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Estudos Gerais da Ericeira Nota de Abertura

Edição de Novembro 2013

Crónica de um dia sem história, podia ser o título desta nota de abertura!... Assim pensei eu quando, sentado ao computador, me propus rabiscar um texto, tendo por base o meu dia de hoje, domingo, 24 de Novembro!... Sim, porque ir às compras, ler o jornal, brincar com os netos - tarefas que preencheram o meu domingo, fizeram dele apenas mais um daqueles dias que não se erguem acima na planura indistinta do tempo, de modo a que sempre os possamos divisar no horizonte da memória!... Mas terá sido mesmo assim?!.. Será que foi mesmo desse modo como preenchi as minhas horas de hoje?!... Será que os dias, todos os nossos dias, são assim: preenchidos com tarefas objetivadas em ações visíveis, separadas entre si por iatos de vazio?!... Direi que não!... E verdadeiramente não foi assim o meu domingo , como não foi nunca assim nenhum dos meus dias, como não foi assim nenhum dia de cada um de nós!... Preenchendo os espaços que ladeiam os atos e até inundando os mesmos, há o pensamento!... essa corrente interminável que tem em nós a mesma função dos fluídos na física dos espaços: preencher o vazio da corrente temporal em que corre o nosso eu, enquanto somos e, ninguém sabe de ciência feita, se para além do tempo de sermos!... Não há tempo sem pensamento, como não há homem que não pense, para além do instante e do ato que o materializa!... Somos pensamento antes de nos definirmos nos atos que praticamos por ação ou por ausência dela!... Toda a ação antes de ser ato concretizado, é-o já em potência elaborada no pensamento!... Mas para além dos pensamentos que pela dinâmica da ação transformamos em ato, outros há que correm em nós, nos constroem, nos enriquecem e tanto nos interrogam, como nos colocam perante a interrogação do que somos, como somos, porque somos e para que somos!... No fundo, as interrogações basilares que o homem coloca a si próprio, na ânsia de saber qual o lugar ou o fim que suporta, justifica e responde à razão do ato de criação que nos trouxe aqui a este espaço e a este tempo!... Perguntas!... Perguntas!... Dúvidas,... muitas dúvidas!...É isso que, para além da prévia elaboração da ação, o nosso pensamento não se cansa de produzir!... E respostas?!...talvez algumas!... mas nenhuma que satisfaça à questão das questões, que é a da razão existencial!... E é assim porque o homem não foi criado para conhecer, mas para procurar o conhecimento!... Se o homem conhecesse tudo de si e da verdade das coisas, nada haveria que lhe justificasse a ação!.. ou porque saberia que, independentemente da sua vontade, o desejado não aconteceria, ou porque saberia que o acontecer dar-se-ia independentemente do seu esforço para o acelerar ou contrariar !... Nada do que vamos conhecendo é definitivo, nada do que aprendemos até agora tem valor imutável!... por isso procuramos!.. procuramos sempre!.. .na busca interminável do tempo!.. do tempo em que somos e em que pensamos!.. em que pensamos sempre!.. nos interstícios do tempo da ação em que nos movemos!... e para além dela, sem iatos nem buracos negros em que o pensamento se escoe!... Sem pausas!.. porque a pausa não define o ser!... Apenas o pensamento e a ação que lhe sucede, ou não, nos fazem existir!... Por isso pensamos porque somos!... Por isso, pela força do pensamento, agimos!...na busca duma verdade cuja essência nos escapa!.. e nos escapará sempre!... Ainda que o pensamento para ela nos aponte sempre!...Verdade a que nos leva também, a sensibilidade , a ânsia, e o desejo!... Ânsia de perfeição, de justiça, do belo!... Tudo o que está para além do mutável e relativo que está ao alcance do homem!... Tudo que o que se funde e concretiza num único ponto de luz e esperança!... para onde parece que algo nos leva sempre que pensamos!... Ponto de convergência de toda a sede de ser da alma humana!... Ponto que sentimos falando-nos por detrás da cortina dos nosso pensar!... como que chamando-nos, como que apontando-nos um caminho!.. um caminho que pressentimos como via para a verdade que procuramos e que sentimos para lá do relativo das coisas!.. para lá!.. muito para lá do finito do tempo e do espaço!... muito para lá de tudo!.. do tudo que sabemos ou podemos saber!.. Um ponto de luz e esperança em que se define a harmonia cósmica que nos concretiza como somos, onde somos e porque somos!... Um ponto de Luz e Esperança!.. a que chamamos Deus!... Pensando bem, foi também nisto que me ocupei neste domingo!.. eu, como, provavelmente, muitos homens com eu!... ainda que cada um a seu modo!... Porque é no modo que nos definimos diferentes!.. Não no afã do que procuramos!.. porque aí se define a igualdade que nos torna como somos: Todos homens!... Américo Curado

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Colaboração!... São Martinho de Dume (518/525 – 579) São Martinho de Dume é um dos Padres da Igreja Ibérica. Também ficou conhecido por São Martinho de Braga. Foi, sem dúvida, uma figura que marcou esta zona da Galécia, quer como cristão, quer como humanista e reformador dos costumes. Oriundo da Panónia, actual Hungria, ou como especifica Luís Ribeiro Soares, na sua obra A linhagem cultural de São Martinho de Dume, descendente de panónios, a sua cultura revela um indubitável cunho romano. O seu conhecimento da patrística é muito profundo, tendo como luzeiro Santo Agostinho, de tal modo que, como veremos, a sua obra revela, em grande parte, mas não só, esta sua preferência. Martinho foi um monge que conhecia bem a espiritualidade do Oriente e do Ocidente. Quando veio para esta zona da Galécia colocou ao serviço dos cristãos desta região todo o seu conhecimento, actuando de uma forma dialogante e circunstancial, ou seja, procurou compreender a situação religiosa e espiritual desta região e reformá-la em sintonia com os preceitos do cristianismo romano que o tinha formado. Assim, dando importância à situação, trouxe para esta região uma cultura monástica, que privilegiava uma ascese e uma atitude de grande austeridade para os monges, enquanto afirmava a necessidade de o homem comum praticar uma vida virtuosa, a fim de realizar em si a humanidade. Martinho é conhecido como o apóstolo dos Suevos, povo de origem germânica e que habitava a zona da Galécia. Ora, acontece que os Suevos eram oriundos dessa região de onde este monge também era oriundo. Não é por acaso que é enviado para aqui, pois é um interlocutor privilegiado, conhece bem a forma de pensar deste povo. Além disso, Chararico, rei dos Suevos, era ariano, mas tinha prometido a São Martinho de Tours que se converteria ao cristianismo católico, abandonando a heresia ariana, se o filho se curasse da lepra. A chegada deste Martinho, mais jovem, coincide com a facto de o filho do rei se ter curado dessa terrível doença. Chararico cumpre a sua palavra, converte-se, é baptizado e, conforme o costume da época, quando o rei se converte, converte-se a corte bem como o povo. Com esta conversão inicia-se a sua actuação como conselheiro espiritual, consolidando o cristianismo, mediante uma acção reformadora, acabando, de um modo pacífico, com as heresias ariana e priscilianista. Como monge funda o Mosteiro de Dume de que foi o primeiro Abade e em seguida Bispo. Mais tarde foi Arcebispo de Braga. A sua obra foi redigida nesta região e em função de necessidades muito concretas, tendo em consideração as circunstâncias, a situação real, mas sempre norteado pelo ideal da cristianização católica. Em geral são obras curtas, opúsculos, que tem diferentes funções, consoante aqueles a quem se destinavam. São Martinho redigiu um conjunto de opúsculos que podem ser classificados em três grupos: Obras de carácter ascético-moral, a que correspondem as suas obras morais – Regra da Vida Virtuosa, Da Ira, Exortação à Humildade, Para Repelir a Jactância, O mesmo acerca da Soberba, Da Instrução dos Rústicos, bem como a obra ascética Sentenças do Padres do Egipto; Obras canónico-litúrgicas, que incidem sobre o direito eclesiástico ou sobre as formas da liturgia, tendo como intenção a organização da vida monástica religiosa, de onde a redacção da Colecção de Cânones Orientais, o opúsculo Sobre a Páscoa, bem como a Epístola acerca da Tríplice Imersão; Poesias, as quais revelam a sua profunda religiosidade, com especial menção às poesias intituladas: Na Basílica e No Refeitório. Além disso, no Epitáfio destinado à sua Continua na pág. 3

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Colaboração!... sepultura, dá-nos um testemunho de si próprio, pois é nele que refere: pannoniis genitus, que se pode traduzir por “nascido na Panónia” ou, então, “oriundo da Panónia, filho de panónios”, sendo esta formulação aquela que melhor se adequa, pois devia ser já um romano cristão.. A sua obra é a obra de um humanista e de um cristão, mas de tal modo que o seu humanismo é colocado ao serviço do cristianismo. Por isso, São Martinho representa um marco significativo na cultura religiosa do seu tempo nesta região. Quando nos referimos ao seu humanismo estamos a pensar sobretudo nas suas obras de origem senequista, ou seja, aquelas que foram redigidas com a influência evidente de Séneca, o filósofo estóico, nascido em Córdoba, na península Ibérica. Sob a sua influência redigiu uma das suas mais importantes obras, a saber: A Regra da Vida Virtuosa, simultaneamente uma obra de carácter moral e um espelho de reis, dado que a dedicou ao Rei Miro, na sua qualidade de conselheiro espiritual, também o Da Ira tem a marca de Séneca. Contudo uma outra influência se faz sentir, a de Santo Agostinho, que lhe permite consolidar o cristianismo católico. Destas obras de pendor agostiniano destacamos as seguintes: Da Instrução dos Rústicos, obra que visa clarificar o que é próprio no comportamento de um cristão, fazendo por isso uma crítica às crendices e superstições, pois estas não estão em sintonia com o facto de se ser batizado. Neste seguimento, faz uma crítica aos nomes dos dias da semana, pois estes coincidem com os nomes de deuses pagãos, em que o vício e não a virtude são o seu principal atributo. Porquê chamar aos dias da semana dia de Marte, ou dia de Vénus? A verdade é que no português temos a tradição das Feiras: dia de Marte é 3º feira; dia de Vénus é 6ª feira. Outros opúsculos pertencem a esta tradição agostiniana, como por exemplo a Exortação à Humildade. Assim, para concluir esta breve apresentação sobre a figura de um homem de acção, que consolidou o cristianismo católico nesta região da Galécia, queremos sintetizar do seguinte modo: conhecedor profundo da Sagrada Escritura, assim como dos Padres da Igreja, sendo influenciado sobretudo por Santo Agostinho, conhece também a religiosidade dos Padres do Egipto, ou seja, a religiosidade oriental, bem como o pensamento estóico, sobretudo Séneca, pensamento cujo pendor moral foi tão importante para o cristianismo, nestes séculos tão importantes para o seu fortalecimento e crescimento, dentro da ortodoxia da fé. Homem viajado, sabia que a circunstância, a situação concreta tinham de ser interpretadas e, eventualmente, corrigidas com moderação e tolerância, mas tendo sempre como guia a matriz cristã. O seu esforço não foi efémero, bem pelo contrário, foi bem duradouro, porquanto os seus discípulos expandiram a sua lição, de tal modo que São Martinho de Dume é considerado um dos Padres da Igreja Ibérica. Redigido em Lisboa, a 11 de Novembro de 2013, dia de São Martinho de Tours de quem São Martinho de Dume foi um jovem émulo.

Maria de Lourdes Sirgado Ganho

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Colaboração!... LISBOA – MOURARIA Em 711, vindo do norte de África um exército muçulmano atravessa o Mediterrâneo desembarcando perto do Monte Calpe (hoje chamado Rochedo de Gibraltar) e inicia a conquista da Península Ibérica. Problemas de sucessão de um Rei Visigodo, povo que dominava então a Península, deram origem a este facto. Ulishbona (1) acaba por cair sob o domínio árabe, tendo o nome sido mudado para al- Ushbuna. Esta civilização vinda da península arábica, soube aproveitar o saber que os Gregos tinham deixado e beneficiando da riqueza mineral e animal, existentes na Ibéria, conseguiu manter a supremacia sobre os povos então aí existentes. A este novo território passaram a chamar al – Andaluz. Os conhecimentos que possuíam de medicina, farmacologia, engenharia, física, química, matemática, cartografia, agricultura, entre outros, eram incomparavelmente superiores aos dos povos dominados. Nas Astúrias um conde visigodo Pelágio, juntou um grupo de nobres e iniciou a reconquista do território. Deste movimento aproveitaram-se também os reinos e condados vizinhos. Afonso Henriques, foi um dos condes, que com as terras conquistadas transformou o condado em reino. As conquistas cada vez se faziam mais para Sul. O rei português, auxiliado pelos cruzados que passavam a caminho da Terra Santa iniciou a tomada do castelo de al- Ushbuna. Dominados os mouros, assim se chamava aos árabes aqui estabelecidos, devido à sua origem berbére, o rei autorizou a todos os que pretendessem manter-se no território que outrora fora seu, a permanência, mediante o pagamento de um tributo. Poderiam fixar-se em local por ele determinado e exercer as suas profissões, contribuindo também para o desenvolvimento da região e ser- lhes ia permitido continuar a manter a religião que professavam e os seus costumes. Assim nasceu a Mouraria, no sopé da colina de Sant’Ana em terreno fértil e irrigado por um esteiro do rio Tejo e por 2 ribeiras. Em seu redor as hortas que abasteciam a cidade foram crescendo. Um dos cais de Lisboa situava-se onde ainda hoje se chama o Poço do Borratém. Este típico Bairro Lisboeta ainda mantém a disposição dos arruamentos, só as hortas desapareceram, pois se espalhavam por onde hoje estão as ruas da Palma, do Benformoso, Poço do Borratém, largo Martim Moniz e toda a área envolvente, chegando onde hoje existe a Av. da Liberdade, então campos de Valverde. Sobre a origem do nome rua da Palma existe uma lenda e uma hipótese. A Lenda conta-nos que durante a conquista de Lisboa, acabou por morreu um cruzado germânico Henrique de Bona, fidalgo, companheiro de armas de D. Afonso Henriques, homem bom e muito estimado pelos seus subalternos. Dois compatriotas deste nobre, surdos-mudos, crendo estar ele na presença de Deus, dirigiram-se à sua sepultura pedindo-lhe para interceder junto do Divino, para que lhes fossem dados os dons de falar e ouvir. Ali se mantiveram longo tempo rezando, até que adormeceram. Sonhando, viram o cavaleiro aparecer-lhe sem armadura nem armas, vestido de romeiro e transportando na mão uma folha de palmeira, que lhes disse: - Levantaivos e falai. Tendo-se esfumado a aparição acordaram e comentaram o sucedido, ficando admirados por falarem e ouvirem o que diziam. A história acabou sendo conhecida daqueles que ainda não tinham partido para Jerusalém bem como de todos os que por cá ficaram. A hipótese também, de aquele local ser conhecido por rua da Palma advém do costume que existia, de se atribuir o nome de um sítio a alguém cuja importância tornava o local conhecido. Parece ter vivido no séc. XIV uma família descendente de genoveses, que aí possuíam hortas e casas e cujo nome seria Palma. Certezas ninguém tem, mas o nome perdura. A rua do Benformoso, acaba também por ter origem nas hortas aí existente. Naquela zona, uma delas possuía um boi, animal ímpar e bonito a que chamavam o “boy formoso” (2). O bovídeo acabou por desaparecer, mas o nome foi ficando até que por corruptela se transformou no Benformoso. Esta rua nos seus primeiros tempos era uma das saídas de Lisboa. À sua volta só existiam hortas. Tudo se modificou quando da abertura da rua da Palma no séc. XIX. A CML tem intenção de demolir uma parte dos prédios aí existentes a fim de proceder ao alargamento da rua do Boy Formoso. Continua na pág. 5

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Colaboração!... Para finalizar iremos conhecer a razão de se chamar a um determinado local, o Poço do Borratém. O nome deriva do árabe ‫( بئر‬ber) - poço e ‫( ا��تين‬atten) – figueira : Beratten, (que os anos acabaram por mudar para Borratém). O poço da figueira é um dos muitos poços que em épocas remotas serviam para abastecimento de água à população de Lisboa. Muito perto fica a Praça da Figueira levando-nos a pensar que em alguma das hortas próximo, existiria uma figueira peculiar. As águas desse poço serviam toda a população dessa área e abasteciam também certamente banhos árabes: “ o grande poço do Borratem, muy abundante de agoa, de que bebe a mayor parte da sua vizinhança, como tomando banhos nela …” Alguns dos locais onde se situava o abastecimento da água a Lisboa mantém os nomes que os recordam: Azinhaga da Fonte (Carnide), Quintas das Fontes (Benfica e Olivais), Fonte Velha (Lumiar). Poço do Bispo, Poço dos Mouros (Penha de França) … Este Bairro Alfacinha, para além destas curiosidades toponímicas possui alguns edifícios dignos de serem visitados. Destaco a Igreja de Nª Sr.ª do Socorro e o Coléginho anexo, que foi a primeira casa que a Companhia de Jesus possuiu no mundo inteiro, apresentando já alguma degradação, depois de ter sido abandonado pelo Exército.

Igreja de Nª Sr.ª do Socorro

Coléginho

Num estado de degradação muito grande está “O Colégio dos Meninos Órfãos”, mandado erguer pela mulher de D. Afonso III, para receber meninos órfãos e onde se encontra actualmente instalado um Centro de Dia. A porta principal possui um arco manuelino e serve de entrada a uma Esquadra da Policia. Toda a escadaria está forrada de azulejos

E assim aqui ficam mais umas estórias da história, resumo da última aula dada. (1) Supõe-se ter sido este o nome visigodo da cidade não existindo confirmação. (2) Segundo Norberto de Araújo Outros elementos recolhidos de: CML – Toponímia e Ruas de Lisboa com História.

Normando Sereno

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ABERTURA SOLENE DOS ESTUDOS GERAIS DA ERICEIRA “ORAÇÃO DE SAPIÊNCIA” Tempo e Navegação Magnífico Reitor dos Estudos Gerais da Ericeira Exmo. Sr. Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira Caros Alunos Minhas Senhoras e Meus Senhores

Quando recebi o convite do Magnífico Reitor para proferir a oração de sapiência na abertura solene do ano lectivo dos Estudos Gerais da Ericeira, aos quais tenho tido o grato prazer de dar o meu humilde contributo como docente, senti-me naturalmente honrado e lisonjeado e aceitei. Mas fiquei algo apreensivo pois, apesar de ter uma larga experiência de ensino, nunca proferi nenhuma aula num ambiente como este, numa igreja, para uma audiência tão especial e cheia de saber que a vida já conferiu, mas ao mesmo tempo tão diversificada no seu nível e área de conhecimentos. E ainda por cima com o epíteto de “oração de sapiência”!!. Que posso eu saber, com suficiente interesse para vos transmitir, neste ambiente de espiritualidade e de culto, que não seja demasiado técnico e desinteressante?. Incentivado pela minha amiga aqui presente Noémia Barros, personagem essencial a esta Escola de Vida, pensei que teria de escolher um tema abrangente mas obviamente ligado à Navegação, que é a minha área de conhecimento, e que tenho leccionado também aqui nos Estudos Gerais. Tentei tratá-lo de forma simplificada e o mais interessante possível mas desculpar-me-ão alguma terminologia mais técnica, à qual não consigo fugir. “Tempo e navegação” é assim o tema escolhido no qual abordaremos um pouco da história da medição do tempo e a forma como a navegação está totalmente dependente desta capacidade. Costumo definir Navegação, não como uma verdadeira ciência ou arte, de que também se compõe, mas sim como um conjunto de técnicas apoiadas em conhecimentos, princípios e conceitos científicos, que permitem ao navegador conduzir um navio de um porto de partida a outro de chegada, em permanente controlo e segurança e também, habitualmente, pelo trajecto mais rápido. Para isso a navegação compreende 2 tarefas básicas: a orientação, que nos define a direcção a seguir e para o que usamos agulhas magnéticas ou girobússolas, e o posicionamento que constitui a capacidade de determinarmos a posição do navio, pelos métodos mais diversificados ao nosso alcance. Esta é a tarefa mais envolvente do navegador e é de certa forma sobre ela que aqui falaremos. Faremos assim uma reflexão sobre a importância do parâmetro tempo para o posicionamento em navegação, desde a época das descobertas até à actualidade. A relação do tempo com o espaço ou distância percorrida é a expressão chave desta reflexão que está presente no processo de cálculo da posição na carta e no princípio de funcionamento da maioria dos equipamentos e sistemas de navegação que foram e são utilizados. Digamos que sob o lema do parâmetro tempo revisitaremos de forma ligeira e abreviada a história do posicionamento em navegação, para o que seguiremos o seguinte sumário. O tempo é uma grandeza, um parâmetro de definição complexa, particularmente na nossa língua em que a palavra pode envolver diferentes significados. Trata-se de um conceito de certa forma abstrato, pois não é directamente visível nem palpável, mas que o Homem, desde o início da sua existência se apercebeu existir. O nascimento, crescimento e envelhecimento dos animais, a sucessão das plantações e colheitas, a repetição periódica dos movimentos dos astros, todos constituíam evidências de que, com determinada periodicidade se repetiam os mesmos cenários, inspirando-o para a necessidade de contabilizar estes ciclos e assim contar o tempo. Daniel Boorstin escreveu no seu maravilhoso livro “The Discoverers” que “O tempo foi a primeira descoberta do Homem”. Há mais de 5000 anos o Homem, no Egipto, conseguiu definir a duração da primeira unidade de tempo o ano, baseando-se na observação do regime de cheias do rio Nilo e utilizando poços chamados Nilómetros, nos quais registava e observava o nível das águas. Descobriu mais tarde que ao longo desse período apenas num único dia a estrela Sirius, que é a mais brilhante do céu, também chamada Canícula, por pertencer à constelação do Cão Maior, nascia alinhada com o Sol. Esse dia ocorria no período mais quente desse ciclo e passou a ser usado como o começo e final do ano. É daí aliás que deriva o termo canícula que utilizamos quando queremos referir um período muito quente e seco. Depois estabeleceram um calendário de 12 meses, cada um deles com 30 dias, sendo a unidade dia inspirada no movimento diurno do Sol, entre 2 passagens consecutivas deste astro pelo mesmo meridiano. E foi de facto nos astros que o Homem encontrou a principal inspiração para a medida do tempo. Os dias sucediam-se às noites e no céu a Lua aparecia periodicamente com a mesma forma, parecendo ainda regular outros fenómenos da natureza e da vida humana. Percebia-se que o tempo existia mas não se sabia como medi-lo. Surgem então vários instrumentos como as clepsidras ou relógios de água, relógios de azeite, as

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ampulhetas e relógios de Sol. Estes tornaram-se mais populares e utilizados visto que o Sol determinava a maior parte da actividade humana, permitindo o trabalho durante o dia e sugerindo o descanso durante a noite. Foi pois o movimento diurno deste astro que inspirou a criação desses relógios, os quais no entanto não seriam utilizáveis para medições rigorosas, particularmente a bordo dos navios. Visto que o Sol apresenta uma velocidade variável na sua órbita aparente – a eclíptica, os dias solares i,.e, medidos com o sol teriam duração diferente ao longo do ano. Por isso o Homem teve necessidade de criar um conceito a que chamou de Sol médio, imaginário e idealizado para ter um movimento aparente regular. Os dias, as horas e as subunidades que actualmente medimos com os nossos relógios resultam deste Sol médio. Quando se houve falar em Horas médias de Gw, por exemplo, estamos a referir a tempo medido com base nesse Sol imaginário. Mas as unidades menores (minuto e segundo) são parâmetros relativamente recentes pois só em meados do século XVII passou a ser possível medir o minuto, fruto de uma evolução da relojoaria mecânica, entretanto operada em instrumentos utilizados em terra. Desde então o Homem foi conseguindo medir tempos cada vez mais curtos e com maior exactidão e, graças a uma extraordinária evolução tecnológica, na actualidade os relógios atómicos, baseados no batimento de cristais de césio, isto é no ritmo de oscilação da energia de um átomo, conseguem medir uma ínfima fracção do segundo. Como já referi a prática da navegação envolve como uma das principais competências a determinação da posição e é nesta vertente que a relação entre o tempo e o espaço se torna determinante, nos mais diversos aspectos. A determinação da posição envolve a obtenção de um ponto na carta ao qual correspondem as 2 coordenadas geográficas Latitude e Longitude. No entanto, apesar de já serem conhecidos os movimentos da mecânica celeste e de já dominar métodos de posicionamento astronómico, o Homem, até ao sec XVIII não conseguia determinar a sua posição em navegação oceânica com rigor suficiente, pois não tinha processo de determinar a coordenada Longitude, visto não dispôr de meios rigorosos de medição do tempo a bordo. Assim os nossos navegadores dos séculos XV e XVI determinavam a latitude, através da observação do Sol ao meio dia, isto é, na passagem meridiana, operação a que chamavam “pesar o Sol”, e usavam a agulha magnética ou bússola para determinar a direcção do movimento. A velocidade era estimada consoante a mareação e regime do vento ou utilizando instrumentos, como a barquinha. Apesar de ser pouco rigorosa servia para o cálculo da distância percorrida. A posição do navio era então calculada com base no tempo decorrido, executando um método que era chamado de carteação e estima. Para medir com algum rigor os intervalos de tempo relativamente curtos, utilizavam outros processos e unidades empíricas, como a duração de uma avé maria, ou instrumentos como a ampulheta. Portanto podemos concluir que mesmo para este método empírico de carteação e estima o tempo já era um parâmetro fundamental para a navegação, apesar de não ser possível medi-lo com rigor. No fim de contas o posicionamento era conseguido resolvendo uma das mais evidentes equações da mecânica – a 1ª Lei do movimento rectilíneo e uniforme que relaciona o tempo com o espaço percorrido, através de uma velocidade que se tem de assumir constante. Esta relação dist = vel x tempo é talvez a primeira que aprendemos em física. É muito limitativa dado que assume uma velocidade constante ou média que no mar pode variar por efeito de correntes, ventos, etc. Apesar da simplicidade desta equação ela tem sido a base para o princípio de funcionamento da maioria dos equipamentos e sistemas utilizados em navegação e, como adiante veremos, ainda hoje o é. Entretanto a evolução que se verificou no século XVII nos mecanismos de relógios conduziu à capacidade de indicação da sub divisão do minuto “o segundo” (por ser a 2ª subunidade). Este apareceria nos relógios de pêndulo e caixa alta a partir da década de 1670 o que viria permitir um extraordinário desenvolvimento da astronomia nos observatórios que entretanto surgiram na Europa. Mas estes relógios não funcionavam nos navios no mar, onde as condições de instalação e funcionamento eram evidentemente muito diferentes e desfavoráveis. Relógios de pêndulo instalados em navios em movimento, atrasavam-se ou adiantavam-se ou mesmo deixavam de funcionar. A ocorrência de inúmeros naufrágios por erros de posicionamento que provocaram grande quantidade de vítimas, veio dar origem a que surgissem prémios pecuniários avultados para quem conseguisse resolver o problema da determinação da longitude. Entre muitos prémios destacava-se o estabelecido pelo parlamento britânico que oferecia 20.000 libras em ouro para quem encontrasse a forma de calcular com rigor a longitude no mar. Este prémio resultou de um enorme naufrágio sofrido por uma esquadra inglesa ao encalhar junto das ilhas Scilly, a Oeste da Cornualha, na sequência de um erro grosseiro em longitude. A competição que entretanto se desencadeou na comunidade científica entre matemáticos, astrónomos e artífices de relojoaria durou ainda muito tempo e acabou por ser um homem inglês de origens humildes, John Harrison que, sem formação académica, nem aprendizagem em relojoaria, haveria de desenvolver ao longo de 40 anos, 5 relógios suficientemente rigorosos para serem usados a bordo no cálculo da longitude. O nº 4, que viria a Lisboa em viagem de experiência em 1736, cumpria esse desiderato.

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Os relógios de Harrison eram praticamente livres de fricções pelo que dispensavam lubrificação e limpeza, sendo construídos com material resistente à corrosão, mantendo as suas partes móveis em equilíbrio, independentemente dos movimentos da plataforma. O relojoeiro eliminou o pêndulo e misturou diversos materiais nos seus mecanismos para que estes reagissem às mudanças de condições de funcionamento de forma equilibrada e compensada. Desde que foi possível medir o tempo com rigor a bordo ficou resolvido um dos maiores problemas da navegação. Para melhor compreendermos este assunto explicaremos de uma forma simplista e sucinta que a medição do tempo com rigor veio permitir determinar a Longitude dado que, ao pretendermos posicionarmo-nos relativamente a um astro que observamos a uma determinada hh,mm e ss e se é conhecida e tabelada, para esse momento, a posição desse astro relativamente a Gw, então conseguimos determinar a nossa posição relativamente a este meridiano, isto é a nossa Longitude. Esta determinação está, no entanto, muito dependente do rigor do instante de observação pois o erro de apenas 1 minuto de tempo provoca um erro de 15 minutos de arco em longitude (quase 30 Km no Equador). Portanto o tempo rigoroso é um parâmetro fundamental para a navegação astronómica. Mas a astronomia de posição, apesar de fornecer um rigor suficiente para a navegação oceânica está sempre muito dependente de condições meteorológicas favoráveis à observação e, apesar da sua permanente actualidade, foi deixando de corresponder aos requisitos necessários para o posicionamento em navegação. É então que o físico e matemático escocês James Maxwell nos finais do século XIX, e posteriormente o alemão Heinrich Hertz desenvolvem a teoria do electromagnetismo, estudando métodos de produção e propagação de ondas electromagnéticas, o que constituiu uma das maiores descobertas dessa época, senão mesmo a principal. Em parte, graças a estes 2 físicos o Mundo nunca mais foi igual. Tudo o que envolve a área das comunicações, sobre os mais variados modos: rádio, televisão, internet e outras tecnologias, está dependente da produção, transmissão e propagação de ondas, que não vemos mas que na actualidade inundam o nosso espaço. Uma das principais descobertas de Heinrich Hertz foi a de que essas ondas se propagam no espaço vazio em linha recta e à velocidade da luz. Como esta conclusão viria a ser fundamental para a navegação. De facto a teoria do electromagnetismo veio dar origem a um colossal desenvolvimento tecnológico a que se assistiu durante o século XX em todos os campos de actividade, com particular incidência na utilização de ondas rádio, em especial nas tecnologias de comunicação, de detecção e de posicionamento. Foi o que aconteceu na II Guerra Mundial pois, como é habitual, a ocorrência de conflitos de grande escala favorece o desenvolvimento tecnológico em áreas ligadas à indústria de defesa. É assim que surgem equipamentos e sistemas, utilizando a propagação de ondas rádio, ou ultra sonoras para utilização no mar, com o fim de detectar e localizar alvos ou para a simples determinação da posição, que nesta época já carecia de requisitos de rigor que a velha navegação astronómica não fornecia. De seguida e de forma muito sucinta referiremos alguns dos equipamentos e sistemas que resultaram do extraordinário desenvolvimento tecnológico que ocorreu na 2ª metade do século XX e que continua na actualidade mais recente e concluiremos que todos eles são invariávelmente controlados ou baseados numa medição rigorosa de tempo. Não entrarei em casos muito específicos mas como verão, a maior parte é do vosso conhecimento. Concretizemos: O RADAR O Radar foi concebido no princípio do séc XX mas sofreu o seu principal desenvolvimento no início da II Guerra Mundial com o intuito de detectar e medir a distância aos aviões da Luftwaffe que se deslocavam para atacar as Ilhas Britânicas. Essa é de facto a vocação deste equipamento: detectar e medir distâncias com base na reflexão de impulsos de energia electromagnética, medindo o seu tempo de trajecto. Cá está de novo o tempo, com o qual se calcula a distância ao alvo, assumindo uma propagação em linha recta à velocidade da luz (300.000 Km /s). O radar funciona portanto como um relógio para, a partir da medição do tempo obter a distância. O SONAR O Sonar surgiu ainda durante a I Guerra Mundial com a finalidade de detectar e localizar submarinos alemães, mas diz-se que a sua utilização terá sido motivada pelo desastre do Titanic. O seu funcionamento é semelhante ao do radar pois mede igualmente o tempo de trajecto de impulsos, neste caso ultra-sonoros que se propagam na água a uma velocidade aproximadamente constante de 1500 m/s. A sonda, que é um sonar que se destina prioritariamente à navegação, é um equipamento fundamental para o navegador, particularmente quando a navegar em águas costeiras e portuárias, para medir a profundidade abaixo da quilha. No campo dos sistemas de radiolocalização a II Guerra Mundial veio também dar origem ao desenvolvimento de vários sistemas que, utilizando a propagação de ondas rádio permitiam a determinação da posição no mar. E faziam-no utilizando a relação já referida entre o tempo e a distância. Assim a maioria dos sistemas baseavam-se na medição do tempo de

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trajecto de sinais rádio transmitidos por estações em terra. Medindo esse tempo era possível determinar as distâncias às estações e posicionar-se relativamente a elas, sendo as linhas de posição hipérboles representadas em cartas especiais. Alguns destes sistemas foram fundamentais para permitir um acesso mais seguro a portos da Europa que entretanto se encontravam minados, mas aos quais era possível aceder através de estreitos canais, rocegados pelos draga-minas e para o que se tornava necessário navegar com grande rigor na posição. Estes sistemas de radiolocalização que operaram durante a 2ª metade do século XX não conseguiam isoladamente satisfazer todos os requisitos da navegação. Uns ofereciam um grande alcance cobrindo grandes áreas mas não ofereciam suficiente rigor para a navegação junto à costa. Eram os sistemas oceânicos LORAN e OMEGA. Outros conseguiam alto rigor na posição mas tinham alcance limitado pelo que eram vocacionados para zonas costeiras como o DECCA. SISTEMAS DENAVEGAÇÃ POR SATÉLITES Na década de 70 o Departamento de Defesa dos EUA começou a desenvolver os estudos para a implementação de um sistema de posicionamento com fins militares, mas que rapidamente foi aberto à utilização civil e que é actualmente muito conhecido pela maioria dos presentes – O sistema GPS. O sistema GPS (Global Positioning System) veio destronar todos os sistemas de radiolocalização existentes por reunir os requisitos de alcance e de rigor para todos os tipos de navegação, e daí a sua popularidade e abrangência a todos os tipos de aplicação militar e civil, em terra, no mar, no ar, em telemóveis, para controlo de frotas, seguimento de espécies, localização de náufragos etc. E como funciona o GPS? Básicamente da mesma forma que o radar, o sonar e os sistemas de radioposicionamento referidos, medindo tempo. Neste caso o tempo que o sinal de cada satélite leva a chegar ao receptor. Como o sinal rádio se propaga à velocidade da luz torna-se possível determinar a distância do satélite ao observador e daí a posição do mesmo. Com uma constelação de 24 satélites a medição deve ser feita a pelo menos 4 deles para obter a posição. A única dificuldade, e não é pequena, é que os satélites estão em movimento, ao contrário das estações em terra dos sistemas atrás referidos. Mas tal como se sabem as posições dos astros a cada momento ao longo do seu movimento diurno e aparente, também a posição de cada um dos satélites do GPS é perfeitamente, determinada e conhecida pelas estações de seguimento em terra para cada hora, minuto, segundo e até nanosegundo. Para a medição dos tempos de trajecto com o rigor necessário os satélites dispõem de 2 relógios atómicos e o receptor um…. É tudo uma questão de tempo. Mas o sistema GPS é um sistema americano, cuja operação depende totalmente da vontade política e estratégica do seu governo, o qual pode determinar o degradar do rigor do sistema, como aconteceu em guerras recentes ou até suspender a sua operação. Por factores externos pode também sofrer empastelamento, o que retira a capacidade do utilizador de receber os sinais dos satélites em condições. Por estas razões, e por outras de ordem geopolítica, outras potências vieram a desenvolver os seus próprios sistemas de radiolocalização por satélites, sendo de referir o sistema GLONASS que começou a ser construído ainda no período da guerra fria pela União Soviética, e que se encontra já operacional. O sistema GALILEO, em desenvolvimento pela União Europeia, para fornecer posicionamento de alta precisão, fiável, dirigido principalmente para utilizadores civis e de forma a evitar a dependência externa dos EUA. Prevê-se que venha a estar totalmente operacional em 2019. Também outras potências como a China e a União Indiana começaram a desenvolver os seus sistemas de satélites. O sistema chinês, apelidado de COMPAS prevê-se que fique operacional em 2020 GNSS O que importa salientar é que estes sistemas de posicionamento por satélites, incluindo os que estão ainda em fase de desenvolvimento, têm a mesma base de funcionamento, a medição do tempo de trajecto dos sinais que, seguindo uma trajectória directa chegam ao receptor. A única diferença entre estes sistemas reside nas frequências de transmissão dos satélites e nos códigos dos sinais. Por isso, em vez de constituírem alternativa e concorrência entre si, podem antes, em conjunto, constituir um projecto de integração que através da sua interoperabilidade permita partilhar o serviço das diferentes redes de satélites, melhorando assim a geometria de conjunto, visto que os receptores podem ser preparados para receber os diferentes sinais e códigos. Este sistema integrado e já denominado Global Navigation Satelite System, que se encontra ainda em fase de desenvolvimento, garantirá o futuro da navegação e posicionamento para as próximas décadas. CONCLUSÃO Todos os métodos e sistemas de posicionamento tiveram, têm e terão sempre alguns pontos fracos, mas sejam quais forem as soluções de futuro, haja ou não necessidade de recorrer a métodos mais antigos de posicionamento, como alternativa de emergência, ou se venham a desenvolver novos sistemas e metodologias de posicionamento, todos estarão inexoravelmente dependentes do tempo e da sua medição rigorosa. No fim de contas: É tudo uma questão de tempo.

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Mas deixando esta temática muito técnica e específica, com a qual possivelmente vos macei, permitam-me que termine estendendo esta conclusão de forma abrangente às nossas vidas. Sim, porque, como bem sabeis, também nas nossas vidas tudo é uma questão de tempo! Somos todos prisioneiros desta realidade invisível e impalpável, ao longo da qual crescemos, aprendemos e envelhecemos. Com o passar do tempo também esquecemos, perdoamos e curamos males. O que é interessante reflectir é que o tempo só existe para o Homem! Nós somos o único animal finito, pois só nós temos consciência que a nossa vida tem limite no tempo. Henri Amiel referiu que “O tempo nada mais é que a distância entre as nossas lembranças”. Temos de concordar pois o Homem é, de facto um ser de lembranças e de memórias. Mas também de projecto. De memória porque o passado não deixa de existir, antes constitui um capital que gravita no presente, o condiciona e o configura. “ Eu sou … Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. Quanto amei ou deixar de amar … escreveu Pessoa Mas o Homem é também um ser de projecto, de futuro que não sabe viver sem planear, sem sonhar, sem procurar. Não serão os nossos navegadores dos Descobrimentos um bom exemplo disso ??? E da mesma forma que o passado permanece vivo no dia de hoje, também o futuro está de certa forma contido no presente. A presença estimulante do futuro no presente é o que chamamos Esperança. Falar de futuro aos alunos dos “Estudos Gerais da Ericeira”, nos dias que correm só pode ser falar de Esperança. A mesma que sentimos existir no entusiasmo que ainda colocais na vossa vida, na vontade de aprender e conhecer mais, e na disponibilidade do vosso tempo para nos ouvir.

Bem Hajam! É que o tempo apenas falta a quem não sabe aproveitá-lo. Disse

João Facada

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Efemérides!... as cousas mais especiais que se contem neste mês!... Novembro. 1 de Novembro de 1755 . Ás 9h30m da manhã Lisboa sofreu um Terramoto, que ligado a um maremoto e ao deflagrar de um incêndio, destruiu uma parte considerável da cidade.

23 de Novembro de 1221. Nascimento do futuro rei de Castela Afonso X o Sábio, organizador da maior compilação poético musical da Idade Média, As Cantigas de Santa Maria, escritas como todas as suas obras poéticas em galaico-português, cuja audição se aconselha vivamente. Disponíveis na Internet

24 de Novembro de 1504. Morte de Isabel a Católica, rainha de Leão e Castela, casada com Fernando de Aragão, casamento que deu origem à união dinástica, que com a filha de ambos, Joana a Louca, deu origem à Espanha moderna.

26 de Novembro de 1095 . O Papa Urbano II lança o seu apelo à Cruzada, para a libertação da Terra Santa. João Gil

Aniversariantes Novembro 2013 Dia 09 - Prof. Dr. Fernando Catarino Dia 15 - Sr. Francisco Silva Dia 18 - D. Lucinda Calhandro Dia 20 - Comand. João Facada Dia 21 - Dr. Vasco Ribeiro Dia 22 - D. Noémia Dolores Barros Dia 22- D. Maria Lucília Almeida Dia 22 - D. Antónia Garrido Catramelo Dia 29 - D. Maria Rolanda Marques

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Notícias!.. Abertura do Ano Lectivo Tradicional e oficialmente nos nossos Estudos Gerais, o ano lectivo inicia-se com a chamada Oração de Sapiência. A cada um e de um modo aleatório se pede a quem leciona, uma pequena dissertação do seu saber. Da sua Sapiência e do seu entender. É uma espécie de programa, do caminho que se pretende seguir e do modo como o pretendemos fazer. Num primeiro tempo surgirá a dúvida: - o que é que eu vou dizer? Depois do “ AH! Já sei…”, outra questão se levanta: “Como é que eu vou dizer isto?” “De gravata”? Seguramente. “De pé? “Óbviamente . “Virado práquela gente toda?” Como não podia deixar de ser! “…e se eu me esquecer? Fuja! Vá-se embora! Baze! Num segundo tempo o pânico absorve-nos: Deixei de dormir bem…acordo 4 horas mais cedo do que me é habitual…os meus intestinos ameaçam rotura a qualquer momento … e as traças devoraram parte da minha gravata favorita! Horror dos horrores : não sei onde estão os papéis que escrevi! Num terceiro tempo alguém anuncia o meu nome… caminho já não sei para onde nem para quê…sinto-me muito mais pequeno do que aquela barata que subia a escada do púlpito… e só me ocorre uma palavra: meu DEUS!!! Recordamo-nos então que o título do evento era Oração de Sapiência. Para esta tudo fiz, mas só agora nos lembramos daquela. E como tudo seria mais fácil se antes de começarmos qualquer coisa, a pedíssemos a Quem nos pode e quer ajudar. Diz quem sabe, que tudo seria diferente e bem melhor. Mas este ano nada disto aconteceu. Novas tecnologias, novo som, um microfone sem fios! Um DataShow que se liga a um computador e lança tudo o que eu sei numa espécie de lençol branco sem rugas! E o público? Que público! Ouvem-me atentamente! Nada me perguntam! Nem tossem…encheram o espaço! um sucesso. Apetece-me cantar! Felizmente apetecia a mais gente. Felizmente havia um coro para me acompanhar. Eram os nossos amigos DaCapo e daquele maestro da Rua do Norte que nos “arrepiaram” com um espantoso Amazing Grace. E as Avé Marias? Nem sempre aquela Igreja da Santa Casa ouviu tanto e tão bom. Mais um Ano Lectivo. Mais uma Oração de Sapiência sobre um Tempo que nos faz nascer, viver e esperar por mais. E mais um dos muitos tempos que desejamos ao nosso Magnífico Reitor que nos honrou com a sua presença naquele dia tão importante e inesquecível da sua vida.

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João Gil


Notícias!.. Os Estudos Gerais da Ericeira organizaram no passado dia 21 de Novembro (5ª feira), mais uma das suas Visitas de Estudo e desta vez a Cascais, visitando o Museu Biblioteca Condes de Castro Guimarães, seguido de um almoço no Palácio Seixas, antigo Forte de Santa Catarina e acabando na visita ao Palácio da Cidadela de Cascais, propriedade da Presidência da República. Relativamente ao primeiro podemos dizer que o mesmo nasce por iniciativa do seu proprietário Conde Manuel Inácio de Castro Guimarães, que por testamento de 1924, legou à vila de Cascais, através da Câmara Municipal, a sua moradia (Torre de S. Sebastião), com todo o recheio, incluindo o importante espólio bibliográfico, os jardins que envolvem a Torre e a Capela do mesmo orago (um templo de finais do séc. XVI). A história do Palácio da Cidadela de Cascais cruza-se com a dos chefes de Estado de Portugal da Monarquia à República. Utilizado como residência de veraneio da Casa Real a partir de 1870, o Palácio da Cidadela ficou afecto à Presidência da República após a mudança de regime em 1910. Habitado por vários Presidentes da República Portuguesa – de Manuel de Arriaga a Bernardino Machado, na I República, ou Óscar Carmona que aí fixou residência oficial durante o Estado Novo – o Palácio passou depois por um longo período de abandono. Em 2004, e por iniciativa do actual Presidente, seguiu-se um processo de reabilitação do edifício, conduzido pela Presidência da República, com verbas disponibilizadas pelo Turismo de Portugal, que culminou na sua abertura ao público, pela primeira vez na história, do Palácio da Cidadela de Cascais. Percorremos assim as salas de aparato do Palácio, a capela de Nª Sra. da Vitória, o antigo quarto do Rei D. Luís ou a sala árabe que serviu de gabinete de trabalho do Presidente Craveiro Lopes e muitas outras magníficas dependências deste palácio. Ambas as visitas foram guiadas por profissionais. Tivemos também o privilégio de levar connosco a Sra. D. Mª Isabel Gonçalves, que com todo o seu saber deu uma lição nos jardins do Palácio dos Condes de Guimarães sobre a azulejaria existente. No intervalo das duas visitas fomos presenteados com um magnífico almoço no Palácio Seixas, graças à disponibilidade e simpatia do nosso Professor Sr. Comandante Luis Ágoas. E foi assim, que mais uma vez 48 participantes regressaram à Ericeira com o sabor de que é bom fazer parte da família dos Estudos Gerais. A aula de 26 de Novembro, do nosso Magnífico Reitor, denominada “O Ambiente na Ericeira” foi dedicada aos “Castanheiros”. Para além de uma pormenorizada explanação sobre os castanheiros, suas origens, locais de cultivo, folhagem, tipo de madeira, aplicações, seu fruto e demais pormenores, tivemos todos o privilégio de assistir a uma mini-aula de culinária, onde aprendemos a assar castanhas no microondas. Para quem não esteve presente aqui fica a receita para poderem experimentar em casa:: Dêem um golpe no sentido horizontal na base da castanha, ou seja, na parte mais larga. Coloquem as castanhas numa taça que possa ir ao micro-ondas. Coloquem sal q.b., salpiquem com água e agitem a taça de modo a que todas as castanhas fiquem embebidas nesta salmoura. De seguida coloquem a taça no micro-ondas durante 6 minutos! Em caso de necessidade, podem interromper a meio tempo esta operação para dar uma volta nas castanhas. O teste final foi efectuado pelos alunos presentes na aula, tendo as mesmas sido acompanhadas por um Favaios, à falta da nossa amiga Jeropiga..... Resultado: Nota 10 !!!! Parabéns ao nosso Magnífico Reitor. Noémia Barros

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Um livro por mês

Ano Sabático Autor: João Tordo Ed: Publicações D. Quixote - Alfragide - Janeiro de 2013 Nº de Páginas: 205 PVP: 15,90 euros

Até à leitura deste livro João Tordo era para mim um simples desconhecido! Embora já com vários livros publicados e apesar de, acerca destes, ter lido algumas referências, nunca a minha atenção tinha sido despertada para a sua escrita!.. Acho que foi uma distração de que tenho de me penitenciar!... O livro que me trouxe a João Tordo e que aqui vos trago hoje, revela um autor com uma capacidade narrativa e uma escrita solta, num verbo vivo mas ao mesmo tempo sério, capaz de prender o leitor não através dum esforço intelectual, mas antes como se de um ato lúdico se tratasse, em que apenas o desenrolar da trama com que se tece o enredo passa a contar, na indiferença do tempo que não se sente correr!... A obra que tem por personagem central Hugo, músico, contrabaixista de jazz, alguém que, já na casa dos quarenta anos, ainda não se encontrou na vida e que nessa busca inglória, vai deixando que a curva do tempo se vá transformando na curva descendente do seu tempo, e que um dia, se encontra com alguém - Luís Stockman - que física, mental e psiquicamente é, nem mais nem menos, do que o complemento da sua personalidade, numa aparente oposição entre o seu lado falhado e perdido num mundo onde nada consegue concretizar e o outro, realizado, aparentemente estável, rico e socialmente estimado e quase idolatrado; caminhando nos mesmos trilhos mas concretizando-se em Luís aquilo que em Hugo não consegue ir além de sonhos que, de não realizados, em frustração destruidora se vão tornando. Estamos perante uma obra que, através duma trama muito bem urdida, entra no mais fundo da alma humana deixando ao leitor um mundo de interrogações sobre quem somos como seres que nos julgamos únicos e em que a afirmação da nossa individualidade é também a afirmação do nosso modo de ser, sem cópias ou simples semelhanças; ou apenas a emersão de algo que, na sua aparente singularidade, transporta, em si, dados, modos, expressões e visões que mais não são do que pontos de partilha, ou pontas de fios, cuja completude apenas se encontra, explica e realiza no encontro com a nossa complementaridade, expressa esta algures no mundo da humanidade e, também ela, conscientemente ou não, à procura dos elos que justificam e completam o seu sentido de existência. Este é, em linhas muito gerais, o modo com o autor entrelaça os fios com que constrói o tecido da obra que aqui vos apresento. Mas mais do que a obra em si mesma, cuja leitura vivamente recomendo, importa sublinhar a presença de um autor que, no seu modo de formar conteúdos de escrita, pertence a uma nova classe de escritores que, de livro em livro, vão transformando, de modo sustentado, a literatura de língua portuguesa em algo que já não é apenas um simples produto de consumo interno, mas em obras que deixaram de nos pertencer apenas a nós para se transformarem em criações com conteúdo, qualidade e capacidade de universalizarem, não apenas a mensagem e o mensageiro, mas também a árvore cultural de que são fruto!... no fundo, o retorno pela cultura, ao universalismo que nos define como povo. Américo Curado

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Espaço de Saúde!.. GRIPES Estamos na época das gripes O melhor que pode fazer é reforçar o seu sistema imunológico através de uma alimentação correta e saudável, no sentido de manipular sua imunidade, preparando suas células brancas do sangue (neutrófilos) e os linfócitos (células T) as células B e células matadoras naturais. Essas células B produzem anticorpos importantes que correm para destruir os invasores estranhos, como vírus, bactérias e células de tumores. 
As células T controlam inúmeras atividades imunólogicas e produzem duas substâncias químicas chamadas Interferon e Interleucina, essenciais ao combate de infecções e de tumores. Antes de mais, tome pelo menos um litro e meio de água por dia, pois os vírus vivem melhor em ambientes secos e manter suas vias aéreas húmidas desestimulam os vírus. Não a tome gelada, sempre preferindo água natural e de preferência água mineral de boa qualidade. Não tome leite, principalmente se estiver resfriado ou com sinusite, pois produz muito muco e dificulta a cura. Use e abuse do Iogurte natural, um excelente alimento do sistema imunológico. Coloque bastante cebola na sua alimentação. Use e abuse do alho que é excelente para o seu sistema imunológico. Coloque na sua alimentação alimentos ricos em caroteno (cenoura, damasco seco, beterraba, batata doce cozida, espinafre cru, couve) e alimentos ricos em zinco (semente de abóbora). Faça uma dieta o mais possível vegetariana . Coloque na sua alimentação salmão, bacalhau e sardinha, excelentes para o seu sistema imunológico. O cogumelo Shiitake também é um excelente anti-viral, assim como o chá de gengibre que destrói o vírus da gripe. Evite ao máximo alimentos ricos em gordura (deprimem o sistema imunológico), tais como carnes vermelhas e derivados. Evite óleo de milho, de girassol ou de soja que são óleos vegetais poli-insaturados. Importante: mantenha suas mãos sempre bem limpas e use fio dental para limpar os dentes, antes da escovação. 
 Com esses cuidados acima e essa alimentação... os vírus nem chegarão perto.

Tomaz Sardinha tel. 964 195 826 e-mail: thomazsardinha@gmail.com Tomaz Sardinha

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Galeria de fotos

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A Magia da Pintura nos Estudos Gerais

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Aguarela de M. Clara

Ficha Técnica "EGE EM NOTÍCIA" Propriedade dos Estudos Gerais da Ericeira, Valência da SCME Redacção: Rua do Caldeira, 62 - 2655 – Ericeira Telefone: 261862386 E-mail: estudosgerais@scm-ericeira.pt Diretor: Dr. Américo Curado Editor: SCME Design e Composição: Fernando Tavares Colaboradores: Dr. Américo Curado; Noémia Barros; Todos os Professores e Alunos dos EGE

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Jornal dos EGE - Edição Novembro 2013