Catálogo da exposição Intraduzível, 2018

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duuuzzzííívvveeelll iiinnntttrrraaadd

Silvana Macêdo, Henna Asikainen, Frederico Macêdo e Reza Tavakol


Equipe técnica da Exposição Intraduzível

Equipe técnica do Museu da Imagem e do Som de Santa

Artistas: Silvana Macêdo, Henna Asikainen, Frederico Macêdo e Reza

Catarina- MIS/SC

Tavakol

Administradora: Ana Lígia Becker

Curadora: Juliana Crispe Produção Executiva: Francine Goudel - Lugar Específico Ação Educativa: Silvana Macêdo

Analista Técnico Administrativo: Rafael Pedroso Dias Técnico em Atividade Cultural: Rodrigo Hoffmann Herd Digitadora: Gláucia Cristina da Cruz

Montagem: Flávio Brunetto

Estagiária: Erika Silva

Fotografia: Endrigo Righeto

Estagiária: Marina Rieck Borck

Designer: Alecxandro Nascimento

Estagiário: Rogério Victor Neves

Assessoria de imprensa: Néri Pedroso

Realização

Agradecimentos Agradecimentos especiais pelo apoio do Estado de Santa Catarina, da Fundação Catarinense de Cultura, do FUNCULTURAL e do Edital Elisabete

Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina – MIS/SC Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais- PPGAV/UDESC

Anderle; do MIS - Museu da Imagem e do Som; do PPGAV -Programa de

Centro de Artes- CEART/UDESC

Pós-Graduação em Artes Visuais, Centro de Artes, Universidade do Estado

Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC

de Santa Catarina; do Arts Council England; e do Lugar Específico. Ana Maio, Henna Asikainen, Frederico Macedo, Reza Tavakol, Juliana Crispe, Francine Goudel, Flávio Brunetto, Endrigo Righeto, Alecxandro Nascimento,

Produção Lugar Específico

Néri Pedroso, Ana Lígia Becker, Rafael Pedroso Dias, Ocrécio M. de Macedo

Apoio

Júnior, Mara Rúbia Faria, Richard Lamb, Carlos Eduardo Macedo Lamb.

Arts Council England

Macêdo, Silvana... Intraduzível / Silvana Macêdo. --Florianópolis, 2018. 8 4 f. Exposição Intraduzível, 2018. 1. . I. , . II. Título.


duuuzzzííívvveeelll iiinnntttrrraaadd



Exposição Intraduzível

Untranslatable

in·tra·du·zí·vel

Untranslatable

(in- + traduzível)

(of a word, phrase, or text) not able to have its sense expressed in another language.

adjetivo de dois gêneros Que não pode ser traduzido. De difícil interpretação. Indizível. A exposição Intraduzível da artista visual Sil-

The exhibition Untranslatable by visual ar-

vana Macêdo e dos colaboradores Henna

tist Silvana Macêdo and collaborators Henna

Asikainen (artista finlandesa), Frederico Ma-

Asikainen (Finnish artist), Frederico Macêdo

cêdo (compositor) e Reza Tavakol (astrofísi-

(composer) and Reza Tavakol (Iranian astro-

co iraniano), investiga uma complexa relação

physicist), investigates a complex relationship

tecida entre arte, ciência e natureza. Um dos

interwoven between art, science and nature.

elementos centrais destes trabalhos colabo-

One of the central elements of these colla-

rativos é a noção de tradução ou do intra-

borative works is the notion of translation or

duzível, como dispositivo que aciona práti-

the untranslatable, as a device that triggers

cas conscientes do processo tradutório, ou

practices which are conscious of the transla-

mais precisamente, da transformação que ela

tion process, or more accurately, of the trans-

acarreta. Assim as obras podem ser enten-

formation that it entails. Thus the artworks

didas como processos tradutórios em que a

can be understood as translation processes

ar - Amazon 2001-3 Vídeo instalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo

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representação da natureza pela ciência e arte

in which nature is conceived as an untransla-

imbrica na tentativa da tradução da natureza

table “original”.

concebida como um “original” intraduzível.

The post-structuralist philosopher Jacques

O filósofo pós-estruturalista Jacques Derrida1

Derrida does not designate translation me-

não designa a tradução apenas como o ato

rely as the act of transferring meaning from

de transferência de conteúdo de uma língua

of language to another, nor even transfers of

para uma outra, nem tão pouco transferên-

meaning within the same language. For the

cias internas de significado em uma mesma

author translation dialogues with the logic

língua. Para o autor a tradução dialoga com

of transportation, transference, transposition

a lógica do transporte, da transferência, da

and is extensive to all production of know-

transposição e é extensiva a toda produção

ledge. Translation is constituted by passage

de conhecimento. A tradução se constitui por

to discourse, which is the element we find in

passagem ao discurso, que é o elemento que

possible crossings that contemporary art can

nos encontramos, nos atravessamentos pos-

bring us.

síveis que a contemporaneidade nos é capaz

Thus, allowing oneself to enter the Untrans-

de trazer.

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latable exhibition is to allow oneself to follow

Assim, permitir-se entrar na exposição Intra-

paths that can not easily be assimilated or

duzível é permitir-se percorrer caminhos que

translated into any other system of thought

Conceito de tradução desenvolvido por Jacques Derrida

(1930-2004, filósofo franco-argelino), presente em L’oreille de l’autre

(otobiographies, transferts, traductions). Montreal: Vlb, 1982.

ar - Amazon 2001-3 Vídeo instalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo

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não facilmente podem ser assimilados ou tra-

other than the possible displacements that

duzidos em nenhum outro sistema de pensa-

art is capable of creating, thought that holds

mento que não seja os possíveis deslocamen-

itself as something necessary for the present

tos que a arte é capaz de causar, pensamento

time, that resists the descriptive appropria-

que se sustenta como algo necessário para

tion and application that requests translation,

época presente, que resiste à apropriação

allowing other derivations, other unfolding of

descritiva e aplicativa que solicita a tradução,

what is already given, in order to create other

permitindo outras derivas, outros desdobra-

possible fictions of the real.

mentos do que já é posto, para assim criar as

The artworks proposed in this exhibition in-

ficções possíveis do real.

vestigate this displacement through artistic

As obras propostas nessa exposição investi-

and scientific languages by attempting to

gam esse deslocamento através da lingua-

translate nature, which is conceived as an un-

gem artística e científica pela tradução da

translatable concept.

natureza, que é concebida como um conceito

The three video installations air, moon, and

Intraduzível.

cooperari, are closely intertwined with the

As três vídeo instalações ar, lua, e cooperari,

“translation” work carried by scientists and

estão intimamente interligadas ao trabalho

artists.

“tradutório” de cientistas e artistas.

air is a project that was carried out through

ar é um projeto que foi realizado a partir de

two artistic residences in 2001, in the Koli Na-

duas residências artísticas em 2001, no Par-

tional Park, and in the Adolpho Ducke Forest

ar - Amazon 2001-3 Vídeo instalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo

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ar – amostra de ar coletada na floresta Amazônica 2001-3 Instalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo



que Nacional de Koli, e na Reserva Florestal

Reserve, a research station of INPA - National

Adolpho Ducke, uma estação de pesquisa

Institute of Amazonian Researches, in dialo-

do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas

gue with the work of researchers of climate

Amazônicas, em diálogo com o trabalho de

change in the northern and southern hemis-

pesquisadores de mudança climática nos he-

pheres. The work carried out during these ar-

misférios norte e sul. O trabalho realizado du-

tistic residences is reflected in the installation

rante estas residências artísticas está refletido

air and fieldwork.

na instalação ar e trabalho de campo.

The moon project originated from the en-

Já o projeto lua originou do encontro com o

counter with the cosmologist Reza Tavakol in

cosmólogo Reza Tavakol em 2004. As pesqui-

2004. Tavakol’s research covers a broad spec-

sas de Tavakol cobrem um amplo espectro,

trum from astrophysics to nonlinear dyna-

da astrofísica à dinâmica não-linear, mas seu

mics, but his interest in the aesthetic aspects

interesse nos aspectos estéticos da ciência é

of science is that they have found resonance

que encontraram ressonância no trabalho das

in the work of the two collaborating artists

duas artistas colaboradoras. lua reflete sobre

asikainen&macêdo. moon reflects on the

as contraditórias maneiras como a humani-

contradictory ways mankind relates to natu-

dade se relaciona com a natureza. A impac-

re. The striking presence of the sequence of

tante presença da sequência de imagens do

images of the lunar cycle creates an atmos-

ciclo lunar cria uma atmosfera propícia para

phere conducive to aesthetic contemplation,

a contemplação estética, evocando a possi-

evoking the possibility of a of gazing with en-

bilidade de um olhar pleno de encantamento

chantment this extraordinary celestial body

ar – amostra de ar coletada na floresta Amazônica 2001-3 Instalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo

lua 2005 Vídeo instalação Henna Asikainen, Silvana Macêdo e Reza Tavakol

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com esse extraordinário corpo celestial tão

so close to humanity, among so many other

próximo da humanidade, entre tantos outros

stars present in the vast outer space. This

astros presentes no vasto espaço sideral. Esta

emotional relationship with nature contrasts

relação afetiva com a natureza, contrasta com

with the dramatic environmental problems

os dramáticos problemas ambientais provo-

caused by human action in industrial socie-

cados pela ação humana em sociedades in-

ties, which has been polluting and destroying

dustriais, que vem poluindo e destruindo de

the planet Earth in a frightening way.

forma assustadora o planeta Terra.

While the central issues associated with air

Enquanto as questões centrais associadas às

and moon installations reflect on the human

instalações ar e lua refletem sobre o impacto

impact on the environment, the video ins-

humano no meio ambiente, a vídeo instala-

tallation cooperari engages with the (dialec-

ção cooperari evidencia a dinâmica (dialética)

tical) dynamics between culture and nature

entre a cultura e a natureza em outros níveis.

on other levels. Built in collaboration with the

Construído em colaboração com o compo-

musician and composer Frederico Macedo,

sitor Frederico Macedo, este trabalho foca

this work focuses on social insects as the cen-

em insetos sociais como elemento central do

tral element of the work. Here the relations of

trabalho. Aqui as relações de cooperação e

cooperation and symbiosis present in animal

simbiose presentes no comportamento ani-

behaviour are highlighted, pointing to the in-

mal são evidenciadas, apontando para a intri-

tricate network of communication between

cada rede de comunicação entre minúsculos

tiny animals, which involves their reproduc-

animais, que envolve seus processos repro-

tive processes.

ar – vídeo da floresta de Koli, Finlândia 2001-3 Instalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo

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dutivos.

The presence of invertebrates in the work entitled secret, 1998, can only be perceived

A presença dos invertebrados no trabalho in-

through a convex lens, which reveals the mi-

titulado segredo, de 1998, somente pode ser

niaturized space of a room containing several

percebida através de uma lente convexa, que

specimens. The closer you look, the less you

revela o espaço miniaturizado de uma sala

can accurately see the objects in the inac-

contendo diversos espécimens. Quanto mais

cessible collection. Another installation from

se aproxima o olhar, menos é possível de se

the same period, 1997-8, lab, refers to the

ver com precisão os objetos da inacessível

interrelations between art and scientific ob-

coleção. Outra instalação mesmo período,

servation. Through an entomological micros-

1997-8, lab, refere-se às interrelações entre a

cope, a wasp crossed by a pin can be seen

arte e a observação científica. Através de uma

magnified. Contrasting with it, a slow series

lupa entomológica, uma vespa atravessada por um alfinete pode ser vista de forma mag-

of images of flower petals unfold in time. The

nificada. Contraposta a ela, uma lenta série

observation spaces, the art gallery and the

de imagens de pétalas de flor se desdobram

laboratory intersect, in mutual estrangement.

no tempo. Os espaços de observação, a ga-

In the Untranslatable exhibition we can noti-

leria de arte e o laboratório se interceptam,

ce the presence of disturbing elements and

entrecruzam, num mútuo estranhamento.

the re-appropriation/subversion of meanings

Na exposição Intraduzível percebe-se a pre-

that is part of every translation. In the works

sença de elementos perturbadores e da rea-

presented what we have is the disturban-

propriação de sentidos que faz parte de toda

ce of naming, the sliding of senses, which

cooperari 2007 Vídeo instalação sonora Silvana Macêdo e Frederico Macêdo

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tradução. Nos trabalhos apresentados o que

destabilize classificatory and didactic dis-

temos é a perturbação da nomeação, o desli-

courses built around nature, by science. The

zamento de sentidos, que desestabilizam dis-

artists’ inquisitive gaze at these mysterious

cursos classificatórios e didáticos construídos

untranslatable elements is not meant to im-

em torno da natureza, pela ciência. O olhar

pose stable meanings on their reading, but

inquisitivo das artistas diante desses miste-

rather frictions between borders, blurring the

riosos elementos intraduzíveis, não pretende

edges, making them fluid and penetrable to

impor significados estáveis em sua leitura,

one another. Their translations instigate new

mas sim fricções entre fronteiras, borrando

ways of seeing, senses and sensations, which

as bordas, tornando-as fluídas e penetráveis

are possible to be experienced by the obser-

uma a outra. Suas traduções instigam novos

ver / perceiver who is invited to enter into the

olhares, sentidos e sensações, possíveis de

expanded field of another nature.

serem vivenciadas pelo observador/perceptor que é convidado a entrar no campo expandido de uma outra natureza. Juliana Crispe

Juliana Crispe

Silvana Macêdo

Silvana Macêdo

Henna Asikainen

Henna Asikainen

cooperari 2007 Vídeo instalação sonora Silvana Macêdo e Frederico Macêdo

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Conversa com a exposição Intraduzível Ana Maio As vídeoinstalações ar (2001-3), lua & oceanos (2005-7) e cooperari (2007) da exposição Intradu-

zível apresentam modos de exibição em que o espaço da exposição é transformado no espaço da projeção. Tratam-se de situações cinema que deslocam a atenção do espectador para o espaço, os mecanismos e os dispositivos da projeção. Distante de um modelo de cinema narrativo, representativo e industrial (N.R.I) – usa uma tela única para contar uma história por cerca de 90 minutos numa sala escura –, a exposição Intraduzível cria convergências entre o cinema e as artes visuais. Os/as artistas da Intraduzível integram o cinema às suas experiências poéticas, e fazem lembrar a inquietude artística que culminou nos experimentos multimídia de John Cage ao Fluxus das décadas de 1960 e 1970, com práticas que incluíam performance, filme, vídeo e instalações. Ao percorrer a exposição lembrei do artista coreano Nam June Paik que nos anos 1950 reunia música, performance e monitores de tevê definindo os seus trabalhos como “multimídia”. A exposição Intraduzível aproxima-se do que Raymond Bellour sustentou sobre o vídeo: um operador de passagens, um “entre-imagem” – entre o audiovisual e as artes plásticas. Cabe a reflexão: De que modo as videoinstalações da Intraduzível transformam o dispositivo do cinema em seus aspectos arquitetônico, tecnológico e discursivo? Como a exposição evidencia a noção de dispositivo materializando a ideia de um cinema expandido que alarga o modelo de cinema narrativo, representativo e industrial?

cooperari 2007 Vídeo instalação sonora Silvana Macêdo e Frederico Macêdo

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O vídeo, em meados dos anos 1960, intensificou o processo iniciado pelo cinema experimental de deslocamento da imagem-movimento para os territórios da arte por meio de práticas que envolveram a multiplicação das telas, o uso do circuito fechado e a combinação de meios (música, dança, teatro, performance, cinema e vídeo) que emergiram nas instalações de cinema e vídeo. Nas videoinstalações o cinema sofreu uma transformação radical, ao propiciar aos artistas a possibilidade de especializar os componentes constitutivos da obra. Para André Parente, o termo instalação indica um tipo de criação que recusa a redução da arte a um objeto para melhor considerar a relação entre seus elementos, entre os quais, muitas vezes, está o próprio espectador. A obra é um processo, sua percepção se efetua na duração de um percurso. Engajado em um percurso, envolvido em um dispositivo, imerso em um ambiente, o espectador participa da mobilidade da obra. A experiência da obra pelo espectador constitui o ponto nodal do trabalho (2011, p.30).

Por conseguinte, a noção do dispositivo nas videoinstalações da Intraduzível, nos permite repensar o cinema distanciado de determinismos tecnológicos, históricos, conceituais, estéticos e institucionais. As práticas audiovisuais reinventam o dispositivo cinematográfico por meio de multiprojeções, da exploração de outras durações do tempo e da supressão entre diferentes formas da arte. Intraduzível transforma a arquitetura da sala de projeção e ergue novas relações com o espectador que, ao se deslocar, recria o cinema. Os corpos dos sujeitos ao deslizarem livremente no espaço expositivo, experimentam a espacialização das imagens, criam percursos e experiências singulares.

cooperari 2007 Vídeo instalação sonora Silvana Macêdo e Frederico Macêdo

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Abordar tais transformações no cinema implica problematizar o dispositivo, as imagens e seus componentes enunciativos e perceptivos. A Intraduzível reflete situações cinema onde a sala não é escura, o projetor não é ocultado, e o filme não conta uma história linear ou sequencial em condições de duração que condicionam a imobilidade do espectador. As videoinstalações da In-

traduzível revelam aspectos processuais, conceituais e experimentais da arte contemporânea que buscam outros modos de relação com o espaço arquitetônico e topográfico, portanto, conferem ao visitante, autonomia para decidir o próprio percurso. Os/as artistas conjugam telas e narrativas simultâneas, sincronizam vários canais de imagem e som, buscam outras possibilidades de exibição. A expansão de uma única tela e projeção para múltiplas, intensifica a experiência visual. O cinema de exposição em Intraduzível, traduz um espaço de representação que transforma as condições de enunciação das imagens e os elementos narrativos se efetivam no processo de exibição.

Intraduzível propicia reflexões acerca do alargamento da experiência cinemática a partir do dispositivo – transforma o cubo branco em caixa preta e transmuta o espaço da exposição em espaço da projeção. Embora, Intraduzível não seja uma exposição sobre cinema, as ideias, os conceitos e o modo como os/as artistas apresentam as suas ações poéticas nos remetem aos princípios da linguagem cinematográfica.

lab 1998 Vídeo instalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo

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Asikainen & Macêdo: arte sem limites N é r i Pe d ro s o A mostra Intraduzível, realizada no Museu da Imagem e do Som (MIS), em Florianópolis em agosto de 2018, reúne trabalhos, em sua maioria inéditos no Brasil, e celebra os 20 anos de paTeria artística entre Silvana e Henna Asikainen iniciada no Reino Unido, na Northumbria University, Newcastle. O resultado formal das pesquisas de Asikainen & Macêdo aponta de imediato à associação de ações artísticas colaborativas, ambientais e sociais, além de configurar uma mistura de biografias e paisagens de países muito distintos, a Finlândia e o Brasil. Com montagem imersiva, as obras convidam a pensar a natureza a partir da postura da observação científica. Por meio de lupas e microscópios, a desconstrução de conceitos, o inseto que se confunde com a pétala de flor, a passagem da pintura para o vídeo, o mapa mundi construído com ninhos de maribondos, arte sem limites. Nesta entrevista, elas respondem as mesmas perguntas com respostas que revelam pensamentos distintos porém em sintonia, falam das demandas do ser artista no tempo contemporâneo e dos seus anseios. Entre dois países, no abandono da própria língua materna, elas se ajustam no inglês e em partilhas construtivas de significações capazes de constituir um novo modo de pensar a vida por meio da arte.

lab 1998 Vídeo instalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo

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O que é ser ar tista no tempo contemporâneo? S ilva na Ma cê d o - Há variadas posições que os artistas podem estabelecer na contemporaneidade. Enquanto alguns preferem se voltar à produção de trabalhos imbuídos em pesquisa estética, abstrata e com foco em questões exclusivamente formais, há também os engajados mais diretamente com temas sociais e políticos. Temos outros envolvidos com ambas abordagens ao mesmo tempo, tecem instigantes relações entre aspectos estéticos, conceituais e sociopolíticos. Interessante é que não existe apenas um jeito “adequado” de ser artista, mas há uma grande liberdade em explorar um universo amplo de possibilidades. Por exemplo, na década de 1960, quando emergiu a arte conceitual no panorama artístico, havia uma grande polarização entre a arte moderna formalista e a neo vanguarda. Naquele período, os artistas que estavam trabalhando com arte abstrata, eram vistos pelos artistas da neo vanguarda como conservadores e alienados politicamente, por estarem interessados mais nos aspectos formais do seu processo artístico do que nos dramáticos acontecimentos que se passavam no mundo fora do ateliê. Durante algumas décadas ainda senti a divisão bem arraigada entre artistas e curadores. Vejo que para alguns artistas ainda muito associados às discussões conceituais daquele período, essa divisão ainda persiste, mas num panorama mais amplo, percebo que as coisas estão cada vez mais interligadas. Não acho mais importante a separação entre o estético e o político. Me interesso por ambos aspectos na produção dos meus trabalhos.

lab 1998 Stills da Vídeo instalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo

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A exposição Intraduzível é especial por reunir trabalhos inéditos e celebrar com Henna uma parceria ar tística de 20 anos. Como é a experiência d e a t r a v e s s a r d o i s p a í s e s s o b o p o n t o d e v i s t a d o a f e t o e d a p e s q u i s a a rtística que ultrapassa fronteiras geográficas e temporais? S ilva na - Intraduzível reúne alguns de nossos trabalhos realizados entre 1997 e 2018. Está sendo especial para nós duas, com Reza Tavakol e Frederico Macêdo, colaboradores em lua e cooperari respectivamente, podermos reuni-los pela primeira vez numa mesma exposição. Cada projeto aconteceu de forma separada, e foram mostrados em contextos e anos diferentes, então montá-los no mesmo espaço é maravilhoso, pois a nosso ver, cada trabalho dialoga um com outro no MIS. Então, a colaboração artística com a Henna está fazendo 20 anos! Começamos a trabalhar juntas na Inglaterra no fim da década de 1990, quando nos conhecemos na Northumbria University no curso de mestrado, e posteriormente seguimos para o doutorado na mesma universidade. Naquela época eu trabalhava com pintura e a temática do meu trabalho sempre esteve relacionado com questões ambientais. A Henna também pesquisava a temática da natureza e os interesses em comum nos aproximaram. Realizamos alguns projetos em parceria e depois resolvemos atuar exclusivamente em colaboração, construindo uma identidade artística: asikainen&macêdo. Realizamos diversas instalações e trabalhos em vídeo, entre eles, o projeto ar que nos levou a passar um tempo juntas nos nossos países de origem, não nas cidades, e sim nas florestas. No âmbito desse projeto foi a minha primeira viagem à Finlândia e a primeira de Henna ao Brasil, por meio de duas residências artísticas. Muito bom todo o percurso, desde a concepção do projeto, o convívio, as aventuras e a formalização do trabalho, foi tudo muito rico em experiências. Em 2004 decidi voltar ao Brasil e, assim, acabou a atuação em colaboração exclusiva. Seguimos nossas trajetórias individualmente, mas ainda desenvolvemos projetos em parceria em paralelo aos trabalhos individuais ou em colaboração com outros artistas.

segredo 2018 Iinstalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo

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À luz dessa parceria com Henna, como dizer sobre ar te colaborativa, ar te e feminismo. Embora as pesquisas de ambas não tenha essa abordagem de modo explícito, são duas mulheres unidas num universo, os dos cientistas, em que o masculino é predominante e pouco refratário. Dessas questões o que é mais urgente pensar por meio da ar te no século 21? Silvana - A colaboração artística no contexto das artes visuais é realmente uma estratégia para romper com a noção romântica do gênio artístico, e questões tradicionais de autoria, subjetividade e originalidade, que permaneceu arraigada à imagem do artista por séculos na história da arte ocidental. Minha dissertação de mestrado foi exatamente sobre colaboração artística, na qual discuti noções tradicionais de autoria e originalidade, e sua desconstrução nos discursos críticos com base na filosofia pós-estruturalista. Um dos autores importantes na pesquisa foi Harold Bloom, em especial seu excelente livro intitulado The Anxiety of Influence (1973) traduzido para o português como A Angústia da Influência. Neste livro, Bloom argumenta que antes do iluminismo, a influência era vista como positiva, e o processo criativo e artístico vivenciado de forma compartilhada (por exemplo, a prática colaborativa era parte fundamental na formação de artistas aprendizes no ateliê de um mestre, no período medieval e na Renascença). Segundo Bloom, é no período pós-iluminista que a originalidade e o discurso do gênio emerge como principal critério na valoração de obras de arte. Também importantes para o debate foram os textos de Roland Barthes, A Morte do Autor (1967), e de Michel Foucault, O que É um Autor? (1969). Com a crítica feminista, na década de 1960, o gênio da história da arte canônica é via de regra homem, branco e europeu ou de origem europeia. O texto Por que Não Houve Grandes Mulheres Artistas?, de Linda Nochlin, publicado originalmente em 1971 na revista ARTnews é um clássico dos debates feminislua 2005 Vídeo instalação Henna Asikainen, Silvana Macêdo e Reza Tavakol

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tas no contexto das artes visuais. Então, no calor das discussões pós-modernas sobre originalidade e autoria a colaboração artística se consolidou como prática na neo vanguarda (mesmo que tenham existido colaborações desde as vanguardas históricas, especialmente entre os dadaístas: Sophie Tauber e Hans Arp; Georg Grosz e John Heartfield, entre outros...), foi a partir das décadas de 1960 em diante que um grande número de colaborações artísticas emergiram como um contra-discurso ao individualismo excessivo em torno do gênio e sua expressão subjetiva como principal foco da obra de arte. Colaborações entre mulheres adquirem um elemento a mais na desconstrução da autoria tradicional, pois enfrenta além do problema da expressão individual como centro do processo criativo, mas também a questão do gênero. Enquanto que na autoria tradicional a originalidade é central, na colaboração o diálogo e o compartilhamento de ideias é a dinâmica principal. É um trabalho de desafiar o ego, e por ser esta uma força muito poderosa, é também a fonte de muitos conflitos! Para mim, a prática colaborativa ao longo desses anos me fez muito bem, aprendi a ouvir e a compartilhar mais, isso me trouxe mais amadurecimento profissional. Hoje em dia temos muitas oportunidades de dialogar ao longo do processo criativo, em especial com a figura do curador na concepção e montagem de uma exposição, por exemplo. Gosto muito de construir propostas junto com alguém, pois mais de uma cabeça pensante traz melhores resultados do que apenas uma!

lua 2005 Vídeo instalação Henna Asikainen, Silvana Macêdo e Reza Tavakol

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E sobre ar te ambiental? Silvana - Em relação ao contexto da ciência e ambientalismo, a contribuição das mulheres é bem importante. Uma referência fundamental para o movimento ambiental foi o livro de Rachel Carson, Silent Spring (1962), traduzido como Primavera Silenciosa. Neste livro ela documentou o efeitos poluentes dos agrotóxicos no ambiente, particularmente nas aves, demonstrando que o DDT causava a diminuição da espessura das cascas de ovos, resultando em problemas reprodutivos e em morte. São muitas contribuições femininas para a questão ambiental, mas gostaria de citar uma mulher fabulosa, a quem tenho enorme admiração, a indiana física, ativista ambiental e ecofeminista Vandana Shiva que é um dos nomes mais respeitados no cenário internacional por sua luta contra os efeitos da globalização e da economia neoliberal nos países em desenvolvimento. A engenharia genética e a indústria biotecnológica são também alvos de uma crítica radical por parte de Shiva, que ela chama de “Segunda Revolução Verde”, que, como a primeira, ameaça a vida de milhares pequenos trabalhadores rurais no mundo todo. Portanto, estas são apenas algumas das referências, além de muitas outras na área da estética ambiental e artísticas, claro!

Como foi o reencontro entre vocês? S ilva na - Os dias de montagem de Intraduzível foram intensos, alegres e cheios de boas lembranças. Tivemos muitas ideias para novos projetos e espero que tenhamos condições e fontes de fomento para concretizar os planos! Foi bem bacana trabalhar de novo com a Henna, somos grandes amigas e tudo flui com facilidade entre nós, pois temos um senso estético afinado, isso não é tão fácil de encontrar, acho que é o ponto mais rico da nossa colaboração... quando a coisa está “no ponto”, nós concordamos, bem interessante, isso não acontece toda hora, rsrsrs.

lua 2005 Vídeo instalação Henna Asikainen, Silvana Macêdo e Reza Tavakol

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Po l i t e m á t i c a e c o s m o p o l í t i c a . S u a a r t e t r a n s i t a n a s p u l s õ e s d o a u t o c o nhecimento mas também nos mistérios da natureza, nos discursos dominantes e nos embates ambientais. ar (2001-2003) atravessa geografias e t e m p o s d i s t i n t o s . Re m o n t a r a o b r a e m 2 0 1 8 e s t i m u l a q u a i s r e f l e x õ e s ? O que é possível afirmar no distanciamento dessas temporalidades entre as obras e os impactos humanos no meio ambiente? S ilva na - Entre as ideias que tivemos, foi a de revisitar os mesmos locais onde estivemos, tanto no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) quanto em estações de pesquisa na Finlândia e conversar com os pesquisadores que estão desenvolvendo trabalhos sobre o aquecimento global e ver o que se passou em termos numéricos, mais precisos durante este tempo.

Em cooperari, o mapa mundi chama a atenção do público. O que significa r e p r e s e n t a r o m u n d o c o m m a t e r i a l t ã o p r e c á r i o ? Vo c ê c r ê q u e é p o s s í v e l remontar o mundo? Existe futuro? S ilva na - O mapa mundi de cooperari foi feito pelos insetos de forma colaborativa, e depois apropriado por mim para dar forma a um mundo onde haja mais colaboração que competição... mas entendo também que há um aspecto melancólico envolvido nisso, pois são ninhos abandonados, apenas resíduos de um processo de vida que já se moveu dali.

trabalho de campo 2018 Vídeo instalação Henna Asikainen e Silvana Macêdo

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Henna Asikainen W h a t i s i t l i ke t o b e a n a r t i s t a t p r e s e n t? He nna As ika ine n HA - Being an artist is challenging - it is not exactly a ‘sensible’ career choice. I am a fulltime artist, I do not have another job, savings or inheritance to supplement my income, which means that the future and financial insecurity are a worry. Artistic work is undervalued and artists are underpaid – usually only receiving payment for what they produce which does not always effectively reflect the time invested in production. Unless an artist becomes ‘successful’ – and this judgement is dependent on so many factors (the response of critics, how fashionable the work might be, how willing the artist might be to ‘fit in’ etc.) – they do not have control of the value of their work. Saying that, being an artist can be an extraordinary, fulfilling, even life-affirming role to play! The projects that I am engaged with are both interesting and also something that I am very passionate about. The last few years have been especially good for me as an artist. My participatory art projects with the refugee and migrant communities (e.g. blanket,

forage, delicate shuttle¹) have been very well received at many different levels and this has led to further commissioned work. Art is also something powerful – it can be used to decorate walls and give simple delight but it can also be a means of speaking truth to power. In these difficult times in which we are threatened not only by the headlong rush of the rapidly developing climate catastrophe but also by a resurgence in xenophobic, populist and fascist ideologies and their accompanying policies of building barriers and closing borders and dialogues, art is both critically important and significantly endangered. These ideologies and their accompanying politics are

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hostile to beauty and culture and tend to close it down both financially by reducing or eliminating funding and because they recognise that art is a cultural weapon. Looking at images of our home, the Earth, seen from space, it appears so small, beautiful, fragile, and lonely, floating on its own in infinite space. In the face of this image the politics of hate, of building barriers and the reckless destruction of our planet are eminently absurd and ultimately threaten all of us – even those who enact them. My work is particularly concerned with the impact of climate change – both ecologically and socially. The melting of the artic ice cap not only affects the local wildlife and inhabitants but also low-lying coastal cities everywhere – Rio de Janeiro, New York etc. are all going to be affected. My work explores the links between the cause and the impact, the problems and the solutions and how we might work to make the necessary changes to our lifestyles if we are to continue as a viable species on Earth. We can not continue trying to deal with problems in silos, undertaking disconnected and narrow approaches which refuse the wider picture, and which fail to link how we live with the immensity of the climate problem. We urgently need to begin to look at our home problems in a broader and radical way. We need to look after our home, our planet - as has been said many times before - there is no planet B.

lua 2005 Vídeo instalação Henna Asikainen, Silvana Macêdo e Reza Tavakol

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The exhibition at MIS is special as it brings together unseen ar tworks here and because it celebrates 20 years for ar tistic colaboration with Silv a n a . W h a t i s i t l i ke t h e e x p e r i e n c e o f c r o s s i n g t w o c o u n t r i e s c o n s i d e r i n g the emotional/ affectionate aspect and also ar tistic research which breaks geographical and time boundaries? HA - Our collaboration began in 1997 in a country that was not home for either of us and in many ways this geographic dislocation initially formed part of the bond between us and became a basis for our collaborative practice. We were very interested in the concept of the translation sitting at the heart of our practice as ideas transited out of languages and back again. But this was not only a linguistic mechanism – but also the translation of experience, of culture, of the very things form which our sense of ourselves was made. As Derrida suggests the transmutation of materials from one context to another can itself be seen as resembling a translation. We were remade in our new English speaking context and we embarked on a negotiation (itself a form of translation) as to how we might make these new things into our practice. This is not always easy - in the movement from one culture to another words accumulate different meanings, nuances acquire different emphases, and things often get lost in between the lines. Our collaborative practice is characterized by all this; this movement between different cultures; the place where different meanings meet; the encounter between meanings and ideas in which the features of all are brought to bear on the work. One good example would be the ‘air’ project which took us on an exploration of the Nordic lua 2005 Vídeo instalação Henna Asikainen, Silvana Macêdo e Reza Tavakol

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boreal forest in Finland and the Amazonian rainforest in Brazil. These environments – the cold, white, pristine pine forest of Finland and the hot, green, humid rainforest of Brazil are seemingly oppositional territories, geographically and ecologically far apart but in fact, as we discovered, are connected, are involved in a kind of collaboration across the intimate immensity of the global ecosystem. Whilst there are connections between things, that is not to say that they are the same thing. Language can often fail us – it can be inadequate. The thing Brazilians call a floresta [forest], Finns calls a metsä, and the dictionary tells us that metsä means floresta. But these things are not identical: “an enormous difference exists between the two realities. It is so great that not only are they exceedingly incongruous, but almost all their resonances, both emotive and intellectual, are equally so.”1 These intercultural and inter-linguistic matters are of far more consequence and interest to us than the matter of geographic location and time differences which are themselves simply a symptom of technology. There is of course a great excitement and a massive increase in mutual stimulation when we are able to be present in the same space and time - technology cannot replace the impact of human closeness, friendship and the hospitality of ideas. How was your reunion? HA - Good! It felt very natural and easy after all these years to work together again. Life has changed a lot for both of us. We have both become mothers, grown older and are perhaps a little more secure within ourselves. We still share the same aesthetic sensibilities and agreed in all of the

1

José Ortega y Gasset, ‘The Misery and the Splendor of Translation’, Theories of Translation: an Anthology of Essays from Dryden to Derrida,

(University of Chicago Press, 1992), p. 96.

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aspects of installing the exhibition which was great. We also had a lot of ideas for possible future collaborative projects - but only time will tell if it is possible to sustain the energy that only really comes with face to face contact.

cooperari 2007 Vídeo instalação sonora Silvana Macêdo e Frederico Macêdo

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Ar te de resistência N é r i Pe d ro s o * Sou um bicho do cerrado, diz Silvana Macêdo ao falar sobre a própria criação. Nascida em Goiânia (GO), em 1966, a definição sugere um fio condutor para ajudar a entender as múltiplas facetas que constituem essa mulher, esse ser-artista, mulher-mãe, ativista, ser cosmopolítico. Moradora da Ilha de Santa Catarina desde 2004, onde é professora do Departamento de Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Pesquisadora sobre a representação da natureza pela arte e ciência, ao longo de sua trajetória faz pinturas, gravuras, fotografias, instalações e vídeos, alinhados à estética ambiental, a discussões feministas e questões colaborativas, sociais e políticas. A atuação artística iniciada nos anos 1990 desdobra-se desde então, com a adoção de diferentes técnicas, entre novas e antigas tecnologias, entre a tradição e o contemporâneo. No seu conjunto, as obras consubstanciam linguagem, formas, ritmos, tessituras, objetos e imagens que afirmam uma poética traduzível por uma unidade capaz de fazer pensar a vida, o tempo, a arte, a ciência, a natureza, o materno e o feminino, a comunidade, a finitude, o transitório. O cerrado, a segunda maior cobertura vegetal do Brasil, abrange Goiás, o Estado natal da artista, e engloba um ecossistema também chamado savana brasileira, uma das mais ricas biodiversidades do planeta pelo alto volume de espécies vegetais, aves e animais. O cerrado abarca uma complexidade de processos geológicos e biológicos difíceis de descrever. Composto por várzeas, campos

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rupestres, gramíneas, brejos, arbustos e árvores esparsas, caules retorcidos e raízes profundas tem fauna e flora particulares e valiosas. Uma coisa em muitas, unidade entrecruzada com contrastes entre diferentes estações climáticas, a paisagem natural do Planalto Central do Brasil está no DNA da artista de modo intrínseco e misterioso. Silvana vem da savana, lugar com mata de formação arbórea aberta, de vegetação herbácea abundante, árvores pequenas e tortuosas, vegetais capazes de se adaptar em ambiente seco. Mudam suas formas para sobreviver e, assim, se configuram ora densas, ora fechadas, frondosas, opacas, ramosas, entrelaçadas. A experiência pessoal diante dessa paisagem contrastante entre seca e chuva é determinante no começo da trajetória nos anos 1990, quando produz pinturas da paisagem do cerrado, mata ciliar e de florestas. Por essa porta de entrada, surge a linguagem artística que estimula a permanente busca de conteúdos teóricos e práticos, de conhecimento por meio de livros, encontros, estudos e viagens planejadas no Brasil e no mundo em lugares com florestas, como a Amazônia, por exemplo. A pesquisa na pintura exige reflexões teóricas sobre a relação do meio ambiente com o discurso científico, um viés que contagia a produção e determina estudos formais de artes visuais, sobretudo no doutorado quando aprofunda as associações entre arte, ciência e natureza. “Meu interesse, conta ela, era investigar como esse conceito da natureza é mediado pelos conceitos científicos sem que a maioria das pessoas percebam o quanto eles estão incorporados no dia a dia.” Com temáticas e interesses diversificados, em 30 anos de atuação no circuito de artes visuais, conduz a experiência subjetiva, a arte, na tangência de questões contemporâneas, históricas e cooperari 2007 Vídeo instalação sonora Silvana Macêdo e Frederico Macêdo

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biológicas. Num primeiro momento da carreira, influenciada por tendências estruturalistas e pós-estruturalistas de desconstrução autoral, evita relatos autobiográficos, algo que se modifica no percurso, entende ela à luz de 2018 quando, entre agosto e setembro, expõe Intraduzível no Museu da Imagem e do Som (MIS), em Florianópolis. O que vê quando olha o próprio caminho? Nada escapa da história pessoal. As experimentações estéticas carregam associações permanentes entre corpo e memória, corpo e linguagem, corpo e cultura com reflexões complexas entre excesso, privação e plenitude. A representação do corpo aqui entendida como processo de multiplicação, relatividade de significações e sentidos prévios. “O corpo como aquilo que delineia nossa finitude radical nos determina uma forma que reconhecemos no espelho, ou na sombra, que nos faz presente em nossa ausência imediata. A sombra agarra sua presa para recompor a ausência pela imagem: negocia com o invisível através da visualização, representando-o.” (Matesco, 2009)

Quer esteja discutindo arte, ciência e natureza ou o feminismo, quer esteja pintando, gravando, fazendo instalações ou videoinstalações, os trabalhos trazem resquícios de representações de si mesma. Com densidade e maestria técnica, é refém da pulsão do ato de criação ou do “coeficiente de arte”, expressão de Marcel Duchamp (1887-1968) para quem a obra se situa entre os limites do que é desejado e a realização, na diferença entre o pretendido e o não intencional, o expresso e o não expresso. A gênese da obra se faz, portanto, a partir de uma rede de intenções, embaraçamentos, arranjos entre jogo e armadilha que só se completam no olhar do outro (o espectador). Nas significações simbólicas instauradas pela artista o corpo sinaliza perda e vazio. Ao representar florestas na fase inaugural da carreira, já está tomada pela postura científica que alcança o conhecimento e a especialização a partir da fragmentação do objeto estudado. De modo igual, nas pin-


turas, o todo é fracionado. A lente/olho, as tintas e pinceis seguem escolhas a fim de estabelecer transições entre abstração e figuração. No avanço das pesquisas, nos multimeios, dilui fronteiras entre pintura e vídeo, arte e cinema experimental. Em outro âmbito, fora de si mesma, Silvana Macêdo aprecia ações coletivas, atuações colaborativas e coloca a sua produção em sintonia com o artivismo. Adota estratégias simbólicas para amplificar certas causas, faz intervenções urbanas, obras efêmeras, como Paisagem Especulada (2009), escrita monumental realizada na praia do Pântano do Sul junto ao grupo Rosa dos Ventos. Em Imbituba, no Sul de Santa Catarina, cria Baleia-franca (2006-7), videoinstalação e projeto on-line desenvolvido com o programa ambiental Baleia-franca. Aposta em experimentações estéticas, realiza residências, atua com equipes multidisciplinares, de músicos a cientistas, interessados em assuntos de comunidade, tecnologia, meio ambiente. O espírito cooperativo da vivência e do trabalho artístico colaborativo estão impregnados nesta poética que demonstra consciência de comunidade e do coletivo. A convivência, portanto, equivale a matéria-prima de uma produção que articula linguagens artísticas distintas feitas de dicotomias, de nervuras concretas e abstratas, de experiências do particular e do genérico, de configurações que brotam da interação social. Aqui a artista desafia o ego, desmitifica a questão autoral da obra de arte, mina o conceito romântico do autor como rei único e absoluto da criação. Do protesto político e da defesa ambiental, ousa enfrentar os mitos. Um dos mais caros da construção cultural patriarcal, a maternidade, aparece em duas séries fotográficas e uma videoinstalação. Elas integram o projeto de pesquisa intitulado O Poder Materno e a Arte Contemporânea com o qual investiga a representação do maternal na arte contemporânea e sua relação com debates feministas. A abordagem sobre maternalismos contemporâneos, com foco no feminismo, envolve o pós-doutorado iniciado na Glasgow School of Art, Escócia (2014), em andamento 69


no Departamento de Artes Visuais (DAV/Ceart/Udesc), onde atua desde 2006 como professora efetiva. O projeto pessoal de pesquisa e experimentação, o ensino como alicerce profissional, as articulações locais e internacionais, o pensamento em sintonia aos interesses coletivos, o modo de atuação colaborativa, as relações afetivas e cidadãs dão breve noção sobre a conduta e o papel do artista na contemporaneidade em um circuito ou sistema de arte instável que pede o tempo todo uma complexidade de demandas, relações institucionais, enfrentamento permanente de dilemas e fragilidades na cena cultural e no mercado de arte de Santa Catarina, nas sensibilidades e ideias que permeiam esse panorama. Um artista deve ser pesquisado, pensado e legitimado à luz do que produz como obra, como produção de conhecimento e de reflexão, das negociações, referências, parcerias e reconhecimentos institucionais, estratégias e conquistas sedimentadas no percurso. Nessa perspectiva, a conquista do Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura 2017 assegura um momento especial na relação de Silvana com Florianópolis, lugar em que conduz a carreira artística com um inusual nível de profissionalismo no cenário local. Graças ao prêmio, o projeto

Intraduzível concretiza o desejo de reunir parte da produção realizada no Reino Unido, voltada aos multimeios, e praticamente inédita em Santa Catarina. A exposição Intraduzível reúne obras colaborativas criadas entre a artista finlandesa Henna Asikainen, que Silvana conheceu na Inglaterra em 1997 nos estudos na Northumbria University, Newcastle, bem como parcerias com o compositor Frederico Macêdo e o astrofísico iraniano Reza Tavakol. Além de um caráter retrospectivo, com trabalhos criados entre 1997 e 2018, o projeto assume contornos de celebração, pois Henna veio ao Brasil para a apresentação de obras e para comemorar os 20 anos da parceria asikainen&macedo. A curadoria de Juliana Crispe, em montagem extremamente límpida, cria uma atmosfera imersiva, sem deixar de tocar subliminarmente em questões afetivas. 70


Importante ressaltar que o edital ajuda a aproximar países – a Finlândia, a Inglaterra e o Brasil – o Estado de Santa Catarina e instituições, como a Fundação Catarinense de Cultura (FCC), a Udesc e a Arts Council England. Com montagem e caráter conceitual complexos, a mostra, cara pelo uso de tecnologia, só se viabiliza com os recursos do edital do governo de Santa Catarina. Ela se constitui de uma série de fotografias e as videoinstalações lab (2017), ar (2001-3), lua (2005-7), a videoinstalação sonora cooperari (2007) e as instalações trabalho de campo (2018) e segredo (2018). Um dos elementos centrais dessas obras é a noção de tradução, compreendida, segundo a artista, mais como uma dinâmica do que uma influência. Na base e não no tema, conforme situa a curadora. Nesse sentido é curioso notar que Silvana e Henna, sempre entre dois países se comunicam só em inglês e nunca na língua materna. “Nós trabalhamos e conversamos num idioma que não é o nosso. Ao falarmos uma língua estrangeira, sempre temos a sensação de estarmos sendo o que realmente não somos, dá um estranhamento a tentativa permanente de traduzir os sentimentos mais sinceros numa outra linguagem”, diz Silvana. Arte, portanto, que também justapõe idiomas. Entre estranhezas e o atravessamento entre a Finlândia, o Brasil e o Reino Unido, no deslocamento geográfico, na mudança radical entre as paisagens, elas fazem duas residências artísticas, uma no Parque Nacional de Koli, na Finlândia, e a outra no Brasil, na Reserva Ducke, estação de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA). Em contato com as investigações de pesquisadores de mudança climática nos hemisférios Norte e Sul, entre 2001 e 2003, criam a instalação ar e anos depois, em 2018, a instalação trabalho de campo, que rememora as jornadas realizadas durante as residências. Rede, teia, véu, captura, armadilha, emaranhado, pintura em movimento. O verde da floresta amazônica no contraste de uma gélida e escultural mata de Koli. O que une paisagens tão distantes? 71


O ar e a ameaça de finitude desses biomas, a representação da natureza pela arte e ciência, a vã tentativa de uma possível tradução através da linguagem artística e científica. Duas artistas diante do mistério, dos paradoxos e sobretudo da beleza entendida como um sistema de absoluto equilíbrio.

Paisagem e corpo Cabe olhar um pouco para trás. Em Florianópolis, em 2017, Entranhas e Mácula, duas séries de trabalhos apresentadas simultaneamente na Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti e no Memorial Meyer Filho impactam o espectador. Em 2018, são montadas nas galerias do Sesc Itajaí e do Sesc Lages. Um conjunto de pinturas a óleo e acrílico sobre tela, outras em nanquim sobre papel, e gravuras em metal tem força pela questão nuclear das metáforas ali contidas. “Das profundezas de si, pulsa a vida e um desejo de autoconhecimento em busca de ressignificar as marcas da sua biografia em seu corpo”, escreve a curadora Juliana Crispe, parceira de longa data da artista. O corpo, um dos grandes temas do pensamento contemporâneo, está no cerne das representações de Entranhas e Mácula, cuja gênese decorre do enfrentamento de uma grave doença. Num processo psicológico de transformação, a artista converte vicissitude em arte. Entre 2014 e 2017, pinta e grava, elabora imagens do coração, baço, rim, osso, órgãos, tecidos células, vísceras. Embora a fragilidade corporal que limita os esforços, com uma paleta alargada, pinta em grandes dimensões. O estado mental diante da doença ajuda a delinear nas telas alusões narrativas e combinações requintadas de tons. Mistura de elementos figurativos e abstrações, as manchas insinuam cavidades e espaços internos inalcançáveis a olho nu. Órgãos vitais, emaranhado de veias, líquidos e sangue, lava incandescente, o corpo marcado por impotência. Em cor e textura, 72


anacrônicas essas representações se confundem com as florestas da fase inaugural da carreira artística. Na experiência da carne, uma poética de perda e vazio. Apesar do sofrimento, o belo se impõe pelo equilíbrio em azuis, vermelho intenso, flores, linhas, luz e sombra que trazem à superfície o imemorial, o desassossego de alguém capaz de escavar na própria carne. Não é à toa que faz as gravuras na técnica da maculatura, justo a que dá profundidade no papel e cuja impressão se faz por nuances de apagamento. Depuração? É o que sugere Maculada, performance que incorpora, segundo relato da artista, um “mobiliário lindíssimo”, emprestado pela Fundação Senhor dos Passos, parceira do projeto. Um leito hospitalar, uma pequena mesa, suporte para soro e vidros, além de outros objetos do acervo do Imperial Hospital de Caridade, servem como recursos cênicos. Parte de Entranhas e Mácula, a performance Maculada acentua o diálogo com questões da medicina e da dialética entre arte e saúde. A acertada curadoria se refina no agrupamento dos trabalhos em duas salas expositivas. Na galeria, a montagem neutraliza os perigos da grandeza das telas na opção de agrupá-las feito um órgão vivo, pulsante. De imediato, o espectador se impacta pela vibração. Em sentido oposto, no Memorial Meyer Filho, uma sala limpa, branca, com as gravuras e a instalação Maculada. De um lado, intensidade, tudo é pulsação; de outro, assepsia. Ousada, de retilínea visão, Crispe enfatiza a escrita das emoções e ajuda a pensar a arte como autoconsciência do sujeito. Cosmopolítica e politemática, Silvana Macêdo assume outros discursos que, em precipitada análise, podem num primeiro momento insinuar distanciamento dos seus interesses primordiais. A questão materna na contemporaneidade mobiliza parte da produção mais recente. A exposição

Teia de Afetos, em Florianópolis, reúne em maio de 2018, em O Sítio, a série fotográfica Devoção e a videoinstalação multicanal Sombra de Névoa. O projeto expositivo, também com curadoria 73


de Juliana Crispe, contempla outras ações, uma conversa na noite inaugural, um convite de obra participativa e uma roda de conversa com seis pensadoras. O trabalho Devoção se constitui de fragmentos de sua experiência materna em diálogo com o cotidiano de outras duas amigas, também mães artistas. Ao dar visibilidade ao espaço íntimo da moradias, a série fotográfica revela atos devocionais diários que sugerem uma negociação constante entre o tempo dedicado aos filhos, as necessidades pessoais e profissionais. Os afetos se constituem como elo estruturante dessas narrativas. “A criação artística e a criação de filhos, que se dá no meio de um turbilhão de emoções, tarefas, dores, frustrações, culpas, preocupações, incertezas e desejos”, diz Silvana. A delicada relação entre mãe e filho transcende a vida material. A resiliência é o tema central da videoinstalação Sombra de Névoa que, onírico, traz o momento traumático da perda materna infantil. O título se baseia em um verso do poema Eu, de Florbela Espanca: “(…) Sombra de névoa

tênue e esvaecida,/E que o destino amargo,/triste e forte,/Impele brutalmente para a morte!/Alma de luto sempre incompreendida!...”. A artista subverte o espaço pictórico tradicional para discutir – de novo - finitude e transitoriedade. Movimentos subaquáticos compõem o vídeo que embaralha memória e subconsciente em imagens que lembram membranas, galhos retorcidos, raízes, nervuras vegetais, cavidades florestais, entrecruzamentos labirínticos, entranhas. Mais uma vez o corpo e a paisagem desmaterializados. Como se vê, se em Intraduzível “ataca-se” a ciência, em Teia de Afetos a imaginação poética também atravessa a desconstrução cultural de discursos sedimentados. Divergentes e plurais, as obras aproximam arte e feminismo, equivalem ao gesto capaz de retirar a venda dos olhos dos que ainda não conseguem enxergar. Arte como ação política que alcança resultados extra74


ordinários nos encontros de fala sobre os trabalhos, na maioria das vezes com convidadas que conduzem a conversa para fora das instâncias artísticas, neste caso sobre o mito da maternidade. Evento aberto ao público, gratuito, a roda de conversa funciona como uma lente de aumento capaz de trazer à tona emoções e revelar aspectos ocultos nas relações entre homens e mulheres. Com o tema Mitos e Verdades sobre a Experiência Materna Contemporânea, as doulas Gabriela Zanella e Virginia Vianna, as artistas Ana Sabiá, Bruna Mansani e a pesquisadora de dança Ida Mara Freire abrem caminho para o extravasamento e comoção. As artistas Ana e Bruna exibem trabalhos artísticos e partilham a experiência materna, a pesquisadora Ida Mara faz uma performance em que traz a vivência da mulher bailarina e sua negritude, as doulas Gabriela e Virginia abordam a importância da doula no cenário da assistência obstétrica e do seu papel na prevenção da Violência Obstétrica (VO). O que se instaura numa conversa de mulheres? Pura potência, a fala e a escuta de modo inesperado equivalem a uma sessão de terapia provocadora de transbordamento. Lágrimas, vozes embargadas, abraços e cumplicidade, noções de pertencimento pouco vivenciadas. Na partilha de descobertas feitas a partir das obras e do encontro, um momento de alívio, fulgor e mistério. Mais uma vez, porém de um outro modo, a natureza transformada. Encontro entre mulheres, exposição dialogada de ideias, seguida de debate no sentido de estabelecer um pensamento crítico sobre maternidade não é comum em maio, quando se celebra o Dia das Mães. O período serve para agudizar a idealização da imagem materna, o maior emblema do patriarcado, sustentar interesses comerciais e reforçar uma ideologia opressora, papel assumido por um jornalismo dissociado das transformações sociais. O diálogo, os trabalhos, as reflexões e as falas das convidadas e das espectadoras, uma grande maioria com crianças e bebês, acabam por abrir comportas inimagináveis. As camadas discursivas criam de modo espontâneo contra75


pontos, operam num viés analítico e desconstrutivo. Portanto, uma ação ético-política que pensa a maternidade de um modo bem distante do apregoado “padecer num paraíso”. Caminho de realizações e alegrias, constituir-se como mãe obriga o enfrentamento de um enorme desafio cheio de problemas, dores, renúncia e solidão com homens ausentes e despreparados. A artista também convida a construir uma obra participativa que fica em processo de construção permanente numa televisão posicionada dentro do espaço expositivo. Antes e durante a exposição, interessados enviam fotos do rosto de sua mãe para expor na TV. Dobras e mais dobras de histórias entrecruzadas no tempo e na geografia, uma outra conversa carregada de subjetividades e descobertas. Mais do que um bicho do cerrado, poderia se dizer de Silvana Macêdo uma vegetação do cerrado – puro enigma. Na partilha do sensível, ou seja, com “formas de inscrição do sentido da comunidade” (Rancière, 2005), também é transgressiva, pois se põe a serviço do desmonte das ilusões e remete ao corpo-traço, conceito de Roland Barthes. “O traço, por leve ou incerto que seja, remete sempre a uma força, a uma direção; é um energon, um trabalho, que oferece à leitura o que ficou sua pulsão, de seus desgaste (Barthes, 1990). Embora as condensações ou deslocamentos ao longo dos anos, tanto criativos como geográficos, há um continuum corporal e feminista nos trabalhos que compõem essa trajetória investigadora dos limites da visualidade e da representação. Arte provocadora, pede tempo e atenção. Corajosa e resiliente, como algumas plantas do cerrado, não se deixa sucumbir quando gravemente doente, adapta-se e se salva com e pela arte. Gesto ou objeto, Silvana Macêdo dessacraliza o corpo e a natureza, cria organismos vivos, estruturas pulsantes com força para provocar fissuras no pensamento, converte discursos, estabelece densidades em amplo espectro, garante vitalidade ao circuito de arte de Santa Catarina. Néri Pedroso, jornalista. 76


Bibliografia BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso: ensaios sobre fotografia, cinema, pintura, teatro e música. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1990, p. 154. MATESCO, Viviane. Corpo, imagem e representação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009, p. 50-51. RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: EXO experimental org.; Ed. 34, 2005, p 18.

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Serviço da Exposição Intraduzível O presente catálogo foi editado para a exposição intraduzível, realizada pelos artistas Silvana Macêdo, Henna Asikainem, Reza Tavakol e Frederico Macêdo, entre os dias 2 de agosto e 9 de setembro de 2018 no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC).

Outros Ser viços relativos ao Projeto Intraduzível Visita mediada com Silvana Macêdo, dia 22.8.2018, 19h no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC). Evento aberto, voltado a estudantes dos cursos de graduação e pós-graduação em artes visuais, cinema, música, além de artistas e pesquisadores dessas áreas; grupos comunitários interessados na relação da arte com a ecologia e defesa do meio ambiente, biólogos e ambientalistas. Palestra Conversa Intraduzível com Ana Ferreira Maio, dia 29.8.2018, 19h no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC). Evento aberto, estudantes de cinema, artes visuais, design ou áreas afins e interessados.

Festival de Vídeo 24h Arte & Meio Ambiente, com Silvana Macêdo, 31.8 a 1.9.2018 no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC). Evento aberto para interessados.

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