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por detrĂĄs das

histĂłrias

o crescimento do mundo digital e a resistĂŞncia do livro impresso

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Reportagem por: Shimene Graça AndrÊ Heimlich Patrick Rosa 2


Sumário Prólogo ....................................................................................... pág.3

Capítulo I - Era Uma Vez ....................................................... pág.6 Capítulo II - Do Papel para a Tela ..................................... pág.11

Capítulo III - Quem leva a mensagem? ........................... pág.16 Epílogo ..................................................................................... pág.21

“Ler é sonhar pela mão de outrem.” - Fernando Pessoa 3


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PRÓLOGO

“Caminhais em direção à solidão. Eu, não, tenho eu livros.” (Marguerite Duras)

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anhã de domingo daquelas de cinema. Ou melhor... de livro, de contos de fada. No Campo de São Bento, em Niterói, região metropolitana do estado do Rio de Janeiro, um casal caminha por entre as árvores, vagando sem rumo pelas ruelas de terra do parque. Ao longe se viam dezenas de barraquinhas verdes de artesanato; do outro lado, crianças brincando na pequena casa de madeira e nos balanços. O vento soprava leve e carregava as folhas ressequidas e vermelhas das amen-

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doeiras. Tudo parecia perfeitamente comum.

Testahy

Próximo ao portão de saída, porém, uma velha estante havia sido colocada. Em sua lateral a mensagem: “Leve o que quiser, traga quando puder”. Em cima dela livros de todos os tamanhos e para todos os gostos. Gravado na late r da pequena estan al te “Leve o que quis : traga quando pu er, der”, (2013)

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O casal escolhe um aleatoriamente e começa a folhear. A capa marrom de couro, a lombada em letras douradas... É um exemplar de 1935 do livro “Memórias”, de Humberto de Campos.


Entre as primeiras páginas queimadas pelo tempo, se escondia uma pequena folha de papel dobrada cuidadosamente. Era uma carta.

livro, uma m u e d s a id c e lh s enve Entre as página de amor se escondia. história

De Welfrides de Mattos para Maria Joanita Dutra de Andrade, uma declaração de amor que por quase um século permaneceu guardada do mundo, entre as histórias contadas pelas páginas de um livro.

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Rio de Janeiro, 20 de Agosto de 1935 POEMA Quando estou triste, vou esconder a minha mágoa naquella pequenina casa que se vê ao longe, na última curva da estrada. Lá no aconchego quente do meu lar, eu sinto a minha alma, o meu pensamento, expandir-se, vibrar com a natureza... Livre dos preconceitos mundanos, só com você, o meu ser revela-se outro, completamente novo, cheio de ternura e sinceridade... nesses breves instantes, não penso, não falo, entrego-me inteiramente, ao culto de você. Tudo e para mim digo: para meus olhos ávidos de carinho, ballada de harmonia. As vezes porém, a theatralidade interrompe, bruscamente, o meu sonho de amor, mas, não importa, guardarei seu nome, no recôncavo mais íntimo da minha alma, como uma relíquia sagrada, as horas deliciosas que passei naquella pequenina casa, serão para o meu prazer espiritual, duas preciosas gottas de felicidade, cahida na taça azul da minha mocidade. O pobre sonhador assim gemia, Fitando a nuvem que nos céus passava, Triste filha do espaço, triste escrava Do vento, imagem da melancolia Como tu é ventura fugidia, Que esta alma há pouco, languida, embalava, Hoje presa das garras que lhe crava O rancoroso tédio, noite e dia 48


A nuvem engrossava e o sol brilhante Sumira-se atrás della: o espaço inteiro não tardou em cobrir-se de negror E a nuvem rebentou estrepitante, E um raio desprendendo-se, certeiro, Veio a matar o pobre sonhador Muitos beijinhos para a minha esposinha, santa mulherzinha, deixa o maridinho,

Welfrides de Mattos O livro, companheiro de muitas horas em um tempo distante, parece estar cada vez mais esquecido em um mundo tão veloz, digital, “dinâmico” - para usar uma palavra da moda. Os e-mails, os depoimentos do finado Orkut, os tweets e as publicações no Facebook, aos poucos substituíram mensagens de amor escondidas num livro. Entre as centenas de mercadorias à venda no Parque, os livros estão ali, de graça, disponíveis para qualquer um. Parece lugar-comum a ideia de que o brasileiro não lê e nem se interessa por literatura, mas em meio a um contexto totalmente desfavorável, surgem diversas iniciativas de valorização da leitura, como a pequena e velha estante no Campo de São Bento.

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capítulo I era uma vez “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria.” (Jorge Luís Borges)

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livro é do Paulo Coelho, mas pelas inscrições que se podem encontrar nele dá para perceber que já teve uma grande quantidade de donos. A obra em questão é “O Monte Cinco” de 1996. Na primeira página, a seguinte mensagem: “Maria Célia, que este livro seja um bom companheiro na sua nova caminhada. Beijos e boa sorte na sua trajetória. Dos seus amigos Waldir e Juliana Corrêa”. Maria Célia responde na última página: “Presente de Juliana, Waldir e filhos, Natal de 1996. Adorei!!!”. A obra foi encontrada em um sebo qualquer e levada para uma festa de casamento: era um presente dos noivos para os convidados. “Escolha um e levo-o para casa”. Foi levado, junto com a Maria Célia, a Juliana,


o Waldir e muitos outros nomes e histórias que constavam nele, além da contada pelo autor mineiro.

As mensagens deixadas nos livros causam curiosidade e revelam histórias emocionantes, como a repórter Mariana Filgueiras demonstra na matéria ‘P.S. Eu Te Amo’, publicada em novembro de 2012 no jornal O Globo. Iniciativas como os sebos e os movimentos de difusão à leitura fazem um trabalho difícil e importante num país com cada vez menos leitores. A última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, com dados de 2011, aponta para uma queda de público leitor em praticamente todas as regiões do Brasil, com exceção do nordeste, que teve um aumento de mais de um milhão. A pesquisa mostra também que a leitura nas regiões sul e sudeste é um hábito preferido pelos mais velhos. Essa preferência se deve em grande parte à herança cultural de uma época em que os livros e a literatura se faziam mais presentes na vida das pessoas: serviam para presentear amigos e familiares, e principalmente para conquistar namoradas. Juntamente com as caixas de bombons e as flores, os livros eram a escolha certa na hora da conquista. Em um sebo no centro de Niterói encontra-se um exemplar de “Para viver um grande amor” de Vinícius de Moraes, com a seguinte mensagem: “Esse livro foi o primeiro presente de namoro que ganhei, quando tinha 15 anos”, assina Hilda, em janeiro de 1975. Foi a literatura que juntou também o casal Davi de 69 anos e Vilma Veloso de 62. Formados em Letras, os dois se conheceram no Instituto Benjamim Constant e a leitura

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fez parte da vida dos dois. Deficientes visuais, possuem uma máquina de escrever em Braile em casa e dedicam boa parte do tempo aos livros. Davi, que foi professor de Literatura, também é poeta e tem como tema favorito os problemas sociais. Para os dois, os livros são uma fonte inesgotável de conhecimento e uma forma de viver. “Ler é muito bom. Nos faz viajar por mundos em que nunca estivemos”, afirma Davi.

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Cartas já não adiantam mais

Na música “Eu te Amo” de Roberto Carlos o Eu-lírico afirma: “Cartas já não adiantam mais, quero ouvir a sua voz”, o que mostra uma tendência no mundo moderno, onde as cartas foram aos poucos preteridas por outros meios de comunicação. Assim como os livros, as cartas também fazem parte de um mundo que vai desaparecendo em decorrência do avanço tecnológico, e com elas costumes antigos como as coleções de selo e os cartões de natal. O hábito de mandar cartas é algo tão antigo, que não é possível sequer remontar à sua origem. Pesquisadores apontam que os reis do antigo Oriente Médio já escreviam cartas para se comunicar. Por ser também um dos registros mais distantes, alguns estudiosos apontam, inclusive, que a carta é a mãe de todos os gêneros textuais, ao lado dos mitos e contos populares. No Egito, mais de 4 mil anos antes da Era Cristã, já existiam os “sigmanacis”, mensageiros que levavam recados a pé ou a cavalo. Entre os livros que formam a Bíblia, estão 21 cartas, escritas por Paulo e outros seguidores de Cristo, direcionadas a povos como os romanos e os habitantes da cidade de Corinto, na Grécia Antiga.


No Brasil as cartas chegaram junto com os portugueses. Assim que desembarcou na terra descoberta, Pero Vaz de Caminha se pôs a escrever sua famosa carta à Coroa Portuguesa. Base da comunicação, as cartas e a sua forma de distribuição formaram no imaginário popular figuras como a do “Pombo Correio”, da “Mensagem na Garrafa”, como na história de Robinson Crusoé, e o “Correio a Cavalo”. As cartas de amor, que foram chamadas de “ridículas” por Fernando Pessoa, faziam o coração disparar como na música “Mensagem” (1946) de Cícero Nunes e Aldo Cabral: Quando o carteiro chegou E o meu nome gritou Com uma carta na mão Ante surpresa tão rude Nem sei como pude chegar ao portão

Traço marcante de um tempo onde o romantismo se expressava através de letras simples numa folha de papel, muito antes do “Tinder” e dos milhares de aplicativos e sites que hoje fazem o papel de correio amoroso. Outra característica importante é que o envio de cartas era acessível à maioria da população. Do mais rico ao pobre, todos podiam enviar cartas. Que serviam para tudo: mandar lembranças para família, levar comunicados e desejar “Boas Festas” para quem está distante. O que tornava o setor de correspondências muito lucrativo. No entanto as novas tecnologias como o correio eletrônico (e-mail) e o sistema de mensagens SMS causaram uma grande mudança nesse cenário.

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Hoje, um hábito dos mais velhos, se torna cada vez mais raro a cada dia e mesmo os cartões de Natal estão desaparecendo. O número de correspondências enviadas pelos Correios caiu pela metade no período entre 2002 e 2009 e o faturamento da empresa, que devia 90% do seu total ao serviço, tem atualmente apenas 53% das verbas oriundas da entrega de cartas. A empresa inclusive já começa a se adaptar à nova realidade do mercado, voltando suas atenções para a entrega de mercadorias do comércio eletrônico. Porém, se o costume vem se modificando, ele está longe de desaparecer. Se há pontos do país em que a tecnologia ainda não pôde alcançar, são as cartas que colocam em contato pessoas distantes. A doméstica Valdiléia Antunes, de 44 anos, e o marido José Giziel Pereira, de 43, escrevem periodicamente cartas para a família dele, em Cacimba de Dentro, no sertão da Paraíba. “Ainda não chegou internet lá e ninguém tem computador. A cidade mais próxima que tem internet é Campina Grande, que fica a alguns quilômetros”, afirma ele. Porém, as cartas que são enviadas dificilmente são respondidas, como ela aponta: “Quase não recebemos cartas. As únicas que chegam são cobranças de banco e cartão. Só chega conta para pagar”, diz.

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Uma iniciativa que pode manter a tradição viva é a campanha “Papai Noel dos Correios”, em que crianças de todo o Brasil enviam cartas para o “bom velhinho”. As mensagens ficam disponíveis para que possam ser ‘adotadas’ pelo público e no ano passado mais de um milhão de correspondências foram apadrinhadas.


capítulo II Do papel PARA A TELA “O livro traz a vantagem da gente estar só e ao mesmo tempo acompanhado.” (Mário Quintana)

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livro não mudou, quem mudou foi o leitor, diz o cartaz do mais novo leitor de ebooks (livros eletrônicos) do Brasil, o Lev da Editora Saraiva. O especialista em História da Comunicação e do Livro, o professor Aníbal Bragança concorda em parte: “São dois sistemas culturais que, no momento, se sobrepõem: a cultura impressa e a cultura digital. Não concordo que haja a transição de uma para a outra. A digital substituirá a impressa, a longo prazo. Assim, não se deve falar em transição do livro impresso para versões digitais. Isto é apenas um arranjo provisório, mas o livro impresso não se “acomoda” no digital. O digital é o mundo da convergência, da interatividade, da imagem e do som, além da letra”.

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O especialista em Cibercultura, Leonardo Godinho acrescenta e aponta um novo nicho: “O ebook dificilmente substituirá o livro físico por completo, pois não há uma competição entre os dois mercados. Acredito que o avanço do ebook acompanhará o progresso da tecnologia como um todo, atingindo principalmente as crianças”.

Muitos em um: um aparelho carrega diversas obras, uma das vantagens dos ebooks

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Este novo mundo ainda representa pouco do mercado literário brasileiro. Em 2013, a venda de livros digitais chegou a 2,5% do total do faturamento do segmento, mas os números são positivos. No primeiro ano de atuação dos grandes players internacionais (Amazon, Apple, Google, Kobo) a curva de crescimento superou a do mercado dos Estados Unidos na mesma época. A projeção é da edição mais recente do Global E-book Report, relatório publicado pela empresa de consultoria alemã


Rüdiger Wischenbart. Porém, para Aníbal, não há certeza do futuro. Ele ainda levanta uma questão essencial: a transição do mundo impresso para o digital. “As duas culturas irão conviver não se sabe por quanto tempo. O leitor de livros se sente à vontade no impresso. Apenas usa os ebooks para atender a necessidades eventuais. Quando é difícil ou caro conseguir o impresso ou quando quer fazer uma consulta, e não ler o livro”, disse. Leonardo Godinho retrata a preferência de muitos leitores pelo livro “físico”: “O leitor habitual possui um apreço, um gosto por olhar para a capa do livro, tê-lo na mão e entrar na história do que está lendo. Com o ebook, o leitor usufrui apenas do texto. Acredito que por isso ainda não domina o mercado”. Uma ironia que dói no bolso

Outro fator é o alto preço médio dos livros digitais no Brasil. Henrique Antoun, doutor em Comunicação e Cultura e midiativista, ironiza: “Há um detalhe também que se sobressai nesse mercado de luxo e luxúria que é o do livro. O mais das vezes o preço do ebook brasileiro é maior do que o do livro impresso. Afinal todos sabem como os textos em bits são mais caros do os impressos em papel e tinta”. A previsão é de queda nos preços com a aprovação das modificações na Lei 10.753/2010, que institui a Política Nacional do Livro. Uma das propostas é incluir “equipamentos cuja função exclusiva ou primordial seja a leitura de textos em formato digital” na lista de isenções da Lei que já isenta livros físicos.

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FIPE

certeza Ainda as editoras brasileiras que as vendoque futuro. Ele ainda levantadigam uma questão esdas de ebooks não sejam suficientes para cobrir invessencial: a transição do mundo impresso para oodigital. timento elas têm ao longo últimos na “As duasque culturas irãofeito conviver não dos se sabe poranos quanto produção e conversão dese livros, setor tempo. O leitor de livros senteo àcrescimento vontade no do impresvai ventousa em os popa. De acordo com dados da pesquisa so. de Apenas ebooks para atender a necessidades de ProduçãoQuando e Venda do Setor Editorial, feita o pela Funeventuais... é difícil ou caro conseguir impresdação Instituto de Pesquisas (FIPE), fatuso ou quando quer fazer uma Econômicas consultar, e não ler oolivro”, ramento do mercado editorial comde osmuitos livros disse. Leonardo Godinho retratabrasileiro a preferência digitais entre 2012 e“O 2013 de habitual R$3,8 milhões leitores saltou pelo livro “físico”: leitor possuipara um R$12,7 milhões, 225%. No tê-lo mesmo apreço, um gostoum porcrescimento olhar para a de capa do livro, na período, o faturamento com impressos mão e entrar na história do quelivros está lendo. Com ocresceu ebook, apenas o leitor 4%. usufrui apenas do texto. Acredito que por isso ainda não domina o mercado”. Outro fator é o alto preço médio dos livros digitais no Brasil. Henrique Antoun, doutor em Comunicação e Cultura e midiativista, ironiza: “Há um detalhe também se sobressai nesse mercado de luxo e luxúria que é o do livro. O mais das vezes o preço do ebook brasileiro é maior do que o do livro impresso. Afinal todos sabem como os textos em bits são mais caros do os impressos em papel e tinta...”.

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Outro fator que deve jogar os números para cima é a previsão de aprovação das modificações na Lei 10.753/2010, que institui a Política Nacional do Livro. Uma dasFuturo propostas é incluir “equipamentos promissor: crescimento exponencial cuja função exclusiva motiva ou primordial a leitura de textos em foras empresasseja a continuar a investir. mato digital” na lista de isenções da Lei que já isenta livros físicos. Uma pesquisa de 2013 da Nielson Books revela que as vendas de ebooks autopublicados no Reino Unido cres


ceram 79% no mesmo ano, sendo responsáveis por metade do crescimento do mercado. Aníbal lembra que a autopublicação quase sempre não se faz em forma de livro e sim de textos avulsos. “As possibilidades de venda do livro virtual em redes como a Amazon atraiu novos e antigos autores, mas não apostaria nesse caminho como uma tendência para a publicação de obras de maior fôlego”, disse. Já Antoun explica a questão do lucro para quem publica suas próprias obras: “A autopublicação segue o modelo cauda longa e faz a distribuidora lucrar. É um modelo muito rentável para a loja e pouco rentável para o autor. Essa baixa rentabilidade para o autor certamente limita o desenvolvimento deste negócio”. Passado e futuro começam a se entrelaçar no Brasil, sem necessariamente se excluir. “Aqui, como em outros países, a expressão da vontade de permanência de um mundo ‘velho’ num mundo ‘novo’”, diz Aníbal.

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certeza do futuro. Ele ainda levanta uma questão essencial: a transição do mundo impresso para o digital. “As duas culturas irão conviver não se sabe por quanto tempo. O leitor de livros se sente à vontade no impresso. Apenas usa os ebooks para atender a necessidades eventuais... Quando é difícil ou caro conseguir o impresso ou quando quer fazer uma consultar, e não ler o livro”, disse. Leonardo Godinho retrata a preferência de muitos leitores pelo livro “físico”: “O leitor habitual possui um apreço, um gosto por olhar para a capa do livro, tê-lo na mão e entrar na história do que está lendo. Com o ebook, o leitor usufrui apenas doa texto. Acredito que por isso quem leva mensagem? ainda não domina o mercado”. Outro fator é o alto preço médio“Os dos livros digitais no verdadeiros analfabetos Brasil. Henrique Antoun, doutor Comunicação Culsão os queem aprenderam a ler e nãoe leem.” tura e midiativista, ironiza: “Há um detalhe também se (Mário Quintana) sobressai nesse mercado de luxo e luxúria que é o do livro. O mais das vezes o preço do ebook brasileiro é maior do que do livro impresso. Afinal todos sabem comodia, os e aoindústria dos ebooks parece crescer a cada textos bits são mais caros do os impressos emas papel háem também aqueles que trabalham para que hise tinta...”. tórias impressas no papel não se percam no tempo e que cheguem às mãos do maior número de pessoas pos Outro fator existem que deve jogarprojetos os números para cima sível. No Brasil muitos em andamento é a previsão de aprovação das que modificações namais Lei nesse sentido, como o Livro de Rua, já distribuiu 10.753/2010, a Política Nacional do Livro. de mil livros noque Rioinstitui de Janeiro e a Parada do Livro, ideaUma das é incluir “equipamentos cuja função lizado porpropostas duas universitárias em São Paulo, espalhando exclusiva oudo primordial seja a leitura deobras textosliterárias em forpela capital estado dez estantes com mato digital” na ônibus. lista de isenções da Lei que já isenta lipelos pontos de vros físicos. O Leve o Que Quiser, Traga Quando Puder, citado anteriormente, é outro deles. O responsável pela montagem

capítulo III

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da “biblioteca” ao ar livre é o artista plástico Marcos Vinícius. Desde setembro de 2013 todos os finais de semana Marcos monta a pequena estante de livros no Campo de São Bento, em Niterói, para que os visitantes do parque possam pegar o volume que quiser e devolver quando puder ou passar adiante, e até mesmo deixar um que já leu no local para que possa ser lido por ouAos finais de semana no tro. A iniciativa é tanto um Campo de São Bento, Marcos incentivo à leitura quanto monta a pequena estante de livros. uma forma sustentável de valorizar o livro impresso, explorando o intercâmbio entre leitores.

A preocupação com o esquecimento da cultura do livro estimulou a aluna de Ciência Ambiental, Renata Maciel Ribeiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF) a começar a Corrente do Saber.

“O projeto foi inspirado no bookcrossing, um conceito criado nos Estados Unidos desde o final do século passado.” O termo designa, basicamente, ações voluntárias por parte dos que creem que seus livros terão maior utilidade se lidos por muitas pessoas, ao invés de ficarem guardados em casa. Assim, os adeptos do movimento ‘libertam’ seus livros deixando-os em espaços

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públicos como praças e ruas. “A motivação deste projeto está no incentivo à leitura através do fácil acesso a livros, de forma gratuita, e acaba sendo também um exercício de desapego e cidadania, porque estimula as pessoas a compartilharem seus bens mais preciosos, os seus livros”, disse Renata.

O livros são deixados em praças e ruas para que outros possam ler.

Na posição de futura cientista ambiental, a jovem de 22 anos atenta para a questão da preservação de recursos: “Acredito que a tendência seja mesmo a famosa era digital. A nova geração de crianças e adolescentes estão a cada dia mais se aproximando do desapego total do papel. Isso vem com uma justificativa ecológica fantasiosa de preservação dos recursos, mas a verdade é que tem muito mais interesses por trás de toda essa mídia que deve ser muito bem analisada, para que a gente não abra mão do livro de papel, ou qualquer outra coisa que julguemos ser importante pra nós, pelos motivos errados e deturpados”. 22 18


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ção

certeza Umado bicicleta muitas futuro. eEle aindahistórias levanta uma questão essencial: a transição do mundo impresso para o digital. “As duas Formado há quatro anos emnão Produção pela culturas irão conviver se sabeCultural por quanto UFF, Lucas GarciadeNunes pelas ruas de Niterói com tempo. O leitor livrospedala se sente à vontade no impresaso.Cicloteca. projeto surgiupara em 2012 como ideia em sua Apenas O usa os ebooks atender a necessidades monografia. Inicialmente eraouapenas um circuito cultueventuais... Quando é difícil caro conseguir o impresral noquando interiorquer do Estado de São Paulo, emas temso ou fazer uma consultar, nãocom ler oolivro”, po cresceu e hoje existe aretrata pesquisa dos circuitos, contos disse. Leonardo Godinho a preferência de muitos de bicicleta conhecida objetivo possui do projeto leitores peloe alivro “físico”:Cicloteca. “O leitorOhabitual um éapreço, repensar ocupação do espaço umagosto por olhar para apúblico, capa doincentivando livro, tê-lo naa leitura, o desapego, um trânsito violento cimão e entrar na história do que menos está lendo. Comeouma ebook, dade para as pessoas. então, Lucas recolhe doa o leitor usufrui apenasDesde do texto. Acredito que pore isso cultura na domina forma deo livros com a “Teca” (apelido carinhoainda não mercado”. so dado ao seu meio de transporte). Outro fator é o alto preço médio dos livros digitais no Brasil. Henrique Antoun, doutor em Comunicação e Cultura e midiativista, ironiza: “Há um detalhe também se sobressai nesse mercado de luxo e luxúria que é o do livro. O mais das vezes o preço do ebook brasileiro é maior do que o do livro impresso. Afinal todos sabem como os textos em bits são mais caros do os impressos em papel e tinta...”. Outro fator que deve jogar os números para cima é a previsão de aprovação das modificações na Lei 10.753/2010, que institui a Política Nacionalca”do Livro. e m “Tcuja o c a l a Uma das propostas é incluir “equipamentos função d e p s a c u L , e od a leitura i. textos em forue pseja eróde q t i exclusiva ou primordial e N r p e d m s e S las rua e p mato digital” na lista de isenções da Lei que já isenta li vrosOfísicos. jovem lembra que tudo começou como um circuito cultural para diagnosticar e incentivar os caminhos de Mário de Andrade pelo interior de São Paulo: “Fui cha-

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mado pelo próprio Mário de Andrade, quando ele me gritou para pedalar. Sei que abraçar o mundo é impossível, mas a ‘revolução molecular’ não. Faço na medida do meu tempo, me disponho, hoje principalmente, na Cicloteca”. Lucas vê o futuro dos livros nas telas: “Os eletrônicos têm substituído a leitura em livros físicos, as redes sociais aparecem como forma de socialização e entretenimento, descanso e fuga do turbilhão de tarefas a cumprir. A Cicloteca, na busca por uma resistência, disponibiliza boas temáticas gratuitamente, sem burocracia e troca”. Como resistente, o ciclista diz se sentir mais próximo da leitura quando impressa. “Eu prefiro o papel, quando tenho que ler no computador parece que o texto está mais distante, na verdade não sei explicar direito. É a mesma coisa que receber um e-mail e receber uma carta”. Renata também acredita que a tendência seja a digitalização dos livros, mas diz preferir a versão impressa. “Eu, particularmente, não abro mão do livro na sua forma clássica. O contato com o livro em papel provavelmente deve estimular alguma parte do nosso cérebro adormecida pela tendência de tornar tudo digital. E é maravilhoso. Pareço assimilar muito melhor o conteúdo quando tenho a opção de uma leitura impressa.”, afirma a jovem.

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Ainda não se sabe com certeza o fim desta história. Alguns apontam para uma direção definitiva, mas segundo Renata, uma coisa é certa: “A leitura, o conhecimento e a imaginação vão continuar existindo, seja qual for o seu veículo de comunicação”.


epílogo

“São os livros que nos causam os maiores prazeres e os homens que nos causam as maiores dores.” (Joseph Joubert)

I

niciativas como a Cicloteca e a Corrente do Saber mostram que, se os avanços tecnológicos criaram um novo horizonte para a literatura e a relação entre as obras e os leitores, por outro, esses avanços ainda encontram a resistência da cultura do livro impresso. O livro conta mais do que a história escrita pelo seu autor: conta também as tramas vividas por todos os seus donos, às vezes tão criativas que escritor nenhum poderia imaginar. O primeiro livro, o livro que se ganhou de presente, trazem a lembrança, o cheiro, as imperfeições de momentos que o suporte eletrônico (pelo menos ainda) não consegue reproduzir.

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No entanto, é possível que as novas tecnologias sejam aliadas na difusão do hábito da leitura, tornando a literatura mais acessível. Se um suporte acabará com outro, é algo que ainda não se pode dizer. Talvez esse panorama mude, em um mundo em que as concepções e valores mudam no ritmo do avanço tecnológico. A única certeza que temos é que a literatura, essa sim permanecerá, seja na tela de um smartphone, ou nas páginas amareladas de um livro antigo e roído pelas traças. É difícil dizer se o mundo precisa ou não de livros, mas é simples constatar que o mundo precisa de pessoas melhores e nisso a literatura tem um papel importante. Como disse certa vez o poeta Mario Quintana: “Os livros não mudam o mundo, pessoas é que mudam o mundo. Os livros só mudam as pessoas”.

ção Divulga

E assim, até tempos que ninguém sabe precisar, um livro será deixado no Campo de São Bento ou em qualquer outro lugar do mundo, alguém o levará para casa, o lerá e deixará escritas nele também a sua própria história.

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Instituto de Arte e Comunicação Social

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Eu, por exemplo, gosto do cheiro dos livros. Gosto de interromper a leitura num trecho especialmente bonito e encostá-lo contra o peito, fechado, enquanto penso no que foi lido. Depois reabro e continuo a viagem. (…) Gosto do barulho das paginas sendo folheadas. Gosto das marcas de velhice que o livro vai ganhando: (…) a lombada descascando, o volume ficando meio ondulado com o manuseio. Tem gente que diz que uma casa sem cortinas é uma casa nua. Eu penso o mesmo de uma casa sem livros. - Martha Medeiros

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POR DETRÁS DAS HISTÓRIAS  

Reportagem de Shimene Graça, André Heimlich e Patrick Rosa.

POR DETRÁS DAS HISTÓRIAS  

Reportagem de Shimene Graça, André Heimlich e Patrick Rosa.

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