Filho da puta. Com a empregada? Lia – Calma. Ivo – Na cozinha? Lia – Ivo. Ivo – E se eu te conheço bem, aposto que cê inventou essa história de brinco pra tirar a vagabunda de campo e não ter que peitar o arrombado do seu marido. 120


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Lia – Não. Ela não tava mais aqui. Ivo – O calhorda pegou na rua e trouxe aqui pra dentro? Lia – Era a peça de presunto. Ivo – Quê? Lia – É, ele tava cavando um buraco na peça de presunto e... Ivo – E enfiando o peru dele ali? Que gordo pervertido é esse, Lia? Lia – Dá pra parar de ser nojento e me deixar falar? Ivo – Eu é que sou nojento? Lia – Cê não me deixa falar... Ele tava comendo a peça de presunto, sim. Mas não desse jeito aí... (Enojada.) Ele já tinha comido quase inteira. Tava desesperado. Parecia um animal, ali, só com a luz da porta da geladeira aberta. Cavando uns nacos de presunto com um pegador de sorvete... Era como se ele tivesse enterrado superficialmente um tesouro, sabe? E depois foi desenterrar, não encontrou e começou a cavar cada vez mais fundo, pra ter certeza... Ele socava tudo na boca. Mal mastigava. E ficava fungando, 121


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rosnando, sei lá, a respiração dele tinha um som esquisito... Ivo – A última vez que eu vi o seu marido, pensei que ele fosse explodir, de tão gordo. Nem cheguei perto. O estrago em volta ia ser tão grande que, se ele vivesse na Irlanda, o ira assumiria a culpa, na boa, por pura vaidade. Lia – E eu pensando mal da Dirce, coitada. A que mais tinha durado aqui em casa. Eu nem me importava com o fato dela beber, sabia? Pelo contrário, quando era dia de faxina pesada, logo de manhã, eu mesma deixava uma garrafa de gin na mesa da cozinha, que era já pra ela decolar, sabe? Fazer tudo num dia só... Eu tentei me desculpar. Até fui na casa dela. Mas daí ela veio com um discurso de quem dividiu um único pão com não sei quantos irmãos na infância. Conhece esse texto? De quem passou fome, mas sempre teve a dispensa abarrotada de dignidade, honra, honestidade, suficientes pra anos e anos de invernos rigorosos. Pra puta que pariu com esses valores de quar122


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tel. Quem nunca chutou um cachorro na merda dessa vida? (Pausa.) Ivo (terno) – Cê parecia uma dessas velhinhas romeiras marchando em dia de finados. Lia – Que que cê falou? Ivo – Trazendo a xícara de café. Lia – Ah. Não vai tomar, não? Ivo – Vindo com cuidado... Lia – É, eu sei que, pelo tempo que eu tô casada, já devia tá fazendo isso com mais desenvoltura. De patins até. Não fossem esses dias que cê acorda com os poros dilatados demais, seu próprio cabelo contra você, certa de que é mais uma dessas pessoas pra quem a vida, definitivamente, não reservou nada de esplêndido... Até as coisas mais banais parecem envolvidas por uma misteriosa fumaça de complicação, em dias como os que tem feito por aqui. Ivo – Cê falou de patins, eu lembrei daqueles que... 123


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Lia – Eu também. Ivo – O que cê ganhou do pai? Lia – Eu não tirava do pé, lembra? Ivo – De um pé, né? O pai não deixava cê usar os dois. Lia – Ivo, quando eu abri a merda daquela caixa e vi que só tinha um, como eu fiquei puta. Ivo – Sabe onde ele tinha escondido o outro? Eu sei. Atrás da geladeira. Em cima da grade de proteção do motor. Lia – Não, e ele, e ele (caricata, engrossando a voz) – “Claro que é só um patim. Na vida, todo mundo tem que começar de baixo.” Ivo – E você andando pra baixo e pra cima, arrastando aquele troço como se tivesse uma bola de pedra presa à canela. (Os dois riem por um tempo, desajeitadamente, em soluços intervalados. Em seguida, seguem saudosos.) Lia – Eu adorava patinar, sabia? Ivo – É, eu sei... A primeira vez que eu te vi 124


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deslizando no ginásio da escola já pensei – vai ser uma profissional. Lia – Sério? Ivo – Mas eu achava que, uma hora, cê ia acabar trocando as rodinhas por lâminas. Ser uma patinadora de gelo. Quer dizer, eu não achava isso, era um desejo meu. É muito mais bonito. Lia – Aonde é que eu ia achar gelo lá no bairro, Ivo? Ivo – Num país frio. Cê ia se mudar pra um. Lia – Eu ia? Ivo – E fazer números solos ao som de Johnny Alf. Lia – Johnny Alf? Ivo – Solos ou com algum viadinho nórdico de calça apertada que te passasse por debaixo das pernas, te atirasse pro alto, você rodando que nem um parafuso, e depois te amparasse de novo... Lia – Quando eu era criança, Ivo, durante as minhas rezas, eu xingava Deus por não ter nascido um menino. Só pra poder fazer as coisas que cê fazia... Eu também queria rou125


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bar carrinhos do supermercado pra descer aquelas ladeiras com os outros, escondida do pai. Ivo – Cê não tinha medo? Lia – Nem um pouco. Eu ficava excitada só de ver... Ivo – Engraçado, depois que cê nasceu, o pai, pra mim, foi se transformando num daqueles ônibus que a gente perde por pouco, manja? E fica parado que nem um idiota, no meio do nada, vendo ele se distanciar cada vez mais... Lia (desconversa) – Seu café não esfriou, não? Ivo – Eu gostei quando cê derramou, sabia? É, eu te reconheci. Cê sempre teve as mãos trêmulas. Discretamente trêmulas... As da mãe eram assim, lembra? As da Raissa são assim. Também, não faria o menor sentido se não fossem, né? Péssimas pra castelos de cartas, mas competentes pra outras coisas. (Ri. Ela não.) Lia – Eu lembro bem pouco da mãe. Ivo – É, quando ela morreu, cê nem podia imaginar que um dia ia ganhar um patim só. 126


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(Caricato. Com desdém.) “Porque na vida todo mundo tem que começar de baixo.” Pulha. Lia – Lembro mais pelas fotos ou pelo que o pai contava, você. Ivo – Uma vez, ela foi me buscar na escola com uma faca. É, eu vi quando ela abriu a bolsa no açougue. Devia ser pra alguma amante do pai. Aquele jeitão de cantora de ópera era só fachada. Ela nunca coube em si, essa é que é a verdade. Parecia ter uma outra dentro dela fazendo força pra sair, manja? A mãe era grandiloquente. Se fosse pra definir numa só palavra. Como um desses arranjos majestosos de uma dessas músicas do Queen. Lia – Teve uma vez que ela colocou salmoura num galo que eu tinha feito um pouco acima da testa. Disso eu lembro. E pressionou delicadamente com a lateral da lâmina de uma faca. Ivo – Sempre com uma faca por perto. Lia – Eu ainda tava chorando de dor. E quase dormindo, ao mesmo tempo, sabe? Lembro 127


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de ter aberto um olho e visto ela disforme por trás de uma lágrima presa. Ivo – Engraçado, eu quase não penso nela. Só me lembro, às vezes. Como a gente costuma se lembrar de Deus. (Pausa curta.) Lia – Que vestidinho horrível que ela tá numa dessas fotos, cê viu? (Ri.) Ivo – Ãn? Lia – O que que cê achou das fotos? Tem certeza que não quer ouvir nada? Tem Sinatra aí, não a Nancy. Posso te deixar sozinho pra você ver de novo com calma. Ivo – Só sobraram essas? Lia – O pai não gostava muito, cê sabe. Ivo – Por causa do limite do enquadramento. Forçava ele a se aproximar de todos. Lia – Nossa casa nunca pegou fogo. Enchente não chegava, a gente tava num ponto privilegiado. Ivo – Elevado, cê quer dizer. Lia – Eu só tô querendo dizer que nada se 128


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perdeu de lá pra cá. Que sempre foram só essas fotos... Ivo – Pra mim não faz diferença. Perguntei por perguntar... Lia – Viu a sua com ele? Ivo – É. Lia – Ele sem camisa no zoológico com você nas costas. Suas costelas de garotinho magricela bem marcadas na pele. (Lia pega o álbum e analisa a foto.) Ivo – É só uma foto imbecil, Lia. Lia – Não é imbecil. Ivo – Nublada pra cacete. Pra não dizer nebulosa, intrigante, assustadora até. Lia – Vai ver, foi o dia. Ivo – Não, não foi dia. Lia – Outono será? Ivo – Não tô falando da luz. Não transmite porra nenhuma. Não serve pra um portaretrato... Lia – Ah, pra mim, transmite. Ivo – O quê? 129


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Lia – Cumplicidade? Ivo – Convença a si mesma primeiro. Lia – Masculina. Cumplicidade masculina. Ivo – Lia, essa foto foi tirada um pouco antes dele me deixar cair no chão. Lia – Então, foi o que eu disse, cumplicidade masculina... Ivo – Eu caí de cabeça no chão. Lia – No gramado, Ivo. Ivo – É, mas eu podia ter quebrado o pescoço. Lia – Não exagera, vai. Ivo – E não foi no gramado, não. Cê nem era nascida. Foi entre o asfalto e o gramado. Naquela área de terra batida cheia de pedrinhas pontiagudas entre o asfalto e o gramado. Lia – Que memória, hein? Haja fósforo. Ivo – Não é lembrança, não, Lia. É trauma... Lembrança é uma paisagem calma vista por uma cortina transparente. Trauma é craca impregnada no casco de um barco velho... Lia – Eu não lembro de quase nada da minha infância. Ivo – Sorte sua. Teve uma infância feliz. 130


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Lia – Quê? Ivo – Os especialistas falam que é assim. Lia – A sua não foi?... A gente teve a mesma formação. Cresceu no mesmo ambiente. Ivo – Que pode ser agradável pra um e terrível pra outro... Lia, por ser seu irmão mais velho, eu cuidei pra que as coisas fossem mais leves pra você. Ou, pelo menos, parecessem. Eu achava que a minha função era te desviar, por atalhos, das coisas ruins que eu já tinha visto mais à frente. Lia – Ivo, cê tem ido a algum psicólogo? Ivo – Tenho um amigo que é psiquiatra. Ele me conta alguns casos. Lia – Não é antiético, não? Ivo – Seria se ele revelasse nomes. (Desconversa) Que hora que ele costuma chegar, hein? Lia – Quem? Ivo – O hipopótamo estéril. Seu marido. Lia – Não tem uma hora exata. Ivo – Então posso me basear num tremor de terra? Pra dar tempo de sair pelos fundos sem ter que olhar praquele queixo duplo. 131


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Lia – Não sei por que essa implicância toda com o Eliseu. Ivo – Defendendo o maridinho, é? Lia – Exatamente por isso. Por ele ser meu marido. Acaba me ofendendo, também... Ivo – Ofende a minha mulher, então, pô. Lia – Eu não. Mal conheço ela, vi só uma vez. Ivo – Raissa não é nome de puta, de traveco? Então, já te dei um começo, o resto é contigo... Lia – Estéril. Ainda bem que eu não tive filhos, sabia? Ivo – Cê sempre gostou tanto de criança. Lia – Já pensou, eu correndo na gincana da escola com uma colher na boca equilibrando um ovo, que catástrofe não ia ser? Não viu o que aconteceu com o seu café? Ivo – Vai ver, é o seu marido que tem a porra aguada... Ou cês não andam praticando muito, cê mesma disse que dorme antes dele chegar... Quer conversar? Lia – Sobre a densidade do esperma do meu marido? Com o meu irmão mais velho? Não, obrigada. 132


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Ivo – Sou seu irmão mais velho mas eu tenho um pau, sabia? Lamento informar, mas irmão também tem esse troço no meio das pernas. E o fato de ter um pau me confere um certo conhecimento sobre a minha espécie. Apesar de não considerar o seu marido exatamente um homem. Pra mim, ele é uma dessas anomalias das profundezas do mar que após milhões de anos de mutações genéticas se transformou num contador. É, um contador com uma calculadora no bolso de uma camisa barata, dessas que deixam os mamilos à mostra. (Ri.) Lia – Como você é escroto. Ivo (rindo) – Onde é que ele te escreve bilhetinhos amorosos, hein, Lia? Em planilhas de Excel? Lia – Cê não muda mesmo. Ivo – Obrigado pelo elogio. Lia – Não foi exatamente um elogio. Ivo – Consciente pode não ter sido. Porque se eu não mudo, se eu ainda continuo o mesmo e o tempo não passou pra mim... Lia – Quê? 133


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Ivo – Significa que, mesmo sendo um pouco mais nova que eu... Lia – Muito mais nova. Ivo – Tentei ser legal contigo, mas tudo bem. Mesmo sendo muito mais nova que eu, cê não vai conseguir, por exemplo, me ver passar dos cem. Lia – Cem o quê? Anos? (Ri.) Ivo – Quilos é com o seu marido. Lia – Então vai tirando seu cavalinho da chuva. Posso te adiantar que não tá nos meus planos morrer daqui a dois anos... Ivo (cínico) – Como é que alguém é capaz de fazer um elogio tão sincero ser compatível com uma crítica tão impiedosa, hein? Lia – A gente é da mesma família, esqueceu? Ivo – Mesma laia, é melhor. Legado de cínicos, egoístas, trapaceiros. Mas eu pretendo passar dos cem mesmo, sabia? Falando sério. Como esses velhinhos com chapéu de palha fumando um cigarrinho de palha numa casa de palha no sertão não sei da onde. Dando dicas de longevidade num telejornal. Sabia que sempre me dão dez anos a menos? 134


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Lia – Se soubessem tudo que cê já ingeriu. Pela boca, pelo nariz, não duvido nada se pela orelha até. Ivo – Lia, eu posso não ter sido aquele cara ao lado da barra de exercícios, mas olha só pra mim – meu cabelo não caiu – não todo, pelo menos --, mesmo manequim de 20 anos atrás. Hein? (Pausa curta) Sabe qual é a minha implicância com o seu marido? Quer saber mesmo? Ele sempre me pareceu com um medo constante de alguma coisa. E eu detesto gente bunda-mole. Quando eu chamo ele de hipopótamo, não é só pelo peso dele, não. É que ele realmente me lembra um hipopótamo apavorado dentro de um rio, só com os dois olhinhos de fora. Lia – Pode ser à espreita, Ivo. Ivo – Não. É precaução mesmo. Que nada mais é do que medo de admitir que tá com medo. (Ivo dá um gole na xícara de café e faz careta. Lia o acompanha com os olhos.)

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Lia – Faltou açúcar? Ivo – Não exatamente. Lia – Tá frio? Ivo – Isso é o de menos. Lia – Também, demorou tanto pra tomar. Ivo – O quê? Uns três dias? Lia – Fiz hoje de manhã. Ivo – O sol já era, Lia. Lia – Vai ver, eu não fechei direito a garrafa térmica. Não gosto de apertar muito, depois não consigo abrir. Ivo – Quem é que abre o vidro de azeitonas por aqui, hein? Ok, não precisa responder... Lia (sem se mover) – Eu esquento pra você. Ivo – Se a sua intenção for me prejudicar... Lia (ofendida) – Por que eu ia querer te prejudicar, Ivo? Ivo – Só tô falando... Lia – O seu terapeuta disse isso? Ivo – Café libera toxinas, anta. Lia – Do que que cê me chamou? Ivo – Conforme cê vai requentando. Pode se transformar num veneno... Lia – Porque, pra mim, é isso que os psiquia136


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tras fazem. Tentam te convencer que todo mundo te odeia só pra te isentar da culpa na hora de odiar todo mundo. Ivo – Cê não sabe o que tá falando... (Baixo) Anta. Lia – Anta é a puta que te pariu. Ivo – Errou. Foi o puto que fez com que isso fosse possível. (Ri. Ela não.) (Pausa.) Lia (sem se mover) – Vou fazer um novo, então. Ivo – Não precisa. Lia – Só não sei se tem pó. A empregada que via essas coisas. Ivo – Esquece o café... Lia – Deixa eu ver, quer um...? Ivo – O quê? Lia – Um Clight? Ivo – Que é isso? Lia – Suco. Ivo – Aquele de pozinho? Não. Lia – Light. Ivo – Não. 137


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Lia – Uma água? Ivo – Não. Lia – Nem gelada? Ivo – Dói a cabeça quando eu tomo depressa... Lia – Ivo, eu não tenho nada alcoólico aqui. Ivo – Eu parei de beber. Lia – Parou? Ivo – É, parei. Lia – Desde quando? Ivo – Há duas semanas. Lia (incrédula) – Ah. Ivo – Tô falando sério. Fui pra chácara de um casal de amigos passar o fim de semana e resolvi parar de vez. Lia – Mas assim, do nada? Ivo – Assim, do nada. Quer dizer, mais ou menos. Teve um dia que eu levantei mais tarde que o normal. Não, mas é que o pôquer tinha ido até às cinco da manhã, não é relevante... Nesse dia a Raissa também já tava torrando no sol quando eu levantei. A casa tava silenciosa, tranquila. Só uns gritos de crianças brincando ao longe, na piscina, 138


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depois ruídos de furos na água... Eu levantei e andei calmamente até a cozinha. Passos bem curtos e lentos. Como se eu tivesse me recuperando de uma cirurgia, manja? Acho que eu ainda tava meio zonzo. Nunca tinha dormido tão profundamente em toda a minha vida. Taí, eu nunca tinha dormido tão profundamente em toda a minha vida... Enchi uma xícara de café. Fui até a janela olhar o dia e deixar o ar puro do campo penetrar meus pulmões. Não inflei o peito nem nada, eu não tinha pressa. Os filhos desse casal de amigos tavam dentro da água. Os três tentando, ao mesmo tempo, subir numa boia em forma de dinossauro. Aquela trapalhada toda deles fez com que eu sorrisse. Um sorriso franco. Tava lá no vidro da janela que um vento bem fraco foi virando na minha direção. Um sorriso que, até então, eu não tinha visto estampado no meu rosto... A Raissa tava usando um biquíni vermelho. Linda, linda. A beleza dela, especialmente naquele dia, era de uma perversidade tão grande que, se você vacila, 139


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te faz pensar em merecimento, e esse tipo de coisa acaba com a sua vida, te afunda de maneira irreversível... Teve uma hora que ela, discretamente, puxou pro lado a parte da frente da calcinha do biquíni e começou a depilar a boceta, ali mesmo. Ela olhava pras crianças, olhava pros lados, pra ter certeza de que não tinha ninguém olhando e limpava a lâmina do aparelho de barbear na água da piscina... Ah, se você pensa em merecimento, nessas horas... Mas eu não. Eu preferi terminar meu café. Depois comi uma rodela de salame da mesa do café da manhã, entrei no meu carro – não escovei os dentes nem nada – e voltei pra São Paulo... Lia – E a Raissa, Ivo? Ivo – Hum? Nunca mais vi. Depois disso, eu não voltei mais pra casa... Ah, e nem bebi mais. Assim, do nada. (Pausa.) Lia – Ainda é aquela mesma caminhonete? Ivo – Hum? 140


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Lia – Seu carro. Ivo – Ainda é, sim. Lia – Não vi ela parada aí na frente... Ivo (ferido) – Cê não fez isso. Lia – O quê? Ivo – Cê não teve o trabalho de ir lá fora só pra...? Lia – Eu não fui lá fora. Vi da cozinha. Ivo – Podia ter me perguntado. Lia – Vi da janela. Quando fui pegar café pra você. Ivo – Podia ter me perguntado. Lia – E não é isso que eu tô fazendo?... Seu rosto tava vermelho quando cê chegou. Ele sempre fica assim quando cê anda muito. Ivo – O de todo mundo, Lia. Lia – Quando cê bebe, também. Ivo – Aí eu já não sei. Nunca bebi em frente ao espelho. Só corto o cabelo... Lia – Eu fui olhar da cozinha pra saber se era esforço mesmo. Ivo – Ou álcool? Lia – Cê não se aproximou quando chegou. Não me abraçou. Não deu pra sentir seu há141


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lito... Eu só queria saber por quanto tempo ia ter que te aturar, se cê realmente tivesse bebido. Cê sempre demorou mais pra voltar ao normal. Ivo – Mais do que quem? Lia – Que a maioria, sei lá... Ivo – Vem cá, foi antes ou depois de chegar a essa conclusão que cê ganhou aquele seu apelido de solteira, como é que é mesmo? Boca de pelo. Lia – Vai se foder. Ivo – Não era assim que te chamavam? Quantas picas cê viu amolecer na sua boca depois de seus respectivos donos apagarem, completamente chapados, hein? Com quantos caras cê teve que dormir em nome dessa sua pesquisa científica aí? Lia – Vai tomar no meio do seu cu. Ivo – Qual é, Lia? Agora cê sabe até em que ponto do sono um porre se dissipa. Porque é durante o sono que isso acontece, não é? Sabe até que o meu demora mais... Puta descoberta, hein, maninha. Parabéns. Devia mandar um artigo pra revista Science. 142


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(Pausa longa.) Ivo (vitimado) – Cê tinha vergonha de andar na minha caminhonete... Lia – Me dava agonia ver o asfalto passando pelo buraco no assoalho. Ivo – Falava que ela era feia e velha. Lia – Vazava muito óleo. Ivo – Quê? Lia (firme) – Vazava, sim, Ivo. Vazava. Ivo – No máximo, uns pingos onde ela tinha passado a noite. Lia – Deixava uma mancha preta no quintal. Eu tinha que esfregar todo dia, de manhã, era difícil de sair. Ivo – Ah, cê tá falando da casa que cês moravam na Mooca. É, de fato, isso aconteceu, sim. Mas foi depois que o seu marido quebrou o meu cárter. Lia – Quê? Ivo – E depois veio me falar – educadamente, é claro – que não ia mais dar pra guardar a caminhonete no quintal de vocês por causa

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da sujeira. Sujeira que ele mesmo tinha provocado, lembra disso? Lia – Ele nunca fez isso. Ivo – A minha dúvida é se ele fez sozinho. Porque ele não entrava debaixo do carro com aquela barriga... Passei quase dois meses dormindo em bancos de cinemas pornô 24 horas. Lia – Por que quis? Ivo – O ingresso era mais barato que um quarto. Eu tava sem um puto, naquela época, cê sabia disso. Lia – Ninguém te mandou embora. Você que ficou todo nervosinho, pegou suas coisas e sumiu. Ivo – Lia, cês não queriam a minha caminhonete na garagem de vocês, admite, porra. Não sei se porque ela agredia a beleza do jardim. Ou o problema era comigo? Hein? Eu podia tá atrapalhando. Cês tinham acabado de se casar, a casa era pequena. Lia – Sabe qual é o seu problema, Ivo? É que cê nunca teve esse tal puto aí, que cê fala, no bolso. 144


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Ivo – Eu não ajudava nas despesas. É isso. Agora tá explicado. Lia – Fala mal do Eliseu, mas tava sempre pedindo algum dinheiro emprestado pra ele. Ivo – Eu nunca pedi porra nenhuma pro hipopótamo. Lia – Já esqueceu da última vez que cê teve aqui? Faz o quê? Um ano e meio, dois anos? Ivo – Eu pedi pra você, não pra ele. Pedi emprestado pra você. Lia – E da onde cê acha que vem o meu dinheiro, se é o meu marido que me sustenta? (Pausa curta) Ivo – Será que ele te sustenta mesmo, Lia? Lia – Quê? Ele nunca me deixou faltar nada. Nunca atrasou uma conta... Ivo – E se um dia ele te deixasse faltar? Hein? Sei lá, o escritório de contabilidade dele ficasse ruim das pernas. Que que cê ia fazer, hein, Lia? Ia voltar a se apresentar de patins? 145


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Lia – Eu não sou mais tão jovem. Ivo – Não, não é. Mas até onde eu sei é a única coisa que cê sabe fazer... Talvez, se cê voltasse a treinar... Lia – Eu nem tenho mais patins, Ivo. Não tem criança aqui. Pra que patins numa casa sem criança? (Ivo pega um par de patins velhos oculto atrás da poltrona em que estava sentado.) Ivo – Que que é isso aqui, então? Lia – Cê mexeu nas minhas coisas? Ivo – Eu não. Lia – Tava atrás de dinheiro, ficou com vergonha de pedir e decidiu me roubar, é isso? Ivo – Eles tavam aqui atrás esse tempo todo. Lia – É o que dessa vez? Crack? Ivo (firme) – Essa merda tava aqui o tempo todo... Cê esqueceu ou deixou de propósito? Tipo um pedido de socorro. Uma careta estranha como pedido de socorro sem que quem te abraça ao mesmo tempo que te ameaça com uma faca nas costas perceba... 146


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Lia – Às vezes cê é cansativo pra caralho... Ivo – Cê deve ter perdido muito da técnica, sim. Da graça. Cê deve tá bem aquém de quando patinava no ginásio da escola. Mas acho que ainda dá pro gasto como patinadora do Carrefour, né, não? Lia – Ivo, eu não preciso trabalhar. Quantas vezes vou ter que te falar que eu não preciso trabalhar? Ivo – Que porra de pose é essa, Lia? Até quando cê vai ficar tentando passar pra mim uma vida que cê não tem? Pelo menos, não mais. Olha só pra essa casa. Há quanto tempo esse lugar não vê uma faxina? Ou é algum verniz novo chamado abandono? Sente esse cheiro de pedaço de bife apodrecendo embaixo do tapete, no vão entre o braço e assento do sofá há semanas... Tem alguma coisa que cê tá querendo me contar, Lia? O seu marido tá ruim de grana, é isso? Lia – Não. Ivo – É o seu casamento, então? Lia – Esses patins nem dão mais nos meus pés. 147


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Ivo – Pra treinar tá bom. E depois o Carrefour deve fornecer um par novo. Lia – Que Carrefour, Ivo. Que porra de Carrefour. Ivo – Lia, olha pra mim. Lia. Lia, olha pra mim... (Ela obedece) Voltou a treinar, instinto de sobrevivência, qual o problema? Natural quando o casamento tá naquelas frações de segundo que uma pedra que é atirada pro alto para no ar antes de começar a cair. Lia – Cê não sabe nada do meu casamento. Ivo – Se é que já não começou a cair, né. Quer dizer, se essa pedra sólida, a do sacro matrimônio, já não se espatifou no chão há muito tempo. Lia – Escuta aqui, meu casamento tá bem. Tá legal? E eu só tenho ido ao supermercado fazer as compras do mês. Quer ver meus joelhos, pra ter certeza que eu não tenho sofrido quedas?... Guardei a merda desses patins de recordação, como o álbum de fotos... (Voz embargada) É crime sentir saudade? 148


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(Pausa.) Ivo – Cê acha mesmo que eu vim aqui atrás de dinheiro? Lia – Sinceramente, Ivo? Acho. Acho, sim. Ivo – E cê tem? Lia – Por que que cê não vai à merda, hein? Ivo – Não tem, né? Lia – Pra você, não... Ivo – Fica fria, maninha, eu somei tudo. Vim te pagar. Lia – Ótimo. (Pausa curta.) Ivo – Cê perguntou da minha caminhonete pra saber se eu tinha vendido, né? Pra saber se eu tô fodido... Mas eu tô legal, viu. Não tô podendo dirigir, mas é só por uns tempos... Tô trabalhando, também. Lia – Hoje é terça-feira. Ivo – Peguei licença. Me impediram de operar máquinas. Lia – Suas mãos parecem perfeitas... 149


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Ivo – É uns remédios aí que eu tô tomando... Lia – Antidepressivos?... Ivo (cabisbaixo) – É... Lia – Não dirigir nem operar máquinas, a redundância das bulas dos antidepressivos. Sei porque o Eliseu tomou. Aliás, era uma verdadeira baldeação aqui em casa. Pulava do que deixava ele de pau mole pro que diminuía o apetite sexual, qual é a diferença, hein? Anota aí pra perguntar pro seu psiquiatra. Eu mesma mastiguei uns 10 comprimidos e nada. Ivo – Faltaram quatro. Lia – Quatro o quê? Ivo – Comprimidos. O efeito geralmente é depois de duas semanas... Lia – Ivo, deve tá sendo bem difícil pra você encostar a cabeça no travesseiro, né? Ivo – Não, é só uma disfunção química. Lia – Eu não tô falando disso. Ivo – É só uma disfunção química no cérebro. Lia – Cê sabe exatamente do que eu tô falando. Ivo – O remédio é pra estimular a produção de serotonina. 150


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Lia – Que susto. Pensei que era outra coisa. Ivo – Não... Lia – Remorso. Ivo – Não. Lia – Ou alguma coisa do tipo. Ivo – Não... Lia – Porque falam que... Ivo (ríspido, ela se sobressalta) – Eu já disse que não é... Porra... Lia – Falam que o travesseiro cobra. Um dia. É o que dizem. (Pausa curta.) Ivo – Eu só queria te pedir pra não fazer essa sacanagem comigo... (Os dois se encaram por um tempo. Por fim, Ivo começa a chorar.) Ivo – Por favor, Lia... Eu sei bem aonde é que isso tudo vai dar... (Ajoelha-se.) Olha, eu tô pedindo, não faz essa merda comigo, não, vai... 151


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Lia (chorando) – Cê chutou o caixão dele como se tivesse arrombando uma porta. Ivo – Porra, Lia, eu tô te pedindo... Eu tô te implorando. Cê não tá vendo que eu tô te implorando... Lia – Depois chutou o rosto dele. Pisou no rosto dele. Como se ele fosse um desses bonecos de sábado de aleluia. Ivo – Ah, Deus, não... Lia – Ele caído no altar daquela igreja, daquele jeito, naquela posição tão incômoda de olhar pra quem tá vivo... Aquelas flores todas no chão. O aspecto horrível que tinham ali espalhadas e pisoteadas. (Ivo soluça alto) Todo mundo olhando, Ivo... Ivo – Eles me bateram também, Lia. Eles me bateram muito. Lia – Eles precisavam te tirar dali. Eles precisavam te fazer parar... Eu ainda ouço os seus gritos, sabia? Eu ainda consigo ouvir todas aquelas suas acusações... pro vazio... Porque não adiantava mais, cê sabia disso, não sabia? Cê sabia, Ivo, que não adiantava mais? O pai já tava morto. 152


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Ivo (grita) – É tudo o que eu tenho, porra. É tudo o que eu tenho... Foi tudo que ele me deixou. A única coisa. Será que cê não vê isso? Será que cê não vê que ele não me deixou mais nada, (batendo no peito, enquanto levanta-se) só esse ódio aqui, bem aqui... Ele planejou tudo. Ele planejou tudo desde o início. Aqueles olhares de reprovação que só eu via, no começo, e que iam, aos poucos, encurtando os meus gestos, me emudecendo, a mim e a minha existência. Depois os choques. É, os choques. Quando meus músculos se tornaram fortes o suficiente pra que os ossos não se esmigalhassem -- como uma lâmpada que a gente cobre com um pedaço de veludo antes da martelada... Lembro de uma noite que eu levantei pra mijar. Eu tinha o quê? Uns 6, 7 anos... Quando eu cheguei na porta do banheiro, eu levei uma pancada no rosto. É, a minha cabeça bateu no interruptor de luz e voltou. A luz se acendeu. E eu pude ver a cara dele. Eu olhei bem dentro dos olhos dele e disse –... O que que cê tá fazendo aqui no escuro?... 153


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O plano dele deu certo. Ele planejou desde o início. Deve ter dito – esse vai fracassar. Esse vai ser um fodido de merda. E todos vão rir dele. E todos vão ter pena dele. E ele vai encontrar seus velhos amigos de escola em estacionamentos de supermercados, e esses velhos amigos terão seus carros encerados, suas esposas bem educadas, e ele vai ter que se esconder, de vergonha. Ele planejou tudo, Lia... E ele vai ter que pedir dinheiro emprestado pra sua irmã caçula... porque ele não vai suportar ficar no mesmo lugar por muito tempo, e isso serve, também, pra empregos, casamentos... Agora me diz, Lia – por que que alguém tem o trabalho de pintar um quadro se não quer que ele seja admirado? (Pausa longa. Cenário já bem escuro.) Ivo – Lia? Lia – Que é? Ivo – Tá escuro aqui, não tô conseguindo te ver direito... Onde é que acende a porra 154


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dessa luz mesmo? (Acha interruptor, tenta acender, a luz não se acende.) A luz não tá acendendo, Lia. Não acende essa merda. Será que acabou a energia?... Por que que essa merda não acende? Lia – Foi o Eliseu... Ivo – Quê? Lia – A luz. Ivo – O que que ele fez?... Ele cortou a luz, é isso que cê tá falando?... (Firme.) Fala, Lia. Abre essa boca, caralho. Lia – Ele anda meio esquisito, Ivo... Ivo – Ele tá aqui?... Seu marido tá aqui, Lia?... Ele desligou na chave geral? Ele tá querendo me dar um susto, é isso? Onde fica a chave geral?... Por que ele não vem me encarar, aquele arrombado? Por que ele não aparece (elevando o tom), hein, ô cuzão?... (Chacoalhando-a pelos ombros) O que que tá acontecendo aqui, Lia? Hein? Fala onde é que tá o seu marido. Lia (desvencilhando-se) – Aaaah, ele não tá aqui. Ivo – Não? 155


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Lia – Não... (Ela acende um toco de vela – luz precária.) Ivo – Cadê ele, então? Lia – Não sei. Ivo – Ele tá no trabalho? Lia – Acho que sim. Talvez. Ivo – Ele não vai voltar? Lia – Não. Não vai. Ivo – Ele foi embora? Ele te deixou, é isso? Lia – Ele anda meio esquisito. Ivo – Esquisito como, porra? Cê tá falando do presunto?... Lia – Outro dia, eu tava tomando banho de banheira... Ivo – Mania de grandeza, de novo, caralho? Lia – Tem uma porra de uma banheira no meu banheiro, quer que eu faça o quê?... Ele ligou o secador de cabelo na tomada e ficou me ameaçando. Aproximando o secador ligado da água. Ivo – Por que que ele fez isso? Lia – Não sei. E ficava fazendo umas perguntas. 156


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Ivo – Ele tá desconfiado de você? Lia – Amante? Não. Ivo – E cê tem? Lia – Não. Ivo – O que que ele perguntava, então? Lia – Um monte de coisas. O nome do presidente do Banco Central. Ivo – Quê? Lia – É, ele ficava me infernizando com um monte de perguntas sobre política... E se eu errasse, o secador, que ele chamava de aviãozinho, ia ter que fazer um pouso forçado no mar. Ele falava tudo isso com uma voz de chantagear criança pra comer, sabe? Ivo – Que gordo doente. Lia – Eu nunca tive tanto medo. Ivo – Se eu pego esse filho da puta. Lia – Os olhos dele pareciam os seus no dia do velório do pai. A parte branca cheia de rachaduras vermelhas. No início, eu pensei que ele realmente fosse me matar. Mas depois eu fui percebendo que ele só queria me assustar, daí já fui levantando, a água já tava fria, foda-se... Ele só queria 157


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que eu fosse embora. Queria me ver bem longe daqui. Ivo – E por que que cê não foi, Lia? Lia – Porque essa casa é minha... Cê acha que eu aguentei um camarada que volta de um laço no próprio sapato tão exausto quanto de uma maratona a troco de quê? Sabia que eu nunca lavei uma cueca dele mais de uma vez? O suor dele corroia o algodão. Sem falar no cheiro. Ele não usava colônia, aquilo era amostra do Rio Tietê... A vida pode não ter me reservado nada de esplêndido, (firme, voz entre os dentes) mas eu fui lá e arranquei dela. Arranquei, arranquei dela... Ivo – Cê devia ter me procurado. Lia – Aonde? Se cê tivesse uma merda de um celular, pelo menos. Aonde cê queria que eu fosse te procurar? (Pausa curta) Primeiro ele cortou o meu cartão de crédito. Antes mesmo dessa noite que ele me ameaçou no banho. Depois ele foi embora, começo da semana passada. E cortou a luz, a água. Tudo no nome dele, né... E, antes de cortar o telefone, ele ligou e disse que era assim 158


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que a justiça agia com uma vagabunda que se recusava a se render. Ivo (inquieto, balbuciando) – Filho da puta. Filho da puta. Filho da puta... (Pausa.) Lia – O pior é... Ivo – Chega, Lia. Não quero saber de mais porra nenhuma... Lia – É quando fica assim, à noite... As baratas saem... Não tão nem aí se você abre os braços pra elas, se você se impõe, demonstra superioridade... Ivo – Talvez, elas não achem que a gente seja superior... (Lia o olha por um tempo, com ternura, sem que ele perceba. Em seguida, senta-se próxima à vela.) Lia – Desconfio que tem até rato por aí, sabia?... Ainda não vi, mas tô quase convencida que tem... Talvez, já esteja até morto, sei lá. Cê 159


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não sentiu cheiro de carne podre? Vai ver que é isso... (Ivo senta-se ao lado dela e a abraça, aninhando a cabeça dela no peito dele. Pausa.) Lia – Ivo. Ivo – Hum. Lia – Como é que é lá, hein? Ivo – Lá aonde? Lia – No seu psiquiatra. Ivo – Tsc. Lia – Tem divã?... Ivo – Primeiro ele pergunta com que frequência você caga. Lia – Como assim? Ivo – Evacua... Lia – E o que que isso tem a ver? Ivo – Como é que eu vou saber? Talvez, um intestino preso possa levar um sujeito a dar um tiro no próprio ouvido... Mas eu só fui duas vezes no consultório dele. Depois eu combinei de a gente se encontrar em lugares públicos. Tipo restaurantes, cafés. 160


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Lia – É muito longe? Ivo – Não é isso... É que, sem ninguém por perto, ele ficava tentando me fazer chorar... Meu medo era de começar e não parar nunca mais. (Pausa curta.) Lia – Ivo. Ivo – Hum. Lia – Este é o último toco de vela... Ivo – Não tem problema... É também a última vez que um cara te maltratou assim. (Ivo sopra a vela. Blecaute.) Fim

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Explicando a Morte para Crianças de 6 Anos Cena 1 (Espécie de depósito de quinquilharias. Um lugar sujo e com pouca luz. Há pedaços das mais variadas coisas – móveis, eletrodomésticos, automóveis, como num ferro-velho. Três jovens – dois rapazes e uma garota – estão confinados ali; os rapazes estão deitados sobre sacos cheios de grãos, aparentemente, e a garota anda de um lado para o outro, tensa.) Ela – Sabe que isso aqui tá parecendo? Um encontro anual de professores de ioga. Ele 1 – E... A... P.I. Ela – Que cê tá falando? Ele 1 – Encontro Anual dos... A sigla do encontro. 163


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Ela – Cê deve ser um dos fundadores, pelo jeito. Ele 1 – Eu? Ela – Você e esse outro aí. Ele 1 – Ah, falô. Ela – Ninguém se mexe nem fala nada. Desde que a gente chegou, cês dois tão aí parados, tipo um animal morto. Ele 1 – Pode ter uma escuta aqui, sabia? Ela – Uma o quê? Ele 1 – Só pra você saber. Ela – Onde? Ele 1 – Em algum lugar. Ela – Pra quê? Ele 1 – Eles sempre põem uma pra... Ela – Eles quem, tô perguntando? Ele 1 – A polícia, caralho. Cê nunca viu isso em filmes policiais, não?... Eles capturam o bando e põem tudo numa sala. Sabe pra quê? Pra todo mundo cair de pau no cara que cagou na ação. Ela – Que cê ta falando? Que ação? Ele 1 (irônico) – Ação – roubo, sequestro, assassinato, putz, não é que eu esqueci meu 164


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código penal em casa hoje... Tem sempre um engraçadinho que tira o capuz. Que mostra o rg pra vítima pra defender alguma tese idiota de que é possível não sair verde numa foto instantânea. (Para Ele 2.) É ou não é, ô... freak? (Para Ela.) Ele é meio caladão, né? Ela – Eu nem conheço vocês. Ele 1 – Ahn? Ela – A gente não é um bando. Eu nem conheço vocês. Ele 1 – Mas eles podem tá achando que sim. Ela – Então é melhor a gente começar a falar, cê não acha? Até porque se tem mesmo algum aparelho de escuta aqui, eles já sabem que a gente sabe que tem... (Fala com a cabeça erguida, a um possível aparelho de escuta.) O que foi que eu fiz, hein?... Cês tão me ouvindo?... (Ele 1 ri.) Ele 1 – Engraçado como a gente ergue a cabeça quando quer ser ouvido por alguém que 165


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tá longe. Já reparou? É como se a pessoa crescesse com a distância, quando, na verdade, ela diminui. Ela – Tem alguém aí? Ele 1 (firme) – Por que cê não sossega a porra desse rabo e fica na sua, hein? Fica indo de um lado pro outro, que nem um limpador de para-brisa. Não tá vendo que essa merda já tá irritando? Ela (ferida) – Eu tenho motivo pra tá assim, tá legal? Ele 1 – Ah, é? Algum diferente do de nós dois aqui? (Ela senta-se. Pausa. Ele 1 cantarola uma canção de amor por um tempo. Pausa.) Ela – Cê já amou alguém? Ele 1 – Ãn?... Como assim? Ela – Tô falando de amor. Cê não sabe o que é amor? Aquele troço que te faz ligar pra alguém sempre que cê vê algum desastre aéreo na tv. Ele 1 – Hum. 166


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(Ele 1 prossegue cantarolando.) Ela – Desde que colocaram a gente aqui, eu fico tentando me lembrar de um cara. Ele me levou pro Panamá uma vez... Ouvi dizer que numa situação dessas é sempre bom recorrer a um repertório de coisas boas... Mas o problema é que, de repente, do nada – a mente parece que boicota a gente – vem a imagem desse cara, mas só que sangrando muito. No banco traseiro de um táxi. Ele 1 – Tiro? Ela – Não, então, esse sangue todo nunca aconteceu. É coisa da minha cabeça... Daí eu tento cobrir essa imagem ruim com uma tarde na piscina do hotel, por exemplo. Eu tô falando do Panamá. Mas a parte do sangue no banco sempre volta. E fica nessa troca de pensamento o tempo todo, sabe?, tipo pensamento bom, pensamento ruim, como num duelo de capas... Isso já aconteceu com você? Ele 1 – Cê é doida, isso sim. Tinha uma doida também na minha rua, sabia? Ela ficava 167


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atirando sapatos nas pessoas. Eu sempre quis saber onde é que ela descolava tanto sapato. Ela – É... Vai ver que é este lugar que tá me deixando nervosa. Essa merda de cidade de interior. Sabia que não tem um lugar nesta maldita cidade que vende Marlboro azul? Não, se não fosse aquele bar de jazz ontem à noite, eu ia poder jurar que isso aqui era uma cidade fantasma. Ele 1 – Cê tá em cana, normal. Queria pensar em quê, nessa situação? Na programação do Cartoon Network?... É melhor meter logo isso nessa sua cabecinha aí e ir se acostumando. Ou na boceta, sei lá, aí é contigo. Ela – Escuta aqui – a gente tá preso, tá legal? Não sou só eu, não. Ele 1 – Eu vou sair. Ela – Ah, é? Como? Ele 1 – Meu pai. Daqui a pouco ele tá pintando aí. Ela – Ah, é? E como que ele sabe que cê tá aqui? Ninguém deixou a gente telefonar nem nada. 168


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Ele 1 – Eu sei por que a gente tá aqui... Cê não vai me perguntar, não? Ela – Se for pra me mandar enfiar mais alguma coisa, fala logo que a remessa pra minha boceta já tá de saída... Ele 1 – Um de vocês dois. Ela – Quê? Ele 1 – Só pode ser. Ela – Eu não fiz nada. Ele 1 – Quem garante? Ela – E você? Ele 1 – Laranja. Dei carona pra você, rodei junto. Ela – Por que pra mim? (Para Ele 2.) Ei, cê não vai se defender, não? Ele 1 – Ontem à noite lá no bar. Ela – Que que tem? Ele 1 – Na mesa de bilhar, lembra? Ela – Eu subi na mesa e dancei um pouquinho, e daí? Eu só tava me divertindo, tava de cabeça cheia. Ele 1 – De cara cheia, cê quer dizer. Ela – Também. E daí?

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Ele 1 – E daí que cê só tá pulando a parte que cê tirou a roupa. Ela – Quê? Eu não fiz isso. Ele 1 – Ah, fez sim. (Para Ele 2, que o ignora.) Ei, ela não tirou a roupa? Hein?... A caipirada até parou de mastigar mato pra ver. Ficaram tudo lá, só coçando o pau, esperando a parte da calcinha. (Ri. Novamente para Ele 2.) Aí, cê viu aquele Chico Bento que enfiou o bico do taco de bilhar na boceta dela? Não, essa foi foda. O cara devia ter o quê? Uns 70 anos? Parecia que ele tava (gesticula, como se atirasse dardos) pilando alguma coisa. Ei, freak, foi bizarro, cara, foi... (Ele 2 aproxima-se de Ele 1, que vai diminuindo o riso, e chuta seu rosto)... Ele 1 – Ai, filho da puta... Aiiiiii... Ai. Ai... Ela – Que que cê tá fazendo? Ele 2 – Isso é pra você parar de falar dela como se ela não estivesse aqui. Ele 1 – Caralho, cê quebrou o meu nariz, porra. Cê quebrou o meu nariz... 170


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Ele 2 – Se não ficar quieto eu quebro o seu pescoço também. Ele 1 – Meu nariz vai ficar torto, porra. guardas... guardas... Ele 2 – Ih, o cara pensa que tá na Idade Média... Ele 1 – Eu tô morrendo, cara... Eu vou morrer. Ela – Ajuda ele. Ele 2 – Cê não viu o jeito que ele tava falando com você? Ela – Mas precisava fazer isso? Ele 2 – Fica fria, sangue no nariz não mata ninguém, não. Do contrário, a gente só ia ver lutador de boxe em livro de história. (Ela tenta ajudar Ele 1, mas é rechaçada. Pausa curta. Ele 1 continua gemendo.) Ela – Olha, talvez ele tenha razão... Tipo eu acabei me empolgando um pouco mesmo ontem lá no bar. Ele 2 – E daí? Ele 1 – É por isso que a gente tá aqui. Por causa dessa vaca. 171


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Ele 2 – Alguém disse que a gente tava sendo preso por sua causa? Ela – Não, mas... Ele 2 – Se foi pelo lance de cê ter tirado a roupa, o que que eu e ele estamos fazendo aqui, então? Ele 1 – A gente encorajou ela. A gente ficou batendo palma. Ela – É. Ele 2 – Então eles tinham que prender o bar inteiro, correto? Ele 1 – Vai ver que prenderam. A gente não ficou lá pra ver... Atentado ao pudor dá cadeia aqui, cara. Eu tô nessa cidade já faz um tempo, eu sei que que eu tô falando. Ela – Vai ver ele tem razão. Ele 2 – Eu nunca vi mulher ficar presa com homem. Será que eu tô sendo meio anacrônico? Ele 1 – Ela te incomoda, é?... Já sei, cê tá é com medo de ficar sozinho aqui com ela, é isso. Depois que o meu pai vier me tirar daqui é isso que vai acontecer... Cê pode

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não saber, mas meu pai é influente nesta cidade, cê tá fodido. Ele 2 – Ah, é? Qual é mesmo a rua que tem o nome dele? Ele 1 – Meu pai é o dono do bar. O bar que ela fez a merda toda ontem à noite, todo mundo viu. Ele 2 – O bar de jazz? Peraí, cê tá me dizendo que aquele crioulo de uns 200 quilos é seu pai? (Blecaute. Fim da cena 1.)

Cena 2 (Mesmo cenário. Ela não está presente. Ele 2 está impaciente.) Ele 1 – Fica frio. Só liberaram pra telefonar, só isso (Pausa curta.) Acho que foi um puta de um mau negócio esse de chutar o meu nariz, viu... Cê ouviu o que eu disse?... Foda-se ela, porra. Por que que cê tá tão preocupado? 173


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Ele 2 – Ela é só uma garota. Ele 1 – As garotas são bem mais fortes que a gente, cara... Se cê quer saber, já vi uma cair do 3º andar e só ir pro hospital depois do trabalho... Eles estão atrás de você, né? Ele 2 – Quê? Ele 1 – Cê sabe, a polícia. Ele 2 – Não fala merda. Ele 1 – Por isso que cê tá aí, todo preocupado com ela, né? Já sei, é culpa. Ele 2 – Ela foi pra lá morrendo de medo, cê não viu, não? Ele 1 – Claro, ela tá aqui de laranja, que nem eu... Cê tá a fim dela, não tá?... Cê tá a fim da piranha, né, pode falar... Ela disse que ia fazer um boquete pra mim ontem à noite, se eu desse uma carona pra ela até a rodoviária... Eu disse “Olha, o meu pau é meio babão, já vou avisando”. Sabe o que ela falou? Cara, ela não disse nada, nem se importou... Mas aí a gente tomou a geral, logo em seguida, acabou vindo parar aqui e eu perdi a minha chupada da noite, saí no prejuízo... Aliás, saí no prejuízo duas 174


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vezes, né, porque cê ia me dar uma grana também, lembra? Ele 2 – Pela carona. Ele 1 – Cê não tá achando que eu pensei que... Ele 2 – Que não rolou. Ele 1 – É, mas eu não tenho culpa da polícia ter prendido a gente. Cê me pediu uma carona lá na porta do bar e eu dei. Cê disse que precisava fugir e eu te dei uma força. Ele 2 – Eu não disse isso. Ele 1 – Ah, disse, sim. Disse que precisava fugir pra um lugar mais longe, não vem com essa, não. E que ia me dar uma grana se eu te levasse no meu carro. Ele 2 – É, mas deu tudo errado, esquece. Ele 1 – Esquece porra nenhuma. Trato é trato. Ele 2 – Esquece. Ele 1 – E se um ônibus quebra, por exemplo, e cê já pagou a passagem? Ele 2 – Cê pega outro. E sem precisar pagar de novo. Ele 1 – É, mas...

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Ele 2 (enérgico) – Eu não vou te dar grana nenhuma. Ele 1 – Tá certo... Eu só tava tentando livrar a sua cara. Tava tentando fazer o serviço completo, tipo paga pela carona e leva um álibi grátis. Ele 2 – Que álibi? Eu não preciso de álibi nenhum. Ele 1 – Olha, não sei a merda que cê andou fazendo por aqui, nem me interessa, mas eu tava tentando jogar a culpa nas costas da piranha. Ele 2 – Quê? Ele 1 – Desde quando a gente chegou aqui, eu tô tentando fazer isso, não deu pra perceber? Ei, freak, atentado ao pudor, acorda. Ele 2 – Eu não tenho culpa de nada. Ele 1 – Fugindo de homenzinhos azuis é que cê não tá, né. Ele 2 – Mesmo que eu tivesse feito alguma coisa. Eles deviam ter dito que era por minha causa que tavam prendendo a gente. E nenhum deles disse nada. Cê ouviu algum deles dizendo alguma coisa? 176


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Ele 1 – Nós três somos suspeitos, cara. Do que eu não sei... Até alguém confessar. Ou até dois acusarem um. Ou uma. Ele 2 – Escuta aqui, ou a gente para com esse papo ou eu faço o seu nariz sair pela nuca, você escolhe. Ele 1 – Ok, ok. Não tá mais aqui. (Pausa.) Cê é de São Paulo? Mudei de assunto, cê não pediu? Ele 2 – É. Ele 1 – Eu também... Mas peguei bronca daquela cidade, viu... (Ele 1 lhe entrega um cartão de visita.) Ele 1 – Taí por que cê não devia ter chutado meu nariz... (Ele 2 olha o cartão e joga de lado.) Ele 1 – Ei, pra que isso? Ele 2 – Michê do caralho. Ele 1 – Massagista. Tenho certificado... Qual é, médico não vive se especializando?... Ok, se 177


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tem uns viados na parada? Tem, claro que tem. E onde é que não tem viado, hoje em dia? Desconfio até que tem mais viado no mundo do que rato... Mas não dou o cu, não, se é isso que cê tá pensando. E você? Ele 2 – Cara... Ele 1 – Faz o quê, tô perguntando?... Ele 2 – O meu trabalho é bem mais ortodoxo. Eu escrevo. Ele 1 – Escritor? Ele 2 – É. Ele 1 – De livros? Ele 2 – Só não tão no formato de livros ainda... Ele 1 – Legal... Não tem pinta, mas é que eu não leio muito... Ele 2 – É, nem eu. Ele 1 – E como cê faz, então? Ele 2 – O quê? Ele 1 – Cê sabe, pra escrever não tem que ler bastante? Minha professora do primário falava isso. Ele 2 – Pode ser... mas não acho que seja o mais importante, não. Ele 1 – E o que que é, então? 178


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Ele 2 – Quer um conselho, cara? Nem tenta. É melhor continuar com as suas lutinhas de esgrima remuneradas. Ele 1 – Vai se foder. Só fiz uma pergunta, pô. (Pausa curta.) Ele 2 – Acho que cê tem que perder o medo, primeiro... É mais ou menos como pular de um lugar bem alto – o mais alto que cê conseguir imaginar... Ele 1 – Ah. Ele 2 – ... usando só uma sacolinha, saca?, dessas de supermercado, como paraquedas. Ele 1 – Sei. Ele 2 – Aí depois... Ele 1 – Fica tudo mais fácil, né? Já entendi. Ele 2 – Não. Mais difícil. Ele 1 – Pode crer. Eu entendi. Ele 2 – Com as duas pernas quebradas fica tudo muito mais difícil... Ele 1 – Peraí, cara, do que cê ta falando? Ele 2 – Do salto, pô, só com a sacolinha de supermercado. Ou cê acha que... 179


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Ele 1 – É que eu pensei que a sacolinha era só uma... Ele 2 – Metáfora? Ele 1 – Não, uma maneira de dizer mesmo. Ele 2 – Esquece, vai. Ele 1 – Tudo bem... Ele 2 – Maneira de dizer ou não, o fato é que com as duas pernas quebradas fica muito mais difícil você escalar tudo de novo. Só pra poder pular mais uma vez e quebrar cada vez mais ossos. (Pausa curta.) Ele 1 – Caralho. Fico imaginando o tipo de coisa que cê escreve. Ele 2 – Poesia. Ele 1 – Um poeta. Mas cê não fica reclamando, não, né? Ele 2 – Eu não tô reclamando. Cê tá me vendo reclamar de alguma coisa? Ele 1 – Tô falando da vida, como os poetas costumam fazer.

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Ele 2 – Que que cê entende de poesia, hein? Por acaso cê já ouviu falar em Gregory Corso? Ele 1 – Não. Eu só conheço um que quis me vender um livro na porta do cinema. É, ele usava aquelas camisetas indianas tipo bata, saca? Ele queria me vender um livro que tinha, no máximo, umas cinco páginas. Ele 2 – E cê comprou? Ele 1 – Claro que não. E o cara ficou mordido pra caralho. Eu tive que ameaçar pegar uma pedra no chão, saca, quando a gente quer espantar um cachorro de rua, pro cara ir embora? (Ri. Ele 2 sério.) Cara, ele queria que eu assinasse um abaixo assinado que defendia a criação de uma cidade-bolha que só ia ser habitada por poetas... (Ri ainda mais.) Uma cidade-bolha completamente à parte do mundo que a gente vive – com outro tipo de ar pra se respirar e tal – porque, segundo ele, esse mundo é uma agressão (afetado) a pessoas sensíveis como ele. (Ele 2 ri também. Pausa curta.) 181


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Ele 2 – Taí uma opção pra você que não gosta de São Paulo. Ele 1 – Cê tá maluco... Ele 2 – Por que que cê não gosta de lá? Ele 1 – Ah, cara, aquela cidade não me ama... Então, eu tava tentando descolar um programa, uma vez – eu tava precisando, tinha umas dívidas pra honrar com uns caras aí e tinha que levantar um dinheiro em menos de três horas. Daí eu fui pra rua, né, não pensei duas vezes. Mas eu nunca tinha feito isso. Meu negócio é anúncio de jornal. Mas como eu tava sem grana pra umas linhas na Folha, o chat do uol também não tava virando nada, fui pra rua... Quando eu cheguei, a michezada da área já foi me olhando torto. Claro, mais um concorrente, a noite já tava fraca, tava até meio frio. Daí eu peguei um conhaque no bar pra dar uma anestesiada no corpo, caso os caras resolvessem me cobrir de porrada – o que ia acontecer, mais cedo ou mais tarde – e foi aí que eu tive uma ideia... Vai vendo, antes disso, eu tinha saído com um cara que mexia com 182


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propaganda, e ele me disse que pra uma empresa se destacar no mercado, ela tem que ter um diferencial, saca? Aí pensei que no meu caso isso podia funcionar também. Então eu tava ali, nada acontecia, a michezada me olhando torto, sabe o que que eu fiz?... Eu coloquei o pau pra fora, duro – porque cê tem que ficar mexendo nele pra ele ficar duro o tempo todo, senão ninguém se interessa – e comecei a equilibrar o copo de conhaque na cabeça do meu pau. Ele 2 – Cê tá de sacanagem. Ele 1 – Não. Eu comecei a andar com o copo na ponta do pau, assim, sem deixar cair... Fui andando até ver, meio de rabo de olho porque eu não podia parar de olhar pro copo, um carro parar do meu lado na hora e abrir a porta. Aí alguém gritou de longe “Quebra a espinha desse filho da puta”. A michezada ficou puta com o meu talento recém-descoberto. Porra, cara, não pensei duas vezes, caí pra dentro do carro na hora... Ele 2 – Pô, então funcionou o diferencial. 183


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Ele 1 – Mais ou menos... Depois que eu fechei a porta percebi que eu tinha caído pra dentro de uma viatura. (Ele 2 cai na gargalhada.) Ele 1 – Aí apanhei pra caralho, né, o de praxe. E só não comeram meu cu na cela porque meu pai baixou na delegacia e pagou a fiança. Ele 2 – Puta sorte, né?... Ou não?... Ele 1 – E foi aí que eu descobri que aquela cidade não me ama mesmo... Mas foda-se, tô indo pra Los Angeles agora. Vou fazer uns programas por lá. Deve dar mais grana, né, dólar é dólar. Ele 2 – É, deve ser. Ele 1 – E ainda corro o risco do Kevin Spacey parar o carro pra mim, ahn? Aí eu tô feito, malandro, cê só vai me ver nos filmes do Ang Lee... Por que eu acredito que essas bichas estão todas conectadas, saca, tipo um organograma mesmo... (Melancólico.) Era pra eu ter ido há quase um mês já, mas... 184


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acabei ficando por aqui, pra dar uma força pro Joe. Ele 2 – Joe? Ele 1 – É, o dono do bar que a gente tava ontem – o jazzman da cidade –, sabe quem é? Ele 2 – Ah, o cara que cê disse que é seu pai? Ele 1 – E ele é. Ele 2 – Peraí, como que aquele negão de uns 200 quilos, sem a mão esquerda pode ser seu pai? Daqui a pouco cê vai me dizer que é neto do B.B. King. Ele 1 – Eu nunca tive pai, porra, dá pra dar um tempo? Ele 2 – E esse que te pagou a fiança lá em São Paulo? Cê acabou de dizer que... Ele 1 – Porra, dá pra parar de querer que tudo faça sentido?... Que merda isso. Ele 2 – Tá legal. Ele 1 – As pessoas não vivem adotando um monte de filho neguinho por aí? Então, por que que eu não posso adotar um pai também? Ele 2 – É, por quê? 185


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(Pausa curta.) Ele 1 – Sabe como foi que ele perdeu a mão? Ele 2 – Não. Ele 1 – Ele é de New Orleans. Ele 2 – Ah, pode crer. Isso eu sei. Um amigo de São Paulo me falou. Ele me disse que tinha um bar de jazz numa cidadezinha no meio do nada, e que o dono tinha vindo de New Orleans. Um negro gordão, que tinha uma cara de mafioso do boxe e ficava o tempo todo tocando uns discos melancólicos. Ele 1 – É, é assim que as pessoas veem o Joe... O poeta aí conhece bem jazz? Ele 2 – Não conheço bem. Mas reconheço sempre. Ele 1 – O Joe perdeu a mão no Katrina. Lembra do Katrina? Ele 2 – Caralho... Então é por isso que ele fica falando o tempo todo “Romperam-se os diques”, “Romperam-se os diques”? Ele 1 – O Katrina levou toda a família do Joe. Mulher e filha... E depois disso ele deci186


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diu vir pra cá. Não tem perigo de furacões aqui... Ele 2 – Mas não deve ter sido exatamente por isso que ele veio. Ele 1 (ríspido) – Se eu tô falando é porque eu sei, porra, convivo com ele. Ele 2 – Por medo?... Eu só quis dizer que ele não me pareceu um covarde. (Pausa curta.) Ele 1 – Ele pegou todas as suas economias e resolveu que ia abrir um bar de jazz no meio do nada. Um bar particular. E veio parar aqui... Doido, né? Ele 2 – As pessoas falam muito desse bar lá em São Paulo. Ele 1 – É aí que tá o problema. Porque a intenção dele era só passar os dias ouvindo discos, tentando colar os cacos... Ele 2 – É, não dá pra apagar as rachaduras de um mapa. Ele 1 – Quê? Ele 2 – Não, nada. 187


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Ele 1 – Mas as pessoas logo ficaram sabendo e um monte de gente começou a aparecer por lá, querendo ver um verdadeiro jazzman de New Orleans, como eles dizem... Cara, o Joe não é músico nem nada. Ele é só um cara comum, como eu, você. Cê acredita que às vezes chega até ônibus de excursão por lá?... (Emocionado.) Só pra ver aquele cara comum remoendo sua tragédia. Tudo pra ver o velho Joe em ação, é só isso que eles querem. Os idiotas ficam olhando pra ele como se tivessem vendo um gorila doente no zoológico. Um gorila rugindo de dor, prestes a morrer. (Pausa curta.) Ele 2 – É, tem coisas que não precisam de audiência. Ele 1 – Que que cê tá falando? Cê também tava lá. Ele 2 – Ouvindo música. Ele 1 – Não entende porra nenhuma de jazz. Ele 2 – Eu não disse isso. 188


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Ele 1 – Ah, pra cima de mim agora?... (Furioso.) Você e a sua amiguinha não são bemvindos aqui, tá certo? Vê se fica longe do bar do meu pai, entendeu? Ele 2 – Ela não é minha amiga. Eu conheci ela ontem, que nem você... E já era pra gente tá bem longe agora, mas aconteceu tudo isso e... Olha, eu só tava querendo dizer que tem coisas que não precisam de ninguém por perto. Como escrever um poema ou... a dor do velho Joe. Ele 1 – Cê entendeu o que eu disse. (Ela invade o cenário, estóica. Ele 2 vai ao encontro dela.) Ele 2 – Ei, tá tudo bem? Como é que cê tá? Ela – Ãn? Tá tudo bem. Ele 2 – O que eles queriam? Ela – Ahn? Ele 1 – Que que eles queriam? Fala logo. Ela – Nada. Ele 1 – Como nada?

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Ela – Eles foram até bem cavalheiros, dessa vez. Nem me empurraram. Ele 1 – Cavalheiros? Mas que que eles te perguntaram? Ela – Ah, eles perguntaram... Sei lá o que eles perguntaram. Tipo coisas da minha vida. Ele 1 – Quê? Ela – Eles perguntaram se eu tinha alguém pra vir me buscar. Me deixaram até ligar pra minha avó. Agora ela tá vindo aí. Minha avó tá vindo me buscar. Ele 1 – Só isso? Ela – É... Ah, e me disseram que gostaram muito do jeito que eu dancei ontem lá no bar. (para Ele 1.) Ouviu, ô, cu de burro? Ele 2 – Eles tavam lá no bar? Ela – Claro. Eles disseram que é o único lugar pra se divertir nesta cidade de merda. Por isso é que vai todo mundo pra lá, toda noite. (Para Ele 2.) Ah, eles querem falar com você. Ele 2 – Comigo? Ela – É. Ele 1 – Vai lá. 190


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Ele 2 – Não, eu vou. Ele 1 – Então vai logo. Tá esperando o quê? Ele 2 – Calma, porra. Tô indo. Ele 1 – E vê se abre o jogo logo, eu preciso ir embora. Ela – Que jogo? Ah, eles disseram que caras da cidade não são bem-vindos por aqui, só garotas. (Ele 2 ameaça sair, mas para diante da saída e espera.) Ele 1 – Esses caras são um bando de caipiras. Eles têm medo de perderem a mulherada pra gente... Ei, que que isso aí na sua perna? Ela – O quê? Ele 1 – Aí na coxa. Ela – Aqui? Não sei. Nada. Ele 1 – Como nada? Deixa eu ver. Ela – Não é nada, tira a mão... Deve ser só alguma coisa que caiu. Ele 1 – Tá parecendo... porra. Parece porra isso aí.

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(Ela começa a chorar ardidamente. Ele 2 sai.) Ela – Sai... Ele 1 – Ei, cê tá com a perna toda esporrada... Ela – Não... (Pausa curta.) Ele 1 – Olha, tem papel aqui, vê se limpa isso aí... (Ela se limpa enquanto chora. Blecaute. Fim da Cena 2.)

Cena 3 (Mesmo cenário. Ele 2 não está presente. Ela já não chora, mas aparenta abatimento.) Ele 1 – Mas só isso? Ela – Só. Ele 1 – Eles não disseram nem por que prenderam a gente? 192


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Ela – Não. Ele 1 – Certeza? Ela – Eu até fiz uma denúncia. Ele 1 – Denúncia? Como assim? Ela – É, foi a única coisa que me veio na hora, já tava ficando constrangida com o silêncio deles. Ele 1 – Denunciou o quê? Ela – É que eu fui numa rave... e lá experimentei mescalina e mais um monte de coisas que eu não sei o nome agora... Eu apaguei. Não tô acostumada... o meu único contato com drogas foi um comprimidinho de aas infantil moído no Marlboro quando eu tinha uns 6 anos... E quando eu acordei, no dia seguinte, deitada na grama, tinham roubado o meu rim. Ele 1 – Quê? Ela – É, algum maluco se aproveitou da situação e me roubou um rim. (Pausa curta.) Ele 1 – Cê foi no médico? 193


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Ela – Não. Ele 1 – E como é que cê sabe que foi o seu rim que tiraram? Ela – Alguma coisa eles tiraram daqui de dentro. Olha a cicatriz. Ele 1 – Credo, vira isso pra lá. Ela (ofendida) – Desculpa, esqueci que cê tem nojo de mulher. Ele 1 – Tenho nojo dessa sua cicatriz aí. Ela – Homem que gosta de mulher não tem nojo de cicatriz. Toda mulher tem ou vai ter uma cicatriz, um dia. De parto. E se você não quer cicatriz, meu bem, não pode comer uma mulher. E se você aguenta ficar sem comer uma mulher só pra que ela não tenha uma cicatriz é porque você não gosta tanto assim da fruta. Ele 1 – De onde cê saiu, hein? De alguma aldeia indígena?... E o que foi que eles te disseram sobre esse lance do rim? Ela – Que eles registraram a denúncia e vão investigar o caso. (Pausa.) 194


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Ele 1 – Quanto tempo cê acha que leva pra ela chegar até aqui? Ela – Quem? Ele 1 – A sua avó. Cê não disse que ligou pra ela? Ela – Ah, vai demorar um pouco. Ela já tá velhinha, já tem, 96 anos. Ele 1 – E onde ela mora? Ela – São Paulo. Ele 1 – E cê só tem ela? Ela – Só. Ele 1 – E como é que ela vai vir até aqui? Ela – Não sei. Ele 1 – Cê não tá achando que a velha vai montar num conversível, botar uns óculos escuros, aquele cachecol que não é cachecol, que as mulheres usam... Ela – Echarpe. Ele 1 – Merda... E ela vem com alguém? Ela – Não, ela tá numa cadeira de rodas. Ele 1 – Puta que pariu... Ela – A minha avó andou um tempo meio surda... Ele 1 – E como cê telefonou pra ela, porra? 195


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Ela – Eu disse que ela andou um tempo meio surda, não que ela tá surda agora, neste momento... Ela via tv sempre no volume máximo. E eu odiava ela por isso. Não via a hora de ela morrer logo, pra que a tv fosse vista de um jeito normal, como todo mundo, num volume adequado... Eu me perguntava o tempo todo – “Quando é que esta merda de velha surda e cagada vai morrer, hein?”... Até que ela ficou doente, uma gripe, daí eu aproveitei e perguntei pro médico se ele não podia me arranjar um daqueles aparelhinhos que os surdos usam no ouvido, sabe?... Sabe o que ele me disse? Me chamou de irresponsável, porque a minha avó tava com uma crosta de cera tão grande no ouvido, era isso que impedia ela de ouvir tv... Como é que eu ia saber que tinha que limpar o ouvido dela, me fala? Daí ele pingou um remédio lá, limpou com algodão e ela começou a ouvir tv normalmente... A tv ficava tão baixinha lá em casa, tudo ficou tão calmo como depois de uma tempestade... Ela fazia um bolo de 196


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fubá com erva-doce e a gente sentava na frente da tv pra ver algum filme na Sessão da Tarde... Eu adorava minha avó... Pena que ela não durou muito depois disso, não resistiu à gripe. Ele 1 – Sua avó tá...? Ela – Amanhã faz duas semanas. Ele 1 – Então você... Mas como é que...? Ela – Eu não tinha pra quem ligar. Cê queria que o quê? Que eles pensassem que eu sou uma dessas pingentes de balcão de bar pra solteiros? Nem fodendo, deixei recado na secretaria. Ele 1 – A gente tá é fodido. Ela – Não, tem o seu pai. Ele não ia te tirar daqui? Ele 1 – Eu não vejo meu pai desde que tinha 6 anos. Ela – E o dono do bar, o negão? Ele tá lá fora. Ele 1 – Quê?... O Joe tá lá fora? É isso que cê...? Ela – Tá, sim. Ele 1 – Tem certeza que é ele? Ela – Claro. 197


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Ele 1 – Então eu vou sair daqui. Porra, eu não acredito... Ela – É, mas... Ele 1 – O quê? Mas o quê? Ela – É que ele parecia tá do lado deles. Ele 1 – Do que cê tá falando? Ela – Ele tava comendo pizza com os outros. Parecia uma comemoração. Ele 1 – Que outros? Que comemoração? Ela – Ele tava rindo com eles. Ele 1 – Com os policiais? Ela – Eu acho que eles não são policiais, não. Ele 1 – Como assim? Ela – Pelo menos, nenhum deles tá vestido como um policial. Ele 1 – Eles tão à paisana. Que nem ontem quando prenderam a gente. Ela – Também não tem ninguém comendo aquelas rosquinhas tipo cobertas de açúcar, sabe? Ele – Quê? Ela – Cê não tinha me perguntado se eu não via filmes policiais? Então... Nem carro de polícia eu vi parado lá fora, eu olhei pela 198


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janela. Olha, eu tô começando a achar que esse lugar não é uma delegacia, não. Eu tô começando a achar que isso aqui é só um depósito fedendo a mijo, cheio de coisas velhas, enferrujadas. Ele 1 (dando tapas na cabeça dela) – Escuta aqui, sua piranha, tá pensando que eu sou otário, é? Ela – Para. Ele 1 – Tá, porra? Tá pensando? Ela – Para. (Ele 1 para de bater nela e sai chutando e esmurrando alguns objetos.) Ele 1 – Eu quero sair daqui, porra. Eu quero sair daqui... (Pausa curta.) Ela – O cara que tá agora lá falando com eles, o retardado, é que tem razão. A gente não tem a mínima ideia do que tá fazendo aqui. Ele 1 – Assassino. 199


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Ela – Quem? Ele 1 – O retardado, o freak. Ela – Ele matou alguém? Ele 1 – Só pode. A gente tá aqui por causa dele... Ele tá fugindo da polícia. Ela – Mas quem que ele poderia ter matado? Ele é só um retardado. Ele 1 – E poeta. Ela – Até pensei que ele fosse te matar depois daquele chute, sabia? Fiquei morrendo de medo. Ele 1 – Cê viu?... Esse nariz torto na minha profissão é aposentadoria, praticamente... Olha, se ele não confessar, eu falo. E cê vai falar também? Ela – O quê? (Ele 1 volta a dar tapas na cabeça dela.) Ele 1 – Larga a mão de ser burra, porra. Ela – Mas eu não sei de nada. Ai, para. Ele 1 – Eu já falei pra você, sua puta. Ela (chorando) – Para que minha cabeça já tá doendo. Para... 200


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Ele 1 (já não bate nela) – Cê vai ver se cê não vai falar. Ela – Falar o quê? É só falar pra mim que eu falo, não precisa me bater. Ele 1 – Falar que... que ele disse pra gente que precisava fugir. É, porque tinha matado alguém, é isso. Ela – Tá legal, eu falo. Ele 1 – É, cê vai falar. Ela – Só não sei se isso vai adiantar. Ele 1 – Por que não? Ela – É que eu acho que... Eu tô começando a achar que a gente foi sequestrado. Ele 1 – Sequestrado?... Por quê? Quem é que tem grana aqui? Você? Ela – Não. Ele 1 – Herança da vovozinha surda? Ela – Se eu tivesse grana, não teria vindo nesse fim de mundo pra tentar uma vaga de garçonete naquele maldito bar. Ele 1 (ameaçando bater novamente, mas não bate) – Eu já falei pra vocês ficarem longe do Joe. Ela – O negão tá cagando pra você. 201


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Ele 1 – Falô. Ela – Ah, não? Ele acabou de foder comigo lá fora... Ele 1 – Quê? Ela (pegando uma barra de ferro) – E se vier com ataque de ciuminho e triscar um dedo em mim de novo, abro uma boceta no meio da sua testa bem maior e mais ardida do que tá a minha agora. E eu tô falando sério. (Ele 2 entra. Os outros dois não percebem. Pausa.) Ele 1 – Foda-se. Ele tá certo. Cê deve ter dado mole mesmo... Ele não é meu pai, não. Não, biológico. Eu não vejo meu pai desde que eu tinha 6 anos... Sei que ele trabalhava numa transportadora ou alguma coisa assim, mas pra que ir atrás, né. Pra escutar um “Se for dinheiro, já vou avisando que eu não tenho”?... (Emocionado.) Quero que ele se foda. Nunca precisei dele pra nada... Aposto que ele deve tá por aí agora, atrás de alguma vagabunda com cara de 202


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índia, dessas que fazem ponto em paradas de caminhões. (Rindo e chorando ao mesmo tempo.) Meu pai sempre foi mulherengo pra caralho, sabia? Foi por isso que a minha mãe expulsou ele lá de casa... (Ele 2 se aproxima.) Ele 2 – Eles não perdem muito tempo com os homens. Ela – Não chega perto. (Ameaça-o também.) Não chega perto... Ele 2 – Que que foi? Ele 1 (limpando os olhos) – Ei, freak, já confessou todos os pecadinhos? Ele 2 (para Ele 1) – Tinha que falar merda, né? (Para Ela.) Olha, tá tudo certo, fica calma. Ela – Fala que duvida. Vai, fala, retardado. Fala que duvida eu arrancar a sua cabeça. Ele 2 – Eu não sou retardado... E cê já pode ir embora, se quiser. Ele 1 – Aí ele confessou, não disse. Até que enfim a gente vai sair dessa merda. 203


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Ela (emocionada) – Eu posso ir?... Tem certeza, eles deixaram mesmo? Ele 2 – Desde que a gente não se encontre de novo lá fora. Eles pediram pra ir saindo um de cada vez. (Ele 1 ameaça sair. Ele 2 o impede.) Ele 2 – Ei, onde é que cê vai? Ele 1 – Não é pra sair? Ele 2 – A garota primeiro. Ele 1 (para Ela) – Tá esperando o quê? Vaza logo, some da minha frente. (Pausa curta. Ela larga a barra e sai. Ele 1 tenta sair em seguida, Ele 2 o interrompe.) Ele 1 – Ela já foi, dá licença? Ele 2 – Agora sou eu. Ele 1 – Cê não vai ter que ficar? Ele 2 – Por quê? Ele 1 – Cê não confessou tudo pra eles? Ele 2 – Tudo o quê? Ele 1 – O crime, como o quê? 204


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Ele 2 – Que crime? Ele 1 – Não sei, porra. Um assassinato, um roubo, sei lá. Confessar o porquê de cê tá fugindo e de a gente tá aqui de laranja. Será que eu tenho que ficar repetindo tudo? (Pausa curta.) Ele 2 – O Joe veio pro Brasil e nem por isso matou ou roubou alguém, tô certo? Ele 1 – O Joe é o cara mais legal que eu conheço... Ele 2 – Cara, eu nem devia te contar isso, mas... uma vez, eu peguei o carro do meu pai escondido... Eu tinha 15 anos... Eu só queria ir até a rua detrás onde os caras ficavam tirando racha. Mas eu não ia correr, eu só queria chegar lá de carro – mesmo sendo na rua detrás – pra ficar assistindo, sentado no capô, tomando uma cerveja, essas coisas... Eu encontrei um amigo lá, da minha idade. E ele me pediu o carro emprestado pra se exibir pra umas garotas mais velhas. Claro que eu neguei... Mas de tanto ele insistir, eu 205


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acabei concordando, depois de um tempo, desde que eu fosse no banco do passageiro... É, eu queria sentir aquela adrenalina toda, envelhecer 3 anos numa noite, ter 18 anos rapidinho e me sentir um adulto... Carros emparelhados e uma garota com os peitos de fora deu o sinal de largada, ele pisou fundo... Cara, a gente devia tá a uns 200 por hora. Ou bem próximo disso. Quando batemos em alguma coisa, parecia um cone... (Emocionado.) O negócio deve ter subido uns 15 metros de altura antes de cair no chão. Pelo retrovisor, eu vi que as pessoas correram em direção ao que a gente tinha atingido, e então pedi pro meu amigo parar e voltar, porque eu tava achando que aquilo não era um cone, não... E não era, era uma pessoa... Uma mulher... Ela tava de camisola, e... quando eu cheguei mais perto, percebi que... era a minha mãe... O meu amigo tinha atropelado a minha mãe... Ela tinha saído de casa pra me procurar. O hobby dela saiu do corpo com a pancada do carro e ela tava lá caída no asfalto só de camisola, morta... Cê 206


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ainda quer saber por que que eu te pedi pra me levar pra um lugar mais longe?... Ele 1 – Olha (pigarreia), é melhor você ir. Eu tô morrendo de fome, de sono... Ele 2 – Desculpa aí, nem sei por que eu tô te dizendo isso, eu já tô indo... (Após se recompor.) Só tá faltando você conversar com eles. Ele 1 – Conversar o quê, porra? Cê não disse que... Ele 2 – Que era pra ir embora? É, eu disse. Eu e ela. A gente já falou com eles. Só tá faltando você agora. Pura formalidade, não esquenta. Ele 1 – Então eu vou lá. Ele 2 – Espera. Eles disseram que vão vir aqui. Ele 1 – Por mim, tudo bem... Quem devia ter medo aqui era você. Ele 2 – Por quê? Ele 1 – Se soltaram até você. Ele 2 – Que atropelou a própria mãe, tirando racha? Vão te liberar também, né? (Ele 2 começa a rir compulsivamente.) 207


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Ele 2 (após se recompor) – Foi um acidente, cara, eu não tive culpa... Engraçado, mesmo não sendo eu que tava dirigindo o carro naquela noite, pela primeira vez, eu tô conseguindo dizer que eu não tive culpa. Ele 1 – E eu porra? Tenho culpa de quê, hein?... Nunca sequer fiz alguém chorar. Ele 2 – Só uma garota. Ele 1 – A piranha que tava aqui não conta. Ele 2 – Não tô falando dela. Ele 1 – Ah, não? Ele 2 – Não. Ele 1 – Tá falando de quem, então? Ele 2 – Cê deve saber. Ele 1 – Não, não sei. Ele 2 – Ah, não? Ele 1 – Não... Ele 2 – Tô falando da garota que você amarrou numa árvore, se serviu e deixou ela lá a noite inteira, na chuva, lembra? Ele 1 – Não. Ele 2 – Não? Ele 1 – Como é que eu vou lembrar, caralho? Tanta vagabunda passa na minha mão. 208


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Ele 2 – Só que essa tem pai. E ele tá aí fora. (Pausa.) Ele 2 – Bom, foi só pra te avisar, deixa eu ir. Ele 1 – Espera... Só o Joe sabia dessa história, eu só contei pra ele. Ele 2 – Ele te entregou na associação de pais e alunos. Ele 1 – Ele fez isso?... Porra... Ele 2 – É, ele fez sim. Ele 1 – Crioulo filho da puta. Quero ver quem é que vai provar que fui eu. Ele 2 – Que tal a própria garota? Ela tá aí fora também... Cara, cê tem noção do tamanho da merda? Os caras estupraram a coitada que tava aqui porque pensaram que ela era alguma coisa sua. Ele 1 – Ela já tava procurando. Ficou até pelada no bar. Ele 2 – Foda-se. Ele 1 – Ela queria chupar meu pau ontem no meu carro.

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Ele 2 – Pra conseguir ir embora pra casa. Ela só queria voltar pra casa... (Pausa curta. Sem ironia.) Bom, boa sorte aí... Ah – e se o Kevin Spacey, por acaso, abrir a porta do carro pra você lá em Los Angeles... Ele 1 – Vai tirando sarro, vai. Ele 2 – ... vê se trata ele com carinho. (ele 2 sai. Pausa curta.) Ele 1 – Vai tomar no cu. Vai tomar no seu cu... (Pausa. Em seguida, Ele 1 pega a barra de ferro do chão e se posiciona como um rebatedor de baseball.) Ele 1 – Como é que é, seus caipiras? Eu não tenho o dia inteiro, não... (Blecaute.) Fim

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(Quarto. Valdir e Bruno dormem numa cama de casal. Ambos nus, cobertos irregularmente por um lençol. Há roupas e pedaços de papel higiênico amassados pelo chão. Beto entra calmamente. Bruno acorda e encara Beto, sentando-se na cama, apreensivo. Beto senta-se numa cadeira e indica Valdir com um movimento de cabeça. Bruno tenta acordá-lo com o cotovelo.) Valdir – Hum... Hummm... Que que é?... Me dá mais cinco minutos, vai... (Bruno insiste, Valdir o encara.) Preciso de um descanso, pô. Não tenho mais sua idade, não. (Bruno indica Beto com a cabeça. Valdir vê Beto e soluça um riso fraco, meneando a cabeça 211


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num lamento. Em seguida, senta-se na cama, derrotado, cabeça entre as duas pernas flexionadas. Bruno levanta-se, veste-se rapidamente e fica parado longe da cama, cabisbaixo. Pausa longa.) Valdir – Vai ficar aí parado? Beto – Eu posso sair, se você... Valdir – Não é você. (Bruno olha para Beto, que meneia a cabeça negativamente. Pausa curta.) Beto – Ele deve tá esperando. Valdir – Esperando o quê? Beto – Alguma coisa, não dá pra saber... Vai ver, é um táxi? Valdir – Táxi? Beto – Cê não vai chamar um? Valdir – Claro que não... Beto – Pode ser também uma partida decente. Vai ver, é isso que ele tá esperando. Valdir – Eu não vou levar ninguém até a porta. Beto – De videogame, eu tô falando. 212


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Valdir – Quê? Beto – Uma partidinha, cê sabe, tipo “eu sou o Figo, você é o Beckham”. Valdir – Do que cê tá falando? Beto – Playstation. Cê não combinou de jogar com ele? Valdir – Tá louco? Claro que não. Eu nem conheço ele... Beto (para Bruno) – Cê gosta de videogame? Bruno – Eu? Beto – É. Bruno – Às vezes. Beto – Futebol? Bruno – É... Beto – Merda. Valdir – O quê? Beto – E agora? Valdir – E agora o quê? Beto – Eu não sei jogar aquele troço, não sei nem ligar, como é que a gente vai fazer? Valdir – Beto, a gente não tem que fazer nada. Ele que tem que sair... Beto – Você é quem? Bruno – Meu nome? 213


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Beto – Não, eu tô falando do time. Você é quem? Que time? Bruno – Olha, eu preciso ir. Valdir – Já devia tá bem longe. Beto – Não, ainda não. Não antes de um café, pelo menos. Valdir – Que café, Beto? Beto – O garoto acabou de acordar. Valdir – Não tem que oferecer café nenhum, não. Beto (para Bruno) – A casa é minha, quer um café? Bruno – Não precisa... Beto – Não?... Mas e se você tiver que se abaixar pra amarrar o tênis no caminho? A vista pode escurecer, se você tiver de estômago vazio... (Apontando para Valdir.) Ele faz um café pra gente. Valdir – Cê tá de sacanagem? Beto (para Bruno) – Ei? Bruno – Não quero, não. Obrigado... Beto – Eu sou um idiota mesmo. Valdir – Claro que não. Beto – Oferecendo café a um garoto. Parece até 214


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que eu tô lidando com um fornecedor lá no trabalho... Olha, tem Pepsi na geladeira. Bruno – Não precisa. Beto – É lemon... Como é seu nome? Bruno – Bruno. Beto – O meu é Beto. (Segue até Bruno e aperta sua mão.) Prazer. (Afasta-se novamente.) Valdir – Será que dá pra deixar ele ir agora? Beto – Bruno, sei que vai parecer estranho o que eu vou te perguntar, mas cê já comeu? Quer dizer, não que eu vá esperar lá fora, caso a resposta seja negativa – o que eu duvido muito, porque garotos da sua idade fodem que nem coelhos. Valdir (para si) – Deus do céu. Beto (para Valdir) – Eu tô errado? (Volta para Bruno.) E ainda voltam pro bis, é ou não é? O pau nem baixa direito da primeira e já sobe de novo na velocidade de uma saudação japonesa... Eu só queria saber se cê tá com fome, se cê tá precisando de alguma coisa. Eu não gosto que as pessoas saiam da minha casa insatisfeitas. Bruno – Eu tô à pampa... 215


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Beto – Taí. Cê sabe que eu também tô? Pra dizer a verdade, eu nunca tive tão à pampa em toda a minha vida... Bruno – Eu até queria uma coisa, sim. Valdir – Você não quer nada. Eu já disse pra sumir, porra. Beto – É só pedir. Pode pedir o que quiser. Valdir (para Beto) – Que que cê tá querendo, hein, Beto? Onde é que cê tá querendo chegar com isso? Beto – Bruno? Bruno – Se eu pudesse tomar uma ducha... Valdir – Claro que não. Beto – Claro que sim. Até porque se cheque fosse uma coisa agradável, os estabelecimentos comerciais não seriam tão avessos. Valdir – Beto. Beto – Cê já deve saber onde fica o banheiro, né? Toalha na segunda gaveta do armário. Valdir – Beto. Bruno – Dá licença... (Bruno sai. Beto o acompanha com um olhar orgulhoso, sem malícia.) 216


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Beto – Ah, o xampu antiqueda é dele, viu?... Será que ele me ouviu? (Pausa curta. Valdir encara Beto, pasmo.) Valdir – Que que tá acontecendo aqui? Beto – Por que que a gente não fala do que aconteceu? Eu adoro o History Chanel, cê sabe. Valdir – Beto, a gente nem conhece esse moleque. Beto – O nome dele é Bruno, cê não ouviu? Valdir – E daí? E se ele for um marginal, um viciado? Beto – Eu só não arrisco que ele estudou no Rio Branco porque, pela idade, corre o risco dele tá matriculado lá ainda... Educado, né? Tem cara de quem usa suéter no ombro quando o tempo vira... Valdir (para si) – Como foi que esse moleque entrou aqui, meu Deus?... Beto – Cê tá falando sério? Valdir – Beto, a chaminé. Beto – Quê? 217


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Valdir – A chaminé. Beto – Valdir, como é que alguém pode ter tara por garotinhos vestidos de Papai Noel? Valdir – Só pode ter sido, Beto, pensa. Beto – A gente tá longe do Natal. Ainda é outono, esqueceu? Tipo preto e cinza em alta, folhas secas na calçada, anúncio de antigripal na tevê. Valdir – Outro dia eu vi uma entrevista com um especialista em segurança. Ele disse que a chaminé é um dos pontos mais vulneráveis de uma casa. Beto – Ele não me pareceu ter passado numa carvoaria antes de vir pra cá. Valdir – Tudo rato, Beto. Tudo profissional. Entram sem fazer barulho, parece até que andam de meias. Beto – Também nem sinal de arrombamento. Valdir – Não tô dizendo? Beto – Daqui a pouco cê vai querer me convencer de que quem tá tomando banho no nosso banheiro é o irmão caçula do David Blaine. Valdir – Quem? 218


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Beto – E eu nem sequer aprendi a usar a porra da câmera do meu celular... Valdir – Eu posso te ensinar, se cê quiser. Beto – Um truque? Ele te ensinou algum? Tipo atravessar parede ou coisa assim? Valdir – Não, tô falando do celular. O seu é igual ao meu. Beto – Claro, fui eu que comprei. E eu não tenho tempo pra isso, eu trabalho. (Pausa curta.) Valdir – Eu te deixei no aeroporto ontem à noite. Beto – Traduzindo – “Que porra que cê tá fazendo aqui?”... Valdir – Eu só não esperava. Beto – É, eu percebi... Valdir – Cê disse que só vinha depois de amanhã. Beto – Mudei de ideia... Valdir – Foi tudo bem lá? Beto – No enterro da minha mãe? (Irônico.) Ah, claro. Nunca me diverti tanto. Contra219


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taram até um dj gringo... Mas o mais importante é que ninguém vomitou no tapete. Pelo menos isso. Valdir – Não dá pra gente ter uma conversa adulta, não? Beto (apontando para o banheiro) – Só depois que as crianças dormirem... Será que cê é tão idiota a ponto de não perceber que eu não embarquei? Valdir – Cê prometeu que não ia mais me chamar de burro na frente dos outros. Beto – Por quê? Tem outro garoto aqui? Valdir, cê tá transformando a minha casa no quê? Numa espécie de versão de bolso do Rancho de Neverland? Valdir – Não tem mais ninguém aqui, Beto. Eu só tô te lembrando o que você me prometeu, só isso. Beto – Você falando em promessas... E a gente não combinou nada sobre sinônimos. Eu perguntei se cê era idiota, não afirmei... Só me responde uma coisa – você realmente deu...

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Valdir – Para, porra. Dá um tempo com essa merda. Não aconteceu nada aqui, tá legal? Beto – Comida pro Summer, eu ia dizer. Se você deu a ração dele... Valdir – É, isso eu dei, sim. Beto – Misturou 70% infantil com 30% adulto? Valdir – Beto, ele deve ter colocado alguma coisa na minha bebida. Beto – O cachorro? Valdir – Eu tô falando desse aí, cê sabe, esse que cê deixou usar nosso banheiro... Beto – Cês saíram pra beber, então? Valdir – Claro que não. Beto – Sei lá, cê sempre usa o verbo sair antes dos que indicam diversão, tipo sair pra beber, sair pra dançar... Beberam aqui, então, ok. Tomaram uísque ou ele propôs alguma coisa mais juvenil? Tipo vinho no gargalo. Adoçado, claro, que é pra acelerar o porre. Valdir – Eu não bebi com ele, Beto. Beto – Cê acabou de falar em bebida. Valdir – Foi só uma suposição. Eu não lembro direito. Eu tô meio zonzo ainda... Pode até 221


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não ter sido bebida. E se ele me atacou com um lenço encharcado de benzina? Beto – Aonde? Valdir – No aeroporto. Ontem. Depois que eu te deixei. Beto – E como foi que ele te arrastou até aqui? Valdir – Como eu vou saber, Beto? Eu tava desmaiado. Beto – Valdir, se você desabasse, não seria caso de dar a mão, não, seria preciso te içar. Valdir – Desisto. Não dá pra falar sério com você. Beto – Quanto tempo faz que cê não joga tênis? Hein? Um set inteiro. (Pausa.) Valdir – Ontem, depois que eu te deixei no aeroporto, ele tava lá no estacionamento, encostado no meu carro... Ele me pediu uma carona. Beto – E você?

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Valdir – Não vi problema nenhum, pô. Uma carona. Beto – Claro, em nome dos tempos em que cê ia visitar sua família e recolhia milicos indefesos com o polegar estendido na beira da estrada. Valdir – Beto, eu tô dizendo a verdade. Beto – Ok, cê encontrou ele no banheiro, e daí? Valdir – Eu não disse banheiro. Eu disse estacionamento. Beto – Sei lá, cê conhece todos os banheiros da cidade onde a segurança faz vista grossa. Valdir – Você não acredita em mim, né?... Beto – Por que que cê não põe uma roupa? O que acha de, excepcionalmente hoje, levantar (olha no relógio de pulso) cinco minutos antes do meio-dia? Pelo menos num dia da sua vida... (Valdir não se move.) Minha ideia é tão ruim assim? Valdir – Não, é que eu não posso. Beto – Por quê não? Valdir – E se ele sair do banheiro? Beto – Que que tem? 223


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Valdir – Vai me pegar nu aqui? (Beto ri.) Beto, tem um estranho no nosso banheiro. Se você não chega a tempo, sei lá o que podia ter me acontecido. Ele podia até ter... Beto – Te aleijado? Com uma cadeirada na cabeça? Como aquele michê argentino fez com o André? Valdir – Quem garante que não? Beto (entregando calça a Valdir, irônico) – Toma sua calça, vai. Coloca ela por debaixo do lençol, assim cê não corre risco de assédio. (Valdir se veste sob o lençol. Bruno entra, tenso, com o cabelo molhado.) Beto (com um sorriso) – Renovado?... Mas que calça é essa? Bruno – É minha. Eu já tava com ela, juro. Beto – Eu sei que é sua. Mas é que tá um sol tão lindo lá fora. Já sei, vou te emprestar um short. (Valdir encara Beto, atônito.) 224


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Bruno – Não, não precisa. Beto – Assim você me ofende. Bruno – Não, eu não tô pensando que seja curto nem justo demais. Beto – Sei... Olha, essa bermuda é da Mormmai. Toma, acho que dá em você. (Entrega bermuda a Bruno, que não a veste.)... Não vai experimentar, não?... Bruno – É que aconteceu um troço chato. Beto – Que que foi?... Bruno – É que eu... Beto – Pode falar... Bruno – Eu fiz cocô e a merda não tá descendo... Beto (para Valdir) – Ele fez cocô... Que bonitinho... Bruno – Eu já puxei a descarga três vezes, mas não tá adiantando. Beto – Relaxa. Tem que esperar um pouco pra pegar pressão de novo. Bruno – Desculpa aí. Beto – Não precisa se desculpar, isso acontece... Bom, enquanto cê espera, fica aí, pô... Valdir – Seu merda... 225


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(Valdir avança em direção a Bruno, que larga a bermuda e se esconde atrás de Beto.) Beto – Ei, ei, ei... Valdir – Sai da minha frente, Beto. Sai da minha frente. Beto – Nada disso. Valdir – Sai, Beto. Beto – E se eu não sair? Hein? O que que acontece? Valdir – Eu tô falando, Beto. Beto – Cê vai me bater? Experimenta. Valdir – O negócio é entre “eu e ele”. Beto – É entre mim e ele que se fala, estúpido. Quando é que cê vai aprender a falar direito, hein?... Sabe, Bruno, uma vez, eu dei a Coleção Vagalume inteira pra ele de presente. Todos os livros da minha época de escola. Sabe o que ele fez? Levou um ano pra ler Açúcar Amargo. Um ano, cê acredita? Bruno – Eu li em dois dias. Valdir – Pois é, e ele ainda disse que não tinha entendido picas.

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(Valdir dá um soco na cara de Beto, que cai. E não bate em Bruno, apenas se afasta. Pausa.) Valdir – Eu entendi o livro, sim. Minha mãe cortou muita cana pra me sustentar, se você quer saber... Beto – Esta casa é minha. Valdir – É, eu sei... Por que que cê não me manda embora, então, hein? Por que que cê nunca me mandou embora. Nem da primeira vez?... (Beto levanta-se. Pausa longa.) Beto – Cê tinha prometido que não ia acontecer de novo... Valdir – É, eu prometi, sim. Beto – Você jurou... Não que eu acredite na sua palavra, não é isso... Mas você jurou por essa santa aí do calendário que cê carrega na carteira. E eu sei o que esse tipo de coisa significa pra gente que foi criada como você.

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Valdir – Criada na merda, cê quer dizer?... É, mas aconteceu, Beto... E quer saber? Foda-se... (Pausa curta.) Beto – E se fosse eu? Hein? E se fosse eu que tivesse colocado alguém pra manter aquecido o seu lado da cama? Valdir – A vida é sua... Beto – Então eu posso? Valdir – Eu disse que a vida é sua... Beto – Você não ia se importar? Valdir – Queria o quê? Ciúme? Beto – Não só isso... Ciúme é o menos paralisante. Eu tô falando depois disso. Eu tô falando de enrolar pra levantar da cama, é disso que eu tô falando. De pular no mínimo três das quatro refeições diárias... Eu tô falando de precisar de alguém pra te dizer que tá na hora de acender a luz enquanto você segura um livro aberto na mesma página desde quando ainda era dia.

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(Pausa.) Valdir – Cê podia fazer um café pra gente... Beto – O quê? Valdir – Pra nós três, que que cê acha? Já que cê insistiu tanto pro moleque ficar... Beto – Ele pode ficar? Valdir – A casa é sua, cê não disse?... Beto – Você ia ficar? Quer dizer, se ele ficasse. Valdir – Por mim... Cê pode até trepar com ele, se quiser... Beto – Eu posso? Valdir – Quer que eu saia, pra vocês ficarem mais à vontade? Beto – Não... Eu quero que cê fique... Cê fica? Valdir – Posso ver tevê?... Beto – Não prefere um livro? Valdir – Se não for literatura russa... Beto – Mas se você quiser ficar olhando, por mim, tudo bem? Valdir – Por mim, também... Beto – Cê ia se masturbar? Valdir – Se eu ficasse de rola dura... 229


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Beto – Cê pensaria em mim ou nele? Valdir – Eu não ia precisar pensar, Beto, eu estaria vendo... Beto – Mas você ia olhar pra quem? Valdir – Pros dois. Beto – Mais, eu tô falando. Pra quem cê ia olhar mais?... Não precisa responder, não... (Beto vai se aproximando de Bruno, que meneia a cabeça negativamente, levemente aflito. Até que Valdir para entre os dois. Os três ficam parados por um tempo, quase se encostando. Pausa curta.) Beto – Que que foi?... Cê quer também? Valdir (cabisbaixo) – Eu não vou aguentar... Beto – O quê? Valdir – Ver você com ele. Eu não vou aguentar... Beto – É só esperar lá fora, a gente não demora. Valdir – Não, nada feito. Eu não vou deixar. Beto – Tá com ciúme dele?... Valdir (encarando Beto) – Como é que cê 230


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pode pensar uma coisa dessas, hein? Ainda mais depois de todos esses anos... Beto – Eu prefiro gema mole ou dura? Valdir – Quê? Beto – Do ovo, anda, responde... Valdir – Que que isso agora? Beto – Responde, Valdir. É importante pra mim... Valdir – Você só come a clara. (Pausa curta. Beto vira-se, fazendo menção de se afastar mas, em seguida, volta-se contra Bruno e começa a estapeá-lo por cima dos ombros de Valdir.) Beto – Filho de uma puta... Filho da puta... Valdir (segurando-o e o afastando) – Beto... Beto... Calma, Beto... Beto (respirando fundo) – Tá tudo bem, tá tudo bem. Valdir – Que foi que te deu, pô? Beto – Nada. Tá tudo bem. Valdir – Como nada? Beto – Não foi nada, porra. Tá tudo bem... 231


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Bruno – Acho melhor eu ir andando. Beto – Já devia ter ido. Tá vendo só o que que cê fez?... Vai ficar aí parado? Anda, tá esperando o quê? Bruno – O meu pagamento... Valdir – Que pagamento, moleque? Ninguém vai te pagar nada aqui, não. Cai fora. Bruno – Você não precisa. E não vai pensando que é uma exceção porque eu fui com a sua cara, não, pelo contrário, você tem uma hemorróida que parece o bico de um chuchu, o seu hálito parece um bueiro e o seu suor é azedo e parece uma cola. Valdir – Então cai fora, porra. Some daqui, antes que eu... Beto, tá tudo bem mesmo? Respira fundo... Bruno – Eu não vou sair sem o meu dinheiro. (Valdir segue em direção a Bruno.) Valdir – Que dinheiro, moleque? Do que que cê tá falando? Ninguém te deve nada aqui, não.

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Bruno – Os outros 50%. Pela segunda parte do plano. Valdir – Que plano? Cê tá louco? Bruno – Pergunta pra ele. Valdir – Que que esse moleque tá falando, Beto?... Beto – É, ele tem razão. Valdir – Mas eu não combinei nada com ele, tô te falando, eu juro. Beto – Mas eu sim... Valdir – Quê? Beto – É, eu já conhecia ele... Valdir – Cês se conheciam?... De onde?... Beto – De um chat. Na Internet. Valdir – Quando? Beto – Há pouco tempo... Valdir – Cês treparam? Beto – Claro que não. Valdir – Ainda tão trepando, é isso? Beto – A gente não teve nada. Cê tá pensando que eu sou o que, Valdir? Ele é só um garoto... Valdir – Que pagamento é esse que ele tá esperando? 233


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Beto – De um trato que a gente fez. Valdir – Que trato?... Fala logo, porra. Beto – Eu contratei ele pra te seduzir, pronto, foi isso... Valdir – Como assim? Beto – Não foi por acaso que ele te pediu carona lá no aeroporto ontem. Tava tudo combinado... Valdir – Por que que cê fez isso, Beto? Pra quê?... Beto – Pra ver se você me amava mesmo. (Para si.) Não acredito que eu disse uma asneira dessas... Valdir – Porra, mas que merda... Que merda... Beto, a gente sempre foi parceiro. Eu sempre tive do seu lado. Beto – Eu não preciso de um cão-guia, Valdir... Valdir – Mas... Porra, Beto... (Pausa longa.) Beto – Cê já reparou nas mulheres dos chefes de Estado? 234


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Valdir – Ahn? Beto – Já reparou em como elas são tristes?... Valdir – Todo mundo é triste. É o estado natural das pessoas. É só olhar a cara delas nos trens de manhã cedo. Beto – Não é desse tipo de tristeza que eu tô falando... Eu sempre reparo nelas, nos telejornais. Apesar de elas sorrirem enquanto seus maridos discursam, não dá pra disfarçar uma tristeza já ressecada por anos de resignação... A subserviência é mesmo muito comovente... Eles podem até ter lá seus casinhos, fazerem sexo com outras mulheres, e geralmente o fazem com as mais vulgares, sabe por quê? Porque sexo é sujeira, é submundo. Sexo é comida azeda na pia... Mas não é a infidelidade a razão da tristeza delas, não. O problema é inerente... Elas já envelheceram, esse é o problema... E agora sabe como elas são tratadas? Como parceiras... Sabe o que eu queria, Valdir?... Eu queria que você me olhasse com a vontade de um cão preso na coleira. (Encara Valdir por alguns instantes. Após risinho nervoso.) 235


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Mas já é tarde, né? Eu não tenho mais a idade (aponta para Bruno) dele. Valdir – Beto... Beto – O que será que passa na cabeça de uma atriz que sempre foi jovem e desejada quando ela desliga o telefone depois de ser escalada pra fazer o papel de mãe?... Cê pensa que é fácil pra mim, Valdir, ter que encarar o fato de você gostar de garotinhos?... Valdir – Não fui eu quem armei tudo isso, não vem, não. Beto – Não fui eu quem armou tudo isso. (Bruno solta um risinho, mas logo retoma a seriedade. Pausa curta.) Beto – Bruno... Bruno – Desculpa aí, foi mal. Beto – ... cê sabia que da outra vez foi só o tempo de eu levar o Summer pra passear?... Valdir – Beto, cê não vai falar disso agora, vai? Não tem nada a ver. Beto – Naquela noite, eu lembro que o Summer não tava a fim de dar a volta comple236


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ta no quarteirão, como ele costuma fazer. Quando chegou na esquina ele empacou e começou a me puxar de volta. Valdir – Beto, porra... Beto – E já que ele tinha feito as necessidades dele – que é a razão da saída com o cachorro, e eu também tava exausto –, acabei voltando pra casa... Cheguei aqui e vi que o videogame tava ligado, só que com a imagem congelada em Brasil e Argentina, a bola no pé dos argentinos... Entrei na cozinha pra tomar um copo d’água e... vi esse canalha aí chupando o pintinho do meu sobrinho de nove anos. Valdir – Beto... Beto – Não combinamos nada sobre sinônimos, esqueceu? Valdir – E desde quando canalha é sinônimo de idiota? Beto – Tem sempre a hora em que os canalhas são descobertos, não tem?... Chupando o pintinho do meu sobrinho de nove anos que hoje mora no Canadá e, segundo o e-mail que minha irmã me mandou ontem, tem 237


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sofrido de deficiência de aprendizagem ou alguma coisa assim... (Para Valdir.) Sabe qual é a diferença entre um idiota canalha e um idiota pura e simplesmente? É que o último ainda tem lá o seu encanto, seu charme... Quando a gente se conheceu, Bruno, há 16 anos, ele era incapaz de controlar a intensidade da luz do quarto pelo dimer, sabia? (Rindo.) Ele não sabia o que é dimer... Valdir – Pra mim, uma luz só podia ser acesa ou apagada. Beto – Eu achava isso bonito nele. (Rindo.) Vai ver nem me apaixonei por ele, olha só, e sim pelo fato de ele não saber que existia a porra do dimer... Ele também dizia que ia fazer cocô, como você, ah – e passear, disso eu lembro bem. Ele dizia passear em vez de dar uma volta ou coisa assim... É, os gays caipiras são muito mais sedutores... Não frequentam academias de ginástica e nunca ouviram falar em Lancôme, vai ver que é isso... (Pausa.)

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Valdir – Foi você que me empurrou pro seu sobrinho... Beto – Quê? Valdir – Cê não tocou no assunto? Tô te dizendo, já que a gente nunca mais falou sobre isso... Pensa que eu não entendi o recado, não? Me deixou aceso no quarto e saiu pra andar com o cachorro. Beto – Escuta aqui, isso não te dava o direito. Valdir – Ah, é? Então por que que não levou o moleque com você? Hein? Beto – Tava frio. Ele tava jogando videogame. Valdir – Só faltou deixar um bilhete escrito “divirta-se” pregado com um imã de geladeira no traseiro do moleque. Beto – Essa é a leitura que a sua cabeça podre de pedófilo fez. Valdir – Qual é, Beto? O moleque já era viadinho. Me chamava pra jogar videogame só pra ficar sentindo com a perna dele os pelos da minha perna. Só você que não via... Precisava ver as coisas que ele me falava. O putinho era capaz de deixar qualquer atendente de telessexo sem graça... Ele queria 239


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ser minha mulherzinha também, que nem o tio dele, e só você que não via. Beto – Você é um doente. Valdir – Será que sou eu mesmo, Beto?... Daí não passa nem um mês e quem oferece dinheiro pra outro viadinho me seduzir? Hein?... Tudo bem, eu é que sou o doente aqui, tá legal... (Próximo ao rosto de Beto.) Escuta aqui, vai se tratar, tá legal. (Pausa.) Beto – Acho que quem precisa de tratamento aqui é você, Valdir. Valdir – Ah, eu? Tá bom. Beto – É, você. Valdir – Tem certeza? Beto – Tenho, sim. Valdir – Tá legal. Não vou mais discutir isso com você. Beto (para Bruno) – Fala pra ele, Bruno. Ele não precisa de tratamento?... Abre essa boca, porra, e fala se não é ele que precisa

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de tratamento aqui. Como você também precisa... Bruno – É que depende... (Beto folheia calmamente uma revista que estava próxima a ele.) Beto – Continua. Bruno – Só vai dar pra saber depois de fazer o teste daqui um tempo... Valdir (para Bruno) – Quê?... Olha, lamento te desapontar, mas viado ainda não engravida, não, viu... (Rindo.) Tá achando que vai ter um bebê, é, viadinho? Vai me obrigar a fazer teste de dna? Então aproveita e vê se guarda o pentelho meu que cê ainda deve ter aí na boca pra levar no laboratório... Vê se não delira, cês dois, porra... Beto (sem desviar da revista) – Sabe como eu conheci o Bruno? Valdir – Não sei e nem me interessa... Provavelmente numa dessas salas de bate-papo onde ninguém admite que é calvo e tem lábios leporinos. 241


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Beto – Exatamente. Eu fui buscar ele num chat, sim. Mas num chat exclusivo de soropositivos... Valdir – Como é que é?... Cê tá me dizendo que...? Beto – Pois é, Valdir, ele tem hiv... Espero que cê tenha usado preservativo. Ah, esqueci – cê disse que nem conhece ele, né? Então tá tudo certo... (Valdir encara Bruno. Pausa.) Beto – Gente, cês já viram o tamanho da “mala” desse Sarkozy, o presidente da França?... Essa Carla Bruni de boba não tem nada, viu... (Pausa curta.) Valdir (para Bruno) – Isso é verdade?... Isso que ele tá dizendo é verdade?... Bruno – Acho que eu vou aceitar um café. Beto – Ótima ideia, Bruno. Mandou bem...

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Valdir – Eu perguntei se é verdade isso que ele tá dizendo? Beto (para Bruno.) – Cê faz, Bruno? Tem a medida certa marcada no copo da cafeteira... Valdir – Cê não vai responder, não?... Bruno – Três ou dois? (Para Valdir.) Cê também vai querer?... Beto – Valdir, o garoto te fez uma pergunta... Ah, esquece ele, Bruno. Ah – o meu é com adoçante, viu... (Valdir segura e aperta o pescoço de Bruno.) Valdir – Cê não tá me ouvindo, não, viadinho? Hein? Eu quero saber se essa merda é verdade... Fala, porra... Beto (olhando a revista) – Acho que o Valdir não vai querer não, viu, Bruno. Só nós dois mesmo... (Desvia da revista.) Valdir, solta o garoto... Valdir, solta o garoto... Vai machucar ele, porra... Valdir, vai matar o garoto, deixa ele fazer café pra gente...

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(Ap贸s alguns instantes, Valdir solta Bruno, que sai de cena num pinote. Beto volta para a revista. At么nito, Valdir senta-se na cama. Luz cai em resist锚ncia.) Fim

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Coleção Primeiras Obras 1. Otávio Martins 2. Gabriela Mellão 3. Ivam Cabral 4. Sérgio Roveri 5. Vera de Sá 6. Sergio Mello 7. Rudifran Pompeu 8. Marcos Damaceno 9. Lucianno Maza 10. Dramamix 2007


© Sergio Mello, 2009 Crédito de fotografia: Edson Kumasaka Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (Biblioteca da Imprensa Oficial) Mello, Sergio Temporada de caça; Aos ossos que tanto doem no inverno; Ladeira em carrinhos de supermercado; Explicando a morte para crianças de 6 anos; Summer / Sergio Mello [Organização de Ivam Cabral]. – São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 252 p. – (Coleção Primeiras Obras, 6) isbn 978-85-7060-802-4 Apoio: Grupo Satyros Literatura Associação dos Artistas Amigos da Praça 1. Teatro – Brasil 2. Literatura – Teatro 3. Textos literários i. Mello, Sergio ii. Título iii. Série. cdd 808.2 Índice para catálogo sistemático: 1. Textos literários   808.2

Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (lei n. 10.994, de 14.12.2004) Proibida a reprodução total ou parcial sem a autorização prévia dos editores Direitos reservados e protegidos (lei n. 9.610, de 19.02.1998) Impresso no Brasil 2010 Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Rua da Mooca 1.921 Mooca 03103-902  São Paulo  sp  Brasil sac 0800 0123 401 sac@imprensaoficial.com.br livros@imprensaoficial.com.br www.imprensaoficial.com.br


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