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RUMINANTES

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ANO 10 | 2020 JUL/AGO/SET (TRIMESTRAL) PREÇO: € 5.00

A REVISTA DA AGROPECUÁRIA WWW.REVISTA-RUMINANTES.COM

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RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020


EDITORIAL

REVISTA RUMINANTES 38 JULHO AGOSTO SETEMBRO 2020

DIRETOR Nuno Marques nm@revista-ruminantes.com COLABORARAM NESTA EDIÇÃO Ana Barradas, António Avelino, António Castanheira, António Moitinho, Bruno Pateiro, Carlos Vouzela, César Novais, Clément Cirot, David Crespo, Dinis Miranda, Diogo Ribeiro, Emanuel Freitas, Emanuel Garcia, Enrique Fraile, George Stilwell, Helder Alves, Henrique Cordeiro, Huw Mcconochie, Joana Silva, Joana Tomás, João Pedro Barbas, João Santos, Joost Janssens, José Caiado, José Freire, Luís Raposo, Mafalda Cordeiro, Manuel Rovisco, Maria da Conceição Baptista, Mário Cordeiro, Mário Fróis, Miguel Vacas de Carvalho, Nuno Tavares, Paulo Rato, Pedro Castelo, Pedro Dinis, Pedro Viterbo, Teresa Costa. PUBLICIDADE E ASSINATURAS Nuno Marques comercial@revista-ruminantes.com REDAÇÃO Francisca Gusmão, Inês Ajuda, Margarida Carvalho FOTOGRAFIA Francisco Marques

C

aro Leitor, começo este editorial com uma felicitação à empresa Fertiprado que completa 30 anos de existência. Numa entrevista que deu à Revista Ruminantes para esta edição, o seu fundador, David Crespo, mostrou-se contente com o caminho que a Fertiprado percorreu até se tornar na empresa fornecedora de soluções de pastagens e forragens de elevada produção e qualidade por que hoje é conhecida. Em 1990, quando a empresa começou, “as pastagens e forragens cultivadas ocupavam pouco ou nenhum espaço nas explorações agropecuárias, e os ruminantes alimentavamse sobretudo de pastagens naturais dos pousios e incultos, geralmente muito degradadas, complementadas com restolhos e palhas de cereais, em explorações com encabeçamentos diminutos”. Hoje existe uma maior consciencialização dos agricultores relativamente à importância da qualidade das forragens e da sua adequação às condições edafoclimáticas, porquanto estes fatores condicionam o número de animais num determinado espaço. As abordagens e os processos para se conseguir produzir forragens e pastagens em maior quantidade, e com melhor qualidade, são diversos e por certo existirão aspetos positivos em todos eles. Neste número da Ruminantes falámos com agricultores que olham a agricultura por uma perspetiva regenerativa, que tem como princípio repor no ecossistema sempre mais do aquilo que dele se extrai. Para a maioria, a medição da rentabilidade do

negócio baseia-se no lucro por hectare de uma forma sustentável a longo prazo. De facto, se pensarmos nos propósitos de uma empresa comercial de qualquer ramo, não podemos deixar de fora quer o lucro quer a responsabilidade social. Porém, tratando-se uma empresa agrícola, a responsabilidade para com a terra explorada nunca pode ser descartada. Em qualquer circunstância, o rasto que deixamos nela deve ser positivo. Quando a passarmos de mão, deverá estar em igual ou melhor condição do que quando pegámos nela. Entrevistámos também, nesta edição, um agricultor de Idanha-a-Nova que utiliza os seus cães pastores Border Collie de forma imprescindível na gestão diária dos seus rebanhos. Mais a sul, no Alentejo, falámos com produtores que usam o maneio animal para melhorar a qualidade das suas pastagens, reduzindo progressivamente o recurso aos fatores de produção. Muitos dos agricultores que nos contaram as suas experiências são pessoas ávidas de conhecimento, que procuram constantemente melhorar a sua formação para melhor entenderem a forma de gerir os seus negócios com sucesso. É bom perceber que as gerações mais novas encaram a agricultura como uma ciência, que para ser entendida tem que ser estudada. Ver o que se faz noutras explorações, noutras paragens, é sempre benéfico para quem quer aprender. Boas férias.

Nuno Marques

DESIGN GRÁFICO E PRÉ-IMPRESSÃO Francisca Gusmão fg@revista-ruminantes.com IMPRESSÃO Jorge Fernandes Lda Rua Quinta Conde de Mascarenhas nº9, Vale Fetal 2825-259 Charneca da Caparica Telefone: 212 548 320 ESCRITÓRIOS E REDAÇÃO Rua Alexandre Herculano nº 21, 5º Dto 2780-051 Oeiras Telemóvel: 917 284 954 geral@revista-ruminantes.com PROPRIEDADE/EDITOR Aghorizons, Lda / Nuno Marques Contribuinte nº 510 759 955 Sede: Rua Alexandre Herculano nº 21, 5º Dto. 2780-051 Oeiras GERENTE Nuno Duque Pereira Monteiro Marques DETENTORES DO CAPITAL SOCIAL Nuno Duque Pereira Monteiro Marques (50% participação) Ana Francisca C. P. Botelho de Gusmão Monteiro Marques (50% participação) TIRAGEM 5.000 exemplares PERIODICIDADE Trimestral REGISTO Nº 126038 DEPÓSITO LEGAL Nº 325298/11 O editor não assume a responsabilidade por conceitos emitidos em artigos assinados, anúncios e imagens, sendo os mesmos da total responsabilidade dos seus autores e das empresas que autorizam a sua publicação. Reprodução proibida sem a autorização da Aghorizons Lda. Alguns autores nesta edição não adotaram o novo acordo ortográfico. O "Estatuto Editorial" pode ser consultado no nosso site em: www.revista-ruminantes.com/estatuto-editorial www.revista-ruminantes.com www.facebook.com/RevistaRuminantes

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SUMÁRIO

#38 JULHO AGOSTO SETEMBRO 2020

08 Ovinos Romane Entrevista a Helder Alves, produtor em Garvão

12 Criopreservação de sémen Uma técnica essencial no melhoramento genético

18 Queijo Herdade dos Caeiros Produzir queijo de ovelha a partir de leite de pasto

22 Pré-starter na recria Experiência de utilização em borregos Suffolk

26 Nutrição e stress por calor Os aminoácidos essenciais na dieta de vacas leiteiras

30 Metionina e reprodução O papel da nutrição no desempenho reprodutivo

34 Fertiprado faz 30 anos Entrevista a David Crespo, fundador, e sua equipa

38 Leite do Nordeste Entrevista a um produtor da Ilha açoriana de S. Miguel

40 Produzir leite na R.Irlanda A importância da valorização das pastagens

42 Produção leiteira irlandesa Estabelecer metas para a produção é essencial

44 Mais saúde com menos custos Programa ProCross numa exploração açoriana

48 Prevenção do stress térmico Os efeitos da gama de aditivos Collcare da DeHeus

52 Floculação e extrusão O impacto na valorização das matérias-primas

56 Inflamação Prender o ladrão de leite oculto

60 Border Collie Excelentíssimos pastores

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SUMÁRIO

64 Regenerar o ecossistema Entrevista ao agrónomo Miguel Vacas de Carvalho

70 Robots de ordenha Experiências de produtores com Lely Astronaut

78 Silagem todo o ano Com a nova enfardadeira New Holland BB 890 Plus

80 Entrevista a António Avelino 82 Observatório Matérias Primas Robot de ordenha Semelhanças entre GEA Monobox R9500 mercados

86 Índice VL e VL-erva Leite continua mal valorizado

88 Rede de informação BovINE Inovação Transeuropeia para a Carne de Bovino

74 Troup'O As vantagens do programa em modo colaborativo

93 Kubota M6002 O novo trator para explorações mistas

76 Vacas frescas Os efeitos benéficos do sistema CowCooling

84 Observatório Leite O efeito da pandemia nos mercados

94 Comedouro inteligente Com doseador alimentado a energia solar

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PRODUÇÃO | ENTREVISTA A HELDER ALVES

ROMANE

A RUMINANTES FOI A GARVÃO ENTREVISTAR HELDER ALVES, PRODUTOR DA RAÇA DE OVINOS ROMANE E PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE CRIADORES DAQUELA RAÇA. HELDER É SÓCIO GERENTE DA EXPLORAÇÃO CARLOS E HELDER ALVES AGROPECUÁRIA, ONDE FAZEM A CRIA E ENGORDA DE BORREGOS. Por Ruminantes Fotos FG

A

raça de ovinos Romane, também conhecida por INRA 401, está representada em Portugal, desde 2016, por uma associação própria. Subjacente à sua criação esteve a vontade de Helder Alves, criador, de “preservar a genética da raça”. Além de representar a Associação Portuguesa de Criadores da Raça Romane, ProOvis, à qual preside, Helder Alves é também produtor de animais. Desde 2004, quando terminou os estudos, que partilha com o irmão, Carlos Alves, a gerência do negócio que foi do pai. Em meados do mês de maio, numa manhã em que as temperaturas de quase verão já se faziam sentir, visitámos a sua exploração que tem sede numa herdade da freguesia de Garvão, em Ourique. 8

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Como começou este negócio?

Quando terminei o curso de engenharia zootécnica, em 2004, fiquei a tomar conta do negócio do meu pai, com o meu irmão. Na altura engordávamos bovinos. Depois mudámos para borregos porque achámos que era um negócio mais interessante e com um investimento menor. Só em 2009 é que introduzimos ovelhas de campo (cruzadas de Merino e Ile de France) e passámos a produzir os nossos próprios borregos. Quando entrou a raça Romane?

Helder Alves é o presidente da Associação Portuguesa de Criadores da Raça Romane, ProOvis. No final do ano passado, a associação tinha 750 animais em linha pura registados no livro genealógico. No final deste ano, estima-se que sejam mais de 1000.

Há 6 anos decidimos comprar machos Romane para cruzar com as nossas ovelhas, por causa dos problemas de parto que tínhamos com os machos Ile de France. E depois começámos a investir muito nas F1, devido à sua maior prolificidade e pela sua capacidade maternal.


Ovinos da raça Romane | Entrevista a Helder Alves

A carcaça de borregos Romane ou cruzados apresenta boa conformação, com pouca gordura e menor percentagem de osso.

Qual é o objetivo do negócio?

Produzir borregos para exportação e venda de carne. Esporadicamente vendo genética. Para onde vende os borregos?

Quando começámos a engordar, vendíamos para as grandes superfícies. Atualmente vendemos sobretudo para grupos de talhos na zona de Lisboa. No mercado estrangeiro já passámos por várias fases; quando deixámos de vender para os hipermercados, na altura em que o negócio dos ovinos estava bastante fraco, passámos a vender para França e Espanha, em carcaça e vivos. Hoje temos também mercado aberto para Israel, Líbia... Quantos animais vende por ano?

Entre 25 a 30 mil. Das 2.000 ovelhas que tenho, produzo cerca de 3.750 borregos. Os restantes são comprados, engordados e vendidos. Metade é exportado e metade fica cá. Como faz a seleção dos animais?

Vou guardando as borregas puras Romane. Neste momento, das 2000 ovelhas, temos 270 Romane puras registadas no livro genealógico, mais de 700 já são cruzadas de Romane e as restantes são de raças autóctones. O objetivo é deixar apenas para reposição animais Romane puros.

Como faz o melhoramento dessa genética?

Compramos animais registados de produtores da associação francesa; os machos vêm todos dos centros de testagem da OS Romane (Organisme de Selection Romane). Em que área andam as ovelhas?

Andam em cerca de 700 hectares de muito má qualidade, terrenos pobres. São animais que estão normalmente em parques com o máximo de 100 hectares. A carne destes animais é diferente da carne das outras?

Não, acho que é igual. Mas estes borregos são mais bem conformados do que os das raças autóctones. Para além disso, as carcaças dos borregos Romane e dos F1 apresentam pouca gordura e menor percentagem de osso do que as da maioria das outras raças. As pessoas que lhe compram preferem os borregos da raça Romane?

As que compram principalmente para exportação, sim. Os borregos da raça Romane são animais que têm um crescimento bom até aos 60 a 70 kg, que é o peso com que os abatem. Com as raças autóctones não conseguimos. O mercado nacional não valoriza muito isso, porque a maioria dos clientes quer borregos de muito baixo peso, entre 10 e 13 kg de carcaça.

DADOS DA EXPLORAÇÃO NOME: CARLOS E HELDER ALVES AGROPECUÁRIA, LDA. LOCALIZAÇÃO: GARVÃO, OURIQUE ÁREA EXPLORADA: 700 HECTARES EFETIVO: 2 000 OVELHAS REPRODUTORAS E 30 000 BORREGOS À ENGORDA/ANO EFETIVO REPRODUTOR PROLIFICIDADE DAS OVELHAS ROMANE: 2,35 BORREGOS/PARIÇÃO PESO AOS 60 DIAS (DESMAME): 19-20 KG ENGORDA (DO DESMAME AOS 40 KG) GMD: MÉDIA DE 350 G/DIA PARA MACHOS E FÊMEAS. ÍNDICE DE CONVERSÃO: 3 KG DE CONCENTRADO/KG DE PESO

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Ovinos da raça Romane | Entrevista a Helder Alves

"VALORES ANUAIS INTERESSANTES SÃO: 2 BORREGOS POR OVELHA E 20 KG DE PESO VIVO POR BORREGO AOS 60 DIAS." … Os borregos da raça Romane

atingem tão depressa esse peso como as outras raças?

Atingem normalmente antes, devido à aptidão maternal das ovelhas. O que procura como produtor?

Aumentar a produção de borregos e os quilogramas de carne produzidos por ovelha. Qual é o limite de peso interessante na curva de crescimento destes animais, em termos de ganho médio diário?

Nos machos, que normalmente abatemos com mais peso, podemos ir até aos 45-50 kg com bons ganhos médios diários e bons índices de conversão. Claro que tem que haver uma transição da alimentação ao longo desse período, porque a alimentação dum animal de 20 kg tem que ser diferente da de um animal de 40 kg. Referiu as boas características das mães da raça Romane. Qual o efeito dos machos numa ovelha doutra raça?

A facilidade de parto e um maior líbido

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que dá uma ajuda em épocas de cobrição em anestro. Que tipo de dados recolhe neste negócio pensando na raça, uma vez que é exigido controlo?

Recolho vários tipos de dados: a) Dados de cobrição: identificação dos machos que são colocados à cobrição com um determinado grupo de fêmeas; b) Registos de pesagens: a única obrigatória é feita aos 30 dias; c) Registos da parição, da prolificidade e da mortalidade. Como esta raça é muito prolífica, a mortalidade é elevada, em média 8%, mas aqui tenho menos, cerca de 5% porque faço partos muito concentrados, em ovil, e assim consigo dar assistência. Se os partos forem feitos a campo há maior mortalidade. Nas ovelhas cruzadas a mortalidade é mais baixa porque a prolificidade é menor. Qual é a diferença da prolificidade entre as cruzadas e as puras?

Em raça pura conseguimos valores de prolificidade de 2,35. Nas cruzadas (“cruzado de carne”) de aproximadamente 1,5 a 1,6.

Quantos empregados são?

Eu, o meu irmão e mais 5 pessoas. Para as ovelhas de campo (2.000 animais) somos 2 empregados e eu, e também fazemos outros trabalhos de campo. O maneio das puras e das cruzadas é o mesmo?

Sim, é igual.

A que idade são cobertas as borregas?

Entre os 7 e os 12 meses. Todos os animais que tenham completado 7 meses em setembro podem ser cobertos porque apanham a época ideal de cobrição que nas borregas ainda é mais importante (outubro-novembro, sem recorrer a sincronização artificial). Tenho as borregas sempre muito bem tratadas até adultas para que na altura da cobrição tenham mais do que 2/3 do peso em adulto. Normalmente o 1º parto ocorre entre os 12 e os 15-16 meses. São animais, tanto as puras como as F1, que já podem ser cobertas aos 5 meses. Como sincroniza as parições?

Tento sincronizar as parições de forma a ter várias épocas de parição ao longo do ano, e


Ovinos da raça Romane | Entrevista a Helder Alves

partos concentrados ao longo de 3 semanas. Com flushing e com o efeito macho que é muito importante. Tenho 75 machos adultos. Nas cruzadas meto sempre os machos todos, nas puras só os que venham dos centros de testagem da OS Romane por causa da consanguinidade. Todos os machos que tenho são Romane, mas nem todos vêm dos centros de testagem. Nunca ponho carneiros às ovelhas sem terem um arreio marcador, muito pouca gente os utiliza e é das coisas mais fáceis e mais importantes nos carneiros porque conseguimos perceber as ovelhas que já foram cobertas. Depois, 40 a 45 dias após retirar os machos, faz-se a ecografia. As parições são feitas no ovil?

Sim, as ovelhas parem no ovil e aos 15 a 20 dias vão para o campo com os borregos (já desparasitados), sempre divididos por lotes: ovelhas com 1 borrego, com 2 e com 3, para adaptar a alimentação das mães às suas necessidades. Os borregos estão com as mães até aos 60 dias, e nessa altura são desmamados. Aí são separados aqueles que são para engorda e os que são para reposição. Faço nova cobrição 45 a 60 dias após o desmame. Deixo-as descansar um mês com alimentação normal e um mês a fazer o flushing para a cobrição. Convém esperar este tempo para não comprometer a fertilidade e a prolificidade. Como faz o maneio alimentar?

As ovelhas estão sempre a campo. Só estão

fechadas a ração e palha, ou feno, 10 a 15 dias antes de o grupo começar a parir e 15 a 20 dias depois de parir. Quando há muita erva, não precisam de suplementação. Quanto aos borregos, são suplementados quase todo o ano com comedor seletivo; no ovil, aos 8 a 10 dias de vida começam logo a ir ao comedouro seletivo, e quando saem de lá já sabem procurar aí a comida. Usa sempre a mesma ração, ou tem rações específicas para as ovelhas de pré-parto?

Para as ovelhas, por questões de maneio, é utilizada a mesma ração, sendo feito o ajuste das quantidades às necessidades de cada uma das fases do ciclo produtivo. Estas ovelhas têm uma capacidade de ingestão muito grande para o seu peso. Por isso, pode-se dar um alimento um bocadinho mais pobre para suprir as mesmas necessidades. Para os borregos começo pelo pré-starter, depois passo para o starter e, a seguir, para uma ração de engorda. Têm problemas sanitários na exploração?

Se o plano profilático for cumprido, não temos. De que consta o plano profilático?

A desparasitação para a Coccidiose é a primeira coisa que fazemos entre os 10 e os 15 dias depois do nascimento dos borregos. Depois é feita a vacinação para os clostrídeos e pasteurelas e a desparasitação de largo espetro entre os 30 e os 40 dias. Ao desmame é feito o reforço desta vacinação. Nos animais adquiridos fora da exploração, para engorda, é feita a vacinação para clostrídeos e pasteurelas e ainda a desparasitação para Coccidiose e de largo espetro à entrada para a engorda. Qual é o objetivo deste negócio a 5 anos?

Quero ter as fêmeas todas puras e manter o efetivo atual. Que indicadores utiliza para perceber se o negócio está no bom caminho?

Os indicadores que temos em conta no efetivo reprodutor são o número de borregos desmamados por ovelha e os quilos de borrego desmamados por ovelha. Valores anuais interessantes são: 2 borregos por ovelha e 20 kg de peso vivo por borrego aos 60 dias. Relativamente à engorda, em termos produtivos damos muita atenção à mortalidade e ao índice de conversão. Com o sistema produtivo que seguimos, temos valores na ordem de 1% de mortalidade e um índice de conversão de 3 kg de concentrado por 1 kg de ganho de peso. A rentabilidade económica está dependente de muitos fatores externos, como o preço de compra e venda dos animais e os custos dos fatores de produção.

ProOvis - ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE CRIADORES DA RAÇA ROMANE Há quatro anos, Helder Alves e um grupo de criadores da raça Romane fundaram a ProOvis. O objetivo é contribuir para a preservação da genética da raça: “Vou vendo por aí muitos animais que são chamados de INRA 401 ou Romane e que fogem muito às características da raça", refere Helder. Quantos sócios tem a ProOvis? Atualmente somos cerca de 16 sócios. O ano passado tínhamos 750 animais em linha pura registados no livro genealógico da raça, que é gerido pela OS Romane. Este ano passaremos os 1000 animais, a maioria ainda animais importados e cerca de 250 já nascidos em Portugal. A Romane é a primeira raça exótica presente em Portugal em que a gestão do livro genealógico é realizada pelo organismo oficial do país de origem. Quem faz os controlos? O controlo é realizado pelos técnicos da OS Romane que se deslocam periodicamente a Portugal. Atualmente temos os mesmos direitos e obrigações que os produtores de França com animais inscritos no livro genealógico. O que é necessário para ser produtor da raça com animais registados no livro genealógico? Tem que se tornar sócio da associação portuguesa. O valor da quota são 50 euros anuais. Os machos terão que ser provenientes dum centro de testagem da OS Romane e registados no livro genealógico. As fêmeas, independentemente de serem nascidas em Portugal, ou importadas, também terão de estar inscritas no livro. As fêmeas nascidas em Portugal serão inscritas no livro após manifestação de interesse pelo produtor e verificação de todos os requisitos, nomeadamente a inscrição dos progenitores no livro genealógico, e o padrão da raça. O custo de registo são 3 euros por ovelha adulta por ano. Com que finalidade vendem os outros criadores associados os seus animais? Alguns vendem genética, machos para rebanhos industriais e fêmeas para outros criadores, em linha pura ou sem registo. Cada um é livre de vender como quiser. Os machos são maioritariamente para abate.

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Foto 123RF

REPRODUÇÃO | PEQUENOS RUMINANTES

CRIOPRESERVAÇÃO DE SÉMEN

A MAIORIA DAS RAÇAS AUTÓCTONES DE PEQUENOS RUMINANTES ESTÁ EM PERIGO DE EXTINÇÃO E TEM ÍNDICES REPRODUTIVOS E PRODUTIVOS QUE TÊM DE SER MELHORADOS. A CRIOPRESERVAÇÃO DO SÉMEN PERMITE A SUA UTILIZAÇÃO ASSOCIADA A OUTRAS BIOTECNOLOGIAS REPRODUTIVAS COMO A INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL E A FERTILIZAÇÃO IN VITRO.

A

criopreservação de sémen é uma biotecnologia reprodutiva essencial em programas de melhoramento genético das raças autóctones de pequenos ruminantes. A maioria destas raças está em perigo de extinção e com índices reprodutivos e produtivos que têm de ser melhorados com o objetivo de melhorar a rentabilidade da sua exploração. A criopreservação de sémen é uma metodologia complexa e requer pessoal e equipamento especializados. Existem múltiplos fatores que influenciam a criopreservação de sémen, desde os protocolos de criopreservação, diluidores, espécie animal, fatores individuais e época do ano. Esta biotecnologia diminui significativamente a qualidade do sémen quando comparado com o sémen fresco 12

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e/ou refrigerado, daí ser necessário um adequado conhecimento dos múltiplos fatores que condicionam a qualidade do sémen criopreservado. Esta biotecnologia tem múltiplos requisitos com enfoque nas metodologias de recolha, avaliação morfo funcional dos ejaculados, concentração espermática, tipo de diluidores, título de diluição, protocolos de refrigeração, criopreservação e descongelação, condições higiossanitárias dos animais e instalações. O sémen criopreservado tem uma capacidade de conservação ilimitada desde que devidamente conservado em azoto líquido sem diminuição da sua capacidade fertilizante. Esta conservação ilimitada permite que o sémen possa ser utlizado em qualquer período e/ou em qualquer lugar associado a outras biotecnologias reprodutivas como a

inseminação artificial (IA) e a fertilização in vitro (FIV). INTRODUÇÃO As raças autóctones portuguesas de pequenos ruminantes são um valioso património genético. Portugal possui 5 raças autóctones de caprinos e 16 raças de ovinos (Lino Neto, comunicação pessoal). A maioria delas encontra-se em perigo de extinção. Globalmente, as raças autóctones de pequenos ruminantes estão bem adaptadas às condições edafoclimáticas em que são exploradas e produzem produtos de excelente qualidade, sendo uma importante fonte de receita de numerosas populações rurais (Barbas et al, 1991; Cavaco Gonçalves et al. 2017). Globalmente são caracterizadas por terem produtividade


Criopreservação de sémen em pequenos ruminantes

recomendável a utilização de biotecnologias reprodutivas (Sousa et al., 2000; Mascarenhas et al., 2011).

MARIA DA CONCEIÇÃO BAPTISTA Engenheira Zootécnica, PhD INIAV, Estação Zootécnica Nacional baptista.sao@gmail.com

JOÃO PEDRO BARBAS Engenheiro Zootécnico, PhD INIAV, Estação Zootécnica Nacional CIISA Universidade de Lisboa, Faculdade de Medicina Veterinária jpbarbas@gmail.com

inferior quando comparadas com as suas congéneres europeias, correndo o risco de serem substituídas, parcialmente e/ ou totalmente, quando aumenta o nível de intensificação da exploração (Barbas, 1998). As raças autóctones de pequenos ruminantes apresentam baixa sazonalidade reprodutiva (Mascarenhas et al. 1995; Sousa et al. 2000), particularmente a espécie ovina. Todavia existem épocas do ano, nomeadamente no inverno e no início da primavera, em que os índices reprodutivos são inferiores sendo

REQUISITOS EXIGIDOS AOS MACHOS DADORES DE SÉMEN E TREINO DOS MACHOS Os machos de raças autóctones destinados a colheita de sémen são enviados pelos secretários técnicos das respetivas associações de criadores, após prévia avaliação genética, morfológica e testes sanitários. O estatuto sanitário do Polo de Investigação da Fonte Boa, localizado na Quinta da Fonte Boa, ex Estação Zootécnica Nacional é B4. Assim, os animais destinados a serem dadores de sémen têm obrigatoriamente de ter este estatuto sanitário, seguindo para as instalações de quarentena durante cerca dos 35-40 dias em que são submetidos a diferentes provas sorológicas. Preferencialmente, deverão chegar com uma idade e peso próximos da puberdade, pois facilita o treino dos machos destinados à recolha de sémen (Barbas, 1998; Barbas et al., 2004). Após a saída da quarentena são submetidos a uma avaliação andrológica e colocados num parque com instalações cobertas em que irão permanecer durante o período em que irão decorrer as recolhas de sémen. Para o treino dos machos, procede-se à sincronização do estro de uma fêmea ou em alternativa, procura-se no efetivo disponível a presença de uma fêmea em estro (Barbas, 1998). A presença de uma fêmea em estro, facilitará o trabalho do operador (que faz a recolha do sémen com vagina artificial) no treino dos machos. Esta operação requer muita paciência do operador e várias sessões regulares, preferencialmente 1-2 vezes por semana, deixando o macho saltar na fêmea inicialmente e posteriormente (variação individual) o animal começará a saltar na

vagina artificial após várias sessões de treino (Marques et al., 2006; Barbas et al., 2006). Estes deverão manifestar vigor sexual e boa aptidão para o salto na presença dos tratadores. Habitualmente, a inaptidão para o salto pode ser devida a traumas físicos (artrites, feridas, lesões nos cascos) ou traumas psicológicos (condições adversas, stress, lutas, hierarquias) (Evans e Maxwell, 1990; Valente et al., 2010). RECOLHA E AVALIAÇÃO DO SÉMEN O método de recolha de sémen é o da vagina artificial que é acoplada a um cone vaginal tendo no final um tubo coletor graduado (ml) sendo envolvida por uma capa protetora de feltro (isolante térmico) para evitar o choque térmico dos ejaculados recolhidos. Após a recolha do sémen dos animais no local destinado para o efeito (que é sempre o mesmo), designadamente a sala de recolha do sémen, procede-se à avaliação macroscópica e microscópica individual dos ejaculados no Laboratório de Andrologia (Zona Limpa) (Barbas, 1998). Os tubos coletores são identificados e colocados num banho maria mantido a uma temperatura de 30 Cº. Macroscopicamente são avaliados o volume (ml), a cor dos ejaculados (branco, branco leitosa) para despiste de colorações anómalas (cinza, castanho e rosa), a viscosidade e o cheiro (urina) (Valverde et al., 2016; Evans e Maxwell, 1990). Relativamente às avaliações microscópicas, são avaliadas a mobilidade massal (0-5), a mobilidade individual (0100%), a concentração espermática (x109/ ml), o número de espermatozoides (spz) totais (x109 por ejaculado), a vitalidade espermática (% de spz vivos) e a % de morfoanomalias na cabeça, peça intermédia e cauda (Evans e Maxwell, 1990; Valente et al., 2010) (Tabela 1). Nas Tabelas 2 e 3, são apresentados os valores médios dos parâmetros seminais do sémen fresco nas

TABELA 1 AVALIAÇÕES MICROSCÓPICAS DOS PARÂMETROS SEMINAIS DOS EJACULADOS Análise microscópica

Descrição

Mobilidade massal

Avaliada numa escala de 0-5 (intensidade e vigor dos movimentos de onda) depositando uma gota (10 µl) de sémen puro na platina aquecida (37 ºC) do microscópio (200 X), para observação de “movimentos de onda”

Mobilidade individual

Avaliação subjetiva em que se estima a % de spz móveis, com boa qualidade de movimentos, nomeadamente progressivos, retilíneos e uniformes, diluindo previamente um gota de sémen (1/100) em soro fisiológico aquecido (30 ºC) (Barbas, 1998)

Concentração espermática

Determinada num espectrofotómetro calibrado para a respetiva espécie, após uma diluição 1/400 numa solução aquosa.

Vitalidade espermática

Determinada (com a utilização de objetiva de imersão (1000 X) e contando no mínimo 100 spz) pela % de spz vivos (não corados) num esfregaço utilizando 2 gotas do corante vital eosina-nigrosina e 1 gota sémen diluído (1/100) (Evans e Maxwell, 1990; Valente et al., 2010).

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Criopreservação de sémen em pequenos ruminantes

TABELA 2 EJACULADOS/PARÂMETROS SEMINAIS EM ESPÉCIE OVINA Variável

Valores médios

Volume

0,8

Mobilidade massal

presente

Vigor

3

Nº total de espermatozoides

2x109

Mobilidade individual

80%

Espermatozoides normais

90%

Ejaculados/semana

20

Adaptada de Morrow (1986)

TABELA 3 EJACULADOS/PARÂMETROS SEMINAIS EM ESPÉCIE CAPRINA Variável

Valores médios

Volume

1,0

Mobilidade massal

presente

Vigor

3

Nº total de espermatozoides

3x109

Mobilidade individual

75%

Espermatozoides normais

90%

Ejaculados/semana

6-24

Adaptada de Morrow (1986)

espécies ovinas (Tabela 2) e na espécie caprina (Tabela 3) (Morrow, 1986; Valente et al., 2010). Alguns dos parâmetros seminais dos ejaculados processados podem ser determinadas de um modo objetivo através da utilização de equipamentos automáticos de grande precisão designados por CASA (Computer Assisted Sperm Analyzer). Estes equipamentos, determinam adicionalmente outros parâmetros cinéticos, nomeadamente VAP, VSL, VCL, ALH, BCF, STR e LIN. Têm igualmente módulos de morfologia e de fluorescência, sendo necessário a utilização de fluorocromos para determinar a integridade do DNA, acrossoma e a atividade mitocondrial como parâmetros seminais mais relevantes (Barbas e Mascarenhas, 2009; Evans e Maxwell, 1990 ). ETAPAS DE PREPARAÇÃO E A CRIOPRESERVAÇÃO DO SÉMEN A formulação, a utilização de diluidores específicos e a utilização de excelentes protocolos de criopreservação de sémen são requisitos indispensáveis (entre outros) para a produção de sémen de criopreservado de qualidade (Barbas e Mascarenhas, 2009). É nosso objetivo que a sua utilização, juntamente com outras biotecnologias reprodutivas, permita a obtenção de bons índices reprodutivos e contribua para o 14

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

melhoramento genético das raças autóctones de pequenos ruminantes. DILUIDORES DE CRIOPRESERVAÇÃO No nosso laboratório temos procurado formular os diluidores que melhor se adaptem à criopreservação de sémen de pequenos ruminantes (Barbas e Mascarenhas, 2009; Valente et al., 2010). Os diluidores que utilizamos no nosso laboratório têm como componentes principais o tris ou citrato de sódio (tampão/pH e osmolaridade), a glucose e/ou frutose (energia), a gema de ovo (devido à sua composição em fosfolípidos é adequada na proteção da integridade da membrana plasmática), o glicerol (crioprotetor interno) e antibióticos (inibição do desenvolvimento microbiano) (Barbas e Mascarenhas, 2009). O controlo do pH é igualmente importante. Por vezes temos utilizado crioprotetores externos como a trealose (Valente et al., 2010). Os diluidores e os protocolos de criopreservação de sémen de ovino e caprino são muito diferentes. Uma das principais diferenças têm a ver com a percentagem de gema de ovo na composição do diluidor, bem como a utilização de duas centrifugações do ejaculado de bode após adição de uma solução salina isotónica (solução de fosfato de Ringer) para remoção do plasma seminal, que antecedem a utilização do diluidor de criopreservação (Marques et al., 2006; Barbas et al., 2006).

SELEÇÃO DE EJACULADOS PARA CRIOPRESERVAÇÃO Unicamente os ejaculados com mobilidade individual e viabilidade ≥ 50% são selecionados para a criopreservação (Barbas et al., 2013). Os ejaculados de ovinos e caprinos destinados à criopreservação são diluídos de forma a terem concentrações espermáticas de 1,2 * 109 e 800 milhões de spz totais por ml. São utilizadas palhinhas “Cassou Straws” de 0,25 ml (Barbas et al., 2013). Assim, o número de spz totais e o número de doses produzidas por ejaculado são determinados pela concentração espermática e pelo volume (Barbas et al., 2013; Romão et al., 2013). Previamente ao enchimento das palhinhas, todos os ejaculados destinados à criopreservação, e após a sua prévia diluição com o diluidor de criopreservação, são novamente visualizados para controle de qualidade. Se alguma anomalia ocorreu, os ejaculados são imediatamente rejeitados (Barbas et al., 2013). REFRIGERAÇÃO As palhinhas destinadas à criopreservação são devidamente identificadas com o número o local de recolha de sémen, número de SIA do animal, cores da palhinha e do alcoolpolivinílico (pvc) utilizado na selagem, e pela numeração do visutubo. Após o enchimento das palhinhas, estas são seladas com pvc e depositadas numa proveta contida num copo de vidro (1 litro) com água a 28 ºC. Este é colocado numa bancada refrigeradora regulada para uma temperatura de 4 ºC. As palhinhas de sémen são submetidas a uma descida gradual da temperatura de cerca de 0,2 ºC /minuto até aos 4 ºC utilizando um tempo de equilíbrio de 3,5 horas (Valente et al., 2010). CRIOPRESERVAÇÃO Posteriormente as palhinhas são dispostas horizontalmente numa “floating freezing rack” (cuja temperatura está situada entre os -110 e os -120 Cº) cerca de 4 cm acima do nível de azoto líquido. O procedimento da criopreservação do sémen em vapores de azoto líquido tem uma duração de 20 minutos (Barbas et al., 2013). Seguidamente, são submergidas em azoto líquido e posteriormente armazenadas em visotubos durante cerca de 24-48 horas até posterior descongelação para avaliação da qualidade dos ejaculados criopreservados (Barbas e Mascarenhas, 2009). FATORES QUE INFLUENCIAM A QUALIDADE DO SÉMEN CONGELADO Existem vários fatores que condicionam a qualidade do sémen criopreservado. O principal objetivo é a obtenção de sémen criopreservado com capacidade fertilizante. A sua utilização “in vitro”, através da fertilização homóloga ou heteróloga, é um bom indicador da capacidade fertilizante


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Criopreservação de sémen em pequenos ruminantes

do sémen. Mas o teste decisivo da determinação da sua capacidade fertilizante é a sua utilização “in vivo” através da inseminação artificial (IA). A obtenção de uma boa fertilidade é o principal indicador da capacidade fertilizante do sémen criopreservado (Barbas et al., 2013; Romão et al., 2013). Os principais fatores que influenciam a qualidade do sémen são os seguintes (Barbas e Mascarenhas, 2009; Barbas et al., 2013; Romão et al., 2013): - espécie, raça, fatores individuais; - época do ano, método de recolha do sémen e frequência de ejaculação; - temperaturas de avaliação e processamento do sémen; - metodologias de avaliação quantitativa e qualitativa dos ejaculados; - composição dos diluidores, concentração e tipo de crio-protetores e antioxidantes; - metodologias de criopreservação do sémen: 1 ou 2 etapas (momento da adição e concentração em glicerol ou outro crioprotetor interno) de adição da fração glicerolada do diluidor; - equipamentos, curvas (velocidades de arrefecimento do sémen) de refrigeração e congelação (temperaturas e duração); - protocolos de descongelação do sémen criopreservado. EFEITOS DA CRIOPRESERVAÇÃO DO SÉMEN A qualidade do sémen criopreservado e a sua capacidade fertilizante são significativamente inferiores comparativamente ao sémen fresco e ou refrigerado. A criopreservação é uma biotecnologia complexa e dispendiosa que requer equipamento e pessoal especializado. É uma metodologia traumática para os ejaculados recolhidos cujos efeitos dependem de múltiplos fatores, salientandose a qualidade dos ejaculados, a espécie animal, fatores individuais, diluidores de criopreservação e os protocolos de criopreservação aplicados (Barbas et al., 2013; Barbas et al., 2017). Os principais efeitos traumáticos da criopreservação a nível das células espermáticas são as crio-lesões espermáticas, em consequência de vários fatores físicos e osmóticos, como a formação de cristais de gelo (intracelulares), modificações da estrutura e composição fosfolipídica das membranas plasmáticas e organelos intracelulares, os quais têm efeitos determinantes na motilidade espermática, integridade do acrossoma e DNA, e capacidade fertilizante in vitro e in vivo (Barbas et al., 2000; Barbas e Mascarenhas, 2009; Horta et al., 2010). Torna-se assim necessário minorar os efeitos traumáticos, nomeadamente a formação de cristais de gelo, a diminuição das lesões das membranas plasmáticas e organelos intracelulares e no aumento da sobrevivência à congelação e descongelação através de estratégias para 16

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

aumentar a crioresistência dos spz (Sousa et al., 2001; Barbas et al., 2013; Barbas et al., 2017). PROPOSTAS PARA MELHORAR A CRIOPRESERVAÇÃO DO SÉMEN Sendo a criopreservação uma metodologia traumática para as células espermáticas é essencial continuar os estudos sobre os múltiplos fatores que a influenciam, com o objetivo de melhorar a qualidade do sémen criopreservado (estratégias para melhorar a crioresistência) (Barbas et al., 2017), designadamente as suas características morfofuncionais e capacidade fertilizante in vitro e in vivo (Barbas e Mascarenhas, 2009; Romão et al. 2013). As principais etapas a explorar para melhorar a qualidade dos criopreservados são: - a seleção dos machos após a sua avaliação andrológica, o seu libido e a qualidade dos ejaculados frescos e crio-preservados, avaliados pelo CASA; - o estudo e a formulação de novos diluidores contendo antioxidantes e aditivos, que melhorem a qualidade do sémen criopreservado (Barbas et al. 2013; (Barbas et al. 2017); - a testagem e refinamento de protocolos de criopreservação e descongelação do sémen (Horta et al., 2014; Barbas et al., 2013); - a testagem dos machos “in vitro” através de fertilização homóloga e heteróloga; - a utilização do sémen criopreservado “in vivo” através da inseminação artificial (IA) recolhendo a informação reprodutiva, com enfoque na fertilidade dos efectivos utilizados na experimentação (Barbas e Mascarenhas, 2009; Romão et al., 2013). DESCONGELAÇÃO DE SÉMEN A qualidade do sémen descongelado é influenciada por múltiplos fatores, nomeadamente a espécie, a variabilidade individual, a metodologia de recolha do sémen, a qualidade dos ejaculados, a concentração espermática por dose, a composição do diluidor e os protocolos de refrigeração (tempo de equilíbrio, temperaturas e duração do processo) e criopreservação (velocidades de arrefecimento, duração, e temperaturas) (Barbas e Mascarenhas, 2009; Horta et al., 2014) . A descongelação do sémen é realizada durante as primeiras 48 horas após a criopreservação em água à temperatura de 38 ºC durante 1 minuto. Habitualmente é descongelada 1 palhinha por ejaculado/ animal/sessão de criopreservação. Posteriormente, o seu conteúdo (0,25 ml) é depositado num tubo de ensaio (em banho maria a 38 ºC) contendo 1 ml de soro fisiológico (diluição de 1:4), iniciandose as observações 5 minutos mais tarde. Habitualmente avalia-se a mobilidade individual, vitalidade e morfo-anomalias

espermáticas. Unicamente os ejaculados com MI e % de Spz vivos ≥ 35 %, e com <25% de morfo-anomalias espermáticas (sémen descongelado) são selecionados e conservados em contentores de azoto líquido (Valente et al., 2010; Barbas et al., 2013). O sémen crio-preservado tem múltiplas utilizações, designadamente para o Banco Português de Germoplasma Animal (BPGA), em investigação e desenvolvimento experimental (avaliação da capacidade fertilizante) e em programas de melhoramento genético de raças autóctones de pequenos ruminantes (Barbas et al. 2017). Alguns autores (Barbas e Mascarenhas, 2009; Barbas et al., 2013), após observação de diferenças individuais na qualidade do sémen e sua congelabilidade, sugeriram ajustamentos individuais dos diluidores e/ou dos protocolos de criopreservação de sémen em pequenos ruminantes. Ungerfeld et al., (2017) verificaram nas espécies selvagens e/ ou nas espécies recentemente domesticadas que existia uma maior variabilidade individual na congelabilidade do sémen, comparativamente a outras espécies há muito domesticadas. CONCLUSÕES E PERSPETIVAS • A tolerância dos ejaculados para a criopreservação é fortemente condicionada por múltiplos fatores, salientando a espécie, raça, qualidade dos ejaculados, variabilidade genética individual, época do ano, composição dos diluidores e os protocolos de criopreservação utilizados (Barbas et al., 2009). • A congelação é uma biotecnologia que diminui a qualidade do sémen acrescido do facto de haver uma percentagem importante de animais cujo sémen não é apto para a congelação (Barbas et al., 2017). • Podem verificar-se variações na qualidade do sémen congelado em função da espécie, raça, indivíduos e época do ano em que é recolhido o sémen. • Há que continuar o desenvolvimento de estudos para melhorar a crio-resistência do sémen e o aumento da sua capacidade fertilizante (Barbas et al., 2017). • Habitualmente, os ejaculados com maior mobilidade individual sugerem uma maior fertilidade. Todavia, estes resultados carecem ser confirmados em programas de inseminação artificial (Barbas et al., 2013) . • A utilização da inseminação artificial (IA) permite a utilização de sémen de reprodutores de alto valor genético para características desejáveis, como o aumento da produtividade e a qualidade dos produtos tais como a carne, leite, lã e/ou pelo (Barbas et al., 2016; Cavaco-Gonçalves et al., 2017).

As referências Bibliográficas serão disponibilizadas através dos emails dos autores. Agradecimentos: Trabalho realizado no âmbito do Projecto ALT-Biotech.


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Margarida e Bruno Pateiro.

PRODUÇÃO | OVINOS DE LEITE

PURO QUEIJO

MELHORAR AS PASTAGENS, ADAPTAR A GENÉTICA ÀS CONDIÇÕES NATURAIS, CONSOLIDAR A MARCA DE QUEIJO RECÉM CRIADA E PRODUZIR LEITE BIOLÓGICO. SÃO ESTES OS PRINCÍPIOS E OS OBJETIVOS QUE BRUNO PATEIRO DEFINIU PARA O SEU NEGÓCIO DE PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA. EM MAIO, FOMOS ATÉ À HERDADE DOS CAEIROS PARA CONHECER MELHOR ESTE PROJETO E PROVAR O QUEIJO. Por Ruminantes Fotos FG 18

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020


Puro queijo | Entrevista a Bruno Pateiro

E

m abril saíram os primeiros queijos Herdade dos Caeiros. Produzidos a partir de leite de pasto, de ovelhas criadas em regime extensivo. A Herdade dos Caeiros, que deu o nome ao queijo, foi adquirida por Bruno Pateiro há quatro anos com o objetivo de produzir queijo de ovelha em regime extensivo puro. Fica localizada a 200 metros em linha reta da barragem de Alqueva, no concelho de Reguengos de Monsaraz, e tem 70 hectares ocupados por pastagens permanentes e parcelas com culturas anuais. É ali que vive, com Margarida Pateiro e o filho, Afonso, que entretanto nasceu. “Criei a Vitigene Agropecuária, com a minha mulher, com o objetivo de produzir queijo de ovelha em regime extensivo nesta herdade. Este projeto começou em 2016 e no final de 2018 iniciámos a ordenha.” Para além do mestrado integrado em medicina veterinária, Bruno teve alguns anos de experiência de trabalho em pecuária com pequenos ruminantes de carne e leite, primeiro como assistente numa exploração e depois como produtor. Há três anos decidiu afastar-se da clínica e da prestação de serviços onde trabalhava, para se dedicar por completo às duas explorações da família, de cabras e ovelhas e, mais recentemente, ao projeto de produção do queijo Herdade dos Caeiros.

Para produzir leite em extensivo, que raça escolheram?

Continuo a acreditar que a Lacaune é a raça mais adaptada dentro das que têm aptidão leiteira, devido à conformação e boa inserção do úbere relativamente a outras raças produtoras de leite; porque é uma ovelha que tem menos lã, sofrendo menos de stress térmico que outras raças num clima como este; e por ter uma pata longa, adaptando-se melhor às caminhadas. De onde veio este rebanho?

As Lacaune vieram de duas explorações, uma em Serpa e outra em Brinches. As Assaf têm origem na associação espanhola de criadores da raça Assaf. A Lacaune representa 60% do efetivo, a Assaf 20%, e os restantes 20% são cruzamento de Assaf com Lacaune adquiridas. Porquê toda esta genética, acreditando que a Lacaune é a raça certa?

Até aqui eramos produtores de leite e precisávamos de ter uma raça que produzisse mais leite. Entretanto, a nossa estratégia mudou e agora somos produtores de queijo. Neste momento estamos à procura de adaptar uma linha genética para tirar mais rendimento das condições locais. A Assaf adapta-se bem ao extensivo,

e às temperaturas elevadas do verão?

Ainda não temos dados para tirar conclusões, mas sabemos que os úberes são muito inadequados a uma ovelha que caminha, assim como os aprumos. Além disso, o comportamento do borrego torna-o muito suscetível aos predadores.

Como se caracteriza esta propriedade em termos edafoclimáticos?

Tem solos esqueléticos. Estamos a melhorálos através do pastoreio, do recurso a fertilizantes e de sementeiras. Fazemos cerca de 50% de pastagens permanentes e os outros 50% são dedicados a culturas anuais. Aqui, os invernos são curtos e rigorosos e os verões também. Em 2017 tivemos 180 dias seguidos em que a temperatura máxima superou os 30° (de maio a outubro). No inverno temos muito nevoeiro por influência do Alqueva, que está a 200 metros em linha reta, mas como a área é bastante desflorestada fazem-se por vezes sentir ventos frios.

sonda. Quando a ovelha paria, tirava logo o borrego e ordenhava o colostro. A ovelha nem se apercebia de que tinha parido. Tudo cem por cento artificial. Dos resultados ninguém tinha dúvidas, mas a ética é duvidosa. Tivemos épocas em que as fêmeas ficavam com as mães em aleitamento natural e os machos em aleitamento artificial. E outras em que era tudo em aleitamento natural. Atualmente só fazemos aleitamento artificial quando precisamos de leite para cumprir contrato. O aleitamento cem por cento natural é muito mais vantajoso: tem menos mão-obra, uma taxa de mortalidade muito inferior, consome menos medicamentos e aumenta a capacidade de desenvolvimento da imunidade da cria. Nas fêmeas de reposição o ideal é o aleitamento natural porque aprendem a pastar com as mães. Aleitamento natural é aleitamento natural, não tenho grande dúvida. E, do ponto de vista económico, é o mais vantajoso.

A Lacaune perdeu potencial por viver em extensivo?

Perdeu potencial de produção, mas não o suficiente para fazer perder rentabilidade. Perdemos o pico no intensivo de 2,7-2,8 para 2,3-2,4, mas ganhámos na alimentação e na saúde. As ovelhas estabuladas têm muitos problemas, nomeadamente de unhas e de locomoção. No regime intensivo tínhamos também um plano muito apertado no que respeita à profilaxia de enterotoxémias. Como têm a herdade dividida?

Nestes 70 hectares temos parques e sub-parques. Os parques estão com as pastagens, os sub-parques estão com culturas temporárias onde, consoante o ano, vamos fazendo um corte a dente e um corte mecânico, ou apenas um ou o outro. A que distância fica o parque mais distante da ordenha?

A cerca de 600 metros.

Como distribuem as ovelhas por parques?

As ovelhas de alta produção estão sempre mais próximas da ordenha, devido ao volume do úbere e porque geralmente são ordenhadas 2 vezes ao dia. As ovelhas de baixa produção estão logo a seguir. Após um mês do início duma parição, quando essa parição atinge o pico, o grupo anterior passa para 1 ordenha diária. Aqui utilizamos o sistema de 3 partos em 2 anos, o nosso objetivo é ter 1 parto a cada 8 meses. Nos parques seguintes temos as ovelhas à cobrição, as ovelhas secas (que no 2º terço da gestação estão no parque mais distante) e as malatas. Como fazem o maneio dos borregos?

Fazemos de tudo um pouco. Já fizemos aleitamento artificial puro, em que administrávamos o colostro, muitas vezes por

DADOS DA EXPLORAÇÃO NOME: HERDADE DOS CAEIROS LOCALIZAÇÃO: CUMIEIRA, REGUENGOS DE MONSARAZ ÁREA DA EXPLORAÇÃO: 70 HA CULTURAS: 50% PASTAGENS PERMANENTES; 50% ANUAIS RAÇAS: LACAUNE (60%); ASSAF (20%); CRUZAMENTOS (20%) Nº DE OVELHAS EM ORDENHA: 200 PRODUÇÃO MÉDIA DIÁRIA DO REBANHO: 300 LITROS PRODUÇÃO DUMA LACAUNE POR LACTAÇÃO: 300 LITROS EM 180 DIAS PICO DE PRODUÇÃO DUMA LACAUNE EM EXTENSIVO: 2,4 LITROS/DIA IDADE À 1ª COBRIÇÃO: 8-9 MESES, COM 2/3 DO PESO EM ADULTA 1ª BARRIGA: ENTRE OS 12 E OS 14 MESES Nº DE DIAS DE LACTAÇÃO: 180 DIAS Nº DE ORDENHAS DIÁRIAS: 2 Nº DE PARTOS: 3 EM 2 ANOS PESO AO DESMAME: 8 KG PESO DE VENDA DOS BORREGOS: 25 A 30 KG CUSTOS COM PROFILAXIA: €8/ANIMAL/ANO CUSTOS COM TRATAMENTOS: < €0,50/ANIMAL/ANO. TAXA DE FERTILIDADE EM CICLO: > 90-95% TAXA DE FERTILIDADE EM CONTRACICLO: > 75-80% TAXA DE MORTALIDADE: < 2% TAXA DE MORTALIDADE ATÉ AO DESMAME: <5%

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Puro queijo | Entrevista a Bruno Pateiro

… A que idade desmamam?

Aos 30 dias fazemos uma observação e todos os borregos com mais de 8 kg são desmamados. Quais são as etapas seguintes?

A seguir ao desmame, vão para um parque de recria com palha e concentrado à descrição, e pastagem, até à cobrição. Os borregos saem aos 25-30 kg. A idade da 1ª cobrição é aos 8-9 meses, dependendo da condição. A primeira barriga é entre os 12 e os 14 meses. Na minha opinião, quanto mais adulta é a fêmea quando é coberta, maior a deposição de gordura no úbere com prejuízo para o desenvolvimento da glândula mamária. A altura ideal é entre os 8-9 meses com 2/3 do peso de vida em adulta, para parir entre os 12 e os 14 meses. Quanto tempo é que as ovelhas estão a dar leite?

4 meses com 2 ordenhas diárias, 2 meses com 1 ordenha diária (e 2 meses secas). Nas que estão em aleitamento natural, a amamentar os borregos, tiramos o excedente para que não fique leite na glândula mamária e também para evitar doenças do úbere. No pico de lactação (2,5 litros), uma Lacaune produz leite mais do que suficiente para o borrego.

Como é o maneio das ovelhas em produção?

Pastagem e ração na ordenha; em períodos de escassez de pastagens, usamos fenos produzidos na exploração. Somos autossuficientes, fazemos fenos de consociações de aveias, azevéns e trevos. O que é uma produção de leite normal?

Ao dia de hoje estou a ordenhar 200 ovelhas e no tanque nesta altura do ano estão cerca de 300 litros (1,5 litros/dia). Numa Lacaune são 300 litros em 180 dias (1,66 litros/dia). Como queijeiro não sei se será esse o meu objetivo. Vai concentrar-se mais em extrato queijeiro do que em produção de leite?

Muito mais. Vou concentrar-me em queijo vendido por ovelha, por ano. O que vai mudar?

Vou mudar uma parte da alimentação, a formulação da ração. Com o apoio de uma fábrica de rações e de um consultor vamos ensaiar uma genética mais adaptada e fazer alguns cruzamentos com raças autóctones, como a Merino Branco, para observar se a produção é satisfatória.

Ao dia de hoje, com Lacaune e Assaf, qual é a qualidade do leite?

O leite tem uma variação muito grande quando é de pastagem. Na primavera tem teores de proteína médios, e de gordura baixos. Ao longo do verão, a proteína mantém-se e a gordura começa a subir. No outono é quando o leite é melhor, mais concentrado. No inverno, a gordura e a proteína tornam a baixar.

Isso vai dar-lhe um queijo diferente ao longo do ano?

Exato, e nós vamos dar isso a conhecer ao consumidor. O consumidor tem que perceber que estamos a comer um produto natural, é quase como a fruta da época. E o produtor tem que perceber que a natureza é sazonal e que os alimentos vêm da natureza e têm que ser sazonais. Faz sincronização de cios?

Normalmente, fazemos sincronização de cios com efeito de macho e resulta muito bem. Não utilizamos flushing, nunca achámos necessário. Nas cabras, o efeito de macho é muito notório, nas ovelhas nem por isso. Às vezes fazemos sincronizações em contraciclo porque as raças são muito sazonais, precisamos de induzir o cio.

OS OBJETIVOS A 5 ANOS SÃO "MELHORAR AS PASTAGENS, ADAPTAR A GENÉTICA ÀS CONDIÇÕES NATURAIS, CONSOLIDAR A MARCA DE QUEIJO E PRODUZIR LEITE BIOLÓGICO."

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RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020


Puro queijo | Entrevista a Bruno Pateiro

"EM PROFILAXIA MÉDICA GASTAMOS CERCA DE 8€/ANIMAL/ANO. EM TRATAMENTOS NÃO CHEGAMOS A 0,50€/ANIMAL/ANO." Utilizamos melatonina com relativa frequência, assim como progestagénios, GnRH e prostaglandinas. Protocolos mais complexos, que envolvem mais hormonas, fazemos pontualmente quando temos essa necessidade. Estamos a pensar introduzir, não só pela questão do queijo mas pela sazonalidade reprodutiva, raças autóctones que diminuam a sazonalidade reprodutiva e que façam aumentar a líbido do resto do rebanho. Em termos de saúde animal, quais são as preocupações?

Para mim é muito importante não ter que tratar. Partimos duma base de prevenção e de controlo. Fazemos rastreio anual obrigatório de brucelose e, em termos de profilaxia médica fazemos enterotoxémias e pasteureloses (na mesma vacina), Febre Q, Agaláxia e Febre catarral ovina (a “língua azul”). Temos em epidemiovigilância Paratuberculose, Salmonelose e Aborto enzoótico dos ovinos. Caso haja algum sinal, os nossos animais, pelo menos as Assaf, fazem testagem de Scrappie. Se não existir sintomatologia, não há motivo para testar nem para refugar. O que representa a saúde animal em termos de custo?

Só em profilaxia médica gastamos cerca de 8€/animal/ano. Em tratamentos não chegamos a 0,50€/animal/ano. É difícil otimizar mais. Fazemos profilaxia de algumas doenças que existem no rebanho e temos outras em epidemiovigilância, em testagem. Em suspeita e testagem de animais, alguns casos positivos são eliminados. Que tecnologia usam numa exploração de produção de leite em extensivo?

A suficiente para ter o máximo de eficiência

possível. Utilizamos uma rede social na equipa onde os dados e os acontecimentos da exploração são registados. Depois a informação é compilada duma forma organizada na velhinha folha de Excel que funciona lindamente. Conseguimos tirar as nossas conclusões, saber intervalos de partos, produção média, produção leiteira média por ano por ovelha, mortalidade do rebanho, mortalidade neonatal, taxas de fertilidade, taxas de aborto, valorização de efluentes pecuários, culturas, fertilizações, etc.. Com um grupo de WhatsApp e uma folha de Excel fica tudo feito. Que indicadores utilizam para perceber se este negócio vai no bom caminho?

Além dos indicadores óbvios, como a relação entre o volume de faturado e os custos, diariamente utilizamos outros: - produção/cabeça/dia versus fase produtiva. Temos uma tabela onde está definida uma lactação standardizada, que comparamos com o leite realmente ordenhado. Este indicador pode ser influenciado pela alimentação, pelas condições climatéricas, ou por alguma distração na sala de ordenha; - taxa de fertilidade. Uma fertilidade, tendo em conta o nosso histórico, em ciclo, inferior a 90-95% ou, em contraciclo inferior a 75-80%, é sinal de que alguma coisa não está bem no rebanho; - taxa de mortalidade. Com o plano profilático que temos e a vigilância dos animais que fazemos, mais de 2% é desastre, só se for devida a alguma característica genética em que o animal tenha que ser eutanasiado. Qual é a taxa de mortalidade até ao desmame?

No sistema intensivo com pastoreio, como temos aqui, e em aleitamento natural,

uma taxa superior a 5% é sinónimo de insucesso. No sistema extensivo com aleitamento natural temos um problema que se chama ‘desaparecimento’, devido aos predadores, aqui principalmente a raposa, que faz disparar o valor da mortalidade para 30%. Em aleitamento artificial, a taxa de mortalidade ronda 30%. Em parições até 50 animais, em grupos controlados, já conseguimos 3-4% mas para isso tivemos que cuidar dos borregos quase um a um. Que fatores considera limitantes para o seu negócio?

Nos fatores externos, em relação ao negócio do queijo, a concorrência, o preço de mercado e as margens esmagadas. Temos que nos destacar por um produto diferenciado, não pode ser pelo preço. Apesar de produzir leite a um preço reduzido, não tenho volume suficiente para entrar para essa guerra. Nos fatores internos, a formação e a estabilidade da mão-de-obra. Que perguntas faria a um produtor com uma exploração do género da sua?

Sendo o objetivo dessa exploração o mesmo que o da minha, a produção de queijo, perguntava-lhe sobre: - a qualidade do leite: o sistema utilizado para o registo da qualidade do leite, química e microbiológica; - a saúde do rebanho (fertilidade, produção); - os sistemas de limpeza e desinfeção; - o controlo da alimentação do ponto de vista nutricional. Quais são os objetivos para os próximos 5 anos?

Melhorar as pastagens, adaptar a genética às condições naturais, consolidar a marca de queijo e produzir leite biológico.

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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ALIMENTAÇÃO | OVINOS SUFFOLK

PRÉ-STARTER NA RECRIA

O PRESENTE ARTIGO TEM COMO OBJETIVO DEMONSTRAR COMO MAXIMIZAR AS PERFORMANCES DE CRESCIMENTO EM BORREGOS SUFFOLK COM A UTILIZAÇÃO DE UM STARTER FORMULADO PARA SATISFAZER AS NECESSIDADES DESTES ANIMAIS. A condução e o maneio dos borregos de hoje influenciam as performances técnicas e económicas das explorações de amanhã, uma vez que o custo de recria de uma borrega tem um impacto económico muito significativo nas contas de uma exploração. Por isso, os produtores de borregos têm-se dedicado à procura de sistemas de produção que lhes permitam, cada vez mais, aumentar o potencial genético dos animais de forma a obter animais mais pesados ao desmame e o mais cedo possível. COMO CONDUZIR OS BORREGOS DO NASCIMENTO AO DESMAME No primeiro dia, existem alguns pontos fundamentais a ter em consideração: - desinfetar o cordão umbilical; fornecer 100 g de colostro por kg de peso vivo, em duas refeições; distribuir o colostro nas primeiras 6 horas de vida; manter uma temperatura de 10 a 18 ºC nas maternidades. No segundo dia, ao desmame, os objetivos são os seguintes: - ter animais com 15 kg de peso vivo aos 30 dias; potenciar a produção de leite da mãe tanto a nível quantitativo como qualitativo; - fornecer um alimento starter com nível nutricional adequado, e feno fibroso ou palha à descrição; 22

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

- desmamar quando as borregas comerem 300 g de concentrado por dia; - utilizar aditivos para prevenir coccidiose e problemas respiratórios. Os borregos são sujeitos a diferentes stresses durante a fase de engorda, que podem limitar a sua performance e eficácia alimentar, e ter impacto sobre o custo alimentar. Alguns produtos à base de óleos essenciais mostraram efeitos benéficos sobre parâmetros de ruminação em borregos e, consequentemente, sobre as suas performances (Chaves et al, 2008). No estudo que descrevemos, realizado na Herdade do Pinheiro, acompanhámos a fase de preparação do parto (20 a 30 dias antes do parto), o programa alimentar das ovelhas durante a fase de lactação, de forma a maximizar a produção e qualidade de leite. Finalmente, desenhámos um starter – FlocoStart Ovi/Capri – para potenciar o máximo desenvolvimento dos borregos até aos 70 dias. RAÇA SUFFOLK A raça Suffolk é uma raça ovina de excelência, originária de Inglaterra e tem na sua génese o cruzamento das raças Southdown e Norfolk. Atualmente, considerada uma das melhores raças para carne, quer ao nível do índice de

conversão, quer em termos de rendimento de carcaça e principalmente em termos de qualidade da carne. A utilização de carneiros Suffolk em rebanhos de ovelhas cruzadas poderá proporcionar um forte efeito melhorador, com um aumento substancial do peso dos borregos ao desmame e com boas performances (ganhos médios diários, índice de conversão) após o desmame. O presente artigo tem como objetivo demonstrar como maximizar as performances de crescimento em borregos Suffolk com a utilização de um Starter formulado para satisfazer as necessidades destes animais. Este starter conta, na sua composição, com a utilização de matérias-primas selecionadas, alguns cereais em flocos (milho e cevada) e soja extrudida que contribui para o aumento da digestibilidade e aumenta a higiene do produto. Além de apresentar todos os níveis nutricionais adequados (como o nível e qualidade de proteína, energia, fibra bruta, vitaminas e minerais sendo alguns deles orgânicos), ainda contem alguns aditivos que podem fazer a diferença. São estes: - leveduras inativas e óleos essenciais, com o objetivo de regular o pH ruminal, melhorar a digestibilidade da ração, e aumentar a produção de ácido propiónico,


Utilização de um pré-starter formulado na recria de ovinos Suffolk

PEDRO CASTELO Diretor técnico ZOOPAN pedro.castelo@zoopan.com

DIOGO RIBEIRO Técnico comercial ZOOPAN Diogo.Ribeiro@zoopan.com

GRÁFICO 1 EFEITO DE UMA SUPLEMENTAÇÃO EM FOS SOBRE A FLORA INTESTINAL

melhorar o conforto respiratório e favorecer o bom funcionamento dos pulmões e do sistema imunitário.

1,10

09

1,1006

1,1003 Bifidobactéria

Closttridium

Testemunha

FOS

Fonte: Bunce et al

(C3) com impacto direto nas performances de crescimento. As leveduras inactivas estimulam o consumo de ácido láctico e a produção de ácido acético e propiónico, aumentando assim a produção de ácidos gordos voláteis totais. No que diz respeito aos óleos essenciais selecionados, estes orientam as fermentações ruminais de modo a aumentar a produção de C3 (ácido propiónico) sem perturbar a flora microbiana. - outros óleos essenciais e FOS (fosfoligossacarídos) que contribuem para

ACOMPANHAMENTO DO CRESCIMENTO DOS BORREGOS ATÉ AOS 70 DIAS DE IDADE Este ensaio contou com o acompanhamento de 44 borregos descendentes de Sulffolk em linha pura, sendo estes acompanhados durante três meses. Para a recolha de dados, contámos com a pesagem dos animais ao nascimento, aos 10, 30, 50 e 70 dias de vida. Note-se que as datas das pesagens podem significar uma variação de +/- 5 dias em relação aos dias descritos anteriormente. Foi registado o tipo de parto (simples, duplo ou triplo) e o género logo ao nascimento. Os dados recolhidos foram trabalhados individualmente para cada animal de forma a aferir o ganho médio diário (GMD) nos diferentes intervalos de tempo e em todo o período.

Relativamente ao programa alimentar utilizado, como descrito anteriormente, os animais foram alimentados com um starter formulado para satisfazer todas as necessidades de crescimento, e feno ad libitum. Para a presentação de resultados consideraramse duas fases do ensaio: - dos 0 aos 30 dias de idade, periodo em que o consumo de alimento sólido é insignificante, existindo grande influência do consumo de leite materno (em quantidade e qualidade); - dos 30 aos 70 dias de idade, periodo em que o consumo de alimento sólido aumenta e passa a ter maior importância no desenvolvimento dos borregos. Nas tabelas 1 e 2 estão demonstrados os pesos dos animais nas diferentes fases do ensaio, por tipo de parto e sexo. Na primeira fase do ensaio (dos 0 aos 30 dias), em que existe uma grande influência da mãe, os GMD foram sempre superiores em partos simples e duplos (Tabela 3). Quando

TABELA 1 PESO MÉDIO DOS ANIMAIS AO NASCIMENTO Nascimento Parto

Simples

Duplo

Triplo

Sexo

Macho

Fêmeas

Macho

Fêmeas

Macho

Peso Medio (kg)

6,3

6,02

6,05

5,72

5,97

TABELA 2 PESO MÉDIO DOS ANIMAIS AOS 30 E 70 DIAS DE VIDA 30 Dias de Vida Parto

Simples

70 Dias de Vida

Duplo

Triplo

Simples

Duplo

Triplo

Sexo

Macho

Fêmeas

Macho

Fêmeas

Macho

Macho

Fêmeas

Macho

Fêmeas

Macho

Peso Médio (kg)

17,46

17,40

17,54

17,12

17,95

36,36

33,08

36,35

34,52

36,85

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

23


Utilização de um pré-starter formulado na recria de ovinos Suffolk

comparando o tipo de parto, notamos um valor superior nos partos simples. No que diz respeito à separação apenas por sexo, sabemos z comparando com 0,347 kg nas fêmeas (Tabela 3). Na tabela 4 demonstram-se os pesos médios aos 30 e 70 dias de idade, bem como os GMD's desse período. De notar que neste período a influência do programa alimentar dos borregos ganha uma nova importância, uma vez que o consumo aumenta. Dos 30 aos 70 dias, os valores de GMD, distinguindo apenas o sexo, foram de 0,420 kg para as fêmeas e de 0,458 kg para os machos. O GMD total geral neste periodo foi de 0,442 kg/ animal/dia. É ainda notável o desenvolvimento dos machos com partos duplos e triplos que, nesta fase, atingiram um maior crescimento, explicando a recuperação na diferença de pesos, o que remete para a importância de um starter de qualidade superior. Dos 0 aos 70 dias, o GMD foi de 0,405 kg para os machos e de 0,385 kg para as fêmeas. Separando por sexo e tipo de parto (Tabela 5) observamos a mesma tendência, em que as fêmeas têm um crescimento menor independentemente do tipo de parto. Comparando os GMD's entre machos e fêmeas nas diferentes fases (Gráfico 1) observamos que, embora no primeiro período não se reflita, os machos conseguem crescimentos superiores. Este efeito consegue refletir-se até no GMD total.

TABELA 3 GANHO MÉDIO DIÁRIO DO NASCIMENTO AOS 30 DIAS DE VIDA GMD 0 - 30 Parto

Simples

Duplo

Triplo

Global

Sexo

Machos

Fêmeas

Machos

Fêmeas

Machos

Machos

Fêmeas

GMD (kg)

0,347

0,356

0,345

0,345

0,334

0,346

0,347

TABELA 4 GANHO MÉDIO DIÁRIO DOS 30 AOS 70 DIAS DE VIDA GMD 30 -70 Dias Parto

Simples

Duplo

Triplo

Global

Sexo

Macho

Fêmeas

Machos

Fêmeas

Machos

Machos

Fêmeas

GMD (kg)

0,440

0,422

0,463

0,419

0,450

0,458

0,420

TABELA 5 GANHO MÉDIO DIÁRIO DO NASCIMENTO AOS 70 DIAS DE VIDA GMD 0 -70 Parto

Simples

Duplo

Triplo

Global

Sexo

Machos

Fêmeas

Machos

Fêmeas

Macho

Machos

Fêmeas

GMD (kg)

0,399

0,381

0,407

0,386

0,400

0,405

0,385

GRÁFICO 1 GMD DE MACHOS E FÊMEAS NAS DIFERENTES FASES 0,500 0,450 0,400

0,455

0,455 0,389

0,468 0,436

0,385

0,405

0,414

CONCLUSÃO Com esta demonstração confirmamos que a utilização de um correto plano alimentar (leite materno e concentrado adequados) permite um ótimo desenvolvimento dos borregos nas primeiras semanas de vida. Permitindo assim um bom peso ao desmame e, consequentemente, favorável valor de mercado. Pelas razões apresentadas, a utilização de um correto maneio alimentar das ovelhas em fase de lactação é uma ação tecnicamente apreciável, assim como um starter que permita um bom desenvolvimento a partir dos 30 dias de vida dos borregos. Apenas com a junção destes dois fatores podemos exprimir o potencial genético dos animais.

0,385

0,373

GMD kg

0,350 0,300 0,250 0,200 0,150 0,100 0,050 0,000

0-10 dias

10-30 dias Machos

30-50 dias

50-70 dias

Total 0-70 dias

Fêmeas

GRÁFICO 2 EVOLUÇÃO DO EFETIVO DE OVINOS EM PORTUGAL DE 2006 A 2019 Efetivo ovino

3000 2500 2000 1500 1000 500

Ano 24

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

2019

2018

2017

2016

2015

2014

2013

2012

2011

2010

2009

2008

2007

0 2006

O consumo de carne ovina tem sido estável nos últimos 3 anos, verificando-se um consumo 'per capita' na ordem dos 2,3 kg por ano (carne de ovino e caprino). No gráfico 2 podemos observar a evolução do efetivo de ovinos em Portugal, entre 2006 e 2019 (INE). O efetivo de ovinos, em Portugal, sofreu uma tendência decrescente desde 2006 até 2015, no entanto começa a haver uma inversão da tendência entre 2016 e 2019, resultado do aumento de procura deste produto para exportação.


RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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ALIMENTAÇÃO | VACAS DE LEITE

NUTRIÇÃO E STRESS POR CALOR

OS AMINOÁCIDOS ESSENCIAIS NÃO PODEM SER SINTETIZADOS PELA VACA PELO QUE DEVEM SER FORNECIDOS PELA RAÇÃO. NA MAIORIA DAS DIETAS DAS VACAS LEITEIRAS, OS MAIS LIMITANTES PARA A PRODUÇÃO DE LEITE SÃO A METIONINA, A LISINA E A HISTIDINA. Por Clément Cirot, Ajinomoto Animal Nutrition Europe | Fotos NM | Traduzido e adaptado por Teresa Carmona Costa, Indukern, teresa.costa@indukern.pt.

A

proteína do leite é produzida na glândula mamária utilizando os aminoácidos como elementos estruturais. Estes aminoácidos são absorvidos durante a digestão através da parede intestinal e são originários da proteína digestível verdadeira, a proteína metabolizável (PM). A proteína do leite tem um perfil de aminoácidos definido e constante, pelo que a glândula mamária tem que receber estes aminoácidos na proporção e quantidade correta para otimizar a eficiência de conversão em proteína do leite. No entanto, nem todos os aminoácidos (AA) são igualmente importantes. Alguns, designados por não essenciais, podem ser sintetizados pela vaca, mas outros, denominados aminoácidos essenciais, não podem ser sintetizados pela vaca pelo que devem ser fornecidos pela ração. Na maioria das dietas das vacas leiteiras, os aminoácidos mais limitantes para a produção de leite são a metionina, a lisina e a histidina. Existem duas fontes de aminoácidos 26

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

essenciais para as vacas leiteiras: a fração não degradável no rúmen das matérias-primas (RUP), e a proteína microbiana produzida no rúmen. - Fração não degradável no rúmen das matérias-primas: fração da proteína da dieta que não é degradada no rúmen e passa diretamente ao intestino (bypass). O perfil e quantidade de aminoácidos fornecidos nesta fração pode variar muito consoante as matérias-primas, assim como com a taxa de digestão no intestino. - Proteína microbiana: a fração proteica das matérias-primas que é degradada no rúmen (RDP) é utilizada para o crescimento da população microbiana aí existente, que é composta, como todas as células vivas, de proteína. Considera-se que a proteína destes microrganismos tem um perfil de aminoácidos constante, semelhante ao perfil dos aminoácidos da proteína do leite, sendo considerada assim quase ótima para a produção de leite. O somatório da RUP e da proteína microbiana constitui a proteína

metabolizável. A quantidade e o perfil de aminoácidos da proteína metabolizável representa a real disponibilidade de aminoácidos para a produção da proteína do leite pela vaca (Figura 1). Consequentemente, é muito mais preciso formular com base em aminoácidos do que em proteína bruta. Na verdade, o valor de proteína bruta (PB) é apenas uma informação química (N x 6,25) sobre a proteína do alimento. A proteína bruta não tem em consideração outras informações como a degradabilidade ruminal ou a digestibilidade intestinal. A análise da proteína metabolizável e os aminoácidos e a informação sobre a quantidade das mesmas, fornecem uma melhor imagem do que ocorre no rúmen e do que é realmente digerido no intestino, dado que têm em consideração as diferentes degradabilidades e digestibilidades dos alimentos, bem como a disponibilidade de energia para a síntese proteica dos microrganismos. É conhecido que uma dieta com um nível deficiente de PM comparada com uma dieta com um nível adequado de


Nutrição e stress por calor

FIGURA 1 METABOLISMO PROTEICO DA VACA LEITEIRA EM LACTAÇÃO

Proteína Proteína by-pass metabolizável (PM) (RUP) Proteína microbiana

Proteína total Proteína degradável no rúmen Carbohidratos degradáveis

Síntese macrobiana

Ureia Reciclagem

Aminoácidos Proteína do leite

Urina

TABELA 1 EFEITO NA PRODUÇÃO DE LEITE DA ADIÇÃO DE AMINOÁCIDOS A UMA DIETA DEFICIENTE EM PROTEÍNA METABOLIZÁVEL PM adequada

PM deficiente

PM deficiente + Metionina

- Lisina

*Hisitidina

+ MLH

PM fornecida (g/d)

3142

2638 -16%

2705 -13,9%

2685 -14,5%

2706 -13,9%

2762 -12,1%

Proteína do leite (g/d)

1270

1130 -11%

1150 -9,4%

1170 -7,9%

1180 -7,1%

1230 -3,1%

TABELA 2 EFEITO DO STRESS POR CALOR (SC) NA DENSIDADE ENERGÉTICA REQUERIDA DA RAÇÃO IMD (% depressão)

0

8

10

15

20

Taxa de respiração (l/min)

<75

80

85

90

95

Ingestão matéria seca (kg/d)

24,1

22,9

21,7

20,5

19,3

Mcal/d

38,4

38,9

39,4

39,5

40,4

Mcal/kg de IMD

1,59

1,70

1,81

1,93

2,09

35,0

31,0

28,0

26,0

25,0

0,0

1,0

2,0

3,0

4,0

Energia (Nel)

Fibra (NDF) Máximo (%IMD) Gordura (protegida do rúmen) Máximo (%IMD)

PM, conduz a uma redução no teor proteico do leite (Tabela 1). No entanto, ao fornecermos os aminoácidos (AA) individuais, como a metionina, a lisina e a histidina, a uma dieta deficiente em PM (Tabela 1), é possível aumentar o teor da proteína do leite. Cada aminoácido tem um impacto positivo no teor da proteína do leite. Ao complementarmos a dieta com o conjunto destes AA essenciais, é possível obter a mesma performance que com uma dieta com PM adequada. Consequentemente, é possível formular com base em AA, em vez de com PB ou PM, e obter performances semelhantes. STRESS POR CALOR À semelhança dos outros mamíferos, as

vacas têm uma zona de conforto, chamada zona termoneutra. Em situações abaixo ou acima da zona termoneutra, os animais ficam em stress térmico e as suas necessidades de manutenção aumentam para compensar o aumento de produção ou dissipação de calor. Em situações de baixas temperaturas, as vacas comem mais para compensar o aumento das suas necessidades, pelo que conseguem suportar com mais facilidade as baixas temperaturas sem redução da produção. No entanto, com temperaturas altas, as suas necessidades aumentam mas a sua capacidade de ingestão diária diminui, o que conduz a uma redução na performance. Será a capacidade de ingestão a única responsável pela redução da performance? A investigação do Prof. Lance Baumgard

demonstra que a descida da capacidade de ingestão representa apenas 50% das perdas de performance, sendo que os outros 50% estão relacionados com outros parâmetros (síndrome do intestino e ativação do sistema imunitário). Mas a formulação com AA pode compensar a perda de capacidade de ingestão (IMD) (Tabela 2). A tabela 2 mostra quanto temos que concentrar a dieta para fornecer os mesmos nutrientes com uma ingestão mais baixa. Tanto a energia como a proteína têm que ser mais concentradas, mas é mais critico para a energia dado que as necessidades de manutenção aumentam. Em dietas que já contenham um nível alto de concentrados, o risco de afetar a função ruminal e de ter animais com acidose, ou de aumentar a produção de calor via fermentação ruminal, é elevado. Por este facto, é recomendada a utilização de gorduras inertes no rúmen (bypass) que fornecem energia ao animal em condições de stress por calor e, potencialmente, evitam uma baixa digestibilidade da fibra e a redução de performance. Deverá ser considerado o perfil de ácidos gordos, limitando o nível de C18:2 que pode conduzir à diminuição da gordura do leite em condições de baixo pH ruminal. Considerando a mesma lógica no que refere à PB, temos necessidade de concentrá-la também. No entanto, esta concentração nem sempre funciona na prática. Um ensaio efetuado em Israel demonstrou que um aumento de PB em 15% a 17% MS, não melhorou a produção de leite ou dos seus componentes. Na realidade a eficiência da proteína decresceu e o azoto extra foi provavelmente excretado pela urina. Como discutimos anteriormente, a PB per se não tem grande significado, mas a qualidade da proteína é importante. Há duas formas para aumentar a PB percentual da dieta: através da RDP e da RUP. Um estudo observou o aumento da PB através da RDP em vacas a meio da lactação. O aumento de RDP até 10% da MS teve um impacto positivo na produção de leite, não se verificando um efeito benéfico com valores de RDP acima de 10% da MS. A segunda possível solução para aumentar a PB é aumentar a fração de RUP. Em estudos que analisaram a proporção de RDP ou de RUP em condições de stress por calor com níveis constantes de PB, demonstraram claramente que, quando a proporção de RUP aumenta, a produção de leite aumenta (Tabela 3). A partir de um certo nível de RDP, a performance não aumenta e até pode descer. Existem diferentes explicações: - mais RDP significa mais fermentação no rúmen, aumentando ainda mais a produção de calor pela vaca; - pode haver um excesso de N no rúmen relativamente à energia aí disponível. A degradação da proteína no rúmen produz amónia. Quando em excesso, uma elevada

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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Nutrição e stress por calor

de outros AA pela vaca. Ao fornecermos, via alimento, os AA necessários específicos como alternativa às fontes clássicas de RUP, podemos libertar espaço na dieta para utilizar, por exemplo, uma fonte de energia, nutriente crítico em situações de stress por calor. Assim, no contexto de stress por calor, quando a ingestão de matéria seca (IMS) é uma condicionante, os AA bypass (RP-AA) têm muito interesse pois são muito mais concentrados que as matérias-primas. Por exemplo, 40 g de AjiPro-L é equivalente a 700 g de bagaço de soja, o que significa que teremos disponíveis 650 g para outra matéria-prima.

quantidade passa do trato digestivo para o sangue. Uma concentração de amónia no sangue alta, é tóxica e o fígado necessita de produzir ureia para baixar esse nível o que implica consumo de energia. Consequentemente, é mais interessante aumentar a proporção de RUP nas dietas de vacas em situações de stress por calor, evitando aumentar a quantidade de RDP. As fontes clássicas de RUP, mesmo com um bom perfil de AA, veiculam sempre outros AA que não são necessários para a vaca, quer porque já existem em quantidade suficiente ou porque podem ser produzidos a partir

TABELA 3 EFEITO DA PROPORÇÃO DE RDP E RUP NA PRODUÇÃO DE LEITE Localização

%RDP em %PB

Aumento da produção de leite

Arizona JDS 72:2554

65% - 60%

3,3 kg/d

Arizona JDS 74 :243

61% - 47%

6,0 kg/d

Greece WRAP 30:21

69% - 61%

2,4 kg/d

TABELA 4 EXEMPLO DE UMA DIETA ISRAELITA CONSOANTE A ESTRATÉGIA UTILIZADA PARA COMBATER O STRESS POR CALOR (SC) SC - não

SC - sem alteração

SC - tática alta PB

SC - tática AA

Feno de trigo

4,2

3,9

3,9

3,9

Corn gluten feed

3,6

3,3

2,6

1,9

Bagaço de colza

1,8

1,7

0,0

0,0

Bagaço de soja

0,6

0,6

2,8

1,8

Silagem de trigo

4,6

4,3

4,3

4,3

Soro de leite

0,5

0,5

0,5

0,5

Semente de algodão

1,4

1,3

1,3

1,3

Milho grão

5,9

5,4

5,4

6,6

Trigo grão

1,4

1,3

1,3

1,6

Ingredientes , kg MS

Sêmea de trigo

1,9

1,8

1,8

1,8

Minerais + vitaminas

0,89

0,83

0,83

0,83

Megalac

0,30

0,26

0,48

0,63

0,0

0,0

0,0

0,053

AjiPro-L Smartamine M

0,0

0,0

0,0

0,011

Total

27,0

25,0

25,0

25,0

TABELA 5 NÍVEL DE NUTRIENTES CONSOANTE A ESTRATÉGIA UTILIZADA PARA COMBATER O SC SC - não IMD, kg/d PB, %

SC - sem alteração

27

SC tática alta PB

SC tática AA

25

16,5

16,5

17,8

EM fornecida, Mcal/d

64,49

60,02

61,88

63,27

Leite produzido via EM, kg

40,6

35,13

36,71

38,34

PB fornecida, g/d

2842

2607

2705

2527

10,1

10,1

11,1

10

169,5

156,8

166,6

169,1

61,1

56,3

55,8

60,2

RDP, % Lis-PM, g/d Met-PM, g/d

28

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15,9

EXEMPLO COM A DIETA ISRAELITA Para mostrar como a formulação, considerando os AA, pode ajudar numa situação de stress por calor, consideremos o exemplo da dieta israelita (ensaio apresentado anteriormente): um efetivo com uma produção de 40 kg de leite por dia, 3,85% gordura e 3,4% proteína, para um IMD de 27 kg MS, a 20°C e 50% humidade (zona termoneutra). Em termos nutricionais a dieta apresenta 16,5% PB, com RDP a 10%. Esta dieta está no valor energético necessário, mas com uma PM ligeiramente abaixo das necessidades. Em termos gerais, uma boa dieta. Ao aumentarmos a temperatura em 10°C, as necessidades de manutenção em energia sobem e a energia disponível para a produção de leite diminui em 3 kg, o necessário para cobrir as necessidades de manutenção. A quantidade de PM mantém-se, mas como a IMD diminui temos que ter este aspeto em consideração. Com a diminuição de IMD em 2 kg de MS, a energia e PM apenas possibilitam 35 kg de leite. Este total representa menos 5 kg que a produção inicial, dos quais 3 kg resultam do aumento das necessidades de manutenção e 2 kg da diminuição do IMD. O aporte de AA também diminui: menos 5 g na metionina e menos 13 g na lisina. A primeira opção é concentrar a dieta por forma a garantir o mesmo aporte de PB, o que é possível retirando bagaço de colza e algum corn gluten feed para libertar espaço para adicionar bagaço de soja e alguma gordura bypass. Estas alterações induzem um aumento da PB de 16,5% para 17,8%, com 11% RDP, enquanto a RUP praticamente não altera, aumentando a gordura da dieta ligeiramente. A PM sobe mas a energia não acompanha pelo que só conseguimos obter 1,6 kg de leite permitido pela energia. Neste cenário, a Lisina sobe e a Metionina desce ligeiramente (Tabela 4). A segunda opção é manter o fornecimento de Lisina e Metionina ao mesmo nível da dieta inicial. É possível retirando o bagaço de colza, algum corn gluten feed, mas não há necessidade de aumentar o bagaço de soja quando utilizamos pequenas quantidades de Lisina by-pass e de Metionina by-pass. Com o espaço libertado, é possível aumentar algum milho grão e gordura bypass. A energia fornecida permite atingir 38,3 kg de leite. O fornecimento de PM diminuiu ligeiramente mas os AA ficaram iguais à dieta inicial (Tabela 5). Se o objetivo é manter o fornecimento de PB, em gramas, a produção de leite poderia teoricamente aumentar apenas 1,5 kg devido à limitação em energia. Contudo, se formularmos com AA, considerando os AA bypass, podemos teoricamente aumentar a produção de leite em 3 kg, que compensa em parte o decréscimo de IMD. Para mais informações, contactar: cirot_clement@eli.ajinomoto.com ou teresa.costa@indukern.pt


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ENRIQUE FRAILE Ruminantes technical adviser - ADISSEO enrique.fraile@adisseo.com

ALIMENTAÇÃO | VACAS DE LEITE

METIONINA E REPRODUÇÃO

MELHORAR O DESEMPENHO REPRODUTIVO DAS EXPLORAÇÕES LEITEIRAS É POSSÍVEL ATRAVÉS DE UMA ESTRATÉGIA NUTRICIONAL. NESTE ARTIGO DESCREVE-SE O EFEITO DA METIONINA NA REPRODUÇÃO E A SUA INFLUÊNCIA NA MANUTENÇÃO DA GRAVIDEZ. Traduzido e adaptado por Teresa Carmona Costa, Indukern, teresa.costa@indukern.pt

A

pós o parto, a procura de nutrientes para a produção de leite aumenta exponencialmente não sendo acompanhada pela capacidade de ingestão. Este acontecimento resulta num equilíbrio negativo entre as necessidades e os nutrientes ingeridos, afetando negativamente aspetos da função reprodutiva como a síntese e secreção hormonal, a ovulação e o desenvolvimento embrionário. Se a esta situação fisiológica acrescentarmos um fator de stress, como o stress térmico, que diminui a ingestão de matéria seca, o desequilíbrio nutricional e as consequências reprodutivas podem ser maiores. As estratégias nutricionais centram-se no aumento da capacidade de ingestão, procurando principalmente reduzir o balanço energético negativo que pode comprometer diretamente a atividade dos ovários e, consequentemente, a fertilidade. Temos de ter presente que este desequilíbrio nutricional não é apenas energético, é também um desequilíbrio proteico. Os animais têm de produzir proteínas para as quais necessitam de aminoácidos. Os aminoácidos também estão envolvidos e regulam as principais vias metabólicas para melhorar a saúde, o desenvolvimento, o crescimento, a lactação e a reprodução. Noutras espécies, a ingestão de suplementos

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com aminoácidos específicos (arginina, glutamina, leucina, glicina e metionina) teve efeitos positivos na sobrevivência e no crescimento embrionário e fetal através do seu efeito na regulação das vias metabólicas. Existem aminoácidos limitantes para a produção de leite, como a metionina, a lisina e a histidina. De acordo com os critérios iniciais, o aumento da mobilização de aminoácidos para a produção de leite significa que outras funções-chave que envolvem aminoácidos podem ser comprometidas. A metionina, através da S-Adenosilmetionina (SAM), participa na metilação do ADN. Além disso, a metionina apresenta outras funções que começam a ser descobertas e compreendidas, como a sinalização celular, como modulador ativo da expressão génica, como dador de metilo e como precursor da carnitina e do glutation, protegendo assim as células contra o stress oxidativo, e como antioxidante (através da cisteína e da taurina). EFEITOS DA METIONINA NO DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO Foram realizados numerosos estudos para determinar o papel da metionina no desenvolvimento do embrião e, por conseguinte, na taxa de gravidez. Aquando da inseminação, o desenvolvimento embrionário começa no oviduto. A cabeça do

embrião passa o tubo quando chega ao 5º dia. Por volta do 9º dia eclode da zona pelúcida e continua o seu desenvolvimento até que, entre os dias 14-18, entra em contacto com o endométrio. Seguidamente, o embrião produz a proteína Interferon-Tau (IFN-t) que é essencial no reconhecimento da gestação e na manutenção do corpus luteum. Quanto maior for o volume do embrião neste momento, maior será a produção de IFN-t e, portanto, maior será a possibilidade de a gestação continuar. Até ao momento em que ocorre a comunicação vascular com a mãe, o embrião flutua no ambiente uterino, alimentandose das secreções do útero para obter os nutrientes de que necessita, entre os quais se encontram os aminoácidos. Por conseguinte, é fundamental compreender as alterações na concentração de aminoácidos no útero que acompanham as fases de desenvolvimento do embrião. Estudos in vitro (Bonilla et al., 2010) com embriões pré-implantados (dias 7-8) determinaram que a quantidade de metionina necessária para a metilação do ADN em embriões até à fase de blastocisto no dia 7 era muito baixa (7 μM), mas a partir do dia 7 a percentagem de blastocistos que progrediram no desenvolvimento aumentou quando as quantidades atingiram 21 μM. No entanto, estas concentrações eram inferiores às quantidades encontradas na secreção uterina.


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Metionina e reprodução

Acosta et al (2006) conduziram um ensaio com o objetivo de determinar o efeito de suplementação com metionina protegida do rúmen na metilação do ADN e acumulação de lípidos nos embriões de pré-implantação das vacas leiteiras. Foram utilizadas vacas multíparas no início da lactação (entre 28 e 74 DEL) e atribuídas aleatoriamente a dois tratamentos: - Controlo (CON; n=5, em que as vacas foram alimentadas com uma dieta basal com um rácio Lys:Met 3,4:1); - Metionina (MET; n=5, em que as vacas alimentadas com a dieta basal mais Smartamine com um rácio Lys:Met de 2,9:1). Os embriões foram extraídos por lavagem 6,5 dias após a inseminação artificial. Para análise, foram utilizados embriões com uma fase de desenvolvimento de 4 ou mais. Para avaliar os lípidos, comparou-se a intensidade da fluorescência da coloração vermelha do Nilo com um embrião de controlo negativo (subtração de fundo). No total, foram obtidos 37 embriões de vaca (MET=16; CON=21). Não houve efeito no número de células, mas as vacas que receberam o MET tiveram uma acumulação de lípidos mais elevada (p=0,021) em comparação com as vacas que receberam CON (Gráfico 1). Esta maior concentração poderia servir como uma importante fonte de energia para o desenvolvimento embrionário precoce. Subsequentemente, Souza et al (2012) estudaram a incidência da suplementação com metionina protegida no desenvolvimento embrionário precoce. Os animais foram separados de acordo com a data e o número de nascimentos e depois atribuídos aleatoriamente a dois tratamentos, um com uma dieta de base mais suplemento de metionina e outro apenas com a dieta de base. Embora tenham observado um aumento da metionina em circulação no tratamento alimentado com metionina protegida, não foram observadas alterações no desenvolvimento do embrião inicial. É sabido que a metionina pode ter efeitos sobre o epigenoma do embrião. Penagaricano et al (2013) avaliaram o efeito

no transcriptoma do embrião pré-implantado da suplementação materna com metionina protegida. Os embriões foram analisados utilizando uma técnica poderosa que permite a avaliação de todos os genes que são expressos. Observaram que uma pequena diferença na metionina em circulação produziu uma diferença substancial na expressão génica no embrião. No total, foram significativamente expressos 10.662 genes em embriões de bovinos. Um total de 276 genes foram expressos de forma diferente, estatisticamente, nos embriões de vacas com metionina e sem metionina. A maioria destes genes foi inativada em embriões de vacas com metionina, o que pode ocorrer porque a suplementação com metionina conduz à metilação do ADN que pode inibir a expressão de alguns genes específicos até à diferenciação celular, altura em que a expressão dos genes deve começar (Wolff et al., 1998, Burdge et al., 2007). A partir dos resultados, concluíram que a toma do suplemento de metionina parece melhorar a manutenção da gestação. Na sequência do ensaio de Souza, investigadores do mesmo laboratório (Toledo et al., 2017) realizaram um ensaio numa exploração comercial para testar a hipótese de que as vacas alimentadas com uma dieta enriquecida com metionina protegida conseguiriam: - aumentar a produção de proteínas lácteas; - aumentar o número de vacas prenhes em 28, 32 e 61 dias após a inseminação artificial; - reduzir as perdas de gravidez. Trabalharam com um total de 309 vacas em lactação (138 primíparas e 171 multíparas) que foram aleatoriamente distribuídas a dietas de tratamento que consistiam na mesma dieta basal e, posteriormente, num suplemento individual, de modo a que a dieta de controlo fornecesse uma proteína metabolizável (PM) de 2500 g e um MetDi de 1,87%; enquanto a dieta de metionina continha 2500 g de PM e um MetDi de 2,34%. Os aminoácidos plasmáticos foram avaliados no momento da inseminação artificial (IA) e próximo do diagnóstico de gravidez. A

Intensidade fluorescente (unidades arbitrárias)

GRÁFICO 1 ACUMULAÇÃO DE LÍPIDOS

32

produção de leite e a composição do leite foram avaliadas mensalmente. A gravidez foi diagnosticada no dia 28 (pela proteína B [PSPB] específica da gravidez), 32, 47, e 61 (por ultrassom) e as dimensões das vesículas embrionárias e amnióticas foram determinadas por ultrassom no dia 33 após a IA. Nas vacas multíparas, a percentagem de perda de gravidez foi inferior naquelas que foram tratadas com o suplemento de metionina protegida relativamente às que receberam o tratamento de controlo (Gráfico 2). Nas vacas primíparas não houve qualquer efeito na perda de gravidez. Em vacas multíparas, a suplementação com metionina aumentou o diâmetro e o volume do embrião (p=0,01) e da vesícula amniótica (p=0,04) no 33º dia de gravidez, não se observando qualquer efeito significativo no tamanho do embrião em vacas primíparas. CONCLUSÕES A administração de suplemento de metionina protegida às vacas em lactação durante as fases finais do desenvolvimento folicular e do desenvolvimento embrionário precoce, até ao sétimo dia após a fertilização, não provocou alterações morfológicas significativas nos embriões, mas resultou em diferenças na expressão génica no embrião. A elevada concentração dos aminoácidos Met, His e Lys no líquido uterino de vacas prenhes próximo do tempo de alongamento do embrião, parece indicar que as quantidades de aminoácidos podem ser relevantes para esta importante fase do desenvolvimento embrionário. O facto de as perdas de gravidez em vacas com suplemento de metionina protegida serem inferiores, parece indicar que a concentração de metionina favorece a sobrevivência do embrião. Factos como o maior teor de lípidos do embrião, ou o aumento do volume do embrião e da vesícula amniótica, também sugerem um efeito positivo da metionina no desenvolvimento do embrião. É importante continuar a investigação para confirmar e detalhar os efeitos da metionina na gravidez.

GRÁFICO 2 AS VACAS MULTÍPARAS ALIMENTADAS COM METIONINA PROTEGIDA TIVERAM MENOS ABORTOS O "número um": Perdas por aborto de 28 a 61 DIM

8

MET; 7,26

7

25

6 5 4

CONT p<0,05

RPM

20 CNT; 3,89

3

10

2

12,8

19,6 14,6

5

1

0

0 1

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p>0,5

15

6,1 5/39

6/41

Primíparas

10/51

3/49

Multíparas


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ENTREVISTA A DAVID CRESPO E SUA EQUIPA

FERTIPRADO FAZ 30 ANOS A BAIXA PRODUTIVIDADE DAS PASTAGENS E FORRAGENS, LEVOU DAVID CRESPO, ENTÃO INVESTIGADOR E RESPONSÁVEL PELO DEPARTAMENTO DE PASTAGENS E FORRAGENS DA ESTAÇÃO NACIONAL DE MELHORAMENTO DE PLANTAS, A PROCURAR SOLUÇÕES QUE PERMITISSEM ALIMENTAR MELHOR OS ANIMAIS E AUMENTAR A RENDABILIDADE DAS EXPLORAÇÕES PECUÁRIAS. FOI ASSIM QUE, EM 1990, NASCEU A FERTIPRADO. Entrevistados David Crespo (fundador da Fertiprado); Manuel Rovisco (sócio gerente), Pedro Viterbo (gerente), Ana Barradas (diretora de I&D)

E

m 1990, quando iniciou a empresa Fertiprado, qual era a importância das pastagens e forragens na alimentação animal?

David Crespo - Nessa altura, as pastagens e forragens cultivadas ocupavam pouco ou nenhum espaço nas explorações agropecuárias, e os ruminantes alimentavamse sobretudo de pastagens naturais dos pousios e incultos, geralmente muito degradadas, complementadas com restolhos e palhas de cereais, em explorações com encabeçamentos diminutos. Devido à baixa qualidade desses recursos de pastoreio (digestibilidade e teor proteico muito reduzidos) alguns produtores mais evoluídos já consideravam a necessidade de melhorar as suas pastagens e cultivar forragens para melhor alimentar os seus animais, mas as superfícies melhoradas permaneciam pouco significativas. Todavia, a adesão de Portugal e Espanha à Comunidade Económica Europeia começava então a abrir novas perspetivas para o incremento da produção de ruminantes, reduzindo em simultâneo as oportunidades para o cultivo de cereais, condições que estimulavam o cultivo de pastagens e forragens para melhor alimentar um crescente número de animais. Qual o propósito com que criou a Fertiprado?

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RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

e José Freire (diretor comercial e marketing).

David Crespo - Consciente de que o grande problema da baixa produtividade das pastagens e forragens então dominantes residia na modesta produção de biomassa e sobretudo na sua muito baixa qualidade alimentar, procurei, enquanto Investigador e responsável pelo Departamento de Pastagens e Forragens da Estação Nacional de Melhoramento de Plantas, encontrar soluções que permitissem o uso de leguminosas na sua constituição, de maneira a fornecer aos animais a proteína de que eram tão carentes. Concluí que para aumentar a persistência e produtividade de tais culturas era indispensável inocular as sementes de leguminosas com rizóbios específicos e associá-las a gramíneas, usando de preferência misturas de sementes contendo várias espécies e variedades que fossem bem adaptadas às condições de solo e clima. Nasceram assim as misturas biodiversas ricas em leguminosas, que vieram a constituir a filosofia base do melhoramento das pastagens e forragens. Que balanço faz destes 30 anos de Fertiprado?

David Crespo - Graças à aplicação e desenvolvimento da ideia inovadora por uma equipa muito dedicada e esforçada, liderada até recentemente por meu filho João Paulo, a Fertiprado foi-se impondo como empresa fornecedora de soluções de pastagens e

forragens de elevada produção e qualidade, bem adaptadas às condições edafo-climáticas e de utilização para as quais são arquitetadas, capazes de aumentar consideravelmente a rendabilidade das explorações pecuárias e de proporcionarem um eco-serviço notável através de uma elevada capacidade para fixar azoto atmosférico e sequestrar carbono no solo. Nos primeiros anos, a atividade concentrou-se primeiro em Portugal com algumas realizações também na Estremadura Espanhola. Depois foi-se alargando ao território espanhol, passando para Itália, e mais tarde para o Uruguai, com venda de sementes também noutros países da Europa (sobretudo França e Alemanha) e até para os Estados Unidos e a Austrália. Para este progresso contribuiu muito, não só uma muito qualificada equipa de técnicos comerciais, estimulada e apoiada por uma competente equipa de gestão, mas também os trabalhos do departamento de I&D que, entre outras importantes atividades, tem criado uma série de novas variedades de várias espécies pratenses e forrageiras, aumentando consideravelmente a gama de plantas disponíveis. Por outro lado, é com alegria que, de há vários anos para cá, vejo a Fertiprado ser solicitada para participar em projetos de I&D, quer nacionais quer internacionais, o que muito tem contribuído para o progresso a sua atividade,


Fertiprado faz 30 anos | Entrevista a David Crespo e sua Equipa

aumentando também o prestígio da empresa. Tudo isto é fruto de um trabalho muito dedicado de uma fantástica equipa de pessoas, às quais manifesto o meu profundo reconhecimento por terem contribuído para o desenvolvimento do embrião das minhas ideias iniciais, transformando-as na empresa que hoje é a Fertiprado. Por isso considero que os objetivos inicialmente sonhados foram plenamente realizados. A preocupação crescente com a preservação da biodiversidade, que está na base da agricultura regenerativa, tem alguma repercussão no desenvolvimento de novos produtos?

Manuel Rovisco - Na verdade, os pilares da atividade da Fertiprado – a biodiversidade e o uso de leguminosas – são fundamentais para todos os sistemas de produção sustentáveis: agricultura regenerativa, agricultura biológica, biodinâmica, holística, produção integrada e outras. A proteção do solo, o aumento da matéria orgânica, a melhoria da fertilidade, a fixação gratuita de azoto, o aumento da proteína das pastagens e forragens, a melhoria da sua digestibilidade, a diminuição da importação de proteínas,..., são vantagens que advém da conjugação criteriosa da biodiversidade e das leguminosas. Temos as ferramentas e o know-how para responder a estes sistemas de agricultura e é uma área de negócio crescente para a Fertiprado. Ainda é cedo, mas em breve teremos novidades para os agricultores que adoptem estes sistemas de produção. Quais são as áreas de negócio que mais se têm desenvolvido?

Manuel Rovisco - Depende das regiões. No sul da Península Ibérica temos assistido a um crescimento das misturas forrageiras anuais. No norte, cresce a procura por misturas de leguminosas e gramíneas e mesmo só de gramíneas em detrimento da cultura monoespecífica tipo azevém. Nas regiões vitícolas os revestimentos do solo têm tido o maior crescimento percentual de todos os produtos da Fertiprado, muito impulsionado pela adopção de modos de produção mais sustentáveis, como a agricultura biológica. Em França os revestimentos e os produtos para o ambiente (inter-culturas, culturas de companhia, adubos verdes) são os produtos estrela e representam já cerca de 4 000 ha/ano. Quais os grandes desafios que se colocam atualmente à empresa?

Pedro Viterbo - A Fertiprado depara-se com dois grandes desafios. O primeiro tem muito que ver com o legado e com o historial da Empresa; continuar a inovar e manter-se na vanguarda tecnológica das Misturas Biodiversas. Daí a aposta crescente e incondicional na nossa Direção de I+D e

no seu envolvimento permanente e crescente em Projetos de investigação e inovação, nacionais e internacionais. O segundo desafio tem a ver com o crescimento da Empresa além fronteiras, através da sensibilização dos diferentes mercados para a importância das Misturas Biodiversas ricas em leguminosas na proteção do meio-ambiente, em geral, e dos solos em particular. Estamos também particularmente atentos ao problema das alterações climáticas, procurando encontrar variedades mais rústicas e adaptáveis às novas condições, proporcionando aos agricultores soluções de pastagens e forragens que mitiguem os efeitos das alterações climáticas. Em que países estão presentes e que importância têm para empresa?

Pedro Viterbo - A Fertiprado tem subsidiárias em Espanha, Itália e Uruguai. São mercados muito importantes para o crescimento do nosso volume de negócio, já bastante consolidado em Portugal. Espanha e Itália são mercados que nos estão fisicamente próximos, com um clima muito idêntico ao nosso e ainda com um enorme potencial de crescimento, que queremos potenciar. O Uruguai, para além de ser um importante mercado ganadeiro, é muito útil à Fertiprado na produção de sementes, uma vez que funciona em contraciclo com a produção que efetuamos em Portugal. Acreditamos no potencial de outros mercados, como o francês e o alemão, onde não temos presença direta mas onde já temos um conjunto de parcerias consolidadas. Buscamos ainda outras geografias, quer através de parcerias diretas, quer através de projetos de investigação para avaliação da adaptabilidade das nossas soluções e variedades de leguminosas. Por que caminhos vai seguir a empresa? O que podem esperar os clientes?

Ana Barradas - A Fertiprado vai continuar a trabalhar sempre no sentido de acrescentar valor ao setor agropecuário. Para isso continuaremos a fazer o nosso trabalho de I&D, focado na busca pela melhor genética vegetal, mais produtiva e com melhor valor nutritivo. Continuaremos também o desenvolvimento de novas variedades com maior adaptação às consequências das alterações climáticas, com períodos de seca maiores e mais frequentes. Procuraremos novas tecnologias que permitam aumentar a segurança do sucesso das culturas, através de revestimentos (pelets) de sementes inovadores que melhorem a sanidade da planta, disponibilizem nutrientes e consigam reter a humidade do solo. José Freire – Vamos também aumentar o foco no mercado não pecuário, com o desenvolvimento de gamas para culturas de

cobertura, inter-culturas, adubos verdes e outras que beneficiem dos pilares que são a base da nossa existência: a biodiversidade e as leguminosas. Acrescentar valor nas explorações dos nossos agricultores, implica manter uma política de proximidade, de assistência técnica. Manteremos esta aposta tanto com a nossa equipa, como com a continua formação e capacitação das equipas dos nossos distribuidores. Provavelmente intensificaremos a nossa presença junto dos produtores através do recurso às tecnologias digitais. É isto que os nossos clientes podem esperar: os mesmos valores acrescidos da inquietação da busca por novas soluções que permitam acrescentar valor e melhorar a sua rentabilidade. Como será a Fertiprado em 2025 ou 2030?

José Freire - O crescimento da Fertiprado tem sido “paulatinamente sustentado”, isto é, queremos crescer, queremos melhorar sempre, mas sem perder a nossa identidade. Somos uma empresa orgulhosamente portuguesa, orgulhosamente familiar. Gostamos de manter relações de longo prazo, suportadas pela confiança. Para conseguir esta confiança, é necessário consolidar o mercado existente antes de pensar em expandir. Mas temos planos de expansão. A bacia mediterrânia e os países com este tipo de clima, são alvos prioritários para os produtos com biodiversidade e ricos em leguminosas. Temos também planos de expansão para o mercado das sementes puras. Hoje somos referência na produção de alguns trevos anuais, queremos aumentar o portfolio e consequentemente os mercados alvo. Em agricultura, 2025 é já amanhã. Em perspetiva, neste setor são 5 ciclos, 5 repetições de venda na melhor das hipóteses. Mas em 2025 seremos seguramente uma empresa melhor, mais experiente porque todos os dias aprendemos com os nossos clientes. Em 2030, provavelmente teremos mais produtos, estaremos em mais mercados, mas no essencial seremos a mesma Fertiprado de sempre, com os mesmos pilares e os mesmos valores: a qualidade, a inovação, a confiança e a tal inquietação de acrescentar valor a toda a cadeia. Costumamos dizer que com os produtos da Fertiprado, ganham os animais, ganham os produtores, ganham os distribuidores, ganham os consumidores, ganha o ambiente e, enfim, ganha a sociedade de uma forma geral. Não queremos deixar de aproveitar a oportunidade para agradecer aos nossos clientes, parceiros de distribuição, parceiros de investigação e demais amigos. Bem hajam aqueles que em nós depositaram a sua confiança ao longo destes 30 anos. RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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EMANUEL GARCIA Sócio gerente ANGERVALUS Unip. Exploração Agropecuária garcia.acores@hotmail.com

FORRAGENS DE CEREAIS DE OUTONO-INVERNO

SILAGEM DE TRITICALE

O PRINCIPAL OBJETIVO DO CULTIVO DESTAS FORRAGENS É A UTILIZAÇÃO NA ALIMENTAÇÃO DOS BOVINOS, PARA FORNECER FIBRA E/OU ENERGIA À DIETA DESTES ANIMAIS. E TAMBÉM, DO PONTO DE VISTA AGRONÓMICO, PROMOVER A ROTAÇÃO DE CULTURAS.

A

Argervalus é uma exploração agropecuária de bovinos de leite, situada na freguesia açoriana da Relva, na Ilha de São MIguel. Nesta exploração, estas forragens encaixam-se no sistema produtivo sob quatro formas: 1. Cultura de acompanhamento ou “nursing crop” das sementeiras outonais de azevém. Situação comum em várias explorações agropecuárias, em que utilizam maioritariamente triticale e/ou aveia misturado com azevém, de forma a “preencher” o campo o mais rapidamente possível e fornecer fibra efetiva à dieta do primeiro corte e/ou pastoreio. 2. Consociações. Neste caso, o cereal é misturado com uma ou mais leguminosas à sementeira. Estas misturas disponibilizam grandes volumes de matéria seca, com ótimo equilíbrio entre digestibilidade, proteína bruta e energia. O seu consumo é feito com novilhas e/ou vacas secas, através de pastoreio direto geralmente a partir da fase de alongamento do cereal, e início da floração das leguminosas. 3. Feno-silagem. Esta situação implica um corte para pré-secagem na fase de pré36

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

Sobre a WCCS, "whole crop cereal silage", o cereal de eleição que usamos aqui na exploração, é o triticale. Este é semeado no final de outubro e colhido no início de março.

Silagem de triticale feita em março passado.

-espigamento e ensilagem ao fim de 24 a 48 horas no máximo (30%-40% MS). O material obtido assemelha-se a uma feno-silagem de azevém de alta qualidade. A recolha é feita através de corte de precisão de automotriz equipada com “pick-up”, ou por fardo plastificado. 4. Silagem de cereal de Inverno ou WCCS (whole crop cereal silage). Neste caso, a cultura é deixada no campo até à sua pré-maturação ou mesmo até à maturação. Mais propriamente do estado de grão pastoso ao grão semiduro (Cheesy/soft dought stage). Estamos a falar de um momento de corte semelhante ao milho forrageiro (35%40% MS). O teor de amido é consequentemente alto (30%40%). A recolha é feita por automotriz com “pick up”. No estrangeiro, é comum ensilar este material diretamente do campo através das chamadas frentes “direct disc”. Porém, é possível utilizarem-se as frentes de milho, nomeadamente as chamadas “Kemper 4500”, desde que devidamente revistas. E que a cultura esteja sã, em pé e livre de infestantes. Sobre a WCCS, o cereal de eleição que usamos aqui na exploração, é o triticale.


Silagem de triticale

"PARA JÁ, A CULTURA AINDA É ENCARADA COMO UMA FONTE DE FIBRA, OU MELHOR, UM SUBSTITUTO DA PALHA DE TRIGO QUE AQUI NA REGIÃO CUSTA A MÓDICA QUANTIA DE 250-270€/TON." Este é semeado no final de outubro e colhido no início de março. Pelo meio, é feito um tratamento herbicida contra as infestantes de folha larga e, se porventura as condições climatéricas forem propícias ao aparecimento de fungos, é aplicado um fungicida. É um cereal rústico de baixas necessidades hídricas e baixo consumo de nutrientes, sendo que a adubação feita é normalmente de fundo, em pré sementeira e aplicada a lanço, utilizando um fertilizante NP. Uma vez que nesta zona de S. Miguel, o inverno é caracterizado por temperaturas suaves (picos de mínimas de 7/8 °C nos dias mais frios), então utilizamos variedades do tipo alternativas. Jamais se poderão usar variedades invernais, uma vez que, por consequência de falta de horas de frio, estas não

espigarão na primavera. A colheita é feita no estado de grão leitoso (milky stage), com pré-secagem de 24 horas no máximo. O teor de matéria seca final é da ordem dos 40%, o de fibra é 25%, sendo esta 50% NDF, o de proteína bruta 10%, e o de amido 15%. Embora teoricamente possam alcançar valores de amido muito superiores, preferimos colher nesta fase do que atrasar, predispondo a cultura aos ataques de pássaros e aos efeitos de possíveis intempéries. Finalmente, o triticale é ensilado com frente “pick up” de automotriz, com aplicação de estabilizador inoculante "standard" e com um corte máximo de 4 cm. A sua conservação é feita em silo tipo trincheira, devidamente compactado e selado com barreira de oxigénio e plástico

convencional. Do ponto de vista nutricional, esta silagem apresenta-se com um físico invejável, proporcionando elevadas taxas de ruminação, devido ao seu tamanho de corte e de teor de fibra. O seu nível de incorporação, para já, está na casa dos 20-25% da matéria seca diária, em vacas leiteiras, e 50-60% em novilhas. É um ótimo balastro para recrias e engordas, assumindo-se como fonte de fibra barata, de produção local na exploração. Para já, a cultura ainda é encarada como uma fonte de fibra, ou melhor, um substituto da palha de trigo, que aqui na região custa a módica quantia de 250-270€/ton. No entanto, o amido é uma mais valia que deverá ser explorado ao máximo. No futuro esperamos alcançar valores de amido cada vez

maiores. Para que tal aconteça, há que existir uma introdução de novas variedades, acompanhamento e estudo técnico-científico que, aqui na região, é praticamente zero, tanto da parte das instituições públicas oficiais, como das de ensino. Esta estagnação na evolução de outras formas de obter amido, também se dá nas casas comerciais e associações, que se acomodaram ao longo dos anos a vender apenas milho, adubos, rações e tratores. Estas casas e associações, pelo caminho, esqueceram-se do trabalho árduo de pesquisa e inovação agronómico e zootécnico, que muitas vezes ficam a cargo de particulares, empreendedores e resilientes, que teimam em fazer um setor cada vez mais sustentável.

VESPOLINI Westerwold Ryegrass

O Vespolini é de muito rápido estabelecimento, reduzindo o tempo entre a sementeira e o primeiro corte. • Elevada qualidade de forragem • Use como cultura principal ou cultura de restolho • Tetraplóide altamente palatável • Rendimento total de matéria seca muito elevado

Socieda

de Agrí

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RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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João, Miguel e Dinis Miranda

PRODUÇÃO | VACAS LEITEIRAS

LEITE DO NORDESTE

DINIS MIRANDA É PRODUTOR DE LEITE NA REGIÃO DO NORDESTE, NA ILHA AÇOREANA DE SÃO MIGUEL. O SEU MAIOR DESAFIO É A CONSTANDE DESCIDA DO PREÇO DO LEITE QUE TEM VINDO A TIRAR RENTABILIDADE AO SEU NEGÓCIO. Por Ruminantes Fotos Miguel Miranda

D

inis Miranda tomou desde cedo o gosto pela agricultura e, principalmente, pelos animais. Filho e neto de agricultores, foi na freguesia micaelense da Achada, no Nordeste, que passou parte da infância até emigrar com os seus pais e irmão para os Estados Unidos da América. Em 1991, quando regressaram, Dinis juntou-se ao pai e o irmão no negócio das vacas de leite, e 4 anos mais tarde instalou-se por conta própria. Com um efetivo total de 450 animais, tem atualmente 220 vacas em ordenha em regime

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RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

de estabulação permanente. As novilhas com mais de seis meses e as vacas secas andam no pasto. Há quanto tempo está no negócio?

Desde 1995, como empresário em nome individual, tendo iniciado a atividade com apoios através de candidatura de projeto de primeira instalação. Qual é o objetivo do negócio?

Obter o máximo rendimento dos animais, produzir a mesma quantidade de leite com o

menor número de animais possível. Como descreve a sua exploração?

É uma exploração essencialmente baseada na produção de leite e nalguma produção de carne, sendo prioridade, neste caso, a aposta na raça cruzado de Angus. Tenho tentado acompanhar a modernização, implementando várias transformações quer a nível informático, quer do bem-estar animal, apesar de algumas dificuldades sentidas por a exploração se situar numa altitude média/alta.


Leite do Nordeste | Entrevista a Dinis Miranda

"ATENDENDO À CONSTANTE DESCIDA DO PREÇO DO LEITE, O SETOR ATRAVESSA UM PERÍODO DE GRANDES DIFICULDADES." Qual é coisa que mais gosta de fazer no dia-a-dia?

Adquiri o gosto pela agricultura/pecuária desde muito cedo, por isso acho que me adapto facilmente a todas as tarefas. Como diz o ditado popular: “o que se faz por gosto não cansa!” Do que mais se orgulha neste negócio?

Essencialmente do crescimento da exploração e do efetivo ao longo dos anos, fruto de muita dedicação e trabalho, com perspetivas de seguimento familiar. Atualmente já conto com um grande apoio do meu filho. A quem vende o leite?

À Cooperativa do Bom Pastor/Unileite. Qual foi, ou é, o seu maior desafio na exploração?

A meu ver, e atendendo à constante descida do preço do leite ao longo dos anos, tendencialmente a piorar, o setor atravessa um período de grandes dificuldades, sendo extremamente difícil e desafiante tirar alguma rentabilidade nestes tempos de crise. Qual o sistema alimentar utilizado?

Durante 24 horas, as vacas têm sempre

alimento na manjedoura. Os alimentos são misturados no unifeed nas devidas proporções, e distribuídos duas vezes por dia. Que forragens dá aos animais em produção?

Damos silagem de milho e feno, produzidas na exploração. A altitude dos terrenos limita um pouco a quantidade e qualidade das forragens que produzimos, sendo assim necessário uma boa gestão de modo a obter bons resultados. Que quantidade de concentrado dá por vaca/dia?

De forma a manter uma dieta equilibrada é fornecido aos animais 10 quilos de concentrado por dia e por vaca, de forma a suprir as necessidades e manter os animais saudáveis. Qual o sistema de maneio que utiliza?

O lote das produtoras fica estabulado todo o ano, sendo mantido em pastoreio o lote das novilhas com mais de seis meses e o lote das vacas secas. Qual o tipo de sala de ordenha?

A ordenha é fixa, perpendicular, com 24 pontos.

Que indicadores utiliza para ver que o negocio está a correr bem?

Para uma gestão eficiente do negócio analiso o “IOFC” do rebanho, que é o custo de alimentação por vaca subtraído à receita do leite. Com esse indicador faço a gestão do rebanho, selecionando e removendo as que apresentam um baixo “IOFC”.

DADOS DA EXPLORAÇÃO NOME: DINIS ALBERTO PEREIRA MIRANDA LOCALIZAÇÃO: SERNOS, ACHADA E ACHADINHA, S. MIGUEL ÁREA: 130 HA Nº EMPREGADOS: 5 DADOS GERAIS DO REBANHO PRODUÇÃO LEITE TOTAL VACARIA/ANO: 2.000.000 LITROS EFETIVO TOTAL: 450 ANIMAIS Nº VACAS EM ORDENHA: 220 Nº ORDENHAS POR DIA : 2 PRODUÇÃO MÉDIA DIÁRIA: 30 LITROS/VACA GB (%): 3,9 | PB (%): 3,3 CCS: 250.000 CÉL./ML IDADE AO 1º PARTO: 26 MESES Nº I.A. VACA ADULTA GESTANTE: 1,98 DOSES

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PRODUÇÃO DE LEITE NA REPÚBLICA DA IRLANDA

LEITE IRLANDÊS

O FACTO DE TER PASTAGENS DE QUALIDADE SEMPRE DISPONÍVEIS, E SABER DAR-LHES O MELHOR USO, FAZ COM QUE A PRODUÇÃO LEITEIRA SEJA DAS MAIS RENTÁVEIS ENTRE OS VÁRIOS SETORES DA AGRICULTURA IRLANDESA.

BREVE CARACTERIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

PRODUZIR LEITE NA REPÚBLICA DA IRLANDA

O FACTO DE TER PASTAGENS DE QUALIDADE SEMPRE DISPONÍVEIS, E SABER DAR-LHES O MELHOR USO, FAZ COM QUE A PRODUÇÃO LEITEIRA SEJA DAS MAIS RENTÁVEIS ENTRE OS VÁRIOS SETORES DA AGRICULTURA IRLANDESA. Por Donagh Berry - Animal & Grassland Research and Innovation, Teagasc, Ireland; George Stilwell – Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa | Foto 123RTF

A

República da Irlanda tem uma população de cerca de 5 milhões de pessoas e um total de 6,5 milhões de cabeças de gado distribuídas por mais de 111.300 explorações, sendo que cerca de 1.425.000 são vacas leiteiras em aproximadamente 18.000 vacarias. O tamanho do efetivo bovino leiteiro tem aumentado em 3% ao ano desde a eliminação das quotas leiteiras na Europa em 2015, sendo agora de sensivelmente 90 vacas em lactação por exploração, com uma

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RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

produção média de 5.300 litros vaca/lactação. A vaca tipo na Irlanda é a Holstein-Frisia (HF), representando mais de 90% do efetivo leiteiro. Após esta, a raça mais representativa é a cruzada HF com Jersey. O objetivo em termos de longevidade é atingir as 5,5 lactações por animal, mas a média ainda ronda as 3,5 lactações. A mão-de-obra nas vacarias de leite é, em média, 1,9 unidades. Mais de 91% do leite produzido na Irlanda provem de vacarias com uma época de partos limitada a apenas 15 semanas na Primavera.

A data de início da época de partos varia de região para região, principalmente influenciada pelo clima – em geral, começa mais cedo nas zonas mais a sul da ilha. Para conseguir manter esta estratégia de concentração de partos, é preciso um maneio reprodutivo muito rigoroso. As recomendações são para manter a época de inseminação/cobrição reduzida a 13 semanas. A maior parte dos produtores opta por um período de inseminação de 6 semanas (utilização de sémen de raças leiteiras),


Produção de leite na República da Irlanda

seguido de inseminação ou cobrição natural com touros de raça de carne. Nesta altura a raça Angus é a preferida e a predominante por causa da facilidade de parto, gestação mais curta e elevado valor da descendência devido à qualidade da carne. Sémen sexado não é muito usado na Irlanda por causa da potencial menor fertilidade, o que pode boicotar os prazos apertados que se têm de cumprir. Todos os bovinos nascidos na Irlanda são testados para BVD, através da recolha de uma pequena porção da orelha quando é colocada a marca auricular. Os vitelos positivos não podem ser vendidos a não ser diretamente para abate. Há uma forte e estreita integração entre a produção de leite e a de carne de bovino. Os vitelos de leite machos e toda a recria proveniente de cruzamentos com raças de carne, são vendidos em mercados próprios ainda antes do desmame. Estes vitelos têm de ter pelo menos 10 dias de idade antes de poderem sair da exploração de origem e serem negativos ao teste para BVD. Anualmente, cerca de 28.000 vitelos são abatidos com poucos dias de idade (essencialmente machos cruzados com raça Jersey). Os vitelos e vitelas de carne são criados em explorações especializadas até ao abate como bezerros não castrados (16%), novilhos castrados (49%) ou novilhas (35%). Os bezerros não castrados são abatidos por volta dos 15 meses enquanto que os machos castrados e as fêmeas são abatidos aos 18 e 24 meses, respetivamente. O acabamento dos primeiros é feito normalmente em feedlots com concentrado à descrição, enquanto que os outros dois tipos são criados em pasto,

suplementado, nos últimos 100 dias, com concentrado. As empresas de lacticínios irlandesas têm investido centenas de milhões de euros na implantação do sistema de época de partos concentrados na primavera, tirando assim o maior partido possível das pastagens, de que tem resultado mais de 4 mil milhões de receitas na exportação de derivados do leite e outros produtos. A Irlanda exporta lacticínios para mais de 155 países em todo o mundo, com o mercado fora da União Europeia a ganhar cada vez mais peso. Mais de 85% da produção de leite na Irlanda é exportada. Todo o leite é processado por 10 companhias e por sua vez, os produtos são comprados e vendidos por 16 empresas cooperativas. A estratégia delineada entre governo e indústria planeava um aumento de produção na ordem dos 50% entre 2007-2009 e 2020. Esse objetivo já foi ultrapassado há muito, sendo atribuível não só ao aumento do efetivo leiteiro, mas também à maior produção por vaca (Figura 1). A enorme riqueza da Irlanda em termos de forragem natural – mais de 4 milhões de hectares de pastagem – combinado com um clima ameno, húmido e diversificado, proporcionam uma grande vantagem competitiva em relação a outros importantes países produtores de leite. Os animais têm disponível uma quantidade de erva verde superior às suas necessidades durante (quase) todo o ano, sendo que as épocas de algum deficit são compensadas com silagens. Esta não é só uma forma mais natural de criar ruminantes (o que agrada ao consumidor) como também é muito mais barata. É calculado que por cada acréscimo de 10% no

uso de erva na dieta, consegue-se uma redução no custo de produção de cerca 2,5 cêntimos de euro por litro. O custo da erva verde é, em média, de €0,07 por kg de matéria seca, enquanto que esse valor sobe para €0,14 e €0,21 para a silagem de erva e concentrado, respetivamente (Figura 2). Outras vantagens da utilização prioritária das pastagens é que o uso de maquinaria é mínimo e normalmente baseado em subcontratação, a contratação de mão-de-obra é muito sazonal e o setor torna-se bastante mais resiliente à volatilidade dos preços do leite no mercado global. Como reverso da moeda, pode ser um sistema mais suscetível às instabilidades do tempo e às alterações climáticas. A capacidade de gerir as pastagens de forma eficaz e competente, é vital para garantir este sucesso e garantir uma vacaria saudável e rentável. Na Irlanda predomina o sistema de pastoreio rotacional, com cada exploração dividindo a sua área em 20 a 25 parques, e assim garantindo erva fresca todos os dias. A gestão cuidada e suportada por apoio técnico e científico, é crucial para que a nutrição não sofra quebras, enquanto também se garante que não há desperdício ou deterioração da qualidade dos pastos. Assim, maximizar a utilização da erva verde quando esta é mais abundante (mais de 200 dias por ano), é um dos pontos fulcrais do sistema irlandês e um exemplo para aquelas zonas que têm a sorte de ter condições semelhantes, como os Açores. O facto de ter pastagens de qualidade sempre disponíveis, e saber dar-lhes o melhor uso, faz com que a produção leiteira seja das mais rentáveis entre os vários setores da agricultura irlandesa.

"POR CADA ACRÉSCIMO DE 10% NO USO DE ERVA NA DIETA, CONSEGUE-SE UMA REDUÇÃO NO CUSTO DE PRODUÇÃO DE CERCA 0,25€ POR LITRO." GRÁFICO 1 CONSUMO DOMÉSTICO DE LEITE POR PASTELARIA E INDÚSTRIA

GRÁFICO 1 CRESCIMENTO DA ERVA E NECESSIDADES EM MATÉRIA SECA 120

1200

100 kg MS/ha/dia

Milhões de litros

1000 800 600 400

80

verão €0,04/kg MS primavera €0,16/kg MS

outono €0,11/kg MS

60 40 20

200 Jan

Fev Mar Abr Mai Jun

Jul Ago Set Out Nov Dez

0

Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez

0 2017

2018

2019

The Irish Agriculture and Food Authority

Necessidades Produção de erva

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ESTABELECER METAS PARA A PRODUÇÃO

PRODUÇÃO LEITEIRA IRLANDESA

UMA EMPRESA DE PRODUÇÃO LEITEIRA RESILIENTE SERÁ, MUITO PROVAVELMENTE, MAIS SUSTENTÁVEL EM QUALQUER SITUAÇÃO DO MERCADO – SOBREVIVERÁ QUANDO O PREÇO DO LEITE DESCER E SERÁ ALTAMENTE RENTÁVEL QUANDO O PREÇO DO LEITE SUBIR. Baseado no artigo Setting targets for the Irish dairy industry. Laurence Shalloo e Liam Hanrahan. Publicado em 2020 por Animal Production Science 60, 159–163 https://doi.org/10.1071/AN18531 Adaptado e traduzido por George Stilwell | Foto 123 RTF

O

termo resiliente quer dizer recuperar, responder, reagir, reabilitar ou aguentar desafios internos ou externos que afetem a produção e o funcionamento da estrutura produtiva. Na situação irlandesa, o objetivo principal das explorações leiteiras, deve ser o de aumentar a produção através da utilização de pastagem e converter essa mais-valia em sólidos totais (quilos de proteína e gordura), com o menor custo possível. Aumentar a eficiência do trabalho, adoptar continuamente novas tecnologias e, se possível, subcontratar quem faça a recria, irá reduzir a necessidade de admitir pessoal extra e por isso terá um impacto significativo nos custos. Em suma, as explorações leiteiras deverão focar-se em produzir a baixo custo, em 42

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

assegurar mão-de-obra de qualidade, em constantemente abraçar novas tecnologias e em priorizar os investimentos que as tornem mais resilientes. Há um enorme potencial para aumentar o rendimento a nível da exploração apenas focando-se na melhoria do uso dos pastos e na seleção da vaca ideal para este sistema de produção: com capacidade de produção de leite, com uma elevada concentração de sólidos totais, robusta, necessitando de um baixo consumo para manutenção e que apresente uma elevada fertilidade. O objetivo na Irlanda, neste momento, é o de criar condições (físicas e financeiras) para conseguir um lucro de €2.500 por hectare, com o preço do leite fixado em €0,29/l. Este artigo apresenta alguns dos componentes necessários para atingir essa meta ambiciosa.

O propósito final da exploração deve ser maximizar o rendimento de todos os elementos que compõem a sua plataforma produtiva, ao mesmo tempo assegurando-se que existem o menor número possível de animais não-produtivos e que toda a estrutura opere no máximo do seu potencial. Isto geralmente implica uma atenção redobrada nos pequenos detalhes do dia-a-dia. O que pode parecer desprezível em certas alturas, pode vir a mostrar-se crucial quando a exploração tiver de enfrentar súbitas descidas no preço do leite. Ser resiliente significa estar preparado e ser eficiente até ao mais pequeno pormenor. Os objetivos aqui apresentados para a realidade irlandesa, resultam de uma análise usando o Moorepark Dairy Systems Model (MDSM) (Shalloo et al. 2004) e as médias


Estabelecer metas para a produção de leite irlandesa

pretende apenas dar o exemplo do que se consegue alcançar. Por exemplo, se uma exploração com 35,6 hectares, ao longo de 5 anos, aumentar a utilização de pastagem em 3 toneladas MS/ ha, a concentração de gordura de 4,05% para 4,25%, a concentração de proteína de 3,45% para 3,65% e reduzir a taxa de reposição de 23% para 20% e adiantar em 1 semana a data média dos partos, conseguirá um aumento de rendimento líquido total de €27.353, o lucro por kg de sólidos totais de €0,71 e aumentar o lucro por hectare em mais de €768. Apesar do que se escreveu, na verdade é possível ter elevados índices de performance numa exploração sem conseguir atingir a meta dos €2.500/ha. Se não se está a conseguir atingir essa meta, quer dizer que se é um mau produtor ou que ainda há muito para mudar ou para investir? Não necessariamente. Para responder a essa pergunta temos de levar em conta a imensa variedade de fatores que rodeia a estrutura de uma exploração leiteira. Por exemplo, muitos produtores não são donos da terra e, por isso,

tiveram de investir menos no negócio no início, mas têm maiores custos com rendas, juros, etc. Por isso, estes cálculos podem não adaptar-se à situação de todos, mas servem para alertar para algumas necessidades e, principalmente, para uma forma diferente de se pensar a produção nestes sistemas. Em conclusão, os produtores devem concentrar os esforços e os investimentos na garantia de uma maior resiliência no futuro. Isto passa por aumentar e melhorar a produção de erva e por adaptar a dimensão do efetivo ao que se consegue realmente produzir na exploração. Há ainda muito espaço para introduzir e para melhorar o uso das tecnologias, nas mais diversas áreas da produção de leite. Finalmente, quando se avaliar o progresso, e também o caminho ainda a percorrer, convém não se focar numa só medida, mas tentar perspetivar a produção como um todo, de forma a poder evoluir de uma maneira sustentável em todos os componentes que garantam a resiliência da exploração nos tempos melhores e piores.

TABELA 1 PARÂMETROS NECESSÁRIOS PARA ATINGIR O OBJETIVO DE RENDIMENTO, COMPARANDO COM A MÉDIA NACIONAL IRLANDESA (2014-2016)

nacionais no período 2014–2016 (NFS 2016) tendo por base o preço de € 0,29 por litro de leite com 3,3% de proteína e 3,6% de gordura. Todos os outros elementos (infraestruturas, mão de obra, efetivo animal) foram considerados ao preço corrente na Irlanda nos anos de 2014 a 2016. A tabela 1 apresenta algumas das performances necessárias para atingir a tal meta de rendimento de €2.500 por hectare. Como é notório, todos os melhoramentos resultam de mudanças que se podem fazer no interior da exploração, apesar de poderem existir, em certas circunstâncias, alguns constrangimentos físicos difíceis de alterar (por exemplo, tipo de solo, condições climatéricas). No entanto, é evidente que existe um enorme espaço para alterações em parâmetros chave. O intuito deverá ser a seleção e o investimento nas áreas consideradas prioritárias para manter a exploração do caminho certo, sem grandes preocupações com a distância que ainda faltará percorrer. Assim, é imperativo que os produtores se continuem a lembrar que existe um enorme potencial para melhorias e para aumentar o rendimento, por exemplo, através do investimento em tecnologias básicas. Esse investimento deve ser prioritário quando o preço do leite está mais alto, para que se possa colher os dividendos quando o preço baixar. A tabela 2 mostra como se pode beneficiar com a aplicação e melhoramento no uso de diversas tecnologias e intervenções. Esta não é uma listagem exaustiva, mas

Parâmetro

Média Irlanda

Alvo

Produção de leite (kg MS/vaca)

405

475

Produção de leite (kg/vaca)

5409

5800

Proteína (%)

3,45

3,70

Gordura (%)

4,06

4,50

Produção leiteira (kg/ha)

11 090

16 820

Sólidos totais (kg/ha)

825

1380

Intervalo entre partos (dias)

394

365

Data de parto (média)

6 março

14 fevereiro

Partos primeiras 6 semanas (%)

58

90

Taxa de substituição (%)

23

18

Trabalho (hora/vaca)

30

16

Encabeçamento (CN/ha)

2,05

2,90

Concentrado (kg/vaca)

933

450

Uso de pasto (t/ha)

8,0

13,1

TABELA 2 CÁLCULO DO RETORNO FINANCEIRO DE DIVERSAS MELHORIAS COLOCADAS EM PRÁTICA NAS EXPLORAÇÕES DA IRLANDA Parâmetro

Unidade

Retorno financeiro Exploração (€)

Por kg ST (€)

Aumento da concentração de gordura

0,1

1195

0,03

Aumento da concentração de proteína

0,1

2530

0,09

Aumento do volume de leite a partir de pastagem

100 l

2027

0,06

Aumento da utilização do pasto

100 kg MS/ha

484

0,01

Redução taxa de substituição

1%

1218

0,035

Redução intervalo de partos

1 dia

247

0,009

MS = matéria seca; ST = sólidos totais

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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PRODUÇÃO | VACAS LEITEIRAS

MAIS SAÚDE COM MENOS CUSTOS

EXEMPLOS DE EXPLORAÇÕES EM PROCROSS EM PORTUGAL, NA HOLANDA E NO ESTADO NORTE AMERICANO DA CALIFÓRNIA DESPERTARAM O INTERESSE DO PRODUTOR DE VACAS LEITEIRAS MÁRIO CORDEIRO, E DO SEU FILHO HENRIQUE CORDEIRO. A PROCURA POR MAIOR PRODUTIVIDADE E MAIS SAÚDE ANIMAL, FÊ-LOS DECIDIR INVESTIR, EM 2017, NUMA NOVA GENÉTICA QUE, ATÉ À DATA, TEM DADO BONS FRUTOS.

T

udo começou em 1989 com 16 vacas em ordenha móvel, sempre no pasto, com animais cedidos pelos pais do casal, como era costume nessa altura, começou por contar Mário Luis Alves Cordeiro, numa entrevista que teve que ser feita à distância por causa da Covid 19. O gosto pela vida rural, que Mário Cordeiro herdou, está na sua família há mais de 200 anos, e contando com os seus filhos já vai na 5ª geração. Ao todo, exploram 50 hectares, em três níveis

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RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

Por Ruminantes Fotos David Rodrigues

de altitude, onde atualmente se faz silagem de milho e uma rotação entre pastoreio e produção de erva fenada. Aos poucos, a exploração tem vindo a crescer: instalou-se um estábulo para a alimentação dos animais, uma sala de ordenha fixa e um tanque de frio. Em 2015 construiu-se um viteleiro com 26 espaços e aumentou-se o efetivo, a par com outros melhoramentos ao nível da inseminação artificial, das técnicas de cultivo e do armazenamento de forragens. Em 2017

iniciou-se um ensaio com mistura de leguminosas e azevéns perenes para conseguir ter alimento todo o ano, otimizando desta forma o custo de alimentação e melhorando o nível de azoto no solo. Hoje o efetivo total é de 215 animais, dos quais 119 fêmeas Holstein Frísia e 60 fêmeas ProCross. A exploração está no projeto da produção de leite de pastagem da Nova Açores e vende todo o leite à cooperativa Unileite. O trabalho diário é assegurado por três


Mais saúde com menos custos | Entrevista a Mário Cordeiro

Mário Cordeiro (à direita) gere, com a ajuda dos seus filhos, Henrique e Mafalda, a exploração.

pessoas: Mário Cordeiro, o seu filho Henrique e um empregado a tempo inteiro. Mafalda, a filha mais nova, também faz qualquer trabalho na exploração sempre que é necessário. O dia começa sempre na ordenha, que é feita de manhã, às 5h30m, e à tarde às 17h30m. Os animais em produção estão 10 a 11 horas em pastoreio e comem no carro unifeed uma mistura de 21 kg de silagem de milho e 19 kg de silagem de erva (quantidade por vaca/dia). Na sala de ordenha cada animal come diariamente 9,5 kg de concentrado, repartido pelas 2 ordenhas diárias. As quantidades dos alimentos são ajustadas com o nutricionista, conforme a altura do ano e a disponibilidade de pastoreio. Os machos em engorda estão sempre em confinamento junto às instalações, de forma a aproveitar as sobras da dieta das vacas. As vitelas são criadas até aos 10 a 12 meses, confinadas, e depois passam para o pastoreio. Há sempre dois grupos fora da exploração: o grupo de vacas secas e novilhas gestantes em pastoreio, e o segundo grupo, de novilhas até aos 14 meses, antes da primeira inseminação. De 10 em 10 dias é feito o trabalho de reprodução com um veterinário da Associação Agricola de São Miguel e, mensalmente, faz-se o contraste leiteiro. O efetivo é vacinado para IBR/BVB de 6 em 6 meses nas alturas críticas, abril e outubro.

Porque decidiu optar por esta nova genética?

Foi uma decisão que foi tomando forma depois de algumas viagens que temos vindo a fazer, desde 2017, ao mundo do ProCross, pela mão do Carlos Serra. Nos últimos anos, o meu filho Henrique visitou explorações na região de Lisboa e assistiu às jornadas europeias do ProCross que o ano passado se realizaram na Holanda. Finalmente, em fevereiro visitámos alguns negócios na Califórnia que nos convenceram definitivamente. É certo que a realidade é bastante diferente da nossa, mas o certo é que vimos explorações ProCross que têm vacas com 8 a 10 lactações. Começou o programa em 2017. Quantos animais ProCross tem?

Temos 60 animais.

Que percentagem dos animais é ProCross?

Cerca de 33% das fêmeas.

Qual é o grau de satisfação até ao momento com este programa?

É muito grande e aumenta a cada animal que chega ao efetivo para produção. Acredito que até à chegada dos animais do terceiro cruzamento vamos ter um mar de emoções.

Já tem animais ProCross em produção com várias lactações?

Até ao dia de hoje, ainda só temos primíparas em produção. Qual é o critério de escolha dos touros reprodutores das diferentes raças que usa neste programa?

As escolhas dos touros para este programa são sempre em diálogo com o responsável da Ugenes, representante em Portugal do ProCross, mas fundamentalmente temos sempre em atenção todos parâmetros de saúde, bons úberes, pernas e pés, e produção de leite e componentes. Avaliamos sempre as projeções da exploração a 24 meses para perceber quantos animais podemos inseminar com sémen sexado, e os restantes animais são inseminados com sémen Angus. É uma medida que visa manter o número de animais em produção de acordo com a nossa área. Utiliza sémen sexado?

Sim, nas novilhas.

Numa exploração leiteira, o principal factor para a rentabilidade é a reprodução?

Sem dúvida alguma. Sem uma reprodução otimizada não existe uma produção maximizada.

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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Mais saúde com menos custos | Entrevista a Mário Cordeiro

" AGORA CONSEGUIMOS TER ANIMAIS MAIS SAUDÁVEIS COM MENOS CUSTOS." …

A utilização do Vigor Híbrido teve algum efeito nas vacas?

Sim, agora conseguimos ter vacas gestantes, antes dos 60 dias, em lactação. Os teores de gordura e proteína do leite também são mais elevados.

Notou alguma melhoria na reprodução com o programa ProCross relativamente ao das vacas Holstein?

Sim. Até ao momento, e reconhecendo que são ainda poucos animais ProCross adultos, já conseguimos verificar que a taxa de prenhez aos 21 dias, para as Holstein é de 13% e para as ProCross de 33%. Nota menos problemas de mamites?

As que estão em ordenha ainda não tiveram problema de mamites. No que toca à recria destes animais é fácil perceber: se antes, nas Frísias, em 10 animais tratávamos 6, hoje por cada 10 animais ProCross tratamos 2. Como compara as produções das vacas Cruzadas com as Holstein?

Todas as que estão em produção estão acima da média diária do rebanho (32 litros).

Que indicador prefere: lactações de 305 dias ou dados produtivos da vida útil dos animais?

DADOS DA EXPLORAÇÃO LOCALIZAÇÃO: RELVA, S. MIGUEL ÁREA: 50 HECTARES, EM 3 ALTITUDES. Nº EMPREGADOS: 3-4 SALA ORDENHA: FIXA, PARALELA, DELAVAL 8X8

Quais são as diferenças de dias em leite entre os dois grupos de novilhas?

DADOS GERAIS DO REBANHO PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE VACARIA/ANO: 1.010.110 LITROS EFETIVO TOTAL: 215 FÊMEAS: 119 HOLSTEIN FRÍSIA, 60 PROCROSS TOTAL NOVILHOS EM ENGORDA: 34 Nº VACAS EM ORDENHA: 100 Nº VACAS SECAS: 11 ANIMAIS Nº ORDENHAS POR DIA: 2 TEMPO DE ORDENHA DO EFETIVO: 1 H 40 MIN. PRODUÇÃO LEITEIRA MÉDIA AOS 365 DIAS ( 2019 ): 9267LITROS PRODUÇÃO MÉDIA DIÁRIA: 32 LITROS Nº DE LACTAÇÃO MÉDIA ANUAL: 3 GB: 4,2% | PB: 3,3 CCS: 120.000 CÉL/ML IDADE MÉDIA AO ABATE 6.4 ANOS TAXA DE REFUGO ANUAL: 20% TAXA DE SUBSTITUIÇÃO ANUAL: 20% IDADE AO 1º PARTO: 28 MESES IEP (INTERV. ENTRE PARTOS): 402 DIAS EM ABERTO (IDEAL <=100): 129 Nº I.A. VACA ADULTA GESTANTE: 2 DOSES TAXA DE DETEÇÃO DE CIOS: 57% PERÍODO ESPERA VOLUNTÁRIO: 40 DIAS % VACAS ADULTAS GESTANTES: 50% % NOVILHAS ADULTAS (+ 13 MESES) GESTANTES: 75% 1º DIA INSEMINAÇÃO (< 60): 68 DIAS DEA: 187 DIAS | DEL: 159 DIAS

Sem dúvida alguma, a vida útil dos animais. Quanto mais partos conseguirem fazer na vacaria, mais leite produzem na sua vida útil e mais lucro dão à exploração.

Cruzadas: 65 dias; Holstein: 155 dias.

Como são valorizados os vitelos machos Holstein e ProCross vendidos para engorda?

Um vitelo macho do programa ProCross é pago a 150 euros, os Holstein entre 70 a 80 euros.

Este animal é uma boa opção para os Açores?

Sim. Nos Açores, 90% das vacas fazem pastoreio. Precisamos de animais com membros fortes e saudáveis, para resistirem bem aos invernos e verões atípicos que temos vindo a ter. Quando conseguirmos ter animais para equilibrar a produção com a reprodução, será a opção perfeita.

“De momento, as [Cruzadas] que estão em produção estão todas acima da média diária do rebanho (32 litros).”

A exploração de Mário Cordeiro já obteve várias distinções de mérito: o prémio anual de Produtor Excelente, consecutivamente desde o ano 2007, e o prémio "Medalha de Ouro", por 10 anos consecutivos de Leite de Excelência. 46

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PROGRAMA DE CRUZAMENTOS DE 3 RAÇAS CIENTIFICAMENTE JÁ PROVADO

+33

%*

LUCRO DE VIDA PRODUTIVA

VIKINGRED

PARTO FACIL LONGEVIDADE SAUDE

+10PTS PONTOS NA TAXA DE CONCEÇÃO

-26%

DE CUSTOS DA SAÚDE

+8%

DE EFICIÊNCIA ALIMENTAR

ROBUSTEZ FERTILIDADE ADAPTABILIDADE MONTBELIARDE

PRODUÇÃO SÓLIDOS TAMANHO MÉDIO

+147

DIAS EM PRODUÇÃO

+14% VALOR DE REFUGO

VIKINGHOLSTEIN Fonte : Estudo de 10 anos de comparação de animais ProCROSS com as puras Holstein, pelo Professor Les Hansen da Universidade do Minnesota. * Para mais informação : www.ansci.umn.edu/sites/ansci.umn.edu/files/procross_10-year_study_results_kg_new.pdf

Os touros VikingRed, Montbeliarde e VikingHolstein estão disponíveis no nosso distribuidor | JUL/AGO/SET 2020 47 Ugenes-Unipessoal,Lda - Rua da Portela “Villa Mós” - Lapa - 2665-617RUMINANTES Venda do Pinheiro - Portugal Email: carlosserra@unigenes.com - Telf: +351 917 534 617


SAÚDE E BEM-ESTAR | VACAS LEITEIRAS

PREVENÇÃO DO STRESS TÉRMICO

COOLCARE É UMA SOLUÇÃO DA DE HEUS PARA COMBATER O STRESS TÉRMICO EM VACAS LEITEIRAS QUE RESULTA DA COMBINAÇÃO DE UMA AMPLA GAMA DE ADITIVOS.

E

m 2015, após a entrada da De Heus no mercado português, a problemática do stress térmico em vacas leiteiras foi abordada. Foi criada uma equipa multidisciplinar e internacional para analisar o problema e deu-se início a um projeto que visava

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a criação de uma solução para ajudar os produtores de leite a combaterem as consequências negativas do calor nos seus animais e nas suas explorações. Como em muitos outros países onde a De Heus está presente, como a Índia, o Vietname e a Polónia, também em Portugal

é surpreendente o impacto negativo do stress térmico nas explorações. As consequências manifestam-se de forma imediata nos resultados produtivos e na fertilidade e prolongam-se muitas vezes ao longo dos meses seguintes. O impacto económico deste problema pode ser devastador.


Prevenção do stress térmico em vacas leiteiras

FIGURA 1 CONSEQUÊNCIAS DO STRESS TÉRMICO EM VACAS LEITEIRAS • Aumento da transpiração • Redução da taxa de conceção • Mortes embrionárias • Quistos ováricos

• Diminuição da ingestão de MS • Aumento da produção de CO2 • Aumento da salivação • Aumento da frequência respiratória

• Diminuição da produção de leite • Diminuição do teor de gordura e proteína do leite • Mamites • Aumento das células somáticas

• Redução da ruminação • Acidoses • Cetoses

Da partilha de experiências e conhecimentos entre os países onde a De Heus está presente, desenvolveu-se o conceito CoolCare que foi adaptado especificamente para o nosso país dadas as suas características particulares. Com o CoolCare, através da utilização de tecnologia nutricional e de um conjunto de regras de maneio, procura-se limitar o impacto negativo do stress térmico. Este produto constitui uma solução completa – tampões, adsorventes, minerais e vitaminas, conservantes e reguladores térmicos bioativos – onde estão combinados os fatores nutricionais mais importantes para ajudar as vacas de leite durante os períodos quentes e evitar ao máximo as quebras de rendimento e consequentes prejuízos financeiros.

CÉSAR NOVAIS GESTOR DE PRODUTO DE RUMINANTES, DE HEUS NUTRIÇÃO ANIMAL, SA cvcorreia@deheus.com

JOOST JANSSENS GESTOR DE PRODUTO INTERNACIONAL, DE HEUS

AS EXPLORAÇÕES COM MAIORES PRODUÇÕES SOFREM MAIS COM O IMPACTO DO STRESS TÉRMICO O stress térmico ocorre quando a vaca não consegue libertar-se do excesso de calor produzido. Vacas de alto rendimento geram muito calor corporal através do seu próprio metabolismo. Por exemplo, uma vaca a produzir 45 litros de leite produz cerca de 1.900 Watt por hora. Assim, animais mais produtivos sofrem ainda mais em períodos quentes. Ao não conseguirem perder calor suficiente, vão diminuir a produção de leite para dessa forma reduzir a produção de calor. Mas os problemas não se limitam à menor produção de leite: o stress térmico provoca perda de condição corporal, redução das taxas de fertilidade, problemas de saúde e metabólicos como a acidose (Figura 1). REGULAÇÃO DA TEMPERATURA CORPORAL Para manter a produção de leite num nível aceitável, é importante que a vaca tenha uma temperatura corporal constante. Para que isto aconteça existem apenas duas formas:

• Laminites

- Libertação de calor: aumento do fluxo sanguíneo subcutâneo (superfície da pele); aumento da frequência respiratória (aumento da abertura da boca); aumento da salivação. - Limitação da produção de calor: diminuição da ingestão de matéria seca; diminuição da fermentação (menor digestão ruminal); diminuição da frequência de refeições ao longo do dia. O resultado da maioria das ações de regulação do equilíbrio térmico é uma perda de produção e consequentemente uma perda direta de rentabilidade económica para o agricultor. ÍNDICE TERMO HIGROMÉTRICO (THI): O MELHOR INDICADOR PARA O STRESS TÉRMICO O stress térmico é calculado em função da temperatura e da humidade na exploração agrícola. A partir desses dois parâmetros encontra-se o índice THI. O THI não é mais que uma equação para avaliar o impacto do stress térmico nos animais. Para uma vaca de alta produção o stress térmico inicia-se a uma temperatura média de 24 graus quando combinada com uma humidade superior a 30% (THI ≥ 68). Quanto maior for o THI, mais sofrem os animais (Figura 2). A extensão do stress térmico depende da capacidade de uma vaca baixar a sua temperatura corporal e de recuperar durante a noite. Essa é a razão pela qual para fazer um cálculo fiável do THI, deve levar em consideração a temperatura média diurna e noturna e não apenas a temperatura diurna. SINAIS DE VACAS COM STRESS TÉRMICO Diferentes categorias de stress térmico são referidas na literatura, cada uma com as suas expressões e consequências específicas. Pode avaliar-se a ocorrência de stress térmico nas vacas através da avaliação individual da taxa de respiração ou da temperatura dos

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Prevenção do stress térmico em vacas leiteiras

TABELA 1 GRAU DE STRESS TÉRMICO, RELACIONANDO A TAXA DE RESPIRAÇÃO E A TEMPERATURA RETAL Categoria de stress térmico

Taxa de respiração (B/min)

Temperatura retal (ºC)

Leve

≥60

38.5

Leve-moderado

≥75

39

Moderado-severo

≥85

40

Severo

≥120

41

Fatal

X

X

FIGURA 2 ÍNDICE TERMO HIGROMÉTRICO (THI) Humidade relativa %

Temperatura ºC

10

20

30

40

50

60

70

80

100

22

65

65

66

67

68

69

69

70

71

72

24

66

67

68

69

70

71

72

73

74

75

26

68

69

71

72

73

74

75

76

78

79

28

70

71

73

74

76

77

78

80

81

82

30

72

73

75

77

78

80

81

83

84

86

32

74

75

77

79

81

83

84

86

88

90

34

75

77

79

81

83

85

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89

91

93

36

77

79

82

84

86

88

90

92

95

97

38

79

81

84

86

89

91

93

96

98

100

40

81

83

86

89

91

94

96

99

101

104

Nulo

Leve

Leve-moderado

… animais. Na Tabela 1 observamos as

taxas de respiração e de temperatura retal associadas aos diferentes níveis de stress térmico. Estas também estão ligadas ao nível de THI (Figura 2). Outros sinais observados são o aumento da salivação e a aglomeração dos animais em grupos. Em casos graves, as vacas começam a tremer e a perder a coordenação (Tabela 1). REDUÇÃO DO STRESS TÉRMICO ATRAVÉS DO MANEIO E DA NUTRIÇÃO A forma mais eficiente de reduzir o stress térmico é através da adaptação do maneio e da nutrição. As alterações no maneio são de grande importância para permitir a descida da temperatura corporal dos animais. Para isso, deve-se procurar garantir a existência de sombras, ventiladores e nebulizadores. O fornecimento de água fresca, em especial após a ordenha, bem como o maneio adequado dos alimentos e dos silos das forragens, são igualmente muito importantes. A nutrição é fundamental em diferentes níveis. Por isso é importante utilizar todas as ferramentas nutricionais disponíveis para limitar os aspetos negativos do stress térmico. 50

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Moderado

Severo

Fatal

A utilização de buffers, o aumento da energia da dieta e o correto aporte de vitaminas e minerais essenciais são estratégias alimentares muito importantes. A ingestão de água e alimento pode ser estimulada através da utilização de aditivos especiais. Por último, o mecanismo natural de arrefecimento de animais pode ser melhorado pela expansão dos vasos sanguíneos, usando o poder natural dos reguladores térmicos bioativos. COOLCARE, A SOLUÇÃO MAIS COMPLETA DO MERCADO CoolCare é uma solução da De Heus para combater o stress térmico em vacas leiteiras que resulta da combinação de uma ampla gama de aditivos. Possui um modo de acção muito amplo, cobrindo todas as vertentes nutricionais relacionadas com a prevenção do stress térmico. Ao contrário de outros produtos, que se concentram apenas numa ou duas vertentes nutricionais, CoolCare cobre quase todas as possibilidades nutricionais da prevenção do stress térmico. Por exemplo, contém um conservante que mantém o TMR mais fresco, evitando dessa forma o uso de outros produtos ao mesmo tempo na exploração. Por outras palavras, poupa trabalho e evita custos adicionais.

As substâncias ativas no CoolCare são: - buffers, antitoxinas, minerais, vitaminas, conservantes e reguladores térmicos bioativos. EFEITOS DO COOLCARE Os efeitos do Coolcare são visíveis a vários níveis: - produção de leite mais estável; - maior ingestão de matéria seca; - TMR mais fresco; - maior ingestão de água; -animais mais hidratados; - menor descida da gordura e proteína do leite; - melhor taxa de conceção; - menos acidoses; - animais mais saudáveis e felizes. COMO DEVE SER USADO O COOLCARE O conselho da De Heus é que o CoolCare seja usado apenas durante os períodos de stress térmico (em que o THI é superior a 68), e não durante todo o verão para evitar custos desnecessários. Em explorações de maior dimensão, com vários grupos de produção, pode-se oferecer apenas aos grupos de alta produção (com maior risco e mais sujeitos às consequências negativas do stress térmico), sendo por isso um produto muito prático de implementar e também eficaz do ponto de vista económico. AUMENTE AS MARGENS DURANTE O VERÃO E NO OUTONO Como já referido, as consequências do calor no verão são muitas vezes repercutidas para os meses seguintes, quer sob a perda direta da produção quer como sequelas dos problemas de fertilidade e perda de condição corporal decorrentes da exposição ao calor. CoolCare surge como uma solução nutricional “completa” para ajudar os produtores de leite a combaterem o problema do calor nas suas explorações. Mas importa reforçar que os melhores resultados obtêmse quando, em conjunto com a solução nutricional, também se adotam as melhores práticas de maneio. Esta combinação única de maneio e nutrição vai impedir a quebra de resultados das explorações e impulsionar o futuro dos produtores de leite.


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FORRAGENS EMERGENTES RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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ALIMENTAÇÃO | MATÉRIAS-PRIMAS

FLOCULAÇÃO E EXTRUSÃO

OS PROCESSOS DE FLOCULAÇÃO E DE EXTRUSÃO TÊM IMPACTO NA VALORIZAÇÃO NUTRICIONAL DAS MATÉRIAS-PRIMAS, NOMEADAMENTE NOS CEREAIS E NALGUMAS SEMENTES, TORNANDO-AS NUTRICIONALMENTE DISPONÍVEIS PARA OS ANIMAIS.

O

s alimentos destinados à alimentação animal são geralmente compostos por diferentes matérias-primas combinadas entre si. Destas, os cereais têm desempenhado um papel importante no equilíbrio nutricional das dietas, ainda que, tal como algumas sementes no seu estado bruto, contenham uma estrutura de amido inacessível e, por isso, indigestível. Para tornar este amido nutricionalmente disponível é necessário

LUÍS RAPOSO ENGENHEIRO ZOOTÉCNICO DEP.TO RUMINANTES REAGRO l.raposo@reagro.pt

transformá-lo em pequenos componentes, moléculas de "açúcares", que poderão ser transformadas em amido gelatinizado. Para este efeito, as matérias-primas utilizadas na alimentação animal podem ser sujeitas a tratamentos tecnológicos simples (moenda ou rolagem), ou a tratamentos mais complexos que envolvem também fatores como a temperatura, a humidade e a pressão. O mais comum destes tratamentos é a granulação, que permite aglomerar as partículas mais finas num granulado de

QUADRO 1 IMPACTO DOS TRATAMENTOS TECNOLÓGICOS NA VALORIZAÇÃO DAS MATÉRIAS-PRIMAS Rompimento do Involucro

Tamanho das partículas

Fragmentação da matriz interna

Danos nos grânulos de amido

Digestão Ruminal

Digestão Intestinal

Moagem

++++

++++

-

-

++

+

Rolagem

++

+ (+++)

+

+

+

+

Floculação

+++

+

+++

+++

++++

+++

Granulação

++++

-

+++

++

+

++

Extrusão

++++

-

++++

+++

++

+++

Fonte: TFN.

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Impacto da floculação e extrusão na valorização de matérias-primas

"(…) DESTES PROCESSOS [FLOCULAÇÃO E EXTRUSÃO] RESULTAM CEREAIS MAIS DISPONÍVEIS (COM MELHOR DIGESTIBILIDADE) E, POR ESSE MOTIVO, COM MAIOR VALOR NUTRITIVO." dimensão variável. Neste artigo, iremos concentrar-nos noutros dois tratamentos aplicados sobre as matérias-primas e também muito utilizados na alimentação animal: a floculação e a extrusão (Quadro 1). É importante: - estimar o valor nutricional das matérias-primas em questão; - conhecer o impacto dos tratamentos tecnológicos na valorização dessas matériasprimas. A extrusão e a floculação são processos altamente fiáveis e consistentes que combinam a ação de temperaturas elevadas, em períodos de tempo relativamente curtos, com humidade e pressão mecânica. Desta forma, é possível alcançar elevados níveis de gelatinização do amido e a eliminação de fatores anti-nutricionais (sem perda significativa de água). Consequentemente, destes processos resultam cereais mais disponíveis (com melhor digestibilidade) e, por esse motivo, com maior valor nutritivo. A floculação envolve a passagem da matériaprima, de forma contínua, numa câmara de cozimento onde são aplicados jatos de vapor de água durante alguns minutos. De seguida, a matéria-prima é sujeita a um esmagamento, ainda a quente, por forma a ficar achatada, e só por fim é arrefecida. O efeito da floculação sobre a matéria-prima provoca alterações na estrutura dos grãos de amido e na matriz proteica, provocando o rompimento destas estruturas. Neste processo dá-se o início da despolimerização e o inchaço dos grânulos

de amido (gelatinização) por efeito da temperatura (vapor de água). Na extrusão as matérias-primas são, não só submetidas a altas temperaturas (100 a 170 °C), como a fatores físicos de pressão. Neste processo, à semelhança do que acontece na floculação, ocorrem danos na estrutura original do grão: quebra da parede celular, modificação estrutural das moléculas de amido devido à ação de pressão e temperatura, despolimerização da amilopectina e da amilose, aumento da solubilidade e da sensibilidade do amido à α-amilase e a fusão de grânulos numa fase homogénea (gelatinização do amido). Passa a existir também uma maior disponibilidade do conteúdo em gordura, um ligeiro aumento das fibras solúveis e um melhor desempenho energético. Relativamente às modificações na estrutura das proteínas, a perda parcial da estrutura secundária (agregação=insolubilização) e a perda da estrutura terciária e quaternária (inativação biológica) levam à formação de uma matriz proteica mais resistente à proteólise, ou seja, com uma redução da sua degradação ruminal e um aumento do efeito by-pass. QUAL É O IMPACTO NUTRICIONAL DA FLOCULAÇÃO E DA EXTRUSÃO NA ALIMENTAÇÃO DOS RUMINANTES? • Melhora o seu valor nutritivo e destrói ou reduz os fatores anti-nutricionais de algumas matérias primas no seu estado natural. Algumas matérias-primas não se podem utilizar no seu estado “natural” devido à presença de fatores anti-nutricionais. Nesses

GRÁFICO 2 DEGRADAÇÃO RUMINAL DO AMIDO IN SACCO EM FUNÇÃO DO TEMPO DE PERMANÊNCIA NO RÚMEN

GRÁFICO 1 DEGRADAÇÃO RUMINAL DO AMIDO EM FUNÇÃO DO TEMPO DE PERMANÊNCIA NO RÚMEN Fonte: TFN.

(Gaebe et al., 1998/Rapport Techna; Fonte: TFN.) DT Amido %

DT Amido %

casos, a aplicação de tratamentos térmicos ajuda a melhorar o seu valor nutritivo e a destruir ou reduzir os fatores antinutricionais, como os fatores anti-tripsínicos da soja (-90%, LELOY 1987) ou o ácido cianídrico do grão de linho, o gossipol do algodão ou os glucosinolatos da colza; • Melhora a higiene do produto pela esterilização e redução da carga microbiana (segurança sanitária); • Melhora a durabilidade e conservação das matérias-primas; • Modifica e melhora a apresentação das matérias-primas para facilitar a sua utilização em dietas; • Torna mais disponíveis (digestíveis) elementos como o amido ou a gordura, em relação ao grão cru. Entre outros cereais e leguminosas, o processo de floculação é particularmente interessante nos grãos de milho. Este efeito é muito evidente no gráfico 1 onde se compara a degradação ruminal de milho em flocos com o milho em grão. Na extrusão podem estar uma ou várias matérias-primas envolvidas em simultâneo (em grão, trituradas, eventualmente descorticadas): oleaginosas em grão (linho ou girassol), leguminosas (soja, colza, tremoço, fava e ervilha) e cereais (milho, cevada, etc.), sejam misturas ou alimentos completos. No gráfico 2 é visível o efeito da extrusão no aumento da solubilidade do amido do milho em comparação com o grão de milho rolado (processo mecânico sem tratamento térmico).

120

100

120 100

80 80 60

60

Milho 40

Milho floculado

20

Milho achatado

40 20 0

0 0

Milho extrudido

2

4

8

16

24

0

48 Tempo (horas)

20

40

60

80 Tempo (horas)

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Impacto da floculação e extrusão na valorização de matérias-primas

… IMPACTO DA FLOCULAÇÃO EM RUMINANTES > Aumento da digestibilidade do amido do cereal no rúmen ROLAGEM

FLOCULAÇÃO

Milho

61%

84%

Trigo

86%

92%

(Degradabilidade do amido no Rúmen (Michalet Doreau 91 et Lycos 97 Rapport Techna). > Aumento da digestibilidade do amido do cereal após o rúmen Mesmo após o rúmen, ao nível do intestino, a floculação também aumenta a digestibilidade do amido do cereal. ROLAGEM

FLOCULAÇÃO

Milho

68%

94%

Cevada

82%

91%

(Degradabilidade do amido pós-rúmen (Owen et Zinn 2005, Rapport Techna). • Além do aumento da digestibilidade do amido, a floculação é interessante no aumento da palatabilidade em alimentos para pequenos ruminantes (cabras e ovelhas) e ruminantes jovens (vitelos, cabritas e borregos); • Melhoria das performances de engorda, em bovinos, com a utilização de cereais floculados vs. cereais rolados (sem tratamento térmico); > Interesse da floculação sobre o desempenho no crescimento de bovinos de engorda ROLAGEM

FLOCULAÇÃO MATURAÇÃO >30 MIN

GMD (g/dia9

1200

1230

MSI (kg/dia)

7,7

7,1

6,48

5,84

IC (MSI/100 kg)

(Synthèse Univ. Arizona - Theurer et al., 1996).

> Efeito benéfico da extrusão da semente de linho, torna a gordura do linho mais disponível (perfil de gordura insaturado) e especialmente útil e interessante para: - animais produtores de leite, com melhoria da produção de leite e do desempenho reprodutivo; - engorda de novilhos, contribuindo para aumentar o percentual de gordura na dieta de acabamento, ajudando a finalizar a engorda dos animais. CONCLUSÃO Os tratamentos tecnológicos possíveis são variados e o desafio será o de avaliar com precisão como modificar critérios de digestibilidade em função do tratamento aplicado e dos objetivos pretendidos. Neste caso ficaram claras as vantagens da utilização de matériasprimas floculadas ou extrudidas. Não obstante, o sucesso estará numa diferenciação cada vez mais forte de matrizes/nutrientes, que dependem da avaliação indispensável dos animais (espécie e idade), da matériaprima e da sua origem, exploração, composição da ração, etc. e atribuir a cada matéria-prima valores nutricionais (Energia, PDI, GB...) da forma mais precisa possível.

• Na proteção da proteína à degradação ruminal (efeito by-pass); > Efeito da extrusão sobre o desaparecimento in sito da proteína da fava EXTRUSÃO A 135º

DEGRADAÇÃO RUMINAL

DEGRADAÇÃO INTESTINAL

DEGRADAÇÃO TOTAL

DISPONIB.INTESTINAL PROTEÍNAS BY-PASS

90,6%

7,3%

97,9%

77,7%

58%

38,5%

96,9%

91,7%

Fava Fava extrudida

(Benchaar et al., 1994 Rapport Techna)

> Efeito da extrusão sobre os valores nutricionais do grão de soja GRÃO DE SOJA

SOJA EXTRUDIDA

UFL BV

120.6

126.8

DT

0.90

0.49

SOL PROT BV

0.54

0.18

PDIN

212.2

256

PDIE

76

197

PDIA

33

168

Este impacto será particularmente importante em ruminantes, mas o interesse da extrusão ou da floculação pode estender-se a outras espécies ou a fases particulares: cavalos, leitões, vitelos em fase pré-ruminante, … > Efeito benéfico da extrusão no desenvolvimento do rúmen em vitelos ALIMENTO EXTRUDIDO

CONTROLO

GMD (g/d)

440

390

Ingestão global de alimento seco (kg)

42.6

44.3

Ingestão de Leite (kg)

176.5

173.9

Comprimento papilas (µm)

1 955

1 661

Superfície das papilas (µm²)

1 592

935

(De Chaves et al, 2014 - Ensaio em 32 vitelos Holstein de 38kg)

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A EXTRUSÃO E A FLOCULAÇÃO SÃO PROCESSOS ALTAMENTE FIÁVEIS E CONSISTENTES QUE COMBINAM A AÇÃO DE TEMPERATURAS ELEVADAS, EM PERÍODOS DE TEMPO RELATIVAMENTE CURTOS, COM HUMIDADE E PRESSÃO MECÂNICA. DESTA FORMA, É POSSÍVEL ALCANÇAR ELEVADOS NÍVEIS DE GELATINIZAÇÃO DO AMIDO E A ELIMINAÇÃO DE FATORES ANTINUTRICIONAIS (SEM PERDA SIGNIFICATIVA DE ÁGUA).


RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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SAÚDE E BEM-ESTAR | VACAS LEITEIRAS

INFLAMAÇÃO: PRENDER O LADRÃO DE LEITE OCULTO UM PERÍODO DE TRANSIÇÃO BEM SUCEDIDO É ESSENCIAL PARA UMA LACTAÇÃO DE SUCESSO. A REDUÇÃO DA INFLAMAÇÃO NOS 30 DIAS ANTES E APÓS O PARTO PODE TER UM PAPEL IMPORTANTE NA MELHORIA DA PERFORMANCE DURANTE A LACTAÇÃO E DURANTE TODA A VIDA PRODUTIVA. HUW MCCONOCHIE, DA ZINPRO CORPORATION, DESTACOU AS ÁREAS CHAVE NAS QUAIS SE DEVE FOCAR A GESTÃO PARA REDUZIR O RISCO DE INFLAMAÇÃO EXCESSIVA DURANTE O PERÍODO DE TRANSIÇÃO. Adaptado por Inês Ajuda, Médica Veterinária | Fotos Zinpro

E HUW MCCONOCHIE Research Nutritionist Europe, Southern Africa, MENA and Russia, Zinpro Corporation HMcConochie@Zinpro.com

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RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

m primeiro lugar é importante perceber por que motivo a inflamação excessiva é um problema. Níveis normais de inflamação são a resposta do organismo a uma lesão, acionando o sistema imunitário para sarar os tecidos e prevenir infeções. Todas as respostas imunitárias requerem glucose, que é crucial para todas as funções orgânicas da vaca leiteira. Qualquer inflamação, independentemente da sua magnitude, causará um desvio da glucose que seria utilizada para produzir leite, uma vez que o organismo da vaca leiteira irá privilegiar a utilização da glucose para a recuperação em vez de para a produção.

Quanto maior a magnitude da inflamação, mais a produção será afetada. A vaca leiteira responde a um balanço energético negativo no fornecimento de energia, com a mobilização de reservas corporais. Um balanço energético negativo excessivo está associado a uma resposta imunitária aumentada, levando ainda a um maior desvio da glucose que de outra maneira estaria destinada à produção de leite. Embora um baixo nível de inflamação seja uma parte normal e aceitável do período de transição, a inflamação em excesso é um problema que pode comprometer o sucesso desse mesmo período. A chave é manter a incidência de inflamação o mais baixa


Inflamação: prender o ladrão de leite oculto

Vários estudos têm vindo a demonstrar que o nível de claudicação do rebanho aumenta durante o período de transição, muito provavelmente ligado a períodos de descanso inadequados.

possível. Este artigo irá debruçar-se sobre as várias áreas em que uma gestão proativa pode desempenhar um papel importante: design do edifício, gestão de stress no reagrupamento, gestão do stress de calor, gestão da saúde do rebanho e alimentação e abeberamento. DESIGN DO EDIFÍCIO O comforto da vaca no periodo de transição passa por três elementos chave: espaço, cama confortável e um edíficio adequado ao periodo de transição. O sucesso do período de transição é muito influenciado pelo design do edifício utilizado durante este período (edifício de transição), uma vez que influenciará todas as vacas que por ali passarão. O ESPAÇO O espaço deve ser grande o suficiente e desenhado para poder acomodar a altura do pico de partos, assegurando assim que nunca fique sobrelotado. O edifício de transição deve ter espaço suficiente para que, durante os picos de partos, o espaço na manjedoura e o espaço para deitar não tenham que ser reduzidos, bem como a duração da estadia das vacas neste edifício. Adicionalmente, é igualmente importante ter em conta uma eventual expansão da exploração. Tem que existir espaço suficiente para que todas as vacas se possam deitar confortavelmente: pelo menos um cubículo por vaca, ou pelo menos 10 m2 por vaca quando são utilizados parques. Caso o edifício de transição não tenha o espaço necessário, haverá alturas em que os requisitos básicos da vaca em período de

transição serão comprometidos, levando a um aumento de insucessos no período de transição devido à baixa ingestão de matéria seca (DMI), sobrelotação e stress. Em parques de camas de palha é importante providenciar pelo menos 1m2/1000kg de 305 dias de produção de leite. CAMA COMFORTÁVEL Assegurar que as vacas têm um descanso adequado é essencial. Uma duração e qualidade adequadas de descanso reduzem o risco de inflamação excessiva e de claudicação, e promovem a ruminação e consequentemente a produção de saliva. Em contrapartida, a privação de um descanso adequado durante o período de transição leva à circulação excessiva de hormonas de stress. Este fenómeno leva a um aumento da mobilização de gordura e a um risco aumentado de inflamação. Vários estudos têm vindo a demonstrar que o nível de claudicação do rebanho aumenta durante o período de transição, muito provavelmente ligado a períodos de descanso inadequados. A saúde das unhas está particularmente vulnerável no período de transição, devido ao típico relaxamento dos músculos pélvicos e tendões na preparação para o parto, que também leva a um relaxamento dos músculos e tendões responsáveis pela suspensão da falange distal dentro da cápsula da unha. Adicionalmente, longos períodos em pé podem comprometer a circulação de sangue para os membros, predispondo a inflamação. Incorporar o Zinpro Performance Minerals® é uma

estratégia nutricional que pode ajudar a prevenir claudicação, melhorando a saúde das unhas e reduzindo o número de lesões. Quando a vaca está deitada, a ruminação e a produção de saliva são aumentadas. Nas vacas recém-paridas, a oportunidade de descansar num cubículo confortável ajuda a reduzir o risco de acidose e inflamação (vacas recém-paridas não devem estar mais do que 3 horas por dia longe das suas camas). Adicionalmente, a circulação sanguínea é também melhorada quando a vaca está deitada. No casos do uso de cubículos, o design influencia o tempo que a vaca passa deitada – quanto mais comfortável, mais tempo a vaca passará deitada nele (ver caixa abaixo)

Características a ter em conta para melhorar o conforto de um cubículo • O design da base do cubículo e das suas divisões tem um impacto na facilidade que a vaca tem em deitar-se e levantar-se. O nível de dificuldade destas duas ações influencia o tempo que a vaca passa deitada, e pode aumentar o risco de claudicação. • Os cubículos devem ser desenhados de acordo com o peso das vacas. • É importante escolher um design que promova o correto posicionamento da vaca, e sem obstáculos na zona onde a vaca dá o impulso com a cabeça quando se levanta, e se inclina quando se deita. • Para as camas, os melhores materiais para promover maiores período de descanso são a areia e composto. A profundidade do material também é importante, devendo a cama ter pelo menos 10 cm de profundidade.

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Inflamação: prender o ladrão de leite oculto

DESIGN ADEQUADO DO PARQUE Adicionalmente o design do edifício deve incluir: • Acesso a pedilúvios, afim de reduzir a incidência de claudicação. • Elevado nível de conforto dos cubículos (tamanho ajustado a vacas prenhas) • Acesso adequado a água (10cm/vaca) • Ventilação eficiente e mecanismos de controlo de temperatura • Máximo de duas filas de cubículos GESTÃO DE STRESS NO REAGRUPAMENTO Depois de ter a certeza que os edifícios estão desenhados corretamente para prevenir uma inflamação excessiva, devemos concentrarnos na gestão das vacas durante o período de transição. Dois dos principais objetivos do período de transição são manter a ingestão de matéria seca (DMI) e reduzir o stress. Ambos podem ser afetados se o grupo onde as vacas estão inseridas se alterar. Reagrupar vacas leva a uma destabilização da dinâmica do grupo, levando a que as hierarquias tenham que ser restabelecidas. A introdução de novas vacas num parque, independentemente do seu número, leva a um restabelecimento da hierarquia que pode levar entre 2 a 3 dias. Quanto mais próxima do parto for esta mudança no grupo, maior será o efeito negativo na DMI e no stress. Reduzir a frequência da introdução de vacas num novo grupo reduz a tensão social no rebanho. O sistema perfeito deve ter quatro parques de camas de palha, cada um grande o suficiente para acomodar uma semana de partos num sistema “all-in all-out”. Cada grupo permanece inalterável durante os 21 dias que antecedem o parto, e as vacas também parem nesse mesmo parque. Os movimentos de uma só vaca devem ser evitados afim de reduzir a disrupção social. Mudar 3 a 5 vacas de cada vez reduz o stress. As vacas devem também ser mantidas no mesmo grupo entre os 17 e os 2 dias que antecedem o parto. Em explorações mais pequenas, nas quais não é possível operar num regime “all-in all-out”, as vacas devem ser secas semanalmente e mudadas de grupo uma vez por semana. Se possível, as novilhas devem estar num grupo separado. ALIMENTAÇÃO E ABEBERAMENTO Providenciar espaço suficiente na manjedoura e cornadies individuais, minimiza o stress dentro de um grupo. Há que também evitar a sobrelotação dos parques, bem como becos sem saída nos parques com cubículos, e assegurar que diferentes grupos de vacas se conseguem ver. A obtenção de uma adequada ingestão de matéria seca ajuda a reduzir a quantidade e duração da perda de condição corporal. Uma inflamação excessiva mobiliza a energia, prejudicando a produção e fertilidade, 58

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enquanto aumenta os riscos relacionados com o período de transição. Uma ingestão ótima no período de transição só pode ocorrer através de uma boa gestão da alimentação, especialmente através do fornecimento de espaço suficiente à manjedoura, permitindo às vacas comer quando e como elas quiserem. Vários estudos demonstraram que cada vez que a média diária de tempo de ingestão de alimento diminui 10 minutos, o risco de acetose subclínica duplica. O risco de metrite grave triplica por cada quilograma diário de matéria seca ingerido a menos. Para reduzir a inflamação excessiva, há que evitar a sobrelotação da manjedoura. Se a manjedoura não tiver cornadies, um mínimo de 75 cm deve ser fornecido por vaca. As vacas não devem ser iniciadas numa manjedoura com cornadies durante o período de transição e as novilhas devem ser agrupadas separadamente. Deve também assegurar-se que as barras do comedouro estão 1,2 a 1,3 metros acima do nível do chão e 23 a 30 cm afastadas da parede onde as vacas comem. O fundo da manjedoura deve ser liso e a comida deve ser empurrada regularmente. Garanta água potável limpa e abundante, mantendo os bebedouros com uma pressão de reabastecimento adequada. Por fim, é essencial uma estratégia eficaz de alimentação de minerais para controlar a inflamação e ajudar a garantir uma transição suave. Foi provado que o Zinpro Performance Minerals aumenta a integridade intestinal e reduz a claudicação, além de estar associado a menos problemas no período de transição. Como consequência, uma maior eficiência alimentar e produção de leite, menor contagem de células somáticas e melhor reprodução podem ser alcançadas quando as vacas em período de transição são suplementadas com minerais de desempenho como o Availa®Mins, influenciando positivamente os lucros da exploração. GESTÃO DE SAÚDE DO EFETIVO Existem várias patologias que levam ao aumento da inflamação causada pela metrite, a mastite, a acidose ruminal subaguda (SARA) ou uma mobilização excessiva de tecidos. Todas estas patologias aumentam o risco de claudicação e a própria claudicação também aumenta o risco de inflamação excessiva. A claudicação tem um impacto negativo na ingestão de alimento e no tempo que as vacas descansam. Vacas claudicantes consomem menos matéria seca, o que leva a uma perda excessiva de peso no início da lactação e a uma maior incidência de doenças no período de transição. A deficiência energética, devido a uma ingestão de matéria seca sub-ótima, leva a um aumento da mobilização de gordura corporal. Esta mobilização está associada a uma inflamação aumentada que remove energia destinada à produção de leite. Para reduzir a incidência de claudicações,

o objetivo deve ser de não ter qualquer vaca coxa no parque de transição. Tal como referido já neste documento, a prevenção é essencial, daí que o acesso regular dos animais a um pedilúvio seja indispensável, caso haja presença de lesões infeciosas no parque das vacas secas. É também importante aparar todas as unhas de vacas secas e das novilhas, 6 a 9 semanas antes do parto. GESTÃO DO STRESS TÉRMICO As vacas no período de transição são muito suscetíveis ao stress térmico. Uma combinação de temperatura e humidade elevadas, medida como o Índice de Temperatura e Humidade (THI), pode ter um impacto significativo no desempenho, daí que a gestão se deva concentrar na redução do problema. A maioria das vacas secas é alimentada com uma dieta rica em fibras, que produz muito calor durante a ruminação e digestão, contribuindo para o problema. Nove estudos mostraram um aumento de rendimento médio de 2,5 kg/dia nas vacas cuja temperatura corporal foi reduzida durante o período de transição comparativamente às que não foram. O stress térmico é igualmente uma causa de inflamação. Para as vacas que foram recém-paridas, a inflamação associada ao stress térmico é devida a alterações na integridade intestinal e acidose. Vacas afetadas pelo stress térmico permanecerão em pé por mais tempo, baixarão a frequência de ruminação e irão ser mais criteriosas a separar as fibras. Acabam por comer menos e, havendo menor quantidade de alimento no rúmen e baixo pH ruminal, correm maior risco de acidose. Estão em maior risco de desenvolver lesões nas unhas devido à inflamação e à redução do tempo que estão deitadas, enquanto a inflamação pode afetar a qualidade dos óvulos e resultar num desempenho reprodutivo reduzido. Para reduzir o risco de stress por calor nas vacas em período de transição, é necessário arrefecer as vacas assim que o THI atingir 68. É um valor mais baixo do que o frequentemente citado, mas as vacas em período de transição geralmente usam dietas ricas em fibras que produzem muito calor. Forneça muita sombra e garanta uma velocidade do ar de arrefecimento de 8 a 10 km/hora. As consequências de uma inflamação excessiva são doenças durante o período de transição, baixo desempenho reprodutivo e produção reduzida de leite. O planeamento cuidadoso das instalações no período de transição, uma ótima gestão pré e pós-parto e uma atenção cuidadosa aos detalhes, incluindo a suplementação de minerais, ajudarão a garantir a eficácia do período de transição das vacas e providenciar um periodo com menos problemas.


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BORDER COLLIE

EXCELENTÍSSIMOS PASTORES

EMANUEL FREITAS E PAULO RATO, QUE ENTREVISTÁMOS EM MAIO PASSADO, SÃO CRIADORES E ADMIRADORES INCONTESTÁVEIS DA RAÇA BORDER COLLIE. É NA EXPLORAÇÃO MONTE DAS AREIAS, EM IDANHA-A-NOVA, QUE OS SEUS CÃES SÃO TREINADOS E TRABALHAM DIARIAMENTE COM UM REBANHO DE MIL OVELHAS. Texto Ruminantes | Fotos Francisco Marques

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Border Collie, excentíssimos pastores

O Tagus, o Gift e a Nan trabalham diariamente em equipa com os rebanhos: conduzir os animais para um determinado sítio, ir buscar animais atrasados ou que ficaram presos, ou ainda impedir que vão pastar em parcelas cultivadas, são tarefas que fazem parte do seu dia-a-dia.

H

á uma piada antiga que os ingleses contam, acerca dum homem que queria levar o seu Border Collie para ser treinado por alguém muito experiente. O objetivo era melhorar alguns comportamentos do cão. Porém, o treinador sugeriu-lhe que em vez de levar o cão, o deixasse em casa e fosse ele próprio ao treino. Quem conhece bem a raça, sabe que há alguma verdade nesta história. Depende em grande parte dos donos que os seus cães demonstrem as suas melhores qualidades inatas: instinto de pastoreio, obediência, inteligência e sentido de serviço. Oriunda da Grã-Bretanha, onde tem forte expressão no pastoreio de animais, a raça Border Collie está bem representada no nosso país. Emanuel Freitas [EF] e Paulo Rato [PR] são criadores desta raça há mais de uma década.

Paulo Rato, é dono e gerente do Monte das Areias, uma exploração pecuária com uma vertente agrícola. No total, são 300 hectares, 60 dos quais em regadio, e os restantes de sequeiro e de montado. No regadio fazem culturas arvenses, milho, sorgo, nabo, e 40 hectares de cereal de inverno. Fazem ainda pastagem em sub-montado. O principal negócio desta exploração são as ovelhas de carne, predominando largamente a Merino da Beira Baixa. Para controlar as ovelhas, um efetivo de mil animais, Paulo Rato depende do trabalho dos seus cães, Border Collie. Atualmente tem oito: “o Pip e o Cap, que já estão reformados mas ainda fazem trabalho em distâncias curtas, e mais seis. “Já não sei trabalhar sem eles”, confessa. Lembra-se bem de quando comprou o primeiro cão, uma fêmea chamada Lua que lhe custou, na altura, 120 contos. “Até tive vergonha de contar ao Zé

[empregado] quanto tinha dado por ela, disselhe que tinha custado metade do que realmente custou, mas mesmo assim ele ficou a olhar para mim com ar incrédulo. A cadelinha chegou aqui com 2 meses, era uma bolinha de pelo. Assim que a pus no chão, arrancou para as ovelhas. Passados uns anos perguntei ao Zé o que faria se saísse uma lei que proibisse a utilização dos cães no pastoreio das ovelhas. Ele respondeu-me: Olhe, guardava-as você, que eu já não sei trabalhar sem cães.” Emanuel Freitas é criador da raça Border Collie e dá formação em pastoreio. Foi durante o período em que viveu em Inglaterra que começou a interessar-se pela raça. Nessa altura, recorda, costumava ver um programa de televisão muito conhecido lá, chamado “One man and his dog”, sobre provas de pastoreio em que os cães e os seus donos trabalham em conjunto para “dominar” os rebanhos.

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Border Collie, excentíssimos pastores

"UM CÃO QUE CUMPRA AS 3 ORDENS 'IR PARA A ESQUERDA', 'IR PARA A DIREITA' E 'PARAR', JÁ É UMA AJUDA PRECIOSA." … Já a viver em Portugal, em 2006, Emanuel

teve a sua primeira criação duma cadela que comprou no País de Gales, a Nan, que foi cruzar à Holanda com um cão campeão. Conheceu Paulo Rato quando este levou a Lua para cruzar com um cão seu. Desse cruzamento nasceram o Pip e, na ninhada seguinte, o Cap. Foi a partir daí que começaram a desenvolver, em conjunto, ações de formação e concursos de pastoreio com cães da raça Border Collie. A vertente do pastoreio é a que Emanuel mais aprecia. Da Grã-Bretanha tem vindo a trazer exemplares das melhores linhagens, mas também pessoas de referência para ensinar pastores e agricultores. Atualmente tem três cães treinados: o Tagus com 9 anos, o Gift com 5, e a Nan com 4. Para além destes, tem ainda uma cadela da ninhada anterior, um cão com 2 anos que é filho do campeão continental atual, e alguns cachorros, dois dos quais irão brevemente para o Brasil.

Pensa-se que a raça Border Collie (em tradução livre "Collie da fronteira") tenha sido desenvolvida na região da fronteira anglo-escocesa na Grã-Bretanha para o trabalho de pastorear gado, em especial gado ovino. Por isso tem um grande instinto de pastoreio, explica Emanuel Freitas: “Sabe arrebanhar e não deixa ovelhas para trás, as ovelhas respeitam-nos”. Qualidades essenciais para o trabalho que faz diariamente: conduzir os rebanhos para as pastagens, guardar linhas, procurar ovelhas que pariram ou encontrar animais que ficaram presos. Como conta Paulo Rato, no Monte das Areias as ovelhas são soltas e guardadas todos os dias. “De verão, regressam ao ovil de manhã e voltam a sair à tarde. E há alturas do ano em que pastamos três rebanhos ao mesmo tempo: o das paridas, o das vazias e o das cabras. Enquanto os animais pastam, o Emanuel está sentado a ler, ou a ouvir

música, com um cão em cada lado a guardar as ovelhas”. Além do instinto de pastoreio, Paulo e Emanuel consideram que a obediência, a inteligência, o sentido de serviço e a destreza física são qualidades muito acentuadas nos cães desta raça. Quanto tempo demora a treinar um cão?

EF - Depende, há cães que começam mais tarde e vêm a ser muito bons cães e há outros que começam muito cedo e são estragados por excesso de treinamento. Os ingleses dizem que um cão destes atinge a maturidade aos 4 anos. Quais são os comandos principais para juntar as ovelhas?

PR - Um cão que cumpra as 3 ordens “ir para a esquerda”, “ir para a direita” e “parar”, já é uma ajuda preciosa. Os cães treinados para campeonatos têm que ter uns comandos extra.

Emanuel Freitas e Paulo Rato, no Monte das Areias, com os seus cães: São Roque Gift, São Roque Tagus, e São Roque Tua (com 5 meses).

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Border Collie, excentíssimos pastores

Os cães treinados têm que ter reciclagem?

EF- Se quiser que ganhem concursos, uns dias antes há que afinar certas coisas. Os comandos são universais ou cada pastor pode ir a concurso com um dialeto próprio?

PR - Sim, pode ter o seu próprio dialeto. Mas existe um padrão. Os comandos de voz internacionais são: Away, Come bye, Lay down, Walk on. A suavidade da voz é muito importante para que eles cumpram os comandos. De que consta um concurso?

PR – O concurso mostra o pastor a trabalhar com o cão e com as ovelhas. Através dum conjunto de códigos de comando, de voz e de apitos, os pastores conseguem que os seus cães executem aquilo que pretendem, como conduzir o rebanho para um determinado sítio seguindo um percurso pré-definido. A pontuação é dada em função duma série de parâmetros que avaliam o desempenho do cão e do pastor. Qual a relação do número de cães para o de ovelhas?

PR- Tenho sempre dois cães a trabalhar e um de reserva. Na altura da bolota, por exemplo,

há vantagem em ter o número maior possível de cães.

Há cerca de dez anos, foi vendido um cão em Portugal por 4000 euros.

Nas alturas de maior trabalho, os cães trabalham o dia todo?

Para efeitos de segurança social, que salário vale um cão destes treinado?

EF - Sim, embora nos períodos em que as ovelhas estão a pastar, eles possam estar a dormir à sombra. Quando é altura de recolher as ovelhas, chamo-os e eles começam a trabalhar. Que cuidados especiais têm com os cães?

EF - Têm alimentação ad libitum, e podem tomar banho sempre que tiverem calor. Qual é o preço de um cão treinado?

PR - Cá, o valor médio de um cão treinado com 20 meses ronda os 5500 €. Mas sei de casos de cães que vieram da Irlanda por mais de 7000 euros. Na Irlanda e na Escócia estes cães são muito utilizados. Há muitos sítios onde devido aos declives tão acentuados só os cães conseguem lá andar, nem motos conseguem, daí o seu grande valor. Foi falado o caso de uma cadela Border Collie vendida o ano passado num leilão em Inglaterra por mais de 20 mil euros. Chamava-se Maggie, tinha 2 anos, e foi para um rancho americano, em Oklahoma.

PR - Vale 3 salários mínimos. Eu não concebo ter ovelhas sem ter um cão. É evidente que um pastor consegue fazer o que faz um cão, mas isso é se as condições não forem variáveis, tudo o que saia da rotina fica complicado. Dou-lhe alguns exemplos: - No verão fazemos pastoreio cronometrado, as ovelhas vão aos pasto durante um determinado período de tempo. Sem o cão seria muito mais difícil e moroso condicionar o caminho que as ovelhas levam, assim como condicionar o pastoreio à área que nós pretendemos. - Na altura da bolota, os pastores teriam que percorrer distâncias ainda maiores a pé, se não fosse a ajuda dos cães. - Há uns anos fizemos uma transumância com 1050 ovelhas e os cães até Idanha-a-Nova, para as ovelhas comerem a erva seca do local onde ia decorrer um festival. Atualmente estamos a utilizá-las para a limpeza de pomares de nogueiras em intensivo. Se quiser saber mais sobre este assunto, contacte a APUCAP (Associação Portuguesa de Utilizadores de Cães Pastores) contacte através de: apucap. sheepdog@gmail.com

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PRODUÇÃO | AGRICULTURA REGENERATIVA

REGENERAR O ECOSSISTEMA

A DEGRADAÇÃO DO MONTADO E O EMPOBRECIMENTO DOS SOLOS LEVARAM MIGUEL VACAS DE CARVALHO A PROCURAR SOLUÇÕES ALTERNATIVAS AO MODELO TRADICIONAL DE GESTÃO DO NEGÓCIO AGROPECUÁRIO. Por Ruminantes Fotos Francisco Marques

M

iguel Vacas de Carvalho é formado em Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia e é funcionário da Herdade da Lobeira em Montemor-o-Novo. Esta herdade, que pertence à família Aleixo Paes Vacas de Carvalho, tem como negócio principal a criação de bezerros, borregos e porcos de montanheira.

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Da experiência do contacto diário com a exploração, Miguel foi-se apercebendo da urgência de tomar medidas para travar a degradação do montado e o empobrecimento dos solos. O conhecimento de outras realidades, um pouco por todo o mundo, permitiu-lhe encontrar exemplos bem sucedidos que o levaram a querer experimentar na Herdade da Lobeira um modelo diferente de gestão do negócio

agropecuário. É o caso da abordagem mais consentânea com os princípios da agricultura regenerativa, tendo em conta a tomada de decisões holísticas pensada por Allan Savory no seu livro “Maneio holístico – Uma revolução para regenerar o nosso ambiente”. Neste livro Allan Savory explica que para que seja tomada qualquer decisão, é necessário ter em conta aspetos como o contexto sócio-económico, os processos ecológicos


Regenerar o ecossistema | Entrevista a Miguel Vacas de Carvalho

Da experiência do contacto diário com a exploração, Miguel foi-se apercebendo da urgência de tomar medidas para travar a degradação do montado e o empobrecimento dos solos.

e as ferramentas disponíveis para que se possa planificar, monitorizar, controlar e replanificar (assumindo que houve erros). No caso da Herdade da Lobeira, o objetivo é tentar um equilíbrio entre a produção com o maior lucro por hectare regenerando o ecossistema. Quando começou a utilizar os princípios do maneio holístico?

Em 2017, Gonçalo Pires e eu fomos desafiados por Joaquim Mira, que já conhecia e praticava o sistema, para fazermos um curso de maneio holístico no norte de Espanha, com Gustavo Alés, presidente do Savoryhub na Península Ibérica. Quando voltámos fomos visitar o Manuel Die, agricultor que já fazia este maneio há uns anos e com quem temos aprendido muito. Com esse curso mudámos a nossa maneira de ver as coisas. Como vimos resultados positivos fomo-nos interessando sobre o tema e já fizemos vários cursos, workshops e este ano acabámos por ir à Austrália visitar explorações que praticam agricultura regenerativa.

Entretanto já conhecemos Allan Savory, Joel Salatin, Darren Doherty, Charlie Arnott, David Marsh, Matthew Mckinley, Brad Collins, David Sims, Dianne Haggerty, que praticam agricultura regenerativa, alguns há mais de 20 anos. Neste momento já temos um grupo “tertúlia holística”, chamamos nós em tom de brincadeira, em que já alguns agricultores praticam este maneio com resultados muito interessantes. Pareceu-nos que esta abordagem, sendo mais amiga do ambiente e melhoradora do solo, poderá ser uma solução. É isso que queremos experimentar. Resumidamente, em que consiste o maneio holístico?

Consiste em tomar decisões tendo em conta todos os aspetos, o ecossistema e as pessoas que nele trabalham, mantendo o objetivo de maior lucro/ha. Um dos aspetos do maneio holístico é tentar imitar a natureza. Na natureza as grandes manadas de herbívoros pastoreiam com muita intensidade em determinadas áreas que depois descansam por longos períodos

DADOS GERAIS DA EXPLORAÇÃO NOME: HERDADE DA LOBEIRA LOCALIZAÇÃO: MONTEMOR-O-NOVO ÁREA TOTAL: 1500 HA ÁREA DE REGADIO: 200 HA ÁREA DE MONTADO: 1300 HA CULTURAS: CEREAIS, FORRAGEIRAS, MULTIPLICAÇÃO DE TREVO Nº DE CERCAS: 60 Nº DE EMPREGADOS: 4 Nº BOVINOS: 550 Nº OVINOS: 550 | Nº SUÍNOS: 100 RAÇAS DE BOVINOS UTILIZADAS: MERTOLENGA, ANGUS, CHAROLÊS, LIMOUSINE IDADE AO DESMAME: 6 A 8 MESES IDADE DE VENDA: 1 A 2 MESES APÓS O DESMAME

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Regenerar o ecossistema | Entrevista a Miguel Vacas de Carvalho

de tempo. Foi assim que ao longo de muitos milhares de anos se criaram os solos com elevado teor de matéria orgânica. Nós tentamos imitar esse processo dividindo áreas grandes em parcelas mais pequenas onde os animais permanecem curtos períodos de tempo. Para implementar este sistema, que investimentos fez?

Todas as mudanças devem ser lentas e graduais para os erros não nos levarem à falência. Nós começámos a experiência com um rebanho de 100 novilhas. Comprámos desenroladores de fio, vários postes isoladores, já tínhamos máquinas (tudo material Gallagher) e criámos cercas a partir das que já existiam. Ao confinar os animais a 1/10 da área habitualmente disponível, percebemos que a mesma cerca permitia o pastoreio por mais tempo, por haver menos desperdício e mais crescimento de erva nas cercas sem animais. Então estendemos este regime aos outros rebanhos. Percebemos então, ao fim de algum tempo, que a melhor solução, para ter menos trabalho, seria juntar as vacadas. Assim ficámos com o mesmo número de cercas, já

existentes, mas em vez de ter três rebanhos temos apenas um que passa pelas cercas todas. Os resultados têm sido muito encorajadores pois temos vindo a reduzir os custos da suplementação das vacas (os dados ainda são prematuros mas diria que entre 10 a 20%). No 3º ano investimos em mais cercas elétricas fixas que ficaram pagas pela redução dos custos. O baixo custo das cercas elétricas é determinante para conseguirmos fazer este tipo de maneio. A questão do abeberamento também teve de ser revista e tivemos de aumentar o numero de bebedouros e o caudal instantâneo. Muitas vezes fizemos as cercas a desembocar num bebedouro já existente. O que mudou na exploração?

A meu ver, a grande mudança está na mentalidade. Temos de regenerar o nosso ecossistema. Assistimos a uma apresentação de Charles Massy, que referiu que no projeto Drawdown uma equipa de cientistas apresenta soluções para o aquecimento global. Nas top 20 medidas, 10 são práticas de agricultura regenerativa. Isto fez-nos perceber que, por trabalharmos neste ramo, temos a possibilidade de contribuir para esta mudança positiva.

Neste sistema faz-se alguma mobilização de solo?

A mobilização é uma das ferramentas que dispomos e faz-se quando necessário, sendo sempre a última opção. Os 5 princípios da agricultura regenerativa são: - minimizar ou eliminar as mobilizações; - manter a superfície do solo coberta todo o ano; - biodiversidade vegetal e animal; - raízes vivas o máximo de tempo possível; - impacto animal Gabe Brown, agricultor norte americano, conseguiu ao fim de 20 anos, aumentar a matéria orgânica de 1,7% para 6% e, consequentemente, aumentar a capacidade de infiltração de água no solo de 12mm/ hora para 10 vezes mais em 20 anos. Segundo este agricultor, a capacidade que o solo tem de conseguir infiltrar e armazenar a água, é conseguida em maior grau através do aumento da matéria orgânica (MO), do que da quantidade de água por ele recebida. Assim sendo, utilizamos a técnica de sementeira direta de forma a evitar as mobilizações e aumentar a matéria orgânica.

"ESTAMOS FOCADOS EM MELHORAR O SOLO, QUE É A BASE DE TUDO O RESTO."

"Deve-se monitorizar o maneio colocando um marcador nas plantas e nas arvores, fotografá-las, e ir percebendo com o tempo o que está a acontecer."

“Melhorando a vida no solo aumentamos a velocidade da decomposição do esterco dos animais, aumentado a MO. Esta fotografia mostra bem a cobertura do solo que queremos ter. ”

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Regenerar o ecossistema | Entrevista a Miguel Vacas de Carvalho

"UM DOS PRINCÍPIOS DA AGRICULTURA REGENERATIVA É MANTER O SOLO SEMPRE COBERTO." As infestantes continuam a ganhar terreno?

Segundo Nicole Masters, agroecologista, devemos tomar decisões olhando para o que queremos e não para o que não queremos. Ainda há uns meses, um agricultor da “Tertúlia Holística” que tem uma exploração de vacas leiteiras, notou que quando as vacas entravam numa determinada cerca, com muitas plantas de uma determinada espécie “infestante”, a produção de leite aumentava 10%. Curioso com a situação, fez uma análise a essas plantas e ficou a saber que têm um teor de proteína muito elevado. Portanto, eu já não sei se são infestantes ou não. Noto, por exemplo, que muitas vacas comem os cardos em flor. Os cardos tem uma raiz muito profunda que estará, certamente, a melhorar o solo. Tem medido o impacto deste maneio na matéria orgânica (MO) do solo?

Ainda não, mas no futuro gostaria de medir de dois em dois anos por exemplo. Aplica menos adubo nas searas?

Não, continuamos a aplicar o mesmo adubo que sempre aplicámos. Contudo, na Austrália aprendemos soluções que poderão

ser eficazes para diminuir a sua utilização. Quando visitámos agricultores de uma associação,VicNoTill, Matthew Mckinley e David Sims, percebemos que há outras maneiras de produzir. O seu foco é sempre aumentar o lucro por hectare, criando um sistema mais resiliente à seca ou ao excesso de água. Passaram a semear menos área de fenos?

Fazemos questão de ter sempre assegurada comida para dois anos. O que fizemos foi aumentar a área de armazenamento. Após três anos, que diferença têm no número de animais por hectare?

Já não falamos em número de animais/ ha, falamos em número de animais (cabeça normal - CN) /ha/dia, visto que também é considerado o número de dias em que os animais estão na cerca. Atualmente estamos com números de 50 a 70 CN/ha/dia. O agricultor da exploração de vacas leiteiras da “Tertúlia Holística” já conseguiu 1200 CN/ha em 3 horas sem sacrificar a produção. Resumindo, é possível, sem perda de produção, ter 1200 cabeças a

pastar em apenas 1 hectare desde que o tenpo de permanência seja adequado. Que alterações fizeram na exploração?

Juntámos rebanhos, fizemos cercas, aumentámos os bebedouros. Hoje em dia temos cerca de 60 cercas que variam entre os 15 e 30 ha. A ideia é continuar a dividir para aumentar o impacto animal num curto período de tempo permitindo ter grandes períodos de descanso das parcelas. Como determina o número de dias em que as vacas estão em cada parque?

No primeiro ano dividíamos as cercas de forma a que os animais estivessem apenas 3 dias por parque. Hoje em dia, dependendo da altura do ano, como já temos cercas fixas mais pequenas, o que fazemos é retirar os animais quando queremos. Neste momento não obrigamos as vacas a comerem a parte inferior da planta pois, sendo a menos nutricional, poderíamos estar a condicionar a sua condição corporal. Pensamos que assim é a melhor opção, nesta altura do ano.

"Hoje temos 60 cercas, que variam entre 15 e 30 hectares. Queremos dividir mais algumas cercas", diz Miguel.

“O próximo passo é juntar os porcos ao rebanho” diz Miguel, a rir. O meu pai até fica com os cabelos em pé”.

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Regenerar o ecossistema | Entrevista a Miguel Vacas de Carvalho

Em quanto aumentou o efetivo desde que implementou este maneio?

Em 10%, quer nas vacas, quer nas ovelhas. Isto poderia significar que tínhamos um encabeçamento baixo, mas o que realmente me alegra não é ter aumentado o encabeçamento, é sim ter diminuído o número de dias que dou de comer aos animais “à mão”. Este é um bom indicador de que o sistema tem resultado e é rentável, porque é na alimentação suplementar das vacas que está o grande gasto, no nosso caso cerca de 1,5€/animal/dia. Para nós o segredo está no número de cercas. Quanto mais, melhor, até um limite, claro. Introduziu as ovelhas no rebanho das vacas. Porque o fez?

Quando visitámos o agricultor australiano Charlie Arnott vimos vacas e ovelhas a pastar juntas. Achei piada e quisemos experimentar. No princípio os animais estranharam, mas uma semana depois já estava tudo bem. Neste momento estão separadas para facilitar o maneio nos currais mas assim que for possível, voltamos a

juntá-las. Da pouca experiência dos rebanho juntos, 2 meses, só retirei uma conclusão, parece haver mais facilidade de entreajuda entre os dois funcionários responsáveis pelas vacas e pelas ovelhas. A vistoria a todos os animais e às cercas é sempre feita por duas pessoas. Pareceu-me uma boa técnica e é para continuar. O solo fica mais despido pelo facto de as ovelhas comerem as plantas até mais abaixo?

Nós é que controlamos a cobertura do solo. Há duas linhas de pensamento neste sistema. Jaime Elizondo defende que os animais devem comer tudo até ao fim, comendo sem seletividade. Greg Judy e Gabe Brown defendem que a condição corporal está em primeiro lugar, pois é onde se ganha dinheiro. Contudo, o que já verificámos é que se “obrigarmos” os animais a comer tudo até ao fim a condição corporal piora e não temos a cobertura do solo desejada. Ainda estamos a aprender, depende da altura do ano, do objetivo, do tipo de animais, etc..

Este ano, por exemplo, de meados de março até meados de maio experimentámos mudar os animais todos os dias. Reparámos que mal se notava o que comiam e ao fim de 30 dias o coberto vegetal recuperou por completo. Em termos de saúde animal, melhorou algum aspeto?

Também com um pensamento ecológico retirámos os desparasitantes internos e no futuro, se calhar, os externos. O que não invalida que o façamos quando um animal necessite. A ideia é desparasitar só os que estão parasitados, com estas mudanças frequentes ajudamos a que não se parasitem. Além disso, o facto de ter várias espécies animais a pastar juntas também ajuda no controlo de parasitas, visto que alguns parasitas são específicos de cada espécie e, ao passarem no tubo digestivo da espécie que não é hospedeira são inativados. Que cercas utiliza?

Só usamos cercas eléctricas marca Gallagher. No princípio fazíamos apenas com um

"AS CERCAS ELÉTRICAS, IMPRESCINDÍVEIS PARA ESTE SISTEMA, SÃO MAIS BARATAS E MAIS FÁCEIS DE MONTAR DO QUE AS CONVENCIONAIS DE REDE." Carlos Grulha, funcionário da Herdade da Lobeira, prefere as eletrificadoras alimentadas por painel solar por serem mais práticas. “Se houver uma fuga não preciso de ir à origem e inspecionar o arame todo.” Geralmente as eletrificadoras ligadas à corrente estão alguns quilómetros afastadas do local em questão. Cerca elétrica de 3 arames e alturas diferentes, preparada para o rebanho misto de vacas, ovelhas e porcos.

COMPONENTES DUMA CERCA ELÉTRICA Eletrificadora: transforma a corrente elétrica em impulsos elétricos espaçados no tempo. Pode ser alimentada a corrente elétrica, a bateria ou a painel solar. Condutor: transmite impulsos de energia ao longo de todo o comprimento da cerca (arame, fita, corda, etc.) Postes: permitem fixar os condutores Isoladores: isolam os impulsos de energia dos postes de forma a que a energia não flua para o terreno.

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Regenerar o ecossistema | Entrevista a Miguel Vacas de Carvalho

“NO NOSSO CASO, POR CADA DIA QUE CONSEGUIRMOS REDUZIR A COMIDA À MÃO, POUPA-SE APROXIMADAMENTE 750€."

Que recomendações faz a quem vai começar?

Primeiro, que veja o seu contexto e que se informe sobre o tema. A mudança de mentalidade é fundamental. Depois, que vá testando com uma cerca elétrica móvel e à medida que vai vendo alguma evolução, ir passando para cercas elétricas fixas. Mudanças lentas e graduais e ir aumentando o número de cercas a pouco e pouco, ou juntar rebanhos. Como é a alimentação das cercas?

É feita por eletrificadoras que podem estar ligadas à corrente elétrica ou serem alimentados por baterias ou painéis solares. Aqui usamos os dois sistemas. Com as de painel solar, se houver uma fuga de energia é mais fácil inspecionar porque são geralmente distâncias mais curtas. A reparação e manutenção das cercas elétricas é muito reduzida. Há algum sistema que avise em caso de falha?

Sim. A electrificadoras I-series da Gallagher têm um sistema que envia mensagens permitindo saber instantaneamente em que setor temos a fuga. Contudo não há melhor que todos os dias, quando estamos a ver os animais, verificar a voltagem. Que vantagens têm as cercas elétricas?

São muito mais funcionais e baratas do que as convencionais de rede, pois não são tão exigentes em material e mão-de-obra.

Como é feito o abastecimento de água às cercas?

Todas as cercas já tinham água. Ao aumentarmos o numero de cercas, tentámos colocar o bebedouro a dar para as cercas adjacentes. Em alguns casos aumentámos o número de bebedouros e noutros aumentámos o caudal. A grande maioria dos bebedouros são fixos, mas temos alguns móveis. Qual é objetivo da exploração para os próximos anos?

Aumentar o lucro/ha regenerando o ecossistema.

Qual é o critério de refugo das vacas?

Por idade e por problemas de fertilidade (se não pariu na época anterior). No futuro vai ser, através de ecografias, refugar se não estiver gestante.

Qual o critério em termos de genética?

As nossas vacas são F1 e F2 de Mertolengas com Limousine e Charolês. Escolhemos novilhas filhas das vacas com melhores intervalos entre partos. A ideia é ter vacas cruzadas com sangue de raça exótica e de raça autóctone (rústica e adaptada às nossas condições), e ter touros puros de raças exóticas. Olhando “holisticamente” para o negócio agropecuário, os produtores têm que produzir o que os compradores querem comprar. O que conseguiu melhorar com este maneio?

Conseguimos diminuir os custos com a alimentação. No nosso caso, por cada dia que conseguimosm reduzir a "comida à mão", poupa-se aproximadamente 750€. O tempo necessário para ver os animais também

diminui. Utilizamos menos desparasitantes. Os animais estão mais dóceis, não sei se devido à descorna ou às mudanças frequentes de cerca. Por último, parece-nos, pois ainda só temos 3 anos de experiência, que o renovo vinga melhor com este maneio. Terminámos a entrevista com este comentário do Miguel: "Nada disto teria sido possível sem a permissão e a flexibidade do gestor Pedro Vacas de Carvalho, e sem a colaboração do Carlos Grulha que se mostrou sempre disponível para aprender e para aceitar a mudança, o que nem sempre é fácil."

LIVROS E/OU PALESTRAS PARA VER NO YOUTUBE • Allan Savory - Livro: "Holistic Management"; • Joel Salatin - Livros: "Folks this ain’t normal"; "Everything I want to Do is Illegal" • Gabe Brown - Livro: "Dirt to Soil". • Nicole Masters - Livro: "For the Love of the Soil". • Charles Massy - Livro: "Call of the reed Warbler". • Greg Judy - Livro: "No Risk Ranching: custom grazing on leased land". • Jaime Elizondo - Livro: "Regenerative Ranching: Maximum sustainable profit by ranching in nature’s image". • Jim Gerrish - Livro: "Kick the Hay Habit". • Walter Jehne "Supporting the soil carbon sponge". • Chistine Jones "Livro: "Meeting the challenge for change". • Associações Australianas VicNoTill | Soils for Life.

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arame a 90 cm de altura que para as vacas é suficiente. Agora com vacas e ovelhas fazemos com 3 arames a 25, 50 e 90 cm.

CONTROLO, CONFIANÇA E RENTABILIDADE

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FIGURA 1 No estábulo, no escritório, no campo ou em casa, o programa de gestão Lely Time For Cows (Lely T4C) é a principal fonte de informações em tempo real da vacaria.

EQUIPAMENTO | VACAS DE LEITE

ROBOTS DE ORDENHA MITOS VS. REALIDADE

ATUALMENTE, EXISTEM MAIS DE 40.000 (SIOR) ASTRONAUT EM FUNCIONAMENTO NO MUNDO E DESSES, PERTO DE 100 ESTÃO EM PORTUGAL. CONTUDO, CONTINUAM A PERSISTIR DÚVIDAS E RECEIOS ACERCA DO ROBOT. NESTE ARTIGO ELUCIDAMOS O LEITOR ACERCA DA REALIDADE DOS PRODUTORES DE LEITE COM LELY ASTRONAUT.

E

m 1992 a Lely instalou o primeiro sistema integrado de ordenha robotizado (SIOR) Astronaut, numa exploração leiteira na Holanda, e em 2006 foi instalado o primeiro Astronaut em Portugal. Desde então, estes sistemas tornaram-se cada vez mais comuns, devido às dificuldades em encontrar mãode-obra qualificada, ao aumento do conforto animal, à qualidade de ordenha, aos dados fornecidos pelo software de gestão Lely T4C®, à flexibilização de mão-de-obra, à qualidade de vida dos agricultores e ao rendimento das explorações leiteiras. Atualmente, existem mais de 40.000 (SIOR) Astronaut em funcionamento no mundo e desses, perto de 100 estão em Portugal. Contudo, continuam a persistir dúvidas e receios acerca do robot. Por exemplo: o estábulo não é compatível com o robot, a habituação das vacas ao sistema pode demorar no mínimo um ano, o número de vacas ser um fator limitante, o programa

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Por Pedro Dinis e Joana Tomás | Fotos Lely

de gestão ser difícil e trabalhoso, ter mais trabalho do que antes com a ordenha convencional, não ter um acompanhamento profissional por parte da empresa que vende o robot ou os custos de manutenção serem maiores do que o esperado. O ESTÁBULO É COMPATIVEL COM O ROBOT? Em média, 80% da mão-de-obra está concentrada em 20% das vacas. Tendo isto em mente, o desenho do estábulo tem de maximizar as visitas e facilitar, sempre que possível, a separação e o tratamento das vacas. Criando um fluxo de trabalho lógico em torno do Astronaut, este oferece-lhe muito mais do que uma simples ordenha. Atualmente, dos Astronaut em funcionamento apenas um terço dos estábulos são novos, e destes apenas uma parte foram projetados para ordenha robotizada, tendo sido os restantes reaproveitados depois da construção.

Nos restantes, normalmente no período após a venda, é realizado um esboço do estabulo futuro com o plano de instalação do robot. Nele temos em conta a opinião do produtor, possíveis evoluções do estábulo, facilidade e custos da obra, organização do trabalho e, fundamentalmente, o aspeto animal. Irão as vacas compreender e gostar do novo estábulo? Para tal, a localização do robot será fortemente condicionada pelo tipo de tráfego escolhido. A Lely desde o princípio elegeu o tráfego livre para as suas instalações, e está convencida de que é o melhor método para aumentar o bem-estar e a produção dos animais. As vacas movem-se livremente pela exploração e decidem quando comem, quando visitam os bebedouros, quando descansam e quando e por onde visitam o robot. Assim, a localização da máquina tem que facilitar a aproximação voluntária das vacas a si. Estas são algumas premissas a ter em conta:


Robots de ordenha, mitos vs. realidade

FIGURAS 2, 3 E 4 Tráfico livre, limpeza de escovas e ordenha.

FIGURA 2 FIGURA 3

FIGURA 4

FIGURA 5 Esquema do acompanhamento ao produtor.

FIGURA 4 Va

- o local tem que ser de fácil acesso para os animais - as vacas não usam mapas nem GPS; - o sítio tem que estar iluminado, ventilado e tranquilo; - a utilização de ventiladores na zona do robot, no verão, também facilita a aproximação das vacas; - evitar degraus para aceder ao robot e, ajuda se aqui for colocado um tapete de borracha; - para rebanhos maiores as vacas podem ter acesso a mais do que um robot, minimizando problemas de hierarquia; - acesso limpo, para as pessoas, à sala técnica do robot. Por outro lado, a obra a ser realizada para a instalação de um Lely Astronaut é mínima em comparação com outros sistemas de ordenha, como tal, muito mais económica. E nas instalações existentes, pode-se aproveitar o espaço da sala de ordenha para aumentar o número de camas, o que é benéfico. AS VACAS IRÃO GOSTAR DO ROBOT? A ordenha robotizada é diferente da ordenha convencional em vários aspetos. Uma das principais diferenças é que as vacas podem ser ordenhadas de acordo com o seu comportamento natural. Para que isso aconteça construímos um conceito de acordo com a vaca, a fim de garantir que ela goste de ser ordenhada num sistema de fácil acesso. O Lely Astronaut A5 tem como vantagens: - um design amigo da vaca: com o sistema de fácil acesso, em linha reta (I-flow) do

Lely Astronaut as vacas são ordenhadas de forma confortável e natural. Com uma box ampla nada a “aperta”, ou impede, e nada “empurra” a vaca. Com este sistema o tempo de aprendizagem é reduzido, aumentando a produção e, consequentemente, a capacidade do robot de ordenha; - está perto da manada: com o desenho aberto da box, a vaca fica perto do resto da manada, permitindo um bem-estar ao animal, oferecendo vantagens para a saúde do úbere e da vaca, bem como uma maior produção de leite; - ordenha de acordo com a fase de lactação: diferentes lactações e fases de lactação exigem abordagens diferentes. É por isso que cada ordenha se baseia nos dados históricos de cada vaca, memorizando, a cada ordenha, no sistema de gestão T4C. Desta forma, o sistema determina automaticamente o intervalo de ordenha e calcula a ração a ser dada; - posição do úbere e dos tetos: com a ajuda da câmara 3D, o braço garante uma ligação suave a quase todos os tipos de vacas com os tetos posicionados de formas estranhas. O braço do A5 tem uma ligação dos tetos concisa, rápida e precisa o que é relaxante para as vacas; - higiene otimizada: para uma boa higiene e estímulos, as escovas limpam os tetos e a parte de baixo do úbere, permitindo a libertação de oxitocina o que leva a uma libertação mais rápida do leite. Após cada ordenha, as escovas são desinfetadas.

- perdas de leite mínimas: em cada teto existe uma pequena quantidade de leite de baixa qualidade, que é removido durante a pré-ordenha. Isto evita o desperdício de leite bom e comercializável; - seguro e eficaz: se uma vaca agitada pisar ou pontapear a tetina, a linha de leite é automaticamente fechada e a tetina é recolhida, nunca chegando a tocar no chão. A tetina que foi recolhida volta a fazer uma nova ligação e os restantes quartos continuarão a ser ordenhados. O NÚMERO DE VACAS É UM FATOR LIMITANTE? Não obrigatoriamente, a capacidade do robot é medida pelo número de ordenhas diárias que o robot é capaz de realizar. Um Astronaut A5 consegue realizar pelo menos 230 ordenhas/dia. E isso, quantas vacas são? Depende da média de produção e da velocidade do fluxo de leite, assim, quanto maior for o fluxo de leite mais rápidas serão as ordenhas logo, maior será o número de vacas no Astronaut A5. O caso mais comum para uma exploração com médias de produção entre os 30 e os 35 litros por dia é de 3 ou 3,2 ordenhas diárias, para explorações com mais de 40 litros, podemos chegar às 3,5 ou até mesmo às 4 ordenhas por dia. Naturalmente, tudo isto depende sempre do efetivo e da velocidade de ordenha de cada manada, sendo este fator limitativo o mais importante.

"A CAPACIDADE DO ROBOT É MEDIDA PELO NÚMERO DE ORDENHAS DIÁRIAS QUE O ROBOT É CAPAZ DE REALIZAR." RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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Robots de ordenha, mitos vs. realidade

"COM O SEU SMARTPHONE OU TABLET, PODE LIGAR-SE AO SERVIDOR (T4C – INHERD), TENDO ACESSO IMEDIATO A TODAS AS INFORMAÇÕES DE GESTÃO DO T4C." … TEMOS MAIS TRABALHO COM

O ROBOT? Antes pelo contrário, as vacas ao visitarem voluntariamente o robot e com um número reduzido de vacas em que o produtor tem de levar para serem ordenhadas, o seu trabalho será reduzido, permitindo a utilização do tempo livre para outras tarefas, tais como, limpeza de camas, pedilúvios, tratamentos, etc. Nesses períodos podem ainda otimizar os fatores importantes para uma exploração rentável. E com mais tempo livre para desfrutar da vida. COMO É FEITO O ACOMPANHAMENTO DO ARRANQUE? ANTES O arranque nunca é concretizado sem os produtores estarem preparados, ou quando não estão disponíveis para cumprir com o plano de arranque, como por exemplo, nos períodos de colheita/sementeira. Nesta fase, é dada toda a formação ao cliente onde é explicado o conceito e objetivos do SIOR, o plano de arranque, formação do programa de gestão T4C e formação técnica. Cerca de um mês antes, é realizado um relatório de pré-arranque, pelo técnico de Farm Management Support (FMS), que analisa as condições de bem-estar, produção, qualidade de leite, rotinas de trabalho, etc. De acordo com os dados recolhidos, são discutidas as ações a tomar para a preparação dos animais e adaptação do maneio para o arranque. A Lely aconselha, sempre que possível, realizar um período de habituação das vacas ao robot, pelo menos duas semanas antes da data prevista para o arranque. E por último, uma semana antes do arranque, é realizado uma última análise do SIOR até ao último detalhe. DURANTE O objetivo do arranque é criar a nova rotina de tráfego livre, no menor tempo possível. Esta é alcançada no máximo uma semana depois do arranque. Durante este período fazemos um acompanhamento próximo ao cliente, pelo departamento técnico e de FMS. DEPOIS Um mês depois, é realizado pelo departamento de FMS, um relatório de pósarranque onde são avaliados o progresso e a satisfação do cliente. Fornecendo análises e aconselhamento continuo para garantir o melhor resultado possível.

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Os técnicos da Lely Center estarão perto de si e das suas preocupações. Prestando uma assistência preciosa, com uma resposta rápida em caso de interrupções e conhecimentos extensivos sobre todos os produtos Lely. Garantindo um serviço composto por engenheiros certificados e sempre disponíveis (24h/dia e 7 dias/semana) (figura 5). O PROGRAMA LELY T4C É COMPLEXO? No estábulo, no escritório, no campo ou em casa, o programa de gestão Lely Time For Cows (Lely T4C) é a principal fonte de informações em tempo real da vacaria. Funciona como base de dados, sistema operativo e gestor do rebanho, tudo ao mesmo tempo. Com isto, tem o controlo total da sua exploração, sabendo exatamente o que está a acontecer no estábulo (figura 1). O Lely T4C foi principalmente projetado para a ordenha automática, podendo também aceder a outros equipamentos Lely, tais como: o alimentador automático - Lely Vector, o alimentador de vitelos - Lely Calm, a box de alimentação - Lely Cosmix e os portões de seleção - Lely Grazeway. Recolhendo todos os dados, de forma rápida e simples e assegurando uma ótima gestão do efetivo. Parece complexo? Antes pelo contrário, este sistema de gestão é muito fácil de utilizar, recolhendo e registando todos os dados fornecidos pelo(s) robot(s) Lely Astronaut através dos seus vários sensores. Analisa e fornece simplesmente informações claras e úteis, permitindo uma monitorização constante e avisando em forma de alarme algum problema com o animal ou com o robot, ajudando-o a tomar as melhores decisões operacionais e estratégicas, de uma forma mais fácil e rápida. Também, com o seu smartphone ou tablet, pode ligar-se ao servidor (T4C – InHerd), tendo acesso imediato a todas as informações de gestão do T4C, podendo introduzir dados a partir de qualquer local, e momento, dentro ou fora da exploração. OS CUSTOS SÃO ELEVADOS? Sabemos que o investimento inicial de um robot de ordenha Lely Astronaut é elevado, no entanto, não deve considerar só apenas o investimento inicial, mas também todos os custos do futuro. Um robot de ordenha da Lely usufrui de: - durabilidade comprovada, utilizando os melhores materiais de qualidade e limitando a quantidade de peças de desgaste rápido, garantindo uma longa vida útil e um valor

residual significativo; - assistência técnica mais barata, com um sistema de ordenha robotizada e funcional 24h/dia, requerendo no máximo 3 manutenções/ano; - todo o equipamento foi otimizado para uma redução dos custos de água. Deste modo a Lely é muito eficiente na utilização da água. - O Astronaut A5 foi também, otimizado de forma a que os custos energéticos sejam reduzidos, utilizando um sistema híbrido. Outro fator importante na redução dos custos é o facto de os sistemas de ordenha automáticos terem sensores que permitem a deteção de mastites nas suas fases iniciais (condutividade, cor de mamite, cor de leite aguado, desvio de produção, tempo morto de ordenha e ainda medição das células somáticas), bem como a presença de sangue no leite. Também faz medições de temperatura, indicador das vacas em cio (medidores de atividade), problemas metabólicos e alterações da motilidade ruminal (minutos de ruminação), alteração do peso, medição de fluxo de leite, etc. Esta informação é apresentada ao produtor em forma de alertas, permitindo-lhe agir na prevenção do problema. A Lely oferece vários tipos de contrato de manutenção de acordo com as necessidades do produtor, como por exemplo, um contrato de serviço simples, contrato tudo incluído e um contrato de serviço completo (consumíveis, peças sobressalentes e manutenções técnicas), etc. CONCLUSÃO Neste artigo quisemos esclarecer os leitores de algumas dúvidas e receios acerca do robot e familiarizá-lo com a ordenha automatizada ou robotizada, conforme as diferentes terminologias utilizadas. Fácil de manter, construído para durar e com custo energético reduzido: é o que experimentará quando estiver a ordenhar com o Lely Astronaut A5. Acrescente a isso o conforto ideal da vaca e terá uma maior produção de leite a custos mais baixos. Não esquecer que, os bons resultados não são conseguidos apenas por máquinas, mas sim associados à aplicação de boas práticas de gestão e maneio das vacas. Como tal, para além da escolha de um equipamento fiável e com bom desempenho técnico, importa a escolha da equipa técnica que o vai assessorar na introdução/transição de sistema, bem como o acompanhamento futuro da exploração, pois é essa conjugação de fatores que vai ditar o sucesso da exploração leiteira no futuro.


O novo marco na poupança de energia

A Lely apresenta o Astronaut A5 Nós olhamos para as vacas e ouvimos os clientes. Um novo braço híbrido completo é o resultado. Com o poder do ar, mas sem qualquer consumo. Com um número limitado de movimentos elétricos rápidos e decisivos, tornamos o braço mais eficiente do que nunca. É por isso que o Astronaut A5 lhe oferece a melhor forma de ordenhar, a Si e ás suas vacas.

Saiba mais sobre este novo marco na ordenha no seu Lely Center.

www.lely.com

Lely Center São Félix da Marinha Alteiros t +351 227 538 339 e sao-felix-da-marinha@sao.lelycenter.com

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EQUIPAMENTO | VACAS LEITEIRAS

TROUP’O EM SISTEMA COLABORATIVO

A EMPRESA MPL VET É UMA UTILIZADORA DA APLICAÇÃO TROUP’O. ENTREVISTÁMOS O SEU GESTOR, NUNO TAVARES, MÉDICO VETERINÁRIO, PARA SABER A SUA OPINIÃO SOBRE O USO DESTA FERRAMENTA NA GESTÃO DE VÁRIAS EXPLORAÇÕES. Por Ruminantes | Fotos MPL Vet

A

empresa MPL Vet é utilizadora da aplicação Troup’O desde o início do ano. Entrevistámos o seu gestor, Nuno Tavares, médico veterinário, para saber que opinião tem sobre o uso desta ferramenta na gestão das várias explorações a que a MPL Vet presta serviço. Nuno Tavares era utilizador da aplicação anterior a esta, a Isaleite.

da cultura “on farm” Accumast® que permite respostas rápidas (24 a 48 horas) a situações que podem, ou não requerer a utilização de antibióticos, como pode ser o diagnóstico de uma mastite. Na MPL Vet, cada veterinário tem os seus clientes?

Não. Todos temos acesso à informação de todos os nossos clientes, e foi por isso que adotámos o Troup’O. Antes usávamos várias ferramentas improvisadas para fazer o trabalho que hoje realizamos apenas com esta aplicação. Qualquer um de nós pode visitar as explorações a quem a MPL Vet presta serviços, a qualquer altura, e pode ter acesso a toda a informação disponível sobre as mesmas.

O que é a MPL Vet?

É uma empresa de prestação de serviços veterinários. Somos 4 veterinários e 1 administrativo. Trabalhamos essencialmente com bovinos de leite e alguma coisa com bovinos de carne. Pontualmente fazemos clínica e cirurgia de pequenos ruminantes e suínos. Grande parte do nosso trabalho é na área da reprodução, mas fazemos também inseminação artificial, implantação de embriões, assim como clínica e cirurgia mesmo em explorações que não sejam nossas clientes de reprodução. Recentemente começámos também intervir na área da qualidade do leite, com base nos princípios 74

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Com a aplicação Troup’O todos os veterinários da empresa prestadora de serviços podem aceder à plataforma a qualquer momento, a partir de qualquer sítio, para consultar os dados dos efetivos das várias explorações ou para inserir dados.

Que melhorias tem o Troup’O em relação ao Isaleite?

Com o Isaleite, apenas um de nós conseguia trabalhar no programa. Com o Troup’O qualquer um pode fazê-lo, bem como aceder à informação. Esta é uma grande vantagem, a partilha da informação em tempo real


Troup'O | Entrevista a Nuno Tavares

"COM O ISALEITE, APENAS UM DE NÓS CONSEGUIA TRABALHAR NO PROGRAMA. COM O TROUP’O QUALQUER UM PODE FAZÊ-LO, BEM COMO ACEDER À INFORMAÇÃO." entre nós, e com os produtores. O modo cloud, através do qual se tem acesso aos dados em qualquer local, veio facilitar o uso desta aplicação na versão colaborativa, ao ter permitido a criação de uma série de funcionalidades antes não disponíveis, como sejam: a utilização simultânea por vários utilizadores, ou por várias empresas; a gestão de perfis de utilizadores; poder ter várias pessoas a trabalhar em simultâneo no mesmo dossier e na mesma aplicação. Para que efeitos utilizam o Troup’O?

Na área da reprodução, para a importação dos dados do contraste leiteiro para o programa, e agora também na área da saúde animal. É importante o apoio técnico da Isagri para maximizar o potencial da aplicação?

É de extrema importância porque no plano das tecnologias da informática e informação as possibilidades de evolução são grandes. Temos processos que queremos agilizar e tornar mais eficazes, e podemos consegui-lo com o apoio da Isagri. Estes programas não são estanques, vão evoluindo a partir do feed-back dos utilizadores. Na prática, como se processa todo o trabalho de recolha e análise dos dados de uma exploração?

Naquilo que é o dia a dia do controlo reprodutivo, acho que o suporte de papel ainda vai perdurar. Muitos trabalhos que fazemos

no meio dos animais não são propriamente limpos e por vezes pode ser mais prático fazer alguns registos em papel, ainda que o Troup’O permita o registo imediato na aplicação. O que fazemos atualmente é passar os registos em papel para o smartphone, o tablet ou o portátil. Que dimensão têm as explorações que trabalham convosco?

As vacarias com que trabalhamos têm, no mínimo, 40 a 50 vacas e, no máximo, 150 a 200 vacas, em ordenha.

O Troup’O é fácil de usar por um novo utilizador, é intuitiva?

Sim, como se costuma dizer é bastante userfrendly. Acho que essa é uma característica das aplicações desenvolvidas pela Isagri. Já a aplicação anterior era intuitiva e o Troup’O ainda é mais, para além de que nos permite personalizar a sua utilização. No que se refere à consulta e introdução de dados é mesmo muito intuitiva. Que tipo de mapas e informação disponibilizam aos clientes?

Aqueles que estão mais relacionados com a nossa área de atividade, que se referem ao controlo reprodutivo, ou seja, a listagem do total do efetivo e o estado reprodutivo dos animais, se estão inseminadas, paridas, gestantes ou vazias. A atualização é feita ao dia da visita. Fornecemos aos produtores o estado do animal no dia reprodução, uma listagem da previsão de partos a 120 dias e das secagens

para o mês corrente. Apresentamos os dados do Troup’O, com uma aparência mensal, de como o efetivo se comportou nos meses anteriores, com dados referentes a dias em leite do efetivo, intervalo entre partos, taxa de conceção e taxa de conceção à primeira inseminação, número de inseminações por vaca gestante, entre outros. Faz benchmark entre as várias explorações a que dão suporte?

Esta aplicação permite, mas nós só fazemos pontualmente nalgum parâmetro muito concreto. A nossa abordagem consiste, com base no conhecimento dos dados concretos duma determinada exploração, num determinado momento, compará-los com os parâmetros reprodutivos ótimos que conhecemos e com aqueles que nos propusemos alcançar com o produtor no controlo reprodutivo do efetivo das explorações. Com o Troup’O conseguimos alcançar estes objetivos. Que tipo de indicadores utiliza para monitorizar se o negócio está no bom caminho?

Para mim, o principal indicador é nº de litros de leite vendidos por vaca presente. Em termos reprodutivos considero vários: a taxa de prenhez (25 a 30%), a taxa de concepção à 1ª inseminação (ideal nas vacas - 50%), o intervalo entre o parto e a inseminação fecundante, e a taxa de refugo.

Troup'O ATRAVÉS DO COCKPIT, O UTILIZADOR VISUALIZA NUM ÁPICE VÁRIOS INDICADORES-CHAVE.

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Os ventiladores estão programados para dispararem a partir dos 24ªC, e os aspersores aos 30ºC.

A forma do tubo em forma de pescoço de cavalo direciona a água dos aspersores para o corpo do animal.

EQUIPAMENTO | VACAS DE LEITE

VACAS FRESCAS

AS ELEVADAS TEMPERATURAS TÊM EFEITOS NEFASTOS NO BEM ESTAR DAS VACAS E NA SUA PRODUTIVIDADE. COM A INSTALAÇÃO DO SISTEMA COW-COOLING (ARREFECIMENTO DAS VACAS), DA DeLaval CONSEGUE-SE CONTRARIAR ESTA TENDÊNCIA DE QUEBRA. MÁRIO FRÓIS, DA NUTRILETE, DEU-NOS O SEU TESTEMUNHO. Por Ruminantes Fotos FG

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Vacas frescas | Cow Cooling

OS EFEITOS DO SISTEMA COW COOLING NO BEM-ESTAR DAS VACAS FAZEM AUMENTAR A SUA CAPACIDADE PRODUTIVA EM CERCA DE 20% NOS MESES DE VERÃO, CONTRARIANDO A TENDÊNCIA DE QUEBRA HABITUAL.

A

Nutrileite é uma exploração leiteira localizada em Alfouvés, Rio Maior, que tem um efetivo total de 600 animais dos quais 367 em produção. As elevadas temperaturas que se fazem sentir no verão, que ultrapassam com frequência os 40ºC, afetam os resultados produtivos e reprodutivos. Foi por isso que decidiram instalar, em abril passado, o sistema de refrigeração Cow Cooling, da DeLaval. A Ruminantes falou com Mário Fróis, gerente da Nutrileite, para saber as impressões das primeiras semanas com este sistema. Porque investiu no sistema Cow Cooling?

Pelas elevadas temperaturas que se fazem sentir nesta zona, durante muitos dias do ano tínhamos um impacto negativo significativo na produção diária de leite, no aumento de constipações e também problemas na reprodução dos animais. O que é o Cow Cooling?

O Cow Cooling (que em inglês significa arrefecimento das vacas) é um sistema integrado composto por aspersores de gota grossa e por ventoinhas, que trabalham de forma alternada no estábulo, e têm como objetivo refrescar as vacas. Os aspersores e os ventiladores, que trabalham de forma independente de acordo com períodos de tempo definidos pelo produtor, têm débitos constantes de 5 litros/ minuto (aspersores), e no mínimo 3 metros/ segundo (ventiladores). Os efeitos deste sistema no bem-estar dos animais fazem aumentar a sua capacidade produtiva em cerca de 20% nos meses de verão, contrariando a tendência de quebra habitual com temperaturas elevadas.

o animal é molhado até meio do dorso (da garupa até 2/3 do animal). Aqui, apesar de existirem 4 manjedouras, optámos por instalar um único sensor no centro do estábulo, que é o local mais quente da vacaria, ligado às respetivas linhas de aspersores/ventiladores. Quando é que o sistema entra em funcionamento?

Os ventiladores estão programados para dispararem a partir dos 24ªC, e os aspersores aos 30ºC. Os ventiladores também são interessantes no inverno, quando o estábulo, por algum motivo, fica com uma concentração elevada de amoníaco. Nesse caso, ativamos a função manual para eliminar os cheiros. O sistema cow cooling funciona durante períodos de no mínimo 5 minutos. Define-se o tempo de funcionamento dos aspersores (por ex. 40 segundos), e no tempo restante, até completar o período definido, são os ventiladores que estão a trabalhar. Quando os aspersores funcionam, os ventiladores estão parados. Ou seja, se durante uma hora a temperatura se mantiver acima do estabelecido, vão-se realizar 12 ciclos (água/ ventilação) de 5 minutos.

Nesta zona existem grandes amplitudes térmicas que prejudicam o bem-estar das vacas, e com o cow cooling conseguimos atenuar essa questão. Porém, o objetivo com este sistema é baixar a temperatura corporal dos animais, mais do que do estábulo em si, para evitar efeitos indesejados como pode ser o aumento da humidade, entre outros. Sempre que o sensor de temperatura dispara, o cow cooling atua diretamente nas vacas, baixando a sua temperatura corporal, através do banho por aspersão e da ventilação. Que efeito teve a implementação do cow cooling no comportamento dos animais?

As vacas conseguem descansar melhor. Os aspersores molham bem a vaca, e os ventiladores refrescam e ajudam a secar o pelo, pois os animais não devem estar molhados muito tempo. As vacas adaptaram-se bem?

Não tiveram nenhum problema, adaptaram-se ao chuveiro ao fim de meia-hora. Que efeito teve no “tanque”?

Em dias como o de hoje, ou ontem, em que as temperaturas subiram acima dos 30ºC, teria tido baixas de produção superiores a 200 litros/ordenha no tanque, assim não tive quebras. Por exemplo, o ano passado no verão, tinha sempre alertas do programa de gestão de estábulo Delpro, de quebra de produção de leite em + de 15% em muitas vacas, este ano só tenho de 1 ou 2 vacas com quebra de produção. Que efeitos teve no consumo de alimento e na saúde animal?

O consumo de alimento manteve-se, o que é bom. Os problemas com constipações estão a diminuir, tal como os de reprodução. Estes problemas eram mais graves quando tínhamos os “choques térmicos”.

Que investimento é necessário para a instalação?

Para além das ventoínhas, aspersores, tubagem e sistemas de controlo (caixa de programação e sonda de temperatura), é imprescindível ter um ponto de energia e de água.

Em quanto tempo pensa que se consegue pagar este investimento?

Qual a localização do sistema no estábulo?

Por cima das manjedouras. O objetivo é que os aspersores molhem o corpo do animal sem chegar à cabeça. O desenho das tubagens (em forma de pescoço de cavalo) e o direcionamento dos aspersores garantem que

Que temperaturas tinha antes, e tem agora no pavilhão?

"O consumo de alimento manteve-se, o que é bom. Os problemas com constipações estão a diminuir, tal como os de reprodução. "

Pensamos amortizá-lo em 2 anos (2 verões), mas outros colegas que usam dizem que poderá ser pago ainda em menos tempo. Se a produção de leite e a reprodução das vacas se mantiverem, ou seja, não baixarem quando temos temperaturas altas, estamos a falar de valores significativos que vão permitir uma amortização rápida.

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40 fardos por hora foi o resultado concreto para esta parcela que, como explicou o operador, Nuno Martins, está relacionado com vários fatores:" Estamos a trabalhar a 6 km/h mas depende muito da erva no cordão e do trator com que estamos a trabalhar”.

EQUIPAMENTO | NEW HOLLAND BB 890 PLUS

SILAGEM TODO O ANO

O CASAL DE QUINTANELAS ADQUIRIU RECENTEMENTE UMA ENFARDADEIRA DE FARDOS RETANGULARES GIGANTES. TRATA-SE DA NEW HOLLAND BB 890 PLUS CROP CUTTER. AS PRINCIPAIS RAZÕES DA ESCOLHA PRENDEM-SE COM A RAPIDEZ DO ENFARDAMENTO, O CUSTO DO ARMAZENAMENTO E A DISPONIBILIDADE DE SILAGEM DURANTE TODO O ANO.

O

Casal de Quintanelas, situado no Sabugo, Sintra, é uma das vacarias modelo no nosso país. Contando hoje com mais de 370 vacas, pretende “chegar às 500”. Quem nos faz a confidência é António Castanheira, gestor da Sociedade Agrícola do Casal de Quintanelas há praticamente três décadas. Para além das infraestruturas onde se encontram as vacas, escritórios, armazém de máquinas e outros equipamentos, a exploração conta ainda com 250 hectares (uma parte deles arrendados), onde é semeado azevém para feno-silagem e feno, que constitui cerca de 60% da forragem fornecida aos animais. “Quando fazíamos silagem no método dito “convencional”, para “darmos a volta a isto tudo” (250 hectares) era mais de um mês, garantidamente. Agora, estou convencido que em 15 dias conseguimos terminar. Claro que muitas das parcelas que fazemos são pequenas e acabamos por ter alguns problemas por isso.”, começa por explicar António.

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Por Sebastião Marques | Fotos Francisco Marques

Porquê uma máquina tão grande?

Não havia quem nos pudesse prestar este serviço. Ninguém vinha do Alentejo para trabalhar estes “canteiros”. Além de serem parcelas pouco produtivas, são também de pequena dimensão. O máximo de área pegada que tenho são 10 hectares. Não são para máquinas destas, por isso é que digo que esta máquina irá durar 20 anos porque, por ano, vai trabalhar pouco. Temos um trator com 11 anos e tem agora 5500 horas, o que dá 500 horas por ano. Se é um equipamento sobredimensionado porque, ainda assim, optou por ele?

Tendo todos os fatores em igualdade de circunstâncias (altura de corte, etc), trabalha ao dobro da velocidade da máquina que tínhamos. Também nos permite armazenar e transportar a um custo muito mais baixo. Para além disso, há um aumento grande do nível da qualidade, dado ao aumento da rapidez da colheita. Quando fazíamos no silo, com

mais de 30% de matéria seca, já era muito complicado de calcar. Agora também abrimos os fardos consoante a necessidade, o que garante um aumento qualitativo. Para esta melhoria da qualidade também conta poder entrar na altura certa, o que seria impossível se não tivéssemos uma enfardadeira no nosso parque de máquinas. Referiu que abre os fardos quando quer. Quanto custa plastificar?

São 6,36 € por tonelada enfardada (com 6 camadas). Dependendo da matéria seca que colocamos, o valor por fardo varia um pouco, mas, se tivermos um peso médio de 420 kg, anda à volta dos 2,67 €. Se atendermos ao facto de que a silagem que sai dos silos, com 30% de matéria seca, vale 35€ /tonelada, a tonelada de matéria seca ronda os 116,7 €. O custo da plastificação será cerca de 10,6 €/ ton de matéria seca o que equivale a cerca de 9% do total do valor do fardo. Se fizer os fardos com esta máquina, colocando o custo do plástico, em vez de 35 €/tonelada vou


Enfardadeira New Holland BB 890 Plus

De acordo com o fabricante, o novo sistema de atamento, produz um nó 26% mais forte que o seu antecessor, utiliza menos fio e não deixa pontas.

As grandes vantagens destes fardos estão na arrumação e no transporte, por serem retangulares.

considerar 40 €. Se mantivesse os 30% de matéria seca, o custo ficaria em 133 € por tonelada de matéria seca. Ou seja, 9% do valor é para empacotar, o que é muito. Mas se eu considerar que trago silagem de milho de a 100 km daqui e que, só o transporte, custa perto de 20%... não é nada mau. Conseguirá então ter silagem de milho durante mais tempo?

Poderei ter silagem de milho para o ano todo, que, de outra forma, não teria. Estas são contas que farei daqui a alguns meses. Tenho a base de dados diária do que dei às vacas, as médias, o custo do leite, o que me permite ir sempre comparando com o mês homólogo do ano anterior. Este será o primeiro verão em que vou entrar com silagem de milho, portanto, verei que médias consigo obter. Se conseguir maior produtividade por vaca, 1€ a 1,5€ por vaca, será também um valor a abater na compra da enfardadeira, porque, sem ela não conseguiria ter silagem de milho todo o ano visto que estaria a encher os silos. Quantas toneladas de silagem compra?

Este ano ainda irei comprar mais 400 toneladas fora, que darão até ao final de setembro. Nunca dou silagem de milho à vontade, o máximo que dou são 20 quilos. Mesmo quando tenho silagem de milho, como tenho os fardos enrolados em plástico, vou sempre dando complemento. Esta enfardadeira fornece muita informação ao operador, como retira

partido dela?

Todos os finais de dia, o Nuno (responsável pelo parque de máquinas) passa-me uma pen com toda a informação sobre o trabalho realizado pela máquina durante o dia. Desde o número de fardos por hora, fardos por parcela, humidade dos fardos, consumo, etc. No final da campanha consigo ter um retrato fiel do que aconteceu. É informação que me interessa bastante, especialmente a matéria seca, que medimos todos os dias. Vamos formulando o alimento das vacas em função disto. Com esta máquina consigo a informação mais cedo (ainda que não me dê a proteína). Enquanto que no silo metemos e não sabemos mais nada porque vem de várias proveniências e vai variando muito ao longo do silo, aqui é por lotes (está compartimentado), permitindo um controlo mais apertado. O único problema é a matéria seca porque, no mesmo lote, pode haver fardos bastante mais secos do que outros e, por isso, medimos sempre. Daí que por vezes sobre muito (alimento). Se tinha 10% mais de matéria seca do que o previsto, ou não medimos durante o fim de semana, dá logo uma “bronca” porque sobra muita comida e a produção vem por aí abaixo. Ao nível do consumo (combustível) do trator, já tem ideia de quanto vai conseguir poupar com esta enfardadeira?

Com a que tínhamos, a apanhar do chão, fazer corte e recorte, e mandar para cima de um reboque, gastava 12 litros por hora. Com esta máquina, o mesmo trator gasta 9 a

10 litros por hora. Para além de que, com a nova máquina colhemos cordões muito mais densos (com o dobro da largura). Em quanto tempo espera ter amortizado a enfardadeira?

Acredito que, com tantas vantagens, será um investimento que se paga em três anos. Se a produção das vacas no verão todo for aquilo que eu imagino, acho que sim. Porque optou pela BigBaler 890 Plus?

A opção por este modelo em concreto foi pura e simplesmente porque a New Holland está, neste tipo de produto, e na minha opinião, acima do resto da concorrência.

ENFARDADEIRA NEW HOLLAND BIGBALER 890 PLUS CROPCUTTER Dimensões do fardo largura x altura e comprimento - cm

80 x 90 e 100/260

Largura do pick-up MaxiSweep™ (DIN 11220) (m)

1,96

Nº de facas

9 ou 19

Proteção das facas

Molas individuais

Potência mínima da TDF (kW/cv)

100/136

Sistema atamento/ Nº de cordéis

Tipo nó duplo / 4

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PRODUÇÃO | ENTREVISTA A ANTÓNIO AVELINO

HÁ SOSSEGO NA VACARIA

HÁ TRÊS MESES ATRÁS, ANTÓNIO AVELINO DECIDIU QUE ESTAVA NA ALTURA DE TER ALGUM TEMPO LIVRE PARA SI. ENCONTROU A SOLUÇÃO NUM ROBOT DE ORDENHA GEA MONOBOX R9500 QUE LHE TROUXE MAIS DESCANSO, E MAIOR BEM-ESTAR ÀS SUAS VACAS. Por Ruminantes Fotos FG

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Robot GEA Monobox R9500 | Entrevista a António Avelino

"O OBJETIVO PARA DAQUI A UM ANO É PRODUZIR 2.500 LITROS."

A

aquisição de um robot de ordenha já fazia parte dos planos de António Avelino há muito tempo. Porém, o facto de poder contar com a ajuda dos seus pais sempre que era preciso, e o receio que tinha em relação ao retorno do investimento, levaram-no a ir adiando a compra. Há três meses atrás, depois de ter ponderado novamente prós e contras, ofereceu finalmente às suas vacas um robot GEA Monobox R9500.

Quais são os extras deste robot?

António Avelino fala da sua exploração com o à-vontade de quem conhece bem o negócio. Afinal, foi ali que cresceu, e foi ali que começou a trabalhar, com os seus pais. Hoje conta com a ajuda de um empregado e, desde há três meses, de um robot para as 60 vacas que tem em ordenha. “Esta exploração veio dos meus pais. Na altura tínhamos 35 vacas de leite, Holstein, e hoje temos cerca de 60 em ordenha. No total são 112 animais em estabulação fixa. Uma parte da alimentação, azevém e milho, é feita por nós em 12 hectares de terras que cultivamos. Fora, compramos palha e ração.”

Quanto ordenha este robot por dia?

Qual é o segredo para se manter neste negócio?

Não tenho segredos, sempre trabalhei nisto, é o gosto de cá estar. Vai dando para viver. O que o levou a investir num robot?

A ordenha é uma rotina muito cansativa, exige muita mão de obra e é um processo muito repetitivo. Até agora, nem eu nem o funcionário tínhamos folgas. Agora já conseguimos ter, revezando-nos. Este foi o principal motivo para adquirir o robot. Por outro lado, há o aspeto da saúde e do bem-estar animal que se refletem na qualidade do leite e no aumento da produção. Como escolheu o robot?

Comecei por pensar num usado. Informei-me sobre os preços e também sobre a assistência e a proximidade da mesma. E também ouvi opiniões de colegas que trabalham com robots. Que vantagens encontra no modelo que adquiriu?

A assistência permanente e a proximidade dos técnicos, que foram determinantes na escolha, para além de outras razões: - consome menos energia (menos 20%); - tem uma instalação mais simples; - separa os tetos individualmente na ordenha (o que os outros não fazem) e não aproveita o leite no caso de haver problemas com um teto.

A condutividade, o tanque pulmão e a porta de pós-seleção. Qual é o sistema de maneio utilizado na exploração?

Totalmente livre, com possibilidade de confinar se for necessário.

Que indicador utiliza? Leite produzido por robot, ou por vaca?

Olho mais à produção por vaca.

Estamos a tirar 2.000 litros por dia, mas pretendo chegar em breve aos 2.500 litros. Quantas ordenha fazia e faz agora, por dia?

Antes fazia duas. Hoje, após 3 meses de aquisição do robot, faço em média 2,5. Ao fim de quanto tempo se habituaram as vacas ao robot?

Durante 1,5 meses habituei-as a ir lá só comer ração, sem ordenhar. Foi uma boa solução. Ao fim de 3 semanas, já iam por elas. A produção aumentou com o número de ordenhas?

Por enquanto não, a estabilidade ainda não foi atingida porque temos vindo a ter obras nas instalações. Penso que a produção vai aumentar no próximo ciclo, depois de as vacas terem sido secas e terem voltado a parir. Daqui a um ano, o objetivo é estar a produzir 2.500 litros no robot.

Do ponto de vista da saúde animal, nota melhorias nas vacas?

Ao nível da saúde do úbere, o robot é uma vantagem grande. Os úberes nunca estão atestados como acontecia na ordenha de 12 em 12 horas. No robot, as vacas mais produtoras vão de 4 em 4 horas, as outras de 6 em 6 horas, estão agrupadas por produção para que não cheguem a ter pressão no úbere nem estejam a perder leite. Diariamente, para que indicadores olha?

Os litros que cada vaca produziu, a frequência com que veio ao robot, se teve descargas de células... A proteína e a gordura do leite melhoraram, ao ter passado a dar a ração mais vezes ao dia?

Ainda é cedo para tirarmos conclusões. Uma das grandes vantagens do robot é que coloca a quantidade de alimento de acordo com a necessidade de cada animal. Essa calibração é feita pelo nutricionista que acompanha a nossa exploração. Quando comprei o robot, alguns colegas avisaram que me preparasse porque as células e os microrganismos iriam aumentar. Devo dizer que, até à data, tenho zero queixas sobre isso. Depois deste investimento no robot, se as suas vacas falassem, o que diriam?

Que estão felizes (risos). Agora há paz na vacaria, há sossego, silêncio. Umas [vacas] deitadas, outras a comer, outras na escova, outras à espera de vez para o robot... Foi uma mudança radical. Elas agradecem todos os dias.

Vai mudar a genética?

Tenho vindo a fazê-lo. Em genética há sempre melhorias possíveis de fazer. Tem vacas que se atrasam a ir ao robot?

Sobretudo as paridas há mais tempo e as que estão para secar. Quando fazemos a limpeza dos cubículos, essas vacas levantam-se e encaminham-se para a ordenha. Utiliza a mesma ração desde que instalou o robot?

Não. Antes dava só uma ração em farinado no unifeed. Agora dou uma parte da ração em granulado no robot e outra parte em farinado no unifeed. Passados estes 3 meses, que balanço faz da aquisição do robot?

Estou arrependido de não ter tomado esta decisão há mais tempo. Como disse, a ordenha é muito cansativa e exige muita mão de obra.

DADOS DA EXPLORAÇÃO NOME: ANTÓNIO AVELINO LOCALIZAÇÃO: GONDIFELOS, CONCELHO DE FAMALICÃO ÁREA: 12 HECTARES Nº EMPREGADOS: 1 Nº DE LITROS DE LEITE/DIA: 2.000 EFETIVO TOTAL: 112 Nº VACAS EM ORDENHA: 57 Nº DE ORDENHAS/DIA: 2,5 PRODUÇÃO ROBOT/DIA: 2.000 LITROS PRODUÇÃO MÉDIA DIÁRIA: 36 LITROS/VACA TG LEITE: 3,6% | TP LEITE : 3,2% CCS: 120.000 CÉL/ML Nº MÉDIO LACTAÇÕES/VACA: 3 IDADE AO 1º PARTO: 2 ANOS INTERVALO ENTRE PARTOS: 1 ANO Nº MÉDIO DE INSEMINAÇÕES POR VACA ADULTA: 2

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OBSERVATÓRIO DE MATÉRIAS PRIMAS

SEMELHANÇAS ENTRE MERCADOS

NO QUE TOCA A MATÉRIAS PRIMAS AGRÍCOLAS, POR UM MOTIVO OU OUTRO, NÃO É PREVISÍVEL UMA FORTE REDUÇÃO DOS PREÇOS. SE TIVESSE QUE APONTAR ALGUMA DIREÇÃO SERIA A DE ESTABILIDADE COM ALGUM POTENCIAL DE SUBIDA, EM PARTICULAR EM RELAÇÃO À SOJA. Por João Santos

O PETRÓLEO E A CARNE O mercado financeiro do petróleo tem várias vezes a dimensão do seu mercado físico, ou seja, cada barril de petróleo transacionado fisicamente já foi transacionado muitas vezes no mercado financeiro. Lembramos que todas as energias transacionadas são indexadas a um índex, donde, para fixarmos o preço temos que recorrer ao mercado financeiro dessa energia, seja para o gás natural, seja para o gasóleo, ou o jet-fuel no caso da indústria de aviação. Adicionalmente a estes clientes finais de energia, temos todos os intermediários físicos e financeiros que recorrem ao mercado financeiro para gerir o seu risco. Finalmente temos operadores que especulam em futuros e, para terminar, os índex de matérias primas. Os índex de matérias primas, em particular, representam mais de metade do mercado de petróleo transacionado fisicamente nos EUA. A 20 de abril passado, os gestores de fundos sobre este índex tiveram que sair do contrato de maio do WTI, o índex de referência do petróleo nos EUA. Estes fundos sobre 82

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o índex do WTI jogam sempre no long, ou seja, só compram e rolam a posição de long. Ao serem um fundo não precisam do petróleo (físico). Assim, no mês antes do contrato deixar de ser financeiro e passar a ser físico, têm forçosamente que vender o mês do contrato da frente e comprar o seguinte, ou seja “rolar o long”. Como a meados de abril estávamos no pico do Covid-19, e do confinamento nos EUA, todos os tanques de petróleo estavam cheios e havia poucos compradores com capacidade de receber o petróleo. Ao não ser fisicamente possível, de um momento para o outro, parar de extrair petróleo de um poço, pois não se pode diminuir de repente a pressão usada para o extrair, a produção continuou. Não havia lugar onde armazenar e, durante dias, vimos os preços negativos no WTI, índex dos EUA, chegar a -40 $/ Barril. Ou seja, os produtores que conseguiam parar de produzir recebiam 40 dólares por não entregar petróleo, e quem tinha capacidade de armazenagem, em vez de pagar para comprar petróleo, recebia dinheiro. Não

está mal!! No mercado da carne, algo de parecido aconteceu, e continua a acontecer. À exceção da primeira semana de confinamento, em que toda a gente se dedicou a encher o congelador, nas semanas seguintes o consumo não parou de diminuir. Com os restaurantes, bares, cantinas e hotéis fechados, que no mercado português e espanhol representam cerca de 35% do consumo, e nos EUA algo mais de 50%, os diferentes produtores de carne tiveram que se ajustar ao mercado: primeiro congelaram carne, depois frangos, quando as arcas ficaram cheias levaram os ovos de pintos para a indústria de ovos, e quando esta deixou de receber ovos, tiveram que abater galinhas, até a procura se ajustar à oferta que, com dificuldade, foi reduzindo. Na pecuária não chegámos ao extremo dos preços negativos, como aconteceu com o petróleo, mas algo similar se passou com alguns produtores de leite de ovelha e cabra que tiveram que destruir o seu leite porque não tinham quem o viesse buscar. Claramente, houve um

paralelismo difícil e penoso no ajustar da oferta à procura quando esta caiu repentinamente, como aconteceu nos meses de março, abril e maio. Embora não tivéssemos visto a situação dos preços negativos do petróleo, tivemos uma situação de certa forma pior: a redução de margens, uma vez que os preços das matérias primas, tirando a energia, não desceram. E isso deveu-se à grande e barata capacidade de armazenagem, que os agricultores e traders têm, e por não serem produtos de produção contínua e terem o seu ciclo de produção. É este assunto que abordaremos nos pontos seguintes. PROTEÍNAS Até março passado tínhamos uma safra de soja no Brasil perto do record, e condições na Argentina que apontavam para uma boa colheita. Posteriormente, a pandemia no Brasil e a instabilidade política conduziram à volatilidade no Real, o que fez com que o agricultor brasileiro vendesse abundantemente a soja, uma vez que é pago em Reais e esta moeda se desvalorizou.


Observatório de matérias-primas

Por seu lado, o anúncio do governo argentino no meio de uma profunda crise financeira, a preparar-se para não cumprir como os compromissos da dívida externa, fez com que o Peso depreciasse a passo largo. Como consequência, os agricultores deixaram de vender ao ritmo necessário para manter a indústria de extração de soja a rodar, e preferiram guardar, em maior percentagem do que seria desejável, o grão de soja, como moeda forte. Em vez de vender a soja na colheita e ficar com Pesos, preferiram ir vendendo ao longo do ano à medida das necessidades. Por outro lado, em março, o grão de soja dos EUA já era mais caro que o do Brasil, e os chineses compravam localmente grão de soja nas terras de Vera Cruz. E aqui temos que voltar a falar da China com detalhe: se, por um lado, durante a pandemia da peste suína o consumo de soja diminuiu brutalmente devido a uma redução de, eventualmente, até 50% dos seus efetivos, quer o setor da aquicultura como o da avicultura não pararam de crescer e construíram-se modernas e gigantescas suiniculturas com as devidas medidas de biossegurança. Ou seja, por detrás da pandemia do Covid-19 na China, pelo meio das acusações entre o Sr. Xi e o Sr. Trump sobre a culpa do coronavírus, e da guerra comercial, o consumo de soja na China está rapidamente a recuperar da forte redução que teve em 2018 devido à peste suína. Ao mesmo tempo que o governo chinês diz que não vai comprar mais produtos agrícolas nos EUA, em retaliação às palavras menos simpáticas do Sr. Trump, a China continua a comprar loucamente soja nos EUA, em particular a nova colheita de 20/21. O motivo mais provável é porque sabe que o seu consumo vai aumentar com a recuperação da produção de porcos, e está a aproveitar a abundância de stocks finais nos EUA, e a perspetiva de uma boa colheita. Desde maio que os preços nos Estados Unidos estão mais competitivos que no Brasil. Nas próximas semanas estaremos em cima do weather market nos EUA, mas até ao momento o tempo tem estado de feição para a soja e para o milho. A farinha da Argentina não está

tão competitiva como costuma ser, pela situação descrita antes de retenção do grão pelos agricultores, com a consequente perda de competitividade da extração de soja na Argentina em detrimento do Brasil, dos EUA e dos países de destino como, por exemplo, Portugal. Pelo lado da procura, o consumo na Europa devido ao Covid-19 descerá alguma coisa, mas de momento nada de significativo. Por outro lado, o Brasil, os Estados Unidos e, em particular a China, estão com o consumo em alta. Hoje temos a farinha de soja tanto para o disponível como para 2020 oferecida em Lisboa sobre os 310€, é difícil hoje com tanta oferta ver o potencial de subida. No entanto, a procura, ao contrário do que intuitivamente poderíamos pensar, está a aumentar, e em particular sob o manto do Dragão. Podemos acordar a meados do ano que vem e ver a China com o mesmo nível de consumo de soja que tinha antes de 2018, e a crescer. No que toca às mid-pros, na farinha de girassol, “gira o disco e toca o mesmo”. Os preços estão sobre os 180€/ton e têm pouco potencial para subir, com a importação tanto do Mar Negro, como da Argentina a não deixar que localmente estes subam, para além do preço das matérias primas alternativas. No que toca à colza, a forte redução de consumo de diesel na Europa levou a que as extratoras estivessem paradas por não ter onde pôr o óleo, uma vez que o grosso da produção europeia de óleo de colza é para produção de biodiesel. Com o desconfinamento a situação tende a melhorar, mas não creio que antes de outubro vejamos

a situação normalizada no que se refere ao abastecimento de farinha de colza no mercado nacional. O preço para o balanço do ano deverá andar sobre os 225€ em Lisboa e nos portos nacionais. CEREAIS Quatro ideias a destacar: - Espanha terá uma mega colheita de cevada, que não deverá chegar aos 12 milhões de toneladas mas ficará perto. Nos próximos meses, tanto a cevada como o trigo espanhol deverão chegar a preços muito competitivos a Portugal, por camião. - O confinamento nos EUA teve o efeito de parar a indústria do etanol e da gasolina, pelo que o preço do milho caiu muito aí, e como a UE calcula os direitos de importação com base no milho dos EUA, nos últimos meses tivemos 10€/tm de direitos de importação. Com boas perspetivas de colheita nos EUA, este verão, se o etanol não arrancar com força nos EUA, os direitos de importação deverão continuar ao longo de 2020/21, o que são más noticias para Portugal, uma vez que não poderemos beneficiar da situação de abundância em todo o mundo para comprar milho barato, (mas depois, não há direitos de importação para a carne). - O Brasil continua a incrementar a passos largos a sua pecuária, pelo que marginalmente o que tem para exportar de milho já não é o que era há uns anos atrás. Donde, no período de julhodezembro em que normalmente o milho brasileiro é mais competitivo, essa vantagem tenderá a ser menor - Por último, chamo a atenção para algo que, através das vossas

associações, deveriam ativamente tomar uma posição: a tendência crescente de maiores restrições ao limite máximo de fitossanitários na UE, que está a caminho de ser novamente reduzido, e que tornará muito difícil a importação de milho da América do Sul. Se a isto somarmos o impedimento de trazer milho dos EUA devido aos OGM, Portugal, que tem de importar cereais, em particular milho, para alimentar a sua pecuária, e o tem de fazer forçosamente de forma competitiva, ou seja, comprar da origem mais barata, está em risco de deixar de o poder fazer, não podendo competir com os países do centro e norte da Europa que têm cereais em abundancia. Donde, se o critério é de reduzir nos fitossanitários do milho importado, no mínimo que seja imposto um critério equivalente na carne importada. Dito isto, o milho está oferecido a algo mais de 170 euros para a segunda metade de 2020 e para 2021. NOTAS FINAIS Temos a lamentar as perdas humanas que o coronavírus tem causado. Fica a esperança de que rapidamente de descubra uma vacina. No que toca a matérias primas agrícolas, por um motivo ou outro, não é previsível uma forte redução dos preços. Se tivesse que apontar alguma direção seria a de estabilidade com algum potencial de subida, em particular em relação à soja. Continuem atentos ao que se diz sobre a evolução da peste suína na China, que esse será o factor chave para a evolução dos preços. Despeço-me, com amizade.

PRODUÇÃO MUNDIAL E STOCKS FINAIS DE MILHO E SOJA 14/15

15/16

16/17

17/18

18/19

19/20

20/21

PRODUÇÃO FINAL

319

312,8

351,4

342,09

360,3

335,4

362,9

STOCKS FINAIS

77,6

76,6

96,0

98,56

111,88

99,2

96,3

24%

24%

27%

29%

31%

30%

27%

PRODUÇÃO FINAL

1008,80

961,9

1070,2

1076,2

1123,3

1113,5

1186,5,

STOCKS FINAIS

208,2

210,9

227,0

341,2

320,8

312,9

337,9

21%

22%

21%

32%

29%

28%

28%

MILHÕES DE TM

SOJA

MILHO

FONTE: USDA s&d relatório de junho

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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OBSERVATÓRIO DO LEITE

O EFEITO DA PANDEMIA NOS MERCADOS

DA CRISE SANITÁRIA À CRISE ECONÓMICA: O EFEITO DA PANDEMIA NOS MERCADOS. O 1º SEMESTRE DE 2020 FICARÁ ASSINALADO NOS LIVROS DE HISTÓRIA DAS GERAÇÕES ATUAIS E FUTURAS. A PANDEMIA COVID-19 TROUXE PROFUNDAS ALTERAÇÕES ÀS SOCIEDADES A NÍVEL GLOBAL, COM O CONFINAMENTO DOS CIDADÃOS E O ENCERRAMENTO DE ALGUNS SERVIÇOS A AFETAREM SIGNIFICATIVAMENTE A PROCURA DE BENS AGRÍCOLAS. Por Joana Silva, Médica Veterinária | Fonte Comissão Europeia, IFCN, Rabobank, The Dairy Site

T

ambém quase histórica tem sido a intervenção dos governos de muitos países sobre a balança da procura e oferta, ao injetar nas sociedades meios para minimizar as consequências nefastas do confinamento. No passado mês de junho, especialistas do setor leiteiro de setenta países estiveram reunidos na 21ª Conferência da IFCN (International Farm Comparison Network), para discutir a crise no setor pré e pós pandemia. Segundo os peritos, é importante contextualizar a análise tendo em conta o estado do setor no período pré Covid-19. Em 2019, o crescimento da produção leiteira, na ordem dos 1,4%, estava já bastante abaixo da média a longo prazo de 2,3%, tendência decretada principalmente pela Índia, Oceânia, África e Médio Oriente. Em paralelo, a popularidade crescente das alternativas ao

84

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

leite nos países desenvolvidos e a menor disponibilidade do leite em economias em desenvolvimento, foram fortes travões ao crescimento da procura. Utilizando o preço do leite pago ao produtor como indicador de “crise”, a comparação de preços de setenta e cinco países em maio versus fevereiro deste ano resultou numa média global de decréscimo de 4,6%. No entanto, a análise individual de cada país revela que terão existido dois “epicentros da crise”: os Estados Unidos, com um decréscimo de 29%, e a Índia, com um decréscimo de 19%. Na Europa, a coincidência do pico primaveril da produção leiteira com a expansão do surto de Covid-19, agravou a tendência de decréscimo dos preços do leite, e poderá impulsionar a produção de produtos lácteos de maior durabilidade e menor necessidade de mão-de-obra.

Por outro lado, produtos de valor acrescentado como os queijos certificados, ou produtos tradicionais vendidos em contacto próximo entre os produtores e os consumidores (feiras, mercados, entre outros), têm vindo a ser negativamente afetados pelas medidas de confinamento. Já nos grandes retalhistas, onde se verificaram picos de consumo e stocks domésticos também eles históricos, o leite UHT tem estado entre os tops de vendas. Tendo em conta a produção atual, os constrangimentos logísticos e a diminuição da mão-de-obra disponível devido a doença, e sob condições climatéricas normais, as previsões apontam ainda assim para um crescimento de 0,4% da produção leiteira europeia este ano, com a redução dos efetivos a ser compensada por um maior rendimento leiteiro por cabeça. Por outro lado, caso se venha a verificar uma diminuição

significativa da procura, o leite em natureza poderá ser redirecionado para produtos de maior durabilidade como o leite em pó, cuja produção poderá crescer na ordem dos 2,5% em 2020. Na Nova Zelândia, na reta final da temporada produtiva de 2019/2020, as regiões a norte ressentiram-se bastante das condições de seca entre janeiro e abril, as quais impactaram negativamente o crescimento das pastagens, com alguns produtores a secarem os seus efetivos mais cedo devido à escassez de alimento. Já na região sul as condições têm sido favoráveis à expansão da produção. As previsões do Rabobank para o fecho da temporada apontam para as 21.665 milhões de toneladas, um decréscimo de 0,6% face à temporada anterior, mas com previsão de crescimento para a temporada que aí vem. Na vizinha Austrália, a Covid-19


Observatório do leite

teve efeitos menos positivos nas relações comerciais com a China – aquele que é o seu maior parceiro comercial - após a Austrália ter requisitado um estudo independente sobre a génese e a propagação da pandemia, o qual poderá ter estado na origem do aumento das tarifas da cevada e no embargo da importação de carne bovina australiana. A China, ávida importadora, é agora olhada com cautela pelos seus parceiros comerciais. Nos primeiros meses do ano, o país impulsionou as importações de vários bens agrícolas especulando-se que talvez até acima das suas necessidades imediatas – de forma a criar stock em caso de comprometimento da segurança alimentar. Desta forma, as previsões apontam para a possibilidade do abrandamento das importações chinesas durante o resto do ano, tendo em conta não só os stocks elevados mas também o crescimento da produção nacional e a tendência de fraca procura interna. Aos poucos, assistimos à reabertura das sociedades e seus mercados, bem como à exposição das fragilidades socioeconómicas deixadas pela pandemia. Apesar do aligeiramento das medidas de confinamento em alguns mercados-chave do setor, como a Nova Zelândia, a pandemia ainda dá luta em muitas regiões do globo. Naquela que é já apelidada da pior crise económica desde a Segunda Guerra Mundial, longo será o caminho da recuperação da economia, prevendo-se tempos difíceis. Acrescem a estas dificuldades os muitos apoios dados pelos governantes, e sua interferência nos mercados, que irão provavelmente aligeirar-se no segundo semestre do ano. As previsões para o segundo semestre de 2020 ainda não são consensuais: se alguns especialistas prevêem uma rápida recuperação dos preços do leite já a partir de Julho, outros defendem uma tendência de recuperação mais conservadora, fruto da sólida oferta no mercado em paralelo com a diminuição da procura per capita devido à crise económica.

TABELA 1 PREÇO DO LEITE STANDARDIZADO (1) PAÍSES

COMPANHIA

PREÇO DO LEITE (€/100 KG) ABRIL 2020

MÉDIA DOS ÚLTIMOS 12 MESES (5)

ALEMANHA

Alois Müller

30,88

31,56

DINAMARCA

Arla Foods

33,50

32,69

FRANÇA

Danone Lactalis (Pays de la Loire) Sodiaal

34,25 34,50 33,87

34,97 35,04 35,17

INGLATERRA

Dairy Crest (Davidstow)

29,11

32,58

IRLANDA

Glanbia Kerry

28,62 30,49

30,10 30,94

ITÁLIA

Granarolo (North)

38,35

39,58

HOLANDA

DOC Cheese Friesland Campina

33,91

34,82

PREÇO MÉDIO LEITE (2) N. ZELÂNDIA

Fonterra (3)

31,06

32,19

EUA (4)

EUA

29,75

39,11

Fonte: LTO; (1) Preços sem IVA pagos ao produtor; Preço do leite de diferentes empresas leiteiras para 4,2% de MG, 3,4% de teor proteico e CCS de 249,999/ml . (2) Média aritmética . (3) Baseado na previsão mais recente (4) Reportado pela USDA . (5) Inclui o pagamento suplementar mais recente.

TABELA 2 LEITE À PRODUÇÃO, PREÇOS MÉDIOS MENSAIS EM 2019/2020 MESES

2019

2020

EUR/KG Contin.

Açores

JANEIRO

0,314

0,290

FEVEREIRO

0,311

0,285

MARÇO

0,310

0,286

ABRIL

0,310

0,285

TEOR MÉDIO DE MATÉRIA GORDA (%) Contin.

TEOR PROTEICO (%)

Açores

Contin.

Açores

3,77

3,65

3,29

3,23

3,72

3,64

3,27

3,19

3,71

3,65

3,30

3,15

3,70

3,62

3,28

3,14

MAIO

0,311

0,285

3,75

3,68

3,27

3,16

JUNHO

0,314

0,289

3,80

3,72

3,30

3,22

JULHO

0,315

0,293

3,89

3,82

3,34

3,29

AGOSTO

0,315

0,294

3,93

3,84

3,37

3,32

SETEMBRO

0,314

0,294

3,90

3,83

3,34

3,30

OUTUBRO

0,314

0,297

3,89

3,70

3,34

3,20

NOVEMBRO

0,312

0,289

3,81

3,65

3,28

3,18

DEZEMBRO

0,311

0,290

3,78

3,62

3,26

3,18

JANEIRO

0,312

0,289

3,78

3,66

3,25

3,20

Fonte: SIMA; Gabinete de Planeamento e Políticas.

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

85


ÍNDICE VL E ÍNDICE VL-ERVA

LEITE CONTINUA MAL VALORIZADO

OS DADOS PUBLICADOS PELO MMO (2020) PERMITEM VERIFICAR QUE O PREÇO MÉDIO DO LEITE PAGO AO PRODUTOR NO PERÍODO DE FEVEREIRO A ABRIL DE 2020 FOI, MAIS UMA VEZ, MUITO INFERIOR EM PORTUGAL (0,3040 €/KG) QUANDO COMPARADO COM A MÉDIA DA UE-27 (0,3438 €/KG). Por António Moitinho Rodrigues, docente/investigador, Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco; Carlos Vouzela, docente/investigador, Faculdade de Ciências Agrárias e do Ambiente da Universidade dos Açores/IITAA; Nuno Marques, Revista Ruminantes.

A

nalisamos neste número da Ruminantes os Índices VL e VL-ERVA para o período de fevereiro a abril de 2020. Considerando os dados do SIMA-GPP (2020) durante o trimestre em análise, o preço médio do leite pago aos produtores individuais do continente variou entre 0,312 €/ kg (fevereiro e abril) e 0,311 €/ kg (março). Na Região Autónoma dos Açores o preço médio do leite pago aos produtores individuais variou entre 0,289 €/kg (fevereiro) e 0,290 €/kg (março e abril). Os dados publicados pelo MMO (2020) permitem verificar que o preço médio do leite pago ao produtor no período de fevereiro a abril de 2020 foi, mais uma vez, muito inferior em Portugal (0,3040 €/kg) quando comparado com a média da UE-27 (0,3438 €/ kg). Se em Portugal o leite fosse pago ao preço médio da UE27 86

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

(0,3438 €/kg), os 3,98 cêntimos/ kg pagos a mais relativamente à situação atual, permitiriam que as explorações tivessem maior rentabilidade contribuindo, assim, para a sustentabilidade da produção de leite de vaca em Portugal. No mês de abril de 2020, Portugal (0,3040 €/kg) integrou o lote de 8 países da UE com os preços mais baixos pagos ao produtor. No mesmo mês, os preços pagos aos produtores dos 3 países da UE27 com maior produção anual de leite foram os seguintes: Alemanha 0,3405 €/ kg; França 0,3594 €/kg; Holanda 0,3300 €/kg. No estado sócioeconómico atual, em que as dificuldades são iguais em toda a Europa e em que se pretende uniformizar uma série de outros critérios para os cidadãos europeus, não se pode aceitar esta enorme diferença de preços pagos aos produtores de leite. Relativamente ao trimestre anterior, o preço das matériasprimas, que entraram na

formulação dos alimentos compostos utilizados neste trabalho, sofreram um aumento médio de 6%. Esta circunstância provocou um aumento do preço da alimentação da vaca leiteira tipo do continente português. Embora na Região Autónoma dos Açores o preço do alimento composto também tenha aumentado, o regime alimentar da vaca tipo nos Açores diminuiu 3,9% uma vez que na primavera há maior consumo diário de pastagem. A evolução do preço do leite e dos custos da alimentação refletiu-se no Índice VL e no Índice VL-ERVA que, em abril de 2020 foi, respetivamente, de 1,695 e de 2,054. De referir que em abril de 2019 o Índice VL havia sido de 1,757 e o Índice VL - ERVA de 2,080. Um índice inferior a 1,5 (valor muito baixo) indica forte ameaça para a rentabilidade da exploração leiteira; um índice entre 1,5 e 2,0 (valor moderado)

indica que a produção de leite é um negócio economicamente viável; um índice maior do que 2,0 (valor elevado) indica que estamos perante uma situação favorável para o sucesso económico da exploração (Schröer-Merker et al., 2012). Durante o trimestre em análise, o Índice VL atingiu o valor mínimo de 1,695 e o Índice VL-Erva o valor mínimo 1,726. Conclui-se que, passado um ano, os produtores de leite do continente português e dos Açores encontram-se pior do que estavam em abril de 2019, apesar da indústria transformadora de leite desta Região Autónoma estar a implementar uma política económica de maior agressividade com a introdução no mercado de novos produtos. De realçar que o Índice VLERVA reflete a realidade da produção de leite muito mais favorável da ilha de S. Miguel que produz cerca de 60% do total de leite dos Açores.


Índice VL e VL-Erva

ÍNDICE VL JULHO 2012 A ABRIL 2020 2,0 1,9 1,8 1,7 1,6 1,5 1,4 1,3 1,2 1,1 abr. '20

jan. '20

jan. '19

jan. '18

jan. '17

jan. '16

jan. '15

jan. '14

jan. '13

jul. '12

1,0

O ÍNDICE VL É INFLUENCIADO PELA VARIAÇÃO MENSAL DO PREÇO DO LEITE PAGO AO PRODUTOR NO CONTINENTE PORTUGUÊS E PELAS VARIAÇÕES MENSAIS DOS PREÇOS DOS ALIMENTOS QUE CONSTITUEM O REGIME ALIMENTAR DA VACA LEITEIRA TIPO (CONCENTRADO 9,5 KG/ DIA; SILAGEM DE MILHO 33 KG/DIA; PALHA DE CEVADA 2 KG/DIA).

ÍNDICE VL-ERVA JULHO 2013 A ABRIL 2020 2,7 2,5 2,3 2,1 1,9 1,7 1,5 1,3

abr. 20

jan. 20

jan. '19

jan. '18

jan. '17

jan. '16

jan. '15

jan. '14

jul '13

1,0

O ÍNDICE VL – ERVA É INFLUENCIADO PELA VARIAÇÃO MENSAL DO PREÇO DO LEITE PAGO AO PRODUTOR NA REGIÃO AUTÓNOMA DOS AÇORES E PELAS VARIAÇÕES MENSAIS DOS PREÇOS DOS ALIMENTOS QUE CONSTITUEM O REGIME ALIMENTAR DA VACA LEITEIRA TIPO (PRIMAVERA/VERÃO 60 KG/DIA DE PASTAGEM VERDE, 10 KG/DIA DE SILAGEM DE ERVA E DE MILHO, 5,6 KG/DIA DE CONCENTRADO; OUTONO/INVERNO 47 KG/DIA DE PASTAGEM VERDE, 13,3 KG/DIA DE SILAGEM DE ERVA E DE MILHO, 6,7 KG/DIA DE CONCENTRADO).

NOTAS

Comparando com o mês de abril de 2019, o preço do leite pago aos produtores do continente em abril de 2020 foi inferior em 0,2 cêntimos/kg. Nos Açores o preço foi igual em abril de 2019 e em abril de 2020. Durante o trimestre em análise houve um aumento do preço de todas as matérias-primas que entram na formulação dos alimentos compostos. Esta evolução contribuiu para aumentar os preços, não só do alimento composto como também do regime alimentar formulado para o cálculo do Índice VL. No trimestre em análise, o preço dos alimentos forrageiros utilizados na formulação do regime alimentar manteve-se. As três considerações anteriores refletem-se nos Índice VL e Índice VL-ERVA que em abril de 2020 foram, respetivamente, de 1,695 e de 2,054.

EVOLUÇÃO DO ÍNDICE VL E ÍNDICE VL– ERVA ABRIL 2019 A ABRIL 2020

BIBLIOGRAFIA

MMO (2020). European milk market observatory – EU historical prices. https://ec.europa.eu/info/foodfarming-fisheries/farming/factsand-figures/markets/overviews/ market-observatories/milk acesso em 22-06-2020. Schröer-Merker, E; Wesseling, K; Nasrollahzadeh, M (2012). Monitoring milk:feed price ratio 1996-2011. In: Chapter 2 – Global monitoring dairy economic indicators 1996-2011, IFCN Dairy Report 2012, Torsten Hemme editor, p 52-53. Published by IFCN Dairy Research Center, Schauenburgerstrate, Germany. SIMA-GPP (2020). Leite à produção Preços Médios Mensais. Sistema de Informação de Mercados Agrícolas, Gabinete de Planeamento e Políticas. http://sima.gpp.pt:8080/ sima/default/lacteos?la=1&ini=2020 acesso em 22-06-2020.

Mês

Índice VL

Índice VL - ERVA

abr-19

1,757

2,080

mai-19

1,754

2,053

jun-19

1,698

2,040

jul-19

1,713

2,045

ago-19

1,761

2,083

set-19

1,783

2,118

out-19

1,782

1,797

nov-19

1,774

1,795

dez-19

1,752

1,783

jan-20

1,735

1,784

fev-20

1,716

1,732

mar-20

1,695

1,726

abr-20

1,695

2,054

OS VALORES SÃO INFLUENCIADOS PELA VARIAÇÃO MENSAL DO PREÇO DO LEITE PAGO AO PRODUTOR INDIVIDUAL DO CONTINENTE PORTUGUÊS (ÍNDICE VL) E DA REGIÃO AUTÓNOMA DOS AÇORES (ÍNDICE VL - ERVA) E PELAS VARIAÇÕES MENSAIS DOS PREÇOS DE 5 MATÉRIASPRIMAS UTILIZADAS NA FORMULAÇÃO DO CONCENTRADO E PELO PREÇO DOS OUTROS ALIMENTOS QUE INTEGRAM O REGIME ALIMENTAR DA VACA LEITEIRA TIPO.

RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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Notícias e novidades de produto

MANTER AS VITELAS COM AS MÃES PROJETO PIONEIRO EM ISRAEL Uma exploração industrial de leite no sul de Israel iniciou um projeto pioneiro, que pretende manter as vitelas (fêmeas) junto das mães após o nascimento. A habitual separação das crias das suas mães tem sido alvo de muitas criticas por parte da opinião pública e ativistas dos direitos dos animais, que consideram esta separação de “cruel” e causadora de stress. Segundo a notícia, publicada no site da Times of Israel, a exploração onde será iniciado este projeto, com 360 vacas e uma média de 150 partos por ano, pretende iniciar este projeto de forma gradual durante o próximo ano. Os vitelos do sexo masculino continuarão a ser separados das mães e enviados para uma engorda, mas as fêmeas permanecerão junto das mães durante 3 a 6 meses até ao desmame, separandose depois naturalmente. Os responsáveis da exploração estão conscientes que perderão o leite que a cria ingere da sua mãe. No entanto, a expectativa é que, conforme alguns estudos, as vitelas alimentadas pelas suas mães acabem por ser vacas mais saudáveis e melhores produtoras do que aquelas que são separadas após o nascimento. Além disso, os atuais custos para manter as vitelas num espaço à parte também são significativos. Assim, os responsáveis pela iniciativa esperam que este projeto seja um sucesso e que no longo prazo as vantagens ultrapassem os potenciais custos.

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RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

SUSTENTABILIDADE

REDE BovINE

A REDE DE INOVAÇÃO TRANSEUROPEIA PARA A CARNE DE BOVINO FOI RECENTEMENTE ESTABELECIDA ENTRE 10 ESTADOS DA UE PARA SE FOCAR NAS NECESSIDADES DE 255.000 AGRICULTORES QUE CONSTITUEM O SETOR EUROPEU DE PRODUÇÃO.

O

Adaptado por : Revista Ruminantes Artigo completo em www.revista-ruminantes.com

projecto BoViNE tem como objectivo principal fornecer e disseminar os instrumentos necessários para que se garanta a sustentabilidade da produção de carne de bovino na UE. Isso será conseguido pela estimulação e promoção do intercâmbio de conhecimentos e de boas práticas, bem como a integração da investigação aplicada e de procedimentos inovadores exequíveis, a um nível regional, nacional e internacional, por todos os parceiros relevantes no sector europeu de carne de bovino. PARCEIROS EM PORTUGAL Em Portugal, vários parceiros atuam a níveis diferentes neste projeto europeu. Dois estarão mais intimamente ligados à parte da investigação, à identificação das necessidades e à validação das boas práticas. São eles a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa e ainda o Agrupamento de Produtores de Bovinos Mertolengos. Outros estarão mais virados para a divulgação, como é o caso da Ruminantes. Outras organizações, como a IACA, a Confagri o GPP e várias Associações de produtores, já mostraram interesse em colaborar. O QUE É O BOVINE REGIONAL NETWORK PORTUGAL (BRNP)? O BovINE Regional Network Portugal é uma rede que assenta numa abordagem de multiactores envolvidos na produção de bovinos

de carne e que exige uma cooperação focada entre todos os parceiros do sector, para facilitar o intercâmbio de conhecimentos e a aceitação e implementação das soluções co-criadas. QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DO BRNP? O BovINE Regional Network Portugal tem como objectivo fomentar a inovação, através da troca de conhecimento e da integração dos resultados da investigação no sector da produção de bovinos de carne, enquadrados nas seguintes áreas temáticas: resiliência socioeconómica, saúde e bem-estar animal, eficiência da produção e qualidade da carne, sustentabilidade ambiental. QUE BENEFÍCIOS TEM AO MANTER-SE LIGADO AO BRNP? • Fazer parte de uma network muito mais abrangente, que inclui muitíssimos actores ligados à produção de bovinos de carne em toda a Europa. • Poder vir a associar-se às actividades e estudos relacionados com a aplicação de práticas inovadoras na produção de bovinos de carne. • Poder indicar necessidades/constrangimentos à produção, decidir sobre necessidades de investigação e identificar boas práticas associadas à produção de bovinos de carne. • Poder partilhar e receber conhecimento e experiência durante as actividades do Network. • Ter livre acesso on-line ao BKU Bovine Knowledge Hub (Repositório de informação técnica e científica). Mais informação em: www.bovine-eu.net. | Contacto: George Stilwell | Email: stilwell@fmv.ulisboa.pt


Notícias e novidades de produto

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Aumente até aos 6% de açúcares na matéria seca da dieta e aumente a produção das suas vacas!

Melhora o rendimento Aumenta a produção Melhora a qualidade do leite

SUPLEMENTOS DE ALGAS REDUZEM AS EMISSÕES DE METANO Uma nova investigação, publicada no Journal of Cleaner Production, demonstra que a suplementação das dietas de bovinos com algas vermelhas, pode reduzir as emissões de metano em cerca de 98%. Uma equipa de investigação da Organização de Ciência e Pesquisa Industrial da Commonwealth (CSIRO), avaliou a suplementação da alimentação de bovinos de carne em feedlot com algas vermelhas. O estudo foi realizado em bovinos da raça brahmanangus, alimentados com uma dieta rica em cereais. Esta dieta foi suplementada com algas vermelhas da espécie Asparagopsis taxiformis e administrada a diferentes grupos em diferentes concentrações de 0.05%, 0.10%, e 0.20% e um grupo de controlo. Genericamente, verificou-se uma diminuição das emissões de metano que se tornou mais significativa à medida que a concentração do suplemento aumentou. Adicionalmente, o grupo que consumiu a dieta com maior concentração do suplemento teve maiores ganhos médios diários de peso e um melhor índice de conversão, sem efeitos negativos. Após o abate, a carne dos animais foi também avaliada relativamente à qualidade, e testada para a presença resíduos de bromofórmio. A qualidade da carne foi classificada como excelente e não foram detetados quaisquer vestígios de bromofórmio. Além dos benefícios ambientais decorrentes da redução das emissões, o estudo demonstrou um aumento da produtividade sem prejuízo da qualidade da carne e sem efeitos negativos. No entanto serão necessários mais estudos para avaliar este tipo de suplementação noutros sistemas de produção, e em animais alimentados com forragens.

Redução do pó e da escolha dos animais nos comedouros

Diminuição do risco de acidose ruminal

Fonte de energia imediata

Aumento da ingestão de matéria seca

www.edfman.com

Melhora a digestibilidade da fibra

Av Antonio Serpa, 23-7º 1050-026 Lisboa Telef: +351 21 7801488 Fax: +351 21 7965230 Email: lisbon@edfman.com

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Notícias e novidades de produto

VITAMINA E NATURAL VERSUS SINTETIC De acordo com um novo estudo desenvolvido pela dinamarquesa Aarhus University, bovinos de leite alimentados com erva rica em vitamina E apresentam melhores níveis desta vitamina no leite, em comparação a bovinos alimentados com alimentação com vitamina E sintética (all-rac-a-tocopherol acetate). A vitamina E é um importante antioxidante, impedindo a oxidação de do leite e da carne. Esta vitamina tem também um papel importante na resposta imunitária. O estudo, publicado na revista Food Chemistry, pretendeu avaliar a excreção no leite das diferentes apresentações de vitamina E. Para esse efeito, os animais em estudo receberam uma injeção intramuscular de 2,5g vitamina E sintética contendo 8 formas, entre as quais uma forma de vitamina E natural. Posteriormente, a excreção das diferentes formas no leite foi avaliada ao longo de 11 dias. Concluiu-se que a excreção de vitamina E natural foi de 16.3%, um valor superior ao da vitamina E sintética que no total foi excretada numa percentagem entre 6 e 7%. Este estudo demonstra uma clara discriminação entre as formas natural e sintética da vitamina E no leite e plasma de bovinos de leite. Assim, para um leite com maior teor de vitamina E a solução poderá passar por alimentar as vacas com alimentos que contenham a sua forma natural como a erva e silagem de erva.

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ESTRATÉGIA GERA CONTROVÉRSIA

DO PRADO AO PRATO

OS AGRICULTORES PRECISAM DE MAIS COOPERAÇÃO EM VEZ DE MAIS REQUISITOS.

E

m maio passado foi lançada a nova estratégia “do prado ao prato” e de biodiversidade da União Europeia. Desde então, o setor da agricultura e da produção de alimentos para animais tem vindo a manifestar alguma preocupação com os objetivos anunciados. A estratégia anunciada pretende reduzir as emissões de carbono bem como a utilização de antibióticos e fertilizantes. Paralelamente, na atual conjuntura da pandemia causada pelo novo coronavírus, a Comissão Europeia tentou reforçar a necessidade de construir uma cadeia alimentar resiliente e sustentável. A estes pilares junta-se a garantia de segurança alimentar para o consumidor. Alguns dos objetivos a alcançar até 2030 incluem: 50% de redução no uso de pesticidas, 20% de redução na utilização de fertilizantes, 50% de redução na utilização de antibióticos na produção animal e a conversão de 25% do terreno agrícola em produção biológica. Embora estejam de acordo com alguns dos objetivos, os agricultores temem que em vez de resiliência, alguns dos objetivos aumentem a dependência em relação a países terceiros com o consequente aumento de importações.

Um dos pontos potencialmente problemáticos apontados pela FEFAC (Federação Europeia dos Fabricantes de Alimentos Compostos para Animais) foi o objetivo de incentivar um aumento de produção de proteínas vegetais e alternativas às proteínas de origem animal. A organização relembrou que os animais de produção têm também um papel fundamental na economia circular e na conversão de matérias primas não edíveis em alimentos como o leite, carne e ovos, bem como na produção de fertilizantes naturais. Também o Copa-Cogeca (Comité das organizações profissionais agrícolas -Comité geral da cooperação agrícola da União Europeia) manifestou preocupações com o documento, principalmente no que diz respeito a medidas de apoio aos produtores em situações de crise, como a atual provocada pela COVID-19. Esta preocupação levou o presidente desta entidade, Joachim Rukwied, a afirmar que os agricultores precisam de mais “cooperação em vez de mais requisitos” e que os “agricultores não devem sustentar sozinhos os custos da proteção ambiental” o que na sua ótica conduzirá ao abandono da produção e a mais produção importada fora da EU.


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Notícias e novidades de produto

ZOOPAN LANÇA GEL HIDRO-ALCOÓLICO PANDERM POWER

No ano em que assinala 40 anos de história a empresa Zoopoan uma empresa do Grupo Lusiaves, acaba de lançar um novo produto de higienização de mãos - o Panderm Power que coloca esta organização na linha da frente na disponibilização de soluções higienizantes. Desenvolvido e produzido 100% em Portugal, o Panderm Power é um gel hidro alcoólico porque contém 70% de álcool e peróxido de hidrogénio e apresenta uma viscosidade ajustada à correta dispersão nas mãos e uma secagem rápida, deixando uma sensação de hidratação na pele. Este produto foi desenvolvido seguindo todas as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) no sentido de ser um produto português que está disponível no mercado para combater o risco de contágio por Covid 19 e outros. Neste momento, a Zoopan optou por colocar o produto à venda em embalagens de 500 ml e de 5 litros, e estão a ser estudadas outras quantidades.

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BORREGOS APP.

É MAIS FÁCIL EMITIR GUIAS DE CIRCULAÇÃO PARA PEQUENOS RUMINANTES. A tarefa de emitir guias de circulação para pequenos ruminantes está muito facilitada, desde o lançamento da aplicação “Borregos”. Comece por instalar a aplicação no seu browser (Google Chrome ou Microsoft Edge). Depois, sempre que emitir uma guia no portal do IFAP, deverá proceder

como sempre fez mas, no momento em que começaria a demorada tarefa de selecionar os animais, deve submeter um simples ficheiro Excel com as marcas auriculares a movimentar. Em segundos, a extensão faz esse registo. A aplicação está disponível gratuitamente em https://gadoges.com.

FLUIDO RUMINAL

INVESTIGADORES AFIRMAM QUE A INOCULAÇÃO COM FLUIDO RUMINAL PODE OTIMIZAR O PROCESSO DE DESMAME EM CAPRINOS. Investigadores da Estación Experimental del Zaidín (CSIC) afirmam que a inoculação com fluido ruminal pode otimizar o processo de desmame em caprinos. Os ruminantes nascem com um rúmen pouco desenvolvido e o seu desenvolvimento pode ser limitado nas condições em que normalmente são criados, com recurso a leite de substituição e um desmame precoce. Neste estudo, 4 tratamentos foram administrados do dia 1 à semana 11, a 8 cabritos recém-nascidos: fluido ruminal autoclavado (AUT), fluido ruminal fresco obtido de animais alimentados com foragem (RFF) ou concentrado (RFC) e um grupo de controlo sem inoculação (CTL). Durante o estudo os cabritos tiveram acesso ad libitum a um leite de substituição, a concentrado starter e a feno-silagem. Semanalmente foram colhidas amostras de sangue e a fermentação microbiana ruminal foi monitorizada às cinco, sete e nove semanas de idade (prédesmame, desmame e pós-desmame).

Este estudo demonstrou que a inoculação de cabritos jovens com fluido ruminal fresco proveniente de adultos, acelerou o desenvolvimento do rúmen e facilitou a sua colonização precoce com protozoários. Estes animais apresentaram um maior consumo de alimentos sólidos, uma maior concentração de amónia no rúmen, maior percentagem de ácidos gordos voláteis e menor consumo de leite ainda durante o pré-desmame. Além disso, esta intervenção minimizou o choque habitualmente causado pelo desmame uma vez que os animais a quem foi administrado o inoculado de fluido ruminal fresco não sofreram um atraso no crescimento além da primeira semana pós-desmame. Na semana 8 os animais dos grupos RFF e RFC apresentaram ganhos médios diários 2,2 vezes superiores e uma eficiência alimentar 3,7 vezes superior aos restantes. Já a inoculação com fluido ruminal autoclavado não revelou efeitos benéficos significativos comparativamente ao grupo de controlo.


NotĂ­cias e novidades de produto

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Notícias e noviddaes de produto

COMEDOURO

PROGRAMÁVEL PARA OVINOS Os comedouros são uma necessidade em quase todas as explorações de ovinos. Quando adequadamente construídos diminuem consideravelmente o desperdício de ração. Este alimentador, da marca ASF, para borregos, tem como característica principal a disponibilização de ração em períodos e quantidades definidos pelo produtor, não precisando de fontes de energia com pontos fixos. Utiliza a energia solar (foto acima) como fonte principal ou, em alternativa, baterias. O modelo que aqui apresentamos é composto por um tegão com capacidade para cerca de 250 kg de ração. Está equipado com um temporizador (neste modelo do fabricante Siemens), que permite fazer cair a ração às horas definidas, durante um determinando período de tempo programável para satisfazer da melhor forma as necessidades alimentares dos animais. Desta forma elimina-se muita mão-de-obra e consegue-se uma melhor repartição do concentrado ao longo do dia. Vantagens: - Fácil de transportar, por carregador telescópico ou pá carregadora. - Porções ajustáveis, distribuídas ao longo do dia. - Disponibilização constante de alimento, significa crescimento constante. - Alimenta até 24 porções por dia. - Espaço para 10 borregos ou 8 ovelhas. - Capacidade para 250 litros de alimento. - Independe de fontes de energia fixas, alimentado por energia solar ou baterias.

KUBOTA M6002

UM TRATOR PARA EXPLORAÇÕES MISTAS

A

nova série M6002 é descrita pela marca japonesa como sendo perfeita para uma agricultura mista. Esta equipada com um motor Kubota Stage V com power boost adicional de 20cv, muito útil nas aplicações de transporte. Tem binário máximo a 1.500 rpm e potência máxima de 1.900 rpm. Tem um grande depósito de combustível, de 230 litros, o que significa que pode trabalhar com capacidade total em longas jornadas de trabalho. O intervalo de limpeza do filtro de partículas diesel (DPF) também foi duplicado para um máximo de 6.000 horas. A transmissão é completamente nova. Trata-se de uma Powershift de 8 velocidades e traz uma nova função 94

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“Xpress restart” que permite parar o trator sem precisar de engatar a embraiagem para um maior conforto de operação. A cabina, de 4 colunas, é suspensa e integra um banco Grammer premium que oferece uma excelente suspensão e amortecimento, para além de um apoio de braço mais ergonómico que incorpora um novo joystick multifunções com acesso a todas as funções importantes do trator. O M6002 está equipado de série com uma bomba hidráulica CCLS (Sensor de Carga em Centro Fechado), que fornece uma capacidade de 115 l/min. A direção hidráulica foi redesenhada para melhorar a eficiência do desempenho durante a operação do carregador frontal e da direção.


Modelo Rita Teixeira Fotรณgrafo Francisco Marques RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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O seu bem estar, a sua rentabilidade O Programa de recria Prima da Nanta melhora a rentabilidade das explorações através do bem estar das vitelas. O Prima trabalha em quatro conceitos essenciais para o bem-estar dos animais: o colostro, a lactação, o desmame e os cuidados a ter nas diferentes variáveis como o meio ambiente, a saúde e ambiente social. O nosso programa oferece benefícios comprovados para o agricultor: maior desenvolvimento das vitelas, melhoria do seu sistema imunitário, redução do stress no desmame, antecipação da primeira inseminação e da idade do primeiro parto, mais produção de leite e maior vida produtiva da vaca. Com o Prima as vitelas são mais felizes e o agricultor também.

nanta@nutreco.com RUMINANTES | JUL/AGO/SET 2020

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Revista Ruminantes 38  

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