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Um índio hipotético  Vamos imaginar e analisar o habitus de um  indígena?  PDF 775      Imaginemos  um  índio.  Um  ator  social  sendo  meio  silvícola  e  meio  civilizado.  Com  as  condições  e  os  elementos  sociais para circular livremente entre as tribos,  e  entre  as  cidades.  Entre  avenidas  e  rios,  becos  e  igarapés.  Circular  entre  o  mundo  indígena  e  no  mundo  urbanizado.  Com  uma  estratégia  e  algumas  técnicas,  de  fazer  caminhos  entre  quadras e tabas, e entrar em casas  e  ocas,  nas  aldeias  ou  nas  cidades.  Usar  elementos  primitivos,  como  pinturas  e  cocares,  que  motivam,  cativando  os  atores  das  cidades.  Fazer  rituais  antes  de  suas  falas,  queimando  as  mesmas  ervas  de  seus  ancestrais..     Dispor  de  recursos  tecnológicos  que  o  insiram  na  sociedade,  como  carro  e  smartphone.  Com  sopas  apimentadas  mostrar  e  degustar  histórias  e  arquétipos  de  sua  cultura.  Ter  perfis  em  redes  sociais  conquistando  seguidores.  Criar um público antes de chegar na próxima cidade. As redes sociais fazem  sinais   de   fumaça,   anunciando   a  sua   chegada.   Em   outras   redes   pode   bater   em   um   tronco.    Mas  antes  recordemos  alguns  fatos,  marcados  na  sociologia.  Karl  Marx  não  era  um  acadêmico,  mas  casou  com  uma  acadêmica,  e  a  convivência  com  a  esposa  lhe  permitiu  conhecer  os  métodos  científicos,  e  criar  uma  tese  sobre  o mundo capitalista e socialista em relação aos trabalhadores. Yves  La  Coste  disse  que  a  geografia  serve  antes  de  mais  nada  para  fazer  a  guerra,  ou  seja,  a geografia é  fundamental  para  conhecer  o campo de batalha; traçar planos e estratégias. E uma guerra não precisa  ser  exatamente  em  um  campo,  onde  são  lançadas  granadas  e  bombas,  com  um  teatro  de  guerra.  Existem  outro  tipos  de batalhas e guerras, sem disparar um tiro. Com estratégias do poder econômico,  para  um  domínio  social.  O  domínio  e  a  usurpação  de  um  povo.  O  automóvel  é  uma  ótima  estratégia,  invadindo  países  estrangeiros  com:  financiamentos  e  seguros,  óleos  e  combustíveis;  peças  e  acessórios.  Uma  dependência  econômica,  com  minerais  da  própria  terra;  minério  de  ferro  e  petróleo.  Os  índios  já  ocupavam  essas  terras,  antes  de  outros  povos  chegarem.  É  o  legítimo  dono,  sem  carta  de   posse   ou   escritura..   É  filho   e  fruto   da   terra.    Portugueses,  holandeses  e  franceses,  usaram  de  estratégias  com  os  índios.  Estratégias  de  fazer  amizades  e  criar  inimizades  entre  as  tribos.  Em  contrapartida  eles  ofereciam  novidades  e  defesas,  para  uma  guerra  que  os  mesmos  criavam,  para  fazer  retiradas  de  vegetais  e minerais que supunham  uma  existência.  Como  os  índios  não  admitiram  ser  escravizados,  o  europeu  usou  de  outras 


estratégias,  para  obter  o  que  queria,  a  princípio,  prata  e  ouro,  ocultados inicialmente pela extração de  pau  Brasil.  Inseriram  uma  agricultura,  para  justificar  uma  presença  na  terra,  que  poderia  alimentar  outros   povos.   Depois   chegaram   com   o  gado,   instalando­se   em   famílias.    Hoje  já  existem  satélites  e  missões  religiosas,  que  pesquisam  o  território  antes  de  uma investida final  para  retirar  o  que  precisam  e  necessitam.  Usam  outras  estratégias,  afirmando  que  é  possível  viver  e  ganhar  muito  dinheiro, criar empregos, com sal, turismo e vento. Com o sal pesquisam o DNA da terra;  com  o  turismo  fazem  uma  ocupação  consentida; e com o vento abrem mercado para suas tecnologias  e  equipamentos.  Existem  minerais  mais  valiosos, que podem proporcionar novas expedições e novas  descobertas,  agora  as  viagens  são  espaciais.  E  o  principal  elemento  químico  é  o  nióbio.  Há reservas  em   Roraima,   e  no   Brasil   Central.     Os  chineses  já  chegam  com  outras  estratégias,  de  criar  uma  ferrovia  cortando  a  América  do  Sul,  unindo  o  Pacífico  e  o  Atlântico.  Afirmam  que  o  investimento  vai  ser  muito  bom  para  o  Brasil,  para  escoar  uma  produção.  Mas curiosamente vai passar muito perto da maior reserva de nióbio do mundo.  E  com  certeza  os  vagões  não  circulam vazios, é preciso algo compensatório. O minério para os trilhos  e  os  vagões  não  será  problema.  E  as  locomotivas  com  certeza  os  asiáticos  estarão  aptos a oferecer.  Já   ofereceram   outros   equipamentos   para   uso   urbano.    E  lembremos  Bourdieu  que  atribuiu  a  palavra  habitus,  para  definir  uma  linguagem  própria  e  um  comportamento,  dentro  de  grupos  com  um  mesmo  trabalho  e  um mesmo objetivo. Foucault já atribuiu  o  nome  de discurso, o discurso que permeia um grupo. Daí o quanto é importante entender o habitus e  o  discurso,  para  conviver  entre grupos diversos. Conhecer as regras linguísticas e formatadas com um  vocabulário   próprio.    Voltemos  ao  índio  hipotético.  Um  índio  com  uma  estratégia  própria  ou  como  instrumento  manipulado  de  um  grupo,  manipulado  por  estratégias  de  controle  e  domínio.  O  velho  truque  dos  países  estrangeiros,  e  bureaus  de  informação  e  de  inteligência,  com  estratégias  de  inserção  em  um  grupo.  Um  índio  com  comportamento  e  características  urbanas.  Suas  penas e cocares são simples adereços  para  T  Shirts,  bermudas  e  tênis, de grifes e marcas famosas. Um carro popular, motiva uma crença de  que  não  é  um  índio  focado  no  interesse.  E  não  depende  de  transporte  público  para  chegar  nos  seus  destinos.  Mas  pode  soltar  monóxido  de  carbono  por  onde  passa,  não  há  como  fazer  um  discurso  de  proteção   às   florestas.   Nem   tudo   é  perfeito,   ele   pode   cometer   deslizes,   um   índio   “gafeiro”.    Imaginemos  um  ator  social  com  uma  história  familiar  de  linhagens  indígenas,  que  vá  se  inserindo  no  meio  civilizado,  dos  homens  denominados  como  urbanos,  moradores  de  regiões  metropolitanas.  Um  ator  social  com  um  nome  urbano,  e  quem  sabe  um  sobrenome  de  origem  estrangeira,  por  estar  próximo  a  uma  fronteira, do Brasil com um outro país, que tem um histórico de origens diversas. Como  a  região  das  Guianas,  que  originalmente  pertenciam  a  França,  Inglaterra  e  Holanda.  Uma  estratégia  para  ocupar  o  continente  dividido  em  um  momento  histórico,  entre  espanhóis  e  portugueses. O nome  urbano  é  sua  primeira  estratégia  de  ser  admitido  nos  grupos,  onde  pretende  uma  inserção,  precisa 


mostrar  que  não  é  de  todo  um  índio.  Tem  nome  e  comportamento  de  civilidade:  RG  e  CNH,  talvez  título   de   eleitor   e  cartão   de   crédito.   Já   tem   argumento   para   conhecer   hábitos   e  discursos.    E  que  este  ator  social  procure  fazer  uma  carreira  acadêmica,  com  graduação e pós­graduação, o seu  passaporte  para  entrar  no  mundo  da  pesquisa,  no  mundo  acadêmico, tendo acesso ao corpo docente  e  ao  corpo  discente;  preferencialmente  em  uma  universidade  federal.  E  faça  um  curso  de  geografia.  Seria  uma  ótima  estratégia,  um  índio  emancipado  dividindo  os  espaços  dominados  pelos  autodenominados  de  civilizados.  E  que  entre  então  no  mundo  dos  Lattes  e  do  CNPq.  Seu  desafio  passa  a  ser  a  pesquisa,  dispensando  os  arcos  e  as  flechas,  preservando  seus  cocares  e  a  cara  pintada,   com   recursos   de   pincéis   e  tintas,   dentro   de   uma   necessaire   ou   uma   mochila.    Mas  seria  muito  bom  também  se  inserir  entre  os  intelectuais,  conhecer  seus  hábitos  e  discursos.  Pesquisar  seus  comportamentos  e  suas  ideias,  distinguir­se  e  destaca­se  entre  eles,  como  personagem  convidado  de  uma  sociedade  de  poetas; em livrarias ou pinacotecas. E o melhor meio de  inserção  entre  os  intelectuais,  seria  participar  de  uma  cultura.  Uma  cultura  composta  de  ideias,  imagens  e  literaturas.  Conhecer  os  papéis  e  as  tintas,  as  técnicas  e  as  artes.  Fazer  seus  textos  e  versos  sem  um  olhar  científico.  Criar  a  própria  arte  para  servir  de  argumento  com  uma  exposição  itinerante,  onde  possa conhecer outras tribos. Tribos extintas, com outros povos ocupando suas terras.  Usar  a  arte  indígena  como  uma  questão  norteadora,  que  justifiquem  suas  viagens,  para  conhecer  e  pesquisar  outras  terras.  Mas  pode  gerar  diferentes  conclusões,  de  acordo  com  pontos  de  vistas  diferentes   e  conhecimentos   imbricados.    A  geografia  ao  longo  do  tempo  criou  sua  própria epistemologia, abrindo um espaço entre a geologia e  a  sociologia.  Estuda  o  espaço  primitivo  e  o  espaço  modificado  pelo  homem. Deu nome aos acidentes  geográficos,  criando  uma  regra.  E  tornou­se  uma  ciência.  Está  habilitada  a  criar  e  interpretar  mapas;  habilitada  a  analisar  movimentos  sociais  dentro  de  um  espaço  e  de  um  tempo.  Imaginemos  um  índio  capaz  de  interpretar  mapas e movimentos sociais. Um índio capaz de criar uma estratégia de estar em  redes  sociais  e  comparecer  a  eventos  sociais,  culturais  e  acadêmicos.  Um  índio  diplomado  pela  academia,  com  um  discurso  reconhecido  e  autorizado.  Sem  beca,  mas  com  cocares  de  penas  pode  ser  chamado  de  mestre  ou  doutor.  Ele estaria capacitado a ser um Piri Reis, ou dissimularia que fosse  um   discípulo   de   Kant    Imaginemos  um  índio  com  um  objetivo,  de  em  nome  de  uma  nação  composta  de  tribos  indígenas,  recuperar  suas  terras.  Terras  perdidas  para  os  descobridores  e  os  colonizadores,  para  exploradores;  para  a  agricultura e para a pecuária. Para o comércio e para indústria; para a engenharia e arquitetura.  Para  as  cidades  e  para  as  estradas,  com  construções  e  urbanizações.  Imaginemos  um  índio  que  se  considere  o  dono  das  terras.  E  por  ser  dono,  assume  a  capacidade  e  condição  de  negociar  com  estrangeiros  os  recursos  minerais  e  naturais,  de  suas  reservas  que  estão  demarcadas.  Terras  que  depois  de  exploradas  já  não  valem  mais  nada.  Depois  de  esgotados  os  minérios,  ainda  servem  de  pasto,  mas  depois  de  pisoteadas  pelo  gado  podem se tornar um deserto. Cabe aos índios recuperar o  que   deixaram   explorar,   este   será   o  seu   carma..   


E  por  último  imaginemos  que  o  índio  hipotético  seja  orientado  por  seus  deuses  a  não  conversar  com  determinadas  pessoas.  Um  índio  hipotético  que  deixa  duvidas,  se está a serviço de seus parentes, ou  cooptado  por  países  e  povos  estrangeiros.  Pode  ser  um  espião  infiltrado,  observando  a  sociedade  e  seus   interesses.   Para   passar   informações   e  criar   alternativas.    Com  um  celular  na  mão  e  olhos  atentos  na  tela,  não  causaria  suspeitas,  é  comum  ver  pessoas  nas  ruas,  com  ares  perdidos  falando  com  pessoas  distantes  e  pessoas  ao lado, bastando correr um dedo  sobre  uma  tela.  Não há  como imaginar  de poder estar falando com seus principais, seus contratantes  ou   seus   deuses,   perdidos   entre   nuvens.     

Roberto   Cardoso   (Maracajá)    Em   terras   potiguares  17/11/2016  Um índio hipotético  Vamos imaginar e analisar o habitus de um indígena?  PDF 775   

            Imagem:  https://www.google.com.br/search?q=indio&biw=1225&bih=580&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwig0sny4a_QAhUNlpAKHUFrCwcQ_AUIBigB#tb s=itp:lineart%2Cisz:l&tbm=isch&q=indio+&imgrc=WPHznhAvwf97vM%3A   

Texto   em:  http://missaosurvey.blogspot.com.br/2016/11/um­indio­hipotetico.html   

 



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