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Budismo

A fascinante histรณria do Budismo conceitos, filosofias, escolas de pensamento e vertentes


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Prefácio

BEM-VINDO AO MUNDO DE SIDDARTHA GAUTAMA Neste guia especial iremos falar sobre o Budismo, desde seu surgimento em território indiano há 2500 anos, seus conceitos, filosofias, escolas de pensamento e vertentes, até os dias atuais. Contaremos a história de Siddhartha Gautama, fundador desta corrente filosófica ou religião ateísta, na qual não há uma divindade e, diferentemente das demais religiões ocidentais, onde há sempre um Deus onipresente, o responsável por sua evolução espiritual é o próprio indivíduo e sua acumulação de carma. Abordaremos também a prática do Budismo através da história, suas consequências, sua influência na cultura local, as dificuldades enfrentadas para que prática se difundisse em outros países e regiões do mundo, em especial no Brasil. O guia contará ainda a história e como é a prática do Budismo no país, quais são as correntes de pensamento predominantes, onde você poderá encontrar um templo para iniciar a prática e aprofundar seus conhecimentos nos ensinamentos de Buda. Descubra como a cultura budista se relaciona com temas ligados à rotina e costumes da sociedade como casamento, homossexualidade, o papel da mulher, a questão da morte, reencarnação e demais temas polêmicos que abrangem não só seus discípulos, mas também as diversas culturas nas quais essa corrente filosófica está inserida. Nas páginas a seguir, você vai conhecer os 14 Dalai Lamas do Budismo tibetano, saber sua origem e sua importância para a disseminação do Budismo e a influência de sua figura na história. E fechamos esta edição com dicas de filmes e livros para você se encontrar com as diversas práticas e ensinamentos budistas. Boa leitura.

Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Sumário

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Capítulo 1 BUDISMO: RELIGIÃO OU FILOSOFIA? O surgimento do Budismo e seu contexto histórico, as filosofias, dogmas, ensinamentos, escolas, vertentes como o chinês, japonês, tibetano.

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Capítulo 2

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A HISTÓRIA E OS ENSINAMENTOS DE BUDA A história de Buda, Siddhartha Gautama. Sua origem nobre em meio à pobreza do povo indiano, seus anos no palácio do pai, sua fuga e suas experiências espirituais que o levaram a se transformar no principal Buda da história.

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Capítulo 3 o BUDISMO nA HISTÓRIA A evolução da prática do Budismo através da história, desde seu surgimento no século VI a.C, passando pelo surgimento do cristianismo, Idade Média, iluminismo e chegando até os dias atuais.

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BUDISMO NO MUNDO A expansão do Budismo nos diversos países do mundo, mostrando como eles chegaram a esses lugares, sua introdução da cultura local e como são as práticas locais.

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Capítulo 4


Sumário

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Capítulo 5

Capítulo 9

BUDISMO NO BRASIL As principais escolas e vertentes e os principais centros e templos para a prática do budismo. Entrevista com Monja Coen: suas práticas, ideias e seus entendimentos sobre budismo e meditação.

CURIOSIDADES SOBRE O BUDISMO Tudo o que você sempre quis saber sobre o budismo e não tinha para quem perguntar.

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Capítulo 6

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PRINCIPAIS PRÁTICAS Como são as práticas e as particularidades das diversas escolas do budismo em cada região do mundo em que elas se encontram. Mapa com destaque para os principais países onde o budismo se encontra e qual a predominância de cada escola em cada país.

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Capítulo 7 BUDISMO & SOCIEDADE Como os conceitos do budismo influenciam no cotidiano das pessoas e como ele trata temas como casamento, homossexualidade, mulher, morte, reencarnação e outros polêmicos.

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ficha catalográfica

Capítulo 8 OS DALAI LAMAS DO BUDISMO TIBETANO Uma pequena biografia e feitos dos principais Dalai Lamas da história do Budismo, formação, curiosidades, por que se tornaram líderes, muitas curiosidades, conflitos que já enfrentaram, como é a prática diária deles e quais os seus ensinamentos. Guia Conhecer Fantástico – Budismo


Capítulo 1

o preceito milenar criado por Sidharta Gautama Desde seu surgimento, o Budismo se dividiu em vertentes e escolas diferentes Esse primeiro capítulo é dedicado a levar para o leitor uma visão geral e introdutória sobre o Budismo. Mostraremos contexto histórico em que vivia o povo indiano e que contribuiu para as primeiras experiências de elevação espiritual de Sidharta rumo à iluminação e que ajudaram na popularização da filosofia entre a população mais pobre do país, que na época estava acostumada com os conceitos e práticas Védicas, que faziam parte do Bramanismo trazido à região pelo povo ariano três séculos antes do nascimento do Budismo. Abordaremos também os conceitos que determinaram a prática do Budismo e permanecem até os dias atuais, como os quatro mundos da reencarnação, as três verdades absolutas determinas por Buda e como cada uma das escolas interpreta e prática os ensinamentos de Siddhartha Gautama.

6  Guia Conhecer Fantástico – Budismo


Budismo: religião ou filosofia?

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Contexto histórico

O nascimento da filosofia budista é datado em 563 a.C. e tem como marco inicial as revelações das experiências e ensinamentos passados por Siddhartha Gautama, o Buda Shakyamuni. Porém o seu surgimento não pode ser dissociado de todo o contexto histórico e social que passava a sociedade tibetana, que época pertencia ao território indiano. Aproximadamente 3 mil anos antes do surgimento do Budismo, em 2500 a.C., a região onde hoje se encontra Índia foi invadida pelo povo nômade indo-europeu conhecidos como Arianos. O povo ariano deixou o nomadismo de lado e se estabeleceu nas regiões de Punjab e Sindh, onde construiu os templos de Harappa e Mohenjo-Daro, dando origem ao Bharamismo. A religião trazida pelo povo persa era baseada no Veda, um conjunto de textos sagrados da cultura ariana que foi escrito entre 3 mil

e 3,5 mil anos atrás. Esses escritos sagrados eram dividios em quatro livros: Rig, Atharva, Sama e Yajur-Veda. Entre os principais conjuntos de normas, continham nesse livro dogmas como o incentivo à realização de rituais de sacrifício de animais para conseguir bênção dos inúmeros deuses do universo, como uma espécie de troca. A divisão da sociedade em castas também estava presente nas escrituras e serviu para a afirmação da casta dos Brahmins, que era considerada tirânica, com poderes e autoridade absolutas e indiscutíveis. Segundos os escritos Veda, a sociedade deveria ser dividida da seguinte forma: Brahmin (sacerdotes), Kshatriya (guerreiros), Vaishya (trabalhadores e comerciantes) a os Sudra (povos conquistados). Essa divisão permanece até hoje na sociedade indiana, dividindo a sociedade do país entre nobres e o povo.

Ainda segundo os dogmas dos Vedas, não havia o conceito de meritocracia ou elevação de espírito para conquistar uma vida futura mais próspera. Para eles, todo o contato entre os homens e os deuses eram feitos através dos sacerdotes e seus méritos para atingir uma vida futura plena eram medidos por meio da quantidade e da qualidade dos rituais de sacrifícios feitos a esses deuses, que eram julgados como bons ou ruins pelo critério estabelecido pelos sacerdotes. O dogma Vedas e o império bramânico se consolidaram na região onde hoje é a Índia há de 3 mil anos, ou seja, dois séculos e meio antes do surgimento da doutrina budista. Segundo relatos encontrados em livros de historiadores indianos, na região onde hoje se encontra Punjab há registros de ruínas, cinzas e esqueletos, um sinal que a chegada do povo ariano à região proveniente da Persa, onde hoje Irã, e da Europa, não foi das mais pacíficas. Guia Conhecer Fantástico – Budismo


Budismo: religião ou filosofia? Ainda de acordo com esses historiados, a colonização da Índia por parte do povo ariano, dos dravidianos e demais etnias que chegavam à região tem como marca principal a violência, não só física, mas também espiritual. Conforme iam conquistando novos territórios e subjugando seus adversários, esses povos, principalmente os Arianos, impunham a força suas concepções de sociedade, costume e suas rígidas regras religiosas como, por exemplo, a divisão da sociedade em castas, onde o povo dominado praticamente não tinha apoio e eram os menos importantes na nova estratificação social.

O período bramânico

gociação com os sacerdotes e desses com os deuses dessa religião. Outra mudança foi a adoção de uma realidade única universal possível, bem similar ao panteão dos deuses gregos. Essa mudança já era um sinal de que a sociedade indiana estava mudando, tanto que esses novos dogmas, contidos em novos livros chamados de Upanishads podem ser considerados as sementes da filosofia Budista. O Budismo e o Jaínismo são, em linhas mais gerais, releituras dos valores e dogmas impostos pelo Bramanismo que, apesar de dominante, já começava a entrar em declínio no território indiano. Entre os principais normas que as novas filosofias contestavam estavam as leis que colocavam o ser humano em extrema passividade em relação ao seu destino, que era decidido pela vontade de diversos deuses e dos poderosos sacerdotes, que se colocavam como únicos intermediários entre os mortais e as divindades.

O surgimento e os conceitos Budistas

O surgimento do Budismo se deu em meados do século VI A.C, mais precisamente no ano de 563. A início desta filosofia milenar está diretamente ligada a dois fatores: as mudanças da religião ariana que a tornaram mais flexíveis e as experiências pessoais de seu fundador Sidharta Gautama, o Buda, que significa: o iluminado. Antes de começar sua busca pela elevação espiritual, Gautama teve Shutterstock

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O período bramânico pode ser divido em três subperíodos históricos. O primeiro, logo após a chegada dos arianos é chamado de período bramânico ortodoxo (onde havia o predomínio dos sacerdotes), em seguida veio o período desviante e finalmente o período das heterodoxias. Foi neste último que se deu o surgimento do Budismo, jaínismo e do hinduísmo. Foi durante o período Bramânico, que durou dos séculos IX a III a.C. que Sidharta, ao sair do reino de sua família e ao constatar o sofrimento que afligia os seres humanos decidiu buscar uma resposta espiritual para superar esse sofrimento. Foi então que ele percebeu, ao entrar em contato os sacerdotes Brahmins, que não estava ali a resposta que

procurava para a cura do sofrimento humano e decidiu buscar a elevação espiritual por conta própria. O povo ariano, que era predominante na região era considerado um povo autoritário, individualista e relativamente não muito grande, porém com a adoção da força e do sistema de castas determinados nos escritos Vedas, conseguiram dominar e controlar a população das regiões onde chegavam e conseguiam, através do terror, se apoderar das terras da população local. No momento histórico em que o Budismo surge, o império Bramânico já se encontrava em declínio, porém não menos violento. Por causa de seu passado bélico, os arianos desenvolveram modernas técnicas de forja e moldagem de metais, o que lhes permitia fabricar armas de guerra como punhais e facas em larga escala, tornando qualquer embate cruel e extremamente sangrento. Somase a isso, a excessiva matança de animais para os rituais védicos que eram feitos cada vez com mais frequência. No final do período bramânico, já na fase de heterodoxia, os livros de ensinamentos da literatura védica haviam sofrido uma grande transformação, pois as novas interpretações das escrituras passaram que a cogitar a salvação do indivíduo poderia ser alcançada através de méritos e evolução próprios, o que era uma revolução para a época, afinal até então qualquer chance de salvação ou redenção teria que passar por uma ne-

Templo Bramânico em Punjab, na Índia

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Budismo: religião ou filosofia?

Representação do momento de meditação de Buda, em busca do Nirvana

prestes a morrer e um corpo de morto abandonado. A partir de então ele decidiu renunciar às riquezas de sua vida palaciana e ao seu futuro como rei de Sakia para buscar a verdade da vida. Foi

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uma vida de luxo dentro do palacete do reino de Sakia - uma pequena tribo localizada na região onde hoje é o Nepal. Ele foi criado dentro dos muros do reino, sem contato com o mundo exterior, pois seus pais o queriam que ele se tornasse o sucessor ao trono do reino. Por isso ele contou com a superproteção da família, que fazia questão de evitar que ele tivesse qualquer contato com a realidade do mundo para além dos muros do reino. Durante um passeio fora dos limites do reino, Gautama teve seu primeiro contato com o mundo exterior. Foi nesse momento que ele teve três visões que o fizeram acreditar que o sofrimento era uma das verdades absolutas da vida. Esses três choques de realidade foram: ver um mendigo, um velho

Mapa do Nepal, onde nasceu Sidharta Gautama, o fundador do Budismo

então que ele abdicou suas vestes reais e passou a usar roupas velhas, entregou sua espada a um criado e iniciou a procura pela evolução espiritual com os sábios monges ascetas das montanhas do Nepal. Neste momento sinaliza sua adoção às práticas de não violência, uma das bases do Budismo. Sidharta se tornou discípulo do mestre Atara Kalana, um sábio que lhe ensinou a meditação de ioga, por meio do qual ele chegou ao estágio de evolução conhecido como “região do nada”. Não convencido da metodologia de seu mestre, Gautama buscou a orientação de outro sábio, o mestre Uddaka Ramaputra, que o ajudou a atingir um alto grau de concentração e percepção da vida. Porém, mesmo atingindo um grau elevado de evolução espiritual, ele resolveu por si próprio buscar o caminho da evolução espiritual plena e com mais cinco discípulos partiu para a floresta de Uruvilva, onde passou seis anos em praticamente total ascetismo (jejum). Gautama acreditava que só conseguiria atingir o nível máximo de elevação e superar a dor e o sofrimento por meio da mortificação material de seu corpo, por isso ele adotou a prática do faquirismo para atingir seu objetivo. Durante esse período, segundo a história do Budismo, ele recebeu a visita de Mara, a deusa dos prazeres, que teria lhe tentando a quebrar o jejum em troca de ter todos os prazeres que o ser humano poderia sonhar, porém sem sucesso. A figura da deusa dos prazeres é similar à figura da cobra que enfeitiçou Adão e Eva, na mitologia cristã. Após longos seis anos de faquirismo extremo, ele percebeu que a busca pela mortificação extrema do corpo não era um caminho válido na busca da elevação espiritual e que o levava pelo caminho da vaidade pessoal e criava nova forma de aprisionamento. Foi então que ele abandonou o caminho do extremo e decidiu adotar o caminho do meio, que tem como virtude o equilíbrio, ou seja, na crença dele o meio termo era o melhor caminho para se ter uma mente tranquila que permita a evolução. Foi nesta época que ele, sentado sob uma arvore, atingiu a elevação máxima de seu espirito, a iluminação. Que também é conhecida como Budato Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Budismo: religião ou filosofia? referência de comportamento e normas de convívio. A partir de agora veremos mais detalhadamente os conceitos e características que permeiam a prática da filosofia budista.

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Conceitos do Budismo

Arte que representa Buda passando seus conhecimentos a seus seguidores

e significa que o indivíduo superou todos dos carmas na escala evolutiva da vida. Começa aí a surgir o Budismo. 10

Peregrinação

Depois de ter compreendido os significados da vida terrena e caminho correto para a evolução espiritual, Sidharta deixou seu estado de meditação e iniciou uma peregrinação pelo território indiano para divulgar seus conhecimentos para os novos seguidores, dando início às bases teóricas do que conhecemos como Budismo. Durante suas pregações, o agora Buda, sempre afirmou não se tratar de uma divindade, mas sim um emissor da Verdade e da Paz, um mensageiro que esclareceria os significados da vida através da sabedoria adquirida. Segundo os conceitos ensinados por Buda, diferentemente das religiões ocidentais onde o enfoque é em um Deus absoluto, no Budismo o foco da evolução rumo à plenitude espiritual são as experiências que próprio ser humano enfrenta. Entre os ensinamentos de Sidharta que são considerados a base de toda a filosofia do Budismo, estão as quatro verdades sagradas: A verdade é que o viver é sofrer; o sofrimento tem suas origens nos desejos do ser humano; é possível eliminar o sofrimento se forem eliminados os apegos e desejos; para eliminar o sofrimento é preGuia Conhecer Fantástico – Budismo

ciso seguir as oito vias nobres, também conhecido como nobre caminho óctuplo. Além destas verdades, os praticantes da filosofia budista acreditam em reencarnação como meio para atingir a evolução espiritual e na existência do carma, quer seria uma espécie de experiências acumuladas em vidas anteriores. Após a morte de Buda, seus seguidores organizaram o chamado Primeiro Concílio Budista, que contou com aproximadamente 500 membros. Essa reunião dos seguidores de Sidharta serviu para organizar, de forma escrita, todos ensinamentos e práticas que Gautama os transmitiu de forma oral durante suas peregrinações. Esses conjuntos de escrituras com os conhecimentos de Buda é conhecido como Dharma. Dentro desses conjuntos de normas, constam os discursos de Buda que são denominados como Sutras. Séculos depois desta primeira reunião entre os seguidores de Sidharta Gautama, houve um segundo concílio, realizado na cidade de Vaishali, onde foram instituídas as duas principais correntes de interpretação dos principais ensinamentos de Buda. A primeira delas é a dos Theravadins, que pautam suas intepretações no Cânone Páli, o livro que contém as diretrizes para a prática da filosofia e os Mahayanistas, que adotaram os sutras de Gautama como

O conceito do Budismo se baseia na visão em que tudo é ilusório, transitório e, portanto, não permanente. A busca das pessoas que seguem a filosofia é superar os sofrimentos inevitáveis por meio da evolução espiritual, que busca da perfeita consciência do que é a vida. Esse estado de elevação espiritual plena é conhecido como Nirvana, ou também o caminho do meio, pois afasta o ser humanos dos extremos, que, segundos a crença budista, é o que leva o ser humano a permanecer em estado de sofrimento. Esses extremos são representados pelo luxo ou ascetismo excessivo, como vimos na trajetória de vida de Sidharta Gautama. A visão filosófica-religiosa do Budismo é muito diferente da que encontramos nas principais religiões ocidentais. Se no cristianismo, judaísmo e no islã a figura de um Deus absoluto e onipresente é primordial para a prática dessas religiões, na filosofia de Buda, os deuses tem um papel secundário. Pois, apesar de ocuparem o topo da linha evolutiva, eles não têm influência nas práticas dos seus seguidores. Na visão de Gautama, ficar preso as designações dos deuses o afastava do caminho de evolução rumo ao conhecimento pleno até o Nirvana. A evolução é uma prática que deve ser feita estritamente pelo ser humano, como forma de melhorar seu carma. De acordo com o livro de Coogam (2007), Buda nunca negou a existência de Deuses e anjos, porém, para ele, essas divindades têm pouca influência na condição humana e não podem influenciar de forma direta a busca pelo caminho do autoconhecimento pleno das pessoas que seguem essa filosofia. Pois como todos os mortais, os deuses estão apenas cumprindo um ciclo evolutivo em um nível superior dentro da crença da reencarnação. Para Buda, tanto deuses como demônios não representam um perigo para a existência humana,


Budismo: religião ou filosofia? pois ele acredita que alguns demônios podem ser considerados deuses, porém em escalas inferiores de evolução. Os anjos estão em uma escala inferior de evolução em relação aos deuses, pois por livre opção escolheram adiar a chegada ao estado de divindade para permanecerem mais tempo na terra e guiar os seres humanos no caminho da redenção do carma e evolução completa. Eles são conhecidos como bodisatvas (futuros budas). A premissa básica dos ensinamentos budistas está na procura incessante da evolução espiritual para diminuir ou cessar o sofrimento (dukkha) e que somente por meio da aquisição de conhecimento pleno é que se pode superar causas do sofrimento. Só após superar a ignorância (avidva) o ser humano terá plena consciência e entenderá qual foi o fator que desencadeou o seu sofrimento. A origem do sofrimento é conhecida como pratityasamutpada. A superação de qualquer sofrimento humano e a plenitude da consciência espiritual é conhecida como Nirvana, ponto máximo de evolução da filosofia budista. Outro conceito presente nas origens do Budismo e que se mantém até hoje, independente da escola ou vertente adotada pelo praticante é o conceito de Carma. Segundo os ensinamentos de Sidharta, as pessoas sofrem os efeitos do carma, que seria uma espécie de lei de ação e reação do universo às atitudes das pessoas, ou seja, se a pessoa faz o bem, recebe o bem de volta; se faz o mal, recebe o mal. O Budismo adota também o conceito de reencarnação como processo de evolução espiritual do indivíduo. De acordo com essa filosofia cada uma das ações em vida acaba resultando em um renascimento em um dos seus reinos possíveis, o que seria uma acumulação de carmas. Segundo esse ponto de vista, cabe ao ser humano atingir o reino divino através da purificação de seu carma, que seria o ponto máximo de evolução. A crença budista na reencarnação como ferramenta de evolução, onde o ser humano revive em reinos mais nobres ou menos nobres como o inferno, por exemplo, são etapas de evolução ou regressão que são medidas através das suas práticas em sua vida humana.

Quanto mais próximo o ser humano chegar na plenitude espiritual, mais nobre será o reino que ele reencarnara na busca do Nirvana. Os seis reinos do Budismo são: Reino do Inferno; dos Fantasmas Famintos; Animal; Reino Humano; dos Deuses Invejosos e o Reino Divino. Nessa escala de evolução do carma e da evolução espiritual, o reino mais baixo é considerado o reino do inferno, onde o indivíduo nasce se tiver um carma muito negativo, ou seja, a pessoa que costuma ter suas práticas determinadas pela raiva ou ódio. Nesta escala, as pessoas que tem um carma positivo, mesmo com alguns aspectos comportamentais negativos, nascem em um dos três reinos considerados mais nobres da existência. Quanto mais forte for a força do carma positivo, mais elevado é o reino onde a pessoa reencarna, tendo como ápice o reino das divindades. Este último reino é destinado aos seres que atingem a plenitude da evolução espiritual e do conhecimento. Nele, de acordo com os ensinamentos budistas, os seres, apesar que possuírem um corpo material ele se torna imperceptível. A responsabilidade destes seres é servir como guia para ajudar aos demais indivíduos a atingir o nível de evolução máxima. A filosofia budista apresenta também características que influenciam diretamente a sociedade onde estão inseridas como, por exemplo, a ruptura total com os conceitos de organização social adotados pela religião que a antecedeu. Práticas Vedas consideradas normais como o sacrifício de animais em troca que pedidos aos deuses não é permitido. A estratificação social por meio de castas também não é permitida. Para o Budismo, todos os seres humanos têm a mesma importância, independente de sua classificação social. Ao invés de serem pré-definidos por meio da tradição de pertencer a uma classe social, o que diferencia as pessoas do Budismo é a sua evolução espiritual. Ou seja, todos que estão na terra estão no mesmo reino e no mesmo estágio evolutivo. Como veremos a seguir, a partir do segundo Concílio, a interpretação das escrituras do Budismo foi divido em

duas vertentes: a Theravada ou “Ensinamento dos Anciãos” e Mahasanghika ou “Membros da Grande Ordem”. Cada uma delas tem uma leitura diferente dos ensinamentos de Sidharta Gautama, o Buda Sakyamuni.

Vertentes do Budismo

Logo após a morte de Buda, seus seguidores realizaram o Primeiro Concílio Budista que foi responsável por organizar as palavras e ensinamentos de Buda em forma de livro, já que toda os ensinamentos de Sidharta foram passados de forma oral aos seus seguidores. Como haviam diferentes interpretações dos ensinamentos de Buda, seus principais seguidores, conhecidos como Dez Grandes Discípulos de Sakyamuni organizaram essa reunião para padronizar a forma como os conhecimentos seriam praticados e passados adiante, principalmente para outras pessoas que quisessem conhecer e seguir o caminho de evolução plena proposta pelo Budismo, foi aí que surgiu o Cânone de Páli. Durante essa primeira reunião, dois discípulos de buda se destacaram. O primeiro deles foi Ananda, reconhecido por ter uma ótima memória. Ele foi o responsável por recitar todos os ensinamentos que buda o passou, tentando ser o mais literal possível. Outro devoto que se sobressaiu foi Upali, ele foi responsável por ditar as regras e normas iriam reger a prática diária dos ensinamentos de Sakyamuni. Esse conselho ficou conhecido também como primeira recitação coletiva dos ensinamentos de Buda. Com o passar dos anos, apesar da padronização dos conhecimentos e da definição das bases do Budismo, começaram a surgir diversas interpretações sobre como seria a melhor forma de seguir esses ensinamentos. Alguns discípulos presentes a esta primeira reunião e outros que não participaram do concílio não concordavam com a padronização da doutrina budista e decidiram seguir a prática de acordo com suas próprias interpretações do que haviam aprendido nas pregações de Sidharta. Mesmo com essas diferentes interpretações nunca houve retaliação por parte da ala que padronizou as normas. Acima de tudo Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Escultura em Hong Kong representa o momento em que Buda atingiu o Nirvana

prevalecia a máxima do Budismo de tolerância e respeito à vida humana. Quase um século depois do concílio, essas diversas formas de interpretação dos ensinamentos de Buda já representavam um grande número de seguidores. Foi então que, um século após o encontrou que balizou a doutrina budista, seus seguidores decidiram realizar um novo concílio, na busca de uniformizar e finalmente determinar regras para a prática do Budismo que seriam seguidos por todos, de forma unificada. Porém, a ideia não deu muito certo e as diferentes interpretações dos ensinamentos de Buda permaneceram, criando uma cisão que originou as duas vertentes que permanecem até hoje: A interpretação Mahasanghika, também denominada Grande Veículo (Mahayana) e a visão Theravada, conhecida como Pequeno Veículo (Hinayana). Ao contrário do que possa parecer essa cisão na forma de interpretar a filosofia budista não atrapalhou a disseminação da prática e acabou ajudando a tornar do Budismo adaptável as diferentes realidades que Guia Conhecer Fantástico – Budismo

encontraria nos países em que sua prática começava a ser disseminada.

Theravada (Hinayana)

Os discípulos que seguem a vertente Theravada, conhecida como pequeno veículo são aqueles que podem ser con-

siderados com uma visão mais literal dos ensinamentos de Buda Sakyamuni. É conhecida também como a escola dos anciões, como fica claro no significado do termo. Theravada significa, em sua origem no idioma Páli: Thera – ancião e Vada – palavra, doutrina.

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Budismo: religião ou filosofia?

Um dos templos Budistas Theravada na China


Budismo: religião ou filosofia? Essa vertente mais conservadora do Budismo prioriza e defende a preservação dos ensinamentos de Buda com uma interpretação literal dos ensinamentos e práticas realizadas por Sidharta para atingir o Budato, ponto máximo da evolução espiritual. Inclusive com a ideia de que para atingir o Nirvana, os discípulos devem relegar todos a sua vida em sociedade e se insolarem nos monastérios, locais adaptação para a meditação e para dedicação exclusiva na busca do autoconhecimento. Essa vertente se espalhou e pode ser encontrada em países do sudeste asiático, como Sri Lanka, Myanmar, Camboja, Tailândia e Laos. Entre outras características marcantes desta linha mais antiga de interpretação dos ensinamentos de Buda, estão que seus escritos ainda não feitos em Páli – língua que buda usava para se comunicar e na qual foram escritos a primeira versão dos ensinamentos. Para eles, somente os indivíduos que conseguem elevar a suas mentes ao nível mais puro e livre de contaminação de pensamentos negativos são dignos e capazes de atingir o ponto mais alto da evolução espiritual, o Nirvana. De acordo com essa linha tradicionalista do Budismo, há uma clara divisão entre os praticantes da filosofia. A mais nobre delas seria a casta dos monges, que são os responsáveis por observar e preservar a disciplina do templo (bhikkus), estudar as escrituras originais e os comentários, meditar em busca da elevação espiritual, além ensinar a prática monástica aos noviços. A outra casta são os leigos, que não podem seguir as mesas práticas destinadas aos monges e precisam do auxílio deles para compreender, de forma correta, os ensinamentos de buda. Aos leigos ficaram restritas as funções de compreenderem os ensinamentos teóricos de Buda, mas não a prática, que é destinada exclusivamente aos monges. Esse tipo de instrução sobre os preceitos dos conhecimentos budistas é passado pelo Monges em palestras, onde os mesmos ensinam de modo simples e direto e em linguagem coloquial os mandamentos do Dharma para que eles possam seguir os ideais da filosofia

budista na vida pessoal, adaptando eles à sua realidade. Em países onde a vertente theravada é difundida, os devotos costumam manter pequenos santuários em seus lares e, com a ajuda dos monges, participam das cerimônias características como a tonsura (raspagem de cabelo) que é feita quando as crianças atingem a puberdade. Eles também assistem cerimônias de ordenação dos noviços que entram para a ordem e contam com o auxílio dos monges para a realização de rituais funerários. A principal celebração religiosa dessa vertente do Budismo é o Vesak, que é realizado sempre na primeira lua cheia de maio e marca os momentos de nascimento, iluminação e morde de Buda Sakyamuni. Outro importante festival religioso é o Kathina, uma forma de oferecer mantos e esmolas para os monges após o término do período de chuvas, geralmente em outubro. Há também a celebração do ano novo com procissões, reverências ao Buda e água aspergida (salpicada).

Mahasanghika (Mahayana)

Essa vertente de Budismo é conhecida como grande veículo, pois tem uma visão mais abrangente dos ensinamentos de Buda e das práticas budistas, o que facilita sua disseminação. Essa linha mais progressista de interpretar os ensinamentos de buda tem como característica marcante a disposição de seus discípulos em trabalhar na propagação dos ensinamentos do Budismo para as massas, traduzindo e facilitando a compreensão dos ideais de Sidharta entre a parcela da população considerada leiga. Entre os conceitos que premeiam a pratica de seus seguidores estão: a crença no bodhisattva, que é a dedicação permanente na propagação dos ensinamentos da filosofia budista e a crença de que por meio da prática dos ensinamentos de Sidharta é possível atingir a salvação, ou melhor, a elevação espiritual plena, semelhante a que buda atingiu. As revelações de Nam -myoho-rengue-kyo e do Gohonzon por Nitiren Daishonin, deram à ver-

tente o aspecto de verdadeira perante os seguidores do Budismo, o que ajudou na popularização de sua prática. Com o passar dos tempos, os seguidores desta vertente perceberam que era necessário adaptar as escrituras originais em páli para outras línguas, pois segundo eles, com a popularização dos ensinamentos de buda, era possível atingir salvação da humanidade por meio da difusão da prática da tolerância, do respeito à vida e do amor ao próximo. Por isso seu nome significa grande veículo, devido à sua abrangência geral. Diferente da escola Theravada, a vertente Mahayana acredita na possibilidade da existência de diversos budas (seres iluminados) ao mesmo tempo. Nesta linha de interpretação existem duas escolas de pensamento, a Escola Zen, com mais ênfase à prática meditativa para alcançar o caminho da elevação espiritual e a Escola Terra Pura, onde a prática é dirigida a atender os desígnios do Buda da Luz Infinita. Ambas escolas são populares em países como China, Coréia, Japão e Brasil. Na vertente Mahayana, se acredita que os bodhisattvas se dedicam exclusivamente à perfeição do último nível de elevação do conhecimento e a libertar da dor e do sofrimento todos os seres humanos que seguem o Budismo. Essa vertente enxerga Buda Sakyamuni como o ser mais elevado entre todos os seres humanos em qualquer tempo ou lugar que se vá ter como referência. Os bodhisattvas aparecem para representar o ideal de excelência espiritual e altruísmo atingido por Sidharta Gautama. Outra diferença entre essas duas vertentes do Budismo, é que a mais progressista de se originou através de traduções dos primeiros textos (sutras) de Buda. O primeiro texto conhecido desta vertente é uma tradução chinesa conhecida como Discurso da Sabedoria em Oito Mil linhas, que foi traduzido no século II. Mesmo não sendo considerado textos originais do Budismo, eles são tomados por verdadeiros, pois mesmo que não tenham sido palavras proferidas por buda, a ideia central dos ensinamentos se mantém a mesma. Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Budismo: religião ou filosofia?

Templo Mahayana em Java, na Indonésia

Escolas Mahayanas do Budismo

Dentro da vertente Mahayana, durante os anos surgiram novas subdivisões de pensamento, mais precisamente sete escolas com características e práticas diferentes dos ensinamentos de buda. As consideradas mais tradicionais ou antigas são: Terra Pura, Vajrayana, Zen e Nichiren. Dentro dessas escolas com práticas mais tradicionais nasceram outras escolas, que são consideradas contemporânea, pois adaptaram os ensinamentos do Budismo para o mundo moderno. Muitas dessas escolas mais atuais são bem populares no Brasil e entre elas, podemos destacar: a Vipassana, a Shambhala e Nova Tradição Kadampa, a mais recente delas. A escola mais antiga da filosofia Mahayana (grande veículo) é a conhecida como Terra Pura. Surgida no século II, na Índia, essa linha de pensamento se destaca pela devoção Guia Conhecer Fantástico – Budismo

ao buda Amitabha, o buda da luz infinita. Os seguidores dessa corrente de pensamento buscam a redenção/ iluminação em uma vida futura, após reencarnariam, em uma Terra Pura. Atualmente a maior parte dos adeptos desta linhagem estão concentradas no Japão, China e Coréia. O templo Zu Lai, localizado em Cotia é um dos mais conhecidos templos construídos no país dentro da concepção budista da linhagem da Terra Pura. A segunda linha de pensamento que abordaremos é conhecida como Vajrayana e tem seu surgimento datado no século IV D.C. É desta linha de interpretação que surge também o Budismo tântrico, ou tantrayana. Os escritos criados por essa escola de pensamento são denominados tantra. Entre as principais características da prática tântrica estão a adoção de mantras, mandalas e deidades, o que a torna a escola mais esotéricas entre as ramificações da ver-

tente Mahayana. Essa escola se encontra predominante no Tibete, e é conhecida também como Budismo Tibetano ou Lamaísmo. Ela tem seguidores também em partes da China e Japão, além de possuir sub-escolas como Nyongma, Kagyu, Sakya e Gelug (de Dalai Lama). No Brasil ela sua prática pode ser encontrada no templo Khadro Ling, em Três Coroas (RS). A terceira escola nessa subdivisão é o Zen-Budismo. Essa prática surgiu na China com a denominação de Chan e se espalhou rapidamente em partes de países como Japão, Coréia e no Vietnam. Essa escola tem como foco na evolução espiritual por meio a prática de meditação, deixando em segundo plano os estudos das escrituras. Em território japonês o Zen-Budismo se tornou uma escola independente a partir do século 12, adotando práticas diferentes da vertente chinesa de pensamento. No Brasil, a principal exponente desta linhagem de interpretação


Budismo: religião ou filosofia? é Monja Coen, que mantém um templo na região central de São Paulo. A última das escolas clássicas do Budismo é a Nitiren e foi fundado no Japão no século XIII D.C. e leva o nome de seu fundador, o monge budista Nitiren Daishonin. O foco desta escola de pensamento são predominantemente o estudo do Sutra de Lótus e a recitação dos versos do Daimoku. Os seguidores desta linhagem acreditam que com essas duas práticas ficarão livres do sofrimento e vão atingir a felicidade plena ainda na sua encarnação na vida terrena. Uma das curiosidades desta escola é que ela tem forte influência nas rotinas da sociedade japonesa, sendo a principal referência religioso no país. A escola Nitiren está presente no Brasil desde 1960 e chegou ao país pelas mãos do monge Soka Gakkai e hoje tem mais de 150 mil adeptos.

Escolas contemporâneas

antigos adaptadas para as especificidades e desafios da vida moderna. Essa escola é uma união de duas linhagens antigas do Budismo tibetano, a Kagiy e Nyingma, com os ensinamentos do Terma de Shambhala que são baseadas na tradição guerreira do rei tibetano Gesar. A escola mais recente é denominada Nova Tradição Kadampa. Esta escola tem apenas de três década de existência e, diferentemente das demais escolas de pensamento, não foi fundada no sudeste asiático, e sim na Europa, em 1991, na Inglaterra. Ela é uma sub-escola da linhagem tibetana da escola Gelug (Kadampa), que se originou no século XI e tem como seu principal representante o Dalai Lama. Ela surgiu porque muitos seguidores não concordavam com a doutrina imposta pelo Kadampa e resolveram fundar sua própria escola de pensamento. Para essa linha, além de praticar a meditação seus seguidores precisam adaptar as suas práticas diárias aos ensinamentos de Buda e encoraja seus discípulos a praticarem a compaixão e a procurar o caminho da sabedoria e do autoconhecimento em seu cotidiano, pois acreditam que se seguirem esse caminho, seus problemas e sofrimentos serão superado e não tornarão a surgir.

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O surgimento das escolas contemporâneas está bastante atrelado à releitura moderna dos escritos e das práticas budistas das escolas tradicionais Mahayana. As três principais escolas modernas têm o seu surgimento a partir do século XX.

A primeiras dessas novas linhas de interpretação dos ensinamentos de Buda é a Vipassana. Sua origem se dá após professores de meditação estudarem com mestres da vertente conservadora (Theravada) na Birmânia e na Tailândia e, a partir de então, desenvolverem técnicas próprias para a pratica do Budismo. Apesar de ser sua base nas escrituras da vertente Theravada, eles não se vinculam a nenhuma linha filosófica de pensamento. A prática da meditação Vipassana consiste na quebra do muro de ilusões que separa o ser humano da luz viva da realidade. Após anos de meditação, o indivíduo rompe esse muro por meio de um insight e consegue atingir a luz e a libertação completa do sofrimento. A segunda escola dessa linha moderna de pensamento é mais recente. Sua fundação se deu em meados da década de 70, ou seja, a Shambhala é praticada do mundo há pouco mais de meio século. Quem deu origem à está escola de pensamento foi Chogyam Trungpa Rinpoche, um lama tibetano. Hoje em dia o responsável por liderar essa escola é seu filho, o monge Sakyong Mipham Rinpoche. Sua linha de interpretação procura aliar a sabedoria dos mestres

Flor de Lótus, símbolo que representa os sutras predominantes na escola Nitiren

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Capítulo 2

Buda, o homem que encontrou a sabedoria

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Conheça o caminho percorrido por Sidharta Gautama até a iluminação espiritual

Neste capítulo, você conhecerá a história do homem que, com seus conhecimentos sobre a condição humana, fundou essa filosofia milenar. Saberá como foi o nascimento não muito comum de Sidharta Gautama em meio a uma floresta, seus primeiros anos de vida, a perda da mãe e como desde pequeno ele já demonstrava ter uma inclinação por assuntos relacionados à vida e a compreensão da dor e o sofrimento dos seres ao seu redor. Como foi a sua infância e a juventude protegido dos males do mundo pelo seu pai, o rei Shuddhodana Gautama e seus primeiros passos no ramo do conhecimento. 16  Guia Conhecer Fantástico – Budismo


A história e os ensinamentos de Buda

Os primeiros anos da vida de Sidharta Gautama geram muitas controvérsias entre os historiadores, pois cada escritura e vertente da filosofia budista registra de forma diferente os momentos da vida de buda antes dele ter atingido a iluminação. A cronologia mais aceita pelos historiadores relata que ele nasceu na região do Jardim Lumbini, onde sua mãe repousava. Gautama é filho do rei Shuddhodana Gautama, que vivia e liderava o reino de Sakia, localizado na encosta sul do Himalaia e próximo ao rio Rohini. A capital deste reino era batizada de Kapila, onde ele construiu um enorme castelo para viver com sua esposa, a rainha Maya, cujo o pai era seu tio. Segundo relatado nas escrituras, no dia em que a rainha Maya se deitou com o rei Shuddhodana, ela tem uma visão especial. Neste momento ela viu, em sonho, que um elefante branco entrava em seu ventre. Acredita-se que foi neste momento marcou a concepção do menino que deveria ser tornar o futuro rei de Sakia. Era tradição indiana na época que a mulher deveria parir seu filho longe dos olhos do marido. Por isso, a rainha Maya teve que deixar o reino do esposo e se dirigir rumo a casa de seu pai, que ficava em um reino próximo, para dar à luz a seu filho. Porém, no meio desse caminho ela decidiu parar um pouco para descansar da viagem e foi neste momento que Sidharta veio ao mundo em um dia de primavera. Estima-se que a data oficial de nascimento do novo príncipe foi oito de abril de 563 a.C. O novo príncipe foi batizado por seu pai como Sidharta, que na língua páli significa: Todos os desejos cumpridos. Porém o ambiente de felicidade da família não durou muito tempo e alguns anos após o nascimento do pequeno Gautama sua mãe viria a falecer. Quem assumiu o papel de mãe e ficou responsável por toda a sua criação foi princesa Mahaprajapati, que era sua tia e irmã mais nova da rainha. Desde pequeno Sidharta já despertava a atenção de todos e dava demonstrações de que teria um futuro brilhante pela frente. Ao perceber que uma luz diferente iluminava o castelo do reino Sakia, um ermitão chamado Asita que morava em uma região montanhosa pró-

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Nasce o menino rei

Lumbini, cidade onde nasceu Sidharta Gautama

“A sabedoria é o melhor guia e a fé, a melhor companheira. Deve-se, pois, fugir das trevas da ignorância e do sofrimento, deve-se procurar a luz da Iluminação.” xima ao reino, veio ao encontro do futuro príncipe e então teve um presságio sobre o seu futuro. Ao chegar ao palácio e ter seu primeiro contato com o príncipe de Sakia, o tal ermitão ao ver teria dito: “Este Príncipe, se permanecer no palácio, após a juventude, se tornará um grande rei e governará o mundo todo. Porém, se abandonar a vida palaciana e abraçar a vida religiosa, se tornará um buda, o salvador do mundo. Em um primeiro momento o rei Shuddhodana ficou muito feliz com a profecia do homem das montanhas, porém aos poucos começou a perceber que havia a possibilidade de seu filho deixar o reino e seguir o caminho religioso, o que o deixou preocupado. Pois, afinal havia a hipótese de seu reino ficar sem um sucessor que fosse capaz de manter a dinastia da família após a sua morte.

Sua infância e juventude

Ao completar sete anos, o futuro Buda começou sua instrução formal com des-

taque para o estudo das letras e artes militares. Porém ele estava mais interessado em outro tipo de aprendizado como, por exemplo, as ciências naturais. Um dia quando saiu para passear junto ao seu pai dentro as propriedades do reino, o então príncipe parou para observar o trabalho de um agricultor com seu arado e, de repente, o jovem Sidharta mudou sua atenção para um pássaro que voou em direção ao solo para comer um verme que estava preso no arado do lavrador e muito triste com o acontecimento, se dirigiu à uma árvore e começou a pensar na situação que havia acabado de presenciar e disse para si mesmo. “Oh! Por que todos os seres vivos se matam uns aos outros? ” Um dos motivos que levaram o jovem príncipe a se preocupar com os sofrimentos dos animais está relacionado com sua própria experiência, pois ele havia perdido a mãe pouco tempo após seu nascimento e até então não havia superado esta tragédia pessoal. Mesmo Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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A história e os ensinamentos de Buda

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Tilaurakot no Nepal, cidade onde se encontrava o Reino de Sakia, onde Sidharta passou a juventude

“Aquele que percebe a existência da dor e conhece sua causa, remédio e extinção, compreende as quatros nobres verdades está no bom caminho. Seu reto propósito de ser a luz que iluminar seus passos, e a palavra verdadeira, o seu refúgio. Caminhar em linha reta, porque reta é a conduta.” com o passar do tempo essa ferida permanecia aberta e cada vez mais Sidharta passara a se preocupar com o sofrimento de todos os seres a sua volta, principalmente os humanos. Nessa época, já com Gautama na adolescia o rei começava a se incomodava com a possibilidade dele seguir o caminho espiritual profetizado pelo ermitão e tenta, de todas as formas, manter o futuro príncipe entretido nos afazer do reino e evitar ao máximo que ele seguisse a vertente religiosa, tanto que Sidharta não teve nenhuma educação religiosa enquanto esteve dentro do reino de Sakia. Uma das atitudes mais marcantes do rei Shuddhodana foi arranjar um casamento para o filho. Ao completar 19 anos o príncipe se casou com a princesa Yashodhara, que era sua prima e filha de Suprabuddha, irmão da finada rainha Maya e dono do castelo do reino de Devadaha. Durante os dez anos que que durou seu casamento, o príncipe viveu rodeado de felicidade. Era comum ele estar envolvido em rodas de música e dança nas diferentes propriedades da família como os pavilhões Pri-

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mavera, Outono e da Estação de chuva, que revezada durante cada uma dessas estações do ano. Mesmo com toda a vida de luxo e prazeres que eu pai lhe proporcionava, Sidharta mantinha seu pensamento envolto com o sofrimento das pessoas, mesmo sem ter muito contato com a vida além dos muros do reino. Ao mesmo tempo em que se via preocupado com o sofrimento alheio, o príncipe procurava respostas para entender qual era o verdadeiro sentido da vida, pois apesar de feliz, ele sentia que viver daquela forma não o fazia completo e achava que a vida significava muito mais que festas intermináveis e os momentos que vivia ao lado de sua esposa. De acordo com escritos budistas que tratavam de relatar sua vida pré-budato, nessa época o pensamento recorrente em Sidharta era: “As glórias do palácio, este corpo saudável, está alegre juventude! Que significam para mim?; um dia, poderemos estar doentes, ficaremos velhos, da morte não há escapatória. Orgulho da juventude, orgulho da saúde, orgulho da existência; - todas as pessoas sensatas deveriam deixá-los de lado ”, pensava.


A história e os ensinamentos de Buda

Uma nova percepção da vida

Mapa antigo da Índia

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Um passeio corriqueiro fora dos muros do reino junto com seu leal servo fez com que Sidharta tivesse seu primeiro contato com o sofrimento das pessoas, o que foi um choque de realidade, pois ele percebeu que aquele mundo era mundo diferente daquele que ele vivia sob a superproteção do pai. Durante esse passeio ele teve três visões: um homem arqueado com a pele enrugada que se movia com extrema dificuldade por causa da dor; uma pessoa moribunda sofrendo com dores terríveis e incontroláveis e, por fim, presenciou o cortejo fúnebre de um homem que era carregado pelos amigos e parentes que sofriam com sua a perda. O choque foi tamanho que fez com que ele começasse a questionar seu modo de vida e perceber que a verdade absoluta da vida é que, inevitavelmente, que seu curso é nascer, crescer, se degenerar, envelhecer e morrer. Coisas que não tinha percebido com a vida luxuosa que vivia no reino de seu pai. O príncipe ainda teve uma quarta visão que o despertou para qual caminho deveria seguir se quisesse buscar respostas para aquilo que o afligia. Depois ter seu primeiro contato com tanto sofrimento, Sidharta viu um mendigo pelas ruas pedindo esmolas e comida. Porém, apesar de toda a pobreza ele irradiava, havia uma expressão de profunda serenidade naquela pessoa. Foi a partir deste momento, após presenciar a sereni- “Aquele que protege sua dade de um ser desprovido de riquezas que ele decidiu que esse seria esse o caminho a seguir se ele quisesse mente da cobiça, e da ira, compreender o significado da vida e a forma de supe- desfruta da verdadeira rar as dores e sofrimentos que tinha e que presenciara. e duradoura paz.” De acordo com a crença local da época, mais ou menos 500 anos antes do surgimento de cristo, para se alcançar a evolução espiritual máxima era preciso que o indivíduo abandonasse qualquer laço emocional que tivesse, seja a vida ou ambiente doméstico e/ou os laços afetivos que ele tivesse com família ou amigos. Na prática era como se a pessoa tivesse que se tornar um ermitão, um andarilho. Outra crença da sociedade indiana que influenciou muito os próximos passou do príncipe estavam na ideia de que, de alguma forma, o renascimento ou transmigração espiritual faziam parte de um ciclo interminável de nascimento, velhice e morte, ou seja, o mesmo princípio que conhecemos Conjunto de árvores Buddhy, onde Sidharta teria meditado até atingir a elevação espiritual como reencarnação.


A história e os ensinamentos de Buda

“O ódio nunca desaparece, enquanto pensamentos de mágoas forem alimentados na mente. Ele desaparece, tão logo esses pensamentos de mágoa forem esquecidos.”

Uma vida de monge 20

Assim que decidiu abdicar do passado, Sidharta deixou o reino em companhia de seu único criado, chamado Chandaka e com seu cavalo branco rumo a uma vida de monge medicante. Ele então abandou seu cavalo, sua espada e suas vestes reais e vestido com roupas de mendigo e com a cabaça raspada, partiu em sua busca pela verdade da vida rumo ao sul com apenas com uma tigela em mãos. Sua primeira parada foi para visitar o eremita Bhagava, onde aprendeu as primeiras práticas ascéticas. Não contente com o que havia aprendido, ele seguiu ao encontro de outros dois mestres ascetas, chamados Arada Kalama e Udraka Ramaputra, onde pôde conhecer métodos de meditação profunda. Após passar algum tempo praticando meditação com esses mestres, Gautama percebeu que esse caminho não era suficiente para leva-lo na direção de desejava e que não iria conseguir as respostas que precisava por meio daquelas práticas. Então decidido a buscar o caminho da compreensão e evolução espiritual plena por conta própria, ele viajou até a região de Magadha e se prostrou debaixo de uma árvore na floresta de Uruvela, que fica às margens do rio Nairanjana e próximo ao Guia Conhecer Fantástico – Budismo

castelo da Gaya, levando consigo cinco seguidores monges. Foi a partir deste momento que Buda decidiu praticar o ascetismo extremo por meio da adoção do faquirismo, pois acreditava que somente por meio da mortificação do corpo é que ele poderia chegar ao ponto máximo de evolução espiritual e descobrir uma forma de superar todo o sofrimento que afligia o ser humano e a si próprio. Porém, a prática extrema além de não o levar à elevação espiritual, quase o fez morrer. Em um passeio pela floresta, Gautama decidiu se banhar no rio Nairanjana e quase morreu afogado, pois lhe faltava forças para nadar. Foi então que ele quebrou o jejum e aceitou uma xícara de leite que foi oferecida a ele por uma estranha de nome Sujata, que vivia em uma aldeia próxima de onde ele praticava sua meditação. A atitude provocou duas consequências que mudariam definitivamente a sua busca: ele percebeu que deveria abandonar os extremos e adotar o caminho do meio, como maneira de pacificar e elevar sua mente; e seus cinco seguidores o abandonaram e o acusaram de traição, pois acreditavam ele havia se degenerado ao interromper a prática ascética. Foi assim que o príncipe ficou solitário em sua busca e mesmo com o corpo enfraquecido decidiu entrar em um novo período de meditação extrema, mesmo que isso se lhe causasse sérios problemas físicos. Sidharta havia decidido que só abandonaria a árvore onde estava e o estado que meditação se encontrasse o caminho da iluminação e atingisse a elevação máxima de seu espírito. Foi então em oito de dezembro, aos 35 anos de idade, ou seja, seis anos após o início de sua busca que ele finalmente atingiu o estágio de iluminação e se tornou buda. Durante esse último período de meditação, segundo relatos, ele teve que enfrentar o assédio de Mara, deus

Buda, o sábio

Após atingir a elevação espiritual máxima, compreender o significado da vida e encontrar o caminho para a superação do sofrimento, o agora ex-principe passou a ser reconhecido por seus seguidores como: Buda, o perfeitamente iluminado; Sakyamuni, o sábio do reino de Sakya ou o sábio do mundo. Sua pri-

Varanasi, cidade onde Sidharta atingiu a iluminação e se tornou Buda

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A busca de todos dos religiosos da época era encontrar uma forma que os pudesse liberar desse movimento circular infinito a que estavam presos, e isso só seria possível caso eles atingissem a evolução máxima e libertassem seu espírito deste tipo de prisão. Mesmo com todo o luxo que desfrutava no reino de seu pai, os questionamentos sobre a condição da vida humana atormentavam o príncipe, que aos 29 anos, logo após o nascimento de seu único filho, Rahula, decidiu abandonar o palácio onde vivia e se desapegar de seu status real para buscar as respostas para o significado da vida.

indiano da morte. De acordo com a lenda, Mara veio tentar o príncipe a abandonar seu estado meditativo e lhe ofereceu em troca desse abandono o nirvana. Porém, ele se manteve imóvel para não ceder à tentação, pois acreditava que essa oferta lhe distanciaria da missão de atingir a iluminação e repassar seus conhecimentos para os demais seres humanos que buscassem se livrar da dor e do sofrimento.


A história e os ensinamentos de Buda pouco tempo ele já tinha a seu lado dois grandes mestres como Sariputra e Maudgalyayana, que lhe proporcionaram contar com mais de dois mil seguidores. Até mesmo seu pai, sempre reticente com o caminho que ele escolheu decidiu aderir à doutrina e se tornou um dos seus mais fiéis discípulos. Sua força foi tão grande que todo os membros do Clã Sakya resolveram seguir seus ensinamentos, inclusiva princesa Yashodhara, a esposa que ele havia abandonado para seguir sua busca pela elevação do espírito.

O sábio passou quarenta e cinco anos viajando pela Índia para pregar seus ensinamentos. Mesmo com a saúde debilitada, aos 80 anos, ele continuou a levar seus ensinamentos por onde passava. Seus últimos momentos em vida foram dedicados a levar a sua palavra ao próximo. Em uma viagem para Shravasti, ele parou em Vaisali e depois de aceitar uma refeição à base de carne de porco oferecida por um ferreiro, que resultou em um grave quadro Templo Kusinagara, erguido em homenagem e memória de Buda

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meira atitude após o budato foi se dirigir à Mrigadava no reino de Varanasi, onde se encontravam os cinco monges que o haviam acompanhado em alguns momentos de sua busca. Em um primeiro momento, os monges evitaram o contato com o sábio que vinha de longe, porém mesmo reticentes aceitaram conversar com ele. Após essa longa conversa entenderam todo o processo que ele havia passado e o aceitaram novamente como mentor, se tornando os primeiros discípulos da nova filosofia que surgia. Em seguida, Buda foi ao Castelo Rajagriha, onde contou com a simpatia e devoção do rei Bimbisara, que se tornou uns dos principais amigos de Buda. Após essas duas primeiras visitas, o sábio decidiu percorrer o território indiano para propagar seus ensinamentos e a ajudar as pessoas a superarem a dor e sofrimento. A caminhada de Sidharta foi tão exitosa, que em

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“O segredo da saúde da mente e do corpo está em não lamentar o passado, em não se afligir com o futuro e em não antecipar preocupações; mas está no viver sabiamente e seriamente o presente momento.” Guia Conhecer Fantástico – Budismo


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de desinteira, o que agravou seu estado debilitação. Foi nesse momento que buda profetizou que em três meses ele estaria chegando ao nirvana. Sua profecia se cumpriu quando, postado entre duas grandes árvores na floresta de Kusinagara, durante uma palestra aos seus discípulos ele finalmente se desprendeu do corpo material e atingiu o momento o nirvana. Segundo diversos historiadores, Buda morreu por volta do ano de 483 A.C. Seu corpo foi cremado por seus discípulos sob orientação Ananda, o discípulo mais próximo, na mesma cidade onde proferiu seus últimos conhecimentos, Kusinagara. Após a sua morte diversos reis da região queriam ficar com seus restos mortais e, então, ficou decidido que suas cinzas seriam divididas entre oito grandes reinos da região. A cinzas que ficaram na pira funerária e os vasos que continham seus restos mortais foram doados a outros dois governantes para que eles os conservassem como relíquia serem honrados em monumentos que deveriam ser construídos especialmente com a finalidade de manter a veneração e a lembrança dos ensinamentos de Buda. Seus ensinamentos, que até o momento de sua morte estavam concentrados nas regiões centrais da Índia, foram transmitidos através de diversas linhagens de mestres budistas e se espalharam por diversos países, principalmente no sudeste asiático e no Japão. Guia Conhecer Fantástico – Budismo

Livro com os ensinamentos de Buda em um templo na Mongólia

Os ensinamentos de Buda

Agora que você já conheceu a trajetória de vida de Buda, desde seu nascimento, origem e vida como realeza e os caminhos que o fizeram se tornar um dos principais sábios do mundo e o responsável pela fundação dessa filosofia milenar, vamos abordar agora os principais ensinamentos que ele deixou e que são a base de toda a doutrina budista. Assim que atingiu o estágio de iluminação elevada, buda proferiu em seus primeiros discursos aos seus seguidores as Quatro Nobres Verdades sobre a vida e que seriam as bases de toda a sua doutrina. Esses quatro princípios imutáveis da natureza, também denominada Dhamma, surgiram após a meditação profunda de buda sobre a condição humana e servem como ponto de partida para qualquer prática budista. De acordo com as escrituras budistas, essas verdades não são afirmações de fé, mas sim a verdade da vida compreendida por buda durante seu caminho rumo à iluminação. A primeira verdade estabelecida por Sidharta logo após se tornar Buda é o Dukkha, que significa o sentimento de dor ou sofrimento que aflige os seres humanos. Segundo o Budismo, nenhum indivíduo está livre do sofrimento, pois ele faz parte de sua condição de vida e só por meio das práticas de meditação e auto-

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“O segredo da saúde da mente e do corpo está em não lamentar o passado, em não se afligir com o futuro e em não antecipar preocupações; mas está no viver sabiamente e seriamente o presente momento.”

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A história e os ensinamentos de Buda

Ilustração de representa o momento em que buda atingiu o nirvana

conhecimento é que é possível superá-lo, também conhecido como Dukkhas. Para os monges do Budismo, essa verdade pode ser interpretada da seguinte forma: O nascimento, a enfermidade, a morte, a tristeza, lamentação, a dor, a angústia e o desespero são os Dukkhas que todo o indivíduo enfrenta. Nesta mesma linha, tudo o que o afasta de um estado de sentimento prazeroso pode ser considerado sofrimento. Tudo aquilo que é influenciado pelo apego sentimental ou material é considerado uma forma de sofrer. O segundo ensinamento de buda diz respeito à origem o sofrimento dos indivíduos. De acordo com esses preceitos, a origem de todo o sofrimento está relacionada com o desejo como, por exemplo, a cobiça pelo belo e pelo luxo, pela satisfação do prazer, buscando satisfazê-lo por meio de prazeres sexuais e também pela satisfação por ser/existir, ser notado ou o sentimento de não ser/existir, que são


A história e os ensinamentos de Buda

“É a própria mente de um homem, e não seu inimigo ou adversário, que o seduz para caminhos maléficos”. O caminho para o nirvana

Para atingir a evolução total do espírito e a liberdade transcendental que são os objetivos finais dos ensinamentos de Buda, também conhecido como Nirvana ou Nibbana, páli, o indivíduo deve praticar as tarefas de acordo com como ele estabeleceu. A primeira grande verdade (o sofrimento) deve ser compreendido, identificado. A segunda (origem do sofrimento) deve ser abandonada, e a terceira (superar o sofrimento) deve ser o objetivo a ser alcançado através da quarta verdade, que é o caminho que o indivíduo deve perseguir se quiser atingir a evolução e se desprender de todo o sofrimento. O Nobre Caminho Óctuplo, que é caminho traçado por buda na direção do Nirvana. Ele contém todos os ensinamentos necessários para que o indivíduo consiga aliviar suas insatisfações e sofrimentos e finalmente atingir a libertação final de um ciclo de vida e morte (samsara) doloroso e que devido à sua

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considerados sentimentos menores que, enquanto não forem superados, vão continuar a trazer sofrimento. O terceiro pilar da doutrina budista é o que o indivíduo deve fazer para acabar com o sofrimento. A principal lição deixada por Buda é que para superar o sofrimento é necessário que a pessoa pratique o desapego. O ser humano só conseguirá se livrar que qualquer sofrimento se abdicar do apego a qualquer desejo, encantamento ou a busca incessante pelos prazeres da vida, pois assim ele conseguirá se livrar definitivamente de qualquer sofrimento e atingirá o nível máximo de evolução. O quatro e último pilar dos ensinamentos de Buda é mostrar aos seus seguidores os caminhos que eles devem percorrer para alcançar a iluminação. Na doutrina budista, este ensinamento é chamado de Nobre Caminho Óctuplo, que significa ter o entendimento, pensamento, linguagem, ação e esforço correto ante aos desejos.

Estátua em Gaya, na Índia, simboliza o momento em que buda atingiu a iluminação

ignorância quanto às Quatro Nobres Verdades, está preso a esse ciclo interminável de reencarnações. Que só pode ser interrompido se ele seguir os ensinamentos de buda e chegar ao estado de iluminação, como o mestre chegou. O caminho que Buda se dedicou a ensinar aos seus discípulos durante os quarenta e cinco anos de peregrinação pela Índia é um sistema gradual de evolução do espírito. O primeiro desses estágios é conhecido como sila ou virtude e diz respeito a adoção de práticas, linguagens e modos de vida corretos. O passo seguinte é denominado concentração ou samadhi que é o esforço necessário para conseguir desenvolver a atenção e a concentração plena por meio da meditação. O último estágio de evolução e que leva o indivíduo à liberação espiritual consistente no desenvolvimento da sabedoria, também conhecida como pañña, e diz contempla ter um entendimento correto das condições humanas e dos motivos que nos levam ao sofrimento. Outro fator de elevação do espirito e que é complementar a todos esses estágios é a prática da generosidade, pois ela serve como auxílio no longo caminho de desapego que os indivíduos precisam desenvolver. De acordo com buda, a pratica da generosidade ensina muito sobre as causas e os resultados das boas ações de cada pessoa (Kamma). O percurso de evolução descrito por meio do Nobre Caminho Óctuplo não é um trajeto rápido e tampouco linear. Na verdade, esse trajeto de evolução é complementar, ou seja, os ensinamentos de buda encorajam o indivíduo que decide aderir às práticas budistas a fortalecer cada um dos pontos determinados nas Quatro Verdades de forma conjunta, com a intenção de criar um espiral evolutivo que leva à maturidade espiritual e que tem como ápice a iluminação plena do espirito e o final de qualquer sentimento de sofrimento. De acordo com as normas descritas pelo sábio, uma pessoa se torna praticante budista no momento em que expressa a determinação em tomar refúgio na Joia Tríplice: Buda, Dhamma (ensinamento) e Sangha (comunidade monástica que protege os ensinamentos e práticas do Budismo). Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Capítulo 3

Os principais fatos que mudaram a história do Budismo Saiba como imperadores, dinastias e perseguições religiosas influenciam no declínio da prática na Índia

Este capítulo é dedicado a contar algumas passagens históricas que influenciaram de forma direta os rumos que a doutrina budista percorreu desde o seu surgimento até os dias de hoje, com enfoque nos novos cenários que apareceram nos primórdios da era cristã, e explicam por que a os ensinamentos budistas se concentram em algumas regiões do subcontinente asiático. 24  Guia Conhecer Fantástico – Budismo


O Budismo na história

Os concílios budistas

Um dos episódios mais importantes da história do Budismo e que marcaram mudanças cruciais na história da prática dos ensinamentos de Buda como conhecemos hoje são os concílios. Foi por meio deles que os seguidores de Sidharta procuraram estabelecer a unidade de suas práticas e se adequarem às mudanças ocorridas na humanidade com o passar do tempo. Segundo as escrituras do Budismo, foram feitos quatro concílios desde a morte de Buda, sendo três deles antes da era cristã.

O primeiro concílio

O primeiro concílio foi realizado logo após a morte de Buda e tem um fator chave na história do Budismo. Até a sua realização, todos os conhecimentos que transmitidos por Buda aos seus seguidores eram feitos de forma oral, ou seja, quem escutava os ensinamentos era responsável por decorar o que ouvia e garantir sua retransmissão da forma mais correta possível.

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nossa viagem começa por tratar de forma bem específica os quatro concílios budistas, que serviram não só para determinar as regras que os discípulos de Buda deveriam seguir, mas também foram responsáveis por rupturas entre duas grandes vertentes de interpretação que deram origem às duas principais escolas do Budismo, a Mahayana e a Theravada. Cada um desses concílios teve suas características próprias e influenciaram os caminhos que o Budismo iria tomar como, por exemplo, adoção as primeiras regras, a divisão dos ensinamentos de acordo com uma temática ou prática especifica como, por exemplo, o cesto com os ensinamentos para atingir a iluminação e também a cesta que continham as normas que deveriam ser seguidas para uma boa convivência na vida monástica. Ainda nesse capítulo você irá perceber que os rumos que a prática budista tomou depois do surgimento da era cristã está diretamente relacionada com as sucessivas trocas de poder na região da Índia, com diversas ascensões e quedas de dinastias e invasões de povos oriundos principalmente da Pérsia. Além disso, você poderá conhecer um pouco da história do imperador Ashoka, que além de aderir à doutrina budista e financiar concílios, teve papel primordial na transformação do Budismo de uma religião estritamente local e sectária em uma filosofia de representatividade regional e posteriormente mundial. Nas últimas páginas deste capítulo você irá conhecer com a relação dos discípulos do Budismo com outras religiões como o islã e o cristianismo acabaram por atrapalhar e até minar a influência dos ensinamentos de Buda em muitas regiões da Ásia, inclusive na Índia, berço das tradições e práticas dos ensinamentos de Buda.

Templo em Rajgir (Rajagriha), local do primeiro concílio dos seguidores de Buda

De acordo com os escritos budistas, essa primeira reunião contou com a presença de 500 seguidores de Buda e aconteceu em 483 a.C. em uma gruta conhecida como Nyagrodha, que ficava localizada em uma região próxima à cidade de Rajagriha. A assembleia teria sido convocada pelo monge Mahakashyapa, pois ele acreditava que os ensinamentos do mestre tenderiam a se perder com o passar dos anos, principalmente após saber que outro monge, Subhadra, disseminava entre seus seguidores que não era mais necessário que eles seguissem as instruções e ensinamentos do mestre. Uma figura central dentro deste primeiro concílio era o monge Ananda. Apesar de não estar em um estágio espiritual tão evoluído como os demais monges, ele era considerado peça primordial nessa reunião, pois ele era o assistente pessoal de Buda e ficou responsável por suprir todas as necessidades dele e arranjar tudo que fosse necessário para a realização de suas pregações. Ele foi provavelmente o discípulo que mais ouviu os ensinamentos de Sidharta, porém não teve muito tempo para se dedicar à tal prática dos ensinamentos que ouvia. Além de ser o discípulo que mais sabia as palavras do mestre, ele foi responsável por redigir todos os ensinamentos que eram recitados nesse encontro. A escolha por Ananda como peça chave no concílio se deu também por que ele tinha um poder de memorização melhor do que de todos os demais monges. O dia da assembleia estava cada vez mais próximo e Ananda foi estimulado a intensificar sua prática do Budismo Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Exemplo dos ensinamentos de Buda preservados de forma escrita

para que ele atingisse o mesmo nível de elevação espiritual dos monges mais respeitados. Segundo conta-se, na noite anterior à reunião ele estava fazendo um esforço tão severo de meditação para conseguir elevar seu espirito que, às quatro da manhã, ele desistiu da prática, pois tinha percebido que todo seu esforço tinha sido em vão porque ele não estava com a mente tranquila e não conseguia se concentrar. Foi então ele decidiu descansar para estar preparado para o concílio. Neste momento, quando se preparava para dormir, ele atingiu o Nirvana e se tornou um monge com o mesmo grau de elevação dos demais. Durante a realização do concílio, ele recitou perfeitamente todo dos ensinamentos do mestre. O encontro contou com aproximadamente 18 grupos diferentes de seguidores de Buda, que podem ser divididos de quatro formas diferentes.

Os quatro grupos do concílio

O primeiro dos grupos pode ser definido como os Sarvastadines, pois tiveram uma influência nesta primeira reunião e ajudaram a formatar o que seria conhecido como Cânone de Páli, o primeiro livro ou Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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conjunto de escrituras do Budismo. O segundo grupo era representado por monges da escola Samntiyas, que defendiam uma abordagem menos ortodoxa dos ensinamentos de Buda, principalmente do que dizia respeito sobre a relação da prática com a natureza do ser humano. Os outros grupos participantes do concílio podem ser considerados os dois mais importantes dentro da evolução do Budismo, pois são as que detinham o maior número de integrantes e que permanecem como referência até os dias atuais. O primeiro desses são os Mahasanghikas, que deu origem, anos depois, à vertente Mahayana, também conhecida como grande veículo, pois se dispôs a fazer uma leitura dos ensinamentos de forma mais simplificada, para que esses ensinamentos pudessem ser assimilados por leigos e proporcionassem a expansão do Budismo. O último grupo participante dessa assembleia eram os monges de origem Sthaviras, que na língua da época, o páli, significava Theras ou anciões. Esse grupo deu origem à vertente mais ortodoxa do Budismo, também conhecida como Escola Theravada, sendo a única que ainda preserva até os dias de hoje o cânone budista completamente escrito em seu idioma original. Tem como seu principal texto, também escrito em língua original, o Dhammapada, que é uma obra essencial para os estudos do Budismo. Os discursos de Buda que formam o cânone original da doutrina budista foram divididos em três cestos, cada um referente a uma temática diferente dos ensinamentos do mestre. Os discursos de Buda, após compilados, passaram a fazer parte do Cesto de Discursos, também conhecido como Sutra Pitaka. Da mesma maneira o capítulo destinado às regras e práticas a serem seguidas nos monastérios ficaram

Um dos símbolos que representam a vertente Mahayana do Budismo


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27 27 no capítulo conhecido como Cesto das Disciplinas (Vinaya Pitaka) e sua elaboração ficou a cargo do monge Upali, que redigiu as determinações após longas discussões com os líderes de cada grupo. E por fim, foi criado o Cesto do Ensinamento Superior (Abhidharma Pitaka) com os ensinamentos do mestre sobre como atingir o caminho da evolução espiritual. Os Três Cestos (Tripitaka) forma o cânone de páli, primeiro e principal livro da doutrina Budista, pois ele é considerado a compilação mais pura dos ensinamentos de Buda. Após a definição dos ensinamentos que fariam parte do cânone, foi chegada a hora de levar toda a compilação para a aprovação dos monges presentes à assembleia. O monge Mahakashyapa indagava ao responsável pela escritura do código de disciplina os motivos e em quais ocasiões as punições deveriam ser adotadas e Upali as respondia. Depois que todos os preceitos foram registados e lidos em voz alta para que todos os 500 monges recitassem, item a item, o capítulo era adotado de forma definitiva como prática das normais budistas. A prática foi adotada até que se fossem recitados e aprovados cada um dos três Cesto e finalmente após Ananda recitar o Dharma, teve se a conclusão do concílio e, então, o livro oficial com todas as práticas, conhecimentos e normas que deveriam ser adotadas a partir de então para a prática do Budismo.

Segundo Concílio

O segundo concílio, que alguns historiadores consideram como o primeiro, pois ao contrário do primeiro, este encontro foi amplamente registrado em documentos escritos em sânscrito (versão mahasanghikas) e em páli (versão sthaviravadins). Essa assembleia é considerada um marco histórico dentro da evolução do Budismo, pois foi nesta ocasião que surgiu a ruptura definitiva dos seguidores de Buda que resultaria nas duas vertentes filosóficas mais antigas, a Mahayana e a Theravada. Esse concílio ocorreu por volta de 383 d.C., aproximadamente um século após a morte do mestre. Nos anos que separaram esses dois encontros muita coisa aconteceu com as práticas determinadas por Buda, entre elas, houve acusações que monges da região de Vaishali quebraram diversas regras monásticas impostas na primeira assembleia como, por exemplo, aceitar doação de ouro e prata de leigos que entravam nos monastérios para aprender os ensinamentos, fazer refeição fora dos horários permitidos e ingerir bebidas alcoólicas, práticas expressamente proibidas. A realização das práticas proibidas foi delata pelo monge Yashas, um líder ancião da comunidade monástica que se localizada ao leste do território indiano e, por ter entregue os seus parceiros de monastério, foi expulso da comunidade onde atuava. Porém, ele recebeu grande apoio de monges de outras regiões da

Pilar do Leão construído em homenagem ao imperador Ashoka em Vaishali, local do segundo encontro budista

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O Budismo na história Índia que queriam preservar as práticas monásticas da forma como foram definidas no primeiro concílio. Foi então, que durante o reinado do rei Kalashoka, se realizou o segundo concílio de monges budistas reunindo aproximadamente 10 mil monges no monastério de Valukarama em Vaishali. Este segundo concílio teve dois grandes acontecimentos. O primeiro deles foi julgar os monges de Vaishali que haviam se desviados das práticas budistas e que acabaram condenados e expulsos da comunidade, em veredicto dado pelo monge Sarvagamin, discípulo direto de Ananda, fiel escudeiro de Sidharta em seu momento rumo ao Budato e na disseminação das regras do Budismo. De acordo com escrito cingaleses, conhecido como Dipavamsa, os monges expulsos da comunidade convocaram uma espécie de contra concílio e criaram uma nova vertente de interpretação do Budismo, que ficou conhecida como Mahasanghika (A Grande Comunidade), que seria o berço da vertente Mahayana. Os monges ortodoxos, mais ligados à literalidade dos ensinamentos de Buda e ao monge Yashas, fundaram a escola do Ensinamento dos antigos (Sthaviravada), base da escola Theravada. Esse Concílio ficou marcado por isso, por significar a ruptura irreversível entre os discípulos de Buda e criação das bases de suas duas principais vertentes filosóficas. De acordo com traduções chinesas, o segundo concílio, que ficou conhecido como Shariputraparipriccha, teria acontecido sob o patrocínio do im-

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perador Ashoka, que governou o território indiano entre 273 e 232 a.C. Ainda segundo esses escritos, a maior parte dos monges teria se recusado a seguir as novas regras impostas pelo concílio e aderiram à escola Mahayana e uma minoria mais tradicionalista fundou a escola Theravada, o que explicaria a maior proliferação desta vertente no território da Índia e regiões próximas.

Terceiro Concílio

Há muitas controvérsias sobre a realização deste terceiro encontro entre os monges budistas. De acordo com escritos chineses e tibetanos, esse concílio aconteceu em 367 a.C. durante o reinado do imperador Mahapadma Nanda de Magadha (362-334 a.C.). Ainda segundo esses registros, o que motivou essa reunião teria sido uma tese exposta pelo monge Mahadeva, que vivei entre os séculos IV e III a.C. e que considerava que os seres santos (arhat) também estariam sujeitos às tentações da vida mundana e poderiam se desviar dos caminhos propostos por Buda ao serem acometidos por ignorância e dúvidas. Ainda segundo essa tese, os monges anjos errantes poderiam procurar ganhar mais conhecimento com a ajuda de outros seres e até progredir em direção à elevação espiritual por meio de certas exclamações verbais. Nesse momento os monges da região de Pataliputra se reuniram no monastério de Ashokarama para discutir a validade da tese de Mahadeva. Como não houve consenso, e eles se dividiram com uma

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Templo budista em Bihar, cidade que abrigou o terceiro concílio dos monges budistas

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Região do Sri Lanka onde foi realizado o quarto concílio dos praticantes do Budismo

parte deles permanecendo na vertente Mahayana e outra migrando para a escola Theravada. Já para a escola mais conversadora do Budismo, a Theravada, o terceiro concílio teria ocorrido por volta do ano de 244 a.C., durante o reinado do imperador Ashoka e essa convocação teria como intenção resolver assuntos internos dessa vertente. O principal assunto que seria tratado nessa reunião dizia respeito à aceitação de novos adeptos para a prática do Budismo, pois muitos praticantes de outras religiões teriam se tornado budistas não para encontrar o caminho da luz e seguir os ensinamentos de Buda, mas sim para obter as vantagens que os monges tinham como, por exemplo, alimentação farta, acesso à educação e a reverência de leigos. Muitos desses novos discípulos continuavam a manter a prática de suas religiões mesmo elas sendo contrarias aos ensinamentos de Buda. Por isso, essa assembleia serviu para definir normas mais r��gidas para a prática do Budismo. Esse Concílio é considerado histórico para a vertente Theravada, pois segundo suas escrituras da época, ele marca também o início da expansão do Budismo por toda a região do subcontinente asiático. Foi durante a realização dessa assembleia que o imperador Ashoka decidiu se converter à filosofia budista. Após seus soldados terem decapitado por engano diversos monges durante um período de guerra, o imperador ficou horrorizado com a selvageria que presenciou e foi ao encontro do monge Moggaliputta Tissa, um dos responsáveis pelo concílio, e se converteu ao Budismo. Após sua a conversão, Ashoka contribuiu para que o Budismo fosse implantado em

regiões que faziam parte de seu império e em regiões vizinhas como o Sri Lanka, para onde enviou seus filhos, os agora monge Mahinda e monja Sanghamitta, em missões diplomáticas.

Quarto Concílio

Essa assembleia traz duas novidades em relação às práticas do Budismo. A primeira delas é que ele foi o primeiro e único Concílio realizado na era cristã, com sua realização sendo determinada no final século I d.C. O outro fator é determinante para a expansão das práticas budistas e para a preservação de todo os conhecimentos que Sidharta passou aos seus discípulos: foi nesse concílio que os monges decidiram que era necessário que se transcrevesse as normas contidas no cânone oficial para o papel. Nos primeiros 600 anos da prática monástica, os conhecimentos transmitidos pelos discípulos de Buda permaneceram escritos em folhas de palmeiras, da mesma forma como Ananda havia deixado registrado no primeiro encontro dos monges. Os monges presentes nessa assembleia acreditavam ser primordial que se transcrevesse os conhecimentos de Buda para o papel, pois devido às condições climáticas locais não era garantido que as escrituras feitas em folhas de palmeira pudessem resistir ao tempo. Aliado a isso, o fato de o Budismo ser uma filosofia sectária, ou seja, o conhecimento ficava restrito a alguns monges, que já tinham idade avançada e poderiam morrer sem que retransmitissem o conhecimento ao próximo, corria-se o risco que os conhecimentos de Buda morressem junto com esses monges. Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Templo de Mahabodhi, principal obra arquitetônica do rei Ashoka relacionada ao Budismo

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Essa assembleia aconteceu em um lugar chamado Bosque Circular, no reino de Kashmir. Além de dar uma versão escrita dos ensinamentos de Buda, ela serviu para que os monges da escola Sthaviravada pudessem solucionar algumas dúvidas que eles tinham sobre os ensinamentos e que geravam múltiplas interpretações das leis da vertente Theravada. O encontro contou com a presença de aproximadamente 500 monges, de arhats (anjos) e de bodhisattva (monges com poder de iluminação próximo ao de Buda). Durante essa assembleia realizada no Sri Lanka, o rei Vattagamani convocou os monges do monastério Mahavihara a recitarem todos os registros que eles tinham em suas folhas de palmeiras para que esses conhecimentos pudessem ser passados para o papel. De acordo com a tradição Theravada, a transcrição de todos os conhecimentos de Buda acumulados durante mais de meio milênio teria durado 12 anos e resultado em aproximadamente 100 mil versos de cada uma das partes dos ensinamentos de Buda. Foram 100 mil para determinar as regras monásticas (Vinaya-vibhasa), mais 100 mil dedicados aos ensinamentos em si, e outros 100 mil para explicar os comentários dos discípulos aos ensinamentos do mestre.

A importância do imperador Ashoka

O rei indiano Ashoka é uma figura central na história do Budismo. Foi durante o seu reinado entre 273 e 232

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a.C., que a filosofia budista deixou de ser uma prática local, restrita a algumas regiões da Índia e começou sua expansão para outros países do continente asiático, a começar pelo Sri Lanka. O imperador Ashoka nasceu por volta de 300 a.C. como membro da dinastia Maurya, que se localizava na região onde se encontra a Índia. Ele foi responsável pela expansão do reino de Magadha por quase todo o subcontinente asiático, levando as fronteiras de seu império até regiões onde se encontram o Paquistão, o Sri Lanka, Bangladesh e o Afeganistão. Sua conversão à filosofia budista se deu durante uma de suas campanhas expansionistas. Por volta de 261 a.C., o exército comandando por Ashoka, durante uma batalha extremamente sangrenta causou a morte de aproximadamente 200 mil pessoas, incluindo monges inocentes. Após testemunhar o horror da guerra, o rei concluiu que nenhuma campanha militar justificava a perda de tantas vidas e decidiu adotar a prática da não violência e se converteu ao Budismo. Além da conversão, ele ajudou e incentivou a prática dos ensinamentos de Buda por todo o território de seu império. Entre as ações do imperador que resultaram na expansão do Budismo, podemos destacar que ele entalhou pilares de ferro por todo o reino com frases budistas que incentivavam a população a adotar uma vida ética e os ensinamentos de Buda no dia a dia. Para além dos limites de seu reino, era comum o imperador enviar missões monásticas para outras terras, como foi


O Budismo na história Como o novo imperador Pusyamitra era seguidor do bramanismo, ele decidiu destruir qualquer referência ao Budismo existente no território indiano, principalmente templos e monastérios. Ele determinou também o assassinato de diversos monges. Onde era impossível destruir as referências a Buda, como nas cidades de Nalanda, Bodhgaya, Sarnath e Mathura, o novo rei converteu os monastérios e templos em mosteiros e templos hindus.

Tempos difíceis

O Budismo é uma filosofia que prega a não violência e o amor ao próximo, porém, durante praticamente toda a era cristã, o Budismo sofreu perseguições que variavam de acordo com a ascensão de um ou outro império ou com as invasões que o território indiano sofria. Nos primeiros anos da era cristã, o único momento em que o Budismo viu sua prática florescer com tranquilidade foi durante a dinastia Gupta, que entrou em declínio quando seu império foi destruído pela invasão de Hunos e pelos exércitos de expansão dos califados islâmicos na região. Durante a dinastia Gupta, entre os séculos IV e VI, diversos centros e universidades foram construídos para a disseminação dos ensinamentos da vertente Mayahana do Budismo, sendo o principal deles o cen-

Ruínas da universidade Nalanda, destruída durante a invasão islâmica na Índia

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no caso do Sri Lanka, onde o rei Tishya, o convidou a mandar monges para a região. Em outros casos, ele enviou emissários do Budismo por conta própria para outras regiões, onde eles poderiam tornar acessíveis os conhecimentos de Buda para quem nunca tinha ouvido falar sobre ele e a doutrina budista como, por exemplo, no Egito, Macedônia e Indochina. O reflexo dessas missões ficou evidente, pois em pouco tempo a filosofia criava raízes em regiões como o sul da Índia e da Birmânia, atualmente Mianmar. A prática de expansão da filosofia budista adotada pelo imperador ajudou o Budismo a desenvolver sua capacidade de adaptação de seus ensinamentos a realidades diferentes e criou um senso maior de preservação e fidelidade às origens do ensinamento do mestre. Outra grande contribuição do imperador foi a construção de templos budistas em várias regiões de seu reino, inclusive em Bodhgaya, região onde Buda teria alcançando a sua iluminação e que recebeu o nome de Templo Mahabodhi. Apesar de todo o esforço do imperador Ashoka em promover a expansão do Budismo, principalmente fora do território indiano, a disseminação dos ensinamentos de Buda sofreu um forte revés após a sua morte. Com o declínio do reino de Magadha e o surgimento a dinastia Sunga (185-173), o Budismo entrou em decadência.

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32 Peregrinos andando no trecho chinês da famosa Rota da Seda

tro de Nalanda, localizado na região nordeste do país, que tinha como sua principal figura o monge Nagarjuna. A contribuição dos Guptas pode ser vista também nos ramos da arquitetura e da arte, pois foram construídos templos para a prática do Budismo. Porém, o que parecia ser uma época de prosperidade e consolidação sofreu um duro golpe a partir do século VI. A data marcou o fim da dinastia na Índia e o domínio Hunos e Islâmicos. O fim desse império foi fatal para a representatividade do Budismo na Índia, pois com a destruição da universidade de Nalanda, em 1193, pelos islâmicos, liderados pelo militar Muhammad Khilji, o Budismo nunca mais foi o mesmo. Apesar de todo o estrago feito pela invasão de Hunos e islamistas na região, o Budismo ainda permaneceu com alguma relevância na região de Bihar, onde ele nasceu até a chegada dos exércitos do califado à região. Depois disso, a prática perdeu sua relevância para o ressurgimento do hinduísmo e a consolidação do islã, que até hoje tem mais praticantes na Índia. Outra região que viu florescer o Budismo e também seu declínio durante o século VII foi a Ásia Central, principalmente nos arredores da famosa Rota da Seda – caminho comercial que ligava a China ao continente europeu e principal referência no comércio de especiarias da região. Segundo escritos Theravada, dois irmãos mercadores da região de Báctria, hoje Afe-

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ganistão, em uma viagem à Índia conheceram Buda e se tornaram discípulos e foram responsáveis por disseminar seu ensinamentos nos arredores da Rota da Seda, principal ponto de convergência entre os mundos indianos, chinês e persa. Ali foram construídos templos e mosteiros budistas durante a ascensão da dinastia Han, por volta do século II a.C. Porém, no século VII, os persas começaram a sua expansão territorial pela a região e realizaram perseguições contra os praticantes do Budismo, praticamente acabando com toda a prática da filosofia na Ásia Central, que até hoje tem o predomínio do Islã. O Budismo na China permanece com bastante relevância, porém a história da prática no país está longe de ser tranquila. Durante a dinastia Tang, entre os séculos IV e XI, houve a construção de diversos mosteiros e templos e o incentivo para o intercâmbio dos monges chineses com a cultura indiana. Porém, com o final da dinastia, por volta de 845 d.C., o reino chinês passou para as mãos do imperador Wuzong e a prática do Budismo passou a ser mal vista. Com a ideia de fortalecer o Taoísmo, o imperador proibiu a prática de qualquer religião considerada estrangeira e os reflexos disto foram o confisco de bens dos monges budistas e a destruição de templos e mosteiros. Apesar de toda essa perseguição, hoje a China tem as maiores coleções de obras de arte e escrituras do Budismo.


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O Budismo viveu um momento de apogeu nos primeiros séculos da era cristã. Durante todo o primeiro século, em virtude do intenso comércio terrestre na Rota da Seda, ele conseguiu se difundir em outras regiões da Ásia, principalmente a central. Com o intenso comércio entre o os países mediterrâneos e a China, a Índia passou a ter papel estratégico nas rotas de comércio e uma forte influência cultural no sudeste asiático. E por meio da Rota da Seda conseguia levar os ensinamentos de Buda à países como Birmânia (Sri Lanka), Camboja e Vietnã. A influência do Budismo indiano foi tão forte nos primeiros anos do novo milênio que mesmo após ele ter entrado em declínio em seu país de origem, seus ensinamentos continuaram a ser disseminado no continente, principalmente a vertente Mahayana, por meio dos monges que habitavam templos e mosteiros localizados no Sri Lanka e no Tibet. Quem também contribuiu para a expansão do Budismo foi o Império Srivijaya, que governou a ilha de Sumatra na Indonésia entre os séculos VI e XI e teve seu auge durante os últimos séculos de existência. O rei Sailendra ordenou que toda a população adotasse as escolas Mahayana e Vajrayana como prática espiritual e influenciou a difusão dos ensinamentos de Buda por boa parte do sudeste asiático, principalmente na Malásia. Além de propagar os ensinamentos de Buda, Sailendra construiu diversas estátuas do mestre por todo seu reino. É datada desta época, durante o século VIII, a construção da maior estatua budista da his-

tória, que fica no templo de Borobodur, localizado na ilha de Java, na indonésia. Outro grande império que ajudou a disseminação das práticas budistas foi o império Khmer, que existiu entre os séculos IX e XIII, e que tinha como característica a adoção da vertente Mahayana e o hindu. Como dominou boa parte da península do sudeste asiático e construiu mais de 900 templos, principalmente no Camboja e na Tailândia. Entre as principais obras deste império estão os templos de Bayon e Angkor Thom. A expansão promovida pelo o império Khmer permitiu ao Budismo continuar sendo difundido a partir dos templos do Sri Lanka, que adotou a prática da vertente Theravada. O quinto século da era cristã marcou o surgimento de uma nova vertente do Budismo, o tibetano. Em seu início ele era conhecido como Vajrayana e surgiu no leste do território indiano entre os séculos V e VII d.C., essa nova escola também pode ser definida como um desdobramento da vertente Mahayana, pois suas práticas se assemelham com as práticas da vertente tradicional. Os praticantes budistas que deram origem à corrente Vajrayana eram homens que viviam à margem da sociedade e ficavam nas florestas indianas. Porém, com a invasão dos persas e da religião islâmica na região durante o século XII, essa escola entrou em decadência na região e os seus praticantes fugiram para o Tibet, onde a escola permanece até hoje com a denominação de Budismo Tibetano.

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O ressurgimento Theravada

Com as invasões islâmicas no subcontinente indiano a partir do século XI, a vertente Mahayana entrou em Palácio dos tempos do império birmanês, localizado em Myanmar

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À mercê dos impérios

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severo declínio de duas práticas, que ficaram restritas a algumas regiões da Índia, pois as principais rotas de comércio estavam totalmente dominadas pelos persas e a sua religião. Com isso, a vertente mais tradicional do Budismo só conseguiu ressurgir e expandir sua área de influência com a descoberta das novas rotas marítimas que ligavam o Oriente Médio à China, com passagem obrigatória pelo Sri Lanka como interposto comercial e onde a escola Theravada ainda mantinha forte influência. Nessa época a região era dominada pelo império birmanês, hoje Myanmar, e tinha como principal representante o rei Anawrahta. Ele era seguidor dos preceitos budistas da vertente Theravada e fez questão que transformá-la em religião oficial de seu império. Durante o seu reinado ele construiu milhares de templos na capital do reino, Pagan, entre os séculos XI e XIII. Apesar do declínio do império birmanês, a ascensão do império Thai e a tomada da capital pelo povo mongol em 1287, a escola Theravada permanece como protagonista na região até os dias atuais. Durante os séculos XIV e XVII o Budismo Theravada se tornou parte integrante da sociedade e da política tailandesa, principalmente foi influência do rei Ayutthaya. A partir de meados do século XIV, as regiões costeiras e as ilhas do sudeste asiático passaram a sofrer uma forte influência do Islã, que chegava por meio dos exércitos expansionistas do califado a países como Malásia, Indonésia e toda a região das ilhas que se estendia do continente até as Filipinas. Apesar de forte pressão dos novos reinos e de perder, progressivamente, a sua influência para o Islamismo, a tradição da vertente Theravada ainda se mantém com algum destaque nesses países. Desde a década de 60 do século passado, o Budismo Theravada tem conseguido um número maior de adeptos à sua doutrina na região da Indonésia, principalmente após o ditador Suharto ter recomendando que a população do país adotasse as práticas de umas das cinco principais religiões que historicamente fazem parte da história da construção história da nação e que ainda estão presentes na região, que são: Islã, protestantismo, catolicismo, hinduísmo e o Budismo. O Budismo tem grande influência entre a colônia de imigrantes chineses que estão cada vez em maior no país.

Relação do Budismo com o hinduísmo

Nesta última parte iremos falar da relação do Budismo com as demais religiões, principalmente aquelas que de uma forma ou de outra afetaram diretamente a prática do Budismo. A primeira relação que iremos abordar é a do Budismo com o hinduísmo, que já ambas nasceram na mesma região e praticamente ao mesmo tempo e são consideradas desmembramentos do Bramanismo. O conflito entre as duas filosofias está relacionado às questões das práticas religiosas e ao poder. Guia Conhecer Fantástico – Budismo

Durante a dinastia Maurya, o Budismo foi adotado como religião oficial do império, relegando a um segundo plano a importância do hinduísmo na sociedade, inclusive com a proibição do sacrifício e a divisão da sociedade em castas. Com a queda do império Maurya, e a ascensão de Pusyamitra (187-151 a.C.), que deu origem à dinastia Sunga na região e sua ligação com o hinduísmo, foram determinantes para que muitos templos budistas fossem destruídos e as práticas bramânicas fossem retomadas. Esse foi o início do declínio budista e a consolidação do hinduísmo como religião mais importante da Índia. A convivência entre os praticantes das duas religiões ficou complicada na Índia, principalmente entre


O Budismo na história Um dos fatores que ajudaram o hinduísmo a prevalecer na Índia durante o primeiro milênio da era cristã está na capacidade dos hindus em se apropriarem e reinterpretarem a figura de Buda em sua religião, ao tratarem ele como uma espécie de reformador do hinduísmo e não o criador de uma nova filosofia. Além disso, as práticas hindus eram mais acessíveis às massas, pois estava presente do cotidiano das pessoas, enquanto os monges budistas viviam isolados dentro dos monastérios.

Budismo e Islã

A relação entre os praticantes do Islã e do Budismo foi crucial para que a filosofia de Buda não conse-

Estátua em homenagem a Ganesha, deusa do hinduísmo, na Índia

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os anos de 300 e 500 d.C., pois escritos hinduístas relatam que os representantes eruditos ou mais articulados consideravam os budistas como serem impuros. O Vysnupurãna, por exemplo, prega a ruptura total do hinduísmo com o Budismo, e chega a condenar seus praticantes ao inferno em caso de qualquer relação com os discípulos de Buda. Um dos principais representantes do hinduísmo na época, o monge Kumariļa (século VIII d.C.), dizia que os ensinamentos de Buda não respeitavam as autoridades Vedas e que ele não poderia criar uma nova filosofia e nem ensinar o dharma às pessoas, pois ele era de uma casta inferior e não teria autorização para assumir o papel destinado aos sábios.

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Alcorão, símbolo máximo do islamismo

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guisse se consolidar na região da Ásia Central. O primeiro contato entre os discípulos dessas duas religiões aconteceu entre os anos de 661 e 750 d.C., na região onde hoje se localizam Afeganistão, Irã, Uzbequistão, Turcomenistão e Tadjiquistão. De acordo com o autor árabe Umar ibn al-Azraq al-Kermani, nessa época o exército islâmico, durante seu processo de expansão e domínio territorial, encontrou mosteiros budistas em toda a região onde hoje é o Afeganistão. O autor diz que teria ficado impressionado com a semelhança entre a arquitetura do mosteiro de Nava Vihara e a do templo islâmico de Caaba, em Meca. A convivência entre as duas religiões viveu momentos distintos durante a história. Em alguns momentos, houve convivência pacífica entre elas, mesmo tendo os budistas que conviver com algum tipo restrição e serem obrigados a adotares preceitos estabelecidos pelos califas como, por exemplo, ter que portar o Alcorão, livro sagrado do Islã, e respeitar algumas normas comportamentais. Segundo outros registros de Al-Kermani’s, a convivência entre árabes e budistas era tão positiva que na metade do século XVII os califas Al Mahdi (775-785) e Harun al-Rashad (786-809), representantes da dinastia das Abássidas (750-1258), chegaram a convidar monges do templo de Nava Vihara para irem Guia Conhecer Fantástico – Budismo

a Bagdá os ajudarem na tradução de livros sobre medicina e astronomia que estavam escritos em sânscrito, idioma original do Budismo. Além de livros técnicos, houve a colaboração das duas correntes religiosas para tradução para o árabe de livros que contavam as vidas passadas de Buda e um compilado de obras indianas. Apesar dessa boa convivência durante boa parte a história, a relação entre islâmicos de budistas registra também conflitos muito violentos, em virtude da expansão bélica de alguns califados islâmicos. Por exemplo, durante a conquista de Bukhara, hoje Uzbequistão, em 696 d.C., a extrema violência árabe resultou na destruição de diversos mosteiros na região para dar lugar a novas mesquitas para disseminação da fé islâmica. O mesmo aconteceu com a chegada islâmica na Índia e em outras regiões do subcontinente indiano, fazendo com que o Budismo perdesse força, sendo obrigado a se refugiar no Tibet.

Budismo X cristianismo

Por fim, vamos falar sobre a relação do Budismo com uma das religiões mais influentes do mundo, o cristianismo. Há muitas semelhanças entre essas duas crenças, entre elas o fato de se proporem a ser universais e

não terem restrições geográficas ou étnicas para agregar novos seguidores às suas doutrinas. Como as duas religiões tinham a intenção de se espalharem pelo mundo, não demoraria muito tempo até que ambas se cruzassem. A primeira referência de um representante da igreja cristã ao Budismo foi feita por Clemente de Alexandria (150-215 d.C.), logo nos primeiros séculos da era cristã. Esse encontro entre elas se deveu as atividades missionárias do cristianismo na Ásia. A relação de poder entre elas está


O Budismo na história

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ligada diretamente a questões internas e preferências de cada imperador da região e a interesses socioeconômicos de expansão de cada império, que variava conforme a época. Na região da Índia, berço do Budismo, por exemplo, os contatos entre elas foram feitos em forma de intercâmbio de conhecimento. No início, esses encontros aconteciam de forma esporádica, pois poucos missionários cristãos viajam à região. Até o final do primeiro milênio, havia poucas comunidades cristãs na Índia, tanto que o primeiro registro importante dessa relação se dá em 1291, quando o padre franciscano Giovanni di Montecarvino batizou os primeiros católicos indianos na cidade de Kerala.

O cenário começou a mudar com a chegada as expedições portuguesas à região, por meio das recém-descobertas rotas marítimas rumo ao Oriente. Portanto, a partir do século XV se viu uma verdade invasão do cristianismo na Índia e demais países do subcontinente asiático. Nessa época, o Budismo já estava em declínio, o que facilitou o papel das missões jesuítas em exportar o catolicismo para a região e que encontrou bastante aceitação na população mais pobre e eram conhecidos como os sem castas. Com a diminuição da influência budista na Índia, os protestantes também encontram um terreno fértil para a propagação de suas crenças na região entre o final do século XVIII e a primeira Guerra Mundial.

Praça de São Pedro, local de morada do Papa, líder máximo do catolicismo

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Capítulo 4

A dispersão do Budismo na Ásia e na Europa Saiba o caminho que os ensinamentos percorreram para se tornar uma filosofia global

Neste capítulo do Guia Conhecer Fantástico sobre o Budismo, iremos contar como aconteceu a disseminação da prática nos principais países do continente asiático, onde essa prática milenar nasceu, se desenvolveu e de lá partiu para se tonar uma filosofia de alcance global. O Sri Lanka, pequena ilha do sudeste asiático, tem um papel fundamental na preservação e na disseminação da escola Theravada no continente, pois não fossem pelos monges que habitavam esse país provavelmente não teríamos conhecimento sobre a vertente mais tradicionalista do Budismo. 38  Guia Conhecer Fantástico – Budismo


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Budismo no mundo

Imagem de Buda no mosteiro Mahavihara, o principal do país

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A importância do Sri Lanka para o Budismo Theravada

O Sri Lanka tem um papel fundamental na história do Budismo, não só ao que se refere à preservação da vertente Theravada, mas como também em sua propagação por boa parte dos países que fazem parte do sudeste asiático, como

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e no sudeste do continente a escola mais tradicional do Budismo tem seu lugar de destaque, sendo quase hegemônica, no restante da região quem teve mais sucesso em seu processo de expansão foi justamente a corrente mais progressista. A partir da chegada de monges da vertente Mahayana à China, essa vertente filosófica se expandiu não só dentro do país, como chegou com força nos primeiros séculos da era cristã à Coreia e posteriormente ao Japão, onde ganhou status de religião oficial do Estado até meados do século XIX. Foi graças à presença maciça em países como China e Japão, principais atores econômicos da região, que o Budismo despertou o interesse dos povos ocidentais, que começaram a estudar as teorias dos ensinamentos de Buda ainda na Idade Média. Depois, viram a prática chegar aos países ocidentais com as grandes ondas migratórias e missionárias de asiáticos durante o começo do século XX, tendo como principais portadores da filosofia budista chineses, japoneses, vietnamitas e cambojanos. Sejam bem-vindos a essa viagem história pelo processo de consolidação e emancipação do Budismo para além das fronteiras da Índia, seu país de origem.

Tailândia, Indonésia e Camboja, por exemplo. A prática chegou à ilha por meio das mãos do monge Mahinda, filho do rei Ashoka, que durante seu reinado não mediu esforços para que o Budismo se disseminasse pelas mais diversas regiões da Ásia. O filho do rei e seus discípulos chegaram ao Sri Lanka em meados do século III a.C., e logo de cara conseguiram converter o então rei do país, Devanampiya Tissa, para as práticas da doutrina budista. Esse foi o primeiro passo da vertente Theravada para além dos limites do território indiano. Assim que se converteu à nova filosofia, o rei do Sri Lanka mandou que fosse construído um mosteiro na capital do país, Anuradhapura, para abrigar os monges budistas que haviam chegado da Índia. Além do abrigo, o mosteiro de Mahavihara (o Grande Mosteiro), foi o local onde foi escrito a primeira versão do cânone de páli, o livro com os ensinamentos do mestre Sidharta Gautama, no ano de 80 a.C. Além de servir como principal base da escola Theravada, o Sri Lanka também serviu como polo de disseminação desta vertente em países próximos. Foi por causa da influência dos monges budistas radicados no Sri Lanka que a escola mais tradicionalista do Budismo

Jovens em um templo budista em Mianmar (Birmânia)

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Budismo no mundo

Mosteiro Budista em Lhasa, capital do Tibete

conseguiu chegar a países como Laos, Malásia, Indonésia e Filipinas. A situação do Budismo Theravada, que havia sido protagonista na região desde sua chegada, começou a mudar a partir do século V, com a chegada à região de monges indianos de diversas escolas da vertente Mahayana, que haviam fugido da repressão do povo islâmico que sofriam na Índia. A chegada dos monges da escola Mahayana a países do sudeste asiático como Tailândia e a Birmânia, hoje Mianmar, ajudaram a diluir o poder da vertente Theravada, já que os governantes desses países resolveram aceitar e a adotar a pratica mais progressista do Budismo, o que mostrava a forte influência dos monges indianos nesses governantes. A partir de então, as duas principais vertentes do Budismo passaram a disputar o mesmo séquito de seguidores. Entre os séculos V e X várias escolas do Budismo indiano ganharam espaço entre a população. Porém, a partir de meados do século XI, quando a influência dos monges indianos da vertente Mahayana começou a perder influência, alguns monges da escola Theravada, a pedido dos reis da Birmânia e da Tailândia, foram em viagem ao Sri Lanka em busca de orienta-

ção e discípulos que pudessem disseminar e popular a prática dessa vertente em seus reinos, que passaram a adotar a ortodoxia Theravada como religião oficial. O Sri Lanka tem seu papel fundamental na expansão do Budismo Theravada no mundo, pois após a dominação da Rota da Seda e da destruição do Budismo na Índia por parte do povo islâmico, a ilha se tornou o principal polo de irradiação do Budismo no restante da Ásia e do Mundo, pois havia se torando o principal interposto comercial entre o Ocidente e o Oriente durante a época das navegações.

Tibete: um país para chamar de seu

O Budismo chegou ao Tibete em virtude da fuga de monges da corrente Mahayana que deixaram a Índia após a invasão dos exércitos islâmicos e foram para a região em busca de refúgio. Eles chegaram às terras tibetanas no começo do século VIII d.C., porém a prática começou mesmo a ganhar força a partir do final do século XI, no momento em que se tornou a religião oficial do Estado e expandiu sua influência para outros países próximos como Mongólia, Butão, Nepal, além de províncias do norte da Índia.

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Budismo no mundo

Dalai Lama, a figura mais importante da escola Gelug do Budismo tibetano

Além de ter um Estado para chamar de seu, o Budismo radicado no Tibete traz uma outra peculiaridade em relação a outras vertentes e escolas. Apesar de ter chegado à região como uma expansão da vertente Mahayana, essa corrente do Budismo conseguiu criam uma identidade própria, chamada Budismo Tibetano, considero um terceiro veículo de interpretação dos ensinamentos de Buda. Entre as características que a diferem das demais vertentes do Budismo estão sua ênfase na vida monástica, um resquício do Budismo primitivo e adotada pela escola Theravada. Além disso, o Budismo tibetano incorpora práticas do Tantrismo – movimento religiosos de origem indiana e que eles adotaram seus textos e práticas esotéricas a partir de 750 d.C. Outra diferença em relação às demais vertentes é a adoção de ícones e deuses de uma religião indiana pré-budista conhecida como Bön. No caso do Budismo tibetano essa apropriação se deu de forma instrumentalizada com a transformação desses deuses em guardiões do dharma.

Apesar de beber em outras religiões, a grande inspiração dessa versão do Budismo continua a ser a vertente Mahayana, de quem ela é considerada uma derivação. O que ela herdou de sua predecessora são a profunda ética altruísta de seus praticantes, a veneração aos bodhisattvas (possíveis budas) e as fortes tendências filosóficas, como a prática de levar os ensinamentos de Buda aos leigos. A principal figura filosófica do Budismo tibetano foi Nagarjuna, pensador indiano que após se formar na Universidade de Nalanda escolheu o sutra para começar suas contemplações e relevou implicações que o levariam a resgatar práticas e elementos do Budismo mais primitivo, o que daria origem à escola Madhyamaka e posteriormente ao tantrismo budista. Dois dos principais monges da escola Madhyamaka têm função de destaque dentro da construção do Budismo tibetano: Santaraksita (750-802 d.C.) e seu discípulo Kamala´sila (cerca de 740-797 d.C.). A estada de Santaraksita na região do Tibete foi primordial para a existência do Budismo por lá, pois em sua segunda viagem à região ele fundou o mosteiro de Samye, em 780 d.C., e se envolveu em uma árdua disputa com os sacerdotes Bön para que o Budismo tivesse seu espaço respeitado. Ele foi responsável também pela primeira ordenação monástica no Tibete, restrita a um pequeno grupo de aristocratas locais. Alguns anos mais tarde, seu discípulo Kamala´sila participou ativamente do Concílio de Lhasa, que transformou o Budismo tibetano em religião oficial do país. Essa assembleia foi convocada pelo imperador Trisong Detsen e foi realizada entre os anos de 792 e 794 no mosteiro de Samye, que ficava nos arredores da capital do país. Durante o encontro, Kamala´sila venceu a disputa com o monge chinês Heschang Moheyan, o que fez com que os monges chineses da linhagem ch’na (Zen) tivessem que abandonar o país, deixando o sistema Madhyamaka, raiz do Budismo tibetano, como filosofia oficial do país. O Budismo tibetano tem outra peculiaridade, pois também pode ser conhecido como lamaísmo, pois tem o Lama (uma espécie de mestre ou papa) como sua figura proeminente em sua hierarquia. Toda a estruturação monástica do Budismo tibetano é baseada na figura de um monge como principal referência da doutrina, e sua escolha é feita por meio da procura de um sinal específico em crianças. Aquela que tiver o sinal é reconhecida como reencarnação de Buda a automaticamente alçada ao cargo de líder. O Budismo tibetano se dividiu em quatro escolas de pensamento durante sua existência. A primeira delas é a Nyingma, que tinha os monges Santaraksita e Kamala´sila como personagens principais. Durante os séculos, houve um novo fluxo de imigração de mestres indianos à região com novas traduções e interpretações do texto sagrado, que gerou o nasciGuia Conhecer Fantástico – Budismo

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Budismo no mundo lar em países próximos como em Dharamsala, na Índia, onde o atual Dalai Lama permanece até hoje.

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O Budismo chinês

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Exemplo de pagoda (templo do Budismo Zen) na China

mento das outras escolas, conhecidas como Kagyu, Sakya e Gelupa.

Morte e renascimento do Budismo tibetano

Na metade do século IX, o então rei Langdarma, adepto da religião Bön perseguiu o Budismo com a queima e destruição dos templos da região. Segundo historiadores, a perseguição termina por volta de 842 d.C., quando o rei é assassinado por um dos monges tibetanos. O evento marca o final da primeira fase do Budismo na região. O renascimento da prática se dá em meados do século X, com a estabilização política do Tibete, e a chegada do monge Atisha em 1042, que veio da Índia e introduziu as bases e as fontes monásticas do Budismo indiano no país, e com seus discípulos fundou a primeira escola budista, chamada Kadam. A escola Kadam sobreviveu até o século XIV, quando surgiu a escola Gelug, que foi fundada pelo monge Tsongkhapa, responsável pela reformulação do Budismo no Tibete com o estabelecimento dos monastérios de Ganden, Sera e Drepung. A escola Gelug é a vertente do Budismo tibetano em que tem como figura principal o Dalai Lama (oceano de sabedoria), tendo como seu primeiro Lama o monge Sönam Gyatso, que viveu entre os anos de 1543-1588 d.C. A partir da metade do século XX o Budismo tibetano sofreu um grande baque. Em 1949 com a ocupação chinesa na região, mais de 6 mil monastérios foram destruídos e diversos mestres budistas tiveram que se exi-

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O Budismo é uma das três principais vertentes filosóficas da China, junto com o taoísmo e o xintoísmo. Sua chegada ao país se deu por meio da peregrinação dos seguidos de buda por toda a Rota da Seda e tem como data oficial da chegada o ano de 67 d.C., quando se registrou a chegada ao país dos monges Moton e Chufarlan. Esse evento marca a construção do templo budista Cavalo Branco, no ano de 68 d.C., nos arredores da capital do império chinês, Luoyang. Logo após se estabelecer na China, o Budismo viveu uma época de florescimento e expansão durante a dinastia Tang (618 – 907 d.C.,). Nessa época o rei decidiu apoiar não só a difusão do Budismo no reino com a construção de diversos templos, mas também ajudou a fortalecer o intercâmbio de monges chineses com a matriz da escola Mahayana na Índia. Não raro, o imperador patrocinou viagens de monges indianos à China entre os séculos IV e XI com o intuito que os novos ensinamentos chegassem aos mosteiros e templos que ele havia construído. Durante esse período de amplo intercâmbio de conhecimento entre os monges chineses e indianos, cerca de 130 estudiosos se responsabilizaram por traduzir todas as escrituras que continuam os ensinamentos de Buda para o idioma chinês. Entre eles, podemos considerar o monge Xuan Zang como o principal deles. No período da dinastia Tang ele viajou mais de 25 mil quilômetros durante 17 anos para trazer os escritos para dentro do império chinês e, de acordo com historiadores, durante os quase 50 em que se dedicou a estudar e difundir o Budismo, Zang trouxe mais de 500 escrituras da Índia em sânscrito e traduziu aproximadamente 1.300 textos para o chinês, que foram divididos em 75 capítulos. Porém, no final desta dinastia, o imperador Wuzong decidiu apoiar a disseminação da religião local, o Taoísmo, que havia perdido relevância. Ele começou a proibir as práticas de qualquer religião estrangeira, incluindo o Budismo. O resultado dessa repressão é que muitos dos templos construídos durante a maior parte da dinastia Tang foram destruídos e fechados e os monges perseguidos com direito ao confisco de bens. A perseguição ao Budismo afetou muito a disseminação da prática na China. Demorou aproximadamente um século para que o Budismo passasse a ser tolerado novamente na região. A volta da prática budista na China aconteceu com o surgimento da Dinastia Song (1127 a 1279 d.C.). Nesse período o Budismo viu sua representatividade aumentar com a construção de monastérios e centros de cultura para a aprendizagem dos ensinamentos de Buda. A capital do império de Tang, Chang’na, atualmente Xi’na,


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Budismo no mundo

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foi o principal centro de disseminação do Budismo durante a dinastia Song. A região foi responsável também por disseminar a prática budista para outras regiões da Ásia como Coréia e Japão. Os reflexos desse período de ressurgimento do Budismo na China podem ser vistos até os dias de hoje, pois o país possui os maiores acervos de artes referentes ao Budismo no mundo, como as grutas de Mogao, Longmen, Yungang, e Dazu Rock Carvings em Chongqing. Além dos templos, nos monastérios há um grande acervo de escrituras com os ensinamentos de Buda, inclusive a primeira versão escrita do cânone que é datada do século I d.C., e tem origem na China. Além de grutas e escrituras, pertence à China a maior escultura de Buda feita em pedra. Ela foi esculpida durante a dinastia Tang, no século VIII e fica na cidade de Leshan, próximo à confluência de três importantes rios da região. A principal escola do Budismo chinês é a Tiantai, que é a mais tradicional e tem seu nome baseado no nome de uma montanha do sudeste da China. A repre-

sentatividade dela é tão grande que ela criou ramificações em outros países, como na Coreia, onde é conhecida pelo nome de Ch’ŏnt’ae, e no Japão, como Tendai. As outras duas escolas que têm bastante seguidores na China são a Faxiang e Huayan, cada uma delas com uma ênfase e caminhos diferentes de interpretação das escrituras chinesas do Budismo.

Pavilhão e jardim em Chi Lin, um exemplo da influência do Budismo na arquitetura chinesa

Buda chega à Coreia

A entrada e a disseminação do Budismo em terras coreanas estão ligadas à força que o Budismo tomou na China durante o império Tang. No ano de 372 d.C., quando ainda era permitido o intercâmbio de conhecimento entre monges indianos e chineses, alguns embaixadores chineses chegaram à região onde hoje é a Coreia levando escrituras sobre os ensinamentos de Buda. Nessa época a Coreia não era ainda uma nação unificada e seu território era dividido em três reinos rivais, sendo Silla ao Sudeste, Paekche ao Sudoeste e Koguryo ao Norte, sendo este a porta de entrada do Budismo na região. Guia Conhecer Fantástico – Budismo


Templo Budista em Tóquio, capital do Japão

Durante quase 100 anos após chegar à Coreia, o Budismo ainda não era reconhecido oficialmente como religião em nenhum dos três reinos. Seu status só foi mudar a partir de 384 d.C., quando o reino de Paekche reconheceu a filosofia como religião oficial de se território, sendo seguindo pelo demais reinos nos anos seguintes, sendo Koguryo, em 392 e Silla em 528 d.C. Apesar de estar presente em todos os reinos do território coreano, o Budismo só foi se desenvolver de forma mais expressiva a partir de 688 d.C., quando o reino de Silla conseguiu unificar todo o território coreano sob seu poder. Foi nesse período de unificação que viveu o principal monge do Budismo coreano, Wonhyo Daisa. Ele foi responsável por promover uma forma de Budismo na Coreia que tivesse elementos de todas as vertentes. Mesmo com todo o esforço de Daisa em criar um Budismo universal na região, no século VIII a escola chinesa Chan, que ficou conhecida como Seon na Coreia foi a que se tomou Guia Conhecer Fantástico – Budismo

protagonista na difusão dos ensinamentos de Buda na região. Mesmo com toda a representatividade que tinha durante a unificação da Coreia, o Budismo foi substituído como religião oficial do país pela dinastia Li,

que governou o país entre 1392 e 1910. Ela tornou o confucionismo a religião oficial do país e apoiou sua popularização durante todo esse período. Mesmo com a perseguição sofrida pela dinastia Li, onde quase chegou a ser erradicado do país, o

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Budismo no mundo

Estátua de Buda no Parque Nacional de Seoraksan, em Seul, na Coreia do Sul


Budismo no mundo Budismo ainda tem alguns locais de práticas no país, principalmente na forma do Zen Budismo, que foi a que mais prosperou durante o período de repressão.

Além das construções de templos, mosteiros e da popularização do Budismo no Japão durante os períodos de Nara, Heian e Kamakura, que compreendem os séculos VIII e XII, esses governos contribuíram para a criação de diversas obras de arte relacionadas às práticas budistas como, por exemplo, pinturas e esculturas que retratavam Buda e as práticas monásticas. Se o Budismo viveu seu ápice oficial durante boa parte do império japonês e contou com a ajuda dos governos para se enraizar na cultura nipônica, tendo inclusive a construção de um templo em cada cidade e ficando responsável pela educação de primeiro grau em muitas regiões, a prática no país não ficou livre das crises. O rompimento com a tradição do budista da sociedade japonesa começou a partir de um momento que ficou conhecido como Restauração Meiji, que começou em 1868, sobre os escombros do período feudal e veio com a proposta de modernizar todo o país.

Próxima parada: Japão

A modernidade e a crise

Nessa época o Budismo já não tinha mais todo o poder que havia conseguido durante a era Tokugawa (1600- 1868) e para acelerar o processo de declínio, Meiji que havia se tornado novo governador do país, decidiu adotar práticas

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O Budismo existente no Japão é uma espécie de filho mais novo do Budismo chinês. A prática chegou à ilha em meados do século VI d.C., sendo levado por viajantes coreanos. Ou seja, na linha histórica da expansão do Budismo na Ásia, o Japão foi o último país a ter recebido o Budismo, e já com algumas derivações do Budismo original nascido na Índia. Apesar de ser uma ilha, o Japão tem a localização geográfica ao seu favor, pois por ser o ponto final da Rota da Seda, ele conseguiu preservar os ensinamentos de Buda longe da influência de outras religiões, como, por exemplo, do Islã, que foi responsável pelo desaparecimento do Budismo da Ásia Central e de parte da Índia e o Taoísmo na China. Assim que chegou ao Japão, o Budismo enfrentou uma grande contradição, pois ao mesmo tempo que, em 593 d.C., foi tornada religião oficial do Estado pelo príncipe Shotoku, a prática ficou muito tempo relegadas à corte e à aristocracia, não conseguindo se inserir na camada mais popular da sociedade. A popularização do Budismo na sociedade japonesa só veio a se concretizar dois séculos depois durante as eras de Nara (710-794) e Héian (794-1185), quando várias escolas do Budismo chinês chegaram ao país e começaram a implantar suas ideias e práticas. É nesta época que surgem as duas as escolas japonesas de Budismo com influência chinesa, a Shingon e a Tendai (Tien Tai). O auge da penetração do Budismo no território japonês se deu durante a era Kamakura (1185-1333), com o surgimento das três escolas puramente japonesas de interpretação do Budismo, que são a Terra Pura, Nitiren Daishonin e Zen (Chan), e soma-se a isso a consolidação das vertentes das vertentes chinesas que fundam as escolas Rinzai (Linji) e Soto (Caodong). A consolidação do Budismo no Japão se dá a partir de 710 d.C., com a construção de diversos templos e mosteiros na cidade de Nara, como o pagode de cinco andares, o Golden Hall do Horyuji, e o Templo de Kofuku-ji.

para abolir todas as influências budistas e confucionistas da sociedade japonesa para que, a partir de 1870, pudesse tornar o Xintoísmo religião oficial do Estado, que recebeu o nome de Daikyô, também denominado A Grande Doutrina. A determinação do novo governante gerou uma onda antibudista em todo o país, e em consequência disso, muitas imagens e emblemas foram destruídos e alguns templos acabaram por serem transformados em santuários xintoístas. Esse movimento de apagar qualquer referência ao Budismo ficou conhecido como haibutsu kishaku, algo como exterminar os budas e abandonar as escrituras. Além da concorrência com o xintoísmo que havia se tornado a religião oficial do Japão, o Budismo ganhava outro concorrente para disputar sua representatividade junto à população. Com a adoção de políticas para modernizar o país e o crescente interesse do povo nipônico por aspectos da cultura ocidental, muitas famílias passaram a adotar o Cristianismo como religião, que havia recém-liberado no país após sua prática ser proibida por mais de dois séculos. Não bastasse a concorrência com outras religiões no novo Japão, o Budismo também passou a sofrer com uma crise interna em meados do século XIX. A necessidade de levar as práticas budis-

Pavilhão dourado Kinkaku ji, em Kyoto

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Templo Budista em São Petersburgo na Rússia, a prática no país foi influenciada pela forte migração de coreanos e chineses

tas para mais próximo aos leigos, fez com que surgisse uma corrente de renovação que questionava as estruturas tradicionais das escolas budistas no Japão. Alguns monges e líderes religiosos tinham a intenção de simplificar os rituais, enfatizar as ideias de confronto com a realidade e os problemas enfrentados pelo ser humano durante a vida, levando a prática para mais próximo do cotidiano das pessoas. Em alguns casos sugeriram até que os rituais religiosos ficassem a cargo dos leigos. Dessa corrente renovadora surgiu o movimento Bussho Gonenkai Kyôdan, liderado pelo monge Toshizô Nishida (1850-1918) e que tinha como princípio, ensinamentos que rompiam com a doutrina tradicional. Entre as práticas desse movimento estavam: deixar os livros com os nomes póstumo dos familiares na casa dos seguidores e não mais no templo; recitar o sutra para os parentes falecidos tanto para entes do lado materno, quanto paterno – no modelo tradicional só se recitava o sutra para os falecidos do lado paterno. Os seguidores dessa escola chegavam até a dar nomes póstumo para parentes de amigos e para pessoas que haviam influenciado sua vida, inclusive animais de estimação. A representatividade do Budismo oscilou bastante entre esse período de modernização e o final da II Guerra Mundial, mas ainda sim mantinha sua representatividade. Porém, com a fim da guerra e tendo muitos de seus templos destruídos, aliados a uma cada vez maior ocidentalização do país, o Budismo viu seu número de adepto estagnar e em alguns casos retroceder, principalmente as grandes capitais. Apesar de a religião ter visto cair seu prestígio, o Budismo ainda conta com mais de 8 mil templos no país. Guia Conhecer Fantástico – Budismo

O Budismo vai ao Ocidente

A penetração da filosofia budista em países ocidentais, mais precisamente na Europa, pode ser dividida em três fases distintas e bem distantes entre si. As duas primeiras serviram apenas como registro por parte do ocidente das práticas budistas e uma absorção da prática no continente. O primeiro encontro entre esses dois mundos se deu ainda no império grego, quando se percebeu uma influência maciça da arquitetura grega na construção de templos e monastérios budistas na região da Roda da Seda. Houve também a tradução de muitas histórias e conhecimentos de Buda do sânscrito para o grego, que foram feitas pelo monge árabe cristão João de Damasco. Nesse momento a integração entre as cultuas ocidentais e orientais não passou disso. O contato seguinte aconteceu já durante a Idade Média, por meio do monge franciscano Guillaume de Rubrouck. Ele foi enviado à corte do império Mongol pelo rei francês Luis IX para tentar diagnosticar as características do Budismo. Nesse momento, o monge, após se inteirar das práticas e dos ensinamentos de Buda, classificou seus praticantes como cristãos perdidos no Oriente, o que fez com que o rei não procurasse se aprofundar sobre as práticas budistas. O contato que permitiu ou que deu início ao processo de expansão do Budismo para o Ocidente aconteceu a partir de meados do século XIX, com a descoberta dos ensinamentos de Buda por intelectuais europeus. Até esse momento, o interesse dos reinos e governos ocidentais pelo Budismo era apesar pelo seu contexto histórico.


Budismo no mundo

A dispersão do Budismo como prática e não somente como teoria no Ocidente acontece com força a partir de meados do século XX, em consequência corrente migratória da população asiática para a Europa, principalmente com imigrantes que vinham da Tailândia, Camboja, China e Vietnã, que mesmo longe de seus países, mantiveram as práticas de suas filosofias. Como os imigrantes vieram de diversas partes da Ásia e cada um deles tinha a influência de uma determinada corrente budista, hoje é possível encontrar locais de prática das principais escolas por todo o continente europeu e nas Américas, principalmente a Theravada e a Mahayana, essa última em maior número. Além da grande onda de migração rumo ao Ocidente, principalmente no período entre guerras, a expansão do Budismo no lado ocidental do globo é um reflexo também de muitos missionários que vieram para essas regiões com a intenção de divulgar a cultura e a doutrina de Buda, tanto que há na Europa Ocidental e nas Américas há muitos centros missionários dedicados ao intercâmbio e propagação do Budismo. Apesar das ondas migratórias e missionárias terem conseguido difundir a prática na maioria dos países ocidentais, no Leste europeu o Budismo não teve muita inserção diante da população, em grande medida por causa da ascensão do comunismo na região, principalmente após a Segunda Guerra. Em países do norte do continente europeu como Noruega, Islândia, Suécia e Dinamarca, por exemplo, o Budismo tem uma presença maciça de adeptos e diversos templos ou associações para a prática dos ensina-

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Templo Budista na Hungria, um dos poucos existentes no Leste Europeu

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A Conquista do Ocidente

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mentos de Buda. Em alguns casos como na Dinamarca, o Budismo é a quarta religião com maior representatividade no país. Um dos primeiros países europeus a receber o Budismo em sua sociedade foi a Rússia, onde a prática se instalou em meados do século XVII graças à proximidade com o império mongol. A principal vertente presente lá é o Budismo tibetano, muito por influência da imigração de povos da Coreia do Sul, China e Vietnã. Com a ascensão do comunismo no período entre guerras, muitos monges e lamas sofreram intensa perseguição do governo stalinista durante a década de 1930 sendo acusados de espiões japoneses e inimigos do povo. O Budismo só voltou a ter sua prática intensificada na região com a fim da União Soviética, tendo como principal polo de concentração a cidade de Kalmykia. Entre os principais nomes que identificamos como responsáveis pela disseminação da prática no Europa, podemos destacar: Madame Blavatsky e coronel Olcott, os primeiros britânicos a conhecerem e disseminar a tradição budista no Reino Unido. Na França a principal figura é a francesa Alexandra David-Néel, que após visitar Lhasa, capital do Tibete em 1924, voltou à Paris e escrever mais de 30 livros sobre o Budismo e a sua filosofia. Ela é importante porque por meio de seus escritos, monges de diferentes tradições começaram a visitar a França para disseminar as práticas por lá, tendo o Budismo tibetano como escola mais influente. Outro país importante na disseminação do Budismo na Europa é a Alemanha e prática no país tem como principais figuras Hermann Oldenberg e sua obra Buddha, sein Leben, seine Lehre, seine Gemeinde, que marca o início dos estudos sobre o Budismo e Friedrich Zimmermann, que em 1988 publicou a primeira edição de Buddhistischer Katechismus (Catecismo Budista), com o objetivo introduzir os ensinamentos de Buda para os leigos alemães.

A partir do século XIX o Oriente viu o interesse sobre as práticas budistas explodir, principalmente por parte de intelectuais europeus que procuravam na cultura Oriental uma maneira de chegar ao equilíbrio espiritual. Para alguns historiadores, o que despertou o interesse do Ocidente no Budismo foi o ressurgimento e o fortalecimento da prática em países importantes do Oriente como China e Japão, onde foram detectados forte empenho missionário e atividade social de seus praticantes. A disseminação da filosofia budista no ocidente é um evento recente e, de acordo com alguns historiadores, teria surgido de forma embrionária na virada do século XVII para o XIX, quando uma série de textos e escrituras foi trazida para o Ocidente por pessoas que viajavam rumo às colônias europeias no Oriente e que tiveram um primeiro contato com as práticas budistas. Como alguns desses textos começaram a despertar interesses em estudiosos e filósofos europeus, eles foram sendo traduzidos para o inglês, francês e o alemão. Os principais textos budistas dessa época eram uma coleção de escrituras da vertente Theravada e uma série de textos com as bases de toda da filosofia Mahayana, que era que mais havia se propagado pelo Oriente.

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Capítulo 5

Como a chegada de imigrantes asiáticos foi fundamental para a prática do Budismo no país Primeiros japoneses, depois chineses e coreanos. Eles são responsáveis pelas principais escolas do Budismo do Brasil Este capítulo do nosso especial será dedicado a contar como surgiu a prática do Budismo no país. A chegada das primeiras escolas no Brasil está diretamente ligada à maciça imigração de japoneses ao país a partir das duas primeiras décadas do século XX e com o expressivo aumento do número de imigrantes que desembarcaram por aqui no período entre guerras, devido aos Estados Unidos terem proibido a chegada de qualquer imigrante Oriental ao país e que, portanto, escolheram o Brasil como destino favorito. Mesmo com toda a presença da colônia japonesa nas principais fazendas do interior de São Paulo e Paraná, ainda não havia escolas do Budismo oficialmente construídas no país.

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entrada as primeiras escolas do Budismo japonês começaram a ocorrer após a Segunda Guerra Mundial, quando os colonos residentes em nosso país viram o seu sonho de retornar à sua pátria e suas origens destroçadas juntos com os escombros da guerra, que havia dizimado o Japão. Como não tinham mais esperanças de voltarem ao seus país, os colonos nipônicos decidiram permanecer e tentar prosperar aqui mesmo Brasil. Em virtude disso, começaram a fazer contatos com as sedes as principais escolas budistas para que elas instalassem sedes suas aqui para que eles, já que não podiam retornar, pudessem ao menos manter sua tradição. Foi nesse cenário que começaram a surgir os primeiros templos do Zen-Budismo na região central de São Paulo. Com a chegada do movimento de contracultura ao país entre as décadas de 60 e 70, não só a prática do Budismo começou a se popularizar em São Paulo, mas também houve a construção de templos em outros estados como Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A partir do começo da década de 80, o Brasil viu uma nova onda migratória chegar ao país, mas dessa vez não foram os japoneses que vieram em busca de melhores condições de vida e trabalhos melhores. A grande massa que chegou ao país no final do século era formada por sul coreanos e uma maioria de imigrantes chineses. E junto com eles vieram também as escolas

49 budistas de seus países de origem. A principal escola a se instalar no Brasil nesse momento foi a Tendai, que construiu na cidade de Cotia, interior de São Paulo, o maior templo budista da América Latina, com a extensão de aproximadamente 10 mil metros quadrados. O templo Zu Lai é o mais conhecido de São Paulo e recebe uma grande quantidade de visitantes todos os finais de semana. A principal escola da prática budista no país é o Zen Budismo, que tem como maior expoente e referência Monja Coen Roshi. Por isso, neste capítulo,

Templo Zu Lai, em Cotia (SP)

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Budismo no Brasil

Grande estátua do Buda em um templo em Foz do Iguaçu, Paraná

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Budismo no Brasil além de conhecer a história prática do Budismo você poderá saber um pouco mais sobre a prática do Zazen, principal prática de meditação do Zen-Budismo. Entrevistamos a Monja Zentchu Sensei, principal discípula de Monja Coen e responsável entre outras coisas por ensinar a prática do Zazen para iniciantes. Ela vai contar como foi seu primeiro contato com o Budismo e como foi a experiência durante o processo para se tornar monja, com direito a passar quatro anos em um mosteiro no Japão.

Imigração japonesa: a semente do Budismo

Não podemos falar sobre a prática do Budismo no Brasil e a presença de suas vertentes sem antes falar da maciça imigração oriental ao país. Não fosse a chegada de imigrantes a partir do começo do século XX, muito provavelmente não teríamos uma prática budista tão expressiva como temos hoje. Em 1908 chegaram ao porto de Santos os primeiros nipônicos que vieram ao nosso país com destino as fazendas de algodão, banana e, principalmente café em cidades do interior de São Paulo. O processo migratório, principalmente de japoneses com destino ao Brasil, está diretamente ligado à passagem histórica do Japão da estrutura feudal para o modelo moderno de Estado na virada do século XIX para o século XX. Nesse período, o governador Meiji (1868-1912), o primeiro da era moderna no país, criou um modelo de reestruturação social que deveria fazer a transição do modelo imperial para uma sociedade moderna. Essa transição, porém, não foi fácil.

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O Japão vivia uma intensa crise política e social, onde faltavam alimentos e trabalho, principalmente para o pessoal que vivia no campo. Para superar esses problemas, o então governador decidiu estimular o envio da população campesina para o exterior, onde eles pudessem trabalhar na colheita e, além de ganharem seu sustento, exportar alimento para que o país pudesse superar a crise da falta de comida para a população. A princípio, o Brasil não era o principal polo receptor de mão de obra japonesa, esse papel coube ao Estados Unidos, que já recebiam imigrantes nipônicos no final no século XIX. Porém, aos poucos o governo norte-americano começou a sentir que o excesso de estrangeiros orientais poderia trazer um problema, que eles denominaram de “Perigo Amarelo” e, então, começaram a restringir o acesso da população nipônica. Em 1908, somente mulheres e crianças poderiam desembarcar em solo norte-americano, o que marca também a primeira virada do ponto de imigração a favor do Brasil. A partir de 1924, com a restrição absoluta da chegada de japoneses aos Estados Unidos, que agora passaram a serem vistos como espiões orientais e como possíveis colonizadores, o Brasil começou a ter o que podemos chamar de segunda fase migratória, onde foi registrado o maior número de chegada de imigrantes orientais ao país, em sua grande maioria japoneses. Um dos reflexos da proibição norte-americana na questão da imigração japonesa é que, de acordo com historiadores, entre os anos de 1920 e 1930, aproximadamente 190 mil nipônicos deixaram o país rumo ao exterior, e deste total, cerca de 75% deles desem-

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Imigrantes em plantação de flores: o Budismo chegou ao Brasil com os japoneses

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Budismo no Brasil

barcaram no Brasil, sendo a maioria deles com destino às fazendas do interior de São Paulo e Paraná. A imigração japonesa no país, grande responsável pela inserção e disseminação do Budismo no Brasil, pode ser dividia em três grandes períodos. A primeira fase é de 1890 a 1923; a segunda, entre 1924 e 1941, marcada pelo aumento do fluxo migratório; e entre 1952 a 1963, período em que o Budismo começou a criar suas raízes no Brasil. A medida de exportar colonos para outros países focada em estabelecer colônias agrárias no país caiu como uma luva para o governo brasileiro, pois ele necessitava de mão de obra na lavoura para suprir a demanda de trabalhadores criada com a abolição da escravidão e a migração de muitos negros para as cidades. De acordo com as regras estabelecidas pelo governo japonês, somente as mulheres e os filhos mais novos poderiam imigrar para o Brasil, pois os considerados primogênitos deveriam permanecer no país para que administrassem as propriedades da família por lá. Por isso, a imigração japonesa no Brasil ficou caracterizada pela chegada de idoso, mulheres e crianças, que foram responsáveis por vir trabalhar principalmente nas lavouras de café.

Entrada paulatina do Budismo na cultura brasileira

A inserção das práticas budistas na cultura brasileira não foi imediata. Outra norma, adotada pelo Ministério de Negócios Estrangeiros do Japão, proibia a viagem de monges para os países onde os colonos iriam, pois acreditava que se eles mantivessem as práticas culturais e religiosas nipônicas nos países para qual imigravam, eles teriam mais dificuldades de se adaptar e se inserir nas novas sociedades da qual iriam fazer parte, inclusive no Brasil. A relação entre os colonos japoneses e o Budismo só foi se tornar próxima novamente após o final da Segunda Guerra Mundial, pois até 1945 eles planejavam prosperar no Brasil, fazer algumas economias e retornarem ao seu país de origem e retomaram a vida que haviam deixado por lá. Porém, o final da guerra e o cenário desolador em que o Japão se encontrou, precisando passar por uma nova reconstrução, fez com que muitos dos colonos decidissem abdicar do sonho de retorno para constituir suas vidas e famílias por aqui. O que facilitou nessa escolha por permanecer de forma definitiva no país é que muitos dos colonos japoneses já não habitavam somente a área rural, muitos deles conseguiram ascender econo-

Além dos templos budistas, a consolidação da colônia japonesa no bairro da Liberdade é um marco na influência japonesa do Brasil no pósguerra

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Budismo no Brasil micamente e já tinham residências em grandes centros urbanos, como em São Paulo, na capital do Estado. Sem a perspectiva de voltar e já estabelecidos em grandes centros, os imigrantes japoneses mais velhos e seus primogênitos que tinham vindo ao Brasil começaram a criar círculos de amizade e a procurar locais onde pudessem retomar as práticas culturais de seus países de origem, como a culinária e a religião. Esse foi um fator primordial para a entrada das escolas japonesas do Budismo no Brasil.

O pós-guerra e o Budismo

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O Zen é a escola que chegou primeiro ao país

Apesar da grande colônia japonesa do Brasil, a prática do Budismo só começou a se disseminar e a se consolidar a partir de 1945, com o fim da Era Vargas e a redemocratização país. A partir desse momento, as autoridades brasileiras passaram a respeitar e a atuar na preservação da liberdade da prática religiosa da população. Com o Brasil sob nova democracia, houve a construção dos primeiros templos para a prática do Budismo, principalmente na cidade e no Estado de São Paulo, onde a grande maioria dos imigrantes japoneses se encontravam. O começo da prática do Budismo em templos no país se deu de forma paulatina a partir da década de 1950 e teve como principais responsáveis por sua implantação os primogênitos das famílias japonesas residentes no país, que além de ficarem responsáveis pelas empresas da família, se dedicaram a manter as tradições de seu país de origem. O ano de 1952 foi marcante na história da disseminação da prática budista no Brasil, pois foi nesse ano que os imigrantes que estavam por aqui entraram em contato com as escolas budistas no Japão para que essas escolas mandassem monges em missões oficiais para ajudar na criação dos templos e mosteiros no país e para ajudar na disseminação

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da cultura oriental no país. Essas primeiras missões, que seriam o embrião da prática budista no Brasil, criam estabelecimentos oficiais para a prática do Budismo das escolas Jôdo e Shinshû. Elas foram representadas por suas ramificações Ôtani e Hompa. Além do surgimento dessas missões, o que ajudou a massificar a prática budista no país foi um aumento expressivo da colônia japonesa no país no período do pós-guerra, algo em torno de 50 mil pessoas chegaram a país nesse momento. Como efeito disso, a prática das tradições japonesas teve crescimento muito rápido, pois a grande maioria desses novos imigrantes eram pessoas jovens, com bom nível de escolaridade e vieram ao Brasil com a intenção de construir suas vidas por aqui e, ao mesmo tempo, manter suas raízes. Uma das primeiras comunidades budistas a se instalar no país foi a Nitiren, que por meio do Sr. Takeo Abe construiu seu primeiro templo na cidade de Guatapará, próximo a Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e contou com várias famílias japonesas da região convertidas a essa escola do Budismo. O governo japonês acabou colaborando de forma indireta com o surgimento deste templo, pois a colônia nipônica de Guatapará que frequentava o templo era composta de agricultores que trabalhavam, em forma de cooperativa, em um terreno comprado e administrado pelo próprio governo do Japão.

A chegada das outras escolas

Com o contato cada vez mais frequente dos japoneses residentes no Brasil com as escolas budistas no Japão para que eles pudessem trazer a prática para o país, outras escolas começaram a mandar seus monges em missões expansionistas. Com isso, diversas delas desembarcaram no país a partir de meados da década de 1950, entre elas: Higashi Honganji; Nishi Honganji; Jodoshu; Nitiren, Shingon; Tendai e a Soto Zen. A Soto Zen deu início às suas práticas com a construção do templo Kinkakuji, em Itapecerica da Serra (SP), que se tornou um os principais polos de disseminação do Zen Budismo no Brasil, pois ela foi a escola que conseguiu atrair a atenção não só a atenção da colônia japonesas, mas também de intelectuais e estudantes brasileiros, principalmente durante a época da ditadura militar e dos adeptos da “contracultura”, um movimento que surgiu nos Estados Unidos na década de 1960 e tinha como mote questionar os valores e as práticas da sociedade. Foi nessa época que o Zen Budismo desenvolveu o Zazen (meditação) para estrangeiros. Outra escola que teve bastante destaque em solo brasileiro foi a Jodo-Shinshu, que construiu um templo na região sul da cidade de São Paulo, o templo Hompa Honganji. Essa escola é considerada a maior organização budista do Brasil, tendo aproximadamente 100 mil praticantes de sua filosofia.


Budismo no Brasil

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A escola Soto Zen foi a que mais conseguiu adeptos na sua chegada

Em 1955, a escola budista Soto Zenshu se estabeleceu em São Paulo para atender e disseminar a prática do Budismo japonês entre os imigrantes que residiam na principal metrópole do país. Para representar a entrada dessa escola do Budismo no país, veio do Japão o mestre Ryohan Shingu, que atuou como superintendente do templo e principal responsável pela disseminação do Budismo no país, cargo que ocupou de 1956 a 1985. O ano de 1958 marcou o nascimento de uma nova ordem no processo de disseminação do Budismo no Brasil. Neste ano foi criada a Federação das Seitas Budistas Japonesas, que ficou responsável por organizar aproximadamente sete escolas budistas no Brasil. No momento ela comporta as ramificações do Budismo mais populares no país, que são: o Budismo Shin ou Escola da Terra Pura (Nishi e Higashi Hongaji); Jôdo; Nichiren (a mais nacionalista e que chegou ao país através da Soka Gakkai) e Shingon. Entre as principais responsabilidades dessa federação estão a organização das várias celebrações do calendário budista no país como, por exemplo, a festa em comemoração ao nascimento de Buda, que acontece no Brasil sempre no segundo domingo de maio; o Dia do Imigrante Japonês, comemorado em 18 de junho; e o rito da iluminação de Buda, que acontece todo dia 8 de dezembro.

O crescimento do Budismo a partir dos anos 60

A década de 60 foi marcante dentro da história da prática budista no Brasil. Foi nesse período que a escola do Zen Budismo começou a ganhar força do país e se

tornou a vertente com mais número de praticantes. No início da década, diversos japoneses seguidores do Zen se organizaram para comprar um imóvel na região central da cidade de São Paulo para a realização de encontros e cerimônias. A partir do ano seguinte, o local foi aberto para sessões públicas de meditação Zen (Zazen) duas vezes por semana para qualquer pessoa que tivesse interesse de conhecer as práticas e os ensinamentos de Buda. O templo dirigido pelo mestre Shingu contava ainda com diversos missionários japoneses que o ajudavam na formação de monges para auxiliá-lo em cerimônias e na manutenção da escola primária para crianças, onde as aulas eram ministradas em japonês. No templo ainda haviam cursos de cerâmica artística, arranjo floral e em como realizar a cerimônia do chá. Apesar o surgimento dos primeiros templos e locais para a prática do Budismo do Brasil, com destaque as escolas Zen e Nitiren, a assimilação da doutrina budista demoraria um pouco mais para se popularizar, inclusive entre os imigrantes. Ainda na década de 1960, quando a prática era incipiente no país, muitos imigrantes preocupados com a inserção de seus filhos na sociedade brasileira, estimulavam que os mais novos se convertessem ao Catolicismo, que era considerado um importante elemento de identidade nacional e sua conversão facilitaria a adaptação e a criação de laços sociais com os brasileiros, além de representar a criação de muitos contatos sociais e comerciais no país. Essa realidade só começou a mudar a partir do começo da década de 1970, com a absorção dos joGuia Conhecer Fantástico – Budismo

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Budismo no Brasil

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Retiros budistas se tornarem frequentes na década de 70 e ajudaram a aproximar os brasileiros da cultura japonesa

vens brasileiros pelo movimento de “contracultura”. Por causa desse recente questionamento às normas e convenções sociais que, principalmente os hippies começaram a se interessar por questões culturais e filosóficas diferentes do cristianismo. Assim, procuraram conhecer a cultura Oriental, contribuindo muito para a popularização do Budismo para fora da comunidade japonesa. A partir da década de 1970 a escola do Zen Budismo começou a realizar retiros (sesshins) para que o público brasileiro tomasse mais contato com a cultura milenar budista. Esses eventos duravam entre três e quatro dias. Neles, as pessoas meditavam, comiam e dormiam no templo, além de participarem de palestras sobre o Zazen. Apesar da dificuldade linguística, já que o mestre Shingu não falava o português e suas palestras sobre as práticas da meditação tinham que ser traduzidas por colonos para que todos pudessem ter acesso, elas foram consideradas um sucesso. As palestras só deixaram de ser em japonês quando os mestres Shungkyo Aoki e Daiko Moriyama se tornaram superintendentes do templo, em meados dos anos 90, quando eles passaram a proferir as palestras em inglês, pois eles chegaram ao Brasil provenientes dos Estados Unidos e do Havaí, respectivamente. Esse templo do Zen Budismo, localizado na rua São Joaquim, na região central da cidade de São Paulo foi, a até meados da década de 90, o principal ponto de encontro e difusão da cultura budista e japonesa na cidade. Lá, tanto japoneses quando brasileiros se encontravam para realizar um intercâmbio cultural muito interessante, pois o templo proporcionou a muitos japoneses e seus

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descendentes nascidos no país a terem novamente contato com a cultura de seus antepassados e a preservarem suas raízes, prática e tradições. Se para os japoneses radicados no Brasil e para seus descendentes as idas ao templo da São Joaquim era manter contato com suas origens, para os brasileiros o principal motivo da visita era apender e praticar a meditação, um exercício que ajudava a conviver com a vida acelerada das metrópoles e que não existia nas religiões ocidentais que se praticavam até então. O exercício de realizar uma observação silenciosa para dentro de si era uma novidade e que qualquer pessoa podia praticar, sem a necessidade de nenhuma contribuição financeira, filiação ou preparação intelectual anterior. Por isso o Zen Budismo foi a escola budista que mais cresceu na principal cidade do país.

O primeiro mosteiro Zen Budista

Se o primeiro templo Zen Budista no Brasil foi construído no centro da cidade de São Paulo, o primeiro mosteiro dessa escola foi construído bem longe da capital paulista, na cidade de Ibiraçu, no Espírito Santo, próximo à região dos Morros das Vargens. Em 1974, um grupo de jovens empolgados com o que haviam aprendido nas sessões de sesshins na capital paulista, decidiram comprar um terreno no Espírito Santo para erguer um monastério budista no país. Com o apoio do missionário budista da escola Soto Zen, Ryotan Tokuda Igarashi, que havia chegado ao Brasil poucos anos antes, em 1968, eles construíram e fundaram o que é conhecido como primeiro mosteiro do Zen Budismo no país, que contou a bênção do mestre Ryohan Shingu. O primeiro mosteiro do Zen Budismo estava longe de lembrar os edifícios originais do Japão. A obra brasileira era muito precária, pois não contava com iluminação elétrica e o acesso ao local era feito por trilhas muito íngremes, o que dificultava a chegada de monges, leigos e simpatizantes ao local. Nos primeiros anos de funcionamento do mosteiro, sob as ordens do mestre Tokuda, foram implantadas regras rígidas para treinamento e trabalho para as pessoas que queriam entrar para a ordem Zen Budista e se tornarem monges. Muitos dos jovens que começaram seus ensinamentos da prática budista no mosteiro de Montes das Vargens, devido a um intenso programa de intercâmbio conseguiram terminar seus treinamentos diretamente em mosteiros no Japão. De todos os que foram terminar a prática fora do país, somente um vol-


Budismo no Brasil tou formado, que foi o monge Cristiano Daiju. Ele ajudou a dar uma maior dimensão às práticas monásticas nesse primeiro mosteiro Zen do Brasil.

A vez do Budismo Chinês e Tibetano

As escolas Budistas no Brasil

O Budismo no Brasil se caracterizou pela chegada de diversas escolas diferentes de interpretação dos ensinamentos de Buda. Desde as diversas escolas japonesas que estão há mais tempo e são as mais representativas no país, até a tibetana, chinesa e coreana que chegaram mais recentemente e, por isso, estão um pouco menos de inseridas na nossa sociedade. De acordo com números levantados por Frank Usarski em seu livro sobre a prática budista no Brasil, até o começo dos anos 2000 existiam aproximadamente 160 grupos budistas com as mais diferentes orientações, tamanhos e níveis de organização. Da escola Theravada, a mais tradicionalista do Budismo, por exemplo, encontravam-se apenas três grupos destinados a essa linha de estudos e práticas, tendo como o principal deles a Casa de Dharma, localizada em São Paulo, local com o maior número de praticantes. Já onde a colônia japonesa é mais expressiva, como no interior de São Paulo e Paraná, se destacam os templos do Amida-Budismo, que têm diversos centros espalhados pelo país, como o de Hi-

O primeiro templo budista no Brasil foi inaugurado no Espírito Santo

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Se desde de metade do século XX as escolas japonesas conseguiram se expandir e agregar adeptos quase de que forma hegemônica, a partir dos anos 80 esse cenário começou a mudar. Durante as décadas de 1980 e 1990, o Brasil viu a chegada e o estabelecimento das escolas chinesas, tibetanas e até coreanas do Budismo no país, muito em virtude da imigração dos povos de países que seguiam essas vertentes da prática e filosofia budista. A escola chinesa que tem maior destaque no país é a Fo Guang Shan, que tem sede em Taiwan e foi responsável pela construção do templo Zu Lai, o maior templo budista da América Latina, em Cotia, São Paulo. É dessa escola também a primeira universidade budista da América do Sul, onde eles se dedicam a formar monges e instrutores budista – esse cargo é destinado a leigos. Já o Budismo coreano tem sua representação no Brasil com os templos Jingak-sa e Chogye- Budismo, que se dedicam a disseminar a escola Sõn e estão localizados em São Paulo. A vertente vietnamita é representada pela escola Thien-Lam-te e pertence ao mestre Thich Nhat Hanh, um monge pacifista que vive na região sudoeste da França. Já a escola tibetana tem como referência o Centro Dharma De Choe Tsong, em São Paulo que tem as práticas da escola Gelugpa, a mesma linhagem do Dalai Lama.

55 55 gashi Honganji e se destacam pela interpretação do Sutra de Lótus. No Japão, seu país de origem, é conhecido como Amida Niorai, e tem como principal ideia levar o caminho da iluminação para todas as pessoas, inclusive os leigos. As práticas budistas no país são dominadas pelas escolas japonesas e chinesas, muito em virtude do grande número de colonos desses países que chegaram ao Brasil. Um exemplo que mostra a supremacia dessas escolas em relação às demais é que a vertente coreana do Budismo só veio a construir seu primeiro templo no país a no final da década de 80, em 1988 em São Paulo e representa a linha do Budismo predominante no país asiático, a Chogye-Budismo. Até meados dos anos 2000, esse era o único local disponível para a prática da escola coreana do Budismo no país. A chegada tardia da imigração de chineses fez com que a inserção da linha deles do Budismo na sociedade brasileira fosse tímida. O primeiro templo oficialmente ligado ao Budismo chinês foi o Mo Ti, em São Paulo, inaugurado em 1962, pela Associação de Budismo da China, uma entidade formada em quase sua maioria por leigos. Até o início dos anos 90, essa era a única instituição dessa linha do Budismo no país. Para se ter uma ideia de como a popularização do Budismo chinês foi lenta, somente em 1987 foi feita a construção de um segundo templo no país, quando, por meio a uma generosa doGuia Conhecer Fantástico – Budismo


Até a metade dos anos 90 só havia três templos do Budismo chinês construídos no Brasil

ação financeira de comerciantes, foi construído o templo Kuang Yin, na região de São Amaro. O templo foi inaugurado em meados de 1992. O terceiro templo foi inaugurado no ano seguinte, em 1993, também em São Paulo, com o nome de Tzong Kuang e tem como seu principal líder o mestre

taiwanês Pu Cien, que é radicado em Taiwan e raras vezes vem ao país. Nesta mesma época surgiu o que é, talvez, o principal templo budista chinês do Brasil. Foi inaugurado em São Paulo, o Zu Lai, na cidade de Cotia, que conta com grande número de adeptos e é um dos mais procurados por leigos. Ele é da linhagem da Fo Kuang Shan.

Budismo fora de São Paulo

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Budismo no Brasil

O Budismo não ficou restrito ao Estado de São Paulo. Ele se difundiu pelo Brasil, principalmente nas regiões Sudeste e Sul

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O Budismo sofreu forte concentração de seus praticantes e tem seus principais locais de prática como centros e templos no Estado de São Paulo, muito em virtude de o Estado ser o principal polo industrial e ter sido durante muito tempo o principal ponto de imigração do país. Porém, com a existência de colonos asiáticos em outros locais, mesmo que timidamente, o Budismo também se expandiu para outras cidades e regiões. Além do reconhecido Mosteiro da Vargem, no Espírito Santo, que recebe anualmente 4 mil visitantes entre monges e leigos interessados nos ensinamentos de Buda, há centros espalhados por outras regiões do país, principalmente no Sul e Sudeste. Por exemplo, o Mestre Tokuda, um dos pioneiros na prática do Budismo no Brasil, levou seus conhecimentos a Minas Gerais com a construção em 1984 do Mosteiro Pico dos Raios, na cidade de Ouro Preto. O monastério tem


Budismo no Brasil tanta importância na disseminação da prática budista no país, que hoje ele abriga a sede nacional da Sociedade Soto Zen do Brasil, responsável por organizar as práticas do Zen Budismo no Brasil. O monge Tokuda também um tem papel fundamental na dispersão territorial do Budismo no Brasil, em todos os seus anos de prática ele se dedicou a espalhar centros de prática em importantes cidades do país, principalmente durante a década de 90. São obras deles o Centro Zen do Planalto, inaugurado em 1993, em Brasília. No ano seguinte, em 1994, ele inaugurou o Zen Budismo no Rio de Janeiro ao fundar o Centro Zen do Rio de Janeiro e, novamente em Ouro Preto, fundou o Monastério Serra do Trovão, onde se dedicaria exclusivamente ao treinamento e formação de novos monges Zen, que serão responsáveis por manter a prática viva no Brasil após a sua morte. Segundo levantamento cronológico feito pelo livro “Difusão Histórico-Espacial do Budismo no Brasil e em Minas Gerais”, de Juliana de Lima Caputo, a dispersão do Budismo no Brasil foi iniciada em São

Paulo, teve um segundo estágio no interior do Paraná, entre as décadas de 1940 e 1950, chegando ao Rio de Janeiro e Espírito Santo entre as décadas de 1960 e 1970. Em um período mais recente, as escolas budistas começaram a se espalhar por demais regiões do país como, por exemplo, Goiás, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, que começaram a receber templos e centro de prática budistas entre as décadas de 1980 e 1990. Em questão de representatividade e número de praticantes, além de São Paulo, polo irradiador do Budismo no Brasil, se destacam os Estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, como os que tem mais templos para a disseminação do Budismo. Em uma zona intermediária, podemos encontrar os estados de Espírito Santo e Paraíba com cerca de três templos budistas cada um e, por fim, os Estados onde a prática do Budismo é menos difundida, pois nesses lugares há apenas um espaço dedicado à prática e aos conhecimentos de Buda. Estão nessa faixa os Estados de Manaus, Pará, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Sergipe e Pernambuco.

Principais centros Budistas do Brasil Nesta parte do capítulo destacaremos a localização dos principais templos Budistas do país, onde leigos podem se dirigir se quiserem entrar em contato com essa filosofia milenar e apender os ensinamentos de Buda para uma vida melhor e atingir a iluminação.

Templo Zu Lai O Templo Zu Lai é considerado o maior templo budista da América Latina e fica localizado na cidade de Cotia, São Paulo, e seu interior abriga as práticas do Budismo chinês das escolas de pensamento Chan e Terra Pura. Foi fundado em 1992 pelo mestre Hsing Yün. Em 2000 passou por uma reforma e que levou o templo a ocupar aproximadamente 10 mil m² de área construída. No local é possível participar de cursos de filosofia budista, grupos de estudo e círculos de leitura sobre o Darma. Há também o “Projeto Filhos de Buda”, que trabalha para divulgar os ensinamentos de Buda em língua portuguesa. O templo é aberto para visitas. Mais informações: (11) 3500-3600.

Comunidade Zen do Brasil – Templo Taikozan Tenzuizenji

Quem mora na capital paulista tem uma opção próxima para ter contato com os ensinamentos da linha japonesa de interpretação dos ensinamentos de Buda. No centro da cidade há o templo Taikozan Tenzuizenji, que tem como sua principal figura a monja Souza Coen, responsável por propagar os ensinamentos do Zen Budismo. No local é possível assistir palestras sobre o Zen Budismo e realizar cursos sobre o Zazen (meditação) budista. Mais informações: (11) 3865-5285.

Comunidade Buddhista Nalanda A comunidade Nalanda é um local de prática e ensinamentos do Budismo localizado em Belo Horizonte, Minas Gerais. Diferentemente dos templos citados anteriormente, ela é um dos poucos locais dedicados a aprender e praticar os ensinamentos da vertente Theravada (mais tradicionalista) do Budismo. O templo foi construído em maio de 1989 pelo monge Upasaka Dhanapala e seu espaço é destinado a retiros, estudos, cursos e reuniões para debater e praticar os ensinamentos mais literais deixados por Buda. Mais informações: (11) 9651-6369 | 9303-6773 | 9343-4330.

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Chagdud Gonpa Khadro Ling

Entrada do templo Zu Lai, o maior da América Latina

O templo localizado em Três Canoas, Rio Grande do Sul, é considerado o primeiro templo do Budismo tibetano tradicional da América do Sul. Em suas dependências moram praticantes budistas que vivem em forma de comunidade e se dedicam exclusivamente à vida monástica e a colocar em prática os ensinamentos de Buda. Sua construção começou em 1998 e terminou apenas em 2001. Toda a obra foi feita obre a orientação do monge Chagdud Tulku Rinpoche. O local se dedica à prática e aos ensinamentos de linha tibetana do Budismo, inclusive com direito a ter uma editora própria para a publicação dos ensinamentos do mestre. Mais informações: (51) 3546-8201 | 9694-7299.

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Simpática, bem-humorada e de fala tranquila, ela está sempre disposta a esclarecer qualquer dúvida sobre a prática do Zen Budismo e os conhecimentos deixados por Buda. Essa é monja Zentchu Sensei, que recebeu a reportagem do Guia Conhecer Fantástico no templo Taikozan Tenzuizenji, na região central de São Paulo, para um bate-papo sobre o que é o Budismo e como é a rotina da prática no Brasil. Ela tem uma história de mais de 15 anos de dedicação à prática e disseminação da filosofia budista, sempre sob os olhares e orientações de sua mestra, monja Coen Roshi. Ela já se considera uma brasileira devido ao seu amor pelo país, mas sua história começou muito antes dela desembarcar no Brasil. Monja Zentchu nasceu na cidade venezuelana de Caracas e lá, ainda na adolescência, se formou pianista profissional, com direto a um curso de especialização realizado na cidade de Varsóvia, na Polônia. Se os caminhos que ligariam a vida de Diana Matilde Silva Narciso ao Budismo ainda estavam longe de se cruzarem, a partir de 1998 esses caminhos começaram a ficar mais próximos. Neste ano, ela decidiu deixar seu país e cidade natais para vir ao Rio de Janeiro estudar as práticas da Massoterapia Oriental na IARJ – Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro, local onde dedicou cinco anos de sua vida aos estudos até atingir o objetivo se de tornar uma massoterapeuta. Com o curso terminado, ela, que havia se encantado como o nosso país, decidiu permanecer e escrever uma nova vida em território brasileiro. Foi nesse momento em que os caminhos de Diana e o Budismo finalmente se encontraram. Durante uma viagem a São Paulo ela teve a oportunidade de assistir uma palestra sobre o que era o Budismo e suas práticas, realizada pela monja Coen, na primeira sede do templo Taikozan Tenzuizenji, que ficava em uma pequena garagem. Ali Diana acabou se identificando com os pensamentos e com os conhecimentos passados por ela e percebeu, nesse momento, que o caminho que deveria seguir na sua vida era se dedicar aos estudos e práticas dos ensinamentos de Buda. Foi a partir desse momento que sua vida mudou e Zentchu decidiu deixar seu passado para trás e construir uma nova vida, agora dedicada exclusivamente a aprender e ensinar os conhecimentos de Buda. Após cinco anos dedicados aos estudos e às práticas budistas da escolha Zen, ela foi ordenada como monja no início de 2008 pela própria monja Coen Roshi, de quem se tornou discípula e recebeu seu nome budista, passando a ser conhecida como monja Zentchu Sensei.

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Ed Amelini

Perfil | Monja Zentchu

Dois anos após ter conseguido sua ordenação como monja, Zentchu partiu para o Japão, em 2010, na busca de mais conhecimentos e onde permaneceu, apesar das dificuldades em se adaptar à vida monástica, por três anos e meio no mosteiro feminino de Aichi Senmon Nisodo, em Nagoya, até conseguir completar seu ciclo de aprendizado e receber a transmissão do Darma no final de 2013. No ano seguinte, retornou ao Brasil para continuar sua dedicação à prática do Zen-Budismo e disseminar seus conhecimentos sobre os ensinamentos deixados por Buda. Hoje ela é professora de Darma, coordenadora do Zazenkai dos Sesshins (retiros espirituais de três ou quatros dias) e responsável por ministrar a prática do Zazen para iniciantes aos sábados. Além disso, participa de convenções e palestras nas quais está sempre disposta a levar a palavra e os conhecimentos de Sidharta Gautama ao público. Conheça um pouco mais sobre o que pensa monja Zentchu sobre o Budismo na entrevista que vem a seguir.

Monja Zentchu Sensei


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Entrevista Monja Zentchu Sensei Guia Conhecer Fantástico – Como foi o seu primeiro contato com Budismo? Monja Zentchu – Eu tive um primeiro contato com o Zazen enquanto morava em Caracas, mas não gostei muito, talvez não fosse o momento de eu me encontrar com o Budismo, talvez eu não estivesse preparada ainda para me tornar monja. Depois de cinco anos morando no Rio foi que eu decidi vir para São Paulo e assim conheci, a minha mestra [Monja Coen]. Fui escutar uma palestra dela antigo templo Taikozan Tenzuizenji, que ainda só uma garagem mínima e durante a palestra eu pensei: “Quando foi que eu disse essas palavras?”. Ali eu havia me identificado com as palavras delas como se fossem minhas, elas ecoaram em mim e acabei me reconhecendo nessas palavras. Foi nesse momento de decidi que queria começar a prática, desde o bê-á-bá. A princípio ainda não tinha a intenção de me tornar monja, só queria me conhecer e praticar o Zazen e participar de algumas cerimônias. Mas eu fui me aprofundando, me envolvendo com a prática, e então pensei: “Bom, quero ser monja, quero me tornar uma profissional do Budismo”, foi assim. GCF – Como foi o processo para a realização dos votos e aceitar a vida monástica? Não é uma ruptura muito grande no estilo de vida? Monja Zentchu – Como você falou, é uma ruptura. Um dia eu fui dormir e estava com cabelos e no dia seguinte amanheci careca. Mas não acontece assim. Na verdade, essa mudança demoraria anos até você receber um chamado de si mesmo. A gente não tem aquele idealismo de um ser superior ou um anjo que vem nos chamar. Esse processo é parte de uma inquietação, de uma pergunta interior, uma vocação que continuo trabalhando diariamente com muita fé, alguma coisa que já temos dentro de nós. Então, não existe essa ruptura. A ruptura se dá quando há entrega completa ao Darma. Entregar-se à sua vocação e entender quem é você, e que aquela pessoa que você era quando leigo você já não é mais. É um processo de transformação, de evolução. GCF – Como é a sua rotina de monja? Monja Zentchu – É a mesma rotina de uma pessoa leiga, eu acordo igual, eu trabalho igual, eu me alimento, eu penso, tomo banho, tudo igual a uma pessoa comum. A diferença é que ao invés de pegar uma caneta, por exemplo, eu pego um incenso. Ao invés de ler um livro sobre psicanálise ou um jornal, eu leio um sutra. A visão de um monge vai ser sempre permeada pelos ensinamentos budistas. O que muda em relação a uma atividade de um leigo é que não vou a escritório, mas isso não é uma ruptura do estilo de vida, e sim uma opção. Eu já sabia que minha vida seria assim, eu quis isso. A gente tem uma transformação de hábitos, de modelos mentais, mas não precisa necessariamente ser monge para conseguir isso.

GCF – Como foi sua experiência de vida monástica no Japão?

GCF – Como você espera do futuro da prática budista no Brasil?

Monja Zentchu – A primeira dificuldade foi a barreira da língua, pois toda a conversa era feita em japonês e eles têm uma visão, um jeito de enxergar o mundo totalmente diferente do nosso e tive que me adaptar a isso. Lá você fica os três primeiros meses praticamente incomunicável, só podendo se corresponder com as pessoas por meio de cartas, e isso também foi complicado no começo. Há também um enorme choque cultural, pois no mosteiro de Aichi Senmon Nisodo, nós vivíamos como viviam os japoneses há 800, 900 anos. Por exemplo, ter que acordar às 4 horas da manhã e vestir a roupa monástica na escuridão mais completa, entende? Era necessário memorizar onde havia guardado cada peça do traje monástico. Nesse momento, sim, houve uma ruptura, foi um choque cultural e de pontos de vista muito grande, pois ninguém mora ou vive do jeito que se vive em um mosteiro, nem mesmo lá no Japão. Para você, como é diferente, depois dos três primeiros meses consegui ligar para uma amiga e disse para ela não tinha ido morar em outro país, mas sim em outro planeta, pois a rotina dentro de um monastério é muito diferente. Mas sem dúvidas foi uma experiência muito válida.

Monja Zentchu – Acho que lentamente ela tende a crescer, mas vai crescer, porque o Budismo é uma religião acolhedora, que recebe as pessoas as ensina a se acolher, a se entender.

GCF – Como você vê a evolução do Budismo no Brasil desde que você começou até os dias de hoje? Ele ficou mais popular? Monja Zentchu – O Budismo nunca vai ser popular. O Budismo como realmente deve entendido, como uma busca muito intensa por você mesmo, não vai ser popular. Nem todo mundo quer saber o que é realmente. O que as pessoas procuram são promessas externas, pílulas, querem uma espécie de recompensa por serem bonzinhos, mas o Budismo não lhe dá isso. Você vai se conhecer, se acolher, ficar sozinho consigo mesmo, se entender e vai morrer. E quem quer isso? Às vezes tem mais procura, às vezes tem menos, é uma coisa muito flutuante. Para mim continua igual desde que eu comecei, mais ou menos a mesma quantidade de pessoas vem e vai, e continuam praticando. GCF – Qual a principal dificuldade da prática do Budismo no Brasil? Monja Zentchu – A principal dificuldade é que há muita mistificação sobre o que é o Budismo, isso não só no Brasil, mas também no mundo. Isso faz com que as pessoas não compreendam o que é o Budismo, que parece ser uma prática muito distante do que elas estão habituadas. Por exemplo, brasileiro está acostumando a comemorar o Natal, mas nós budistas não comemoramos o Natal, nós temos outras cerimônias, que são bem diferentes do que as pessoas no Brasil estão acostumadas. Mas eu acho que a maior dificuldade que nós encontramos é que por estarmos em um país onde o catolicismo está enraizando há mais de 500 anos, ele acaba por configurar automaticamente o modo como as pessoas pensam, sua visão do dia a dia e essa é uma visão bem diferença das nossas, de nossos costumes.

GCF – Como vocês fazem para manter o templo, vocês recebem algum tipo de ajuda da sede japonesa? E como é a relação com ela? Monja Zentchu – É bastante difícil, pois não temos muito dinheiro. Aliás, não recebemos nenhuma ajuda do Japão, por exemplo. O dinheiro que temos são frutos das doações que recebemos das pessoas que vêm ao templo. E o custo é bastante alto, pois tudo o que temos aqui compramos diretamente do Japão e se lá já é caro, imagina importar. A nossa relação com nossos mosteiros sedes no Japão é morna, não há muito intercâmbio, pois para nós é caro viajar até lá e, quando eles vêm ao Brasil, é só para participar de eventos e já retornam. É uma relação nem muito próxima e nem muito distante. GCF – Que visão você tem sobre a morte e sobre o processo de iluminação do Budismo? Monja Zentchu – O processo para atingir a iluminação é só pela prática, e atingir a iluminação é entender o que está a sua frente, uma comunhão com você mesmo e com todo o universo. Que requer uma morte em vida, sim. Não morte literalmente, mas morrer seria matar o preconceito, o jeito como você fala, como você age, como você senta, como respira, o jeito como você, tudo isso vamos matar e a pessoa acaba fazendo isso de forma consciente. E como vai matar? Acolhendo, percebendo e transformando. Nesse processo você acaba matando a pessoa que você era e se transforma em uma nova pessoa, totalmente diferente. Isso é iluminação: atingir o autoconhecimento sobre si, sem que ninguém precise lhe apontar “faça isso ou aquilo”. Esse é um processo árduo de morte que acontece aqui, na mente. GCF – Para encerrar, para você, o que é o Budismo? Monja Zentchu – Budismo é vida, é tudo. É perceber que tudo é vida, que é uma manifestação de um fluxo imenso que proporciona o contato do ser humano consigo mesmo e com tudo o que está ao seu redor, que fazemos parte de uma coisa só. Seu percebo a minha vida, a manifestação da vida em tudo que está no entorno, é impossível não entender a manifestação da vida em qualquer lugar. Por isso o Budismo considera que tudo no universo está vivo, tem vida. Por exemplo, está caderno que está aqui em cima da mesa, ele está vivo, então nós tratamos de cuidar bem dele. Porque no momento em que eu rasgar uma folha dele, eu o matei, eu tirei a vida dele. Esse princípio de preservar tudo que o universo possui, serve para o caderno, para as pessoas, para a natureza. Nós tratamos cada aspecto de nossa vida com um extremo cuidado. Isso é vida.

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Estátua represente Buda na prática do Zazen antes de atingir a iluminação

Antes de começar a explicar como funciona a prática da meditação adotada pela escola Zen Budista, vamos explicar a definição da palavra Zazen e um pouco de sua história. A palavra Zazen, de acordo com a Zen Budista monja Coen, significa Sentar Zen. A palavra Zen é uma tradução do sânscrito Dhyana ou Jhana, que significa estar em um estado meditativo profundo. O Zazen é uma prática de meditação ancestral que foi incorporada pelo Budismo, principalmente pela linhagem do Zen. Ele tem como principais características de sua prática o silêncio, a imobilidade e a respiração. A principal finalidade da prática deste tipo de meditação é que ela trabalha para criar uma unidade só entre corpo e espírito, além de proporcionar a convivência harmoniosa entre o praticante com outras pessoas e com os diversos aspectos

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Conheça o Zazen | Meditando com a monja Coen

Ilustração de monge praticando Zazen em movimento


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Como praticar o Zazen ESCOLHA O LOCAL – Antes de começar a praticar o Zazen, é necessário procurar o local adequado para que você possa realizar a prática com o maior conforto possível. Então, o primeiro passo é encontrar um local que seja tranquilo, em que você fique longe de qualquer barulho. Além de tranquilo, o local escolhido não deve ser nem muito claro, nem muito escuro e precisa ter uma temperatura amena.

2.

ESCOLHA A POSIÇÃO IDEAL PARA VOCÊ Conforme ensina o manual de Zazen, existem algumas maneiras para que você pratique a meditação, o importante é você escolher aquela em que você se adapta melhor. As posições mais comuns são: posição das bermudas, fazendo triângulo com as pernas; meia lótus (um pé encostado no chão e o outro sobre a perna); completa lótus (os dois pés se cruzam e repousam sobre a perna); e ajoelhado e usando um banquinho para se sentar e dar apoio à coluna. Tão importante quanto achar uma posição confortável, é manter a coluna cervical ereta.

3.

EQUILIBRE O CORPO – Depois de se acomodar, o para a pratica da meditação próximo passo é verificar se o seu corpo está em posição reta e se seu corpo está equilibrado. Uma das formas de atingir o ponto ideal de equilíbrio do corpo é balançá-lo em movimentos pendulares para a esquerda e para direita, cada vez em um ritmo mais lento, para que o corpo consiga achar seu ponto exato de equilíbrio.

4.

ALINHE A COLUNA O último passo antes de começar a prática da meditação em si é deixar o corpo na posição correta, para isso é preciso perceber se as orelhas estão alinhadas com os ombros e se a ponta do nariz está na mesma linha que o umbigo.

5.

INSPIRE E EXPIRE – O processo de início do Zazen consiste em esvaziar os pulmões soltando o ar pela boca três vezes. Depois se concentre em relaxar qualquer parte do corpo que esteja com tensa, feito isso, é a hora de começar a meditação em si.

6.

ALINHE AS MÃOS – A meditação começa quando colocamos as mãos em mudra cósmico, que consiste em repousar a mão direta com a palma virada para cima, e em cima dela a mão esquerda também com a palma virada para cima e com os dedos sobrepostos – vale lembrar que os dedos da mão esquerda não devem ficar sobrepostos sobre a palma da mão direita. Depois, encoste levemente os polegares formando uma elipse.

7.

CONECTE A LÍNGUA – Em seguida coloque a ponta da língua no céu da boca, de modo que ela também encontre a parte de trás dos dentes Prática da meditação em posição de da região frontal da boca. Essa prática com a meia lótus, com o repouso das mãos língua, além de criar um canal comunicador de energia também ajuda a evitar o excesso de salivação.

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1.

Posição conhecida como “bermudas”

Como proceder durante a meditação Agora durante o processo de meditação é necessário deixar os olhos entreabertos, pousados aproximadamente um meio e meio de distância do objeto mais próximo e perfazer um ângulo de 45º. 9. Com a mente livre de pensamentos, concentre-se em sua respiração até ela se normalizar e continue sentado normalmente na posição que escolheu. 10. O tempo de duração do Zazen (sentar em meditação) pode variar. Há pessoas que conseguem ficar em Zazen por 40 minutos, outros ficam meia hora. O importante é você adaptar seu tempo de permanência de acordo com a sua realidade. Por exemplo, quem pratica a primeira vez não precisa ter pressa em querer fazer períodos mais longo. O importante é respeitar o seu ritmo. 8.

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que fazer parte da natureza como as árvores e animais, por exemplo. A prática do Zazen foi introduzida no Japão em meados do século XIII pelo mestre Dogen Zenji, que nasceu em Kyoto e viajou à China para praticar e estudar o Budismo em um templo da escola Tendai. Ao voltar ao Japão fundou a sua própria escola de interpretação budista, a Soto Zen, e introduziu a prática do Zazen para deus discípulo. A partir das primeiras experiências, a prática do Zazen passou a ser assimilada pelas demais correntes do Budismo japonês. Com passar do tempo ela foi adquirindo características próprias de cada escola a que ia sendo incorporada. A partir do século início do século XX sua prática deixou de ser exclusiva dos monges Zen Budistas e passou a ser praticada também por leigos, sendo colocada à disposição deles pelo monge Kodo Sawaki, considerado um dos principais mestres dentro do Zen Budismo. De acordo com as palavras de monja Coen, publicadas em seu site, praticar o Zazen é transcender, é ir além do fato de pensar ou não pensar, é ir mais além do Eu ou do não Eu. É praticar diariamente a investigação do sentindo da existência e continuar se maravilhando em como todas as coisas se relacionam ao mesmo tempo, seja o homem, os animais ou a natureza. Entre os benefícios da prática do Zazen apontados por ela estão a capacidade de desenvolver a nossa consciência, nossa concentração, a nossa compaixão com tudo e todos ao nosso redor, além de conseguirmos melhorar não só a nossa forma de se relacionar com as pessoas, mas também melhorar em vários aspectos nossa saúde. O Zazen pode ser praticado em qualquer local em que a pessoa se sinta confortável para estar em processo de meditação e de autoconhecimento como em sua casa, por exemplo. Porém, monja Coen ressalta que a realização das práticas de meditações em grupo é mais intensa e estimulante. Além disso, durante a prática do Zazen em grupo e de preferência nos templos, é possível receber orienta-


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Posição do Zazen conhecida como Lótus completa

ções importantes sobre a prática e trocar experiências com os outros participantes. Para se praticar o Zazen de forma saudável é necessário prestar atenção em algumas recomendações. Entre elas, procurar observar tudo a sua volta e a si mesmo, deixar que os pensamentos e sentimento fluam de forma natural, não é necessário controlá-los. É importante também manter a respiração abdominal com círculos mais longos de expiração do que expiração, o que nos deixa mais calmos e relaxados. E por fim, antes de se manter imóvel, procure uma posição que o deixe confortável para realizar a meditação. Ainda sobre a prática do Zazen, no que diz respeito à prática em templos, é necessário prestar atenção em

algumas recomendações: permanecer o tempo todo sentado, sempre com as costas voltadas para o centro da sala e para o altar, respeitar a distância de aproximadamente um metro em relação à parede ou ao praticante mais próximo à sua frente. Os movimentos autorizados durante a prática da meditação são apenas aqueles que têm a finalidade de ajuste de postura para achar uma posição mais confortável para o tronco. No mais, o praticante deve ficar todo o restante do tempo de prática imóvel. Ao adotar a postura correta o praticante consegue ao mesmo tempo manter o corpo relaxado e alerta, mesmo durante longos períodos de meditação. A prática do Zazen tem duração estimada entre 20 e 50 minutos. A prática do Zazen pode ser feita inclusive por pessoas que tenham alguma limitação física e não podem sentar-se em posição de bermuda, lótus ou ajoelhados. Alguns templos costumam disponibilizar cadeiras convencionais, ondo o praticante precisa manter os pés separados e bem apoiados ao chão e manterem a coluna reta, preferencialmente guardando distância do encosto da cadeira. Não há desculpa para não praticar o Zazen.

Zazen em movimento

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A pratica da meditação Zazen, como o próprio nome diz é sentar Zen e normalmente se pratica sentado, seja no chão ou em almofadas. Porém, dentro do Zazen há também uma modalidade chamada de Kinhin, que é realizar a meditação em movimento. A prática do Zazen em movimento geralmente tem a duração de aproximadamente 10 minutos e costuma ser realizada dentro da própria sala onde é praticada a meditação convencional. A prática do Kinhin não é considerada uma pausa entre períodos de meditação, mas sim uma extensão da prática feita sentada. O seu intuito é ajudar a estimular a circulação sanguínea das pernas para que os praticantes possam retornar confortavelmente para a próxima sessão sentada de meditação. A prática do Zazen em movimento também tem algumas outras atribuições como, por exemplo, permitir que um membro que chegar atrasado à prática do Zazen possa adentrar na sala de práticas. Também só é permitido deixar a sala para ir ao banheiro ou beber água durante o período de realização do kinhin, onde o usuário deve retornar antes de seu término para o mesmo local onde estava localizado quando realizava a prática sentada. A palavra kinhin tem o significado de andar em frente, no qual os praticantes, com as mãos em posição de shashu – mãos sobrepostas na região peitoral, como se estivessem apoiados em um cajado – circulam pela sala de práticas em fila, sempre em linha reta e no sentido horário.


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Ilustração de Buda em estado de Zazen

Zazen. “Por meio do Zazen nós podemos realizar uma mudança, não só em nós, mas em tudo que está no universo e com o que nos relacionamos. A essa mudança, nós chamamos de iluminação”, afirmou.

O Zazen por quem pratica Agora que você já conhece um pouco sobre o que é o Zazen e as formas de praticá-lo, vamos mostrar como é a experiência da meditação por quem a realiza. Em entrevista para o GUIA CONHECER FANTÁSTICO – Budismo, a professora de Dharma e discípula de monja Coen, a monja Zentchu vai nos contar como é a pratica do Zazen de acordo com a visão dos budistas.

O é a iluminação – Ela ainda relatou a própria

experiência do próprio Buda para explicar o porquê da escolha do Zazen. “Buda, depois de sete dias e sete noites em Zazen, conseguiu atingir a iluminação. Antes ele havia tentado ele elevar seu espírito por meio da prática da yoga e do ascetismo, e não conseguiu, esse último quase o matou, foi então que se perguntou qual deveria ser o caminho e se sentou, entrando em estado de Zazen”, explicou.

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A monja também explicou o que, na visão dela, é a

Não é remédio – Na visão dela, o Zazen não é um finalidade do Zazen e o que significa atingir o estado

Conversa com a própria mente – Ainda de acordo com Zentchu, o Zazen é um caminho para encontrar que o praticante atingir o autoconhecimento como ser humano, perceber os próprios defeitos e procurar melhorar, é também uma forma de falar consigo mesmo. “O Zazen é a procurar, a procura de conversar com a nossa própria mente, a mente dura como nós dizemos e está dentro de todos nós”, disse. Mudanças no universo – Mais adiante, durante a nossa conversa, a monja também deu uma definição do que ela acredita que seja o a prática do

de iluminação. “Iluminação é um sinônimo para se referir àquele que acordou para a realidade. Nós estamos como se estivéssemos dormindo, o que enxergamos não é o que realmente está acontecendo”.

O autoconhecimento por meio do Zazen

– E completa: “A prática do Zazen é prática do autoconhecimento, uma forma de comunhão de mim comigo mesmo, que vai fazer com que eu acorde e que eu entenda perfeitamente quem eu sou. Sem que ninguém me rotule, me etiquete, sem que ninguém me diga o que fazer, para onde ir, porque eu já saberei o caminho. Que eu possa entender o que outra a pessoa fala, o que ela está pensando, por que essa verdade já está em mim, esse conhecimento profundo da vida, do universo, porque eu também sou parte dele, dessa manifestação. Entender onde está a minha vida, porque não há nada que me afaste de fora, porque não existe nem fora, nem dentro. É tudo uma coisa só. Ter essa percepção é atingir a iluminação.”

Serviço: para saber mais sobre a prática do Zazen, o templo Taikozan Tenzuizenji, localizado na região central de São Paulo, ministra aulas de Zazen para iniciantes aos sábados, às 18h, e aos domingos, às 11h. Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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remédio, pois não irá curar uma dor e não pode ser encarado como uma pílula. “Se tiver do de barriga, dor de coluna, o Zazen não vai curar, ele não é uma pílula. O Zazen, quando você faz, você cria metas curtas, metas pequenas, desejos pequenos, você acaba encurtando também o nível de seu Zazen, daquilo que você realmente poderia procurar como evolução”, contou.


Capítulo 6

Conheça as práticas e as principais escolas do Budismo Na Europa ou nos Estados Unidos sempre há uma escola chinesa ou japonesa que se destaca Nos capítulos anteriores você pôde conhecer uma boa parte da história do Budismo, desde seu surgimento no pequeno reino de Sakya, na Índia, e os caminhos que os conhecimentos de Buda percorreram até se disseminarem por grande parte do continente asiático, europeu e a sua chegada do Brasil. Neste sexto capítulo do Guia Conhecer Fantástico – Budismo, iremos mostrar para você, leitor, como se deu o surgimento das principais escolas do Budismo e algumas de suas características principais como, por exemplo, a adoção de rituais e mandalas dedicados aos Budas, ou à prática da extrema meditação como caminho para se chegar ao Nirvana. As escolas que iremos nos aprofundar nesse capítulo são as escolas nascidas das interpretações chinesas e japonesas do Budismo, pois elas são referência em toda a prática budista no Ocidente e há representações e escolas derivadas de suas doutrinas não só espalhadas pelo Brasil, mas também nos Estados Unidos e diversos países da parte ocidental e norte da Europa, como Itália, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Áustria, Dinamarca, Suécia e Finlândia, por exemplo. 64  Guia Conhecer Fantástico – Budismo


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Principais práticas

Você já soube em capítulo anteriores deste especial como o Budismo saiu da Índia e chegou até a China e de lá iniciou sua expansão para os demais países do continente asiático e deles para o restante do mundo. Agora iremos abordar de forma mais sistemática como os ensinamentos de Buda são praticados na China e quais são as escolas mais relevantes do que pode ser considerado o Budismo chinês. As primeiras escolas do Budismo chinês surgiram durante a chegada de monges indianos ao país durante meados do século V e tinham como característica principal linhas mais dedicadas a explicar os ensinamentos de Buda ou a interpretações das escrituras por pequenos trechos de sutras ou por agrupamentos de alguns capítulos. As primeiras práticas budistas na China foram baseadas em traduções de parte dos tratados Madhyamika e Yogacara e em escrituras específicas como o Nirvana Sutra. Essa forma única de interpretar os ensinamentos de Buda deu origem às escolas mais tradicionais do Budismo

Chinês, Tiantai e Huayan (Guirlanda de Flores). Com o passar dos séculos, o Budismo chinês evoluiu e começou a adotar outras formas de interpretar e praticar os ensinamentos de Buda, desenvolvendo práticas e entendimentos mais formais desses ensinamentos e que determinariam assim uma espécie de

padronização entre as diversas formas e práticas religiosas. Essa padronização dos entendimentos sobre os entendimentos acabou por criar novas escolas budistas, cada uma com o foco em um tipo de prática. Sugiram então a Terra Pura, que adotava a devoção aos Sutras, a Chan, que passou a privilegiar as prá-

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A prática do Budismo na China

Templo Tiantai, local para prática budista

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Principais práticas

Estátua representando o mestre Xuanzang, em Xian, na China

ticas de meditação e o Budismo esotérico, que se especializou na realização de rituais. As práticas das escolas do Budismo chinês são uma misturada das principais vertentes surgidas no Budismo indiano, porém com bastante ênfase às crenças mais progressistas da vertente Mahayana, que foi a que chegou com mais força ao país. No caso das práticas das escolas chinesas, os nikayas da vertente Theravada como Dharmaguptaka, Sarvastivada, servem como forma de sistematizar ordenação de monges e, de forma secundária, como expoentes de alguma doutrina. As escolas chinesas

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Templo do Paraíso em Beijing, capital da China


Principais práticas

Budismo Moderno

A partir dos séculos VII e VII surgiram três novas escolas que podem ser caracterizadas como Budismo Moderno e que existem e são influências até hoje nas práticas chinesas dos ensinamentos de Buda e que foram importantes na formação das escolas japonesas: a Terra Pura, com seu fator devocional; a Chan (também conhecida como Zen) e a sua meditação; e os rituais do Budismo esotérico, conhecido como Mijiao. Por meio dessas três características que enfatizavam que a abordagem religiosa, era mais importante do que a compreensão teórica, que se permitiu que as práticas budistas alcançassem mais pessoas, sejam eles monges ou leigos, que muitas vezes possuíam relações antagônicas com as escrituras budistas originais.

Terra Pura

A tradição dessa escola se baseia em um grupo de escrituras que descrevem o Buda Amitabha (“Luz Infinita”) e seu paraíso, também conhecido como Terra Pura e que dá origem ao nome da escola. O sistema adotado por ela determina que para atingir o paraíso, o praticante deve reencarnar em diversos mundos (como

Caligrafia da palavra Chan, que significa meditação

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do Budismo têm como base textos Madhyamika, Yogacara e apesar não haver ligação direta entre elas, podemos dizer que a linhagem das escolas chinesas trabalha com textos similares ao do Budismo indiano, de onde surgiu, porém com uma interpretação dos textos sagrados de forma bem diferente. O surgimento das formas mais sistemáticas e sectárias de definição das práticas das escolas chinesas surgiu com o mestre Tiantai Zhiyi (538-597) que se prontificou a uma larga discussão e interpretação das traduções chinesas da filosofia budista, até que conseguisse uma forma de padronizar a suas práticas. É desse esforço que surge a escola Tiantai, uma das mais relevantes do Budismo chinês. A sistematização adotada pelo mestre foi: encontrar um sistema interpretativo de toda a doutrina budista; determinar uma forma compreensível para a prática da meditação; e criar um centro institucional para a os estudos da filosofia budista. Cada uma das escolas chinesas tradicionais adotou uma prática diferente. Por exemplo, se a escola Tiantai se caracteriza pela ênfase nos amplos conhecimentos budistas e a adaptação da meditação para qualquer vertente filosófica, a escola Xuanzang e sua derivação, a Ci’em, se destacam por adotarem uma compreensão mais simples do Budismo e enfatizar as diferentes alternativas para que os leigos pudessem alcançar os diferentes estágios do caminho da iluminação. Outra escola importante do início do Budismo na China, a Fazang, se caracterizou por uma abordagem mais abstrata e filosófica dos ensinamentos do Buda, o que criou uma abordagem visionária para as práticas da meditação.

os do Budismo original) e a partir deles, o praticamente pode atingir a iluminação. Para essa doutrina, para que o praticante possa atingir os estágios superiores, ou os paraísos intermediários, ele deve permanecer com atenção máxima à imagem de Amitabha durante a meditação por dez instantes de pensamento, e que isso lhe garantiria acesso ao próximo paraíso na linha de evolução. Esse tipo de evolução é visto por teóricos dessa escola como uma forma mais simples de visualizar a meditação e mais acessível aos leigos, pois a pessoa só precisaria se ficar na imagem de Buda. Essa prática fez a escola ser atrativa e conquistar muitos adeptos. Na visão do monge Tanluan (488-554), essa teoria era um caminho mais simples e acessível as pessoas que viviam em um mundo corrompido chegarem ao estágio de iluminação.

Escola Chan

A palavra Chan, que significa concentração meditativa em tradução direta do sânscrito dhyana para o chinês, tem como principal característica a prática da meditação até atingir altos níveis de concentração e assim conseguir a evolução. Sua parte teórica é baseada na noção do Budismo indiano de cadeia sucessória mestre-discípulo, além de sustentar que o verdadeiro ensino da pratica budista foi passada de Buda Śakyamuni, por meio de uma sucessão de patriarcas indianos até Bodhidharma e assim sucessivamente até os mestres atuais dessa escola. O modelo de prática do Chan pode ser dividido em duas diferentes formas. Na maneira tradicional, também conhecida como Caodong, na qual o discípulo, para atingir a iluminação, deve ter uma mente “búdica” dentro de si, o que significa que ele dever ter uma qualidade de iluminação original dentro dele, o que é fundamental para todos os seres cientes. Ou seja, a pessoa deveria se iluminar de acordo com o seu próprio Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Principais práticas potencial e se desiludir da existência ordinária, esse é um processo chamado de “iluminação silenciosa”. No outro ramo dessa escola, conhecida como tradição Linji, o indivíduo deve demonstrar a capacidade de sua mente atingir a iluminação de forma espontânea, por meio de interação com o seu mestre. Nesse último caso há dos tipos de interação entre mestre e discípulo: a verbal e a não verbal. A verbal se faz por meio do questionamento de exemplos das práticas de meditação. A não verbal é fazer essa interação de forma a observar e repetir os movimentos do mestre, é também conhecida como “observando a frase fundamental”. Outra característica da escola Chan é que sua prática é exclusiva dentro de monastérios, o que chamado, de acordo com as premissas da escola de uma espécie de auto – cultivo espiritual.

O Budismo esotérico (Mijiao)

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O Budismo japonês

A história da prática e das escolas do Budismo no Japão é diretamente ligada a influência das escolas do Budismo chinês, principalmente das escolas Terra Pura e Chan, que geraram diversas linhas de interpretação no Japão e daí para os demais países do mundo, como é o caso do Brasil. As escolas japonesas são quase que majoritariamente da vertente Mahayana do Budismo indiano, mesmo com todas as suas diversas ramificações. Uma das características marcantes das práticas do Budismo no Japão, de acordo com a historiadora especializada em religiões japonesas, Masaharu Anesaki, é que ela é bem eclética, pois vai das tranquilas meditações do Zen, as fortes batidas de tambores de alguns grupos da escola Nichiren, passando por sofisticadas discussões da realidade na escola Tendai e comporta ainda os rituais típicos da escola Shingon. Outra característica das práticas das escolas budistas no Japão é que todas elas, de alguma forma, adotam rituais funerários e em memória de antepassados, exorcismo, retiros espirituais, bênçãos, quermesses, campanhas pacifistas, pregações, meditação, peregrinações e demais outras práticas que envolvem o dia a dia de seus discípulos e da sociedade. Um fator que torna as escolas do Budismo japonês únicas em relação às linhas de interpretação dos ensinamentos de budas surgidas em outros países é que as misturas que a prática teve com outras religiões existentes no país em sua formação como o Xintoísmo e o movimento medieval como Ryôbu Shintô deram as práti-

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Ilustração sobre a prática budista no Japão

Essa linhagem do Budismo chinês adotou as práticas consideradas místicas do Budismo indiano, como a referência a mandala – círculo com referências as concêntricas configurações de budas, bodhisattvas e outros personagens sagrados. Entre as principais técnicas adotadas por essa escola, estão técnicas de recitação, visualização e rituais semelhantes à magia que eram realizados por alguns seguidores de Buda. Os discípulos dessa doutrina acreditam que há um caminho mais rápido para atingir a iluminação e o empoderamento do espírito e que eles poderiam atingir a elevação por meio de rituais e de influências das mais profundas forças do universo. Apesar de ter conseguido muitos adeptos, essa corrente do Budismo chinês teve sua inserção na cultura do país muito limitada devido as outras escolas serem mais populares e a nunca ter produzido estatutos doutrinários substanciais que ajudassem

a disseminar a prática. Sua prática não se expandiu após o final do século IX dentro da China e obteve mais sucesso com sua expansão e presença no Japão, graças aos esforços do monge Kukai. Em seu país de origem é considerada uma escola em declínio.

Guia Conhecer Fantástico – Budismo


Principais práticas cas budistas japonesas todo o sincretismo e a estruturação hierárquica que ela tem desde seu nascimento.

Escola Tendai

Essa escola é a ramificação da escola chinesa Tintai, de onde adotaram as escrituras e tratados sobre meditação e tem como base de sua teoria o Sutra de Lótus. Apesar de seguir a mesma linha de escola chinesa, durante os anos, os mestres da versão nipônica, como o monge Saicho, incluíram muitas referências da cultura local nas práticas como, por exemplo, elementos de meditação do Zen, do Budismo esotérico (Shingon) e da tradição xamânica japonesa. Com a tradição de adotar as práticas de outras escolas na formação de sua doutrina, essa escola acabou por dar origem a outras dezenas sub-escolas, onde as que mais se destacam são Sammon e Jimon.

Escola Shingon

do Budismo Amidista que ele próprio se casou e continuou sua pregação dos ensinamentos de Buda. Os missionários dessa escola têm como característica levar uma vida comum, que não pode ser definida “nem de monge, nem leigo”.

Budismo Amidista

Zen Budismo

Essa linhagem do Budismo se dedica exclusivamente ao culto do Buda Amida ou Amitâbha (Buda da Luz e da Vida Infinita) e sua prática está concentrada na recitação do Nembutsu (Namu Amida Butsu), que significa tomar refúgio no Buda Amida. Tem a crença que todos os indivíduos podem trilhar o mesmo caminho feito por Buda e atingir a iluminação. Entre as diversas sub-escolas nascidas dessa linha de prática do Budismo do Japão, estão entre as mais significativas as escolas Jodoshu, Jôdo Shinshu e Jinshu.

A linhagem do Zen Budismo chegou ao Japão por volta de 1190, quando o monge Eisai, retornou da China após um período intenso de meditação e fundou a seita Zen no mosteiro de Shôjukuju, na cidade de Hataka. A principal característica adotada pelo Zen-Budismo e suas diversas escolas está na crença que para o indivíduo atingir o ponto máximo da elevação espiritual, basta que ele tenha um esforço individual na prática das meditações ensinadas por Buda Sakyamuni. A palavra Zen que dá origem ao nome dessa escola é derivada da palavra chinesa Chan e significa meditação de concentração. Essa linhagem também se dividiu em diversas sub-escolas, com destaque para a Soto-Zen umas das mais conhecidos no Brasil.

Escola Jôdo Shinshu

Essa escola do Budismo japonês se define como A Verdadeira Escola da Terra Pura (Jô do Shinshu). Tem como principal característica ser uma escola que, apesar de adotar o culto ao Buda Amida, não prega uma prática monásticas aos seus missionários. O monge Shinran, seu fundador, acredita que o fato de não viver uma vida celibatária e ingerir carne não eram necessariamente um impedimento para a prática religiosa e nem para que a pessoa atingisse a salvação ou a iluminação. Tanto não acreditava nessas premissas

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O significado de seu nome é: A Verdadeira Palavra. Chegou ao Japão pelas mãos do mestre Kukai durante o século IX e tem forte influência do Budismo esotérico chinês. Tem como característica de sua prática a adoção de rituais, como a entoação de mantras e encantamentos, além de gestuais com as mãos e os dedos que são conhecidos como mudras e acompanham as invocações à Buda. Essa escola prega a unidade do corpo, expressões verbais e a intensa

concentração na imagem de Buda. Ela se utiliza de mandalas como representação das imagens sagradas da doutrina, que são expostas nas formas dos Sutra Mahavairochana e Coroa de Diamante (Kongocho-gyo).

Templo Zenkoji, em Nagano, um dos principais locais para práticas budistas no Japão

Posição de Lótus, uma das principais para a prática da meditação

Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Principais práticas

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Uma das primeiras escolas que surgiram dentro o Zen-Budismo foi a Rinzai, que é conhecida pelo fama de “grita e bate”, que é uma referência à forma como o seu fundador, o mestre Lin-Chi atingiu o ponto máximo de iluminação. As práticas dessa escola se concentram na meditação do Koan, uma espécie de prática que tem como objetivo levar o indivíduo à elevação máxima do espirito por meio de recitações. A sua doutrina é conhecida por pregar a necessidade de vários anos de treinamento para atingir a iluminação. Suas práticas são consideradas exaustivas e seus métodos de meditação severos e extremamente rigorosos. Outra escola que adota a prática do Zen Budismo é a Soto Zen, que tem origem chinesa. As práticas dessa escola têm como grande característica a adoção do Zazen – uma prática de meditação que pode ser feita inclusive por leigos. De acordo com seu fundador, o monge Dogen, a prática do zazen pode ser entendida como uma expressão de um estado iluminado e não como um caminho para atingir a iluminação. A influência dessa escola vai além de contribuir uma a prática dos ensinamentos de buda e da meditação, ela também contribuiu de forma expressiva na formação da cultura japonesa, gerando estilos literários e dentro do ramo das artes, por exemplo.

Escola Nichiren

A escola leva o nome de seu patriarca, o mestre Nichiren. Para ela, somente os tratados contidos no sutra de Lótus é que representam os verdadeiros ensinamentos de Buda e são o único caminho a ser seguido para se atingir a iluminação. Segundos as palavras do seu fundador, só havia um único caminho que levaria os indivíduos à iluminação. “Que o Nam Myoho Renge Kyo é o âmago da doutrina budista e que somente por meio de sua prática é possível, aos seres que vivem na Era do Fim do Darma [...], a obtenção de um estado de vida de felicidade suprema e inabalável, o Estado de Buda”. Entre as práticas mais comuns dessa escola do Budismo surgido no Japão, estão a recitação do mantra Nam -myo-ho-ren-gue-kyo, a utilização de uma mandala chamada Gohonzon, Guia Conhecer Fantástico – Budismo

que contém as figuras que devem ser reverenciadas e a obrigatoriedade de realização de duas orações diárias, que são conhecidas como Gongyô, nas quais os praticantes recitam trechos da versão japonesa do Sutra de Lótus. Uma das premissas dessa linhagem do Budismo é acreditar na lei de causa e efeito, cujas condições de vida, sejam ela presente ou no futuro, estão atreladas à relação entre os pensamentos e ações do próprio indivíduo. Em suma, toda experiência do indivíduo é resultado de seu Karma, que pode ser positivo ou negativo, de acordo com suas ações, palavras e pensamentos. Essa vertente do Budismo japonês se divide em diversas sub-escolas, tendo como principais destaques as escolas Nichiren Shu, Nichiren Shoshu e a Soka Gakkai, as duas últimas consideram Nichiren como Buda original da era de Mapô, que só é menos importante que o Buda Sakyamuni.

As práticas tibetanas

As práticas do Budismo tibetano partem da ideia de que é preciso seguir à risca os ensinamentos de Buda para se atingir o ponto mais alto de iluminação. Porém, diferente das vertentes budistas como a esotérica, que acreditam que há um caminho mais fácil para se chegar à elevação espiritual, o Budismo tibetano acredita que somente a prática e a evolução gradual do espírito é que levarão seus praticantes à iluminação. Uma das primeiras práticas é conhecida com shinay (meditação de tranquilidade). Essa prática de meditação tem a intenção de fortalecer a consciência e acalmar a mente do praticante para que possa entender o significado de seus pensamentos e emoções, além de promover o autoconhecimento do indivíduo. Porém, de acordo com preceitos tibetanos, o discípulo só atingirá a estabilidade da mente com a prática regular do shinay e assim poderá passar para as práticas mais complexas. Outra característica das práticas do Budismo tibetano é a adoção do conceito de refúgio, que de acordo com a visão deles, é uma espécie de firmamento do compromisso com a busca pela iluminação. Para quem ainda é considerado um iniciante na prática, esse refúgio pode se dar na forma da procura de um mestre, tutor, também denominado lama e afirmar perante ele sua confiança os ensinamentos de Buda e na comunidade de praticantes de ele escolheu para encontrar o caminho da iluminação. Pois eles acreditam que estando na companhia de uma comunidade e se confiarem nos ensinamentos de Buda, eles conseguem se livrar de todas as angustias inerentes aos seres humanos. Uma outra fase determinante para atingir a evolução de acordo com as normas tibetanas é chamada de Bodichita, que é a fase em que o praticante começa a direcionar sua energia que antes estava ligada ao entendimento das razões do sofrimento para a procura de


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Principais práticas

71 71 uma solução para eles seus sofrimentos, para poderem seguir o caminho da iluminação. A prática do bodichita é feita por meio de recitação de preces e a prática das seis perfeições, que são: Generosidade, Paciência, Ética, Diligência, Meditação e Sabedoria. O ponto alto dessa primeira fase evolutiva é chamado de Voto de Bodhisatva, no qual o praticante, após entender a razão de seu sofrimento, deve se comprometer com a iluminação não só para si, mas também para benefício de todos os seres humanos. O segundo estágio no processo de meditação do Budismo tibetano em busca da iluminação é o Ngondro, em que o praticante começa a meditar sobre a condição de vida humana, a insatisfação com a sua vida e as verdades absolutas proferidas por Buda. Para esse tipo de meditação, há dois tipos de caminhos monásticos. Há aquele adotados por monges e lamas, que é a vida reclusa em um monastério e a vida celibatária. A outra opção é o retiro de três anos, em que o praticante passa esse período de sua vida em um monastério dedicado aos ensinamentos de Buda e sem nenhum contato com sua vida fora das práticas da meditação.

Escolas budistas na Europa

A prática e a representatividade do Budismo no continente europeu pode ser considerada eclética, pois de uma forma ou de outra, todas as suas vertentes estão representadas principalmente nos países localizados

do lado ocidental como França, Alemanha, Holanda e Bélgica, por exemplo. Há também uma concentração de escolas budistas nos países ao Norte do continente, como Noruega, Dinamarca e Finlândia. No leste europeu, a presença do Budismo não foi muito disseminada, pois devido à influência do comunismo, que não aceita a prática religiosa, a população não teve muito contato com os ensinamentos de Buda. No caso dos países nórdicos, cada um deles tem uma escola predominante. Na Dinamarca a corrente com mais presença e adeptos é o Budismo tibetano, que além de contar com a construção de diversos centros desde sua chegada ao país, teve a visita do Dalai Lama para ajudar a disseminar a prática. No país vizinho, a Noruega, que só teve o Budismo por lá a partir da década de 1970, as escolas que mais se destacam por lá são Rinzai Zen Senter e Karma Tashi Ling, ambas de origem japonesa e que chegaram a fundar a Federação Budista na Noruega. Na Islândia há três escolas budistas oficialmente reconhecidas, que são a vertente Theravada, a Zen e a Nichiren, através da escola Soka Gakkai. Juntas, seus praticantes representam aproximadamente 0,2% da população do país e é mais representativa que o islamismo, por exemplo. Na parte ocidental do continente europeu, a dispersão do Budismo seguiu características diferentes. Os primeiros países a adotarem a prática do Budismo foram Holanda, Alemanha e Áustria e, por consequên-

Práticas de meditação e debates realizadas em um mosteiro em Lhasa, no Tibete

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Principais práticas

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Templo para a prática do Budismo em Copenhagen, Dinamarca

cia disso, são os países onde a prática é mais difundida. Na Holanda, por exemplo, há aproximadamente 100 grupos de práticas budistas registradas, que representam aproximadamente 3% da população, sendo uma das religiões menos representativas no país e, em sua maioria, composta por budistas tibetanos. Na Alemanha estima-se que exista aproximadamente 130 mil praticantes do Budismo, de acordo com dados da DBU (União Budista Alemã), e as duas escolas que mais prosperaram no território alemão são a Theravada, que foi a primeira a se estabelecer no país, e mais recentemente houve uma onda de adesão ao Budismo tibetano, devido à figura do Dalai Lama e pelo fato dos alemães enxergarem o Budismo como uma religião pacifista. Apesar de ter sido um dos primeiros países a ter contato com o Budismo e ter uma sociedade inaugurada em Viena, na Áustria, em 1923, a prática das escolas budistas sofreu sérios problemas durante a ascensão do nazismo, quando foram perseguidas, e só foram recuperar sua força após o final da Segunda Guerra, com a reconstrução da sociedade das práti-

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cas budistas. Estima-se que no país há 10 mil praticantes, a grande maioria deles adeptos do Zen e do Budismo Tibetano. Nos demais países europeus, podemos encontrar as mesmas características, onde todas as vertentes do Budismo são encontradas mesmo que em menor número como no caso da Eslovênia, onde há cerca de mil praticantes. De modo geral, as principais escolas que se destacam no continente são escolas que absorveram a vertente Mahayana, como o Zen Budismo e o Nichiren, e o Budismo Tibetano, da vertente Vajrayana. Na Itália, por exemplo, há duas instituições criadas para a representação do Budismo, se de dedicam a desenvolver diversas escolas da vertente Mahayana e que conta com mais de 60 mil praticantes. Há também o Instituto Italiano budista Soka Gakkai, que se dispõe a disseminar as práticas da escola Nitiren Daishonin e foi fundado em 1998. Já no Reino Unido, considerado umas das regiões mais importantes da Europa, o Budismo não tem tido muita inserção, pois apenas 150 mil pessoas são adeptas da prática, sendo que a escola que tem representativa é a Theravada, fruto da fundação da Pali Text Society, que além de difundir a prática no país, traduziu todo o cânone com os ensinamentos de Buda do sânscrito para o inglês, o que facilitou a absorção dos conhecimentos pela população. O país europeu onde o Budismo tem mais representatividade é na França, onde estima-se que há de 600 a 650 mil praticantes, sendo o Budismo considerado a terceira religião mais importante do país, somente atrás do Catolicismo e do Islamismo. A escola que tem maior número de adeptos é o Budismo Tibetano, graças à influência da budista Alexandra David-Néel, que escreveu mais de 30 livros sobre essa escola.

O Budismo nos Estados Unidos

A prática budista nos Estados Unidos tem forte influência da imigração de colonos chineses e japoneses ao país entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Por isso, as escolas com maior influência e mais representatividade são as nativas desses países, apesar do crescente interesse da população pelas práticas do Budismo tibetano. A principal escola do Budismo presente nos Estados Unidos é o Zen Budismo, que viu a busca de sua prática sofrer uma explosão durante a década de 60, época da contracultura. Uma das escolas mais importantes da prática do Budismo nos Estados Unidos é também uma das mais antigas e chegou ao país em uma missão da versão japonesa da Terra Pura, também denominada Shin Budismo. O seu desenvolvimento no território norte-americano sofreu um forte revés com a crise envolvendo os dois países, EUA e Japão, durante a Segunda Guerra, o que obrigou essa escola a adotar uma nova nomenclatura e ser rebatizada como Igreja Budista da América, que hoje é consi-


derada por historiadores como uma das maiores e mais estáveis comunidades para a prática do Budismo no país. Umas das escolas mais presentes na sociedade norte-americana que só viu sua popularização acontecer na segunda metade do século XX foi o Zen Budismo. Durante as décadas de 1950 e 1960, diversas missões budistas desembarcaram no país para introduzir e disseminar as práticas de meditação da linhagem Zen. Foi durante essas duas décadas que surgiram os centros de Zen Budismo de Los Angeles, São Francisco e Providência, que foram construídos pelos mestres Taizan Maezumi Roshi, Shunryu Suzuki Roshi e Dae Soen Sa Nim, respectivamente. Graças à adoção da prática por escritores famosos dessa época como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e Gary Snyder, ícones da geração beat. A prática do Zen Budismo atraiu muitos jovens norte-americanos, que inclusive foram à Ásia em busca de mais conhecimentos e na volta fundaram suas próprias escolas de zen, como a Insight Meditation Society, fundada por Sharon Salzberg. A chegada de outras vertentes do Budismo se deu na esteira das guerras em que os Estados Unidos participaram. Por exemplo, o fundador do centro diamante Sangha, Robert Aitken Roshi, foi um prisioneiro da Segunda Guerra Mundial e durante o período em ficou aprisionado em Guam, teve contato com o Zen Budismo e ao voltar aos Estados Unidos fundou seu próprio centro de prática.

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Principais práticas

Já a chegada do Budismo tibetano ao território norte-americano aconteceu a partir da década de 60, quando o Tibete foi invadido pela China, em 1959, e alguns monges tibetanos para fugir da opressão chinesas decidiram imigrar para os Estados Unidos e trazerem consigo as práticas que estavam acostumados do Budismo, inaugurando uma fase de estabelecimento dessa prática dentro do país.

Pagode para prática do Budismo em Paris

Hsi Lai em Los Angeles, Califórnia

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Capítulo 7

Como o Budismo trata assuntos polêmicos relacionados à sociedade?

Conheça o ponto de visto que a doutrina budista tem sobre temas como morte, sexo e drogas O Budismo muitas vezes é visto como uma prática monástica ou mesmo reservada, mas nem por isso ele deixa de ter contato com temas polêmicos que interferem na vida dos seres humanos e nas relações de toda a sociedade. Nesse capítulo do especial sobre a prática budista saberemos como a filosofia criada por Buda entende temas como a morte e como é o papel da mulher em dentro que uma comunidade que ainda é majoritariamente masculina. Traremos também a visão budista sobre assuntos polêmicos como a prática do sexo, do aborto, a castidade, a homossexualidade e o consumo de drogas. 74  Guia Conhecer Fantástico – Budismo


Budismo & Sociedade

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ntes de entrarmos especificamente em cada um dos temas escolhidos para esse capítulo, devemos entender os critérios que o Budismo adota quando precisa fazer um julgamento relacionado com a moral e os costumes das pessoas que resolvem adotar a prática de seus ensinamentos. Quando Buda atingiu o Nirvana, deixou três critérios básicos que servem como premissa para qualquer posicionamento que o Budismo vai adotar perante as questões consideradas morais de uma sociedade. O primeiro desses critérios é o princípio da universalidade, que determina que todos devem agir em relação ao próximo da mesma forma que gostaríamos que ele agisse conosco. Também podemos chamar de critério da reciprocidade. A segunda premissa é chamada de princípio consequencial e diz que para determinar se algum comportamento é benéfico ou prejudicial, é necessário que se avaliem as consequências desse comportamento tanto na pessoa que pratica um ato, quanto na pessoa que é afetada por esse ato. O terceiro e último critério estabelecido por Buda para qualquer tipo de julgamento é conhecido como princípio instrumental, e tem como condição para avaliar um comportamento é determinar se a ação é benéfica ou prejudicial para se alcan��ar o objetivo determinado. Se a ação afastar a pessoa do objeto, ela é considerada prejudicial, se aproximar, é considerada benéfica. Para se entender essa última determinação de Buda quando às questões morais, precisamos entender que o objetivo de Buda era atingir o Nirvana, o estado da pureza e da paz da mente.

Morte

No Budismo a morte não é vista como um acontecimento trágico, com um processo doloroso, muito pelo contrário. De acordo com os preceitos da doutrina budista, os ensinamentos de Buda dizem que a morte nada mais é do que um final de um ciclo de evolução que o indivíduo deve passar. No momento em que a pessoa morre, seja de forma considerada natural ou de forma abrupta como em

um acidente, por exemplo, esse evento é marca do final de um ciclo evolutivo e ao mesmo tempo o início de outro estágio de evolução em busca pelo Nirvana. Para a vertente Theravada, por exemplo, a morte pode acorrer de três formas distintas. A primeira delas é quando o Karma da pessoa se esgota, ou seja, quando ela atinge o estágio máximo daquela fase evolutiva. Há também a perspectiva de que o tempo de vida do indivíduo se esgotou. Nesse caso, se refere ao tempo de vida de determinada reencarnação, em que a pessoa só pode viver aquele tempo e, depois disso, tem que morrer. E, por fim, quando tanto o Karma, quanto o tempo de vida de esgotam ao mesmo tempo. Para entender como o Budismo interpreta, de forma mais geral o evento da morte, é preciso entender primeiro os conceitos de vida e a concepção dos seis reinos, segundo os ensinamentos de Buda. De acordo com essas premissas, a vida é um estágio que toda pessoa tem que cumprir para atingir ponto mais alto da evolução espiritual, a iluminação. O indivíduo carrega, em vida, os Karmas de vidas anteriores e tem a chance de resolvê-los, passando assim para um estágio (ou reino) superior até chegar ao Reino Divino, último estágio antes de atingir a iluminação total. Dentro desse ponto de vista, a morte é encarada como o encerramento de uma fase de evolução, seja para um reino superior ou inferior. Pois, se a pessoa ainda tiver um Karma negativo, ela não irá reencarnar em um reino mais próximo da iluminação, mas sim em um reino consideração inferior ao que ela vivia. Nesse caso, o Reino dos Infernos é o ponto mais baixo da escola de evolução do espírito. Esse ciclo de morte-vida permanece até que o indivíduo consiga superar todo o seu sofrimento, libertando-se do karma e atingindo o mesmo ponto que Buda chegou. De acordo com as crenças do Budismo tibetano, há ainda uma fase intermediária entre o processo da morte a próxima reencarnação. Na obra intitulada O Livro Tibetano da Morte, são designadas as 49 etapas que o espírito deve cumprir entre a morte e sua próxima reencarnação. Cada uma dessas etapas é cumprida em um dia, ou seja, o espírito tem que esperar 49 dias até a sua próxima reencarnação. O

Para o Budismo, a morte é um rito de passagem para outro estágio da evolução espiritual

Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Budismo & Sociedade ponto máximo dos ciclos de morte-vida do Budismo tibetano é atingir a Terra Pura, um lugar onde reina a tranquilidade. A morte para o Budismo é vista não como uma despedida, mas sim como o final de um ciclo de aprendizado, de evolução e o início de uma outra etapa, em que o espírito terá para atingir a libertação de todo o sofrimento. Se a nova etapa vai ser uma posição superior ou inferior, vai depender do as atitudes tomadas pela pessoa em vida.

Mulher

A mulher ainda é vista como um papel inferior ao do homem no Budismo

O papel da mulher dentro do Budismo é um reflexo do contexto social e temporal no qual a prática está envolvida. Hoje existem mulheres elevadas à condição monja e até com papéis de liderança dentro de suas comunidades, porém, nem sempre foi assim. Hoje a figura da mulher dentro das práticas budistas ainda é de inferioridade em relação aos homens, mas é menos opressivo do que já foi no passado e, mesmo que paulatinamente, o Budismo vem abrindo espaço para uma maior presença feminina. No início da prática do Budismo, ainda quando Sidharta Gautama buscava o caminho da iluminação, a mulher era proibida de participar das peregrinações dos monges, porque eles acreditavam que a função das

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mulheres era cuidar de suas famílias e não sair em peregrinação mendicante. Aos monges, a prática budista recomendava que fosse evitada ao máximo qualquer contato com as mulheres, pois elas eram consideradas uma fonte de perversidade que os afastavam do caminho da evolução espiritual e da iluminação. Esse tipo de determinação é um reflexo de uma sociedade de quase 2.600 anos atrás. A sociedade como um todo evoluiu desde o surgimento do Budismo e as mulheres tiveram uma abertura para a prática um pouco mais igualitária em relação aos homens, porém ainda há algumas restrições para as mulheres que aceitam seguir os ensinamentos de Buda. Essas restrições variam de acordo com cada lugar onde a prática está inserida. Por exemplo, em templos da Tailândia, não é permitido que as mulheres usem os trajes monásticos coloridos, a vestimenta tradicional dos monges. Além disso, às mulheres é destinado o papel de noviças ou leigas, que devem se vestir somente de branco. Para as mulheres que desejam seguir a vida monástica, independente de onde o monastério está localizado, elas precisam seguir oito regras a mais que os homens. Uma monja deve sempre reverência aos monges, independente do tempo de ordenação; durante a estação das chuvas, elas devem sempre ficar em locais onde haja a presença de pelo menos um; após o período de retiro das chuvas elas são obrigadas a fazer o Pavarana (questionar aos superiores se ela cometeu alguma falta), isso sempre em frente das duas Sanghas, a dos monges e das monjas. Há outras regras que demonstram bem a diferença de tratamento existente entre homens e mulheres quando se trata de punições. Uma monja considerada culpada de uma ofensa séria ou transgressão moral, deve passar pela disciplina à frente das Sanghas de monges e monjas. Ao mesmo tempo é proibido uma monja acusar um monge de transgressão, porém o contrário é permitido. As demais regras são: depois de cumprir e treinar os seis preceitos, a noviça deve procurar ordenação nas duas Sanghas para conseguir se tornar monja; uma monja não pode, em nenhuma circunstância, ofender e nem sentir raiva de um monge e, por fim, uma monja é proibida de acusar um monge, porém um monge pode acusar uma monja de qualquer delito. A diferenciação se dá também no quesito de quantidade de regras a cumprir. Para monjas são 311 e para monges 227.

Casamento

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O Budismo, diferentemente das demais religiões, nas quais há a devoção a uma divindade e os votos dos noivos perante um Deus são considerados sagrados e devem ser respeitados, não acredita nessa perpetuação dos votos. Na filosofia budista, não existe essa noção de sacramento e responsabilidade perante um Deus. Guia Conhecer Fantástico – Budismo


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Budismo & Sociedade

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Para o Budismo, o casamento é, além da união de duas pessoas, a soma do Karma que essas duas pessoas carregam. De acordo com essa crença, a partir da realização da cerimônia do casamento, o Karma do marido passa para a esposa e a dela passa para ele, pois agora ambos terão que desenvolver juntos um Karma em comum que seja positivo, pois vai refletir no processo de evolução de ambos. Ainda segundo a crença budista, o novo Karma surgido da união dessas duas pessoas, passa diretamente para os filhos gerados por eles. Na esteira desse pensamento de não sacramento, eles não fazem objeção nenhuma ao divórcio. Pois, diferentemente da premissa do Catolicismo, no qual os noivos, por terem uma relação abençoada por Deus, devem ter uma relação permanente, no Budismo se entende com normalidade o fato de uma união ser desfeita, pois está dentro do conceito de impermanência deixado por Buda. Mesmo aceitando com normalidade a ideia de separação, a filosofia budista diz que mesmo que as pessoas não estejam mais juntas, o Karma não volta ao estágio anterior ao casamento. A partir do momento que

uma pessoa celebra a união com outra, ela carregada por todo o restante dessa sua fase da vida o Karma que ela acumulou do parceiro. A celebração do casamento no Budismo também é um pouco diferente do que encontramos no cristianismo, por exemplo. A cerimônia é realizada geralmente por um monge ou um oficiante. Os noivos entram ao mesmo tempo no altar, ficando cada um de um lado e os padrinhos aos seus lados, porém jamais em frente à imagem de Buda, que fica localizada sempre no centro do altar. O início da celebração se dá quando a noiva oferece um buquê flores ao noivo e ele, uma vela acessa para ela, que é uma forma de pedir a bênção aos seus ancestrais para aquela união. Ao toque do sino, noivos, padrinhos e convidados unem as mãos e o monge faz a leitura do Sutra que reverencia a passagem de Buda pela Terra. Um dos principais rituais de um casamento budista conhecido como San-San-Kudo (ou três-nove), onde uma bebida, geralmente o saquê, é servida aos noivos em três xícaras diferentes, sendo que elas representam

Cena de um típico casamento budista

Guia Conhecer Fantástico – Budismo


Budismo & Sociedade o pinheiro, que significa juventude, o bambu, que representa a flexibilidade, e a flor de ameixeira, que representa a beleza e a coragem. Depois disso, o monge pede aos noivos que leiam os seus votos. O encerramento da cerimônia é feito quando o celebrante coloca a mão esquerda dos noivos em um rosário com 108 contas, que representam os 108 portais da iluminação. Há ainda um minuto de silêncio, momento em que todos mentalizam e pedem harmonia e a felicidade para os recém-casados.

Sexo

78 A filosofia budista não condena o sexo, desde que seja uma expressão de amor e respeito

A relação da filosofia budista com a prática sexual é ambígua, já que ao mesmo tempo em que entende a prática como natural, também não aconselha certas práticas sexuais, isso, claro, para os leigos. Para os que querem seguir a vida monástica, qualquer tipo de prática sexual não é recomendada. Essa dualidade na interpretação se explica porque o Budismo diferencia a prática sexual de duas formas, a boa e a má prática. Em um dos principais sutras do Budismo, há a seguinte referência sobre a prática sexual: “Se a via do sexo entre um homem e uma mulher é justa, o clima, o tempo também são justos. Se a prática sexual é desordenada, o clima, o tempo e a ordem cósmica são afetados e perturbados. Isto origina a decadência da civilização e sua ruína”. De acordo com essa determinação, a prática do ato sexual feito de uma forma que represente respeito e amor ao parceiro é aceitável. Porém, quando essa prática envolve somente a busca pelo prazer e é feita de forma desordenada, obsessiva como, por exemplo, o sexo casual, a filosofia budista descrimina. A premissa básica do Budismo sobre a expressão da sexualidade é não realizar nenhum tipo de pré-jul-

gamento. Porém estipula que qualquer ato sexual está atrelado à relação causa-efeito, que é a base de definição do Karma. Há determinados comportamentos sexuais que são considerados destrutivos e que trazem infelicidade a pessoa, que seria a tal má prática sexual. Entretanto há comportamentos construtivos que se refletem em felicidade, a tal boa prática. A filosofia budista acredita que as más práticas sexuais, as que trazem sofrimento estão relacionados à obsessão quanto ao sexo. Se enquadram nessa definição, por exemplo, o consumo de produtos pornográficos, a masturbação, o hábito de ter diversas parceiras sexuais ou fazer sexo com prostitutas. Também são consideradas más práticas o sexo oral e anal, pois eles consideram que esses atos só trazem prazer e satisfação para uma das partes e sofrimento e submissão à outra. Outras práticas que podem refletir em um mau Karma são o fetichismo, masoquismo, sodomia, necrofilia, travestismo e o voyeurismo. Além de trazem sofrimento e influenciarem negativamente no Karma, na concepção do Budismo, realizar essas práticas podem acarretar enfermidades, provocar acidentes, encurtar a vida e, em casos mais extremos, é responsável por deficiências genéticas sobre seus descendentes, principalmente filhos. Entretanto, há práticas que o Budismo considera como sadias, pois elas trazem felicidade à pessoa que prática e são aquelas que estão feitas como forma de expressão do amor e do respeito entre duas pessoas, em que não há sofrimento ou condição de domínio de um sobre o outro. Apesar de mostrar que a escolha da prática sexual, seja boa ou má, é de exclusividade do indivíduo, para quem decide seguir o caminho da iluminação ela é desaconselhada. De acordo com as normas do Budismo, a prática sexual é considerada motivo de distração daqueles que decidem se dedicar exclusivamente aos ensinamentos de Buda e a vida monástica.

Aborto

Esse é um tema complexo e que anda sempre em debate em nossa sociedade. A visão budista sobre a realização de abortamento é a de condenar a prática em si, porém eles têm uma visão mais ampla sobre o tema. A filosofia budista considera o abortamento como uma ação destrutiva de matar, o ato de acabar com a vida de um outro ser. A partir disso, o Budismo procura entender quais foram as motivações que levaram a pessoa a praticar tal ato. Se a motivação foi por causa de egoísmo como, por exemplo, a pessoa praticou o aborto por não querer ter a obrigação da maternidade ou para evitar uma possível mudança física, o ato é encarado como um ato inaceitável de matar outra pessoa, pois tanto o ato, quanto a motivação são considerações altamente destrutivos, o que acarretará um Karma altamente negativo. Guia Conhecer Fantástico – Budismo


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O Budismo, mesmo condenando o aborto em si, o julgamento nunca é sobre o ato do abortamento, mas sim nas motivações do ato, pois dependendo do motivo, ele refletirá mais ou menos negativamente no Karma de quem fez o aborto. Pode se considerar que o abortamento é uma prática egoísta, como citamos acima, porém, sob a ótica budista, a motivação por ter uma conotação ingênua como, por exemplo, a pessoa pode ter pensado que não teria condições de dar uma boa vida ou recursos para sustentar essa criança, sem pensar que ela poderia recorrer aos país ou outros familiares para ajudar, ou ainda em outra hipótese, levar a criança para um centro de adoção. Ele entende que a motivação para a prática também compassiva, que eles acreditam que possa ser menos negativa. Nesse tipo de situação, em que o abortamento é visto como uma prática não tão negativa, estão casos em que a criança possa ter algum tipo de deformidade, seja mental ou física e a mãe realizou o ato para evitar sofrimentos futuros, pois segundo voto de bodhisattva diz que não pode se evitar um crime, uma vez que a que a motivação tenha sido o amor e compaixão. Porém, mesmo que o ato seja visto como um ato de compaixão, ele não deixará de influenciar o Karma. Suas consequências serão menos negativas do que daquelas pessoas que praticaram aborto movidas por egoísmo ou ingenuidade. Outro ponto que se considera na hora da avaliação são as questões relacionadas à saúde da mulher. Se a decisão for motivada pela opinião de um médico e ele tiver que escolher entre a vida dela e a da criança, o que é considerada uma motivação de autopreservação, porém não leva em conta o interesse da criança, a interpretação é ligeiramente diferente, pois são muitos

fatores que pesam na hora de tomar a decisão e as consequências sobre o Karma são diferentes. O ato de praticar o aborto é sempre condenado pelo Budismo, porém as questões que envolvem a motivação tendem a ser relativizadas. O tipo de motivação sempre vai interferir nas consequências negativas que a prática exercerá sobre o Karma. As pessoas que tomaram a decisão do aborto com motivações puramente ego��stas terão um Karma mais carregado do que aquela pessoa que tomou a decisão por questões de saúde, da mulher ou a criança.

O Budismo condena o aborto, mas considera uma decisão pessoal que influencia o Karma

Homossexualidade

A filosofia Budista não faz nenhuma diferenciação específica sobre questões relativas à orientação sexual de seus praticantes, sejam leigos ou monges. Na visão deles, todos somos iguais e temos direito ao mesmo tratamento, ou seja, as restrições sobre a prática sexual, por exemplo, valem tanto para pessoas heterossexuais quanto para homossexuais. O sexo é uma prática proibida para qualquer pessoa que se torne monge ou monja e faça seus votos para participar da vida monástica, pois segundo o Budismo a prática do sexo não é aconselhável já que isso os afastaria dos caminhos ensinados por Buda. No caso de pessoas leigas que aderem ao Budismo, eles não fazem nenhuma restrição especifica à prática. Nos ensinamentos de Sidharta Gautama não há qualquer referência a questões de preferência sexual, seja ela heterossexual, homossexual, transexual ou bissexual. Portanto, o Budismo trata não interfere nesse tipo de questão moral. A prática budista é considerada uma filosofia da vida humana, em consequência disso, não trata Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Budismo & Sociedade expressão do amor e do respeito, o Budismo não faz diferenciação se ela é feita entre homens e mulheres, homens e homens ou mulheres e mulheres.

O Budismo não faz nenhuma diferenciação quanto à orientação sexual de seus praticantes

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a prática de afeto, sexo ou casamento entre pessoas do mesmo sexo como um desvio, distúrbio ou vício. Como disse o monge Ikeda, da escola Nitiren Daishonin, em uma palestra recente em Paris, “é de suprema importância tomar cuidado para não considerar a homossexualidade como um desequilíbrio e absolutamente pensar que seja um sinal de uma prática incorreta ou fraca”. Nessa mesma palestra, o monge diz que o foco da prática budista é a busca pelo auto aperfeiçoamento e o caminho da iluminação e que a conduta ética ou moral do praticante, desde que ele não esteja integrado na vida monástica é irrelevante. E completa: “Moralidade é coisa relativa, que varia de uma cultura para outra. A tentativa de qualquer religião de impor a outra cultura padrões morais estranhos só podem estimular a rejeição da mesma e a negação do seu poder em praticar o bem. Por essa razão, ensinar a verdade básica, universal e dar apenas ênfase secundária a questões de códigos de ética”, disse. Para o Zen Budismo, a vida sexual do praticante tem que estar comprometida em proteger as crianças e a vida em sociedade, não importa qual tipo de relação ela é. A orientação sexual dos praticantes é vista como uma forma de relação que o indivíduo mantém com a vida como um todo, que inclui não só sua vida sexual, mas também afetiva. O que se pode concluir é que a visão que o Budismo tem sobre o sexo é mesma independente da orientação sexual do leigo. A preocupação da doutrina budista nesse tema específico é que a prática seja sadia, ou seja, ela tem que ser feita com o consentimento das duas partes e ser prazeroso para as duas pessoas. Ela só é considerada uma prática não aceitável se estiver relacionada com o abuso sexual, dominação ou que uma das partes não esteja feliz com os atos praticados. Se a prática sexual estiver sendo feita como forma de

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No que tange à castidade, podemos dizer que o Budismo adota duas versões para tratar o tema, uma para a vida monástica e outra para os leigos. Para os praticantes que desejam se tornar monges ou monjas e adotarem a vida monástica, a castidade é obrigatória, pois tanto nos templos como nos monastérios, o espaço é dedicado exclusivamente à prática dos ensinamentos de Buda e à meditação. De acordo com os preceitos budistas, a prática de sexo durante o período, por exemplo, é vista como uma trivialidade que pode desviar os monges e monjas do seu caminho rumo à iluminação plena do espírito. É também uma forma de se deixar vencer pelo desejo, que segundo os ensinamentos de Buda, são considerados uma fonte de sofrimento que afasta os praticantes da iluminação. Ainda segundo os ensinamentos deixados por Buda, para se alcançar o estágio máximo de evolução, o Nirvana, o praticante deve se abster que qualquer ligação ou sentimento de desejo que possa ter com relação com as práticas da vida mundana. Nesse sentido, a prática da castidade, também conhecida como celibato, é a forma que os budistas encontraram para superar todas as tentações relacionadas a sexo que podiam ter e que, de alguma forma, os afastavam dos caminhos trilhados por Buda. Já para os praticantes da filosofia que são considerados leigos, a necessidade da castidade ou do celi-

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Castidade

Da mesma forma que o Catolicismo, o Budismo acredita que a castidade é essencial para a vista reclusa


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Drogas

No que diz respeito ao consumo de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, as normas budistas as tratam da mesma forma. Qualquer substância que possa trazer dependência, sofrimento, algum tipo de emoção negativa ou que seja usada exclusivamente para alterar o estado de consciência da mente é expressamente proibido. Como norma geral da prática budista, qualquer substância considerada intoxicante deve ser evitada, pois ela pode trazer não só sofrimento a quem ingere, mas também as pessoas próximas como familiares e amigos, por isso o Budismo recomenda o abandono completo dessas substâncias. De todas as escolas do Budismo, a única que ainda aceita algum tipo de substância é o Budismo tibetano, que não vê problemas na ingestão de álcool, dede que o praticante fique sempre em alerta para evitar embriaguez. As regras da prática budista que diz respeito à restrição ao consumo de drogas, o praticante deve ficar atento a três itens fundamentais: o pacto da mediocri-

A filosofia budista não aceita nenhum tipo de droga que altere a consciência, seja ela lícita ou não Shutterstock

bato não é determinante para que ele consiga atingir a evolução de seu Karma para uma próxima vida ou mesmo atingir o ponto de evolução máxima do espírito. Nesse quesito, a única recomendação do Budismo é que seus praticantes se afastem das más práticas sexuais como a compulsão pela prática sexual e o adultério, por exemplo. Ainda no que diz respeito à relação entre monges e o celibato, de modo geral, o Budismo acredita que quando há a atração sexual de uma pessoa por outra, é possível que o indivíduo perca a imparcialidade em seu julgamento. A partir disso, eles acreditam que o fato de existir a atração sexual, além de dificultar o caminho rumo a iluminação, ao mesmo tempo, atrapalha a transmissão dos conhecimentos de Buda de forma aquedada e o desenvolvimento da compaixão pelo próximo. Mesmo que algumas pessoas consigam se manter imparciais sobre o seu objeto de desejo, nesse caso pessoas, o ideal é que essas pessoas não façam parte da vida monástica, pois poderiam, em algum momento, não conseguir manter seus votos e sua isenção, sendo melhor assim continuarem as práticas budistas como leigos. Apesar da maioria das escolas do Budismo tratarem a castidade e o celibato como essenciais para as práticas de monges, principalmente nos casos em eles que vivem reclusos dentro de monastérios, no caso do Zen Budismo a prática da castidade não é estimulada. Essa escola não vê problemas que seus monges tenham filhos e famílias, desde que não atrapalhe suas práticas religiosas. Na visão do Zen-Budismo a castidade não significa necessariamente a prática ou não de ato sexual. Uma vida casta significa praticar diariamente o respeito ao próximo.

dade; as emoções inúteis são perdas de tempo; alcançar a virtude requer atenção e coerência, e quando a pessoas está intoxicada, ela está menos focada em alcançar a virtude. Essas são as determinações que relacionam às drogas e à prática da meditação. No caso da maconha, por exemplo, a restrição do Budismo em relação a esse tipo de droga é que o uso dela não permite que a pessoa pratique a meditação da forma correta, pois, segundo a crença budista, ela agita o lung – que para o Budismo significa energia. Então, com a agitação criada pelo consumo de maconha, ela cria bloqueios nos canais sutis do cérebro e faz com que a pessoa não consiga se concentrar na prática da meditação. Então o Budismo considera que o consumo de maconha traz nenhum efeito benéfico para a prática da meditação e somente cria um estado nada saudável da mente. O uso obsessivo dela poder fazer com eu o praticante fique mais interessado em alterar sua consciência sempre para esse estado, o inviabiliza qualquer prática relacionada de meditação. No caso do método de meditação desenvolvido pela vertente Vajrayana – Budismo Tibetano, o consumo desse tipo de droga faz com que a pessoa tenha dificuldade em fazer as visualizações necessárias para uma boa prática. As restrições não são para o consumo de álcool ou maconha, elas são feitas para o uso de qualquer droga que cause alguma sensação alucinógena ou alteração da consciência. Também não é recomendado nem mesmo remédios que alterem o estado mental, pois na visão do Budismo, eles não vão criar um estado favorável à elevação espiritual ou facilitar a meditação. Para eles o uso de qualquer substância, medicamento ou não, que possa ser considerado alucinógeno, só causará desilusão, torpor, autoengano e, em contrapartida, trará menos clareza, lucidez, e menos concentração necessária para a prática da meditação. Além do consumo de drogas, o ato de praticar a venda de drogas é considerado como um renascimento em condições inferiores, efeitos do excesso de Karmas negativos que aquela pessoa carrega. Guia Conhecer Fantástico – Budismo

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Capítulo 8

A longa e intensa vida dos Dalai Lama no Tibete

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As histórias que envolvem a sucessão e o poder da linhagem que governa o Tibete há quase 500 anos

O penúltimo capítulo desde especial sobre o Budismo destaca uma figura singular não só na história da dispersão do Budismo tibetano, mas também na história recente da região conhecida por Tibete. Apesar de ser uma vertente da filosofia budista pela pregação da paz e da não violência, a história das sucessões dos Dalai Lamas, é marcada por muitos conflitos, guerras pelo poder de domínio e até acusações que o sistema de reencarnações que é responsável por definir quem será o próximo líder na linha sucessória é colocado em xeque.

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e houve guerras internas pelo domínio do Tibete, inclusive com o apoio de impérios externos como foi o caso do auxílio do império mongol para que a escola Gelupga tomasse o poder, tendo a forte influência do rei Altan Khan, na escolha de sucessores do trono. Mais recentemente, no último século, os líderes espirituais e político do Tibete tiveram que conviver com a constante ameaça externa a sua soberania. A primeira vez foi o império britânico, que no começo do século XX forçou o Dalai Lama Thupten Gyatso a passar quatro anos em exílio para poder preservar a sua vida. Se o governo inglês trouxe caos para o Tibete, a insistência da China em tornar a região um importante local de influência política, se mostrou muito pior. Em menos de 50 anos, os governos chineses, primeiro com a dinastia Machu e depois com Mao Tsé-Tung, invadiram o Tibete e fizeram com que seus líderes partissem em fuga para a Índia em busca de refúgio. Aliás, o último Dalai Lama deixou o país em

1959 e até hoje procura uma forma pacífica e diplomática de trazer de volta o poder político do Tibete para a escola Gelupga do Budismo tibetano. Esses assuntos muito mais você saberá no capítulo que começa agora.

Um breve histórico sobre a linhagem Dalai Lama

Estátua em homenagem ao imperador mongol Altan Khan, o responsável por criar o título de Dalai Lama usado até hoje.

Algumas pessoas podem achar que Dalai Lama é o nome daquele monge que sempre aparece quando se fala sobre Budismo Tibetano. Mas não é. Esse monge carequinha que a maioria das pessoas conhece se chama Tenzin Gyatso, nasceu em 1935 e é 14º de uma linhagem história de líderes do Budismo tibetano, da Escola Gelugpa. O nome Dalai Lama significa Oceano de Conhecimento e é um título dado ao líder da prática budista e política no Tibete. A história da linhagem dos Dalai Lama começou há aproximadamente 500 anos, mais precisamente em 1578, quando o então abade do mosteiro Gelugpa de Drepung, o monge Sonam Gyatso, em visita ao reino Guia Conhecer Fantástico – Budismo


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Monastério de Drepung, local onde morava Sonam Gyatso, primeiro abade a ser nomeado Dalai Lama

da Mongólia, recebeu o título de Dalai Lama, devido à sua erudição e seu vasto conhecimento. Ele recebeu esse título logo após converter o então rei mongol Altan Khan e seus seguidores ao Budismo. Foi então que o rei concedeu o título de Dalai (oceano em língua mongol) e uma tradução da palavra Gyatso (oceano de conhecimento em tibetano). Após o título concedido pelo rei da Mongólia, todos os abades – mestres – dos monteiros de Drepung, passaram a usar o nome de Dalai Lama como sinal de reverência ao cargo que ocupavam. Sonam foi o terceiro líder deste mosteiro, então os dois monges que o precederam no cargo acabaram por receber o título como homenagem póstuma. Antes dele, exerceram o cargo de líder da ordem monástica do Budismo tibetano os monges Gedun Truppa (1391-1474) e Gedun Gyatso (1475-1542), sendo eles considerados os dois primeiros Dalai da história da linhagem. A sucessão dos Dalai se dá na crença de que assim que um deles morre, ele reencarna em uma criança que tem um sinal específico e quando os monges a

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encontram, ela é ordenada a nova na prática monástica para posteriormente assumir seu papel de líder espiritual e político do Tibete. Sonam Gyatso, por exemplo, ascendeu ao cargo por ter afirmado que ele era a reencarnação dos dois líderes anteriores e então se aproveitando da crença de que os lamas sempre reencarnam, ele assumiu o cargo de abade do monastério Drepung. Segundo essa crença, assim que um mestre morre, há a transferência de sua consciência para um criança recém-nascida, esse processo tem o nome de tulku. Essa crença na faz parte não só da Gelupga, principal escola do Budismo tibetano, mas também as demais seitas da região, como por exemplo as escolas Sakyapa e Karmapa. Além da parte religiosa desse sistema de que o mestre falecido reencarna em um sucessor ela também tem uma função política. Pois, com a adoção desse sistema de linhagem, os monges acreditam que eles conseguem evitar que todos os bens da ordem, bem como os próprios monastérios acabem na mão de algum aproveitador, que possa assumir o cargo de líder com uma in-


Os Dalai Lamas do Budismo tibetano tenção que não seja manter a prática do Budismo e os conhecimentos de Buda. A partir da chegada de Sonam ao cargo de abade, se mantém a crença de que todo o Dalai Lama é a reencarnação não só dos Dalai Lamas anteriores, mas também a reencarnação de Avalokiteshwara, o Buda da compaixão.

Uma época de crise

Se as três primeiras eras do Dalai Lama foram consideradas boas, a morte de Sonam Gyatso marcou o início de uma época de crise para o Budismo tibetano e seus sucessores. A escolha do quarto Dalai gerou controvérsias e a ordenação de Yonten Gyatso (1589-1617) foi bastante contestada. Na época, a escolha de um dos bisnetos de Althan Khan, como forma de fortalecer a aliança entre a escola Gelugpa e o império mongol não foi bem aceita pelos monges das demais seitas do Budismo tibetano, que colocaram sob suspeita a honestidade a escolha e a veracidade do sistema de reencarnação de mestres. O fato dos Gelugpas terem escolhido um parente do rei e se aproximado do império mongol provocou a revolta das outras escolas do Budismo tibetano, principalmente a escola Karmapa, que após perder o trono para os Gelugpas se aliou ao rei Tsang, do Tibete Central e organizou um ataque aos mosteiros de Drepung e Sera, forçando o novo Dalai Lama a preparar sua fuga. Durante esse período de guerra entre as duas seitas, os Gelugpas foram pedir o apoio ao seu aliado, porém eles demoraram a enviar a ajuda e o resultado foi a morte do terceiro Dalai Lama, com apenas 25 anos. A escolha do sucessor de Yonten se deu logo após a ordem Gelugpa conseguir vencer as suas rivais com a ajuda do império mongol, que por meio do rei Gushri Khan venceu o império Tsang após uma intensa batalha sangrenta e conseguiu destruir todo o poder militar dos Karmapas, o que resultou a expansão o poder dos Gelugpas por todo o Tibete. Graças à sua contribuição, o líder Gushri Khan se tornou o principal aliado do então recém-ordenado Dalai Lama Ngawang Lobsang, também conhecido como “O Grande Quinto”. O quinto líder da linhagem do Dalai Lama foi empossado como líder religioso e temporal do Tibete em 1642 e recebeu de seu aliado as terras do Tibete Central e Oriental como presente. Com a nova ordem que foi criada, o palácio de Ganden, que ficava dentro do mosteiro de Drepung, já não tinha mais utilidade, pois ele não poderia ser usado como sede do novo governo, uma vez que ele não ficava na capital do país, Lhasa. Foi então que o 5º Dalai Lama iniciou a construção do palácio de Potala, que durou quatro anos para estar minimamente pronto para receber o novo rei, se tornando assim a nova sede do governo tibetano até 1959.

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Entre o sexto e o décimo segundo Dalai Lama, nenhum deles vida muito longa e lideraram a escola Gelugpa e o governo do Tibete por pouco tempo. Tsangyang Gyatso (1683-1706) o sexto da linhagem de líderes foi assassinado aos 23 anos, após ter sido deposto e preso por ser consideração um monge muito fora dos padrões, pois além das obrigações monásticas ele se dedicava à poesia à vida libertina. O sétimo Dala Lama da história morreu aos 49 anos, porém exerceu o cargo de líder por muito pouco tempo, pois Kelzang Gyatso (1708-1757) viveu a maior parte da sua vida em exílio. Um fator em comum une os lideres tibetano entre o novo e o décimo segundo

Pequena estátua que representa o Buda da compaixão, Avalokiteshwara

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Genghis Khan, principal figura do império mongol que ajudou a escola Gelupga a ter a supremacia do Tibete

Dalai Lama, nenhum deles chegou a completar 25 anos. Lungtok Gyatso (1805-1815) morreu aos 10 anos; Tsultrin Gyatso (1816-1837) aos 21; Khendrup Gyatso (1838-1856) aos 18 e o último dessa sequência trágica, Trimley Gyatso (1857-1875), morreu aos 22. Os historiadores suspeitam que todos eles, de alguma forma, foram assassinados em guerras pelo poder.

A estabilidade da sucessão

zes para fugir das invasões de britânicos, entre 1904 e 1909 e de chineses entre 1910 e 1913. Entre os grandes feitos que o tornaram uma referência na história da linhagem dos Lamas, podemos dizer que ele foi responsável por introduzir muitas novidades no Tibete após voltar do exílio em 1913. Ele foi o primeiro Dalai Lama a perceber a necessidade de tirar o país da clausura e da necessidade de começar a se estabelecer vínculo com outros, dando início a uma série de viagens diplomáticas. Ele também criou o primeiro serviço postal do país, introduziu o uso de dinheiro por cédulas de papel, além da criação da polícia. A atual bandeira do Tibete também foi uma criação sua. O atual Dalai Lama é Tenzin Gyatso e nasceu em 1935, dois anos após a morte de seu antecessor. Ele foi reconhecido como reencarnação de seu antecessor em 1937 após monges da escola Gelupga chegarem à casa dos seus pais guiados por visões sobre quem seria o sucessor. Ao chegarem ao local, os monges missionários acreditarem ter encontrado a criança sagrada e após anos de estudos ele se transformou no atual líder espiritual do Tibete. Ele é talvez o Dalai Lama mais conhecido de todos o e tem sido responsável por levar os ensinamentos de Buda para diversos países do mundo. Ele viveu e governou o Tibete até 1959, ano que houve a invasão e tomada do país pela China. Desde então ele se encontra exilado em Dharamsala, na Índia, onde criou o Governo Tibetano do Exílio, de onde tenta de todas as formas pacíficas retomar o governo de seus país. Devido à sua resistência contra a invasão chinesa e a prática de pregar a não violência, ele ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1989.

Se o processo de sucessão dos Dalai Lamas foi conturbado, principalmente entre o nono ocupante do cargo e o décimo segundo, para dos últimos dois líderes dessa linhagem a história é um pouco mais tranquila, mas nem tanto. O mandato de Thubten Gyatso (1876-1933) acabou por dar mais tranquilidade à linhagem dos Dalai Lama, pois diferente de seus antecessores, ele conseguiu exercer a função de líder religioso e administrativo do Tibete por 38 anos, até a sua morte em 1933 os 57 anos. Se ele teve estabilidade no cargo, sua governança não foi tão tranquila assim, pois durante o seu governo, ele teve que se exilar duas ve- Entre muitas outras obras, Thubten Gyatso, criou a atual bandeira do Tibete Guia Conhecer Fantástico – Budismo


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Os principais Dalai Lama Gedun Drupa – O Primeiro Dalai Lama

Sua importância vai muito além de ser considerado o primeiro Dalai Lama. Seus trabalhos para o desenvolvimento da prática do Budismo tibetano acontecerem muitos antes dessa honraria ter sido criada. Ele nasceu em 1391 na cidade de Gyurmey Rupa, próximo ao reino de Sakya, na região de Tsang, Tibete Central. Seu nome de batismo é Pema Dorjee. Ele fez seus estudos primários em língua tibetana com o monge Gya-Ton Tsenda Pa-La, e ao completar 14 anos fez seus votos de noviço e entrou para o mosteiro de Narthang, onde iniciou seus ensinamentos monásticos sob as ordens do monge Khenchen Drupa Sherab, que lhe deu o seu nome budista e pelo qual ele seria sempre conhecido a partir de então, Gedun Drupa. Ao completar 20 anos, Gedun

finalmente consegui atingir a ordenação completa, também conhecida como Gelong e se tornou abade do mosteiro de Narthang. Após completar cinco anos como abade, ele se tornou discípulo de Tsongkhapa, o grande mestre do Budismo tibetano e fundador da escola Gelugpa. Graças a sua lealdade e devoção, o mestre Tsongkhapa fez de Gedun seu principal discípulo e lhe entregou a responsabilidade de espalhar os ensinamentos de Buda por todo o Tibete. Em 1447, ele fundou o mosteiro de Tashi Lhunpo em Shigatse, o principal local de prática e estudos da escola Gelugpa do Tibete na época. Ele morreu os 80 anos, em 1474, enquanto praticava meditação no mosteiro que havia criado. Ele ficou conhecido por conseguir conciliar os intensos estudos com a prática monástica, além de ter escrito diversas obras sobre os ensinamentos de Buda.

Altar em reverência a Tsongkhapa, grande mestre budista e fundador da escola Gelupga

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Sonam Gyatso – O primeiro a receber o título de Dalai Lama

Monastério criado por Sonam Gyatso em Namgyal

Na linhagem história dos Dalai Lama do Budismo tibetano ele é considerado o terceiro a receber este título, mas na verdade ele foi o primeiro a obter essa honraria e posteriormente repassá-la aos seus antepassados. Ele nasceu em 1543 na cidade de Tolung, que fica nos arredores da cidade de Lhasa, capital do Tibete. Sonam nasceu em uma família rica da região e recebeu o nome de Ranu Sicho Pelzang – o próspero, pois foi o único filho da família a sobreviver. Aos três anos de idade foi reconhecido por Sonam Dakpa Gyaltsen, o governador do Tibete e Panchen Sonam Dakpa como sendo uma criança sagrada e a reencarnação de seu antecessor, o Dalai Lama Gendun Gyatso. Neste momento foi retirado da família e levado para o monastério de Drepung, onde começou seus

treinamentos para ser ordenado monge. Aos 7 anos recebeu a ordenação de noviço e aos 22 se tornou abade do mosteiro de Drepung. Ele foi responsável por aproximar a escola Gelugpa do império mongol, um importante aliado na conquista do Tibete pela escola Gelugpa, tendo inclusive convertido o então rei Altan Khan e seus súditos à pratica do Budismo, foi quando recebeu do rei o nome de Dalai Lama (Oceano de Sabedoria), sendo o primeiro da linhagem a receber esse título em vida e, em troca da honraria, ofereceu ao rei o título de Brahma, o rei da religião. Em sua vida, serviu como abade dos mosteiros de Drepung e Sera, além de fundar outros dois monastérios em Namgyal e Kumbum. Morreu aos 45 anos, em 1588, enquanto ensinava as práticas do Budismo tibetano na Mongólia.

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Ngawang Lobsang Gyatso – O Dalai Lama que conquistou o Tibete

Lobsang Gyatso mais do que ser o quinto da linhagem de Dalai Lama, ele é figura essencial para a manutenção da estirpe, pois foi o responsável por preservar a existência da escola Gelugpa e a transformar em hegemônica dentro do território tibetano. Ele nasceu em 1617, com o nome de Chong-Gya na cidade de Lhoka Chingwar Taktse, que fica ao sul de Lhasa, capital do território tibetano. O chefe de atendimento que servia ao quarto Dalai Lama, Yonten Gyatso, ouviu falar que na região havia uma criança com dons excepcionais e se dirigiu para lá para comprovar. Ao chegar ao local, mostrou os pertences de seu ex-líder para a tal criança, no caso Gya, que de imediato reconheceu aqueles pertences do falecido Yontem como se fosse seus. Mesmo já sendo reconhecido como a reencarnação do falecido líder, sua ordenação como Dalai Lama não foi feita de imediato porque os monges de Drepung tiveram que manter seu nome e sua existência em sigilo devido à grande crise política que ocorria no Tibete.

Nesta época o país era governado pelo rei Tsang, que havia vencido a guerra contra o quarto Dalai Lama e o império mongol. Durante cinco anos, o pequeno Gya ficou escondido da vista de todos e só iniciou seu processo de educação monástica para receber a ordenação como monge, após que o imperador do Tibete aceitou que os Gelugpas promovessem a sucessão do Dalai Lama anterior. Nesse momento, o menino foi levado ao monastério de Drepung e recebeu sua ordenação como monge pelo Panchen Lama, Lobsang Chogyal e enfim recebeu o nome pelo qual ficaria conhecido Ngawang Lobsang Gyatso. Por volta de 1637, aos 20 anos, o então quinto Dalai Lama teve seu primeiro contato com o rei mongol Gushri Khan, quando o império mongol chegou à fronteira do Tibete, o rei quis fazer sua reverência ao novo líder da escola Gelupga. Deste encontro surgiu a união entre o monge e o líder do império mongol que mudaria para sempre a correlação de forças das escolas do Budismo tibetano e do próprio Tibete. No momento que a aliança foi fechada o então rei se estabeleceu na região leste do Tibete e de lá partiu para

O Palácio de Potala em Lhasa, construído por ordem do Dalai Lama Lobsang Gyatso

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Os Dalai Lamas do Budismo tibetano Assim que assumiu o trono, Thupten Gyatso, teve que lidar com um grande problema. De acordo com os historiadores, havia uma grande guerra entre os governos britânicos e russo por influência na região, inclusive o Tibete. Essa guerra por influência ficou conhecida como o Grande Jogo. Nessa época, o império britânico controlava países vizinhos como Índia, Birmânia e Butão. Já o Czar russo controlava ou tinha grande influência entre outros diversos países da região, para os dois só faltava o Tibete. Durante a primeira década do século XX, ele foi obrigado a se exilar fora da Tibete por dois longos períodos, sendo entre 1904 e 1909 devido à invasão britânica e entre 1910 e 1913 quando a china invadiu o país para tentar retomar a influência que tinha durante o período governado pelo oitavo Dalai Lama. Em 1910, quando percebeu que o general chinês Lu Chan, já tinha seu exército dentro da cidade de Lhasa, Thupten reuniu seus assessores mais próximos e foi se exilar na Índia, de onde começou uma negociação com o governo chinês, da dinastia Machu, para retomar a independência do Tibete. No ano seguinte, a dinastia que governava a China foi derrubada e os tibetanos se aproveitaram disso para expulsar os invasores e retomar o controle do país. Depois de retornar do exílio em 1913, Thupten, encantado com as modernidades com que havia tido contato na Índia, decidiu que era hora de modernizar toda a organização política de seu país. No mesmo ano de seu regresso, publicou a declaração de cinco pontos que reafirmavam a independência do Tibete, estabeleceu o primeiro serviço de correio e financiou a ida de quatro jovens tibetanos para estudar engenharia na Inglaterra. No ano seguinte, organizou a criação da força militar do Tibete. Antes de sua morte em 1933, aos cinquenta e oito anos, criou Instituto Astrologia Médica Tibetana (Men -Tsee-Khang) para preservar os sistemas médicos e astrológicos do país, além de criar moeda própria e fundar a primeira escola de inglês no país, na cidade de Gyaltse. Após sua morte, a grande maioria das inovações que ele implantou foram abanadas e as forças armadas negligenciadas, o que abriu caminho para a invasão chinesa anos depois.

uma ofensiva que acabou por depor o rei Tsang, garantindo para a escola Gelugpa o poder sobre todo o território tibetano. Em abril de 1642, o então Dalai Lama se reuniu com o rei Gushri Khan no campo de batalha e foi nomeado por ele o novo líder espiritual e político do país, status esse que foi mantido até 1959 quando o exército chinês invadiu o país e o 14º Dalai Lama teve que partir para o exílio. Três anos após ser nomeado líder político e administrativo do país o Dalai Lama, 1645, ordenou a construção do palácio de Potala, que seria a sede do novo governo do Tibete. Esse palácio permaneceu como residência oficial dos Dalai Lama até a invasão chinesa. E morreu em 1682, aos sessenta e anos e sua morte ficou guardada em segredo por 15 anos, até que monges Gelugpas encontrassem e ordenassem seu sucessor.

Thupten Gyatso – O Dalai Lama da modernidade

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Além do instituto de Astrologia, Thupten fundou a primeira escola de inglês do Tibete

Depois de sucessivos mandatos curtos de diversos Dalai Lama, principalmente entre o nono e o décimo segundo, chegava a vez de Thupten Gyatso assumir o posto. Sua importância não só para o Budismo tibetano como para país é imensa, pois ele foi responsável por introduzir mudanças que levaram o Tibete à era da modernidade. O 13º Dalai Lama nasceu em 1876, na cidade Langdun em Dagpo, na região sul do país. Em 1897 ele foi reconhecido como a criança santa e a reencarnação do Dalai Lama anterior e levado até Lhasa, capital do país, em 1879, quando recebeu o nome de Ngawang Lobsang Thupten Gyatso Jigdral Chokle Namgyal. Seis anos após entrar no palácio de Potala e cumprir seu aprendizado ele foi ordenado Dalai Lama e, em setembro de 1895, assumiu seu lugar como autoridade religiosa e política do Tibete.

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Tenzin Gyatso – O Dalai Lama da atualidade

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O 14º Dalai Lama da linhagem de líderes religiosos e políticos da escola Gelugpa e do Tibete é sem dúvidas o mais conhecido e popular de todos de sua estirpe. Diferente do que muitos pensam o nome do líder do Budismo tibetano não é Dalai Lama, mas sim Lhamo Thondup, seu nome de batismo, que recebeu em 6 de julho de 1935, seu ano de nascimento, dois anos após a morte de seu antecessor. Quando tinha três anos de idade foi encontrado por monges tibetanos que, por meio de visões, chegaram à


Os Dalai Lamas do Budismo tibetano monge e juntos decidirem enviar delegações diplomáticas para os Estados Unidos, Nepal e Reino Unido em busca de auxílio para conter a ameaça chinesa. Ao mesmo tempo enviaram uma outra delegação à China para tentar convencê-los a desistir de invadir o Tibete. Apesar de todas as tentativas, o Dalai Lama não conseguiu manter o Tibete longe da invasão chinesa. As três delegações que foram ao exterior procurar ajuda voltaram sem sucesso e os enviados à China nem voltaram, pois foram assinados sob a pressão do governo chinês para que assinassem um documento chamado “Acordo dos Dezessete Pontos”, que permitiria a China libertar o Tibete de seu imperador. Sem sucesso nas primeiras tentativas de manutenção de seu governo, o Dalai Lama passou a metade final da década de 50 tentando acordos diplomáticos que evitassem que a China tomasse o poder no Tibete. Porém, em 1959, ao receber um convite do general Chiang Chin-wu para que acompanhasse a uma cerimônia festiva dos líderes chineses, sem que pudesse levar seus soldados, o Dalai Lama temeu por sua vida e escondido em meio aos soldados partiu para o exílio na cidade de Dharamsala, na Índia, de onde ele viaja o mundo para além de difundir o Budismo tibetano, denunciar a opressão chinesa e tentar reconquistar seu país.

91 91 Tenzin Gyatso é o 14º e o Dalai Lama mais conhecido. Vive em exílio na Índia desde 1959

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fazenda de sua família na região noroeste do Tibete e então o declaram como 14º líder Dalai Lama. Ainda criança foi enviado para o mosteiro de Kumbum e posteriormente para Lhasa, onde voltou a se encontrar com seu pais. Em 1940, aos 5 anos se tornou oficialmente líder espiritual do Tibete ao realizar seus votos como monge iniciante, nesse momento ele se tornou Jamphel Ngawang Lobsang Yeshe Tenzin Gyatso. Os seus dez primeiros anos de práticas budistas foram dedicados a aprender tudo que sobre as obrigações de monge. Nesse tempo ele estudou filosofia Budista, lógica, artes e cultura tibetana, sânscrito, medicina, música, drama, astrologia e outros ensinamentos que o prepararam para se tornar o líder espiritual e político do Tibete, cargo que assumiu em 17 de novembro de 1950, quando tinha 16 anos e após alcançar a ordenação completa e se tornar também abade. Apesar de ser o Dalai Lama da era contemporânea, seu mandato como governante do Tibete não tem sido fácil. Assim que assumiu teve que enfrentar uma postura hostil da China em relação ao seu país, que sob a alegação de libertar o povo tibetano dos imperialistas, enviou seu Exército de Salvação Popular em direção ao Tibete e que nesta altura já ameaçava invadir as fronteiras do país até então independente. Um dos primeiros atos de Tenzin com o líder na nação foi escolher seus primeiros ministros, um

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A caminho da iluminação Livros, filmes e curiosidade sobre o universo do Budismo

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LIVROS A Doutrina de Buda

Esse livro foi traduzido para o português por Jorge Anzai e faz parte de um projeto idealizado pela Fundação para a Promoção do Budismo Bukkyo Dendo Kyokai, que tenta popularizar os ensinamentos de Sidharta Gautama no Brasil. Nesta obra de 197 páginas estão contidas de forma bem sucinta e de fácil assimilação as experiências e os principais ensinamentos de Buda para atingir a iluminação espiritual, que são a essência de toda a doutrina budista. Entre os temas abordados no livro estão a definição das Quarto Verdades da vida humana descobertas por Buda enquanto meditava abaixo da arvore Buddhy e a explicação sobre o que são dos Oito Caminhos Óctuplos e como as pessoas devem se quiserem seguir o mesmo caminho de sabedoria e iluminação feito por Buda. O livro também expõe todas as questões éticas sobre a filosofia e prática do Budismo. Ele teve a sua segunda edição lançada em 2012 pela editora Martin Claret, dentro da coleção “Obra prima de cada autor”.

Mente Zen, Mente de Principiante

O livro escrito por Shunryu Suzuki, monge do Zen Budismo, lançado em 1998 pela editora Palas Athena, trata em suas páginas exclusivamente sobre quais são as melhores técnicas de meditação dentro de sua escola do Budismo. A publicação é voltada para aquelas pessoas que ainda são iniciantes na prática do Zen Budismo e não têm muito conhecimento. A ideia de publicar o livro surgiu a partir da compilação de diversas palestras dadas por seu autor no Zen Center de Los Angeles. Nas 136 páginas deste livro, ele aborda as principais características da prática do Zen e mostra como o caminho da disciplina e da meditação são práticas viáveis de se realizar. Além disso, ele fala sobre qual a postura correta para a prática do Zazen, como fazer a respiração correta e sobre as atitudes e entendimentos básicos para se compreender a filosofia do Zen-Budismo como, por exemplo, os conceitos de não-dualidade, vazio e iluminação. Durante a sua leitura, você poderá compreender melhor o que significa praticar o Zen.

Livros que trazem e disseminam os conhecimentos de Buda

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A Essência dos Ensinamentos de Buda

Esse livro foi escrito pelo monge vietnamita Thich Nhat Hanh e lançado no Brasil em 2001 pela editora Rocco. Ele é considerado primordial para aquelas pessoas que querem entender os pensamentos e ensinamentos de Buda e tudo o que abrange a filosofia do Budismo. No livro, o monge nos mostra desde os conceitos mais básicos até os mais elaborados do Budismo de uma forma bem clara e simples. É o livro ideal para as pessoas terem um primeiro contado com o universo do Budismo de uma forma bem acessível e bem explicada. Além de detalhar os conceitos da doutrina budista, o autor mostra como é possível praticar os ensinamentos de Buda no nosso dia a dia de um jeito bem natural e sem precisar mudar drasticamente a nossa rotina. O livro contém 328 páginas.

FILMES Kundun (1997)

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O filme foi dirigido pelo famoso diretor Martin Scorsese, conhecido por filmes de ação como os Bons Companheiros e Taxi Driver. Esse seu trabalho foi focado em uma parte importante da história do Budismo. Nele o diretor procurar retratar os primeiros anos de vida do atual Dalai Lama, desde seu nascimento até o momento em que precisou se exilar na Índia para fugir da invasão chinesa. O enredo da história começa mostrando o Tibete no ano de 1933, quando o 13ª Dalai Lama da dinastia de líderes do país morre. Depois o filme dá um pulo de quatro anos no tempo para mostrar o atual Dalai Lama com dois anos e às vésperas de ser encontrado pelos monges missionários da escola Gelugpa que o identificaram como sendo a reencarnação de Avalokiteshwara, o “Buda da Compaixão”. No decorrer da trama vamos tendo contato com todo o processo de amadurecimento do jovem Dalai Lama no mesmo instante em que vemos a relação entre Tibete e China ficar complicada, pois os chineses já tinham a intenção de invadir o país a qualquer momento. O ápice da projeção se dá quando o jovem Dalai Lama precisa decidir se fica no país ou se prepara uma fuga em direção à Índia.

Siddhartha (1972)

O filme lançado em janeiro de 1972 e dirigido por Conrad Rooks se baseia no livro homônimo do escritor norte americano Hermann Hesse para contar a história de vida de Sidharta Gautama sobre os olhares de um de seus discípulos. A projeção conta a história de um jovem indiano chamado Siddhartha que ao completar 18 anos decide abandonar todo o Guia Conhecer Fantástico – Budismo

seu estilo de vida em busca da elevação espiritual. Para isso ele deixa a casa dos país e decide trilhar pela país em busca do autoconhecimento. Nesse momento esse se encontra com Buda e decide se tornar seu discípulo. O filme mostra a intensa busca do ser humano por entender a alma humana e os significados do verdadeiro EU interior. O caminho de Sidharta, no filme, foi bem tortuoso e oscilou entre seguir os ensinamentos de Buda com extrema dedicação e se entregar os prazeres da vida mundana, até finalmente atingir o autoconhecimento.


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Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera (2003)

Este filme sul coreano dirigido pelo Kim Ki-duk trata sobre os efeitos que o tempo causa nas pessoas, mesmo elas sendo monges budistas. O nome do filme é uma reflexão sobre o ciclo de nascimento, crescimento e declínio da vida, bem como acontece com as quatro estações do ano, que cumprem seu ciclo infinitamente ano após ano. Dentro desta premissa de ciclos, o filme retrata a vida de dois monges que compartilham a solidão de viverem isolado dentro de sua comunidade monástica,

rodeada por lago e montanhas. E assim como é o ciclo da natureza, é vida deles começa a enfrentar situações que os levam a momentos de grande espiritualidade até momentos de tragédias, que vão se revezando e se sobrepondo durante o filme. Mesmo vivendo em função da elevação do espirito, eles também estão vulneráveis aos sentimentos que todos os seres humanos sofrem como desejos e paixões, por exemplo. A ideia o filme é mostrar que assim como o tempo, que muda através as estações do ano, os seres humanos vivem em um clico entre viver o momento atual ou a eternidade.

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Cidade de Ouarzazate, no Marrocos, local onde foi filmado Kundun, devido à restrição da China para filmagens do Tibete

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CURIOSIDADES Restos mortais na China?

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Resto mortais de Buda podem ter sido encontrados na China em 2016

Em julho de 2016, arqueólogos do Instituto de Arqueologia de Nanjing afirmaram ter encontrado no templo budista de Grand Bao’en um pedaço de crânio de poderia ser de Sidharta Gautama. O resto mortal foi encontrado dentro de uma urna de aproximadamente mil anos. Apesar de não poderem confirmar a informação, os cientistas acreditam que ela seja possível, pois a peça estava muito bem escondida, o que não era comum nos enterros daquela época. Outra evidência de que os restos mortais podem ser de Buda é que na estuppa onde estava a urna, havia inscrições dizendo que aquele crânio pertencia a um iluminado acompanhados de desenhos que reconstituam toda da vida de Sidharta, desde seu nascimento até ele atingir a iluminação. Não são só essas evidências que fazem os cientistas acreditarem na possibilidade de terem encontrado os restos mortais de Buda. De acordo com as escrituras budistas, logo após a sua morte, o corpo de Buda teria sido cremado e os restos que não viraram cinza teriam sido divididos em 84 mil partes, sendo que 19 delas escondidas em diversos locais da China.

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Nessas mesmas escrituras, há relatos de o osso parietal, o mesmo encontrado pelos cientistas, havia sido escondido em outro templo que acabou sendo destruído. Por isso, em 1011 d.C, ele teria sido transferido para o templo onde foi encontrado em 2016. Será?

Seicho-No-Ie é uma escola do Budismo?

A filosofia Seicho-No-Ie (Lar do Progredir Infinito) tem suas raízes no Japão, da mesma forma que as principais escolas de interpretação do Budismo presentes no Brasil. Porém, além da localização geográfica, não há muita ligação entre elas, ou seja, essa filosofia não é uma vertente ou escola de interpretação dos ensinamentos de Buda. O Seicho-No-Ie apesar de não ser uma das muitas ramificações do Budismo, tem em sua origem teórica influência de diversas religiões como Xintoísmo, Budismo e até do Cristianismo. Por esse motivo é considerado por seus praticantes a religião mais eclética que existe. A ligação que existe entre o Budismo e o SeichoNo-Ie está no sutra de Buda chamado daizokio, de onde seu fundador Taniguchi Masaharu, tirou o ensinamento fundamental da dessa filosofia. O trecho budista que ele selecionou foi: “Não existe matéria,


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como não existem doenças: quem criou tudo isso foi o coração... Segue-se disso que a doença pode ser curada com o coração...”. Nos livros primordiais do Seicho-No-Ie há outra citação a Buda: “Você é realidade, você é Buda, você é Cristo, você é infinito e inesgotável. “, se referindo que qualquer ser humano pode ser o que quiser, e que nenhuma religião deve limitá-lo, conceito bem próximo ao causa-efeito do Budismo, que diz que o ser humano é reflexo de suas próprias ações e pensamento.

Simpatia para Buda?

Ainda que não haja comprovação de sua eficácia, inclusive por Budistas, há uma simpatia muito popular no Brasil que diz que ao colocar uma imagem de Buda ou alguma divindade budista em um pires e virá-lo com as costas para a porta e depois depositar algumas moedas no pires, Buda levará para a sua casa boa sorte e fortuna. Funcionou com alguém?

Budismo e Hinduísmo: religiões irmãs

Apesar de divergirem em muitos costumes, como a adoção do sistema de castas, o Budismo e o Hinduísmo, que surgiram na mesma época, guardam algumas semelhanças entre si. Entre as práticas que po-

demos dizer que são similares estão a preocupação com a humildade em suas ações, votos de pobreza e a crença da reencarnação como etapa de evolução do espírito.

Quarta maior religião do mundo

Apesar de ter sua maior concentração de praticantes em países do continente asiático como Japão, China, Tibete e Sri Lanka, o Budismo é uma das religiões ou filosofias com o maior número de praticantes no mundo. Com mais adeptos do que ela, só o Cristianismo, o Islamismo e o Hinduísmo.

Uma religião na qual todos são iguais

A filosofia budista não tem um tipo de hierarquia organizacional. Em algumas de suas ramificações o monge vive sozinho ou em completa reclusão dentro de monastérios. Uma das características dessa vida longe do convívio com a sociedade é que eles contam com pouquíssimos pertences como, roupa, uma tigela para refeições, um filtro de água, lâminas para a raspagem da cabeça e um rosário de 108 contas, que representam os universos da iluminação e é chamado de Japa Mala.

No Budismo não há hierarquia, todos os monges têm o mesmo status

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Existe Bíblia no Budismo?

Na filosofia budista não há um livro sagrado como a Bíblia que deva ser seguido por todas as ramificações de interpretação dos ensinamentos de Buda. Como o mestre passou seus ensinamentos via oral e somente séculos depois ele foi transcrito para o cânone de Páli, ele não pode ser considerado um livro universal, pois cada escola do Budismo definiu sua linha de interpretação de acordo com um determinado Sutra. Por exemplo, os textos que a escola tibetana usa como base de sua filosofia é o Tantra, que não é usado por mais nenhuma escola.

O Budismo crê na existência do pecado?

O Budismo não tem uma espécie de lista de mandamentos como tem a religião cristã e nem acredi-

ta que os seres humanos nascem do pecado. Para a filosofia Budista os seres humanos são resultados de seus Karmas, porém há preceitos que eles consideram que geram um Karma ruim, que são: matar, roubar, ter conduta sexual indevida (abusiva), mentir e usar intoxicantes (drogas).

Há rituais ou festividades no Budismo?

No Budismo não há muitas datas comemorativas e rituais. Essas práticas só são adotadas na comemoração de nascimento, a morte (parinirvana) e iluminação do Buda Shakyamuni. Esses períodos são conhecidos como Saga Dawa e se estendem por 15 dias. Nesse período os praticantes não só comemoram, mas também fazem prolongados rituais de meditação.

O Budismo não tem um livro similar à Bíblia, pois cada usa um sutra diferente para realizar suas práticas

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nesta edição Siddhartha Gautama

O Budismo no mundo Como a filosofia influenciou culturas locais

DALAI LAMAS As histórias de poder da linhagem que governa o Tibete há quase 500 anos

Ano x - Ed.x - R$ xx,xx

O fundador desta corrente filosófica dispensa divindade


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