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Bibliotecária: Helena Joana Flipsen - CRB-8ª / 5283 C279a

Castro, Maria Eugênia de. Astrologia & budismo : conversa entre dois saberes milenares / Maria Eugênia de Castro e Gustavo Alberto Correa Pinto. -Campinas, SP : Saberes Editora, 2011.

ISBN 978-85-62844-14-0 1. Astrologia. 2. Budismo. 3. Ciências ocultas. 4. Religião. I. Pinto, Gustavo Alberto Correa. II. Título. CDD - 133.5 - 294.3 - 135.4 - 200


Copyright by © Maria Eugênia de Castro e Gustavo Alberto Correa Pinto, 2011 Direito desta edição Saberes Editora, 2011

Editores Lenir Santos Luiz Odorico Monteiro de Andrade Capa Julio Lapenne Projeto gráfico e editoração Valéria Ashkar Ferreira Revisão Anna Carolina Garcia de Souza Fotografia Sandra Fanzeres Áudio Saberes Editora

Av. Santa Isabel, 260 - sala 5 B.Geraldo - Campinas, SP - Brasil CEP 13084-012 Fone +55 19 3288.0013 saberes@sabereseditora.com.br www.sabereseditora.com.br

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistema eletrônico, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros meios quaisquer.


Agradecimento

Ao meu querido amigo Luiz Augusto Figueira, os meus mais efusivos agradecimentos. Sua presença constante a meu lado, ao longo desses últimos vinte anos de trabalho na elaboração de livros, têm sido um incentivo, uma ajuda preciosa e uma inestimável troca de aprendizados. Obrigada por ter participado de todos os nossos livros, tornando-se presença ­imprescindível. Mais uma vez, meu eterno muito obrigada. A Lenir e Odorico, agradeço o convite para participar desse diálogo com ­Gustavo sobre Astrologia & Budismo. Foi uma grande felicidade reencontrar esses três amigos amorosos e tão inteligentes. Sou grata também à vida, ao destino e aos céus por mais esse presente. Maria Eugênia


Índice

17 21 27

Prefácio

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Sabedorias milenares: descobertas mútuas

41

Astrologia e budismo: teoria do carma

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O budismo, o eu e a reencarnação

61

Astrologia e herança cósmica: DNA cósmico?

69

A liberdade é uraniana e a libertação é budista

79

O amor venusiano e a liberdade uraniana

Apresentação A astróloga e o monge: das estrelas para as estrelas


83

A influência da astrologia no coletivo e no individual

91

Livre-arbítrio: destino, determinismo, dilema existencial...

99

Felicidade búdica e felicidade astrológica

115

O bem e o mal: dualidades estanques ou faces da mesma moeda?

127 135

Budismo, astrologia e desejo

141

O caminho do meio no budismo e na astrologia

153 159

Dois sábios recados

Competitividade e inveja: dois espinhos de Marte e Plutão

Agradecimentos


Prefácio

Se prefaciar um livro significa fazer uma apresentação de seu conteúdo, sei que também pode ser uma breve apresentação de seu autor, e é essa última forma que vou adotar neste pequeno texto. Maria Eugênia, há muito tempo, é para mim sinônimo de astrologia, portanto, nesse caso, conteúdo e autora são praticamente a mesma coisa. Como dizia Machado, “as palavras talvez não sejam propriamente essas, mas vinham a dar ­nelas”. Neste livro, que vocês lerão com muito prazer, ela se une a Gustavo, meu estimado mestre budista, outro amigo, conhecido mais tarde nos mesmos cursos da Cândido Mendes citados no texto por


Astrologia & Budismo. Conversa entre dois saberes milenares

Eugênia, ao I-Ching e congêneres. Professor de fluência ímpar, transmite brilho ao nos passar textos do pensamento oriental, muitas vezes tão distantes da lógica aristotélica a que estamos tão acostumados no ­ocidente. Interessante é que, em momento posterior, quando fiz meu mestrado em psicanálise, conhecimento que me fascinou primeiramente com a descoberta de Freud, esse gênio que alguns insistem em nomear como antifilósofo, e logo depois com Lacan, que Elisabeth Roudinesco, historiadora da psicanálise, em seu mais recente livro lembra que foi “o único, entre os herdeiros de Freud, a dar à obra freudiana um arcabouço filosófico e a arrancá-la de seu esvaziamento biológico, sem com isso descambar no espiritualismo”. Essa afirmação é corretíssima, e meu testemunho é no sentido de que me tornei mais agnóstico do que já era, coisa que Eugênia vive tentando me convencer do contrário e que Gustavo diz que tudo bem, pois servirá apenas para que eu me surpreenda muito logo na minha primeira ­re­encarnação. Mas, convicções à parte, o fato é que, em meu primeiro escrito psicanalítico de algum porte, eu tentava fazer uma ligação da pulsão em Freud com o caos da física e um dos capítulos se trata de uma articulação com o I-Ching, um dos saberes que comecei a conhecer exatamente em aulas do Gustavo. Isso só confirma o que vocês lerão logo ao início deste livro, quando ele diz que “estamos todos, por caminhos diferentes, acessando um saber sem fronteiras, aquilo que, no passado, no Ocidente se chamou de filosofia perene [...] Quem do interior de uma tradição vislumbrar a matriz de 18


Prefácio

origem, que é comum, saberá que estamos todos falando da mesma coisa”. Aproveitem bem a sabedoria contida nos diálogos deste livro. Wilson Nogueira Rodriguez

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Apresentação

Maria Eugênia é uma daquelas pessoas que nos surpreende o tempo todo por sua sabedoria ao olhar, por meio de cálculos matemáticos, a dança dos astros no mapa astral, da hora do nascimento à partida, e interpretar suas influências no cotidiano de quem a consulta. Suas interpretações astrais, sempre carregadas de conhecimentos de quem viveu observando a vida com inteligência e sensibilidade, nos impressionam diante da harmonia com a realidade presente. Conheci a Maria Eugenia quando ain­ da estava na faculdade, na cidade do Rio de Janeiro. Dirigia-me pelo menos uma vez ao ano à Ipanema, onde ainda reside. Ainda faço isso de vez em quando, mesmo mo-


Astrologia & Budismo. Conversa entre dois saberes milenares

rando em outro estado. Sempre me vejo em sua sala de visita azul, aguardando-a para revê-la como amiga e ouvi-la como sábia, porque uma amizade surgiu entre nós. Uma amizade que teve início por meio de um amigo comum, com quem acabei me casando e do qual não poderia deixar de falar aqui devido à grande amizade que os unia e a quem ela sempre se refere como ausência sempre presente. Guido Ivan, um dos cofundadores da SARJ, Sociedade de Astrologia do Rio de Janeiro, que teve a Maria Eugênia como idealizadora e, durante muitos anos, sua presidente. Maria Eugênia é especial. São poucas as pessoas que passam por nossa vida como um ser especial: mestre, guru, xamã. Pessoa ímpar, dotada de um complexo de conhecimento e sabedoria que nos tornam mais conscientes de nossas fragilidades e fortalezas, nos iniciando na arte do autoconhecimento por meio das estrelas. Olhar o céu para entender a Terra; olhar os astros para compreender os acontecimentos e saber que tanto as alegrias quanto o sofrimento são frutos da mesma moeda e que ela nunca permanece o tempo todo com apenas uma face à mostra. A alternância faz parte da vida e de nosso aprendizado rumo à maturidade. Sempre me chamou a atenção sua sensibilidade para entender os dramas da vida, sem julgamento. Entender o indivíduo em sua humanidade, um caleidoscópio de possibilidades que ora pode avançar, ora aquietar, fazer a guerra, a paz, sem contudo nunca deixar de evoluir para alcançar os ensinamentos dos mestres que moram nas estrelas. Ela também nunca perdeu sua alma romântica, venusiana, que enxerga no amor a ponte entre os seres humanos para a evolução. 22


Apresentação

Gustavo, monge budista, o conheci inicialmente por meio da Maria Eugênia. Ela convidava todos para cursos, palestras e ler livros dele. Gustavo sempre esteve presente nas consultas da Maria Eugênia por meio das citações e referência a ele que ela faz em seus ensinamentos astrológicos. O budismo nos faz refletir sobre a evolução humana no sentido mais pleno da palavra, por não vincular o crescimento e a felicidade pessoal às conquistas materiais, o que é tão comum no mundo ocidental. O indivíduo tanto pode alcançar a iluminação com uma vida da mais absoluta simplicidade como pode, nesse cotidiano inquieto e cheio de percalços, ruídos, disputas, competição, manter-se centrado em sua essência transcendental e encontrar em si mesmo a paz que equivocadamente se busca fora de nós. Gustavo é uma dessas pessoas que, em seu cotidiano, na cidade de São Paulo, como professor universitário de filosofia, se mantém irmanado com o material e o imaterial, cuidando da família, dos filhos, dos amigos e de seus discípulos. Sua grande cultura e conhecimento da filosofia oriental, centrada na busca da felicidade, está desprendida de qualquer outra pretensão que não seja estar em estado de contentamento. A união desses dois saberes milenares – a astrologia com seis mil anos e o budismo com dois mil anos – se firma neste diá­logo que Maria Eugênia e Gustavo Pinto mantiveram durante um dia todo em Ipanema, no Rio de Janeiro. Um livro que traz ao leitor momentos de grande transcendência, lhe permitindo refletir sobre a vida. Foi um dia de grande alegria e serena energia para todos que participaram. Além das palavras, havia mais, e esse mais 23


Astrologia & Budismo. Conversa entre dois saberes milenares

está neste livro. Nossos leitores perceberão a energia que emerge da leitura. As sabedorias milenares encontram ressonância em nossas ancestralidades, e assim todos os leitores certamente se sentirão parte deste livro-diálogo entre Maria Eugênia de ­Castro e Gustavo Alberto Correa Pinto, mediado por mim e Odorico Monteiro. Lenir Santos Editora

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A ASTRÓLOGA E O MONGE: DAS ESTRELAS PARA AS ESTRELAS


O primeiro passo ĂŠ a metade da caminhada. Pensamento budista


Lenir Santos – Maria Eugênia, a astróloga, olha as estrelas para entender a vida na Terra, e Gustavo Pinto, monge budista, olha a vida na Terra para alcançar as estrelas. Falem de suas experiências na astrologia e no budismo. Maria Eugênia exerceu outra profissão não relacionada à astrologia? Maria Eugênia – Sempre gostei muito de estudar, acho um grande privilégio ter acesso ao conhecimento. E, desde cedo, incentivada por um pai erudito e leituras multidisciplinares, vários cursos me atraíram. Primeiramente, fui professora de crianças e adultos. Depois, descobri a astrologia e fui me apaixonando por ela. Na época, havia muita dificuldade: não existiam livros nem professores, muito menos cursos. O Rio de Janeiro era um de­serto astrológico... Os poucos livros dis­po­níveis eram estrangeiros, alguns mui­­to ruins e caros. Eu estava numa fase


Astrologia & Budismo. Conversa entre dois saberes milenares

muito difícil. O primeiro livro de astrologia que pude adquirir foi um exemplar com um pouco de texto e um pouco de arte, e tive de pagar em dez prestações. Mesmo assim, não sei bem por que, eu insistia, procurando e tentando. Às vezes as pes­ soas me emprestavam livros e eu copiava trechos, houve épocas em que uma amiga dedicada datilografava outros trechos para mim. Não havia copiadoras, não havia recursos. Digo que sou uma astróloga AC, antes do computador. Foi muito difícil começar. Era como se eu estivesse sendo testada... Era para ter desistido. Passei três anos pesquisando e, como não dispunha de livros técnicos suficientes, pedia às pessoas conhecidas para me passar sua data de nascimento. Calculava os mapas e checava se correspondiam ao que eu havia lido e ouvido. Em três anos, fiz mais de 360 mapas, só como estudo e comprovação. Só depois desse tempo todo ousei realizar consultas astrológicas. Minha primeira cliente foi uma pessoa muito simples. Ela levou o filho pequeno porque não tinha com quem deixá-lo. O garoto, sem saber, foi um símbolo de boa sorte... Já a segunda cliente foi uma pessoa de situação diametralmente oposta e me recomendou muitas outras. E assim eu comecei. Até hoje, me dedico a esse trabalho, que atende pessoas de todos os mundos... Mas todas elas têm um padrão comum: são “manuais de astrologia” em que leio os diferentes matizes do ser humano, todos cheios de amor, realizações, ambições, angústias, frustrações, medos. Mas, sobretudo, e felizmente, muita esperança. É nesse ponto que a astrologia pode ajudar. Ela fala do nosso futuro. Você pode até saber quem foi ou quem é, mas, muitas vezes, não tem a menor ideia do que ainda pode vir a ser. Já 30


A astróloga e o monge: das estrelas para as estrelas

dizia Shakespeare: We know what we are, but know not what we may be. Lenir Santos – Como começou essa paixão? Foi um despertar lento ou de repente você se sentiu uma astróloga? Maria Eugênia – Pela falta de bons cursos organizados, entrei em um grupo de oito jovens. Todos tinham ouvido falar de astrologia. Diziam absurdos, liam livros antigos com ideias radicais e afirmações categóricas. Eram verdadeiras maldições. Dizia-se, por exemplo, que quem tiver Vênus em quadratura com Saturno no mapa natal, nunca será feliz no amor, entre muitos outros disparates. Eu não sabia quase nada, mas não concordava. O céu não podia ser só uma fonte de recados fatídicos e irrefutáveis. Comecei a ler muito e a confrontar os mapas com pessoas conhecidas. Minha curiosidade pelas criaturas e a vontade de provar a veracidade da astrologia chegou a tal ponto que o assunto se transformou numa paixão, num hobby e numa vocação. Eu tinha a maior paciência para calcular os mapas (levava-se mais de uma hora para fazer os cálculos), mas tinha muito prazer em explicar aos amigos a respeito de seus vários potenciais e de suas dificuldades. Até hoje, levo a fama de ser muito otimista e de só querer ver o melhor dos indivíduos. Na verdade, tenho o hábito inato de exaltar as qualidades de cada um, pois todos temos um conjunto delas. Nossas qualidades são nossos trunfos e podem resolver ou eliminar nossos defeitos internos e externos. 

“Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser”. (N. do E.)

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Astrologia & Budismo. Conversa entre dois saberes milenares

Lenir Santos – Gustavo, como se deu sua introdução no budismo? Quando despertou para essa vida de iluminação interior? Gustavo Pinto – Ainda muito jovem, eu me considerava ateu, por causa da minha primeira aula de religião. Fiz o primário em escola pública e depois meus pais me colocaram em um colégio religioso. Na primeira aula de religião, o padre começou a falar sobre céu e inferno, então eu levantei a mão e disse: “A pro­ fessora de geografia desenhou na lousa Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Plutão... Onde fica o céu e o inferno no meio disso tudo?”. Fui expulso da sala de aula. Ainda me lembro de sair da sala resmungando: “Mas eu só queria saber onde fica!”. Meu pai tinha muitos livros. Quando cheguei em casa, fui procurar munição para desafiar o professor e encontrei um livro bem pequeno, Por que não sou cristão, de Bertrand Russel. A partir da aula seguinte, comecei a ser expulso por causa dos argumentos que disparava, sem citar a fonte. A partir disso, julguei ser ateu. Até que, com 17 anos, um amigo me deu um livro sobre budismo. Eu era um leitor voraz da área de ciências humanas, mas não tinha o menor interesse por religião. O impacto da primeira frase (que não lembro qual era) foi tão grande que eu não saí de casa naquele dia, passei o dia lendo o livro. Já era de madrugada, todos dormiam, quando terminei a leitura. Eu sabia que havia encontrado o caminho da minha vida. Mas também já tinha lido o suficiente de psicanálise para que o superego me alertasse: “Ô rapaz, com 17 anos todo mundo encontra o caminho da vida três vezes por semana”. Mas eu disse que não, que no meu caso era diferente, pois eu tinha certeza de que o budismo era o meu caminho. 32


A astróloga e o monge: das estrelas para as estrelas

Em seguida, tive uma ideia que naquela época soava absurda e inviável. Estamos falando do começo da década de 60, quando não se falava em budismo no Brasil. Pensei em me tornar monge budista. O superego, sempre de plantão, rapidamente tomou seu lugar: “Ei, cara, acorda, você vai ter de trabalhar para fazer faculdade, como vai se tornar monge budista?” E eu respondi: “Como, eu não sei, mas vou”. Vinte anos depois, tendo passado por algumas coisas que o vulgo diria ser impossíveis, eu estava no Japão, com a cabeça raspada, olhando a lua cheia, quando ouvi a voz do adolescente dizendo: “Como, eu não sei, mas vou”. Naquele momento, já ordenado, eu sabia um pouco como é que eu chegara até ali. Mãos invisíveis me conduziram, uma presença magna de luz abrira portas e tornara possível, o impossível. O Buda me conduzira ao que eu não conseguiria alcançar sozinho. Eu nasci budista, só que em um contexto sem referências que me permitissem saber disso. Foram necessários 17 anos para que num livro eu me reconhecesse, e depois mais duas décadas para que encontrasse a tradição na qual me ordenei, a Escola da Terra Pura (que em japonês se chama Shinshu), no Japão. Foi só ao iniciar meus estudos em Shinshu que descobri uma curiosa coincidência. Nosso fundador, Shinran Shonin, morreu em 16 de janeiro de 1262, e eu nasci em 16 de janeiro, 686 anos depois. A cada ano, no mundo todo, a Escola da Terra Pura celebra, nessa data, o Hoonko, sua festa magna, o ofício em memória do fundador. No Brasil, o ritual tradicional começa no dia 14, se estende por três dias e é concluído em 16 de janeiro. Ou seja, em 1948, o ritual começou quando minha mãe (que nada sabia sobre o budismo) já sentia os primeiros sinais de que o filho estava prestes a ­nascer. 33


Astrologia & Budismo. Conversa entre dois saberes milenares

Em São Paulo, o ritual terminou, como sempre, em torno das onze da manhã. Eu nasci às 12h30. No fim da longa celebração, há sempre um almoço informal em que se toma saquê. Gosto de imaginar que naquele ano um monge adormeceu e, às 12h30, sonhou com um templo muito grande que na época ainda não existia. No altar, um monge brasileiro oficiava em japonês. Quando despertou de seu sonho, o monge julgou ter bebido demais.

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Astrologia e Budismo - primeiro capítulo