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C芒mara de Dirigentes Lojistas de Vit贸ria

CDL Vit贸ria 50 anos

Vit贸ria 2014


Palavras do Governador Entre os sociólogos, já não há divergências importantes quanto à eleição das cidades como o espaço público mais dinâmico, criativo e inovador, sobretudo em países jovens, como o Brasil, que ainda experimentam grandes mudanças no processo de ocupação do seu território. Enquanto o mundo rural sempre cultivou a memória, as práticas e os costumes do passado e só lentamente assimilou as inovações sociais, culturais, tecnológicas e políticas, foi nas cidades que o novo produziu maior impacto e resultados mais visíveis, sobretudo nos últimos dois séculos. Isso não significa que as áreas rurais tenham parado no tempo e se rendido à estagnação. No Espírito Santo, por exemplo, tem sido cada vez mais intensa a implantação de tecnologias de ponta e a introdução de novas práticas agrícolas no meio rural. Mas nenhuma dessas iniciativas gerou transformações sociais, culturais, econômicas, tecnológicas e políticas tão rápidas e profundas quanto as que registramos no mundo urbano. Trata-se de fenômeno mundial, cujas repercussões podem ser verificadas tanto nas grandes metrópoles quanto nas cidades menores. É certo que a velocidade das mudanças varia segundo o porte de cada uma dessas cidades, mas podemos perceber que o rumo e as consequências econômicas, sociais e políticas são semelhantes. E talvez não haja outra atividade humana na qual essas similaridades se revelem de maneira tão clara, quanto o comércio. Entre Londres e Tóquio ou entre o Rio e Vitória existem indiscutíveis semelhanças estratégicas e tecnológicas em tudo aquilo que se refere às atividades do comércio lojista: visão, mercadorias, promoção de vendas, modelos organizacionais e objetivos perseguidos pelos empreendedores. O comércio lojista criou (e a cada dia aperfeiçoa) uma sólida ponte cultural e econômica entre os países, permitindo que uma cidadã italiana ou brasileira – mesmo que não domine o idioma local – circule à vontade e consiga apreciar e adquirir bens de consumo em cidades da China, do Marrocos ou da Espanha. Se essa rede planetária é uma realidade palpável, a atuação em cada Estado e cidade do Brasil tornou inadiável e perfeitamente compreensível a iniciativa dos empresários do ramo, de criar entidades capazes de reuni-los e representá-los, em suas relações com a população, as autoridades fazendárias, os fabricantes e os consumidores. Criada há exatos 50 anos como Clube dos Dirigentes Lojistas de Vitória, denominação que evoluiu para Câmara dos Dirigentes Lojistas, a entidade res-

ponsável por esta publicação argumenta que as cidades – mais que a soma de moradores, construções e instituições – abrigam costumes, tradições, serviços e modos de trabalhar, produzir, pensar, viver e agir que compõem um patrimônio cultural e econômico da população. Essa cultura urbana, de importância vital para a economia do Brasil e do nosso Estado, encontrou nos CDLs um modelo de organização e representação à altura das necessidades e demandas do setor, da população e do poder público. Esta publicação discute, de forma abrangente e em linguagem acessível, a importância econômica e o papel social do setor lojista, em suas interações com a população urbana e com o setor público. E é uma iniciativa importante para despertar nos cidadãos e em seus representantes a plena consciência do papel modernizante que o comércio lojista desempenha, como parte de um conjunto de atividades que podem e devem contribuir para a qualidade de vida de toda a população, em cada cidade do Espírito Santo e do Brasil. Renato Casagrande Governador do Espírito Santo


Palavras do Prefeito Entre os sociólogos, já não há divergências importantes quanto à eleição das cidades como o espaço público mais dinâmico, criativo e inovador, sobretudo em países jovens, como o Brasil, que ainda experimentam grandes mudanças no processo de ocupação do seu território. Enquanto o mundo rural sempre cultivou a memória, as práticas e os costumes do passado e só lentamente assimilou as inovações sociais, culturais, tecnológicas e políticas, foi nas cidades que o novo produziu maior impacto e resultados mais visíveis, sobretudo nos últimos dois séculos. Isso não significa que as áreas rurais tenham parado no tempo e se rendido à estagnação. No Espírito Santo, por exemplo, tem sido cada vez mais intensa a implantação de tecnologias de ponta e a introdução de novas práticas agrícolas no meio rural. Mas nenhuma dessas iniciativas gerou transformações sociais, culturais, econômicas, tecnológicas e políticas tão rápidas e profundas quanto as que registramos no mundo urbano. Trata-se de fenômeno mundial, cujas repercussões podem ser verificadas tanto nas grandes metrópoles quanto nas cidades menores. É certo que a velocidade das mudanças varia segundo o porte de cada uma dessas cidades, mas podemos perceber que o rumo e as consequências econômicas, sociais e políticas são semelhantes. E talvez não haja outra atividade humana na qual essas similaridades se revelem de maneira tão clara, quanto o comércio. Entre Londres e Tóquio ou entre o Rio e Vitória existem indiscutíveis semelhanças estratégicas e tecnológicas em tudo aquilo que se refere às atividades do comércio lojista: visão, mercadorias, promoção de vendas, modelos organizacionais e objetivos perseguidos pelos empreendedores. O comércio lojista criou (e a cada dia aperfeiçoa) uma sólida ponte cultural e econômica entre os países, permitindo que uma cidadã italiana ou brasileira – mesmo que não domine o idioma local – circule à vontade e consiga apreciar e adquirir bens de consumo em cidades da China, do Marrocos ou da Espanha. Se essa rede planetária é uma realidade palpável, a atuação em cada Estado e cidade do Brasil tornou inadiável e perfeitamente compreensível a iniciativa dos empresários do ramo, de criar entidades capazes de reuni-los e representá-los, em suas relações com a população, as autoridades fazendárias, os fabricantes e os consumidores. Criada há exatos 50 anos como Clube dos Dirigentes Lojistas de Vitória, denominação que evoluiu para Câmara dos Dirigentes Lojistas, a entidade res-

ponsável por esta publicação argumenta que as cidades – mais que a soma de moradores, construções e instituições – abrigam costumes, tradições, serviços e modos de trabalhar, produzir, pensar, viver e agir que compõem um patrimônio cultural e econômico da população. Essa cultura urbana, de importância vital para a economia do Brasil e do nosso Estado, encontrou nos CDLs um modelo de organização e representação à altura das necessidades e demandas do setor, da população e do poder público. Esta publicação discute, de forma abrangente e em linguagem acessível, a importância econômica e o papel social do setor lojista, em suas interações com a população urbana e com o setor público. E é uma iniciativa importante para despertar nos cidadãos e em seus representantes a plena consciência do papel modernizante que o comércio lojista desempenha, como parte de um conjunto de atividades que podem e devem contribuir para a qualidade de vida de toda a população, em cada cidade do Espírito Santo e do Brasil. Renato Casagrande Governador do Espírito Santo


Palavras do Presidente da CDL Entre os sociólogos, já não há divergências importantes quanto à eleição das cidades como o espaço público mais dinâmico, criativo e inovador, sobretudo em países jovens, como o Brasil, que ainda experimentam grandes mudanças no processo de ocupação do seu território. Enquanto o mundo rural sempre cultivou a memória, as práticas e os costumes do passado e só lentamente assimilou as inovações sociais, culturais, tecnológicas e políticas, foi nas cidades que o novo produziu maior impacto e resultados mais visíveis, sobretudo nos últimos dois séculos. Isso não significa que as áreas rurais tenham parado no tempo e se rendido à estagnação. No Espírito Santo, por exemplo, tem sido cada vez mais intensa a implantação de tecnologias de ponta e a introdução de novas práticas agrícolas no meio rural. Mas nenhuma dessas iniciativas gerou transformações sociais, culturais, econômicas, tecnológicas e políticas tão rápidas e profundas quanto as que registramos no mundo urbano. Trata-se de fenômeno mundial, cujas repercussões podem ser verificadas tanto nas grandes metrópoles quanto nas cidades menores. É certo que a velocidade das mudanças varia segundo o porte de cada uma dessas cidades, mas podemos perceber que o rumo e as consequências econômicas, sociais e políticas são semelhantes. E talvez não haja outra atividade humana na qual essas similaridades se revelem de maneira tão clara, quanto o comércio. Entre Londres e Tóquio ou entre o Rio e Vitória existem indiscutíveis semelhanças estratégicas e tecnológicas em tudo aquilo que se refere às atividades do comércio lojista: visão, mercadorias, promoção de vendas, modelos organizacionais e objetivos perseguidos pelos empreendedores. O comércio lojista criou (e a cada dia aperfeiçoa) uma sólida ponte cultural e econômica entre os países, permitindo que uma cidadã italiana ou brasileira – mesmo que não domine o idioma local – circule à vontade e consiga apreciar e adquirir bens de consumo em cidades da China, do Marrocos ou da Espanha. Se essa rede planetária é uma realidade palpável, a atuação em cada Estado e cidade do Brasil tornou inadiável e perfeitamente compreensível a iniciativa dos empresários do ramo, de criar entidades capazes de reuni-los e representá-los, em suas relações com a população, as autoridades fazendárias, os fabricantes e os consumidores. Criada há exatos 50 anos como Clube dos Dirigentes Lojistas de Vitória, denominação que evoluiu para Câmara dos Dirigentes Lojistas, a entidade res-

ponsável por esta publicação argumenta que as cidades – mais que a soma de moradores, construções e instituições – abrigam costumes, tradições, serviços e modos de trabalhar, produzir, pensar, viver e agir que compõem um patrimônio cultural e econômico da população. Essa cultura urbana, de importância vital para a economia do Brasil e do nosso Estado, encontrou nos CDLs um modelo de organização e representação à altura das necessidades e demandas do setor, da população e do poder público. Esta publicação discute, de forma abrangente e em linguagem acessível, a importância econômica e o papel social do setor lojista, em suas interações com a população urbana e com o setor público. E é uma iniciativa importante para despertar nos cidadãos e em seus representantes a plena consciência do papel modernizante que o comércio lojista desempenha, como parte de um conjunto de atividades que podem e devem contribuir para a qualidade de vida de toda a população, em cada cidade do Espírito Santo e do Brasil. Renato Casagrande Governador do Espírito Santo


Palavras do Presidente da FECOMERCE Entre os sociólogos, já não há divergências importantes quanto à eleição das cidades como o espaço público mais dinâmico, criativo e inovador, sobretudo em países jovens, como o Brasil, que ainda experimentam grandes mudanças no processo de ocupação do seu território. Enquanto o mundo rural sempre cultivou a memória, as práticas e os costumes do passado e só lentamente assimilou as inovações sociais, culturais, tecnológicas e políticas, foi nas cidades que o novo produziu maior impacto e resultados mais visíveis, sobretudo nos últimos dois séculos. Isso não significa que as áreas rurais tenham parado no tempo e se rendido à estagnação. No Espírito Santo, por exemplo, tem sido cada vez mais intensa a implantação de tecnologias de ponta e a introdução de novas práticas agrícolas no meio rural. Mas nenhuma dessas iniciativas gerou transformações sociais, culturais, econômicas, tecnológicas e políticas tão rápidas e profundas quanto as que registramos no mundo urbano. Trata-se de fenômeno mundial, cujas repercussões podem ser verificadas tanto nas grandes metrópoles quanto nas cidades menores. É certo que a velocidade das mudanças varia segundo o porte de cada uma dessas cidades, mas podemos perceber que o rumo e as consequências econômicas, sociais e políticas são semelhantes. E talvez não haja outra atividade humana na qual essas similaridades se revelem de maneira tão clara, quanto o comércio. Entre Londres e Tóquio ou entre o Rio e Vitória existem indiscutíveis semelhanças estratégicas e tecnológicas em tudo aquilo que se refere às atividades do comércio lojista: visão, mercadorias, promoção de vendas, modelos organizacionais e objetivos perseguidos pelos empreendedores. O comércio lojista criou (e a cada dia aperfeiçoa) uma sólida ponte cultural e econômica entre os países, permitindo que uma cidadã italiana ou brasileira – mesmo que não domine o idioma local – circule à vontade e consiga apreciar e adquirir bens de consumo em cidades da China, do Marrocos ou da Espanha. Se essa rede planetária é uma realidade palpável, a atuação em cada Estado e cidade do Brasil tornou inadiável e perfeitamente compreensível a iniciativa dos empresários do ramo, de criar entidades capazes de reuni-los e representá-los, em suas relações com a população, as autoridades fazendárias, os fabricantes e os consumidores. Criada há exatos 50 anos como Clube dos Dirigentes Lojistas de Vitória, denominação que evoluiu para Câmara dos Dirigentes Lojistas, a entidade res-

ponsável por esta publicação argumenta que as cidades – mais que a soma de moradores, construções e instituições – abrigam costumes, tradições, serviços e modos de trabalhar, produzir, pensar, viver e agir que compõem um patrimônio cultural e econômico da população. Essa cultura urbana, de importância vital para a economia do Brasil e do nosso Estado, encontrou nos CDLs um modelo de organização e representação à altura das necessidades e demandas do setor, da população e do poder público. Esta publicação discute, de forma abrangente e em linguagem acessível, a importância econômica e o papel social do setor lojista, em suas interações com a população urbana e com o setor público. E é uma iniciativa importante para despertar nos cidadãos e em seus representantes a plena consciência do papel modernizante que o comércio lojista desempenha, como parte de um conjunto de atividades que podem e devem contribuir para a qualidade de vida de toda a população, em cada cidade do Espírito Santo e do Brasil. Renato Casagrande Governador do Espírito Santo


Sumário 13

Tudo tem um começo

20

Entre um café aqui e outro alí, muito trabalho

32

Venham! Venham! Grande inauguração!

33 35

46

Tendências de mercado

Princípio desdobrado em permanência. Desenvolvimento: eis a questão!

45 48 49 54 55

72

Nova direção

90

Uma nova geração

110

87 94 96

Shopping Aberto Vender ou vender! Ampliamos nosso espaço para você! Nova coleção Vendas à prazo no cartão de crédito

Novos conceitos Empreendendo sob a áurea da sustentabilidade Um espaço também feminino

Na vitrine, os próximos 50 anos


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Tudo tem um começo Os seres humanos costumam buscar explicações para tudo que os cerca. O que mais lhes desperta a curiosidade diz respeito às origens de todas as coisas, origens às vezes muito distantes no tempo, inspirando interpretações sem fim. Na Antiguidade, os humanos já olhavam para o alto em busca de respostas para infindáveis perguntas sobre o mover do cosmo, a procriação e (por que não?) o comércio. Os deuses gregos vieram da união mitológica entre Urano (Céu) e Gaia (Terra), originando os Titãs. O panteão, onde habitavam, logo foi povoado com inúmeros descendentes. Hermes era filho de Zeus com a ninfa Maia, sendo um deus olímpico. Dentre muitas atribuições, tornou-se padroeiro dos comerciantes. Sua grande façanha foi roubar um rebanho sob os cuidados de Apolo, o deus solar. Após a fuga, ofereceu uma rês a Zeus e, das entranhas do animal, criou a lira, atraindo a atenção de Apolo, que desejou tê-la para si1. Hermes, também conhecido como Mercúrio, atravessou o tempo e chegou aos nossos dias. Além da lira e das sandálias aladas, o caduceu é uma de suas representações, símbolo do comércio e das negociações. *** Para abordar o tema do comércio, é preciso compreender um pouco a origem das cidades. A etimologia da palavra vem do Latim civitas, originalmente “condição ou direito de cidadão”, e relaciona-se a cives, “homem que vive em cidade”. Muitas palavras em língua portuguesa derivam dessa raiz, como: civil, civilização, cível e civismo. Harvey2 afirma que a cidade nasceu à margem da contradição entre o ambiente de trabalho (meios de produção) e o trabalhador

(força produtiva). No início, a cidade funcionava como uma força política, ideológica e militar para manter um padrão particular nas relações sociais de produção. “A cidade tinha pouco ou nada a ver com a própria produção.”3 Era onde estava localizada a sede dos poderes de uma região: o palácio, a igreja, o quartel etc. Neste sentido, muitas das funções da cidade passam a ser categorizadas como superestruturais, que traduzem a maneira como o ambiente de trabalho e o trabalhador se organizam. Na cidade antiga, a organização do espaço foi a recriação simbólica de uma suposta ordem cósmica, com um propósito ideológico. O mesmo raciocínio pode-se transferir para a sociedade moderna, onde o espaço criado tem uma razão ideológica equivalente. Em parte, tal espaço reflete a ideologia prevalecente dos grupos e instituições dominantes na sociedade. A cidade, cada vez mais, torna-se o centro do poder, efetivamente. Por outro lado, atuando junto a este poder, ela é moldada pela dinâmica das forças de mercado, que podem, facilmente, produzir resultados que ninguém em particular deseja. Por exemplo, nos dias atuais, temos a violência, os engarrafamentos e a mobilidade urbana causando depreciação de áreas antigas. As benesses da vida urbana trazem complicações sociais quando não bem trabalhadas com políticas públicas eficientes. Veja o papel da agricultura na formação de núcleos urbanos. Segundo Palen4, “[...] apenas quando o sistema agrícola foi capaz de reproduzir excedentes é que foi possível retirar uma parte da mão de obra da produção de alimentos e aplicá-la à produção de outros bens”. Neste sentido, quanto maior a eficiência dos agricultores, mais cidades surgiam. Como a agricultura permaneceu primitiva durante milênios, a chamada “revolução urbana” tornou-se um fenômeno social moderno.


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Considerando a questão do poder político-administrativo na Antiguidade Clássica (Egito e Oriente, por exemplo), as cidades tinham o papel de agregar também a sede real, com todos os privilégios que o rei concedia aos usuários do mercado, isto é, aos mercadores. Havendo grandes reinados, a autonomia das cidades diminuía, chegando a não existir autonomia em reinado algum. Antigamente, as cidades eram o local onde funcionava a estrutura político-administrativa de uma sociedade, que detinha também o papel de fiscalização e cobrança de tributos. Era o “centro nervoso” das trocas mercantis. Não era o local de produção, mas, sim, de distribuição e de consumo. Max Weber5 percebeu as questões superestruturais das cidades - a forma de dominação ideológica que norteia o funcionamento do sistema produtivo - e indicou isso ao analisar as cidades ocidentais. Existiram duas formas de cidades: aquelas que se constituíram comercialmente - primeira fase do desenvolvimento do modo de produção capitalista, século XV; e aquelas constituídas concomitantemente ao aparecimento das indústrias - segunda fase do desenvolvimento do modo de produção capitalista, século XVIII. Primeiramente, a cidade, que antes funcionava como força política, ideológica e militar, tornou-se cidade comercial. Depois, a cidade formada a partir da Revolução Industrial tornou-se uma cidade nova, dentro de outra lógica, pois pouco absorveu das antigas cidades comerciais. Na verdade, ocorreu um novo urbanismo, como fruto das mudanças tecnológicas da sociedade moderna. A realidade desse novo urbanismo modificou as relações de produção, mas não foi suficiente para transformá-las, conforme diz o pesquisador Lefebvre6. O urbanismo tornou-se força na produção, do mesmo modo que a ciência. O espaço e a organização política dessas cidades expressavam relações sociais, mas também reagiam, incidindo sobre essas mesmas relações. Para Weber7, uma cidade pode fundar-se da seguinte maneira: pela existência prévia de um domínio territorial ou uma sede, como centro em que resida uma indústria, em regime de especialização,


17 As gravuras mostram a evolução do comércio ao longo do tempo. As cidades bem localizadas tornaram-se relevantes economicamente. A Torre Eiffel, de 1889, foi o símbolo da feira internacional, atual Expo, uma das maiores e mais antigas feiras comerciais do mundo.


18 O século XX caracteriza-se pela concentração urbana. As cidades tornaram-se polos comerciais, dominada por grandes marcas. No sentido horário: Brasil, Estados Unidos, Argentina e Japão.


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para satisfazer necessidades econômicas ou políticas, onde se comercializem mercadorias. Esse comércio deve ser regular, e não, ocasional; pois, para se ter uma “cidade”, é necessário haver mercado. E tal mercado deve ser fixo. Excluem-se desse raciocínio de Weber, as localidades onde há feiras e festas anuais, na qual muitas pessoas vendem alguma coisa. Esses ajuntamentos não podem ser considerados como cidade, pois constituem eventos periódicos. Pode-se dizer, então, que a cidade é uma “cidade de consumidores”. Ou, o contrário: a cidade é de produtores, se nela estão localizadas as indústrias. E é importante frisar que uma cidade de consumidores difere de uma cidade de indústrias. Além disso, ambas se distinguem da cidade mercantil, da primeira fase do capitalismo. Nesta, o poder aquisitivo dos grandes consumidores repousava na venda varejista de produtos estrangeiros no mercado local. Weber8, assim, teve que apresentar a cidade como uma associação autônoma em algum nível, como um aglomerado, com instituições político-administrativas especiais. Nem toda cidade, no sentido pleno da palavra, existe como fenômeno extenso, com as mesmas características do Ocidente. Por exemplo, na China e no Japão, as associações tinham o privilégio de autonomia administrativa, não ocorrendo o mesmo com as cidades. Na China, a cidade poderia ser vista como fortaleza e sede administrativa das autoridades. Já no Japão, não havia cidades, nesse sentido. E na Índia, as cidades se apresentavam como sede oficial da administração real, bem como dos mercados. Percebe-se, então, que a cidade não é só um amontoado de homens, ruas, prédios, lojas, transportes etc. Nem pode ser definida por agregar em seu núcleo várias instituições. Antes de se analisar esses aspectos, para definir uma cidade, Park afirma: “[...] cidade é um estado de espírito, um corpo de costumes e tradições e dos sentimentos e atitudes organizados, inerentes a esses costumes e transmitidos por essa tradição. Em outras palavras, a cidade não é meramente um mecanismo físico e uma construção artificial. [...] Está envolvida nos processos vitais das pessoas que a compõem; é um produto da natureza, e particularmente da natureza humana.”9


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A cidade, assim, não é apenas uma unidade geográfica e ecológica; ao mesmo tempo, é uma unidade econômica. E a organização econômica da cidade baseia-se na divisão do trabalho. A multiplicação de ocupações e profissões dentro dos limites da população urbana é um dos mais notáveis e menos entendidos aspectos da vida citadina moderna10. A cidade pode ser vista como o habitat natural do homem moderno e possui uma cultura própria. A maioria dos costumes, ou seja, da cultura de uma determinada nação, nasceu no meio urbano, nas cidades. Analisando os grandes conflitos mundiais, seus aspectos básicos se relacionam com a luta de classes que ocorre nas cidades. Logo, quando o mercado oferece produtos - tênis de marca, roupas sofisticadas, eletrônicos de ponta, carros modernos, casas amplas - não especifica que são para um público específico, uma vez que muitos não poderão adquiri-los. Parte da população irá quebrar o contrato social para ter acesso a esses produtos. Ter, em uma sociedade de consumo, é maior do que ser. E isso produz conflitos sociais. É claro que também existem conflitos no meio rural. Alguns deles fazem parte da rotina do campo, mas outra parte deles é fruto da cultura urbana, pois muitos no meio rural querem ter os benefícios e facilidades que a vida urbana pode promover. Isso fez com que acontecesse uma “revolução” no campo. As nações, os governos, a política e as religiões são todos fenômenos sociais que podem ser vistos como próprios da existência humana, dentro da órbita das cidades. Nesse sentido, Harvey11 tende a acreditar que, historicamente, a cidade parece ter funcionado variadamente como um pivô em torno do qual um dado modo de produção se organiza. Na visão dele, a cidade é o espaço privilegiado para uma revolução contra a ordem estabelecida. A cidade é o centro do poder e do privilégio. É por isso que a vida social, econômica, política e cultural se organiza em torno dela.

A história clássica antiga é a história das cidades, mas das cidades baseadas na propriedade do solo e na agricultura. A história da Ásia, por exemplo, mostra uma espécie de unidade indiferenciada entre cidade e campo - a grande cidade, propriamente falando, deve ser olhada meramente como um campo principesco superimposto sobre a verdadeira estrutura econômica. A Idade Média (período feudal-germânico) começa com o campo sendo o lugar da história, cujo desenvolvimento seguinte continua, então, através da oposição entre cidade e campo. Já a história moderna é a urbanização do campo, não a ruralização da cidade, como acontecia na gênese dos espaços urbanos. Enquanto para muitos autores já citados, a cidade é fruto do desenvolvimento pós-Revolução Industrial, para Castells12, o desenvolvimento do capitalismo industrial não provocou o reforço da cidade e, sim, o seu quase desaparecimento. As indústrias e o comércio ajudaram na formação da cidade, mas ela, em um primeiro momento, não estava preparada para um crescimento populacional promovido pelo êxodo rural. Assim, com o adensamento populacional, vimos o avanço de problemas sanitários, a proliferação de doenças, a formação de guetos onde viviam moradores em condições de miséria. As crises cíclicas do capitalismo afetam profundamente as cidades, causando bolsões de pobreza, levando o ambiente a um estresse. Isso afetou as cidades enquanto sistemas institucionais e sociais relativamente autônomos, organizados em torno de objetivos específicos. A origem clássica da palavra comércio refere-se à troca de ideias, opiniões e sentimentos. Tal reciprocidade fundamenta-se nas relações humanas, pois ao estabelecer um contrato entre troca de mercadoria por moeda, faz-se necessário a relação comercial entre as partes envolvidas. Na Grécia e na Roma antiga, essas relações traziam consigo uma troca de experiências entre culturas, fonte de desenvolvimento para as cidades envolvidas, fator primordial para o desenvolvimento de técnicas e para o crescimento da diversidade cultural, econômica, que caracterizava os entrepostos comerciais daquele


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tempo. Chegar às feiras romanas para comprar peixe, vinho, óleos e essências perfumadas, era antes de tudo viabilizar a troca de informações acerca da política, dos feitos e dos rumores do mundo de dentro e dos arredores de Roma. As feiras eram lugares privilegiados de produtos e serviços. É por isso que, ao falar em cidade, fala-se em comércio. Quem nunca ouviu da avó: “Vou à cidade fazer compras!”? Este simples registro de linguagem popular faz a ligação sine qua non entre cidade e comércio. E assim é até hoje. Ir às compras é antes de tudo fazer uma escolha clara de frequentar um ambiente povoado de pessoas, ideias, sentimentos. Tudo isso com um contrato social definido, a priori, numa relação humana de troca mútua: comprar e vender sonhos, desejos. E para potencializar o desejo de ter e comprar, sempre existiram mediadores. Entre as primeiras barracas e o comprador, estava aquele que se colocava para trocar as várias moedas das diversas cidades dos entrepostos comerciais da Antiguidade Clássica. Surgiram as bancas de troca de moeda, para facilitar e dar equilíbrio às relações entre vendedor e comprador. Foi das primeiras barracas e das primeiras bancas que surgiu o comércio, sinônimo de desenvolvimento, civilização e, sobretudo, de uma profícua relação entre as partes envolvidas. E assim foi. Na evolução incessante da sociedade comercial recém-fundamentada, nasce a necessidade primeira de prescrever leis, contratos, ideais de regulação entre as partes interessadas. As primeiras leis escritas de que temos notícia na história foram as de Hamurabi, na Mesopotâmia, e as dos Hititas, na Capadócia, que nada mais foram do que códigos mercantis com regras de posturas e comportamentos sociais. De lá para cá, tais códigos só se aperfeiçoaram, mas mantém a ideia de zelo pela mediação entre quem compra e quem vende. Com esse propósito de mediação, surge em 1964, o Clube de Diretores Lojistas de Vitória, hoje denominado Câmara de Diretores Lojistas de Vitória, um organismo eficaz de mediação políti-

Comércio na Vila Rubim. Década 1970.


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co-administrativa, que tem como missão prestar serviço de orientação comercial e profissional aos comerciantes de Vitória. *** Em 1999, a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) convidou seus integrantes para uma confraternização, data especial para comemorar seus 35 anos. Aliás, reunir para confraternizar é uma das marcas desse grupo, desde seus primórdios. Um dos motivos principais era a entrega do prêmio Caduceu, buscando “fortalecer, integrar e proteger o empresário, preservando os interesses da sociedade e valorizando o consumidor”13. Naquela ocasião, o comércio de Vitória já se encontrava maduro, estabelecido, buscando novos horizontes e vencendo lutas diárias. Durante a confraternização foram premiados aqueles que arduamente batalharam na construção e profissionalização desse segmento. O propósito da CDL sempre foi reconhecer as empresas que acreditaram no Espírito Santo e investiram responsavelmente neste promissor estado. Só mesmo quem estava no início – e muitos dos presentes no evento viveram esta época – pode melhor entender o valor do prêmio Caduceu: um sinal de que os tempos mudam para melhor, com a proteção dos deuses. *** Vitória é assim: uma ilha cercada de cidades por todos os lados. Para se chegar a ela, inicialmente, era preciso atravessar as Cinco Pontes, que ligam à Cidade Presépio - apelido da capital capixaba – com o continente, no bairro Argolas, em Vila Velha. Isso foi assim até os anos 70. A ponte, diga-se de passagem, é uma obra de arte construída e importada da Alemanha, inaugurada em 1928. Por ela, muitos chegavam a Vitória. Na capital, tudo se resolvia a pé. E na entrada da cidade estava o comércio, dominado pelos “estrangeiros”, descendentes de ára-

bes e italianos, comercializando café e outros produtos nos secos e molhados. A Vila Rubim era conhecida como Coreia, pela simplicidade do mercado e dos artigos, muitos deles expostos no chão . Mas o que dizer de uma capital pouco habitada? Até os anos de 1940, somente 23 mil habitantes estavam por aqui. A guinada ocorreu na década de 1960, saltando para 83.3 mil habitantes. Era o resultado das transformações sociais e da crise do café, que levou muitos agricultores a deixarem suas terras e a mudarem para a capital15. A cidade crescia, mas o comércio ainda era pequeno e singelo. Vendia-se no dinheiro, e as vendas à prazo eram somente para os conhecidos, valendo-se da boa e velha caderneta, sistema comumente chamado de “fiado”. Quem não teve o seu nome na caderneta da padaria? Os anos de 1960 não representaram somente mudanças resultantes da chamada Revolução Cultural na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, começava a Ditadura Militar, e no Espírito Santo era tempo de encontrar uma saída, depois da depressão econômica ocorrida pela erradicação de 53.8% dos cafezais. Em Vitória, os lojistas se organizavam para desenhar o que seria o mercado lojista das décadas seguintes. Assim, muitos aportaram aqui, o centro comercial, vindo de Vila Velha, Cariacica, Viana, passando pela ponte ou chegando pelas catraias, os tradicionais barquinhos que transportavam as pessoas de um lado ao outro da baía. Vitória seguiu seu norte, que apontava para a Serra, trazendo Linhares, com a bênção de São Mateus. E os nortistas acabavam no centro da cidade. Mais uma mercadoria chegava, e outra saía, pois a capital é assim: acolhe a todos, cheia de gente, cercada de cidades por todos os lados, ainda que digam que Vitória é uma ilha.


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1

FRANCHINI, A. S. As grandes histórias da mitologia Greco-romana. Porto Alegre: L&PM Editores, 2012, p. 14-16.

2

HARVEY, D. A Justiça social e a cidade. São Paulo: Hucitec, 1980.

3

Ibidem, p. 263.

4

PALEN, J. J. O mundo urbano. Rio de Janeiro: Forense-universitária, 1975, p. 27.

WEBER, M. Conceito e categorias de cidade. In: Velho, O G. (Org.). Fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. Infraestrutura diz respeito à produção material; estrutura é o sistema de trabalho que organiza a produção material; superestrutura é a forma de dominação ideológica e institucional que norteia a maneira como o sistema produtivo funcionará. 5

6

LEFEBVRE, L., apud HARVEY, op. cit., p. 264, nota 2.

7

WEBER, op. cit., p.69, nota 5.

8

WEBER, op. cit., nota 5.

PARK, R. E. Sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano. IN: VELHO, O. G. (org.) Fenômeno urbano. 3 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. 9

10

Ibidem, p.27.

11

HARVEY, op. cit., nota 2.

12

CASTELLS, M. A questão urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

13

Revista CDL Vitória. Vitória, n. 1, mar./abr. 1999.

14

COSATE, H. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento feito por Cassius Gonçalves e Soraya Lyra.

15

LOPES FILHOS, C. D. Depoimento ao Projeto SUPPIN 35 anos. 2005. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Anibal José. 25 out. 2005.


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Entre um café aqui e outro alí, muito trabalho Via-se de longe a fumaça que anunciava a queima do café. Foi a maneira que o Instituto Brasileiro do Café, órgão do Governo Federal, encontrou para solucionar a crise de mercado, dada a alta produção que derrubava o valor da saca. As lavouras tiveram a maioria de seus pés de café queimados, sobrando somente 43.2% do total de árvores plantadas. Essa política de erradicação foi resultante do número excedente de produtores e, consequentemente, dos grãos, ainda que o cultivo fosse de péssima qualidade.

gundo mandato como governador) começaram a articular soluções para equilibrar a matriz econômica, direcionando o estado para uma política de industrialização. No entanto, ainda eram apenas estudos e pauta de intenções. O Governador Jones dizia que “os galhos de café do Espírito Santo eram fracos demais para sustentar nossos desejos de desenvolvimento”3. Tornava-se necessário fazer algo urgentemente, pois já era perceptível a crise que se anunciava à porta.

O Brasil era, na primeira metade do século XX, o maior produtor mundial de café. Os maiores lucros ocorreram nas primeiras décadas, ocasionando uma produção maior na década de 1940 e uma grande quantidade de grãos disponíveis no mercado na década de 1950, levando à derrocada dos preços. Nunca mais o Brasil recuperou os ganhos que obtivera no passado.

Ocorreram duas importantes contribuições ainda nos anos 50: o surgimento da Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo (FINDES) e da Federação do Comércio (FECOMERCIO)4, que colaboraram com soluções. Ambas foram fundadas pelo empresário Américo Buaiz5 e surgiram dentro do contexto de formação sindical do Governo Vargas, que paulatinamente estruturou os modelos de representação corporativa. As federações articulavam proprietários de indústria e comércio no estado6. Além delas, existia a Associação Comercial de Vitória (ACV), a primeira organização de classe empresarial do Espírito Santo, fundada em 1909.

No sul do Espírito Santo, cerca de 200 famílias viviam do cultivo do café naquela época, e restaram somente umas quatro na década de 1960, relembra o ex-governador Arthur Carlos Gerhardt1. Quem mais sofreu com toda essa dinâmica de mercado foram os trabalhadores, pois eram pouco instruídos, não tinham para onde ir, a não ser procurar emprego nas cidades, lugar onde se vislumbrava o desenvolvimento. “Na década de 50, o café já representava 40% da formação do PIB, 60% da receita tributária e 80% das exportações efetivas do Estado”, relata Lélio Rodrigues, um dos técnicos envolvidos no estudo da economia do Espírito Santo2.

FINDES e FECOMERCIO estão ligadas à estrutura de governo, mesmo sendo instituições autônomas, congregando sindicatos patronais. O modelo getulista implementado no Brasil criou sindicatos setoriais. Igualmente, os empregados formaram seus sindicatos. Assim, patrões e trabalhadores formaram instituições para os representarem. A manutenção dessas instituições é feita de forma compulsória, regulamentada pelo governo, e empresários e trabalhadores pagam uma cota anual para subsidiá-la.

A política de erradicação dos cafezais atingiu todo o país, porém foi mais profunda no Espírito Santo, levando o estado a uma depressão econômica. Desde a década de 1950, Jones dos Santos Neves (1951-1955) e Carlos Lindenberg (1959-1962, em seu se-

O modelo europeu e norte-americano difere do modelo brasileiro, pelo fato de existirem grandes centrais sindicais responsáveis por congregar vários sindicados patronais e de trabalhadores, não existindo divisões independentes por categoria.


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Eram tão poucos os empresários em Vitória, que Américo Buaiz teve dificuldade para criar os sindicatos patronais. Ele mesmo participava de dois: indústria mecânica, pois tinha uma fábrica de pregos em Vila Velha; e indústria de moagem de trigo, por causa do Moinho Vitória. Enquanto no Espírito Santo técnicos se debruçavam sobre leis e planilhas em busca de soluções para a economia, o Brasil de um modo geral vivia internamente os reflexos da dualidade das políticas em torno de ideais capitalistas e comunistas. Jânio Quadros foi eleito com um discurso que ganhou a alma dos brasileiros. Seu mandato seria cumprido entre os anos de 1961 a 1964, mas não imaginávamos que, sete meses depois de eleito, ele renunciaria, em 25 de agosto de 1961. João Goulart (PTB), seu vice, estava em viagem oficial à China comunista. Goulart, herdeiro político de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek7, era visto com desconfiança por uma parte da classe política e de setores empresariais. A solução encontrada para tal impasse quanto à legalidade da posse foi de um acordo, que transformou o Brasil, da noite para o dia, em uma República Parlamentarista, reduzindo, assim, a autonomia política do presidente. Tancredo de Almeida Neves foi, assim, nomeado para o cargo de Primeiro-Ministro. Na época da guerra fria, se um governo lançasse mão de políticas com evidentes interesses sociais, mesmo que reais e necessários, era taxado de comunista e tinha a desconfiança de alguns setores da sociedade e da comunidade internacional. Aqui não foi diferente. Existia o latente medo sobre as possibilidades de um governo com tal viés político. Grupos conservadores da sociedade se moviam contra esses interesses. Uma das grandes expressões nesse sentido foi a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, realizada no Rio de Janeiro, entre 19/03 e 8/06 de 1964. João Goulart teve um governo curto e conturbado. Em pouco tempo, conseguiu reverter o processo político por meio de um plebiscito, e o sistema de governo retornou ao presidencialismo.

A CDL Vitória surgiu no contexto das mudanças políticas no Brasil, com a deposição de João Goulart e subida dos militares ao poder, na década de 1960.


27 Mesmo sendo a capital, Vitória tornou-se uma cidade comercialmente relevante somente no século XX. Aspecto do comércio da capital, na década de 1950.

Por causa disso, enfrentou revoltas de grupos opositores. Lançou seu programa político, com pilares no desenvolvimento econômico e social, defendendo, entre outras propostas, a erradicação do analfabetismo e a reforma agrária8, medidas essas que foram recebidas com temor pela classe política conservadora e empresarial, que lia em seu discurso uma cubanização9 do Brasil. Tais insatisfações culminaram no golpe militar de 1964, depondo o presidente João Goulart e dando início a longos anos ditatoriais no Brasil. Apoiando-se no discurso nacional desenvolvimentista e na defesa dos interesses populares, o Exército, com apoio dos civis, promoveu um golpe de estado e assumiu o governo, ficando por 21 anos. Uma sequência de alterações veio em seguida. No cenário capixaba, o populista Francisco de Aguiar, chamado Chiquinho, foi eleito para governar, no período de 1963 a 196710, mas logo foi retirado da liderança estadual, e seu vice foi empossado: Rubens Rangel, que governou entre abril de 1966 a janeiro de 1967. A missão de Rangel era apenas concluir o tempo de mandato. O governador que o sucederia seria indicado indiretamente pelo poder central. Dois governos foram importantes para a estabilização do Espírito Santo: o de Christiano Dias Lopes (ARENA, 1967-1971) e o de Arthur Carlos Gerhardt Santos (ARENA, 1971-1975) A locomotiva não poderia parar no Espírito Santo, enquanto o cenário nacional passava por profundas mudanças. Era uma corrida contra o tempo. Uma busca de alternativas para o futuro. Mesmo em seu início, a FINDES organizou um estudo em todo o Estado, para entender a real situação econômica e ver os potenciais existentes na região, o que resultou em um Seminário Socioeconômico11. Diversas pessoas participaram do evento, que teve um caráter misto e abrangente, contando com empresários, políticos, líderes religiosos, dentre outras pessoas de destaque da sociedade, formando um conselho consultivo. Carlos Lindenberg (PSD, 1959-1962) tornou-se um grande entusiasta dessa iniciativa, mas muitos dos resultados do trabalho só foram aproveitados pelo governo de Christiano Dias Lopes Filho (ARENA, 1967-1971),

dentro do grande projeto de recuperação econômica do Estado, quando foi concluída toda a tabulação dos dados. O Espírito Santo ficou praticamente sem receitas, e era emergencial encontrar uma solução. Para piorar a situação, o imposto de renda pago pelos capixabas ia para a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), apesar do estado não integrar aquela região. Foram técnicos do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (BANDES), como Lélio Rodrigues, Arthur Carlos Gerhardt Santos, dentre outros funcionários do governo, que proveram as soluções, por meio de brechas encontradas na legislação, que permitia criar um programa de incentivo econômico para o estado, articulado pelo governador Christiano D. Lopes. Depois dos entendimentos com o Presidente, o general Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967), foi instituído o Decreto-Lei 880, que criou o Fundo de Recuperação Econômica do Estado do Espírito Santo – FUNRES12, no ano de 1969.


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As lojas em VitĂłria eram simples, vendiam produtos bĂĄsicos. As imagens mostram como elas eram na primeira metade do sĂŠculo XX.


30 A Real Café foi a primeira empresa criada pelo BANDES dentro do projeto de industrialização do Espírito Santo.

Enquanto os cafezais eram dizimados pelo interior, a população se dirigia para Vitória em busca de oportunidades, num grande movimento de êxodo rural. Lopes descreve a situação, ao dizer que “só aqui aportaram cerca de 20 mil pessoas sem trabalho. Daí, foram nascendo esses morros, [...] falta de remédio, médico e escola. Estávamos no período de 1965 a 1967, no segundo projeto de erradicação”13. Neste mesmo período, Vitória contava com uma filial da antiga Mesbla, grande empresa de atacado e varejo no Brasil, importando e vendendo produtos, os mais variados: eletrodomésticos, móveis, carros, barcos, aviões, máquinas agrícolas e outros. A família do Dr. Dório Silva era a detentora dos direitos da loja em Vitória, mas ele resolveu vendê-la. Assim, a própria Mesbla reassumiu a loja local e enviou, do Rio de Janeiro, um novo gerente para administrá-la: Humberto Cosate14. Ele chegou definitivamente em janeiro de 1951. Aportando aqui, percebeu a singeleza do comércio local, observando que muito deveria ser feito para desenvolvê-lo. “A calçada da Jerônimo Monteiro, [...] era um buraco só.”15 Diante disso, Cosate conseguiu com os comerciantes locais a doação de material e, articulando-se com a prefeitura, garantiu que ela se responsabilizasse pela mão de obra, com as obras sendo realizadas nos horários da madrugada. A Mesbla, em praças como Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, já vendia, pelo sistema de crediário, parcelando o valor do produto. Fazer o mesmo em Vitória era mais complicado. Cosate relata: “[...] aqui eu encontrava dificuldade, a pessoa queria comprar e eu não conhecia, queria facilitar o negócio.”16 As relações entre o dono da loja – ou o gerente – e o comprador eram muito pessoais. Assim, o crediário era feito somente para pessoas bem conhecidas, excluindo-se as demais da chance de crediário. Não havia um mecanismo profissional de proteção ao crédito, que pudesse auxiliar o lojista, dando mais confiabilidade à venda e garantia de recebimento. O dinheiro que circulava era praticamente vindo do funcionalismo público, pois havia poucas

A Mesbla foi relevante para incentivar a profissionalização do comércio e dos comerciantes de Vitória. Foi com o apoio da empresa que surgiu o Clube de Diretores Lojistas de Vitória. Sede da Mesbla na Avenida Princesa Isabel, na década de 1980.


31 Jornal A Gazeta contendo o anúncio da criação do Clube de Diretores Lojistas de Vitória, na década de 1960.

indústrias. Na década de 1960, destacava-se somente a Fábrica de Jutas de Jucutuquara. No afã de aumentar ainda mais as vendas, Humberto Cosate buscou alternativas. Copiando o modelo que existia na Mesbla do Rio de Janeiro, criou um sistema de controle de crédito dos clientes. O modelo foi adaptado de uma empresa de consultoria norte-americana, a RGD, que trabalha com informações. Contratou um rapaz e o capacitou, enviando-o para o Rio e entregando-lhe o cuidado do crediário local. Mas era preciso profissionalizar os demais colegas lojistas, para que as informações circulassem entre eles e fosse formada uma rede de confiança e proteção mútua. Foi então que Humberto conheceu uma experiência encampada pela Mesbla, o Clube de Diretores Lojistas, fundado em 1955, no Rio de Janeiro. Humberto Cosate trouxe a experiência para Vitória e relata: “Eu não conseguia convencer o pessoal a contribuir [para criar e manter um clube lojista local]. [...] fazia um almoço para a gente conversar, para melhorar o que pudesse, para a gente servir para alguma coisa. O clube no Rio de Janeiro tinha um slogan assim: ‘Transformar letreiros de loja em homens que se entendem, para juntos servirem melhor à coletividade.’”17 Houve um lojista que comprou a ideia, Wilson Pichara Sily, atacadista com negócios na Vila Rubim. Ele leu as notícias que o Jornal A Gazeta fazia circular, sobre a intenção da criação de um clube lojista em Vitória, e procurou Gutman Uchoa de Mendonça, jornalista responsável pela nota, pedindo para entrar em contato com os idealistas, isso ainda no ano de 1963. Wilson não sabia que o Gutman era um dos envolvidos no empreendimento. Uchoa de Mendonça estava começando sua vida profissional como jornalista, tradição aprendida com o ofício do pai, mas também dividia seu tempo acumulando a função de secretário executivo da FINDES e da FECOMERCIO. Foi o responsável por fazer essas instituições funcionarem e também entrou em contato com diversos comerciantes e industriais para formar os primeiros sin-


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dicados patronais. Também foi indicado como a pessoa ideal para ajudar Humberto Cosate na formação do clube lojista de Vitória18. Seu primeiro impulso foi negar-se a aceitar o convite, pois entendia que seria difícil atender tantas atividades: “Eu estava mexendo numa área política. Era governador do Estado, um cara meio atrabiliário, Francisco Lacerda Aguiar. Eu estava no Jornal A Gazeta, então brigava com o pessoal do governo dele. E era um negócio meio complicado. Eu disse: ‘não vou poder tratar disso’. ‘Você vai…”, apertaram os interlocutores. Até que Cosate disse: “Tenho um sujeito no Rio de Janeiro que é o Secretário Geral do SPC [Sistema de Proteção ao Crédito]. Então levo você a ele, você passa uns três a quatro dias lá. Perceberá tudo isso logo e monta isso para nós aqui.” O primeiro Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) surgiu em Porto Alegre, em 195519. Muitos esforços foram feitos para que o clube lojista começasse no ano de 1963, mas isso não foi possível. A redação do primeiro estatuto é datada de 4 de fevereiro de 1963, mas a efetiva atuação do clube não se concretizou durante todo aquele ano. Acabando por aceitar colaborar para a formação do clube, Gutman iniciou os preparativos. O primeiro ponto era conseguir uma sala para instalar o clube de diretores, local cedido pela Associação Comercial de Vitória, órgão que também deu o suporte inicial para a organização do clube. Depois, Gutman passou a publicar diversas notas no jornal A Gazeta, a fim de atrair a atenção dos lojistas. A partir daí, o Clube dos Diretores Lojistas de Vitória começou a ganhar corpo e espaço para desenvolver suas ações.


33 As transformações urbanas em Vitória ganharam novo impulso a partir da década de 40. Na foto, vê-se a criação da Esplanada Capixaba, na década de 1960. Os sucessivos aterros deram origem às novas áreas na capital. A cidade e seu comércio foram gradativamente se dirigindo a elas.


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FILHO, A. Dos cafezais aos royalties, perdas incalculáveis. Gazeta Online. Vitória. Disponível em: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2011/11/noticias/a_ gazeta/economia/1032539-dos-cafezais-aos-royalties-perdas-incalculaveis.html. Acesso em: 29 ago. 2013. 1

SMARZARO, P. Industrialização e empobrecimento urbano: o caso da Grande Vitória de 1950-1980. Vitória: CCHN/EDUFES, 2001, p. 48, cita um dos estudos de Lélio Rodrigues, técnico do BANDES, uma das mentes que pensou o Espírito Santo atual. 2

3

LOPES FILHOS, C. D. Depoimento ao Projeto 35 anos SUPPIN. 2005. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Aníbal José. 25 out. 2005.

“[...] foi criada, então, em 12 de fevereiro de 1958, a Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo – Findes - e reconhecida por carta sindical assinada pelo Ministro dos Negócios do Trabalho, da Indústria e do Comércio, Fernando Nóbrega, em 29 de julho de 1958. Américo Buaiz foi o primeiro presidente”. Para mais informações ver o site: www.sistemafindes.org.br. Em relação à Federação do Comércio do Espírito Santo, é notório que: “[...] a primeira diretoria (provisória), sob o comando de Américo Buaiz, geriu os destinos da entidade de 07 de janeiro de 1954 até à edição da Carta Sindical em 28 de maio de 1954”. Para mais informações ver o site: www.fecomercio-es.com.br. Já a Associação Comercial de Vitória data de 1909. Para mais informações ver o site: www.acvitoria. com.br. A ACV é ativa atualmente e desempenha papel complementar ao associativismo dos comerciantes. 4

Américo Buaiz era filho de Alexandre Buaiz, um libanês que aportou no Brasil. Foi um grande empreendedor na primeira metade do século XX e deixou o Grupo Buaiz como grande legado de sua trajetória empresarial. 5

6

MENDONÇA, G. U. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 10 jun. 2013.

SANTOS, F. J. dos. Da Campanha da Legalidade ao Golpe de Estado de 1964: o Estado do Espírito Santo durante o governo de João Goulart (1961-1964). 2013. 189 f. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2013, f. 59. 7

Ver: É IMPERIOSO para o Brasil se livrar da ignorância e da miséria, diz Goulart. O Globo. Disponível em: http://acervo.oglobo.globo.com/consulta-ao-acervo/ ?navegacaoPorData=196019640316&tipoConteudo=pagina Acesso em: 19 ago. 2013. 8

9

Em referência a revolução de 1959 feita em Cuba por Fidel Castro, quando o país tornou-se comunista.

10

SANTOS, op. cit., f. 124-132, nota 7.

11

MENDONÇA, op. cit., nota 6.

12

O DL-880 pode ser lido no link a seguir: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del0880.htm. Acesso em: 7 jul. 2013.

13

LOPES FILHO, op. cit., nota 1.

Humberto Cosate é contador e advogado. Trabalhava no departamento de cobrança da Mesbla, no Rio de Janeiro, fazendo o controle de todo o Brasil, quando veio transferido para Vitória, substituindo outro gerente que não se adaptou aqui. 14

15

COSATE, H. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 7 jun. 2013.

16

Ibidem.

17

Ibidem.

18

Ibidem. Ver também: MENDONÇA, op. cit., nota 6.

Ibidem. Ver também: CALENZANI, G.; SANTO, S.R dos. Da caderneta ao cadastro positivo. A história do Crédito no Brasil. 2009. 60 f. Monografia (Pós-graduação) – Programa de Pós-Graduação em Finanças Empresariais e Controle Interno, Faculdade Batista de Vitória, Vitória. 2009. 19


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Venham! Venham! Grande inauguração! Como se constrói uma casa? Sobre bons alicerces. E um bom projeto arquitetônico não vem de ideias complexas, mas de soluções práticas, capazes de viabilizar a boa funcionalidade da construção. O projeto de montagem do Clube de Diretores Lojistas de Vitória seguiu esses dois princípios: boa base e bom projeto. A solução parecia simples e barata. Bastava que os associados pagassem cinco cruzeiros, o suficiente para um almoço. Almoço? Sim, um ambiente agradável para formar a boa tradição de juntar pessoas, com o propósito de discutir e construir o futuro do setor lojista de Vitória. Aos poucos, muitos aderiram. Além de “Gutman, Humberto Cosate e Wilson Pichara Sily”1, vieram também: “Samuel Moisés, Lauro Melo Maranhão, Jadyr Primo, José Assad, e outros”2, reunindo-se para a oficialização do clube. Em 18 de fevereiro de 1964, Humberto Cosate solicitou registro do estatuto da entidade em cartório. A data da primeira ata de reunião da CDL foi 28 de fevereiro de 1964. Nesta ocasião, foi eleita a primeira diretoria, composta da seguinte forma: “Presidente - Humberto Cosate; Vice Presidente - Wilson Pichara Sily; Secretário - Nestor Cinelli; Tesoureiro - Mirabeau dos Santos Netto; Diretor Social e Diretor de Relações Públicas - Francisco Azevedo.”3 Gutman Uchoa de Mendonça foi designado para a função de Secretário Executivo, e lhe coube “a elaboração do trabalho de Serviço de Proteção ao Crédito”4. As conversas iniciais giraram em torno da montagem de um banco de informações a respeito dos clientes das lojas, enfocando a relação compra versus pagamento. Era o “Serviço de Proteção ao Crédito” do lojista, o SPC, inspirado no clube lojista do Rio de Janeiro. A Federação do Comércio do Espírito Santo fez os primeiros investimentos para a criação da base de informação. Inicialmente, cogitava-se deixar o SPC sob a responsabilidade da federação, mas

logo se percebeu que o objetivo da instituição – reunir sindicatos patronais – não era compatível com uma ação de um grupo específico de empresários. A criação da base de informação era, enfim, uma atividade para um clube de serviço. Assim, a FECOMERCIO deu a cobertura inicial, mas a montagem do serviço de proteção ao crédito ficou sob a responsabilidade do CDL. Quanto à elaboração do estatuto e à organização do SPC, Humberto Cosate enviou Gutman para o Rio de Janeiro, a fim de conhecer o sistema carioca em funcionamento. Conheceu João Corominas Ruiz, acionista da Mesbla e uma das lideranças do CDL/ SPC/Rio de Janeiro. Após se apropriar do conhecimento de todo o sistema, voltou para Vitória e iniciou suas atividades, lançando um desafio a si mesmo: “‘Tenho que montar essa coisa, porque eles estão confiando em mim. Tenho que dar um jeito’. Quando cheguei aqui, comecei a procurar [a melhor maneira de tudo funcionar]. Montei o estatuto. Trouxe o estatuto de lá, [especificando] como funcionava o sistema, o clube e como funcionava paralelamente o SPC.”5 A primeira providência era um local de trabalho. Foi cedida uma sala, desativada na época, dentro das dependências da Associação Comercial de Vitória, que ficava no edifício dos Arrumadores, na esquina da Av. República com a Governador Bley. Assim, no mesmo edifício, estavam FINDES, FECOMERCIO, Associação Comercial de Vitória e CDL. Em seguida, contratou uma secretária, Marly de Martin, para ajudar nos trabalhos de montagem e manutenção do cadastro. Ela organizava as fichas e atendia aos telefonemas. A celebração da oficialização do clube de diretores ocorreu alguns meses depois, poucos dias após os militares assumirem o


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governo do Brasil. Existia uma natural tensão no ar, ainda que os sentimentos dos lojistas capixabas não estivessem presos ao contexto nacional que envolvia a subida dos militares ao governo. Com a característica própria da tradição, foi oferecido um “Banquete de Posse”6 para a primeira diretoria do Clube de Diretores Lojistas de Vitória, o primeiro do Espírito Santo, em 12 de abril de 1964. O Clube Saldanha da Gama foi o espaço escolhido. Personalidades da sociedade capixaba estavam presentes, e o clube contou com a bênção de Dom João Batista da Mota Albuquerque, Arcebispo de Vitória. À frente de tudo, Humberto Cosate tornou-se o primeiro presidente. Para empossá-lo, juntamente com a diretoria, foi convidado o presidente do Clube dos Diretores Lojistas do Rio de Janeiro, Wladimir Paula Freitas Santos, representando também o presidente do CDL do Brasil, Alberto Guerchon. Este já contava com o suporte incondicional do CDL do Rio de Janeiro, apoiado pela estrutura da Mesbla. As seguintes autoridades estavam presentes: Ulisses Martins Junior, Secretário de Indústria e Comércio, representando o governador do Espírito Santo, Francisco de Aguiar; Darcy Brasileiro da Silva, Presidente da Federação do Comércio do Estado do Espírito Santo e da Associação Comercial de Vitória; o vereador Wallace Vieira Borges; além de todos os gerentes de estabelecimentos bancários da capital. A ata de posse da diretoria detalha bem o clima daqueles dias. Em seu discurso, Wladimir Santos “teve oportunidade de conclamar a todos para um grande esforço de colaboração com as autoridades, para tirar o Brasil do caos, terminando por solicitar uma salva de palmas para a mulher capixaba, [representando] a mulher brasileira. Teve a coragem e a audácia de levantar a moral dos homens para o combate ao comunismo que queria tomar conta do Brasil”7. Ainda não se previa a ditadura. As pessoas acreditavam que o golpe era algo positivo para solucionar a crise econômica e política de então. Foi uma noite de grande alegria.

Acima, o interior de uma loja de eletrodomésticos. Abaixo, Humberto Cosate (esquerda) na inauguração da Relojoaria Primo, com Jadyr Primo (centro) na década de 1960.


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Princípio desdobrado em permanência. O CDL pertence ao segmento denominado “clubes de serviços”. Tal segmento é composto por pessoas que, por livre e espontânea vontade, se unem para formar associações de caráter privado e, por meio delas, se beneficiam de serviços. O clube reunia lojistas, com um objetivo central, específico e bem simples: proteger o crédito de seus clientes, por meio de um sistema de controle, facilitando compras e parcelando-as. Na primeira ata, encontramos esta definição: “O clube de Diretores Lojistas de Vitória é uma associação civil, sem fins lucrativos, que se destina a promover e assistir o comércio varejista de Vitória.”8 O contexto de crise econômica, somado ao êxodo rural, trouxe para a Grande Vitória muitas pessoas desprovidas de recursos. Isso gerou dificuldades quanto ao cumprimento de compromissos de pagamentos. Ainda não existiam mecanismos oficiais, mantidos pelos governos, para proteger as partes envolvidas em transações comerciais. Os bancos não faziam pequenos empréstimos, e a maioria da população tinha parcos recursos financeiros. Como disse o poeta: “[...] o dinheiro anda mais curto do que perna de cobra. Filosofia de malandro: no bolso falta e nunca sobra.”9 Assim, fazia-se necessário uma iniciativa do próprio segmento lojista para combater o problema e permitir que as vendas continuassem normalizadas. O empresário necessitava dispor de um bom volume de capital de giro próprio, para financiar seus clientes. Em contrapartida, precisava do retorno financeiro para a compra de mais mercadorias e novos financiamentos. Era a montagem de um sistema de crédito por iniciativa dos próprios empresários lojistas. A estrutura do clube dividia-se em dois segmentos: um cuidava das questões administrativas, dos associados; outro, do Serviço de Proteção ao Crédito. A organização da membresia acontecia de duas formas: membros cotistas, com direito a votar e ser votado; e associados não cotistas, apenas pagantes de mensalidades, para

Bancada com as fichas do SPC, onde as atendentes controlavam manualmente repassando aos comerciantes as informações sobre os clientes na década de 1960.


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acesso aos serviços prestados, neste caso, as informações geradas pelo SPC. Este último grupo não participava das decisões da associação, mas todos os associados tinham o privilégio da “troca de informações sobre os clientes e assim criar uma rede de proteção ao crédito concedido pelo lojista”10. Além da estrutura orgânica, o CDL prezava por manter uma visão de longo prazo para a construção de um comércio lojista forte. Esta construção se daria baseada em um tripé, envolvendo a representação empresarial, a representação institucional e a representação política do Clube de Diretores Lojistas. O primeiro apoio – empresarial - evidenciava uma classe unida, trabalhando com foco setorial, acima mesmo de seus negócios. Cada novo sócio, cotista ou não, representava o amadurecimento da base, tendo como principal tarefa convencer os demais pares a uma participação efetiva. Tarefa árdua, mas possível. O segundo - institucional - era o próprio CDL como agente representativo. Uma proposição da associação era referendada e discutida por todos. Assim, a CDL tornava-se a voz de todos. O terceiro – político – buscava a concretização das ideias a serem implementadas, tendo em vista os imperativos da CDL frente a outras instituições, fossem elas formadas por seus pares, como a Associação Comercial de Vitória, a Federação Comercial do Espírito Santo e outros CDLs; ou correlatas, como a Federação das Indústrias. Avançava, também, nas discussões e articulações com instituições públicas, como os governos municipal, estadual e a União11. Esse modelo sistêmico vigora até hoje. O Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) funcionava da seguinte maneira: todos os membros do clube teriam acesso ao cadastro do SPC. Quando o cliente fazia uma compra na loja credenciada, preenchia uma ficha cadastral, onde era anotado o controle dos recebimentos das parcelas de pagamento. Esse formulário era utilizado para compartilhar as informações no escritório do serviço de proteção, para onde era enviado o nome do cliente. Caso tal


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cliente fizesse nova compra parcelada, em outra loja, a segunda loja ligava para o escritório do SPC para uma consulta. Se os pagamentos do cliente estivessem em dia, era-lhe concedido o crédito. Caso contrário, bastava ao cliente comprar à vista ou lhe era indicado fazer o pagamento atrasado na loja onde estava devedor, para que assim pudesse fazer nova compra em qualquer estabelecimento credenciado12. Esse modelo proporcionou uma profissionalização do sistema de crédito. Considerando a estrutura inicial do Clube de Diretores Lojistas, percebe-se que o foco estava nos propósitos de consolidação institucional e empresarial e no Serviço de Proteção ao Crédito. Com o tempo, o empresariado lojista conscientizou-se do valor da troca de informações, percebendo o impacto positivo da rede em seus negócios particulares. Existe, hoje, uma rede maior, formando uma pirâmide, que abrange todas as câmaras de dirigentes, a nível local e nacional. A intenção é cada município contar com um clube lojista. A união de cada clube, por sua vez, forma uma “Federação”, representando cada estado. A união de todos os estados forma a “Confederação”, que expressa o interesse dos lojistas em nível nacional. A Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas foi fundada em 21 de outubro de 196013.

Desenvolvimento: eis a questão! Era esse o desafio apresentado ao estado do Espírito Santo, por causa da crise do café, em todo o Brasil, que também trouxe resultados devastadores por aqui, na década de 1960. Com o apoio da esfera federal, que aprovou o Fundo de Recuperação da Economia do Espírito Santo (FUNRES), abriu-se a porta para mais oportunidades. O objetivo foi concretizado no governo de Christiano Dias Lopez Filho (ARENA, 1967-1971), que criou diversas instituições para promover o crescimento do estado. Dentre elas, a Companhia de Desenvolvimento do Espírito Santo (CODES), criada em 20/02/1967, futuro Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo


42 Primeira usina de pelotização da então Companhia Vale do Rio Doce para beneficiamento e exportação do minério de ferro. 1969.

(BANDES)14, em 20/06/1969. A CODES/BANDES atuou como um órgão de planejamento e financiamento para recomeçar um novo estado, agora com base econômica na industrialização. O banco de desenvolvimento tornou-se gestor do Fundo de Desenvolvimento das Atividades Portuárias (FUNDAP), criando incentivos para quem importasse pelos portos capixabas. Foram também criadas: a Empresa Capixaba de Turismo (EMCATUR), a Companhia de Pesca S/A (COPESA), o Banco do Estado do Espírito Santo (BANESTES) e a Superintendência de Polarização dos Projetos Industriais (SUPPIN)15. No Espírito Santo, a década de 1970 foi um reflexo direto do “Milagre Econômico”. Os projetos de reestruturação econômica do estado deram certo e uma nova perspectiva surgiu. O Instituto Brasileiro do Café fez um bom investimento na agricultura local, com um projeto de renovação da lavoura, e o café do tipo Conilon tornou-se predominante em todo o estado. No governo de Arthur Carlos Gehardt Santos (ARENA, 19711975), surgiram projetos voltados para o mercado externo, coordenados pela esfera federal, nas áreas de siderurgia (Companhia Siderúrgica de Tubarão)16, mineração (pelotizadoras da Vale do Rio Doce e Samarco)17 e celulose (Aracruz Celulose)18. Esses negócios ficaram conhecidos como “Grandes Projetos Industriais” e foram importantes para a economia local. Ainda existia outra vertente de negócios no estado: a indústria capixaba que nascia dos planejamentos e investimentos feitos por meio do Banco de Desenvolvimento do Espirito Santo, fortalecidos por causa do período próspero no Brasil. Compunha-se de empresas que atuavam na agricultura, pecuária, empresas de reflorestamento, pesca e lavoura. Eram novas indústrias em diversos segmentos, como as de produtos alimentícios, construção de imóveis, metalurgia, extração de madeira, confecção de calçados, produtos cerâmicos, móveis, papelão e plásticos, produtos gráficos e outros. Mas o BANDES também incentivou a formação de empresas de serviços, apoiando diferentes infraestruturas voltadas para o comércio de importação e exportação, o transporte

O governador Christiano Dias Lopes Filho em uma de suas reuniões. Em seu governo, a matriz econômica do estado tornou-se industrial. Década 1960.


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rodoviário de passageiros e de cargas, o setor de turismo etc. Eram negócios pequenos, médios e grandes. Mas, em todos os casos, grandes na proporção do desejo de crescimento de uma nova economia local. A intenção era fazer proliferar novos empreendimentos por todo o estado, diversificando a economia e equilibrando os setores econômicos - agricultura, indústria e serviços. Essa lógica foi defendida pelo governador Christiano Dias Lopes Filho, mas viabilizada efetivamente no governo de Arthur Carlos Gehardt. Assim, duas grandes vertentes trabalhavam em conjunto, visando empresas voltadas para o mercado externo, com foco em trazer divisas, e empresas destinadas ao mercado interno, com foco na geração de trabalho, emprego e renda para o capixaba. O Centro Industrial de Vitória (CIVIT) foi construído e direcionado a esse segundo perfil de negócios. Os resultados seriam vistos por meio de uma economia mais sólida, não reduzida a um só tipo de produto e promotora de distribuição de renda. A cidade de Vitória cresceu de forma vertiginosa, dos anos 60 até o final dos anos 80, quando contava com uma população de 207,7 mil habitantes. O comércio pulsava no centro da cidade, principalmente nas avenidas Jerônimo Monteiro e Sete de Setembro, que, inclusive, tornou-se somente para pedestres, em um de seus trechos, como é até hoje. O centro era um amplo terminal distribuidor de pessoas. Os ônibus para as demais cidades da Grande Vitória e interior passavam e paravam no centro. Assim, todos aproveitavam para fazer compras. Os comerciantes interagiam entre si, tendo o hábito de frequentar a Praça Costa Pereira, para conversar com colegas e tomar um cafezinho, por volta das 15:00. Lembrar-se disso denuncia até certa nostalgia, não é mesmo? Nesse novo cenário, a CDL se firmava. Novos presidentes assumiram a instituição, reconhecendo que os esforços iniciais valeram à pena. Humberto Cosate (1964-1966) foi substituído por César Augusto Nogueira (1966-1969), que por sua vez foi sucedi-

O Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo tornou-se Banestes na reestruturação econômica do Espírito Santo. Década 1960.


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As últimas intervenções urbanísticas em Vitória feitas na década de 1970 definem suas formas atuais. No sentido horário, o aterros que deram origem a Praça dos Namorados, a verticalização do Centro de Vitória e a convivência da arquitetura antiga com o adensamento do trânsito; os aterros na Vila Rubim e duplicação da avenida na praia de Camburi.


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do por Samuel Antônio Moysés (1969-1971), que passou o bastão para Nilo Cardoso Marins (1971-1972), seguido por Constanteen Helal (1972-1974), que entregou a cadeira ao saudoso Jadyr da Silva Primo (1974-1976), preparando o caminho para Fiorino Petrochi (1976-1978). José Assad, presente desde o início, ficou só por dois meses, em 1978, logo substituído por Juarez da Paiva Britto (1978-1980). Britto iniciou os conturbados anos 8019, quando a população já clamava por democracia e a crise econômica batia à porta com altas taxas de inflação. Mas foi Lauro Melo Maranhão (1982-1986) que, por três mandatos seguidos, vivenciou mais intensamente essa década contraditória. Vale ressaltar que, desde o início, todos os presidentes tiveram Gutman Uchoa de Mendonça como Secretário Executivo. O papel da CDL continuava o mesmo: fortalecer os empresários, a instituição e o SPC. O comércio reconhecia o valor das informações prestadas pelo clube, e até os bancos eram clientes da CDL em consultas de crédito. No escritório, era possível ver as diversas atendentes debruçadas sobre grandes bancadas repletas de fichas, ainda controladas manualmente. Imaginem uma ficha fora do lugar, hein?!


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A evolução urbana de Vitória rumo á Praia do Canto e adjacências deram um novo ar arquitetônico à cidade. O comércio expandiu junto com o crescimento urbano. Década 1970.


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1

COSATE, H. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 07 jun. 2013.

2

MENDONÇA, G. U. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 10 jun. 2013.

3

CÂMARA DE DIRIGENTES LOGISTAS DE VITÓRIA. Ata de Reunião do Clube de Dirigentes Lojistas de Vitória. Vitória, Espírito Santo, 28 fev. 1964, f. 1.

4

Ibidem.

5

MENDONÇA, op. cit., nota 2.

6

COSATE, op. cit., nota 1.

7

CÂMARA, op. cit.; f. 2, nota 3.

8

CÂMARA, op. cit., f. 1, nota 3.

9

Da música “baião”, de Janires Magalhães Manso (1953-1988). Capixaba, músico multi-instrumentista e compositor.

10

MENDONÇA, op. cit., nota 2.

11

BARBOSA, M. S. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 03 mai. 2013.

12

COSATE, op. cit., nota 1.

A primeira ata da CDL Vitória traz a denominação Clube dos Diretores Lojistas do Brasil. Atualmente denomina-se Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas. Em nível estadual, a nomenclatura hoje é Federação das Câmaras dos Dirigentes Lojistas. Para mais informações ver: www.cndl.org.br 13

No Centro de Memória do BANDES, área aberta ao público, estão a maioria dos estudos e projetos criados para o desenvolvimento do estado. O centro de memória foi criado e, 2010 pelo Studio Ronaldo Barbosa, com pesquisa histórica de Cassius Gonçalves, Robson Ribeiro e Carolina Júlia Pintos dos Santos. 14

A SUPPIN é uma autarquia do governo estadual, responsável por preparar terrenos para a implantação de distritos industriais. Esse modelo de política pública foi forte na década de 1970/1980. Ver o livro institucional da autarquia: GONCALVES, Cassius G. S. SUPPIN: 35 anos. Vitória: SUPPIN, 2005. 15

16

Hoje, Arcelor Mittal Tubarão.

A Companhia Vale do Rio Doce mudou sua nomenclatura para Vale S/A. No complexo industrial da Vale S/A existem oito plantas de pelotização (dados 2013). Já a Samarco continua como empresa independente, sendo uma joint-ventura entre a Vale S/A e a mineradora australiana BHP Billiton, contando com três plantas pelotizadoras e porto. 17

Após os escândalos com derivativos, na crise econômica de 2008, a Aracruz Celulose faliu, sendo comprada pela Votorantim, também afetada pela crise, mas em menor escala. Atualmente, denomina-se Fíbria, decorrente dessa fusão. 18

O acumulado da inflação do ano de 1980 medido pelo IPCA, índice do IBGE, foi de 99,27%. Em 1986, ano que Ismar assumiu a gestão da CDL e do lançamento do Cruzado, o acumulado foi de 79.65%. Dados organizados por HC Investimentos. 19


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Tendências de mercado “Navegar é preciso. Viver não é preciso.”

O verso pertence a Fernando Pessoa, fruto da experiência pessoal do poeta. Os navegadores entendiam que entrar no mar dependia de cálculos apurados das rotas. Todavia, não se podia dizer o mesmo sobre a vida. Nela, nunca houve exatidão matemática. Por mais que se quisesse a precisão dos números para a resolução da tempestade econômica que recaía sobre o Brasil, os cálculos feitos pelos responsáveis pela política financeira não direcionavam a embarcação para o norte, para um porto seguro. Vieram planos econômicos sucessivos, que cada vez mais pareciam levar para o centro de uma tromba d’água em alto mar. Falar do comércio nas décadas de 1980 e 1990 torna-se paradoxal. Muitos conseguiram se adaptar às tormentas e desenvolver seus negócios. Parte desses não conseguiu viver em terra firme, preferindo os altos e baixos da maré inflacionária. Outros reaprenderam a navegar mas refizeram seus negócios sobre a rocha da estabilização. A CDL reagiu de forma bem distinta às diferentes conjunturas. Ismar e Rampinelli tiveram que ser os timoneiros na tempestade desse período. Fizeram investimentos na CDL, como a informatização do SPC, que se tornou contínuo a partir dos anos 80. A proteção do crédito estava estabelecida e era relevante. Ismar ajudou a formar a Federação das Câmaras dos Dirigentes Lojistas do Espírito Santo, organizando uma frota de comerciantes. Ilson Bozi navegou em águas mais tranquilas, mas também sob constantes variações climáticas. Teve que estabelecer direções na fase de estabilização econômica e de mudanças na estrutura, como a expansão do cartão de crédito e dos sistemas de informação, que

impactaram profundamente a CDL Vitória. Era o prenúncio de novos tempos, apontando para mudar o tipo da embarcação. A tecnologia forçava a busca de novos paradigmas para fazer a mesma coisa: manter o associativismo com foco no comerciante. Bozi também fez investimentos na expansão física da Câmara, com a preparação de uma nova sede. Foram 20 anos conturbados e de grandes mudanças, mas um tempo também de amadurecimento.

Shopping Aberto Esta é uma das expressões que melhor identifica o centro de Vitória nos anos 801. É bem provável que pouco lembrasse a realidade das duas décadas anteriores. O fluxo de pessoas indo e vindo aumentou. “O comércio era muito forte no Centro de Vitória na década de 80. Foi uma fase primorosa.”2, revelou o lojista Akran Muner. Quem não parava na lanchonete das Lojas Americanas para um cafezinho, ou abastecer-se para assistir um filme no Cine Paz? Mas, nem tudo eram flores nessa década! O centro era uma grande estação. Os ônibus faziam conexões ao longo da Jerônimo Monteiro. Entre um ônibus e outro, as pessoas faziam suas compras. Lá também atracavam as lanchas, que conectavam Vila Velha e Cariacica ao centro ou à rodoviária de Vitória, percurso que também era um passeio turístico, proporcionando um novo ponto de vista da capital e do porto. E nada melhor que passar diante do Penedo, o nosso “Pão de Açúcar”. Nos idos de 1903, na inauguração da Estrada de Ferro Vitória a Minas, ao chegar de navio à capital capixaba, um jornalista carioca disse que a Baía de Vitória e o Penedo foram a inspiração da Mãe Natureza para a criação do Rio de Janeiro. A originalidade pertencia aos capixabas3.


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rios negócios e alguns tipos de serviços prestados pelo Estado. Era a implantação de uma lógica empresarial no setor público: racionalidade na gestão. No cenário político, vigorava a bipolaridade Estados Unidos versus União Soviética, na tensionada Guerra Fria. Mas esta apresentava indícios de desgastes, sob a pressão de reformas políticas e econômicas propostas pelo presidente soviético Mikhail Gorbachev, denominadas Perestroika e Glasnost6. Por aqui, os brasileiros produziam uma das imagens mais célebres do movimento democrático, quando as ruas ficaram repletas de pessoas clamando pelo fim do regime militar. Era o movimento “Diretas Já”, um bramido por eleições livres e democracia. Chegava o tempo de cada cidadão interferir na política por meio do sufrágio universal. Na última eleição indireta, em 1984, o Congresso Nacional elegeu Tancredo Neves, tendo José Sarney como vice. O primeiro não assumiu, pois faleceu antes. Sarney7 tomou posse em março de 1985.

Nos anos 80, Vitória era a mesma de sempre: acalentada pela montanha e banhada pelo mar. Mas o que diferia, nessa ocasião, era o número de pessoas circulando pelo centro. Já era possível sentir o reflexo das reformas feitas na economia capixaba, propostas no final da década de 60 e início da de 70. Vitória tornou-se uma cidade que atraía gente. A literatura retrata a história econômica dos anos 80 como de uma “década perdida”, em função das diversas crises em âmbito mundial. Era uma época em que os investidores olhavam para a América Latina com desconfiança de injetar recursos financeiros por aqui. México e Brasil4 não honravam seus compromissos com credores. No cenário internacional, entrava a política denominada neoliberal5, quando a Primeira-Ministra britânica, Margareth Thatcher, e o presidente americano, Ronald Reagan, encabeçaram um modelo político-econômico chamado “Estado Mínimo”, que compreendia transferir ou partilhar com a iniciativa privada vá-

O povo queria tanto um novo momento político, quanto uma nova organização da economia para que pudesse viver com dignidade. A inflação corroía o salário do trabalhador e os esforços dos empresários diariamente. Era difícil aspirar por algum alento. Desde o governo militar estudavam-se reformas da macro economia brasileira, mas elas nunca encontraram ressonância entre os políticos, mesmo que eles soubessem do grande risco que o Brasil corria ao não promovê-las. Sarney, ao desarquivar os estudos feitos pelos militares e colocá-los em prática, amargou as durezas das reformas e da falta de apoio político. Um ano após assumir o governo, lançou uma nova moeda, o Cruzado8, em 28 de fevereiro de 1986, prometendo o fim da inflação, por intermédio do Ministro da Fazenda, Dilson Funaro. No entanto, várias tentativas se sucederam, e, a cada uma, reduziam-se as esperanças de uma economia melhor. Veio o Plano Cruzado II9, em novembro de 1986, em função do fracasso do primeiro pacote. Com o insucesso também do segundo plano, veio um terceiro Ministro da Fazenda e outra tentativa, o Plano Bresser, em junho de 198710. Sem resultados, mais

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memória coletiva. O evento ficou conhecido como “confisco da poupança”, uma medida para combater a inflação. Nas palavras do novo presidente: “É vencer ou vencer.”13 Com a chegada dos anos 90, sem reformas, os efeitos estavam latentes. Quando Collor assumiu, os problemas básicos da economia brasileira residiam em três esferas: “(i) a tendência de monetização acelerada e de explosão da demanda em momentos de desinflação abrupta, (ii) as implicações da elevada liquidez dos haveres financeiros e da ‘moeda indexada’ e (iii) as precárias condições de financiamento da dívida pública mobiliária.”14

um pacote viria, que caiu na ironia do povo e foi denominado de “Plano Feijão com Arroz”, feito pelo ministro interino Maílson da Nóbrega. Oficializado no cargo como quarto ministro do governo Sarney, propôs o Plano Verão, em 16 de janeiro de 1989, que trouxe o anúncio de mais uma nova moeda, o Cruzado Novo11. Mesmo sabendo da urgência das reformas, o Congresso não apoiou os planos, deixando o Governo Sarney desgastado e sem confiabilidade. Nóbrega manteve-se no cargo até que a nova equipe econômica do Presidente recém-eleito, Fernando Collor de Mello (PRN, 1990-1992), tomasse posse, em março de 1990. “O Presidente Collor faz mudanças profundas na Economia. O Cruzeiro volta a ser a moeda nacional. A maior parte dos Cruzados Novos vai ficar retida nos bancos.”12 Foi assim que o Jornal Nacional comunicou aos brasileiros as primeiras notícias do Governo Collor, num dos mais traumáticos anúncios presentes na

Nos anos 80 o comércio do centro de Vitória era forte, pois praticamente todas as lojas stavam concentradas na região.

Collor, num grande ato de ousadia, bancou a retirada do excesso de dinheiro que havia no mercado, optando pelo risco político que, de fato, levou ao sabor amargo. O plano de seu governo foi oriundo de um debate acadêmico sobre qual caminho seria possível trilhar para colocar a economia nos rumos certos. A inflação cedeu, mas por pouco tempo. Assim, em 1991, veio o Plano Collor II. Nos dois planos propostos pela ministra Zélia Cardoso de Mello, estavam as iniciativas para o controle da inflação, além de outras reformas, como a “Nova Política Industrial e de Comércio Exterior”, o “Plano Nacional de Desestatização”, que propunha um Estado mais enxuto e racional, tendo também em vista as contenções de despesas. A abertura do mercado nacional visava à modernização do comércio como um todo no país.15 Privatização de empresas e redução do quadro de funcionários públicos foram medidas tomadas pelo governo. Zélia foi substituída por Marcílio Marques Moreira, que pouco pode fazer diante do processo de Impeachment do Presidente Collor. O Governo Collor foi abatido pela instabilidade econômica, pelos interesses políticos imediatos do Congresso e por um discurso contra a corrupção, que recaiu sobre seu próprio governo. E a inflação não foi domada nesse período. Fecham-se as cortinas. Fim do primeiro ato.


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Vender ou vender! Como eram os processos de compra e venda em meio aos diversos planos econômicos? A clássica expressão “década perdida” não se aplicou ao Espírito Santo. Grande ironia favorável aos capixabas, depois de quase 20 anos de duro trabalho. As pelotizadoras da Vale e da Samarco já estavam operando, assim como a Aracruz Celulose. A Companhia Siderúrgica de Tubarão entrou em operação em 1983, e novas empresas se instalavam no CIVIT. Foram esses investimentos que trouxeram um grande número de pessoas para a Grande Vitória16. Muitas delas “invadiram a praia”, para nunca mais voltar aos seus lugares de origem. São os capixabas por opção. Por causa disso, a economia mantinha-se “girando”, já que um grande montante de recursos era injetado no mercado, mensalmente, na forma de pagamentos de salários. Daí podemos compreender a frase de Akran Muner. Ismar Cândido Tomaz assumiu a presidência do CDL no mes-

mo mês que Sarney lançou o Plano Cruzado, em fevereiro de 1986, em um momento em que o Brasil vivia grande expectativa, mas ainda com um futuro incerto. O CDL Vitória ganhou rumos diferentes do Brasil, desbravando a fronteira de ser mais eficiente operacionalmente, servindo inclusive de base para a expansão de novos clubes em outros municípios do interior do Espírito Santo. A gestão de Ismar no CDL marcou um novo momento, fechando o ciclo dos pioneiros, desbravadores e “bandeirantes” do varejo de Vitória, que fizeram e levaram tudo acontecer no “braço”. As mudanças dessa gestão se deram mais no campo técnico, acompanhando as transformações que o tempo trazia com os novos recursos tecnológicos: o surgimento da informática como uma ferramenta para ajudar nos trabalhos diários. Esta mudança operacional iniciou-se em 1987, migrando todas as informações registradas em fichas, para arquivos informatizados em servidores17. Este foi um dos grandes investimentos que o CDL promoveu no SPC: a informatização da base de dados. Até então, tudo era controlado manualmente em fichas. Com o surgimento dos computadores, naquela época, acessíveis somente às grandes empresas, os dados foram transferidos para o ambiente digital. A migração do suporte – do papel para o digital – ocorreu no ano de 198718. Os investimentos em tecnologia da informação representaram uma mudança profunda na rotina do clube lojista. O processo de convencimento dos diretores levou um bom tempo, mas Ismar Cândido conduziu a empreitada, removendo as dificuldades. Os primeiros ensaios foram feitos quando foi alugada a base de dados da Gerdau, em São Paulo, para consulta mesmo à distância. Depois, o SPC Vitória alugou o sistema que o CDL Belo Horizonte utilizava e contratou uma empresa de informática para prestação dos serviços. Com o passar dos anos, a contratada comprou o sistema de Belo Horizonte e o aperfeiçoou. Esse modelo de trabalho vigorou até o ano de 2003, quando ocorreram as integrações regionais e estaduais. A base de dados de Vitória passou, então, a integrar o SPC Brasil19.

O comércio da Vila Rubim na década de 1980.

A V D


Acima, Ismar Cândido (e.) e o casal Humberto Cosate (d.), nas festividades de 25 anos da CDL Vitória. Abaixo, presidente Rampinelli entrega títulos de sócio-proprietário ao Sr. Júlio Broedel. Década 1980.

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Investimento em informática geralmente pressupõe redução da mão de obra. Todavia, o CDL Vitória vivenciou um movimento contrário. Capacitou colaboradores para trabalharem com o sistema e investiu no call center, melhorando o atendimento, evitando demissões. Tais investimentos, em tecnologia e em capacitação, resultaram em redução nos erros de registros dos dados, além da agilidade e melhoria do atendimento. A importância do novo sistema estava em colaborar com os lojistas que vendiam a crediário e valiam-se muito do sistema de cheques pré-datados20. A cultura popular brasileira ressalta a criatividade do brasileiro em momentos adversos. Muitos desses empreendedores, como vários outros, eram tidos como “guerreiros”, por conseguirem sobreviver em meio aos altos e baixos econômicos. Os lojistas mais organizados conseguiam lidar bem com os altos juros. Diariamente, havia um índice diferente, e o tempo máximo para garantir os preços era de apenas uma semana. Ilson Bozi retrata o período: “Lembro que tínhamos uma pessoa na empresa só para mexer com preço. Ela trabalhava o dia todo, era uma loucura. Você rodava a tabela de cada semana, sendo que alguns produtos [era preciso] remarcar durante a mesma semana. Eles mudavam de preço, e era de 15% a 30%. Não era coisa baixa, era uma loucura.”21 Muitos lojistas também jogavam com o mercado financeiro, por causa das altas taxas das aplicações, como o antigo Overnight22, pois permitiam grandes ganhos da noite para o dia, literalmente. Logo, as empresas se comportavam mais como financeiras do que focadas nos seus próprios negócios, em suas atividades comerciais propriamente ditas. Os produtos eram apenas chamarizes para a manutenção de clientes e do capital de giro23. Numa época onde os rendimentos financeiros eram atrativos, era mais relevante ainda o controle dos pagamentos pelo SPC. Rampinelli esteve à frente da CDL durante o complexo processo de impeachment de Fernando Collor e no tempo das mais altas taxas de inflação já registradas no Brasil e no mundo. Mas também presenciou o início do refrigério, quando o vento forte já havia passado.


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Ampliamos nosso espaço para você! O inchaço pelo qual passava a capital capixaba gerou um movimento imobiliário especulativo, movendo as pessoas do centro da cidade para a zona norte, onde estão os bairros de Praia do Canto, Jardim da Penha e Jardim Camburi, principalmente. Estas regiões eram pouco habitadas, pois se localizavam distantes do centro, região economicamente ativa e onde estavam as sedes dos serviços públicos, como secretarias de governo estadual e municipal. Vitória era concentrada, mesmo havendo ainda muitos espaços na ilha. O que existia de expansão era em direção ao atual bairro Jucutuquara, passando por Maruípe, única forma de acesso da ilha ao município da Serra, aeroporto e à parte continental do município. Não foi uma modificação trivial, tendo em vista que desde a formação do núcleo urbano ainda na colônia, datado de 1551, até o século passado, a concentração urbana estava ali. A Praia do Canto, projetada e construída em 1896, até então não havia conseguido atrair moradores de forma significativa, o que veio a ocorrer a partir dos anos 70. Toda extensão da atual “beira-mar” foi fruto de sucessivos aterros ocorridos desde a década de 1940 até 1970, quando a ilha ganhou as configurações geográficas e viárias atualmente utilizadas24. Juntou-se a isso o movimento do setor público, que gradativamente construiu novas sedes, retirando-as do centro para a zona norte. Cada vez mais prédios públicos vazios permanecem no bairro, sem nenhum programa alternativo de ocupação, seja transformando-os em outros espaços de trabalho do setor ou incluindo-os em programas visando outros segmentos da sociedade capixaba, como fez a Prefeitura de Vitória ao transformar um edifício abandonado em prédio residencial. “Como todo centro de cidade, há um esvaziamento. Precisa-se de um poder público para voltar e oferecer incentivos a quem se instale do centro. É uma coisa que a gente cuida e vamos cuidar mais nas gestões. O poder público precisa estar junto com a gente

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terceira ponte foi a última intervenção urbana feita na ilha de Vitória, ligando a capital com ila Velha. 1987.

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para poder revitalizar alguns setores, mas hoje, o centro de Vitória atende muito ao comércio popular.”25 Pessoas, pontos comerciais e sedes de instituições públicas foram deslocados paulatinamente para a região norte da cidade. A Praia do Canto recebeu o título de “novo centro de Vitória”, apesar desta terminologia nunca ter sido adotada oficialmente. Mobilidade urbana já era uma palavra de ordem no governo do estado, quando foi lançado o Projeto Transcol, desenvolvido pelo Instituto Jones dos Santos Neves, em 1984 e aplicado em 1986, nos governos de Gerson Camata e José Moraes (PMDB, 1983-1987)26. A intenção era racionalizar o fluxo de ônibus na Grande Vitória, melhorando a conectividade e a mobilidade de pessoas na região metropolitana. Foram criados terminais em regiões estratégicas. Assim o centro de Vitória sentiu grande impacto, pois deixou de ser o local onde as conexões ocorriam. Agora, os ônibus apenas circulavam pelo centro. Outro impacto foi o fim do transporte de barcas, que, segundo o governo, ficou financeiramente inviável. O último grande investimento urbano feito em Vitória foi a Terceira Ponte, na região dos aterros feitos na década de 1970, ligando a região da Praia do Canto com o município de Vila Velha. O projeto foi lançado no governo de Élcio Álvares, em 1978, e concluído no governo de Max Mauro, em 1989. Um dos reflexos da mobilidade urbana capixaba, que modificaria de vez a estrutura do comércio de Vitória e das ruas, foi a inauguração do Shopping Vitória, em junho de 1993, tendo o Grupo Buaiz como um dos sócios, já na gestão de Rampinelli. O impacto do shopping se deu em função de sua estrutura, um ambiente fechado onde um grande número de lojas se faziam presentes. Era possível inclusive o estacionamento dos veículos, o que as ruas do centro não possibilitavam. Além disso, tinha um amplo horário de funcionamento, até às 22h, permitindo novas opções de momentos de compra, com segurança, o que não era possível nos comércios abertos27.


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Para manter a proximidade em relação aos principais lojistas, Estanislau Ventorim lembra que a CDL abriu um escritório no shopping, a fim de atender às necessidades de consultas ao SPC. Com a informatização e a comunicação via internet, não era necessário esse espaço físico no shopping28. A dinâmica do comércio varejista começou a se segmentar, pois o centro deixou de ser o lugar de compra de todo mundo, para ser o local de compra das classes C, D e E. O shopping e as lojas de ruas da região norte da cidade tornaram-se lojas com produtos de maior valor agregado29. Outra mudança ocorreu na nomenclatura da entidade que reunia os lojistas, que passou a denominar-se Câmara de Dirigentes Lojistas de Vitória. Alterou-se em todo o sistema CDL e foi uma marca de adequação às mudanças vividas ao longo do tempo. Para uma melhor troca de ideias entre as pessoas que lideravam a CDL, estabeleceu-se que nenhum membro ficaria na função de presidente por mais de dois mandatos, ou seja, quatro anos. Da mesma forma, visando a formação de novas lideranças e a con-

tinuidade dos ideais do clube, o vice-presidente seria o presidente da gestão seguinte. Assim, após colaborar como vice na gestão encabeçada por Ismar, o bastão foi para as mãos de Rampinelli e, depois, transferido para Ilson Bozi.

Nova Coleção Abrem-se as cortinas. Início do segundo ato: a Presidência da República passa às mãos de Itamar Franco, exigindo uma versão do roteiro, cujo final muitos já sabiam: um governo com a árdua tarefa de colocar a casa em ordem. Será que ele conseguiria mudar o final? Era necessário restaurar o apoio tanto do legislativo, quanto da população, principalmente. O maior desafio ainda rondava a questão econômica, pois até então a inflação estava descontrolada. É importante compreender que as tentativas de controle econômico vieram na forma de sucessivos ajustes nos planos implementados. O Governo Itamar lançou o Plano Real, estabelecendo três fases de implantação: “a primeira tinha a função de promover o ajuste fiscal que levasse ao ‘estabelecimento do equilíbrio das contas do governo, com o objetivo de eliminar a principal causa da inflação brasileira’30; a segunda visava ‘a criação de padrão estável de valor denominado Unidade Real de Valor – URV’31; finalmente, a terceira concedia poder liberatório à unidade de conta e estabelecia as regras de emissão e lastreamento da nova moeda (real) de forma a garantir a sua estabilidade.”32 33 Itamar Franco contou com quatro sucessivos Ministros da Economia, em um governo de dois anos: Eliseu Resende, Fernando Henrique Cardoso (FHC), Rubens Ricúpero e Ciro Ferreira Gomes. Eles foram frutos de uma conturbada fase de estabilização das instituições e também da preparação para um novo governo. Afinal, na história da República brasileira, os chefes de governos que iniciaram mandatos, necessariamente não os terminaram. Fernando Henrique foi o candidato do governo para dar continuidade ao plano de estabilização da economia. Naquela época, com menos liquidez no mercado, conseguiu domar o dragão da

Ao con


lado e acima, Shopping Vitória, empreendimento comercial que modificou a rotina dos lojistas e nsumidores capixabas.O comércio de rua tornou-se mais popular no centro. Década 1990.

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inflação. Era uma nova fase de expectativas, mas também de muita desconfianças. No meio do ano, como um alívio para a alma, o brasileiro foi presenteado pela seleção de futebol, com o tetracampeonato mundial, fazendo do país o único com esse título até então. O ano havia começado triste com o falecimento de Ayrton Senna nas pistas, e a vitória foi dedicada a ele. Talvez isso pudesse ser o prenúncio de um novo tempo a começar, tempo de refrigério, tranquilidade e prosperidade. Eleito presidente, Fernando Henrique tinha a dura missão de fazer o Plano Real funcionar. Ocorreu no Brasil a maior substituição de moeda na história da economia mundial, onde todas as cédulas foram substituídas. Afinal, nos anos que antecederam o Real, o país conviveu com várias moedas: Cruzeiro; Cruzado; Cruzado Novo; Cruzeiro, novamente; e Cruzeiro Real. Muitas destas cédulas simplesmente receberam um novo carimbo para continuar em circulação. Nos dois governos de FHC (PSDB, 1995-2002) foram implantadas as seguintes reformas: “i. Privatização. ii. Fim dos monopólios estatais nos setores de petróleo e telecomunicações. iii. Mudanças no tratamento do capital estrangeiro. iv. Saneamento do sistema financeiro. v. Reforma (parcial) da previdência. iv. Renegociação das dívidas estaduais. vii. Aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). viii. Ajuste fiscal, a partir de 1999. ix. Criação de uma série de agências reguladoras de serviços de utilidade pública. x. Estabelecimento do sistema de metas de inflação como modelo de política monetária.”34 O Plano Real foi ameaçado pelo adverso contexto externo, que enfrentou quatro crises internacionais, até o ano 2000. Neste período, os olhos dos investidores ainda voltaram-se para o Brasil, observando até quando conseguiríamos manter estabilidade. O exemplo do México (1995), que desvalorizou sua moeda em curto período de tempo, alertava e dava indícios ao mercado, de que o Brasil não conseguiria dar prosseguimento ao Real sem uma forte


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desvalorização da moeda, em curto prazo. Até esse momento, o Real estava em paridade com a cotação do dólar vigente. Vieram, então, “a Crise Asiática (1997/98), a Russa (1998) e o rompimento da bolha das empresas “.com” (2000). O Brasil sofria um contágio dessas crises, por questão de falta de credibilidade, o que diminuía o fluxo de capitais para o país. Todavia, ao fim de cada uma delas, o Brasil mostrava-se mais sólido. Crises internas também afetaram o país, reflexo das anteriores, mas também fruto da necessidade de ajustes no projeto do Plano Real. E realmente ocorreu a desvalorização da moeda (1999). O fantasma da inflação voltava, e era necessário ter o controle da situação. A adesão ao modelo de câmbio flutuante, então, deu certo fôlego à economia.

Vendas à prazo no cartão de crédito As estatais do setor siderúrgico foram as primeiras a serem privatizadas. O Espírito Santo, desta forma, sofreu reflexo direto, sendo a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST)35 colocada à venda. A empresa era relativamente nova, havia entrado em operação em 1983 e foi privatizada em junho 1992. Pelas características do setor, já demandava investimentos36. A maioria dos funcionários foi demitida ainda na fase estatal, e a empresa foi adquirida pelo consórcio formado entre os Bancos Bozano-Simonsen, Unibanco e a Vale. Nos primeiros seis meses de gestão, como empresa privada, a CST alcançou lucro de fato, por causa da mudança de foco na gestão. Outra grande privatização que afetou o Espírito Santo foi a da Vale, ocorrida em 1997. O tempo não era favorável, pois, na racionalização da gestão das estatais, muitas pessoas estavam perdendo seus postos de trabalho. Ainda era um momento de maturação das transformações econômicas do Brasil. Em seguida, veio a organização do sistema de telefonia, com a quebra do monopólio estatal, em 1998.

At pelo


tecnologia da informação e a estabilização financeira do Brasil modificaram a tomada de crédito o cliente, que passou a usar o cartão de crédito e diminuiu o uso dos cheques.

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No entanto, o tempo provou que uma gestão privada foi melhor para todos. CST e Vale passaram a melhorar seus parques industriais, trazendo mais investimentos. Uma nova característica se fortaleceu: o surgimento de empresas prestadoras serviços, muitas delas formadas por ex-funcionários de estatais, realocando a mão de obra qualificada. Vitória sentiu, no dia a dia, as transformações. Mesmo com o surgimento de um grande número de empresas terceirizadas e novos investimentos nas empresas estatizadas, não foi possível realocar todas as pessoas. Além disso, o estado, um grande empregador histórico, passou por várias gestões com problemas financeiros nunca resolvidos, gestão após gestão. O funcionalismo passava meses sem receber. O comércio sentia o impacto direto das transformações econômicas, que era mensurado nos índices de inadimplência e de cheques sem fundos catalogados pelo SPC da CDL Vitória. Mesmo existindo confiança nas reformas econômicas, os reflexos não estavam sendo positivos para muitos cidadãos. Rampinelli passou o comando para Ilson Xavier Bozi dar continuidade aos processos de estruturação da CDL. Dois eventos são marcantes em sua gestão: as obras da nova sede e o amadurecimento do processo de informatização. As mudanças na economia estavam trazendo novos ares ao comércio e a possibilidade de renovações tecnológicas. Era a adesão à tecnologia da informação, em um caminho sem volta. Dentro desse contexto de transformações, ocorreu um estreitamento com o poder público municipal e uma maior atenção às representações institucionais e na política, exigidas pela nova conjuntura econômica. Os investimentos da CDL em tecnologia da informação tornaram-se constantes. O computador pessoal passou a ser um instrumento acessível a todos, principalmente às empresas. A internet começava a ser disponibilizada por meio das linhas telefônicas. O


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aperfeiçoamento dos equipamentos causava mudanças nos ambientes domésticos e de trabalho. Era uma grande revolução. O investimento prioritário, feito pela CDL, foi na integração da comunicação entre as principais cidades do Estado, ligando Vitória, Guarapari, Colatina, São Mateus, Aracruz, Nova Venécia, Santa Teresa, Vila Velha, Linhares e Ecoporanga, para o compartilhamento de informações do SPC37. Na tentativa de ganhar musculatura, a Confederação Nacional das Câmaras dos Diretores Lojistas propôs a unificação dos cadastros de algumas capitais, no servidor de Belo Horizonte. A intenção era fortalecer o Serviço de Proteção ao Crédito, ampliando sua abrangência e valorizando a base de informação existente, gerindo informações a partir dela. Era a criação do SPC Brasil. Essa evolução ocorreu de forma gradativa. As primeiras CDLs a se integrarem foram Vitória, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, logo em janeiro de 1997. Em outubro do mesmo ano, se juntaram à rede: Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá e Brasília. No primeiro semestre de 1998, fizeram-se as primeiras conexões com a região nordeste, entrando Salvador e Recife. Em 2000, o sistema foi fortalecido com Joinville, Maranhão e com o norte do Brasil, agregando Belém e Manaus. O propósito era evitar que pessoas de má fé prejudicassem o comércio fazendo compras em diversos Estados, dificultando a identificação. Outra meta era o fortalecimento das CDLs por meio do trabalho conjunto, pois o crescimento dos cartões de crédito era acelerado e necessitava valer-se do potencial da base de dados. As CDLs contavam com concorrentes para serviços de informação ao crédito, que disputavam o serviço, como “SCI/Equifax, Serasa, Check-Check, Embracon, SIC e Natcheques”38. Os governos, em todos os níveis, também viram na informatização uma forma de melhorar o controle dos impostos. Passaram a exigir do comércio novos tipos de máquinas registradoras, interligadas com a Fazenda Estadual, buscando reduzir a sonegação. Eram as “Emissoras de Cupom Fiscal”.

A mesma tecnologia que retirava muitos do mercado era a mesma que trazia as soluções para quem se preocupava em perenizar seus negócios. Novas formas de controle surgiram, utilizando programas computacionais. Nova nomenclatura passava a fazer parte do cotidiano dos empresários: a automação comercial. Quem dispunha de recursos para investimentos, podia colher os frutos da automação, que prometia a redução dos custos. Dentro de um novo cenário para o comércio, a gestão do consumo dos clientes, por meio do controle de compras, conhecida como Database Marketing, e o controle rigoroso de compras e estoques feitas por computador, conhecida como cadeia de suprimentos (ou Supply Chain), invadiram a rotina dos comerciantes39. Para auxiliar o varejo, a Câmara de Dirigentes Lojistas de Vitória apoiou a “Convenção de Automação Comercial do Espírito

A te fisca


ecnologia da informação facilitou o controle por parte do governo, com as emissoras de cupom al e as máquinas de cartão ligadas em rede via telefonia. Década 1990.

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Santo”, um evento da Associação Capixaba de Supermercados – ACAPS -, onde o comerciante podia conhecer novas tendências, sejam em equipamentos ou softwares de automação comercial40. As mudanças na economia permitiram que as pessoas pudessem ir às compras. A oferta de crédito e os meios de pagamento começaram a se diversificar e ampliar. O cheque pré-datado e o cartão de crédito tornaram-se dois instrumentos bastante utilizados pelos clientes e varejistas, além das ofertas de crédito mantidas pelo próprio lojista, por meio dos carnês. O brasileiro se via diante de uma nova cultura de compra41. As parcelas eram fixas, com uma moeda estável. Muitos se endividaram nesse processo. A maioria não estava acostumada com o uso do cartão de crédito e, assim, não sentia o dinheiro sair do bolso e nem da conta bancária, levando um grande susto somente com a chegada da fatura. Outros optavam pelas longas prestações no cheque especial. Muitos consumidores ficaram presos no emaranhado das parcelas e dos altíssimos juros42 do rotativo do cartão e do cheque especial. No início, as operadoras de cartão se valeram dos serviços de informação do SPC. Como o serviço dos cartões nasceu no espectro da informatização brasileira, com o passar dos anos, as operadoras moldaram seus próprios cadastros, não solicitando mais informações do SPC. A operadora do cartão, além da anuidade cobrada do usuário, também cobrava (e cobra) um percentual sobre as vendas, como taxa de serviço do lojista. No entanto, tal comissão era alta para a dimensão de negócios de certos comerciantes. A CDL iniciou um processo de negociação com as operadoras para conseguir taxas melhores para os associados e, assim, repassar os descontos, diminuindo custos, tanto para o lojista, quanto para o consumidor final. No entanto, por política de mercado, as operadoras não negociavam com entidades de representação43. A operadora de cartões Visanet procurou a CDL para o desenvolvimento de um sistema de pagamento pioneiro, onde o cliente faria a compra no cartão à vista e o valor seria descontado em sua


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SPC e era a principal fonte de receita das CDLs. O auge do uso do talonário foi na década de 1980. Na década seguinte, o sistema de crédito conquistou a entrada de uma nova modalidade, em função das questões tecnológicas, que trouxeram mais segurança, confiabilidade e agilidade ao processo creditício. Do início da década de 1990 até o ano da implantação do Real (1994) eram compensados até 445 milhões de cheques mensalmente. A queda no uso iniciou-se no ano de 1995, com a moeda estável e a entrada do dinheiro de plástico. Neste mesmo ano, a compensação chegou a 300 milhões de cheques/mês. Em 2000, a média mensal foi de 219,7 milhões cheques/mês. Embora com significativa redução de uso, a segurança dada pelas empresas de consultas, como a CDL Vitória, garante a permanência do cheque como um instrumento de compra no mercado45.

conta, denominado de Transferência Eletrônica de Fundos (TEF). Era o início da estrutura do atual cartão de débito. Seria um novo serviço para a CDL Vitória. A entidade fez os investimentos necessários, comprou equipamentos e iniciou o desenvolvimento do software. Era comum nessa época as empresas terem contratos com prestadoras de serviços em informática, para desenvolver soluções, serviços denominados “software houses”. Mas a empresa responsável por atender à demanda da CDL não deu conta de entregar os serviços em tempo hábil, levando a Visanet a se associar com sua concorrente, a Redecard, para assim juntas desenvolverem o cartão de débito44. A disseminação dos cartões de crédito e de débito no mercado trouxe um grande impacto para as CDLs. Vitória não foi exceção. Uma vez que as operadoras geravam seus bancos de dados e aumentavam o número de clientes, houve uma redução do número de usuários de cheques, instrumento que alimentava a base do

Com a redução constante do uso de cheques, diminuíram também as consultas ao SPC. Consequentemente, teve início o processo de redução das receitas da CDL Vitória. Ademais, ocorreu a formação das CDLs de Vila Velha, Serra e Cariacica. O fato de Vitória ser uma ilha limitou o seu próprio crescimento. Enquanto as demais cidades da Região Metropolitana possuíam condições de expansão, Vitória ficava limitada ao seu contingente territorial46. Até então, todos os dados dessas cidades eram administrados pela entidade na capital. Segundo o ex-presidente Marcelo Salles Barbosa, “Vitória ficou com uma estrutura muito maior do que sua condição geográfica/populacional. Tínhamos o desafio de transcender esse tamanho sem que pudesse ferir essa organização estatutária. O Varejo, de alguma maneira, aqui em Vitória, está estável, até mesmo por falta de espaço. A Câmara de Dirigentes Lojistas foi buscar em serviços. Nosso foco não é mais somente o varejista. É o profissional liberal, é o prestador de serviços. Tivemos que agregar outras categorias e outros produtos para que nós não ficássemos restritos só ao setor varejista da capital.”47 Para garantir a manutenção das atividades, era preciso ser criativo e investir em novas fontes de receitas.

Sedes d a nova


da CDL Vitória; Ficam uma de frente a outra. O prédio acima foi comprado e reformado para ser a sede. A CDL firmou seu compromisso com o centro de Vitória. 1997.

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Ilson lembra como foram duros os efeitos da transição econômica, mas “a estabilização afetou de uma forma bastante positiva, pois todas as empresas que trabalhavam buscando sua receita, dentro de sua atividade principal, tiveram um desenvolvimento fantástico, conseguiram desenvolver de forma positiva. E essa mudança da estabilização da moeda era um sonho que todos nós brasileiros queríamos, exceto alguns, para poder conseguir respirar um pouco mais […] Houve empresas que faliram, porque o ‘comércio’ delas era buscar suas receitas no mercado financeiro.”48 Bozi e sua equipe compreenderam que compartilhar informações sobre o mercado capixaba seria uma forma de ajudar o comércio como um todo. Os dados seriam divulgados mensalmente por coletivas de imprensa. Assim, tanto os associados, quanto a comunidade capixaba, compreenderiam a evolução do mercado e se beneficiariam mutuamente. “Implantei uma estatística mensal das evoluções dos preços e das vendas do varejo capixaba. Implantamos uma coletiva com a imprensa regional para todo o segundo dia útil de cada mês, com uma audiência fantástica, tínhamos todas essas TVs e jornais, não havia menos que 15 jornalistas participando da coletiva. Divulgar era uma forma de orientar o empresário sobre as necessidades e sobre a evolução do mercado. Nessas coletivas você aprende mais que transmite, em termos de conhecimento. Para transmitir tem que conhecer.”49 Outro instrumento de comunicação foi a revista “O Lojista”, com sua primeira edição em agosto de 1997 e uma tiragem de 10 mil exemplares, também como parte das comemorações dos 33 anos da CDL Vitória. Era um projeto autossustentável e baseado na venda de anúncios. Lojistas, fornecedores, parceiros e pessoas interessadas tinham um canal de relação pública e também tomavam conhecimento sobre o que se passava no setor lojista50. A estabilização exigiu mais profissionalização do mercado51. E para atacar essa necessidade, a Fundação CDL Vitória foi um grande instrumento utilizado para a capacitação do empresário e de seus colaboradores. Estabeleceu um convênio com o SENAC52, para ajudar na capacitação, uma vez que o órgão possuía toda uma


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estrutura para tal fim. Os treinamentos eram na área de gestão e vendas, prioritariamente: “isso podia, ao mesmo tempo, capacitar cada vez mais o lojista e seus colaboradores, e conseguimos mudar a cultura da receita financeira para a receita operacional, simplesmente voltada ao comércio.”53 Com a nova sede, as sete salas do Edifício Navemar foram transformadas em Centro de Treinamento, contando com biblioteca e consultórios para medicina do trabalho54. Um novo paradigma surgia. Questões como planejamento estratégico55, publicidade, fidelização de clientes, controle de estoques, controle de custos56, cuidado com os juros e capacitação de colaboradores entravam na pauta de reflexões que a CDL promovia, a fim de conscientizar os empresários. Em uma economia estável, essas questões tornaram-se primordiais, pois antes estavam escondidas pelas grandes oscilações da economia.

são, e a grande batalha era a espera do alvará para a instalação do elevador. “Procuramos fazer essa reforma para incentivar que as empresas e órgãos públicos valorizassem o centro.” Dedicar esforços para aquela casa foi preparar-se para um novo tempo. A nova sede foi inaugurada nas celebrações de 33 anos da CDL Vitória, em 16 de julho de 1997. “Da inauguração, participaram mais de 200 pessoas: empresários, personalidades políticas e eclesiásticas, dirigentes lojistas e ex-presidentes da entidade. Entre os presentes, estavam o prefeito Luiz Paulo Velloso Lucas (PSDB, 1997-2005)58, o secretário estadual de Administração, Pedro Ivo, representando o governador Vitor Buaiz, e o Secretário de Estado da Fazenda, Rogério Medeiros.”59 Foram três anos dedicados às obras. Toda a reforma foi administrada pela CDL, com economia, por causa da dedicação de tempo voluntário dos diretores, ao invés da contratação de uma empresa terceirizada.60

O crescimento do comércio e os novos tempos exigiram mais espaço para o trabalho. Bozi foi o responsável por preparar toda a reforma da nova sede, adquirida na gestão anterior de Caetano Rampinelli. O prédio, construído em 1942, estava abandonado há 15 anos. O novo edifício disponibilizava uma área de 900 m2 úteis, auditório para 150 pessoas e escritórios para o SPC, conforme o projeto de reforma. Localizava-se em frente ao Edifício Navemar, onde a CDL funcionava em sete salas próprias.

O centro já sofria com o deslocamento de escritórios e negócios para a região norte. A compra da nova sede afirmou o compromisso com a região. Foi a resposta dada pela entidade à sociedade e ao poder público, em relação ao processo de revitalização do bairro, que sofria a transferência em massa de suas principais sedes administrativas, do centro para a Praia do Canto.

O prefeito da cidade era Paulo Hartung, em final de mandato. Vendo tal iniciativa, rendeu um convite inesperado à CDL: “Ilson, quero fazer um evento lá na CDL Vitória!”. Pego de surpresa, Ilson respondeu: “Mas não está concluída”. A resposta de Hartung ratificou que os esforços feitos pela CDL Vitória estavam no rumo certo: “Não tem problema, farei no canteiro de obra, porque a obra que estão fazendo é muito importante para a revitalização do centro. A maioria dos empresários está saindo, e vocês estão fazendo o caminho contrário, investindo. É muito importante isso daí.”57

A CDL e a Prefeitura sempre tiveram um estreito relacionamento, por meio da partilha de demandas com o setor público, exigindo compromisso com o ordenamento da cidade: no acompanhamento de obras, para que seu andamento não se prolongasse além do necessário, atrapalhando comércios locais61; nas questões de segurança62; na localização dos comerciantes de rua sem cadastramento; na providência de locais para estacionamentos; e na constante preocupação com a ocupação e revitalização do centro de Vitória; dentre outras ações.

Chegou o dia da “pré-inauguração” da nova casa. Paulo Hartung fez o café no canteiro de obras. Faltava pouco para a conclu-

Entende-se que é natural o movimento de esvaziamento das regiões centrais das grandes cidades. Mas é importante assumir


69

Pré-inaguração da nova sede feita por Paulo Hartung (acima) e inauguração realizada por Luiz Paulo Veloso Lucas (abaixo), ambos prefeitos de Vitória. Ao lado, recepção da nova sede. 1997.


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Entrega do Prêmio Caduceu, homenagem aos comerciantes de Vitória. Década 1990.


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compromissos de revitalização desses espaços. Essas regiões caracterizam-se por serem núcleos urbanos mais antigos, desprovidos de espaços, como estacionamentos, pois, quando foram concebidas, não existiam carros, como na atualidade. Além disso, faz-se necessário que o poder público garanta a manutenção dessas localidades, para viabilizar o bom aproveitamento de espaços, pois, fazendo sua parte, o setor privado corresponde, seja por meio dos negócios instalados ou pelos investimentos particulares feitos por moradores e condomínios.63 A segurança torna-se fundamental para os lojistas. O governo contava com a “Polícia Interativa”, com quem a CDL desenvolvia uma relação madura, visando o bem estar de todos. Assim, a ideia era: “o governo tem que desenvolver atividades no centro, de modo que não perca o seu espaço.”64 Com a migração do comércio e de pessoas, os negócios que permaneceram no centro de Vitória foram sendo reposicionados. A característica do público que ali se encontrava passou a ser a das classes C, D e E. Novos negócios, com novos produtos, passaram a compor o mix desse grande shopping aberto. São pequenos e micro empresários, perfil a que a CDL Vitória dedica especialmente sua atenção, para que os negócios prosperem, pois eles são os maiores empregadores do país e também os que mais são penalizados. “A CDL sempre foi voltada para o lojista […] Estamos sempre focados a ter raízes aqui.”65 Da mesma maneira, surgiu o comércio de bairro. Cada bairro formou uma estrutura própria de comércio e serviços, de forma que as pessoas não precisassem se deslocar. Vemos isso nos supermercados, padarias, farmácias, lojas, consultórios, bancos, dentre outros empreendimentos que proporcionam a autonomia do bairro. Quem lucra com isso é o próprio morador, ao ter saciadas suas necessidades à porta de casa. Da mesma maneira, tal estrutura colabora para a sustentabilidade da região e a preservação do meio ambiente, pois várias atividades podem ser feitas deixando o carro na garagem, reduzindo a poluição e contribuindo para a mobilidade urbana.66

Numa tentativa de aumentar receitas, o Governo Vitor Buaiz (PT, 1995-1999) tentou lançar o aumento de ICMS e IPVA. Unindo forças com outras entidades, a CDL Vitória evitou que isso acontecesse, considerando que a época já estava bastante difícil para o comércio local. Ter os custos aumentados em pagamentos de impostos somente dificultaria mais a atividade comercial de cada associado. No campo municipal, esse período trouxe a reboque a discussão sobre a abertura do comércio aos sábados, domingos e feriados. “A autorização foi dada pela Lei Municipal 4742/98, sancionada em 18 de julho, pelo Prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas.”67 Tal lei veio flexibilizar os horários de funcionamento de um grupo de empreendimentos, compatibilizando seu perfil com o de uma cidade turística, justificava o então Prefeito Velozzo Lucas. Sendo assim, no caso de determinadas empresas necessitarem trabalhar vinte e quatro horas, fazia-se necessária uma justificativa especial junto à prefeitura.68 Ilson Bozi transmitiu o cargo para Hélcio Rezende Dias, em fevereiro de 2000, fechando um ciclo de duas gestões, e realizou muitas coisas em quatro anos. Com Bozi, houve o prenúncio de novos tempos e outros desafios que estavam por vir. Fechou-se um ciclo. Abriu-se outro.


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1

BOZI, I. X. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 03 mai. 2013.

Frase de Akran Muner, dono da Unimodas, referindo-se ao movimento do comércio no centro de Vitória na década de 1980. Ver: Entrevista. Perfil Lojista. Vitória, ano VIII, n. 50, abr. 2010, p. 8. 2

3

ARARIPE. D. de A. História da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Coleção Rio Doce. s.l., 1954.

4

México e Brasil foram à falência em 1982 e 1987, respectivamente, não pagando seus credores. Os reflexos disso duraram por toda a década de 1990.

5

Um dos autores consensuais sobre o tema é Perry Anderson.

6

GORBACHEV, M. Perestroika e Glasnost: ideias para meu país e o mundo. São Paulo: Best Seller, 1987.

7

Sarney pertence aos quadros do PMDB.

8

Íntegra do Decreto-lei que lançou a nova moeda, o Plano Cruzado, ver: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2283.htm

9

Íntegra do decreto-lei que lançou o Plano Cruzado II, ver: http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/125756/decreto-lei-2290-86

10

O chamado Plano Bresser foi autorizado pelo conjunto de três decretos-lei: 2335/87, 2336/87 e 2337/87.

11

Sobre a lei que instituiu as modificações, ver: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7730.htm

Jornal Nacional – Anúncio do Plano Collor. Youtube. Disponível em: http://youtube/KI9wSrrm0QI. Acesso em: 15 de jul. 2013. O anúncio foi feito em 16 março de 1990. 12

13

Ibidem.

14

CARVALHO, C. E. As origens e a gênese do Plano Collor. Nova Economia, Belo Horizonte, n. 16, v. 1, p. 101, jan./abr. 2006.

CASTRO, L. B. de; GIAMBIAGI, F.; HERMAN, J.; VILELA, A. (org.). Economia Brasileira Contemporânea (1945-2004). Rio de Janeiro: Elsevier, 2005, p. 146147. 15

A literatura da história econômica, como também da sociologia capixaba, tratam a questão da vinda de pessoas para o Espírito Santo sob duas perspectivas: 1) muitas vieram para o Estado para servirem de mão de obra nos canteiros dos Grandes Projetos Industriais. Alguns estudiosos defendem a posição de que este contingente foi responsável pela formação dos bolsões de pobreza na Grande Vitória. Outra linha defende que os bolsões de pobreza foram formados prioritariamente pelo êxodo rural provocado pela crise do café, mas recebeu reforço com a chegada dos operários. Maria da Penha Smarzaro Siqueira, Arlindo Villaschi e Roberto Garcia Simões são alguns autores que retratam o tema. 2) Estudos mais recentes na historiografia capixaba constatam que o outro contingente de novos residentes foi formado pela mão de obra qualificada que veio trabalhar nas empresas. Mas o segundo grupo representa um número menor em relação ao primeiro, embora a mão de obra recém-chegada fosse bem remunerada. Por exemplo, só na CST, 24 mil pessoas trabalharam no auge das obras. Mesmo com o inchaço da gestão pública, no mesmo período, esse índice chegou ao máximo de 6 mil empregados para operação. O ex-governador Christiano Dias Lopes Filho declara que os governantes foram pegos de surpresa com a vinda de pessoas para Vitória, que estava despreparada para recebê-las. Os planejamentos urbanos não acompanharam essa demanda. Depois que os projetos industriais foram planejados, o sistema público não deu a mesma atenção para a alocação da mão de obra temporária ou que passou a residir por aqui. Os poucos planejamentos urbanos se restringiram aos bairros próximos ao CIVIT, como José Anchieta, mas insuficientes para acolher a grande massa. 16

17

CDL Vitória: 33 anos de bons serviços. O Espírito Santo e seus encantos. Vitória, 1997, s.p.

18

O Lojista, Vitória, n. 2, set. 1997.

TOMAZ, Ivana. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento respondido em nome de Ismar Cândido Tomaz a Carolina Júlia Pinto dos Santo. Vitória, 23 set. 2013. 19

20

Ibidem.

21

BOZI, op. cit., nota 1.

22

ONO, F. H. A taxa Overnight (Selic/Over). [Curitiba]. [s.d]. Departamento de economia, Universidade Federal do Paraná.


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BARBOSA, M. S. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 03 mai. 2013. Ilson Bozi (ver nota 1) também tratou dessa questão em seu depoimento. 23

Sobre a evolução urbana de Vitória, sugiro os estudos e artigos acadêmicos do Professor e Doutor Carlos Teixeira de Campos Jr., da Universidade Federal do Espírito Santo. Sua linha de pesquisa dedica-se ao tema. 24

25

BARBOSA, op. cit., nota 21.

Gerson Camata ficou conhecido por ser radialista. Ingressou na política na década de 1960 e tornou-se governador do Espírito Santo, para o mandato de 19831987, pelo PMDB, tendo José Moraes como seu vice, que assumiu o governo quando Camata renunciou para concorrer as eleições para a vaga de Senador da República. 26

27

MARCELO, op. cit., nota 21.

28

VENTORIM, E. Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 11 jun. 2013.

29

MARCELO, op. cit., nota 21.

Foram lançados dois programas visando o ajuste fiscal: 1) O Programa de Ação Imediata (PAI) e o Fundo Social de Emergência (FSE). Sobre o PAI ver: http:// www.fazenda.gov.br/portugues/real/pai.asp e sobre o FSM ver as justificativas do Plano Real: http://www.fazenda.gov.br/portugues/real/pai.asp. E ainda: http:// jus.com.br/artigos/10891/o-pis-das-instituicoes-financeiras 30

Lei 8.880, de 27/04/1994 - Dispõe sobre o Programa de Estabilização Econômica e o Sistema Monetário Nacional; institui a Unidade Real de Valor (URV); e dá outras providências. Ver: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8880.htm 31

Lei 9069, de 29/06/1995 - Dispõe sobre o Plano Real, o Sistema Monetário Nacional; estabelece as regras e condições de emissão do REAL e os critérios para conversão das obrigações para o REAL; e dá outras providências. Ver: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9069.htm 32

33

CASTRO, op. cit., p. 151, nota 15.

34

CASTRO, op. cit., p. 182, nota 15.

Ver RIBEIRO, F. A. Companhia Siderúrgica de Tubarão, a história de uma empresa. Serra: CST, 2005. Livro institucional da empresa, pesquisado por Cassius Gonçalves, Carolina J. Pinto dos Santos e consultoria de Ângela Morandi, que retrata os bastidores da privatização, com diversos fatos inéditos. Design gráfico de Studio Ronaldo Barbosa. 35

36

Siderúrgicas são negócios intensos em ativo e demandam altos investimentos, frequentemente.

37

Op. cit., nota 18.

38

SPC Brasil unifica bancos de dados. O Lojista, Vitória, n. 15, jan./fev. 2000, p. 21.

39

SOFTWARE para o varejo: setor busca informatização de todo o sistema da loja. O Lojista, n. 7, mai./jun. 1998, p. 16.

40

1 CONACOM: convenção discute automação comercial. O lojista, Vitória, n. 6, mar./abr. 1998, p. 18.

41

AMARAL, R. A causa da inadimplência. O Lojista, n. 4, nov./dez. 1997, p. 8.

42

GOMES, C. A. O novo comércio brasileiro. O lojista, Vitória, n. 7, mai./jun. 1998, p. 9.

43

BOZI, op. cit., nota 1.

44

BOZI, op. cit., nota 1.

Em junho de 2013, as compensações mensais chegaram ao volume de 65.5 milhões de cheques. A Inglaterra abolirá o seu uso até o ano de 2018, mas eficientes sistemas de consulta existentes no Brasil aumentam a vida útil do sistema. Para mais informações ver: ALBUQUERQUE, Vinícius. Volume de cheques diminui 78,8% em 15 anos. R7 Notícias. Disponível em: http://noticias.r7.com/economia/noticias/volume-de-cheques-diminui-78-8-em-15-anos-20100321.html. Acesso em: 25 jul. 2013. O Autor se baseou em dados estatísticos que o Serasa tem aberto para a comunidade. Os números, sempre na casa dos milhões, são divididos por 1000 nas planilhas. Ao falar dos anos 90, houve um lapso na multiplicação desses valores. Percebe-se a falha do autor nos dados recentes citados no final da 45


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reportagem. Ao tabular os dados, é possível chegar aos números apresentados por ele. 46

Ver BOZI, op. cit., nota 1 e BARBOSA, op. cit., nota 21, respectivamente.

47

BARBOSA, op. cit., nota 21.

48

BOZI, op. cit., nota 1.

49

BOZI, op. cit., nota 1.

50

BOZI, op. cit., nota 1.

51

GOMES, op. cit., nota 35.

52

CDL faz parceria com o SENAC. O lojista. N. 8, jul.-ago. 1998, p. 20.

53

BOZI, op. cit., nota 1.

54

CDL inaugura centro de treinamento. O Lojista, Vitória, n. 5, jan./fev. 1998, p. 25.

55

POR QUE empresas quebram? O Lojista, n. 8, jul./ago. 1998, p. 15.

56

O CONHECIMENTO é a chave para a permanência no Mercado. O Lojista, n. 8, jul./ago. 1998, p. 15.

57

BOZI, op. cit., nota 1.

58

Luiz Paulo, sucessor de Hartung, já estava na prefeitura quando da inauguração.

59

NOVA Sede: entrega de prêmios, inauguração e palestras marcaram os 33 anos da CDL Vitória. O Lojista, Vitória, n. 2, p. 17.

60

BOZI, op. cit., nota 1.

61

OBRA. O lojista, Vitória, n. 4, nov./dez. 1997, p. 11.

62

GÁUDIO, Nilson Santos. Violência urbana: um mal que precisa ser combatido. O Lojista, Vitória, n. 5, jan./fev. 1998, p. 22.

63

BARBOSA, op. cit., nota 21.

64

BOZI, op. cit., nota 1.

65

Ver BOZI, op. cit., nota 1 e BARBOSA, op. cit., nota 21, respectivamente.

66

COMÉRCIO de bairro: cresce uma atividade que beneficia moradores. O Lojista, Vitória, n. 5, jan./fev. 1998, p. 25.

67

AVANÇO: autorizada abertura de lojas no domingo. O Lojista, Vitória, n. 8, jul./ago. 1998, p. 6-7.

Na mesma material Luiz Paulo justificou que as questões trabalhistas estão fora do âmbito municipal, não podendo legislar sobre elas. O que coube ao município foi a flexibilização do horário, podendo ou não o empreendedor fazer uso dele. 68


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Nova direção O que leva alguém a trilhar novos caminhos? As contingências da vida podem ser vistas de forma otimista ou pessimista. Os problemas em si não são ruins. Tudo depende da forma como são encarados e das transformações que trazem aos envolvidos. A questão é: não se deve conjugar o verbo sofrer. No início do século XXI, o Brasil ainda sentia a repercussão das grandes transformações sofridas nas décadas anteriores. Tais mudanças foram positivas, pois buscavam colocar a economia em ordem, mas toda a sociedade sofria os impactos das reformas. Havia indícios de recessão, desemprego em alta, ameaça de retorno da inflação, desvalorização da moeda e outras situações que deixavam o cenário econômico instável. Sobretudo pairava um sentimento de incerteza. O Plano Real sofria ataques em função das crises externas, e a economia dava sinais de melhoras, mas qualquer notícia econômica de fórum internacional, ainda que apenas com tom de rumores, era suficiente para abalar o mercado interno. Uma questão que preocupava os brasileiros era a proximidade das eleições. Chegava ao fim o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, e a lei não previa nova reeleição. Talvez o pleito abalasse mais os nervos dos parceiros econômicos do Brasil do que dos próprios brasileiros, embora, ao tocar no bolso, todos fiquem ressabiados, como diz a sabedoria popular. Era isto o que estava acontecendo. Com uma economia carente de ajustes e reformas que sinalizassem maior perspectiva social, o povo ficou inclinado a testar a última corrente política que ainda não havia governado o país: o Partido dos Trabalhadores (PT). A onda vermelha assustava o mercado, pois se construía sobre o discurso de esquerda, baseado na expropriação do capital. O crescimento do partido nas pesquisas gerou um movimento de

retirada do dólar do país, elevando a taxa cambial para próxima dos R$ 4,00 reais, nos meses anteriores à eleição. Para acalmar o mercado, durante a campanha de 2002, o então candidato, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu partido apresentaram a “Carta ao Povo Brasileiro”, dizendo, nas entrelinhas, que se comprometiam com as reformas econômicas realizadas até então e que dariam continuidade ao programa do PSDB1. Tal discurso viabilizou o retorno à calmaria. E assim o PT ganhou o pleito. Lula, chegando ao cargo de presidente, sendo cidadão nordestino, pobre e acusado de não ter formação universitária, analisa emocionado: “... justamente eu, que sempre fui acusado, recebo o maior diploma que um cidadão brasileiro pode ter: o de Presidente da República.”2 Mais uma vez o Brasil demonstrava sinais de maturidade ao mundo. O processo de transição da faixa presidencial ocorreu dentro dos trâmites legais e na mais legítima ordem democrática. Chegava ao poder, um “filho do Brasil”, retirante nordestino que escalou o mundo da política, expressão da militância no sindicalismo paulista e defensor dos interesses da classe trabalhadora. Representava um partido popular e de massa, que entendia e falava uma linguagem mais comum à população brasileira. Ninguém imaginava que aqueles anos iniciariam um longo tempo de bonança e crescimento nacional, alavancado por um processo de estabilização do mercado internacional, que favoreceu grandemente o Brasil, em função das grandes exportações de commodities. Nesta época, o Espírito Santo passava por um péssimo período, com grandes problemas administrativos e uma política complicada. O executivo estava enfraquecido e a Assembleia Legislativa era presidida por uma liderança forte, que aproveitava vácuos do


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Foi neste cenário de transição, que a CDL realizou uma de suas maiores transformações. Ilson Bozi preparou a entidade para a transição, principalmente com investimentos de infraestrutura na nova sede. Além disso, tomou as primeiras providências para transformações importantes, principalmente motivado pela tecnologia e pela entrada do cartão de crédito. Hélcio Rezende Dias o sucedeu, complementando os investimentos e focando esforços na gestão da CDL, dando bases para mudanças de paradigmas5.

Palácio Anchieta3, sede do governos estadual. Nas novas eleições, o Senador Paulo Hartung assumiu o governo do Espírito Santo. Antes, foi preterido por seu partido nas eleições de 19984. Ele assumia um estado endividado. Existia a expectativa de um governo forte e austero, visando a organização da máquina pública e o fim dos sucessivos escândalos de corrupção. Afinal, o governador recém-eleito fazia parte de uma nova geração de políticos e tinha uma história bem sucedida, tanto na prefeitura de Vitória, quanto no Senado, além de uma passagem significativa na gestão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. Os governos de Paulo Hartung (2002-2010) foram marcados por uma gestão aprovada pela opinião pública. Fez do Espírito Santo um dos estados que mais cresceu e organizou a máquina administrativa. Assim como o país, o estado cresceu bastante, e acima da média nacional, tendo apoio do empresariado local.

Quando se fala de associativismo no Espírito Santo, um dos nomes a ser considerado como referência no assunto é o de Hélcio Rezende Dias. Ele está ligado ao setor desde a sua formação, ainda nos idos das décadas de 1950/60. Sua base principal de atuação como empresário está na panificação, mas devido a diversos negócios, possui larga experiência no comércio6. Foi “o meu amigo Ismar […] que me trouxe para a CDL. [Ele] me convidou para ser diretor da CDL. Mas para fazer isso era preciso comprar um título de sócio-proprietário […] Nesse momento eu vim a ser diretor da CDL Vitória […] Entrei em 1997. Em 1998, fui escolhido diretor e, em 2000, me escolheram para presidente da CDL Vitória.”7 Hélcio entendia com clareza os desafios pelos quais a entidade passava. Sua experiência no Conselho da Federação do Comércio, na Presidência da Federação das Indústrias e no Sindicato dos Panificadores, entidades em que ocupou a presidência, e em várias outras instituições, se ampliava cada vez mais e construía um forte embasamento para implantar mudanças na gestão. O que precisava ser enfrentada era a cultura que existia no varejo local. Os empresários do segmento tinham uma pequena percepção do trabalho associado. Antes de unirem forças, viam-se como concorrentes. Trocar ideias e compartilhar experiências de negócios era como negociar segredos. O problema era forte nos primeiros anos da CDL, mas, no início do século XXI, os associados já compreendiam a importância do trabalho coletivo e de trabalharem de forma mais integrada. Fazia-se necessário lapidar ainda mais esses valores no interior da entidade.


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Marcelo Barbosa, que foi vice-presidente na gestão de Hélcio, conta a experiência que remonta a essa mentalidade do início: “Lembro uma vez, nós tínhamos dificuldade de locomoção e alugávamos um ônibus para irmos para uma dessas feiras, não lembro se em São Paulo ou em Franca, que era um grande centro calçadista. Reunimos dentro do ônibus boa parte dos varejistas de calçados. Foi uma dificuldade. Tinham facções, metade do ônibus não se falava, foi uma viagem muito tensa. Isso não pode continuar. Através de pessoas com um perfil como o do meu pai, foi-se quebrando esse gelo. Mas o seu Hélcio veio com uma visão associativista da indústria e foi muito importante para a CDL Vitória. Foi um divisor de águas para a gente.”8 Há pessoas que muito podem contribuir em determinadas questões. Hélcio estava no lugar certo, no momento certo, compartilhando suas experiências em prol de um grupo. Sua vida social e nas organizações de classe começou cedo, dadas as necessidades da época. “Na década de 50, era muito difícil você desenvolver um negócio só, por causa da questão de mão de obra, formação; então eu tive vários negócios […] Eu me envolvi com o sindicalismo e adorei o associativismo. Na década de 60, precisamente cinco anos depois que montei a padaria, fui escolhido presidente do Sindicato da Indústria de Panificação. Ali começou a minha vida sindical e de associativismo.”9 A complexa realidade a ser enfrentada exigia reorganização da casa. Era preciso criar instrumentos para lidar com a informatização, pois ela modificou toda a estrutura de relacionamentos, seja com governos ou com os pares e associados. Em relação aos pares, existia no âmbito nacional a formação do SPC Brasil, que em curto espaço de tempo mostrou-se uma decisão acertada, trazendo também benefícios de representação no estado. No âmbito local, era necessário lidar com a formação de três novas CDLs: Cariacica, Serra e Vila Velha. Antes, todos os lojistas das cidades pertencentes à Grande Vitória eram atendidos pela CDL Vitória. O que Hélcio Rezende via era: “Na CDL Vitória, naquele momento, tínhamos algumas dificuldades, porque, com a vinda do


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Cartão do Crédito, as consultas reduziram muito. Então, as CDLs, como todas as entidades, tinham que se reinventar. Nós estamos nos reinventando, porque não podemos trabalhar sem grana. Acho que a CDL de Vitória está preparada para enfrentar qualquer dificuldade. Tem uma diretoria competente, trabalhadora, interessada, doa o seu tempo quase que diário na entidade.”10 O impacto da tecnologia e a criação do SPC Brasil, fez com que parte do setor administrativo de várias empresas sediadas no Espírito Santo mudassem para São Paulo. Foi o caso do Banco do Brasil, Caixa Econômica e C&A. Tais empresas eram filiadas à CDL Vitória e usavam muito os serviços do SPC. Tendo redes de informação próprias, não era necessário mais manter uma grande estrutura aqui, pois todos tinham acesso às mesmas informações, independente do lugar. Era preciso viabilizar rapidamente a participação na diretoria do SPC Brasil. Disponibilizando-se, a CDL Vitória foi escolhida para a Vice-presidência do Conselho de Administração. Esta cadeira tornou-se permanente, pois está no âmbito das representações. “Foi muito importante, porque o Espírito Santo, no contexto nacional de CDL, deve estar pelo 15º lugar em número de consulta.”11 Mas a entidade também teve um assento na Diretoria. Isso demonstrou a relevância, projeção e participação dos capixabas em nível nacional. Quanto às novas CDLs, era necessário definir os limites geográficos de atendimento. Os clientes locais também tiveram que se adaptar às novas entidades. Discutia-se a formação de uma CDL Metropolitana, mas essa vertente não emplacou. Com sua experiência, Hélcio alertava sobre a importância da unidade, pois os benefícios seriam maiores. A questão estava além das câmaras. Uma vez unidas, elas teriam mais representatividade e força junto a outros órgãos representativos, como governos e outras instituições. “Eu disse que precisávamos nos unir. Felizmente, o então presidente da CDL de Cariacica, o João Brumatti, uma pessoa notável, de uma visão extraordinária, [sugeriu] criar a União das CDLs da Região Metropolitana, onde entraria Fundão e Guarapari. Hoje,


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nas decisões de tudo a respeito de produtos, associativismo, clientes, todos fazem igual […] vários produtos que temos, trabalhamos igual. Então acabou a briga. Vitória tomou prejuízo? Claro que não. Imagina! Poderíamos ser muito mais fortes, poderia ter até todas as CDLs unidas num lugar só. São estruturas muito pequenas. A Grande Vitória tem hoje 1,6 milhão de pessoas, é muito pequeno para se ter briga.”12 Até então, a CDL era totalmente dependente do serviço do seu próprio SPC. Este modelo entrou em crise. Isso não significou o fim do cadastro, mas ele precisou ser repensado. Os dados ganharam outras abrangências, além da informação creditícia. Era necessário incrementar outros serviços, dar novas perspectivas para os associados, integrando toda a informação na era do conhecimento, para cumprir com o objetivo de servir ao lojista. Estanislau lembra-se das agruras da transição, quando parecia não haver luz no fim do túnel: “Por muitos anos a CDL, não só aqui de Vitória, do Brasil inteiro, sempre foi pautada em cima do SPC […] Apesar da entrada do cartão de crédito e dos meios eletrônicos, ainda é uma atividade muito forte em todas as CDLs do Brasil […] Naquele tempo, a visão era de que [o cartão de crédito] iria acabar com o SPC […] Aquilo parecia que era um Deus nos acuda, que acabaria com tudo, mas não foi isso que aconteceu. Agora, com cartão ou sem cartão de crédito, nós precisamos da informação sobre o poder aquisitivo da pessoa.”13 “A entidade é muito maior que o banco de dados.”14 - reforçou Marcelo Salles, sobre o SPC.

necessário comprar uma cota. Desde sua formação, esse grupo totalizava 50 cotas. Diante do crescimento ao longo do tempo e das novas contingências, tornou-se pequeno. Fazia-se necessário aumentar o quantitativo de cotistas. Uma nova nomenclatura foi criada, sócio-ativo, e o teto seria de 100 cotistas. Na época, a CDL contava apenas com 42, mas, por meio de uma campanha de novas adesões, atingiu o índice de 75. Todos eles voluntários nas atividades da entidade. Com isso, foi possível ampliar o quadro de diretores e contar com mais associados lidando diretamente com o processo decisório. Eram mais pessoas ajudando, o que permitia que os trabalhos fluíssem. “Ali conseguimos fazer uma diretoria ampla. ”15 - contou Hélcio Rezende. O outro perfil era o de sócios-contribuintes. São aqueles demais empresários que se beneficiam dos serviços oferecidos pela CDL. Os novos tempos exigiam que o leque fosse ampliado para além do segmento lojista. Passaram a integrá-lo, outros associados ligados a: faculdades, escolas, companhia elétrica, postos,

O tempo requereu novo paradigma para a Câmara dos Dirigentes Lojistas de Vitória. Uma das primeiras alterações foi trabalhar o associado da CDL Vitória. Existiam dois perfis: um sócio-proprietário e o sócio-contribuinte. Para isso houve uma alteração estatutária, que traria marcos legais de funcionamento para a nova proposta. O sócio-proprietário era aquele lojista que participava da administração da câmara. Podia votar e ser votado. Para tal fim, era

A Fundação CDL se posicionou na capacitação do empresariado e colaboradores lojistas de Vitória.


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condomínios, imobiliárias, farmácias e vários outros segmentos. Boa parte deles ainda utilizava o serviço do SPC. A nova caminhada começou com um planejamento estratégico de cinco anos, anualmente revisto. Parecia uma volta aos primeiros anos: “na primeira reunião do planejamento foram 36 pessoas. Foi uma luta de pegar a laço.”16 Os participantes se retiraram em um hotel nas montanhas capixabas e lá traçaram um novo horizonte. “Esse planejamento trouxe umas coisas muito importantes, fomos descobrindo as nossas necessidades.”17 O segundo ano de reunião de planejamento estratégico nem de longe se parecia com o primeiro. Os resultados do primeiro ano foram bem-sucedidos e, por isso, no segundo ano, 226 associados participaram das discussões sobre o futuro da entidade. Foi necessário reservar três hotéis para comportar todas as pessoas. Comprometida com a segurança dos lojistas, a CDL Vitória em parceria com a Polícia Militar doou equipamentos reforçando o policiamento das ruas.

Do segundo ano em diante, várias ações aconteceram. Foi criada a Convenção, e novos propósitos foram dados à Fundação CDL, responsável pela capacitação dos lojistas e de seus colaboradores. Para movimentar o comércio de toda a cidade, foi criada uma liquidação, seguindo exemplos positivos do que se fazia em outras capitais. Para fazer a CDL mais conhecida e como forma de ampliar seu quadro de associados, desenvolveu-se a CDL Itinerante, maneira da entidade ir a cada bairro se apresentar e conhecer quem empreendia por lá e suas necessidades. À medida que o grupo crescia, a cada 50 novos associados, era feito um evento de boas-vindas, quando os recém-associados eram conhecidos e ouviam uma palestra de um dos empresários veteranos. Como sempre, tudo terminava com uma boa confraternização. Nessa época, uma cooperativa de crédito foi formada (hoje atuando por meio da estrutura do SICOOB). Era mais uma forma de facilitar o acesso ao crédito. Pensando no futuro da instituição e seguindo um exemplo visto na convenção realizada em Joinville/SC, formou-se a CDL Jovem. O propósito era possibilitar novos ares e capacitar uma

O Vice-Governador, Lelo Coimbra, o presidente da CDL Vitória, Hélcio Rezende Dias e o jornalista Paulo Henrique Amorim, palestrante da abertura do Liquida Granvi. 2004.


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nova geração de empresários para atuar na CDL Sênior – como passou a ser chamada. Foi também uma maneira de inserção em um novo tempo, valendo-se da experiência passada, mas contanto com a força e a capacidade de uma nova geração de empresários. A relação com o setor público e a sociedade civil também amadureceu. Visando fortalecer aspectos ligados à segurança, por exemplo. A Câmara de Dirigentes Lojistas premiava um soldado militar de destaque, uma maneira de reconhecer aqueles que ofereciam suas vidas em função de outras. O homenageado era designado pelo Batalhão Militar. Das empresas registradas na Junta Comercial de Vitória, a maior parte era do setor varejista. Até então, a CDL não participava do conselho dessa instituição. A CDL Vitória fomentou discussões para viabilizar sua participação e conseguiu êxito, beneficiando também todas as CDLs do Espírito Santo, pois nessa ocasião conseguiu se fazer representar pela Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas na Junta Comercial e tornou-se participação de destaque. Além disso, a CDL Vitória participava do Conselho Municipal de Turismo. Dessa maneira, agia em conjunto com o setor público, convergindo os interesses comerciais e turísticos. Um grande gargalo para o comerciante do centro de Vitória era a questão do estacionamento. Por causa do histórico de um bom relacionamento com a Prefeitura de Vitória, a CDL conseguiu que aos sábados fosse possível estacionar na faixa da esquerda, na Av. Jerônimo Monteiro, principal via de trânsito e de comércio no centro da cidade, proporcionando maior atração de pessoas e favorecendo as vendas ali. Uma questão que se definiu nessa década foi o público alvo da CDL. Antes, grandes empresas consultavam a base do Serviço de Proteção de Crédito, mas essa não era mais a realidade. Até o início da década de 1990, todos os negócios e segmentos estavam localizados no centro de Vitória, mas, ao longo dos anos, se deslocaram para outras áreas e shoppings. Tais movimentos fizeram com que a CDL se perguntasse sobre quem era o seu público-alvo.


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“Hoje a CDL Vitória tem 98% de pequenos e microempresários e trabalha política e institucionalmente para isso […] Diziam que o centro de Vitória segmentou [o comércio] por faixa de consumo […] Quem quiser instalar algum segmento de classe A e B, não só por percepção ou por esse instrumento que nós oferecemos [o banco de dados do Serviço de Proteção ao Crédito], vê que aqui não é o lugar mais apropriado, com raríssimas exceções. Isso é de grande valia ao nosso associado.”18 A câmara fez a opção de se sediar no centro da cidade. Foi o seu compromisso com o bairro e com os que ali estavam. “A CDL, na minha visão, tem que estar no coração do comércio, onde há movimentação de pessoas, para facilitar o acesso delas à entidade. Tem que ter essa ligação.”19 O fator comunicação, trazido pela internet, também permitia que as atividades fossem cumpridas sem nenhum problema. Assim, o micro e o pequeno empresários foram privilegiados, pois permaneceram na região. Uma das tradições da formação de liderança na CDL é o fato de o vice-presidente estar em preparo para assumir a gestão seguinte. Assim, há continuidade e sincronia na gestão. Cada pessoa ocupa a presidência por no máximo dois períodos de gestão. Hélcio Rezende Dias, entretanto, ficou três, em função de necessidades específicas. Marcelo Salles Barbosa o sucedeu e contou com Estanislau Ventorim como vice e futuro sucessor. Ambos ficaram por um período de dois anos cada.

A CDL recebeu em Vitória a 50ª Convenção Nacional do Comércio Lojista. 2009.

Hélcio deixou um legado para a função de presidente. Antes dele, as pessoas tinham resistência para assumir o cargo. Afinal, liderar um grupo assim não era fácil. “Sentávamos numa mesa e perguntávamos: quem vai ser o próximo presidente? E ninguém queria. Realmente porque pensava: ‘vou ter problema, a CDL já está muito grande’; e com a vinda do Sr. Hélcio e a visão industrial que trouxe para a nossa entidade, ser presidente passou a ser uma honra.”20 Além disso, “o Seu Hélcio deu dignidade à CDL”21. Marcelo Salles atesta que teve “a difícil missão de sucedê-lo”22. Ser presidente após Hélcio Dias exigia uma atitude profissional

Transmissão de cargo de Estanislau Ventorim para Carlo Fronazier. 2010.


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para gerir a CDL, mas sem perder a ternura do companheirismo sempre existente na entidade. O escritório precisava contar com 80 colaboradores para dar conta de muitas demandas. “A velocidade das mudanças que ele imprimiu foi tão grande que tive que vir estruturando. Eu trabalhei muito esta parte interna e também a parte política, porque já tinha conhecimento desta área, por sempre participar da diretoria. Não tive dificuldade nenhuma de agregar muita coisa à entidade.” - relata23. A casa arrumada permitiu que a gestão de Estanislau Ventorim transcorresse com tranquilidade. Ele ocupou a presidência a partir de 2010 e contava com Carlo Fornazier como vice-presidente. “Quando assumi não tive dificuldade alguma”. Era dar continuidade à rotina implantada. “Tudo estava internamente funcionando, o quadro de funcionários estava todo acertado, todos nos seus devidos lugares, funcionando perfeitamente. A CDL já estava financeiramente sanada, não tinha problema nenhum com a parte financeira. Eu não encontrei dificuldade.”24 Seu grande desafio foi a realização da convenção nacional das CDLs, um grande esforço para receber convencionais de todo Brasil. Mais uma vez, apareceu o trabalho voluntário e comprometido dos membros da CDL Vitória. Cada um, a seu tempo e lugar, trabalhou em conjunto para apresentar ao Brasil um pouco das terras capixabas. Mas a CDL Vitória não espera pelo fim do carnaval. Fevereiro é um mês chave para a entidade, quando ela renova sua diretoria a cada biênio. Nas festividades de 10 de fevereiro de 2010, Estanislau passou o comando para Carlo Fornazier e sua diretoria. Carlo foi eleito para a gestão 2010-2012 e reeleito para um novo período 2013-2015. Entrou em um ano tranquilo, quando o mercado se via estável depois das injeções feitas pelo governo após a crise de 2008, quando estimulou o consumo interno pela redução de impostos nos produtos. O foco de Carlo Fornazier está numa gestão sustentável, criando mecanismos para que lojistas e clientes percebam esta nova realidade, como disse em seu discurso de posse. Também abordou a importância dos lojistas estarem atentos para

o grau de informatização dos negócios, pois agora até as certidões serão digitais25. Se as restrições de estrutura econômica levou o comércio a buscar alternativas na defesa do crédito, depois de quase 60 anos da iniciativa da primeira CDL do Brasil, o governo propôs a criação do banco de dados de clientes com o crédito positivo, por meio de medida provisória26. Sua lógica é beneficiar aqueles consumidores que pagam suas contas em dia. O resultado prático é dar-lhes taxas de juros menores em caso de financiamentos de longo prazo, dado seu bom histórico creditício27. Com isso, tende a existir maior oferta de crédito, pois se sabe ao certo quem são os bons e os maus pagadores, com o cruzamento dos dois tipos de banco de dados, o positivo e negativo. Mas estas informações só estão disponíveis com a autorização da pessoa. Todavia, a utilização dessa nova base de informação será um novo procedimento a ser aprendido pela CDL Vitória, no tocante a lidar com as especificidades desta base de conhecimento e de como criar instrumentos para o lojista. “A informação creditícia não ficou restrita ao positivo e ao negativo, é um mundo de possibilidade. O que nos ajuda a crescer mesmo com as limitações.”28 Este cadastro veio em boa hora, pois a conjuntura é favorável ao aumento do crédito, devido às políticas de consumo estabelecidas nos dois últimos governos, consequência da distribuição de renda. É a chamada “nova classe média”29. Com isso, o comércio precisa lidar com estes novos consumidores. No Espírito Santo, são 1.7 milhão de pessoas, diante de uma população total de 3.5 milhões de habitantes30. A política de consumo proporciona acesso aos bens, o que é bom. Muitos podem adquirir produtos para atender suas necessidades e garantir satisfação pessoal. Mas existe o imperativo de atentar-se a um efeito colateral: o endividamento em excesso. As pesquisas realizadas mostram que os consumidores querem produtos de qualidade, bem diferente do início da estabilização, quando o preço era o fator mais importante. Além do mais, querem ser


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bem atendidos nas lojas. Tal demanda faz com que a CDL alerte os empresários sobre essa nova realidade que surge no mercado31. Além da questão econômica, existe uma vertente cultural do consumidor, de questão geracional, a chamada “Geração Y”, nascida nos idos da década de 1980 e que busca constantemente por novidades, além de não possuir muito apegos. Está sempre na busca de experiências. Argumentos como “inovação”, “empreendedorismo”, “trabalho por objetivo”, “flexibilidade”, dentre outros, cativam sua atenção. São competitivos e individualistas. Tal geração nasceu e viveu o período do Brasil sem inflação. Assim, as intempéries da economia são relatos de livros. Além disso, a internet e todo o universo virtual sempre fez parte de suas vidas32.

Primeira reunião do Conselho Estadual do SPC. 2012.

Nas relações institucionais, a CDL insere seus esforços junto ao governo estadual para a racionalização dos impostos, uma questão que há muito é um dos maiores entraves ao empreendedorismo brasileiro33. Em consonância com esta realidade, o governador Renato Casagrande sancionou a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa34 para o Espírito Santo. Ela facilita e barateia o processo de abertura de uma empresa, por meio da desburocratização.35

Oc par

Na outra face da mesma moeda, o governo estadual trabalha na melhoria da defesa do consumidor, exigindo que o mesmo seja comunicado em 10 dias acerca de sua inclusão no banco do SPC36. Com o PROCON Estadual, a CDL Vitória assinou termo de parceria no investimento educacional para o consumo consciente, neste caso, divulgando os direitos dos consumidores, distribuindo cinco mil cartilhas no comércio municipal37. Visando vantagens para ambos os lados – lojistas e consumidores – a Câmara de Dirigentes Lojistas realizou campanhas para a renegociação de dívidas, permitindo que lojistas recuperassem parte de seu capital e dando possibilidade aos consumidores de terem seus nomes liberados para novos financiamentos. Essa ação é focada dentro de uma política educacional, para que haja controle na tomada do crédito.38

Com foco no consumo consciente e na liberação do nome no SPC, a CDL Vitória junto com bancos, financeiras e lojistas promovem a quitação de débitos com o cliente. 2013.

N e


comércio eletrônico é uma realidade que veio para ficar. A CDL Vitória facilita o acesso ra pequenos e médios lojistas a plataformas online.

Nova rodada do Planejar, evento que marca as reuniões com foco no planejamento estratégico da CDL Vitória.

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A Ação conjunta das Câmaras de Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica, no segundo semestre de 2013, no “Feirão Recupere seu Crédito”, permitiu que mais de 10 mil clientes pudessem quitar seus débitos e voltar a adimplência. Foram reunidas 45 empresas nesse esforço de renegociação. Dados do SPC mostram que há no Espírito Santo 2,1 milhões de pessoas registradas como inadimplentes; 537 mil pessoas é a média de devedores. Quitando seus passivos, de 48 horas a 5 dias, o SPC se compromete a liberar o nome do cliente na praça39. Por ser uma situação séria, ao mesmo tempo em que se preocupa com o empresário, a CDL também se interessa pelo cliente e pelos meios de alcance ao crédito. A pesquisa sobre endividamento e inadimplência do consumidor revelou que o cartão de crédito é o meio por onde 74.8% dos respondentes contraem dívidas40. A tecnologia da informação não deixou de ser uma preocupação. Como caminho irreversível, todos tiveram que aprender a lidar com ela. Todavia, é um universo em constante e rápida mutação. Da parte do governo, houve grandes investimentos. Agora, as certidões que o empresário necessita em seu negócio também serão digitais, chamadas de Certificação Digital. A CDL Vitória tornou-se uma “autoridade de registro”, um dos locais onde o certificado pode ser conseguido41. Do ponto de vista do consumidor, o comércio eletrônico continua avançando com grande força. O desenvolvimento desta cultura comercial é crescente, e cada vez mais as empresas tornam mais sofisticadas essa experiência, bem como as estratégias de segurança necessárias ao seu sucesso. O segredo está na agilidade para as entregas, como também na variedade da oferta, ao alcance de um click. As lojas virtuais concorrem com os lojistas físicos. Mas investir no negócio on-line requer grandes recursos. É empreendimento para grandes empresas, com alto capital. Mas é uma realidade com a qual o pequeno e micro empresário terão que conviver. É para


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a compreensão dessa rápida dinâmica que a CDL precisa atentar, a fim de auxiliar seus lojistas. Os consumidores são, em torno de 70%, da região sudeste e estão na faixa etária de 22 a 55 anos, pertencentes às classes A, B e C42. Logo, exigem que o atendimento nas lojas seja cada vez mais uma experiência agradável de compra, com foco na fidelização. Pois uma resposta negativa sobre um determinado produto não resultará em negócio fechado – a não ser que seja algo muito específico –, mas na possibilidade do cliente preferir chegar em casa e adquirir o produto via internet. Para dar acesso e exposição ao pequeno comerciante que visualiza seus produtos na internet, a CDL Vitória está atenta às possibilidades do mercado para associação em grandes portais ou soma de esforços em ações feitas pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas, para que os médios e pequenos lojistas possam se beneficiar do mercado aberto pela tecnologia43. As redes sociais tornaram-se aliadas, pois são “jornais virtuais da vida cotidiana” dos internautas. Por elas, é possível filtrar e relacionar gostos dos usuários, atendendo especificamente a ele e seu grupo. As promoções também chegaram no mundo virtual, com as compras em grupo, gerando alta demanda e proporcionando custos baixos. Para um melhor relacionamento com os associados, a CDL Vitória investe em constantes melhorias em seu site institucional, além de estar presente nas redes sociais. Ainda com o foco no relacionamento e ampliando a divulgação de seus serviços, também disponibilizou a rádio digital através do site. Por ela, os associados podem tomar nota do que a entidade está fazendo, além de saber rapidamente dos serviços e produtos disponíveis ao seu uso. Seguindo a cultura do planejamento, a CDL Vitória realizou o “II Planejar”, evento onde elabora-se o planejamento estratégico da entidade, agora até o ano de 2015. “O objetivo do encontro foi traçar estratégias e trabalhar aspectos que precisam ser aprimorados, como a representatividade da CDL, a responsabilidade social, ambiental e cultural.”44


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Datada de 22/06/2002, nos últimos parágrafos do discurso, fica explícito que o Partido dos Trabalhadores iria prosseguir com o que ficou conhecido como um “tripé” econômico: câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e sistema de metas de inflação. Estas medidas, junto com outras citadas no capítulo anterior, foram criadas no Governo FHC. No documento, são tratadas como criação do PT, e sugere-se que as questões econômicas não são reflexos de questões conjunturais e, sim, problemas da má administração do partido anterior, o PSDB. A partir dessa data a polarização entre PSDB e PT se concretiza. Para conhecer o documento na íntegra, ver: http://socialhistory.org/sites/default/files/docs/collections/carta_ao_povo_brasileiro.pdf, disponível no site do International Institute of Social History. Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse em 01/01/2003. Na mesma data assumiram novos governadores estaduais. Os novos mandatos do legislativo se iniciaram em março do mesmo ano. José Ignácio Ferreira foi eleito para o Governo pelo PSDB. José Carlos Gratz era o presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, que no período Paulo Hartung ficou politicamente enfraquecido. Paulo Hartung pertencia aos quadros do PSDB, que o preteriu para lançar José Ignácio como governador, em 1998. Isto fez com que deixasse o partido e tivesse uma carreira posterior passando por vários partidos. Chegou ao governo pelo PSB. Ignácio foi expulso do PSDB, mesmo sendo um dos fundadores do partido. Gratz foi preso em 2003, logo nos primeiros anos do governo Hartung. Atualmente está em liberdade. VENTORIM, E. Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 11 jun. 2013. Hélcio relatou em seu depoimento que as características da economia brasileira e capixaba nos anos 50 e 60 não permitiam que um empreendedor dependesse de um só negócio. Sendo assim, desenvolveu vários, na área de panificação (no início), caminhando para outros setores, como: alimentação em restaurante, hotelaria e outros. Já teve nove empresas em funcionamento simultâneo. DIAS, H. R. Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 03 mai. 2013. BARBOSA, M. S. Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 03 mai. 2013. DIAS, op. cit., nota 7. DIAS, op. cit., nota 7. DIAS, op. cit., nota 7. DIAS, op. cit., nota 6. Na época do depoimento, 2013, Hélcio Rezende Dias presidia a CDL Vila Velha. VENTORIM, op. cit., nota 5. BARBOSA, op. cit. nota 8. DIAS, op. cit., nota 7. DIAS, op. cit., nota 7. DIAS, op. cit., nota 7. BARBOSA, op. cit., nota 8. VENTORIM, op. cit., nota 5. BARBOSA, op. cit., nota 8. BARBOSA, op. cit., nota 8. BARBOSA, op. cit., nota 8. BARBOSA, op. cit., nota 8. VENTORIM, op. cit., nota 5. DIRETORIA vai unir exemplos de sucesso a novos projetos. Perfil Lojista, Vitória, ano VIII, n. 49, jan./mar. 2010, p. 5.


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Íntegra do projeto ver: BRASIL. Medida provisória n. 518, de 31 de dezembro de 2010. Disciplina na formação e consulta a banco de dados com informações de adimplemento, de pessoas naturais ou de pessoas jurídicas, para formação de histórico de crédito. Brasília, 31 dez. 2010. Disponível em: http://www.senado.gov. br/atividade/materia/getPDF.asp?t=86504&tp=1. Acesso em: 27 ago. 2013. CÂMARA analisa medida provisória que cria cadastro positivo. Perfil Lojista, Vitória, ano IX, n. 55, jan./fev. De 2011, p. 3. BARBOSA, op. cit., nota 8. A classificação segundo o Centro de Políticas Econômicas da Fundação Getúlio Vargas, considera a renda familiar de todas as fontes acima de: Classes A/B = R$ 4.807,00; C = R$ 116,00 a 4806,00; Classe D = R$ R$ 805,00 a 1115,00; Classe D = R$ zero a R$ 804,00. Dados estatísticos de 2009 dizem que há R$ 93,4 milhões de brasileiros dentro da Classe C, em um total de 188 milhões de habitantes. INSTITUTO JONES DOS SANTOS NEVES. Indicadores populacionais do Espírito Santo. Vitória/IJSN, disponível em: http://ijsn.es.gov.br/Sitio/index. php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=140&Itemid=123. Acesso em: 27 ago. 2013. NOVA classe média: saiba como atender aos desejos desse público. Perfil Lojista, Vitória, ano IX, n. 56, mar./abr. 2011, p. 5. GAZOLA, Janice Natera Gonçalves; SANTANE, Peri da Silva. Gestão, comportamento da geração Y. IN: XIII SEMEAD. Seminários em Administração. [Trabalhos apresentados], [S.l], set. 2010. DIRETORIA da CDL Vitória se reúne com secretário estadual da Fazenda, Perfil Lojista, Vitória, ano VIII, n. 50, abr. 2010, p. 4. GOVERNADOR assina mensagem para a criação da Lei Geral da Micro e Pequena empresa. SEDES. Vitória. Disponível em: http://www.sedes.es.gov.br/index. php/noticias/231-governador-assina-mensagem-para-criacao-da-lei-geral-estadual-das-micro-e-pequenas-empresas. Acesso em: 27 ago. 2013. CONFIRA os benefícios da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa. Perfil Lojista, Vitória, ano X, n. 61, p. 3. LEI estadual fixa prazo de 10 dias para aviso de inclusão de nome no SPC. Perfil Lojista, Vitória, ano X, n. 62, p. 3. CDL VITÓRIA e PROCON Estadual assinam termo de distribuição de materiais. Perfil Lojista, Vitória, ano IX, n. 59, set./out. 2013, p. 6. BARBOSA, op. cit., nota 8. FEIRÃO garante mais poder de compra em 2013. Perfil Lojista, Vitória, ano XI, n. 66, nov./dez. 2012, p. 5. POR facilitar demais a vida, ele pode te endividar. Perfil Lojista, Vitória, ano X, n. 64, jul./ago. 2012 , p. 4. CERTIFICADO digital conquista cada vez mais espaço. Perfil Lojista, Vitória, ano X, n. 64, jul./ago. 2012, p. 3. Quem é o e-consumidor brasileiro? Fique de olho! Perfil Lojista, Vitória, ano X, n. 63, mai./jun. 2012, p. 5. CONSUMIDORES aderem às novas tecnologias de pagamento. Perfil Lojista, Vitória, ano XI, mai./jun. 2012, p. 5. NO RUMO certo: caminhos traçados até 2015. Perfil Lojista, Vitória, ano X, n. 63, mai./jun. 2012, p. 4.


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Uma nova geração Filhos. Esta é a palavra que melhor remete ao conceito de geração. São um legado para a posteridade. São “como flechas nas mãos do guerreiro.”1 Representam continuidade, possibilidade de tornar-se perene em outros. O conhecimento popular diz que a preocupação com os filhos é por toda vida. Não importa a idade, se saíram ou não de casa, se estão com autonomia estabelecida ou não. Pais sempre dispensam alguma preocupação inerente ao seu papel. Considera-se o período de uma geração o tempo de 25 anos. Alguns estudiosos usam a referência de 20 anos. Assim, a CDL Vitória completa seu segundo ciclo geracional, em meio à geração denominada pós-moderna2, que cada vez mais tem buscado humanizar suas relações. Vários atributos pertencentes aos seres humanos são transferidos às instituições.3 Quando se diz que a CDL Vitória se preocupa em formar uma nova geração ou que a empresa acolhe sua segunda geração de líderes, isso significa que, embora somente pessoas possam efetivamente dar lugar à preocupação de formar alguém, pensando no futuro e planejando-o, a CDL se insere em um contexto atual de busca por instituições mais humanizadas, mais próximas das pessoas, não como um fim em si mesmo, mas como instrumento de uma sociedade melhor. O ciclo de vida de um ser humano pode-se dividir em quatro fases: nascimento e infância; adolescência; maturidade; envelhecimento e morte. A empresa passa por fases semelhantes, diferindo no quarto quesito, pois, com planejamento, pode-se prolongar indefinidamente sua fase de maturidade4. O amadurecimento das empresas brasileiras formadas ao longo do século XX, em conjunto com o processo de estabilização

econômica recente5, reforçou nas pautas do planejamento estratégico a temática da perenização das instituições. Apesar disso, continua sendo factível encontrar negócios que nascem e morrem com seus fundadores. Das mais de um milhão de empresas abertas em 2010, mais da metade eram familiares.6 Sobre elas recaem, a cada dia, no contexto do amadurecimento das instituições e da economia brasileira, o desafio da profissionalização dos seus fundadores, visando à continuidade.7 Podemos considerar essa mesma abordagem e princípio para pensarmos a respeito da CDL. As mudanças impetradas por Hélcio Rezende Dias trouxeram também a preocupação da renovação dos quadros. A realidade da informatização revelava que os mais jovens não encontravam dificuldade com esse cenário. Não só por esse motivo, mas também era preciso pensar a CDL Vitória enquanto entidade: quem seriam os próximos presidentes? A realidade mostrava que a idade média dos associados estava alta e era necessário encontrar alternativas. O impacto não era da tecnologia somente, e sim, do fator tempo8. Na convenção da cidade de Joinville/SC, os convencionais de Vitória presentes, junto com o presidente Hélcio, puderam ver uma experiência de CDL Jovem. Ali estava um instrumento, dentro do Sistema da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, capaz de promover uma renovação dos quadros. A criação de uma CDL Jovem em Vitória passou a integrar o planejamento estratégico9. Vinícius Ventorim é filho de um dos associados da CDL Vitória, Estanislau Ventorim10, que já refletia sobre as questões de sucessão em sua empresa. Vinícius buscava compartilhar experiências com outros jovens empreendedores que estavam na mesma situação, sendo preparados para o comando dos negócios familiares. Ele conta: “Minha história se cruzou com a história da CDL Vitória quando retornei do exterior. Estava fazendo MBA, tinha sempre o


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interesse de estudar sobre a empresa familiar […] Quando voltei do Canadá conversei com o meu pai e contei da minha vontade de formar uma associação de sucessores de empresas familiares. Eu disse a ele: ‘Olha pai, quando estiver lá na reunião da CDL, você pergunta quem tem filho trabalhando, para eu convidar para formar esta associação.”11 Em um mundo que dá muitas voltas, novos caminhos se cruzam. Foi nessa circunstância que os interesses mútuos se cruzaram. Hélcio Rezende retornou da convenção em Santa Catarina com um convite para participar de uma reunião da CDL Vitória. Naquela ocasião, compartilhou de seu interesse de ter um grupo de jovens empresários integrando a CDL, visando o futuro da entidade. Mas, inicialmente, alguns interesses pareciam contraditórios: “A princípio eu disse que não queria participar da CDL, porque na minha concepção era uma coisa de velho, de pessoa mais madura, para o meu pai. Não me sentia à vontade de participar como um jovem; estava com os meus vinte e poucos

anos.”, relata Vinícius Venturim.12 Até então, a CDL tinha a imagem de ser uma instituição formada por empresários maduros, somente para alimentar o cadastro do Serviço de Proteção ao Crédito. Pior, alguns pensavam que o SPC era uma instituição. Muitos não conseguiam relacionar ganhos institucionais, como o estacionamento no centro da cidade aos sábados, eventos promocionais, o enfeite da cidade no Natal, dentre outras ações, com os esforços da CDL. Tudo estava em transformação. Vinícius conclui: “O que eu não sabia é que, no planejamento estratégico da CDL Vitória, já tinha sido levantada a necessidade da continuação da entidade. Eles já enxergavam isso, que a turma já era madura e que precisava de renovação.”13 Hélcio Rezende levou Vinicius Ventorim a conhecer de forma mais densa a experiência da CDL Jovem, que era uma ideia nascida na CDL Belo Horizonte, sendo replicada em outras entidades pelo Brasil, com resultados positivos. A formação do grupo era um grande desafio, pois era necessário juntar todos os interessados. Mas Vitória possui uma característica singular, o fato de ser ilha. Assim, sua população é restrita, consequentemente, o número de estabelecimentos comerciais também. Logo, havia um pequeno número de pessoas do comércio em condição de agrupar-se. Seguindo uma lógica natural, a CDL Jovem deveria se formar com jovens empreendedores ou sucessores. Mas não foi essa a realidade encontrada. O sonho do Vinícius era ter uma associação composta por jovens de todos os segmentos. Sua visão coincidia com a de Hélcio, que sempre percebeu a melhor opção para o associativismo: ter o maior número possível de pessoas na mesma causa. Assim, ambos perceberam a necessidade de começar unindo todas as CDLs da Grande Vitória, como também pessoas de fora do setor de varejo. Devido à participação de Rezende na Federação das Indústrias, vários que comungavam do mesmo interesse se reuniram para as conversas iniciais. Dadas as especificidades institucionais,


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cada grupo buscou o seu caminho enquanto entidade, mas todos passaram a se apoiar mutuamente em questões convergentes. Assim, em 31 de agosto de 2004, foi oficializada a Câmara de Desenvolvimento Lojista Jovem Capixaba, seu primeiro nome, hoje Câmara de Desenvolvimento Lojista Jovem Vitória, tornandose um departamento da CDL Vitória, composta por jovens com idade entre 18 e 38 anos, com perfil empreendedor, pertencente ao comércio ou serviços diversos, podendo ser sucessores, sóciosproprietários ou colaboradores.14 Esta foi a maneira encontrada para agregar pessoas, abrindo o leque da associação.

Novos conceitos A CDL Jovem nasceu dentro de um novo paradigma empresarial e do mundo de gestão: o empreendedorismo e a sustentabilidade. Atualmente, as comunidades acadêmicas cada vez mais aperfeiçoam estudos e ferramentas para o antigo ato de empreender, e a vida profissional torna-se solidamente técnica. Não considerar tais ferramentas dificulta a ação empreendedora. Por outro lado, é preciso considerar o aspecto da sustentabilidade, que se apoia nas responsabilidades social, ambiental, cultural, política e econômica. Com essas duas novas vertentes, a CDL Jovem buscava caminhar no associativismo sob novas perspectivas, pensando o coletivo de forma mais abrangente, ampliando-se para além das fronteiras da CDL Sênior, como passou a ser chamada a frente mais antiga de associados.

Se até então as questões técnicas e de crédito eram utilizadas como argumento para atrair o empreendedor, essas mesmas questões não encontravam aderência no pensamento dos empreendedores jovens. Era necessária outra abordagem. A capacitação e a argumentação dentro do paradigma da sustentabilidade foram os caminhos naturalmente encontrados. Cada membro da CDL Jovem enxergava a entidade como algo complementar à formação acadêmica. Era a vivência do dia a dia dos negócios. O que a CDL Jovem podia contribuir para a formação do empreendedor era em relação à troca de experiências e à capacitação direta, ao trazer palestrantes de assuntos não tão explicitados no mundo acadêmico.15 A argumentação utilizada para atrair participantes estava na capacitação pessoal. Vinícius distingue: “Quando há eventos dessa natureza, ação social ou ambiental, é importante que tenha o envolvimento do associado, participando ativamente […] Até mesmo para poder atrair este jovem. Se digo: ‘vamos lá participar

A CDL Jovem ampliou os horizontes da entidade. O tempo exigiu transformações, e as respostas foram dadas. Ações e ensaios foram feitos, e a decisão rumo ao processo natural foi tomada: renovar a geração, mas sem perder de vista princípios caros à entidade. Quem ingressa na CDL por meio da CDL Jovem começa a trabalhar dentro do espírito que une a todos: o associativismo. Este é o primeiro movimento que todos precisam empreender. Na CDL como um todo, faz-se necessário colocar a mão no arado.

Leonardo Krohling e Vinícius Ventorim, pioneiros da CDL Jovem, responsáveis pela formação da entidade.


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desta entidade e defender os interesses da classe lojista’, aquilo não tem o mesmo encantamento para um jovem do que se eu disser: ‘aqui a gente faz ações de conscientização ambiental, social e de participação, que trazem benefício para a sociedade.”16 O projeto inicial chamava-se “1+1=3”. Cada presente nas reuniões tinha o propósito de convidar e trazer outra pessoa para a próxima. “Em alguns momentos estávamos eu e o Vinícius, mais ninguém.”17, lembra Leonardo Krohling, um dos pioneiros. A proposta de se envolver de corpo e alma, dedicando tempo e lançando desafios, era o atrativo. Como consequência, existia um amadurecimento pessoal. Não existia ninguém fazendo pelo grupo. As tarefas eram distribuídas, e cada um retornava com resultados no tempo determinado. Essa contingência formou o diferencial da CDL Jovem, a capacidade de realizar suas ideias. “Se é desenvolvimento de jovem, é desenvolvimento de jovem!”18 Mas as pessoas não vieram rapidamente, levou certo tempo. Além do mais, era necessário buscar referenciais. Existia uma carência de visão e propósito pautada no Sistema CNDL, que passava por um processo de transformação. A resposta a isso foi criar programas próprios e/ou buscar alternativas em entidades parceiras. Alguns projetos nasceram no interior da própria entidade, como “Pedalar para Respirar” e “Plantando Equilíbrio”. São projetos focados na conscientização. O primeiro aborda a necessidade de políticas públicas para a questão da mobilidade urbana, como também a questão ambiental, diminuindo a poluição promovida por veículos. O segundo projeto objetiva o plantio de árvores, para neutralizar emissões de gás carbono produzidos por atividades da própria CDL Jovem, até o ano de 2015. O desenvolvimento de projetos próprios, bem como o envolvimento de todos na sua realização, resultou no amadurecimento de cada envolvido. Todos os membros deveriam trazer ideias e sugestões. Quando acatadas pelo grupo, todos estavam comprometidos com sua realização. Com o tempo, a consequência era também o amadurecimento individual.19


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Ampliando as relações com entidades parceiras, a CDL Jovem entrou em contato com a Federação Capixaba de Jovens Empreendedores – FECAJE, de onde veio a ideia do “Feirão de Impostos”, uma conscientização sobre a carga tributária que incide sobre produtos, realizada em duas edições. Outro evento foi a “Semana Estadual do Jovem Empreendedor”20, realizada pela primeira vez em maio de 2009. Essa ação nasceu em resposta à iniciativa da Deputada Luzia Toledo, que propôs uma semana voltada para o tema. A primeira edição ocorreu em parceira com a CINDES Jovem, CREA-ES Júnior e FECAJE/CONAJE. Dentro do mesmo espírito empreendedor, a CDL Jovem realizou pela primeira vez no estado a “Semana Global do Empreendedorismo Brasil”21, um evento global da Kauffman Foundation, realizado no Brasil pela Endeavor Brasil e no Espírito Santo pela CDL Jovem. A edição brasileira de 2012 mobilizou mais de dois milhões de participantes, realizando 3.861 atividades, por meio de 553 parceiros.22 “A rede de relacionamentos expandiu muito […] Falamos isto para as pessoas.” - diz Vinícius. “Vocês poderão coordenar projetos, somos muito participativos, muito ativos. Não é que contratamos uma equipe de promotores para realizar o evento. Vamos lá, montamos tudo, distribuímos panfletos, conversamos com as pessoas na rua. É a partir daí que temos esse crescimento. Rede de relacionamentos, amadurecimento profissional, possibilidade de participar das convenções nacionais, assistir tantas palestras.”23 Os resultados vieram. A CDL Jovem Vitória, com a atitude de buscar bandeiras e ideais, serviu de norte e exemplo para a coordenação em nível confederado. Atualmente, existe um guia, um livro que conta e compartilha os projetos das CDLs espalhadas pelo Brasil. Caso todos venham a realizá-los e em datas iguais, conseguirão mobilização e representatividade em larga abrangência, mostrando uma nova fase da CDL, a da renovação. Três projetos da CDL Jovem Vitória foram premiados pela Confederação Nacional: Cliente Oculto, Plantando Equilíbrio

A CDL Jovem foca a sustentabilidade. O plantio de árvores para reduzir a emissão de gases; conscientização do consumidor quanto ao impostos e pedalaço para mobilidade urbana.


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e Pedalar para Respirar. A premiação recebe o nome “Márcio Meneguelli”, uma homenagem àquele que fez parte da primeira diretoria da CDL Jovem Vitória.24 À medida que a entidade foi se estruturando, as pessoas aderiram ao movimento, sempre com o diferencial da abertura para comércios e serviços. É um grupo misto, mas coeso, “tem uns três ou quatro que são empregados de empresas, outros três ou quatro são estudantes. Tem um grupo de profissionais liberais: engenheiros, arquitetos, advogados, que teoricamente não são do comércio. Podem ser associados à CDL Vitória, mas não estão ligados ao comércio. Não conseguiríamos nascer, se não houvesse essa flexibilidade […] Então, dizemos que representamos os jovens empreendedores.”25 - disse Vinícius. Os projetos da CDL Jovem são diversos: Pedalar para Respirar, Plantando Equilíbrio, Cliente Oculto, Dia da Liberdade de Impostos26, Semana Estadual do Jovem Empreendedor, Semana Global do Empreendedorismo, Não Morra no Trânsito e Manhã de Negócios CDL Jovem. São voltados para o público mais jovem, não só de associados da CDL, e são ações que atraem o jovem empreendedor. As confraternizações fazem parte da cultura da CDL, um bom hábito que se pereniza entre os jovens. Na festa de fim de ano, é escolhido um participante da CDL Jovem para receber o “Prêmio Jovem Líder do Ano”, ganhador do troféu Márcio Meneguelli. A escolha é feita por votação entre os membros da entidade, reconhecendo aquele que se destacou, valorizando competência e dedicação.27 Mas existe um resultado também de importância interna para a CDL Sênior. Nos 50 anos da CDL Vitória, comemoram-se os 10 anos de atividade da CDL Jovem. Colhem-se os resultados plantados num passado recente. “A CDL Jovem veio com o intuito de oxigenar, de criar jovens lideranças que estejam interessadas por esta entidade e que tenham a bandeira do associativismo para levar adiante, que tem que ser o primordial desta entidade, de fazer

Conscientização do consumidor quanto aos impostos e os ex-presidentes, Renzo e Vinícius no Plantando Equilíbrio.


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Os presidentes da CDL Jovem: Leonardo, Adriano, Renzo e VinĂ­cius.


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as pessoas entenderem que o associativismo é até mais importante que a empresa delas, do que a própria CDL, o sentimento de grupo. O que a CDL Jovem fez e que mudou bastante a CDL Sênior foi trazer um pouco de informalidade para as reuniões, de ser mais amigo, estar mais junto, construir isso foi muito bom. Ela trouxe um dinamismo maior […].”28 Entretanto, a credibilidade da CDL Jovem veio com o tempo. Um ponto positivo foi a capacidade de realização. Outro foi o compromisso com o incentivo de abrir novas CDLs Jovens nas câmaras já existentes no interior. Era um difícil trabalho, pois se fazia necessário ganhar a confiança do presidente e depois achar jovens interessados em cada cidade, capacitando-os para dar continuidade com autonomia.29 Assim, nas oportunidades que surgiam, os membros da CDL Jovem eram designados a participar representando a Câmara de Dirigentes lojistas de Vitória, ouvindo e sendo ouvidos. Exemplo disso são os assentos nos conselhos de outras entidades. Eles não estão lá como CDL Jovem, mas como CDL Vitória, conquistando autoridade, com responsabilidade.30 Esses jovens estão mudando o perfil da CDL. “Sempre que tem um projeto diferente, eles [da CDL Sênior] dizem: ‘Vamos pedir para a CDL Jovem tocar’. Exatamente por causa dessa nossa força e potencial de execução. Arregaçamos as mangas e fazemos realmente.”31, aborda Vinícius. E sempre foi assim. Desde o início os mais jovens foram convidados para participar das decisões, com liberdade para opinar. A CDL Jovem ganhou um assento na diretoria executiva da CDL Sênior. É a forma natural de transição criada dentro da entidade. É o caminho viável de renovação que já se iniciou. Leonardo Krohling foi o primeiro indicado pela CDL Jovem para representá-la na CDL Sênior. Outra abordagem recente é a mudança de postura diante da representação política. Antes, a CDL Vitória demonstrava seus

interesses, mas mantinha uma postura mais passiva. Atualmente, decidiu ser mais ativa na construção de políticas de defesa setorial. O resultado foi o convite de Leonardo Krohling para participar da equipe do Prefeito de Vitória Luciano Rezende, numa secretaria para assuntos tangentes ao empreendedorismo, uma postura participativa, direta e propositiva, não para excluir o interesse de outros, mas para incluí-los, dentro da lógica associativista, promovendo o interesse comum. Esse fato faz parte de um novo cenário, onde o brasileiro está gradativamente aprendendo a se interessar pela coisa pública.32 A sociedade começa a perceber outra CDL em processo: uma entidade que constrói outro ferramental para lidar com a nova sociedade que surge. Por meio dos Projetos da CDL Jovem, ampliou-se o leque de comunicação. A futura CDL Vitória não será mais o lugar de um cliente negativado em relação às suas compras, mas será o local onde o empresário receberá informação, onde seus interesses como cidadão serão acolhidos.

Empreendendo sob a áurea da sustentabilidade Outro braço com o qual a CDL conta atualmente para atender à comunidade de interessados é a Fundação CDL. Ela surgiu com o propósito de capacitação do empresariado e de seus colaboradores. Veio para suprir uma necessidade da época, de quando era necessário qualificar mão de obra. A fundação atuava junto com outras entidades, como o SENAC, por este ser especializado no ensino profissionalizante e possuir estrutura qualificada33. As atividades assistenciais também fazem parte de seu início, marca de um tempo de trabalho social voluntário no Brasil. Com os movimentos estruturais da entidade nos anos 2000, o foco da fundação centrou-se mais no empresariado. Naquela década, ocorreu um bom movimento social, que foi o emprego pleno, decorrente das melhorias na distribuição de renda no Brasil. Durante muitos anos, o comércio era o primeiro emprego


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de muitas pessoas34. Com a melhor distribuição de renda e o incentivo ao consumo, Vitória passa por uma realidade singular: a falta de mão de obra para atuar no comércio. O colaborador tinha interesse em se capacitar, pois percebia a qualificação como diferencial e maneira de ascensão na carreira, seja na mesma empresa ou em novos postos de trabalho, em condições mais desafiadoras. A realidade do emprego pleno fez com que o empresário lançasse mão da pessoa interessada e disponível. Todavia, sem o mesmo foco na capacitação. A realidade educacional atualmente também afeta o segmento. Se na década de 1990 havia poucas faculdades, ocorreu recentemente uma explosão de vagas, com a abertura de muitas faculdades particulares na Grande Vitória, fruto de políticas de Ensino Superior no Brasil. A Universidade Federal não consegue atender à demanda de vagas, então, a clientela interessada se encaminha para as instituições particulares. Assim, muitos já chegam ao Ensino Superior com certa defasagem de idade, mas com alguma experiência no mercado de trabalho. Em outros casos, tal política também proporciona que as opções de emprego ocorram ao longo do curso, que deixa de ser a porta de entrada para o primeiro emprego somente ao término do curso. A Fundação CDL hoje proporciona ciclos de palestras para o empresariado, dentro da realidade específica do comércio de Vitória, como também atende e direciona o empresário que começa sua carreia, uma vez que o grande público da CDL Vitória é o pequeno e o micro empresário. Lourdes Ferolla, que foi também responsável pela Fundação, diz que tudo tem o seu tempo certo35. Uma vez que as questões de responsabilidade social e ambiental são mais atendidas pela CDL Jovem, isso proporciona um tempo de amadurecimento da entidade para que, em um futuro próximo, possa iniciar o processo de fortalecimento da Fundação CDL dentro dos novos propósitos e paradigmas que são estabelecidos pela entidade a partir da gestão de Hélcio Rezende Dias.

Sede da Fundação CDL, focada na capacitação do lojista de Vitória.


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Um espaço também feminino A mulher também está integrada nesse tempo de transformação. Foi-se a época da subserviência e das Amélias. Mulher de verdade é aquela que está ao lado do homem, compartilhando a tomada de decisões. O mundo empresarial ainda continua focado no trabalho masculino, mas aberto à mulher. Se olharmos para o passado, veremos que estamos em uma caminhada gradativa e positiva, onde cada vez mais a participação de qualquer gênero ganha tratamento igualitário. Já é comum ouvir sobre grandes executivas em multinacionais, como também de importantes empreendedoras. Sem contar, claro, que temos uma chefe em comando na cadeira do Executivo nacional. No Espírito Santo, são mais de 25 mil mulheres empreendedoras. Estatísticas do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) demonstram que, dos 21 milhões de líderes no Brasil, 49,3% são mulheres, com projeção de atingir 51% dos líderes e 49% da população economicamente ativa em 202036. Atualmente, o movimento de expansão se diferencia ainda mais. A CDL Vitória e a CDL Jovem têm buscado a cada dia mais a participação de empreendedoras, para pensar os rumos do comércio de Vitória. A CDL Jovem, em especial, estabeleceu uma meta de aumentar cada vez mais a participação feminina na entidade37, e este projeto é tão relevante que se tornou meta interna geral. Na Convenção Nacional das CDLs, o tema já é abordado, incluindo uma premiação para a mulher empreendedora38. Contar com a presença de empreendedoras é abrir-se para novas oportunidades, ampliar o horizonte e integrar necessidades, para balizar melhor o mercado. Isso não significa se limitar a negócios voltados para o público feminino, mas interessar-se pela mulher como cidadã. É ir a níveis mais profundos, percebendo suas especificidades, desejos, vontades e finuras. A empresária Silvana Fardin Borgo atesta que a mulher está atenta às grandes transformações e por isso precisa ser considerada no meio

empreendedor. A empresária está filiada à CDL há 13 anos e diz que fez isso por considerá-la uma entidade séria39. A pesquisa de Marie Suzuki Fujisawa, autora do livro “‘Das Amélias às mulheres multifuncionais - a emancipação feminina e os comerciais de televisão’, constatou que as mulheres são responsáveis por 72% do poder de decisão de compra, inclusive em segmentos que antes eram exclusivamente masculinos, como o de veículos”40. Os homens devem a elas o bom senso, pois elas são “seus radares”. Para liderar a CDL Vitória, a diretoria conta com a participação de três mulheres: Lourdes Ferolla, Claudia Regia Gobbi Martins e Maria Elisa Mazoco Zanotti. Lourdes relata que veio para a CDL por um convite do Hélcio Rezende: “Eu nem o conhecia pessoalmente, mas ele enviou uma pessoa para me convidar para integrar a CDL Vitória.”41 A CDL Jovem também contou com Keila Amorim42 e Eliane Perim em sua diretoria. É atraindo mais integrantes e novas perspectivas, que a CDL completa o seu cinquentenário, buscando renovar e envolver outros atores administrativos e novas pautas sociais voltadas para o aspecto coletivo, no que se refere às questões da diversidade e de gênero, valores baseados no legado de seus fundadores, um pilar a ser levado em conta permanentemente na instituição, também nas gerações futuras.


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F贸rum sobre a mulher empreendedora, realizada na 50陋 CNCL, realizada em Vit贸ria. 2009.


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1

Salmos 127:4.

São chamados pós-modernos aqueles que nasceram após a década de 1960, apesar de não existir uma data específica. A pós-modernidade caracteriza-se pelo questionamento dos valores e estilo de vida proposto pela modernidade, que são baseados nos princípios da ciência e da indústria. A pós modernidade recupera questões relacionais e espirituais. 2

3

Quando instituições corporificam ações que competem somente aos seres humanos, damos a isso o nome de “potestade”.

FUIZA, C.; MATTOS, M.; SAVOIA, F. Ciclo de vida e renovação em empresas familiares. Grandes Empresa & Pequenos Negócios, São Paulo, Disponível em: http://revistapegn.globo.com/Revista/Common/0,,EMI297883-17141,00-CICLO+DE+VIDA+E+RENOVACAO+EM+EMPRESAS+FAMILIARES.html. Acesso em: 14 ago. 2013. 4

5

Período compreendido após as reformas econômicas estabelecidas no Brasil em 1994 com o advento do Plano Real.

Empresa familiar é aquela cujo capital social pertence a uma mesma família, em que o patrimônio construído é transmitido de geração a geração. FIUZA, op. cit., nota 3. 6

7

Ver a pesquisa feita em 2010 pela PricewaterhouseCoopers sobre as empresas familiares no Brasil.

8

KROHLING, L. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 08 ago. 2013.

9

DIAS, H. R. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 03 mai. 2013.

Estanislau Ventorim foi presidente da CDL Vitória na gestão 2008/10. Vinícius, seu filho, foi o primeiro presidente da CDL Jovem Capixaba. Ambos dirigem a Politintas. 10

11

VENTORIM, V. L. Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 9 mai. 2013.

12

Ibidem.

13

Ibidem.

14

CÂMARA DE DESENVOLVIMENTO LOJISTA JOVEM VITÓRIA. Conheça a CDL Jovem Vitória. Vitória: CDL Jovem Vitória, [s.d], f. 6.

15

KROHLING, op. cit., nota 8.

16

VENTORIM, op. cit., nota 11.

17

KROHLING, op. cit., nota 8.

18

VENTORIM, op. cit., nota 11. Ver também: KROHLING, op. cit., nota 8.

19

KROHLING, op. cit, nota 8.

20

Sobre uma das edições: http://www.cdljovem.org.br/mostra_ultimas.php?id=2228

21

Mais informações, ver o site: http://www.semanaglobal.org.br

22

Os dados estão no hotsite http://www.semanaglobal.org.br

23

VENTORIM, op. cit., nota 11.

24

Marcio Meneguelli faleceu em um acidente rodoviário.

25

VENTORIM, op. cit., nota 11.

O Dia da Liberdade de Impostos substituiu o “Feirão dos Impostos”, por ser um programa criado dentro do sistema CDL e por conter uma perspectiva mais próxima dos interesses institucionais. 26

27

CDL JOVEM VITÓRIA, op. cit., nota 14 e KROHLING, op. cit., nota 8.

28

KROHLING, op. cit., nota 8.


110

29

KROHLING, op. cit., nota 8.

30

KROHLING, op. cit., nota 8.

31

VENTORIM, op. cit., nota 11.

32

KROHLING, op. cit., nota 8.

BOZI, I. X. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 10 jun. 2013. O SENAC está ligado à Federação do Comércio do Espírito Santo e faz parte do “Sistema S”- SESI/SENAI – Serviço Social da Indústria e Serviço Nacional de Aprendizagem da Indústria; SESC/SENAC - Serviço Social do Comércio e Serviço Nacional de Aprendizagem do Comércio; SEST/SENAT - Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte; SENAR - Serviço Nacional de Aprendizagem da Agricultura; SESCOOP - Serviço Nacional de Aprendizado do Cooperativismo; e SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. 33

34

BARBOSA, M. S. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 03 mai. 2013.

35

FEROLLA, L. Depoimento ao Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 8 ago. 2013.

36

CDL Jovem. Perfil Lojista. Vitória, ano X, n. 64, jul./ago. 2012, p 7.

37

CDL Jovem. Perfil Lojista. Vitória, ano VIII, n. 50, abr. 2010, p. 7.

38

NÃO fique de fora da 51ª Convenção do Comércio Lojista. Perfil Lojista. Vitória, ano VIII, n. 51, mai.-jun. 2010, p. 6.

39

A MULHER quer sempre novidades, novas tecnologias. Perfil Lojista. Vitória, ano VIII, n. 51, mai.-jun. 2010, p. 8.

40

MULHERES são detalhistas e querem produtos de qualidade. Perfil Lojista. Vitória, ano VIII, n. 52, jul.-ago. 2010, p. 5.

41

FEROLLA, op. cit., nota 35.

42

CDL Jovem. Perfil Lojista. Vitória, ano VIII, n. 52, jul.-ago. 2010, p. 7.


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Na vitrine, os próximos 50 anos “Fui engraxate.” “Ajudei minha mãe na roça.” “Fui empregado numa loja.” “Estagiei de graça.” “Comecei a trabalhar com o meu pai.” “Passei no concurso.” “Sempre trabalhei numa empresa familiar.” “Tive que empreender meu próprio negócio.” Essas foram as respostas de empresários comuns, para uma simples pergunta: qual foi a sua primeira experiência de trabalho? As respostas explicitam a alma, destroem o pensamento de que ser empresário é um caminho de rosas. Não, não é. Ser empresário é optar pela luta. É preocupar-se com os outros e depois consigo, afinal, tantos dependem de um empresário. E quem luta o bom combate, espera terminar a carreira aprovado. “A felicidade tem um gosto de vitória, feliz a cidade que pode se chamar Vitória.”1 O músico João Alexandre retrata a alma capixaba, singela homenagem de um paulista amante do Brasil. Seu trocadilho não soa em vão, se pensarmos na CDL Vitória, diante de tantos revezes vividos. Cada pessoa que se juntou à entidade trouxe consigo suas marcas, marcas de um tempo em rápida transformação. Pessoas que, como qualquer um, têm sonhos. Pessoas que, como poucos, sonharam com o coletivo, com a nobreza de pequenos atos. Viver a CDL é viver o coletivo. Não dá para ser diferente. Num mundo individualista, a entidade grita na contramão, dizendo que

pessoas fortalecem pessoas, comunidade sadia gera bons relacionamentos e bons relacionamentos fortalecem o caráter de todos. A troca de experiências amadurece e encurta caminhos. Viver em comunidade é viver sob constante suporte mútuo. Isso é fundamental, pois o ser humano é relacional em sua essência. A CDL Vitória viveu um longo ciclo desde sua formação em 1964. Transformou-se, como o Brasil. Sendo uma entidade enxuta, trabalhou com precisão dentro de uma meta; sendo um clube de serviço, se preocupou em criar uma estrutura própria para a concessão e retorno do crédito dado ao cliente. Estamos falando de uma época onde não havia mecanismos legais para normatizar empréstimos, nem crédito disponível, a não ser aquele que o próprio empresário concedia. Logo, trabalhar em equipe era uma forma de inovar. A segunda metade do século XX foi marcada por grandes alterações de todas as ordens. Os movimentos sociais da década de 60 questionaram o capitalismo selvagem. Não era possível fazer com que as pessoas consumissem de forma desenfreada. Da mesma maneira, não era possível que os recursos naturais fossem exauridos em função dos interesses de grandes grupos industriais. O ser humano voltava à pauta. Os ganhos promovidos pela ciência e pelo mundo dos negócios eram reconhecidos, mas um equilíbrio se fazia necessário. O fim da dualidade entre capitalismo e comunismo como paradigma político-econômico ajudou a explicitar as dificuldades do capital. Houve grandes privatizações nas duas últimas décadas em todo o mundo, bem como a formação de grandes grupos empresariais. Mas o capitalismo rendeu-se às políticas socioambientais, investindo e promovendo-as, pois reconheceu que sua sobrevida estava também nesse caminho. A ciência da informação ganhou


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cada vez mais espaço, impulsionada pelas transformações na comunicação. A internet, um espaço livre, entrou na vida de todos. Logo, vemos que a CDL não se constituiu somente em resposta a uma necessidade pragmática momentânea, mas também se encaixou em um contexto em plena modificação, trazendo questões subjetivas para o ambiente empresarial, como o associativismo, o trabalho em equipe, as responsabilidades social e ambiental. Hoje, como seus associados a enxergam? Eis alguns depoimentos: “A Câmara de Dirigentes Lojistas é o principal órgão representativo dos lojistas de Vitória, promotor do comércio e, consequentemente, exerce um papel relevante no desenvolvimento sustentável da nossa região. É uma entidade agregadora, e presta bons serviços aos seus associados.”2 “Ser filiado à CDL Vitória é importante por causa da credibilidade da instituição e dos serviços que a câmara presta aos associados.”3; “A CDL Vitória fornece ferramentas importantes para os lojistas, como os cursos de aperfeiçoamento, as consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), além da pesquisa sobre o perfil do consumidor, hábito de compras e perspectivas de mercado.”4 “A importância de estar associado a uma entidade de classe é poder discutir os problemas e participar das soluções. Quando você está integrado aos demais lojistas, passa a ter acesso a conhecimentos de outros segmentos.”5 Nestes primeiros anos do século XXI, a maneira de compreender a sociedade, também do ponto de vista dos empreendimentos, apresenta mudanças marcantes. Não se considera que aconteceram apenas transformações nas estruturas dos negócios e na condição dos produtos. Hoje há uma nova mentalidade a respeito dos princípios básicos envolvidos em qualquer empreendimento, tomando por base, principalmente, os atores envolvidos nos processos empreendedores. Essa nova visão de mundo transforma os meios que utilizamos para agir sobre a realidade. Dentro dessa perspectiva, estão os desafios para constituir uma nova geração na CDL. É preciso novas abordagens, novas maneiras de impulsionar o associativismo va-


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rejista. Ao olhar para as diversas experiências, próximas ou em outros países, percebe-se que todos os gestores estão construindo ferramentas diferentes para ingressar em uma nova cosmovisão. Estanislau Ventorim, refletindo sobre as profundas mudanças dos tempos recentes, diz: “Costumo falar que tenho a felicidade de estar chegando nos 65 anos e conhecer a transformação de andar à pé, à cavalo ou de bicicleta, para depois andar de avião, usar a internet e se comunicar com o mundo tão rapidamente.”6 Hélcio também comenta: “As CDLs, como todas as entidades, terão que se reinventar.”7 Marcelo tem a seguinte percepção: “Concordo que chegou ao limite […] A empresa não pode ficar inserida somente em seu espaço físico. Ela tem que inserir a comunidade, até mesmo para as pessoas enxergarem ali um valor igual ao que enxergo na nossa entidade.”8 Lourdes Ferolla discerne o potencial interno: “Eu acredito que eles vão conseguir entender e formatar um serviço. E que esse novo empreendedor – eu não sei qual é, mas imagino - vai demandar algum serviço que a CDL vai poder prestar. Uma coisa bem inovadora, fora dos padrões, porque aí ela se destaca. Porque aqui dentro tem talento.”9 Leonardo Krohling aponta o diferencial: “O caminho é esse aí: pensar em fortalecer o associativismo sempre, com pensamento de grupo, o que será melhor para todos. Essa é a grande diferença da CDL para uma empresa normal. Trabalhar isso aí.”10 A Câmara de Dirigentes Lojistas mudou ao ritmo do tempo. E em qual tempo está hoje? No tempo de continuar prosseguindo para o alvo. Os gregos chamam de “kairós” aquele tempo que não se define, que não se agenda, como quando se fala: “Quanto tempo dura uma nova coleção?”; “Quanto tempo permanece uma cor da estação?”; “Por quanto tempo será aceito esse design?” “kairós” não é um tempo que cabe nas agendas de uma reunião, bastante distinto do tempo “kronos”, que é bem delimitado, com início e fim certos. Não definimos bem o começo dos “kairoi”, ou dos tempos, no plural, mas sabemos quando eles dão início. Da mesma forma, percebemos lentamente quando começam a entrar em declínio, até que se findam. Bons empreendedores aguçam a

percepção desses tempos que se transformam em oportunidades. Muitos falam de uma terceira fase que logo chegará ao fim na Câmara de Dirigentes lojistas, e ela está sendo curta. É a fase do preparo de uma geração, que trabalhará para um novo momento da história da CDL. Quando começará essa próxima etapa? Ou será que já começou? Vinícius Ventorim disse que se assustou ao relatar sobre os quase 10 anos da CDL Jovem: “Caramba, já se passaram 10 anos! Quando estiver falando para o livro de 60 anos da CDL, ela terá de ser uma coisa completamente diferente, não vai ter nada a ver com a CDL dos 40 anos, de quando entrei. A entidade, aos 50, já está bastante diferente, e a de 60 anos também será outra coisa.”11 Assim se faz o caminhar. Vitória, terra que muito encanta. Poucos conhecem e admiram essa ilha singular. Uma população rica e diversa. Afinal, somos mineiros, baianos, italianos, alemães, japoneses, americanos, chi-


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neses. Somos também lojistas, advogados, corretores, comerciários, comerciantes, trabalhadores, enfim, todos capixabas. João Alexandre termina sua canção assim: “É pura verdade: quando alguém nasce em Vitória já faz parte da memória do Brasil, da história do Brasil, da glória do Brasil… Vitória!”12 A Câmara de Diretores Lojistas mantém o foco nos próximos 50 anos de Vitória.


118


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1

SILVEIRA, J. A. da. Vitória do Espírito Santo. In: Voz, violão e algo mais. Campinas: [produção independente], 2002, 1 CD, faixa 14.

2

PAIS, F. D. O lojista, Vitória, ano IX, n. 58, jul./ago. 2011, p. 8.

3

VENTURIM, B. O lojista, Vitória, ano IX, n. 56, mar./abr. 2011, p. 8.

4

ASSAD, C. E. O lojista, Vitória, ano XI, n. 69, mai./jun. 2013, p. 8.

5

RAMOS, G. G. O lojista, Vitória, ano XI, n. 67, jan./fev. 2013, p. 8.

6

VENTORIM, E. Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 11 jun. 2013.

7

DIAS, H. R. Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 03 mai. 2013.

8

BARBOSA, M. S. Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 03 mai. 2013.

9

FEROLLA, L. Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 8 ago. 2013.

10

KROHLING, L. Projeto 50 amos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 08 ago. 2013.

11

VENTORIM, V. L. Projeto 50 anos CDL Vitória. 2013. Depoimento concedido a Cassius Gonçalves e Soraya Lyra. 9 mai. 2013.

12

SILVEIRA, op.cit., nota 1.


FICHA TÉCNICA CÂMARA DE DIRIGENTES LOJISTAS DE VITÓRIA Presidente de Honra Ismar Cândido Tomaz Presidente Carlo Fornazier 1º vice-presidente Cláudio Pagiola Sipolatti Vice-presidentes Carlos Antônio Marianelli Lourdes Ferolla Leandro Antônio Joaquim Dadalto Secretários Cleiton Ginaid de Souza Lesio Contarini Júnior Marcelo Abaurre Tesoureiros José Paulo Amorim Marcos Nader Getúlio Guides Ramos Diretores Ricardo Ribeiro Barbosa

Leonardo Krohling Eduardo Azevedo José Antônio Lopes Conselho fiscal Glauco Marinho Carlos Eduardo Assad Cláudia Regina Gobbi Martins Sebastião Sérgio Ventorim Eduardo Yuki José Ronaldo Campanha Diretor ex-Presidente Estanislau Ventorim Marcelo Salles Barbosa Diretor Suplente Helcio Rezende Dias Kleber Chieppe C. Silva Antonio César de Andrade Sérvulo Clermont Pivari e Silva Elias Cauerk Moisés Tamer Moussalem Leonardo Marcondes Dadalto Martinho Demoner Superintendente Orlando Rezende


Equipe Livro CDL 50 ANOS Flávia Lacerda Orlando Rezende Eliane Perin

Flaviane Rodrigues

Depoimentos Carlo Fornazier Estanislau Ventorim Gutman Uchôa de Mendonça Hélcio Rezende Dias Humberto de Freitas Cosate Ilson Xavier Bozi Leonardo Caetano Krohling Lourdes Ferolla Leandro Marcelo Salles Barbosa Vinícius Lino Ventorim PRODUÇÃO EXECUTIVA E EDITORIAL LK Comunicação e Marketing

PESQUISA HISTÓRICA Projetos Consultoria

Direção Executiva Leonardo Ribeiro de Oliveira Editoração Gráfica Rômulo Sutil Corrêa Capa Márcio Nunes Condessa Araújo Assistente de Produção

Fotos Joacyr Azeredo

Supervisão Cassius Gonçalves Pesquisa Histórica Cassius Gonçalves Carolina Júlia Pinto dos Santos Soraya Lyra Pesquisa de Imagens Cassius Gonçalves Soraya Lyra Tiago do Val Texto Cassius Gonçalves Carolina Júlia Pinto dos Santos Revisão e Redação Final Silvana Pinheiro Impressão Grafitusa



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