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Lauren Oliver – Before I Fall

créditos tradução e revisão Grupo Shadows Secrets

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sinopse E se você só tivesse um dia para viver? O que você faria? Quem você beijaria? E até onde você iria para salvar sua própria vida? Samantha Kingston tem tudo: o namorado mais apaixonante do mundo, três melhores amigas maravilhosas, e a primeira escolha de tudo na Thomas Jefferson High— da melhor mesa na lanchonete à melhor vaga no estacionamento. Sexta-feira, 12 de fevereiro, deveria ser apenas mais um dia em sua vida encantada. No entanto, transforma-se em seu último. Então ela ganha uma segunda chance. Sete chances, na verdade. Revivendo seu último dia durante uma semana milagrosa, ela irá desvendar o mistério acerca de sua morte—e descobrir o verdadeiro valor de tudo que ela está à beira de perder.

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prólogo Dizem que logo antes de morrer, sua vida passa diante dos seus olhos, mas não foi assim que aconteceu comigo. Para ser honesta, eu sempre pensei que tudo isso de momento final, a visualização mental da vida, soava bastante desagradável. É melhor que algumas coisas sejam deixadas enterradas e esquecidas, como minha mãe diria. Eu ficaria feliz em esquecer tudo da quinta série, por exemplo (a fase dos óculos e aparelho rosa), e alguém quer reviver o primeiro dia do ensino fundamental? Adicione aí todas as entediantes férias familiares, aulas de álgebra sem sentido, cólicas menstruais, e péssimos beijos que eu mal sobrevivi na primeira vez... A verdade é que, porém, eu não teria me importado de reviver meus melhores momentos: quando Rob Cokran e eu ficamos na pista de dança da festa de boas-vindas, para que todos vissem e soubessem que nós estávamos juntos; quando Lindsay, Elody, Ally e eu ficamos bêbadas e tentamos fazer anjos de neve em maio, deixando marcas do tamanho de pessoas medianas no gramado de Ally; minha festa de 16 anos, quando acendemos cem velas e dançamos na mesa no quintal; a vez que Lindsay e eu fizemos uma brincadeira com Clara Seuse no Halloween, fomos perseguidas pela polícia, e rimos tanto que quase vomitamos—as coisas que eu queria lembrar; as coisas pelas quais eu queria ser lembrada. Mas antes de morrer eu não pensei em Rob, ou nenhum outro garoto. Eu não pensei em todas as coisas escandalosas que fiz com meus amigos. Eu nem mesmo pensei na minha família, ou na maneira como a luz da manhã torna as paredes do meu quarto da cor de creme, ou o jeito que as azaleias do lado de fora da minha janela cheiram em julho, uma mescla de mel e canela. Em vez disso, eu pensei em Vicky Hallinan. Especificamente, eu pensei no momento na quarta série em que Lindsay anunciou para todo o ginásio que ela não queria Vicky no seu time de queimada. “Ela é gorda demais,” Lindsay deixou escapar. “Você pode acertar ela de olhos fechados.” Eu não era amiga de Lindsay ainda, mas mesmo então ela tinha esse jeito de falar coisas que as deixavam hilárias, e eu ri com todo mundo enquanto o rosto de Vicky ficava tão roxo quanto uma nuvem de tempestade. Foi isso que eu lembrei naquele momento antes da morte, quando eu deveria estar tendo alguma grande revelação sobre meu passado: o cheiro de verniz e o chiar dos nossos tênis no chão polido; o aperto dos meus shorts de poliéster; a risada ecoando no grande espaço vazio como se houvesse bem mais de vinte e cinco pessoas no ginásio. E o rosto de Vicky. A coisa estranha era que eu nunca tinha pensado nisso. Era uma daquelas lembranças que eu nem sabia que lembrava, se você entende o que quero dizer. Não é como se Vicky fosse traumatizada Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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ou nada. É apenas o tipo de coisa que as crianças fazem com as outras. Não é grande coisa. Sempre vai ter alguém rindo e alguém de quem estão rindo. Isso acontece todos os dias, em todas as escolas, em todas as cidades dos Estados Unidos—provavelmente no mundo, pelo que sei. O grande objetivo de se crescer é aprender a ficar do lado que está rindo. Vicky nem era tão gorda para começar—ela só tinha uma gordura de bebê no rosto e barriga—e antes do Ensino Médio ela tinha perdido isso e crescido dez centímetros. Ela até ficou amiga de Lindsay. Elas jogavam hóquei de campo juntas e diziam “oi” no corredor. Uma vez, no nosso primeiro ano, Vicky puxou o assunto em uma festa—estávamos todas bastante bêbadas—e nós rimos e rimos, Vicky mais que todas, até que o seu rosto ficasse quase tão roxo quanto esteve aqueles anos atrás no ginásio. Isso era a coisa estranha número um. Mais estranho que isso era o fato de que nós tínhamos acabado de falar sobre isso—como seria logo antes de morrer, eu quero dizer. Eu não lembro exatamente como isso veio, exceto que Elody estava reclamando que eu sempre ando no banco da frente e se recusando a colocar o cinto de segurança. Ela ficava se inclinando para frente pelo banco para procurar na lista do iPod de Lindsay, embora fosse eu que devesse ter privilégios de DJ. Eu estava tentando explicar minha teoria da morte de “melhores momentos”, e estávamos todas escolhendo quais seriam. Lindsay escolheu descobrir que havia entrado na Duke, obviamente, e Ally—que estava reclamando do frio, como sempre, e ameaçando cair morta ali mesmo de pneumonia—participou tempo o bastante para dizer que queria poder reviver seu primeiro amasso com Matt Wilde para sempre, o que não surpreendeu ninguém. Lindsay e Elody estavam fumando, e chuva congelante estava entrando pelas janelas meio abertas. A estrada era estreita e sinuosa, e em ambos os lados de nós os galhos escuros e nus das árvores balançavam-se para frente e para trás, como se o vento os tivesse feito dançar. Elody pôs “Splinter” do Fallacy para irritar Ally, talvez porque já estivesse farta de suas lamentações. Era a música de Ally com Matt, que havia dado o fora nela em setembro. Ally a chamou de vadia e desafivelou o cinto de segurança, se inclinando para frente e tentando agarrar o iPod. Lindsay reclamou que alguém estava lhe cotovelando no pescoço. O cigarro caiu de sua boca e aterrissou entre suas coxas. Ela começou a xingar e tentar tirar as brasas do banco, enquanto Elody e Ally continuavam brigando e eu tentava falar acima elas, lembrando todas da vez em que fizemos anjos de neve em maio. Os pneus deslizavam um pouco na estrada molhada, e o carro estava cheio de fumaça de cigarro, pequenos tufos subindo como fantasmas no ar. Então de repente houve um lampejo de branco na frente do carro. Lindsay gritou algo— palavras que não consegui distinguir, algo como sim ou sai ou saia—e de repente o carro estava girando para fora da estrada e para a boca negra da floresta. Ouvi um ruído chiante horrível—metal sobre metal, vidro quebrando, um carro dobrando em dois—e cheirei fogo. Eu tive tempo de me perguntar se Lindsay tinha apagado seu cigarro. Então, o rosto de Vicky Hallinan veio surgindo do passado. Ouvi risadas ecoando e rolando ao meu redor, se intensificando em um grito.

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Então, nada. O negócio é: você não tem como saber. Não é como se você acordasse com um mau pressentimento no estômago. Você não vê nenhuma sombra que não deveria ver. Não se lembra de dizer a seus pais que os ama ou—no meu caso—não se lembra de dizer tchau. Se você é como eu, você acorda sete minutos e quarenta e sete segundos antes da hora em que sua melhor amiga supostamente irá te pegar. Está muito ocupada se preocupando com quantas rosas vai receber no Dia do Cupido para fazer algo mais do que colocar sua roupa, escovar seus dentes, e rezar a Deus para ter deixado sua maquiagem no fundo de sua bolsa carteiro para que possa se maquiar no carro. Se você é como eu, seu último dia começa assim:

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um “Biii, biii,” Lindsay chama. Umas poucas semanas atrás minha mãe gritou com ela por buzinar às 6h55 todas as manhãs, e essa é a solução que Lindsay encontrou. “Estou indo!” grito de volta, mesmo ela podendo me ver saindo pela porta da frente, tentando colocar meu casaco e socar meu fichário na mochila ao mesmo tempo. No último segundo, minha irmã de oito anos, Izzy, me puxa. “O quê?” eu viro. Ela tem um radar de irmã caçula para quando estou ocupada, atrasada, ou no telefone com meu namorado. Esses são sempre os momentos que ela escolhe para me incomodar. “Você esqueceu suas luvas,” ela diz, mas soa como “Vochê esquecheu suas lhuvas.” Ela se recusa a ir para a terapia de comunicação oral para sua língua presa, mesmo que todas as crianças da sua idade façam graça dela. Ela diz que gosta do jeito que fala. Eu as pego dela. São de cashmere e ela provavelmente está pegando a manteiga de amendoim com elas. Ela está sempre fuçando os potes. “O que eu te disse, Izzy?” eu falo, batendo no meio da sua testa. “Não mexa nas minhas coisas.” Ela sorri como uma idiota e eu tenho que empurrá-la para dentro enquanto fecho a porta. Se fosse por ela, me seguiria por aí o dia todo como um cachorro. No momento que consigo sair de casa, Lindsay está se inclinando na janela no Tanque. É assim que chamamos o carro dela, um enorme Range Rover prateado. (Toda vez que dirigimos por aí nele, pelo menos uma pessoa diz ‘Essa coisa não é um carro, isso é um caminhão’, e Lindsay afirma que ela poderia ir frente a frente com um de dezoito rodas e sair sem um arranhão.) Ela e Ally são as únicas duas pessoas de nós com carros que de fato pertencem a elas. O carro de Ally é um mini Jetta preto que chamamos de Mínimo. Eu pego emprestado o Accord da minha mãe às vezes; a pobre Elody tem que se contentar com o velho Ford Taurus1 do seu pai, que dificilmente ainda anda. O ar está parado e congelante. O céu é um perfeito, azul pálido. O sol acabou de se erguer, frágil e escondido, derramando-se sobre o horizonte como se estivesse com preguiça demais para brilhar. É provável ter uma tempestade mais tarde, mas você nunca saberia.

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Range Rover, Jetta, Accord, Taurus: Marcas de carro.

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Eu sento no assento passageiro. Lindsay já está fumando e gesticulando com a pontinha do seu cigarro para o café Dunkin’ Donuts2 que ela pegou pra mim. “Bagels?” Eu digo. “Na parte de trás.” “Gergelim?” “Óbvio.” Ela me examina de relance enquanto arranca da minha garagem particular. “Bela saia.” “A sua também.” Lindsay inclina a cabeça, reconhecendo o elogio. Na realidade, nós estávamos vestindo a mesma saia. Havia só dois dias do ano que Lindsay, Ally, Elody e eu deliberadamente vestíamos as mesmas coisas: No Dia do Pijama, durante o Spirit Week3, porque nós compramos peças intimas na Victoria’s Secret no último natal, e no Dia do Cupido. Nós perdemos 3 horas no shopping debatendo sobre entre ir de acessórios rosa ou vermelho—Lindsay odeia rosa; Ally vive nele—e nós finalmente decidimos pela minissaia preta com uma regata vermelha adornada com pele de animal que encontramos na liquidação da Nordstrom4. Como eu disse, essas são as únicas vezes que nossa aparência é deliberadamente semelhante. Mas a verdade é que no meu colégio, Thomas Jefferson, todos usam um look parecido. Não tem um uniforme oficial—é uma escola pública—mas você vai ver os mesmos acessórios jeans da Seven, tênis New Balance cinzas, uma blusa branca com uma jaqueta de lã North Face em nove a cada dez estudantes. Assim garotos e garotas se vestem da mesma forma, exceto nossos jeans apertados e a escovinha dos nossos cabelos que fazemos todos os dias. Esta é Connecticut: ser como as pessoas que te rodeiam é o ponto. Isso não é dizer que nosso colégio não tem estranhos—ele tem—mas mesmo as esquisitices são estranhamente do mesmo modo. Os Eco-Nerds pedalam suas bicicletas para a escola e vestem roupas feitas de cânhamo e nunca lavam seus cabelos, como se os dreads fossem de alguma maneira diminuir a emissão de gases do efeito estufa. As Rainhas do Drama carregam grandes frascos de chá de limão, vestem cachecol mesmo no verão e não conversam na aula porque elas estão “preservando suas vozes”. Os membros da Liga de Matemática sempre têm dez vezes mais livros do que qualquer um e na verdade ainda usam seus armários com fechaduras e perambulam com expressões constantemente nervosas, como se eles estivessem só esperando por alguém gritar, “Bu!” 2

Empresa varejista de café e donuts. Uma espécie de semana de confraternização entre alunos. 4 Loja de departamentos americana; vende artigos de luxo. 3

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Eu não ligo para isso, na verdade. Algumas vezes, eu e Lindsay fazemos planos para fugir depois da graduação e encontrar um loft em Nova York com esse tatuador que o irmão adotivo dela conhece, mas secretamente eu gosto de viver em Ridgeview. É minha zona de conforto, se é que você sabe o que eu quero dizer. Eu me inclino para frente, tentando aplicar a máscara de cílios sem borrar meus olhos. Lindsay nunca foi muito cuidadosa dirigindo e tem uma tendência de dar solavancos com as rodas, parar subitamente, e então acelerar com tudo. “Acho melhor Patrick me mandar uma rosa,” diz Lindsay enquanto avança o sinal vermelho e quase quebra o meu pescoço enquanto freia no próximo. Patrick é o namorado às vezes sim, às vezes não, de Lindsay. Eles tinham quebrado um recorde de treze vezes desde que começou o ano letivo. “Eu tive que sentar perto de Rob enquanto ele preenchia o formulário de solicitação.” eu digo, rolando os olhos. “Era como estivesse fazendo trabalho forçado.” Rob Cokran e eu estamos saindo desde outubro, mas eu estou apaixonada por ele desde a sexta série, quando ele era muito legal para falar comigo. Rob foi meu primeiro paquera, pelo menos a minha primeira paquera séria. Uma vez eu dei um beijo em Kent McFuller na terceira série, mas isso realmente não conta desde que nós só estávamos trocando anéis de dente-de-leão5 e pretendíamos ser marido e mulher. “No último ano eu ganhei vinte e duas rosas” Lindsay dá um peteleco jogando a ponta do cigarro pela janela e se inclina para tomar um gole de café. “Estou indo para vinte e cinco esse ano.” Cada ano antes do Dia do Cupido o conselho estudantil montam uma garrafa do lado de fora do ginásio. Por dois dólares cada, você pode comprar para seus amigos, Valogramas6—rosas com pequenos recados atados a eles—e então eles são entregues pelos Cupidos (normalmente feita por um calouro ou uma garota da universidade tentando ficar numa boa com os caras da classe alta) durante todo o dia. “Eu ficaria feliz com quinze.” eu digo. É um grande negócio quantas rosas você ganha. Você pode dizer quem é popular e quem não é através do número de rosas que elas ganham. É péssimo se você ganhar menos de dez rosas e humilhante se você não ganhar mais de cinco—basicamente significa que você é feia ou desconhecida. Provavelmente os dois. Algumas vezes as pessoas catam as rosas abandonadas para adicionar aos seus buquês, mas você sempre pode dizer. “Então.” Lindsay me olha de soslaio. “Você está ansiosa? O grande dia. A noite da abertura.” Ela ri. “Sem trocadilhos.”

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Espécie de flor Lembrancinhas que se enviam aos amigos, com rosas ou doces.

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Eu dei de ombros e me volto para a janela do carro, observando minha respiração embaçar o vidro. “Isso não é grande coisa.” Os pais de Rob estão longe nesse fim de semana, e em um par de semanas atrás ele me perguntou se eu poderia passar a noite na casa dele. Eu sabia o que realmente estava perguntando, se queria transar. Nós ficamos nos amassos umas poucas vezes, mas isso é no banco traseiro da BMW do pai dele ou no porão da casa de alguém ou na antessala com meus pais dormindo no andar de cima, e isso sempre parece errado. Então quando ele me perguntou se eu ficaria a noite, eu disse sim sem pensar sobre isso. Lindsay grita e bate com as mãos no volante. “Não é grande coisa? Você está de brincadeira? Meu bebê está crescendo.” “Ah, por favor.” Eu senti o calor se arrastar pela minha bochecha e sei que minha pele provavelmente está ficando vermelha com pintinhas. Isso acontece quando fico envergonhada. Todos os dermatologistas, cremes, e pós de Connecticut não ajudam. Quando eu era mais nova as crianças costumavam cantar “O que é vermelho e branco e todo esquisito? Sam Kingston!” Sacudi minha cabeça um pouco e esfreguei o vapor da janela. Lá fora, o mundo brilha, como se tivesse sido mergulhado em verniz. “Quando você e Patrick fizeram, de qualquer forma? Faz uns três meses?” “Sim, mas temos estado repondo todo o tempo perdido.” Lindsay se balança em seu assento. “Repugnante.” “Não se preocupe, criança. Você vai ficar bem.” “Não me chame de criança.” Esta é uma das razões pela qual estou feliz de ter decidido fazer sexo com Rob esta noite: assim Lindsay e Elody não zombarão mais de mim. Felizmente, como Ally ainda é virgem significa que também não serei a última. Às vezes, sinto que de nós quatro, sou sempre a única que segue pelo caminho. “Eu te disse que não é grande coisa.” “Se você diz.” Lindsay me deixa nervosa, então eu começo a contar todas as caixas de correio enquanto passamos. Pergunto-me se amanhã tudo será diferente para mim. Pergunto-me se eu estarei diferente para as outras pessoas. Espero que sim. Chegamos à casa de Elody e antes que Lindsay possa sequer tocar a buzina, a porta principal abre e Elody começa seu caminho pela calçada gelada, tropeçando nos saltos de três centímetros de altura, como se não pudesse sair de sua casa o suficientemente rápido.

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“Faz muito frio lá fora?” diz Lindsay quando Elody se desliza para dentro do carro, como de costume, está usando apenas um casaco fino de couro, embora a previsão do tempo diga que a temperatura mais alta será ao redor de -6° C. “Qual é o ponto de estar linda se não pode se exibir?” Elody abana seus seios e nós partimos rindo. É impossível permanecer estressada quando ela está por perto, e o nó em meu estômago se afrouxa. Elody faz um gesto de garra com a mão e entrego-lhe o café. Todas nós tomamos da mesma maneira: grande, de avelã, sem açúcar e com creme extra. “Olhe onde você está sentada. Esmagará os bagels.” Lindsay franze o cenho em seu espelho retrovisor. “Você sabe que quer um pedaço disso.” Elody dá uma palmada em seu traseiro e todas nós rimos novamente. “Guarda para Muffin, sua safada.” Steve Dough é a última vítima de Elody. Ela o chama de Muffin por causa de seu sobrenome, e por que ele é uma delícia (ela diz; ele é muito sujo para mim, e sempre cheira a maconha). Eles estão saindo por um mês e meio. Elody é a mais experiente de nós. Perdeu sua virgindade no segundo ano e já fez sexo com dois garotos diferentes. Ela foi uma das que me disse que ficou dolorida depois das primeiras vezes que fez sexo, o que me deixa dez vezes mais nervosa. Pode parecer loucura, mas nunca penso realmente nisso como algo físico, algo que te causaria dor, como o futebol ou montar a cavalo. Tenho medo de não saber o que fazer, como quando costumávamos jogar basquete no ginásio e eu sempre esquecia quem eu deveria marcar ou quando deveria passar a bola e quando deveria dar o rebote. “Hmm, Muffin.” Elody põe uma mão em seu estômago. “Estou morrendo de fome.” “Tem um bagel para você,” digo. “Gergelim?” Elody pergunta. “Óbvio.” Lindsay e eu dizemos de uma vez. Lindsay pisca um olho. Antes de chegarmos à escola, baixamos as janelas e uma canção de Mary J. Blige explode: “No More Drama”. Fecho meus olhos e penso no baile de boas-vindas e meu primeiro beijo com Rob, quando ele me empurrou para a pista de dança e repentinamente meus lábios estavam nos seus e sua língua deslizava-se sobre a minha e pude sentir o calor de todas as coloridas luzes pressionando-me como uma mão, e a música parecia fazer eco em algum lugar atrás de minhas costelas, fazendo com que meu coração se revolvesse e desse saltos ao mesmo tempo. O ar frio entra pela janela fazendo minha garganta doer e o

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som do baixo passa pelas plantas dos meus pés como fez aquela noite, quando pensei que nunca seria mais feliz; sobe para minha cabeça, me deixando tonta, como se todo o carro fosse se dividir com o som.

popularidade: uma análise A popularidade é uma coisa estranha. Você não pode realmente defini-la, e não é legal falar sobre ela, mas você conhece quando vê. Como olho vesgo, ou pornografia. Lindsay é linda, mas o resto de nós não é assim tão bonita quanto qualquer pessoa. Aqui está minha parte atrativa: grandes olhos verdes, dentes bastante brancos, maçãs do rosto salientes, pernas longas. Aqui estão meus defeitos: nariz longo demais, pele que fica com pintas quando eu fico nervosa, um bumbum achatado. Becky DiFiore é tão linda quanto Lindsay, só que eu não acho que Becky tenha um par para o baile de boas vindas. Ally tem seios graciosamente grandes, mas os meus são uma demarcação inexistente (quando Lindsay está num mal dia, ela me chama de Samuel, não Sam ou Samantha). E não é como se nós fôssemos completamente perfeitas ou nosso hálito sempre cheirasse a lilases ou coisa do tipo. Lindsay uma vez fez um campeonato de arrotos com Jonah Sasnoff na cafeteria e todos a aplaudiram. Às vezes Elody calça sandálias amarelas felpudas para ir à escola. Uma vez eu ri tão alto na aula de Estudos Sociais que eu cuspi latte de baunilha em cima da mesa de Jake Somer. Um mês depois nós ficamos no galpão de ferramentas da Lily Angler. (Ele era ruim.) A questão é, nós podemos fazer coisas como essas. Você sabe por quê? Porque nós somos populares. E somos populares porque podemos sair impunes de tudo. Então é circular. Eu acho que estou dizendo é que não há um ponto em análise nisso. Se você atrai um círculo, ali vai estar sempre um incluído e um excluído, e a menos que você seja completamente maluco, é super fácil entender quem é quem. É que apenas acontece. Eu não vou mentir, de qualquer forma. É bom que tudo seja fácil para nós. É uma sensação boa, saber que você basicamente pode fazer o que você quer e não vai haver consequências. Quando nós sairmos da escola vamos olhar para trás e saber que fizemos tudo certo, que nós beijamos os garotos lindos e fomos para as melhores festas, nos metemos em problemas o bastante, escutamos nossas músicas mais barulhentas, fumamos muitos cigarros, e bebemos muito e rimos demais e escutamos de menos, ou nadica de nada. Se a escola fosse um jogo de pôquer, Lindsay, Ally, Elody e eu estaríamos com 80% das cartas. E acredite em mim: sei o que é estar do outro lado. Eu estive lá na primeira metade da minha vida. O fundo do fundo, o mais baixo dos baixos. Sei o que é ter que disputar e pegar e brigar pelos restos.

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Então agora eu sou a primeira a pegar qualquer coisa. E daí. É assim que é. Ninguém nunca disse que a vida é justa. Nós paramos no estacionamento exatamente 10 minutos antes do primeiro sino. Lindsay dirigi em direção ao estacionamento inferior, onde estão as vagas da faculdade, dispersando as garotas secundaristas. Posso ver os vestidos de renda pretos e vermelhos saindo furtivamente debaixo de seus casacos, e uma delas está usando uma tiara. Cupidos, definitivamente. “Vamos, vamos, vamos.” Lindsay resmunga enquanto entrávamos no ginásio. Esta é a única fila na parte inferior não reservada para a equipe. Nós a chamamos de Alameda dos Formandos, por Lindsay estar estacionando aqui desde o terceiro ano. É o estacionamento VIP no Jefferson, e se você vacilar em entrar—há somente vinte vagas— você tem que estacionar na parte superior, que é a uns 350 metros da entrada principal. Nós já contamos uma vez, e agora toda vez que falamos sobre isso nós temos que usar a distância exata. Como “Você realmente quer andar 350 metros nessa chuva?” Lindsay grita quando vê uma vaga, dobrando para esquerda. Ao mesmo tempo, Sarah Grundel está entrando com seu Chevrolet marrom na outra direção, parecendo querer pegar a vaga. “Oh, merda, não, de jeito nenhum.” Lindsay se inclina sobre a buzina, apesar de ser óbvio que Sarah está aqui antes de nós, então pressiona o pé sobre o acelerador. Elody grita quando o café quente espirra todo na saia dela. Há um grito estridente de borracha, e Sarah Grundel freia apenas antes do Range Rover de Lindsay arrancar o para-choque dela. “Ótimo.” Lindsay para na vaga e arremessa seu carro no estacionamento. Então abre a porta e sai. “Desculpa, querida!” ela chama Sarah. “Eu não vi você aí.” Obviamente isso é uma mentira. “Ótimo.” Elody está limpando o café com lenço amassado do Dunkin’ Donuts. “Agora eu tenho que ficar por aí o dia todo com meus peitos cheirando a avelã.” “Garotos gostam do cheiro de comida,” eu digo. “Eu li isso na Glamour.” “Coloque um biscoito nas suas calças e Muffin provavelmente vai pular em você antes da primeira aula.” Lindsay desliza o espelho retrovisor e verifica o seu rosto. “Talvez você devesse tentar isso com Rob, Sammy.” Elody pega o lenço sujo de café e joga em mim e eu o pego e jogo de volta. “O quê?” Ela esta rindo. “Você não acha que eu iria esquecer a sua grande noite, não é?” Ela procura na sua bolsa e a próxima coisa que voa no banco é uma camisinha amassada com pedaços de fumo presos a embalagem.

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“Vocês são umas infiéis,” eu digo, pegando a camisinha com dois dedos e jogando no porta-luvas de Lindsay. Só por tocar isso fico nervosa de novo, e eu posso sentir algo remexendo do fundo do meu estômago. Eu nunca entendi por que as camisinhas eram mantidas dentro daquelas embalagens de alumínio. Eles parecem tão clínicos, como algo que seu doutor receita para alergias ou problemas no intestino. “Sem proteção, sem amor.” Elody diz, se inclinando para frente e me beijando na bochecha. Ela deixa um grande círculo de batom rosa lá. “Vamos.” Eu saio do carro antes delas poderem ver que estou ruborizando. Sr. Otto, o diretor de esportes, está esperando do lado de fora do ginásio quando estamos saindo do carro, provavelmente verificando nossas bundas. Elody acha que a razão dele insistir que o seu escritório esteja ao lado do vestiário das meninas é que ele tem uma câmera ligada no banheiro que está conectada ao seu computador. Por que outra razão ele teria necessidade de um computador? Ele é o diretor de esportes. Agora toda vez que eu vou fazer xixi eu fico paranoica. “Se mexam, damas.” nos chama. Ele também é o técnico de futebol, o que é irônico, uma vez que ele não poderia correr até a máquina de refrigerante e voltar. Ele parece uma morsa. E também tem bigode. “Eu não quero ter que dar a vocês uma advertência por atraso.” “Eu não quero ter que espancar você.” Eu falo no mesmo tom de voz, que é estranhamente agudo—outra razão para Elody achar que ele pode ser pedófilo. Elody e Lindsay morrem de rir. “Dois minutos para tocar o sinal.” Otto diz, mais severo. Talvez ele tenha me ouvido. Eu realmente não me importo. “Feliz sexta-feira.” Lindsay murmura e coloca o braço dela entre os meus. Elody tirou o celular e está checando seus dentes no reflexo, tirando restos de sementes de gergelim com a unha do dedo mindinho. “Isso é uma merda.” ela diz, sem erguer os olhos. “Totalmente.” eu digo. As sextas-feiras são as mais complicadas em alguns aspectos: você está muito perto da liberdade. “Me mate, agora.” “De jeito nenhum.” Lindsay aperta meu braço. “Não posso deixar minha melhor amiga morrer virgem.”

Você vê, nós não sabíamos.

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Nos meus primeiros dois períodos—arte e HAEA (História Americana de Extensão Avançada; história sempre foi minha melhor matéria)—eu só ganho cinco rosas. Eu não estou tão estressada com isso, mas meio que me irrita o fato de Eileen Cho ter ganhado quatro rosas de seu namorado, Ian Dowel. Nem me ocorreu a ideia de pedir isto para Rob e de certa forma eu não acho que seja justo. Isto faz com que as pessoas achem que você tem mais amigos do que realmente tem. Assim que chego ao laboratório de química, Senhor Tierney anuncia um teste surpresa. Isto é um grande problema já que (1) Eu não entendi uma palavra do meu dever de casa em quatro semanas (tudo bem eu parei de tentar na primeira semana) e (2) Senhor Tierney sempre está ameaçando ligar para o comitê de admissões da faculdade em caso de queda de notas, uma vez que muitos de nós ainda não tínhamos sido aceitos na faculdade. Eu não tenho certeza se ele fala sério ou se ele só quer colocar os veteranos na linha. Mas não há nenhuma chance de eu deixar algum professor fascista arruinar minhas chances de entrar na BU. E ainda pior, eu estou sentada do lado de Lauren Lornet, possivelmente a única pessoa na sala que sabe menos desta matéria que eu. A verdade é que minhas notas têm sido muito boas em química, mas não é porque eu tenho uma epifania sobre a interação prótons-elétrons. Minha verdadeira nota A pode se resumir a duas palavras: Jeremy Ball. Ele é mais magro do que eu e seu hálito cheira a flocos de milho, mas ele me deixa copiar as suas tarefas de casa e move lentamente a sua cadeira mais próxima a minha nos dias de teste para eu poder colar as suas respostas sem ser óbvio. Infelizmente, desde que eu paro no banheiro para fazer xixi e conversar com Ally—nós sempre nos encontramos no banheiro antes do quarto tempo, já que ela tem biologia ao mesmo tempo em que eu tenho bioquímica—eu chego tarde demais para pegar meu lugar próximo ao Jeremy. Há três perguntas no teste do Sr. Tierney, e eu não sei o bastante para enganar numa resposta simples. Próxima a mim, Lauren dobra o papel dela, apenas passando a língua entre os dentes. Ela sempre faz isso quando está pensando. A primeira resposta dela parece bastante boa, na realidade: suas respostas são puras e deliberadas, não frenéticas como quando você não sabe sobre o que está falando e esperando que rabiscando bastante seu professor não vá notar. (Para registro, isso nunca funciona). Então eu lembro que o Sr. Tierney palestrou para Lauren sobre como melhorar suas notas na semana passada. Talvez ela tenha estudado horas extras. Eu espreito por cima dos ombros da Lauren e copio duas das suas respostas—eu sou boa em ser sutil nessas coisas—quando o Sr. Tierney anuncia, “Trêêêês minutos.” Ele diz dramaticamente, como se estivesse narrando um filme, e isso faz a gordura sob seu queixo mexer. Isso faz com que Lauren terminasse e checasse o seu trabalho, e ela está inclinada então não posso ver a terceira resposta. Eu vi a segunda mão batendo no relógio—“Dois

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miiiinuuutos e triiiinta seguuundos,” Tierney explode—eu me debruço e cutuco Lauren com minha caneta. Ela olha para cima, assustada. Eu acho que não falo com ela há anos, e por um segundo eu vejo passar um olhar pelo rosto dela que não consigo identificar. Caneta, falo sem emitir som. Ela olha confusa e dispara um olhar para Tierney, que está, felizmente, debruçado sobre seu livro. “O quê?” Ela sussurra. Eu gesticulo com minha caneta, tentando me comunicar com ela que está ficando sem tinta. Ela fica olhando para mim silenciosamente, e por um segundo me sinto como se fosse estender a mão e sacudi-la—“Dooooois minuuuuuutooosss”—mas finalmente seu rosto esclarece e ela sorri como se só tivesse descoberto como curar o câncer. Eu não quero soar grossa, mas é um desperdício ser um idiota e lento em sacar as coisas. Qual é o ponto se você não pode pelo menos tocar Beethoven, ganhar um concurso de soletração, ir para Harvard ou algo assim? Enquanto Lauren está curvada procurando uma caneta na bolsa eu copio a sua última resposta. Eu meio que esqueço que tinha perguntado pela caneta dela, na verdade, porque ela tem que sussurrar por mim para chamar minha atenção. “Triiiiiiiinta segundos” “Aqui.” Eu pego dela. Uma das extremidades mastigadas: tosco. Eu dou a ela um sorriso brilhante e desvio o olhar, mas um segundo depois ela sussurra, “Funciona?” Eu olho para ela, então ela saberia que agora estava sendo irritante. Eu acho que ela leva isso como um sinal de não entendo. “A caneta. Funciona?” Ela sussurra um pouco mais alto. Foi quando Tierney bate o livro contra a sua mesa. O som foi alto o bastante para nos fazer pular. “Senhorita Lornet,” fala alto, olhando para Lauren. “Você está conversando durante meu teste?” Ela tornou-se vermelha brilhante e olha para trás e para frente para mim e para o professor, lambendo os lábios. Eu não digo nada. “Eu só estava—” ela diz baixinho. “Basta.” Ele levanta, franzindo a testa tão forte que a boca parece que ia se fundir com o pescoço, e cruza os braços. Acho que ele ia dizer algo mais para Lauren porque ele dispara um olhar mortal para ela, mas em vez disso ele só diz, “Fim do tempo, todos. Lápis e canetas abaixados.”

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Eu vou devolver a caneta de Lauren de volta, mas ela não quer pegá-la. “Fique com ela.” ela diz. “Não, obrigada.” eu digo. Prendo entre dois dedos e suspendo, balançando na sua cadeira, mas ela coloca as mãos para trás. “Sério,” ela diz, “você vai precisar de uma caneta. Para anotar e outras coisas.” Ela está olhando para mim como se ela estivesse oferecendo para mim algo milagroso e não uma caneta Bic babada. Eu não sei se é a expressão dela, mas de repente eu me lembro da vez que nós fomos a uma viagem de campo na segunda série e nós duas fomos as únicas deixadas para trás depois que todos tinham escolhido seus amiguinhos. Nós tivemos que ficar de mãos dadas pelo resto do dia toda hora que atravessássemos a rua, e as dela estavam sempre suadas. Eu fiquei imaginando se ela lembra. Espero que não. Sorrio brilhantemente e solto a caneta na minha mochila. Ela sorri de orelha a orelha. Eu vou jogá-la fora assim que acabar a aula, claro; você nunca sabe que tipo de doenças se pega através da baba. Pelo lado positivo: minha mãe sempre diz que você poderia fazer uma coisa boa por dia. Então eu acho que isso significa que eu estou absolvida.

aula de matemática: lições avançadas em química No quarto período eu tenho “habilidades para a vida”, que é o que eles chamam no ginásio quando você já está velho o bastante para ser oferecido a atividade física forçada (Elody pensa que eles deviam chamar isto de escravidão, para serem mais precisos). Nós estamos estudando RCP7, o que significa que teremos de fazê-lo com bonecos em tamanho real na frente do Senhor Otto. Mais uma prova da sua perversidade. No quinto período eu tenho cálculo, e as cupidos chegam cedo, logo após a aula ter começado. Uma delas está usando um brilhante collant vermelho, e tem chifres de um demônio. Uma delas parece estar vestida como uma coelhinha da Playboy, ou talvez um coelhinho da páscoa de salto; uma delas parece estar vestida como um anjo. Suas fantasias parecem não fazer muito sentido pelo contexto do feriado, mas como eu disse, a ideia toda é se exibir na frente dos rapazes novatos e veteranos. Eu não as culpo. Nós fizemos isto também. No seu ano de caloura Ally saiu com Mike Harmon—um veterano—por dois meses depois que ela entregou um Valograma para ele, e ele disse que a bunda dela parecia bonitinha no shortinho dela. Isto é uma verdadeira história de amor. A diaba me dá três rosas—uma de Elody, uma de Tara Flute, que meio que está no nosso grupo, mas não realmente, e outra de Rob. Eu faço uma grande cena para abrir os pequenos cartões que estão presos às hastes das rosas, estava tirando eles quando eu li a 7

Ressuscitação Cardio-Pulmonar

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nota. Até penso que só há escrito Feliz Dia do Cupido. Amo vc e então em letras menores perto do final: Feliz agora? “Amo vc” não é exatamente “eu te amo”—o que nós nunca dissemos um para o outro—mas esta chegando perto. Eu tenho quase certeza que ele está guardando para à noite. Semana passada era tarde e nós estávamos sentados no sofá dele e ele estava me olhando e eu tinha certeza—certeza—que ele ia dizer—mas invés disso ele disse que de certo ângulo eu pareço a Scarlett Johansson. Pelo menos minhas notas são melhores que a que Ally conseguiu de Matt Wilde ano passado: Rosas são vermelhas, violetas são azuis, se eu conseguir colocar você na cama, realmente seria muito bom. Ele está brincando obviamente, mas ainda assim. Azul e bom não rimam. Eu acho que estes vão ser todos os meus Valogramas, mas então o anjo vem até minha mesa e me dá mais uma. As rosas eram todas de cores diferentes, mas esta é muito incrível. Creme e rosa misturado na pétala, como se tivesse sido feito de um tipo de sorvete. “É linda,” ela suspira. Eu olho para cima. A anja apenas parada lá, olhando para a rosa repousada em minha mesa. É bem chocante para um novato ter coragem de falar com um veterano, e isto me incomoda por um segundo. Ela não parece com os cupidos normais também. Ela tem os cabelos loiros em um tom tão pálidos que parecem brancos, e eu consigo ver veias individuais pela sua pele. Ela me lembra de alguém, mas não lembro quem. Ela me pega olhando para ela e me dá um sorriso envergonhado. Eu fico feliz em ver alguma cor acumular em sua face—pelo menos faz com que ela pareça viva. “Marian.” Ela se vira quando a garota demônio a chama. A diaba faz um gesto impaciente com as rosas que ainda está carregando, e o anjo—Marian, eu acho—rapidamente volta para os outros cupidos. Todas as três saem. Eu esfrego meu dedo em cima da pétala da rosa—elas são macias como qualquer coisa, como ar ou um suspiro—e então instantaneamente eu me sinto estúpida. Eu abro a nota, esperando algo de Ally ou Lindsay (os delas sempre dizem Te amo até a morte, vaca), mas invés disso eu vejo um desenho de um cupido gordo acidentalmente atirando um pássaro na arvore. O pássaro é classificado como Águia Careca Americana, e parece que ele esta prestes a cair em cima de um casal sentado em um banco—os alvos originais do cupido, presumidamente. Os olhos do cupido são espirais e ele tem um estúpido sorriso em sua face. Abaixo do desenho diz: Não beba e ame.

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É obviamente de Kent McFuller—ele desenha quadrinhos para O Tribulação, o jornal de humor da escola—eu olho para cima e mando um olhar na direção dele. Ele sempre senta no canto esquerdo da sala. É uma coisa estranha sobre ele, mas definitivamente não a única. Com certeza ele está me olhando. Ele me dá um sorriso rápido e um aceno, então ele faz um movimento com seus braços como se ele estivesse puxando uma flecha em um arco e atirando em mim. Eu franzo a testa e deliberadamente pego a nota dele e dobro rapidamente, lançando no fundo de minha bolsa. Ele parece não se importar, de qualquer forma. É como se eu conseguisse sentir seu sorriso me queimando. O Senhor Daimler subia e descia o corredor, coletando deveres de casa, e ele para na minha mesa. Eu tenho de admitir: ele era o motivo de eu estar nervosa por ter recebido quatro Valogramas em cálculo. O Senhor Daimler só tem vinte e cindo e ele é lindo. Ele é o treinador auxiliar do time de futebol, e é bem engraçado ver ele parado perto de Otto. Eles são o oposto físico um do outro. Senhor Daimler tem uns 1,82 de altura, e se veste como nós, com jeans e blusas esportivas e tênis New Balance. Ele é graduado pela Thomas Jefferson. Nós olhamos para ele em um livro de turmas passadas na biblioteca. Ele foi o rei do baile, em uma das fotos ele está usando um terno e sorrindo com seu braço em volta do seu par. Você conseguia ver um colar de cânhamo saindo da sua gola. Eu amo aquela foto. Mas sabe o que eu amo ainda mais? Ele ainda usa aquele colar. É tão irônico que o cara mais quente de Thomas Jefferson esteja na faculdade. Como sempre, quando ele sorri meu estômago dá um volta. Ele percorre sua mão pelos cabelos marrons e embaraçados, e eu fantasio em fazer o mesmo. “Nove rosas já?” Ele levanta suas sobrancelhas e faz uma grande exibição para checar às horas “E são apenas onze e quinze, parabéns.” “O que eu posso dizer?” Eu faço com que minha voz fique o mais suave e flertante possível. “As pessoas me amam.” “Eu posso ver isto.” ele diz, piscando para mim. Eu deixo ele se mover um pouco mais longe corredor abaixo antes de dizer, “Eu ainda não recebi uma rosa de você, Senhor Daimler.” Ele não vira, mas eu consigo ver as pontas de suas orelhas ficando vermelhas. Há risos e vozes pela classe. Eu tenho aquela agitação que vem quando você sabe que está fazendo algo errado e saindo impune, como roubar algo da cafeteria da escola ou ficar bêbada em um feriado familiar sem ninguém saber. Lindsay diz que o Senhor Daimler vai me processar por perseguição um dia. Eu não penso assim. Eu acho que secretamente ele gosta. Um bom exemplo: Quando ele se virou e ficou de frente com a classe, ele sorria.

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“Depois de revisar os resultados do teste da semana passada, eu percebi que tem havido muita confusão sobre assíntotas e limites.” ele começa, se inclinando contra sua mesa e cruzando suas pernas no tornozelo. Ninguém conseguiria fazer cálculo mesmo com um remoto interesse, eu tenho certeza disso. Pelo resto da aula ele mal olha para mim, e mesmo assim só quando eu levanto minha mão. Mas eu juro que quando nossos olhos se encontram, isto faz com que todo meu corpo sinta um arrepio gigantesco. E eu juro que ele também sente isto.

Depois da aula Kent vem falar comigo. “Então?” ele diz. “O que você achou?” “De que?” eu digo para irritar ele. Eu sei que ele esta falando sobre o desenho e a rosa. Kent só sorri e muda de assunto. “Meus pais estão fora esta semana.” “Bom para você.” Seu sorriso não oscila. “Eu vou dar uma festa hoje. Você vem?” Eu olho para ele. Eu nunca entendo Kent. Ou pelo menos eu nunca o entendi durante anos. Nós éramos super próximos quando éramos crianças—tecnicamente eu acho que ele era meu melhor amigo e também foi meu primeiro beijo—mas logo que nós atingimos o ensino fundamental, ele começou a ficar cada vez mais estranho. Desde o ano que era novato ele sempre vem para a escola com jaquetas usadas, mesmo assim a maioria que ele usa tem a costura rasgada ou tem buracos no cotovelo. Ele sempre usa o mesmo tênis preto e branco todo gasto e seu cabelo está tão longo que é como se uma cortina descesse sobre seus olhos a cada cinco segundos. Mas o que incomoda de verdade é que: ele realmente usa um chapéu-coco. Na escola. O pior de tudo é que ele poderia ser um gato. Ele tem o rosto e corpo para isso. Ele tem um minúsculo sinal em forma de coração debaixo do olho esquerdo, sem brincadeira. Mas ele tem de ferrar tudo sendo uma aberração. “Não tenho certeza de quais são meus planos ainda,” eu falo. “Se for lá que todo mundo estiver...” Eu deixei minha voz arrastar para que ele soubesse que eu iria somente se não houvesse nada mais para fazer. “Será ótimo,” ele diz, ainda sorrindo. Outra coisa irritante sobre Kent: ele age como se o mundo fosse um presente grande e brilhante que ele desembrulha toda manhã. “Vamos ver,” eu digo. Abaixo no corredor eu vi Rob entrando na cafeteria e eu começo a andar rápido, esperando que Kent percebesse e se afastasse. É um pensamento bem otimista da minha parte. Kent tem uma queda por mim durante anos. Possivelmente desde o nosso beijo. Ele para de andar, talvez esperando que eu parasse também. Mas eu

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não paro. Por um segundo eu me sinto mal, como se eu tivesse sido muito dura, mas a voz dele ainda soa atrás de mim, e eu posso dizer apenas pelo som que ele ainda esta sorrindo. “Te vejo à noite.” ele diz. Eu escuto o som dos tênis dele no chão de madeira, e eu sei que ele se vira e vai para a direção oposta. Ele começa a assoviar. O som daquilo foi se afastando. O som daquilo volta para mim, ficando mais fraco. O sol vai aparecer amanhã, aposte seus últimos dólares que amanhã vai haver sol. De Annie, o musical. Minha canção favorita—quando eu tinha sete anos. Eu sei que nenhum outro no salão iria entender, mas ainda assim fico envergonhada e posso sentir a quente sensação subindo a minha nuca. Ele sempre está fazendo coisas assim: agindo como se ele me conhecesse melhor do que qualquer outro só porque nós costumávamos brincar na caixa de areia juntos há uns cem anos atrás. Agindo como se o que aconteceu nos últimos dez anos não tivesse mudado nada mesmo que tivesse mudado tudo. Meu telefone está tocando no meu bolso traseiro e antes de ir para o almoço, abro-o num estalar. Havia uma nova mensagem de texto de Lindsay. Festa na ksa do Kent McFreaky hj a nte. Ta dentro? Eu paro por um segundo expirando longamente, antes de responder a mensagem. Obv.

Tem três coisas aceitáveis para se comer na cafeteria Thomas Jefferson: 1.

Um bagel, simples ou com creme de queijo.

2.

Batatas fritas

3.

Um sanduíche deli do bar self-service de sanduíches.

a. Mas apenas de peru, presunto, ou peito de galinha. Salame e Bologna são obviamente não recomendados, e carne assada é questionável. O que é uma pena, porque carne assada é meu favorito. Rob está parado na frente da caixa registradora com um grupo de amigos. Ele está segurando uma enorme travessa de batatas fritas. Ele as come todos os dias. Ele pega meu olhar e dá um comprimento com a cabeça. (Ele não é o tipo de cara que lida muito bem com seus sentimentos, dele ou meu. Mas o “amo vc” no bilhete que ele me mandou.) É estranho. Antes de estar saindo juntos, eu gostava dele muito, e por um longo tempo, toda a vez que ele mesmo olhasse em minha direção eu teria aquela borbulhante, e

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efervescente sensação tão forte que me deixaria tonta. Sem mentira: algumas vezes eu tinha uma tontura pensando nele e tinha de me sentar. Mas agora que nós somos oficialmente um casal, eu algumas vezes tenho pensamentos estranhos quando eu olho para ele, tipo eu me pergunto se todas aquelas batatas fritas estão entupindo suas artérias ou se ele usa fio dental ou quando foi a ultima vez que ele lavou o boné dos Yankees, ele o usa quase todo dia. Algumas vezes eu me pergunto se tem algo errado comigo. Quem não iria querer sair com Rob Cokran? Não é que eu não esteja totalmente feliz—eu estou—mas e como se algumas vezes eu tentasse lembrar em minha cabeça o porquê de eu gostar dele de começo, tipo se eu não gosto eu vou de algum jeito esquecer. Felizmente tem um milhão de razões: o fato de ele ter cabelo preto e um bilhão de sardas, mas de alguma maneira elas não ficam estúpidas nele, Que ele é alto, mas de um jeito engraçado, que todo mundo o conhece e gosta dele e que provavelmente metade das garotas na escola tem uma queda por ele; que ele fica realmente bem na jaqueta de Lacrosse8; que quando ele está realmente cansado ele repousa sua cabeça no meu ombro e dorme. Isto é o meu favorito sobre ele. Eu gosto de me deitar perto dele quando é tarde, escuro, e tão calmo que eu posso ouvir meu coração bater. São horas como estas que eu tenho certeza que eu estou apaixonada. Eu ignoro Rob quando eu chego na fila para pagar meu bagel—eu posso jogar duro para ficar muito tempo—e então seguir para a seção sênior. O resto da cafeteria é um retângulo. Crianças da educação especial sentadas em todo lugar, na mesa, mas perto da sala de aula, e então tem a mesa dos calouros, e então a mesa dos segundanistas, e então a mesa dos terceiranistas. A mesa dos formandos é bem no final da cafeteria. E alinhada em octógono completada com janelas. Tudo bem, então só dá vista para o estacionamento, mas ainda é melhor que ter visão direta para a brigada do ônibus pequeno babando com seu molho de maça. Sem ofensas. Ally já está sentada em uma pequena mesa circular bem na janela: nossa favorita. “Ei.” Eu abaixo minha bandeja e minhas flores. O buquê da Ally está em cima da mesa e eu faço uma conta rápida. “Nove rosas.” Eu gesticulo para as dela e então do ao meu boque uma chocalhada. “O mesmo que eu.” Ela fez uma cara. “Uma das minhas, não conta. Ethan Shok me mandou uma. Você consegue acreditar? Arruaceiro.” “É, bem, eu recebi uma de Kent McFuller, então uma das minhas não conta também.” “Ele te amaaa,” ela diz com o “a” arrastado. “Você recebeu a mensagem da Lindsay?” 8

Jogo americano no qual se usa um bastão com uma rede para colocar a bola no gol adversário.

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Eu pego o centro doce do meu biscoito e o coloco na minha boca. “Nós realmente vamos para a festa dele?” Ally urra. “Medo de que ele te estupre?” “Muito divertido.” “Vai ter um barril,” Ally diz. Ela dá uma pequena mordida no seu sanduíche de peru. “Na minha casa depois da escola, ok?” Ela realmente tem de perguntar. É nossa tradição nas sextas. Pedimos comida, invadíamos seu closet, aumentávamos as música, e dançávamos com sombra nos olhos e gloss nos lábios. “Sim, claro.” Estou observando Rob se aproximar pelo canto do olho, e de repente ele está lá, caindo sobre a cadeira ao meu lado e se inclinando até que sua boca tocasse minha orelha esquerda. Ele cheira a colônia Total. Ele sempre cheira. Acho que cheira a esse chá que minha avó costumava beber—erva-cidreira—mas ainda não disse isso a ele. “Ei, Slammer.” Ele sempre inventa apelidos para mim: Slammer, Samwich, Sammy Says. “Você pegou meu Valograma?” “Você pegou o meu?” Digo. Ele tira sua mochila do seu ombro e a abre. Há meia dúzia de rosas amassadas no fundo da bolsa—estou assumindo que uma delas é minha— e, além disso, uma caixa de cigarros, Trident, seu telefone celular, e uma muda de camisa. Ele não é muito de estudar. “De quem são as outras rosas?” digo, provocando-o. “Sua competição,” ele diz, levantando suas sobrancelhas. “Muito elegante,” Ally diz. “Você vai para a festa do Kent hoje à noite, Rob?” “Provavelmente.” Rob encolhe os ombros e de repente parece entediado. Aqui um segredo: uma vez, quando estávamos nos beijando, abri meus olhos e vi que os olhos dele estavam abertos. Ele nem estava olhando para mim. Estava olhando por sobre meu ombro, observando o quarto. “Ele conseguiu um barril,” Ally diz pela segunda vez. Todo mundo brinca que ir para Jefferson te prepara para uma experiência de faculdade completa: você aprende a trabalhar, e aprende a beber. Dois anos atrás o New York Times nos colocou entre as dez escolas de Connecticut com mais alcoólatras. Não é como se houvesse algo mais para se fazer aqui, porém. Temos shoppings e festas no porão. É isso. Vamos encarar a verdade: é assim que a maior parte do país é. Meu pai sempre diz que eles deveriam derrubar a Estátua da Liberdade e colocar um grande shopping Center no lugar, ou aqueles arcos dourados do McDonald’s. Ele diz que ao menos desse modo as pessoas saberiam o que esperar.

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“Aham. Com licença.” Lindsay está de pé atrás do Rob, limpando sua garganta. Tem os braços cruzados e está batendo o pé. “Você está no meu assento, Cokran,” diz. Ela só está fingindo ser durona. Rob e Lindsay sempre foram amigos. Pelo menos, sempre estiveram no mesmo grupo, e pela necessidade sempre tiveram de ser amigos. “Minhas desculpas, Edgecombe.” Ele se levanta e faz um grande floreio, como uma reverência, quando ela se senta. “Eu te vejo hoje à noite, Rob,” Ally diz, e acrescenta, “traga seus amigos.” “Até mais.” Rob se inclina e enterra seu rosto no meu cabelo, deixando sua voz profunda e quieta. Aquela voz costumava fazer com que todos os nervos do meu corpo se acendessem como uma explosão de fogos de artifício. Agora, às vezes, eu a acho cafona. “Não se esqueça. Somos eu e você essa noite.” “Não esqueci,” digo, esperando que minha voz soasse sensual e não assustada. As palmas das minhas mãos estão suando e eu rezo para que ele não tente pegar a minha mão. Felizmente, ele não tenta. Em vez disso ele se inclina e pressiona sua boca contra a minha. Ficamos assim por um instante até que Lindsay berra, “Não enquanto eu estou comendo,” e atira uma batata frita em minha direção. Ela atinge meu ombro. “Tchau, damas,” Rob diz, e se afasta com o boné meio inclinado. Esfrego minha boca com um guardanapo quando ninguém está olhando, porque a metade inferior do meu rosto agora está coberta de saliva do Rob. Aqui outro segredo sobre Rob: eu odeio o modo como ele beija. Elody diz que todo o meu estresse é apenas insegurança porque Rob e eu na verdade não chegamos a um acordo ainda. Quando fizermos isso, ela diz que eu me sentirei melhor, e tenho certeza de que ela está certa. Afinal, ela é a experiente. Elody é a última a se reunir a nós no almoço, e todas nós avançamos para as batatas fritas dela quando abaixa sua bandeja. Ela faz uma tentativa desanimada de afastar nossas mãos. Ela joga seu buquê de rosas ao lado. Ela tem doze delas, e sinto uma momentânea pontada de inveja. Acho que Ally se sente assim também, porque ela diz: “O que você teve de fazer com essas?” “Quem você teve de fazer?” Lindsay a corrige. Elody dá a língua, mas parece estar satisfeita por termos notado.

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De repente, Ally olha para algo por sobre meu ombro e começa a rir. “Psycho killer, qu’ est-ce que c’est9.” Todas nós nos viramos. Juliet Sykes, ou Psicose, tinha acabado de entrar deslizando na seção dos veteranos. É assim que ela caminha: como se estivesse deslizando, sendo levada por forças externas que estão fora do seu controle. Ela está carregando um saco de papel marrom em seus dedos longos e pálidos. Seu rosto está protegido por uma cortina de cabelo loiro-claro, os ombros curvados pra cima em direção às orelhas. Na maior parte, todos na cafeteria a ignoram—ela é a definição de esquecível—mas Lindsay, Ally, Elody e eu começamos a fazer aqueles gritos e movimentos de esfaqueamento de Psicose de Alfred Hitchcock, ao qual todas nós assistimos quando fomos dormir juntas dois anos atrás. (Depois disso tivemos de dormir com as luzes acesas.) Não estou certa se Juliet nos ouve. Lindsay sempre diz que ela não pode ouvir nada porque as vozes na cabeça dela são muito altas. Juliet mantém o mesmo passo lento quando passa por nós, eventualmente alcançando a porta que leva até o estacionamento. Não tenho certeza de onde ela come todos os dias. Dificilmente a vejo na cafeteria. Ela tem de empurrar seu ombro contra a porta algumas vezes antes de ela abrir, como se ela fosse muito frágil para que conseguisse. “Ela conseguiu nosso Valograma?” Lindsay diz, lambendo o sal da batata frita antes de jogá-la na boca. Ally assente. “Em biologia. Eu estava sentada logo atrás dela.” “Ela disse alguma coisa?” “Ela alguma vez diz alguma coisa?” Ally coloca uma mão sobre seu coração, fingindo estar preocupada. “Ela jogou a rosa assim que a aula acabou. Pode acreditar? Bem na minha frente.” No primeiro ano Lindsay descobriu de alguma forma que Juliet nunca tinha recebido um Valograma. Nenhum. Então Lindsay colocou uma nota numa de suas rosas e prendeu no armário de Juliet com fita adesiva. A nota dizia: Talvez no próximo ano, mas provavelmente não. Todo ano desde então nós mandamos a ela uma rosa e a mesma nota no Dia do Cupido. A única nota que ela já recebeu de alguém, pelo que sei. Talvez no próximo ano, mas provavelmente não. Normalmente eu me sentiria mal, mas Juliet merece seu apelido. Ela é bizarra. Dizem que ela foi encontrada uma vez pelos pais dela na Rota 84, completamente nua às 3 9

Trecho da música “Psycho Killer”, da banda Talking Heads.

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da madrugada, sentada de pernas abertas sobre o divisor da rodovia. No ano passado, Lacey Kennedy disse que viu Juliet no banheiro na ala de ciência, acariciando seu cabelo repetidamente e encarando seu reflexo no espelho. E Juliet nunca diz nada. Nunca disse por anos, pelo que sei. Lindsay a odeia. Acho que Lindsay e Juliet eram uma dupla nas mesmas aulas da escola primária, e pelo que sei Lindsay a odiava desde então. Ela faz o sinal da cruz sempre que Juliet está por perto, como se Juliet pudesse, de alguma forma, virar um vampiro e disparar para o pescoço de Lindsay. Foi Lindsay que descobriu que Juliet fez xixi no seu saco de dormir durante a viagem de acampamento das Escoteiras na quinta série, e Lindsay quem deu a ela o apelido Amarelona. As pessoas chamaram Juliet assim por um longo tempo—até o final do primeiro ano, se puder acreditar—e ficaram afastadas dela porque diziam que ela cheirava a xixi. Estou olhando pela janela e observo o cabelo de Juliet brilhar sob a luz do sol como se estivesse pegando fogo. Há escuridão no horizonte, uma mancha onde a tempestade está crescendo. Ocorre-me pela primeira vez que eu não tenho certeza absoluta sobre por que Lindsay começou a odiar Juliet, em primeiro lugar, ou quando. Abro minha boca para perguntar a ela, mas elas já foram para outros tópicos. “—briga violenta,” Elody termina, e Ally dá uma risada. “Estou apavorada.” Elody diz com sarcasmo. Claramente eu perdi algo. “O que há?” digo. Elody se vira para mim. “Sarah Grundel está dizendo por aí que Lindsay arruinou a vida dela.” Tenho de esperar enquanto Elody coloca uma batata na sua boca. “Ela não pode nadar nas quartas de final. E você sabe que ela vive para essa merda. Lembra-se de quando ela se esqueceu de tirar os óculos depois de uma manhã praticando e ela os usou até o segundo período?” “Ela provavelmente guarda todas suas fitas azuis na parede de seu quarto,” Ally diz. “Sam costumava fazer isso. Não era, Sam? Todas aquelas fitas por brincar com cavalos.” Lindsay me cutuca. “Podemos voltar ao assunto?” Balancei minhas mãos, parcialmente porque eu quero ouvir a história, parcialmente para tirar a atenção de mim e o fato de que eu costumava ser uma imbecil. Quando eu estava na quinta série, passava mais tempo com cavalos do que com os membros da minha própria espécie. “Ainda não entendi por que Sarah está irritada com Lindsay.” Elody revira os olhos para mim como se eu pertencesse à mesa dos alunos retardados.

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“Sarah está em detenção—ela atrasou o trabalho de casa pela, tipo, quinta vez em duas semanas.” Eu ainda não entendo e ela solta um suspiro. “Ela atrasou o trabalho de casa porque tinha de estacionar no Estacionamento de Cima e correr—” “350 metros!” Todas nós dizemos na mesma hora e então começamos a rir como maníacas. “Não se preocupe, Lindz,” digo. “Se vocês começarem a brigar, aposto todo meu dinheiro em você.” “Sim, vigiamos as suas costas,” Elody diz. “Não é meio estranho como isso acontece?” Ally diz nessa voz tímida que ela tem quando ela está tentando dizer algo sério. “Como tudo gira ao redor das outras coisas? Assim, se Lindsay não tivesse roubado aquela vaga no estacionamento...” “Eu não a roubei. Eu a consegui justa e corretamente,” Lindsay protesta, trazendo sua mão para colocar sobre a mesa, dando ênfase. A Coca Diet de Elody goteja pelo lado da lata, encharcando algumas batatas. Isso nos faz começar a rir de novo. “É sério!” Ally eleva a voz para ser ouvida por nós. “É como uma rede, sabe? Tudo está conectado.” “Você tem invadido o novo esconderijo do seu pai de novo, Al?” Elody diz. Só precisa disso para que comecemos a rir. Essa é uma brincadeira que tivemos com Ally por anos porque seu pai trabalha numa indústria musical. Ele é um advogado, não um produtor ou gerente ou músico ou algo do tipo, e ele usa um terno em todos os lugares (mesmo na piscina durante o inverno), mas Lindsay afirma que ele é secretamente um apedrejador de hippies. Enquanto estamos rindo, nos dobrando, Ally fica vermelha. “Vocês nunca me escutam,” ela diz, mas ela está lutando para não sorrir. Pega uma batata e atira em Elody. “Eu li uma vez que se um bando de borboletas baterem as asas na Tailândia, isso pode causar um furacão em Nova York.” “Sim, bem, um dos seus peidos pode causar um blackout massivo em Portugal.” Elody dá um sorriso amarelo, atirando uma batata de volta. “Seu bafo de manhã pode causar um estouro na África.” Ally se inclina pra frente. “E eu não peido.” Lindsay e eu rimos, e Elody e Ally continuam a atirar batatas uma na outra. Lindsay tentar dizer que elas estavam perdendo perfeitamente boa gordura, mas ela está gritando tanto que mal consegue colocar as palavras para fora. Finalmente ela toma fôlego e o solta, “Você sabe o que eu ouvi? Que se você espirrar já é o bastante para causar um tornado em Iowa.” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Até Ally fica maluca com essa, e de repente estamos todas experimentando, rindo e espirrando e gritando ao mesmo tempo. Todos estão olhando para nós, mas não nos importamos. Depois de cerca de um milhão de espirros, Lindsay se inclina para trás na sua cadeira, apertando com força seu estômago e arfando por ar. “Trinta mortos em tornados no Iowa,” ela solta, “outros cinquenta desaparecidos.” Isso nos faz rir de novo. Lindsay e eu decidimos matar o sétimo período e ir ao TCBY. Lindsay tem francês, coisa que ela não pode suportar, e eu tenho inglês. Nós matamos o sétimo período bastante, juntas. Nós somos veteranas de segundo semestre, então é como se esperássemos que fôssemos pra aula. Além disso, eu odeio minha professora de inglês, Sra. Harbor. Ela está sempre saindo pelas tangentes. Às vezes eu fecho minha mente por alguns minutos, e de repente ela está falando sobre roupas de baixo no século XVIII ou a opressão na África ou o modo como o sol parece subindo pelo Grand Canyon. Embora ela esteja provavelmente nos seus cinquenta, tenho certeza de que ela esteja se perdendo. É como começou com minha avó: ideias ficam vagando e colidem entre si, fazendo ações e reações, e o ponto A troca com o ponto B. Quando minha avó ainda estava viva nós a visitávamos, e embora eu tivesse não mais de seis anos, eu me lembro de pensar: Espero que eu morra jovem.

Aí está uma definição de ironia para você, Sra. Harbor. Ou talvez prenunciação?

Tecnicamente, você precisa de um passe especial assinado pelos seus pais e a administração para deixar o campus durante o dia de aula. Isso não é sempre verdade. Por um longo tempo um dos bônus de ser um veterano era poder deixar o campus sempre que quiser, contanto que você tivesse um período livre. Isso foi a vinte anos atrás, de qualquer forma, poucos anos antes de Thomas Jefferson conseguir a reputação para das mais altas taxas de suicídios de adolescentes no país. Nós vimos o artigo online uma vez: o Connecticut Post nos chamou de Suicide High. E então num dia, um bando de crianças deixou o campus e dirigiram até a ponte – um pacto de suicídio, eu acho. De qualquer jeito, depois a escola proibiu qualquer um de deixar a escola durante o dia sem autorização especial. É meio estúpido se você pensar bem. É como descobrir que crianças estão trazendo vodca para escola em garrafas de água e proibir qualquer um de beber água. Felizmente, há outro modo de sair do campus: através do buraco na cerca do outro lado do ginásio e da quadra de tênis, que nós chamamos de Sofá dos Fumantes, visto que é

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onde todos os fumantes ficam. Não há ninguém por perto, quando Lindsay e eu passamos pela cerca e começamos a atravessar a floresta. Em pouco tempo chegamos à Rota 120. Tudo está parado e congelado. Galhos e folhas escuras se quebram sob nossos sapatos, e nossa respiração saí em sopros brancos. Thomas Jefferson é cerca de três milhas fora do centro da cidade de Ridgeview—ou o que você pode chamar de centro—mas apenas meia milha da pequena faixa de lojas sujas que nós chamamos de Row. Há uma estação de gás, a TCBY, um restaurante chinês que uma vez deixou Elody doente por dois dias, uma loja de conveniência Hallmark, no qual você pode comprar figurinhas cintilantes com brilho rosa e globos de neve e merdas desse tipo. É aonde nós vamos. Sei que nós podemos parecer totalmente loucas, andando pela estrada em nossas saias e calças apertadas, nossas jaquetas se abrindo para mostrar nossos tops com detalhes em pele. Passamos pelo Hunan Kitchen no nosso caminho até o TCBY. Através das janelas sujas reconhecemos Alex Liment e Anna Cartullo debruçados sobre uma tigela de algo. “Ooo, escândalo,” Lindsay diz, levantando as sobrancelhas, embora seja apenas um meio escândalo. Todo mundo sabe que Alex vem traindo Bridget McGuire com Anna pelos últimos três meses. Todo mundo exceto Bridget, obviamente. A família de Bridget é super-católica. Ela é bonita e de aparência limpa, como se toda vez que você a visse ela tivesse acabado de lavar o rosto. Aparentemente ela está se guardando para o casamento. É o que ela diz, de qualquer modo, embora Elody pense que Bridget possa ser uma lésbica não-assumida. Anna Cartullo é apenas uma novata, mas se os rumores forem verdades, ela já fez sexo com pelo menos quatro pessoas. Ela é uma das poucas garotas em Ridgeview que não veio de família com dinheiro. Sua mãe é uma cabeleireira, e nem sei se ela tem um pai. Ela vive em um dos condomínios alugados e ferrados perto do Row. Uma vez ouvi Andrew Singer dizer que o quarto dela sempre cheirava a frango do General Tso. “Vamos entrar e dar um oi,” Lindsay diz, alcançando minha mão. Eu hesito. “Estou passando por uma abstinência de doces.” “Aqui. Pegue esses.” Ela puxa uma pacote de SweeTarts do cinto da sua blusa. Lindsay sempre carregar doces com ela, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, como se estivesse guardando drogas. Acho que ela meio que está. “Só por um segundo, prometo.” Deixo-me ser levada para dentro. Um sino toca quando passando pela porta. Há uma mulher folheando uma US Weekly10 atrás do balcão. Ela olha para nós, então olha para baixo novamente quando percebe que não vamos pedir nada. 10

Revista de fofocas sobre celebridades.

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Lindsay vai direto para a mesa de Alex e Anna, inclinando-se sobre a mesa. Ela é meio que amiga de Alex. Alex é meio que amigo de muitas pessoas, visto que ele negocia com a maconha que ele tem numa caixa de sapatos na sua cama. Ele e eu temos uma amizade do tipo aceno de cabeça, desde que isso é bem o limite de nossa interação. Na verdade, ele está em inglês comigo, embora ele apareça até menos do que eu. Acho que pelo resto do tempo ele fica com Anna. De vez em quando ele diz algo como, “Essa tarefa de dissertação é um saco, hein?”, mas, fora disso, nós não conversamos. “Ei, ei,” Lindsay diz. “Você vai pra festa do Kent hoje à noite?” O rosto de Alex fica vermelho e cheio de manchas. Pelo menos ele está embaraçado por ser pego saindo com Anna tão rudemente. Ou talvez ele apenas esteja tendo uma reação à comida. Eu não estaria surpresa. “Um... não sei. Talvez. Tenho de ver...” Ele fica evasivo. “Vai ser bem divertido.” Lindsay deixa sua voz mais atrevida. “Você vai levar Bridget? Ela é tão querida.” Na verdade, nós duas achamos Bridget chata—ela está sempre alegre e usa camisetas com slogans ruins como A menos que você seja um Cão-guia, a visão da vida nunca muda (sem mentira)—mas Lindsay despreza Anna, e uma vez escreveu AC=LB por todo o banheiro que fica perto da cafeteria—o que todo mundo usa. LB significa lixo branco11. A situação é mais do que embaraçosa, então eu deixo escapar, “Frango com gergelim?” Aponto para refeição congelada com um molho acinzentado na tigela sobre a mesa, próxima a dois biscoitos da sorte e uma laranja de má-aparência. “Bife com laranja,” Alex diz. Ele parece aliviado pela mudança de assunto. Lindsay me olha, irritada, mas eu continuo a falar. “Você deveria ser cuidadoso com o que come aqui. O frango já fez mal a Elody uma vez. Ela vomitou por, tipo, dois dias direto. Se era mesmo frango. Ela jura que achou uma bola de pelo dentro dele.” Assim que eu digo isso Anna pega seus hashi e pega um pedaço enorme, olhando pra cima e sorrindo para mim enquanto ela mastiga para que eu possa ver que a comida está na boca dela. Não tenho certeza se ela está fazendo isso deliberadamente para me irritar, mas parece que sim. “Que sujo, Kingston,” Alex diz, mas ele está sorrindo agora. Lindsay revira os olhos, como se Alex e Anna fossem uma total perda de tempo.

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Apelido dado à classe dos brancos pobres nos Estados Unidos, especialmente no sul.

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“Vamos, Sam.” Ela pega um biscoito da sorte e o quebra quando saímos. “A felicidade é encontrada quando não a está procurando,” lê, e eu rio quando ela faz uma cara. Ela amassa o pedacinho de papel e o deixa cair no chão. “Inútil.” Eu tomo fôlego. “O cheiro lá dentro sempre me deixa doente.” Deixa, também: aquele cheiro de comida velha, óleo barato e alho. As nuvens no horizonte estão lentamente tomando o céu, tornando tudo cinza e embaçado. “Conte-me sobre isso.” Lindsay coloca uma mão sobre seu estômago. “Você sabe do que eu preciso?” “Um copo extragrande do The Country’s Best Yogurt12!” digo, sorrindo. TCBY é outra coisa que nós não conseguimos abreviar. “Definitivamente um copo extragrande de The Country’s Best Yogurt,” Lindsay repete. Embora nós duas estejamos congelando, pedimos dois chocolates duplos com chocolate granulado e manteiga de amendoim por cima, que nós comemos no caminho até a escola, sobrando em nossos dedos para mantê-los quentes. Alex e Anna já se foram do Hunan Kitchen quando passamos em frente, mas nós corremos até o Sofá dos Fumantes. Temos exatamente sete minutos até o sino do oitavo período, e Lindsay me puxa atrás da quadra de tênis para que ela possa fumar um cigarro sem ouvir Alex e Anna discutindo. É isso que parece que eles estão fazendo, de qualquer jeito. A cabeça de Anna está inclinada e Alex está agarrando seus ombros, sussurrando para ela. O cigarro em sua mão queima tão perto do seu cabelo castanho sem graça que estou certa de que vai pegar fogo, e imagino toda a sua cabeça assim, como um fósforo. Lindsay termina o seu cigarro e jogamos nossos copos de iogurte ali, sobre as folhas secas e escuras, caixas de cigarros pisados e sacolas plásticas cheias de água de chuva. Estou-me sentindo ansiosa por hoje a noite—metade medo metade excitação—como quando você ouvi um trovão e sabe que a qualquer segundo verá a luz no céu, engolindo as nuvens com seus dentes. Eu não deveria ter matado a aula de inglês. Tenho tempo demais para pensar. E pensar nunca fez algo bom para ninguém, não importa o que seus professores e pais e malucos do clube de ciências te digam. Rodeamos o perímetro da quadra de tênis e vamos pelo Beco dos Veteranos. Alex e Anna ainda estão meio escondidos atrás do ginásio. Alex está no seu segundo cigarro, pelo menos. Definitivamente uma discussão. Sinto um momentâneo ataque de satisfação: Rob e eu dificilmente brigamos, pelo menos não sobre coisas sérias. Isso deve significar alguma coisa. “Problemas no paraíso,” digo. “Mas como problemas no estacionamento de trailer,” Lindsay diz. 12

Franquia de iogurtes congelados, fundada nos EUA.

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Estamos atravessando a parte dos professores quando vemos a Sra. Winters, a vicepresidente, andando entre os carros, tentando encontrar os fumantes que não tem tempo ou são muito preguiçosos para caminhar até o Sofá e em vez disso se escondem entre os velhos Volvos e Chevrolets dos professores. Sra. Winters tem um certo rancor contra pessoas que fumam. Ouvi que sua mãe morreu de câncer ou enfisema pulmonar ou algo assim. Se você é pego fumando pela Sra. Winters, você pega três detenções nas sextas, sem perguntas. Lindsay procura freneticamente seu Trident na bolsa e coloca dois pedaços na sua boca. “Merda, merda.” “Você não pode levar sermão só por cheirar a cigarro,” digo, embora Lindsay saiba disso. Ela gosta do drama, entretanto. Engraçado como você conhece seus amigos tão bem, mas ainda termina jogando os mesmos joguinhos com eles. Ela me ignora. “Como está meu hálito?” Ela solta o ar sobre mim. “Como uma maldita fábrica de mentol.” Sra. Winters ainda não nos viu. Ela está caminhando pelas filas, algumas vezes parando para olhar debaixo dos carros, como se alguém estivesse esmagado contra o chão, tentando acender. Há uma razão para que todo mundo a chame de Nazista da Nicotina pelas suas costas. Hesito, olhando de volta para o ginásio. Eu não gosto especialmente de Alex e não gosto de Anna, mas qualquer um que já esteve numa escola de ensino médio compreende que vocês devem se unir contra pais, professores e policiais. É uma daquelas linhas invisíveis: nós contra eles. Você apenas sabe isso, como se sabe quando sentar e conversar e o que comer na cafeteria, sem mesmo saber como você sabe. Se isso faz sentido. “Deveríamos voltar e alertá-los?” pergunto a Lindsay, e ela para também e olha para o céu como se estivesse pensando sobre isso. “Foda-se,” finalmente diz. “Eles podem tomar conta de si mesmos.” Como se fosse para reforçar o ponto dela, o sinal para o período final toca e ela me dá um empurrão. “Vamos.” Ela está certa, como sempre. Afinal, não é como se eles tivessem feito alguma coisa para mim.

amizade: uma história Lindsay e eu nos tornamos amigas no sétimo ano. Lindsay me escolheu. Eu não estou certa do por que. Depois de anos tentando, eu tinha apenas feito o meu caminho do fundo da sociedade até o meio da sociedade. Lindsay era popular desde o primeiro ano, quando ela se mudou para cá. Nas aulas de teatro naquele ano ela era a líder; quando fizemos uma produção de O Mágico de Oz no ano seguinte ela era a Dorothy. E no terceiro Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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ano, quando todos nós atuamos em A Fantástica Fábrica de Chocolate, ela pegou o papel de Charlie. Acho que isso te dá uma ideia. Ela é o tipo de pessoa que faz você se sentir bêbada só de estar perto dela, como se, de repente, as fronteiras do mundo ficassem desbotadas e todas as cores estivessem girando. Eu nunca disse isso a ela, obviamente. Ela faria piada de mim por pensar assim. De qualquer forma, no verão anterior ao sétimo ano um bando de nós estávamos numa festa da piscina no Tara Flute. Beth Schiff estava se exibindo fazendo movimentos das líderes de torcida nos fundos, mas na verdade ela estava se exibindo pelo fato de que entre maio e julho ela conseguiu um par de seios tamanho G—definitivamente os maiores de qualquer garota aqui. Eu estava na casa pegando uma soda quando de repente Lindsay apareceu para mim, os olhos brilhando. Ela nunca tinha falado comigo antes. “Você tem de vir ver isso,” ela disse, agarrando meu braço. Seu hálito cheirava a sorvete. Ela me empurrou para o quarto de Tara, onde todas as garotas estavam empilhando seus sacos de dormir e mudando suas roupas. O saco de Beth era rosa e tinha suas iniciais gravadas com um bordado roxo no lado. Lindsay tinha obviamente olhado aquilo, porque ela imediatamente se abaixou e alcançou um estojo claro com um zíper, como o tipo que temos para guarda canetas quando estávamos no ensino fundamental. “Olhe!” ela o levantou, chacoalhando-o. Dentro havia dois tampões13. Eu não me lembro de como começou, mas de repente Lindsay e eu estávamos correndo pela casa, examinando os armários dos banheiros e as prateleiras, juntando todos os absorventes e tampões que a mãe de Tara e sua irmã mais velha tinham na casa. Eu estava tão feliz que estava tonta. Lindsay Edgecombe e eu estávamos conversando, e não apenas falando, mas rindo, e não apenas rindo, mas rindo tanto que eu tive de apertar minhas pernas juntas para não fazer xixi. Então nós corremos para o deck e começamos a atirar punhados e punhados de absorventes na festa da piscina abaixo. Lindsay estava gritando: “Beth! Esses caíram do seu saco!” Alguns dos absorventes caíram na água e todos os caras estavam se empurrando para sair da piscina como se eles fossem ser contaminados. Beth ficou no trampolim, molhada e tremendo, enquanto o resto de nós quase morreu de rir. Isso me lembra de quando meus pais me levaram ao Grand Canyon no quarto ano e me fizeram ficar no peitoril para tirar uma foto. Minhas pernas não tinham sido capazes de parar de tremer e meus pés tinham uma sensação de formigamento nas solas, como se eles estivessem se coçando para pular. Eu não podia parar de pensar em como era fácil cair, em como estávamos no alto. Depois que minha mãe tirou a foto e me deixou voltar do peitoril, eu comecei a rir e não podia parar. 13

Absorvente interno.

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Ficar no deck com Lindsay me deu a mesma sensação. Depois disso, Lindsay e eu nos tornamos melhores amigas. Ally veio depois, depois que ela e Lindsay ficaram juntas numa liga de hóquei de campo no verão anterior ao oitavo ano. Elody se mudou para Ridgeview no primeiro ano. Numa das primeiras festas do ano ela ficou com Sean Morton, por quem Lindsay era caída há seis meses. Todo mundo pensou que Lindsay iria matar Elody. Mas na segunda seguinte na escola Elody estava na nossa mesa de almoço, e ela e Lindsay estavam inclinadas sobre um prato de batatas fritas, rindo e agindo como se elas se conhecessem há séculos. Estou satisfeita. Embora Elody possa às vezes ser embaraçosa, acho que no fundo ela é a melhor de nós.

a festa Depois da escola fomos à casa de Ally. Quando éramos mais novas—no primeiro ao e metade do segundo—ficávamos lá algumas vezes, colocávamos máscaras de argila e pedíamos toda a comida chinesa que pudéssemos comer, tirando vinte dólares do pote de biscoitos na terceira prateleira da geladeira de Ally, onde o pai dela guarda mil dólares de emergência todas as vezes. Nós chamávamos essas coisas de “rolo de ovo de emergência”. Então nos deitávamos no enorme sofá dela e assistíamos filmes até que pegávamos no sono—a TV da sala de Ally é tão grande quanto à tela de um cinema—nossas pernas misturadas sob um enorme cobertor de lã. Desde o terceiro ano, entretanto, acho que não ficamos lá nem uma vez, exceto quando Matt Wilde terminou com Ally, e ela chorou tanto que na manhã seguinte seu rosto estava inchado, como o de uma toupeira. Hoje nós invadimos o closet de Ally para não termos de usar a mesma roupa na festa de Kent. Elody, Ally e Lindsay estão prestando atenção especial na minha aparência. Elody pinta minhas unhas de vermelho, suas mãos tremendo um pouco e acaba pintando minhas cutículas, fazendo parecer que eu estou sangrando, mas estou muito nervosa para me importar. Rob e eu vamos nos encontrar no Kent e ele já me mandou uma mensagem que diz Eu até arrumei minha cama p/ vc. Deixei Ally pegar minha roupa—uma blusa dourado metálico, muito grande para o meu peito, e um par dos loucos saltos dez centímetros de Ally (ela os chama de seus sapatos de stripper). Lindsay faz minha maquiagem, cantarolando e suspirando vodca em cima de mim. Nós já tomamos duas rodadas, misturando-a com suco de amora. Depois de tudo eu me tranco no banheiro, calor formigando das pontas dos meus dedos até minha cabeça, e tento memorizar exatamente como eu pareço ali, naquele segundo. Mas depois de um momento minhas feições parecem estar flutuando, como se eu estivesse vendo uma estranha. Quando eu era pequena eu costumava fazer isso bastante: trancar-me no banheiro e tomar banhos tão quentes que os espelhos ficavam completamente embaçados, e ficar ali, observando como meu rosto tomava forma atrás do vapor, esboços no início, e depois

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detalhes aparecendo gradualmente. Cada vez eu pensava que, quando meu rosto voltasse, eu veria alguém bonito, como se durante o meu banho eu tivesse me transformando em algo mais brilhante e melhor. Mas eu sempre parecia a mesma. Ao ficar no banheiro de Ally, eu sorri e pensei, Amanhã finalmente estarei diferente. Lindsay é meio obcecada por música, então ela faz para nós uma playlist para tocar no caminho até casa de Kent, embora ele viva apenas a algumas milhas de distância. Escutamos Dr. Dre e Tupac, e então gritamos “Baby Got Back” e todas as músicas depois dela. O mais estranho é, porém: enquanto estamos dirigindo por todas aquelas ruas familiares—ruas que eu conheço por toda a minha vida, ruas não familiares que posso têlas imaginado sozinha—eu tenho essa sensação de estar flutuando acima de tudo, pairando sobre todas as caras e estradas e campos e árvores, subindo e subindo acima do Rocky’s e Rite Aid e a estação de gás e Thomas Jefferson e o campo de futebol e as arquibancadas de metal onde nos sentamos e gritamos durante volta toda a casa. Como tudo é pequeno e insignificante. Como eu já estivesse apenas relembrando. Elody grita com todo o fôlego. Ela é a menos resistentes de todas nós. Ally tem o resto da vodca enfiada na sua bolsa, nada para acompanhá-la. Lindsay está dirigindo porque ela pode beber por toda a noite e sentir muito pouco. A chuva começa quando estamos quase lá, mas é tão leve que é quase como se estivesse pairado no ar, como uma grande cortina de vapor. Eu não me lembro da última vez que fui à casa de Kent—sua festa de nove anos, talvez?—e eu tinha me esquecido de como era nos fundos da floresta. A estrada parecia serpentar para sempre. Tudo que vemos é a luz fraca da do farol dianteiro se contorcendo, caminho de pedras se revelando galhos secos de árvores amontoados bem acima, e pequenas gostas de chuva como diamantes. “É assim como filmes de terror começam,” Ally diz, ajeitando sua blusa. Todas nós pegamos dela blusas emprestadas, mas ela insistiu em usar uma de pele, embora ela fosse uma das que inicialmente era contra. “Você tem certeza de que o número dele é quarenta e dois?” “É só um pouco mais distante,” digo, mesmo sem ter ideia, e estou começando a imaginar se fizemos a curva cedo demais. Tenho borboletas no meu estômago, mas não tenho certeza se elas são boas ou ruins. A floresta fica cada vez mais fechada até que ela está quase tocando as portas do carro. Lindsay começa a reclamar por causa da pintura. Bem quando parece que seremos sugadas para a escuridão, toda a floresta para completamente de repente e há o maior e mais bonito gramado que você possa imaginar, com uma casa branca no centro que parece ser feita de gelo. Tem um balcão e uma grande varanda que cerca seus dois lados. As venezianas são brancas também, e entalhadas com um design que é muito escuro para ser Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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decifrado. Eu não me lembro de nada disso. Talvez seja o álcool, mas acho que é a casa mais bonita que já vi. Estamos todas em silêncio por um minuto, observando. Metade da casa está às escuras, mas uma luz quente está brilhando do andar de cima, e quando chega ao gramado faz com que a grama pareça prateada. Lindsay diz, “É quase tão grande quanto a sua casa, Al.” Eu sinto por ela ter falado: parece com que o encanto tivesse sido quebrado. “Quase,” Ally diz. Ela tira a vodca da sua bolsa e toma um gole comprido, tosse, soluça, e limpa sua boca. “Dê-me um gole disso,” Elody diz, alcançando a garrafa. A garrafa está na minha mão antes que eu perceba. Tomo um gole. Queima na minha garganta e o gosto é horrível, como tinta ou gasolina, mas logo que desce sinto uma agitação. Saímos do carro e a luz da casa cresce e se expande, piscando para mim. Ir para festas sempre me deu uma sensação de dormência no fundo do meu estômago. É uma boa sensação, porém: a sensação de saber que qualquer coisa pode acontecer. Geralmente nada acontece, é claro. Geralmente uma noite se mistura a outra, e semanas se misturam em semanas, e meses em outros meses. E cedo ou tarde nós todos morremos. Mas no começo da noite tudo é possível. A porta da frente está trancada e temos de rodear a casa, onde uma porta se abre para um corredor bem estreito todo feito de madeira e um pequeno lance de escadas de madeira. Cheira a algo que eu me lembro da infância, mas não posso dizer exatamente o quê. Ouço o tinido de vidro de copo se quebrando e alguém grita: “Fogo no buraco!” Então Dujeous ruge dos alto-faltantes: All MCs in the house tonight, if your lyrics sound tight then rock the mic... A escada parece tão estreita que temos de nos apertar numa fila única porque pessoas estão descendo na direção oposta, com copos de cerveja vazios nas mãos. A maioria delas tem de se virar para que suas costas fiquem contra a parede. Digo oi para poucas pessoas e ignoro o resto. Como sempre sinto todos eles olhando para nós. É outra coisa boa de ser popular: você não tem de prestar atenção nas pessoas que prestam atenção em você. No topo das escadas um corredor turvo está cheio de luzes multicoloridas de natal. Há uma série de quartos, cada um dando início ao próximo, e todos pareciam estar cheios de tecidos drapejados e grandes travesseiros e poltronas e todas empacotados de pessoas. Tudo é macio, as cores, as superfícies, o modo como as pessoas se parecem—exceto a música, que bomba pelas paredes, fazendo o chão vibrar. As pessoas estão fumando dentro, também, então tudo está acontecendo atrás de véu azul grosso. Eu só fumei maconha uma vez, mas isso é o que eu imagino que é como estar alto.

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Lindsay se inclina para trás, e diz algo para mim, mas isso se perde nos murmúrios das vozes. Então ela tá se distanciando de mim, acenando através da multidão. Eu me viro, mas Elody e Ally se foram também, e antes que eu saiba meu coração está batendo forte e eu tenho essa sensação de formigamento nas minhas palmas. Recentemente eu venho tendo esse pesadelo no qual estou no meio de uma multidão enorme, sendo empurrada de um lado para o outro. Os rostos parecem familiares, mas há algo terrivelmente errado com todos eles: alguém parece com Lindsay, mas então sua boca é estranha e inclinada como se estivesse derretendo. E nenhum deles me reconhece. Obviamente ficar na casa de Kent não é o mesmo, dito que conheço todo mundo exceto alguns novatos e duas garotas que acho que são do segundo ano. Mas ainda assim, é o suficiente para me deixar um pouco pirada. Começo a caminhar até Emma Howser—ela é muito chata e normalmente não iria ser pega falando com ela nem morta, mas estou ficando desesperada—quando sinto braços grossos ao meu redor e o cheiro de erva-cidreira. Rob. Ele coloca sua boca molhada contra meu ouvido. “Sexy Sammy. Onde você esteve durante toda minha vida?” Eu me viro. Seu rosto está vermelho. “Você está bêbado,” digo, e sai de forma mais acusatória do que eu queria. “Sóbrio o bastante,” ele diz, falhando ao tentar levantar uma sobrancelha. “E você está atrasada.” Seu sorriso é preguiçoso. Apenas um meio sorriso. “Bebemos direto do barril.” “São dez horas,” eu digo. “Não estamos atrasadas. Eu te liguei, além disso.” Ele apalpa seus bolsos. “Devo ter colocado meu celular em algum lugar lá em baixo.” Reviro os olhos. “Você é um delinquente.” “Eu gosto quando você usa essas palavras grandes.” A outra metade do seu sorriso está subindo lentamente e sei que ele vai me beijar. Eu me viro para longe parcialmente, procurando pelas minhas amigas no cômodo, mas elas não estavam ali. No canto localizo Kent, usando uma gravata e uma camisa de colarinho três números grande demais para ele, que está meio enfiada em suas calças cáqui. Ao menos ele não está usando seu chapéu-coco. Ele está conversando com Phoebe Rifer e eles estão rindo de alguma coisa. Irrita-me que ele não tenha me notado ainda. Eu meio que esperava que ele olhasse para cima e viesse correndo para mim como ele geralmente faz, mas ele ainda se inclina mais para perto de Phoebe como se tentasse escutá-la melhor.

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Rob me puxa para ele. “Nós só vamos ficar por uma hora, ok? E depois vamos embora.” Seu hálito cheira a cerveja e um pouco a cigarros quando ele me beija. Fecho meus olhos e penso em como no sexto ano e o vi beijando Gabby Haynes e fiquei com tanto ciúme que não pude comer por dois dias. Eu imagino se eu pareço estar gostando. Gabby parecia, no sexto ano. Fico relaxada ao pensar em coisas assim: em quanto a vida é engraçada. Eu não tinha nem tirado minha jaqueta, mas Rob a abre e coloca suas mãos na minha cintura, e então debaixo da minha blusa. Suas palmas são grandes e estão suadas. Eu me afasto o bastante para dizer: “Não aqui, no meio de todo mundo.” “Ninguém está olhando,” ele diz, e fica passando a mão em mim novamente. É uma mentira. Ele sabe que todo mundo está nos vendo. Ele pode ver. Nem mesmo fecha seus olhos. Suas mãos estão sobre meu estômago e seus dedos estão puxando a armação do meu sutiã. Ele não é muito bom com sutiãs. Ele não é bom com seios em geral, na verdade. Quero dizer, não é como se eu soubesse como deveria ser, mas toda vez que ele toca meus seios ele meio que apenas massageia-os com força fazendo círculos. Meu ginecologista faz a mesma coisa quando vou fazer exame, então um deles está fazendo errado. E para ser honesta, não acho que é meu ginecologista. Se você quer saber o meu maior segredo, aqui está: sei que você deveria esperar para fazer sexo com alguém que você ame e tudo isso, e eu amo Rob—quero dizer, eu meio que o amo há séculos, então como eu não poderia?—mas não é por isso que decidi fazer sexo com ele hoje à noite. Eu decidi fazer sexo com ele porque eu quero logo me livrar disso, e porque sexo sempre me assustou e eu não quero mais ter medo dele. “Eu mal posso esperar pra acordar ao seu lado,” Rob diz, sua boca contra o meu ouvido. É uma coisa doce pra se falar, mas eu não consigo me concentrar enquanto as mãos dele estão em mim. E de repente me ocorre que eu nunca pensei sobre a parte de acordar. Eu não tenho ideia de sobre o que você deveria conversar no dia seguinte ao sexo, e eu imagino nós dois deitados lado a lado, sem nos tocar, calados, enquanto o sol nasce. Rob não tem cortinas em seu quarto—ele as rasgou uma vez quando estava bêbado—e durante o dia é como se um farol tivesse sido aceso em cima da cama ou um olho. “Vão para um quarto!” Eu me afasto de Rob quando Ally aparece perto de mim, fazendo uma careta. “Vocês dois são uns pervertidos,” ela diz.

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“Isso é um quarto.” Rob levanta os dois braços e faz um gesto em volta dele. Ele derrama um pouco de cerveja em minha blusa, e eu faço um barulho, irritada. “Desculpe, bebê.” Ele dá de ombros. Agora há apenas um dedo de cerveja em seu copo e ele o encara, franzindo o cenho. “Vou encher meu copo. Vocês querem?” “Nós trouxemos as nossas.” Ally acaricia a garrafa de vodca em sua bolsa. “Esperta.” Rob traz um dedo para bater no lado de sua cabeça, mas acaba quase arrancando um olho ao invés. Ele está mais bêbado do que eu pensava. Ally põe uma mão sobre a boca e ri. “Meu namorado é um idiota,” eu digo assim que ele se afasta. “Um idiota bonitinho,” Ally me corrige. “Isso é como dizer ‘um mutante bonitinho.’ Não existe.” “Claro que existe.” Ally olha ao redor da sala, fazendo beicinho para fazer com que seus lábios parecessem mais beijáveis. “Pra onde você foi, de qualquer maneira?” Eu estou me sentindo mais irritada do que devia sobre tudo: pelas minhas amigas terem me deixado depois de 30 segundos inteiros, pelo fato de que Rob está tão bêbado, pelo fato de que Kent ainda está conversando com Phoebe Rifer, quando ele deveria estar obsessivamente apaixonado por mim. Não que eu queira que ele esteja apaixonado por mim, obviamente. É que é apenas uma constante que sempre foi confortante para mim, de um jeito estranho. Eu luto para tirar a garrafa da bolsa de Ally e tomo outro gole. “Nós demos uma volta. Tem, tipo, uns dezessete quartos diferentes aqui em cima. Você deveria dar uma olhada.” Ally olha para mim, nota a minha cara, e levanta as mãos. “O quê? Não é como se nós tivéssemos te abandonado no meio do nada.” Ela está certa. Eu não sei por que estou me sentindo tão irritada. “Pra onde Lindsay e Elody foram?” “Elody foi sugada para o colo de Muffin. E Lindsay e Patrick estão brigando.” “Já?” “Sim. Bem, eles se beijaram nos primeiros três minutos. Esperaram até o quarto minuto pra começarem.” Isso me faz rir e Ally e eu rimos juntas. Eu começo a me sentir melhor, mais confortável. A vodca enche minha cabeça de calor. Mais pessoas continuam chegando o tempo todo e a sala parece estar girando um pouco. Mas é uma sensação legal, como estar em um carrossel muito lento. Ally e eu decidimos ir em uma missão para salvar Lindsay antes que sua discussão com Patrick se transforme em uma luta física.

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Parece que a escola inteira apareceu, mas na verdade há somente sessenta ou setenta pessoas. Isso é o máximo que sempre aparece em uma festa. Há o topo e o meio dos finalistas, em termos de popularidade—Kent mal consegue ficar no degrau mais baixo da escala, mas ele é o anfitrião, então tudo bem—algumas das pessoas mais legais do terceiro ano, e um ou dois segundanistas muito legais. Eu sei que deveria odiá-los, como nós fomos odiados quando éramos segundanistas em todas as festas dos finalistas, mas eu não consigo me importar. Ally dá a um grupo deles um de seus olhares gélidos quando passamos, e diz putas em voz alta. Uma delas, Rachel Kornish, supostamente transou com Matt Wilde não muito tempo atrás. Obviamente, nenhum calouro é permitido. O fundo da escala social também não aparece. Isso não é porque eles iriam ser ridicularizados ou algo do tipo, embora eles provavelmente não fossem ser. É mais do que isso. Eles não ouvem falar dessas festas até que elas tenham acontecido. Eles não sabem as coisas que nós sabemos: eles não sabem da entrada paralela secreta para a casa de hóspedes de Andrew Roberts, ou do fato de que Carly Jablonski instalou um freezer em sua garagem onde você pode manter suas cervejas geladas, ou do fato de que o Rocky’s não checa as identidades com cuidado, ou do fato de que o Mic’s fica aberto a noite toda e faz os melhores ovos com queijo do mundo, completamente pingando gordura e ketchup, perfeitos para quando você está bêbado. É como se o Ensino Médio tivesse dois mundos paralelos, girando uma ao redor do outro e nunca se tocando: os que têm e os que não têm. Acho que isso é uma coisa boa. O Ensino Médio deve preparar você para o mundo real, afinal. Há tantos pequenos corredores e quartos, que parece um labirinto. Todos eles estão cheios de pessoas e fumaça. Apenas uma porta está fechada. Ela tem um grande aviso de FIQUE LONGE colado sobre um monte de adesivos estranhos que diziam coisas como VISUAZALIZE ERVILHAS GIRANDO e BEIJE-ME, SOU IRLANDÊS. Pelo momento que chegamos a Lindsay, ela e Patrick fizeram as pazes, grande surpresa. Ela está sentada no colo dele e ele está fumando um baseado. Elody e Steve Dough estão em um canto. Ele está encostado na parede e ela está meio dançando e meio se esfregando nele. Ela tem um cigarro apagado na boca, com o filtro por lado de fora, e seu cabelo está uma bagunça. Steve está estabilizando ela, usando um braço apara mantêla de pé, mas ele está conversando com Liz Hummer (seu nome verdadeiro—e, coincidentemente, o seu carro) como se Elody não estivesse nem lá, muito menos se esfregando nele. “Pobre Elody,” eu disse. Eu não sei por que de repente me sinto mal por ela. “Ela é legal demais.” “Ela é uma puta,” Ally diz, mas não de um jeito ruim. “Você acha que nós iremos nos lembrar disso?” Eu não sei de onde as palavras vieram. Minha cabeça está pesada e imprecisa, pronta para flutuar para longe. “Você acha que vamos nos lembrar de qualquer coisa dessas daqui a dois anos?”

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“Eu não vou lembrar nem amanhã.” Ally ri, batendo na garrafa em minha mão. Há apenas um quarto dela sobrando. Eu não consigo lembrar quando nós bebemos tudo aquilo. Lindsay dá um gritinho quando nos vê e levanta do colo de Patrick, jogado um braço ao redor de cada uma de nós como se já fizesse anos que ela não nos via. Ela pega a vodca da minha mão e toma um gole em quanto seu braço ainda está em volta de mim, apertando meu pescoço com seu cotovelo momentaneamente. “Onde vocês foram?” ela grita. A voz dela está alta, mesmo contra a música e o som de todo mundo falando e rindo. “Eu estava procurando em todos os lugares por vocês.” “Mentira,” eu digo, e Ally diz “Na boca de Patrick, talvez.” Nós estamos rindo do fato de que Lindsay é uma mentirosa, e Elody é uma bêbada e Ally é obsessiva-compulsiva e eu sou antissocial, e alguém quebra uma janela para deixar a fumaça sair, e uma névoa fina de chuva começa a entrar, cheirando a grama e coisas frescas, mesmo estando no meio morto do inverno. Sem ninguém notar eu recuo minha mão e a coloco no peitoril, apreciando o ar congelante e a sensação de uma centena de agulhadas de chuva. Eu fecho meus olhos e prometo a mim mesma jamais esquecer esse momento: o som da risada dos meus amigos e o calor de tantos corpos e o cheiro de chuva. Quando eu abro meus olhos eu tenho o choque da minha vida. Juliet Sykes está na porta, olhando para mim. Ela está olhando para nós, na verdade: Lindsay, Ally e Elody, que havia acabado de deixar Steve e se juntar a nós, e eu. O cabelo de Juliet está puxado para trás em um rabo de cavalo, e eu acho que é a primeira vez que eu realmente vi seu rosto. É chocante que ela esteja lá, mas é ainda mais chocante que ela seja bonita. Ela tem olhos azuis afastados e maçãs do rosto altas, como os de uma modelo. Sua pele é perfeitamente limpa e branca. Eu não consigo parar de olhar para ela. As pessoas estão dando cotoveladas e a empurrando porque ela está bloqueando a porta, mas só fica ali, encarando. Ally é a primeira a compreender e sua boca se abre. “Mas que...?” Elody e Lindsay se viram para ver o que estamos olhando. Lindsay empalidece primeiramente—ela na verdade parece com medo, o que é muito estranho, mas eu não tenho tempo de pensar sobre isso porque rapidamente seu rosto fica roxo, e ela parece disposta a arrancar a cabeça de alguém. Essa é uma expressão mais natural para ela. Elody começa a dar risinhos histéricos até que ela se dobra e tem que cobrir a boca com ambas as mãos.

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“Eu não posso acreditar,” ela diz. “Eu não posso acreditar.” Ela começa a tentar cantar “Psycho killer, qu’est-ce que c’est,” mas nós ainda estamos em choque e não acompanhamos.

Você sabe como nos filmes alguém diz ou faz algo impróprio e a música para e há um silêncio de repente? Bem, não é exatamente isso que acontece, mas é próximo. A música não para, mas à medida que todos na sala começam a perceber o fato de que Juliet Sykes—molhadora de cama, aberração e psicopata completa—está em pé no meio de uma festa dando a quatro das garotas mais populares da escola Thomas Jefferson um olhar matador, a conversa morre aos poucos e um som baixo de sussurros enche a sala, ficando mais alto e mais insistente até virar um zumbido constante, até soar como o vento ou o mar. Juliet Sykes finalmente deixa a porta e entra na sala. Ela anda devagar e confiantemente em nossa direção—eu nunca a vi parecer tão calma—parando a um metro de Lindsay. “Você é uma cadela,” ela diz. Sua voz é estável e alta demais, como se ela estivesse falando com todos dentro da sala. Eu sempre imaginei que a voz dela fosse ser aguda ou rouca, mas é tão cheia e forte quanto a de um garoto. Leva meio segundo para que Lindsay encontre a voz. “Com licença?” ela coaxa. Juliet não fez contato visual com Lindsay desde a quinta série, muito menos falou com ela. Muito menos a insultou. “Você me ouviu. Uma cadela. Uma garota mesquinha. Uma má pessoa.” Juliet se vira pra Ally em seguida. “Você também é uma cadela.” Para Elody, “Você é uma cadela.” Ela vira seus olhos para mim e por um momento eu vejo algo brilhando lá—algo familiar—mas aquilo some tão rápido quanto apareceu. “Você é uma cadela.” Nós todas estamos tão chocadas que não sabemos como responder. Elody ri nervosamente de novo, soluça, e fica calada. A boca de Lindsay abre e fecha como a de um peixe, mas nada sai dela. Ally está fechando os punhos como se ela estivesse pensando em acertar a cara de Juliet. E mesmo que eu esteja furiosa e embaraçada, a única coisa que eu penso quando olho para Juliet é: Eu nunca soube que você era tão bonita. Lindsay se recupera. Ela se inclina para frente até que seu rosto esteja a poucos centímetros do de Juliet. Eu nunca a vi tão brava. Eu penso que seus olhos vão pular pra fora das órbitas. A boca dela está retorcida em um rosnado, como a de um cachorro. Por um segundo ela parece real e verdadeiramente feia.

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“Eu prefiro ser uma cadela que uma psicopata,” ela sibila, agarrando Juliet pela blusa. Saliva está saindo pela boca dela—é o quanto ela está com raiva. Ela empurra Juliet para trás, que tropeça em Matt Dorfman. Ele a empurra novamente e ela é jogada em direção a Emma McElroy. Lindsay começa a gritar “Psicopata, Psicopata,” e fazer os barulhos agudos das facadas do filme, e de repente todos estão gritando “Psicopata,” e fazendo o movimento de uma facada e guinchando e empurrando Juliet para todos os lados. Ally é a primeira a jogar cerveja na cabeça dela, mas todo mundo imita isso também. Lindsay joga vodca na cara dela, e quando Juliet tropeça em minha direção, eu agarro uma cerveja pela metade do peitoril da janela e jogo nela. Eu nem mesmo noto que estou gritando junto com todo mundo até minha garganta estar doendo. Juliet olha para mim depois que eu joguei a cerveja. Eu não posso explicar—é loucura—mas é quase um olhar de pena, como se ela se sentisse mal por mim. Todo o fôlego deixa meu corpo de uma vez, e eu sinto como se tivesse sido socada no estômago. Sem pensar, eu pulo nela e a empurro o mais forte que posso, e ela vai para trás até bater em uma estante que quase cai. Eu a empurro pelas costas em direção à porta, e enquanto todo mundo ainda está gritando “Psicopata”, ela sai correndo da sala. Ela tem que se esgueirar por Kent. Ele acabou de entrar, provavelmente para ver por que todo mundo está gritando. Nossos olhos se encontram por um momento. Eu não posso dizer exatamente o que ele está pensando, mas o que quer que seja, não é bom. Eu desvio o olhar, me sentindo quente e desconfortável. Todos estão zumbindo com energia agora, rindo e falando sobre Juliet, mas minha respiração não está voltando ao normal e eu sinto a vodca queimando em meu estômago, subindo pelo fundo da minha garganta. A sala está sufocante, girando mais rápido que antes. Eu preciso sair para pegar um ar. Eu tento empurrar meu caminho em direção à porta, mas Kent fica na minha frente e bloqueia meu caminho. “Mas que merda foi aquela?” Ele exige. “Você pode me deixar passar, por favor?” Eu não estou no clima de lidar com ninguém, e eu especialmente não estou no clima de lidar com Kent e sua estúpida camisa de botões. “Algum dia ela fez alguma coisa a você?” Eu cruzo os braços. “Entendi. Você é amigo da Psicopata. É isso?” Ele estreita os olhos. “Apelido bem esperto. Você pensou nele sozinha, ou suas amigas tiveram que ajudar você?” “Saia do meu caminho.” Eu consigo me esgueirar por ele, mas ele agarra meu braço. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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“Por quê?” ele diz. Nós estamos tão perto que eu consigo sentir que ele acabou de comer menta e ver o sinal em forma de coração embaixo de seu olho esquerdo, embora todo o resto esteja embaçado. Ele está olhando para mim como se estivesse desesperado para entender alguma coisa, e isso é pior, muito pior do que qualquer coisa até agora—do que Juliet ou a raiva dele ou a sensação de que eu vou passar mal a qualquer segundo. Eu tento tirar a mão dele do meu braço. “Você não pode simplesmente agarrar as pessoas, sabia? Você não pode simplesmente me agarrar. Eu tenho um namorado.” “Mantenha sua voz baixa. Eu só estou tentando-” “Olhe.” Eu consigo me soltar. Eu sei que estou falando muito alto e rápido. Eu sei que soo histérica, mas não posso fazer nada. “Eu não sei qual é o seu problema, ok? Eu não vou começar a namorar você. Eu não namoraria você nem daqui a um milhão de anos. Então você pode parar de se obcecar comigo. Quero dizer, eu nem deveria saber o seu nome.” As palavras voam da minha boca e é como se elas me estrangulassem: de repente eu não consigo mais respirar. Kent me encara fortemente. Então ele se aproxima ainda mais. Por um segundo eu penso que ele vai me beijar e meu coração para. Mas ele apenas põe sua boca contra meu ouvido e fala, “Você não me engana.” “Você não me conhece.” Eu dou um passo para trás, tremendo. “Você não sabe nada sobre mim.” Ele levanta as mãos em rendição e se afasta. “Você está certa. Eu não sei.” Ele começa a se virar e murmura alguma coisa. “O que você disse?” Meu coração está batendo no meu peito tão forte que eu acho que ele vai explodir. Ele se volta para olha para mim. “Eu disse, ‘Graças a Deus’.” Eu dou um giro, desejando não ter pegado emprestado um par de sapatos de salto alto de Ally. A sala gira comigo e eu preciso me apoiar no corrimão. “O seu namorado está lá embaixo, vomitando na pia da cozinha,” Kent fala para mim. Eu dou um cotoco sobre meu ombro sem me virar para ver se ele está me olhando, mas eu tenho a impressão de que ele não está. Mesmo antes de descer para ver se o que Kent falou sobre Rob era verdade, eu sei que é: esta noite não é a noite, afinal. A combinação de desapontamento e alívio é tão esmagadora que eu preciso me segurar nas paredes enquanto ando, sentindo as escadas espiralarem acima de mim como se elas fossem desaparecer a qualquer segundo. Esta noite não é a noite. Amanhã eu irei acordar e ser exatamente a mesma, e o mundo parecerá Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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exatamente o mesmo, e tudo terá o mesmo gosto e cheiro e tato de antes. Minha garganta fica apertada e meus olhos começam a arder, e tudo o que eu consigo pensar naquele momento é que é tudo culpa de Kent. De Kent e de Juliet Sykes. Meia hora depois a festa começa a morrer. Do lado de dentro, alguém arrancou as luzes de Natal da parede e elas estão espalhadas pelo chão como uma cobra, iluminando as bolas de poeira nos cantos. Eu estou me sentindo melhor agora, mais como eu mesma. “Sempre há um amanhã,” Lindsay me diz, quando eu conto a ela sobre Rob, e eu repito a frase na minha cabeça de novo e de novo como um mantra: Sempre há um amanhã. Sempre há um amanhã. Eu passo vinte minutos no banheiro, primeiro lavando meu rosto e então reaplicando minha maquiagem, embora minhas mãos estejam pouco firmes e meu rosto fique duplicando na frente do espelho. Toda vez que eu me maquio isso me lembra de minha mãe—eu costumava olhá-la se inclinar na frente da penteadeira, se arrumando para encontros com meu pai—e isso me acalma. Sempre há um amanhã. É a parte da noite que eu mais gosto, quando a maior parte das pessoas está dormindo e parece que o mundo pertence completamente a minhas amigas e eu, como se nada existisse fora de nosso pequeno círculo: todos os outros lugares estão escuros e quietos. Eu saio com Elody, Ally e Lindsay. A multidão está diminuindo à medida que as pessoas vão embora, mas ainda é difícil de se mover. Lindsay continua gritando “Com licença, com licença, saiam da frente, emergência feminina!” Anos atrás nós descobrimos em um show para menores em Poughkeepsie que nada faz as pessoas saírem da frente mais rápido do que referir uma emergência feminina. É como se as pessoas pensassem que vão pegar também. No nosso caminho para a saída nós passamos por pessoas se agarrando nos cantos e contra a escada. Por trás de portas fechadas nós ouvimos o som abafado de risadas. Elody bate seu punho em todas as portas e grita: “Sem camisinha, sem sexo!” Lindsay se vira e sussurra alguma coisa para Elody, e Elody se cala e me olha com uma expressão culpada. Eu quero falar para elas que eu não me importo—não me importo com Rob ou com ter perdido minha chance—mas de repente eu estou cansada demais para falar. Nós vemos Bridget McGuire sentada na beira de uma banheira com a porta apenas entreaberta. Ela tem a cabeça entre as mãos e está chorando. “O que há de errado com ela?” eu digo, tentando lutar contra a sensação de estar nadando em minha própria cabeça, de minhas palavras soarem distantes.

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“Ela terminou com Alex.” Lindsay segura meu cotovelo. Ela parece sóbria, mas suas pupilas estão enormes e seus olhos vermelhos. “Você não vai acreditar. Ela descobriu que a Nic Nazi pegou Alex e Anna juntos. Ele disse que estava em uma consulta médica.” A música ainda está tocando, então não podemos ouvir Bridget, mas os ombros dela estão tremendo como se ela estivesse tendo uma convulsão. “Ela está melhor sem ele. Filho da mãe.” “Todos eles são uns filhos da mãe!” Elody diz, levantando sua cerveja e derramando um pouco. Eu nem mesmo acho que ela saiba do que estamos falando. Lindsay pega o seu copo e o põe sobre uma mesa, em cima de uma cópia gasta de Moby Dick. Ela põe no bolso uma pequena estátua também: uma pastora com cabelos loiros cacheados e cílios pintados. Ela sempre rouba alguma coisa das festas. Ela chama de souvenires. “É bom que ela não vomite no Tank,” ela diz em um sussurro, apontando com a cabeça para Elody. Rob está deitado em um sofá no andar de baixo, mas ele consegue segurar minha mão quando eu passo e tenta me puxar para cima dele. “Aonde você vai?” ele diz. Seus olhos estão desfocados e sua voz está rouca. “Vamos, Rob. Me solta.” Eu o empurro para longe de mim. Isso também é culpa dele. “Mas nós íamos...” Sua voz some e ele sacode a cabeça, confuso, e então estreita seus olhos para mim. “Você está me traindo?” “Não seja burro.” Eu quero voltar a noite toda, voltar as últimas semanas, voltar para o momento quando Rob se inclinou, descansou seu queixo em meu ombro, e me disse que queria dormir ao meu lado, voltar para aquele momento quieto na sala escura com a TV azul e muda em frente a nós e o som da respiração dele e meus pais dormindo no andar de cima, voltar para o momento em que eu abri minha boca e ouvi “eu também quero.” “Você está. Você está me traindo. Eu sabia.” Ele fica em pé com um pulo e olha ao redor descontroladamente. Chris Harmon, um dos melhores amigos de Rob, está de pé em um canto rindo de alguma coisa, e Rob tropeça em direção a ele. “Você está me traindo com minha namorada, Harmon?” Rob grita, e empurra Chris, que tropeça e bate contra uma estante. Uma estatueta de porcelana se desequilibra e cai e uma garota grita. “Você está louco?” Chris pula de volta em Rob e de repente eles estão travados um contra o outro, brigando, rolando pela sala e batendo nas coisas, grunhindo e gritando. De algum jeito Rob consegue deixar Chris de joelhos e então os dois estão no chão. Garotas Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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estão gritando e saindo do caminho. Alguém grita, “Cuidado com a cerveja!” logo antes de Rob e Chris chegarem à entrada da cozinha, onde o barril está. “Vamos, Sam.” Lindsay aperta meu ombro por trás. “Eu não posso simplesmente deixar ele,” eu digo, embora uma parte de mim queira. “Ele vai ficar bem. Veja—ele está rindo.” Ela está certa. Ele e Chris já pararam de brigar e estão jogados no chão, morrendo de rir. “Rob vai ficar tão irritado,” eu digo, e Lindsay sabe que eu estou falando de mais do que deixar ele sozinho na festa. Ela me dá um abraço rápido. “Lembre-se do que eu te disse.” Ela começa a cantarolar. “Só pensar no amanhã já leva embora todas as teias de aranha e mágoas...14” Por um momento meu estômago aperta, pensando que ela está tirando sarro de mim, mas é uma coincidência. Lindsay não me conhecia quando eu era pequena, não iria nem ao menos falar comigo. Ela não tem como saber que eu costumava me trancar em meu quarto com a trilha sonora de Annie e cantar essa música o mais alto que podia até que meus pais ameaçassem me jogar na rua. A melodia começa a se repetir na minha cabeça e eu sei que vou ficar cantando essa música por dias. Amanhã, amanhã, eu te amo, amanhã. Uma bela palavra, quando você realmente pensa sobre ela. “Festa ruim, não?” Ally diz, vindo para o meu outro lado. Mesmo sabendo que ela só disse isso porque Matt Wilde não apareceu, eu estou feliz que ela tenha dito. O som da chuva está mais alto que eu achava que estivesse e isso me assusta. Por um momento nós ficamos em pé debaixo do beiral do telhado, olhando nossas respirações condensarem em nuvens, abraçando nossos corpos. Está congelando. Água cai em uma torrente constante do beiral. Christopher Tomlin e Adam Wu estão jogando garrafas de cerveja vazias no mato. De vez em quando ouvimos uma quebrar, e o som volta para nós como se fosse de um tiro. Pessoas estão rindo e gritando e correndo na chuva, que está caindo tão forte que tudo parece estar derretendo em todo o resto. Não há vizinhos para chamar a polícia em milhas. A grama está revirada, grandes buracos negros de lama expostos. Faróis estão brilhando à distância, entrando e saindo, aparecendo e desaparecendo, à medida que os carros descem a estrada em direção à Rota 9.

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Letra da música Tomorrow, que faz parte do filme musical Annie.

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“Corram!” Lindsay grita, e eu sinto Ally me puxando e então nós estamos correndo, gritando, a chuva nos cegando e escorrendo por nossas jaquetas, a lama entrando em nossos sapatos; chuva tão forte que parece que tudo está derretendo. Pelo tempo que chegamos ao carro de Lindsay eu realmente não me importo com o jeito horrível que a noite aconteceu. Nós estamos rindo histericamente, ensopadas e tremendo de frio, acordadas com o frio e a chuva. Lindsay está gritando sobre marcas de bumbum molhado em seus bancos de couro e lama nos tapetes, e Elody está implorando a ela para irmos ao Mic’s para comer ovos com queijo e reclamando que eu sempre fico com o banco do carona, e Ally está gritando para que Lindsay ligue o aquecedor e ameaçando cair morta ali mesmo de pneumonia. Eu acho que é assim que nós começamos a conversar sobre isso: morrer, eu quero dizer. Eu calculo que Lindsay está bem para dirigir, mas eu noto que ela está indo mais rápido que o normal naquela terrível, longa e fechada estrada. As árvores parecem esqueletos nus em ambos os nossos lados, gemendo com o vento. “Eu tenho essa teoria,” eu estou dizendo quando Lindsay derrapa para fora ao entrar na Rota 9 e os pneus cantam contra a estrada negra e escorregadia. O relógio no painel está brilhando: 00:38. “Eu tenho essa teoria de que antes de morrer você vê seus maiores sucessos, vocês sabem? As melhores coisas que você fez.” “Duke, baby,” Lindsay diz, e tira uma mão do volante para bombear o punho no ar. “Primeira vez que eu fiquei com Matt Wilder,” Ally diz imediatamente. Elody geme e se inclina para frente, querendo pegar o iPod. “Música, por favor, antes que eu me mate.” “Posso pegar um cigarro?” Lindsay pergunta, e Elody acende um para ela na ponta do que está segurando na mão. Lindsay abre as janelas, e a chuva congelante entra. Ally começa a reclamar do frio novamente. Elody põe “Splinter”, do Fallacy, para irritar Ally, talvez porque ela esteja cansada de suas reclamações. Ally a chama de cadela e tira seu cinto de segurança, se inclinando para frente e tentando agarrar o iPod. Lindsay reclama que alguém está cotovelando seu pescoço. O cigarro cai de sua boca e para entre suas coxas. Ela começa a xingar e tentar tirar as brasas do assento do banco, e Elody e Ally ainda estão brigando e eu estou tentando falar mais alto que todas elas, lembrando-as de quando nós fizemos anjos de neve, em maio. O relógio avança: 00:39. Os pneus derrapam um pouco na pista molhada e o carro está cheio de fumaça de cigarro, pequenos tufos subindo como fantasmas no ar. Então de repente há um clarão branco na frente do carro. Lindsay grita alguma coisa—palavras que eu não consigo distinguir, algo como sim ou sai ou saia—e de repente o carro está saindo da estrada e para a boca escura da floresta. Eu ouço um som horrível,

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guinchante—metal no metal, vidro estilhaçando, um carro dobrando em dois—e sinto cheiro de fogo. Eu tenho tempo para me perguntar se Lindsay apagou seu cigarro— E então—

É aí que acontece. O momento da morte é cheio de calor e som e dor maior do que qualquer coisa, um funil de calor queimante me partindo em duas, algo secando e encrostando e rasgando, e se gritar fosse uma sensação, seria essa. Então nada. Eu sei que alguns de vocês estão pensando que talvez eu tenha merecido. Talvez eu não devesse ter mandando aquela rosa para Juliet ou jogado minha bebida nela na festa. Talvez eu não devesse ter copiado a prova de Lauren Lornet. Talvez eu não devesse ter dito aquelas coisas para Kent. Provavelmente há alguns de vocês que acham que eu mereci aquilo porque eu ia deixar Rob ir até o fim—porque eu não ia me guardar. Mas antes que vocês comecem a apontar dedos, deixem-me perguntar: o que eu fiz foi realmente tão ruim? Tão ruim que eu merecesse morrer? Tão ruim que eu merecesse morrer daquele jeito? Será que o que eu fiz é tão pior do que o que todo mundo faz? Será que é realmente tão pior do que o que você faz? Pense nisso.

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dois Em meu sonho eu sei que estou caindo, mas não existe um para cima ou para baixo, nem paredes ou lados ou limites, apenas a sensação de frio e escuridão por toda parte. Estou tão assustada que poderia gritar, mas quando abro a boca nada acontece, e eu me pergunto, se você cair para sempre e nem tocar o chão, ainda é realmente caindo? Eu acho que vou cair para sempre. Um barulho interrompe o silêncio, um pequeno som que cresce cada vez mais, até que se torna como uma foice de metal cortando o ar, cortando em mim— Então eu acordo. Meu alarme esteve tocando por vinte minutos, são seis e cinquenta da manhã. Eu sento na cama, afastando o cobertor. Estou ensopada de suor, embora meu quarto esteja frio. Minha garganta está seca e estou desesperada por água, como se estivesse correndo um longo caminho. Por um segundo, quando eu olho ao redor do quarto tudo parece confuso e um pouco distorcido. Como se não visse meu quarto, mas sim uma transparência dele que não foi colocada corretamente e os cantos não coincidissem com o real. Então, a luz muda e tudo parece normal novamente. Tudo volta de uma vez para mim e o sangue começa a golpear minha cabeça: A festa, Juliet Sykes, a briga com Kent— “Sammy!” Minha porta abre, chocando contra a parede e Izzy atravessa o quarto correndo, pisando nos meus cadernos, meu jeans usado e minha blusa da Victoria’s Secret “Team Pink”. Algo está nas bordas da minha memória, mas logo desaparece e Izzy salta na minha cama, colocando seus braços ao meu redor. Estão quentes. Ela enrola sua mão em torno do colar que eu sempre uso, uma corrente fina de ouro com um pequeno pingente de pássaro pendurado nela, um presente da minha avó—e puxa gentilmente. “Mamãe disse que você tem que levantar.” Sua respiração cheira a manteiga de amendoim e não é até que tiro ela de cima de mim que eu percebo que estou tremendo. “É sábado,” digo. Não tenho ideia de como cheguei em casa ontem à noite. Não tenho ideia do que aconteceu com Lindsay ou Elody ou Ally. E só pensar nisso me faz mal.

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Izzy começa a rir como louca e salta da cama, correndo em direção à porta. Ela desaparece no corredor e a escuto gritar: “Mamãe, Sammy não vai levantar”. Ela fala meu nome como se fosse Shammy. “Não me faça ir até ai, Sammy!” A voz da minha mãe faz eco da cozinha. Eu coloco meus pés no chão. A sensação da madeira fria me tranquiliza. Quando era pequena, me deitava no piso durante todo o verão, quando meu pai se negava a colocar o ar condicionado, era o único lugar que permanecia frio. Estou tentado a fazer o mesmo agora. Sinto-me febril. Rob, a chuva, o som de garrafas se quebrando na floresta... Meu telefone toca, me fazendo pular. Eu o alcanço e abro. Há uma nova mensagem de texto de Lindsay. To aki fora. Ond vc ta? Eu fecho meu telefone rapidamente, mas não antes de ver a data piscando para mim: sexta-feira, 12 de fevereiro. Ontem. Outro som. Outro texto. Num me faz atrasar no Dia do Cupido, vadjeaaa!!! De repente eu sinto como se estivesse me movendo debaixo d’água, como se não pesasse nada, me vendo de certa distância. Eu tento ficar de pé, mas quando faço, o fundo do meu estômago quer sair e tenho que correr para o banheiro do corredor, com as pernas tremendo, com certeza eu vou vomitar. Fecho a porta e ligo a água, tanto da pia quanto do chuveiro, depois fico sobre a privada. Meu estômago se contrai, mais não sai nada. O carro, a derrapagem, os gritos— Ontem. Ouço vozes no corredor, mas a água está fazendo um barulho tão forte que não consigo escutar o que dizem. Não é até que alguém começa a bater na porta que eu me recomponho e grito: “O quê?” “Sai do chuveiro, não tem tempo.” É Lindsay—minha mãe a deixou entrar. Eu abro um pouco a porta e lá está ela, seu grande casaco acolchoado fechado até o queixo, olhando chateada. Eu estou feliz em vê-la de qualquer forma. Ela parece tão normal, tão familiar.

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“O que aconteceu ontem à noite?” pergunto. Ela franze a testa por um segundo. “Sim, sinto muito sobre isso. Não pude ligar de volta. Eu não consegui desligar o telefone com Patrick até, tipo, três da manhã.” “Ligar de volta?” sacudo a cabeça. “Não, quero dizer—” “Ele está chateado porque seus pais vão a Acapulco sem ele.” Rola os olhos. “Pobre bebê, juro para você, Sam, os homens são como animais de estimação: alimentá-los, fazer carinho e colocá-los na cama.” Ela se inclina para frente. “Falando nisso, você está animada sobre hoje à noite?” “O que?” Não sei do que ela está falando. Não entendo suas palavras, se misturam. Estou me sustentando no toalheiro, com medo de cair. O chuveiro está muito quente e há um vapor denso por toda parte que cobre o espelho, condensando-se nos azulejos. “Você, Rob, algumas Miller Lite15 e seus lençóis de flanela.” Ela ri. “Muito romântico.” “Tenho que tomar banho.” Tento fechar a porta, mas ela coloca seu cotovelo na mesma hora para evitar e entra no banheiro. “Ainda não banhou?” ela balança a cabeça. “Uh-uh. De jeito nenhum. Você vai ter que sair sem tomar banho.” Ela se aproxima do chuveiro e desliga a água. Então pega minha mão e me arrasta pelo corredor. “Embora, definitivamente, você precise de maquiagem,” diz olhando para o meu rosto. “Você está péssima. Teve pesadelo?” “Algo parecido.” “Tenho minhas coisas da MAC no Tank.” Ela desabotoa o casaco e vejo um pouco de pelúcia branca que sai do decote: Nossas blusas brancas do dia do cupido. De repente tenho o desejo de sentar no chão e rir e rir. E tenho que me esforçar para não fazer isso ali mesmo enquanto Lindsay me empurra para o meu quarto. “Vista-se,” diz e tira o celular. Provavelmente para mandar uma mensagem para Elody dizendo que vamos chegar tarde. Olha-me por um segundo e logo se vira com um suspiro. “Espero que Rob não se importe,” ela diz e solta um riso. Começo a colocar minha roupa: a blusa, a saia, as botas. Novamente. 15

Marca de cerveja.

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essa camisa de força faz com que meu bumbum pareça grande? Quando Elody entra no carro, ela se inclina para frente para pegar seu café e o cheiro do seu perfume (O spray corporal de framboesa que ela ainda compra religiosamente na Bod shop no shopping, embora tenha saído de moda na sétima série). É tão real, nítido e familiar que eu tenho que fechar os olhos, oprimida. Má ideia. Com os olhos fechados, vejo as cálidas luzes da casa de Kent afastando-se no espelho retrovisor e as suaves e brilhantes árvores amontoando-se ao nosso lado como esqueletos. Eu cheiro a queimado. Escuto Lindsay gritar e sinto meu estômago sair enquanto o carro se desequilibra para o lado, os pneus guinchando... “Merda.” Abro os olhos ao mesmo tempo em que Lindsay desvia para evitar um esquilo. Ela joga seu cigarro pela janela e o cheiro da fumaça é estranhamente duplo: não tenho certeza se estou cheirando, lembrando ou ambos. “Você realmente é a pior motorista.” Elody sorri. “Tenha cuidado, por favor,” eu murmuro. Estou segurando os lados da minha cadeira sem querer. “Não se preocupe,” Lindsay se inclina e dá um tapinha em meu joelho. “Não deixarei que a minha melhor amiga morra virgem.” Estou desesperada para contar tudo a Lindsay e Elody neste momento, de perguntar o que aconteceu comigo, com a gente, mas não consigo pensar em nenhuma forma de dizer. Estávamos em um acidente de carro após uma festa que não aconteceu ainda. Eu pensei que morri ontem. Eu pensei que morri hoje à noite. Elody deve pensar que eu estou calada porque estou preocupada com Rob. Ela coloca os braços ao redor do encosto do meu assento e se inclina para frente. “Não se preocupe, Sam. Você vai ficar bem. É como andar de bicicleta,” diz Elody. Esforço-me para dar um sorriso, mas eu mal posso me concentrar. Parece como se houvesse passado muito tempo desde que fui para a cama imaginando estar lado a lado com Rob, imaginando suas frescas e secas mãos. Pensar sobre ele me causa dor, e minha garganta ameaça se fechar. De repente eu mal posso esperar para vê-lo, mal posso esperar para ver seu sorriso torto e seu gorro dos Yankees e até mesmo seu sujo moletom que sempre cheira um pouco a suor de garoto, mesmo depois que sua mãe o faz lavá-lo.

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“É como montar um cavalo,” Lindsay corrige Elody. “Você será campeã da fita azul em pouco tempo, Sam.” “Sempre esqueço que você costumava montar a cavalo.” Elody abre de uma vez a tampa seu café e sopra o vapor. “Quando tinha, uns, sete anos,” eu digo, antes que Lindsay possa transformar isso em uma piada. Acho que se ela começar a se divertir as minhas custas agora eu realmente vou chorar. Nunca poderei explicar a verdade para ela: Que a equitação era a coisa que mais gostava no mundo. Eu gostava de estar sozinha na floresta, especialmente no outono, quando tudo é nítido e dourado, as folhas são da cor do fogo e cheira como se as coisas se transformassem em terra. Amava o silêncio, o único som é o constante dos cascos e a respiração dos cavalos. Sem telefone. Sem risos. Sem vozes. Sem casas. Sem carros. Baixei a viseira para manter o brilho longe dos meus olhos e no espelho eu vejo Elody sorrindo para mim. Talvez lhe diga o que está acontecendo comigo, penso, mas sei que não farei. Ela pensaria que estou louca. Todos pensariam. Mantenho-me calada e olho pela janela. A luz é fraca e de aspecto aquoso, como se o sol acabasse de se derramar sobre o horizonte e estivesse muito cansado para se limpar. As nuvens são tão nítidas e pontiagudas como agulhas. Observo três corvos negros saindo simultaneamente de cabo telefônico, e desejo poder ir também, subir, para cima, acima e ver o chão se afastando do jeito que se faz quando se está em um avião, dobrando e comprimindo em si mesmo como uma figura de origami até que tudo estivesse plano e brilhante, colorido, até que o mundo inteiro fosse um desenho de si mesmo. “Canção-Tema, por favor.” Diz Lindsay e eu procuro no seu iPod até encontrar Mary J. Blige. Então, me encosto e trato de não pensar em nada exceto a música e o ritmo. E mantenho meus olhos abertos.

No momento em que entramos na área ao redor da área superior do estacionamento e parte inferior do terreno da faculdade e dos sêniores, estou me sentindo realmente melhor, embora Lindsay esteja soltando maldições e Elody esteja se queixando de que outro atraso lhe fará ganhar uma detenção de sexta-feira e já se passaram dois minutos depois do primeiro sinal. Tudo parece tão normal. Sei que, porque é sexta-feira, Emma McElroy virá da casa de Matt Dazing e tenho certeza que ali está ela, inclinando-se através de uma parte cortada da cerca. Sei que Peter Kourt estará usando um par de Nike Air Force 1s que ele tem há

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um milhão de anos, porque ele usa todos os dias, embora haja tantos buracos nele que se pode ver a cor da sua meia (usualmente preta). Observo seus sapatos passarem rapidamente enquanto se dirige ao edifício principal. Ver todas essas coisas fizeram eu me sentir mil vezes melhor e eu começo a pensar que talvez tudo o que aconteceu ontem foi apenas uma espécie de longo e estranho sonho. Lindsay circula pelo corredor dos sêniores, embora tenha chance zero de encontrar um local. É religioso para ela. Meu estômago afunda quando passamos o terceiro lugar na quadra de Tênis e lá está o Chevrolet marrom de Sarah Grundel com seu adesivo da Equipe de Natação Thomas Jefferson e outro menor que diz “Molhe-se” me encarando do para-choque. Penso: Ela conseguiu o último lugar porque nós estamos atrasadas e tenho que apertar as unhas nas palmas das minhas mãos e repetir para mim mesma que estava apenas sonhando, que nada disso aconteceu antes. “Não posso acreditar que temos que caminhar 350 metros,” diz Elody fazendo biquinho. “Nem sequer trouxe um casaco.” “Você é a única que saiu de casa seminua,” diz Lindsay “É fevereiro.” “Eu não sabia que estaria fora.” Passamos pelo campo de futebol a nossa direita enquanto voltávamos para o terreno superior. Nessa época do ano os campos estão todos revirados, apenas com lama e algumas áreas de grama marrom. “Sinto como se estivesse tendo um déjà vu,” diz Elody. “Um flashback do primeiro ano, sabe?” “Eu estive tendo um déjà vu por toda a manhã,” deixo escapar antes de poder me deter. Imediatamente me sinto melhor, segura de que isto se trata de um déjà vu. “Deixe-me adivinhar.” Lindsay leva a mão a sua têmpora e franze o cenho fingindo concentração. “Está tendo flashback da última vez que Elody foi chata antes das nove horas.” “Cala a boca!” Elody se inclina e bate no braço de Lindsay e ambas começam a rir. Eu sorrio também, aliviada por ter falado as palavras em voz alta. Tem sentido: Uma vez, em uma viagem ao colorado, meus pais e eu caminhamos quase cinco quilômetros até uma cachoeira que caia no meio do mato. As árvores eram grandes e antigas, todas eram pinheiros. As nuvens estavam atravessando o céu como fios de açúcar. Izzy era muito pequena para caminhar ou falar e estava dentro da mochila de bebês que meu pai trazia, ela se manteve levantando seus minúsculos e gordos punhos como se quisesse agarrar as nuvens. Enfim, enquanto estávamos lá de pé observando roçar da água nas pedras, eu tive a louca sensação de que isso havia acontecido antes, desde o cheiro das laranjas que minha Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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mãe estava descascando até o reflexo exato das árvores na superfície da água. Tinha certeza. Converteu-se na grande piada do dia, porque eu havia me queixado sobre ter que andar quase cinco quilômetros e quando disse aos meus pais que estava tendo um dèjá vu, eles ficaram rindo e dizendo que seria realmente um milagre se eu houvesse concordado em caminhar tanto alguma vez em minha vida passada. Eu acho que meu ponto é que eu estava certa, do mesmo modo que estou me sentindo certa agora. Isso acontece. “Oooh!” Elody grita e começa a procurar algo em sua bolsa. Tira um maço de cigarros e dois tubos vazios de brilho labial, além de um deformado curvex. “Eu quase esqueci seu presente.” Ela joga um preservativo para o banco da frente e Lindsay aplaude e dá saltinhos em seu assento quando eu o pego. “Sem camisinha, sem amor?” digo, conseguindo sorrir. Elody se inclina e me beija na bochecha, deixando um toque de gloss rosa. “Você vai ser ótima, criança.” “Não me chame assim,” digo e jogo o preservativo na mochila. Saímos do carro e o ar é tão frio que sinto meus olhos ardendo e começam a lacrimejar. Ignoro a sensação ruim zumbindo através de mim, e eu penso. Este é o meu dia, este é o meu dia, este é o meu dia, então já não posso pensar em nenhuma outra coisa.

um mundo de sombras Eu li uma vez que você tem um dèjá vu quando as duas partes do seu cérebro processam coisas em diferentes velocidades: a parte direita poucos segundos antes da esquerda, ou vice versa. Ciência é provavelmente minha pior matéria, então eu não entendi todo o artigo, mas isso poderia explicar o estranho duplo sentimento que às vezes acompanha você, como se o mundo estivesse ao meio—ou você. Esse é modo que eu me sinto: como se houvesse um eu verdadeiro e um reflexo de mim, e eu não sei dizer quem é quem. O negócio sobre dèjá vu é que sempre passa muito rápido—trinta segundos, um minuto no máximo. Mas não passa. Tudo é o mesmo: Eillen Cho fazendo barulho com suas rosas e Samara Philips inclinando-se e murmurando. “Ele deve realmente amar você.” Eu passo pelas mesmas pessoas ao mesmo tempo no corredor. Richard Lint espirra seu café por todo o corredor de novo, e Carol Lin começa a gritar com ele mais uma vez. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Inclusive suas palavras são as mesmas: “Você bateu a sua cabeça vezes demais ou o quê?” Eu tenho que admitir, é bem engraçado, mesmo na segunda vez. Mesmo quando eu sinto que estou louca, mesmo quando eu sinto que eu poderia gritar. Mas ainda mais estranho que os barulhos e as pregas, são as coisas que eu mudei ao redor. Sarah Grundel, por exemplo. No caminho para o segundo período, eu a vejo de pé contra uma fileira de armários, girando seus óculos em seu dedo indicador e falando com Wendy Hale. Andando eu peguei só um pedaço da conversa delas. “... tão excitante. Quero dizer, o treinador disse que o meu time ainda está atrás por meio segundo.” “Nós temos duas semanas antes da semi. Você com certeza consegue.” Paro na hora quando a ouço falar. Ela me vê encarando-a e fica muito desconfortável. Ela arrumao cabelo e puxa a saia, que fica bem acima em sua cintura. Então ela acena. “Ei, Sam,” ela diz, então puxa a saia mais uma vez. “Você estava...” eu respiro um pouco para não gaguejar feito uma idiota. “Você estava justamente falando das semifinais? Do time de natação?” “Sim.” O rosto de Sarah se ilumina. “Você vai vir?” Mesmo pensando que estou enlouquecendo, ainda me ocorre que essa é uma pergunta realmente estúpida. Eu nunca fui a uma competição de natação na minha vida, e a ideia de sentar em um chão lamacento para ver Sarah respingando ao redor em um maiô é tão atraente quanto um yakissoba do Hunan Kitchen. Para ser honesta, o único evento esportivo que alguma vez eu fui, foi no Baile de Formatura, e mesmo depois de quatro anos eu ainda não entendo nenhuma das regras. Lindsay normalmente trás um frasco para dividir entre nós quatro, então nós podemos ter algo para fazer. “Pensei que você não estava competindo.” Tento duramente agir casual. “Eu ouvi um rumor... Que você talvez estivesse atrasada e o treinador pirando...” “Você ouviu uma fofoca? Sobre mim?” Os olhos de Sarah se alargam e ela me olha como se eu estivesse com um cupom vitorioso da loteria. Acho que ela é da filosofia “nenhuma imprensa é má imprensa.” “Acho então que eu estava errada.” Eu penso sobre ter visto o carro dela meia hora atrás em outro lugar e senti meu rosto aquecendo. Claro que ela não estava atrasada hoje. Claro que ela ainda está competindo. Ela não teve que andar desde o Estacionamento de Cima hoje. Ela estava atrasada ontem. Minha cabeça começa a pulsar e logo eu só queria estar longe dali.

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Wendy me olha de um modo estranho: “Você está bem? Você está meio pálida.” “Ahm. Bem. Sushi estragado ontem à noite.” Eu ponho uma mão contra os armários para me sustentar. Sarah começa a contar sobre a vez que ela teve intoxicação alimentar por causa da comida do shopping, mas eu já estou andando para longe, sentindo como se o corredor estivesse rodando e ondulando abaixo de mim. Dejà vú. É a única explicação. Se você repete algo o suficiente, você quase consegue convencer a si própria. Eu estou me sentindo tão agitada, que quase me esqueço de Ally me esperando no banheiro pelo bem da ciência. Entro no cubículo e abaixo a tampa do vaso, e só fico ali sentada enquanto ela balbucia, apenas escutando pela metade. Lembro-me de uma coisa que a Sra. Harbor uma vez nos disse no meio de sua louca tangente na aula de inglês: que Platão acreditava que todo o mundo—tudo que pode ser visto—era só como sombras na parede de uma caverna. Nós podemos na verdade ver a coisa real, a coisa que está lançando a sombra em primeiro ponto. Eu tenho esse sentimento agora, de estar rodeada por sombras, como se eu tivesse a impressão de algo por trás de algo. “Olá? Você pelo menos está me ouvindo?” Ally sacode a porta e eu olho para cima, surpreendida. Posso ver AC=LB gravado na parte de trás da porta. Embaixo tinha uma nota menor: Volte para o trailer, piranha. “Você disse que logo teria que comprar sutiã no setor de maternidade,” eu digo automaticamente. Claro que eu não estava realmente ouvindo. Não dessa vez, de todo modo. Eu me pergunto, vagamente, por que Lindsay veio todo o caminho até aqui para escrever na porta do banheiro—por que isso era importante para ela, eu queria dizer. Ela provavelmente já havia escrito isso uma dúzia de vezes nos cubículos do outro lado da cafeteria, e esse é um banheiro que todo mundo usa. Eu nem sequer tenho certeza do porque dela não gostar de Anna, e isso me lembra que eu também não sei quando ela havia começado a odiar tanto Julia Sykes, também. É estranho o quanto você pode saber sobre uma pessoa sem saber nada. Você só pensa que um dia isso vai chegar ao final. Fico de pé e balanço a porta aberta, apontando para o grafite. “Quando Lindsay fez isso?” Ally revira os olhos. “Ela não fez. Imitação.” “Sério?” “Uhum. Tem um no vestiário feminino também. Imitação.” Ela prende o cabelo em um rabo de cavalo, e começa a passar batom nos lábios para fazê-los parecerem grandes.

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“Isso é um saco. Nós não podemos fazer nada nessa escola sem que alguém venha e faça o mesmo.” “Saco.” Passo minhas unhas ao redor das palavras. Elas eram espessas e pretas, escritas com marcador permanente, meio carcomido. Penso, brevemente, se Anna usa esse banheiro. “Nós devíamos brigar por direitos autorais. Você pode imaginar? Vinte dólares por cada vez que alguém imite o nosso estilo. Nós vamos rolar nisso.” Ela solta uma risadinha. “Menta?” Ally me estende o pacote de Altoids. Mesmo pensando que ela ainda é virgem—e vai continuar sendo pelos próximos anos (ou pelo menos até ela ir para a faculdade), já que ela é completamente obcecada por Matt Wilde—ela insiste em tomar pílulas anticoncepcionais, as quais ela mantém na embalagem metálica junto com os chicletes. Ela os deixa ali para que assim o pai dela não descubra, mas todo mundo que a vir tomá-los durante as aulas, vai pensar que ela está fazendo sexo. Não que alguém se importe. Thomas Jefferson era pequeno: você simplesmente sabe dessas coisas. Uma vez Elody disse a Ally que ela tinha “respiração de grávida” e todas morremos com isso. Foi no primeiro ano, em maio, e nós estávamos todas no trampolim da Ally. Foi no sábado de manhã, depois dela ter dado uma das melhores festas até então. Nós estávamos meio fora, nossos cérebros fundidos, cheios por todas as panquecas com bacon que havíamos posto para dentro no jantar, totalmente felizes. Eu fiquei por lá enquanto o trampolim estava molhado e balançando, fechando meus olhos pelo sol, desejando que aquele dia nunca acabasse. O sino toca e Ally guincha: “Oh! A gente vai se atrasar.” Com isso um buraco abre em meu estômago. Uma parte de mim é tentada a ficar escondida todo o dia no banheiro, mas eu não posso. Eu sei que você sabe o que vem depois. Que eu chego atrasada. Que eu pego o último lugar próximo de Lauren Lornet. Que o senhor Tierney passa um teste com três perguntas nele. A pior parte disso? Eu já havia visto o teste e ainda não sei as respostas dele. Eu peço por uma caneta. Lauren ficou murmurando comigo, ela queria saber se estava funcionando direito. O livro do senhor Tieney foi fechado com um “bang”. Todo mundo pula, até eu. Aula. Sino. Aula. Sino. Louca. Eu estou ficando louca.

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Na hora em que as rosas foram entregues na aula de matemática, minhas mãos estão tremendo. Eu respiro fundo primeiro e abro o pequeno cartão laminado, preso junto a rosa que Rob havia me mandado. Imagino que iria ter algo incrível escrito, alguma coisa surpreendente, algo que ia deixar tudo melhor. Você é linda, Sam. Eu estou tão feliz por estar com você. Sam, eu amo você. Eu abro só a pontinha do cartão e espiei dentro. Amo... Fecho o cartão rapidinho e ponho na minha bolsa. “Uou. É lindo.” Olho para cima. A garota vestida como um anjo estava ali, olhando para a rosa que ela havia posto sobre a minha mesa: rosa e creme, pétalas juntas em redemoinho, como um sorvete. Ela ainda estava com a mão estendida e finas veias azuladas cruzavam sua pele como uma teia. “Tire uma foto. Vai durar mais,” rosno para ela. Ela fica tão corada quanto as rosas que segurava e gagueja uma desculpa. Eu não me importo em ler a nota que vinha com essa, e pelo resto da aula mantenho meus olhos presos no quadro pra evitar qualquer bilhete de Kent. Eu estou tão concentrada em não olhar para ele que quase perdi quando o senhor Daimler piscou para mim e sorriu. Quase. Depois da aula, Kent vem atrás de mim, segurando a rosa creme e cor de rosa que eu deliberadamente havia deixado sobre a mesa. “Você esqueceu isso,” ele diz. Como sempre seu cabelo caindo sobre um olho. “Está tudo bem, você pode dizer isso: Eu sou incrível.” “Eu não esqueci isso.” Eu estou tentando bravamente não olhar para ele. “Eu não quero isso.” Dou uma espiada nele e vejo seu sorriso sumir por um segundo. Então ele volta com toda a força, como um maldito laser de luz. “O que você quer dizer?” Ele tenta passá-la para mim. “Ninguém nunca te disse que quanto mais rosas você ganha no dia do cupido, mais popular você é?”

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“Eu acho que não preciso de nenhuma ajuda nesse departamento. Especialmente de você.” Seu sorriso definitivamente cai. Parte de mim odeia o que eu estou fazendo, mas tudo que eu posso pensar disso é uma memória—ou sonho, ou o que quer que seja— quando ele se aproxima, e eu penso que vai me beijar, mas ao invés disso ele suspira, Você não me engana. Você não me conhece. Você não sabe nada sobre mim. Graças a Deus. Cravo as unhas em minhas palmas. “Eu nunca disse que a rosa era minha,” ele diz. Sua voz é tão baixa e séria que me alarma. Eu conheço seus olhos, eles são de um verde brilhante. Lembro quando eu era pequena e minha mãe costumava dizer que Deus criou a grama e os olhos de Kent com a mesma cor. “Tá, certo. É bem óbvio.” Eu só queria que ele parasse de me olhar desse jeito. Ele respira fundo. “Olha. Eu tenho uma festa hoje a noite...” É quando vejo Rob andando pela cafeteria. Normalmente eu esperaria por ele me encontrar, mas hoje eu não podia. “Rob!” grito. Ele se vira e me vê, me dá um meio aceno e começa a se virar novamente. “Rob! Espere!” Eu saio pelo corredor. Não estava exatamente correndo—Lindsay, Ally, Elody e eu fizemos um pacto, anos atrás, de nunca correr no corredor do colégio, nem mesmo nas aulas de ginástica (vamos encarar isso: suor e irritação não são exatamente atrativos)—mas foi um caso a parte. “Uou, Slamster. Onde é o fogo?” Rob põe seus braços ao redor de mim e eu enfio meu nariz em sua jaqueta de lã. Cheira a um pouco como pizza velha—não o melhor cheiro, principalmente quando é misturado com bálsamo de limão—mas eu não me importo. Minhas pernas estão tão trêmulas que eu tinha medo de cair. Eu só queria ficar ali para sempre, segurando-me contra ele. “Senti sua falta,” eu digo contra seu pescoço. Por um segundo seus braços se tensionam ao meu redor, mas quando ele ergue meu rosto para cima, para vê-lo, ele sorri. “Você recebeu meu Valograma?” ele pergunta. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Aceno. “Obrigada.” Minha garganta está apertada e eu estou preocupada que iria começar a chorar. Soava tão bom ter os braços dele ao redor de mim, como se ele fosse a única coisa me erguendo para cima. “Ouça, Rob, sobre hoje a noite...” Eu não tinha bem certeza do que iria dizer, mas ele me interrompe. “Ok. O que tem isso agora?” Ando só um pouquinho para trás, para que assim eu pudesse ver o rosto dele. “Eu... Eu quero que... Eu só—tudo está tão confuso hoje. Acho que eu posso estar doente ou... Ou outra coisa.” Ele ri e pincela meu nariz com dois dedos. “Ah não. Você não vai estar se livrando dessa vez.” Ele põe sua testa contra a minha e murmura, “Eu estive esperando por isso por um longo tempo.” “Eu sei, eu também...” eu tinha imaginado isso tantas vezes: o modo como a lua ia passando entre as árvores e vindo através da janela, iluminando triângulos e quadrados nas paredes; o modo como sua manta de lã ficaria contra a minha pele nua quando eu tirasse a roupa. E também tinha imaginado o momento depois, depois de Rob ter me beijado e falado que me ama, e caído no sono com sua boca entreaberta e eu sairia furtivamente para o banheiro e mandaria uma mensagem para Elody e Lindsay e Ally. Eu fiz. É a parte do meio disso que é difícil de imaginar. Sinto meu celular vibrar no bolso de trás: uma nova mensagem. Meu estômago revira. Eu já sei o que está escrito. “Você está certo,” digo para Rob, apertando meus braços ao redor dele. “Talvez eu devesse vir hoje bem depois da escola. Nós podemos sair toda a tarde, toda a noite.” “Você é fofa.” Rob se puxa para fora, ajustando seu boné e sua mochila. “Embora meus pais não ajeitem tudo até o jantar.” “Não me importa. Nós podemos ver um filme ou algo...” “Além do mais,” Rob olha pelos meus ombros agora. “Ouvi sobre uma festa que você-sabe-o-nome com o chapéu-coco. Ken?” “Kent,” eu digo automaticamente. Rob sabe seu nome, obviamente, todo mundo conhece todo mundo aqui—mas isso é uma coisa de poder. Lembro-me de dizer ao Kent, que eu não deveria sequer saber o seu nome, e sinto-me enjoada. Vozes soando por todo o corredor, e pessoas passando por nós. Senti quando encararam. Eles provavelmente estavam esperando por uma briga.

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“Isso, Kent. Eu posso parar lá um pouco. Nós podemos nos encontrar lá?” “Você realmente quer ir?” Eu estou tentando lutar com o sentimento de pânico crescendo dentro de mim. Abaixo minha cabeça e olho para ele do modo que eu já havia visto Lindsay fazendo com Patrick, quando ela está realmente desesperada por algo. “Isso só vai significar menos tempo comigo.” “Nós vamos ter tempo suficiente.” Rob beija os dedos e os bate contra minha bochecha, duas vezes. “Confie em mim. Eu alguma vez decepcionei você?” Você vai me decepcionar essa noite. O pensamento veio até mim antes que eu pudesse pará-lo. “Não,” eu digo de forma audível. Rob não estava ouvindo, de todo modo. Adam Marshall e Jeremy Tucker haviam se juntado a nós, e os três estavam fazendo a grande coisa onde eles pulam um sobre o outro e lutam. Algumas vezes eu penso que Lindsay está certa e garotos são só animais. Pego meu celular para checar a mensagem, coisa que eu não precisava fazer. Festa na ksa do Kent McFreaky hj a nte. Ta dentro? Meus dedos estavam adormecidos e eu digito de volta, Obv. Então eu vou para o almoço, sentindo como o som de trezentas vozes estavam pesando, como se fosse um vento sólido que iria me carregar para longe.

antes que eu acorde “Então? Está nervosa?” Lindsay ergue uma perna no ar e a gira para baixo, para trás e para frente, admirando os sapatos que ela havia acabado de roubar do armário de Ally. Música provém da sala de estar. Ally e Elody estão lá, com seus rostos grudados cantando “Like a Prayer”. Ally não está nem perto de afinar. Lindsay e eu estamos recostadas na grande cama de Ally. Tudo na cama de Ally era 25% maior que de uma pessoa normal: a geladeira, as poltronas—até as garrafas de Magnum que seu pai guarda na adega (estritamente inalcançável). Lindsay uma vez disse que isso a faz sentir como Alice no País das Maravilhas. Recosto minha cabeça contra uma enorme pilha de travesseiros que diziam A VADIA ESTÁ AQUI. Já tinha preparado quatro, pensando que isso iria me acalmar, e as luzes acima de mim estão piscando e parecem borradas. Nós já havíamos aberto as janelas, mas eu ainda me sinto febril. “Não se esqueça de respirar,” Lindsay diz. “Não pire se doer um pouco— principalmente no início. Não fique tensa. Você só vai fazer ser pior.” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Eu estou me sentindo bem nauseada, e Lindsay não está ajudando. Não pude comer durante todo o dia, então quando fomos para a casa de Ally, eu estava faminta e peguei cerca de vinte e cinco mini torradas de molho verde com queijo que Ally tinha em casa. Não tenho certeza de quão bom pode ser queijo misturado com vodca. No ápice de tudo, Lindsay me fez comer sete pastilhas Listerine para hálito, porque o molho leva alho, e ela disse que Rob iria sentir como se estivesse perdendo a virgindade com a cozinheira italiana. Não estou tão nervosa por causa de Rob—quero dizer, não posso focar em ficar nervosa por causa dele. A festa, a direção, a possibilidade do que iria acontecer: isso sim está me dando verdadeiras reviravoltas no estômago. Pelo menos a vodca me ajudou a respirar, e eu não estou mais me sentindo instável. Claro, eu não poderia dizer a Lindsay nada disso, então instantaneamente eu digo: “Eu não vou pirar. Quero dizer, todo mundo faz isso, certo? Se Anna Cartullo pode fazer...” Lindsay faz uma careta. “Eca. De qualquer jeito é você que vai fazer isso, não importa o que Anna Cartullo faz. Você e Rob vão ‘fazer amor’.” Ela faz aspas no ar com seus dedos soltando um risinho, mas eu podia dizer o que ela falava. “Você acha?” “Claro.” Ela inclina sua cabeça para olhar para mim. “Você não?” Eu queria perguntar: como você sabe a diferença? Nos filmes você pode sempre saber quando o casal supostamente vai ficar junto por causa da música que começa a tocar atrás deles—ridículo, mas verdade. Lindsay sempre diz que ela não poderia viver sem Patrick, e eu não tenho certeza se é assim que eu supostamente deveria me sentir ou não. Algumas vezes quando eu estou de pé no meio de um lugar cheio junto a Rob, ele põe os braços ao redor de meus ombros e me mantém mais perto—como se ele não quisesse que esbarrassem em mim nem derramassem algo—e eu sinto um tipo de calor em meu estômago, como se eu tivesse justamente tomado uma taça de vinho, e estou completamente feliz, mesmo que por um segundo. Tenho quase certeza de que amor é isso. Então eu digo para Lindsay: “Claro que sim.” Lindsay solta outro risinho e me dá uma cotovelada. “Então? Ele mordeu a isca e disse isso?” “Disse o quê?” Ela revira os olhos. “Que ele ama você.”

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Eu paro por um segundo no máximo, pensando no bilhete que ele havia me mandado: Amo vc. O tipo de coisa que você escreve no anuário de alguém quando você não sabe mais o que falar. Ela se apressa. “Ele vai. Garotos são idiotas. Aposto com você que ele vai falar essa noite. Justo depois de você...” Ela se cala e começa a mover o quadril para cima e para baixo. Bato nela com um travesseiro. “Você é uma cachorra, sabe disso?” Ela rosna para mim e mostra os dentes. Nós rimos e então ficamos em silêncio por um minuto, ouvindo Elody e Ally ganindo no outro cômodo. Agora elas estão em “Total Eclipse of the Heart”. Era bom estar ali: bom e normal. Penso sobre todas as vezes que nós estivemos nesse exato modo, esperando por Elody e Ally terminarem de ficar prontas, esperando para sair, esperando por algo para acontecer—tempo correndo e indo embora, perdido para sempre—e eu de repente desejava poder lembrar cada pequena singularidade, como se eu podendo lembrar de tudo, eu pudesse tê-los de volta. “Você estava nervosa? Na primeira vez, eu digo.” Eu estou meio envergonhada por perguntar, então eu falei baixinho. Acho que a pergunta pegou Lindsay de guarda baixa. Ela cora e começa a trançar a colcha de Ally, e por um momento fica um silêncio incômodo. Eu tinha quase certeza de saber o que ela estava pensando, então eu nunca poderia dizer em voz alta. Lindsay, Ally, eu e Elody éramos tão próximas quanto o possível, mas ainda havia algumas coisas que nós nunca havíamos falado a respeito. Por exemplo, embora Lindsay diga que Patrick é seu primeiro e único, isso não é tecnicamente verdade. Tecnicamente, seu primeiro foi um cara que ela conheceu em uma festa quando ela estava visitando o meio irmão na NYA. Eles fumaram um baseado, bateram no tanquinho, e fizeram sexo, e ele nunca soube que ela nunca havia feito isso antes. Nós não falamos sobre isso. Nós não falamos sobre o fato de nós nunca podermos ir para a casa de Elody depois das cinco porque a mãe dela vai estar em casa, e bêbada. Nós nunca falamos sobre o fato de Ally nunca comer mais de um quarto do que há no prato dela, mesmo que ela seja obcecada por cozinhar e assistir Food Network por horas. Nós nunca falamos sobre a piada que por anos me derrubou no corredor, nas aulas, e no ônibus, que tecia um caminho em meus sonhos: “O que é vermelho e branco e todo esquisito? Sam Kingston!” E nós definitivamente nunca falamos sobre o fato de Lindsay ter sido quem começou com isso. Uma boa amiga guarda os seus segredos por você. Uma melhor amiga ajuda você a mantê-los para você.

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Lindsay rola no lado dela e se dá uma cotovelada. Eu me perguntava se ela ia finalmente mencionar o cara da NYA (nem sequer sei o nome dele, e todas as vezes que ela fez alguma referência a ele, ela o chamou de imencionável). “Eu não estava nervosa,” ela diz de forma baixa. Então ela respira fundo e seu rosto se parte em um sorriso forçado. “Eu estava excitada, baby. Despudorada.” ela diz com um falso sotaque britânico, então pula em cima de mim, e começa a mexer o quadril. “Você é impossível,” eu digo empurrando ela de cima de mim. Ela rola todo o caminho fora da cama, cacarejando. “Você me ama.” Lindsay fica sobre os joelhos e sopra a franja para longe de seu rosto. Ela foi para frente e apoiou os cotovelos na cama, de repente ficando séria. “Sam?” seus olhos estão amplos e ela diminui o tom. Eu tenho que ir mais perto para ouvir por causa da música. “Eu posso te contar um segredo?” “Claro.” Meu coração começa a disparar. Ela sabia o que estava acontecendo comigo. Estava acontecendo com ela, também. “Você tem que prometer não falar. Você tem que jurar que não vai pirar.” Ela sabe. Ela sabe. Não é só comigo. Minha cabeça está limpa e tudo se aguça ao meu redor. Eu me sinto totalmente sóbria. “Juro.” As palavras mal saíram. Ela vem mais para frente, sua boca só um centímetro longe de meu ouvido. “Eu...” Então ela vira o rosto e arrota, alto, no meu rosto. “Jesus, Lindz!” eu abano o ar com a minha mão. Ela afunda com as costas no chão, movendo as pernas no ar e gargalhando histericamente. “O que há de errado com você?” “Você devia ter visto o seu rosto.” “Você alguma vez é séria?” Eu digo de gozação, mas todo meu corpo parece desapontado. Ela não sabe. Ela não entende. O que quer que estivesse acontecendo, está acontecendo só comigo. O sentimento de completa solidão me atingiu, como uma bruma. Lindsay da tapinhas no canto de seus olhos com o polegar e pula sobre seu pé. “Eu vou ser séria quando eu morrer.” Essas palavras mandaram um choque direto para mim. Morta. Tão acabada, tão feita, tão curta. O quente sentimento que eu tinha desde que havia tomado aquelas doses desapareceu, e eu me ergui para olhar a janela fechada de Ally, trêmula. A negra boca das madeiras, guinando aberta. Rosto de Vicky Hallinan… Eu tentei decidir o que iria acontecer comigo se eu realmente estivesse insana.

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Justo antes do oitavo período eu fiquei de pé na frente do escritório do diretor, Sra. Winters, e do psiquiatra da escola—disposta em ir e falar as palavras: acho que estou ficando louca. Mas então houve um estrondo e Lauren Lornet apareceu no corredor, fungando, provavelmente chorando por algum drama com garotos ou briga com os pais ou alguma coisa normal. Nesse segundo tudo em que eu havia trabalhado foi banido. Tudo era diferente agora. Eu era diferente. “Então você está indo ou o quê?” Elody murmura na sala em frente de Ally. As duas estavam ofegantes. “Vamos fazer isso.” Lindsay pega a bolsa e pendura em um ombro. Ally começa a soltar risinhos. “É só nove e meia,” ela diz, “e Sam já parece como se ela pudesse vomitar.” Fiquei de pé e esperei por um segundo até o chão estar firme abaixo de mim. “Eu vou ficar bem. Eu estou bem.” “Mentirosa,” Lindsay diz, e sorri.

a festa, tomada dois “Assim é como um filme de terror começa,” Ally diz. “Você tem certeza que é o número quarenta e dois?” “Tenho certeza.” Minha voz soa como se estivesse distante. O enorme medo está de volta. Eu posso sentir pressionando em mim por todas as direções, roubando minha respiração. “É melhor não acabar com o meu trabalho de pintura,” Lindsay diz se desviando de se arranhar na porta para passageiros com o som de uma unha arranhando contra um quadro para giz. As madeiras vieram abaixo, e a casa de Kent se tornou iminente na escuridão, branca e brilhante, como se feita de gelo. O modo como emergiu ali, cercada por todos os lados por preto, lembrava-me da cena do Titanic quando o iceberg surgiu na água e abriu o casco do navio. Tudo ficou em silêncio por um segundo. Pequenos projeteis de chuva bateram contra o para brisa, e Lindsay tirou os fones do iPod. Uma velha canção vinha de forma baixa desde o rádio. Eu podia cantar o refrão: Feel it now like felt it then... Touch me now and around again… “É quase tão grande quando a sua casa, Al,” Lindsay diz.

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“Quase,” Ally diz. Eu sinto uma tremenda onda de afeição por ela naquele momento. Ally, que gosta de casas grandes e carros caros, e joias da Tiffany e grandes plataformas, e brilho corporal. Ally, que não é tão inteligente e sabe disso, e é obsessiva por garotos que não são bons o bastante para ela. Ally, que secretamente é uma ótima cozinheira. Eu a conheço. Eu a entendo. Eu sei tudo sobre ela. Na casa, Dujeous rugia pelos alto-falantes: All MCs in the house tonight, if your lyrics sound tight then rock the mic. Os degraus rolaram abaixo de mim. Quando nós chegamos no topo, Lindsay pegou a garrafa de vodca de mim, rindo. “Calma, Slam-a-Lot. Você tem negócios para tomar conta.” “Negócios?” Eu começo a rir um pouco, pouco arfada por isso. É tão enfumaçado que eu mal consigo respirar. “Eu pensava que era fazer amor.” “O negócio de fazer amor.” Ela se encosta e seu rosto se avolumou como a lua. “Nada mais de vodca por um tempo, ok?” Eu me sinto adormecida e o rosto dela recua. Ela vasculha o lugar com os olhos. “Eu tenho que encontrar Patrick. Você vai ficar bem?” “Perfeitamente,” eu digo, tentando sorrir. Eu não posso lidar com isso: era como se os músculos em meu rosto não respondessem. Ela começa a dar a volta e eu seguro seu pulso. “Lindz?” “Sim?” “Eu vou com você, ok?” Ela dá de ombros. “Tá, claro. Tanto faz. Ele está em algum lugar—ele acabou de me mandar uma mensagem.” Nós começamos a nos empurrar passando pelas pessoas. Lindsay grita para mim. “É como um labirinto aqui.” Coisas passavam por mim num borrão—fragmentos de conversas e risadas, o roçar de casacos contra a minha pele, o cheiro de cerveja e perfume e gel e suor—tudo confuso e girando junto. Todo mundo parecendo do modo que eles parecem em sonhos, familiar, mas não tão claro, como se pudessem mudar para outro alguém a qualquer instante. Estou sonhando. Esse é todo o sonho: esse dia inteiro foi um sonho, e quando eu acordar vou dizer a Lindsay como o sonho parecia real e durou tanto, e ela vai revirar os olhos e me dizer que sonhos nunca duram mais de trinta segundos. É tão engraçado eu pensar em contar a Lindsay—que está puxando a minha mão e jogando o cabelo impacientemente na minha frente—que eu apenas sonhei com ela, que ela não está realmente aqui, e eu soltei um risinho, começando a relaxar. É tudo um sonho, eu posso fazer o que eu quiser. Eu posso beijar qualquer um que eu quiser, e enquanto nós Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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passávamos por grupos de garotos eu os chequei em minha cabeça—Adam Marshall, Rassan Lucas e Andrew Roberts—eu poderia beijar cada e todos que eu quisesse. Eu vi Kent sentando no canto falando com Phoebe Rifer e pensei: Eu poderia andar até lá e beijar o sinal em forma de coração sobre seu olho, e isso não faria diferença alguma. Não sei de onde a ideia surgiu. Eu nunca quis beijar Kent, nem em um sonho. Mas eu poderia se eu quisesse. Em algum lugar eu estou me espichando debaixo de um quente cobertor em uma grande cama cercada por travesseiros, minhas mãos dobradas sob minha cabeça, dormindo. Eu me espicho para frente para contar isso a Lindsay—que eu sonhei sobre ontem, e talvez ontem tenha sido um sonho também—quando eu vi Bridget McGuire de pé em um canto, com os braços ao redor da cintura de Alex Liment. Ela estava rindo e ele inclinado para cheirar seu pescoço. Ela olhou para cima no preciso momento e me viu olhando para eles. Então ela pegou a mão dele e o puxou até mim, empurrando outras pessoas para fora do caminho. “Ela vai saber,” ela está falando sobre seu ombro para ele, então ela vira seu sorriso para mim. Seus dentes tão brancos que brilhavam. “A senhora Harbor deu a redação de tarefa hoje?” “O quê?” eu estou tão confusa que leva um segundo para que eu percebesse que ela está falando sobre a aula de inglês. “A redação de tarefa. Sobre Macbeth?” Ela cutuca Alex e ele diz: “Eu perdi o sétimo período.” Ele encontra meus olhos então desvia para longe, entornando um gole de cerveja. Eu não disse nada. Eu não sabia o que dizer. “Então ela deu?” Bridget estava como sempre: como um filhote justo esperando por um agrado. “Alex teve de faltar. Consulta no médico. A mãe dele o mandou ir, para, prevenir meningite. Quão chato vai ser isso? Quero dizer, quatro pessoas morreram por causa disso ano passado. Você tem mais chance de ser atingido por um car...” “Ele deveria ter uma sessão para prevenir herpes,” Lindsay diz, reprimindo o riso, mas tão baixo que só ouvi porque estava parada bem próxima a ela. “Embora provavelmente seja muito tarde.” “Eu não sei,” eu digo para Bridget. “Eu faltei.” Fiquei encarando Alex, observando sua reação. Não tenho certeza se ele percebeu Lindsay e eu de pé do lado de fora do Hunan Kitchen hoje, com ele lá dentro. Não parecia com isso. Ele e Anna se encontraram em frente a algum lugar acinzentado e congelado com papel bolhas, justo como eu esperava. Lindsay queria ir lá e estragar tudo, mas eu ameacei

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vomitar em suas novas botas Steve Madden se nós sentíssemos mesmo que só um pouco do cheiro nojento de encontro e cebola lá dentro. Quando nós deixamos o The Country’s Best Yogurt, eles já haviam ido, e nós só os vimos depois, brevemente, na Ala de Fumantes. Eles estavam saindo justo quando Lindsay estava iluminando tudo. Alex deu um breve beijo na bochecha de Anna, e nós os vimos indo em direções diferentes: Alex em direção a cafeteria, Anna em direção ao prédio de artes. Eles já haviam ido longe quando Lindsay e eu passamos na Nic Nazi em sua patrulha diária. Eles não estavam explodindo hoje. E Bridget não sabe onde ele realmente estava no sétimo período. Tudo repentinamente começou a encaixar em um lugar—todo o medo que eu estava dando as costas—uma certa após a outra, como peças de dominó. Eu não posso negar mais isso. Sarah Grundel pegou a vaga no estacionamento porque nós estávamos atrasadas. Esse é o porquê dela ainda estar nas semifinais. Anna e Alex não tiveram uma briga porque eu convenci Lindsay a continuar andando. Esse é o porquê deles não estarem se agarrando no lado de fora da Ala de Fumantes, e esse é o porquê de Bridget está saindo com Alex ao invés de ficar chorando no banheiro. Não é um sonho. E não é um déjà vu. Está realmente acontecendo. Está acontecendo de novo. Isso fez parecer que todo meu corpo está no gelo naquele instante. Bridget balbuciava sobre nunca matar aula, e Lindsay acenou parecendo entediada, e Alex está bebendo sua cerveja, e eu posso mesmo respirar—medo está me grampeando como um torninho, e parece que eu devo estilhaçar em milhões de pedaços bem aqui e lá. Eu quero sentar e por minha cabeça entre meus joelhos, mas tinha medo de, se eu me mover, ou fechar meus olhos, ou fazer algo, eu vou justo começar a desembaraçar—cabeça indo longe do pescoço indo longe do ombro – todas as minhas partes flutuando longe para o nada. O osso da cabeça desconectado do osso do pescoço, o osso do pescoço desconectado do osso da espinha dorsal... Eu sinto braços pressionando ao redor de mim, por trás, e a boca de Rob em meu pescoço. Mas nem mesmo ele pode me aquecer. Estou tremulando incontrolavelmente. “Sexy Sammy,” ele cantarola, virando-me para ele. “Onde você esteve toda a minha vida?” “Rob.” Me surpreende que eu ainda posso falar, surpresa eu vi que ainda posso pensar. “Eu realmente tenho que falar com você.”

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“O que está acontecendo, baby?” Os olhos dele estão turvos e avermelhados. Talvez seja porque eu estou aterrorizada, mas certas coisas parecem mais claras para mim que nunca. Eu percebi pela primeira vez que a cicatriz crescente e modelada sobre seu nariz o faz parecer com um touro. “Nós não podemos fazer isso aqui. Nós precisamos... Nós temos que ir para algum lugar. Uma sala ou o que for. Algum lugar privado.” Ele sorri forçado e se encosta a mim, ofegando álcool em meu rosto enquanto tenta me beijar. “Eu entendi. É esse tipo de conversação.” “É sério, Rob. Estou sentindo…” balanço minha cabeça. “Não estou sentindo que é certo.” “Você nunca sente que é certo.” ele se afasta, franzindo as sobrancelhas para mim. “Tem sempre alguma coisa, você percebe?” “Do que você está falando?” Ele se inclina um pouco sobre seus pés e imita: “Estou cansada essa noite. Meus pais estão no andar de cima. Seus pais vão ouvir.” ele balança a cabeça. “Eu estou esperando há meses por isso, Sam.” As lágrimas estavam vindo. Minha cabeça latejou com o esforço para mantê-lo para trás. “Agora não tem nada a ver com isso. Eu juro, eu...” “Quando tem a ver com isso?” Ele cruza os braços. “Eu preciso mesmo de você agora.” Eu mal podia deixar as palavras saírem. Me surpreendia que ele ainda me ouvisse. Ele acena e esfrega sua testa. “Está certo, está certo. Sinto muito.” Ele põe uma mão no topo da minha cabeça. Acenei. Lágrimas começando a vir e ele mandou duas para longe com seu polegar. “Vamos conversar, ok? Vamos para algum lugar quieto.” Ele mostra o copo de cerveja vazia para mim. “Mas eu posso pelo menos encher primeiro?” “Sim, claro,” eu digo, mesmo embora eu quisesse pegá-lo para ficar comigo, para por os braços dele ao redor de mim e nunca me soltar. “Você é a melhor,” ele diz, inclinando-se para frente para beijar minha bochecha. “Sem choro—nós estamos numa festa, lembra? Supostamente é para ser bom.” Ele começou a andar para trás, mas eu ainda segurava sua mão, dedos estendidos. “Cinco minutos.”

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Me pressionei contra a parede e esperei. Não sabia mais o que fazer. Pessoas passavam por mim, enquanto eu mantinha meu cabelo sobre meu rosto então ninguém poderia dizer que as lágrimas ainda estavam vindo. A festa era barulhenta, mas de algum modo parecia remota. Palavras eram distorcidas e a música soava do mesmo modo que no carnaval, como se todas as notas estivessem colidindo entre si. Cinco minutos passaram, então sete. Dez minutos passaram, e eu dizia a mim mesma para esperar por mais cinco minutos e então ir atrás dele, mesmo que a ideia de me mover parecesse impossível. Depois de vinte minutos eu mandei uma mensagem: Cadê você? Mas então lembrei que no dia anterior ele havia me dito que tinha deixado o celular em algum lugar. Ontem. Hoje. E nessa hora, quando eu imaginava a mim mesma em algum lugar, eu não estava dormindo. Nessa hora eu imaginei a mim mesma pressionada contra uma prancha gelada, pele branca como leite, lábios azuis, e mãos dobradas contra meu peito, com se tivessem sido postas lá... Respirei fundo forçando a mim mesma a focar em outra coisa. Eu contei os pisca piscas que enquadravam o pôster do filme E.T sobre o sofá, e então eu contei as brilhantes pontas avermelhadas de cigarro através dali, meio escurecido, como vagalumes. Eu não sou uma nerd em matemática ou algo assim, mas eu sempre gostei de números. Como eu posso justamente mantê-los empilhados, um sobre o outro, até eles encherem qualquer espaço, qualquer momento. Eu disse isso outro dia para minhas amigas, e Lindsay disse que eu me tornaria esse tipo de mulher velha que memoriza agendas telefônicas e aplainadas as caixas de cereal, e jornais empilhados do chão até o teto da casa, buscando por mensagens nos códigos de barra. Mas alguns meses depois, eu estava dormindo fora, e ela confessou que algumas vezes, quando ela está chateada com alguma coisa, ela recita essa oração católica na hora de dormir, que ela memorizou quando ela era pequena, mesmo embora ela seja meio judia e, de todos os modos, não sabe se acredita em Deus. Agora eu me deito para dormir, Eu rezo para você, Senhor, para manter minha alma. Se eu morrer antes de acordar, Eu rezo para você, Senhor, para levar minha alma. Ela viu isso gravado numa fronha de travesseiro na casa de seu professor de piano, e nós rimos sobre quão deprimente mensagens em travesseiros podem ser. Mas até eu ter dormido naquela noite, eu não podia tirar a oração da minha cabeça. Essa linha ficou repetindo outra e outra vez em minha mente: Se eu morrer antes de acordar.

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Eu estava a ponto de forçar a mim mesma para longe da parede, quando ouvi Rob gritar meu nome. Dois secundaristas tropeçaram no chão, rindo, e eu me empenhei para conseguir ouvir o que ele estava falando. “... o segundo dele em duas horas.” “Não, Matt Kessler fez o primeiro.” “Os dois fizeram.” “Você viu como Aaron Stern está, como, se segurando em cima do barril de cerveja? Completamente de cabeça para baixo.” “É assim que se segura um barril, cara.” “Rob Cokran é TÃO quente.” “Shhh. Oh meu Deus.” Uma das garotas deu uma cotovelada na outra quando me viu. Seu rosto ficando branco. Ela está provavelmente aterrorizada: ela fica falando sobre o meu namorado (contravenção), mas, mais especificamente, ela estava falando sobre quão quente ele é (falta grave). Se Lindsay estivesse aqui, ela piraria, chamaria as garotas de putas, e as faria serem expulsas da festa. Se ela estivesse aqui, ela esperaria que eu pirasse. Ela acha que as pessoas de classe baixa—principalmente garotas secundaristas—têm de serem postas em seus lugares. Caso contrário elas vão invadir o universo como baratas, protegidas de explosões nucleares por armaduras Tiffany, com joias e brilho labial sobre a casca. Eu não tenho a energia para ter alguma atitude com essas garotas, embora, eu estivesse feliz que Lindsay não estava ali comigo, então ela não poderia me julgar por isso. Eu deveria ter sabido que Rob não iria voltar. Eu pensei sobre hoje, quando ele me disse para confiar nele, quando ele disse que nunca iria me desapontar. Eu deveria ter dito a ele que ele estava cheio disso. Eu preciso sair dali. Ficar longe da música e da fumaça. Preciso de um lugar para pensar. Eu ainda estou congelando, e tenho certeza de que minha aparência é terrível, embora eu não sentisse que fosse continuar chorando. Nós uma vez vimos esse vídeo de saúde sobre sintomas de choque, e eu tenho quase certeza de ter os mesmos sintomas daquela criança. Dificuldade para respirar. Frio, mãos trêmulas. Tontura. Saber disso me fez sentir pior. O que só mostra que você nunca deveria prestar atenção na aula de saúde. O caminho para os banheiros fica longe e está tudo cheio. São onze da noite e todo mundo que planejava vir já está aqui. Algumas pessoas disseram o meu nome, e Tara

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Glute segurou o meu rosto dizendo: “Oh meu Deus. Eu amo os seus brincos. Você os comprou no...” “Não agora.” Cortei-a e continuei indo, desesperada para achar algum lugar escuro e quieto. Na minha esquerda há uma porta fechada, a única com todo o tipo de adesivos colados. Seguro a maçaneta e a movo. Não está aberta, claro. “Esse é o quarto VIP.” Me virei para trás e ali estava Kent atrás de mim, sorrindo. “Você tem que estar na lista,” ele se encosta contra a parede. “Ou escorregar uma de vinte para o leão de chácara. Tanto faz.” “Eu... Eu estava procurando pelo banheiro.” Kent moveu sua cabeça, inclinando-a para o outro lado do corredor, onde Romina Masters, claramente bêbada, está batendo na porta com seu punho. “Vamos, Kristen,” ela está dizendo. “Eu tenho que fazer xixi.” Kent se virou de novo para mim e, ergueu seus olhos castanhos. “Minha culpa,” eu digo, e tentei passar por ele. “Você está bem?” Kent não está exatamente me tocando, mas sua mão está erguida, como se ele estivesse pensando sobre isso. “Você parece...” “Eu estou bem.” A última coisa no mundo que eu preciso agora é da pena de Kent McFuller, e eu me empurro de costas para o corredor. Eu tinha justamente decidido sair dali e ligar para Lindsay da varanda—eu iria dizer a ela que eu tinha de ir, eu tinha de ir—quando Elody apareceu no corredor, passando seus braços ao redor de mim. “Onde diabos você esteve?” ela berra, me beijando. Ela está suada, e eu penso sobre Izzy escalando na minha cama e pondo os braços ao meu redor, puxando o meu pescoço. Eu nunca deveria ter saído da cama. “Deixa eu adivinhar, deixa eu adivinhar.” Elody solta os braços que estavam ao meu redor, começando a bater o quadril como se nós estivéssemos arrasando na pista. Ela revirou os olhos para o teto e começou a murmurar: “Oh, Rob, oh, Rob. Sim. Assim.” “Você é uma pervertida.” Eu a empurro para longe de mim. “Você é pior que Otto.” Ela gargalha e agarra minha mão, começando a me puxar para outra sala. “Vamos, todo mundo está aqui.”

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“Eu tenho que ir,” eu digo. A música ali era mais barulhenta e eu gritava. “Eu não estou me sentindo bem.” “O quê?” “Eu não me sinto bem!” Ela apontou para a orelha como, eu não posso ouvir você. Eu não tenho certeza de se isso era verdade ou não. Suas mãos estão suadas, e eu tento puxar para longe, mas naquele instante Lindsay e Ally me seguram, e começam a berrar, pulando ao redor de mim. “Eu estava procurando por você há tempo,” Lindsay disse, acenando com o cigarro. “Na boca do Patrick, talvez,” Ally bufou. “Ela estava com Rob.” Elody aponta para mim, balançando os pés. “Olhe para ela. Ela parece culpada.” “Assanhada!” Lindsay berra. Ally entra na onda: “Vagabunda!” e Elody grita alto “Vedete!” que era uma forma antiga de tudo aquilo: Lindsay decidiu no ano passado que vaca era muito entediante. “Estou indo pra casa,” eu digo. “Não precisa me levar. Eu vou dar um jeito.” Lindsay deve ter pensado que eu estava brincando. “Para casa? Nós só chegamos aqui, tipo, há uma hora.” Ela vem para frente e sussurra. “Além do mais, eu pensava que você e Rob iam... você sabe.” Embora ela não tenha gritado na frente de todo mundo, eu já sabia. “Mudei de ideia.” Faço o melhor para soar como se eu não me importasse, e o esforço para isso é exaustivo. Eu estou brava com Lindsay sem saber por que—por não deixar a festa comigo, eu acho. Eu estou brava com Elody por me trazer ali de volta e com Ally por sempre ser tão desinformada. Eu estou brava com Rob por não ligar para quão chateada eu estou, e eu estou com Ken por ligar. Eu estou brava com todos e com tudo, e nesse segundo eu fantasio com o cigarro que Lindsay está abanando acertando as cortinas, pondo fogo em toda a sala e consumindo todos. Então, imediatamente, eu me sinto culpada. A última coisa que eu preciso é me tornar uma dessas pessoas que sempre usa preto e rabiscam armas e bombas nos cadernos. Lindsay está boquiaberta olhando para mim, como se ela pudesse saber o que eu estou pensando. Então eu percebo que ela está olhando sobre o meu ombro. Elody fica corada. A boca de Ally começa a abrir e fechar como um peixe. Houve uma pausa no barulho na festa, como se alguém tivesse desligado o som. Juliet Sykes. Eu sabia que era ela mesmo antes de me virar, mas eu ainda assim fico surpresa quando a vejo, ainda atingida pela mesma sensação de assombro. Ela é bonita. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Hoje quando eu a vi pela cafeteria ela parecia como sempre, cabelo caindo em seu rosto, roupa folgada, encolhendo em si mesma como se ela pudesse ser qualquer um, um fantasma ou uma sombra. Mas agora ela está de pé e reta, e seu cabelo está para trás e seus olhos estão com sombra. Ela anda através da sala até nós. Minha boca fica seca. Eu quero dizer não, mas ela está na frente de Lindsay antes que eu possa soltar a palavra. Eu vejo a boca dela se movendo, mas o que ela diz leva um segundo para que eu compreenda, como se eu tivesse ouvindo debaixo da água. “Você é uma cadela.” Todo mundo está murmurando, começando pelo nosso pequeno grupo: eu, Lindsay, Elody, Ally e Juliet Sykes. Eu sinto minhas bochechas queimando. O som das vozes começando a inchar. “O que você disse?” Lindsay está arrastando os dentes. “Vadia. Garota ruim. Má pessoa.” Juliet se vira para Elody. “Você é uma cadela.” Para Ally. “Você é uma cadela.” Finalmente os olhos dela caem sobre mim. Eles são exatamente da cor do céu. “Você é uma cadela.” As vozes agora são um rugido, pessoas gargalhando e gritando. “Psicopata.” “Você não me conhece,” eu coaxo por fim, encontrando minha voz, mas Lindsay já havia ido para frente e se metido. “Eu prefiro ser uma cadela a ser uma psicopata,” ela rosna, e põe as duas mãos nos ombros de Juliet e empurra. Juliet tropeça para trás, rodando os braços, e tudo é tão horrível e familiar. Está acontecendo de novo: isso na verdade aconteceu. Fecho meus olhos. Eu quero rezar, mas eu não consigo pensar. Por que, por que, por que, por que. Quando eu abro os olhos Juliet está vindo para mim, ensopada, braços estendidos. Ela olha para mim, e eu juro por Deus que parece que ela sabe, como se ela pudesse ver além de mim, como se fosse de algum modo minha culpa. Eu sinto como se eu estivesse sendo atingida no estômago e o ar vai para longe de mim, e eu invisto contra ela sem pensar, empurrando ela e a mandando de costas. Ela bate em uma estante e rola para o lado, agarrando-se na maçaneta para se estabilizar. Então ela sai fora, para o corredor. “Dá pra acreditar?” alguém está gritando atrás de mim. “Juliet Sykes está ganhando coragem.” “Cuckoo para Cocoa Puffs, cara.”

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Pessoas estão rindo, e Lindsay se ergue perto de Elody dizendo: “Louca.” A garrafa de vodka vazia está balançando na mão dela. Ela deveria ter acertado em Juliet. Eu começo a percorrer o caminho até o corredor. Parecia que mais pessoas haviam surgido, e era quase impossível se mover. Eu realmente empurro, usando meu cotovelo quando preciso, e algumas pessoas me olham de um jeito estranho. Não me importo. Eu preciso sair. Eu finalmente cheguei a porta e lá estava Kent, me encarando, sua boca sendo só uma linha. Ele se moveu como se quisesse me bloquear. Ergui meu braço. “Nem pense nisso”—as palavras saindo como um grunhido. Sem nenhum barulho ele se moveu e eu pude me espremer passando por ele. Quando eu tinha andando metade do corredor eu o ouvi dizendo: “Por quê?” “Por quê?” Eu me viro para ele. Mas eu realmente estou pensando na mesma coisa. Por que está acontecendo comigo? Por que, por que, por quê? “Como Sam sempre consegue ir no banco da frente?” “Porque você está sempre bêbada demais para pedir.” “Eu não acredito que você dançou com Rob desse jeito,” Ally diz. Ela deixa o casaco curvado abaixo de seus ouvidos. O carro de Lindsay está tão gelado que nossas respirações eram vapor sólido e branco. “Você vai estar em tantos problemas amanhã.” Se tiver um amanhã, eu quase digo. Eu deixo a festa sem dizer tchau para Rob, quem estava estendido no sofá, seus olhos meio fechados. Eu estive olhando num banheiro vazio no primeiro andar por meia hora antes, esperando no frio, sentada na borda da banheira, ouvindo a música pulsando pelas paredes e no teto. Lindsay insistiu para que eu usasse um batom vermelho brilhando, quando eu olhei meu rosto no espelho, vi que meu lábio parecia estar sangrando, como uma palhaça. Tirei fora com bolas de lenço de papel, que eu deixei flutuando no lixo do banheiro, pequenas fluorescentes flores rosadas. Em certo ponto nosso cérebro para de tentar racionalizar as coisas. Em certo ponto ele desiste, não se importa, encerra o caso. Ainda, quando Lindsay faz a volta com o carro—subindo no jardim de Kent para fazer isso, o pneu rodando na lama—eu estou com medo. Árvores, tão brancas e frágeis como ossos, dançavam loucamente com o vento. A chuva martelando no teto do carro, e a água nas janelas fazia o mundo parecer como se estivesse se desintegrando. O relógio no painel apontava 00:38.

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Deslizei no assento com Lindsay diminuindo a velocidade, galhos batendo em nós de ambos os lados. “E o trabalho de pintura?” pergunto, meu coração martelando no peito. Tento dizer a mim mesma que estava bem, eu estou bem, nada vai acontecer esta noite. Mas não ajuda em nada. “Dane-se,” ela diz. “Carros quebram de qualquer jeito. Você viu o para- choque?” “Talvez se você parasse de bater em carros parados,” Elody diz soltando um bufo. “Talvez se você tivesse um carro.” Lindsay solta uma mão do volante e a põe para frente, procurando pela bolsa dela nos meus pés. Por sua própria indicação, ela virou o volante, e o carro subiu um pouco sobre algumas madeiras. Ally deslizou no banco de trás e bateu contra Elody, e as duas começaram a gargalhar. Eu fico fora de alcance e tento agarrar o volante. “Jesus, Lindz.” Lindsay me encara e me dá uma cotovelada. Ela me lança outro olhar então começa a mexer com um pacote de cigarros. “O que há com você?” “Nada. Eu…” olho para for a da janela, cortando as lágrimas que de repente ameaçam surgir. “Eu só quero que você preste atenção, só isso.” “Sim? Bom, eu quero que você fique longe do volante.” “Vamos, meninas. Não briguem.” “Dá um cigarro, Lindz.” Elody se inclina um pouco no banco de trás, e move seu braço de forma desenfreada. “Só se você acender um para mim,” Lindsay diz, jogando o pacote no banco de trás. Elody acende dois cigarros e passa um para Lindsay, que abaixa um pouco o vidro e exala uma nuvem de fumaça. Ally guincha. “Por favor, por favor, sem janelas. Eu estou a ponto de morrer de pneumonia.” “Você está prestes a cair morta, quando eu matar você,” Elody diz. “Se nós vamos morrer,” eu falo sem pensar “Como vocês gostariam que fosse?” “Nunca,” Lindsay diz. “É sério.” Minhas palmas estão suadas e eu as esfrego no banco de tecido. “Durante o sono,” Ally diz. “Comendo a lasanha da minha avó,” Elody diz, então pausa para depois acrescentar: “Ou fazendo sexo,” o que faz Ally guinchar com uma risada.

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“Em um avião,” Lindsay diz. “Se eu vou cair, eu quero que todos venham comigo”. Ela faz um movimento de queda com a mão. “Você acha que você vai saber, talvez?” de repente era importante para eu falar sobre isso. “Quero dizer, você acha que você vai ter alguma ideia disso... tipo, antes?” Ally se endireita e vem para frente, enganchando os braços ao redor de nossos bancos. “Um dia meu avô acordou, e ele jura que viu esse cara, todo de preto, no pé da cama... Grande capuz, sem rosto. Ele estava segurando uma foice, ou o que quer que seja aquilo. Era a morte, você sabe? Então mais tarde naquele dia ele foi ao médico, e foi diagnosticado com câncer no pâncreas. No mesmo dia.” Elody revira os olhos. “Embora ele não tenha morrido.” “Ele poderia ter morrido.” “Essa história não faz sentido nenhum.” “Nós podemos mudar de assunto?” Lindsay freia justamente no segundo antes de lançar o carro na estrada molhada. “Isso é tão mórbido.” Ally solta um risinho. “Alerta de palavra do SAT16.” Lindsay vira o pescoço para trás, tentando soprar fumaça no rosto de Ally. “Nem todas nós temos o vocabulário de uma criança de doze anos.” Lindsay vira na Rota 9, a qual se estende a nossa frente, uma gigante língua prateada. Um beija flor está batendo as asas em meu peito—subindo, subindo, flutuando em minha garanta. Eu quero voltar para o que eu estava falando—eu quero dizer, você vai saber, certo? Você vai saber antes de acontecer—mas Elody empurra Ally para fora do caminho e vem para frente, o cigarro balançando em sua boca, trompete. “Música!” ela busca pelo iPod. “Você está usando o cinto?” eu pergunto. Não poderia ajudar. O terror estava em todo lugar agora, me pressionando para baixo, roubando o fôlego de mim, e eu penso: se você não respirar, você vai morrer. O relógio bateu distante 00:39. Elody nem responde, só começa a rolar o iPod. Ela encontra “Splinter”, e Ally bate nela dizendo que deveria ser a vez dela escolher a música, de todos os modos. Lindsay diz para pararem de brigar, e ela tenta pegar o iPod de Elody, tirando as duas mãos do volante, segurando ali com um joelho. Eu tento segurá-lo outra vez, mas ela grita “Fora!” Ela está rindo.

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Espécie de ENEM americano.

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Elody esbarra no cigarro na mão de Lindsay, que cai entre as coxas de Lindsay. Os pneus deslizam um pouco na pista úmida, e o carro está cheio pela fumaça queimando. Se você não respirar… Então tudo de repente passou a ser um flash de branco na frente do carro. Lindsay grita alguma coisa—palavras que eu não podia soltar, algo como sim ou sai ou saia—e de repente...

Bom. Você sabe o que acontece a seguir.

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três Em meu sonho eu estou caindo para sempre através da escuridão. Caindo, caindo, caindo. Ainda é cair se não tem fim? E então um grito. Algo rasgando através do silêncio, um lamento alto, terrível, como um animal ou um despertador— Beepbeepbeepbeepbeepbeep Eu acordo abafando um grito. Eu desligo o alarme, tremendo, e me deito sobre meus travesseiros. Minha garganta está queimando e eu estou coberta de suor. Eu inspiro longas, lentas respirações, e vejo meu quarto clarear à medida que o sol movimenta-se pouco a pouco sobre o horizonte, coisas começando a emergir: o moletom Victoria’s Secret em meu chão, a colagem que Lindsay fez para mim anos atrás com citações de nossas bandas favoritas e recortes de revistas. Eu ouço os sons do andar de baixo, tão familiares e constantes que é como se eles pertencessem à arquitetura, como se eles tivessem sido construídos do chão junto com as paredes: o retinir do meu pai na cozinha, guardando pratos no armário; o som do arranhar frenético de nosso pug, Picles, tentando sair pela porta de trás, provavelmente para fazer xixi e correr em círculos; um murmúrio baixo que significa que minha mãe está assistindo ao jornal matinal. Quando eu estou pronta, eu pego um fôlego profundo e alcanço meu telefone. Eu o abro. A data cintila para mim. Sexta-feira, 12 de fevereiro. Dia do Cupido. “Acorde, Sammy,” Izzy coloca sua cabeça na porta. “Mamãe diz que você vai chegar atrasada.” “Diga a Mamãe que eu estou doente.” O cabelo curto e loiro de Izzy desaparece novamente. Aqui está o que eu lembro: eu lembro estar no carro. Eu lembro Elody e Ally brigando pelo iPod. Eu lembro o girar selvagem do volante e ver o rosto de Lindsay enquanto o carro ia em direção às árvores, sua boca aberta e suas sobrancelhas erguidas Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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em surpresa, como se ela tivesse acabado de encontrar alguém que ela conhecia em um lugar inesperado. Mas depois disso? Nada. Depois disso, só o sonho. Essa é a primeira vez que eu realmente penso isso—a primeira vez que me permito pensar isso. Que talvez os acidentes—ambos—foram reais. E talvez eu não tenha sobrevivido. Talvez quando você morre, o tempo se dobra em você, e você fica quicando dentro dessa pequena bolha para sempre. Como o equivalente pós-morte do filme O Feitiço do Tempo. Não é como eu imaginava que a morte seria—não o que eu imaginava que viesse depois—mas então, não é como se tivesse alguém por aí pra te contar sobre isso.

Seja honesto: você está surpreso que eu não tenha percebido antes? Está surpreso que tenha me levado tanto tempo para até mesmo pensar na palavra—morte? Morrendo? Morta? Você acha que eu estava sendo estúpida? Ingênua? Tente não julgar. Lembre-se que somos o mesmo, você e eu. Eu também pensava que fosse viver para sempre.

“Sam?” Minha mãe abre a porta e se encosta no batente. “Izzy disse que você está se sentindo mal?” “Eu... eu acho que peguei uma gripe ou algo assim.” Eu sei que estou parecendo péssima, então isso pode ser acreditável. Minha mãe suspira como se eu estivesse sendo difícil de propósito. “Lindsay estará aqui a qualquer momento.” “Eu não acho que possa ir hoje.” A ideia de escola me faz querer me dobrar em uma bola e dormir para sempre. “No Dia do Cupido?” Minha mãe levanta as sobrancelhas. Ela olha de relance para a camiseta com detalhes em pele que está colocada arrumadamente sobre a cadeira da minha escrivaninha—a única peça de roupa que não está jogada no chão ou pendurada em uma maçaneta ou cabeceira da cama. “Aconteceu alguma coisa?” “Não, Mãe.” Eu tento engolir o nó na minha garganta. O pior é saber que não posso contar a ninguém o que está acontecendo—ou aconteceu—comigo. Nem mesmo para

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minha mãe. Eu acho que já faz anos desde que eu conversava com ela sobre coisas importantes, mas eu começo a desejar aqueles dias, quando eu acreditava que ela poderia consertar qualquer coisa. É engraçado, não? Quando você é novo, quer ser mais velho, e então depois você começa a desejar poder voltar a ser criança. Minha mãe está procurando meu rosto bem intensamente. Eu sinto como se a qualquer momento eu pudesse desmoronar e dizer alguma coisa maluca sem pensar, então eu me viro para longe dela, de frente para a parede. “Você ama o Dia do Cupido,” minha mãe incita. “Você tem certeza de que não aconteceu nada? Você não brigou com suas amigas?” “Não. Claro que não.” Ela hesita. “Você brigou com Rob?” Isso me faz querer rir. Eu penso no fato de que ele me deixou esperando no andar de cima na festa de Kent e quase digo Ainda não. “Não, Mãe. Nossa.” “Não use esse tom de voz. Eu só estou tentando ajudar.” “Sim, bem, você não está.” Eu me enterro mais debaixo das cobertas, mantendo minhas costas viradas para ela. Eu ouço um farfalhar e penso que ela vai vir e se sentar perto de mim. Ela não faz isso, porém. No primeiro ano, depois de uma grande briga, eu desenhei uma linha com esmalte vermelho no chão do lado de dentro da porta, e disse que se ela atravessasse aquela linha alguma vez, eu jamais falaria com ela de novo. A maior parte do esmalte já lascou e sumiu, mas em alguns lugares você ainda pode ver ele manchado sobre a madeira feito sangue. Eu realmente tencionava isso antes, mas eu havia esperado que ela esquecesse depois de um tempo. Mas desde aquele dia, ela não pôs os pés no meu quarto uma única vez. É chato algumas vezes, já que ela nunca me surpreende arrumando minha cama, ou deixando roupas lavadas ou um novo vestido leve em minha cama, como ela fazia quando eu estava no primeiro grau. Mas pelo menos eu sei que ela não está vasculhando meus armários enquanto eu estou na escola, procurando por drogas ou brinquedos sexuais ou qualquer coisa assim. “Se você quiser vir até aqui, eu vou pegar o termômetro,” ela diz. “Eu não acho que eu esteja com febre.” Há uma lasca na parede na forma exata de um inseto, e eu empurro meu polegar contra a parede, esmagando-o. Eu posso praticamente sentir minha mãe colocar as mãos nos quadris. “Escute, Sam. Eu sei que é o segundo semestre. E eu sei que você acha que isso te dá o direito de ser negligente—”

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“Mãe, não é isso.” Eu enterro minha cabeça no travesseiro, sentindo como se eu pudesse gritar. “Eu te disse, não estou me sentindo bem.” Eu estou meio com medo de que ela pergunte o que está errado, e também meio esperançosa. Ela só diz, “Tudo bem. Vou dizer a Lindsay que você está pensando em ir mais tarde. Talvez você se sinta melhor depois de dormir um pouco mais.” Duvido. “Talvez,” eu digo, e um segundo depois eu ouço a porta se fechando atrás dela. Eu fecho meus olhos e alcanço de volta aqueles momentos finais, as últimas memórias—o olhar de surpresa de Lindsay e as árvores iluminadas como dentes pelos faróis, o rugido selvagem do motor—procurando por uma luz, uma ligação que conecte esse momento com aquele, uma maneira de juntar os dias para que eles façam sentido. Mas tudo o que eu consigo é escuridão. Eu não consigo mais segurar as lágrimas. Elas vêm todas de uma vez, e antes que eu me dê conta, eu estou soluçando e espalhando muco sobre meus melhores travesseiros Ethan Allen. Um pouco depois, eu ouço um arranhar na porta. Picles sempre teve um senso canino para saber quando eu estou chorando, e na sétima serie, depois que Rob Cokran disse que eu era uma babaca muito grande para sair com ele—bem no meio do refeitório, na frente de todo mundo—Picles sentou na minha cama e lambeu minhas lágrimas uma por uma. Eu não sei por que esse é o exemplo que aparece na minha cabeça, mas pensar sobre esse momento faz com que uma nova onda de raiva e frustração se avolumar dentro de mim. É estranho como essa memória me afeta. Eu nunca mencionei esse dia para o Rob— eu duvido que ele se lembre—mas eu sempre gostei de pensar nele quando nós estamos andando pelo corredor, nossos dedos entrelaçados, ou quando estamos todos passando tempo no porão de Tara Flute, e Rob olha para mim e pisca. Eu gosto de pensar em como a vida é engraçada: como as coisas mudam. Como as pessoas mudam. Mas agora eu só me pergunto quando, exatamente, eu me tornei legal o suficiente para Rob Cokran. Depois de um tempo, o arranhar na minha porta para. Picles finalmente se deu conta de que não vai entrar, e eu ouço suas patas fazendo tic tic contra o chão enquanto ele vai embora. Eu acho que nunca me senti tão sozinha em minha vida. Eu choro até parecer incrível que uma única pessoa possa ter tantas lágrimas. Parece como se elas devessem estar vindo das pontas dos meus dedões. Então eu durmo sem sonhar.

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táticas de fuga Eu acordo pensando em um filme que assisti uma vez. O personagem principal morre de alguma forma—eu esqueço como—mas ele só está meio morto. Uma parte dele está lá deitada em coma, e uma parte dele está vagando no mundo, meio que no limbo. O ponto é, enquanto ele não está completamente 100 por cento morto, um pedaço dele está preso nesse lugar no meio do caminho. Isso me dá esperança pela primeira vez em dois dias. A ideia de que eu possa estar em algum lugar em coma, minha família se inclinando sobre mim e todos se preocupando e enchendo meu quarto de hospital com flores, na verdade me faz sentir bem. Porque se eu não estou morta—pelo menos, não ainda—pode haver algum jeito de impedir isso. Minha mãe me deixa no Estacionamento de cima logo antes do terceiro tempo começar (350 metros ou não, eu não vou ser vista saindo do Accord 2003 marrom da minha mãe, que ela não troca porque ela diz que é “eficiente no combustível”). Agora eu mal posso esperar para chegar à escola. Eu tenho um pressentimento de que vou encontrar as respostas lá. Eu não sei como ou porque eu estou presa nesse gancho do tempo, mas quanto mais eu penso sobre isso, mais convencida eu fico de que existe uma razão para isso. “Vejo você depois,” eu digo, e começo a sair do carro. Mas algo me para. É a ideia que vem me incomodando pelas últimas 24 horas, o que eu estava tentando conversar com minhas amigas no Tank: como você pode nunca realmente saber. Como você pode estar andando na rua um dia e—bam! Escuridão. “Está frio, Sam.” Minha mãe se inclina pelo assento do passageiro e gesticula para eu fechar a porta. Eu me viro e me inclino para olhar para ela. Leva um segundo para eu conseguir falar as palavras, mas eu resmungo “Euteamo.” Eu me sinto tão estranha dizendo isso, que sai mais como inhame. Eu nem mesmo tenho certeza de que ela me entendeu. Eu bato a porta rapidamente antes que ela possa responder. Provavelmente, já tem anos desde que eu disse “Eu te amo” para meus pais, exceto nos Natais ou aniversários ou quando eles dizem antes e é praticamente esperado. Isso me deixa com uma sensação estranha na barriga, parte alívio e parte constrangimento e parte arrependimento. Enquanto eu estou andando para a escola, eu faço um juramento: não haverá um acidente hoje à noite.

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E o que quer que seja—essa bolha ou soluço no tempo—eu estou acabando com isso.

Aqui está mais uma coisa para lembrar: esperança te mantém vivo. Mesmo quando você está morto, é a única coisa que te mantém vivo.

O sino já tocou para o terceiro tempo, então eu me apresso para a sala de Química. Eu chego lá bem a tempo de pegar um lugar—grande surpresa—ao lado de Lauren Lornet. A prova começa, do mesmo jeito que ontem e anteontem—exceto que agora eu já posso responder a primeira questão sozinha. Caneta. Tinta. Funcionando? Sr. Tierney. Livro. Batida. Pular. “Fique com ela,” Lauren sussurra pra mim, praticamente batendo os cílios para mim. “Você vai precisar de uma caneta.” Eu começo a tentar devolver, como sempre, mas algo na expressão dela acende uma memória. Eu me lembro de estar voltando para casa depois da festa na piscina da Tara Flute na oitava serie, e ver meu rosto no espelho se iluminar exatamente daquele jeito, como se alguém tivesse me dado um bilhete de loteria premiado e me dito que minha vida estava prestes a mudar. “Obrigada.” Eu coloco a caneta na minha bolsa. Ela ainda está fazendo aquela cara—eu posso ver pelo canto dos meus olhos—e depois de um minuto eu me viro e digo, “Você não deveria ser tão legal comigo.” “O quê?” Agora ela parece completamente aturdida. Definitivamente, uma melhoria. Eu tenho que sussurrar porque Tierney começou sua aula novamente. Reações químicas, blá blá blá. Transfiguração. Junte dois líquidos, e eles formam um sólido. Dois mais dois nem sempre é igual a quatro. “Legal comigo. Você não deveria ser.” “Por que não?” Ela franze a testa até seus olhos quase desaparecerem. “Porque eu não sou legal com você.” As palavras são surpreendentemente difíceis de sair. “Você é legal,” Lauren diz, olhando para suas mãos, mas ela obviamente não quer dizer realmente aquilo. Ela olha pra cima e tenta de novo. “Você não...” Ela para ali, mas eu sei o que ela vai dizer. Você não tem que ser legal comigo. “Exatamente,” eu digo.

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“Garotas!” o Sr. Tierney grita, batendo o punho na sua mesa de laboratório. Eu juro que ele fica praticamente neon. Lauren e eu não nos falamos pelo resto da aula, mas eu deixo Química me sentindo bem, como se tivesse feito a coisa certa. “Isso é o que eu gosto de ver.” O Sr. Daimler batuca seus dedos sobre minha mesa enquanto ele anda as fileiras no fim da classe, coletando o dever de casa. “Um grande sorriso. É um dia lindo—” “Parece que vai chover mais tarde,” diz Mike Heffner, e todo mundo ri. Ele é um idiota. O Sr. Daimler não perde o ritmo. “—e é o Dia do Cupido. O amor está no ar.” Ele olha direto para mim, e meu coração para por um momento. “Todos deveriam estar sorrindo.” “Só pra você, Sr. Daimler,” eu digo, deixando minha voz extra-doce. Mais risadinhas e uma bufada alta vinda de trás. Eu me viro e vejo Kent, cabeça abaixada, escrevendo furiosamente na capa de seu caderno. O Sr. Daimler ri e diz “E eu que pensava que consegui deixar você excitada por equações diferenciais.” “Você deixou ela excitada por alguma coisa,” Mike resmunga. Mais risadas da classe. Eu não tenho certeza de se o Sr. Daimler ouve—ele não parece ter—mas as pontas de suas orelhas ficam vermelhas. A aula inteira tem sido assim. Eu estou em um bom humor, certa de que tudo vai ficar bem. Eu já entendi tudo. Eu vou ter uma segunda chance. E o Sr. Daimler tem prestado uma atenção extra em mim. Depois que os Cupidos vieram ele deu uma olhada nas minhas quatro rosas, levantou as sobrancelhas, e disse que eu devo ter admiradores secretos em todos os lugares. “Não tão secretos,” eu disse, e ele piscou para mim. Depois da aula eu junto minhas coisas e vou para o corredor, pausando só por um segundo para olhar por cima do meu ombro. Com certeza, Kent está vindo logo depois de mim, camisa pra fora, bolsa carteiro meio aberta e batendo contra sua coxa. Que bagunça. Eu começo a andar em direção ao refeitório. Hoje eu olhei com mais cuidado para o recado dele: a árvore é desenhada em tinta preta, cada inclinação e sombra no tronco sombreados perfeitamente. As folhas são pequenas e em forma de diamante. A coisa toda deve ter lhe custado horas. Eu o coloco entre duas folhas do meu livro de matemática, para que não amasse. “Ei,” ele diz, me alcançando. “Você recebeu meu recado?”

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Eu quase digo a ele, É muito bom, mas algo me impede. “’Não beba e ame?’ Isso é algum tipo de bordão que eu não conheço?” “Eu considero meu dever cívico espalhar a palavra.” Kent põe a mão em cima do coração. Um pensamento flameja—você não estaria falando comigo se pudesse lembrar—mas eu o empurro de lado. Esse é Kent McFuller. Ele tem sorte de eu estar até mesmo falando com ele. Além do mais, eu não planejo estar na festa essa noite: sem festa, sem Juliet Sykes, sem razão para Kent estourar comigo. Mais importante, sem acidente. “Mais como espalhar a esquisitice,” eu digo. “Eu tomo isso como um elogio.” Kent subitamente parece sério. Ele franze o rosto e todas as sardas claras em cima do seu nariz se juntam como uma constelação. “Por que você dá em cima do Sr. Daimler? Ele é um pervertido, você sabe.” Eu estou tão surpresa pela pergunta que demoro um segundo para responder. “O Sr. Daimler não é um pervertido.” “Acredite em mim, ele é.” “Com ciúmes?” “Dificilmente.” “Eu não dou em cima dele, de qualquer maneira.” Kent rola os olhos. “Claro.” Eu encolho meus ombros. “Por que tão interessado?” Kent fica vermelho e baixa os olhos para o chão. “Sem motivo,” ele resmunga. Meu estômago mergulha um pouquinho, e eu percebo que parte de mim estava esperando que sua resposta fosse diferente—mais pessoal. Claro, se Kent realmente confessasse seu eterno amor por mim logo ali, no corredor, seria desastroso. Apesar de sua esquisitice, eu não tenho desejo nenhum de humilhá-lo publicamente—ele é legal e nós somos amigos de infância e tudo o mais—mas eu não poderia nunca, nunca, jamais namorar com ele, não em um milhão de vidas. Não na minha vida, de qualquer forma: a que eu quero de volta, onde ontens são seguidos de hojes e então amanhãs. O chapéu-coco sozinho faz disso impossível. “Escuta.” Kent me lança um olhar de canto de olho. “Meus pais vão viajar esse fim de semana, e eu vou receber algumas pessoas hoje à noite...” “Aham.” À frente, eu vejo Rob avançando a passos largos em direção ao refeitório. A qualquer momento ele vai me ver. Eu não posso aguentar vê-lo agora. Meu estômago se

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aperta e eu pulo na frente de Kent, dando as costas para o refeitório. “Umm... Onde é sua casa mesmo?” Kent me olha de um jeito estranho. Eu basicamente acabei de me colocar como uma barricada humana. “Fora da Rota 9. Você não se lembra?” Eu não respondo e ele olha pra mim, dando de ombros. “Eu acho que você não lembraria, realmente. Você só esteve lá algumas vezes. Nós nos mudamos logo antes de entrar no primeiro grau. De Terrace Place. Você se lembra da minha antiga casa em Terrace Place, né?” O sorriso está de volta. É verdade; seus olhos são exatamente da cor da grama. “Você costumava ficar na cozinha e roubar todos os cookies bons. E eu te perseguia entre aqueles bordos enormes no quintal da frente. Lembra?” Assim que ele menciona os bordos, uma memória aparece, se expandindo, como algo quebrando a superfície da água e ondulando-se para fora. Nós estávamos sentados nesse pequeno espaço entre duas raízes enormes que se curvavam para fora do chão como colunas de animais. Eu lembro que ele partiu suas sementes de bordo e colocou uma em seu nariz e outra no meu, me dizendo que desse jeito todos saberiam que nós estávamos apaixonados. Eu provavelmente só tinha cinco ou seis anos. “Eu—Eu...” A última coisa que eu preciso é dele me lembrando dos bons tempos de antigamente, quando eu era só joelhos e nariz e óculos, e ele era o único menino que iria chegar perto de mim. “Talvez. Todas as árvores meio que parecem iguais pra mim, sabe?” Ele ri mesmo que eu não estivesse tentando ser engraçada. “Então, você acha que vem essa noite? Pra minha festa?” Isso me traz de volta à realidade. A festa. Eu balanço minha cabeça e começo a recuar. “Não. Eu acho que não.” Seu sorriso cai um pouco. “Vai ser divertida. Grande. Lembranças de finalista. O melhor tempo de nossas vidas e toda essa besteira.” “Certo,” eu digo sarcasticamente. “O paraíso do segundo grau.” Eu me viro e começo a andar para longe dele. O refeitório está lotado, e à medida que eu me aproximo das portas duplas —uma das quais está sendo mantida aberta com um tênis velho—o barulho dos estudantes me cumprimenta com um rugido. “Você vai vir,” ele grita atrás de mim. “Eu sei que vai.” “Não prenda a respiração,” eu grito de volta, e quase adiciono, É melhor assim.

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“Como assim você não pode sair?” Ally está olhando para mim como se eu tivesse acabado de dizer que queria ir ao baile com Bem Farsky (ou Fart-sky17, como temos chamado ele desde a quinta serie). Eu suspiro. “Eu só não estou a fim, ok?” Eu mudo de tática e tento de novo. “Nós saímos todo fim de semana. Eu só—eu não sei. Eu quero ficar em casa, como costumávamos fazer.” “Nós costumávamos ficar em casa porque não podíamos ir pra nenhuma festa dos veteranos,” Ally diz. “Fale por si mesma,” Lindsay diz. Isso é mais difícil do que achei que seria. Eu lembro rapidamente de minha mãe perguntando se eu havia brigado com Rob e antes que eu pense demais sobre isso eu deixo escapar, “É Rob, ok? Nós... nós estamos tendo problemas.” Eu abro meu celular, checando por mensagens pela milionésima vez. Quando eu cheguei na cafeteria Rob estava de pé atrás das máquinas registradoras, enchendo suas batatas fritas com ketchup e molho barbecue (seu favorito). Eu não consegui me fazer ir até ele, então ao invés disso eu me apressei até a mesa dos veteranos e mandei uma mensagem: Precisamos conversar. Ele respondeu logo depois: Sobre? Hj à noite, eu respondi de volta, e desde então meu telefone ficou silencioso. Do outro lado da cafeteria, Rob está encostado nas máquinas de venda automática conversando com Adam Marshall. O boné dele está virado de lado. Ele acha que isso faz ele parecer mais velho. Eu costumava amar colecionar esses pequenos fatos sobre ele, guardando-os juntos e segurando-os bem perto de mim, como se eu juntasse todos os detalhes e os lembrasse— o fato de que ele gosta de molho barbecue mas não de mostarda, que seu time favorito é o Yankees embora ele prefira basquete a beisebol, que uma vez quando ele era pequeno ele quebrou a perna tentando pular por cima de um carro—eu iria entendê-lo completamente. Eu costumava pensar que é isso que o amor era: conhecer alguém tão bem que ele era como uma parte de você. Mas mais e mais eu estou sentindo como se não conhecesse Rob. O queixo de Ally realmente cai. “Mas era pra vocês—você sabe.”

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Fart – peido, em inglês.

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Ela meio que parece com um peixe empalhado com a boca aberta desse jeito, então eu me viro, lutando contra a vontade de rir. “A gente ia, mas...” Eu nunca fui uma boa mentirosa e meu cérebro fica totalmente branco. “Mas?” Lindsay incita. Eu alcanço minha bolsa e puxo o bilhete que ele me enviou, que agora está amassado e tem um pedaço de chiclete, meio desembrulhado, grudado nele. Eu o empurro pela mesa. “Mas isso.” Lindsay franze o nariz e abre o cartão com as pontinhas dos dedos. Ally e Elody se inclinam e ambas leem. Todas ficam em silêncio por um segundo depois. Finalmente, Lindsay fecha o cartão e o empurra de volta pra mim. “Não é tão ruim assim,” ela diz. “Não é tão bom assim, também.” Eu estava apenas querendo inventar uma desculpa para nos manter longe da festa essa noite, mas assim que começo a falar sobre Rob, eu fico realmente irritada. “Amo vc? Que tipo de porcaria é essa? Nós estamos saindo desde outubro.” “Ele provavelmente só está esperando pra dizer,” Elody diz. Ela tira a franja da frente dos olhos. “Steve não diz pra mim.” “É diferente. Você não espera que ele diga.” Elody desvia o olhar rapidamente, e me ocorre que talvez, apesar de tudo, ela espere. Há uma pausa incômoda, e Lindsay pula nela. “Eu não vejo qual é o trauma. Você sabe que Rob gosta de você. Não é como se fosse ser um caso de uma noite ou algo do tipo.” “Ele gosta de mim, mas...” Eu estou a ponto de confessar que não tenho certeza de se estamos bem juntos, mas no último segundo eu não consigo. Elas iriam pensar que eu estou louca. Nem mesmo eu entendo, realmente. É como se a ideia dele fosse melhor que o ele dele. “Olhem. Eu não vou fazer sexo com ele só pra que ele diga que me ama, sabe?” Eu nem mesmo pretendo que as palavras saiam, e por um segundo eu fico tão assustada por elas, que não consigo dizer mais nada. Não é por isso que eu estava planejando fazer sexo com Rob—pra ouvir as palavras, quero dizer. Eu só queria me livrar disso logo. Eu acho. Na verdade, eu não tenho certeza de por que isso parecia tão importante. “Falando no diabo,” Ally resmunga. Então eu cheiro bálsamo de limão e Rob está plantando um beijo molhado na minha bochecha. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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“Olá, garotas.” Ele põe a mão para roubar uma batata de Elody, e ela move sua cesta para fora de alcance. Ele ri. “Ei, Slammer. Você recebeu meu recado?” “Eu recebi.” Eu olho para a mesa. Eu sinto como se eu encontrar seus olhos, eu vou esquecer de tudo, esquecer o recado e como ele me deixou sozinha e como quando ele beija ele mantém os olhos abertos. Ao mesmo tempo, eu não quero realmente que nada mude. “Então? O que eu perdi?” Rob se inclina para frente e põe suas mãos na mesa—um pouco forte demais, eu acho. A coca diet de Lindsay pula. “A festa no Kent e como Sam não quer ir,” Ally deixa escapar. Elody dá uma cotovelada nela, e Ally dá um gritinho. Rob vira a cabeça e olha para mim. Seu rosto está completamente inexpressivo. “É sobre isso que você queria falar?” “Não—bem, mais ou menos.” Eu não estava esperando que ele mencionasse a mensagem, e me deixa agitada não saber o que ele está pensando. Seus olhos parecem extra escuros, quase enevoados. Eu tento sorrir para ele, mas sinto como se minhas bochechas estivessem cheias de algodão. Eu não consigo deixar de imaginar ele balançando sobre os pés e levantando sua mão e dizendo, “Cinco minutos.” “Bem?” Ele se ajeita e dá de ombros. “E aí?” Lindsay, Ally e Elody estão todas me encarando. Eu posso sentir seus olhares como se eles emitissem calor. “Eu não posso falar sobre isso aqui. Quer dizer, não agora.” Eu balanço minha cabeça em direção a elas. Rob ri: um som curto, áspero. E agora eu posso ver que ele está puto e somente escondendo. “Claro que não.” Ele recua, as mãos levantadas como se estivesse tentando evitar alguma coisa. “Que tal assim? Me deixe saber quando você estiver pronta para falar. Eu vou esperar para ouvir de você. Eu jamais iria querer, sabe, pressionar você.” Ele alonga algumas das palavras, e eu posso ouvir o sarcasmo em sua voz—levemente, mas está ali. É óbvio—para mim, pelo menos—que ele está falando sobre muito mais do que nós conversarmos, mas antes que eu possa responder ele dá um floreio com sua mão, um tipo de reverência, e então se vira e vai embora. “Nossa.” Ally empurra um pouco o sanduíche de peru em seu prato. “O que foi aquilo?” “Vocês não estão realmente brigando, estão, Sam?” Elody pergunta, olhos arregalados.

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Antes que eu precise responder Lindsay faz meio que um barulho de sibilo, e põe seu queixo para fora, gesticulando para detrás de mim. “Alerta de psicopata. Tranquem as facas e os bebês.” Juliet Sykes acabou de entrar na cafeteria. Eu tenho estado tão focada no hoje—em consertá-lo, na ideia de que eu posso consertá-lo—que eu esqueci completamente de Juliet. Mas agora eu me viro rapidamente, mais curiosa sobre ela do que jamais tinha sido. Eu a vejo flutuando pela cafeteria. O cabelo dela está solto e escondendo seu rosto: cabelo ondulado, macio, tão branco que me lembra neve. É o que ela parece, realmente—com um floco de neve sendo levado pelo vento, torcendo e girando nas correntes de ar. Ela nem mesmo olha de soslaio na nossa direção, e eu me pergunto se até mesmo agora ela está planejando aquilo, planejando nos seguir hoje à noite e nos envergonhar na frente de todo mundo. Não parece como se ela tivesse isso nela. Eu estou tão focada em assisti-la que me leva um segundo para perceber que Ally e Elody acabaram de terminar uma rodada de Psycho killer, qu’est-ce que c’est e agora estão rindo histericamente. Lindsay está levantando os dedos, cruzados, como estivesse tentando repelir uma maldição, e ela fica repetindo, “Oh, Senhor, mantenha a escuridão longe.” “Por que você odeia Juliet?” Eu pergunto a Lindsay. É estranho para mim que eu nunca pensei em perguntar até recentemente. Eu sempre simplesmente aceitei. Elody dá um resfôlego e quase se engasga com sua coca diet. “Você está falando sério?” Lindsay claramente não está preparada para essa pergunta. Ela abre a boca, fecha, e então joga o cabelo e rola os olhos como se não pudesse acreditar que eu esteja perguntando isso. “Eu não odeio ela.” “Sim, você odeia.” Foi Lindsay quem descobriu que não enviaram uma única rosa para Juliet no primeiro ano, e foi ideia de Lindsay mandar um Valograma. Foi Lindsay quem deu a ela o apelido de Psicopata, e quem, todos aqueles anos atrás, espalhou a história de Juliet fazendo xixi no passeio de acampamento das Escoteiras. Lindsay me encara como se eu tivesse perdido a cabeça. “Desculpe,” ela diz, dando de ombros. “Sem folgas para pacientes mentais.” “Não me diga que você se sente mal por ela ou coisa do tipo,” Elody diz. “Você sabe que ela deveria ser trancada.” “Bellevue,” Ally dá risadinhas. “Eu só estava imaginando,” eu digo, endurecendo quando ouço a palavra que começa com B. Sempre ainda existe a possibilidade de que eu fiquei completamente,

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clinicamente lelé. Mas de alguma forma eu já não acho mais isso. Um artigo que eu li uma vez dizia que pessoas malucas não se preocupam em estarem malucas—esse é o problema. “Então nós estamos realmente ficando em casa?” Ally diz, fazendo beicinho. “A noite inteira?” Eu seguro minha respiração e olho para Lindsay. Ally e Elody olham pra ela também. Ela tem a palavra final nas nossas maiores decisões. Se ela está determinada a ir para o Kent, eu vou ter dificuldade em escapar. Lindsay se encosta na cadeira e me encara. Eu vejo algo cintilar em seus olhos, e meu coração para, pensando que ela vai me dizer para engolir aquilo, que uma festa vai me fazer bem. Mas ao invés disso ela abre um sorriso e pisca para mim. “É só uma festa,” ela diz. “Provavelmente vai ser chata de qualquer forma.” “Nós podemos alugar um filme de terror,” Elody sugere. “Vocês sabem, como costumávamos fazer.” “É com Sam,” Lindsay diz. “O que ela quiser.” Eu poderia beijá-la naquele momento. Eu mato Inglês com Lindsay de novo. Nós passamos por Alex e Anna no Hunan Kitchen, mas hoje Lindsay nem pausa, provavelmente porque ela está tentando muito ser legal comigo, ela sabe que eu odeio confrontos. Eu hesito, porém. Eu penso em Bridget colocando seus braços em volta de Alex e olhando para ele como se ele fosse o único cara na Terra. Ela é irritante, ok, mas ela merece algo bem melhor que ele. É uma pena. “Oi? Perseguindo alguém?” Lindsay diz. Eu percebo que estou parada ali encarando através dos cartazes rasgados propagandeando lanches especiais de cinco dólares e grupos de teatro locais e salões de beleza. Alex Liment me viu através da janela. Ele está me encarando de volta. “Eu estou indo.” É uma pena, realmente, mas na real, o que você pode fazer? Viva e deixe viver. No The Country’s Best Yogurt, Lindsay e eu pegamos montes de copos de chocolate duplo com copos amassados de pasta de amendoim, e eu adiciono confeitos e cereal Cap’n’Crunch. Meu apetite voltou, isso é certeza. Tudo está acontecendo do jeito que planejei. Não vai haver festa nenhuma hoje à noite, pelo menos não para nós; não vai ter nada de dirigir ou carros. Tenho certeza de que isso vai consertar tudo—que a dobra no tempo vai ser aplainada, que eu vou acordar de qualquer pesadelo que eu esteja vivendo. Talvez eu vá sentar, arfando, em uma cama de hospital em algum lugar, rodeada de Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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amigos e família. Eu posso imaginar a cena perfeitamente: minha mãe e pai em lágrimas, Izzy chorando enquanto se pendura em meu pescoço, Lindsay e Ally e Elody e— Uma imagem de Kent aparece em minha cabeça e eu rapidamente a afasto. —Rob. É claro que Rob. Mas isso é a chave, estou certa disso. Sobreviver ao dia. Obedecer as regras. Ficar longe da festa de Kent. Simples. “Cuidado,” Lindsay sorri, colocando uma enorme colherada de iogurte em sua boca. “Você não quer ser gorda e uma virgem.” “Melhor que ser gorda com gonorreia,” eu digo, jogando um pedaço de chocolate nela. Ela joga um de volta. “Você está brincando? Eu sou tão limpa que você poderia comer em mim.” “O bufê Lindsay. Patrick sabe que você está dando isso assim?” “Nojento.” Lindsay está lutando com seu copo grande, tentando tirar o pedaço perfeito. Mas nós duas estamos rindo, e ela acaba jogando uma enorme colherada de iogurte em mim. Ele me acerta logo acima do olho direito. Ela arfa e coloca uma mão sobre a boca. O iogurte escorrega sobre meu rosto e cai com um plop bem em cima da pele cobrindo meu seio esquerdo. “Eu sinto muito, muito mesmo,” Lindsay diz, sua voz abafada pela sua mão. Seus olhos estão arregalados, e é óbvio que ela está tentando não rir. “Você acha que sua blusa está arruinada?” “Ainda não,” eu digo, e pego uma enorme colherada de iogurte e jogo nela. Ele acerta no lado da cabeça dela, bem no cabelo. Ela grita “Puta!” e então nós estamos desviando pelo TCBY nos escondendo atrás de mesas e cadeiras, pegando enormes colheradas de chocolate duplo e usando nossas colheres como catapultas para acertar uma a outra.

você não pode julgar um professor de educação física por seu bigode curvo Lindsay e eu não conseguíamos parar de rir no caminho de volta para escola. É difícil explicar, mas eu estou me sentindo mais feliz do que eu estive em anos, como se eu estivesse notando tudo pela primeira vez: o cheiro afiado do inverno, a luz estranha e inclinada, o modo como as nuvens estão se desenhando até o céu lentamente. A pele dos Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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nossos tops está completamente opaca e grosseira, e nós temos manchas d'água em todo lugar. Carros continuam buzinando para nós, e nós mandamos uma explosão de beijos para eles. Uma Mercedes preta passa, e Lindsay se curva, bate em sua bunda e grita, “Dez dólares! Dez dólares!” Eu soco ela no braço. “Esse podia ser meu pai.” “Desculpe desapontá-la, mas seu pai não dirige uma Mercedes.” Lindsay empurra seu cabelo do rosto. Está pegajoso e úmido. Nós tivemos que nos lavar no banheiro enquanto a mulher da TCBY gritava para nós e ameaçava chamar a polícia se alguma vez colocássemos o pé na loja novamente. “Você é impossível,” eu digo. “Você sabe que me ama,” ela diz, agarrando o meu braço e se aconchegando a mim. Ambas congelávamos. “Eu te amo,” eu disse, e eu realmente quis dizer isso. Eu a amo, eu amo os feios tijolos cor de mostarda do Thomas Jefferson e as salas de cor de magenta. Eu amo Ridgeview por ser pequeno e entediante, e eu amo todos e tudo nele. Eu amo minha vida. Eu quero a minha vida. “Amo você também, babe.” Quando voltamos para a escola, Lindsay queria fumar um cigarro, mesmo que o sinal para o oitavo tempo estaria tocando a qualquer segundo. “Dois tragos,” Lindsay diz, arregalando seus olhos, e eu ri e a deixei me puxar junto, porque ela sabe que eu nunca consigo dizer não para ela quando ela faz essa cara. O salão está vazio. Nós estamos bem ao lado das quadras de tênis, amontoadas, enquanto Lindsay tenta acender um fósforo. Finalmente ela consegue, e ela puxa uma longa tragada, deixando uma nuvem de fumaça sair da sua boca. Um segundo depois, nós ouvimos um grito do outro lado do estacionamento: “Ei! Você! Com o cigarro!” Nós congelamos. Sra. Winters. Nic Nazi. "Corre!" Lindsay grita depois de uma fração de segundo, derrubando o cigarro. Ela decola atrás da quadra de tênis, embora eu gritasse, “Aqui!” Eu vejo o grande pufe loiro dos cabelos de Sra. Winters balançando pelos carros—eu não tenho certeza se ela nos viu ou apenas nos ouviu rir. Eu me escondi atrás de um Range Rover e atravessei a Alameda dos Formandos até uma das portas traseiras do ginásio enquanto Sra. Winters continua gritando, “Ei! Ei!” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Eu pego a maçaneta e giro, mas a porta não abre. Por um segundo meu coração para, e eu tenho certeza que está trancado, mas então eu bato contra ele e ele se abre em um armário. Eu salto para dentro e fecho a porta atrás de mim, coração martelando no meu peito. Um minuto depois eu ouço passos atrás da porta. Então eu ouço Sra. Winters resmungar, “Merda,” e os passos começam a recuar. A coisa toda—o dia, a briga no The Country´s Best Yogurt, o quase-colapso, a ideia de Lindsay agachada em algum lugar na floresta com sua saia e as novas botas Steven Madden—me parece ser tão engraçado que eu tenho que colocar minha mão sobre minha boca para me impedir de rir. A sala em que eu estou está cheia de chuteiras de futebol e camisetas e lama, e com a pilha de cones laranja e um saco cheio de bolas de basquete, quase não há espaço suficiente para eu ficar. Um lado da sala é com janelas para um escritório: provavelmente do Otto, já que ele basicamente vive no ginásio. Eu nunca tinha realmente visto seu escritório. Sua mesa é empilhada com papéis, e há um computador piscando um protetor de tela que parece uma brega foto de uma praia. Eu chego mais perto da janela, pensando no quão hilário seria se eu pudesse atingi-lo com algo sujo, como algumas cuecas espreitando para fora de um gaveta ou uma revista pornô ou algo assim, quando a porta do seu escritório se abre e lá está ele. Instantaneamente eu caio no chão. Eu tenho que me torcer em uma bola, e mesmo assim eu sou paranoica que meu rabo de cavalo possa estar espreitando por cima do parapeito da janela. Soa estúpido considerando tudo o que aconteceu, mas tudo o que eu consigo pensar nesse momento é, se ele me vê, eu estou realmente morta. Tchau, casa da Ally; olá, detenção. Meu rosto está colado ao lado de uma mala semiaberta que parece que está cheia de camisetas velhas de basquete. Eu não sei se elas alguma vez foram lavadas ou o que, mas o cheiro me faz querer vomitar. Eu ouço Otto se movendo ao redor de sua mesa, e eu estou rezando - rezando - que ele não chegue perto o suficiente da mesa para me ver encostada em um monte de velhos equipamentos esportivos. Já posso ouvir os rumores: Samantha Kingston encontrada se agarrando com cones de trânsito. Há um ou dois minutos de vacilo, e minhas pernas começam a dar câimbra. O primeiro sinal já tocou para o oitavo tempo—menos de três minutos para a aula—mas não há nenhuma maneira que eu caia fora. A porta é barulhenta, e além disso, eu não tenho nenhuma ideia em que direção ele está olhando. Ele pode estar olhando para a porta. Minha única esperança é que Otto tenha oitava classe, mas não parece que ele está com pressa para estar em qualquer lugar. Eu imagino ficar presa aqui até terminar a escola. O fedor sozinho vai acabar comigo. Eu ouço o rangido da porta de Otto abrindo novamente, e eu me animo, pensando que ele está saindo depois de tudo. Mas, então, uma segunda voz diz:

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“Droga. Eu os perdi.” Eu reconheceria aquela voz nasal em qualquer lugar. Sra. Winters. “Fumantes?” Otto diz. Sua voz é quase tão estridente quanto a dela. Eu não fazia ideia que eles sequer se conheciam. As únicas vezes que eu já os vi na mesma sala é nas assembleias escolares, quando a Sra. Winters senta ao lado do Diretor Beneter parecendo como alguém que detonou uma bomba de fedor diretamente sob a sua cadeira, e Otto se senta com os professores de educação especial e o instrutor de saúde e o especialista em direção e todos os outros estranhos que estão na faculdade, mas não são professores de verdade. “Você sabe que os alunos chamam aquela pequena área de 'Área de Fumantes'?” Eu quase posso ouvir a Sra. Winters enrugando o nariz. “Você conseguiu dar uma olhada neles?” Otto pergunta, e meus músculos ficam tensos. “Não uma boa. Eu podia ouvi-los e eu cheirei a fumaça.” Lindsay está certa: Sra. Winters é definitivamente meio cão farejador. “Da próxima vez,” diz Otto. “Deve haver duas mil guimbas de cigarro lá fora,” Sra. Winters diz. “Você pensaria que com todos os vídeos de saúde que nós mostramos a eles—” “Eles são adolescentes. Eles fazem o oposto do que você diz. Isso é parte do negócio. Espinhas, pelos pubianos, e a atitude ruim.” Eu quase perdi quando Otto diz pelos pubianos, e eu acho que a Sra. Winters daria uma palestra a ele, mas ela apenas diz, “Às vezes eu não sei por que eu me preocupo.” “Está sendo um daqueles dias, hã?” Diz Otto, e há o som de alguém batendo contra uma mesa, e um livro caindo no chão. Sra. Winters realmente dá risadinhas. E então, eu juro por Deus, eu os ouvi se beijando. Não pequenos selinhos, também. O tipo de beijo de boca aberta, molhado, com gemidos. Oh, merda. Eu literalmente tenho que morder minha própria mão para evitar gritar, ou chorar, ou dar gargalhada, ou ficar doente—ou todas as anteriores. Isso. Não. Pode. Estar. Acontecendo. Estou desesperada para pegar meu telefone e enviar uma mensagem as meninas, mas eu não quero me mover. Agora eu realmente não quero ser pega, já que Otto e a nazista vão pensar que eu estive espionando sua festinha de sexo. Nojo. Só quando eu sinto que não consigo aguentar mais um segundo espremida ao lado das camisetas suadas, ouvindo o Otto e Winters se engolindo como se estivessem em

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algum filme pornô ruim, o segundo sinal toca. Eu estou agora oficialmente atrasada para o oitavo período. “Oh, Deus. Eu deveria estar me encontrando com Beanie,” Sra. Winters diz. Beanie é como os alunos chamam o Sr. Beneter, o Diretor. De todas as coisas chocantes que eu ouvi nos últimos dois minutos, o mais chocante é que ela sabe o apelido—e o usa. “Saia daqui,” diz o Sr. Otto, e então eu juro—eu juro—eu o ouvir bater em seu traseiro. Oh. Meu. Deus. Isto é melhor do que a vez em que Marcie Harris foi pega se masturbando no laboratório de ciências (com um tubo de ensaio na você-sabe-o-quê, se você acredita nos rumores). Isto é melhor do que a vez que Bryce Hanley foi suspenso por manter um site pornô online por um tempo. Isto é melhor do que qualquer escândalo que atingiu o Thomas Jefferson até agora. “Você tem aula?” Senhora Winters diz, praticamente arrulhando. “Eu já acabei por hoje,” diz Otto. Meu coração afunda—não há nenhuma maneira de eu poder ficar aqui por mais 45 minutos. Não importa a cãibra serpenteando até meus tendões e nas coxas: Eu tenho uma surpreendente fofoca para espalhar. “Mas eu tenho que trabalhar para as eliminatórias de futebol.” “Tudo bem, babe.” Babe? “Eu te vejo esta noite.” “Oito horas.” Ouço a porta abrir e eu sei que a Sra. Winters saiu. Graças a Deus. Do jeito que estava a conversa de travesseiro deles, eu estava preocupada que eu estava prestes a ser presenteada com o som de outra sessão de agarramento. Eu não tenho certeza de que minhas coxas ou minha psique poderiam aguentar. Após alguns segundos se movendo ao redor da sala e digitando alguma coisa no teclado, eu ouço Otto ir para a porta. A sala perto de mim fica escura. Então a porta abre e fecha, e eu sei que estou livre. Eu digo um aleluia silencioso e me levanto. As tachinhas e agulhas nas minhas pernas são tão ruins que eu quase caio, mas eu engatinho até a porta e me apoio nela. Quando eu consigo sair eu fico lá em pé batendo meus pés e respirando longas e profundas golfadas de ar fresco. Finalmente eu deixo escapar: eu jogo minha cabeça para trás e rio histericamente, cacarejando e bufando e nem ao menos ligando se eu pareço demente. Sra. Winters e Sr.–maldito-Otto. Quem iria ter desconfiado em um milhão, trilhão de anos?

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Enquanto eu caminho para sair do ginásio, me ocorre o quanto as pessoas são estranhas. Você pode vê-las todo dia—você pode achar que conhece elas—e então você descobre que mal as conhece de verdade. Eu me sinto bêbada, meio como se eu estivesse sendo levada por um redemoinho, circulando cada vez mais perto das mesmas pessoas e mesmos eventos, mas vendo as coisas por ângulos diferentes. Eu ainda estou dando risadinhas quando chego ao Main, embora o Sr. Kummer vá ficar possesso porque eu estou atrasada, e eu ainda tenho que parar no meu armário e pegar o livro de Espanhol (ele nos disse no primeiro dia que nós deveríamos tratar nossos livros como filhos. Obviamente, ele não tem nenhum). Eu estou apertando Enviar em uma mensagem para Elody, Ally e Lindsay—vcs n vaum acreditar no q akbou d acontecr—quando, bam! Eu dou de encontro com Lauren Hornet. Ambas cambaleamos para trás, e meu telefone voa da minha mão e desliza através do corredor. “Merda!” Nós colidimos tão forte que leva um segundo para eu recuperar meu fôlego. “Presta atenção pra onde você está indo.” Eu começo a ir na direção do meu telefone, me perguntando se eu posso dizer para ela pagar se a tela estiver quebrada ou algo do tipo, quando ela agarra meu braço. Forte. “Mas que...?” “Diga a eles,” ela diz descontroladamente, empurrando seu rosto para perto do meu. “Você precisa dizer a eles.” “Do que você está falando?” Eu tento me soltar, mas ela agarra meu outro braço também, como se ela quisesse me sacudir. O rosto dela está vermelho e manchado e ela tem um visual grudento. É óbvio que ela estava chorando. “Diga a eles que eu não fiz nada de errado.” Ela joga a cabeça para trás por sobre o ombro. Nós estamos bem em frente ao escritório principal, e eu a vejo naquele momento do jeito que ela estava ontem, cabelo jogado na cara, correndo pelo corredor. “Eu realmente não sei do que você está falando,” eu digo, tão gentilmente quanto possível, porque ela está me assustando. Ela provavelmente tem consultas quinzenais com o psicólogo da escola para controlar a paranoia dela, ou o TOC, ou o qualquer que seja o problema dela. Ela inspira profundamente. A voz dela está tremendo. “Eles pensam que eu colei de você em Química. O Beanie me chamou... Mas eu não colei. Eu juro por Deus que não. Eu estive estudando...” Eu me empurro para trás, mas ela mantém o aperto em meus braços. A sensação de ter sido pega por um redemoinho retorna, mas agora é horrível: eu estou sendo puxada para baixo, para baixo, para baixo, como se tivesse um peso em meus ombros.

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“Você colou de mim?” Minhas palavras parecem como se estivessem vindo de uma distância. Eu nem mesmo soo como eu mesma. “Eu não colei, eu juro por Deus que eu-” Lauren dá um soluço tremido. “Ele vai me reprovar. Ele disse que ia me reprovar se minhas notas não melhorassem, e eu consegui um tutor e agora eles pensam que eu - ele disse que ia ligar para a Penn State. Eu nunca vou poder ir pra faculdade e eu - você não entende. Meu pai vai me matar. Ele vai me matar.” Então ela realmente me sacode. Os olhos dela estão cheios de pânico. “Você precisa dizer a eles.” Eu finalmente consigo me soltar. Eu me sinto quente e doente. Eu não quero saber disso, não quero saber de nada disso. “Eu não posso te ajudar,” eu digo, recuando, ainda sentindo como se eu não estivesse realmente dizendo as palavras, apenas as ouvindo sendo faladas de algum lugar. Lauren me olha como se eu acabasse de ter dado um tapa nela. “O quê? Como assim você não pode ajudar? Só diga a eles-” Minhas mãos estão tremendo quando eu vou pegar meu celular. Ele escapa dos meus dedos duas vezes e cai no chão ambas as vezes com barulho. Não deveria ser assim. Eu me sinto como se alguém tivesse apertado o botão Reverso de um aspirador de pó e todo o lixo que eu fiz está sendo vomitado no carpete para eu ver. “Você tem sorte de não ter quebrado meu telefone,” eu digo, me sentindo entorpecida. “Ele me custou duzentos dólares.” “Você estava ao menos me escutando?” A voz de Lauren está aumentando histericamente. Eu não consigo me fazer encontrar seus olhos. “Eu estou ferrada, estou acabada-” “Eu não posso te ajudar,” eu digo novamente. É como se eu não pudesse lembrar outras palavras. Lauren deixa escapar algo que está entre um grito e um soluço. “Você disse que eu não deveria ser legal com você hoje. Você sabe de uma coisa? Você estava certa. Você é horrível, você é uma cadela, você é—” De repente é como se ela se lembrasse de onde estamos: quem ela é, e quem eu sou. Ela joga a mão sobre a boca tão rapidamente que faz um som oco, ecoante pelo corredor. “Oh, Deus.” Agora a voz dela vem em um sussurro. “Eu sinto tanto. Eu não quis dizer isso.” Eu nem mesmo respondo. Aquelas palavras—você é uma cadela—fazem todo o meu corpo ficar gelado. “Me desculpe. Eu—por favor, não fique com raiva.” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Eu não posso suportar aquilo—não consigo suportar ela se desculpando para mim. E antes que eu saiba, estou correndo—correndo a toda velocidade pelo corredor, meu coração martelando, sentindo como se eu precisasse gritar ou chorar ou enfiar meu punho em alguma coisa. Ela me chama, mas eu não sei o que é, eu não me importo, eu não posso saber, e quando eu entro no banheiro feminino, eu jogo minha costa contra a porta e afundo contra ela até que meus joelhos estão pressionados contra meu peito, minha garganta tão apertada que dói para respirar. Meu celular continua zumbindo, e quando eu me acalmo um pouco, eu o abro e encontro mensagens de Lindsay, Ally e Elody: O q? Solta. Desembucha. Vc fez as pazs c o Rob? Eu jogo meu telefone na bolsa e descanso minha cabeça nas mãos, esperando meu pulso voltar ao normal. Toda a felicidade que eu estava sentindo antes se foi. Até mesmo a situação Otto e Winters não parece mais engraçada. Bridget e Alex e Anna e Sarah Grundel e sua estúpida vaga de estacionamento e Lauren Lornet e a prova de Química— parece como se eu tivesse sido pega em alguma enorme rede e para cada canto que eu viro eu vejo que estou presa a alguém, todos nós nos retorcendo na mesma rede. E eu não quero saber de nada disso. Não é problema meu. Eu não me importo. Você é uma cadela. Eu não me importo. Eu tenho coisas maiores pra me preocupar. Finalmente eu me levanto. Eu desisti de ir pro Espanhol. Ao invés disso, eu jogo água fria no meu rosto e então reaplico minha maquiagem. Meu rosto está tão pálido sob as fortes luzes fluorescentes, que eu mal o reconheço.

apenas o sonho “Vamos lá, anime-se.” Lindsay me bate na cabeça com o travesseiro. Nós estamos sentadas no sofá na toca de Ally. Elody coloca o último rolinho de atum picante na boca, o que eu não tenho certeza que seja uma ideia tão boa, já que ele esteve empoleirado em um divã pelas últimas três horas. “Não se preocupe, Sammy. Rob vai superar isso.” Todas elas acham que Rob é o motivo pelo qual estou quieta. Mas, é claro, não é. Eu estou quieta porque assim que o relógio se moveu lentamente após a meia-noite, o medo voltou rastejando. Está me enchendo lentamente, como areia correndo por uma ampulheta. Com cada segundo eu estou chegando mais e mais perto do Momento. O Ponto Zero. Esta manhã eu estava certa de que era simples—de que tudo o que eu precisava fazer era ficar longe da festa, ficar longe do carro. Que o tempo iria guinar de volta para os trilhos. Que eu iria estar salva.

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Mas agora sinto como se meu coração estivesse sendo espremido contra minhas costelas, e fica mais e mais difícil respirar. Eu estou aterrorizada que em um segundo—no espaço entre uma respiração—tudo vai evaporar em escuridão, e eu mais uma vez vou me encontrar sozinha no meu quarto em casa, acordando com o gritar do despertador. Eu não sei o que vou fazer se isso acontecer. Eu acho que meu coração vai partir. Acho que meu coração vai parar. Ally desliga a televisão e joga o controle remoto. “O que nós fazemos agora?” “Deixe-me consultar os espíritos.” Elody desliza do sofá até o chão, onde mais cedo nós tínhamos colocado um tabuleiro Ouija empoeirado para relembrar os velhos tempos. Nós tentamos jogar, mas todas estavam obviamente empurrando, e o indicador ficava formando palavras como pênis e bem-dotado, até que Lindsay começou a gritar “Espíritos pervertidos! Pedófilos!” Elody empurra o indicador com dois dedos. Ele gira uma vez antes de parar na palavra SIM. “Olha, Mãe.” Ela levanta as mãos. “Sem as mãos.” “Não era uma pergunta de sim ou não, besta.” Lindsay rola os olhos e toma um grande gole do Châteauneuf-du-Pape que nós roubamos da adega. “Essa cidade é um saco,” Ally diz. “Nada acontece nunca.” Meia-noite e trinta e três. Meia-noite e trinta e quatro. Eu nunca vi segundos e minutos passarem tão rápido, atropelarem uns aos outros. Meia-noite e trinta e cinco. Meia-noite e trinta e seis. “A gente precisa de música ou alguma coisa,” Lindsay diz, levantando. “Não podemos ficar simplesmente sentadas aqui como desocupadas.” “Definitivamente música,” Elody diz. Ela e Lindsay correm até a sala ao lado, onde está o som Bose. “Sem música,” eu resmungo, mas é tarde demais. Beyoncé já está explodindo. Os vasos começam a tremer nas prateleiras. Minha cabeça parece que vai explodir, e calafrios estão subindo e descendo meu corpo. Meia-noite e trinta e sete. Eu me aninho mais no sofá, jogando um cobertor sobre meus joelhos, e tampo minhas orelhas. Lindsay e Elody marcham de volta para a sala. Estamos todas em shorts velhos e regatas. Lindsay obviamente acabou de invadir o closet de Ally porque ela e Elody agora também estão adornadas com óculos de esqui e chapéus de feltro. Elody está vindo mancando com um pé enfiado em um sapato de neve infantil. “Oh meu Deus!” Ally grita. Ela segura a barriga e se dobra, rindo.

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Lindsay gira com um bastão de esqui entre as pernas, balançando para frente e para trás. “Oh, Patrick! Patrick!” A música está tão alta que eu mal posso ouvi-la, mesmo quando tiro as mãos dos ouvidos. Meia-noite e trinta e oito. Um minuto. “Vamos!” Elody diz, estendendo a mão para mim. Eu estou tão cheia de medo que não consigo me mover, não consigo nem mesmo balançar a cabeça, e ela se inclina para frente e grita, “Viva um pouco!” Tantos pensamentos e palavras estão trombando pela minha cabeça. Eu quero gritar, Não, pare, ou Sim, viva, mas tudo o que eu posso fazer é fechar meus olhos bem apertado e imaginar segundos correndo como água para um poço infinito, e eu imagino todas nós nos chocando através do tempo e eu penso, Agora, agora, vai acontecer agora— E então tudo fica silencioso. Eu estou com medo de abrir meus olhos. Um profundo vazio se abre dentro de mim. Eu não sinto nada. É assim que é estar morta. Então uma voz: “Muito alto. Vocês vão estourar seus tímpanos antes dos vinte anos.” Eu abro os olhos rapidamente. A Sra. Harris, mãe de Ally, está em pé na porta em uma capa de chuva brilhante, passando a mão em seus cabelos. E Lindsay está em pé ali com seus óculos de esqui e chapéu, e Elody está desajeitadamente tentando tirar seu pé do sapato de neve. Eu consegui. Funcionou. Alívio e júbilo me inundam com tanta força que eu quase grito. Mas ao invés disso, eu rio. Eu irrompo em risos no silêncio, e Ally me dá um olhar carrancudo, tipo, agora você decide que é engraçado? “Vocês estão bêbadas?” A mãe de Ally encara cada uma de nós e então faz uma carranca para a garrafa de vinho quase vazia no chão. “Dificilmente.” Ally se joga no sofá. “Você matou a diversão.” Lindsay puxa os óculos para a testa. “Nós estávamos tendo uma festa dançante, Sra. Harris,” ela diz brilhantemente, como se dançar por aí meio nuas e adornadas com equipamentos de esqui fosse uma atividade autorizada pelas Escoteiras. A Sra. Harris suspira. “Não mais. Foi um dia longo. Eu estou indo para a cama.” “Mãããããããe,” Ally choraminga. A Sra. Harris joga um olhar para ela. “Sem mais música.”

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Elody finalmente arranca seu pé do sapato e cambaleia para trás, batendo contra uma das estantes de livros. O Manual de Manutenção Doméstica de Martha Stewart sai voando e cai em seus pés. “Oops.” Ela fica muito vermelha e olha para a Sra. Harris como se esperasse levar umas palmadas a qualquer momento. Eu não consigo evitar. Eu começo a rir de novo. A Sra. Harris rola os olhos para o teto e balança a cabeça. “Boa noite, garotas.” “Muito bem.” Ally se inclina e belisca minha coxa. “Retardada.” Elody começa a dar risadinhas e imita a voz de Lindsay. “Nós estávamos tendo uma festa dançante, Sra. Harris.” “Pelo menos eu não cai numa estante.” Lindsay se inclina e sacode seu bumbum para nós. “Beijem.” “Talvez eu beije.” Elody voa para ela, fingindo que vai mesmo. Lindsay grita e se esquiva dela. Ally sibila “Shhhh!” ao mesmo tempo em que ouvimos a Sra. Harris gritar “Garotas!” do andar de cima. Logo estão todas rindo. É ótimo rir com elas. Eu estou de volta. Uma hora depois Lindsay, Elody e eu estamos instaladas no sofá em forma de L. Elody tem a parte de cima e Lindsay e eu, estamos deitadas pé-a-pé. Meus pés estão pressionados contra os de Lindsay, e ela fica mexendo os dedos para me irritar. Mas nada pode me irritar agora. Ally arrastou seu colchão e seus cobertores do andar de cima (ela insiste que não consegue dormir sem sua manta Society). É exatamente como o primeiro ano. Nós colocamos a televisão no baixo porque Elody gosta do som, e na sala escura o brilho da tela me lembra de verões passados invadindo o clube aquático para banhos de piscina noturnos, do jeito que a luz brilha por toda aquela água escura, de quietude e se sentir como se você fosse a única pessoa viva no mundo todo. “Meninas?” Eu sussurro. Eu não tenho certeza de quem ainda está acordada. “Mmmf,” Lindsay grunhe. Eu fecho os olhos, deixando o sentimento de paz correr por mim, me encher dos pés à cabeça. “Se vocês tivessem que reviver um dia de novo e de novo, qual vocês escolheriam?” Ninguém me responde, e um pouco depois eu ouço Ally começar a roncar em seu travesseiro. Elas estão todas dormindo. Eu ainda não estou cansada. Eu ainda estou animada demais por estar aqui, estar segura, ter escapado de qualquer bolha do tempo e espaço que estava me confinando. Mas eu fecho meus olhos de qualquer maneira e tento imaginar que tipo de dia eu escolheria. Memórias começam a passar—dúzias e dúzias de Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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festas, viagens de compras com Lindsay, comer vorazmente em pernoites e chorar por O Diário de Uma Paixão com Elody, e mesmo antes disso, férias em família e minha festa de aniversário de oito anos e a primeira vez que eu saltei do trampolim mais alto da piscina e a água entrou no meu nariz e me deixou tonta—mas todas elas parecem imperfeitas de algum jeito, manchadas e sombrias. Em um dia perfeito não haveria escola, isso é certeza. E haveria panquecas no café da manhã—as panquecas da minha mãe. E meu pai iria fazer seus famosos ovos fritos, e Izzy iria arrumar a mesa como ela faz algumas vezes nos feriados, com pratos diferentes que não combinam e frutas e flores que ela coleta pela casa e joga no meio da mesa e chama de “chentro de mesha”. Eu fecho meus olhos e me sinto deixar ir, como me inclinando na beira de um abismo, escuridão subindo para me levar... Bringbringbring. Eu sou puxada do limite do sono e por um instante horrível eu penso: é o meu despertador, eu estou em casa, está acontecendo de novo. Eu jogo o braço, um espasmo, e Lindsay gane “Ai!” O som daquela única palavra faz meu coração ficar quieto e minha respiração voltar ao normal. Bringbringbring. Agora que eu estou completamente alerta eu percebo que não é meu despertador. É o telefone, tocando estridentemente em vários aposentos, criado um estranho efeito de eco. Eu checo o relógio. Uma e cinquenta e dois. Elody grunhe. Ally se vira e murmura “Desliga isso.” O telefone para e então toca de novo, e de repente Ally se senta, reta como uma tábua, completamente acordada. Ela diz, “Merda. Merda. Minha mãe vai me matar.” “Faz isso parar, Al,” Lindsay diz, de debaixo do travesseiro. Ally tenta se desemaranhar dos lençóis, ainda murmurando “Merda. Onde está o maldito telefone?” Ela tropeça e acaba caindo da cama e batendo no chão com o ombro. Elody geme novamente, dessa vez mais alto. Lindsay diz, “Eu estou tentando dormir, gente.” “Eu preciso do telefone,” Ally sibila de volta. É tarde demais, de qualquer maneira. Eu ouço passos se movendo no andar de cima. A Sra. Harris obviamente acordou. Um segundo depois o telefone para de tocar. “Graças a Deus.” Lindsay se remexe, se enterrando mais embaixo dos cobertores.

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“São quase duas.” Ally se levanta—eu posso ver o vago contorno da forma dela mancando de volta para a cama. “Quem diabos liga às duas da manhã?” “Talvez seja Matt Wilde, confessando seu amor,” Lindsay diz. “Muito engraçado,” Ally diz. Ela se ajeita de volta na cama e todas nós ficamos quietas. Eu posso ouvir levemente o murmúrio baixo da voz da Sra. Harris acima de nós, o ranger dos seus passos enquanto ela anda. Então eu distintamente a ouço falar: “Oh não. Oh meu Deus.” “Ally—” Eu começo. Mas ela também ouviu. Ela levanta e liga as luzes, e então desliga a televisão, que ainda está baixa. A claridade súbita me faz estremecer. Lindsay xinga e puxa os cobertores por sobre a cabeça. “Algo está errado.” Ally passa os braços em volta de si, piscando rapidamente. Elody começa a pegar seus óculos, então se sustenta apoiada nos cotovelos. Eventualmente Lindsay percebe que as luzes não vão apagar e emerge do seu casulo. “Qual é o problema?” Ela fecha as mãos em punhos, esfregando os olhos. Ninguém responde. Todas nós temos um senso crescente disso agora: algo está muito errado. Ally está simplesmente parada em pé no meio da sala. Com sua camiseta enorme e shorts largos, ela parece muito mais nova do que é. Em certo ponto a voz no andar de cima para, e os passos se movem diagonalmente pelo chão, na direção da escada. Ally volta para o colchão de ar, dobrando as pernas sob o corpo e roendo as unhas. A Sra. Harris não parece surpresa de nos ver sentadas, esperando por ela. Ela está vestindo uma longa camisola de seda e tem uma máscara pra olhos sobre a testa. Eu nunca vi a Sra. Harris parecer menos que perfeita e isso faz com que o medo se abra em minha barriga. “O quê?” A voz de Ally está semi-histérica. “O que aconteceu? É o Papai?” A Sra. Harris pisca e parece se focar em nós como se ela tivesse acabado de ser acordada de um sonho. “Não, não. Não é o seu pai.” Ela inspira fundo, e então expira ruidosamente. “Escutem, meninas. O que eu estou prestes a contar para vocês é bastante perturbador. “Eu só estou contando isso, em primeiro lugar, porque vocês vão descobrir logo.” “Só conte pra gente, Mãe.” A Sra. Harris balança a cabeça lentamente. “Vocês todas conhecem Juliet Sykes.”

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Isso é um choque: nós todas nos olhamos, completamente aturdidas. De todas as palavras que a Sra. Harris poderia ter dito nesse momento, “Vocês todas conhecem Juliet Sykes” está bem alto na nossa lista de coisas inesperadas. “Claro. E daí?” Ally dá de ombros. “Bem, ela—” A Sra. Harris cessa, alisando a camisola com as mãos, e começa de novo. “Era Mindy Sachs no telefone.” Lindsay levanta as sobrancelhas, e Ally dá um suspiro conhecedor. Todas nós conhecemos Mindy Sachs também. Ela tem cinquenta anos e é divorciada, mas ainda se veste e age como se tivesse dezessete. Ela é mais obcecada por fofocas do que qualquer pessoa na nossa escola. Sempre que eu vejo a Sra. Sachs eu me lembro da brincadeira que costumávamos jogar quando éramos crianças, onde uma pessoa sussurra um segredo e a outra pessoa repete e por aí vai, exceto que em Ridgeview a Sra. Sachs é a única que sussurra. Ela e a Sra. Harris estão juntas no conselho da escola, então a Sra. Harris sempre sabe sobre divórcios e quem acabou de perder todo seu dinheiro e quem está tendo um caso. “Mindy mora ao lado dos Sykes,” a Sra. Harris continua. “Aparentemente a rua deles tem estado cheia de ambulâncias pela última meia hora.” “Eu não entendo,” Ally diz, e talvez seja a hora ou o estresse dos últimos dias, mas eu também não estou entendendo. A Sra. Harris cruza os braços sobre o peito e se abraça um pouco, como se estivesse com frio. “Juliet Sykes está morta. Ela se matou hoje à noite.” Silêncio. Silêncio total. Ally para de roer as unhas, e Lindsay se senta mais imóvel do que eu já a vi. Eu realmente acho que por vários segundos meu coração para de bater. Eu sinto uma estranha sensação de afunilamento, como se eu tivesse sido lançada de paraquedas para fora do meu corpo e estou agora só olhando para ele de muito longe, como se por alguns momentos nós somos apenas imagens de nós mesmas. Eu subitamente me lembro de uma história que meus pais me contaram uma vez: antigamente, quando a Thomas Jefferson era chamada de Suicide High, algum cara se enforcou dentro do seu próprio closet, bem ali no meio dos suéteres com cheiro de mofo e tênis velhos e tudo o mais. Ele era um perdedor e tocava na banda e tinha problemas de pele e quase nenhum amigo. Então ninguém pensou muito nisso quando ele morreu. Quer dizer, as pessoas ficaram tristes e tudo o mais, mas elas entendiam. Mas no ano seguinte—o ano seguinte ao dia—um dos caras mais populares da escola se matou exatamente do mesmo jeito. Tudo foi o mesmo: método, hora, local. Exceto que esse cara era capitão do time de natação e do time de futebol, e aparentemente, quando a polícia entrou no closet, havia tantos troféus esportivos nas prateleiras que

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parecia que ele havia sido sepultado em uma sepultura de ouro. Ele deixou apenas uma nota com uma linha: Todos nós somos Carrascos. “Como?” Elody pergunta, mal um sussurro. A Sra. Harris balança a cabeça, e por um segundo eu penso que ela pode chorar. “Mindy ouviu o tiro. Ela pensou que fosse um fogo de artifício. Ela pensou que fosse uma brincadeira.” “Ela atirou em si mesma?” Ally diz isso calmamente, quase reverencialmente, e eu sei que nós todas estamos pensando a mesma coisa: esse é o pior jeito de todos. “Como eles estão...” Elody ajeita os óculos e molha os lábios. “Eles sabem o porquê?” “Não havia nota,” a Sra. Harris diz, e eu juro que posso ouvir algo correr pela sala: uma pequena exalação. Um suspiro de alívio. “Eu só achei que vocês deviam saber.” Ela vai até Ally e se inclina, beijando sua testa. Ally se afasta, talvez em surpresa. Eu nunca tinha visto a Sra. Harris beijar Ally antes. Eu nunca tinha visto a Sra. Harris parecer tanto uma mãe antes. Depois que a Sra. Harris sai, todas nós ficamos sentadas ali enquanto o silêncio se estica e se expande em enormes anéis ao nosso redor. Eu sinto como se nós estivéssemos esperando por alguma coisa, mas eu não tenho certeza do quê. Finalmente Elody fala. “Vocês acham...” Elody engole, nos olhando uma por uma. “Vocês acham que foi por causa da nossa rosa?” “Não seja estúpida,” Lindsay estoura. Eu posso ver que ela está abalada, porém. O rosto dela está pálido, e ela dobra e desdobra a ponta do cobertor. “Não é como se tivesse sido a primeira vez.” “Isso deixa ainda pior”, Ally diz. “Pelo menos nós sabíamos quem ela era.” Lindsay me pega encarando suas mãos, e ela as põe firmemente em seu colo. “A maioria das pessoas simplesmente agia como se ela fosse invisível.” Ally morde o lábio. “Mesmo assim, no último dia dela...” Elody deixa a frase no ar. “Ela está melhor desse jeito,” Lindsay diz. Isso é baixo, mesmo para ela, e todas nós a encaramos. “O que?” Ela levanta o queixo e nos encara de volta desafiadoramente. “Vocês sabem que estão todas pensando. Ela era miserável. Ela escapou. Feito.”

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“Mas—eu quero dizer, as coisas podiam ter melhorado,” eu digo. “Elas não ficariam,” Lindsay diz. Ally balança a cabeça e traz seus joelhos para o peito. “Deus, Lindsay.” Eu estou em choque. A parte mais estranha disso tudo é a arma. Parece um jeito tão severo, tão barulhento, tão físico de fazer aquilo. Sangue e cérebro e calor cauterizante. Se ela tivesse que fazer aquilo—morrer—ela deveria ter se afogado, deveria ter apenas entrado na água até que cobrisse sua cabeça. Ou ela deveria ter pulado. Eu visualizo Juliet flutuando deste e daquele jeito, como se ela estivesse sendo suportada por correntes de ar. Eu posso imaginá-la abrindo os braços e pulando de uma ponte ou um cânion em algum lugar, mas na minha cabeça ela começa a se elevar no vento assim que seus pés deixam o chão. Não uma arma. Armas são para series policiais e assaltos a lojas de conveniência 7Eleven e viciados em crack e brigas de gangues. Não para Juliet Sykes. “Talvez nós devêssemos ter sido mais legais com ela,” Elody diz. Ela olha para baixo como se estivesse envergonhada de dizer aquilo. “Por favor.” A voz de Lindsay é alta e dura em comparação. “Você não pode ser malvada com alguém desde sempre e depois se sentir mal quando ela morre.” Elody levanta a cabeça e encara Lindsay. “Mas eu me sinto mal.” A voz dela está ficando mais forte. “Então você é uma hipócrita,” Lindsay diz. “E isso é pior que qualquer coisa.” Ela levanta e apaga a luz. Eu a ouço subir de volta no sofá e fazer ruídos nos lençóis, se ajeitando. “Se vocês todas me dão licença,” ela diz, “eu tenho que dormir.” Há silêncio total por um tempo. Eu não tenho certeza de se Ally está deitada ou não, mas à medida que meus olhos se ajustam à escuridão eu vejo que ela não está: ela ainda está sentada ali com os joelhos dobrados até o peito, encarando diretamente à frente. Depois de um minuto ela diz, “Eu vou dormir lá em cima.” Ela junta seus lençóis e cobertores, fazendo barulho extra, provavelmente para retaliar Lindsay. Um momento depois Elody diz, “Eu vou com ela. O sofá é muito encaroçado.” Ela está obviamente chateada também. Nós temos dormido neste sofá há anos. Depois que ela vai embora eu sento por um tempo ouvindo Lindsay respirar. Eu me pergunto se ela está dormindo. Eu não vejo como ela poderia estar. Eu me sinto mais acordada do que jamais estive. Mas então, Lindsay sempre foi diferente das outras

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pessoas, menos sensível, mais preto-e-branco. Meu time, seu time. Este lado da linha, aquele lado da linha. Destemida, e descuidada. Eu sempre a admirei por isso—todas nós. Eu me sinto inquieta, como seu eu precisasse saber as respostas para perguntas que eu não tenho certeza de como fazer. Eu me deito no sofá lentamente, tentando não acordar Lindsay, mas acontece que ela também não está dormindo, no final das contas. Ela se vira, e no escuro eu só posso vislumbrar sua pele pálida e os profundos sulcos de seus olhos. “Você não está indo lá pra cima, está?” Ela sussurra. “Banheiro,” eu sussurro de volta. Eu tateio meu caminho até o corredor e pauso ali. Em algum lugar um relógio está fazendo tique-taque, mas fora isso está totalmente silencioso. Tudo está escuro e o chão de pedra está frio sob os meus pés. Eu corro uma mão pela parede para me orientar. O som da chuva parou. Quando eu olho para o lado de fora eu vejo que a chuva se transformou em neve, milhares de flocos de neve derretendo pelas janelas com gelosias18 e fazendo o luar que passa através dos painéis parecer aquoso e cheio de movimento, sombras torcendo e enevoando no chão, vivas. Há um banheiro ali, mas não é para onde eu estou indo. Eu abro suavemente a porta que leva até o porão de Ally e tateio meu caminho descendo as escadas, segurando os dois corrimões. Assim que meus pés tocam o carpete no fim da escada, eu tateio a parede à minha esquerda, eventualmente encontrando o interruptor. O porão é subitamente revelado, grande e austero e de aparência normal: sofás de couro bege, uma velha mesa de pinguepongue, outra TV de tela plana, e uma área circular com uma esteira, um aparelho elíptico, e um espelho de três lados no centro. Está mais frio aqui e cheira a produtos químicos e tinta nova. Logo além da área de exercício está outra porta, que leva ao aposento que sempre nos referimos como o Altar de Allison Harris. A sala é coberta com os desenhos antigos de Ally, nenhum deles bom, a maioria datando do ensino fundamental. As estantes estão abarrotadas com fotos dela: Ally fantasiada de polvo para o Halloween na alfabetização, Ally usando um vestido de veludo verde e sorrindo em frente a uma enorme árvore de Natal absolutamente desabando com enfeites, Ally franzindo os olhos em um biquíni, Ally rindo, Ally franzindo a testa, Ally parecendo pensativa. E na prateleira mais baixa, cada um dos anuários antigos de Ally, da alfabetização em diante. Ally uma vez nos mostrou como a Sra. Harris tinha passado por todos os livros, um por um, colocando etiquetas colantes coloridas em cada um dos amigos de Ally de ano para ano. (“Para que você possa lembrar quão popular você sempre foi,” a Sra. Harris tinha dito a ela.) Eu me ajoelho. Eu não tenho certeza do que exatamente eu estou procurando, mas há uma ideia tomando forma em minha cabeça, alguma memória antiga que desaparece

18

Tipo de grade de madeira.

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sempre que eu desejo que ela tome forma, como aqueles jogos Olho Mágico onde você só pode ver a forma escondida quando seus olhos não estão focados. Eu começo com o anuário da alfabetização. Eu o abro diretamente na classe do Sr. Christensen—que sorte a minha—e ali estou eu, em pé um pouco afastada do grupo. O flash refletido em meus óculos faz com que seja impossível ver meus olhos. Meu sorriso está mais para uma careta, como se o esforço doesse. Eu passo a foto rapidamente. Eu odeio olhar anuários antigos; eles não trazem exatamente um fluxo de memórias positivas. Os meus estão encaixotados em algum lugar no sótão, com todas as outras porcarias que minha mãe insiste que eu guarde “porque você pode querer depois,” como minhas bonecas velhas e uma ovelha de pelúcia maltrapilha que eu costumava carregar comigo para todo lugar. Duas páginas depois eu encontro o que estou procurando: a classe de alfabetização da Sra. Novak. E lá está Lindsay, na frente e no centro como sempre, irradiando um grande sorriso para a câmera. Ao lado dela está uma menina magra e bonita, com um sorriso tímido e cabelo tão loiro que poderia ser branco. Ela e Lindsay estão tão próximas que seus braços estão se tocando desde o cotovelo até as pontas dos dedos. Juliet Sykes. No anuário da primeira serie, Lindsay está ajoelhada na fileira da frente de sua classe. De novo, Juliet Sykes está ao lado dela. No anuário da segunda serie, Juliet e Lindsay estão separadas por várias páginas. Lindsay estava na classe da Sra. Derner (comigo—esse foi o ano em que ela inventou a piada: “O que é todo vermelho e branco e todo esquisito?”). Juliet estava na classe do Dr. Kuzma. Páginas diferentes, classes diferentes, poses diferentes—Lindsay tem as mãos juntas na sua frente; Juliet está de pé com seu corpo dobrado levemente para o lado—e ainda assim elas parecem exatamente iguais, vestindo camisetas Petit Bateau azul-claras idênticas e calças capri brancas combinando, que eram cortadas logo abaixo do joelho; os cabelos delas, loiros e brilhantes, partidos habilmente no meio; o brilho de uma pequena corrente prateada ao redor de seus pescoços. Aquele foi o ano em que era legal se vestir como seus amigos—seus melhores amigos. Eu pego o anuário da terceira serie em seguida, meus dedos pesados e dormentes, frio correndo por mim. Há um grande retrato em Technicolor 19 da escola na capa, todo em rosas neon e vermelhos, provavelmente pintado por um professor de arte. Leva um tempo para eu encontrar a classe de Lindsay, mas assim que eu consigo, meu coração começa a acelerar. Lá está ela com aquele mesmo sorriso enorme, como se ela estivesse desafiando a câmera a pegá-la parecendo menos que perfeita. E ao lado dela está Juliet Sykes. Linda, Feliz Juliet Sykes, sorrindo como se ela tivesse um segredo. Eu contraio os olhos, focando

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Técnica de colorimento de filmes fotográficos ou cinematográficos.

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em um pequeno ponto borrado entre elas, e acho que posso perceber que os dedos indicadores delas estão unidos levemente. Quarta serie. Eu encontro Lindsay facilmente, em pé bem na frente na classe da Sra. Krakow, sorrindo tão abertamente que parece que ela está arreganhando seus dentes. Leva mais tempo para eu encontrar Juliet. Eu passo por todas as fotos procurando por ela e tenho que começar de novo do início antes de achá-la, bem no canto direito, ensanduichada entre Lauren Hornet e Eileen Cho, se encolhendo para trás como se ela quisesse se sugar para fora do enquadramento completamente. O cabelo dela está jogado na frente do rosto como uma cortina. Ao lado dela, Lauren e Eileen estão inclinadas ligeiramente para longe, como se elas não quisessem se associadas com ela, como se ela tivesse algum tipo de doença contagiosa. Quarta serie: o ano do passeio das Escoteiras, quando ela fez xixi em seu saco de dormir e Lindsay a apelidou Amarelona. Eu guardo os anuários cuidadosamente, me certificando de ordená-los corretamente. Meu coração está batendo descontroladamente, um ritmo de tambor fora de controle. Eu subitamente quero sair do porão o mais rápido possível. Eu apago as luzes e tateio meu caminho subindo a escada cegamente. A escuridão parece rodopiar com formas e sombras, e terror sobe em minha garganta. Eu tenho certeza de que, se eu me virar, eu vou vê-la, toda de branco, cambaleando com as mãos estendidas, querendo me alcançar, rosto sangrento e quebrado. E então eu estou no andar de cima e lá está ela: uma visão, um pesadelo. O rosto dela está completamente nas sombras—um buraco—mas eu posso dizer que ela está me encarando. A sala gira; eu agarro a parede para me manter firme. “Qual é o seu problema?” Lindsay dá um passo mais para dentro da sala, o luar caindo diferentemente para que suas feições apareçam. “Por que você está me olhando desse jeito?” “Jesus.” Eu ponho minha mão no peito, tentando pressionar meu coração de volta para o ritmo normal. “Você me assustou.” “O que você estava fazendo lá embaixo?” O cabelo dela está bagunçado, e com seus shorts brancos e regata branca, ela poderia ser um fantasma. “Você era amiga dela,” eu digo. Isso sai como uma acusação. “Você foi amiga dela por anos.” Eu não tenho certeza de que resposta eu estou esperando, mas ela desvia o olhar e então olha de volta para mim. “Não é culpa nossa,” ela diz, como se estivesse me desafiando a contradizê-la. “ Ela é totalmente pirada. Você sabe disso.”

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“Eu sei,” eu digo. Mas eu tenho a impressão de que ela nem mesmo está falando comigo. “E eu ouvi que o pai dela é, tipo, um alcoólatra,” Lindsay continua, sua voz de repente rápida, urgente. “A família toda dela é pirada.” “É,” eu digo. Por um minuto nós apenas ficamos ali em silêncio. Meu corpo parece pesado, inútil, do jeito que fica às vezes em pesadelos quando você tem que correr, mas não pode. Depois de um tempo algo me ocorre e eu digo, “Era.” Embora nós estivéssemos em silêncio, Lindsay inspira bruscamente, como se eu a tivesse interrompido no meio de um longo discurso. “O quê?” “Ela era pirada,” eu digo. “Ela já não é mais nada.” Lindsay não responde. Eu passo por ela para o corredor escuro e encontro meu caminho até o sofá. Eu me ajeito debaixo das cobertas, e um pouquinho depois ela vem e se junta a mim. Deitada ali, convencida de que eu não vou poder dormir, eu me lembro da vez no meio do segundo ano quando Lindsay e eu saímos escondidas em uma noite de semana qualquer—uma terça ou quinta—e dirigimos por aí porque não tinha nada melhor pra fazer. Em um certo ponto ela encostou abruptamente na Fallow Ridge Road e desligou os faróis, esperando até que outro carro começasse a trilhar seu caminho em nossa direção na estrada de uma via. Então ela ligou o motor e acendeu as luzes e começou a acelerar diretamente em direção a ele. Eu estava gritando o mais alto que podia, os faróis ficando do tamanho de sóis, certa de que nós íamos morrer, e ela estava agarrando o volante e berrando por sobre os meus gritos, “Não se preocupe—eles sempre desviam primeiro.” Ela estava certa, também. No último segundo, o outro carro se jogou de repente na vala ao lado da estrada. Isso é o que eu lembro logo antes dos sonhos me puxarem. No meu sonho, eu estou caindo pela escuridão. No meu sonho, eu caio para sempre.

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quatro Mesmo antes de me acordar, o despertador está em minha mão, e eu estou completamente desperta no momento em que jogo ele contra a parede. Solta um barulho pela última vez antes de quebrar. “Uou,” diz Lindsay, quando eu entro no carro quinze minutos depois. “Abriu uma vaga na zona que eu não saiba?” “Só dirige.” Eu mal posso olhar para ela. A irritação flui por mim como um líquido. Ela é uma fraude: todo o mundo é uma fraude, uma alegre, brilhante, tratante. E de algum modo eu sou a que está pagando por isso. Eu fui quem morreu. Eu fui quem caiu na armadilha. Aqui está o negócio: não deveria ser eu. Lindsay é quem dirige como se fosse uma versão real de Grand Theft Auto. Lindsay é quem sempre pensa em modos de humilhar os punks, quem sempre critica todo mundo. Lindsay é quem mentiu sobre ser amiga de Juliet Sykes e então a torturou por todos esses anos. Eu não fiz nada, eu só segui o caminho. “Você vai congelar, você sabe.” Lindsay joga o cigarro e ele rola pela janela. “Obrigada, mãe.” Olho no espelho para ter certeza de que o meu batom não havia borrado. Eu havia dobrado a minha saia algumas vezes, então agora mal cobria a minha bunda quando eu sento, e eu estou usando um salto plataforma que eu comprei com Ally —como uma piada, em uma loja que nós tínhamos quase certeza de que só vende para strippers. Mantive a parte de cima do top com adornos de pelo, mas também acrescentei um colar de strass, de novo comprado como piada em um Halloween quando nos vestimos como enfermeiras mal criadas. Está escrito VADIA bem grande, brilhando. Eu não me importo. Estou no humor para ficar presa a isso. Eu sinto como se eu pudesse fazer qualquer coisa agora: socar o rosto de alguém, roubar um banco, ficar bêbada e fazer algo estúpido. Esse é o único benefício de estar morta. Nenhuma consequência. Lindsay perde meu sarcasmo, ou ignora. “Estou surpresa pelos seus pais terem te deixado sair de casa desse jeito.” “Eles não deixaram.” Outra coisa acabando com meu humor foi os dez minutos de gritos que tive com a minha mãe antes de sair de casa. Até quando Izzy foi se esconder no quarto, e meu pai ameaçou me castigar pelo resto da vida (Há!), as palavras continuavam

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saindo. É tão bom gritar, como quando você arranca uma casquinha e o sangue começa a brotar novamente. Você não vai sair por essa porta a menos que você suba e ponha uma roupa decente. Isso foi a minha mãe falando. Você vai pegar pneumonia. Mais importante, eu não quero pessoas na escola tendo uma impressão errada sobre você. E de repente tudo se rompeu dentro de mim, quebrado e rompido. “Você se importa agora?” Ela soltou um bufo quando me ouviu falar, como se eu tivesse erguido a mão e acertado nela. “Você quer me ajudar agora? Você quer me proteger agora?” O que eu realmente queria dizer era: Onde você esteve quatro dias atrás? Onde você estava quando meu carro saiu da beira da estrada no meio da noite? Por que você não estava pensando em mim? Por que você não estava lá? Eu odeio os meus pais agora: por ficarem sentados em casa, quando fora na escuridão meu coração estava fora cada segundo da minha vida, tirando eles um por um até o tempo acabar para mim; por deixarem a linha entre nós tão estreita e distante, tão fina que no momento que seria preciso eles não sentiram isso. Ao mesmo tempo eu sei que isso não é culpa deles, pelo menos não completamente. Eu tive a minha parte também. Eu fiz isso durante centenas de dias e de mil modos diferentes, e eu sei disso. Mas isso me faz sentir pior, não melhor. Seus pais supostamente devem te manter segura. “Jesus, qual o seu problema?” Lindsay olha duramente para mim por um segundo. “Você acordou do lado errado da cama ou algo assim?” “Por alguns dias agora, é.” Eu estou ficando muito doente dessa fraca pouca luz, o céu pálido e de um azul doente—nem perto do azul real—e o sol mergulhado na imundice do horizonte. Eu li uma vez que pessoas famintas começam a fantasiar com comida, só mentindo nos sonhos por horas com purê de batata quente e creme com manteiga, e carne com sangue correndo nos pratos. Agora eu entendo isso. Eu estava faminta por uma luz diferente, um sol diferente, um céu diferente. Eu nunca havia mesmo pensado nisso antes, mas é um milagre quantos tipos de luz existem no mundo, quantos tipos de céu: a pálida claridade na primavera, quando parece que todo o mundo está corado; o exuberante, brilhante meio dia de julho; roxas tempestades no céu e verde mal estar justo antes da luz brilhar e loucas cores do pôr-do-sol que parece como se alguém tenha tropeçado em ácido.

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Eu deveria ter aproveitado mais, deveria ter memorizado tudo. Eu deveria ter morrido num dia com um belo pôr-do-sol. Eu deveria ter morrido nas férias de verão ou no recesso de inverno. Eu deveria ter morrido em qualquer outro dia. Apoiando minha testa contra a parede, fantasiei sobre mandar meu punho para cima através do vidro, todo o caminho até o céu, e olhar isso se estilhaçar como um espelho. Eu penso sobre como eu vou sobreviver todos os milhares e milhares de dias que vão ser exatamente como esse, dois espelhos frente a frente multiplicando o reflexo até o infinito. Comecei a formular um plano: vou parar de ir para a escola, e vou roubar o carro de alguém e dirigir o mais longe que puder em diferentes caminhos todos os dias. Leste, oeste, norte, sul. Permitindo a mim mesma fantasiar sobre ir tão longe e tão rápido até me erguer como um avião, zunindo direto para cima e distante para um lugar onde o tempo fica para trás como areia de uma superfície se erguendo pelo vento.

Lembra o que eu disse sobre esperança?

“Feliz dia do Cupido!” Elody cantarola quando ela aparece no Tank. Lindsay encara Elody e depois eu. “O que é isso? Algum tipo de competição por Menos Roupa?” “Se você tem, ostente.” Elody olha para minha saia quando ela se inclina para frente para pegar café. “Esqueceu a calça, Sam?” Lindsay reprime o riso. Eu digo “Com ciúmes?” sem virar de frente para a janela. “O que está errado com ela?” Elody se inclina para trás. “Alguém se esqueceu de tomar as pílulas felizes pela manhã.” Pelo canto dos olhos eu vi Lindsay olhar de volta para Elody fazendo uma expressão tipo Deixa disso. Como se eu fosse uma criancinha que precisa ser lidada. Penso sobre essas velhas fotos onde ela está de braços dados com Juliet Sykes, e então penso na cabeça de Juliet explodindo espalhando tudo pela parede de um porão. De novo a fúria retorna, e faço tudo que eu posso para não me virar gritando para ela que ela é falsa, mentirosa, que eu posso ver através dela. Você não me engana... Meu coração salta quando me lembro das palavras de Kent. “Eu sei de uma coisa que vai deixar você pra cima.” Elody começa a revirar pela bolsa, parecendo contente consigo própria. “Eu juro por Deus, Elody, que se você está prestes a me dar uma camisinha bem agora...” Pressiono meus dedos nas têmporas.

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Elody congela e franze as sobrancelhas, segurando uma camisinha entre seus dois dedos. “Mas... É o seu presente.” Ela olha para Lindsay pedindo por ajuda. Lindsay dá de ombros. “Vai de você,” ela diz. Ela não está olhando para mim, mas eu posso dizer que minha atitude está começando a irritá-la, e pra ser honesta, eu fico feliz com isso. “Se você quer ser uma transmissora de DST.” “Você deve saber tudo sobre isso.” Eu nem paro para pensar nisso, simplesmente sai. Lindsay girou para olhar para mim. “O que você disse?” “Nada.” “Você disse que...” “Eu não disse nada.” Eu apoio minha testa contra o vidro. Elody ainda está parada ali com a camisinha entre os dedos. “Vamos, Sam. Sem camisinha não tem amor, certo?” Perder minha virgindade parece absurdo para mim agora, o tema de um filme diferente, com personagens diferentes, em uma diferente linha temporal. Eu tento voltar atrás e lembrar o que eu amo sobre Rob—o que eu amei sobre ele—mas tudo que eu consigo é uma coleção de imagens sem uma ordem: Rob desmaiando no sofá de Kent, segurando meu braço e me acusando de traí-lo; Rob apoiando sua cabeça em meu ombro no porão dele, suspirando que ele quer cair no sono perto de mim; Rob dando as costas para mim na sexta série; Rob erguendo a mão e dizendo Cinco minutos; Rob segurando a minha mão pela primeira vez quando nós estávamos andando pelo corredor, um sentimento de orgulho e força passando por mim. As imagens parecem como memórias de outra pessoa. É quando isso realmente me atinge: nada disso importa mais. Nada importa. Eu giro em meu lugar, agarrando a camisinha da mão de Elody. “Sem camisinha não tem amor,” eu digo, dando a ela um pequeno sorriso. Elody se anima. “Essa é a minha garota.” Eu dou a volta de novo quando Lindsay freia em seco num sinal vermelho. Sou jogada para frente e tenho que erguer uma mão para não bater no painel e então, quando o carro para de se mover, volto para trás batendo contra o assento. O café na porta salta caindo em minha coxa. “Ops,” Lindsay soltou uma risadinha. “Sinto muito.”

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“Você é mesmo azarada.” Elody ri e volta para trás para prender o cinto. A raiva que eu estava sentindo por toda a manhã ameaçava sair. “O que diabo há de errado com você?” O sorriso de Lindsay congela em seu rosto. “Desculpe?” “Eu disse o que diabo há de errado com você?” eu pego alguns guardanapos dentro do porta luvas e começo a passar pela minha perna. O café nem estava assim tão quente— Lindsay havia tirado a tampa para que esfriasse—mas deixou uma marca vermelha na minha perna, e eu sinto como se fosse chorar. “Não é tão difícil assim. Sinal vermelho: pare. Sinal verde: avance. Eu sei que amarelo deve ser um pouco difícil para você assimilar, mas você poderia pensar um pouco e lidar com isso.” Lindsay e Elody estão olhando para mim em um intenso silêncio, mas eu não paro, eu não posso parar isso, é tudo culpa de Lindsay, Lindsay e sua estúpida direção. “Eles poderiam treinar macacos para dirigir melhor que você. Então? O que é isso? Você precisa promover que não dá à mínima? Que você não se importa com nada? Você não se importa com ninguém? Bate o para lama aqui, arranca um espelho lá, ops, graças a Deus nós temos airbag, é para isso que para-choques servem, só continue indo, continue dirigindo, ninguém nunca vai saber. Adivinha só Lindsay? Você não tem que provar nada. Nós já sabemos que você não dá a mínima para alguém além de você. Nós sempre soubemos.” Eu paro em busca de ar, e por um segundo depois que eu paro de falar, reina total silêncio. Lindsay nem sequer olha para mim. Ela começa a olhar em frente com o rosto erguido, ambas as mãos no volante, e os joelhos brancos de apertar a embreagem tão forte. As luzes se tornaram verde e ela pressionou o pé no acelerador, fundo. O motor rugindo, como um trovão distante. Leva um tempo para Lindsay falar e quando ela o fez, sua voz era baixa e soava abafada. “De que inferno tirasse...?” “Meninas,” Elody murmura nervosa do banco de trás. “Não briguem ok? Só esqueça isso.” A irritação ainda corre por mim, uma corrente elétrica. Isso me faz sentir mais aguçada e alerta que em anos. Eu me viro para ver o rosto de Elody. “Como pode que você nunca dê o rosto por si própria?” eu digo. Ela se encolhe um pouco para trás, seus olhos vagando entre Lindsay e eu. “Você sabe que é verdade. Ela é uma vaca. Erga-se, diga isso.” “Deixe ela fora disso,” Lindsay sibila.

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Elody abre a boca e depois de um minuto balança a cabeça. “Eu sabia,” eu digo, sentindo-me triunfante e doente ao mesmo tempo. “Você tem medo dela. Eu sabia.” “Eu disse para você deixar ela fora disso.” Lindsay finalmente ergue a voz. “Eu devo deixar ela fora?” a claridade, o senso de claridade está desaparecendo. Em segundos tudo parece estar saindo do meu controle. “Você é quem trata ela como merda o tempo todo. É você. Elody é tão patética. Olha para Elody se jogando toda para Steve—ele nem gosta dela. Olha, Elody se arrasou de novo. Espero que ela não vomite no meu carro, não quero o couro cheirando como uma alcoólica.” Elody solta o fôlego na última palavra. Eu sei que fui longe demais. No segundo que digo tudo eu quero pegar de volta. Meu espelho ainda estava para baixo, e eu posso ver Elody olhando pela janela, seu queixo tremendo como se ela estivesse tentando não chorar. Número um das regras de melhores amigas: há certas coisas que você não deve, nunca, dizer. De repente Lindsay pisa no freio. Estamos no meio da Rota 120, um quilômetro da escola, mas tem uma linha de tráfego atrás de nós. Um carro dá uma guinada na outra pista para evitar bater em nós. Afortunadamente não há tráfego na outra pista. Inclusive Elody choraminga. “Jesus.” Meu coração está disparado. O carro passa por nós, roncando de forma furiosa. Os passageiros abaixam as janelas e gritam algumas coisas, mas eu não posso ouvir; eu só vejo o flash de um boné de baseball e olhos furiosos. “O que você está fazendo?” As pessoas no carro atrás de nós começam a buzinar também, mas Lindsay joga o carro em um parque e não se move. “Lindsay,” Elody diz ansiosamente. “Sam está certa. Não tem graça.” Lindsay investe sobre mim, e eu pensei que ela iria me bater. Ao invés, ela vai para frente e destranca a porta. “Fora,” ela diz pacientemente, sua voz cheia de fúria. “O quê?” O ar frio entra no carro como murro no estômago, me fazendo murchar. O último resto da minha fúria e coragem se vai com isso, e eu me sinto cansada. “Lindz.” Elody tenta rir, mas o som sai alto e histérico. “Você não pode fazer ela andar. Está congelando” “Fora,” Lindsay repete.

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Carros começam a se acumular ao redor de nós, todos roncando e abaixando as janelas para gritar conosco. Todas as palavras deles ficam perdidas no rugido dos motores e no balido das buzinas, mas ainda assim é humilhante. A ideia de sair agora, de ser forçada a andar na sarjeta enquanto dúzias de carros passam por mim, com todas essas pessoas vendo, fez com que eu me encolha para trás, contra o banco. Eu olho para Elody buscando mais apoio, mas ela desvia o olhar. Lindsay se inclina. “Eu. Disse. Para. Sair,” ela murmura, sua boca tão perto do meu ouvido que se você não pudesse ouvi-la, diria que ela está me contando um segredo. Agarro minha bolsa e saio para o frio. O ar frio em minhas pernas quase me paralisa. No segundo que eu estou fora do carro, Lindsay sai em disparada, caindo fora com a porta balançando aberta. Começo a andar na caneleta cheia de folhas e lixo que corre ao lado da estrada. Meus dedos ficam entorpecidos quase instantaneamente, e eu piso meus pés na capa de folhagem coberta por gelo para manter o sangue circulando. Leva um minuto para a linha de trafego começar a desenrolar, e buzinas ainda são pressionadas na distância, o som sumindo como quando um trem passa. Um Toyota azul passa perto de mim. Uma mulher se inclina para fora—grisalha, provavelmente na casa dos sessenta—e balança a cabeça. “Louca,” ela diz, franzindo o cenho para mim. Por um momento eu só fico ali, mas com os carros passando para longe, eu lembro que não importa, nada disso importa, então eu ergui o dedo do meio, esperando que ela visse. Todo o caminho para a escola eu repito de novo—não importa, nada disso importa—até as palavras perderem o sentido.

Aqui uma das coisas que eu aprendi essa manhã: se você passar do limite e nada acontecer, o limite perde o sentido. É como um velho enigma sobre uma árvore caindo na floresta, e se faz um som mesmo que não tenha ninguém para ouvir. Você continua desenhando a linha distante e mais distante, cruzando a todo instante. Assim é como as pessoas terminam sendo o estepe das beiras da Terra. Você ficaria surpreso com quão fácil é explodir para fora da órbita, para girar fora para um lugar onde ninguém pode tocar você. Para perder você próprio—para ficar perdida. Ou talvez você não ficaria surpreso. Talvez algum de vocês já saibam. Para essas pessoas eu só posso dizer: sinto muito.

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Eu perco os quatro primeiros períodos só porque eu posso, e passo um par de horas andando nos corredores sem um real objetivo ou destino. Eu quase espero que alguém viesse me parar—a professora ou o Sr. Winters, ou a professora ajudante ou alguém—e perguntasse o que eu estava fazendo, até me acusasse de cabular aula e me mandasse para o diretor. Brigar com Lindsay me deixou insatisfeita, e eu sinto um vago, mas urgente, desejo de fazer algo. Maior parte dos professores só acena ou sorri, ou me dá um meio aceno. Eles não têm jeito de saber a minha tabela de horários, nenhum modo de saber quando eu tenho um período livre ou se alguma aula foi cancela, e eu fico desapontada com o quão fácil foi quebrar as regras. Quando eu entro na aula do Sr. Daimler, eu deliberadamente não olho para ele, mas eu posso sentir seus olhos em mim, deslizo em meu lugar, ele se aproxima. “Está um pouco cedo na temporada para as roupas de verão, você não acha?” Ele grunhe. Normalmente quando quero que ele olhe para mim por mais de poucos segundos, eu fico nervosa, mas hoje forço a mim mesma para manter os olhos nos dele. Calor percorre todo o meu corpo, lembrando-me de quando eu ficava perto da calefação na casa de minha avó, quando eu não tinha mais que cinco anos. É incrível como esses olhos podem fazer isso, como esses olhos podem transformar luz em calor. Eu nunca me sinto desse jeito com Rob. “Se você tem, ostente,” eu digo, fazendo minha voz soar suave e constante. Eu vi algo piscar em seus olhos. Eu o surpreendi. “Eu acho que sim,” ele murmura, tão calmamente que eu tive certeza de que era a única que podia ouvir. Então ele cora em um brilhante vermelho como se ele não pudesse acreditar em si mesmo. Ele acena para a minha mesa, que está vazia exceto por um lápis e o pequeno quadrado notebook que Lindsay e eu usamos para passar para trás e adiante durante as classes, escrevendo notas uma para a outra. “Sem rosas hoje? Ou o seu buquê estava muito cheio para carregar por ai?” Eu não estive em nenhuma das minhas aulas, então não peguei nenhum Valograma. Eu nem me importo. No passado eu teria preferido morrer a ficar no corredor do Thomas Jefferson num dia do Cupido sem nenhuma simples rosa. No passado eu teria considerado isso um fato pior que a morte. Claro, isso era antes que eu realmente soubesse.

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Eu esfrego minha testa, contraindo os ombros. “Eu estou tipo, cheia disso.” É mais ou menos como se a confiança estivesse flutuando por mim, vinda de outra pessoa, alguém mais velho e bonito, como se eu só estivesse sendo manipulada. Ele sorri para mim, e de novo eu vi algo se movendo em seus olhos. Então ele volta para sua mesa e bate as mãos, gesticulando para todo mundo ir para os lugares. Como sempre o sujo colar de cânhamo está para fora de seu colarinho, e eu me deixo pensar sobre enrolar meus dedos ao redor dele, puxando-o para mais perto de mim, e o beijando. Os lábios dele são grossos—mas não tão grossos—e são modelados exatamente como a boca de um cara deveria ser, como se ele só houvesse separado os lábios, e sua boca pudesse se encaixar diretamente ali. Eu penso na foto do anuário dele, quando ele estava de pé com os braços ao redor da garota que levou para o baile. Ela era magra, com cabelo longo e castanho, sempre sorrindo. Como eu. “Está certo, todo mundo,” ele diz com as pessoas arrastando e arranhando suas mesas, dando risinhos e amarrotando os buquês. “Eu sei que é o dia do Cupido e o amor está no ar, mas adivinhem só? Derivativas também.” Algumas pessoas grunhem. Kent bate na porta, quase atrasado, sua mochila pendurada aberta com papéis literalmente se espalhando atrás dele, como se ele fosse João ou Maria e tinha de ter certeza que alguém poderia seguir a trilha feita por incompletos esboços e notas da aula de matemática. Seu preto e branco axadrezado tênis aparecendo por baixo de sua calça caqui muito comprida. “Desculpe,” ele murmura buscando fôlego para o Sr. Daimler. “Emergência no Tribulação. Problemas com a impressão. Maligno papel tumor na bandeja. Teve de operar imediatamente ou tinha risco de perdemos.” Assim que ele faz metade do caminho no corredor até seu lugar, seu livro de matemática—o qual estava cavalgando alto e mais alto em uma onda de papéis amassados dentro de sua mochila aberta—pula fora, e cai no chão, e todo mundo ri. Eu sinto uma irritação crescendo. Por que ele está sempre uma bagunça? Quão difícil é fechar o zíper de uma mochila? Ele me pega olhando para ele, e eu acho que ele entende minha expressão facial como preocupação, porque ele murmura para mim só mexendo os lábios desastre ambulante. Parecia que ele estava orgulhoso disso. Viro minha atenção para o Sr. Daimler. Ele está de pé na frente da sala com os braços cruzados, sua expressão falsamente séria. Tem outra coisa sobre ele: ele nunca está realmente irritado. “Contente que a impressora aguentou até o final,” ele diz, erguendo os olhos castanhos. Sua manga estava dobrada para cima e seus braços estavam bronzeados. Ou talvez fosse só a cor de sua pele: como mel queimado. “Como eu estava dizendo, eu sei que tem um monte de coisas excitantes no dia do Cupido, mas não significa que nós podemos ignorar o...” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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“Cupidos!” Alguém grita, e a classe se perde em risos. Claro o suficiente, lá eles estavam: o diabo, o gato, e o pálido branco anjo com olhos grandes. Sr. Daimler joga os braços para cima e se apoia contra sua mesa. “Eu desisto,” ele diz. Então ele dirige seu sorriso para mim por um segundo—só um segundo, mas longo o suficiente para todo o meu corpo brilhar como luzes de Natal. O anjo entrega três rosas para mim—de Rob, Tara Flute e Elody—e então continua tirando metodicamente de seu buquê, espiando cada cartão e checando pelo meu nome. Havia algo cuidadoso e sincero sobre seus movimentos, como se ela estivesse super focada em fazer tudo corretamente. Assim que ela lia o nome endereçado, sua boca murmurava o nome sem som para si própria, assombrando-se, como se ela não pudesse acreditar que havia tantas pessoas na escola, tantas rosas para entregar, tantos amigos. É bonito de assistir e eu fico de pé abruptamente, pegando a rosa creme e rosa de suas mãos. Ela pulou para trás, surpresa. “É minha,” eu digo. “Eu reconheço essa.” Ela acena para mim, olhos arregalados. Duvidei que algum veterano tenha falado com ela alguma vez na vida. Ela começa a abrir a boca. Eu me inclino para ela, assim ninguém poderia me ouvir. “Não diga isso” eu digo, e seus olhos ficam ainda maiores. Eu não posso ficar para ouvi-la falar que é lindo. Eu não posso ficar quando a rosa—e tudo mais—é tudo lixo agora, sem sentido. “Isso só vai para o lixo”. Eu digo pra valer. Assim que o Sr. Daimler conduz o Cupido para a porta—todos na sala ainda soltando risinhos e mostrando os bilhetes que seus amigos haviam escrito e tentando adivinhar quantas rosas eles ainda podem esperar para ganhar até o final do dia—eu jogo minhas rosas para cima, elas deslizam para frente da sala, caindo no grande cesto de lixo bem ao lado da mesa do Sr. Daimler. Instantaneamente os risinhos param. Duas pessoas arfam e Chrissy Walker faz o sinal da cruz, como se eu tivesse lançado a Bíblia ou algo assim. É assim tão grande o negócio sobre as rosas. Becca Roth se ergue um pouco em seu acento, como se ela quisesse ir atrás das rosas e resgatá-las do fato de serem amassadas por papéis e pontas de lápis, testes falhos, e latas vazias de refrigerante. Eu nem olho na direção de Kent. Eu não quero ver o rosto dele. Becca deixa escapar: “Você não pode simplesmente jogar fora as suas rosas, Sam. Alguém enviou para você.” “Isso,” Chrissy se intromete. “Isso não se faz.” Dou de ombros. “Você pode ficar com elas, se quiser.” Aponto para o cesto de lixo, e Becca olha melancólica naquela direção. Ela está provavelmente tentando decidir como

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aumentaria sua popularidade se ela conseguisse ter quatro rosas extras, mas se vale o ego por buscar no lixo para tê-las. Sr. Daimler sorri, piscando para mim. “Você tem certeza que quer fazer isso, Sam?” Ele ergue as mãos, movendo-as. “Você está quebrando ambos os lados dos corações de algumas pessoas.” “Ah é?” Tudo isso terá ido, varrido, apagado amanhã, e amanhã será apagado pelo próximo dia, e o próximo dia será apagado depois, tudo apagado, limpo e impecável. “E o seu?” Fica um silêncio mortal na sala, alguém tosse. Posso dizer que o Sr. Daimler não sabe se eu estou deliberadamente seduzindo-o ou não. Ele aperta os lábios, nervoso, e leva uma mão ao cabelo. “O quê?” “Seu coração.” Vou para frente, até estar sentada na quina de sua mesa, minha saia subindo quase até mostrar minha calcinha. Meu coração batendo tão rápido era um zumbido. Me sento como se estivesse roçando acima do ar. “Estou quebrando ele?” “Ok” ele olha para baixo, mexendo em sua manga. “Sente-se, Sam. É hora de começar.” “Pensei que você estava gostando da vista.” eu me inclino um pouco para trás, pondo os braços acima da minha cabeça. Há um tipo de eletricidade no ar, um zunido, tensão correndo em todas as direções, parece como o momento exato antes de uma tempestade, como se cada partícula no ar estivesse sobrecarregada e vibrando. Uma estudante no fundo da classe começa a rir, outra murmura “Jesus”. Talvez seja minha imaginação, mas acho que reconheci a voz de Kent. Sr. Daimler olhou para mim, sua expressão escurecida. “Sente.” “Já que você insiste.” Giro na beira da mesa e me movo ao redor de sua cadeira, então sento cruzando as pernas lentamente, apoiando as mãos em minhas coxas. Pequenos risinhos e pigarros surgem ao redor da sala, estouros de sons. Eu não soube de onde isso havia vindo, esse sentimento de completo e total controle. Há alguns meses, eu ainda me tornava uma gelatina onde quer que fosse, que um garoto falasse comigo, inclusive sendo Rob. Mas isso pareceu fácil, natural, como se eu houvesse escorregado na pele que pertence a mim pela primeira vez na vida. “Na sua cadeira.” Sr. Daimler praticamente rosna e seu rosto se torna vermelho escuro, quase roxo. Eu o fiz perder o controle—provavelmente pela primeira vez na história de Thomas Jefferson. Eu sei disso em qualquer que fosse o jogo que estivéssemos jogando. Eu ganhei um ponto. A ideia fez meu estômago se revirar um pouco—não de um jeito ruim, mais como no momento exato antes de você alcançar a maior parte mais alta na atração de um parque, quando você sabe que a qualquer momento você vai estar no topo

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do parque, olhando para baixo e vendo tudo, pausando por uma fração de segundo, antes de ter a viagem da sua vida. É o declive em seu estômago bem antes de tudo vir abaixo em um vendaval, e gritar, exatamente antes de abandonar completamente. O riso na sala passa para um bramido. Se você estivesse parado do lado de fora, poderia confundir isso com aplausos. Pelo resto da aula eu fico quieta, mesmo quando as pessoas continuam soltando murmurinhos e caindo em riso, e eu tenho três bilhetes lançados em minha direção. Um vindo de Becca que diz: você é incrível; um vindo de Hanna Gordon que diz: ele é tãããããão quente. O outro caiu no meu colo, todo amassado como lixo, antes que eu pudesse ver quem havia lançado. Dizia: puta. Por um momento eu sinto um quente fluxo de constrangimento, como náusea ou vertigem. Mas passa rapidamente. Nenhum deles é real. Eu nem sequer sou real. Um quarto bilhete apareceu quando a aula já terminava. Veio na forma de um avião em miniatura, e literalmente aterrissou em mim, caindo com um sussurro em minha mesa justo quando o Sr. Daimler se virou para escrever uma equação no quadro. Era tão perfeito que eu odiei ter de tocá-lo, mas eu desdobrei as asas, e ali estava uma mensagem escrita em letras grandes. Você é boa demais para isso. Mesmo não tendo assinatura, eu sei que é de Kent, e por um segundo algo afiado e profundo passa por mim, algo que eu não posso entender ou descrever, uma lâmina correndo por minha costela e me fazendo quase ofegar por ar. Eu não deveria estar morta. Não deveria ser eu. Eu pego a nota cuidadosamente e a rasgo no meio, então no meio de novo. Nós estivemos agitados por toda a aula, e o Sr. Daimler desiste dois minutos antes do sinal bater. “Não esqueçam: teste na segunda. Limites e assíntotas.” Ele vai para a mesa dele e se inclina sobre ela, parecendo cansado. Há uma exalação em massa, um suspiro coletivo de casacos fazendo barulho e cadeiras arrastando pelo piso. “Samantha Kingston, por favor me encontre depois da aula.” Ele nem sequer está olhando para mim, mas o tom em sua voz me deixa nervosa. Pela primeira vez me ocorre que eu poderia estar realmente em problemas. Não que isso importe, mas se o Sr. Daimler me fizer sentar e ouvir um sermão sobre responsabilidade, eu vou morrer de vergonha. Eu vou morrer de novo. Boa sorte, Becca sussurra para mim enquanto sai. Nós nem sequer somos amigas— Lindsay chama ela de IdiotadoPeru, porque ela come sanduíche de peru todos os dias— mas o fato dela dizer isso faz o nó em meu estômago afrouxar um pouco.

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O Sr. Daimler espera até o último estudante sair da sala—eu vejo Kent rondando na porta pelo canto do olho—então anda lentamente até a porta e a fecha. Algo sobre o modo como a porta fecha—tão final, tão rápido—faz meu coração dar um salto. Eu fecho os olhos por um segundo, sentindo como se eu estivesse de novo no carro com Lindsay, na Estrada Fallow Ridge, com as luzes enevoadas de um segundo carro rumando para nós na escuridão, uma acusação. Eles sempre desviam antes, ela disse, mas naquele segundo eu entendo com total e perfeita claridade que não foi por isso que ela fez aquilo—porque ela faz aquilo. Ela faz isso por aquele momento excitante quando você não sabe, quando você vem contra alguém que não desvia, e ao invés disso se encontra despencando fora da estrada para a escuridão. Quando eu abro os olhos, o Sr. Daimler está com as mãos no quadril. Ele está me olhando fixamente. “Que diabos você estava pensando?” A aspereza em sua voz me surpreende. Eu nunca fui xingada por um professor. “Eu... Eu não sei do que você está falando.” Minha voz sai soando mais fina, inexperiente, do que eu gostaria. “Aquela merda de antes—bem aqui, na frente de todos. No que você estava pensando?” Eu fico de pé, para que eu não esteja somente sentada ali olhando para ele como uma criancinha. Minhas pernas estão bambas, e eu tenho que me segurar com uma mão contra a mesa. Eu respiro fundo, tentando me acalmar. Não importa: tudo isso vai ser apagado, limpo. “Sinto muito,” eu digo, sentindo-me um pouco mais forte. “Eu realmente não sei do que você está falando. Fiz algo de errado?” Ele olha para a porta e um músculo se tensiona em seu maxilar. Só aquilo, essa pequena tensão, retorna toda a minha confiança. Eu quero estender minha mão e tocá-lo, pôr meus dedos em seu cabelo. “Você podia se meter em um monte de problemas, você sabe,” ele diz, sem olhar para mim. “Você pode me meter em um monte de problemas.” O primeiro sinal toca: a aula oficialmente acabou agora. A sensação melodiosa retorna ao meu sangue, ao ar. Eu ando cautelosamente ao redor da minha mesa e ando direto até a frente da sala. Paro quando nós estamos apenas a poucos passos de distância um do outro. Ele não recua. Ao invés disso, ele finalmente olha para mim. Seus olhos são tão profundos e cheios de algo que isso quase me assusta. Mas não assustou. Eu me encosto casualmente contra a mesa de Becca, me inclinando para trás e me apoiando sobre os cotovelos, para que eu esteja totalmente exposta diante dele, seios, Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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pernas, tudo. Minha cabeça parece como se tivesse flutuado para fora do meu corpo; meu corpo parece como se tivesse flutuado para longe de meu sangue; como se eu estivesse apenas me dissolvendo em energia e vibração. “Não me importo com problemas,” eu digo em minha voz mais sexy. O Sr. Daimler está olhando fixamente meus olhos, sem olhar para o resto de mim, mas de algum modo eu sei que isso é um esforço. “O que você está fazendo?” Minha saia está tão levantada que eu sei que minha calcinha está aparecendo. É um fio dental de renda rosa, um dos primeiros que eu já tive. Fios dentais sempre me fazem sentir como se eu tivesse um elástico no meio da minha bunda, mas no ano passado Lindsay e eu compramos o mesmo modelo na Victoria’s Secrets e juramos usá-lo. As palavras vêm para mim de um script, de um filme: “Eu posso parar se você quiser.” Minha voz sai suspirosa, mas não porque eu estou tentando. Eu não estou mais respirando—tudo, o mundo todo, congela naquele momento enquanto eu espero pela resposta dele. Mas quando ele fala, soa cansado, aborrecido—nem perto do que eu estava esperando. “O que você quer, Samantha?” O tom de sua voz me surpreende, e por um segundo minha mente fica em branco. Ele está me encarando com um olhar de impaciência agora, como se eu tivesse acabado de pedir para ele mudar a minha nota. O segundo sinal soa. Eu sinto como se a qualquer momento ele vai me dispensar, lembrando-me do teste na segunda. De algum modo eu perdi o controle da situação e eu não sei como consertar isso. A vibração no ar ainda está ali, mas agora parece sinistra, como se o ar estivesse cheio de coisas afiadas prontas para cair. “Eu... Eu quero você.” Eu não quis que isso saísse tão incerto. Isso é o que eu quero. É isso o que eu tenho estado querendo: o Sr. Daimler. Minha mente continua girando em um pânico cego, e eu não consigo lembrar seu primeiro nome, e sinto vontade de rir histericamente; eu estou deitada meio nua na frente do meu professor de matemática e eu não sei o nome dele. Então vem a mim. Evan. “Eu quero você, Evan,” eu digo, um pouco mais ousadamente. É a primeira vez que eu usei seu primeiro nome. Ele me encara por um longo tempo. Eu começo a ficar nervosa. Eu quero desviar o olhar ou abaixar minha saia ou cruzar os braços, mas eu me forço a ficar parada. “No que você está pensando?” eu finalmente pergunto, mas ao invés de me responder, ele simplesmente anda direto até mim e põe as mãos sobre meus ombros, me empurrando para trás até eu estar deitada sobre a mesa de Becca. Então ele está se dobrando sobre mim, me beijando e lambendo meu pescoço e orelha e soltando pequenos grunhidos que me lembram de Pickle quando ele quer fazer xixi. Pressionada contra ele eu me sinto pequena; seus braços são fortes, agarrando meus ombros e braços. Ele desliza

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uma mão pela minha blusa e aperta meus seios um depois o outro, tão forte que eu quase choro. Sua língua é grande e gorda. Eu penso, estou beijando o Sr. Daimler, estou beijando o Sr. Daimler, Lindsay nunca vai acreditar nisso, mas não parece nem perto do que eu havia imaginado. O rastro de sua barba está roçando em minha pele, e eu tenho esse horrível pensamento que é isso que minha mãe sente quando ela beija o meu pai. Quando eu abro os olhos eu vejo os ladrilhos pontilhados comuns da sala—os ladrilhos que eu passei horas e horas encarando durante o semestre—e minha mente começa a circular ao redor deles, contando, como se eu fosse uma mosca voando em algum lugar fora do meu corpo. Eu penso Como pode o mesmo teto ainda estar ali enquanto isso está acontecendo? Por que não está vindo abaixo? De repente não é mais tão divertido: todas aquelas coisas brilhantes afiadas caem do ar ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo algo cai bem dentro de mim. Sinto como se estivesse ficando sóbria depois de beber a noite inteira. Eu ponho as mãos em seu peito e tento empurrá-lo, mas ele é muito pesado, muito forte. Posso sentir seus músculos sob meus dedos—ele costumava jogar lacrosse no ensino médio, Lindsay e eu descobrimos—e acima disso, uma fina capa de gordura. Ele está se apoiando mim com todo o seu peso, e eu não consigo respirar. Estou esmagada embaixo dele, minhas pernas afastadas de cada lado de seu quadril, seu estômago quente e gordo e pesado sobre o meu. Eu afasto minha boca da dele. “Nós—nós não podemos fazer isso aqui.” As palavras simplesmente saltam sem que eu me dê conta. O que eu queria dizer era: Nós não podemos fazer isso. Não aqui. Não em nenhum lugar. O que eu queria dizer era, Pare. Ele está respirando pesadamente, ainda encarando minha boca. Há uma pequena gota de suor na linha de seu cabelo, e eu observo ela cruzar sua testa e cair até a ponta de seu nariz. Finalmente ele se afasta de mim, passando a mão sobre sua mandíbula, e assente. No momento em que ele sai de cima de mim, eu me apresso para ficar de pé e puxo minha blusa para baixo, não querendo que ele veja que minhas mãos estão tremendo. “Você está certa,” ele diz lentamente. Ele balança rapidamente a cabeça, como se estivesse tentando se despertar. “Você está certa.” Ele dá alguns passos para trás e vira as costas para mim. Por um segundo nós apenas ficamos ali, sem falar. Meu cérebro está só estática. Ele está apenas alguns passos distante de mim, mas parece extremamente, impossivelmente longe, como alguém que só se pode distinguir na distância, uma silhueta no meio de uma nevasca.

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“Samantha?” Finalmente ele se volta para mim, esfregando os olhos e suspirando, como se eu o houvesse exaurido. “Ouça, o que aconteceu aqui... Acho que não preciso dizer a você que isso precisa ficar estritamente entre você e eu.” Ele está sorrindo para mim, mas não seu sorriso normal, fácil. Não há humor nele. “Isso é importante, Samantha. Você entende?” Ele suspira novamente. “Todo mundo comete enganos…” Ele deixa a frase se esvair, me observando. “Enganos,” eu repito, a palavra sibilando pela minha cabeça. Não tenho certeza se ele pensa que ele havia cometido um engano, ou que eu havia. Engano, engano, engano. Uma palavra estranha: dolorosa, de algum modo. A boca do Sr. Daimler, seus olhos, nariz—todo o seu rosto parece estar se rearranjando em um padrão não familiar, como uma pintura de Picasso. “Eu preciso saber que posso contar com você.” “Claro que você pode,” eu me ouço falando, e ele olha para mim, aliviado, como se, se ele pudesse, ele fosse acariciar minha cabeça e dizer, Boa garota. Depois disso eu só fico ali por um momento. Não tenho certeza de se ele vai dar a volta e me beijar ou me dar um abraço—parece insano só sair, pegar minhas coisas e ir como se nada tivesse acontecido. Mas depois dele piscar para mim um pouco, ele finalmente diz, “Você está atrasada para o almoço,” e agora eu sei que realmente estou sendo dispensada. Então eu pego minha bolsa e vou. Assim que estou fora no corredor, eu me apoio contra uma parede, agradecida pela sensação da pedra contra minhas costas. Algo borbulha dentro de mim, e eu não sei se deveria pular para cima e para baixo ou rir ou gritar. Felizmente os corredores estão vazios. Todo mundo já está almoçando. Eu pego meu celular para mandar uma mensagem para Lindsay, mas então lembro que nós estamos brigadas. Não há nenhuma mensagem dela perguntando se eu quero ir para a festa de Kent. Ela ainda deve estar chateada. E eu não tenho certeza se estou brigada com Elody, também. Lembrar o que eu disse no carro me faz sentir horrível. Penso em mandar mensagem para Ally—tenho quase certeza que ela não está chateada comigo, pelo menos—e eu passo um longo tempo tentando descobrir como escrever isso. Parece estranho escrever Eu beijei o Sr. Daimler, mas se eu escrever Evan ela não vai saber de quem eu estou falando. Evan Daimler soa errado também, e além do mais, nós fizemos mais que só nos beijar. Ele estava sobre mim. No final, eu jogo meu celular de volta na bolsa sem escrever nada. Imagino que vou apenas esperar até ter feito as pazes com Lindsay e Elody, e então contar a elas pessoalmente. Vai ser mais fácil desse jeito, mais fácil de fazer isso soar melhor do que foi, e eu vou poder ver o rosto delas. O pensamento de quão invejosa Lindsay vai ficar faz a coisa toda valer mais do que a pena. Eu passo um pouco de corretivo no meu queixo para

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cobrir as marcas vermelhas onde o rosto do Sr. Daimler fez uma esfoliação que eu não precisava, e então eu parto para o almoço.

você não pode julgar um livro por seus coturnos com pontas de metal Quando eu entro na cafeteria, dez minutos depois, nossa mesa usual está vazia e eu soube que havia sido oficial e deliberadamente abandonada. Por uma fração de segundos, eu posso sentir os olhos de todos seguindo na minha direção, encarando. Trouxe minha mão para o meu rosto sem ter a intenção de fazê-lo, de repente aterrorizada de que todos vissem as marcas em meu queixo e soubessem o que eu estive fazendo. Eu me curvo no corredor novamente. Preciso ficar sozinha, preciso por tudo junto de novo. Vou para os banheiros, mas estavam fechados, duas secundaristas (Lindsay as chama de s’mores20 porque elas estão sempre juntas e mais de dois podem deixar você doente) saíram arrebentando pela porta, rindo, de braços dados. Almoço é o auge do tráfego no banheiro—todas precisam reaplicar o batom, reclamar sobre estar gorda, ameaçar vomitar em um dos banheiros—e a última coisa que eu preciso agora é de um constante fluxo de estúpidos. Corro para o banheiro antigo no final da ala de ciências. Dificilmente alguém usa desde que o novo banheiro—com vasos que não entopem—foi instalado no último ano, entre os laboratórios. Quanto mais distante eu fico da cafeteria, mas os ruídos das vozes vão ficando distante, até o som parecer como um oceano distante. Eu fico mais calma com cada passo. Meu salto bate num ritmo constante contra as lajotas no chão. A ala de ciências estava vazia, como esperado, e cheira, como sempre, como produtos químicos e enxofre. Hoje há alguém mais, embora o cheiro de cigarro e algo mais, mais acre. Eu empurro contra a porta do banheiro e, por um segundo, nada acontece. Empurro mais forte e há um rangente som. Espremo meus joelhos contra a porta e, finalmente, balança aberta, jogando-me para dentro. Eu instantaneamente bato meu joelho numa cadeira que havia sido posta contra a maçaneta, e dor atingi a minha perna. O cheiro no banheiro era muito mais forte. Solto minha bolsa e circulo ao redor, esfregando meu joelho. “Merda.” “Que infernos?” A voz me faz pular. Eu não assimilo que há alguém mais no banheiro. Olho para cima e Anna Cartullo está ali, segurando um cigarro entre os dedos. “Jesus,” eu digo. “Você me assustou.” 20

Marca de bolachas.

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“Eu assustei você?” Ela se inclina contra o balcão e apaga as cinzas na pia. “Você, tipo, forçou a entrada. Não sabe como bater?” Como se eu houvesse justamente invadido a casa dela. “Desculpe por arruinar a sua festa.” Faço um movimento sem vontade para ir até a porta. “Espere.” Ela ergue uma mão, parecendo nervosa. “Você vai contar?” “Contar o quê?” “Sobre isso.” Ela inala criando uma nuvem de fumaça. O cigarro que ela fuma é extrafino e parece que ela mesma havia enrolado. Então me atinge: é maconha. A erva deve ter sido misturada com um monte de tabaco, porque eu não reconheci o cheiro imediatamente, e eu já fui para casa com a minha roupa fedendo disso depois de cada festa. Elody uma vez disse que eu era sortuda pela minha mãe nunca vir até o meu quarto, ou ela poderia pensar que eu estava lidando com baseado e escondendo na roupa suja. “E daí? Você só vem aqui e fuma o seu almoço?” Eu não estou falando para ser má, mas saiu desse modo. Seus olhos caem para o chão por um segundo, então eu percebo uma sacola de sanduíche vazia e um pacote meio comido de chips no ladrilho. Ocorreu a mim que eu nunca a havia visto na cafeteria. Ela deve comer seu almoço aqui todos os dias. “É. Eu gosto da decoração.” Ela me vê olhando para a sacola, então guarda a maconha e cruza os braços. “O que você está fazendo aqui de todos os modos? Você não tem...?” Ela parou a si mesma, mas eu sei o que ela iria dizer você não tem amigas? “Eu preciso fazer xixi,” eu digo. Isso é obviamente uma mentira desde que eu não faço o mínimo esforço para usar o banheiro, mas eu estou cansada de sair sempre com diferentes desculpas, e ela não me pediu por uma. Nós ficamos ali em um silêncio estranho, por um momento. Eu nunca havia trocado uma palavra com Anna Cartullo na minha vida, pelo menos na vida que eu tinha antes do acidente de carro—além de uma vez quando eu disse “Não chame ela de prostituta malvada” depois dela ter chamado Lindsay de prostituta malvada. Mas eu preferia ficar ali com ela a sair para o corredor. Finalmente eu penso dane-se isso, sento na cadeira e apoio minha perna sobre a pia. Ela acena para meu joelho. “Parece inchado.” “É, bom, alguém deixou uma cadeira bem atrás da porta.” Ela começa a rir. Ela está definitivamente doidona. “Belos sapatos.” Ela ergue os olhos para o meu pé, que está apoiado sobre uma das pias. Eu não posso dizer se ela está sendo sarcástica. “Difícil de andar assim, hein?” “Eu posso andar,” eu digo, rápido demais. Então contraio os ombros. “Curtas distâncias, de todo modo.” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Ela resfolega então cobre a boca. “Eu comprei como uma piada.” Eu não sei por que eu sento a necessidade de me defender frente a Anna Cartullo, mas eu acho que nada mais está do jeito que deveria hoje. Todas as regras foram praticamente jogadas pela janela. Anna está relaxando, também. Ela atuando como se não fosse estranho que nós estivéssemos conversando em um banheiro do tamanho de uma cela de prisão, quando nós deveríamos estar almoçando. Ela se ergue sentando sobre o balcão, movendo os pés em minha direção. Nada surpreendente, ela não está usando nada relacionado ao dia do Cupido. Ela está vestindo uma blusa sem mangas com capuz. Seu jeans puído na bainha e tem um alfinete de segurança onde está faltando um botão. Ela está vestindo um enorme par de botas redondas que me lembram Doc Martens drogado. “Você precisa de um par desses.” Ela bate as pontas, uma Dorothy punk tentando voltar para casa com Oz. “Sapatos mais confortáveis que eu já usei.” Eu olhei para ela Tá, certo. Ela contrai os ombros. “Não critique eles até prová-los.” “Ok, então passa eles pra mim.” Anna olha para mim por um longo instante, como se ela não tivesse certeza de que eu falo sério. “Olhe,” eu chuto meus sapatos fora. Eles batem no chão com chacoalho. “Vamos trocar.” Anna se embola sem palavras, abrindo o zíper das botas e tirando elas. Suas meias são listradas com o arco íris, o que me surpreende. Eu provavelmente havia esperado crânios ou algo assim. Ela as tirou em seguida e equilibrou-as em uma mão, passando para mim. “Ui.” Eu enrugo o nariz. “Não, obrigada. Eu prefiro ficar descalça.” Ela encolhe os ombros, rindo. “Que seja.” Quando eu fecho a bota, percebo que ela está certa. São super confortáveis, mesmo sem as meias. O couro é bom e muito macio. Eu as admiro nos meus pés. “Eu sinto como se devesse ir aterrorizar criancinhas.” Eu bato os saltos de aço fino, o que fez um satisfatório som de click. “Eu sinto como se eu devesse estar criando piadinhas.” Anna tem de se manobrar para se manter sobre os meus saltos, e agora está tentando experimentar andar pelo banheiro, braços erguidos como se ela tivesse em uma corda bamba. “Mesmo tamanho de pé.” Eu aponto isso, embora fosse óbvio.

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“Oito e meio. Bem comum”. Ela olha de relance sobre os ombros para mim, como se estivesse considerando dizer mais alguma coisa, então se abaixa alcançando sua bolsa, um escândalo de patchwork21 vagabundo que parecia como se ela mesma houvesse tentando fazer. Ela pega uma pequena lata de Altoids. Dentro tem uma moeda de dez centavos junto com a bolsa de erva—eu acho que Alex Liment é bom para algo—papéis enrolados, e alguns cigarros. Ela começa a enrolar outro, cuidadosamente equilibrando os livros de estudo sobre o colo para usar como bandeja. (Nota: até hoje eu só havia visto livros sendo usados como (1) guarda chuva, (2) pano temporário, (3) travesseiro, e agora isso. Na verdade eu nunca havia visto ninguém estudar com aquilo, o que significa que cada um que se gradua na Thomas Jefferson vai estar totalmente despreparado para vida ou essas certas coisas não podem ser aprendidas em ponto de bala). Seus dedos são finos e se movem rapidamente. Ela obviamente já havia praticado. Perguntei-me se era isso que ela e Alex fazem depois de transarem, só ficam lá lado a lado, fumando. Perguntei-me se ela sempre pensa sobre Bridget quando eles estão fazendo isso. Eu estava tentada a perguntar. “Pare de me encarar,” ela diz sem nem me olhar. “Não estou.” Jogo minha cabeça para trás e fito o verde-vômito teto, que me lembrou do Sr. Daimler então volto a olhar para ela. “Não há muitas opções.” “Ninguém disse para você vir para cá.” Certa vantagem retorna para a sua voz. “Propriedade pública.” Há um breve segundo quando seu rosto escurece, e eu tenho quase certeza de que ela vai pirar e isso seria o fim do nosso brilhante, feliz tempo junto. Eu me apresso. “Seriamente não é tão ruim aqui. Para um banheiro, você sabe.” Ela me olha suspeitosamente, como se ela tivesse certeza que eu só estava papeando com ela para depois poder fazer piadinhas sobre isso. “Você poderia conseguir algumas almofadas para o chão.” Eu olho ao redor. “Decorar um pouco ou algo.” Ela move a cabeça, concentrando-se em seus próprios dedos. “Tem esse artista que eu sempre gostei—um cara que faz todos os degraus subirem e descerem ao mesmo tempo...” “M. C. Escher? Eu tenho, tipo, dez livros dele em casa”. Falo sem pensar, feliz por ela não estar chateada e me chutar para fora do banheiro. “Meu pai é um arquiteto. Ele sabe dessas coisas.”

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Técnica de costura onde se usa vários tecidos e estampas diferentes costurados.

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Anna vira o cigarro, lambendo a ponta, e finaliza com alguns estalos nos dedos. Ela dá de ombros na cadeira. “Se você vai ficar sentada ai, você poderia pelo menos bloquear a porta. Aqui é propriedade privada.” A cadeira arrasta contra o piso, eu me apresso ficando contra a porta, e nós duas recuamos, pegando-nos se retraindo, e rindo. Anna tira um isqueiro roxo com flores—não o tipo de luz que eu esperaria dela—e tenta acender o cigarro. A chama tilinta algumas vezes e ela a deixa de lado, xingando. No momento seguinte em que ela mexe em sua bolsa, pega um isqueiro em forma do torso nu de uma mulher. Ela pressiona na cabeça e uma pequena chama azul aparece, disparando fora do bico. Agora esse era o tipo de isqueiro que eu esperava que Anna Cartullo tivesse. Seu rosto ficou sério, e ela deu uma longa tragada, então me encarou através da nuvem de fumaça azul. “Então,” ela diz. “Por que vocês me odeiam?” De tudo que eu esperava que ela dissesse, nada seria assim. Ainda mais inesperado, ela ergue o baseado na minha direção, oferecendo-me um trago. Hesito por um segundo. Ei, só porque eu estou morta, não quer dizer que eu sou uma santa. “Nós não odiamos você.” Isso não soa convincente. A verdade era que eu não tenho certeza. Eu não odeio Anna, de verdade; Lindsay sempre diz que ela sim, mas é difícil saber quais as razões de Lindsay para qualquer coisa. Eu dou um trago no baseado. Nós só havíamos fumado isso uma vez antes, mas eu vi isso ser feito centena de vezes. Inalo e meus pulmões ficam cheios da fumaça: um pesado gosto como chumaço de musgo. Tento segurar a respiração, do jeito que é supostamente para fazer, mas a fumaça fez cócegas no canto da minha garganta. Comecei a tossir e dou o baseado de volta. “Então, qual o motivo?” Ela não diz, para todas as merdas que você fez. Pelo grafite no banheiro. Pelo falso e-mail explodindo no segundo ano: Anna Cartullo tem clamídia. Ela não tem que dizer. Ela passa o baseado de volta para mim. Eu dou outro trago. Algumas coisas já estão entortando, certos objetos embaçando e outros brilhando, como se alguém tivesse perdido o foco da câmera. Ninguém mais havia passado a falar com Alex, mesmo que ele tivesse tomado uma ducha. Ele facilita as coisas. “Eu não sei.” Porque é mais fácil. “Eu acho que você precisa tirar as coisas de alguém.” As palavras estão fora da minha boca antes que eu pudesse me dar conta que era verdade. Dou outro trago e passo o baseado de volta para Anna. Sentindo como se tudo houvesse sido ampliado, como se eu pudesse sentir o peso dos meus braços e pernas e ouvir meu coração batendo, e o sangue correndo em minhas veias. E no final do dia tudo estaria em silêncio, pelo menos até o tempo voltar a esse momento e começar de novo.

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O sinal toca. O almoço havia terminado. Anna diz “Merda, merda, eu tinha que estar em outro lugar,” e começa a tentar juntar todas as suas coisas. Ela acidentalmente deixa cair à lata de Altoids. O saco com erva foi voando e caindo, e papéis se espalham em todas as direções. “Merda.” “Eu ajudo,” eu digo. Nós nos abaixamos, ficando apoiadas sobre os joelhos. Meus dedos pareciam entorpecidos e inchados, e eu estou tendo problemas para conseguir pegar os papéis do chão. Isso me atingi de forma hilária, e Anna e eu começamos a gargalhar, encarando uma a outra, buscando por ar. Ela continua dizendo “Merda” em intervalos. “Melhor se apressar,” eu digo. Toda a raiva e dor pelos últimos dias estava sumindo, deixando em mim um sentimento livre e cuidadoso, e feliz. “Alex vai ficar bravo.” Ela congela. Nossas testas estão tão próximas que quase se tocam. “Como você sabe que eu ia encontrar o Alex?” ela questiona. Sua voz limpa e baixa. Percebo tarde demais que havia estragado tudo. “Eu vi você se acobertando através da Área de Fumantes depois do sétimo, uma ou duas vezes,” eu digo vagamente, e ela relaxa. “Você não vai dizer para ninguém, vai?” ela pergunta, batendo seu lábio inferior. “Eu não queria...” Ela para de falar e eu me pergunto se ela iria dizer algo sobre Bridget. Mas ela balança a cabeça e continua a ajuntar os papéis, trabalhando mais rápido agora. A ideia de falar de Anna Cartullo indo dormir com Alex depois do que eu havia feito—depois do Sr. Daimler—era hilária. Eu não tinha o direito de algo a quem quer que fosse. Eu estou fumando maconha no banheiro, não tenho amigas, meu professor de matemática havia mergulhado a língua na minha garganta, meu namorado me odeia porque eu não dormi com ele. Estou morta, mas não posso parar de viver. O absurdo de tudo isso realmente me atingiu naquele segundo, e comecei a rir de novo. Anna ficou séria. Seus olhos estão brilhando grandes como uma bola de gude. “O quê?” ela questiona. “Você está rindo de mim?” Balanço a cabeça, mas eu não posso responder do jeito certo. Estou rindo tão forte demais para respirar. Eu estou meio agachada perto dela, mas estou me balançando tão forte, que a risada me atingi com força, fazendo-me tombar para trás, batendo a bunda com um estrondo. Anna cai no riso novamente. “Você é louca,” ela diz, dando um risinho. Eu me sinto um pouco sem ar. “Pelo menos eu não me tranco nos banheiros.” “Pelo menos eu não fico doidona com meio trago de maconha.”

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“Pelo menos eu não durmo com Alex Liment.” “Pelo menos eu não tenho amigas vadias.” “Pelo menos eu tenho amigas.” Nós íamos para frente e para trás, rindo mais e mais. Anna se inclina tão rapidamente, que tem de se apoiar sobre um cotovelo. Então ela gira todo o caminho, então ela só está abandonada no chão fazendo esse hilário barulho com o nariz que me lembrava de um poodle, com tanta frequência que ela começa a resfolegar, o que me fez cair de novo. “Deixa eu te dizer uma coisa,” Eu digo, assim que consigo fazer as palavras saírem. “Estou ouvindo, ouvindo.” Anna pretendia bater com um martelo então cheirar em sua mão. Eu estou amando o cheiro turvo ao redor de mim. Eu estou nadando na escuridão. As paredes verdes são água. “Eu beijei o Sr. Daimler.” Assim que eu digo isso, caio no riso novamente. Essas deveriam ser as cinco palavras mais ridículas do vocabulário inglês. Anna se ergue, se equilibrando no cotovelo. “Você fez o quê?” “Shhhhh”. Eu mexi a cabeça para cima e para baixo. “Nos beijamos. Ele pôs as mãos por baixo da minha blusa. Ele pôs as mãos...” eu apontei entre as minhas pernas. Ela move a cabeça de um lado para o outro. Seu cabelo se movendo ao redor do seu rosto, me lembrando de um tornado. “Sem chance. Sem chance. Sem chance.” “Juro por Deus.” Ela se inclina para frente, tão perto que eu podia sentir seu bafo em meu rosto. Ela esteve mastigando um Altoid. “Isso é doente. Você sabe, certo?” “Eu sei.” “Doente. Doente. Doente. Ele esteve no ensino médio, tipo, dez anos atrás.” “Oito. Eu chequei.” Ela solta um ganido de um riso, por um segundo ela move a cabeça perto do meu ombro. “São todos pervertidos,” ela diz, as palavras baixas e entrando diretamente em meu ouvido. Então ela se afasta e diz “Droga! Estou morta.” Ela fica de pé, segurando a si mesma com uma mão apoiada na parede. Ela vacila por um momento quando está na frente do espelho, arrumando seu cabelo. Ela pega uma pequena garrafa do seu bolso de trás e pinga um pouco em cada olho. Eu ainda estou no chão, olhando para cima, para ela. Ela parecia estar quilômetros e quilômetros longe.

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Eu solto, “Você é boa demais para o Alex.” Ela já havia passado por mim, em seu percurso para a porta. Eu vi ela voltar a ficar rígida e pensei que estaria brava. Ela pausa, uma mão apoiada sobre a cadeira. Mas quando ela se vira, ela sorria. “E você é boa demais para o Sr. Daimler,” ela diz, e nós duas estalamos de novo. Então ela afasta a cadeira para fora de seu caminho e deixa a porta aberta, mergulhando no corredor. Depois de ela ter saído, eu sento com a minha cabeça para trás, aproveitando o modo como o lugar parecia que ia girar. Isso é como parece estar no sol, eu penso, então eu penso em quão doidona eu estou, então penso em quão engraçado é saber que você está doidona, mas não pronta para parar de pensar em coisas de doidonas. Eu vi algo branco aparecendo debaixo da pia: um cigarro. Eu me inclino e encontro outro. Anna se esqueceu de pegá-los. Justo ali havia algo afiado na porta, e eu cato os dois cigarros e me equilibro sobre meus pés. Assim que eu me sustento com tudo circulando, o sentimento de estar mergulhada fica pior. Custa para eu puxar a cadeira para fora do caminho. Tudo parecendo tão pesado. “Você esqueceu esses,” eu digo, segurando os cigarros entre os dedos assim que abri a porta. Mas não é Anna. É a Sra. Winters, de pé no corredor com os braços cruzados e o rosto tão severo que parece que seu nariz era uma mancha preta e todo o resto em seu rosto havia sido sugado para ali. “Fumar na propriedade da escola é proibido,” ela diz, pronunciando cada palavra calmamente. Então ela sorri, mostrando todos os dentes.

as pugs No R & R do colégio Thomas Jefferson (Manual de Regras e Regulamentos), diz que qualquer aluno que for pego fumando nas propriedades da escola está sujeito a suspensão de três dias. (Eu sei disso porque todos os fumantes gostam de arrancar esta pagina do manual e queimá-la na sala, às vezes se agachando e acendendo seus cigarros nas chamas, enquanto as palavras na página se distorcem e escurecem até se tornarem fumaça.) Mas eu saí com apenas uma advertência. Eu acho que a administração faz exceção para alunos que estão sujos com uma certa vice-diretora e um certo professor de ginástica/Treinador de futebol/Amante de bigodes. A Sra. Winters parecia que ia ter um ataque cardíaco forte quando eu comecei a falar sobre modelos a seguir e minha pobre mente impressionável—adoro essa expressão, como se todos abaixo da idade de vinte e um tivessem o poder cerebral de um creme dental—e sobre a responsabilidade da administração para dar o exemplo, especialmente quando lhe lembrei sobre a página sessenta e nove no R Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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& R: É proibido qualquer estudante realizar atos lascivos e sexualmente inadequados dentro dos limites da propriedade da escola. (Isso eu sei por que a página foi arrancada e colocada em vários banheiros no campus, as margens decoradas com desenhos de uma natureza decididamente lasciva e definitivamente, sexualmente inadequada. A administração pedia por isso, quem coloca uma regra como essa na página sessenta e nove?) Pelo menos a uma hora e meia que fico com a Sra. Winters ajuda para que eu ficasse mais sóbria. O último sinal acaba de soar e todos os estudantes ao meu redor estão saindo das salas de aula, fazendo mais barulho do que o necessário—gritando, rindo, batendo armários, caindo pastas, empurrando uns aos outros—um ruído nervoso, negligente e inquieto típico das sextas-feiras à tarde. Eu estou me sentindo bem, e poderosa, e estou pensando, Eu tenho que encontrar Lindsay. Ela não vai acreditar. Vai morrer de rir. Então, colocará seus braços ao redor do meu ombro e vai falar, “Você é uma estrela do rock, Samantha Kingston”, e tudo ficará bem. Estou atenta a Anna Cartullo também—já que enquanto eu estava no escritório da Sra. Winters lembrei que nós não tínhamos trocado os sapatos. Eu ainda usava suas monstruosas botas pretas. Saí do edifício principal. O frio faz com que meus olhos ardam e uma dor súbita atinge meu peito. Fevereiro é realmente o pior mês. Há meia dúzia de ônibus alinhados próximos a lanchonete, motores engasgando e tossindo, deixando sair uma grossa e preta parede de fumaça pelo escape. Através das sujas janelas se pode ver os rostos pálidos de um punhado de calouros- Todos se encolhendo em seus assentos, esperando não serem vistos- todos monótonos e intercambiáveis. Começo a cruzar o caminho da escola para o estacionamento dos alunos do último ano, mas quando já estou na metade do caminho vejo um enorme Range Rover prateadosuas janelas vibrando com o som de “No More Drama”—saindo do estacionamento do terreno superior. Eu paro, com essa sensação boa sendo drenada de mim rapidamente e de uma só vez. Claro, eu não esperava que Lindsay estivesse esperando por mim, mas muito no fundo eu acho que esperava. Então, bate-me: Não tenho carro, não tenho para onde ir. O último lugar que quero estar é em casa. Embora, eu esteja congelando, sinto pontadas de calor subindo pelos meus dedos, percorrendo minha espinha. É a coisa mais estranha. Sou popular—realmente popular—mas não tenho tantos amigos. O que é ainda mais estranho é que é a primeira vez que notei. “Sam!” Eu me viro e vejo Tara Flute, Bethany Harps, e Courtney Walker vindo em minha direção. Elas sempre andam em grupo, e mesmo que nós sejamos meio amigas delas, Lindsay as chama de “As Pugs22”: Bonitas de longe e feias de perto.

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Raça de cachorro.

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“O que você está fazendo?” Tara sempre tem um sorriso permanente, como se estivesse constantemente em uma audição de creme dental, e ela vira para mim agora. “Está, tipo, mil graus abaixo de zero.” Jogo meu cabelo sobre um ombro, tentado parecer despreocupada. A última coisa que eu preciso é que as Pugs saibam que eu fiquei parada. “Eu tinha que dizer algo a Lindsay.” Faço gestos vagos para o estacionamento. “Ela e as garotas tiveram quer sair correndo sem mim- tinham alguma coisa do serviço comunitário que fazem uma vez por mês. Chato.” “Tão chato,” diz Bethany, concordando vigorosamente. Pelo que eu sei, o seu único objetivo de vida é concordar com tudo o que for dito. “Vem com a gente.” Tara coloca a mão sobre o meu braço e aperta um pouco. “Nós estamos indo para La Villa fazer compras. E depois estamos pensando em aparecer na festa do Kent. Soa bem?” Analiso brevemente minhas outras opções: Minha casa está obviamente fora. Não serei bem vinda na casa de Ally. Lindsay deixou isso bem claro. Então tinha a casa de Rob... Sentar no sofá enquanto ele joga Guitar Hero, beijar um tempo, fingindo que não noto quando ele quebra mais um sutiã por não conseguir entender o mecanismo do fecho. Conversar um pouco e acenar para seus pais enquanto arrumam o carro para o fim de semana. Pizza e cerveja morna na garagem assim que eles saírem. Então, nos beijamos um pouco mais. Não, obrigado. Olho através do estacionamento uma vez mais, procurando Katie. Sinto-me mal por sair com as botas dela, por outro lado, não é como se ela estivesse fazendo um grande esforço para me encontrar. Além disso, Lindsay sempre disse que um par de sapatos novos pode mudar sua vida. E se eu alguma vez precisei de uma grande mudança de vida - ou mudança após a morte, ou o que seja, é agora. “Soa perfeito,” eu digo. E se for possível, o sorriso de Tara fica ainda maior, seus dentes tão brancos que parecem ossos. Enquanto deixamos a escola, digo as Pugs—não consigo evitar pensar nelas assim—sobre a minha viagem à diretoria e de como a Sra. Winters estava fazendo as porcarias com o Sr. Otto, e como saí sem nenhuma detenção porque prometi que destruiria a foto da uma câmera de celular de umas das seções de amor no escritório de Otto (A qual era mentira, obviamente, de nenhuma forma eu ficaria com evidência de seus encontros, muito menos em alto formato digital). Tara luta para respirar de tanto rir e Courtney me olha como se acabasse de encontrar a cura para o câncer ou como se eu tivesse encontrado uma pílula para desenvolver os seios e Bethany cobre a boca e diz, “Santa Mãe de Deus Cocoa Puffs.” Não tenho certeza do que significa, mas definitivamente é a coisa mais original que a ouvir dizer. Tudo faz eu me sentir bem e segura outra vez e lembro a mim mesma que esse é o meu dia: Eu posso fazer o que eu quiser.

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“Tara.” Me inclino para frente. O carro de Tara é um pequeno Civic de duas portas e Bethany e eu estamos espremidas no banco de trás. “Podemos parar na minha casa um segundo antes de irmos ao shopping?” “Claro.” Ela está com aquele sorriso novamente, refletido no retrovisor como um pedaço do céu. “Você precisa deixar alguma coisa?” “Eu preciso pegar algo,” a corrijo, dando meu maior sorriso. São quase três em ponto, assim suponho que minha mãe já deva ter voltado da Yoga e certamente seu carro está na calçada quando nós chegamos a minha casa. Tara começa a estacionar atrás do Accord, mas toco no ombro dela e faço um gesto para que siga. Ela segue com seu carro pelo caminho até que terminamos ocultas atrás de um grupo de árvores de folhas perenes que minha mãe fez o jardineiro plantar a anos, depois de descobrir que nosso vizinho da época, Sr. Horfely, gostava de dar passeios a meia-noite totalmente nu. Essa é praticamente a resposta para os problemas que você encontra no subúrbio: Plantar uma árvore e não ter que ver as partes íntimas de ninguém. Saio do carro e caminho em torno da casa rezando para que minha mãe não esteja me olhando de uma das janelas da sala ou do estúdio do meu pai. Eu estou apostando no fato de que ela está no banheiro tomando um de seus famosos longos banhos antes de ir pegar Izzy na ginástica. De fato, quando eu coloco minha chave na porta de trás e entro na cozinha, escuto o tamborilar da água no banheiro de cima e umas poucas altas e desafinadas notas: Minha mãe está cantando. Vacilo por uma fração de segundos, o suficiente para reconhecer a melodia—New York, New York de Frank Sinatra—e dou graças aos céus que as Pugs não sejam testemunhas desse pequeno ato da minha mãe. Então, eu na ponta dos pés caminho pela cozinha, onde como de costume, minha mãe já deixou sua enorme bolsa. Está jogada de lado. Várias moedas e um pacote de hortelã para o hálito caíram para máquina de lavar e um pedaço da sua carteira Ralph Lauren está para fora. Tiro a carteira com cuidado, escutando, ao mesmo tempo, o ritmo da água em cima, preparada para parar e correr se o som se detiver. A carteira da minha mãe é também uma bagunça, repleta de fotos—Izzy, eu, Izzy e eu, Pickle usando uma fantasia de Papai Noel— recibos, cartões de visita. E cartões de crédito. Especialmente, cartões de crédito. Tiro o Amex com cuidado. Meus pais só o utilizam para compras grandes, assim não existe perigo que mamãe note sua ausência. As palmas das minhas mãos estão pegajosas com o suor e meu coração bate tão forte que é doloroso. Fecho com cuidado a carteira e a guardo na bolsa, me assegurando de que fique na posição exata que estava antes. Em cima de mim, há uma torrente final de água, um som quando os tubos se fecham e então o silêncio. O tributo a Sinatra da minha mãe se detém. A ducha terminou. Por um segundo, estou tão aterrorizada que não consigo fazer com que meus pés se

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movam. Ela me ouvirá. Ela me pegará. Ela me verá com o cartão Amex na mão. Então, o telefone começa a tocar e escuto seus passos se dirigindo para fora do banheiro, cruzando o corredor, enquanto ela canta: “Já vou, já vou.” Nesse segundo vou embora, saio da cozinha, saindo através da porta de trás e correndo, correndo em torno do lado da casa, a grama coberta, tentando não rir, apertando o frio cartão de plástico Amex tão forte que quando abro a mão mais tarde, vejo que deixou uma marca.

Normalmente, no shopping tenho um limite muito estrito de gastos: duas vezes ao ano meus pais me dão quinhentos dólares para comprar roupas novas e, além disso, posso gastar o que eu juntar como babá de Izzy e fazer as tarefas da casa que meus pais me pedem para fazer, como embalar os presentes de natal para nossos vizinhos, limpar as folhas em novembro ou ajudar meu pai a desobstruir os bueiros. Sei que quinhentos dólares soam como muito, mas você tem que ter em mente que as galochas Burberry de Ally custam quase isso e que ela as usa debaixo de chuva. Nos pés. Por isso nunca gostei tanto de ir às compras. Simplesmente, não é tão divertido, especialmente se você é melhor amiga de Ally cartão-de-crédito-sem-limite Carter e Lindsay meu-padrasto-tenta-comprarmeu-afeto Edgecombe. Hoje, esse problema fica resolvido. Primeira parada é Bebe, onde eu pego um vestido magnífico tomara-que-caia que é tão apertado que eu tenho que aguentar totalmente o ar para poder entrar nele. Ainda assim, Tara tem que entrar no provador e me ajudar a fechar os centímetros que faltam. Na verdade eu gosto de como ficam as botas de Katie com o vestido, sexy e dura, como se eu fosse uma assassina de videogame ou uma heroína de ação. Faço poses de As Panteras por um tempo formando a arma com meus dedos, acenando para meu reflexo e articulando Desculpe. Acionando o gatilho e imaginando uma explosão. Courtney quase morre quando lhe entrego o cartão de crédito sem nem mesmo olhar o total. Não é como se eu não tivesse olhado com o canto do olho. É bastante difícil não ver o $302,10 verde brilhando da caixa registradora, brilhando para mim como se tivesse me acusando de algo. Meu estômago desempenha um Hula-hula quando a vendedora desliza o recibo para que eu assine, mas acho que todos esses anos falsificando notas do médico e passes para chegar tarde valeram à pena, porque lhe dou uma perfeita imitação da assinatura da minha mãe e a vendedora me sorri e diz “Obrigada, Senhora Kingston,” como se eu acabasse de fazer um favor a ela. E dessa forma, saio com o vestido preto mais perfeito do mundo embalado em um suave papel no fundo de uma sacola de compras. Agora compreendo porque Ally e Lindsay adoram sair às compras. É muito melhor quando se pode comprar o que quiser.

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“Você tem tanta sorte por seus pais terem dado a você um cartão de crédito,” diz Courtney, andando atrás de mim enquanto deixamos a loja. “Já implorei para os meus durante anos por um, mas dizem que tenho que esperar até que esteja na universidade.” “Eles não me deram, exatamente.” Eu digo levantando uma sobrancelha. Ela fica boquiaberta. “Não brinca,” Courtney balança a cabeça tão forte que seu cabelo balança de um lado para o outro como uma mancha. “Não pode ser. Você não acaba de... Está dizendo que roubou?” “Shhhh.” O shopping La Villa está supostamente ambientando à moda italiana, assim que tudo é grande, fontes de mármore e caminhos de pedra, todos os sons sendo amplificados e mesclando-se de forma que é impossível entender o que as pessoas dizem ao menos que esteja de pé junto a você, mas ainda assim. Não tem sentido me arriscar agora que estou com sorte. “Prefiro pensar nisso como pedir emprestado, de qualquer maneira.” “Meus pais me estrangulariam.” Os olhos de Courtney estão tão abertos que estou preocupada que seus globos oculares saiam de repente. “Eles me matariam até que estivesse morta.” “Totalmente,” disse Bethany. Vamos à loja MAC depois e eu obtenho uma transformação total de um cara chamado Stanley, que é mais magro que eu, enquanto as Pugs provam diferentes tons de delineadores de olhos e conseguem que gritem com elas por usar o brilho labial sem abrir. Eu compro tudo o que Stanley usa em mim: Base, corretivo, bronzeador em pó, três tons de sombra para os olhos, dois tons de delineador de olhos—um branco para debaixo dos olhos—rímel, delineador de lábios, brilho para lábios, quatro escovas diferentes, um curvex. Vale tanto à pena. Saio parecendo uma modelo famosa e posso sentir que as pessoas me olham fixamente enquanto caminhamos pelo La Villa. Passamos por um grupo de garotos que devem estar na universidade, pelo menos, e um deles múrmura “Quente.” Tara e Courtney estão ao meu lado enquanto Bethany está atrás de mim. Eu penso: É assim que Lindsay deve se sentir todo o tempo. A seguinte é Neiman Marcus: Uma loja que eu nunca vou ao menos que Ally me arraste, já que tudo custa bilhões de dólares. Courtney prova alguns estranhos chapéus de senhora de idade e Bethany faz fotos e ameaça publicá-las na internet. Escolho uma estola verde de pele artificial, mesmo que pareça que eu devia estar em uma festa em um avião privado em algum lugar e um par de brincos vermelho escuro do tipo candelabro. O único problema que ocorre é quando a mulher do caixa... Irma, de acordo com o nome no seu crachá... Pede para ver minha identidade.

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“Minha identidade?” Pestanejo com inocência. “Nunca a levo comigo. No ano passado me roubaram.” Olha para mim durante muito tempo como se fosse me deixar passar, depois faz seu chiclete estourar e me dá um sorriso forçado. “Sinto muito, Ellen. A identificação é necessária para todas as compras acima de duzentos e cinquenta dólares.” “Prefiro Senhora Kingston, na realidade.” Devolvo o sorriso forçado. Cadela. Esse truque de estourar o chiclete? Lindsay inventou isso. Por outro lado, eu também teria sido uma cadela se meus pais tivessem me chamado de Irma. De repente, inspirada, eu procuro na minha bolsa e retiro o cartão do Hilldebrigde de natação e tênis da minha mãe. Juro a você, a segurança de lá é mais restrita do que no aeroporto... Como se a obesidade nos estados unidos fosse um complô terrorista e a seguinte grande coisa fosse encher o país de máquinas elípticas... E o cartão tem uma pequena fotografia minha, um número de identificação de membro, meu primeiro sobrenome e minha iniciais: KINGSTON, S. E. Irma franze o rosto. “O que significa o S?” Minha mente trabalha com dificuldade e logo fica totalmente em branco. “Um... Severus?” Ela me olha fixamente. “Como em Harry Potter?” “É alemão, na realidade.” Nunca deveria ter me oferecido para ler esses estúpidos livros para Izzy. “Você pode ver porque eu passo meu nome do meio.” Irma segue duvidando, mordendo o canto dos lábios. Tara, de pé próxima a mim, passa os dedos sobre o Amex como se alguma linha de crédito fosse ir com ela. Ela se inclina para frente e sorri. “Eu tenho certeza que você entende.” Ela entrecerra os olhos um pouco como se estivesse tentando decifrar a etiqueta do nome a uma distância de seis metros. “É Irma, não é?” Courtney vem atrás de nós, usando um chapéu de aba larga com uma pluma gigante de um lado. “As pessoas sempre chamavam você de Worma quando era pequena? Ou Squirma?” Irma fecha sua boca em uma linha branca, pega meu cartão e o passa.

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“Guten Tag ,” Eu digo quando nós saímos: a única frase em alemão que eu conheço. 23

Tara e companhia ainda estão sorrindo de Irma quando saímos do estacionamento do La Villa. “Não posso acreditar,” segue repetindo Courtney, inclinando-se para olhar para mim, como se eu fosse desaparecer de repente. Dessa vez me deram o assento do copiloto automaticamente. Eu nem sequer tive que pedir. “Não posso acreditar em como isso é estranho.” Permito-me um pequeno sorriso, enquanto viro para a janela e momentaneamente me surpreendo pelo que vejo refletido ali: Olhos escuros enormes, fumaça e sombra, lábios cheios e vermelhos. Então eu me lembro da maquiagem. Por um segundo não me reconheço. “Você é tão impressionante,” diz Tara, depois dar umas palmadinhas no volante quando nos detemos no sinal. “Por favor,” aceno vagamente com as mãos. Sinto-me muito bem. Estou quase contente por Lindsay e eu termos discutido essa manhã. “Oh, merda, de jeito nenhum.” Courtney bate no meu ombro, enquanto um grande Chevrolet Tahoe, vibrando com o baixo, para perto de nós. Apesar de fazer muito frio, as janelas estão abaixadas: São os garotos universitários do La Villa, os que tínhamos visto antes. Os que tinham me olhado antes. Estão brigando por alguma coisa e rindo no carro— um deles grita: “Mike, você é um covarde”—fingindo não ver a gente, do jeito que os caras fazem quando estão morrendo de vontade de olhar. “Eles são tão quentes,” diz Tara, inclinando-se sobre mim para ver melhor, logo se abaixa rapidamente de volta ao volante. “Você deveria pegar o seu número.” “Hello, tem quatro deles.” “Seus números, então.” “Totalmente.” “Vou me exibir para eles,” eu digo. E estou encantada de repente com o perfeito, puro e simples disso: Eu vou fazer. É muito mais fácil e limpo do que Talvez eu devesse ou Não vamos nos meter em problemas? ou Oh Meu Deus, eu não posso. Sim. Três letras. Eu viro para Courtney. “Você aposta comigo?” Seus olhos estão fazendo essa coisa obsessiva outra vez. Tara e Bethany me olham como se tentáculos tivessem saído de mim.

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Bom dia em alemão.

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“Você não vai,” disse Courtney. “Você não pode,” disse Tara. “Eu posso, quero e vou fazer.” Baixo a janela e o frio me acerta, entorpecendo meu corpo inteiro e então me sinto em pedaços, um cotovelo flutuando aqui, uma cocha com câimbra, os dedos formigando. A música que bomba do carro dos garotos é tão forte que meus ouvidos doem, mas não posso escutar nenhuma letra ou melodia, apenas o ritmo, pulsando, pulsando—latejante, tão alto que não é mais um som, apenas vibrações, sentimentos. “Ei!” No começo eu só posso grasnar as palavras para fora, então limpo a garganta e tento novamente. “Ei, garotos!” O motorista vira a cabeça na minha direção. Eu quase não posso me concentrar, por estar tão tensa, mas nesse segundo eu vejo que ele não é tão bonito—ele tem os dentes tortos e um grande diamante falso na orelha, como se fosse um rapper ou algo assim—mas então ele diz “Ei, gracinha” e vejo os seus três amigos se inclinando para a janela para ver, um, dois, três cabeças aparecem como em uma caixa de surpresas, como no jogo Whack-aMole de Dave & Buster’s, um, dois, três, estou levantando minha blusa e há um rugido e um zumbido, um som cantando em meus ouvidos—riso?—Gritos?—e Courtney diz “Vamos, vamos, vamos” – então, os pneus chiam e o carro dá um solavanco para frente, derrapando um pouco, o vento bate no meu rosto e o cheiro de borracha queimada e gasolina flutuam no ar. Meu coração afunda lentamente da minha garganta de volta ao meu peito e o calor e as sensações estão de volta ao meu corpo. Eu subo a janela. Não posso explicar as sensações que me invadem, como uma torrente, quando você ri muito forte ou gira muito tempo em círculos. Não é exatamente felicidade, mas eu a aproveito. “Impagável! Lendário!” Courtney bate na parte de trás do meu assento e Bethany só vira a cabeça para me olhar, com os olhos muito abertos, assombrada, como se eu fosse uma santa e a tivesse curado de uma doença. Tara grita rindo. Ela mal consegue prestar atenção à estrada, seus olhos se movem rapidamente. Ela se engasga. “Você viu a cara deles? Você viu?” E me dou conta de que não vi. Não podia ver nada, não podia sentir outra coisa que não fosse o rugido ao meu redor, pesado e forte e parece-me que não tenho certeza se isso está realmente vivo ou realmente morto, e acho isso engraçado. Courtney me bate outra vez e eu posso ver o seu rosto surgindo no espelho retrovisor, vermelho como um sol, e começo a rir também, e nós quatro rimos no caminho de volta a Ridgeview, uns trinta quilômetros, enquanto o mundo passa como um relâmpago ao nosso lado, como manchas pretas e cinzas, como uma pintura ruim de si mesmo.

Paramos na casa de Tara para nos trocar. Tara me ajuda a colocar meu vestido outra vez e depois colocar a pele nos ombro, o brinco e deixar meu cabelo solto—o qual está ondulado por tê-lo deixado retorcido em um meio-rabo de cavalo durante todo o dia—me

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viro para o espelho e meu coração realmente da cambalhotas no peito. Olho-me pelo menos durante vinte e cinco segundos. Olho-me como alguém mais. Eu fecho os olhos, lembro estar de pé no banheiro quando era pequena esperando o vapor do chuveiro se retirar do espelho, rezando por uma transformação. Lembro do doloroso sabor da decepção cada vez que meu rosto ressurgia, tão feio como sempre. Mas dessa vez, quando abro os olhos, funciona. Lá estou eu: diferente, bonita e sem ser eu mesma. O jantar é por minha conta, claro. Vamos ao Le Jardin du Roi, esse restaurante super luxuoso em que todos os garçons são quentes e franceses. Pedimos a garrafa de vinho mais cara do cardápio e ninguém nos pede nossa identidade, então nós começamos com uma rodada de champanha. Está tão bom que pedimos outra antes que os aperitivos venham. Bethany finge ficar bêbada e flerta com os garçons em um péssimo francês, só porque o ano passado passou o verão em Provença. Pedimos metade do cardápio: Pequenos folhados de queijo que-derretem–na-sua-boca, grandes pedaços de patê que provavelmente tem mais calorias do que se deveria comer em um dia; salada de queijo de cabra e mexilhões em vinho branco; um bife béarnaise; um robalo ainda com sua cabeça presa e crème brûlée; e mousse de chocolate. Acho que é a melhor comida que já provei, como até que mal posso respirar, se eu comer um pouco mais eu realmente vou arrebentar o meu vestido. Logo, enquanto eu estou assinando a conta, um dos garçons (Um dos lindos) nos trás quatro copos em miniatura de licor rosa para a digestão, exceto claro, que ele fala parra a diggest-on. Não me dou conta do quanto eu bebi até que me levanto e o mundo gira selvagemente por um segundo, como se estivesse lutando para encontrar seu equilíbrio, e acho que talvez o mundo esteja bêbado, não eu, e começo a rir. Nós saímos para o ar frio e isso me ajuda a melhorar um pouco. Eu reviso meu telefone e vejo que tenho uma mensagem de Rob. Qual o probl c/ vc? Tinhamos 1 plano essa noit. “Vamos, Sam,” me chama Courtney. Ela e Bethany subiram no assento de trás do Civic. Estão esperando que eu suba no assento do copiloto novamente. “Hora da festa.” Rapidamente escrevo para Rob. Stamos indo. T vejo logo. Então, entro no carro e nós vamos para a festa.

A festa está justamente começando quando nós chegamos, eu vou direto para a cozinha. Já que é cedo e tem poucas pessoas, me dou conta de um monte de detalhes das habitações que não havia visto antes. O lugar está tão cheio de pequenas estatuas de madeira talhada, modernas pinturas a óleo e livros antigos, que poderia ser um museu. A cozinha é muito luminosa e aqui tudo parece forte e independente. Tem dois barris alinhados diretamente em frente a porta e a maioria das pessoas estão reunidas ali.

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Nesse momento, trata-se basicamente de garotos, além de alguns estudantes do segundo ano. Estão amontoados em grupos, agarrando seus copos de plástico como se eles contivessem sua energia vital e seus sorrisos são tão forçados que posso dizer que as suas bochechas estão doendo. “Sam,” Rob me vê e reage tardiamente enquanto vem até mim. Então, me coloca de costas para a parede, apoiando uma mão em cada lado da minha cabeça, de forma que fico presa. “Eu achava que você não iria aparecer.” “Eu disse a você que estava vindo.” Coloco as mãos em seu peito, sentindo seu coração saltando embaixo dos meus dedos. Isso me entristece por alguma razão. “Você recebeu minha mensagem?” Ele dá de ombros. “Você esteve agindo de uma forma estranha durante todo o dia. Eu pensei que talvez você não tivesse gostado da minha rosa.” Amo vc. Tinha esquecido isso; esquecido como isso me chateou. Nada disso importa agora. São só palavras, de qualquer forma. “A rosa estava ótima.” Rob sorri e coloca a mão na minha cabeça como se eu fosse um animal de estimação. “Você está sexy, gata,” diz. “Você quer uma cerveja?” Assinto. O vinho que eu tomei no restaurante já está se esvanecendo. Sinto-me muito sóbria, muito consciente do meu corpo, com meus braços pendurados como um peso morto. Rob começa a girar e logo se detém, olhando fixamente meus sapatos. Ele me olha, meio divertido, meio confuso. “O que é isso?” aponta para as botas de Anna. “Sapatos.” Mexo um dos dedos do meu pé e o couro nem sequer cede. Isso faz eu me sentir bem por alguma razão. “Você gosta?” Rob faz uma careta. “Parecem botas do exército ou algo do tipo.” “Bom, eu gosto.” Ele nega com a cabeça. “Não parecem com você, babe.” Penso em todas as coisas que fiz hoje e poderiam deixar Rob escandalizado: Faltar todas as aulas, beijar o Sr. Daimler, fumar erva com Anna Cartullo, roubar o cartão de crédito da minha mãe. Coisas que não são como eu. Nem sequer tenho certeza do que isso significa; não tenho certeza de como se sabe. Mentalmente, tento resumir as coisas que tenho feito na minha vida, mas nenhuma imagem clara emerge, nada que diga que tipo de pessoa eu sou, apenas coisas vagas e limites borrados, lembranças indistinguíveis de sorrisos e de estar dirigindo. Sinto como se estivesse tentando tirar uma fotografia no sol: Todas as pessoas em minhas recordações estão se tornando inexpressivos e intercambiáveis. “Você não sabe nada sobre mim,” eu digo. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Ele dá um meio sorriso. “Sei que você fica linda quando está zangada.” Aperta um dedo entre meus olhos. “Não franza tanto o cenho, suas rugas aparecem.” “E sobre a cerveja?” digo, agradecida quando Rob se vira. Eu estava esperançosa que vê-lo me relaxaria, mas em vez disso, eu estou me alterando. Quando Rob volta com minha cerveja, eu pego meu copo e subo as escadas. No alto, quase me choco com Kent. Ele dá um rápido passo para trás quando me vê. “Desculpa,” dizemos ao mesmo tempo e posso sentir que estou enrubescendo. “Você veio,” diz ele. Os seus olhos estão mais verdes que nunca. Há uma expressão estranha em seu rosto, sua boca está torcida como se estivesse mascando alguma coisa amarga. “Parece ser o lugar em que tem que estar.” Olho para longe, desejando que ele parasse de me olhar fixamente. De alguma forma, eu sei que ele vai falar algo desagradável. Vai dizer que pode ver através de mim novamente. E sinto essa louca vontade de perguntar o que ele vê, como se ele pudesse me ajudar a me entender. Mas estou assustada com a sua resposta. Ele olha para os seus pés. “Sam, Eu quero dizer...” “Não faça nada.” Levanto uma mão. Logo me dou conta: ele sabe o que aconteceu com o Sr. Daimler. Ele pode dizer. Eu sei que estou começando a ser paranoica, mas a certeza é tão forte que faz a minha cabeça girar e tenho que esticar minha mão e me agarrar ao corrimão. “Se isso é sobre o que aconteceu na aula de matemática, eu não quero ouvir.” Ele me olha novamente, com a boca franzida em uma linha. “O que aconteceu?” “Nada.” Mais uma vez eu sinto o peso do Sr. Daimler sobre mim, o calor de sua boca colada sobre a minha. “Isso não é problema seu.” “Daimler é um idiota, sabe. Você deveria ficar longe dele.” Ele olha para mim de lado. “Você é boa demais pra isso.” Penso na nota que navegou até a minha carteira antes. Sabia que era dele. O pensamento de Kent Mcfuller sentido pena de mim, me menosprezando, fez com que algo se rompesse dentro de mim. Minhas palavras saem rapidamente. “Não tenho que explicar nada para você. Nem sequer somos amigos. Nós somos... somos nada.” Kent dá um passo para trás. Deixa sair um som que é meio um bufo meio um sorriso. “Você é inacreditável, sabe?” ele nega com a cabeça, parecendo chateado ou triste,

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ou talvez ambos. “Talvez todos tenham razão sobre você. Talvez você não seja mais que uma superficial...” se detém. “O que? Uma o quê superficial?” sinto que tenho vontade de esbofeteá-lo para que ele me olhe no rosto, mas ele mantém seus olhos fixos na parede. “Uma cadela superficial, não é? Isso é o que você pensa?” Seus olhos se voltam para mim, claros, pesados e duros, como uma rocha. Agora desejo que ele não tivesse olhado por nada. “Talvez. Talvez seja como você disse. Nós não somos amigos. Nós não somos nada.” “Sim? Bem, ao menos eu não tenho que caminhar por ai fingindo que sou melhor do que os outros.” Explodo fora de mim antes que eu possa parar. “Você não é perfeito, sabe. Tenho certeza que você já fez coisas ruins. Tenho certeza que você faz.” No entanto, tão logo quando eu falo, tenho a sensação que isso não é verdade. Sei disso de alguma forma. Kent Mcfuller não faz coisas ruins. Ao menos, não faz coisas ruins a outras pessoas. Agora Kent sorri. “Eu sou o que pretende ser melhor do que os outros?” entrecerra os olhos. “Isso é muito engraçado, Sam. Alguém já disse o quanto você é engraçada?” ”Eu não estou brincando.” Minhas mãos estão em punho sobre as minhas coxas. Não sei por que estou tão zangada com ele, mas eu podia sacudi-lo ou chorar. Ele sabe sobre o Sr. Daimler. Sabe sobre mim e me odeia por isso. “Você não deveria fazer as pessoas se sentirem mal, só porque não são, assim, perfeitos ou que for.” Ele fica boquiaberto. “Eu nunca disse...” “Não é minha culpa que eu não seja como você, ok? Não me levanto pela manhã achando que o mundo é um lugar enorme, feliz e brilhante, ok? Não é assim que eu funciono. E não acredito que eu possa ser consertada.” Eu quis dizer que, Eu não acredito que isso possa ser consertado, mas saiu mal, e de repente estou à beira do choro. Tenho que tomar várias porções de ar para evitar que as lágrimas caiam. Viro-me para que Kent não me veja. Há um momento de silêncio que parece durar para sempre. Logo Kent descansa sua mão no meu cotovelo apenas por um segundo, seu toque é como as asas de algo me roçando. Só esse pequeno toque me dá arrepio. “Eu ia dizer para você que você fica linda de cabelo solto.” A voz de Kent é tranquila e baixa. Move-se ao meu redor e se dirige a escada, parando no alto. Quando ele vira para me ver, parece triste, mesmo que esteja sorrindo um pouco. “Você não precisa ser consertada, Sam.” Ele diz as palavras, mas é como se eu não as escutasse; é como se estivessem passando através do meu corpo, como se eu tivesse absorvendo elas do ar. Ele deve saber que não é verdade. Abro minha boca para dizer isso, mas ele já está desaparecendo escada abaixo, fundindo-se com o mar de pessoas que fluem

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para o interior da casa. Sou uma não-pessoa, uma sombra, um fantasma. Inclusive antes do acidente, não tenho certeza de que fui uma pessoa completa, isso é o que estou me dando conta agora. E não tenho certeza de onde os danos começam. Bebo um grande gole de cerveja, desejando apenas cair inconsciente. Quero que o mundo desapareça. Bebo outro grande gole. A cerveja está gelada, pelo menos, mas tem gosto de água mofada. “Sam!” Tara está subindo as escadas, seu sorriso é como um feixe de uma lanterna. “Nós estávamos procurando você.” Quando ela chega ao alto, ofega um pouco, colocando sua mão direita no estômago e dobrando-se sobre ele. Na sua mão esquerda, ela está segurando um cigarro, meio fumado. “Courtney fez um reconhecimento. Encontrou as coisas boas.” “As coisas boas?” “Uísque, Vodka, gin, cassis, the works. Bebidas alcoólicas. As coisas boas.” Ela pega a minha mão e descemos as escadas, que estão sendo lentamente obstruídas pelas pessoas. Todos estão se movimentando na mesma direção: desde a entrada com a cerveja e logo escada acima. Na cozinha empurramos um coágulo de pessoas amontoadas em torno do barril. No lado oposto a cozinha, tem uma porta com uma placa escrita à mão. Reconheço a letra de Kent. Diz: POR FAVOR, NÃO PASSAR. Tem uma nota no final da página escrita com letras pequenas ao longo do rodapé: “SÉRIO, PESOAL, EU ESTOU DANDO A FESTA E É A ÚNICA COISA QUE EU PEÇO. OLHEM! TEM UM BARRIL ATRÁS DE VOCÊS!” “Talvez nós não devêssemos...” começo a dizer, mas Tara já está passando pela porta, então a sigo. Está escuro do outro lado da porta, e frio. A única luz vem de uma enorme janela que têm vista para o quintal. Escuto sorrisos de algum lugar no fundo da casa, logo o som de alguém batendo em alguma coisa. “Toma cuidado,” alguém sussurra e escuto Courtney dizer “Você tenta servir no escuro.” “Por aqui,” sussurra Tara. É estranho como a voz da gente se torna mais suave na escuridão. Como se nós não pudessem evitar. Estamos em uma sala de jantar. Tem um candelabro pendurado no alto como se fosse uma flor exótica e pesadas cortinas em cada lado das janelas. Tara e eu rodeamos a mesa da sala de jantar—minha mãe poderia ter um infarto de emoção, deve ter lugar para pelo menos doze pessoas—e saímos em um tipo de vão. Aqui é onde está o bar. Atrás do

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vão, tem outra peça escura. Pergunto-me quantas habitações tem. A casa parece se estender até o infinito. Está mais escuro aqui, mas Bethany e Courtney estão fuçando nos móveis. “Deve ter umas cinquenta garrafas aqui,” diz Courtney. Está muito escuro para ver os rótulos, então ela abre cada garrafa e cheira para saber o conteúdo. “Isso é rum, eu acho.” “Que casa mais estranha, hein?” diz Bethany. “Eu não acho,” digo rapidamente, eu não tenho certeza do porque eu estou na defensiva. Aposto que é bonita durante o dia. Habitação depois de habitação com luz. Aposto que a casa de Kent está sempre tranquila ou que sempre tem música clássica tocando ou algo assim. O vidro quebra perto de mim e algo molhado espirra na minha perna. Salto quando Courtney sussurra “O que você fez?” “Não fui eu.” eu digo ao mesmo tempo em que Tara diz “Não foi minha intenção.” “Foi um vaso?” “Eca. Algo disso entrou no meu sapato.” “Vamos só pegar uma garrafa e sair daqui.” Voltamos para a cozinha justamente quando RJ Ravner grita: “Fogo no buraco!” Matt Dorfman pega um copo de cerveja e começa a apertá-lo se preparando para beber só de uma vez. Todos sorriem e Abby McGail aplaude quando ele acaba. Alguém sobe a música e Jay-Z soa e todos começam a cantar junto com ele. All MCs in the house tonight, if your lyrics sound tight then rock the mic…. Eu ouço risos estridentes. Logo uma voz no corredor da frente: “Deus, acho que chegamos na hora certa.” Meu estômago salta até minha garganta. Lindsay está aqui.

há certas coisas que nunca se diz Aqui está um grande segredo de Lindsay: Quando ela voltou da visita ao seu irmão adotivo na UNY (Universidade de Nova York) quando estávamos no primeiro grau, ela esteve terrível durante dias, falando bruscamente com todos, tirando sarro de Ally por ter estranhas questões alimentares, zombando de Elody por ser exuberante e covarde, zombando de mim por ser a última a fazer as coisas, desde as tendências da moda até chegar à última base. (o que eu não fiz até chegar ao final do segundo ano). Elody, Ally e eu sabíamos que algo deveria ter acontecido em nova York, mas Lindsay não nos dizia

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quando perguntávamos e nós não pressionávamos. Não se pode forçar as coisas com Lindsay. Então, uma noite quando estávamos para terminar o ano escolar, estávamos no Rasalita’s—um restaurante mexicano fajuto no final da cidade que não pede identidade— bebemos margaritas e esperamos até nosso jantar chegar. Lindsay não estava realmente comendo, não havia comido na realidade desde que voltou de Nova York. Ela não tocou nas batatas fritas grátis, dizendo que não tinha fome, em vez disso ficou colocando os dedos no sal que rodeava seu copo de margarita e comendo os cristais de sal, um por um. Não lembro sobre o que estávamos falando, mas de repente Lindsay falou impulsivamente “Fiz sexo.” Desse jeito. Todas nós a olhamos em silêncio e ela se inclinou e nos contou em um arroubo sem fôlego sobre como tinha estado bêbada e como—por que o seu meio-irmão não queria deixar a festa—o garoto (o sem nome) se ofereceu para acompanhá-la de volta ao dormitório que ela estava ficando com o meio-irmão. Eles tiveram sexo na longa cama do seu meio-irmão, com Lindsay adormecendo e acordando, e o garoto (o sem nome) tinha indo embora antes mesmo de que o irmão de Lindsay voltasse da festa. “Foram só três minutos,” disse ela no final e eu sabia que já estava arquivado como Coisas das que nunca mais vamos falar, colocando-o em algum canto distante de sua mente e construindo uma história alternativa no lugar dessa, histórias melhores: Fui a Nova York e tive um grande momento. Definitivamente vou me mudar para lá algum dia. Beijei um garoto e ele queria voltar para casa comigo, mas eu não permiti. Justo depois, nossa comida chegou. Lindsay estava tremendamente aliviada depois de nos contar—embora ela nos fez jurar pela nossa vida que manteríamos isso em absoluto segredo—e seu humor mudou instantaneamente. Ela mandou de volta a salada que tinha encomendado (Como, quero esquecer essa porcaria de coelho) e pediu quesadilla de queijo e cogumelo, burritos de carne de porco com recheio de creme azedo extra e guacamole, uma rodada de chimichangas para compartilhar e outra rodada de margaritas. Foi como se um grande peso tivesse sido levantado e tivemos o melhor jantar em anos, todas nós estávamos empanturradas, inclusive Ally, bebemos uma margarita depois da outra de diferentes sabores—manga, framboesa e laranja—e nós riamos tanto que pelo menos uma mesa pediu para ser mudada para outro lugar no restaurante. Nem sequer me lembro do que nós estávamos falando, mas em certo ponto, Ally tirou uma foto de Elody usando uma tortilla na cabeça e segurando uma garrafa de molho picante. No canto da moldura, você pode ver um terço do perfil de Lindsay. Ela está dobrada, rachando-se de tanto rir, seu rosto estava roxo brilhante. Sua mão estava agarrando o seu estômago. Depois do jantar, Lindsay esgotou o cartão de crédito de sua mãe para pagar tudo. Ela só deveria usá-lo para emergência, mas se inclinou sobre a mesa e fez nós todas darnos as mãos como se estivéssemos rezando. “Isto, minha amigas, era um emergência,” ela disse e todos nós rimos, pois ela estava sendo melodramática como sempre. O plano era irmos embora para uma festa no jardim botânico: Uma tradição no primeiro fim de Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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semana quente do ano. Tínhamos toda a noite pela frente. Todas estávamos de bom humor. Lindsay estava sendo normal de novo. Lindsay foi ao banheiro para retocar a maquiagem e cinco minutos depois que ela deixou a mesa, todas as margaritas e sorrisos me golpearam de uma vez: Nunca tinha tido tanta vontade de fazer xixi. Corri para o banheiro, ainda rindo, enquanto Elody e Ally me jogavam batatas fritas comidas e guardanapos amassados e gritavam “Envia um postal das cataratas do Nicarágua” e “Se é amarelo, mantém maduro” por isso outras mesas pediram para serem transferidas. O banheiro era para uma só pessoa, me reclinei sobre a porta e chamei Lindsay para que me deixasse entrar, sacudindo a maçaneta ao mesmo tempo. Eu acho que ela estava com pressa para entrar, porque ela não fechou a porta corretamente e a porta abriu quando estive inclinada sobre ela. Cai dentro do banheiro ainda rindo, esperando encontrar Lindsay na frente do espelho com os lábios franzidos aplicando duas camadas do seu brilho labial MAC Vixen. No lugar disso, estava ajoelhada diante do vaso e os restos de quesadilla e burrito de carne de porco estavam flutuando na superfície da água. Ela deu descarga, mas não rápido o suficiente. Vi dois pedaços inteiros de tomate no redemoinho do vaso. Todo o sorriso me deixou instantaneamente. “O que você está fazendo?” Perguntei, embora fosse óbvio. “Fecha a porta,” sussurrou ela. Eu fechei rapidamente. O barulho do restaurante cessou, deixando o silêncio. Lindsay se levantou lentamente. “Bem?” disse ela, como se estivesse preparando seus argumentos, como esperasse que eu a acusasse de algo. “Eu tinha que fazer xixi,” eu disse. É tão bobo, mas eu não conseguir pensar em nada mais. Tinha um pequeno pedaço de comida agarrado a uma mecha de seu cabelo e ao vê-lo me deu vontade de estourar em lágrimas. Ela era Lindsay Edgecombe: ela era nossa armadura. “Faz xixi, então,” disse parecendo aliviada, embora achei ver um lampejo de algo mais, talvez tristeza. Eu fiz. Fiz xixi enquanto Lindsay se inclinava na pia colocando as mãos em concha e bebia goles de água delas, agitando e fazendo gargarejo. Isso é engraçado: Você acredita que quando alguma coisa incrível acontece, todo o resto para, como se você se esquecesse de ir ao banheiro, comer e sentir sede, mas não é realmente verdade. É como se você e seu corpo fossem duas coisas separadas, como se seu corpo estivesse te traindo, te agitando, idiota e animal, almejando água e sanduíche e o banheiro se rompe enquanto tudo desmorona.

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Observei Lindsay tirar um Listerine e colocar em sua boca, fazendo caretas ligeiramente. Então, ela foi trabalhar na sua maquiagem, retocando seu rímel e reaplicando seu brilho nos lábios. O banheiro era pequeno, mas ela parecia está muito longe. Finalmente disse: “Não é um hábito nem nada, só acho que comi muito rápido.” “Certo,” e até agora nunca soube se ela estava dizendo a verdade. “Não diga nada a Ally ou Elody, certo? Não quero que elas se preocupem com nada.” “Obviamente,” eu disse. Ela fez uma pausa, pressionou os lábios, franziu para o espelho e se virou para mim. “Vocês são minha família. Sabe disso, não é?” Ela disse isso de uma forma tão casual, como se estivesse elogiando meus jeans, mas eu sabia que era uma das coisas mais sinceras que já tinha me dito alguma vez. Eu sabia que ela queria dizer aquilo. Fomos à festa no jardim botânico como estava planejado. Elody e Ally se divertiram muito, mas eu tive uma dor no estômago, tive que me dobrar sobre o capô do carro de Ally. Não sei se foi a comida ou outra coisa, mas eu sentia como se estivessem arranhando um caminho pelo meu estômago. Lindsay teve uma noite ótima: Essa noite beijou Patrick pela primeira vez. Quatro meses depois, ao final do verão, fizeram sexo. Quando ela nos contou sobre perder a virgindade com seu namorado—as velas, o manto no piso, as flores e tudo o mais—e o maravilhoso que foi sua primeira vez tão romântica, nenhuma de nós sequer piscou. Todas nos apressamos e a felicitamos, pedimos detalhes e lhe dissemos que estávamos com ciúmes. Fizemos isso por Lindsay, para fazê-la feliz. Ela faria por nós. Isso é sobre melhores amigos. Isso é o que eles fazem. Eles te afastam de cair da borda.

onde começa Lindsay, Elody, e Ally devem ir direto para o andar de cima assim que elas chegam—considerando que elas estavam embalando a própria vodka, isso é quase certo— porque eu não as vejo novamente em uma hora ou mais. Eu tinha tomado três doses de rum e isso me atingiu de uma só vez: a sala era um mundo giratório, um borrão de cores e sons. Courtney tinha acabado de secar a garrafa de rum, então eu pego uma cerveja. Eu tenho que concentrar em cada passo, e quando eu chego ao barril eu fico lá por um segundo, esquecendo o que eu vim fazer.

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“Cerveja?” Matt Dorfman enche um copo e o segura para mim. “Cerveja,” eu digo, grata que a palavra tenha saído tão clara, grata que eu tenha lembrado que era isso o que eu queria. Eu subo. Registro as coisas em lampejos curtos, um rolo de filme que foi picado: a sensação do corrimão de madeira bruta; Emma McElroy inclinando contra uma parede, sua boca aberta e ofegando—rindo, talvez?—como um peixe no anzol; luzes de Natal piscando, luzes turvas. Eu não tenho certeza de onde eu estou indo ou de quem eu estou procurando, mas de repente lá está Lindsay do outro lado da sala e eu percebo que eu fiz todo o caminho para os fundos da casa, ao fumódromo. Lindsay e eu nos encaramos por um segundo e eu espero que ela sorria para mim, mas ela desvia o olhar. Ally está próxima a ela. Ela se inclina para frente e sussurra algo para Lindsay, então vem até mim. “Oi, Sam.” “Você teve que pedir permissão para falar comigo?” Essas palavras não saem tão claramente. “Não seja uma vadia.” Ally vira os olhos. “Lindsay está realmente chateada com o que você disse.” “Elody está brava?” Elody está no canto com Steve Dough, balançando contra ele enquanto ele conversa com Liz Hummer, como se ela não estivesse lá. Eu quero ir até lá e abraçá-la. Ally hesita, olha para mim através da sua franja. “Ela não está brava. Você conhece Elody.” Eu posso dizer que Ally está mentindo, mas eu estou muito bêbada para descobrir. “Você não me ligou hoje.” Eu me odeio por ter dito isso. Me faz sentir como uma excluída novamente, como alguém tentando entrar no grupo. Faz apenas um dia, mas eu sinto falta delas: minhas únicas amigas verdadeiras. Ally toma um gole da vodka que ela está segurando, e então estremece. “Lindsay estava surtando. Eu te disse, ela estava realmente chateada.” “Mas é verdade, não é? O que eu disse.” “Não importa se isso é verdade.” Ally chacoalha a cabeça para mim. “Ela é a Lindsay. Ela é nossa. Nós somos umas das outras, sabe?” Eu nunca realmente pensei em Ally como esperta, mas essa é provavelmente a coisa mais inteligente que eu já ouvi em muito tempo. “Você deveria dizer que está arrependida,” Ally diz.

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“Mas eu não estou arrependida.” Eu definitivamente estava me embolando agora. Minha língua está grossa e pesada em minha boca, eu não consigo fazer o que eu quero fazer. Eu quero contar tudo a Ally—sobre Sr. Daimler e Anna Cartullo e Sra. Winters e as Pugs—mas eu não consigo nem pensar nas palavras. “Só diga, Sam.” O olhar de Ally começa a vagar pela festa. De repente ela dá um passo rápido para trás. Sua boca se afrouxa e ela leva uma mão até ela. “Oh meu Deus,” ela diz, olhando por cima do meu ombro. Sua boca estava se curvando em um sorriso. “Eu não acredito nisso.” A sensação é de como se o tempo tivesse congelado enquanto eu me viro. Eu li uma vez que na borda de um buraco negro, o tempo para completamente, então se você já navegou nele, você acabará preso lá na extremidade para sempre, para sempre sendo dilacerada, para sempre morrendo. Essa é a sensação naquele segundo. A multidão de pessoas circulou a minha volta, uma extremidade sem fim, mais e mais pessoas. E lá estava ela parada na porta de entrada. Juliet Sykes. Juliet Sykes—que ontem estourou seus miolos com o revólver de seus pais. O cabelo dela está preso em um rabo-de-cavalo e eu não consigo me segurar; eu o imagino amarrado e com sangue coagulado, um grande buraco diretamente sob seu pequeno maço de cabelos. Eu fico apavorada com ela: um fantasma na porta, o tipo de coisa sobre o que você tem pesadelos quando é uma criança, o tipo de coisa sobre a qual eles fazem filmes de terror. Uma frase de um programa de notícia que eu tive que assistir sobre os condenados no corredor da morte pela minha ética e questões eletivas surge: morto-vivo. Eu pensei que era ridículo quando eu ouvi isso pela primeira vez, mas agora eu realmente entendi. Juliet Sykes é uma morta-viva. Eu acho que eu sou um também, de certa forma. “Não,” eu digo, sem a intenção de dizer isso em voz alta. Eu dou um passo para trás, e Harlowe Rosen guincha e diz, “Esse é meu pé.” “Eu não acredito nisso,” Ally diz outra vez, mas soou muito distante. Ela já está se afastando de mim e chamando Lindsay sobre a música. “Lindsay, você viu quem é?” Juliet balança na porta. Ela parecia calma, mas suas mãos estão curvadas em punhos. Eu me jogo para frente, mas todo mundo escolhe esse momento para se espremerem ainda mais ao meu redor. Eu não consigo vê-la novamente. Eu não quero ver o que acontecerá depois. Eu não estou muito firme em meus pés, e eu continuo indo para frente e para trás, me lançando entre as pessoas como um pinball, tentando desesperadamente sair da sala. Eu sei que estou pisando nas pessoas e enfiando cotovelos em suas costas, mas não me importo. Eu preciso sair.

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Finalmente eu atravesso o bolo de pessoas. Juliet está bloqueando a entrada. Ela não está nem olhando para mim. Ela está parada, imóvel como uma estátua, seus olhos travados a alguma distância do meu ombro. Ela está olhando para Lindsay. Então eu entendo que é a Lindsay que ela realmente quer—é a Lindsay que ela mais odeia—mas isso não me faz sentir melhor. Assim que eu estou quase passando por ela, um tremor percorreu o seu corpo e ela travou o olhar me mim. “Espere,” ela diz para mim, e coloca uma mão no meu pulso. Está fria como gelo. “Não.” Eu me afasto dela e sigo em frente, tropeçando, quase engasgando de medo. Imagens confusas de Juliet ficaram piscando em minha mente: Juliet curvada, mãos abertas, encharcadas em cerveja e tropeçando; Juliet estirada em um chão gelado, numa poça de sangue. Eu não estou pensando claramente, na minha cabeça as duas imagens se fundem e eu a vejo perambulando pela sala, enquanto todos riem, seu cabelo ensopado, pingando, encharcado de sangue. Estou tão distraída que eu não vejo Rob na entrada, até que eu corro direto nele. “Ei.” Rob está bêbado agora. Ele tem um cigarro não aceso pendurado em seus lábios. “Ei, você.” “Rob...” Eu me pressiono contra ele. O mundo está girando. “Vamos sair daqui, ok? Vamos até sua casa. Eu estou pronta agora, só você e eu.” “Uou, vaqueira.” Metade da boca de Rob foi lentamente para cima, mas a outra metade não conseguiu acompanhá-la. “Depois do cigarro.” Ele começa a ir em direção aos fundos da casa. “E então nós vamos.” “Não!” Eu quase grito. Ele se vira para mim, cambaleando, e antes que ele possa reagir, eu já arranco o cigarro de sua boca e o beijo, minha mãos em concha em cada lado do seu rosto, empurrando meu corpo no dele. Leva um segundo para ele compreender o que está acontecendo, mas então ele começa a me apalpar sobre o meu vestido, deslizando sua língua em círculos, gemendo um pouco. Nós dois estávamos cambaleando para frente e para trás na entrada, como se estivéssemos dançando. Eu senti o chão curvar e girar, Rob acidentalmente me empurrou contra a parede e eu arfei. “Desculpa, babe.” Seus olhos cruzaram, descruzaram. “Precisamos de um quarto.” Dos fundos da casa eu posso ouvir a cantoria começando. Psicopata, Psicopata. “Precisamos de um quarto agora.”

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Eu pego a mão de Rob e nós tropeçamos na entrada, forçando nossa passagem contra a maré de pessoas que estavam se movendo em outra direção. Eles estavam indo ver sobre o que era o barulho. “Aqui.” Rob se lança o mais forte que pode contra a primeira porta fechada que ele encontra, a única cheia de adesivos de carros. Ouve-se um estalo e nós dois tombamos para dentro. Eu o beijo novamente e tento me perder na sensação de proximidade de nossos corpos e no calor dele, tento bloquear o aumento de uivos de risos da sala dos fundos. Eu finjo que sou só um corpo com a mente difusa e em branco, como uma TV cheia de neve. Eu tento me encolher, me concentrar em minha pele, como se a única sensação que existe estivesse nos dedos de Rob. Uma vez que a porta se fecha, fica escuro como o breu. A escuridão a nossa volta não cessa—e ainda não há janelas aqui ou elas estão com as cortinas fechadas. Está tão escuro que é quase pesado para olhar, e eu tenho um súbito medo de estarmos presos em uma caixa. Rob está cambaleando muito em seus pés nesse momento, seus braços se fecham em volta de mim, me deixando tonta. Eu fico nauseada, e o empurro para trás até encontrarmos algo macio: uma cama. Ele tombou e eu subi em cima dele. “Espera,” ele murmura. “Não é isso o que você queria?” Eu sussurro. Mesmo agora eu consigo ouvir os sons de riso e os gritos—Psicopata, Psicopata—sobressaindo da música. Eu beijo Rob mais forte e ele luta com o zíper do meu vestido. Eu escuto o tecido rasgando, mas não me importo. Deslizo o vestido até minha cintura, e Rob começa seu ataque em meu sutiã. “Tem certeza disso?” Rob balbucia em minha orelha. “Só me beije.” Psicopata, Psicopata. As vozes estão ecoando pelo corredor. Eu deslizo minhas mãos sob a blusa de lã da Rob, tirando-a pela cabeça, então começo beijando seu pescoço e debaixo do colarinho da sua camisa polo. A pele dele tinha gosto de suor, sal e cigarros, mas eu continuo beijando enquanto suas mãos se movem em direção a minha bunda. Uma imagem do Sr. Daimler em cima de mim—e o teto manchado—surgem da escuridão, mas eu os afasto. Eu tiro a camisa do Rob, então agora estamos prensados peito a peito. Nossa pele continua fazendo esses estranhos, barulhentos sons de sucção como se nossos estômagos se juntassem e então se distanciassem. Em certo momento, as mãos dele somem. Eu continuo o beijando, me movendo em seu peito, sentindo os pelos espalhados lá. Sempre achei repugnante peito cabeludo; é outra coisa que eu não vou pensar essa noite. Rob fica quieto. Ela provavelmente está chocado. Eu nunca fiz tudo isso com ele antes. Normalmente quando nós saímos, é ele quem tem iniciativa. Eu sempre tive medo de fazer algo errado. É tão embaraçoso agir como se você soubesse o que está fazendo. Eu nunca nem mesmo fiquei totalmente nua com ele.

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“Rob?” Eu sussurro, e ele geme baixinho. Meus braços estão tremendo de ter segurado meu peso por tanto tempo, então eu me levanto. “Você quer que eu tire meu vestido?” Silêncio. Meu coração está batendo rápido, e embora o quarto esteja frio, o suor está fazendo cócegas nas minhas axilas. “Rob?” Eu repito. De repente ele solta um enorme ronco e se vira. Os roncos continuam, em longas ondas. Por um momento eu apenas fico lá e escuto. Quando Rob ronca, isso sempre me lembra de quando eu era pequena e costumava sentar em frente à varanda e assistir meu pai fazer círculos estreitos na parte traseira do seu cortador Sears de seis anos de idade, que rosna tanto que eu tenho que cobrir minhas orelhas. Embora eu nunca entrasse. Eu amava assistir os pequenos e pouco nítidos rastros de grama que meu pai deixava, as centenas de minúsculas lâminas de grama girando pelo ar como bailarinas. Está tão escuro no quarto que leva uma eternidade até eu encontrar meu sutiã e a estúpida coisa da pele; eu tenho que tatear sobre minhas mãos e joelhos por eles. Eu não estou chateada. Eu não estou sentindo nada, nem estou realmente pensando, apenas analisando as coisas que eu tenho que fazer. Achar o sutiã. Puxar o vestido para cima. Sair pela porta. Eu deslizo pelo corredor. A música está bombando em um volume normal, e as pessoas estão fluindo para dentro e para fora da sala dos fundos. Juliet Sykes se foi.

Um casal me olha estranho. Eu tenho certeza que estou uma bagunça, mas eu não tenho energia para me importar. É incrível como eu estou me segurando, na verdade, e embora meu cérebro esteja nebuloso, e penso muito claramente: é incrível como eu estou me segurando. Eu penso, Lindsay ficaria orgulhosa. “Seu vestido não está fechado.” Carly Jablonski ri de mim. Atrás ela alguém diz, “O que você estava fazendo lá?” Eu os ignoro. Eu continuo me movendo—flutuando, realmente, sem saber muito bem onde estou indo—descendo as escadas e indo para a varanda e, quando o frio me atinge como um soco, volto a casa e vou até a cozinha. De repente a ideia da casa quieta, escura, situada pacificamente além do aviso NÃO ENTRE, cheia de praças enluaradas, e os silenciosos tique-taques dos relógios antigos, me parece atraente. Então eu vou por esse caminho, além da porta, através a sala de jantar, através do quarto onde Tara derrubou o vaso, minhas botas triturando os vidros, até a sala de estar. Uma parede está quase inteira de janelas. Ela fica em frente ao gramado. Lá fora, a noite parece fosca e prateada, todas as árvores envoltas em um manto de gelo, como se Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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elas tivessem sido construídas em gesso. Eu começo a imaginar se tudo nesse mundo, o mundo no qual eu estou presa, é apenas uma réplica, uma imitação barata da coisa real. Então eu sento no carpete—exatamente no centro da perfeita praça ao luar—e começo a chorar. O primeiro soluço foi quase um grito. Eu não sei há quanto tempo estou lá—pelo menos quinze minutes, uma vez que eu consigo muito bem colocar tudo para fora. No processo, eu me meleco toda e arruíno completamente minha pele com rímel e sujeira no rosto. Mas em certo momento, eu fico consciente de que há mais alguém no quarto. Fico muito parada. Partes do quarto estão perdidas na escuridão, mas eu posso sentir algo movendo nos cantos. Um tênis xadrez cintila dentro e fora vista. “Há quanto tempo você está parado aí?” Eu pergunto, limpando meu nariz no meu braço pela quadragésima vez. “Não muito tempo.” A voz do Kent estava muito calma. Eu posso dizer que ele está mentindo, mas eu não me importo. Na verdade, isso faz me sentir melhor, saber que eu não estava sozinha esse tempo todo. “Você está bem?” Ele anda alguns passos pelo quarto, então a luz da lua o atinge, o deixando prateado. “Eu quero dizer, obviamente você não está bem, mas eu só queria saber se, você sabe, existe qualquer coisa que eu possa fazer ou alguma coisa que você queira falar ou—” “Kent?” Eu o interrompo. Ele sempre teve o hábito de ir pela tangente, mesmo quando éramos pequenos. Ele para. “Sim?” “Você—eu poderia talvez ter um copo de água?” “Sim. Só um segundo.” Ele parece aliviado por fazer algo, e eu ouço o barulho dos seus sapatos no carpete. Ele está de volta em menos de um minuto com um copo de água. Ele tem a quantidade certa de cubos de gelo. Depois de tomar uns goles eu digo, “Desculpa por estar aqui. O aviso e tudo mais.” “Tudo bem.” Kent se senta de pernas cruzadas no carpete, próximo a mim, não tão próximo que fosse possível nos tocarmos, mas perto o suficiente para que eu possa senti-lo sentando ali. “Quero dizer, o aviso era para outras pessoas. Você sabe, para impedir as pessoas de quebrar as merdas dos meus pais ou o que seja. Eu nunca fiz uma festa antes.” “Por que agora você fez uma?” Eu digo, só para mantê-lo falando. Ele dá uma meia risada. “Eu pensei que se eu fizesse uma festa, você viria.”

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Eu sinto uma onda de constrangimento, o calor se espalhando pelos meus pés. O comentário dele é tão inesperado que não sei o que dizer. Embora ele não pareça constrangido. Ele apenas está sentado lá, olhando para mim. Tão típico de Kent. Ele nunca entendeu que você não pode simplesmente dizer algo assim. O silêncio durou uns batimentos por muito tempo. Eu agarro algo para dizer. “Esse quarto deve ficar bem iluminado durante o dia.” Kent ri. “É como estar no meio do sol.” Silêncio novamente. Ainda podemos escutar a música, mas está abafado, como se tivesse que viajar milhas antes de nos alcançar. Eu gosto disso. “Ouça.” Só por tentar dizer o que eu quero, um caroço incha em minha garganta. “Me desculpe por mais cedo. Eu realmente—obrigada por me fazer me sentir melhor. Me desculpe por eu sempre ter sido…” No último segundo eu não consigo dizer. Me desculpe por sempre ter sido horrível. Me desculpe por ter algo errado comigo. “Eu quis dizer o que disse, mais cedo,” Kent diz calmamente. “Sobre seu cabelo.” Ele se desloca ligeiramente—uma fração de uma polegada, mais perto—e eu percebo então que eu estou sentada no meio de um quarto iluminado pela lua com Kent McFuller. “Eu devo ir.” Eu me levanto. Ainda não estou muito firme em pés, e o quarto se inclina comigo. “Uou.” Kent se levanta, erguendo uma mão para me firmar. “Tem certeza que está bem?” “Eu—” Me ocorre que eu não sei para onde ir, e eu não tenho ninguém para me levar lá, de qualquer forma. Eu não consigo suportar a ideia de Tara sorrindo para mim, e Lindsay obviamente está fora. Nesse ponto isso é tão horrível que chega a ser engraçado, e eu solto uma risada curta. “Eu não quero ir para casa.” Kent não me pergunta o porquê. Fico grata por isso. Ele só enfia as mãos nos bolsos. Os contornos do seu rosto são iluminados, como se ele fosse brilhante. “Você poderia...” Ele engole. “Você sempre pode ficar aqui.” Eu fico o encarando. Graças a Deus está escuro. Eu não tenho ideia de como meu rosto está. Rapidamente ele gagueja, “Não, assim, ficar comigo. Obviamente não. Eu só quis dizer—bem, nós temos uns quartos para convidados, com os lençóis já na cama e esse tipo de coisa. Lençóis limpos, obviamente, não é como se nos deixássemos lá depois das pessoas—”

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“Tudo bem.” “—usá-los, isso seria nojento. Na verdade nós temos uma governanta que vem duas vezes na semana e—” “Kent? Eu disse que tudo bem. Quero dizer, eu gostaria de ficar. Se você não se importa.” Ele fica parado por um segundo com a boca aberta como se ele tivesse certeza que tinha me entendido mal. Então ele tira as mãos dos bolsos, as torce e destorce, as levanta e as solta contra as coxas. “Claro, sim, não, está bem.” Mas por outro minuto ele não se mexe. Ele só me encara. O calor volta, só que dessa vez está se movendo em minha cabeça, fazendo tudo parecer nublado e remoto. Meus olhos de repente estão pesados. “Você está cansada,” ele diz, e a voz dele suave novamente. “Está sendo um longo dia,” eu digo. “Venha.” Ele estende a mão e eu a seguro sem pensar. É quente seca, e ele me leva pela casa, longe da música, no escuro, eu fecho meus olhos e lembro como ele costumava deslizar a mão dele na minha e sussurrar, Não dê ouvidos a eles. Apenas continue andando. Mantenha sua cabeça erguida. É quase como se o tempo não tivesse passado. Não parece doido que eu estou de mãos dadas com Kent McFuller e eu estou deixando-o me levar a algum lugar—isso parece normal. A música desaparece completamente. Tudo está tão quieto. Nossos pés mal fazem barulho no carpete, e cada quarto é uma teia de sombra e luz da lua. A casa cheira a madeira polida e chuva, e um pouquinho de fumaça de chaminé, como se alguém recentemente tivesse tido um incêndio. Eu penso, Essa casa seria perfeita para os dias de neve. “Por aqui,” Kent diz. Ele empurra uma porta—que range nas dobradiças—e eu o escuto tateando por um interruptor na parede. “Não,” eu digo. Ele hesita. “Sem luz?” “Sem luz.” Muito lentamente ele me guia pelo quarto. Aqui está quase completamente escuro. Eu mal consigo decifrar o contorno dos seus ombros. “A cama está aqui.” Eu o deixo me puxar para ele. Nós estamos a apenas alguns centímetros de distância, e é como se eu sentisse o seu efeito na escuridão, como se isso estivesse tomando

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uma forma em volta dele. Nós ainda estamos de mãos dadas, mas agora estamos cara a cara. Eu nunca percebi o quão alto ele era: pelo menos quatro centímetros a mais que eu. Há uma estranha quantidade de calor vinda dele. Está em todo lugar, irradiando para fora, fazendo meus dedos formigarem. “Sua pele,” eu digo, quase um sussurro. “Está quente.” “Está sempre assim,” ele diz. Alguma coisa sussurra no escuro e eu sei que ele moveu seu braço. Seus dedos pairam a meio centímetro do meu rosto, e é como se eu pudesse vê-los, brancos e ardentes. Ele derruba o braço, levando o calor com ele. E é a coisa mais estranha, além de estar com Kent McFuller em um quarto tão escuro como o breu que poderia estar enterrado em algum lugar, eu sinto a menor das menores coisas faiscar dentro de mim, uma pequena chama na parte inferior do estômago, que me deixa sem medo. “Tem cobertores extras no armário,” ele diz. Seus lábios estão bem próximos a minha bochecha. “Obrigada,” eu sussurro de volta. Ele fica até eu ter ido para a cama, e então ele estica os cobertores em volta dos meus ombros como se fosse normal, como se ele tivesse me colocado para dormir toda noite da minha vida inteira. Típico de Kent McFuller.

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cinco Veja, eu ainda estava procurando por respostas então. Eu ainda queria saber o porquê. Como se alguém fosse responder aquilo para mim, como se qualquer resposta seria satisfatória. Não naquela hora, mas depois, eu comecei a pensar sobre tempo, e como ele continua se movendo e drenando e fluindo sempre em frente, segundos em minutos em dias em anos, tudo isto indo para o mesmo lugar, uma corrente indo sempre em uma direção. E todos nós estamos indo e nadando o mais rápido que conseguimos, ajudando-a no caminho. Meu ponto é: talvez você possa permitir-se esperar. Talvez para você tenha um amanhã. Talvez para você haja mil amanhãs, ou três mil, ou dez, tanto tempo que você pode ser banhar nele, rolar nele, o deixar deslizar como moedas pelos seus dedos. Tanto tempo que você pode desperdiçar. Mas para alguns de nos só existe o hoje. E a verdade é, você nunca realmente sabe.

Eu acordo arfando, o alarme me trazendo para fora da escuridão, como se tivesse me trazido das profundezas de um lago. É a quinta vez que acordo em 12 de fevereiro, mas hoje eu estou aliviada. Eu desligo o alarme e me deito na cama, observando a leitosa luz branca percorrer a parede lentamente, esperando meu batimento cardíaco voltar ao normal. Um feixe de luz bate em cima da colagem que Lindsay fez para mim. Embaixo ela escreveu em tinta rosa com glitter, Amo vc pra sempre. Hoje, Lindsay e eu somos amigas de novo. Hoje ninguém está com raiva de mim. Hoje eu não beijei o Sr. Daimler ou sentei me acabando de chorar sozinha em uma festa. Bem, não totalmente sozinha. Eu imagino o sol preenchendo a casa de Kent lentamente, espumando para cima como champanhe. Enquanto eu estou deitada ali, eu começo a fazer uma lista mental de todas as coisas que eu gostaria de fazer na minha vida, como se elas ainda fossem possíveis. A maioria delas são apenas loucuras, mas eu não penso nisso, apenas continuo listando e listando como se fosse tão fácil quanto anotar o que você precisa do supermercado. Voar num jato particular. Comer um croissant recém-saído do forno em Paris. Cavalgar todo o caminho de Connecticut até a Califórnia, mas só ficar nos melhores quartos de hotéis pelo caminho. Algumas são mais simples: levar Izzy no Ponto do Ganso, um lugar que eu descobri na primeira e única vez que tentei fugir de casa. Pedir o Fat Feast no balcão—um cheeseburger com bacon, um milk shake, e um prato inteiro de batatas fritas—e comer isso sem estresse, como eu costumava fazer no meu aniversario todo ano. Correr pela chuva. Comer ovos mexidos na cama.

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Pela hora que Izzy entra no meu quarto e pula na cama comigo, eu estou na verdade me sentindo calma. “Mamãe diz que você tem de ir para escola,” dando uma cabeçada no meu ombro. “Eu não vou para a escola.”

É isto: é assim que começa. Um dos melhores—e piores—dias da minha vida começa com aquelas seis palavras.

Eu agarro a barriga de Izzy e faço cócegas nela. Ela ainda insiste em usar a velha camisa da Dora, a Exploradora, mas está tão pequena que deixa a grande faixa rosada de sua barriga—a única gordura no corpo dela—exposta. Ela grita com risadas, rolando para longe de mim. “Para, Sam. Eu disse, para!” Izzy está gritando e rindo e se contorcendo quando minha mãe chega à porta. “São seis e quarenta e cinco.” Ela fica parada na porta, mantendo os seus dois pés arrumadamente alinhados logo atrás da linha vermelha descascada de todos aqueles anos atrás. “Lindsay estará aqui a qualquer momento.” Izzy dá um tapa na minha mão para afastá-las e senta, os olhos dela brilhando. Eu nunca tinha reparado antes, mas ela realmente parece com minha mãe. Isto me deixa triste por um minuto. Eu queria que ela se parecesse mais comigo. “Sam estava fazendo cócegas.” “Sam vai acabar atrasada. Você também, Izzy.” “Sam não vai para a escola. E eu também não.” Izzy estufa seu peito como se ela estivesse preparada para lutar por isto. Talvez ela vá se parecer comigo quando estiver mais velha. Talvez quando o tempo voltar a andar para frente de novo—mesmo se eu for levada com ele, como lixo numa maré—os malares dela ficarão mais altos e ela terá um estirão de crescimento e o cabelo dela irá ficar mais escuro. Eu gosto de pensar que isto é verdade. Eu gosto de pensar que depois as pessoas irão dizer , Izzy é igualzinha à irmã dela, Sam. Eles irão dizer, Você se lembra de Sam? Ela era linda. Eu não tenho certeza do que mais eles poderiam dizer: Ela era legal. As pessoas gostavam dela. Ela faz falta. Talvez nenhuma destas coisas.

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Eu empurro o pensamento para fora da minha mente e volto para minha lista mental. Um beijo que faz minha cabeça parecer que vai explodir. Uma dança lenta no meio de uma sala vazia com uma musica ótima. Nadar no oceano à meia noite, sem roupas. Minha mãe esfrega sua testa. “Izzy, vá tomar seu café da manha. Eu tenho certeza que está pronto agora.” Izzy sobe por cima de mim. Eu aperto a gordura de sua barriga tirando um ultimo grito dela antes que ela saia da cama e corra para a porta. A única coisa que consegue fazer Izzy se mover tão rapidamente é um bagel tostado de canela e uvas passas com manteiga de amendoim, e eu imagino ser capaz de dar a ela um bagel tostado de canela e uvas passas com manteiga de amendoim todo dia para o resto da vida dela, preenchendo uma casa inteira com eles. Quando Izzy sai minha mãe olha para mim, duramente. “Sobre o que é isto, Sam? Você está se sentindo mal?” “Não exatamente.” Uma coisa que não esta na minha lista de desejos é passar até mesmo um segundo no consultório de um médico. “O que é, então? Tem de haver algo. Eu pensei que o Dia do Cupido fosse um dos seus favoritos.” “E é. Ou, quero dizer, era.” Eu me levanto sobre meus cotovelos. “Eu não sei, é meio estúpido, se você pensar sobre isto.” Ela levanta as sobrancelhas. Eu começo a divagar, sem realmente pensar no que eu quero dizer antes de dizer aquilo, mas depois eu percebo que é verdade. “A ideia toda é mostrar para as outras pessoas quantos amigos você tem. Mas todo mundo sabe quantos amigos todo mundo tem. E não é como se você fosse conseguir mais amigos desse jeito ou, eu não sei, ficar mais próximo dos amigos que você já tem.” Minha mãe sorri um pouquinho, um lado de sua boca se erguendo. “Bem, você tem sorte de ter amigos tão bons, e você sabe disto. Eu tenho certeza que as rosas têm bastante significado para algumas pessoas.” “Eu só estou dizendo que esta coisa toda é meio frágil.” “Isto não parece com a Samantha Kingston que eu conheço.” “É, bem, talvez eu esteja mudando.” Eu também não quero dizer aquelas palavras, até as escutar. Então eu penso que elas podem ser verdade, e eu sinto uma centelha de esperança. Talvez ainda haja uma chance para mim, afinal. Talvez eu tenha de mudar.

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Minha mãe olha para mim com esta expressão no seu rosto como se eu fosse uma receita que ela não consegue dominar muito bem. “Aconteceu alguma coisa, Sam? Algo com seus amigos?” Hoje eu não estou tão incomodada com ela por perguntar. Na verdade, hoje isso me atinge como sendo meio engraçado. Eu queria tanto que a única coisa me incomodando fosse uma briga com Lindsay, ou algo idiota que Ally falou. “Não são meus amigos.” Eu pego algo que vai fazê-la perguntar. “É... é Rob.” Minha mãe franze suas sobrancelhas. “Vocês brigaram?” Eu me afundo um pouco mais na cama, esperando que isto me faça parecer deprimida. “Ele... ele me largou.” De certa forma, isso não é uma mentira. Não como se ele tivesse terminado comigo, exatamente, mas como se talvez nós não estivéssemos envolvidos seriamente do jeito que eu acreditei por tanto tempo. É até mesmo possível sair com alguém seriamente que nem te conhece realmente? Isto funciona ainda melhor do que eu esperava. Minha mãe coloca a mão sobre seu peito. “Oh, querida. O que aconteceu?” “Nós apenas queríamos coisas diferentes, eu acho.” Eu mexo a ponta do meu cobertor, pensando em todas aquelas noites sozinha com ele no porão, banhada em luz azul, me sentido protegida do mundo inteiro. Não é muito esforço parecer chateada quando eu penso nisto, e meus lábios começam a tremer. “Eu não acho que ele alguma vez gostou de mim de verdade. Não de verdade de verdade.” Esta é a coisa mais honesta que eu digo para minha mãe em anos, e eu de repente me sinto muito exposta. Então eu tenho um flashback de estar de pé na frente dela quando eu tinha cinco ou seis anos e ter de ficar nua enquanto ela me checava toda para ver se eu tinha carrapatos. Eu me enfio mais para baixo das cobertas, fechando meus punhos até que minhas unhas se enterrem nas palmas. Então a coisa mais maluca do mundo acontece. Minha mãe anda direto pela linha vermelha e avança para a cama, como se não fosse grande coisa. Eu estou tão surpresa que nem reclamo quando ela se curva em minha direção e me beija na testa. “Sinto muito, Sam.” Ela alisa minha testa com seu dedão. “É claro que você pode ficar em casa.” Eu esperava uma briga maior e eu fico sem palavras. “Você quer que eu fique em casa com você?” ela pergunta. “Não.” Eu tento dar um sorriso a ela. “Eu ficarei bem. Sério.” “Eu quero ficar em casa com a Sam!” Izzy veio até a porta de novo, desta vez meio vestida para a escola. Ela está em uma fase amarelo e rosa—uma combinação não muito lisonjeira, mas é meio difícil de explicar paletas de cores para uma criança de oito anos—e

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colocou um vestido amarelo mostarda sobre um par de meias-calças rosa. Ela também está usando grandes meias amarelas franzidas. Ela parece com algum tipo de flor tropical. Uma parte de mim está tentada a pirar com minha mãe por deixar Izzy usar o que quer. As outras crianças devem fazer piada dela. Mas então, eu acho que Izzy não se importa. Isto é outra coisa que me atinge como sendo engraçado: que minha irmã de oito anos de idade é mais corajosa do que eu. Ela é provavelmente mais corajosa do que a maioria das pessoas na Thomas Jefferson. Eu me pergunto se isto irá mudar algum dia, se isto será tirado dela. Os olhos de Izzy estão enormes e ela junta suas mãos como se estivesse rezando. “Por favor?” Minha mãe suspira, exasperada. “Absolutamente não, Izzy. Não há nada de errado com você.” “Eu estou me sentindo doente,” Izzy diz. Isto é levemente inacreditável pelo fato dela estar pulando e rodando sobre seus pés enquanto diz isto, mas Izzy nunca foi uma grande mentirosa. “Você já tomou seu café?” Minha mãe cruza os braços é faz sua cara de “mãe rígida.” Izzy balança a cabeça. “Eu acho que tive envenenamento por comida.” Ela se dobra, agarra seu estomago, então imediatamente se levanta e começa a dar pulinhos de novo. Eu não posso evitar; uma pequena risada escapa. “Vamos mãe,” eu digo. “Deixa ela ficar em casa.” “Sam, por favor, não a incentive.” Minha mãe se vira para mim, balançando sua cabeça, mas eu posso dizer que ela está hesitando. “Ela está na terceira série,” eu digo. “Não é como se eles realmente aprendessem alguma coisa.” “Sim, nós aprendemos!” Izzy exalta, então coloca sua mão na boca quando eu dou um olhar a ela. Minha irmãzinha: aparentemente não é uma super negociadora, também. Ela balança sua cabeça e rapidamente gagueja, “Eu quero dizer, nós não aprendemos tanto assim.” Minha mãe baixa a voz. “Você sabe que ela irá ficar te incomodando o dia inteiro, certo? Você não preferia ficar sozinha?” Eu sei que ela esta esperando que eu diga sim. Por anos estas têm sido as palavras mais repetidas da casa: Sam só quer ficar sozinha. Quer jantar? Eu levarei para o meu quarto. Onde você está indo? Só quero ficar sozinha. Posso entrar? Só me deixe aqui sozinha. Fique fora

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do meu quarto. Não fale comigo quando eu estou no telefone. Não fale comigo quando eu estou ouvindo musica. Sozinha, sozinha, sozinha. As coisas mudam quando você morre, porém—eu acho que é porque morrer é a coisa mais solitária que se pode fazer. “Eu não ligo,” eu digo, e eu realmente não ligo. Minha mãe joga suas mãos para cima e diz, “Tanto faz,” mas mesmo antes daquilo sair da boca dela, Izzy já está correndo pelo meu quarto e pulou de barriga em cima de mim, jogando seus braços em volta do meu pescoço e gritando, “Nós podemos ver TV? Nós podemos fazer macarrão com queijo?” Ela cheira a coco como de costume, e eu me lembro de quando ela era tão pequena que nós podíamos colocá-la na pia para dar banho nela, e ela sentava lá rindo e sorrindo e jogando água como se o melhor lugar do mundo para estar fosse em um quadrado de porcelana de 30 x 45 cm, como se a pia fosse o maior oceano do mundo. Minha mãe me dá uma olhada que diz, Você pediu por isto. Eu sorrio por cima dos ombros de Izzy e dou de ombros. E é simples assim.

dentro do bosque É estranho o quanto as pessoas mudam. Por exemplo, quando eu era criança eu amava todas aquelas coisas—como cavalos e o Fat Feast e o Ponto do Ganso—e com o tempo todos eles simplesmente sumiram, um depois do outro, substituído por amigos e MSN e celulares e garotos e roupas. É meio triste, se você pensar nisto. Como se não houvesse nenhuma continuidade nas pessoas. Como se algo rompesse quando você chega aos doze, ou treze, ou qualquer que seja a idade quando você não é mais criança e sim um “jovem adulto,” e depois disso você é uma pessoa totalmente diferente. Talvez até uma pessoa mais infeliz. Talvez até uma pessoa pior. Aqui está como eu descobri pela primeira vez o Ponto do Ganso: uma vez, antes de a Izzy nascer, meus pais se recusaram a comprar para mim uma bicicleta roxa com uma cesta rosa florida nela e um sino. Eu não me lembro por que—talvez eu já tivesse uma bicicleta—mas eu pirei e decidir fugir. Aqui estão as duas regras básicas de se fugir com sucesso: 1.

Ir para algum lugar que você conhece.

2.

Ir para algum lugar que ninguém mais conhece.

Eu não conhecia essas duas regras então, obviamente, e eu acho que meu objetivo era o oposto: ir para algum lugar que eu não conhecia e então ser descoberta pelos meus

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pais, que iriam se sentir tão mal que concordariam em comprar qualquer coisa que eu quisesse, incluindo a bicicleta (e talvez um pônei). Era maio, e estava quente. A cada dia a luz durava mais e mais. Uma tarde eu enchi milha mochila de pano favorita e escapuli pela porta de trás. (Eu me lembro de ter pensado, eu era esperta por evitar o jardim da frente, onde meu pai estava fazendo serviço de jardinagem.) Eu também me lembro exatamente do que guardei: uma lanterna; um suéter; um maiô; um pacote inteiro de *Oreos24; uma cópia do meu livro favorito, Matilda; e um enorme colar de pérolas e ouro falso que minha mãe tinha me dado para usar no Halloween daquele ano. Eu não sabia para onde eu estava indo, então eu apenas andei para frente, através do deck e descendo as escadas e através do pátio de trás, para dentro do bosque que separava nossa propriedade da do vizinho. Eu segui o bosque por um tempo, sentindo muita pena de mim mesma e meio que esperando que algum ricaço me visse e tivesse compaixão de mim e me adotasse e comprasse uma garagem cheia de bicicletas roxas. Mas então, um pouco de tempo depois, eu meio que entrei no clima daquilo, do jeito que as crianças fazem. O sol estava nublado e dourado. Parecia que todas as folhas tinham um anel luminoso, e havia minúsculos pássaros se lançando para todo lado, e camadas e camadas de musgo verde debaixo dos meus pés. Todas as casas ficaram para trás. Eu estava bem dentro do bosque, e imaginei que eu era a única pessoa que já tinha ido tão longe. Eu imaginei que iria viver ali para sempre, dormindo em uma cama de musgo, usando flores no meu cabelo e vivendo em harmonia com os ursos e raposas e unicórnios. Eu cheguei a um riacho e tive de atravessá-lo. Eu escalei uma colina enorme, alta, tão grande quanto uma montanha. No alto da colina estava a maior pedra que eu já tinha visto. Ela se curvava para cima e para frente da beira da colina como o casco de um navio, mas tinha o topo liso como uma mesa. Eu não me lembro muito deste primeiro passeio a não ser de comer Oreos, um atrás do outro, e sentir como se eu fosse dona de toda aquela parte do bosque. Eu também me lembro de que, quando eu cheguei em casa, meu estômago com cólicas de todos aqueles biscoitos, fiquei decepcionada que meus pais não estivessem mais preocupados comigo. Eu tinha certeza que tinha estado fora por horas e horas e mais horas, mas o relógio mostrava que eu tinha saído a menos de quarenta minutos. Eu decidi então que aquela rocha era especial: que o tempo não se movia lá. Eu fui lá muitas vezes naquele verão, qualquer hora que eu precisasse escapar, e no verão depois daquele. Uma vez eu estava deitada esticada no topo da rocha, olhando o céu todo rosa e púrpura como os doces de parque de diversão, e eu vi uma centena de gansos migrando, um V perfeito. Uma única pena desceu voando pelo ar e pousou diretamente ao lado da minha mão. Eu batizei o lugar de Ponto do Ganso, e por anos mantive a pena em uma pequena caixa decorativa encravada em um dos veios de cristal que percorriam o interior da rocha. Então um dia a caixa tinha sumido. Eu imaginei que ela tinha sido 24

Versão americana do Negresco.

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soprada para longe durante uma tempestade, e procurei pelas folhas e pela vegetação rasteira por horas e, quando não consegui achar, eu chorei. Mesmo depois de ter parado de fazer equitação, eu escalava o Ponto do Ganso às vezes, embora fosse cada vez menos lá. Eu fui lá uma vez na sexta serie depois de todos os garotos da aula de ginástica terem classificado minha bunda como “muito quadrada”. Eu fui lá quando não fui convidada para a festa do pijama de aniversário de Lexa Hill, mesmo que nós fôssemos parceiras na aula de ciências e tivéssemos passado quatro messes dando risadinhas sobre como Jon Lippincott era bonito. Cada vez que eu voltava para casa, menos tempo tinha passado do que eu esperava. Cada vez, eu ainda falava a mim mesma, embora soubesse que aquilo era estúpido, que o Ponto do Ganso era especial. Então um dia Lindsay Edgecombe entrou na cozinha de Tara Flute quando eu estava lá e colocou seu rosto do meu lado e sussurrou, “Você quer ver uma coisa?” e naquele momento minha vida mudou para sempre. Desde daquele dia eu nunca tinha voltado. Talvez seja por isso que eu tenha decidido levar Izzy até lá, mesmo que lá fora esteja congelando. Eu quero ver se lá ainda continua igual, ou se eu estou igual. É importante para mim, por alguma razão. E, além disso, de todas as coisas na minha lista mental, é a mais fácil. Não é provável que um jato particular vá pousar no lado de fora da minha casa. E nadar nua agora vai me levar para a cadeia ou fazer com que eu pegue pneumonia ou ambos. Então eu acho que essa é a segunda melhor coisa. E eu acho que é quando aquilo começa a fazer sentido: o objetivo disso tudo é, você faz o que você pode.

“Você tem certeza que este é o caminho certo?” Izzy está andando do meu lado, enrolada em tantas camadas que ela parece o abominável homem das neves. Como sempre, ela insistiu em colocar acessórios, e está usando um protetor de ouvidos com estampa de leopardo rosa e preta e dois cachecóis diferentes. “Este é o caminho certo,” eu digo, mesmo que de começo eu tenha tido certeza que nós estávamos no lugar errado. Tudo é tão pequeno. O riacho—um fino e congelado fio de água, e coberto aqui e ali de gelo—não é mais largo que um único passo. O morro além dele desliza gentilmente para cima, mesmo que em minha memória ele sempre tenha sido uma montanha. Mas o pior é a nova construção. Alguém comprou o terreno aqui atrás, e há duas casas em diferentes estágios de acabamento. Uma delas é apenas um esqueleto, crescendo a partir do chão, todo feito de madeira alvejada e pregos e parafusos, como uma carcaça de navio jogada na praia. A outra está quase terminada. É enorme e sem personalidade, como a casa de Ally, e se agacha no morro como se tivesse olhando para nós. Me leva um tempo para perceber o porquê: não há persianas em nenhuma das janelas ainda. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Eu me sinto pesada com o desapontamento. Vir aqui foi obviamente uma ideia ruim, e sou lembrada de algo que minha professora de inglês, Sra. Harbor, disse uma vez durante uma de suas tangentes aleatórias. Ela disse que a razão pela qual você nunca pode voltar para casa de novo—nós estávamos estudando uma lista de citações famosas e discutindo seus significados, e esta era uma delas, por Thomas Wolfe, “Você não pode voltar para casa de novo”—não é necessariamente que os lugares mudam, mas que as pessoas mudam. Então nada nunca parece o mesmo. Eu estou prestes a sugerir que nós voltássemos, mas Izzy já saltou pelo riacho e está correndo morro acima. “Vamos!” Ela grita para mim por cima do ombro. E então, quando ela está a apenas quinze metros do topo, “Eu aposto corrida com você!” Pelo menos o Ponto do Ganso é tão grande quanto eu lembrava. Izzy se iça para cima do topo plano, e eu subo depois dela, meus dedos já dormentes na minha luva. A superfície da rocha está coberta com frágeis folhas congeladas e uma camada de gelo. Tem bastante espaço para nós duas nos esticarmos, mas Izzy e eu nos amontoamos uma perto da outra para ficarmos quentes. “Então, o que você acha?” Eu digo. “Você acha que é um bom lugar para se esconder?” “O melhor.” Izzy inclina sua cabeça para me olhar. “Você realmente acha que o tempo passa mais devagar aqui?” Eu encolho os ombros. “Eu costumava acreditar nisso quando eu era pequena.” Eu olho em volta. Eu odeio que se podem ver casas daqui agora. Aqui costumava dar uma sensação tão remota, tão secreta. “Isto costumava ser muito diferente. Muito melhor. Não havia nenhuma casa, para começar. Então você realmente sentia como se estivesse no meio do nada.” “Mas desse jeito se você tem de fazer xixi, você pode ir e bater na porta de alguém e simplesmente pedir.” Ela prende todos os S dela: deshe, vochê, fajer, shimplesmente. Eu rio. “É, eu acredito que sim.” Nós sentamos em silêncio por um segundo. “Izzy?” “Oi?” “As—as outras crianças ficam te gozando? Pelo jeito que você fala?” Eu sinto ela se enriquecer debaixo de suas camadas e camadas. “Às vezes.” “Então por que você não faz algo a respeito disso?” Eu digo. “Você podia aprender a falar diferente, você sabe.”

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“Mas esta é a minha voz.” Ela diz isso baixo, mas com insistência. ”Como você seria capaz de dizer quando eu estou falando?” Esta é uma Izzy-resposta tão estranha que eu não consigo pensar em uma resposta para ela, então eu apenas jogo meus braços para frente e a aperto. Existem tantas coisas que eu queria dizer a ela, tantas coisas que ela não sabe: tipo como eu me lembro de quando ela veio pela primeira vez para casa do hospital, uma grande gota rosa com um sorriso permanente, e ela costumava dormir enquanto segurava meu dedo indicador; como eu costumava andar com ela nos meus ombros subindo e descendo a praia em Cape Cod, e ela iria puxar meu rabo de cavalo para me direcionar para um caminho ou outro, quão macia e peluda sua cabeça era quando ela nasceu; que na primeira vez que você beijar alguém você ficará nervosa, e será estranho, e não será tão bom quanto você queria que fosse, e está tudo bem assim; de como você só deve se apaixonar por alguém que também ficará apaixonado por você. Mas antes que eu consiga dizer qualquer coisa, ela esta se arrastando para longe de mim com suas mãos e joelhos, guinchando. “Olhe, Sam!” ela desliza para perto da beirada e espreita alguma coisa encravada em uma fissura da rocha. Ela se vira de joelhos, segurando aquilo triunfalmente: uma pena, branco pálido, com as pontas cinza, úmida com a geada. Eu sinto como se meu coração estivesse quebrando naquele segundo porque eu sei que nunca vou ser capaz de dizer a ela qualquer uma das coisas que preciso. Eu não sei nem por onde começar. Ao invés disso, eu pego a pena dela e a coloco dentro de um dos bolsos da minha jaqueta North Face. “Eu vou manter ela segura,” eu digo. Então eu me deito na pedra gelada e encaro o céu, que está apenas começando a escurecer enquanto a tempestade se move. “Nós devemos ir para casa logo, Izzy. Vai chover.” “Logo.” Ela deita perto de mim, colocando sua cabeça na curva do meu ombro. “Você está quente o suficiente?” “Eu estou bem.” Realmente não fica tão frio depois que nós estamos aconchegadas uma contra a outra, e eu abro um pouco minha jaqueta no pescoço. Izzy rola sobre um dos cotovelos e estica a mão, puxando meu cordão de pássaro de ouro. “Como é que a Vovó nunca me deu nada?” Ela diz. Esta é uma velha rotina. “Você não era nascida ainda, cabeça de pássaro.” Izzy continua pegando no colar. “É bonito.” “É meu.” “A Vovó era legal?” Isto também é parte da rotina.

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“Sim, ela era legal.” Eu não lembro muito dela também, na verdade—ela morreu quando eu tinha sete anos—exceto do movimento de suas mãos pelo meu cabelo quando ela me penteava, e do jeito que ela sempre cantava melodias de programas de TV, não importava o que ela estava fazendo. Ela costumava assar enormes muffins de chocolate e laranja, também, e ela sempre fazia o meu maior do que todos. “Você teria gostado dela.” Izzy sopra ar por entre seus lábios. “Eu queria que ninguém nunca morresse,” ela diz. Eu sinto um ardor na minha garganta, mas dou um jeito de sorrir. Dois desejos conflitantes passam por mim ao mesmo tempo, cada um tão afiado quanto uma navalha: Eu quero ver você crescer e Nunca mude. Eu coloco minha mão no topo de sua cabeça. “Ficaria bem lotado, Izzy,” eu digo. “Eu me mudaria para o oceano,” Izzy diz com naturalidade. “Eu costumava me deitar assim durante todo o verão,” eu digo a ela. “Eu iria vir aqui e só ficar olhando para o céu.” Ela rola sobre suas costas para olhar para cima também. “Aposto que esta vista não mudou muito, mudou?” O que ela diz é tão simples que eu quase rio. Ela está certa, é claro. “Não. Parece exatamente a mesma.” Eu suponho que este é o segredo, se você algum dia estiver desejando que as coisas voltem para o jeito que eram. Você só tem de olhar para cima.

pela escuridão Eu checo meu telefone quando chego em casa: três novas mensagens de texto. Lindsay, Elody, e Ally me mandaram exatamente a mesma coisa: Dia do Cupido <3 Vc. Elas provavelmente estavam juntas quando enviaram. Isto é uma coisa que nós geralmente fazemos, digitar e mandar exatamente as mesmas mensagens exatamente ao mesmo tempo. É estúpido, mas isto me faz sorrir. Eu não respondo, porém. De manhã eu enviei para Lindsay uma mensagem para dizer que ela deveria ir para a escola sem mim, mas mesmo que não estejamos brigadas hoje, eu me senti estranha digitando nosso”:***” no final. Em algum lugar—em algum tempo alternativo ou lugar ou vida ou algo assim—eu continuo com raiva dela e ela de mim. Me impressiona o quão fácil as coisas mudam, quão fácil é começar a andar pelo mesmo caminho que você sempre toma e terminar em algum lugar novo. Apenas um passo em falso, uma pausa, um desvio, e você acaba com novos amigos ou má reputação ou um namorado ou terminando um namoro. Isto nunca me ocorreu antes; eu nunca fui capaz de ver. E isto me faz sentir, estranhamente, como se talvez todas essas

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possibilidades diferentes existam ao mesmo tempo, como se cada momento que nós vivemos tenha mil outros momentos por baixo dele que pareçam diferentes. Talvez Lindsay e eu sejamos melhores amigas e nos odiemos, ambos. Talvez eu esteja a apenas uma aula de matemática de ser uma vadia como Anna Cartullo. Talvez eu seja como ela, lá no fundo. Talvez nós todos sejamos: apenas um recreio de distância de comer sozinha no banheiro. Eu me pergunto se é realmente possível saber alguma vez a verdade sobre alguém, ou se o melhor que podemos fazer é simplesmente tropeçar uns nos outros, cabeças baixas, esperando evitar colisão. Eu penso em Lindsay no banheiro de Rosalita, e me pergunto quantas pessoas estão agarrando segredos como pequenos punhos, como pedras colocadas no fundo de seus estômagos. Todas elas, talvez. A quarta mensagem é de Rob e ela diz apenas, Ta doente? Eu a deleto e então desligo meu telefone. Izzy e eu passamos o resto da tarde vendo DVDs antigos, a maioria deles desenhos velhos da Disney e da Pixar que nós duas amamos, como A Pequena Sereia e Procurando Nemo. Nós fazemos pipoca com manteiga extra e molho Tabasco, do jeito que meu pai sempre faz, e nos aconchegamos na sala com todas as luzes apagadas enquanto o céu lá fora escurece e as árvores começam a se mexer com o vento. Quando minha mãe chega em casa, nós a peticionamos por uma Sexta Formaggio—nós costumávamos ir ao mesmo restaurante italiano toda noite de sexta e é assim que a chamávamos, porque o restaurante (que tinha toalhas de mesa de plástico quadriculado vermelho e branco e um tocador de acordeão e rosas falsas de plástico nas mesas) era tão brega—e ela diz que vai pensar no caso, o que significa que nós vamos. Faz muito tempo desde que eu estive em casa em uma noite de fim de semana, e quando meu pai chega em casa e vê Izzy e eu jogadas no sofá, ele cambaleia pela porta, agarrando seu coração como se estivesse tendo um infarto. “Isso é uma alucinação?” Ele diz, largando a maleta. “Poderia ser? Samantha Kingston? Em casa? Numa sexta?” Eu rolo meus olhos. “Eu não sei. Você tomou muito ácido lá nos anos 60? Pode ser um flashback.” “Eu tinha dois anos de idade em 1960. Cheguei tarde demais para a festa.” Ele se inclina e me beija na testa. Eu me afasto por hábito. “E eu não vou nem mesmo perguntar como você sabe sobre flashbacks de ácido.” “O que é um flashback de ácido?” Izzy repete. “Nada,” meu pai e eu dizemos ao mesmo tempo, e ele sorri para mim. Nós realmente acabamos indo ao Formaggio (nome oficial: Cozinha Caseira Italiana do Luigi), que na verdade não é mais Formaggio (ou Luigi) e não tem sido por anos. Cinco

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anos atrás um restaurante de sushi se mudou e substituiu todos os azulejos de art-deco falsos e abajures de vidro por mesas de metal polido e um longo bar de carvalho. Não importa, porém. Sempre vai ser o Formaggio para mim. O restaurante está super lotado, mas nós conseguimos uma das melhores mesas, bem ao lado dos grandes aquários de peixes exóticos que ficam perto das janelas. Como sempre, meu pai faz uma piada ruim sobre como ele gosta de ver comida em restaurantes, e minha mãe diz a ele para continuar na arquitetura e deixar a comédia com os profissionais. No jantar, minha mãe é extra legal comigo porque ela pensa que eu estou passando por um trauma de fim de relacionamento, e Izzy e eu pedimos metade do cardápio e acabamos cheias de edamame e shumai de camarão e tempura e salada de frutos do mar antes mesmo de a refeição chegar. Meu pai bebe duas cervejas e fica levemente bêbado e nos diverte com histórias sobre clientes malucos, e minha mãe continua e dizendo para eu pedir o que quiser, e Izzy põe um guardanapo em cima da cabeça e finge ser um viajante provando rolinhos Califórnia pela primeira vez. Até aí tem sido um bom dia—um dos melhores. Perto de ser perfeito, na verdade, embora nada de especial tenha acontecido. Eu acho que tive muitos dias como esse, mas de alguma maneira eles nunca são aqueles que você lembra. Isso parece errado para mim agora. Eu penso em estar deitada na casa de Ally no escuro e me perguntar se eu alguma vez tive um dia que valesse a pena reviver. Me parece que viver este dia de novo e de novo e de novo não seria tão ruim, e eu imagino que é isso que vou fazer—apenas continuar desse jeito, de novo e de novo, até que o tempo desacelere completamente, até que o universo acabe. Logo antes de nós recebermos a sobremesa, um grande grupo de calouras e segundanistas que eu reconheço da Jefferson entra no restaurante. Algumas delas ainda estão vestindo jaquetas de natação JV. Elas devem ter tido uma reunião até tarde. Elas parecem tão jovens, cabelo penteado para longe de seus rostos, rabos de cavalo, sem maquiagem—totalmente diferentes de como elas parecem quando aparecem em uma de nossas festas, que é como se tivessem acabado de passar uma hora e meia pegando amostras grátis no balcão da MAC. Um par delas me pega encarando-as e baixa os olhos. “Sorvete de chá verde e feijão azuki.” A garçonete coloca uma taça enorme e quatro colheres na nossa frente. Izzy começa pelo de feijão azuki. Meu pai geme e põe uma mão na barriga. “Eu não sei como você ainda pode estar com fome.” “Garota em crescimento.” Izzy abre a boca, mostrando o sorvete espalhado em sua língua. “Nojento, Izzy.” Eu pego minha colher e tiro um pouco do lado de chá verde. “Sykes! Ei! Sykes!”

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Eu viro a cabeça rapidamente ao som do nome dela. Uma das garotas do time de natação está meio levantada da sua cadeira, acenando. Eu escaneio o restaurante, procurando por Juliet, mas há apenas uma pessoa na porta. Ela é magra e pálida e muito loira, e ela está de pé e balançando om ombros para tirar a água da chuva de sua jaqueta. Eu levo um segundo para reconhecê-la, mas quando ela termina de se virar, procurando por seus amigos, eu a reconheço: a Cupido da aula de matemática—o anjo que entregou minhas rosas. Quando ela vê o resto de suas colegas de time, ele levanta a mão brevemente e dá um rápido mexer de dedos. Então ela começa a caminhar em direção a elas, e quando ela passa pela nossa mesa, eu olho de relance sua jaqueta azul neon e laranja e é como se o salão inteiro tivesse parado e apenas aquelas cinco letras restassem, iluminadas como neon. SYKES. A irmã mais nova de Juliet. “Terra para Sammy.” Izzy está me espetando com o cabo de sua colher. “Seu sorvete está derretendo.” “Não estou mais com fome.” Eu deixo minha colher e me afasto da mesa. “Aonde você está indo?” Mamãe estende a mão e a põe em meu pulso, mal eu mal a sinto. “Cinco minutos.” E então eu estou andando até a mesa do time de natação, o tempo todo encarando a garota pálida e seu rosto em forma de coração. Eu não acredito que nunca vi a semelhança antes. Elas têm os mesmos olhos azuis espaçados, a mesma pele translúcida e lábios pálidos. Mas então, até recentemente eu nunca tinha realmente olhado para Juliet, embora eu deva tê-la visto dez mil vezes. As garotas do time de natação pegaram os cardápios, e elas estão rindo e dando tapinhas umas nas outras. Eu ouço distintamente uma delas dizer o nome de Rob— provavelmente dizendo como ele fica bonito com seu uniforme de lacrosse (eu saberia; eu costumava falar isso o tempo todo). Eu nunca me importei tão pouco com qualquer coisa. Quando eu estou a cerca de um metro da mesa uma delas me vê e instantaneamente a mesa inteira fica silenciosa. A garota que estava falando sobre Rob fica da cor do cardápio que ela está segurando. A Pequena Sykes está imprensada bem no final da mesa. Eu ando diretamente para ela. “Ei.” Agora que eu estou de pé aqui, não tenho muita certeza de por quê vim. A parte mais engraçada disso tudo é sou eu quem está nervosa. “Qual é o seu nome?”

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“Um... Eu fiz alguma coisa?” A voz dela está verdadeiramente tremendo. O resto das garotas não está ajudando. Elas estão me olhando como se esperassem que a qualquer momento eu me jogasse para frente e engolisse a cabeça dela ou algo assim. “Não, não. Eu só...” Eu dou a ela um pequeno sorriso. Agora que eu vejo, a semelhança entre ela e Juliet me enerva um pouco. “Você tem uma irmã mais velha, certo?” A boca dela endurece em uma linha fina, e seus olhos ficam nublados, como se ela estivesse erguendo uma barreira. Eu não a culpo. Ela provavelmente pensa que eu vou bagunçar com ela por ter uma aberração como irmã mais velha. Deve acontecer muito. Mas ela levanta o queixo e me olha direto nos olhos. Isso meio que lembra algo que Izzy faria. Sam não vai para a escola, e eu também não. “É. Juliet Sykes.” Então ela espera pacientemente, espera que eu comece a rir. Os olhos dela são tão firmes que eu olho para baixo. “É. Eu, um, conheço Juliet.” “Você conhece?” Ela levanta as sobrancelhas. “Bem, meio que sim.” Todas as garotas estão me encarando agora. Eu tenho um pressentimento que elas estão tendo dificuldades em impedir que suas mandíbulas caiam. “Ela—ela meio que é minha parceira de laboratório.” Eu imagino que essa seja uma aposta segura. Ciências é obrigatório, e todos os alunos recebem um parceiro de laboratório. O rosto da irmã de Juliet relaxa um pouquinho. “Juliet é muito boa em Biologia. Quer dizer, ela é muito boa na escola.” Ela se deixa sorrir. “Eu sou Marian.” “Oi.” Marian é um nome bom para ela: um nome puro, de alguma forma. Minhas palmas estão suando. Eu as seco na minha calça jeans. “Eu sou Sam.” Marian baixa os olhos e diz timidamente, “Eu sei quem você é.” Dois braços rodeiam minha cintura. Izzy veio por trás de mim. A ponta de seu queixo espeta meu flanco. “O sorvete quase acabou,” ela diz. “Você tem certeza de que não quer?” Marian sorri para Izzy. “Qual é o seu nome?” “Elizabeth,” Izzy diz orgulhosamente, mas então cai um pouquinho. “Mas todo mundo me chama de Izzy.” “Quando eu era pequena, todo mundo me chamava de Mary.” Marian faz uma careta. “Mas agora todos me chamam de Marian.”

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“Eu não me importo tanto com Izzy,” Izzy diz, mordendo seu lábio como se tivesse acabado de decidir isso. Marian olha para mim. “Você tem uma irmãzinha também, hum?” Subitamente, eu não consigo suportar olhar para ela. Eu não suporto pensar no que irá acontecer mais tarde. Eu sei: a quietude da casa, o barulho de tiro. E então... o quê? Será que ela será a primeira a descer as escadas? Será que aquela imagem final de sua irmã vai ser a que durará, que apagará quaisquer outras memórias que ela guardou ao longo dos anos? Eu entro em pânico, tentando pensar em que tipo de memórias Izzy tem de mim— terá de mim. “Vamos, Izzy. Vamos deixar as garotas comerem.” Minha voz está tremendo, mas eu não acho que alguém note. Eu afago Izzy na cabeça e ela galopa de volta para nossa mesa. As garotas na mesa estão ficando mais confiantes agora. Sorrisos estão brotando, e todas estão olhando para mim com admiração, como se não pudessem acreditar em quão legal eu estou sendo, como se eu tivesse dado a elas um presente. Eu odeio isso. Elas deveriam me odiar. Se elas soubessem que tipo de pessoa eu sou, elas me odiariam, eu tenho certeza disso. Eu não sei por que Kent surge na minha mente nesse momento, mas ele aparece. Ele também me odiaria se soubesse tudo. A compreensão me deixa estranhamente chateada. “Diga a Juliet para não fazer isso,” eu digo abruptamente, e então não posso acreditar que disse aquilo. Marian franze a testa. “Fazer o quê?” “Uma coisa do projeto de Ciências,” eu digo rapidamente, e então adiciono, “ela vai saber do que eu estou falando.” “Ok.” Marian está sorrindo alegremente para mim. Eu começo a me virar, mas ela me chama de volta. “Sam!” Eu me viro de volta, e ela põe a mão sobre a boca e dá um risinho, como se não pudesse acreditar que teve a coragem de chamar meu nome. “Eu vou ter que dizer a ela amanhã,” ela diz. “Juliet vai sair hoje à noite.” Eu posso imaginar a cena. Mãe e pai e irmã no andar de baixo, Juliet trancada em seu quarto como sempre, música alta, sozinha. E então—milagre dos milagres—ela desce, cabelo jogado para trás, confiante, legal, anunciando que está indo a uma festa. Eles devem ter estado tão felizes, tão orgulhosos. A garotinha solitária deles se dando bem no final de seu último ano. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Para a festa de Kent. Para encontrar Lindsay—e me e me encontrar. Para ser empurrada e derrubada e ensopada de cerveja. O sushi não está descendo tão bem de repente. Se eles ao menos imaginassem... “Eu definitivamente falo para ela amanhã, porém.” Marian sorri alegremente para mim, um farol focando em mim pela escuridão.

Durante todo o caminho para casa eu tento esquecer Marian Sykes. Quando meu pai me deseja boa noite—ele sempre está prestes a desmaiar depois de uma cerveja, e hoje ele tomou (nossa!) duas—eu estou tentando esquecer Marian Sykes. Quando Izzy entra meia hora depois, tomado banho e cheirando a limpeza em seu pijama maltrapilho da Dora, e planta um descuidado beijo molhado na minha bochecha, eu estou tentando esquecê-la; e meia hora depois disso, quando minha mãe aparece na minha porta e diz “Estou orgulhosa de você, Sam,” eu ainda estou pensando nela. Minha mãe vai para a cama. Silêncio enche a casa. Em algum lugar na escuridão profunda um relógio está fazendo tique-taque, e quando eu fecho meus olhos eu vejo Juliet Sykes vindo em minha direção calmamente, seus sapatos batendo contra um piso de madeira, sangue escorrendo de seus olhos... Eu sento na cama, coração batendo forte. Então eu levanto, encontro minha North Face no escuro. Esta manhã eu jurei que não havia nada no mundo que pudesse me fazer voltar à festa de Kent, mas aqui estou eu, descendo a escada na ponta dos pés, andando contra a parede dos corredores escuros, pegando de fininho as chaves da minha mãe da prateleira na entrada. Ela foi incrivelmente humana hoje, mas a última coisa com que eu preciso lidar agora é alguma grande conversa do tipo o-que-me-faz-pensar-que-eu-posso-faltar-aula-edepois-sair. Eu tento dizer a mim mesma que Juliet Sykes não é realmente problema meu, mas eu fico imaginando como seria horrível se esse fosse o dia dela. Se ela tivesse que vivê-lo de novo e de novo. Eu acho que praticamente todo mundo—até Juliet Sykes— merece morrer em um dia melhor que aquele. As dobradiças das portas da frente e de trás rangem tão alto que poderiam muito bem ser despertadores (às vezes eu penso que meus pais devem ter feito isso de propósito). Na cozinha eu cuidadosamente ponho um pouco de azeite de oliva em uma toalha de papel, e eu a esfrego nas dobradiças da porta de trás. Lindsay me ensinou esse truque. Ela está sempre inventando novos e melhores métodos de sair escondida, mesmo que ela não tenha horário de chegar, e não importe de uma maneira ou de outra quando ela sai e quando chega em casa. Eu acho que ela sente falta disso, na verdade. Eu acho que é por isso que ela é sempre meticulosa nos detalhes—ela gosta de fingir que precisa ser.

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A porta com suas dobradiças temperadas ao modo italiano abre com pouco mais que um sussurro, e eu estou fora.

Eu não pensei realmente em por que estou indo para a festa de Kent, ou o que eu vou fazer quando chegar lá, e ao invés de dirigir diretamente até lá, eu me encontro dobrando em ruas aleatórias e becos sem saída, circulando para cima e para baixo. As casas são em sua maioria afastadas da rua, e janelas iluminadas aparecem magicamente no escuro como lanternas penduradas. É incrível como tudo parece diferente à noite—quase irreconhecível, especialmente na chuva. Casas se sentam agachadas em seus gramados, carrancudas e vivas. Parece tão diferente da Ridgeview do dia, quando tudo é limpo e polido e aparado perfeitamente, quando tudo acontece de uma maneira ordeira, maridos indo para seus carros com canecas de café, esposas seguindo logo depois, vestidas com roupas de pilates, menininhas em vestidos Baby Gap e assentos de carro e SUVs Lexus e copos do Starbucks e normalidade. Eu me pergunto qual delas é a versão verdadeira. Mal há carros na estrada. Eu continuo a rastejar a vinte quilômetros por hora. Eu estou procurando por algo, mas não sei o quê. Eu passo a rua de Elody e continuo. Cada poste de iluminação lança um funil de luz para baixo, iluminando o interior do carro brevemente, antes que eu seja deixada novamente na escuridão. Meus faróis passam por uma placa de rua verde amassada vinte metros adiante: Serenity Place. Eu subitamente me lembro de estar sentada na cozinha de Ally no primeiro ano enquanto a mãe dela conversava ao telefone infinitamente, andando de um lado para o outro na varanda com pés descalços e calças de ioga. “Ela está tomando sua dose diária de fofoca,” Ally tinha dito, rolando os olhos. “Mindy Sachs é melhor que a US Weekly.” E Lindsay havia comentado sobre quão irônico era que a Sra. Sachs morasse em Serenity Place—como se ela não levasse o barulho com ela—e foi a primeira vez que eu realmente entendi o significado da palavra irônico. Eu jogo meu volante no último segundo e freio, passando por Serenity Place. Não é uma rua comprida—não há mais do que duas dúzias de casas nela—e como muitas ruas em Ridgeview, termina em um retorno. Meu coração salta quando eu vejo um Saab prata perfeitamente estacionado em uma das entradas de carros. Está escrito na placa: MÃE DE4. Esse é o carro da Sra. Sachs. Eu devo estar perto. A próxima casa é a número cinquenta e nove. Está marcada com uma caixa de correio de latão em forma de galo, que sai de um canteiro de flores que a essa época do ano não passa de um longo pedaço de terra escura. SYKES está pintado ao longo das asas do galo, em letras tão pequenas que você precisa estar procurando antes de vê-las. Eu não posso explicar, mas sinto como se fosse reconhecer a casa de qualquer jeito. Não há nada de errado com ela—não é diferente de qualquer outra casa, nem a maior, nem a menor, decentemente bem-cuidada, pintura branca, cortinas escuras, uma única luz

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acesa no andar de baixo. Mas há algo mais, alguma qualidade que eu não posso realmente identificar que faz parecer com que a casa seja grande demais para si mesma, como se algo dentro dela estivesse se esforçando para sair, como se o lugar todo estivesse prestes a rasgar em seus cantos. É uma casa desesperada, de algum modo. Eu entro na entrada de carros. Não é da minha conta estar aqui, eu sei disso, mas não posso evitar. É como se algo estivesse me puxando do lado de dentro. A chuva está caindo forte, e eu pego um suéter velho do banco de trás—de Izzy, provavelmente—e o uso pra proteger minha cabeça enquanto eu corro do carro para a varanda da frente, minha respiração formando nuvens na minha frente. Antes que eu possa pensar demais no que estou fazendo, eu toco a campainha. Leva um longo tempo para alguém atender a porta, e eu dou uma pequena corrida, minha respiração condensando na minha frente, tentando me manter aquecida. Finalmente há um barulho de movimento no lado de dentro, e então um ranger de dobradiças. A porta se abre, e uma mulher está de pé ali, piscando para mim confusamente: a mãe de Juliet. Ela está usando um roupão de banho, que ela segura fechado com uma mão. Ela é magra como Juliet, e tem os mesmos olhos azuis claros e pele pálida de ambas suas filhas. Olhando para ela, sou lembrada de um fio de fumaça se enrolando no escuro. “Posso ajudar?” A voz dela é muito suave. Eu estou meio balançada. Por algum motivo eu esperava que Marian fosse quem viria abrir a porta. “Meu nome é Sam—Samantha Kingston. Eu estou procurando por Juliet.” Porque isso funcionou da primeira vez, eu adiciono, “Ela é minha parceira de laboratório.” Do lado de dentro, um homem—o pai de Juliet, eu acho—grita, “Quem é?” A voz é estridente e alta, e tão diferente da Sra. Sykes que eu inconscientemente dou um passo para trás. A Sra. Sykes dá um pequeno pulo, e vira a cabeça rapidamente, inadvertidamente abrindo a porta mais alguns centímetros. O corredor atrás dela está escuro. Sombras azuis escuras e verdes dançam em uma parede, imagens projetadas por uma televisão em uma sala que eu não posso ver. “Não é ninguém,” ela diz rapidamente, sua voz direcionada à escuridão atrás dela. “É para Juliet.” “Juliet? Alguém está aqui para ver Juliet?” Ele soa exatamente como um cachorro. Au, au, au, au. Eu luto contra uma vontade selvagem, nervosa de rir. “Eu cuido disso.” A Sra. Sykes se volta para mim. Novamente, a porta se fecha com o movimento dela, como se ela estivesse se escorando na porta em busca de apoio. Seu sorriso não chega realmente aos olhos. “Juliet não está em casa no momento. Há algo com que eu possa ajudar você?”

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“Eu, um, faltei aula hoje. Nós tínhamos esse grande trabalho...” Eu deixo minha voz morrer impotentemente, começando a me arrepender por ter vindo. Apesar da minha North Face, eu estou tremendo como uma maníaca. Eu devo parecer uma maníaca também, pulando de pé em pé, agarrando um suéter sobre minha cabeça como guarda-chuva. A Sra. Sykes parece notar, finalmente, que eu estou na chuva. “Por que você não entra,” ela diz, e dá um passo para trás no corredor. Eu a sigo para dentro. Uma porta aberta à esquerda leva diretamente ao lado do corredor: é onde a televisão está. Eu só posso ver o braço de uma poltrona e a silhueta de alguém sentado lá, a ponta de um enorme queixo tocado com o azul da tela. Eu lembro o que Lindsay disse então, sobre o pai de Juliet ser um alcoólatra. Eu lembro vagamente de ouvir o mesmo rumor, e algo mais também—que tinha havido um acidente, algo sobre paralisia parcial ou pílulas ou algo assim. Eu queria ter prestado mais atenção. A Sra. Sykes me pega olhando e anda rapidamente para a porta, fechando-a. Agora está tão escuro que eu mal consigo ver, e eu percebo que ainda estou com frio. Se o aquecedor está ligado na casa, eu não consigo senti-lo. Da sala da TV eu ouço os sons de um grito de filme de terror, e o ritmo estável e sincopado de tiros de metralhadora. Agora eu definitivamente estou me arrependendo de ter vindo. Por um segundo eu tenho essa fantasia maluca de que Juliet vem de uma família inteira de serial killers, e que a qualquer segundo a Sra. Sykes vai dar uma de O Silêncio dos Inocentes em mim. A família toda é maluca, é o que Lindsay tinha dito. A escuridão está oprimindo tudo ao meu redor, sufocante, e eu quase grito de alívio quando a Sra. Sykes liga uma luz e o corredor parece iluminado e normal, e não cheio de troféus humanos mortos ou algo assim. Há um arranjo de flores seco em uma mesa lateral decorado com fita, ao lado de uma foto de família em um porta-retratos. Eu queria vê-lo mais de perto. “Era importante, o trabalho?” A Sra. Sykes pergunta, quase em um sussurro. Ela lança um olhar nervoso na direção da sala de TV, e eu imagino se ela pensa que está sendo barulhenta demais. “Eu só... eu só meio que prometi a Juliet que viria buscar algumas coisas para nossa apresentação de recuperação na segunda-feira.” Eu tento baixar a minha voz, mas ela ainda estremece. “Eu achei que Juliet disse que iria estar em casa hoje à noite.” “Juliet saiu,” ela diz, e então, como se ela estivesse desacostumada a dizer as palavras e está testando-as na língua, repete, “Ela saiu. Mas talvez ela tenha deixado para você?” “Eu poderia procurar,” eu digo. Eu quero ver o quarto dela, eu me dou conta: é por isso que estou aqui. Eu preciso vê-lo. “Ela provavelmente só os jogou na cama dela ou algo assim.” Eu tento soar casual, como se Juliet e eu estivéssemos em ótimos termos uma com a outra—como se não fosse estranho para eu chegar na casa dela às dez e meia de uma noite de sexta-feira e tentar me enfiar no quarto dela. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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A Sra. Sykes hesita. “Talvez eu possa ligar para o celular dela,” ela diz, e então adiciona em tom de desculpas, “Juliet odeia que entrem no quarto dela.” “Você não precisa ligar para ela,” eu digo rapidamente. Juliet provavelmente vai dizer à mãe dela para chamar a polícia. “Não é tão importante assim. Eu ligo para ela amanhã.” “Não, não. Eu vou ligar para ela. Só vai levar um segundo.” A mãe de Juliet já está desaparecendo na cozinha. É incrível como ela se move rápida e silenciosamente, como um animal deslizando para dentro e para fora das sombras. Eu considero dar o fora enquanto ela está na cozinha. Eu penso em ir para casa, me enfiar na cama, assistir filmes antigos no meu computador. Talvez eu faça uma garrafa de café e fique acordada a noite inteira. Se eu nunca for dormir, talvez hoje vá precisar se tornar amanhã. Eu imagino futilmente quanto tempo eu posso ficar sem dormir antes de pirar e começar a correr pela rua de roupa íntima, tendo alucinações com aranhas roxas. Mas ao invés disso eu só fico ali, esperando. Não há nada mais a se fazer, então eu dou alguns passos adiante e me inclino para ver a fotografia na mesa. Por um segundo eu fico confusa: é uma foto de uma mulher estranha, provavelmente de vinte e cinco ou trinta anos, com os braços ao redor de um homem de boa aparência em uma camisa de flanela. As cores estão todas saturadas e brilhantes como Technicolor, e o casal parece perfeito, brilhante, todo dentes brancos e sorrisos deslumbrantes e lindo cabelo castanho. Então eu vejo as palavras impressas no canto inferior da imagem—ShadowCast Images, Inc.—e percebo que esta nem mesmo é uma foto de família de verdade. É uma das imagens genéricas que vêm junto com o porta-retratos, uma propaganda brilhante e feliz de todos os momentos brilhantes e felizes que você pode capturar para sempre dentro do portaretratos de prata de lei com detalhe de borboleta tamanho 13x18cm. Ninguém se incomodou em substituí-la. Ou talvez a família Sykes não tenha muitos momentos brilhantes e felizes para lembrar. Eu me afasto rapidamente, desejando não ter olhado. Embora seja apenas uma imagem de dois modelos, eu sinto, estranhamente, como se tivesse visto algo pessoal demais, como se eu acidentalmente tivesse visto a parte de dentro da coxa ou os pelos do nariz de alguém ou algo assim. A Sra. Sykes ainda não está de volta, então eu vago para fora do corredor para a sala de estar à direita. É quase totalmente escura, e é toda tecido xadrez e renda e flores secas. Parece como se não tivesse sido redecorada desde os anos cinquenta. Há uma única lâmpada fraca brilhando perto da janela, lançando um reflexo circular no painel negro de vidro, uma versão da sala aparecendo em miniatura ali. E um rosto.

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Um rosto gritando pressionado contra a janela. Eu deixo escapar um gritinho de medo antes de perceber que isso, também, é um reflexo. Há uma máscara montada em uma mesa bem em frente à janela, de frente para a sala. Eu vou até ela e a levanto cuidadosamente de seu suporte. É um rosto de mulher feito de jornal e barbante vermelho, que está entrecruzado pela pele como cicatrizes horríveis. Palavras correm pela ponte do nariz e pela testa, certas manchetes visíveis ou meio visíveis, como RECURSO DE BELEZA e TRAGÉDIA ATINGE, e pequenos pedaços de papel estão saindo de vários lugares em seu rosto, como se ela estivesse trocando de penugem. A boca e olhos são completamente cortados, e quando eu levando a máscara para o meu rosto, ela cabe bem. O reflexo na janela é horrível; eu pareço com algo doente, ou um monstro de um filme de terror. Eu não consigo desviar o olhar. “Juliet fez isso.” A voz atrás de mim me faz pular. A Sra. Sykes reapareceu e está apoiada contra a porta, franzindo a testa para mim. Eu tiro a máscara, a devolvo rapidamente para seu suporte. “Eu sinto muito. Eu vi isso e... eu só queria experimentar,” eu concluo estupidamente. A Sra. Sykes se aproxima e rearruma a máscara, endireitando-a, fazendo questão de alinhá-la corretamente. “Quando Juliet era mais nova ela estava sempre desenhando, sempre esboçando ou pintando algo ou costurando seus próprios vestidos.” A Sra. Sykes dá de ombros, balança uma mão. “Eu não acho que ela se interesse muito por essas coisas agora.” “Você falou com Juliet?” Eu pergunto nervosamente, esperando que ela me expulse. A Sra. Sykes pisca para mim várias vezes, como se estivesse tentando me fazer entrar em foco. “Juliet...” ela repete, e então sacode a cabeça. “Eu liguei pro celular dela umas duas vezes. Ela não atendeu. Ela geralmente não sai nos fins de semana...” A Sra. Sykes olha para mim desamparadamente. “Eu tenho certeza de que ela está bem,” eu digo tão animadamente quanto consigo, sentindo como se cada palavra fosse uma faca entrando em meu estômago. “Ela provavelmente não ouviu o telefone.” De repente, a coisa que eu mais quero é sair dali. Eu não posso suportar mentir para a Sra. Sykes. Ela parece tão triste, de pé em sua camisola, pronta para a cama—como se ela já estivesse meio que dormindo. É assim que a casa inteira parece, como se estivesse envolvida em um sono pesado, do tipo que te sufoca, não te deixa acordar, te arrasta de volta para as cobertas, afundando, mesmo quando você luta contra ele.

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Eu imagino Juliet se esgueirando até seu quarto no escuro, e o silêncio, através da atmosfera de sono tão densa que parece sólida, a canção de ninar de tábuas rangendo e radiadores chiando quietamente, as lentas rotações de pessoas orbitando sem palavras uma ao redor da outra... E então... Bang. A Sra. Sykes me acompanha até a frente da casa. “Você pode passar aqui amanhã,” ela diz. “Eu tenho certeza de que Juliet terá tudo pronto até lá. Ela geralmente é muito responsável. Uma boa menina.” “Claro. Amanhã.” Eu nem mesmo gosto de dizer a palavra, e aceno um adeus rápido antes de correr novamente pelo escuro até o meu carro. Está ainda mais frio do que estava antes. A chuva, meio congelada, escorre do teto do meu carro enquanto eu sento ali, esperando o motor aquecer, soprando minhas mãos e tremendo, grata por estar fora dali. Assim que eu estou fora da casa, um peso se levanta do meu peito, como se a atmosfera e pressão do lado de dentro fosse diferente, mais pesada. Minha primeira impressão estava certa: realmente é uma casa desesperada. Eu vejo a silhueta da mãe de Juliet na janela. Eu me pergunto se ela está esperando eu ir embora ou a filha dela chegar. É quando eu tomo uma decisão. Eu sei o que vou fazer. Eu vou para a casa de Kent e eu vou encontrar Juliet, e se eu precisar, vou acertar ela no rosto. Eu vou fazê-la ver quão idiota toda a ideia de morte é. (Certamente não é nenhum piquenique para mim.) Se chegar a isso, eu vou amarrá-la na parte de trás do meu carro para que ela não possa pegar a arma. Eu percebo que nunca realmente fiz algo bom para alguém, pelo menos não por um tempo. Eu me voluntario para ajudar no Refeições Sobre Rodas, mas isso é porque as faculdades gostam desse tipo de coisa; BU mencionou especialmente caridade na porção requerimento de seu site. E obviamente eu sou legal com meus amigos, e dou ótimos presentes de aniversário (uma vez eu passei um mês e meio coletando saleiros em forma de vaca para dar para Ally, porque ela ama vacas e sal). Mas eu não costumo fazer boas ações só por fazer. Essa vai ser minha boa ação. Então eu tenho um brilho de uma ideia. Eu lembro quando estávamos estudando Dante em Inglês, e Ben Gowan ficou perguntando se as almas no purgatório alguma vez eram jogadas no inferno (Ben Gowan foi suspenso uma vez por fazer um desenho de uma bomba explodindo no refeitório e todas aquelas cabeças decapitadas voando para todo canto, então a pergunta para ele era normal), e a Sra. Harbor entrou em uma de suas tangentes e disse que não, isso não era possível, mas que alguns pensadores Cristãos modernos acreditavam que você poderia subir do purgatório para o paraíso uma vez que tivesse passado tempo suficiente lá. Eu nunca acreditei realmente em paraíso. Isso sempre

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soou como uma ideia maluca: todo mundo reunido e feliz, Fred Astaire e Einstein dançando um tango nas nuvens, esse tipo de coisa. Mas então, eu nunca realmente acreditei que teria que reviver um dia para sempre, também. Não é mais maluco do que já aconteceu comigo. Talvez o objetivo todo seja que eu tenho de provar que sou uma boa pessoa. Talvez eu tenha de provar que eu mereço ir adiante. Talvez Juliet Sykes seja a única coisa entre mim e uma eternidade de fontes de chocolate e amor perfeito e garotos que sempre ligam quando eles dizem que vão e sundaes de banana que na realidade te ajudam a emagrecer. Talvez ela seja minha passagem para fora.

deselegantemente atrasada Nem sequer me incomodo em parar na entrada da garagem de Kent. Não estava planejando ficar ali muito tempo, e eu não queria ficar bloqueada ali. Além do mais, algo sobre caminhar entre a mata na chuva me incomoda. É um teste, outro modo que eu posso me sacrificar. E das minhas limitadas memórias de escola aos domingos (minha mãe desistiu da briga depois que eu tive uma enorme crise de pirraça quando tinha sete anos, e ameacei me converter em vodu, mesmo que eu não tivesse certeza exatamente do que era isso), eu sei que é assim que isso funciona: você tem que sacrificar algo. Parei no desnível da Rota 9, agarrando o suéter de Izzy de novo, que agora está ensopado. Ainda assim, é melhor que nada. Eu o pus sobre a cabeça e saí do carro, parando por um segundo. A avenida está vazia, marcas escuras de sombra intercalando com pequenos pontos amarelos iluminados pelos postes. Tentei localizar exatamente onde o carro de Lindsay havia rodado na primeira noite, mas tudo parece igual. Poderia ter sido em qualquer lugar. Volto a buscar, mais uma vez, alguma memória de vida antes da colisão, antes da escuridão, mas não consegui nada. É uma caminhada mais longa do que eu havia pensado, o caminho intercala entre uma fina camada de gelo e algo viscoso que suga meu New Balance roxo como areia movediça. Depois de alguns minutos, posso ouvir a baixa vibração da música vindo da festa, pulsando através da escuridão como se pertencesse ali, como se o ritmo fosse parte da noite. Isso uns dez minutos antes que eu possa ver a fraca cintilação das luzes piscando esporadicamente entre as árvores—graças a Deus, porque eu já estava começando a pensar que estava andando em círculos—e cinco minutos antes das árvores parecerem mais finas e eu poder ver a casa, uma grande pilha de bolo de sorvete situada no gramado, tremeluzindo dentro e fora com a chuva caindo e dividindo as luzes do pórtico. Estou

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totalmente congelada, e cem por cento reprova minha decisão de vir andando. Esse é o grande problema com sacrifícios. É doloroso, literalmente.

Assim que eu entrei pela porta, duas garotas soltaram risinhos, e um grupo de garotos ficaram boquiabertos. Eu não os culpo. Sabendo que devo estar como uma merda. Antes de sair de casa, eu nem sequer me incomodei em trocar a minha calça—uma de tamanho enorme de veludo que a minha mãe me deu quando ainda estavam na moda. Não perco nenhum tempo com os garotos, já irritada por poder ter chegado muito tarde. Tara está descendo os degraus ao mesmo tempo em que forço minha passagem, seguro-a, sussurrando em seu ouvido. “Juliet Sykes!” Eu tenho que gritar. “O quê?” Ela grita de volta, sorrindo. “Juliet Sykes! Ela está aqui?” Tara aponta para o ouvido, demonstrando que não pode me ouvir. “Você está procurando por Lindsay?” Courtney está atrás de Tara, e se inclina para frente, apoiando o queixo sobre o ombro de Tara. “Nós encontramos o estoque secreto de rum e tal. Tara quebrou um vaso” ela ri. “Você quer um pouco?” Balanço a cabeça. Eu nunca estive assim sóbria ao redor de pessoas assim bêbadas, e eu faço uma breve reza pedindo para não ser metade chata como eles quando estou bêbada. Começo a subir os degraus quando Tara grita: “Lindsay está nos fundos.” Depois de eu estar totalmente fora do alcance de audição dela, posso ouvir Courtney guinchar: “Você viu o que ela está vestindo?” Respiro fundo brevemente, dizendo a mim mesma que isso não importa. O que importa é encontrar Juliet. Eu posso pelo menos fazer isso. Mas com cada passo eu começo a perder a esperança. O corredor no andar de cima está totalmente parado, e a menos que ela não tenha vindo à festa—o que soa como se eu estivesse esperando muito—é pouco provável que ela já não tenha ido. Ainda assim, eu continuo finalmente fazendo o caminho de volta a sala.

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A catapulta de Lindsay me atinge assim que eu entro na sala—na verdade ela saltou sobre cinco pessoas—por um segundo eu estou tão grata por vê-la, feliz e bêbada e minha melhor amiga, e por estar sendo recebida com um de seus famosos abraços de urso, que me esqueço do porque de estar aqui. “Garota má.” Ela agarra minha mão quando se afasta. “Você mata a aula, mas vem para a festa? Feia. Feia.” “Estou procurando por alguém,” eu digo. Então observo a sala: Juliet não está aqui. Não que eu esperasse, eu não sei, sentada no sofá e conversando com Jake Somers, mas é um instinto—e um pensamento desejoso— de olhar. “Rob está lá embaixo.” Lindsay vai um pouco para trás e ergue as mãos, enquadrando-me no ângulo entre seus dedos. “Você parece com um homem sem teto que roubou a Wal-Mart. Você está tentando não conseguir transar ou o quê?” Irritação se sobressai mais uma vez. Lindsay, quem sempre tem algo pra comentar. “Você viu Juliet Sykes?” Eu perguntei. Lindsay me encara por um segundo e depois cai no riso. “Você está falando sério?” Um sentimento de enorme alívio atravessando por mim. Talvez ela nunca apareça. Talvez ela tenha tido um problema com o carro, ou perdeu os nervos, ou... “Ela me chamou de cadela.” Nesse momento Lindsay me estilhaça. Ela veio. “Você pode acreditar nisso?” Lindsay ainda está estourando. Ela passa um braço ao redor de meus ombros e chama: “Elody! Ally! Sammy está aqui! E ela está procurando pela sua melhor amiga, Juliet!” Elody nem sequer se vira, ela está ocupada demais com Steve Dough. Mas Ally se vira em minha direção, sorri, acena. “Oi, querida!” E então ergue uma garrafa vazia de vodka. “Se você vir a Juliet,” ela murmura, “pergunte o que ela fez com o resto da minha bebida!” Ela e Lindsay acham isso hilário, e Lindsay grita novamente: “Psicotini!” Eu estou muito atrasada. A descoberta me faz sentir doente, e minha raiva com Lindsay vem voltando. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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“Minha melhor amiga?” Eu repito. “Que engraçado. Eu pensava que você era quem estava toda amiguinha de Juliet.” “Do que você está falando?” O rosto de Lindsay fica sério. “Amigas de infância. Melhores amigas. Ratas juntas. Coelhas de areia.” Lindsay parecia como se fosse dizer algo de novo, mas eu a corto. “Eu vi as fotos. Então o que aconteceu? Ela pegou você peidando ou o quê? Viu você tirando meleca? Descobriu que a famosa Lindsay Edgecombe não é perfeita depois de tudo? O que ela fez de tão ruim?” Lindsay abre a boca e então fecha. “Ela é uma aberração,” ela murmura impetuosamente, mas eu vejo algo em seus olhos que nunca havia visto antes, uma expressão que eu não pude identificar. “Que seja.” Eu tenho que encontrar Juliet Sykes. Sigo meu caminho de volta descendo os degraus, ignorando as pessoas chamando o meu nome, batendo em meu ombro, e sussurrando sobre o fato de eu ter aparecido em público vestida como se eu estivesse prestes a ir dormir—o que é, obviamente, exatamente o que havia acontecido. Imaginei se eu era rápida o suficiente para pegar Juliet no caminho. Ela deve ter parado em algum lugar. Ela está provavelmente presa. Deve levar uma hora para as pessoas tirarem os carros (isso se ela conseguir convencer alguém a ajudar, o que é pouco provável) e mais ainda se ela decidiu ir caminhando. Felizmente eu segui meu caminho sem esbarrar com Rob. A última coisa que eu precisava era me explicar para ele. Havia um grupo de secundaristas parados perto da entrada parecendo aterrorizados e mais ou menos sóbrios. Eu peguei a chance com eles. “Vocês viram Juliet Sykes?” Eles me encaram sem expressão. Suspirei, engolindo minha frustração. “Cabelo loiro, olhos azuis, alta”. Eles ainda me encaravam vagamente, e eu me dei conta de que não sabia exatamente como descrevêla. Perdedora, eu quase disse—eu teria dito três dias atrás. Mas agora eu não posso deixar isso sair. “Bonita,” eu digo, testando a palavra. Quando isso não funciona, eu cravo as unhas nas palmas. “Provavelmente parecendo ensopada.” Finalmente o rosto das garotas se ilumina com reconhecimento.

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“Banheiro,” uma delas diz, apontando para um pequeno nicho antes da cozinha. Há uma fila de pessoas batendo na porta. Uma delas aponta para ela olhar e disse algo que eu não consigo ouvir, mas ela pareceu zangada. “Ela está ali há, tipo, uns vinte minutos,” uma secundarista diz. Meu estômago cai para os pés, e eu quase fico doente bem ali. Banheiros têm pílulas. Banheiros têm navalhas. Pessoas se trancam em banheiros quando querem fazer coisas más, como fazer sexo ou se jogar. Ou se matar. Eu não deveria ir por esse caminho. Eu deveria salvar você. Eu acotovelei as pessoas até chegar ao banheiro, passando através da fila cheia de pessoas ali. Pressiono meu ouvido na porta, procurando por som de choro ou corte ou qualquer coisa. Nada. Meu estômago revira outra vez. E de novo, é quase impossível ouvir com a música tão alta. Eu bato suavemente e a chamo; “Juliet? Você está bem?” “Talvez ela esteja dormindo,” Chrissy Walker diz. Eu lanço para um olhar que, eu espero, tenha mostrado o quão estupidamente desnecessário havia sido esse comentário. Bato de novo, apertando meu rosto contra a porta. É difícil dizer se eu ouvi um fraco gemido vindo de dentro—no momento em que a música guinchou ainda mais alta, abafando tudo mais. Mas eu podia imaginá-la ali, desvanecida, bem contra a porta, pulsos cortados e sangue em todo canto... “Chame o Kent,” eu digo, puxando uma longa respiração. “Quem?” Joanne pergunta. “Eu preciso fazer xixi,” Rachel diz, pulando para cima e para baixo. “Kent McFuller. Agora. Faça isso,” eu ordeno a Joanne, e ela parece perplexa, mas se apressa indo para o corredor. Cada segundo parece uma eternidade. Foi a primeira vez que eu realmente entendi o que Einstein disse sobre a relatividade, quanto tempo se curva ao redor e se alonga para fora como um grudento urso. “Com o que você se importa, de todos os modos?” Rachel questiona, murmurando alto o suficiente para que eu pudesse ouvir.

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Eu não respondo. A verdade é que eu não tenho resposta, realmente. Eu tenho que salvar Juliet—eu sinto isso. É a minha boa ação. Eu tenho que me salvar. Eu, de repente, não tenho certeza se isso me fazia melhor ou pior que alguém que não faz nada, então eu empurrei isso para fora da minha mente. Joanne volta com Kent atrás. Ele parece zangado, sua testa enrugada debaixo do desgrenhado cabelo castanho, que caía sobre seus olhos. Meu estômago deu uma volta. Ontem nós estávamos numa sala escura, não mais que duas polegadas distantes, tão perto que eu podia sentir a inacreditável quentura da pele dele. “Sam,” ele diz, então veio mais perto para agarrar o meu pulso, encarando fundo em meus olhos. “Você está bem?” Eu estou tão surpresa pelo repentino toque que pulei para trás, só um pouquinho, e Kent tirou sua mão. Eu não sei como explicar o modo como isso fez eu me sentir vazia por dentro. “Estou bem,” eu digo totalmente aérea no momento sobre quão ridícula eu deveria parecer para ele: o cabelo bagunçado, a calça para ficar em casa. Ele, em comparação, parece um pouco arrumado. Tem algo sujo-fofo em seus tênis quadriculados e frouxos, calça com cinto baixo, e as mangas de sua camisa dobradas para cima, mostrando um bronzeado que ele conseguiu só Deus sabe aonde. Certamente não em Ridgeview nos últimos seis meses. Ele parece confuso. “Joanne disse que você precisa de mim.” “Eu preciso de você.” Isso sai estranho e intenso, e eu senti que ia corar. “Eu digo, eu não preciso de você, eu só preciso...” Respiro fundo. Acho que eu vejo um brilho momentâneo nos olhos de Kent e isso me distrai. “Eu estou preocupada com Juliet Sykes trancada no banheiro.” Justo depois de dizer isso, eu me contraio. Soei ridícula. Ele provavelmente me diria que eu estava sendo insana. Afinal, ele não sabe o que eu sei. O brilho morre e seu rosto fica sério. Ele passa por trás de mim e força a porta, então ele para por um segundo, pensando. Ele não me diz que eu estou louca, ou paranoica, ou qualquer coisa. Ele simplesmente diz: “Não tem chave. Eu poderia tentar abrir a trava. Sempre podemos quebrar para abrir se for preciso.” “Eu vou fazer xixi lá em cima,” Rachel anuncia então se vira sobre os calcanhares e segue seu caminho. Kent procura em seus bolsos traseiros, e puxa um punhado de

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alfinetes de segurança. “Não pergunte,” ele diz quando eu ergo os olhos. Eu ergo minhas mãos e não empurro a questão. Eu estou grata por ele estar ajudando sem perguntar nada. Ele se agacha, dobrando o alfinete para trás, e então usando como uma chave. Ele manteve a orelha pressionada contra a porta, como se estivesse escutando por um clique. Finalmente minha curiosidade pega o melhor de mim. “Você tem um trabalho depois da escola roubando bancos ou algo assim?” Ele faz uma careta, força a porta, deslizando o alfinete novamente no bolso, e pega um cartão de sua carteira. “Dificilmente.” Ele força o cartão na fenda entre o batente e a porta e move. “Minha mãe costumava manter as porcarias trancadas atrás da porta da despensa.” Ele endireita e torce a maçaneta. A porta abriu devagar, e meu coração sobe para a garganta. Parte de mim esperando que o rosto de Juliet fosse aparecer furioso, ou que a porta fosse ser batida de novo de dentro. Isso seria o que eu faria se alguém tentasse abrir a porta do banheiro quando eu estou dentro. Isso é, se eu estivesse próxima—viva—para fechá-la. Mas a porta ficou ali, aberta numa pequena fresta. Kent e eu olhamos um para o outro primeiro. Acho que ambos estávamos com medo de abrir mais que isso. Então Kent cutucou a porta com o dedo, chamando. “Juliet?” A porta balançou aberta—de novo, tempo se alongando, pareceu durar para sempre—e nesse segundo, ou meio segundo, eu de algum modo tive tempo para conjurar cada possibilidade horrível, para imaginar o corpo dela desmaiado no chão. E quando a porta para de balançar, o banheiro está ali: perfeitamente limpo, perfeitamente normal, e perfeitamente vazio. As luzes estão acesas, e há uma toalha de mão molhada largada contra a pia. A única coisa fora do comum era a janela. Totalmente aberta, e chuva esteve batendo no ladrilho. “Ela saiu pela janela,” Kent diz ao mesmo tempo em que eu peno nisso. Eu não posso medir seu tom. Meio triste meio admirado. “Droga.” Claro. Depois de uma humilhação como essa, ela teria saído pelo escape mais fácil possível, o que chamaria menos atenção. A janela dava para uma inclinação ao gramado, e, claro, ao bosque. Ela deve ter feito uma corrida ali, planejando dar a volta ao redor e de volta em direção da rodovia. Sai do banheiro. Kent chamando: “Espere!” Mas eu já estou descendo o corredor e passando a porta, indo para a varanda.

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Agarro minha lanterna e o suéter atrás de um vaso, onde eu havia deixado e então cruzo pelo gramado. A chuva não está tão ruim no momento, mais como uma fria mistura caindo em sólidas camadas, mas é o tipo de frio que vai justamente através de você. Mantive minha lanterna apontada para o chão, enquanto rondava ao redor da casa. Não sou exatamente uma mestra em rastrear, mas eu havia lido o suficiente de antigos mistérios para saber que você deve sempre procurar por pegadas. Infelizmente, a lama é tão espessa e úmida que tudo acaba misturado. Ainda assim, logo abaixo da janela do banheiro posso ver uma marca, onde ela deve ter caído, e uma série de marcas indo, como eu suspeitei, direto para o bosque. Ajusto o suéter mais contra meu corpo e me lanço atrás dela. Não consigo ver nada, mas alguns passos mostrados pela luz estendiam em um círculo a minha frente. Nunca tive medo do escuro, exatamente, mas o infinito raspando e chiando das árvores e o constante tamborilar da chuva entre as brechas faz soar como se as florestas tivessem vida e, balbuciam longe, como uma dessas pessoas loucas que você vê em Nova York que estão sempre com carrinhos acabados cheios de sacos vazios. Não há por que tentar seguir as pegadas de Juliet. Elas são totalmente invisíveis no chão úmido com folhas caídas, lama e lascas de árvores podres. Logo eu dei de cara com, o que eu esperava que fosse, a direção da estrada, esperando pegá-la em seu caminho para casa. Tenho quase certeza de que era isso que ela pretendia fazer. Se você está tão desesperada para deixar uma festa—e das pessoas nela— a ponto de escalar a janela, é difícil imaginar que você vai voltar em alguns minutos e, pedir para que as pessoas movam os seus Hondas. A chuva começa a cair mais forte, chiando através dos ramos com gelo, o som de galho com galho. Meu peito arde pelo frio, e embora eu esteja indo o mais rápido que posso, meus dedos parecem entorpecidos e eu tenho problemas para segurar a lanterna. Mal posso esperar para chegar ao meu carro e ligar o aquecedor. Então eu vou dirigir nas ruas procurando por ela. Na pior das hipóteses eu vou interceptá-la na casa dela. Se eu pudesse só fazer isso fora dessa aberração de bosque. Eu me pressiono para frente, ainda mais rápido, meio trotando, meio tentando me aquecer. A todo o momento eu chamo: “Juliet!”, mas não espero conseguir alguma resposta. O tamborilar da chuva ficando mais forte e constante grandes gotas caindo na minha nuca e me fazendo arquejar. “Juliet! Juliet!” O tamborilar se torna apressado. Filetes de água congelada batendo em mim. Eu mantenho o trote, a lanterna oscilando em minha mão. Não posso sentir mais os meus dedos, nem consigo saber mais se estou indo na direção certa. Eu poderia estar correndo em círculos, era tudo que eu sabia.

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“Juliet!” Comecei a ficar com medo. Eu faço uma volta completa, varrendo com minha lanterna através da escuridão: nada além de largas árvores em todos os lados. Eu não levo esse tempo para andar através dali no caminho para casa de Kent, tenho certeza. Meus dedos pareciam ter o dobro do tamanho que deveriam ter, como eu estou rodando, a lanterna cai de minha mão. Houve um “crash” e o som de algo se partindo. A luz pisca e desaparece, e eu sou deixada totalmente na escuridão. “Merda, merda, merda, merda.” Praguejar em voz alta me faz sentir melhor. Dou alguns passos hesitantes em direção a lanterna, mantendo meus braços para frente assim eu não colidiria com nada. Depois de alguns passos vacilantes eu dobro sobre meus joelhos, instantaneamente destruindo a minha calça de ficar em casa com a umidade filtrando através do tecido. Esfrego minhas mãos na lama a minha frente, tentando arduamente não pensar muito sobre o que eu estou tocando. Chuva caindo em meus olhos. Minha roupa grudada a pele, e cheirando como cachorro molhado. Eu tremo incontrolavelmente. Isso é o que acontece quando você tenta ajudar as pessoas. Você fica fodida. Sinto um caroço se formar em minha garganta. Na intenção de me manter focada, eu penso sobre o que Lindsay diria se ela estivesse presa comigo no meio da noite entre as árvores que se estendem só Deus sabe quantos quilômetros no infinito, se ela me visse ajoelhada no chão como uma demente, completamente coberta de lama. “Samantha Kingston,” ela diria, rindo. “Eu sempre soube, lá no fundo, que você é uma garota muito suja.” O pensamento só me atingiu por um segundo. Lindsay não está ali comigo. Lindsay está provavelmente se esfregando com Patrick em uma sala aquecida e muito seca bem agora, ou passando a maconha de um para o outro perguntando, em voz alta, a Ally por que eu estive agindo tão estranha. Estou completamente perdida, completamente miserável, e completamente sozinha. A dor em minha garganta se intensificou até eu sentir como se um animal estivesse tentando subir sobre minha garganta. E eu, de repente, estou brava com Juliet—tão brava que eu poderia socá-la. Não consigo ver como ela pode ser tão egoísta. Não importa o motivo—não importa quão ruim as coisas estejam—ela tem uma escolha. Nem todos tem tanta sorte. Foi quando eu ouvi o som mais bonito que eu já havia ouvido em meus dezessete anos de vida (mais cinco dias de vida-após-a-morte.) Ouço uma buzina.

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O som é distante, e parece como que no início—um baixo lamento através da noite de alguém em alta velocidade se inclinando contra a buzina. Eu estou mais perto da estrada do que havia imaginado. Tropeço em meus pés, indo o mais rápido que posso, seguindo o barulho do som, mantendo meus braços erguidos a frente como uma múmia, deixando para trás galhos e o escorregadio toque enlameado. Meu coração batendo com excitação, e empenhada pelo barulho—qualquer outro barulho—para me guiar. Depois de um minuto eu posso ouvir outro ronco, esse mais perto. Eu posso soluçar de alívio. Outro minuto e eu posso ouvir o baque de um aparelho de som, afinando dentro e então fora de novo com a velocidade do carro. Outro minuto e eu posso ver, ligeiramente de entre as árvores, o brilho de uma luz do poste. Eu havia encontrado a estrada. Assim com as luzes ficando mais perto e as árvores mais finas, eu posso ver um pouco melhor, e eu começo a avaliar ali. Tão ocupada fantasiando sobre pilhas e pilhas de cobertores—eu quero pegar cada um que eu puder encontrar em casa—e com chocolate quente e chinelos macios e banho, que eu não vi Juliet Sykes até o último minuto, quando eu quase esbarro contra ela. Ela está encolhida sete ou oito pés distante da estrada, os braços abraçados contra seu pescoço. Água a deixou seu top branco quase totalmente transparente, e eu posso ver seu sutiã – listrado – e todos os ossos de sua espinha. Eu estou tão surpresa por cruzar com ela assim que esqueci, momentaneamente, que ela é toda a razão por eu estar aqui fora em primeiro lugar. “O que você está fazendo?” Eu pergunto, de forma audível através da chuva. Ela olha para cima, para mim. As luzes tilintando em seu rosto. Seus olhos caídos. “O que você está fazendo?” ela repete para mim. “Eu, hmmm, estava procurando por você na verdade.” Seu rosto não registra emoção alguma – nenhuma surpresa, nem choque, nem fúria, nada. Isso me atinge. “Você não está com frio?” Ela move a cabeça, fracamente, e continua me encarando daquele modo, com olhos cansados. Não sendo nem de perto a imagem que eu havia imaginado. Pensei que ela estaria feliz por eu ter ido atrás dela – grata, pelo menos. Ou talvez ela estaria chateada. Em todo caso, eu pensei que ela estaria de algum modo. “Ouça, Juliet...” eu mal posso falar, meus dentes rangem. “É, tipo, quase uma da manhã, e está congelando aqui fora. Você por acaso gostaria de vir até a minha casa por um momento? E conversar? Eu sei o que aconteceu...” eu movo a cabeça em direção a casa

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de Kent “e sinto muito sobre isso.” Eu só quero colocá-la dentro da droga do carro, mas é verdade, eu sinto muito. Juliet me encara por um longo segundo, a chuva caindo alguns passos entre nós. Ela começa a se erguer, e eu tenho certeza de que está feito, mas então ela se vira para o outro lado, dando alguns passos em direção a estrada. “Desculpe,” ela diz. Sua voz não é pesarosa, embora. É plana. Eu me movo agarrando-a pelo pulso. Parece impossivelmente fino em minha mão, como da vez em que eu encontrei um filhote de passarinho perto do Ponto do Ganso, e eu o ergui e ele morreu ali, tomando o fim, suspirando, deixando de respirar em minha mão. Juliet não puxa para longe, mas ela encara minha mão como se fosse uma cobra prestes a mordê-la. “Ouça,” eu tento de novo. “Ouça. Eu sei que isso vai soar louco, mas...” O vento bate nas árvores trazendo uma nova torrente de chuva. “Eu tenho o sentimento de que nós temos algo em comum, você e eu. Se nós pudermos só ir até algum lugar e falar...” “Eu não vou a lugar nenhum,” Juliet diz. Ela encarou a estrada, e eu penso ver um pequeno, triste sorriso brincando em seus lábios. Então some. Eu estive fora por muito tempo. Minha mente querendo deter. Nada mais fazia sentido. Estranhas imagens passavam como flashes pela minha mente, uma bizarra fantasia desenrolando coisas acolhedoras. Uma piscina cheia com fumegante chocolate quente. Uma pilha de cobertores espalhados por todo caminho até a minha casa. E parte de mim só pensava Dane-se. Deixe ela fazer o que quiser. Amanhã vai ser uma grande rebobinada de todo jeito. Mas tem uma grande parte de mim—meu touro interior, como minha mãe costuma dizer—que diz que ela me deve isso. Eu estou coberta por lama; absolutamente congelando; e metade dos alunos do Thomas Jefferson pensam que eu sou uma louca de pijama. “E que tal nós irmos a sua casa?” Imagino que ela teria de voltar para lá, eventualmente. Ela me lança um olhar estranho, e por um segundo eu sinto como se ela estivesse encarando direto através de mim. “Por que você quer fazer isso?” Ela questiona. Eu tenho de gritar ainda mais alto que antes. Carros começando a parar na entrada da garagem de Kent, zombando de nós na beira da estrada. “Eu... Eu quero ajudar você.” Ela balança a cabeça, um gesto infinitesimal. “Você me odeia.”

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Ela está ficando cada vez mais perto da estrada, e isso vai me deixando extremamente nervosa. Um carro passa por nós, bombeando baixo. Reluzindo ao baixar embaixo da luz do poste, e eu só pude ver uma silhueta de alguém rindo. Em algum lugar a minha direita eu penso ter ouvido o meu nome, mas era difícil dizer com o barulho da chuva. “Eu não odeio você. Eu não conheço você. Mas eu gostaria de mudar isso. Começar de novo.” Eu estou quase gritando. Não tendo certeza de se ela poderia me ouvir. Ela diz algo que eu não posso ouvir. Outro carro passa por nós, um projétil prata. “O quê?” Juliet inclina seu rosto só um pouco e diz mais alto: “Você está certa. Você não me conhece.” Outro carro. Risadas soando quando eles passam. Alguém joga uma garrafa de cerveja entre as árvores e ela se estilhaça. Então eu tenho certeza de que há alguém chamando o meu nome, embora eu não possa dizer exatamente de que direção vem. O vento guincha, e eu de repente me dou conta que Juliet está há apenas uma polegada da estrada, vacilando na fina linha onde o pavimento começa, como se ela estivesse vacilando em uma corda bamba. “Talvez você devesse se afastar da estrada,” eu digo, mas todo o tempo na parte de trás de minha cabeça há uma ideia surgindo e sussurrando, uma horrível, doente realização, bagunçando tudo e tomando forma como nuvens no horizonte. Alguém chama meu nome novamente. E então, ainda na distância, ouço o lamento de “Splinter” de Fallacy surgindo do carro de alguém. “Sam! Sam!” Eu reconheço a voz de Kent naquele instante. Last night for the last time... you said you would be mine again… Juliet vira o rosto para mim. Ela está sorrindo, mas é o mesmo triste sorriso que eu não conhecia. “Talvez da próxima vez,” ela diz. “Mas provavelmente não.” “Juliet,” eu tento dizer, mas o nome fica preso em minha garganta. Eu sinto como se tivesse sido atingida por uma pedra. Eu queria dizer algo, me mover, ir em frente e puxála, mas o tempo passa rapidamente, e então a realização emerge e estoura como a música vindo do auto falante ainda mais alto, da Range Rover prateada surgindo na escuridão. Como um pássaro ou um anjo—como se ela estivesse se jogando de um penhasco—Juliet abriu os braços e colidiu sobre a estrada, e então houve um grito perfurando o ar e um repugnante aperto, e então nada mais que o corpo de Juliet voando alguns metros ao lado do capô do carro de Lindsay, até cair contorcido com o rosto para baixo na estrada, e a Range Rover saiu da estrada em direção a floresta, até bater, estilhaçando, colidindo Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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contra a árvore, e uma longa tira de fumaça e chama começa a surgir no ar, então eu me dou conta de que era eu quem gritava.

antes que eu acorde Kent vem de encontro a mim. “Sam,” ele diz ofegante, seus olhos vasculhando sobre meu rosto. “Você está bem?” “Lindsay,” eu sussurro. Foi a única coisa que eu penso em falar. “Lindsay, Elody e Ally estão no carro.” Ele vira para a estrada. Pretas pilastras de fumaça saiam de entre as árvores. De onde nós estávamos nós só podíamos ver o para-choque estragado, em ascensão como um dedo vindo do fundo da terra. “Espere aqui,” ele diz. Parece um milagre, mas ele parece calmo. Ele corre na estrada, depressa, seu celular fora, e eu pude ouvi-lo dando direções para alguém do outro lado. Houve um acidente. Fogo. Rota 09, depois de passar do Devon Drive. Ele se ajoelhou ao lado do corpo de Juliet. Pelo menos uma pessoa ferida. Outros carros estão chiando para parar agora. Pessoas saindo dos carros sem muita certeza, todos sóbrios de repente, todos falando em sussurros, encarando o fino corpo contorcido na estrada, fumaça e fogo cintilando sobre as árvores. Emma McElroy saiu pondo as mãos para cobrir a boca, olhos quase pulando das órbitas, deixando a porta de seu Mino pendendo aberta e o som ligado. Jay-Z “99 Problems” ecoando através da noite, e a normalidade sobre isso é o fato mais horrível de tudo. Alguém grunhiu “Pelo amor de Deus, Emma, desliga isso.” Emma vai esbarrando de volta ao carro, e então tudo ficou em silêncio exceto pelo tilintar da chuva, e o som de alguém soluçando alto. Eu sinto como se estivesse em um sonho. Eu tento me mover, mas não posso. Nem sequer sinto mais a chuva. Nem sinto mais o meu corpo. Há só um pensamento rondando ao redor e ao redor e ao redor em minha cabeça: o flash branco justo antes de nós guinarmos sobre as rodas na boca da floresta, Lindsay gritando algo que eu não havia entendido muito. Não saia, ou algo parecido. Sykes. Depois de um tempo, um penetrante lamento veio do outro lado da mata, e Lindsay tropeçou na estrada, sua boca aberta e lágrimas correndo por seu rosto. Kent estava ali, ajudando Ally, quem mancava e tossia, mas parecia ok.

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Lindsay grita “Ajudem! Ajudem! Elody ainda está lá! Alguém ajuda ela! Por favor!” Ela está tão histérica que suas palavras soaram todas juntas, transformando-se em um grunhido animal. Ela se joga no pavimento e soluça, apoiando a cabeça entre as mãos. Então outro barulho soou: sirenes mais ao longe. Ninguém se moveu. Tudo começou a acontecer de forma lenta—pelo menos foi assim que pareceu para mim—como se eu estivesse vendo um filme enquanto a luz negra pisca. Mais e mais estudantes estão debaixo da chuva, estendidos ali e silenciosos como estatuas. A sirene da polícia liga, acendendo a luz vermelha, então branca, então vermelha, então branca. Pessoas em uniformes—uma ambulância—uma maca—duas macas. O corpo de Juliet permanece ali certo, fino e frágil, exatamente como o pássaro que eu segurei anos atrás. Lindsay se ergue no momento em que a maca passa com o corpo tirado do carro, e Kent a segura por trás. Ally soluça com a boca aberta, o que é estranho, porque eu não consegui ouvir um som. Em algum momento eu guiei meus olhos para o céu e vi que a chuva havia se transformado em neve—brancos flocos caindo da escuridão como se fosse mágica. Não tenho nem ideia de quanto tempo eu fiquei parada ali. Fico surpresa por ver que quando eu me viro, para a estrada, dificilmente alguém havia ficado ali, só alguns enfermeiros e o solitário carro da polícia, e Kent, pulando para cima e para baixo para se manter aquecido, falando com o oficial. As ambulâncias haviam ido. Lindsay havia ido. Ally havia ido. Então Kent para na minha frente, e eu penso que não o havia visto se mover. Como você fez isso? Eu tento falar, mas não sai nada. “Sam.” Kent fala comigo, e eu tenho o sentimento de que ele havia falado o meu nome mais de uma vez. Sinto uma estranha sensação e leva um segundo para que eu me desse conta da mão dele sobre o meu braço. Leva um segundo para eu me dar conta de que eu ainda tinha braços, e naquele momento é como se uma batida houvesse atingindo o meu corpo, e a força de tudo que eu havia visto me atingiu, minhas pernas falham e eu desmorono para frente. Kent me agarra, me segurando. “O que aconteceu?” eu sussurro, atordoada. “Elody...? E Juliet...?” “Shhh.” Seus lábios estavam próximos do meu ouvido. “Você está congelando.” “Eu tenho que ir encontrar Lindsay.” “Você esteve aqui fora por mais de uma hora. Suas mãos estão como gelo.”

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Ele tira o quente suéter que está usando e me envolve nele. Havia um floco branco de neve sobre seus cílios. Ele passa as mãos gentilmente sobre meus cotovelos, e me guia de volta para a entrada. “Entra. Vamos deixar você aquecida.” Eu não tenho força para argumentar. Eu deixo que ele me leve para a casa. Suas mãos nunca me deixam, e mesmo que ele mal estivesse as minhas costas, eu sinto que sem ele eu vou cair. Parecia que nós estávamos de volta à casa de Kent sem nem nos movermos. Então nós estávamos na cozinha, e ele puxa uma cadeira para que eu me sentasse ali. Seus lábios se movem e seu tom é reconfortante, mas eu não consigo entender o que ele diz. Então há um grosso cobertor ao redor dos meus ombros e uma dor aguda volta aos meus dedos conforme o sentido volta a eles, como se alguém estivesse com algo quente, alfinetando em mim. Ainda assim, eu não posso parar de tremer. Meus dentes rangem com um barulho como dados rodando em um copo. Os barris ainda estão no canto, e há copos meio cheios em todos os lugares, e pontas de cigarro flutuando neles, mas com a música desligada a casa parece totalmente diferente sem ninguém ali. Minha mente foca em um bando de pequenos detalhes, ricocheteando de um para o outro como uma bola de pingue-pongue: o símbolo bordado acima da pia que dizia MARTHA STEWART NÃO VIVE AQUI; as imagens coladas na geladeira, de Kent com a família na praia de algum lugar, com parentes que eu não conheço, um velho cartão postal de Paris, Marrocos, San Francisco; filas de canecas a amostra através da porta de vidro, com frases como CAFEÍNA OU EXPLOSÃO e É HORA DO CHÁ. “Um marshmallow ou dois?” Kent pergunta. “Como?” Minha voz soa coaxando e estranha. Todos os meus outros sentidos surgem apressados: eu ouço o sibilo do leite aquecendo em uma jarra; o rosto de Kent surge em meu foco, doce e preocupado, pedaços de neve ainda em seu cabelo desgrenhado. O cobertor ao redor de meus ombros cheira como lavanda. “Eu vou por alguns,” Kent diz, se virando de volta para o fogão. Em um minuto há uma grande caneca (que diz LAR É ONDE O CHOCOLATE ESTÁ) pendendo a minha frente, enchida com espumoso chocolate quente—do tipo real, não daqueles que você tira de um pacote – e com grandes marshmallows. Eu não sei se havia pedido por isso em voz alta ou se ele só havia lido em minha mente. Kent senta a minha frente na mesa, me olhando sorver um pouco. Está delicioso, doce o suficiente e cheio de canela e algo mais que eu não conseguia identificar, e eu pus a caneca na mesa com leve mover de mãos. “Onde está Lindsay?” Eu pergunto quando a cena volta a mim: Lindsay ajoelhada na frente de todos, se jogando para frente. Ela devia estar fora de si—Lindsay nunca faria algo assim em público. “Ela está bem?”

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Kent encolhe os ombros, seus olhos fixos em meu rosto. “Lindsay está bem. Ela teve que ir para o hospital para checar pela batida e tudo mais. Mas ela vai ficar bem.” “Ela... Juliet foi tão rápida,” Eu fecho os olhos, visualizando a mancha branca, e quando eu volto a abri-los, Kent parece como se por dentro estivesse se rasgando. “Ela está... Eu digo, Juliet...?” Ele balança a cabeça uma vez. “Não havia nada que eles pudessem fazer,” ele diz, tão baixo que se eu não soubesse que ele ia dizer, nunca teria escutado. “Eu a vi...” Começo a falar e penso não poder. “Eu deveria ter impedido ela. Ela estava tão perto.” “Foi um acidente.” Kent olha para baixo. Eu não tenho certeza se ele realmente acredita nisso. Não, não foi, eu queria dizer. Eu penso no estranho meio sorriso dela quando disse Talvez na próxima vez, mas provavelmente não, então eu fecho os olhos, mandando a memória para longe. “E Ally? Ela está bem?” “Ally está bem. Nem um arranhão.” A voz de Kent fica mais forte, mas há uma súplica soando, e eu compreendo que ele está tentando me fazer parar de falar—ele não quer que eu pergunte o que eu estou para perguntar. “Elody?” Minha voz soa como um sussurro. Kent desvia o olhar. Um músculo se tencionando em sua mandíbula. “Ela estava no banco da frente,” ele finalmente diz, como se cada e todas as palavras machucassem, e eu penso em Elody se inclinando para frente e murmurando Por que Sam sempre fica do banco da frente? “O lado do passageiro levou mais impacto.” Perguntei-me se esse era o modo que eles teriam explicado para os meus pais no hospital—colisão, lado do passageiro, impacto. “Ela está...?” Eu não conseguia pronunciar a palavra. Ele olha para mim como se estivesse a ponto de chorar. Ele parecia mais velho do que eu sempre havia visto, seus olhos escurecidos e cheios de tristeza. “Eu sinto muito, Sam,” ele diz lentamente. “O que você está me dizendo?” Eu aperto meus punhos com tanta força que podia sentir minhas unhas cravando na pele. “Você está dizendo que ela... Que ela...” Eu parto, ainda incapaz de falar. Falar faria se tornar real.

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Para Kent parece que cada palavra era algo afiado que ele tinha de arrancar do estômago. “Foi... Deve ter sido instantâneo. Indolor.” “Indolor?” Repeti, minha voz vacilando. “Indolor? Você não sabe disso. Você não pode saber disso.” Há um caroço em minha garganta. “Isso é o que eles disseram? Disseram que foi indolor? Como se fosse em paz? Como se estivesse ok?” Kent busca pela minha mão sobre a mesa. “Sam...” “Não.” Empurro minha cadeira para trás e fico de pé. Todo meu corpo vibrando com fúria. “Não. Não me diga que vai ficar tudo bem. Não me diga que isso não a machucou. Você não sabe—você não tem ideia—ninguém de vocês tem ideia do quanto dói. Dói...” Eu nem sequer tenho ideia se estou falando sobre Elody ou sobre mim. Kent fica de pé e passa os braços ao redor de mim. Encontrei-me com a cabeça apoiada em seu ombro, soluçando. Ele me manteve pressionada contra ele, e ele faz pequenos barulhos em meu cabelo, e antes que eu tivesse deixado tudo ir e sucumbido à escuridão que passava por mim, eu tive o estranho, estúpido pensamento—que minha cabeça encaixava perfeitamente no ombro de Kent. Então o pensamento de Elody e Juliet se tornou muito, e um pesado véu cai sobre minha cabeça, e eu choro. Era a segunda noite que eu estava totalmente perdida na frente de Kent, embora, claro, ele não soubesse disso. Eu deveria estar grata por ele não lembrar que na noite passada nós ficamos juntos em um quarto escuro com nossos joelhos quase se tocando, mas ao contrário, isso me fez sentir ainda mais solitária. Estava perdida em uma névoa, em um misto, e em algum ponto quando eu comecei a voltar a mim, dou-me conta de que Kent está literalmente me erguendo. Meus pés mal tocavam o chão. Sua boca está contra o meu cabelo e eu sinto sua respiração perto do meu ouvido. Uma onda de eletricidade atravessou por mim, o que fez eu me sentir mais terrível e confusa que nunca. Eu me afasto, botando um pouco de espaço entre nós. Ele manteve os braços em ambos os lados do meu corpo, embora, revigorado, e eu fico contente. Ele era sólido e quente. “Você ainda está congelando,” ele diz. Ele põe as costas da mão contra minha bochecha por um mínimo segundo, mas quando ele se afasta, eu posso sentir o traço de sua mão, como se estivesse marcado em mim. “Suas roupas estão encharcadas.” “Roupa de baixo,” eu digo sem pensar. Ele franze a testa. “Como?” “Minha... hmmm, roupa de baixo. Digo, minha calça e tudo e a roupa de baixo... Está tudo cheio de neve. Bom, maioria é só água agora. É bem gelada.”

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Eu estou cansada demais para me preocupar em estar sendo embaraçosa. Kent apenas aperta os lábios e dá de ombros. “Fique aqui,” ele diz. “E beba mais.” Ele aponta para o chocolate quente. Ele me guia de volta para a cadeira e então desaparece. Eu ainda estou tremendo, mas pelo menos eu consigo segurar a xícara sem derrubar tudo sobre a mesa. Eu não penso em nada além de levar a xícara até a boca, e o gosto do cacau, o tique taque do rabo de um gato no relógio, e o branco flutuando fora das janelas. Em alguns segundos Kent está de volta com um grande tosão, uma calça desbotada e uma cueca samba-canção listrada. “Isso é meu,” ele diz, então fica um pouco vermelho. “Digo, não meu. Eu não vesti eles ou algo assim. Minha mãe comprou para mim…” ele se recupera e engole. “Digo, eu comprei, tipo, terça. Ainda está com a etiqueta e tudo.” “Kent?” Interrompo. Ele ofega por ar. “Sim?” “Eu sinto muito, mas... Você se importa de ficar quieto?” Aponto para minha cabeça. “Meu cérebro está cheio.” “Sinto muito,” ele exala. “Eu não sei o que fazer. Queria... Eu queria que tivesse mais.” “Obrigada,” Eu digo. Eu sei que ele está se esforçando e eu dedico a ele um sorriso fraco. Ele deixa as roupas sobre a mesa, junto com uma grande e felpuda toalha branca. “Eu não sabia... Pensei que você poderia querer um banho”. Ele cora com a palavra banho. Balanço a cabeça. “Eu só quero dormir.” Eu havia esquecido sobre dormir, e sento uma enorme vontade quando digo isso: tudo que eu tinha de fazer era dormir. Assim que eu cair no sono o pesadelo vai ter acabado. Ainda assim, um enorme sentimento de ansiedade me atinge. E se o dia não rebobinar desta vez? E se for isso? Eu penso em Elody e sinto o chocolate quente subindo de volta em minha garganta. Kent deve ter visto em meu rosto, porque ele se agacha então nossos olhos estavam no mesmo nível. “Eu posso fazer algo? Posso pegar alguma coisa?” Balanço minha cabeça, tentando não chorar mais uma vez. “Eu vou ficar bem. É só... Um choque.” Eu engulo em seco. “Eu só quero… Quero voltar tudo, sabe?”

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Ele acena uma vez, e põe as mãos ao redor de mim. Eu não me afasto. “Se eu pudesse fazer isso melhor, eu faria,” ele diz. Em alguns modos é algo estúpido, óbvio de se falar, mas do jeito que ele falou, tão honesto e simples como o verdadeiro modo que é, fez lágrimas picarem em meus olhos. Pego as roupas e a toalha e vou pelo corredor para o banheiro que havíamos quebrado para encontrar Juliet. Entro e fecho a porta. A janela ainda está aberta, com neve rodopiando do lado de fora. Fecho a janela. Isso já faz com que eu me sinta melhor, como se eu já estivesse começando o processo de apagar tudo que aconteceu nessa noite. Elody vai ficar bem. Afinal, eu era quem deveria estar no banco da frente. Penduro a toalha que Juliet havia deixado sobre a pia, e tirei minhas roupas, sacudindo. O banho era muito difícil de resistir, depois de tudo, e liguei a água no mais quente que poderia ir, e entrei ali. Era um desses chuveiros com jatos onde a água cai sobre você direto de cima em um longo, forte jato. Quando atingiu o mármore sob meus pés, fez subir grandes nuvens de vapor. Fico no banho por tanto tempo que meus dedos enrugam. Pus o tosão de Kent, que era tão macio e cheirava como detergente para lavagem e, por alguma razão, grama recém-cortada. Então eu arranco as etiquetas da samba canção e deslizei ela por mim. Eram grandes demais para mim, obviamente, mas eu gostei de quão limpa e translúcida elas pareceram em minha pele. A única outra samba canção que eu havia visto era de Rob, normalmente jogada no chão ou sobre a cama dele, e manchadas com algo que eu preferia não identificar. Por último, eu pus a calça, que ficou abaixo dos meus pés. Kent havia me dado meias, também, daquelas macias. Eu enrolo as minhas roupas em uma bola e deixei do lado de fora da porta do banheiro. Quando volto para a cozinha, Kent está lá de pé, exatamente como quando eu havia saído. Algo pisca em seus olhos quando eu entro, mas eu não tenho certeza do que era. “Seu cabelo está molhado,” ele diz suavemente, mas ele diz isso como se quisesse dizer algo mais. Olho para baixo. “Tomei banho, depois de tudo.” Silêncio surge entre nós dois por alguns instantes. Então ele diz “Você está cansada. Eu vou levar você para casa.” “Não.” Eu digo mais vigorosamente do que queria, e Kent parece surpreso. “Não... Eu digo, não posso. Não quero ir para casa agora.” “Seus pais...” Kent murmura.

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“Por favor.” Eu não sei o que seria pior: se meus pais já soubessem e estivessem parados lá, esperando por mim, esperando para me interrogar e falar a respeito de hospitais e terapeutas para me ajudar a lidar, ou se eles ainda não soubessem e eu tornasse nossa casa em um lugar de luto. “Aqui tem um quarto de hóspedes,” Kent diz. Seu cabelo está finalmente secando com pequenos cachos e ondas. “Nada de quarto de hóspedes,” balanço a cabeça decidida. “Eu quero ficar em um quarto. Um quarto habitado.” Kent me encara por um segundo e então diz “Vem comigo.” Ele alcança a minha mão quando passa, e eu deixo ele segurar. Nós subimos as escadas e percorremos o corredor até o quarto com todos os adesivos colados. Eu deveria ter sabido que era dele. Ele remexeu a maçaneta—“Fede.”—e finalmente abre. Inalo bruscamente. O cheiro é exatamente o mesmo que na noite anterior quando eu estive aqui com Rob, mas tudo é diferente—a escuridão parece suave, de algum modo. “Me dê um segundo.” Kent solta a minha mão, e se afasta. Ouvi o arrastar de cortinas e arquejei: de repente três enormes janelas, que iam do chão ao teto e ocupavam uma parede inteira, foram reveladas. Ele não havia acendido a luz, mas parecia que ele havia. A lua era enorme e luminosa, e reluzia através de toda a ofuscante neve branca, crescendo brilhosa. Todo o quarto estava banhado por uma linda luz prateada. “É incrível,” eu digo. Respirando fundo; nem sequer havia me dado conta de que estava prendendo o fôlego. Kent sorri rapidamente. Seu rosto contornado pela luz da lua. “É uma ótima noite. Embora não tão boa quanto o nascer do sol.” Ele começa a mexer nas cortinas. “Deixe aberto,” eu choramingo, e então acrescentei: “por favor.” De repente me sentindo tímida. O quarto de Kent é enorme, e cheira como a mesma incrível mistura de produto para lavagem e loção para barbear. É o cheiro mais fresco no mundo, o cheiro de janela aberta com biscoitos crocantes. Na última noite eu não pude perceber nada além da cama. Agora eu vejo como o quarto é preenchido com estantes para livros. Há uma mesa no canto, empilhada com um computador e mais livros. Há fotos nas paredes, figuras embaçadas que se moviam, mas eu não consigo focar nos detalhes. Um pufe monstro está no canto e Kent me pega encarando-o. “Eu tenho desde o sétimo ano,” ele diz. Soando embaraçado.

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“Eu tinha um como esse,” eu digo. E não acrescento o porquê de não tê-lo mais: porque Lindsay dizia que parecia com um seio encaroçado. Eu não podia pensar sobre Lindsay naquele momento, ou Ally. E definitivamente não podia pensar sobre Elody. Kent pôs alguns cobertores sobre a cama e então voltou, virando-se para que eu pudesse ter um pouco de privacidade. Subi na cama e mergulhei ali, meus membros pesados e doloridos, duros, sentindo-me meio consciente, mas tão carregada pela exaustão que não importo. Há uma cabeceira de madeira curvada e o pé da cama do mesmo estilo, e assim que eu me alongo, me faz me lembrar de estar em um trenó. Virei minha cabeça, então eu podia ver a neve caindo, e logo fechei os olhos, imaginando que eu estava flutuando através da floresta no meu caminho para algum lugar bom: um pequeno adornado cavalo branco na distância, velas queimando na janela. “Boa noite,” Kent murmura. Ele está tão quieto que eu havia me esquecido de que ele estava ali. Pisquei meus olhos e me apoiei sobre um cotovelo. “Kent?” “Sim?” “Você poderia ficar um pouco comigo?” Ele acena, e rola a cadeira da escrivaninha para o lado da cama sem falar nada. Ele ergue os joelhos até o queixo, e então me olha. A luz da lua entrando através das janelas deixavam o cabelo dele suavemente prateado. “Kent?” “Sim?” “Você acha estranho eu estar aqui com você?” Fecho meus olhos ao dizer isso, então eu não teria que encará-lo. “Eu sou o editor chefe do Tribulação,” ele diz. “E uma vez passei trezentos e sessenta dias usando Crocs. Eu não acho nada mais estranho.” “Eu havia me esquecido da fase do Crocs,” eu digo. Eu estou finalmente aquecida debaixo das cobertas, e senti o sono rastejando por mim, como quando se está na praia com a suave maresia percorrendo até meus dedos. “Kent?” “Sim?” “Por que você está sendo tão bom comigo?” Tudo fica em silêncio por um tempo, que eu começo a pensar que ele não iria responder. Imagino que eu podia ouvir a neve caindo na terra, cobrindo outro dia, apagando e limpando. Eu estou muito aterrorizada para abrir os olhos, com medo de quebrar o feitiço, com medo que ele fosse parecer bravo ou ferido.

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“Lembra-se da vez no segundo ano depois que meu avô morreu?” Ele finalmente fala, falando devagar, em voz baixa. “Eu cai no choro no refeitório e Phil Howeel me chamou de veado. Aquilo só me fez chorar ainda mais, mesmo que eu não soubesse o que veado era.” Ele ri suavemente. Mantive meus olhos fechados, concentrando-me na voz dele. Ano passado Phil Howeel havia sido encontrado meio desnudo com Sean Trebor, no banco de trás da BMW do pai dele. É engraçado como as coisas mudam. “De todo modo, quando eu disse para ele me deixar em paz, ele derrubou a minha bandeja, e a comida caiu em todos os lados. Eu nunca vou me esquecer: nós estávamos tendo purê de batata e hambúrguer de peru. E você apareceu e pegou um pouco do purê do chão com as mãos, e esfregou na cara de Phil. E então você pegou o hambúrguer de peru e enfiou na camiseta de Phil. Você disse você é pior que o almoço quente.” Ele riu de novo. “Isso era um grande insulto no segundo ano. E Phil estava tão surpreso, e ele estava ridículo parado lá com purê de batata e cebolinha espalhado por ele, que eu comecei a rir e rir, e foi a primeira vez que eu ri desde que eu soube sobre o meu avô.” Ele pausa. “Você lembra o que eu disse a você naquele dia?” A memória está ali, um balão inchando de algum lugar dentro de mim que eu pensei que estava perdido, a cena toda perfeitamente clara agora. “Você é minha heroína,” nós dizemos juntos. Eu não ouvi Kent se mover, mas sua voz parece mais próxima, e ele acha minhas mãos no escuro, e as enlaça com as dele. “Eu jurei dia após dia que eu seria o seu herói também, não importa quanto tempo levasse,” ele murmura. Nós ficamos daquele modo pelo que pareceu horas, e todo o tempo o sono estava me dragando, me puxando para longe dele, mas meu coração flutuava como uma mariposa, batendo para trás os sonhos e a escuridão, e uma chama atingia meu cérebro. Assim que eu dormisse, eu perderia ele. Perderia esse momento para sempre. “Kent?” Murmuro, e minha voz parece ter aumentado de dentro da névoa, levando eternamente para ir do cérebro para a minha boca. “Sim?” “Promete que você vai ficar aqui comigo?” “Prometo,” ele sussurra. E então, naquele momento, quando eu não tenho mais certeza se estava sonhando ou acordada, ou andando em algum espaço onde tudo que você deseja se torna verdade, eu sinto a palpitação dos lábios dele sobre os meus, mas era tarde demais. Eu estou

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dormindo. Eu estou indo, ele estĂĄ indo, e o momento gira para longe, de volta como uma flor caindo pela noite.

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seis Desta vez, quando eu sonho, há som. Enquanto eu caio pela escuridão há uma música tilintante, chocalhante, como o tipo de música que você ouve em consultórios médicos e elevadores, e sem saber como eu sei, eu percebo que a música está vindo do escritório do conselheiro de orientação da Thomas Jefferson. Assim que eu percebo isso, pequenos pontos brilhantes começam a explodir pela escuridão, uma galeria em zoom de todos os irritantes pôsteres motivacionais que a minha orientadora, Sra. Gardner, mantém em suas paredes, exceto que no meu sonho todos eles estão aumentados cem vezes, cada um do tamanho de uma casa. Em um, Einstein é retratado em cima das palavras A GRAVIDADE NÃO É RESPONSÁVEL POR CAIR DE AMORES. Há um pôster com a citação de Thomas Jefferson: O GÊNIO É 1% INSPIRAÇÃO E 99% TRANSPIRAÇÃO. Eu estou pensando em tentar agarrar um deles e me preocupando com se ele irá aguentar meu peso quando eu passo girando por uma imagem de um gato listrado pendurado para fora de um galho de árvore pelas garras. Ele diz AGUENTE FIRME. E é a coisa mais engraçada: assim que eu o vejo, o assovio em minha mente para e o sentimento de terror some, e eu percebo que por todo esse tempo eu não tenho estado caindo. Eu tenho flutuado.

O alarme que me acorda é o som mais doce que eu já ouvi. Eu sento, uma bolha de riso crescendo dentro de mim. Eu tenho o impulso de tocar tudo no meu quarto—as paredes, a janela, a colagem, as fotos enchendo minha mesa, a calça jeans Tahari jogada pelo chão e o meu livro de biologia e até mesmo a luz baça surgindo por cima do batente da janela. Se eu pudesse colocá-la em minhas mãos e beijá-la, eu o faria. “Alguém está de bom humor,” minha mãe diz quando eu apareço no andar de baixo. Izzy está na mesa de frente para seu bagel de manteiga de amendoim, dando mordidas pequenas, cuidadosas, como sempre. “Feliz Dia do Cupido,” meu pai diz. Ele está no fogão fazendo ovos para o café da manhã de mamãe. “Meu favorito,” eu digo, correndo para roubar uma mordida do bagel de Izzy. Izzy dá um gritinho e bate na minha mão. Eu planto um grande e molhado beijo em sua testa. “Pare de babar em cima de mim,” ela diz. “Vejo você mais tarde, Fizzy Lagarto,” eu digo.

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“Não me chame de Lagarto.” Izzy mostra uma língua coberta de manteiga de amendoim para mim. “Você parece um lagarto quando faz isso.” “Você quer alguma coisa de café da manhã, Sam?” minha mãe pergunta. Eu nunca tomo café em casa, mas minha mãe ainda pergunta todo dia—quando ela me pega antes de eu me esgueirar para fora, de qualquer jeito—e naquele momento eu percebo o quanto amo as pequenas rotinas da minha vida: o fato de que ela sempre pergunta, o fato de que eu sempre digo não porque há um bagel de gergelim me esperando no carro de Lindsay, o fato de que nós sempre ouvimos “No More Drama” enquanto entramos no estacionamento. O fato de que a minha mãe sempre cozinha espaguete com almôndegas nos domingos, e o fato de que, uma vez por mês, nosso pai toma conta da cozinha e faz seu “ensopado especial”, que é só salsichas e feijão cozido e um monte de ketchup e melaço extra, e eu nunca admitiria gostar disso, mas na verdade é uma das minhas comidas favoritas. Os detalhes que são o padrão especial da minha vida, como em tapetes feitos à mão, que o que realmente os faz únicos são os pequenos defeitos na costura, pequenas brechas e saltos e falhas que nunca podem ser reproduzidas.

Tantas coisas ficam bonitas quando você realmente olha.

“Sem café. Mas obrigada.” Eu vou até minha mãe e envolvo meus braços em volta dela. Ela dá um gritinho, surpresa. Eu acho que tem uns dois anos desde que nos abraçamos, exceto pelo aperto de dois segundo obrigatório em aniversários. “Te amo.” Quando eu me afasto, ela me encara como se eu tivesse acabado de anunciar que estou deixando a escola para virar contorcionista de circo. “O quê?” Meu pai diz, jogando uma frigideira na pia e enxugando suas mãos no pano de prato. “Nada de amor pro seu velho?” Eu rolo meus olhos. Eu odeio quando meu pai tenta falar “adolescês”, como ele chama, mas eu não o desminto. Nada pode me deixar para baixo hoje. “Tchau, Pai.” Eu o deixo me envolver em um de seus infames abraços de urso. Eu estou cheia de amor do topo da minha cabeça à ponta dos dedos dos pés, uma sensação espumante como se alguém tivesse me sacudido como uma garrafa de Coca. Tudo—os pratos na pia, o bagel de Izzy, o sorriso de minha mãe—parece nítido, como se fosse feito de vidro ou eu estivesse vendo pela primeira vez. É deslumbrante, e de novo eu tenho o desejo de ir e tocar tudo, ter certeza de que é real. Se eu tivesse tempo, eu o faria, também. Eu iria colocar as mãos na grapefruit meio comida no balcão e cheirá-la. Eu iria correr meus dedos pelo cabelo de Izzy.

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Mas eu não tenho tempo. É o Dia do Cupido, e Lindsay está lá fora, e eu tenho negócios a tratar. Hoje eu vou salvar duas vidas: a de Juliet Sykes, e a minha.

que se faça a luz “Biii, biii!” Lindsay grita da janela enquanto eu me apresso pela calçada coberta de gelo, sugando o ar gelado para meus pulmões, amando como ele queima meus pulmões, amando até mesmo o fedor amargo do cigarro de Lindsay e o cheiro de escapamento que está coagulando o ar. “Mamãe quente! Quanto?” “Se você precisa perguntar,” eu digo, escorregando para o banco do passageiro, “é porque não pode pagar.” Ela sorri e me passa o meu café antes que eu possa alcançá-lo. “Feliz Dia do Cupido.” “Feliz Dia do Cupido,” eu digo, e nós brindamos com copos de isopor. Ela também parece mais nítida para mim do que jamais antes. Lindsay, com seu rosto de anjo e cabelo bagunçado loiro-sujo e esmalte preto lascado e bolsa de couro Dooney & Bourke desgastada que sempre tem um invólucro de cigarro e Trident Original meio-desembrulhado no fundo. Lindsay, que odeia estar entediada, sempre se movendo, sempre correndo. Lindsay, que uma vez disse—“É o mundo contra nós, babes”— bêbada e colocando os braços ao redor de nossos ombros quando nós estávamos no viveiro de plantas e realmente querendo dizer isso. Lindsay, malvada e engraçada e feroz e leal e minha. Eu me inclino impulsivamente e beijo a bochecha dela. “Uou, lesbicando demais?” Lindsay levanta um ombro até sua bochecha e limpa meu gloss labial. “Ou só praticando para hoje à noite?” “Talvez os dois,” eu digo, e ela ri longo e alto. Eu tomo um gole do meu café. Está escaldante e tem de ser o melhor café em toda Ridgeview, em todo o mundo. Deus abençoe o Dunkin’ Donuts. Lindsay tagarela sobre quantas rosas ela espera receber e se Mary Posner vai, como habitual, não aguentar e chorar no banheiro durante o quinto tempo porque Justin Streamer deu o fora nela há três anos no Dia do Cupido, deste modo permanentemente selando o destino dela como meio-popular, e eu olho pela janela e vejo Ridgeview passar em um borrão cinza. Eu tento imaginar como, em apenas alguns meses, as árvores irão jogar seus pequenos pedúnculos para o céu, o mais leve borrifo de flores e verde exalado sobre tudo como uma névoa. E então, alguns meses depois disso, a cidade inteira será uma explosão de verde: tantas árvores e tanta grama que ira parecer uma pintura com a tinta

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ainda fresca. Eu posso imaginá-la esperando sob a superfície do mundo, como se os slides só precisem ser trocados no projetor e o verão estará aqui. E ali está Elody, balançando no gramado em seus sapatos sem jaqueta e com seus braços em volta de seu peito. Quando eu a vejo, radiante e viva, o alívio é tão enorme que deixo escapar um tremendo grito de risadas. Lindsay levanta as sobrancelhas para mim. “Ela vai congelar,” eu arquejo, à guisa de explicação. Lindsay gira o dedo ao lado da orelha. “Ela é totalmente maluca por Cocoa Puffs.” “Alguém disse Cocoa Puffs?” Elody diz, entrando no carro. “Eu estou morrendo de fome.” Eu me viro para olhar para ela. Mal consigo evitar ir para o banco de trás e pular nela. Eu sinto um impulso esmagador de tocá-la, ter certeza de que ela é real e está aqui e está viva. Em algumas maneiras ela é a mais corajosa e mais delicada de todas nós. Eu queria poder de alguma forma dizer isso a ela. “O quê?” Elody franze o nariz para mim, e eu percebo que estou encarando. “O que está errado? Eu estou com pasta de dente no meu rosto ou algo assim?” “Não,” eu digo, e de novo o riso borbulha para fora de mim, uma onda de felicidade e alívio. Eu penso; eu poderia ficar para sempre neste momento. “Você está linda.” Lindsay dá uma risadinha, checa Elody pelo retrovisor. “Tem alguns bagels debaixo da sua bunda, linda.” “Mmm, bagels de bunda.” Elody põe a mão na sacola e puxa um bagel, meio amassado, então faz uma grande demonstração de dar uma enorme mordida nele. “Tem gosto de Victoria’s Secret.” “Tem gosto de calcinha fio-dental,” eu digo. “Tem gosto de fenda de bunda,” Lindsay diz. “Tem gosto de peido,” Elody diz, e Lindsay cospe café no painel, e eu começo a rir e não consigo parar, e por todo o caminho para a escola nós estamos pensando em sabores para bagels de bunda, e eu estou pensando que isso—minha vida, meus amigos—pode ser estranho ou tolo ou imperfeito ou quebrado ou o que for, mas nunca pareceu melhor para mim. Quando estamos entrando no estacionamento da escola, eu grito para Lindsay frear. Ela para bruscamente e Elody xinga quando café cai sobre ela. “Que diabo?” Lindsay põe uma mão no peito. “Você me assustou até a morte.”

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“Oh—um. Desculpe. Eu pensei ter visto Rob.” Logo à frente estou assistindo o Chevrolet de Sarah Grundel entrar na Alameda Finalista quinze segundos à frente de nós. A vaga de estacionamento e uma coisa pequena, um detalhe, mas hoje eu não vou fazer nada errado. Eu não quero arriscar nada. É como o jogo que costumávamos jogar quando éramos pequenos, onde tínhamos que evitar todas as rachaduras na calçada ou então nós mataríamos nossas mães. Mesmo se você não acreditasse naquilo, você se certificava de estar pisando corretamente, só para garantir. “Desculpe. Culpa minha.” Lindsay rola os olhos e pisa no acelerador novamente. “Por favor, me diga que você não vai dar uma de stalker psicopata.” Eu mordo meu lábio para evitar dar uma risadinha. Se Lindsay e Elody tivessem qualquer pista do que estava realmente passando pela minha cabeça, elas provavelmente me mandariam para um hospício. Por toda a manhã, sempre que eu fecho os olhos, eu fico imaginando a sensação dos lábios de Kent McFuller roçando contra os meus, tão leves quanto asas de borboleta; da coroa de luz circundando sua cabeça e do jeito que seus braços sentiram quando ele estava me mantendo de pé. Eu encosto minha cabeça contra a janela. Meu sorriso é refletido de volta para mim, crescendo mais e mais enquanto Lindsay dirige a Alameda Finalista para cima e para baixo, xingando porque Sarah Grundel pegou a última vaga. Ao invés de seguir Elody e Lindsay para o Principal, eu me separo e vou em direção ao Prédio A, onde fica a enfermaria, murmurando uma desculpa sobre uma dor de cabeça. É lá que as rosas são guardadas no Dia do Cupido, e eu tenho alguns ajustes a fazer. Ok, então talvez mentir não seja 100 por cento inocente na Escala de Bons Atos (especialmente mentir para suas melhores amigas), mas é por uma causa muito, muito boa. A enfermaria é longa e estreita. Normalmente uma fila dupla de macas corre por seu comprimento, mas as macas foram retiradas e substituídas por enormes mesas dobráveis. As cortinas pesadas que geralmente mantem o lugar escuro como uma sala de cinema foram abertas, e a sala está literalmente brilhando com luz. Luz reflete das luminárias de metal nas paredes e ziguezagueia loucamente sobre as paredes brancas brilhantes. Há rosas em todo lugar—transbordando de suas bandejas, guardadas em cantos, algumas delas até mesmo jogadas pelo chão, pétalas pisoteadas—e se você não soubesse que na verdade havia um princípio organizacional para isso, e uma finalidade, você simplesmente pensaria que alguém havia soltado algum tipo de bomba de rosas. A Sra. Devane, que geralmente supervisiona o Dia do Cupido, não está por perto, mas há três cupidos em pé perto de uma das caixas, dando risadinhas. Elas pulam e fogem para trás quando eu entro. Elas estavam lendo as notas, obviamente. É estranho pensar sobre isso—aqueles pequenos fragmentos de papel, recortes de palavras, meios elogios e elogios insinceros e promessas quebradas e semi-desejos e quase expressões do que você realmente quer dizer: eles nunca contam a história inteira, ou até mesmo metade dela. Uma sala cheia de palavras que são quase a verdade mas não realmente, cada nota flutuando da haste de sua rosa como uma asa quebrada de borboleta. Nenhuma das Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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garotas fala comigo enquanto eu começo a andar no corredor, examinando as etiquetas nas bandejas, procurando pelos S. Eu duvido que alguma outra pessoa jamais tenha se intrometido na Sala da Rosa, especialmente não uma finalista. Finalmente eu encontro a bandeja etiquetada: St-Ta. Há cinco ou seis rosas para Tamara Stugen e mais meia dúzia para Andrew Svork e três para um Burt Swortney, que tem o nome mais infeliz que eu ouvi em um longo tempo. E ali está: a única rosa para Juliet Sykes com uma nota enlaçada delicadamente ao redor de sua haste. TALVEZ ANO QUE VEM, MAS PROVAVELMENTE NÃO. Talvez da próxima vez, mas provavelmente não. “Um... Eu posso te ajudar em alguma coisa?” Uma das garotas se aproxima alguns centímetros. Ela está torcendo as mãos juntas e parece absolutamente petrificada. A rosa de Juliet e fina e jovem, delicadamente tingida de rosa. Todas as suas pétalas estão fechadas. Ela ainda não desabrochou. “Eu preciso de rosas,” eu digo. “Muitas delas.”

correções e ajustes Eu saio da Sala das Rosas me sentindo excitada e enérgica, como se tivesse acabado de tomar três capuchinos no Caffeine Rush do shopping. Eu substituí a rosa solitária de Juliet por um buquê enorme—gastei quarenta paus por duas dúzias—e por um bilhete impresso em letras maiúsculas que diz DO SEU ADMIRADOR SECRETO. Eu só queria poder estar por perto quando ela receber as flores. Tenho certeza que isso irá fazer o dia dela. Mais do que isso tenho certeza de que vai fazer as coisas se endireitarem. Ela terá ainda mais rosas do que Lindsay Edgecombe. Eu começo a pensar nos olhos da Lindsay se esbugalhando quando ela vir que Juliet Sykes a venceu no título de Mais Valogramas esse ano, e eu deixo escapar uma grande e explosiva gargalhada bem no meio da aula de História Americana EA. Todo mundo se vira e me encara, mas eu não ligo. Deve ser assim que é usar drogas: o sentimento de liberdade sobre todas as coisas, de tudo parecer novo, fresco e aceso por dentro. Exceto que é sem a culpa e ressaca do dia seguinte. E o possível mandato de prisão. Quando o Senhor Tierney distribui seu questionário súbito, eu passo os vinte minutos inteiros desenhando corações e balões em torno das questões, e quando ele passa recolhendo os papéis eu lhe dou um sorriso tão brilhante que ele até se estremece, como se não estivesse acostumado com pessoas que estão felizes. Entre as aulas eu vasculho os corredores, procurando por Kent. Eu nem mesmo tenho certeza sobre o que dizer quando eu encontrá-lo. Na verdade eu não posso dizer nada. Ele não sabe que nós passamos as duas últimas noites juntos, e que ambas as noites estávamos tão próximos que se um de nós respirasse, nós acabaríamos nos beijando, e que na última noite eu achei que nós poderíamos ter feito isso. Mas eu tenho essa incrível vontade de apenas estar perto dele, de o ver fazendo, do jeito dele, essas coisas rotineiras: Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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tirar o cabelo dos olhos, sorrindo seu sorriso desproporcional, andar arrastando seus ridículos tênis quadriculados, e enfiando suas mãos dentro de suas mangas compridas abotoadas. Meu coração vai até a garganta cada vez que eu penso ter visto seu andar arrastado, ou avisto algum garoto com cabelo liso e marrom—mas nunca é ele, e cada vez que não é ele, meu coração faz uma trajetória inversa em direção ao meu estomago. Estou assegurada de que irei vê-lo em cálculo, pelo menos. Com a minha experiência de vida, e passo os três minutos antes do sinal me ajeitando em frente ao espelho, ignorando as garotas do segundo ano conversando em ambos os meus lados, e fazendo um esforço para não pensar no fato de que estarei cara a cara com o senhor Daimler em menos de cinco minutos. Meu estomago tem se revirado com tanta frequência—uma combinação de esperar Juliet receber as rosas, torcer para conseguir ver o Kent, e estar desapontada—não tenho certeza se ele consegue aguentar ter que presenciar o senhor Daimler sorrir de forma maliciosa, piscar e arreganhar os dentes durante os quarenta e cinca minutos de sua aula. Irei afastar a lembrança da língua dele dentro da minha boca, molhada e aguada. “Mas que piranha.” Uma das garotas do segundo ano está saindo de uma das cabines do banheiro, balançando sua cabeça. Por um segundo paranoico eu tenho certeza que ela está falando de mim—que de algum jeito ela havia lido a minha mente—mas então suas amigas caem na gargalhada, e uma delas diz “Eu sei, ouvi dizer que ela fez sexo com, tipo, três caras do time de basquete.” E me dou conta de que estão falando da Anna Cartullo. A porta da cabine está balançando e o rabisco da Lindsay é obvio. AC = LB. E embaixo dele: Volte para o trailer, piranha. “Vocês não deveriam acreditar em tudo que ouvem,” eu deixo escapar, e instantaneamente todas as três garotas se calam e ficam me olhando. “É verdade,” eu digo, me sentindo mais corajosa agora que tenho uma plateia tão fascinada. “Vocês sabem como a maioria dos boatos começam?” As garotas balançam suas cabeças. Elas estão tão próximas que por um segundo eu penso que suas cabeças irão se bater. “Porque alguém tem vontade.” O sinal toca então, e as garotas do segundo ano se apressam pela porta como se tivessem permitido que elas deixassem a aula. Eu fico lá, desejando que meus pés saiam pela porta, andem o corredor, desçam um lance de escadas, e virem à direita para a aula de cálculo, mas nada acontece. Em vez disso, estou fixada na escrita na porta da cabine, como Ally riu e mostrou para as imitadoras em outras partes. AC = LB. Tenho certeza absoluta que Lindsay escreveu isso num lampejo—quatro letras pequenas, idiotas e sem significado—provavelmente para testar um novo marcador e ver quanta tinta nele. Teria

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sido melhor, ou quase, se ela tivesse feito intencionalmente. Teria sido melhor se ela realmente odiasse a Anna. Porque isso importa. Isso havia importado. Sem pensar no fato que a essa altura eu estaria atrasada para a aula de cálculo, eu umedeço um pedaço de papel toalha, apenas como um experimento, e começo a esfregar na escrita da porta da cabine. Não sai do lugar. Mas então, porque eu comecei, não consigo parar. Eu olho em baixo da pia e vejo uma almofada seca e uma lata de Comet. Eu tenho que segurar a porta com um braço e inclinar o outro, esfregando furiosamente, mas depois de um tempo as letras na porta começam a sumir, e depois de mais um tempo você quase não consegue mais ver letra alguma. Eu me sinto tão bem uma vez que tenha as tirado da primeira porta, eu continuo e esfrego as outras duas mesmo apesar de que o meu braço esteja ficando dolorido e limitado, e eu começo a suar um pouco minha blusa, amaldiçoando a Lindsay em pensamento o tempo todo por seus rabiscos, por usar tinta permanente. Quando eu acabo com todas as três cabines eu fecho as portas e olho a imagem delas no espelho: vazias, limpas, sem conteúdo, do jeito que portas de cabines deveriam ser. E por alguma razão isso me enche de orgulho e felicidade, eu danço rapidamente ali, batendo meus saltos no piso. Sinto-me como se tivesse voltado no tempo e corrigido alguma coisa. Eu não tenho me sentido tão viva, tão capaz de fazer coisas, há não sei quanto tempo. Agora eu me dou conta que arruinei minha maquiagem. Pequenas gotas de suor estão escorrendo pela minha testa e pela ponta do meu nariz. Eu jogo água fria no meu rosto e me enxugo com papel toalha, começando tudo de novo com a máscara e creme rosado de pétalas de rosa que Lindsay e eu usamos religiosamente. Meu coração está fazendo círculos loucamente dentro do meu peito, em parte de alegria, em parte de nervosismo. Próximo tempo é almoço, e a hora do almoço é a hora do show. “Será que você pode parar de fazer isso?” Elody se inclina pra frente e pressiona os meus dedos—que estavam batendo na mesa—contra a mesa. “Você está me deixando maluca.” “Você não está ficando rexi, está, Sam?” Lindsay faz um gesto para o meu sanduíche, que eu apenas belisquei nas beiradas. Rexi é a palavra que ela usa para anoréxica, embora eu sempre tenha achado que isso soa como um nome que você daria a um cachorro. “É isso que você ganha por pedir a carne misteriosa.” Ally faz uma cara pra minha carne assada, que eu pedi apesar do fato de que ele beira o inaceitável. Coisas Que Não Importam Quando Você Viveu os Mesmos Seis Dias e Morreu em Pelo Menos Dois Deles: carnes e sua frieza relativa. Para minha surpresa Lindsay me defende. “É tudo carne misteriosa, Al. O peru tem gosto de sola de sapato.”

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“Horrível.” Elody concorda. “Eu sempre odiei o peru daqui.” Ally admite, e todas nós olhamos uma para outra e começamos a rir. É bom rir, e a tensão nos meus ombros alivia. Ainda assim, meus dedos começam novamente com o batuque involuntário, movendo-se por conta própria. Estou analisando cada pessoa que entra no restaurante, procurando alternadamente por Kent—é como, o que, agora ele não come?—e pelos cabelos loiros chocantes de Juliet. Até agora, nada. “... para Juliet?” Eu estava totalmente desligada, pensando em Juliet, que por um segundo quando eu ouvi seu nome eu pensei que apenas o tinha imaginado—ou pior, dito isso em voz alta. Mas então eu vejo que Lindsay está olhando para Ally, um sorriso estranho em seus lábios, e eu sei que ela deve ter acabado de perguntar se Juliet recebeu nossa rosa. Eu esqueci totalmente que Ally e Juliet estudam biologia juntas, e eu estou repentinamente sem fôlego. A sala parece se arrastar enquanto eu espero pela resposta de Ally. Oh meu Deus, pessoal, foi a coisa mais estranha... ela recebeu o maior buquê de flores... ela até chegou a sorrir. Ally coloca uma mão sobre a boca, seus olhos se arregalando. “Oh meu Deus, pessoal. Eu esqueci totalmente de falar pra vocês—” Mãos cobrem os meus olhos e eu estou tão preocupada que eu deixo escapar um pequeno grito. As mãos cheiram como graxa e—é claro—fragrância de limão. Lindsay, Ally e Elody caem na gargalhada enquanto Rob tira as mãos dos meus olhos. Quando eu olho para cima para ele, ele está sorrindo, mas tem uma tensão ao redor de seus olhos e eu posso dizer que ele não está feliz. “Você está me evitando agora?” ele diz, puxando a alça da minha blusa como se tivesse cinco anos. “Não exatamente,” eu digo, tentando soar agradável. “O que você quer dizer?” Ele balança sua cabeça em direção à máquina de refrigerantes. “Eu estava em pé ali por, tipo, quinze minutos.” Sua voz está baixa, ele claramente não está feliz por estar tendo essa conversa na frente das minhas amigas. “Você não olhou, nem foi lá e nem nada do tipo.” Você me fez esperar mais tempo do que isso, eu quero dizer, mas obviamente ele não iria entender. Além disso, enquanto eu o vejo arrastar os seus tênis novos, eu me dou conta que ele não é tão horrível. Sim, ele é egoísta e não-tão-esperto e bebe demais e flerta com outras garotas e não conseguiu tirar um sutiã na vida, sem mencionar o que vem depois, mas algum dia ele irá crescer um pouco e irá fazer uma garota realmente feliz.

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“Eu não estou te ignorando Rob, é só que...” Eu solto ar pelas minhas bochechas, estalando. Eu nunca terminei com ninguém antes, e todos os clichês começam a se passar pela minha cabeça. Não é você, sou eu (não—é ele. E eu) É melhor ficarmos sendo amigos. (Nós nunca fomos amigos) “As coisas entre nós tem sido...” Ele me olha com os olhos entreabertos como se estivesse tentando ler em um idioma diferente. “Você recebeu a minha rosa, certo? Quinta aula? Você leu o bilhete?” Como se isso fosse melhorar algo. “Na verdade.” Eu digo, tentando manter a impaciência fora da minha voz. “Eu não recebi a sua rosa. Eu matei a quinta aula.” “Senhorita Kingston.” Do outro lado da mesa, Elody coloca uma mão no peito e se faz de chocada. “Eu estou muito desapontada com você.” Mais risadinhas. Eu atiro a ela um olhar e me volto para o Rob. “Mas essa não é a questão, a questão é que—” “Eu não recebi uma rosa sua.” Rob diz, e posso ver que ele está começando a associar as coisas bem lentamente: algo está errado. Quando Rob pensa, você quase consegue ver engrenagens rodando no seu cérebro. Essa manhã eu fiz outra mudança na Sala das Rosas. Eu parei no C e cuidadosamente passei pelas rosas do Rob—pulando a rosa dada pela Gabby Haynes, sua ex-namorada, que dizia, Quando é que nós vamos sair como você prometeu, sexy?—e removi a minha, com o bilhete que eu agonizei durante horas para escrever. Lindsay dá um tapinha no braço do Rob, ainda pensando que é tudo uma piada. “Seja paciente, Rob,” ela diz, piscando para ele. “Sua rosa está chegando.” “Paciente?” Rob franze a testa como se a palavra tivesse um gosto ruim em sua boca. Ele cruza os braços e me encara. “Entendi. Não tem rosa, certo? Você esqueceu ou algo do tipo?” Alguma coisa em sua voz faz com que minhas amigas finalmente entendam. Elas ficam em silêncio, olhando para o Rob e para mim, e de mim para o Rob. Deixe-me re-frasear: algum dia ele irá fazer uma garota de um clube realmente feliz, uma loira chamada Becky com seios fartos que não se importa tratada por um homem como carne sendo preparada. “Eu não esqueci—” eu começo a dizer, mas ele me interrompe. Sua voz está calma, bem baixa, mas eu posso ouvir a raiva percorrendo por baixo dela—dura, fria e cortante. “Você se importa tanto com o Dia do Cupido. E ai você não cumpre com sua parte no trato. Típico.”

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Por dentro, meu estomago está trabalhando como se estivesse tentando digerir uma vaca inteira, mas eu levanto meu queixo, encarando ele. “Típico? O que isso deveria significar?” “Eu acho que você sabe.” Rob passa uma mão na frente dos seus olhos e subitamente fica com uma aparência malvada, lembrando-me do truque que meu pai costumava fazer quando ele passava a mão pelo rosto, e seu rosto subitamente mudava de uma aparência feliz para triste, então de triste para feliz novamente, em um instante. “Você não tem exatamente um histórico perfeito de manter suas promessas—” “Alerta de psicopata.” Lindsay dispara, provavelmente esperando amenizar a situação. E funciona, mais ou menos. Eu me levanto tão rapidamente que eu bato na minha cadeira. Rob olha pra mim, enojado, então bate na cadeira com seu pé—não muito forte, mas o suficiente para que seja ouvido—e diz “Me encontre depois.” Ele sai a passos largos do restaurante, mas eu não estou o observando mais. Estou olhando pra Juliet, flutuando, deslizando pelo ambiente. Como se ela já estivesse morta e nós apenas estivéssemos vendo uma oscilação dela de volta a vida em pedaços, imperfeita. Ela não está carregando nada, nem mesmo um simples caule, apenas uma mochila marrom ondulada como sempre. Minha decepção foi tão grande e real que eu poderia até sentir o sabor dela, com um pouco um pequeno nó na minha garganta. “...E então um dos cupidos entrou, e eu juro, ela tinha, tipo, três dúzias de flores, todas para Juliet.” Eu me viro rapidamente “O que você disse?” Ally franze a testa um pouco por causa do meu tom de voz, mas ela repete, “Ela simplesmente ganhou, tipo, um grande buquê de rosas. Eu nunca vi tantas rosas juntas.” Ela começou a dar risadas “Talvez a psicopata esteja sendo seguida.” “Eu apenas não entendo o que aconteceu com a nossa rosa.” Lindsay diz, espichada. “Eu disse a eles especificadamente, terceiro andar, biologia.” “O que ela fez com elas?” Eu interponho. Ally, Elody e Lindsay me encaram. “Fez com o quê?” Ally pergunta. “As rosas. Ela—ela as jogou fora?” “Por que você se importa?” Lindsay torceu o nariz. “Eu só—eu não me importo. É só que...” Elas estão me olhando vagamente. Elody está com sua boca aberta e eu posso ver batatas fritas mastigas dentro dela. “Eu acho que é

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legal, ok? Se alguém mandou a ela todas aquelas rosas... eu não sei. Apenas acho que é legal.” “Ela provavelmente as mandou pra ela mesma.” Elody diz, começando a rir novamente. Eu finalmente perco a cabeça. “Por quê? Por que você diz isso?” Elody recua como se eu a tivesse acertado. “Eu só estou—é a Juliet.” “Sim, exato. É a Juliet. Então, de que adianta? Ninguém dá a mínima pra ela. Ninguém presta atenção.” Eu me inclino pra frente, pressionando ambas as mãos contra a mesa, minha cabeça pulsando de raiva e frustração. “De. Que. Adianta?” Ally franze a testa para mim. “Isso é porque você está chateada com o Rob?” “É.” Lindsay dobra os braços. “O que é que há com isso, de qualquer forma? Vocês estão bem?” “Isso não é por causa do Rob,” eu digo, apertando as palavras pra fora através dos meus dentes. Elody entra no meio. “Era uma piada, Sam. Ontem você disse que estava com medo que Juliet te mordesse caso você chegasse muito perto. Você disse que ela provavelmente tinha raiva.” Isso é o que realmente me quebra—bem ali, quando Elody diz isso. Ou melhor, quando ela me lembra que eu disse isso: ontem, seis dias atrás, um mundo inteiro atrás, totalmente diferente. Como isso era possível, eu penso, mudar tanto e não poder mudar coisa alguma? Essa é exatamente a pior coisa disso tudo, um agoniado sentimento de desesperança, e me dou conta que a pergunta que fiz pra Elody é a pergunta que vem me destruindo por dentro. De que adianta? Se estou morta—se não posso mudar coisa alguma, se não posso consertar nada—de que adianta? “Sam tem razão.” Lindsay pisca para mim, ainda sem entender. “É o Dia do Cupido, sabe? Um tempo de amor e perdão, até mesmo para os psicopatas do mundo.” Ela levanta uma rosa como se fosse uma taça de champanhe. “A Juliet.” Ally e Elody levantam suas rosas, rindo. “A Juliet.” Elas dizem, ao mesmo tempo. “Sam?” Lindsay levanta uma sobrancelha. “Se importa em brindar conosco?” Eu me viro e começo a ir em direção a área sênior, para a porta que leva diretamente ao estacionamento. Lindsay grita alguma coisa, e Ally responde, “Ela não as jogou fora, ok?” Eu continuo andando de qualquer forma, passando por mesas que possuem pilhas de comida e rosas e mochilas, todos conversando e rindo, distraídos. Eu sinto uma

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pontada no estomago que parece ser arrependimento. Tudo aparenta ser tão estúpido, tão feliz e normal: todos estão apenas desperdiçando tempo, pois todos tem bastante para desperdiçar, minutos passando no quem está com quem e você ouviu? No horizonte está a fileira de nuvens negras, uma cortina prestes a ser fechada. Eu vasculho o estacionamento, procurando por Juliet, saltitando para me manter aquecida. Música ecoa de um carro na Rua Sênior, e eu reconheço o Taurus prateado da Krista Murphy na direção da saída. Tirando isso, o estacionamento está completamente parado. Juliet simplesmente desapareceu em algum lugar da paisagem de asfalto e metal. Eu respiro e exalo uma nuvem de fumaça, curtindo o a pontada de ar na minha garganta. Eu estou quase aliviada que Juliet tenha ido. Eu não sei exatamente o que diria a ela. E ela não jogou as flores fora, afinal das contas. Isso é um bom sinal. Eu fico ali por mais um segundo, saltitando nos meus pés, pensando, hoje à noite é a noite que eu vou ficar livre desse negócio. Pensando em todas as coisas que irei fazer mais na vinha vida. Ir para o Ponto do Ganso com Izzy, até ela ficar muito velha para aguentar. Sair com Elody, eu e ela. Dirigir até Nova Iorque e ir um jogo do Yankees com a Lindsay, encher minha cara com cachorros quentes e vaiar todos os jogadores. Beijar o Kent. Beijá-lo de verdade, devagar e demoradamente, em algum lugar a céu aberto—talvez enquanto esteja nevando. Talvez em pé, na mata. Ele irá se inclinar para frente e terá flocos de neve em sua sobrancelha novamente e ele tirará o cabelo do meu rosto e colocará uma mão quente no meu pescoço, tão quente que chega quase a queimar— “Ei, Sam!” A voz de Kent. Eu me viro com um grito curto, tropeçando nos meus próprios pés. Assim como Juliet Sykes, estou tão perdida em fantasias com o Kent que sua presença parece ser como um sonho ou um pensamento desejado. Ele está vestindo uma jaqueta velha de veludo com remendas nos cotovelos como um louco—e adorável—professor de inglês. A jaqueta parece ser macia e eu fico com a vontade de ficar no alcance e tocá-la, uma vontade que não tem nada a ver com senso geral de hoje e a preciosidade das coisas. As mãos do Kent estão enterradas em seus bolsos, e seus ombros estão encolhidos em direção as suas orelhas como se estivesse tentando se manter aquecido. “Nada de cálculo hoje?” “Hum... não.” Eu estive esperando o dia inteiro para encontrar com ele, mas agora minha mente está vazia. “Isso é uma pena.” Ele me dá um sorriso irônico, correndo sem sair do lugar. “Você perdeu algumas rosas.” Ele joga sua mochila por cima de um dos ombros e abre ela, tirando uma rosa torta-rosada-e-cremosa com um bilhete dourado esvoaçado em uma das pontas. “Algumas delas voltaram para o escritório, eu acho. Mas eu—uh, eu queria trazer essa aqui pra você pessoalmente. Está meio esmagada. Desculpe.” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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“Não está esmagada,” eu digo, rapidamente. “Ela é linda.” Ele morde a ponta dos seus lábios—a coisa mais bonita que eu já vi. Eu acho que ele pode estar nervoso. Seus olhos estão se movendo rapidamente pelo meu rosto e depois em outra direção, e cada vez que o seu olhar aterrissa no meu rosto eu sinto como se o mundo estivesse acabando e nós dois estivéssemos em um campo reluzente e verde. “Você não perdeu nada em matemática,” ele diz, e eu reconheço o jeito rápido de falar de um Kent McFuller se aproximando. “Quero dizer, nós vimos algumas coisas do trabalho de casa da quarta-feira porque algumas pessoas estavam, tipo, se desesperando por causa do questionário de segunda-feira. Mas a maioria estava um pouco nervoso, e eu acho que era por causa do Dia do Cupido, e Daimler realmente não se importou que—” “Kent?” Ele pisca e se cala. “Sim?” “Você me mandou isso?” Eu levanto a rosa. “Digo, ela é sua?” Seu sorriso se torna tão grande que parece um grande raio de sol. “Eu nunca direi,” ele diz, piscando. Eu dei inconscientemente vários passos na direção dele, de modo que eu posso sentir o calor vindo do corpo dele. Eu me pergunto o que ele faria se eu o puxasse contra mim bem agora, roçando meus lábios contra os dele do jeito que ele fez—do jeito que eu espero que ele tenha feito—na ultima noite. Mas até mesmo a ideia manda uma nuvem de borboletas pro meu estomago, meu corpo inteiro parece estremecido e incerto. Nesse momento eu lembro o que Ally disse para nós no primeiro dia, o dia em que tudo começou: que se um grupo de borboletas levanta voo na Tailândia, isso pode causar tempestades em Nova Iorque. E eu penso em todos os milhares de bilhões de passos e de erros e chances e coincidências que me trouxeram aqui, encarando Kent, segurando uma rosa torta-rosada-e-cremosa, e parece ser o maior milagre do mundo. “Obrigada.” Eu disparo, e rapidamente adiciono “Você sabe... por me trazer isso.” Ele abaixa sua cabeça, parecendo satisfeito e envergonhado. “Sem problema.” “Eu, hum, ouvi dizer que você vai dar uma festa hoje à noite?” Eu estou me chutando mentalmente por ter soado tão idiota. Na minha cabeça, isso saiu muito mais fácil. Na minha cabeça, ele iria se inclinar pra baixo e fazer aquela coisa com os lábios novamente, aquela coisa suave e esvoaçada. Estou desesperada para fazer dar tudo certo novamente, desesperada para voltar a ter aquele sentimento que tive na noite passada— que nós tivemos na noite passada, ele tem que ter sentido—mas temo que qualquer coisa que eu diga possa estragar tudo. Uma tristeza temporária pelo o que eu perdi me domina. Em algum lugar na infinita espiral essa, pequena, fração de segundo que nossos lábios se encontraram está perdida para sempre. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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“Pois é.” Seu rosto se ilumina. “Pais fora da cidade, você sabe. Você vai?” “Definitivamente.” Eu digo, tão forçadamente que ele parece surpreso. “Digo,” eu continuo em um volume normal, “vai ser o lugar para se estar, certo?” “Esperemos que sim.” A voz de Kent é lenta e morna, como xarope, e eu queria poder fechar os meus olhos e apenas ouvi-la. “Eu consegui dois barris.” Ele balança seus dedos no ar, como se dissesse “uhuul”. “Eu iria de qualquer forma.” Eu me chuto mentalmente: o que isso quer dizer? Kent parece ter entendido, no entanto, porque ele ficou vermelho. “Obrigado.” Ele diz. “Eu estava esperando que você fosse. Quero dizer, eu imaginei que você fosse, pois você está sempre indo a festas, você sabe, esse tipo de coisas, mas eu não sabia se você tinha outra festa pra ir ou se você e suas amigas costumavam fazer alguma outra coisas nas sextas-feiras—” “Kent?” Ele faz aquela adorável parada rápida com a boca. “Sim?” Eu lambo meus lábios, incerta sobre como dizer o que eu quero dizer, fechando as minhas mãos. “Eu—eu tenho algo para te dizer.” Ele enruga a testa. Adorável—como eu não havia me dado conta do quão adorável ele é?—e não facilitando as coisas. Respiro fundo, inspirando, expirando. “Isso vai soar um pouco insano, mas—” “Sim?” Ele se inclina ainda mais pra perto, até nossos lábios estarem a menos de dez centímetros de distância. Eu sinto cheiro de bala de hortelã na respiração dele, e minha cabeça começa a rodar freneticamente, como se tivesse se transformado em uma roda gigante. “Eu, hum, eu—” “Sam!” Kent e eu instintivamente damos um passo pra trás enquanto Lindsay forçava caminho pela porta do restaurante, minha bolsa e a dela atirados por cima de um braço. Eu até que estou agradecida pela interrupção, visto que eu estava ou prestes a contar que morri alguns dias atrás, ou que eu estava me apaixonando por ele. Lindsay se move com dificuldade, sendo realmente dramática com o fato de ela estar carregando duas bolsas, como se elas fossem feitas de metal. “Então estamos indo?” “Quê?” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Seus olhos passam momentaneamente por Kent, mas tirando disso ela não toma conhecimento dele. Ela se planta quase diretamente a frente dele, como se ele nem estivesse lá, como se ele não valesse o tempo dela, e quando Kent olha pra outra direção e finge não perceber eu me sinto mal. Eu quero mostrar, de algum modo, que eu não sou como ela—que eu sei que ele vale o meu tempo. Ele é melhor que o meu tempo. “Nós vamos para o Country’s Best Yogurt ou o quê?” Ela põe a mão sobre o estomago e faz uma cara. “Eu juro por Deus, essas fritas me deram um inchaço que só será resolvido através de uma mistura química de delícias.” Kent me dá um aceno rápido e começa a ir embora, sem tchau, sem nada, apenas tentando dar o fora dali o mais rápido que ele pode. Eu contorno a Lindsay e grito “Tchau Kent! Vejo você mais tarde!” Ele se vira rapidamente, surpreso, e me dá um sorriso enorme. “Até mais, Sam.” Ele toca sua cabeça, uma saudação, como uma daqueles caras dos filmes antigos em preto e branco, então ele entra no salão principal. Lindsay o observa durante um minuto, então olha pra mim e aperta os olhos. “E que novidade é essa? Kent já te pôs sob submissão?” “Talvez,” eu digo, porque não me importo com o que Lindsay pensa. Estou zunindo por causa do sorriso dele e por estar tão perto dele. Eu me sinto leve e invencível, o melhor tipo de embriaguez. Ela me encara por um segundo a mais e então apenas encolhe os ombros. “Nada diz ‘Eu te amo’ como um tijolo através de uma janela.” Então ela passa seu braço pelo meu. “Iogurte?” E é por isso, apesar de todos os seus milhões de defeitos, que eu amo Lindsay Edgecombe.

a raiz e embrião “Vamos lá, Sam.” Lindsay está olhando para cima para a casa de Kent gananciosamente, como se fosse feita de chocolate. “Seu rosto está bem.” Estou checando a maquiagem pela quinquagésima vez no espelho interno do carro. Eu passo batom pela ultima vez e pesco um pedaço pegajoso de rímel do canto dos meus cílios, praticando a fala que eu ensaiei na minha cabeça. Olha Kent, isso pode parar aleatório, mas eu estava imaginando se você, você sabe, estaria a fim de dar uma volta alguma hora... “Eu não entendo.” Ally se inclina pra frente do banco de trás, seu casaco inflado e impermeável estalando. “Se você não vai fazer com o Rob, pelo que você está se desesperando?” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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“Eu não estou desesperada,” eu digo. Apesar do fato que eu coloquei creme e hidratante com um leve tom avermelhado, meu rosto parece pálido feito o de uma vampira. “Você está desesperada,” Lindsay, Elody e Ally falam ao mesmo tempo, e então começam a rir. “Tem certeza que não quer um gole?” Ally cutuca o meu ombro com a garrafa de vodka. Eu balanço a cabeça. “Não, eu estou bem.” Estou nervosa demais para beber, estranhamente. Além disso, esse é o primeiro dia do meu novo começo. De agora em diante eu vou fazer as coisas direito. Eu vou ser uma pessoa diferente, uma pessoa boa. Eu vou ser o tipo de pessoa que seria lembrada bem, não apenas lembrada. Eu tenho repetido isso várias vezes, e apenas a ideia disso está me dando forças, alguma coisa sólida na qual eu posso me agarrar, um salva-vidas. Está me ajudando a superar o medo e a impressão que há em algum lugar dentro de mim que eu me esqueci de fazer alguma coisa, que alguma coisa está faltando. Lindsay passa seus braços ao meu redor e coloca um beijo na minha bochecha. Seu hálito cheira a vodka e Tic Tacs. “Nossa própria motorista designada,” ela diz. “Eu me sinto como em um especial pós-escola25.” “Você é um especial pós-escola.” Elody diz. “Do tipo que avisa.” “Você deveria falar, Putcha.” Lindsay diz, se virando para arremessar um tubo de batom para Elody. Ela o apanha e vibra triunfante, então passa levemente um pouco em seus lábios. “Bom, eu sou do tipo que congela,” Ally diz. “Podemos entrar, por favor?” “Madame?” Lindsay se vira para mim, gesticulando com a mão para frente levemente. “Certo. Vamos em frente.” Eu continuo percorrendo as falas pela minha cabeça: Você sabe, assistir um filme, ou ir comer alguma coisa ou algo do tipo... Eu sei que faz alguns anos desde que nós realmente conversamos... A festa está alta, um rugido gigante. Talvez seja porque eu estou sóbria, mas todo mundo parece estar ridiculamente próximo um do outro, quente e desconfortável, e pela primeira vez em muito tempo, eu me sinto tímida andando, como se as pessoas estivesse me olhando. Eu mantenho minha mente no que eu vim fazer aqui: Kent.

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Programas que são geralmente exibidos no horário do final da tarde, cuja audiência são adolescentes em idade escolar, e geralmente tratam de temas controversos ou socialmente relevantes. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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“Loucura.” Lindsay se inclina pra frente e faz círculos com sua mão no ar, fazendo gestos para todas as pessoas que estão grudadas, se movendo um centímetro de cada vez, como se todos eles estivessem conectados por uma corda invisível. Nós forçamos nosso caminho até o andar de cima. Os olhos de todo mundo tem uma aparência brilhante, como olhos de bonecas, por causa do álcool e talvez até outras coisas. É meio assustador, na verdade. Mesmo apesar de que eu estive na escola com todas essas pessoas desde sempre, eles parecem diferentes, não familiares, e quando eles sorriem para mim eu apenas vejo dentes em tudo que é lugar, como piranhas se preparando para comer alguma coisa. Eu me sinto como se uma cortina tivesse caído e eu estou vendo as pessoas do jeito que elas realmente são, diferentes e afiadas e desconhecidas. Pela primeira vez em dias, eu penso sobre o sonho que eu estava tendo por um tempo, onde eu estou andando em uma festa e todo mundo parece familiar exceto por uma coisa, alguma coisa está fora do lugar. Eu me pergunto se o significado real desse sonho não era que as pessoas estavam mudando, mas sim eu. Lindsay mantém um dedo encostado na curva das minhas costas, me encorajando a continuar andando, e eu estou feliz por isso. Esse pequeno ponto de conexão me dá coragem. Eu forço caminho até o primeiro cômodo do andar de cima, um dos maiores, e meu coração desce até o meu estomago: Kent. Ele está parado em um canto conversando com Phoebe Rifer, e instantaneamente a minha mente fica confusa, uma grande tempestade de neve. Sinto minha boca como se ela estivesse cheia de algodão e me arrependo totalmente de não ter tomado ao menos um gole, apenas para que eu não estivesse tão consciente do quão esquisita, alta e estranha eu me sinto, como se eu fosse Alice no País das Maravilhas e tivesse ficado grande demais para a sala inteira. Eu me viro para dizer alguma coisa para Lindsay—não sei o que, mas eu preciso estar falando com alguém, não apenas estar parada lá como algum tipo de vegetal super crescido—mas ela se foi. É claro. Ela deve ter ido encontrar Patrick. Eu fecho minhas mãos e meus olhos. Isso quer dizer a qualquer segundo agora, em três, dois, um... “Sam.” Rob não passa os braços ao meu redor, e quando eu me viro, ele está olhando com o nariz abaixado para mim, como se eu cheirasse. É insano, mas eu realmente tinha esquecido que ele estaria na festa. Eu nem sequer andei pensando nele. “Eu não achei que você fosse aparecer.” “Por que eu não apareceria?” Eu cruzo meus braços sobre o meu peito quando Rob lança um olhar não tão súbito em direção aos meus seios. “Você estava agindo de forma maluca hoje.” Aqui está, a crítica transparecendo. “E então?” Ele sorri, de forma preguiçosa e malfeita. “Nós podemos encontrar um jeito de você me compensar.” Raiva borbulha por dentro de mim. Ele está me olhando de cima a baixo como se seus olhos fossem dedos e ele estivesse tentando me tocar por inteira de uma vez só. Eu

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não acredito quantas vezes eu passei a noite no sofá do porão dele, deixando-o babar em mim. Anos e anos de fantasia desmoronaram naquele segundo. “Ah é?” Estou me esforçando para manter minha calma, mas eu não consigo manter a rispidez fora da minha voz. Felizmente, Rob está bêbado demais para reparar. “Eu gostaria disso, de te compensar, quero dizer.” “Sério?” O rosto de Rob se ilumina e ele dá um passo para perto de mim, passando seus braços ao redor da minha cintura. Eu me estremeço por dentro, mas me forço a ficar firme. “Hmmm.” Eu passo meus dedos pelo seu peito, olhando sorrateiramente para Kent, quem ainda está conversando com Phoebe. Eu fico distraída momentaneamente—Phoebe tem a personalidade de uma terrível tola, pelo amor de Deus—mas eu volto meus olhos para Rob e me forço a flertar. “Eu acho que nós precisamos ficar um pouco a sós dessa vez, não acha?” “Definitivamente.” Rob chega um pouco para o lado. “No que você está pensando?” Eu fico na ponta dos meus pés, de modo que agora estou sussurrando na orelha dele. “Tem um quarto nesse andar. Adesivos grandes pela porta inteira. Entre lá e espere por mim. Espere por mim nu.” Eu me afasto, dando-lhe meu sorriso mais sensual. “E eu prometo lhe dar a melhor desculpa que você já recebeu.” Os olhos de Rob estão quase saltando de seu rosto. “Agora?” “Agora.” Ele desgruda de mim e dá um passo meio desajeitado em direção ao corredor, então alguma coisa passa pela cabeça dele e ele se vira. “Você estará lá logo, certo?” Dessa vez não há nada de forçado no meu sorriso. “Cinco minutos,” eu digo, com a minha mão direita levantada mostrando os cinco dedos. “Eu prometo.” Quando eu me afasto de Rob, me seguro para não cair na gargalhada, e todo o nervosismo que eu sentia a respeito de ir falar com Kent se dissipou. Estou pronta para marchar até ele e enfiar minha língua na garganta dela se for necessário. Exceto que ele se foi. “Merda,” eu murmuro. “Isso não é jeito de uma moça falar.” Ally chega por trás de mim, levantando suas sobrancelhas enquanto ela toma um gole da garrafa. “O que há de errado com você? Ataque da Crise Cokran?”

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“Alguma coisa desse tipo.” Eu esfrego minha testa. “Por acaso você, hum, viu Kent McFuller?” Ally pisca os olhos para mim. “Quem?” “Kent. McFuller,” eu digo um pouco mais alto, e duas garotas do segundo ano se viram e começam a olhar para mim. Eu olho de volta até elas olharem para outra direção. “O anfitrião com a multidão.” Ally levanta sua garrafa. “Por que, você já quebrou alguma coisa? É uma festa muito boa, você não acha?” “Sim, boa festa.” Eu tento não virar os olhos. Ela está embriagada demais para ser útil. Eu faço um gesto em direção aos fundos da casa. Lindsay e Elody devem estar na sala de trás, e Kent tem que estar por perto. “Vamos circular.” Ally pega meu braço. “Sim senhora.” Eu avisto Amy Weiss—provavelmente a maior fofoqueira da escola inteira—dando uns amassos com Oren Talmadge na entrada como se ela estivesse faminta e sua boca estivesse cheia de Cheetos. Eu arrasto Ally em direção a eles. “Você quer circular com Amy Weiss?” Ally chia no meu ouvido. No primeiro ano Amy espalhou o rumor de que Ally deixou Fred Dannon e outros dois caras tocarem nos seios dela atrás da academia em troca de um mês de trabalho de casa de matemática. Eu nunca tive certeza se a história era verdadeira ou não—Ally jura que não era, Fred jura que era, e Lindsay acha que Ally apenas os deixou olhar seus seios, não tocar neles—mas de qualquer jeito Ally e Amy viraram arqui-inimigas não oficiais desde então. “Parada rápida.” Eu dou um tapinha no ombro de Amy e ela se extrai da boca do Oren. “Ei, Sam.” Seu rosto se ilumina. Ela olha rapidamente para Ally, e então de volta para mim, enrolando seus braços ao redor do pescoço do Oren. Oren aparenta estar extremamente confuso, provavelmente se indagando o que aconteceu com o peixe-ventosa que estava no seu rosto. “Desculpe, eu estou bloqueando o corredor?” “Apenas a sua bunda está.” Ally diz empolgadamente. Eu aperto o braço dela e ela dá um leve grito. A última coisa que eu preciso é de Ally e Amy se desentendendo. “Sabe que existe um lugar bem melhor,” eu digo. “Se você e o Oren quiserem... você sabe, mais privacidade.” “Nós queremos privacidade,” Oren dispara. Eu sorrio para ele. “Quarto aberto. Adesivos grandes na porta. Cama extra-macia.” Eu levanto meus dedos até os lábios, jogo um beijo para Amy. “Divirtam-se.”

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“E o que foi isso?” Ally explode assim que nós estamos fora do alcance da voz. “Desde quando você e Amy são melhores amigas?” “Longa história.” Estou me sentindo bem, poderosa, e no controle. As coisas estão acontecendo do jeito que deveriam. Eu coloco minha mão na porta do quarto de Kent enquanto passo por ela. Desculpe, Rob. Ally e eu avançamos “costurando” entre as pessoas no corredor. Eu estou vasculhando a multidão à procura de Kent, entrando em várias salas laterais, ficando ainda mais frustrada cada vez que não o vejo. Nós ouvimos alguém gritar e então uma explosão de gargalhadas. Por um momento meu coração para e eu penso, Não pode ser, não hoje à noite, não de novo, não com Juliet, mas então eu ouço Oren berrar “Cara, levante as suas calças, pelo amor de Deus.” Ally estica sua cabeça para fora da entrada da sala que nós estamos e olha de volta na direção do quarto de Kent. Seus olhos estão tão grandes e redondos que ela parece até um personagem de desenho. “Hum, Sam? Talvez você queira ver isso.” Eu dou uma espiada no corredor, Rob correndo em direção à escada—ou tentando, pelo menos. É um pouco difícil para ele se mover rapidamente visto que ele (a) está absolutamente cercado de pessoas boquiabertas e (b) mais do que um pouco instável em pé—vestindo nada além da sua cueca, e seus tênis New Balance com meias de pares diferentes. E seu boné, é claro. Ele está carregando o resto das suas roupas em frente a sua virilha e fica gritando com as pessoas “O que diabos vocês estão olhando?” Eu me sentiria mal por ele se não fosse pelos tênis. Tipo o que, ele não se incomodou em tirá-los? Ele estava ocupado demais planejando seu método de ataque ao meu sutiã ou algo do tipo? Além disso, quando ele está quase nas escadas, ele esbarra acidentalmente em uma estudante do segundo ano, e ao invés de se afastar ele a envolve num abraço bêbado. Não consigo ouvir o que ele diz, mas quando ela se livra dele posso ver que ela está dando risinhos, como se ser agarrada por um veterano seminu, suado e que está totalmente fora de si é a melhor coisa que a aconteceu o dia inteiro. “Aham,” eu digo para Ally. “Nós definitivamente nos separamos. É oficial.” Ela está me olhando estranhamente. “Kent.” Meu coração fica frenético. “O quê?” “É o Kent.” Meu cérebro se desliga novamente. Ela sabe. É obvio que eu andei completamente obsessiva em relação a ele: talvez Lindsay tenha dito algo depois que ela nos viu juntos fora do restaurante. “Eu—o lance do Rob não tem nada a ver com—”

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Ally balança a cabeça, levanta um dedo por cima do meu ombro. “Kent. Atrás de você. Você não estava procurando ele agora há pouco?” Alívio toma conta de mim. Ela não sabe. Então uma pequena pontada de desapontamento também. Ela não sabe porque não há nada para saber. Ele nem sequer sabe. Eu me viro e começo a procurar por ele no hall. “Lá dentro.” Ally aponta para uma porta a uns três metros de nós. Do nosso ângulo é impossível ver mais do que um metro da sala, que, pela mesa enorme bloqueando metade da entrada, aparenta ser um depósito ou sala de estudos. As pessoas estão constantemente entrando e saído. “Vamos lá.” Eu puxo Ally novamente, mas ela se livra de mim. “Eu vou encontrar a Lindsay.” Ela está claramente cansada da missão que eu estou, seja essa qual for. Eu aceno com a cabeça e ela vai em direção à sala de trás, usando sua garrafa de vodka para abrir caminho entre as pessoas. Uma mão agarra meu braço e eu pulo. Eu me viro: Bridget McGuire e Alex Liment. “Você estuda inglês com a senhora Harbor, não é?” Ela não me espera responder antes de começar a discursar. “Você sabe se ela distribui os papéis da peça Macbeth? Alex faltou. Consulta com um médico.” Por causa de eu não ter ido tomar iogurte congelado com Lindsay no final das contas—alguma coisa estava me atraindo, me fazendo querer ficar perto da escola, do centro das coisas—eu quase me esqueci sobre Bridget e Anna e Alex. E agora o olhar no rosto de Alex—o pequeno, sorriso curvado que costumava surgir no rosto de Rob sempre que ele conseguia aumentar seus prazos por alguma razão completamente fabricada—me faz querer dar uma palmada nele. Eu penso em Anna com sua maquiagem de olho preta cor de carvão e seu refeitório improvisado no chão do banheiro abandonado. Nem mesmo Bridget é tão má. Irritante, sim, mas bonita e legal e o tipo de pessoa que provavelmente passa seu tempo livre fazendo trabalho voluntário com crianças doentes. Eu não posso aguentar isso. Eu não posso o deixar continuar com isso. Bridget ainda está tagarelando sobre a mãe de Alex ser uma compulsiva por saúde. Eu a interrompo. “Por acaso algum de vocês está sentindo cheiro de comida chinesa?” Bridget torce o nariz, claramente desapontada por eu não estar a ouvindo. “Comida chinesa?” Eu faço uma grande atuação de inalação. “Sim, como, como...”—eu olho diretamente para Alex—“como um grande tigela de bife de laranja.”

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Seu sorriso diminui um pouco, mas ele dá de ombros e diz “Eu não sinto cheiro nenhum.” “Oh meu Deus.” Bridget coloca uma mão na frente de sua boca. “Não é o meu hálito, é? Eu realmente comi comida chinesa ontem a noite.” Eu continuo olhando para Alex. “O que há de errado com você?” Eu pergunto, sem nem mesmo me importar de deixar a impaciência fora da minha voz. Ele pisca. “O quê?” Bridget parece confusa, e por um momento nós três simplesmente estamos parados ali, sem dizer nada. Alex e eu estamos nos encarando e Bridget está alternando o olhar entre ele e eu tão rapidamente que eu estou preocupada que o pescoço dela sair do lugar. Então eu sorrio. “Você sabe, com sua saúde. Por que você teve que ir ao médico?” Alex relaxa visivelmente. “Nada demais. Minha mãe queria que eu tomasse algum tipo de injeção. E você sabe, apenas um check-up geral e coisas do tipo. “Umm-hummm. Eu espero que eles estejam inteiros.” Eu lanço um olhar para sua virilha. Felizmente, Bridget está olhando para ele, assistindo-o ficar vermelho, e não percebe. “Hum. S-sim. Exatamente.” Ele pisca para mim como se ele tivesse reparado em mim pela primeira vez. “Eu tenho procurado por um médico.” Eu falo de forma inesperada. Sinto-me mal por Bridget, mas ao mesmo tempo, ela merece saber o que o seu namorado fajuto está fazendo. “É tão difícil encontrar um bom, sabe? Especialmente um que se repete que nem um restaurante com uma promoção de R$10,00 o almoço. Isso é raro.” “Do que você está falando?” A voz de Bridget esta aguda. Ela vira para trás pra Alex. “Do que ela está falando?” Um músculo está tremendo no queixo de Alex. Eu posso dizer que ele quer me amaldiçoar, mas sabe que isso só deixaria tudo pior, então ele apenas fica parado me olhando com raiva. Eu coloco minha mão no braço de Bridget. “Desculpe-me, Bridget. Mas seu namorado é realmente desprezível.” “Do que ela está falando?” A voz de Bridget fica aguda, e enquanto eu vou andando eu ouço Alex tentando acalmá-la, sem dúvida alimentando-a com mentiras assim que consegue pensar nelas. Eu deveria sentir-me bem sobre o que eu fiz—ele merece isso, afinal, e de um modo estranho eu estou apenas ajeitando as coisas—mas assim que eu me afasto deles me sinto

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estranhamente reduzida. O sentimento de controle desaparece e em seu lugar vem um sentimento de ansiedade que me faz tremer. Eu revejo os eventos acontecidos no dia como se estivesse percorrendo uma tela de computador, tentando encontrar alguma falha, algo que eu tenha esquecido de fazer ou dizer. Talvez eu devesse ter ido à casa de Juliet mais cedo, para dar uma olhada nela. Mas então, eu não tenho muita certeza sobre o que eu teria dito a ela. Oi. Você pode me assegurar de que não irá se jogar na frente de nenhum carro essa noite? Isso seria ótimo. Sem explosivos, também. É a minha vida com a qual você está brincando. A música está tão alta, as notas são dificilmente distinguidas uma da outra. Eu fantasio pegar na mão do Kent e levá-lo para algum lugar escuro e quieto. A sala lá embaixo, talvez, ou para a mata, ou algum lugar mais longe. Talvez a gente apenas entre em um carro e dirija. “Sam! Sam!” Eu olho para cima. Na sala de trás Lindsay está em cima de um dos sofás, acenando para mim por cima da enorme quantidade de cabeças. Ally está perto dela, e alguns metros além delas eu vejo Elody sussurrando alguma coisa para Steve Dough. Eu hesito, uma sensação de falta de esperança toma conta de mim. É ridículo para mim conversar com Kent. Eu não tenho palavras para descrever o quão errada eu estava a respeito dele, de Rob, de todo mundo. Eu não acho que consigo explicar para ele como eu mudei. E talvez seja tudo uma mentira, de qualquer jeito. Talvez seja impossível mudar. Em um momento, enquanto eu estou vacilando entre duas entradas, as pessoas ao meu redor ficam todas quietas e silenciosas, seus rostos ficando inexpressivos. Em cima do sofá Lindsay vacila, sua mão batendo inutilmente ao seu lado. Próximo a ela, Ally começa a abrir e fechar sua boca como um peixe. O zumbido está pelo meu corpo inteiro agora, como o zumbido de um fio elétrico. E lá está ela, marchando pelo corredor. Depois de tudo isso: Juliet Sykes em uma missão. Em um segundo de desespero, a sensação de desesperança, de estar esquecendo algo ou não estar percebendo a questão de alguma forma, é todo transformado em raiva. Quando ela avista Lindsay ela para e abre sua boca, indo direto para a rotina do “Você é uma vadia,” mas eu nem sequer deixo a primeira palavra sair de sua boca antes que eu estou correndo para frente, pegando o braço dela, e meio que arrastando ela para trás pelo corredor. Ela está surpresa demais para reagir. Eu a puxo para o banheiro mais próximo—“Fora!” Eu ordeno para duas garotas que estão se maquiando em frente ao espelho—e bato a porta e a tranco. Quando eu me viro para encará-la, ela está me olhando com uma cara de Eu sou a psicopata. “O que você está fazendo?”

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Ela deve ter entendido errado a minha pergunta. “É uma festa.” Ela diz com uma insistência delicada. Quando ela não está ocupada perdendo a cabeça e me chamando de vadia ela tem uma bela voz, musical assim como a de Elody. “Eu estou permitida a estar aqui como qualquer outra pessoa.” “Não.” Eu balanço minha cabeça, apertando os dedos contra minhas têmporas para evitar que elas fiquem pulsando. “Quero dizer, o que você realmente está fazendo? Por que está aqui?” Seus olhos se desviam para a maçaneta atrás de mim. Eu me coloco na frente de forma que fica encostada na parte de baixo das minhas costas. Se ela quiser sair, vai ter que me tirar da frente. Aparentemente ela não gosta das suas opções, pois ela dá um longo, e demorado suspiro. “Eu vim dizer algo a você. A você, Lindsay, Elody e Ally.” “Ah, é? E o que seria?” “Você é uma vadia.” Ela diz calmamente, sem parecer nada como uma acusação, mais mesmo como algo que ela sentisse pena. Ao mesmo tempo em que ela diz isso, eu digo com ela “Eu sou uma vadia.” Ela fica olhando para mim. “Ouça, Juliet.”—Eu giro minhas mãos no meu cabelo—“Eu sei que nós nem sempre fomos legais com você ou algo do tipo. E eu realmente me sinto mal por causa disso—de verdade.” Eu tento calcular o que ela está pensando, mas é como se algo tivesse se desligado por trás dos olhos dela, um interruptor se desarmando, e ela apenas fica ali olhando para mim estupidamente. Eu continuo “O fato é, nós nunca realmente quisemos dizer nada com isso, sabe? Eu não acho que eu—nós—realmente pensamos sobre isso. É apenas o tipo da coisa que acontece. As pessoas costumavam fazer graça de mim o tempo todo.” Ela está me deixando nervosa, apenas olhando desse jeito, e eu lambo meus lábios. “Todo o tempo. E, tipo, eu não acho que seja porque as pessoas realmente são cruéis ou más ou algo do tipo. Eu só acho que... acho que...” Estou lutando para encontrar as palavras certas. Memórias estão se colidindo na minha cabeça: o som das pessoas cantando enquanto eu andava pelos corredores, o cheiro de sorvete no hálito de Lindsay no dia em que nós jogamos os absorventes da Beth pela janela, montando um cavalo direto para a mancha de árvores. “Eu só acho que as pessoas não pensam. Elas não sabem. Nós— eu—não sabia.” Eu me sinto bem orgulhosa por ter desabafado isso tudo. Mas Juliet não se mexeu ou sorriu ou sequer perdeu a cabeça. Ela está tão parada que poderia ser feito de pedra. Finalmente um pequeno tremor passa por ela, um terremoto pessoal, e seus olhos parecem se focar em mim.

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“Você nem sempre foi legal comigo?” Ela diz estupidamente, e meu estomago se revira. Ela não ouviu uma palavra do que eu disse. “Eu—sim. E eu sinto muito por isso.” Seus olhos se esvoaçam. “Na sétima série você e Lindsay roubaram todas as minhas roupas do meu armário então eu tive que andar o resto daquele dia nas minhas roupas de academia suadas. Então vocês me chamaram de ‘Sykes Asquerosa’.” “Eu—eu sinto muito. Eu não me lembro disso.” O modo como ela está me encarando é horrível, como se ela estivesse vendo dentro e através e além de mim até algum vazio. “Isso foi antes de vocês inventarem o ‘psicopata’, é claro.” A voz de Juliet perdeu sua qualidade musical. Está completamente sem tom. Ela levanta um braço e finge estar esfaqueando o ar, emitindo uma série de sons agudos que mandam calafrios para cima e para baixo no meu braço, e por um instante eu penso que talvez ela seja maluca. Então ela abaixa seus braços. “Muito engraçado. Psycho killer, qu’est-ce que c’est. Apelativo.” “As pessoas costumavam contar essa piada realmente estúpida sobre mim. Meio que cantavam ela quando eu passava. O que é vermelho e branco e todo esquisito...” Eu tenho esperança de fazê-la rir ou fazer ela se contorcer ou algo do tipo, mas ela continua me olhando com aquele olhar estúpido, parecido com o de um animal, vazio. “Eu nunca cantei isso,” ela diz, e então, como se estivesse sendo forçada a citar tudo que nós fizemos algum dia, continua. “Vocês tiraram fotos de mim quando eu estava tomando banho.” “Isso foi a Lindsay,” eu digo automaticamente, ficando cada vez mais desconfortável. Se ela ficasse nervosa, seria uma coisa—mas é como se ela nem sequer estivesse me vendo, como se ela apenas estivesse lendo uma lista que ela olhou milhões de vezes. “Vocês colocaram as fotos pela escola inteira. Aonde professores podiam ver.” “Nós tiramos elas em, tipo, uma hora.” Estou envergonhada assim que termino de falar essas palavras. Embora o fato de nós as termos retirado me faça sentir melhor. “Vocês invadiram a minha conta do Yahoo. Vocês publicaram meus—meus e-mails privados.” “Isso não fomos nós,” eu digo rapidamente, sentindo muito alivio que isso, ao menos, não foi nossa culpa. Para esse dia eu não tenho certeza de quem invadiu a conta dela, e circulou e-mails entre Juliet e um cara chamado Path2Pain118 que ela havia obviamente conhecido em uma sala de bate papo. Havia dúzias de e-mails, todos eles longos depoimentos sobre como o colegial era uma droga e o quão horrível todo mundo era. O hacker encaminhou os e-mails para quase todo mundo da escola depois de dar a Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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eles um novo título: Futuros Atiradores Escolares da América. Eu tremo, pensando no quão fácil é estar totalmente errado sobre as pessoas—ver uma pequena parte delas e confundir com todo o resto, ver a causa e pensar que é o efeito, ou vice versa. E embora eu tenha estado na casa do Kent cinco vezes nos últimos seis dias me sinto desorientada, confusa pela luz brilhante do banheiro e pelo rosto impassível de Juliet e os sons da festa vindos pela porta. Juliet continua falando como se eu nem tivesse falado. “Vocês começaram o rumor de que eu perdi minha virgindade por um maço de cigarros.” Ally. Esse foi Ally. Eu não posso dizer isso. Não importa, de qualquer jeito. Fomos nós. Fomos todas nós. Foi qualquer um que tenha repetido a história e murmurado “piranha” e simulado uma tosse de fumante sempre que ela passava. “Eu nem mesmo fumo,” ela diz com um sorriso, como se isso fosse a coisa mais engraçada de todas. Como se a isso, a vida dela toda, fosse uma grande piada. “Juliet—” “Minha irmã ouviu esse rumor. Ela contou para os meus pais. Eu—” Finalmente ela perde o controle, fechando suas mãos e as apertando contra suas coxas. “Eu nunca nem beijei alguém.” Isso vem como um sussurro feroz—uma confissão—e a intensidade disso, a tristeza e arrependimento, fazem um poço negro de raiva surgir em algum lugar dentro de mim. “Eu sei, ok? Eu sei que nós fizemos coisas horríveis. Eu sei que nós temos sido desagradáveis e as coisas são ruins e—” Eu faço uma pausa, as palavras ficando entaladas na minha garganta. Eu estou no ponto de chorar, cheia de fúria cega que me atinge como uma nuvem, encobrindo tudo exceto por um único ponto de frustração: Eu não consigo fazê-la ver, não consigo fazê-la ver que eu estou tentando endireitar as coisas. Eu me sinto como se estivesse assistindo ambas as nossas vidas escorrendo pelo ralo, a minha e a dela, envolvidas uma na outra. “O que eu estou dizendo é, eu quero fazer algo pra te compensar. Eu estou tentando me desculpar. As coisas—as coisas vão melhorar.” Ela pressiona os lábios juntos, me encarando silenciosamente e com o rosto pálido, e eu tenho que tencionar cada músculo dos meus braços para evitar que eles agarrem os ombros dela, sacudindo-a. “Ou seja...” Estou indo às cegas agora, insegura, me agarrando em ideias e palavras que vêm zunindo para mim através da minha raiva, tentando ir direto a ela. “Você recebeu aquelas rosas hoje, certo? Tipo um monte delas?” Um enorme tremor passa por ela. E agora uma luz surge em seus olhos novamente, mas ao invés de gratidão, tem ódio queimando neles.

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“Eu sabia. Eu sabia que foram vocês.” Sua voz está tão cheia de raiva e dor que eu recuo como se ela tivesse me batido. “O que foi isso? Outra das suas piadas?” Sua reação é tão inesperada que eu levo alguns segundos para pensar em uma resposta. “Que? Não. Essa não era—” “Pobre pequena Psicopata.” Juliet aperta os olhos, quase que me reprovando. “Sem amigos. Sem rosas. Vamos mexer com ela mais uma vez.” “Eu não queria mexer com você.” Eu não tenho ideia do que está acontecendo ou como as coisas deram terrivelmente erradas. “Era para ser legal.” Eu não sei se ela se quer me escutou. Ela se inclina para mais perto. “Então qual era o plano? O que vocês iam fazer com essa droga de ‘admirador secreto’? Subornar algum dos seus amigos para ele fingir que gosta de mim? Me chamar para sair? Talvez até ir para o baile? E então—o quê? Na noite que nós deveríamos ir, ele simplesmente não aparece? E isso será tão ridiculamente engraçado se eu surtar, se eu perder a cabeça, se eu chorar ou me despedaçar nos corredores quando eu o vir na escola.” Ela salta pra trás. “Desculpe desapontar vocês, mas vocês estão se repetindo. Já estiveram lá, já fizeram isso. Oitava série. Encontro Anual. Andrew Roberts.” Ela se curva para frente como se o discurso dela tivesse a deixado exausta, a ira e a luz ardente desaparecem simultaneamente, todas as expressões saindo de seu rosto, suas mãos se abrindo. “Ou talvez vocês não tivessem um plano,” ela diz, dessa vez calmamente, quase de forma doce. “Talvez não houvesse razão alguma. Talvez vocês apenas quisessem me lembrar que eu não tenho ninguém, nenhum amigo, nenhum admirador secreto. ‘Talvez ano que vem, mas provavelmente não’, certo?” Ela sorri para mim novamente, e é muito pior que sua fúria. A essa altura estou tão frustrada e desnorteada que tenho que lutar contra as lágrimas. “Eu juro, Juliet, essa não era a intenção. Eu só—eu só pensei que seria legal. Eu pensei que isso iria fazer você se sentir melhor.” “Fazer eu me sentir melhor?” Ela repete as palavras como se nunca as tivesse ouvido antes, e agora seus olhos têm um olhar sonhador, distante. Cada traço de raiva e emoção foi embora. Ela parece em paz, até mesmo, e eu estou comovida com o quão bonita ela é—de perto, simplesmente igual uma supermodelo, com aquela pele fantasmagoricamente pálida, e aqueles olhos azuis enormes, da cor do céu durante a manhã. “Você não me conhece,” ela diz em um tom um pouco maior que um sussurro. “Você nunca me conheceu. E você não pode fazer eu me sentir melhor. Ninguém pode.”

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Isso me lembra do que eu disse ao Kent apenas dois dias atrás—Eu não acho que posso ser consertada—mas agora eu sei que eu estava errada. Todo mundo pode ser consertado; tem que ser desse modo, é a única coisa que faz sentido. Eu estou tentando pensar em um modo de dizer isso a Juliet, a convencê-la disso, mas muito calmamente, e com essa graça flutuante que ela sempre teve, ela coloca sua mão em um dos meus braços e me move gentilmente porém firmemente para fora do caminho, e eu me vejo saindo da frente e deixando-a alcançar a maçaneta. As lágrimas estão empurrando no fundo da minha garganta, e eu ainda estou me debatendo para encontrar palavras, e o tempo todo é como se o rosto dela estivesse ficando cada vez mais pálido, quase brilhando, como o fino ponto branco de uma chama: e eu tenho essa ideia de que eu já estou vendo ela se extinguindo, sua vida oscilando em frente a mim, como uma TV com estática. Ela pausa com sua mão na porta, olhando diretamente para sua frente. “Sabe, eu costumava ser amiga da Lindsay.” Ela ainda está falando com aquela horrível, calma voz, embora parecesse que ela esta falando de uma distancia de milhas e milhas. “Quando nós éramos mais jovens nós fazíamos tudo juntas. Eu ainda tenho um colar de amizade que ela me deu, um desses com um coração dividido ao meio. Quando você coloca os dois juntos você lia ‘Melhores amigas para sempre.’” Eu quero perguntar o que aconteceu, por que elas pararam de ser amigas, mas as palavras estão presas atrás do nó na minha garganta. E eu estou com medo de interromper. Enquanto Juliet continuar falando, ela está a salvo. “Isso foi bem antes dos seus pais se divorciarem.” Juliet lança um rápido olhar na minha direção, mas seus olhos parecem passar direto pelo meu rosto sem na verdade notá-lo. “Ela estava tão triste o tempo todo. Eu costumava ir até a casa dela para passar algumas noites, e seus pais estavam discutindo tão intensamente que nós tínhamos que nos esconder embaixo da cama dela e colocávamos travesseiros em todos os lugares para abafar o som. Ela chamava isso ‘construir um forte’. Ela sempre foi assim, sabe, sempre tentando fazer o melhor das coisas. Mas quando ela pensava que eu estava dormindo, ela chorava e chorava e chorava. Ela começou a ter pesadelos, também. Alguns muito ruins. Ela acordava gritando no meio da noite.” Juliet está encarando a porta novamente, sorrindo um pouco. Eu queria poder voltar nas memórias dela e consertar seja lá o que estiver errado. “Ela começou a molhar a cama de novo, sabe? Porque tudo estava tão mal com o pai e a mãe dela. Ela estava humilhada, é claro. Ela me fez jurar segredo—disse que nunca mais falaria comigo se eu contasse a alguém. Nós costumávamos acordar de manhã e alguns dos travesseiros do forte estavam encharcados. Eu fingia que não percebia. Uma manhã eu entrei no banheiro para escovar os dentes, e ela estava sentada no vaso sanitário, esfregando o travesseiro com tanto alvejante que fez os meus olhos doerem. Ela deveria estar esfregando a mais de meia hora. O travesseiro estava todo manchado de branco e arruinado, e seus dedos estavam vermelhos e em carne viva. Eles estavam queimados, quase. Mas é como se ela não pudesse ver isso. Ela apenas queria que ele estivesse limpo.” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Eu fecho meus olhos, sentindo o chão balançar embaixo de mim, me lembrando de ter entrado no banheiro da Rosalita e ter visto Lindsay de joelhos, os restos de comida no banheiro. A mistura de vergonha e raiva e rebeldia em seu rosto. “Uma vez a briga ficou tão feita que nós fugimos da casa dela. Nós tínhamos apenas sete ou oito, mas nós andamos todo o caminho até minha casa. Era Março e estava bem frio. O plano era para Lindsay ficar no meu quarto. Eu não ia contar para ninguém, apenas a manteria a salvo e a traria comida. O que ela mais quis foram ursos de goma e barras de cereais. Ela adorava chocolate naquela época, e doces. Qualquer coisa doce, sério.” Sem querer, eu solto um pequeno, e sufocado som, eu não se consigo escutar mais alguma coisa. Eu tenho a sensação de que é isso: esse banheiro, essa história. Essa é a raiz e o embrião de tudo isso, o começo e o fim. Mas Juliet continua com esse tom estranho, medido, como se nós tivéssemos todo o tempo do mundo. “É claro que não funcionou. Nós fomos para o andar de cima e para o quarto, mas então começamos a argumentar sobre quem deveria dormir na cama pequena e quem ficaria na grande, e minha mãe nos ouviu. Ela estava aterrorizada por nós termos andado todo aquele caminho. Ela estava gritando e chorando que nós poderíamos ter sido sequestradas ou mortas ou qualquer coisa do tipo. Eu me lembro de ter ficado realmente sem graça.” Juliet vira suas mãos para cima, e observa a palma delas. “Não foi nada comparado ao surto de Lindsay, no entanto, quando minha mãe falou que ela teria que voltar para casa. Eu nunca tinha escutado alguém gritar tão alto.” Ela fica em silêncio por tanto tempo que eu penso que ela terminou. Suas palavras ficam zumbindo na minha cabeça, passando rapidamente e se ajeitando juntas como pistas em um jogo de palavras cruzadas. Ela sempre foi assim, sabe, sempre tentando fazer o melhor das coisas... Ela deveria estar esfregando a mais de meia hora... Seus dedos estavam vermelhos e em carne viva. Eu sinto que estou prestes a entender alguma coisa que eu não tenho certeza se quero saber. O cômodo parece pequeno e sufocante. Tem um peso esmagador no meu peito. Estou tentada a escapar disso, passar direto por ela para a festa e ir pegar uma cerveja e esquecer de Juliet, esquecer de tudo. Mas eu estou plantada onde estou. Eu não posso me mover. Eu fico vendo a infinita escuridão do meu sonho se levantando em frente a mim. Eu não posso dar as costas a isso. “É engraçado quando você pensa no assunto,” Juliet diz. “Nós fazíamos tudo juntas, Lindsay e eu. Nós até mesmo viramos Garotas Escoteiras juntas. Foi ideia dela, eu não queria fazer tudo isso—biscoitos e fogueiras e essas coisas. Nós fomos numa viagem de acampamento no inicio da quinta série. Nós dormimos na mesma tenda, é claro.” Eu observo as mãos de Juliet. Elas estão tremendo tão levemente mas tão rapidamente que você mal consegue ver, como as asas de um beija-flor. Com o canto do olho Juliet percebe que eu estou olhando, e leva suas mãos até suas coxas, graciosamente mas com determinação.

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“Você se lembra do nome que eles me deram na quinta série, certo? O nome que Lindsay me deu? Amarelona?” Ela balança a cabeça. “Eu costumava sonhar com esse nome, eu o ouvia com tanta frequência. Algumas vezes eu até esquecia qual era o meu nome real.” Ela vira para mim e seu rosto está radiante, quase brilhando, lindo. “O engraçado é que, nem mesmo era eu. Lindsay foi a pessoa quem molhou seu saco de dormir. De manhã a tenda inteira estava cheirando. Mas quando a senhorita Bridges entrou e perguntou o que tinha acontecido, Lindsay apenas apontou o dedo para mim e gritou Ela fez isso. Eu nunca vou esquecer seu rosto quando ela gritou—Ela fez isso! Apavorada. Como se eu fosse um cão selvagem e estivesse prestes a mordê-la.” Eu encosto minhas costas na porta, grata por ter algo para poder me apoiar. Faz todo o sentido agora, é claro. Tudo faz perfeito sentido agora: a raiva de Lindsay, o modo como ela sempre levantava seus dedos em forma de cruz para espantar Juliet Sykes. Ela não a odeia. Ela tem medo dela. Juliet Sykes, a portadora do mais antigo, e talvez o pior segredo de Lindsay. E tudo isso parecia absurdo agora, a chance e aleatoriedade disso. Uma pessoa se atira para cima e a outra se afunda—aleatório e sem significado. Tão simples quanto estar no lugar certo, ou lugar errado, ou seja lá como você queira ver isso. Tão simples quanto ter um desejo por Pepsi Diet um dia numa festa de piscina, e ser levado embora, tão simples quanto não dizer não. “Por que você não disse nada?” Eu pergunto, mesmo já sabendo a resposta. Minha voz sai rouca por causa do esforço de engolir minhas lágrimas. Juliet dá de ombros. “Ela era minha melhor amiga, sabe? Ela era sempre tão triste naquela época.” Juliet faz um barulho que poderia ser uma risada ou uma lamúria. “Além disso,” ela diz mais calmamente, “eu pensei que isso iria passar.” “Juliet—” Eu começo a dizer. Ela balança seus ombros como se estivesse se livrando do peso de tudo, da conversa, do passado. “Não importa agora.” Ela diz rapidamente, e do mesmo modo ela abre a porta e desliza para fora. “Juliet!” Tem uma enorme aglomeração de pessoas paradas perto da porta, e quando eu saio sou empurrada para trás momentaneamente enquanto duas novatas se empurram para usar o banheiro, ambas gritando, bêbadas. “Eu estava aqui primeiro!” “Não, eu estava!” “Você acabou de chegar!” Algumas pessoas me olham de cara feia, e então Bridget McGuire passa por todos eles, com a cara vermelha e manchada e cheia de lágrimas. Quando ela me vê ela soluça “Você—” mas ela não termina a frase, apenas da a volta nas novatas e se tranca dentro do banheiro.

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“Jesus Cristo, de novo não,” alguém grita. “Eu vou fazer xixi nas calças,” uma das novatas geme, cruzando as pernas e saltitando. Alex Liment está bem atrás de Bridget. Ele abre caminho até a porta do banheiro e começa a bater na porta, chamando ela para que saia. Eu ainda não me movi. Estou pressionada contra a parede, cercada pelas pessoas, paralisada pelo quão errado tudo está. Eu me lembro de uma história que uma vez eu ouvi sobre afogamento: que quando você cai na água fria não é que você se afogue logo de cara mas sim que a água fria te desorienta e te faz pensar que para cima é para baixo e para baixo é para cima, então você pode estar nadando, nadando, nadando pela sua vida para a direção errada, todo o caminho em direção ao fundo até que você afunde. É assim que eu me sinto, como se tudo tivesse virado ao contrário. “Você é realmente inacreditável.” Eu repentinamente me dou conta que Alex está falando comigo. Seus lábios estão torcidos, mostrando todos os seus dentes. “Você sabe o que você é?” Ele coloca uma mão em cada lado da minha cabeça, de forma que ele fica me bloqueando. Eu posso ver suor na sua testa e sinto cheiro de cigarro e cerveja de sua respiração. “Você, Samantha Kingston, é uma vadia.” Ouvir isso me dá um solavanco, me acorda. Eu preciso me focar. Juliet está lá fora em algum lugar na mata, no frio. Ela provavelmente está indo para a estrada. Eu ainda posso achar ela, falar com ela, fazê-la enxergar. Eu coloco ambas as mãos no peito de Alex e o empurro. Ele tropeça para trás. “Eu já ouvi isso antes,” eu digo. “Acredite em mim.” Eu abro caminho pelo corredor e na metade da escada alguém grita meu nome. Eu paro na hora de forma que as pessoas atrás de mim batem umas nas outras que nem dominós e começam a me amaldiçoar. “Jesus Cristo, o quê?” Eu me viro e vejo Kent, que salta no corrimão e desce as escadas, quase derrubando Hanna Gordon. “Você veio.” Ele aterrissa dois degraus acima de mim, um pouco sem fôlego. Seus olhos estão brilhantes e felizes. Seu cabelo está caindo por cima da testa, recendo luz das luzes de natal sensíveis em todos os lugares, algumas partes cor de chocolate e outras de caramelo. Eu tenho uma vontade quase incontrolável de alcançá-lo e colocar o cabelo de volta atrás de suas orelhas.

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“Eu disse que viria, não disse?” Tem uma dor sutil se expandindo dentro do meu estomago. Tudo o que eu queria a noite inteira—o dia inteiro—era estar perto dele desse jeito. E agora eu não tenho tempo. “Olha Kent—” “Quero dizer, eu achei que você provavelmente estivesse aqui quando eu vi Lindsay, e todo mundo. Vocês normalmente andam em grupos, sabe? Mas então eu estava procurando por você—” Ele se interrompe, corando. “Quero dizer, não ativamente procurando. Sério, apenas algo do tipo examinando a multidão, sabe, enquanto eu ando por ai socializando. É o que você deveria fazer quando se é o anfitrião. Socializar. Então eu estava apenas mantendo um olho—” “Kent.” Minha voz sai afiada, mesquinha, e eu fecho meus olhos apenas por um segundo, imaginando como seria ficar com ele na escuridão total, imaginando o toque de sua mão na minha. De repente me ocorre o quão impossível tudo isso é—entre eu e ele. Quando eu abro os meus olhos ele está apenas parado, esperando, sua testa um pouco enrugada: tão adorável e tão normal, o tipo de cara que merece ter o tipo de garota que veste casaco de caxemira e é realmente boa em palavras cruzadas, ou toca violino, ou se voluntaria para fazer sopas. Alguém legal, normal e honesta. A dor no meu estomago se intensifica, como se algo tivesse entrado ali, me mordendo por dentro. Eu nunca poderia ser boa o suficiente para ele. Mesmo se eu vivesse o mesmo dia infinitamente, eu nunca seria boa o suficiente. “Desculpe-me,” eu me forço a dizer. “Eu—eu não posso falar com você agora.” “Mas—” Ele enfia suas mãos nas mangas de sua camisa, parecendo incerto. “Desculpe-me.” É melhor, eu quase digo, mas eu imagino que não há razão. Eu não olho para trás também, mesmo apesar de que eu posso sentir ele me observando. Do lado de fora eu coloco meu suéter, fechando ele por inteiro. A chuva passa pelo meu pescoço e encontra minhas calças imediatamente. Ao menos hoje à noite eu estou usando sapatos sem salto. Eu me mantenho perto da rodovia. O asfalto está coberto de gelo e eu tenho que alcançar os carros e me segurar neles enquanto eu passo. O frio se choca contra o meu pulmão, e é tão estranho, mas no meio disso tudo eu tenho o mais estúpido e simples dos pensamentos—eu realmente deveria correr mais—e assim que eu penso nisso eu quase me desfaço, rasgada pela vontade mista de rir e chorar. Mas o pensamento de Juliet abaixada na Rota 9, observando os carros passarem, esperando por Lindsay, me faz continuar indo. Depois de um tempo os sons da festa ficam para trás, e então está tudo silencioso exceto pela chuva caindo, como centenas de pequenas pontas de vidro caindo sobre o asfalto, e meus passos ecoando. Está escuro, também, e eu tenho que reduzir o passo, indo de um carro para o próximo com as minhas mãos, o metal tão frio debaixo dos meus dedos que parece estar quente. Quando eu encontro o Tanque, imponente sobre todos os outros, eu fico pescando na minha bolsa até que meus dedos encostam no metal gelado da

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chave com imitação de diamante que tem escrito nela GAROTA MÁ. As chaves do carro da Lindsay. Eu deixo sair ar das minhas bochechas. Isso, pelo menos, é uma boa coisa. Não tem como a Lindsay ir embora sem eu. O carro dela não estará na estrada essa noite, não importa o quanto Juliet espere. Ainda assim, eu tranco e retranco as portas. Então o carro fica para trás, também, e eu arrasto os pés para frente em uma espécie de rastejo, mentalmente me amaldiçoando por não ter trazido uma lanterna, amaldiçoando o 12 de fevereiro, amaldiçoando Juliet Sykes. Agora eu vejo que as rosas foram uma ideia estúpida, até mesmo um insulto. Eu penso em Juliet e Lindsay todos esses anos atrás numa tenda, quando Lindsay levantou um dedo e apontou, aterrorizada, humilhada, e tudo isso começou. E por anos Juliet manteve o segredo de Lindsay. Eu pensei que isso iria passar. Ao mesmo tempo quanto mais eu penso nisso—a chuva batendo furiosamente— mais irada eu fico. Essa é a minha vida: a toda grande, vasta bagunça da minha vida em todas as possibilidades—primeiros beijos e últimos beijos e faculdade e apartamentos e casamento e lutas e desculpas e felicidade—trazidos a um ponto, um segundo, uma fração de segundo, cortada no momento final pelo último ato de Juliet: sua vingança contra nós, contra mim. Quanto mais longe eu vou da festa, mais eu penso, Não. Não pode acontecer desse jeito. Não importa o que nós fizemos, não pode acontecer desse jeito. Então a rodovia se abre subitamente, e a Rota 9 está ali, brilhando em minha frente como um rio, prata líquida iluminada por feixes de luz. Eu nem mesmo percebo que estava prendendo a respiração até eu exalar e estar tossindo, grata pela luz. Eu tiro a chuva dos meus olhos e viro a esquerda, procurando a beirada da mata por Juliet. Uma pequena parte de mim está torcendo para que o fato de ter falado comigo a fez se sentir melhor—talvez ela tenha ido para casa, afinal das contas, talvez tenha significado alguma coisa. Ao mesmo tempo, o modo como ela falou naquele baixo, liso tom de voz volta para mim, e eu sei que seja lá onde for que ela estivesse naquele banheiro, não era comigo. Ela estava perdida em algum lugar, presa em uma fumaça, talvez de memórias, talvez de todas as coisas que poderiam ter acontecido de formas diferentes. Um carro ronca atrás de mim, me fazendo pular. Na aterrissagem eu perco equilíbrio e caio de quatro no gelo enquanto o carro passa, seguido de um segundo carro, seu motor alto como um trovão. Então, buzinas, ondas de som indo na minha direção, ficando cada vez mais altas. Eu olho para cima e vejo os faróis de um carro se aproximando de mim. Eu tento me mover e não consigo. Tento gritar e não consigo. Estou congelada, os faróis crescendo tão grandes quanto luas, flutuando ali. No último segundo o carro desvia um pouco, passando tão perto de mim que eu posso sentir o calor do motor, o cheiro da descarga e ouvir uma linha de música sendo emitida pelo rádio. Ilumine isso, corte isso, rasgue isso. Então se foi, ainda buzinando, sumindo na noite como o som dos alto falantes fica menor e menor, um pulso distante.

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Minhas palmas estão cortadas por causa do asfalto, e meu coração está batendo tão rapidamente que eu tenho certeza que ele irá saltar do meu peito. Lentamente, tremendo, eu me levanto. Outro carro passa do outro lado da estrada, esse lentamente, água dos pneus sendo levantada de ambos os lados. E então, quinze metros na minha frente, eu vejo uma figura em branco sair da mata, se levantando como uma longa e pálida flor. Juliet. Eu começo a ir na direção dela, devagar agora, tentando evitar as partes lisas do gelo escuro. Ela fica lá, perfeitamente imóvel, como se ela nem sequer sentisse a chuva. Em um dado momento ela até levanta seus braços, paralelos ao chão, como se estivesse se preparando para pular de um trampolim. Existe algo bonito e aterrorizador em ver ela nessa posição. Me faz lembrar de quando eu era menor e nós costumávamos ir a igreja no natal e na páscoa, e eu estava sempre com medo de olhar para o altar, onde havia uma estátua de madeira de Jesus montado na cruz. “Juliet!” Ela não responde; eu não tenho certeza se ela não ouviu ou se apenas está me ignorando. Estou a quinze metros de distancia, depois a dez. Tem um leve estrondo atrás de mim. Eu me viro e vejo um grande caminhão se aproximando através da escuridão. Novamente eu tenho um pensamento aleatório—ele realmente deveria ter sua habilitação suspensa, está indo rápido demais—e quando eu me viro novamente eu vejo que Juliet está encarando a estrada, tensionada, seus braços em suas coxas, e ela me lembra de algo, mas me leva um segundo para perceber do que, e me leva mais um segundo para perceber o que está acontecendo—ela parece um cachorro prestes a ir atrás de um pássaro—e então tudo se junta, e enquanto ela começa a se mover, uma mancha branca, estou me movendo também, correndo o mais rápido que posso e diminuindo a distancia entre nós enquanto ela está correndo pela passagem mais próxima. O caminhão começa a buzinar, um som tão grande que parece encher o ar com vibrações, e então eu me jogo contra ela com todo o meu peso, e nós rolamos, fazendo acrobacias, para trás em direção à mata. Eu estou gritando e ela está gritando e dor surge no meu ombro. Eu rolo para ficar com as costas no chão, os galhos pretos suspensos em uma rede fina. “O que você está fazendo?” Juliet está gritando, e quando eu me sento seu rosto finalmente perdeu a compostura e está misturado com raiva. “Que diabos você está fazendo?” “O que eu estou fazendo?” Minha raiva se acende também. “O que você está fazendo? Pulando na frente de caminhões aleatórios—eu pensei que todo o ponto disso fosse esperar pela Lindsay—” “Lindsay? Lindsay Edgecombe?” A raiva de Juliet diminui e ela aparenta estar completamente confusa. Ela traz suas mãos até a cabeça, apertando-a. “Eu não sei do que você está falando.”

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Eu estou repentinamente incerta. “Eu—eu pensei. Você sabe, como se isso fosse sua grande vingança—” Juliet ri, mas não há humor nisso. “Vingança?” Ela balança a cabeça, e novamente aquela mascara parece cobrir o seu rosto. “Desculpe, Sam. Por uma vez, isso não é sobre vocês. “ Ela se levanta, sem se importar em limpar os finos traços de lama e folhas que estão escalando ela. “Agora, por favor, me deixe sozinha.” Minha cabeça está girando e eu estou tentando problemas em focar nela, como se nós estivéssemos separadas por milhas ao invés de metros. A chuva está descendo com mais força agora, pingos fortes de chuva. Pequenos fragmentos das coisas estão rodopiando ao redor da minha cabeça: Lindsay apertando a buzina do Tanque orgulhosamente, dizendo “Eu poderia ir cara-a-cara com um motorista de dezoito e nunca sentiria isso.” O dono do Dunkin’ Donuts dizendo “Isso não é um carro, é um caminhão.” A aleatoriedade das coisas, o modo como tudo pode mudar em um segundo; o lugar certo na hora certa, ou na hora errada; hora; aquele enorme caminhão vindo na nossa direção, sua grande lataria de metal brilhando como dentes, a impressão de luzes e de grandeza. A única coisa que você consegue ver: faróis, tamanho, uma sensação de poder. Nada de vingança. Chance. Estúpida, mínima chance. Apenas uma parte do mecanismo estranho do mundo, com seus punhos e tosses e começos e colisões aleatórias. “Mas por que...?” Me esforço para ficar de pé. “Por que você veio aqui? Qual era a intenção?” Ela não olha para mim, mas dá levemente de ombros. “Não havia intenção, sério. Eu apenas queria dizer isso, eu sempre tive medo de dizer isso antes—o que eu realmente pensava de vocês. Eu não tenho mais medo. De você, de ninguém, de nada. Eu nem sequer tenho medo de—” Ela para, mas eu sei o que ela ia dizer. Eu nem sequer tenho medo de morrer. Mas eu sei que o que ela está falando não é totalmente verdade. A decisão dela de vir até a festa foi mais do que isso. As coisas estão se encaixando, fazendo uma terrível espécie de sentido: ela precisava de nós lá, precisava desse empurrão final. Eu fecho meus olhos diante a memória de uma Juliet molhada e deslizante sendo arremessada de pessoa a pessoa como uma bola de pinball. E essa noite, eu acho, ela apenas precisava contar a história dela—precisava se lembrar o quão ruim as coisas foram. Eu me pergunto se no dia em que todas nós dormimos na Lindsay—o dia em que as coisas terminaram diferentes para ela, o dia que elas terminaram sozinhas, com uma arma—ela levou mais tempo para criar coragem. Se ela veio à festa, sem ser notada, ignorada, e descobriu que não tinha forças para ir adiante com isso. Se mais tarde naquela noite ela se sentou e encarou a arma em seu colo, e lembrou do rosto de todas as pessoas que atormentaram ela durante os anos.

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O rosto de Vicky Hallinan surge na escuridão repentinamente, fazendo caretas, e eu abro meus olhos rapidamente. Talvez antes de você morrer sejam os seus fantasmas que você vê. “Esse não é o jeito certo,” eu digo fracamente, sentindo como se a chuva tivesse molhado o meu cérebro e o tornado encharcado e inútil. Eu não consigo me lembrar de nada do que eu ia dizer a ela. Eu me repito um pouco mais alto. “Esse não é o jeito certo.” “Por favor,” Juliet diz calmamente. “Eu só quero ficar sozinha.” “E quanto à sua família?” eu digo, minha voz se levantando histericamente quando eu percebo que a estou perdendo novamente, perdendo minha chance. “E quanto à sua irmã?” Ela não me responde. Ela está encarando a estrada, parada. A chuva molhou a camisa dela de modo que eu posso ver suas clavículas saltando para fora de suas costas como as asas de um filhote de pássaro, e eu penso no momento em que a mãe de Ally entrou no gabinete e nos contou “Juliet Sykes atirou em si mesma.” E eu achei que isso fosse tão errado—que ela, dentre todas as pessoas, deveria ter pulado ou se jogado ou caído do céu. Eu novamente fantasio a mesma coisa de antes, de que ela irá repentinamente criar asas e ir voando ar acima, para fora do perigo. A estrada tem estado surpreendentemente sem tráfego, mas agora de ambas as direções eu consigo distinguir barulhos de motores. Altos. Grandes. “Juliet.” Eu dou um passo para frente e agarro seu braço firmemente. “Eu não posso deixar você fazer isso.” Ela se vira para mim, olhando para mim com olhos tão vazios que leva meu fôlego embora. Eles são piscinas, líquidos, nada. Olhar para ela me lembra daquele mascara tricotada com os buracos cortados para os olhos; monstruosa, deformada, emendada, com olhos que olham para dentro e não olham para nada. Estou tão surpresa que eu perco minha força. Tem um ruído nas minhas orelhas, e eu tenho uma sensação vaga de carros, mas eu estou hipnotizada, não consigo parar de olhar para ela. “É tarde demais,” ela diz, e nesse segundo no qual eu não estou apertando forte o suficiente ela se solta de mim e se lança na estrada no momento em que duas vans ultrapassam, prestes a se passarem, e tudo que eu vejo é o brilho do metal e alguma coisa branca repentinamente sendo lançada no ar, e por um segundo eu sinto uma sensação transbordante de contentamento, e eu penso que ela conseguiu, está voando, e o tempo parece parar com ela resplandecendo no ar como um lindo pássaro. Mas então o tempo volta a andar, e o ar não a segura, e enquanto ela cai tem um som perfurante atravessando a escuridão e novamente me leva um longo tempo até eu me dar conta que sou eu, gritando.

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fantasmas e paraíso Uma hora e meia depois estou estacionada na entrada de carros de Lindsay e nós duas estamos observando a chuva se transformar e neve, olhando o mundo ficar quieto quando, em um momento, centenas de pingos de chuva parecem congelar no ar e ir flutuando silenciosamente para o solo. Eu já deixei Elody e Ally. No caminho da festa para casa ninguém falou. Elody se encostou contra o assento, fingindo dormir, mas a um ponto eu dei uma olhada no espelho retrovisor e vi o brilho dos seus olhos, me observando. “Jesus. Que noite.” Lindsay encosta a testa na janela. “Tão louca, sabe? Eu nunca teria pensado... quero dizer, ela estava ferrada obviamente, mas eu nunca pensei que ela iria...” ela estremeceu, lançou um olhar para mim. “E você estava lá.” Quando a policia chegou, e as ambulâncias—seguidas por todo o pessoal da festa de Kent, acumulando-se no bosque, quieto, repentinamente sóbrio, atraídos pelo som das sirenes como mariposas para o fogo—eles me encontraram em pé do lado da estrada, ainda olhando. Eu ainda tinha sido interrogada por uma policial feminina com uma verruga grande exatamente na ponta do queixo, que eu foquei como uma única estrela no céu escuro, algo para me orientar. Ela estava bêbada? Não. Ela estava qualquer outra coisa? Não tenha medo de me contar. Não. Pelo menos—eu acho que não. Lindsay lambe os lábios, agita as mãos no colo. “E ela não... ela não, assim, disse nada? Ela não explicou?” É a mesma coisa que a policial me perguntou mais cedo: a questão final, talvez a única que importava. Ela disse alguma coisa para você? Qualquer coisa afinal para lhe dar a compreensão de como ela estava se sentindo, o que estava pensando? Eu não acho que ela estava sentindo muita coisa. Para Lindsay eu digo, “Não tenho certeza que é o tipo de coisa que se pode explicar.” Ela continua pressionando, “Mas eu quero dizer, ela deve ter tido problemas, certo? Coisas em casa, certo? Pessoas simplesmente não fazem isso.” Eu penso na casa fria e escura de Juliet, as sombras da TV subindo as paredes, o casal desconhecido na moldura de prata maciça. “Eu não sei,” digo. Eu olho para Lindsay, mas ela mantem os olhos desviados. “Acho que nunca saberemos agora.”

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Eu sinto uma sensação de vazio tão profunda que para de parecer vazio e começa a parecer alivio. Eu imagino que assim é como seria ser carregada por uma onda. Isso é como pareceria no momento que a fina e escura borda da praia afunda sua cabeça além do horizonte, quando você rola e vê somente estrelas e céu e água, envolvendo você como um abraço. Quando você estende os braços e pensa, tudo bem. “Obrigada por me deixar.” Lindsay coloca a mão na alavanca da porta, mas não faz um movimento adicional de sair. “Você tem certeza que vai ficar bem?” “Vou ficar bem.” Eu observo padrões de neve descendo em um ângulo como se flutuando, coroando, quebrando em uma corrente pesada, uma maré que deixa o mundo cintilante. É bonito. Tudo que consigo pensar é que é a primeira de muitas coisas que Juliet não verá. Lindsay está mascando uma unha, um habito que ela sempre alega ter começado na terceira serie. A luz automática da garagem fora ligada e suas feições estão escuras. “Lindsay?” Ela pula como se estivéssemos em silencio por horas e ela está chocada em me ver ainda dentro do carro. “O quê?” “Lembra aquela vez na casa da Rosalita? Depois que você voltou de Nova York? Quando eu interrompi você no banheiro?” Ela se vira para me olhar, sem dizer nada. Sues olhos estão um negro mais profundo que o resto de seu rosto, dois pontos de total escuridão. “Aquela foi realmente a única vez?” pergunto. Ela hesita somente por um segundo. “É claro que foi,” diz, mas sua voz é um sussurro e sei que ela está mentindo. Agora eu percebo que Lindsay não é destemida. Ela está aterrorizada. Ela está aterrorizada que as pessoas descobrirão que ela está enganando, mentindo sobre sua vida, fingindo ter tudo no lugar quando ela realmente está estrebuchando como o resto de nós. Lindsay, que lhe morderá se você sequer olhar em sua direção da maneira errada, como um daqueles pequenos cães de ataque que estão sempre latindo e abocanhando o ar antes de serem arremessados para trás nas correntes que os mantém no lugar. Milhões de flocos de neve individuais, girando e rodopiando e parecendo, todos juntos, ondas rolantes de branco. Eu me pergunto se é verdade que elas são todas diferentes. “Juliet me contou.” Eu inclino de volta contra o descanso de cabeça e olho de soslaio para que tudo desapareça, a não ser a brancura. “A respeito da viagem das bandeirantes. Quando vocês estavam na quinta serie—quando ainda eram amigas.”

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Lindsay ainda não diz nada, mas eu posso senti-la tremendo um pouco perto de mim. “Ela me contou que na verdade foi você quem—você sabe.” “E você acreditou nela?” Lindsay diz rapidamente, mas ela automaticamente, pesadamente, embora ela não esperasse fazer nada de bom.

faz

isso

Eu a ignoro. “Lembra-se como todos costumavam chama-la Amarelona depois disso?” Abro meus olhos e olho para ela. “Por que você disse a todo mundo que era ela? Quero dizer, no momento, tudo bem, eu entendo, você estava assustada, você estava envergonhada, mas depois...? Por que você contou para todo mundo? Por que você espalhou isso?” A agitação de Lindsay está ficando pior agora, e por um segundo eu acho que ela não responderá, ou ela mentirá. Mas sua voz está estável quando fala, estável e cheia de algo que não reconheço. Arrependimento, talvez. “Eu sempre pensei que isso não duraria.” Ela parece que isso ainda a surpreende depois de todos esses anos. “Eu pensei afinal que ela contaria a todos o que realmente aconteceu. Que ela se defenderia por contra própria, sabe?” sua voz falha um pouco, uma nota de histeria se arrastando. “Por que ela nunca se defendeu? Nem uma vez. Ela apenas—ela apenas aceitou isso. Por quê?” Eu acho em todos os anos que Lindsay vem mantendo o conhecimento deste segredo, este segredo que por si gritava toda noite e esfregava travesseiros limpos de xixi—o segredo mais assustador de todos, o passado que estamos tentando esquecer. E eu acho que de todas as vezes que sentei em um silencio sofredor, aterrorizada que diria ou faria a alguma coisa errada, aterrorizada que a idiota, frouxa amazona perdedora dentro de mim se ergueria e engoliria o novo eu, como uma cobra banqueteando-se com alguma coisa. Como eu esvaziei as prateleiras dos meus troféus e despejei meu pufe e aprendi como me vestir e nunca comi o almoço quente, e, acima de tudo, aprendi a ficar longe de pessoas que me arrastariam para baixo e me carregariam de volta para aquele lugar. Pessoas como Juliet Sykes. Pessoas como Kent. Lindsay levantou-se e abriu a porta. Eu desliguei o motor e sai do carro com ela, jogando as chaves sobre o teto. Ela as pega com uma mão. Os faróis chamejam a vida, e me viro, olhando de soslaio, sustentando uma mão na direção geral do carro parado atrás de mim. Eu falo, “dois minutos.” Lindsay acena na direção de Kent, que está estacionado atrás de nós, esperando para me levar para casa. “Você tem certeza de que você está bem? Para chegar em casa e tudo mais, quero dizer.” “Tenho certeza,” digo. Apesar de tudo que acontecera esta noite, o pensamento de sentar perto de Kent por vinte minutos inteiros a caminho de minha casa me enche de

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animação. Embora eu saiba que não é certo—mesmo que eu saiba, em algum lugar no fundo, que isso não dará certo, que não dará certo por mim com ninguém mais. Lindsay abre a boca e a fecha. Eu posso dizer que ela quer perguntar sobre Kent, mas pensa melhor. Ela começa caminhar em direção à casa, hesita e se vira. “Sam?” “Sim?” “Eu sinto muito mesmo. Sinto muito mesmo sobre... tudo.” Ela quer que eu lhe diga que está tudo bem. Ela precisa que eu lhe diga isso. Eu não posso, contudo. Ao invés disso eu digo baixo, “as pessoas gostariam de você de qualquer jeito, Lindz.” Eu não digo, se você parasse de fingir tanto, mas eu sei que ela entende. “Nós ainda amaríamos você não importa o que aconteça.” Ela embola os pulsos e aperta, “Valeu.” Então, ela se vira e dirige-se para a casa. Por um segundo a luz cai em seu rosto e faz sua pele parecer molhada, mas não tenho certeza se ela está chorando ou se é a neve. Kent inclina-se e abre a porta para mim e eu entro. Nós recuamos da casa de Lindsay e entramos na estrada principal em silencio. Ele dirige lentamente, cuidadosamente, funis gêmeos de neve iluminados pelos faróis, ambas as mãos descansando levemente no volante. Havia tanto que eu queria dizer a ele, mas eu não conseguia me fazer falar. Estou cansada e minha cabeça dói, e só quero desfrutar do fato de que há somente alguns centímetros separando nossos braços, o fato que o carro dele cheira a canela, o fato que ele tem um desejo nas alturas por mim. Isso me faz sentir apática e pesada nos membros, ainda que meu interior está vivo e agitado e 100 por cento ciente dele, tão próximo. Quando chegamos perto da minha casa ele diminui a velocidade, então estamos quase rastejando, e estou esperando que seja porque ele não quer dirigir para o fim, também. Este é o momento da vez de parar, bem aqui—para o espaço se abrir e desaparecer como se faz nos lábios de um buraco negro, assim o tempo pode fazer suas voltas intermináveis e nos manter indo em frente para sempre na neve. Mas não importa o quão devagar Kent vá, o carro move-se para frente. Assim que a placa da minha rua aparece tortamente à esquerda, e então passamos pelas casas escuras dos meus vizinhos, e então estamos em minha casa. “Valeu por me trazer em casa,” digo, virando para ele quando ele se vira para mim e diz, “Você tem certeza que ficará bem?” Nós dois rimos nervosamente. Kent empurra a franja dos olhos, e elas imediatamente caem pesadamente de volta no lugar, fazendo meu estomago se curvar.

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“Sem problema,” ele diz, “Foi um prazer.” Foi um prazer. Só Kent podia dizer isso e fazer isso não soar como algo elegante de um filme antigo, e meu coração dói freneticamente por um segundo quando penso em todo tempo que desperdicei, segundos e horas escapando das pontas dos meus dedos para sempre como neve na escuridão. Nós sentamos por um minuto. Estou desesperada para dizer alguma coisa, qualquer coisa, para que não tenha que sair do carro, mas as palavras não vêm e os segundos passam. Finalmente eu deixo escapar, “Tudo esta noite foi horrível, exceto por isso.” “Exceto pelo quê?” Eu assinalo com meu dedo indicador uma vez entre nós. Você e eu. Tudo foi terrível exceto por isso. Uma luz aparece em seus olhos. “Sam.” Ele diz meu nome uma vez, apenas o sussurra, e eu nunca soube que uma simples silaba poderia transformar meu corpo inteiro em uma coisa dançante e incandescente. Ele levanta o braço de repente e coloca uma mão quente em ambos os lados do meu rosto, tracejando minhas sobrancelhas, seu polegar descansando levemente por um único milagroso segundo em me lábio inferior—estou sentindo o gosto de canela em sua pele—e então ele derruba a mão e se afasta, parecendo envergonhado. “Desculpe,” murmura. “Não... está tudo bem.” Meu corpo está zumbindo. Ele deve conseguir ouvi-lo. Ao mesmo tempo parece que minha cabeça vai sair dos meus ombros. “Isso é... Deus, é tão terrível.” “O que é tão terrível?” meu corpo para de zumbir bruscamente e um estômago fica pesado. Ele vai me dizer que não gosta de mim. Ele vai me dizer que ele percebe como eu sou novamente. “Quero dizer, com tudo que aconteceu esta noite... não é a hora certa... e você está com Rob.” “Eu não estou com o Rob,” digo rapidamente. “Não mais.” “Você não está?” ele esta me olhando tão intensamente que consigo ver listras de ouro alternando com o verde dos seus olhos como as raias de uma roda. Eu sacudo a cabeça.

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“Isso é uma coisa boa.” Ele ainda está me olhando fixamente daquele jeito, como se fosse a primeira e ultima pessoa que olhará fixamente para mim. “Porque...” sua voz falha, e seus olhos viajam lentamente para meus lábios, e há tanto desejo rugindo pelo meu corpo e juro que vou desmaiar. “Porque...?” eu o incito, surpresa que ainda posso falar. “Porque eu sinto muito, mas não consigo evitar, e realmente preciso beijar você agora.” Ele coloca uma mão atrás do meu pescoço e me puxa em direção a ele. E então estamos nos beijando. Seus lábios são suaves e deixam os meus pinicando. Fecho os meus olhos, e na escuridão atrás deles eu vejo lindas coisas fluorescentes, flores girando como flocos de neve e beija flores batendo no mesmo ritmo do meu coração. Eu sumi, perdida, flutuando pelo nada como estar em meu sonho, mas desta vez é um sentimento bom— como pairar no ar, como ser totalmente livre. Sua outra mão empurra meu cabelo do rosto, e eu posso sentir a impressão de seus dedos em todos os lugares que eles tocam, e eu penso em estrelas riscando o céu e deixando rastros ardentes atrás delas, e naquele momento—porém quanto tempo dure, segundos, minutos, dias—enquanto ele está dizendo meu nome em minha boca e estou respirando nele, eu percebo que esta, bem aqui, é a primeira e única vez que fui beijada em minha vida. Ele se afasta cedo demais, ainda segurando meu rosto. “Uau,” ele diz, sem fôlego. “Desculpe. Mas, uau.” “É.” A palavra se agarra na minha garganta. Nós ficamos assim, olhando fixamente um para o outro, e por uma vez não estou me sentindo ansiosa ou preocupada a respeito do que ele está pensando. Eu apenas estou feliz, presa em seus olhos, flutuando em um lugar quente e brilhante. “Eu gosto mesmo de você, Sam,” diz ele em voz baixa. “Sempre gostei.” “Eu gosto de você também.” Sem se preocupar com o amanha. Sem mesmo pensar nisso. Eu fecho meus olhos brevemente, afastando tudo exceto esse momento, suas mãos quentes, aqueles deliciosos olhos verdes, os lábios. “Venha.” Ele inclina-se para frente e beija minha testa uma vez gentilmente. “Você está cansada. Você precisa dormir.” Ele sai do carro e corre para o lado do passageiro para abrir a porta para mim. A neve começara a fixar-se, um cobertor sobre tudo, borrando as bordas do mundo. Nossos passos são abafados enquanto fazemos o caminho da entrada da frente até a varanda. Meus pais deixaram a luz da varanda acesa, a única luz em uma casa escura em uma rua escura—talvez a única luz no mundo. No seu brilho a neve parece estrelas cadentes.

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“Você tem neve nos cílios.” Kent traça um dedo por minhas pálpebras e sobre a ponte do meu nariz, me fazendo ter calafrios. “E no seu cabelo.” Uma mão flutuando, o toque das pontas dos dedos, uma palma da mão de forma de concha em meu pescoço. Paraíso. “Kent,” eu enrolo os dedos em volta da gola da sua camisa. Não importa o quão perto ele esteja, não é perto o bastante. “Você tem medo de ir dormir? Tem medo do que vem a seguir?” Ele sorri com um pequeno sorriso triste e juro que é como se ele sabe. “Às vezes tenho medo do que estou deixando para trás,” ele diz. Em seguida estamos nos beijamos de novo, nossos corpos e bocas se movendo juntos tão continuadamente, é como se não estivéssemos sequer nos beijando, apenas pensando em beijar, pensando em respirar, tudo certo e natural e inconsciente e relaxado, um sentimento não de experimento, mas de completo abandono, soltura, e ali mesmo o impensável e o impossível acontece: o tempo para afinal. Tempo e espaço retrocedem e disparam como o universo se expandido para sempre adiante, deixando somente a escuridão e nós dois em sua borda, escuridão e respiração e toque.

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sete A última vez que eu tive o sonho foi assim: estou caindo, rodando pelo ar, mas dessa vez a escuridão está viva ao redor de mim, cheia de coisas, e eu me dou conta de que não estou cercada por escuridão, mas só havia estado com os olhos fechados o tempo todo. Eu os abro, me sentindo boba, e ao mesmo tempo cem mil borboletas estão ao meu redor, tantas delas em cores tão brilhantes que são como um sólido arco íris, temporariamente obscurecendo o sol. Mas à medida que sobem mais e mais, elas revelam uma paisagem sob nós, tudo verde e dourado, banhado pelo sol e nuvens tingidas de rosado abaixo de mim, e o ar ao redor de mim é limpo e azul e cheira docemente, e eu rio, rio, rio girando através do ar, porque, claramente, eu estive caindo todo esse tempo. Eu estava voando. E quando eu acordo é maravilhoso, como se eu houvesse sido levada a uma calma, pacífica costa, e o sonho, e o que significa, partiu de mim como uma onda e está declinando agora, levandome com uma simples sólida certeza. Eu sei agora. Nunca foi sobre salvar a minha vida. Não, pelo menos, do modo que eu pensei.

e no sétimo dia Lembro que uma vez eu vi esse filme antigo com Lindsay, onde personagem principal estava falando quão triste é a última vez que você fez sexo e não sabe que é a última vez. Desde que eu nunca tive a primeira vez, não sou exatamente uma expert, mas eu penso que é como com a maioria das coisas na vida—o último beijo, a última risada, a última xícara de café, o último pôr-do-sol, a última vez que você pula com um extintor ou come sorvete em um cone, ou estica a língua para pegar um floco de neve. Você só não sabe. Mas eu acho que isso é uma coisa boa na verdade, porque se você sabe é quase impossível deixar ir. Quando você sabe, é como ser questionada sobre pular de uma beirada ou de um penhasco: tudo que você quer é ir para baixo com suas mãos e pés e beijar o chão sólido, cheirá-la, segurar-se nele. Penso que é assim que adeus sempre parece—como pular de um penhasco. A pior parte é fazer a escolha de fazê-lo. Uma vez que você está no ar, não há nada que possa fazer além de deixar ir.

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Aqui a última coisa que eu disse para os meus pais: Vejo vocês depois. Eu disse, eu amo você, também, mas isso foi antes. A última coisa que eu digo é: Vejo vocês depois. Ou na verdade, para ser completamente certa, a última coisa que eu digo para o meu pai é Vejo você depois. Para minha mãe eu digo Positivo, porque ela estava no batente da porta da cozinha segurando o jornal, seu cabelo bagunçado, o roupão torto, e ela disse Você tem certeza de que não quer café da manhã? Como ela sempre faz. Olhei para trás quando estava na porta da frente. Atrás dela meu pai estava no fogão, cantarolando para si mesmo e cozinhando ovos para o café da manhã da minha mãe. Ele estava usando o pijama listrado que Izzy e eu demos a ele no seu último aniversário, seu cabelo bagunçado em estranhos ângulos como se eu houvesse posto um dedo na tomada. Minha mãe põe uma mão em suas costas quando ela se aperta passando por ele, então senta a mesa na cozinha, balançando o jornal. Ele derrama os ovos em um prato e senta na frente dela, dizendo “Voila, madame. Extra crocante,” e ela balança a cabeça dizendo algo que eu não pude ouvir, mas ela estava sorrindo, e ele se inclina para frente e a beija na testa. É uma cena legal de se ver. Eu estava feliz por estar vendo. Izzy me seguiu até a porta com minhas luvas, rindo forçadamente para mim mostrando a fenda entre seus dois dentes da frente. Um sentimento de vertigem me atinge quando eu olho para ela, uma náusea açoitando em meu estômago, mas eu respirei fundo e pensei em contar os passos, pensando em pular, e no meu sonho de voar. Um, dois, três, pula. “Você esqueceu as luvas.” Ceceando, sorrindo, cachos de cabelo dourado. “O que eu faria sem você?” Eu me agacho e a aperto em um abraço, vendo nossa vida toda juntas: seus pequenos e infantis dedos e escalpo que cheiram como pomada de bebê; a primeira vez que cambaleou para mim; a primeira vez que ela andou de bicicleta e caiu e machucou um joelho, e quando eu vi todo aquele sangue nela, eu quase morri de susto, e a carreguei todo o caminho para casa. E eu vejo além disse, estranhamente, relances dela em outra direção: Izzy crescendo alta e maravilhosa com uma mão descansando em um volante, gargalhando; Izzy vestindo um longo vestido verde e percorrendo o caminho de salto até uma limusine que a espera em seu caminho para o baile; Izzy cercada por livros com a neve caindo ao redor dele, mergulhada em um dormitório, seu cabelo como uma chama dourada contra o branco. Ela chia e se afasta. “Eu não posso respirar! Você está me sufocando.” “Desculpe, Fizzer.” Com as mãos no pescoço, eu solto o colar de pássaro da minha avó. Os olhos de Izzy se arregalaram. “Vire,” eu disse, e pela primeira vez ela estava totalmente quieta e fazendo o que eu dizia sem reclamações, parada perfeitamente

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enquanto eu afasto seu cabelo e fecho o colar ao redor de seu pescoço. Ela se vira para mim, seu rosto muito sério, esperando pela minha opinião. Dei um puxão no colar. Caía sobre seu peito, parando exatamente a direita de seu coração. “Fica bom em você, Fizz.” “Você está dando para mim... De verdade? Ou só por hoje?” Sua voz é um sussurro, como se nós estivéssemos discutindo um segredo de Estado. “Fica melhor em você, de todo modo.” Pus um dedo em seu nariz, e ela rodopia para longe com uma mão no ar, como uma bailarina. “Obrigada, Sammy!” Exceto, claro, que soou como Shammy. “Seja boa, Izzy.” Fiquei de pé, minha garganta apertada, todo meu corpo dolorido. Tendo que lutar com a vontade de me ajoelhar e apertá-la novamente. Ela pôs a mão na boca como a mamãe faz, falsamente ofendida, empinando o nariz. “Eu sou sempre boa. Eu sou a melhor.” “A melhor das melhores.” Ela já havia se virado, correndo e deslizando em seus chinelos, voltando para a cozinha, gritando. “Olha o que Sammy deu para mim!” Com uma mão pousada ao redor do amuleto. Lágrimas embaçavam minha visão então eu não podia vê-la claramente, só o rosa de seus pijamas e os aros dourados de seu cabelo. Do lado de fora o frio queima meu pulmão e faz piorar a dor em minha garganta. Respirei fundo, absorvendo o cheiro de madeira queimada e gasolina. O sol é lindo, grande e distante no horizonte como que se espichando, como se estivesse deixando um cochilo para trás, e eu sei que debaixo dessa fraca luz de inverno está à promessa de dias que duraram até as oito da noite, e festas na piscina, e o cheiro de cloro e hambúrguer na churrasqueira; e debaixo há a promessa de árvores sendo iluminadas por vermelho e laranja como chamas e espaço sideral, e que a geada vai se derreter no meio-dia—camadas sobre camadas de vida, sempre algo mais, novo, profundo. Isso me fazia querer chorar, mas Lindsay já estava parada na frente da casa, balançando os braços e gritando. “O que você está fazendo?” Então ao invés eu só continuo andando, um pé na frente do outro, um, dois, três, e eu penso sobre deixar ir—sobre árvores e grama, e o céu, e as camadas avermelhadas de nuvens no horizonte—deixando tudo isso cair de mim como um véu. Talvez vá haver algo espetacular debaixo.

um milagre de chance e coincidência, parte I “Eu também, eu estava como, ouvindo, não me importo que isso é estúpido, não me importo que isso seja, como, um feriado inventado pelo Hallmark ou qualquer coisa...”

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Lindsay estridula sobre Patrick, pontuando sua história com tapas sobre o volante com a palma da mão. Ela estava perfeitamente em controle novamente, cabelo penteado para trás em um rabo de cavalo bagunçado o suficiente, brilho labial, um misto de Burberry Brit Gold grudado na parte saliente da jaqueta que ela vestia. É estranho vê-la desse modo depois da última noite, mas ao mesmo tempo eu estava contente. Ela é cruel, e assustada, e orgulhosa, e insegura, mas ela ainda era Lindsay Edgecombe—a garota que quando era caloura pegou a chave da BMW nova de Mari Tinsley depois de Mari chamá-la de prostituta barata, embora Mari tenha sido indicada para rainha do baile, e ninguém, nem mesmo o pessoal da sua turma, ficaria do lado dela—e ela ainda era minha melhor amiga, e apesar de tudo eu ainda a respeitava. E eu sei que não importa quão errada ela tenha sido—sobre um milhão de coisas, sobre outras pessoas, sobre ela mesma—ela vai descobrir isso. Eu sei pelo caminha que ela olhou na outra noite, com as sombras fazendo seu rosto oco. Talvez seja só uma coisa desejosa, mas eu gostaria de acreditar, em algum nível ou em alguma palavra, que o que aconteceu na última noite importa, que eu não desapareci totalmente. Algumas vezes eu tenho medo de ir dormir, por causa do que eu estou deixando para trás. Pensar sobre as palavras de Kent faz calafrios subirem por minha espinha. Essa era a primeira vez na minha vida que eu sentia falta de beijar alguém; a primeira vez que eu havia acordado sentindo como se tivesse perdido algo importante. “Talvez ele esteja pirando porque está na sua também,” Elody fala do banco de trás. “Não acha, Sam?” “Aham.” Eu estou saboreando o meu café, bebendo lentamente. Uma manhã perfeita, exatamente como eu haveria escolhido: café perfeito, bagel perfeito, dando voltas no carro com duas das minhas melhores amigas, não falando realmente sobre algo, sem tentar realmente falar sobre algo, só fofocando sobre a mesma coisa que nós sempre fazemos, curtindo a voz uma da outra. A única coisa que faltava era Ally. De repente eu tenho uma grande vontade de dar voltas em Ridgeview por um pouco mais. Parcialmente eu não queria que o passeio terminasse. Parcialmente eu só queria olhar para tudo por uma última vez. “Lindz? Podemos parar na Starbucks? Eu, hmmm, quero um latte.” Eu tomo alguns goles de meu café, tentando esgotá-lo para fazer seu mais acreditável. Ela revira os olhos. “Você odeia Starbucks.” “É, bom, eu tive um desejo repentino.” “Você diz que tem gosto de xixi de cachorro acabado dentro de um saco de lixo.” Elody sorve seu café. “Que nojo. Olá? Bebendo. Comendo.” Ela balança seu bagel dramaticamente.

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Lindsay ergue as duas mãos. “Isso foi uma menção.” “Se eu chego atrasada mais uma vez eu juro que vão me dar detenção pelo resto da vida,” Elody diz. “E você vai perder a chance de chupar o rosto com um Muffin antes do primeiro,” Lindsay diz, rindo entre dentes. “E você?” Elody a acerta com um pedaço de bagel, e Lindsay grunhe. “É um milagre você e Patrick ainda não terem fundido seus rostos.” “Vamos, Lindsay. Por favor?” Eu bato os cílios para ela, então me viro para Elody. “Por favor?” Lindsay suspira fortemente, trocando olhares com Elody pelo retrovisor. Ela dá um peteleco com o dedo. Eu bato palmas e Elody resmunga. “Sam tem que fazer o que ela quiser hoje,” Lindsay diz. “Afinal, é o grande dia dela.” Ela dá ênfase à palavra grande, então começou a rir. Elody entrou no assunto. “Eu diria que é o grande dia de Rob, na verdade.” “Nós só podemos esperar,” Lindsay se inclina para mim, me dando uma cotovelada. “Argh,” eu digo. “Pervertidas.” Lindsay revira os olhos agora. “Vai ser um loooongo dia.” “Um dos difíceis,” Elody acrescenta. Lindsay derrama um pouco de café na boca, e Elody guincha. As duas estão resfolegando e gargalhando como maníacas. “Muito engraçado” eu digo, olhando pela janela, olhando as casas começarem a ficarem mais próximas conforme íamos entrando no centro. “Muito maduras.” Mas eu sorrio, me sentindo feliz e calma, pensando, Vocês não têm ideia. Havia um pequeno estacionamento atrás da Starbucks no centro, e nós pegamos a última vaga, Lindsay fechando com violência ali e por pouco não arrancou os espelhos dos dois carros ao lado, mas ainda assim gritando. “Gucci, baby, Gucci,” o que ela diz ser italiano para: perfeito. Em minha cabeça eu estive dizendo adeus para tudo, todos esses lugares que eu via tão frequentemente que havia passado a ignorá-los: o drive no morro com costeletas de frango perfeitas, e a loja de bijuteria onde eu costumava comprar linha para fazer braceletes de amizade, e o Realtor, e o dentista, e o pequeno jardim onde Steve King pôs a língua na minha no sétimo ano—e eu fiquei tão surpresa que o mordi. Eu não consigo Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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parar de pensar sobre quão estranha é a vida, sobre Kent e Juliet, e até Alex, Anna, e Bridget, e o Sr. Otto e a Sra. Winters—sobre quão complexo e conectado é tudo, tudo enlaçado junto como alguma grande e invisível tela—e como algumas vezes você pode pensar que está fazendo a coisa certa, mas na verdade é terrível e vice versa. Nós entramos na Starbucks e eu pego um latte. Elody pega um brownie, mesmo que ela tenha acabado de comer, e Lindsay põe um urso de pelúcia na cabeça para então pedir uma água sem piscar, enquanto o balconista a encara como se ela fosse louca, e eu não posso ajudar, mas joguei meus braços ao redor dela, e ela diz: “Deixe isso para o banheiro, baby” fazendo a velha senhora atrás de nós se afastar. Nós saímos rindo e eu quase derrubo meu café—o Chevrolet marrom de Sarah Grundel está no estacionamento. Ela está com as mãos no volante, checando no relógio, esperando um lugar vagar. A última vaga—a vaga que nós pegamos. “Você só pode estar brincando comigo,” eu digo em voz alta. Ela definitivamente vai se atrasar agora. Lindsay me pega observando e não entende o que eu disse. “Eu sei. Se eu tivesse um carro desses, definitivamente eu não passaria da rodovia. Acho que eu preferia andar.” “Não, eu...” Balanço a cabeça, percebendo que não conseguiria explicar. Quando nós passamos, Sarah revirou os olhos e suspirou, tipoo Finalmente. O humor da situação me atinge e eu começo a rir. “Como está o latte?” Lindsay pergunta quando nós voltamos para o carro. “Como xixi de cachorro abandonado em um saco de lixo,” eu digo. Nós saímos da vaga, dando uma leve buzinada para Sarah, e ela bufa e zune entrando assim que nós estávamos fora. “Qual o problema dela?” Elody pergunta. “SVN,” Lindsay diz. “Síndrome de Vaga Necessitada.” Assim que nós saímos do estacionamento, me ocorre que talvez não fosse assim tão complicado. Na maior parte do tempo—99% do tempo—você simplesmente não sabe como e por que os fios estão presos juntos, e isso é ok. Faça uma coisa boa e algo ruim acontece. Faça algo ruim e alguma coisa boa acontece. Não faça nada e tudo explode. E muito, muito raramente—por algum milagre de chance e coincidência, com borboletas batendo as asas e todos os fios suspensos juntos—você tem a chance de fazer a coisa certa. Aqui o último que me ocorre, enquanto Sarah some no retrovisor, saindo do carro, cruzando através do estacionamento: se você está atrasada para uma grande competição, você deve provavelmente fazer o seu café em casa. Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Quando nós chegamos à escola eu tenho algumas coisas para cuidar na sala das rosas, então me separo de Elody e Lindsay. Então, porque eu já estava atrasada, decido perder o resto do primeiro período. Perambulo através do corredor e do campus, pensando em quão estranho é como você pode viver toda uma vida em um lugar e nunca realmente olhar para ele. Mesmo as paredes amarelas—que nós costumávamos chamar de vomitadas—me atinge como bonita agora, as árvores finas e descobertas no meio do pátio, elegantes e esparsas, só esperando pela neve. Na maior parte da minha vida sempre pareceu como se o dia no colégio durasse para sempre—exceto durante provas e testes, quando os segundos parecem saltar um sobre os outros tentando correr rapidamente. Hoje era assim. Não importava o quanto eu quisesse que tudo fosse devagar, o tempo estava correndo, se acabando. Eu mal havia ido para a segunda pergunta do teste do Sr. Tierney quando ele está gritando “Tempo!” e dando a todos nós sua feroz carranca, e eu tenho que dar meu teste parcialmente feito. Eu sei que não importa, mas eu dei meu melhor do mesmo jeito. Eu queria ter um último dia quando tudo era normal. Um dia como um milhão de outros dias que eu havia tido. Um dia onde eu faço meu teste e me preocupo sobre se o Sr. Tierney vai cumprir sua ameaça de chamar BU. Mas eu não lamento da prova por muito tempo. Eu passei de lamentar coisas agora. Quando é hora da matemática eu vou cedo, me sentindo calma. Deslizei em meu lugar alguns minutos antes do sino tocar, pegando meu livro de matemática, colocando-o perfeitamente sobre a mesa. Fui a primeira a chegar. Sr. Daimler se aproxima, inclinando-se sobre minha mesa, sorrindo para mim. Pela primeira vez eu percebo que seus caninos tem uma ponta mais fina, como vampiros. “O que é isso, Sam?” Ele gesticula sobre minha mesa. “Três minutos adiantada e preparada para a aula? Você está virando uma página?” “Algo assim,” eu digo dequilibradamente, apoiando ambas as mãos sobre meu livro. “Então como o Dia do Cupido está atingindo você?” Ele estoura uma bola de menta e se inclinou mais perto. Era grosseiro para mim, como se ele estivesse pensando que podia me seduzir com um hálito fresco. “Algum grande encontro planejado para hoje à noite? Pegou alguém especial para se aconchegar?” Ele ergue os olhos castanhos para mim. Uma semana atrás isso teria me feito desfalecer. Agora eu me sentia totalmente fria. Pensei sobre quão áspero seu rosto era no meu, quão pesado ele pareceu, mas isso não me fez sentir brava ou com medo. Fixei-me em seu colar de cânhamo, que está sempre para fora da gola de sua camiseta. Pela primeira vez ele me atingiu de um jeito patético. Quem usa a mesma coisa por oito longos anos? Isso era como se eu houvesse insistido o colar de doce que eu amava quando estava no quinto ano.

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“Bom, nós vamos ver,” eu digo, sorrindo. “E você? Vai estar por conta própria? Mesa para um?” Ele se inclina ainda mais, e eu continuo ainda perfeitamente me convencendo a não me afastar. “Agora por que você pensaria isso?” Ele pisca para mim, obviamente pensando que esse era o meu modo de flertar—como se eu fosse me oferecer para fazer companhia a ele ou algo. Eu sorri ainda mais. “Porque se você tivesse uma namorada de verdade,” eu digo, baixo, mas claramente, assim ele podia ouvir perfeitamente cada palavra, “você não estaria dando em cima de garotas do colegial.” Sr. Daimler suga o ar e se ergue tão rapidamente que quase cai. Pessoas estavam entrando na sala, agora, conversando e comparando rosas, nos ignorando. Nós poderíamos estar falando sobre uma dúvida no dever de casa, ou alguma nota. Ele me encara, sua boca abrindo e fechando. Nenhuma palavra saindo. O sino toca. Sr. Daimler balança os ombros e tropeça na mesa, ainda me encarando. Então ele fez uma volta completa como se estivesse perdido. Finalmente ele limpa a garganta. “Ok, todo mundo.” Sua voz quebra e ele tosse. Quando ele fala de novo, parece um latido. “Todos. Sentados. Agora.” Eu tenho de morder a mão para não rir. Sr. Daimler me lança um olhar de total desgosto, o que fez a minha vontade de gargalhar ainda mais difícil de resistir. Eu olho para o outro lado, virando em direção à porta. Naquele exato momento Kent McFuller passa por ela. Nós trancamos olhares, e naquele segundo é como se toda a sala se partisse em duas e toda a distância entre nós houvesse desaparecido. Um zunido, sentimentos correndo por mim, como se eu estivesse sendo puxada por aquele par de brilhantes olhos verdes. O tempo colapsou, também, e nós estávamos de volta na minha varanda na neve, seus quentes dedos passando por meu pescoço, a suave pressão de seus lábios, o sussurro de sua voz em meu ouvido. Nada existia além dele. “Sr. McFuller. Se importa de sentar?” A voz do Sr. Daimler era fria. Kent se vira para longe de mim e o momento se perdeu. Ele murmura uma fraca desculpa para o Sr. Daimler, e então procura por seu lugar. Eu me viro, seguindo-o com meus olhos. Eu amava o modo como ele deslizava na cadeira sem tocar na mesa. Amava tudo, quando ele puxa o livro de matemática, um bolo de rascunhos veio junto. Amava o

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jeito como ele fica nervoso com o cabelo, correndo as mãos entre as mechas mesmo que volte a cair sobre seus olhos imediatamente. “Senhorita Kingston. Se eu pudesse ter só um segundo do seu precioso tempo e atenção.” Quando eu volto a me virar para frente, Sr. Daimler me olha irritado. “Eu acho que por um segundo,” eu digo auditivamente, e todo mundo ri. A boca do Sr. Daimler se torna uma linha branca, e ele não diz mais nada. Folheio meu livro aberto de matemática, mas eu não consigo me focar. Deslizo meus dedos na borda externa da mesa, me sentindo apreensiva e exilada agora que eu havia visto Kent. Desejei poder dizer a ele exatamente como eu me sentia. Desejei poder explicar de algum modo, que ele poderia saber. Observei o relógio ansiosamente. Eu não podia esperar que os Cupidos aparecessem. Kent McFuller vai ganhar uma rosa extra hoje. Depois da aula eu espero por Kent no corredor, borboletas fazendo uma bagunça em meu estômago. Quando ele sai, está segurando cuidadosamente a rosa que eu havia mandado para ele, como se tivesse medo de que iria quebrar. Ele olha para cima, sério e pensativo, seus olhos vagando por meu rosto. “Você vai me dizer sobre o que é isso?” Ele não sorri, mas há um leve ritmo em sua você, e seus olhos brilham. Decido brincar com ele de volta, mesmo que estar tão perto dele fizesse difícil pensar. “Eu não sei do que você está falando.” Ele segura a rosa e mexe na nota, abrindo para que eu pudesse lê-la, embora, é claro, eu já saiba o que diz. Hoje à noite. Leve seu celular no carro, e seja meu herói. “Misterioso,” eu digo, segurando um sorriso. Ele parecia dez vezes mais adorável quando estava apreensivo. “Admiradora secreta?” “Não tão secreta.” Seus olhos ainda percorrem o meu rosto, como se a resposta para o quebra cabeça estivesse escrita ali, e eu tenho de desviar o rosto para não agarrá-lo e puxá-lo para mim. Ele pausa. “Eu estou dando uma festa essa noite, você sabe.” “Eu sei,” eu solto. “Quero dizer, eu ouvi falarem.” “Então...?”

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Eu desisto de brincar com ele. “Ouça, talvez eu precise que você me pegue em algum lugar. Vinte minutos, no máximo. Eu não pediria a menos que fosse importante.” Ele curva um lado da boca em um sorriso. “O que isso tem a ver comigo?” Eu me inclino adiante, então minha boca estava polegadas distante da perfeita curva de seu ouvido. O cheiro dele—grama recém-cortada e menta—é viciante. “Eu vou te contar um segredo.” “Agora?” “Depois.” Me afasto para trás. De outro modo eu não seria capaz de conter a vontade de beijar seu pescoço. Eu não sabia o que estava errado comigo. Eu nunca havia estado desse modo com Rob. Eu mal podia manter minhas mãos afastadas de Kent. Talvez morrer algumas vezes bagunce com seus hormônios ou algo. Eu meio que gostei disso. Seu rosto fica sério novamente. “O que você escreveu aqui...” Ele segura a nota, dobrando e desdobrando, seus olhos ofuscantes, serpenteando com ouro. “A última parte... Sobre herói... Como você?” Meu coração bate freneticamente, e por um segundo eu penso que ele sabe—penso que ele lembra. O silêncio pesa entre nós, tudo passado e lembrado, e esquecido e desejado balançando ali como um pêndulo. “Como eu o quê?” Eu mal consigo pronunciar as palavras. Ele suspira movendo a cabeça, me dando um fraco sorriso. “Nada. Esqueça. É estúpido.” “Oh.” Eu me dou conta de que havia estado segurando o fôlego, e exalo, desviando o olhar para que ele não pudesse ver quão desapontada eu estava. “Obrigada pela rosa.” De todas as rosas que eu havia ganhado, era a única que eu havia mantido. É minha favorita, eu havia dito quando Marian Sykes a entregou para mim. Ela olhou para mim, perplexa, então olhou ao redor, porque eu não poderia possivelmente estar falando com ela. Quando ela percebeu, ela corou e sorriu. Você tem tantas, ela disse timidamente. O problema é que eu nunca posso mantê-las vivas, eu disse. Eu tenho, tipo, um dedo ruim. Você tem que cortar os caules em um ângulo, ela disse ansiosamente, então corou novamente. Minha irmã me disse isso. Ela costumava gostar de jardins. Ela se virou, batendo os lábios. Você deveria ficar com elas, eu disse. Ela me encarou por um segundo, suspeitando que era uma piada. Como, ficar? Ela disse me lembrando de Izzy.

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Eu estou falando para você, eu não posso ter mais flores mortas em minha consciência, eu disse. Você poderia levá-las para casa. Você tem um vaso? Ela pausou por uma fração de segundo mais, e então se partiu em um reluzente sorriso, transformando todo o seu rosto. Eu vou deixá-las no meu quarto, ela disse. Kent arqueia uma sobrancelha. “Como você sabe se fui eu que enviou isso?” “Qual é,” eu reviro os olhos. “Ninguém mais desenha estranhas animações para viver.” Ele põe uma mão sobre o peito, agindo de ofendido. “Não para viver. Pelo amor a isso. Além do mais, eles não são estranhos.” “Tanto faz. Então obrigada por seu bilhete totalmente normal.” “Ao seu dispor.” Ele ri forçadamente. Nós estávamos parados perto o suficiente para que eu pudesse sentir o calor emanando dele. “Então você vai ser meu cavalheiro em uma armadura brilhante ou o quê?” Kent faz uma pequena reverência. “Você sabe que eu não posso resistir a uma donzela em perigo.” “Sabia que eu podia contar com você.” O corredor está vazio agora. Todo mundo está no almoço. Por um momento nós só ficamos ali sorrindo um para o outro. Então algo amolece em seus olhos e meu coração se eleva. Tudo em mim parece leve e flutuante, como se eu pudesse sair do chão a qualquer instante. Música, eu pensei, ele me faz sentir como uma música. Então eu pensei Ele vai me beijar bem aqui, na porta da sala de matemática da Thomas Jefferson High School, e eu quase desfaleci. Embora não. Ao invés ele se afastou e tocou meu ombro, levemente. Quando ele removeu os dedos eu podia ainda senti-los sobre minha pele. “Até hoje à noite, então.” Uma faísca de um sorriso. “É melhor que o seu segredo seja bom.” “É incrível, eu prometo.” Eu desejei poder memorizar cada mínima coisa sobre ele. Eu queria queimá-lo em minha mente. Eu não podia acreditar quão cega eu havia sido por tanto tempo. Comecei a me afastar antes que eu fizesse algo desenfreadamente inapropriado, como pular sobre ele. “Sam?” Ele me para. “Sim.” Seus olhos estavam fazendo aquilo de procurar novamente, e agora eu entendia porque ele me disse antes que podia ver através de mim. Ele estava realmente prestando

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atenção. Eu senti como se ele estivesse lendo a minha mente naquele momento, o que era mais que um pouco embaraçoso, já que a maioria dos meus pensamentos naquele momento envolviam quão perfeitos seus lábios eram. Ele morde o lábio inferior e arrastou um pouco os pés. “Por que eu? Essa noite, eu digo. Nós não temos conversado de verdade, há o quê? Sete anos…” “Talvez eu esteja fazendo isso pelo tempo perdido,” Eu continuo distante dele, pulando um pouco. “É sério,” ele diz. “Por que eu?” Penso sobre Kent segurando minha mão no escuro, diante de mim em um quarto entrecortado pela luz da lua. Penso sobre sua voz me aquietando para dormir, levando-me como uma maré. Penso na vez que ele havia segurado meu rosto e trazido seus lábios para os meus. “Acredite em mim,” eu digo. “Só pode ser você.”

segunda chance O Valograma de Kent foi somente o primeiro de vários ajustes que fiz na sala da Rosa esta manha, e assim que entrei na cafeteria eu pude jurar que Rob recebeu o dele. Ele fugiu dos seus amigos e veio a galope até mim antes que pudesse mesmo passar pela fila do almoço (onde estou planejando pedir um sanduíche de rosbife duplo). Como sempre, seu estúpido chapéu dos Yankees está mal equilibrado na cabeça, entortado para o lado como se ele estivesse em algum vídeo de rap de 1992. “Ei, babe.” Ele vai para colocar o braço ao meu redor, e dou um passo casualmente. “Recebi sua rosa.” “Obrigada. Recebi a sua também.” Ele olha em volta, vê uma única rosa curvada pela alça da minha bolsa de mensageira, e franze o cenho. “Esta é a minha?” Eu sacudo a cabeça, sorrindo docemente. Ele esfrega a testa. Ele sempre faz isso quando está pensando, como se o ato de usar a mente na verdade lhe desse dor de cabeça. “O que aconteceu com todas as suas rosas?” “Elas estão guardadas,” digo, o que é meio que verdade. Ele sacode a cabeça, deixando pra lá. “Então há uma festa esta noite...” ele interrompeu, então inclina a cabeça e sorri para mim. “Eu pensei que seria divertido ir um

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por um tempo.” Ele levanta o braço e coloca uma mão em meu ombro, massageando forte. “Como, sabe, preliminares.” Só o Rob pensaria que bater cerveja espumosa de um barril e berrar uns com os outros conta como preliminar, mas eu decido deixar passar e entro no jogo. “Preliminar?” digo, tão inocentemente quanto consigo. Ele obviamente pensa que estou flertando. Ele sorri e inclina a cabeça para trás, olhando para mim através de olhos estreitos. Eu costumava achar que isso era a coisa mais fofa quando ele fazia isso; agora é um pouco como observar um jogador da defesa tentar sambar. Ele pode ter todos os movimentos, mas apenas não parece certo. “Sabe,” ele diz baixo, “eu realmente gostei do que você escreveu em seu recado.” “Você gostou?” eu transformei minha voz em um ronronado, pensando no que eu rabisquei essa manhã. Você não tem que esperar mais por mim. “Então, eu estava pensando em chegar na festa às dez, ficar uma hora ou duas.” Ele dá de ombros e ajeita seu chapéu, de volta aos negócios agora que ele tirou o flerte do caminho. Eu me senti cansada de repente. Estive planejando bagunçar um pouco com Rob— se vingar dele por não prestar atenção, por não estar lá, por não se importar com nada exceto festas e lacrosse e como ele fica em seu chapéu estúpido dos Yankees—mas eu não consigo continuar mais com o jogo. “Eu realmente não me importo com o que você faz, Rob.” Ele hesita. Esta não é a resposta que ele estava esperando. “Você vai pernoitar esta noite, contudo, certo?” “Eu acho que não.” Sua mão voou para a testa novamente: mais esfregadas. “Mas você disse...” “Eu disse que não teria que esperar mais por mim. E você não vai.” Eu sugo um fôlego profundo. Um, dois, três, pular. “Não está dando certo, Rob, eu quero terminar.” Ele dá um passa para trás. Seu rosto fica completamente branco, e então ele muda para vermelho vivo da testa para baixo, como se alguém está enchendo-o com Kool-Aid26. “O que você disse?” “Eu disse que estou terminando com você.” Eu nunca tinha feito nada assim antes, e estou surpresa de como estou achando fácil. A libertação é fácil: é tudo como uma descida. “Eu só acho que não está dando certo.”

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Marca de refresco em pó com sabores de frutas.

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“Mas—mas—” ele fala confusamente para mim. A confusão em seu rosto é substituída pela raiva. “Você não pode terminar comigo.” Eu vacilei para trás inconscientemente, cruzando os braços. “Por que isso?” Ele olha para mim como se eu fosse a pessoa viva mais burra. “Você,” diz, quase cuspindo a palavra, “não pode terminar comigo.” Então eu entendo. Rob se lembra sim. Ele se lembra que na sexta serie ele disse que eu não era legal o bastante para ele—lembra-se disso, e ainda acredita nisso. Qualquer compaixão que ainda sentia por ele desapareceu naquele momento, e quando ele estava de pé ali, vermelho vivo com os pulsos cerrados, me surpreendeu como eu o achei feio. “Eu posso fazer isso,” digo calmamente. “Eu acabei de fazer.” “E eu esperei por você. Eu esperei por você durante meses.” Ele se vira e murmura alguma coisa que não ouço. “O quê?” Ele olha de volta para mim, o rosto retorcido com nojo e raiva. Este não pode ser a mesma pessoa que uma semana atrás se aconchegou em meu ombro e me disse que eu era seu cobertor pessoal. É como se seu rosto tivesse desaparecendo e houvesse um rosto por baixo totalmente diferente. “Eu disse que devia ter trepado com Gabby Haynes quando ela me pediu durante o intervalo,” diz friamente. Algo chameja em meu estômago, sobras de dor ou orgulho, mas passa rápido o bastante e é substituído novamente por um sentimento de calma. Eu já sai daqui, já estou passando por cima disso, e de repente consigo entender exatamente o que Juliet sente, deve ter sentido por algum tempo. Pensar nela recuperou as minhas forças, e eu até consegui sorrir. “Nunca é tarde demais para uma segunda chance,” digo docemente, e então eu vou embora para ter meu ultimo almoço com minhas melhores amigas. Dez minutos depois, quando eu estou sentada finalmente em nossa mesa de costume—esquartejando um enorme sanduíche de rosbife com maionese e um prato cheio de batatas fritas, mais faminta do que estive por muito tempo—e Juliet passa pela cafeteria, eu vejo que ela colocara uma única rosa na garrafa de água vazia que está amarrada do lado de sua mochila. Ela está olhando ao redor, também, seu rosto cortando a cortina de seus cabelos em dois, verificando toda e cada mesa que ela passa, buscando, procurando por pistas. Seus olhos estão brilhantes e alertas. Ela está mordendo o lábio, mas ela não parece infeliz. Ela parece viva. Meu coração pula uma batida: isto é o importante.

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Quando ela passa por nossa mesa, eu vejo um recado dobrado flutuando bem abaixo das pétalas da rosa, e ainda que eu esteja longe demais para ler, eu posso ver o que está escrito lá claramente, mesmo quando eu fecho os olhos. Uma única frase. Nunca é tarde demais. “Então, qual é o problema com você hoje?” Lindsay me pergunta no caminho para o The Country’s Best Yogurt. Nós tínhamos quase alcançado a Travessa, a fileira de pequenas lojas aglomeradas no cume da colina como cogumelos. O cobertor de nuvens escuras estava sendo arrastado pelo horizonte polegada por polegada, trazendo a promessa de neve. “O que você quer dizer?” Estamos caminhando de braços dados, tentando ficar aquecidas. Eu queria que Ally e Elody viessem junto, mas Elody tinha um teste de espanhol, e Ally insistiu que se ela perdesse outra aula de inglês ela provavelmente seria suspensa. Eu não dei importância para isso. Um dia como qualquer outro. “Quero dizer, por que você está agindo tão estranho?” Estou tentando formular uma resposta e Lindsay continua, “como, não prestar atenção no almoço e tal.” Ela morde o lábio. “Eu peguei esse texto de Amy Weiss....” “É?” “Amy Weiss é louca obviamente, e eu nunca acreditaria em nada que ela diz, especialmente sobre você.” Lindsay modifica rapidamente. “Obviamente,” digo, entretida, bem certa de que sei aonde isso vai chegar. “Mas...” Lindsay toma um longo fôlego e diz apressadamente, “ela disse que estava conversando com Steve Waitman, que estava conversando com Rob, que disse que vocês terminaram?” Lindsay lança um olhar para mim e força uma risada. “Eu disse a ela que era besteira, obviamente.” Eu fiz uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. “Não é besteira. É verdade.” Lindsay para de caminhar e olha. “O que?” “Eu terminei com ele no almoço.” Ela balança a cabeça como se estivesse tentando expulsar as palavras do cérebro. “E, um, vocês estavam planejando compartilhar esta notícia em algum momento? Com suas melhores amigas? Ou vocês estavam contando que isso seria passado de uma pessoa para outra afinal?”

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Eu podia dizer que ela está realmente magoada. “Escute, Lindsay, eu ia lhe contar— ” Ela aperta as mãos nas duas orelhas, ainda balançando a cabeça. “Eu não entendo. O que aconteceu? Vocês iam—quero dizer, você me disse que queria—esta noite.” Eu suspiro. “Este é o porquê eu não queria lhe contar, Lindz. Eu sabia que você daria muita importância a isso.” “É porque é de muita importância.” Lindsay está tão indignada que ela não está nem prestando atenção quando passamos o Hunan Kitchen: ela está ocupada demais olhando com raiva para mim como se esperasse que, de repente, eu ficasse azul ou entrasse em combustão, como se eu nunca pudesse ser de confiança novamente. Ocorreu-me que ela realmente vai se sentir assim depois do que estou prestes a fazer, mas isso no pode ser evitado. Eu me viro para ela, coloco os braços em seus ombros. “Espere um segundo ok?” Ela pisca para mim. “Onde você está indo?” “Eu tenho que parar no Hunan Kitchen por um segundo.” Eu me fortaleço, esperando que ela pire. “Eu meio que tenho algo para Anna Cartullo.” Estou preparada para que ela grite ou persiga ou jogue ursinhos de goma em mim ou algo, mas ao invés disso, seu rosto fica totalmente vazio como se a energia tivesse sido desligada. Estou um pouco preocupada que ela possa estar entrando em choque, mas a oportunidade é boa demais para passar. “Dois minutos,” digo, “prometo.” Eu entro rapidamente no Hunan Kitchen antes de Lindsay—e suas atitudes—possa voltar ao ar. Um sino toca na porta quando eu entro. Alex olha para cima, preocupado por um segundo, e então reveste um sorriso no rosto. “Ei, Sam?” ele pronuncia lentamente. Idiota. Eu o ignoro e vou direto à Anna. Ela tem a cabeça curvada, empurrando a comida em volta do prato. É um pouco mais seguro que comê-la, com certeza. “Ei,” estou nervosa por alguma razão. Há alguma coisa inquietante em seu silencio, a maneira que ela levanta os olhos e olha fixamente para mim sem expressão nenhuma. Isso me faz lembrar Juliet. “Eu só passei para lhe dar algo.” “Me dar algo?” ela torce o lábio, cética, e a semelhança com Juliet não é mais tão forte. Ela dever achar que sou louca. Até onde ela sabe, nós nunca trocamos uma palavra em nossas vidas, e posso imaginar o que ela acha que quero lhe dar.

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Alex está olhando de um lado para o outro, de Anna para mim, tão confuso quanto ela. Estou ciente de Lindsay me observando pela janela encardida, e o fato de três pessoas estarem olhando fixamente para mim como se eu estivesse perdida é um pouco esmagador, eu coloco a mão na bolsa, as mãos tremendo um pouco. “Sim, escute, eu sei que é estranho. Eu não posso explicar realmente, mas...” eu tiro um grande livro de esboços de M. C. Escher e o coloco na mesa próximo à tigela de frango com gergelim. Ou bife com laranja. Ou gato cozido. Ou o que seja. Anna congela, olhando fixamente para o livro como se fosse mordê-lo. “Só pareceu o tipo de coisa que você gostaria,” digo rapidamente, já me afastando da mesa. Agora que a parte difícil acabou eu me senti mil vezes melhor. “Há mais de duzentos desenhos. Você poderia ainda pendurá-los, se você tivesse um lugar para colocálos.” Alguma coisa se estica no rosto de Anna. Ela ainda está olhando para o livro na mesa, as mãos descansando em suas coxas. Eu posso ver como ela está enrolando os punhos apertados. Estou prestes a me virar e disparar pela porta quando ela olha para cima. Nossos olhos se encontram. Ela não diz nada, mas sua boca relaxa. Não é bem um sorriso, mas está próximo, e aceito isso como um obrigado. Eu ouço Alex dizer, “O que foi isso?” e então, estou fora da porta, o sino tocando uma nota estridente atrás de mim. Lindsay ainda está em pé exatamente onde a deixei, os olhos aborrecidos. Eu sei que ela assistiu pela janela. “Agora eu sei que você ficou louca,” diz. “Estou lhe dizendo, eu não sei do que você está falando.” Eu me senti alegre agora que acabou. “Vamos, estou muito a fim de um iogurte.” Lindsay não se moveu. “Eu perdi. Fiquei chateada com você. Ficou pirada. Desde quando você traz presentes para Anna?” “Escute, não é como se eu tivesse dado a ela uma pulseira da amizade ou algo do tipo.” “Desde quando você mesmo conversa com Anna Cartullo?” Suspiro. Eu posso dizer que ela não desistirá disso. “Eu conversei com ela pela primeira vez alguns dias atrás, tudo bem?” Lindsay ainda está olhando fixamente como se o mundo está derretendo diante de seus olhos. Eu conheço a sensação. “Ela é realmente muito legal. Quero dizer, eu acho que você poderia gostar dela se—”

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Lindsay faz um som guinchado muito alto e bate as mãos sobre as orelhas novamente como se todas as palavras fossem torturas. Ela continua berrando assim enquanto suspiro e verifico meu relógio, esperando que ela termine sua performance. Finalmente ela se acalma, o berreiro morrendo para um gorgolejo no fundo de sua garganta. Ela olha de soslaio para mim. Eu não consigo evitar dar risadinhas. Ela parece totalmente esquisita. “Terminou?” pergunto. “Você está de volta?” ela tira uma mão da orelha tentativamente, experimentando. “Quem está de volta?” “Samantha Emily Kingston. Minha melhor amiga. Minha parceira da vida heterossexual.” Ela se inclina para frente e bate levemente com os nós dos dedos em minha testa. “Ao invés deste estranho casulo de namorado barato lobotomizado simpatizante de Anna Cartullo que está personificando nela.” Eu reviro os olhos. “Você não sabe tudo a meu respeito, sabe.” “Eu aparentemente não sei nada a seu respeito.” Lindsay cruza os braços. Eu puxo a manga de sua jaqueta e ela se arrasta relutantemente para frente. Eu posso dizer que ela realmente está chateada. Eu coloco os braços a sua volta e a aperto. Ela é tão mais baixa que eu que tenho que dar mini passos arrastados para que a nossa passada se iguale, mas eu a deixo estabelecer o ritmo. “Você sabe que meu sabor favorito de iogurte é,” digo, esperando acalma-la. Lindsay solta um suspiro. “Duplo chocolate,” ela resmunga, mas ela não está me afastando, o que é um bom sinal. “Com uma xícara de manteiga de amendoim moído e cereal Cap’n Crunch.” “E eu sei que você sabe o tamanho eu vou comprar.” Estamos na porta do The Country’s Best Yogurt agora, e eu já posso sentir o cheiro deliciosamente doce do aroma químico soprando para nós. É como o cheiro de pão assando no metrô. Você sabe que não é o jeito que a natureza ou Deus tinha a intenção que isso cheirasse, mas algo sobre isso é viciante. Lindsay olha para mim de canto de olho quando eu tiro meus braços dela. Sua expressão é tão pesarosa que é divertida, e eu engoli outra risada. “Melhor tomar cuidado, senhorita Rainha Extragrande,” diz, jogando o cabelo. “Toda essa delicia vai direto para os seus quadris.” Mas sua boca está entortada em um sorriso, e eu sei que ela me perdoou.

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amizade, uma história Se eu tivesse que escolher as três coisas que mais amo de cada uma de minhas amigas, aqui está o que seriam. ALLY: 1. Passar todo o segundo ano colecionando miniaturas de vacas de porcelana e ler fatos obscuros sobre elas online depois que uma delas—uma de verdade, quero dizer— enrolou a língua em volta de seu pulso enquanto ela estava de férias em Vermont. 2. Cozinhar sem receitas, e vai ter seu próprio programa culinário algum dia, e prometeu que todas nós podemos vir e ser convidadas. 3.

Coloca a língua toda para fora quando boceja, como um gato.

ELODY: 1. Tem o tom perfeito e a voz mais clara e rica que possa imaginar, como xarope de bordo despejado sobre panquecas quentes, mas nem sequer se exibe e só canta para ela mesma quando está no chuveiro. 2. Uma vez, passou o ano escolar inteiro usando pelo menos uma peça de roupa verde todos os dias. 3.

Ronca quando ri, que sempre me faz rir.

LINDSAY: 1. Sempre dançará, mesmo quando ninguém mais dança, mesmo quando não há musica—na cafeteria, no banheiro, na praça de alimentação do shopping. 2. Encheu a casa de Todd Horton de papel higiênico todos os dias durante uma semana depois que ele contou para todo mundo que Elody não beijava bem. 3. Uma vez correu em total velocidade enquanto estávamos cortando o parque, lançando os braços e pernas e zunindo pelos campos em seu jeans e suas botas de cano longo. Eu comecei correr também, mas não pude acompanha-la antes que estivéssemos a duas curvadas e bufando no ar frio de outono, meus pulmões parecendo que iriam explodir, e quando eu ri e disse, “Você ganhou,” ela me deu o olhar mais estranho sobre o ombro, não mesquinho, apenas como se ela não pudesse acreditar que eu estava lá, então se endireitou e disse, “eu não estava correndo com você.” Eu acho que entendo isso agora. Estou pensando sobre todas as coisas na casa de Ally, sentindo como se não tivesse dito a elas o bastante, ou de qualquer modo, sentindo como se não tivéssemos passado muito tempo zombando umas das outras ou falando besteiras sobre coisas que não

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importam ou desejando que as coisas e as pessoas fossem diferentes—melhores, mais interessantes, mais fofas, mais velhas. Mas é difícil descobrir um jeito de dizer isso agora, então, ao invés disso, eu só ri enquanto Lindsay e Elody se sacodem em volta da cozinha e Ally tenta freneticamente recuperar alguma coisa comestível de um molho italiano de dois dias e alguns biscoitos empacotados velhos. E quando Lindsay joga os braços ao redor dos meus ombros e então nos de Ally, e então Elody corre para o outro lado de Ally, e Lindsay diz, “Eu amo vocês vadias até a morte. Vocês sabem disso, certo?” e Elody berra, “Abraço de grupo!” Eu só me jogo lá e coloco os braços ao redor delas e aperto até que Elody sai rindo e diz, “se eu rir um pouco mais eu vou vomitar.”

o segredo “Eu só não entendo.” Lindsay está se espichando no banco da frente, na metade da estrada que leva até o Kent, aonde a fileira de carros termina. “Como você espera que nós voltemos para casa?” Eu suspiro e explico pela milésima vez. “Eu vou arranjar uma carona para nós, ok?” “Por que você simplesmente não entra com a gente agora?” Ally reclama do banco de trás, também pela milésima vez. “Apenas deixe o maldito carro.” “E deixar você dirigir até em casa, Senhorita Mundo Absolut?” Eu me viro e olho diretamente para a garrafa de vodka que ela está segurando. Ela entende isso como uma deixa para tomar outro gole. “Eu nós levo até em casa.” Lindsay insiste. “Alguma vez você já me viu bêbada?” “Não importa.” Eu viro os olhos. “Você não sabe dirigir nem quando está sóbria.” Elody bufa e Lindsay balança um dedo para ela. “Cuidado ou você irá passar a ir a pé para a escola daqui para frente,” ela diz. “Vamos lá, nós estamos perdendo a festa.” Ally penteia o cabelo com os dedos, se abaixando de forma que ela possa se olhar no retrovisor do carro. “Deem-me quinze minutos, máximo.” Eu digo. “Eu estarei de volta antes mesmo que vocês cheguem aos barris.” “Como você irá voltar para cá?” Lindsay ainda está me olhando de forma desconfiada, mas ela abre a porta. “Não se preocupe com isso.” Eu digo. “Eu agendei uma carona mais cedo.” “Eu ainda não entendo porque você não pode nos levar para casa depois.” Lindsay está murmurando, ainda não contente com os combinados, mas ela salta do carro, e Ally e Elody a seguem. Eu não me importo em responder. Eu já expliquei, e expliquei de novo,

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que eu talvez esteja saindo da festa mais cedo. Eu sei que todas elas presumiram que é porque Rob vai estar lá e eu estou com medo de surtar ou coisa parecida, e eu não as corrijo. Estou planejando em deixar o carro na rua da Lindsay, mas depois que eu saio da Rota 9, eu vejo que, sem ter a intenção, estou dirigindo para casa. Estou me sentindo calma, vazia, como se toda a escuridão do lado de fora tenha de algum modo entrado e desligado tudo dentro de mim. Não é uma sensação desagradável. É quase como quando se está em uma piscina e ficar se jogando para trás até encontrar o equilíbrio perfeito e começa a boiar sem nem pensar sobre isso. A maioria das luzes está desligada na minha casa. Izzy foi dormir várias horas atrás. Tem uma luz azul fraca brilhando no escritório. Meu pai deve estar assistindo TV. No andar de cima um quadrado brilhante de luz destaca o banheiro. Através das sombras eu posso ver uma figura indo de um lado a outro, e eu imagino que seja minha mãe colocando hidratante no rosto, piscando sem suas lentes de contato, o braço esfarrapado do seu roupão de banho se esvoaçando, como a asa de um pássaro. Como sempre eles deixaram a luz da varanda ligada para mim, para que quando eu chegasse a casa eu não terei que tatear minha bolsa procurando as chaves. Eles estarão fazendo planos para amanhã, talvez se indagando sobre o que fazer para o café da manhã ou se devem ou não me acordar antes de meio-dia, e por um momento a aflição por tudo que estou perdendo—que já perdi, perdi há dias atrás em uma fração de segundo de derrapagem e choro onde minha vida saiu de seu eixo—me oprimi, e eu encosto minha cabeça no volante e espero até que o sentimento passe. Ele passa. A dor diminui. Meus músculos relaxam, e mais uma vez estou afetada pela correção das coisas. Enquanto estou dirigindo para a casa da Lindsay, eu penso sobre algo que aprendi anos atrás nas aulas de ciência, que até mesmo quando pássaros são separados de seu bando eles ainda irão migrar instintivamente. Eles sabem para onde tem que ir mesmo sem que nunca tenha sido mostrado o caminho. Todo mundo estava falando sobre o quão fantástico isso era, mas agora isso não parece tão estranho. É assim que eu me sinto agora: como se eu estivesse no ar, sozinha, mas de algum modo eu sei exatamente o que fazer. Alguns quilômetros antes da rua da Lindsay, eu pego meu celular e disco o número do Kent. Então me ocorre que ele pode ter pensado que eu estava brincando hoje mais cedo. Talvez ele não atenda quando não reconhecer o número, ou talvez ele estará tão ocupado tentando evitar que as pessoas vomitem no carpete oriental dos seus pais que ele não o ouvirá tocando. Eu conto os toques, ficando mais e mais nervosa. Um, dois, três. No quarto toque ouço o som de alguém atendendo. Então a voz de Kent, morna e tranquilizadora: “Heróis Robustos, resgatando mulheres em perigo, princesas em cativeiro, e garotas a pé desde 1684. Como posso ajudar?” “Como você sabia que era eu?” eu digo.

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Há uma oscilação na música e elevação de vozes. Então eu ouço Kent colocar sua mão sobre o celular e gritar “Fora!” Uma porta se fecha e o barulho de fundo repentinamente é abafado. “Quem mais poderia ser?” ele diz, sua voz sarcástica. “Todo mundo além de você já está aqui.” Ele reajusta alguma coisa e sua voz fica mais alta. Ele deve estar falando bem perto do celular. Pensar em seus lábios me distrai. “Então o que se passa?” “Eu espero que o seu carro não esteja bloqueado.” Eu digo. “Porque eu estou precisando desesperadamente de uma carona.”

No caminho de volta para a casa de Kent, passamos a maior parte do tempo quietos. Ele não me pergunta por que eu estava no meio da rua da Lindsay, e não levanta o assunto sobre porque eu o escolhi para me dar carona. Estou grata por isso, e feliz de apenas estar sentada em silencio ao seu lado, vendo a chuva e as escuras pinceladas das arvores contra o céu. Enquanto nós entramos na rua dele, que nesse ponto está completamente lotada com carros, eu estou tentando decidir exatamente com o que a chuva dançando contra os faróis se parece. Não glitter, exatamente. Kent coloca o carro em uma vaga mas deixa o motor ligado. “Eu ainda não me esqueci que você me prometeu um segredo, a propósito.” Ele se vira para me olhar. “Não pense que você vai escapar tão facilmente.” “Eu nem sonharia com isso.” Eu solto meu cinto de segurança e me incline para perto dele, ainda observando a chuva com o canto do meu olho. Como poeira, mais ou menos, mas somente se poeira fosse feita de luz sólida branca. Kent dobra suas mãos em seu colo, me olhando esperançosamente, sua boca curvada em um sorriso. “Então vamos ouvi-lo.” Eu alcanço além de Kent e puxo as chaves da ignição, desligando as luzes. Na escuridão resultante o som da chuva parece muito mais alto, lavando tudo ao nosso redor. “Ei.” Kent diz suavemente, sua voz fazendo meu coração se exaltar novamente, fazendo o meu corpo inteiro se iluminar. “Agora eu não posso te ver.” Seu rosto e corpo estão todos na sombra, escuridão na escuridão. Eu posso apenas ver seu semblante, e, é claro, sentir o calor de sua pele. Eu me inclino para frente, encostando meu queixo na aspereza de sua jaqueta de veludo, encontrando sua orelha e acidentalmente esbarrando nela com a minha boca. Ele inala rapidamente e seu corpo inteiro se tenciona. Meu coração está variando, se exaltando. Não há mais espaço entre as batidas.

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“O segredo é,” Eu digo, sussurrando em sua orelha, “que o seu beijo foi o melhor que eu já tive na minha vida.” Ele se afasta um pouco para poder olhar para mim, mas nossos lábios ainda estão a apenas centímetros de distancia. Não consigo dizer sua expressão no escuro, mas eu posso dizer que seus olhos estão procurando o meu rosto novamente. “Mas eu nunca beijei você,” ele sussurra de volta. Ao nosso redor a chuva soa como vidro caindo. “Não desde a terceira série, de qualquer jeito.” Eu sorrio, mas não tenho certeza se ele pode me ver. “Melhor começarmos, então.” Eu digo. “Porque eu não tenho muito tempo.” Ele pausa por apenas uma fração de segundo. Então ele se inclina para frente e pressiona os seus lábios contra os meus, e o mundo inteiro se desliga, a lua e a chuva e o céu e as ruas, e é apenas nós dois no escuro, vivos, vivos, vivos. Eu não sei há quanto tempo nós estamos nos beijando. Parecem ser horas, mas de algum modo quando ele se afasta, respirando com dificuldade, ambas as mãos segurando meu rosto, o relógio brilhando estupidamente no painel avançou apenas alguns minutos. “Uau.” Ele diz. Eu posso sentir seu peito se levantando e abaixando rapidamente. Ambos estamos sem fôlego. “E para quê foi isso?” Eu me forço para me afastar dele, encontro a maçaneta no escuro e abro a porta. O ar frio e a chuva entram com um fuush, me ajudando a pensar. Eu respirei fundo. “Pela carona e tudo o mais.” Mesmo no escuro eu posso ver seus olhos brilhando como os de um gato. Eu mal consigo me fazer desviar o olhar. “Você realmente salvou a minha vida essa noite.” Eu digo, minha pequena piada, e então antes que ele possa me parar, e mesmo apesar dele ter chamado o meu nome, eu salto do carro e começo a correr pela rua em direção a casa, para a última festa da minha vida.

“Você conseguiu!” Lindsay grita quando eu encontro ela na sala de trás. Como sempre a música e o calor e fumaça são impraticáveis, uma parede de pessoas, perfume, e som. “Eu realmente achei que você iria furar.” “Eu sabia que você iria aparecer.” Ally diz, alcançando e apertando uma das minhas mãos. Ela abaixa a voz, que a esse volume significa que ela está gritando um pouco mais baixo. “Você viu o Rob?” “Eu acho que ele está me evitando.” Eu digo, o que é verdade. Graças a Deus. Lindsay se vira, chamando por Elody—“Olha quem resolveu nos agraciar com sua presença!” ela grita, e Elody escaneia nossos rostos antes de registrar que eu não estive na

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festa o tempo todo—e então se vira para mim, passando seu braço em volta dos meus ombros. “Agora é oficialmente uma festa. Al, dê a Sam um gole.” “Não, obrigada.” Eu afasto a garrafa que ela me oferece. Eu abro o meu celular. Onze e meia. “Na verdade, hum, eu acho que vou lá embaixo um pouco. Talvez lá fora. Está realmente quente aqui em cima.” Lindsay e Ally trocam um olhar. “Você acabou de chegar lá de fora.” Lindsay diz. “Você acabou de chegar aqui. Tipo cinco segundos atrás.” “Eu estive procurando por vocês por um tempo.” Eu sei que estou soando patética, mas eu também sei que não posso explicar. Lindsay cruza seus braços. “Hã-hã, sem chance. Alguma coisa está errada com você, e você vai nos contar o que é.” “Você tem agido estranhamente o dia todo.” Ally balança a cabeça. “Por acaso Lindsay falou para você dizer isso?” Eu pergunto. “Quem vem agindo estranho?” Elody acabou de chegar até nós. “Eu, aparentemente.” Eu digo. “Ah, sim.” Elody concorda. “Definitivamente.” “Lindsay não me disse para te dizer nada.” Ally estufa o peito, ficando ofendida. “É óbvio.” “Nós somos suas melhores amigas.” Lindsay diz. “Nós conhecemos você.” Eu pressiono meus dedos contra as minhas têmporas, tentando bloquear o som pulsante da música, e fecho meus olhos. Quando eu os abro novamente, Elody, Ally, e Lindsay estão todas me olhando suspeitosamente. “Estou bem, ok?” Estou desesperada para prevenir uma longa conversa - ou pior, uma briga. “Acreditem em mim. Apenas tem sido uma semana estranha.” Eufemismo do ano. “Estamos preocupadas com você, Sam,” Lindsay diz. “Você não está agindo como você mesma.” “Talvez essa seja uma boa coisa.” Eu digo, e quanto elas me olham vagamente, eu suspiro, me inclinando para frente para envolver todas elas em um abraço em grupo.

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Elody grita e da uma risadinha “Muito DPA ?” e Lindsay e Ally parecem relaxar também. 27

“Eu prometo que não há nada demais.” Eu digo, o que não é exatamente verdade, mas eu deduzo que é a melhor coisa a dizer. “Melhores amigas para sempre, certo?” “E sem segredos.” Lindsay me olha intencionalmente. “E sem papo furado.” Elody proclama, o que não faz parte da nossa pequena rotina, mas que seja. Ela deveria dizer “E sem mentiras,” mas eu acho que um funciona tão bem quanto o outro. “Para sempre,” Ally termina, “e até que a morte nos separe.” A última parte cabe a mim. “E até mesmo depois.” “E até mesmo depois.” As três ecoam. “Certo, já chega desse papo sentimental.” Lindsay se afasta. “Eu, por mim, vim para ficar bêbada.” “Eu pensei que você não ficasse bêbada.” Ally diz. “Jeito de dizer.” Ally e Lindsay começam a ir de um lado para outro, Ally dançando por ai com sua garrafa de vodka (“Se você não ficar bêbada, não vejo razão em beber e desperdiçar.”) enquanto Elody volta lentamente para Muffin. Ao menos a atenção não está mais em mim. “Vejo vocês depois.” Eu digo em voz alta para todas elas em geral, e Elody olha por cima do seu ombro para mim, mas ela pode estar olhando para outra pessoa. Lindsay balança uma mão em minha direção, e Ally nem chega a me ouvir. Isso me lembra de estar saindo de casa pela última vez essa manhã, como no final é impossível entender a finalidade de certas coisas, certas palavras, certos momentos. Enquanto me viro minha visão fica borrada, e eu estou surpresa em me pegar chorando. As lágrimas vêm sem nenhum aviso. Eu pisco repetidamente até que o mundo esteja em foco novamente, enxugando as minhas bochechas. Eu verifico o meu celular. Onze e quarenta e cinco. No andar de baixo eu fico bem próxima a porta, esperando por Juliet, o que é um pouco como tentar ficar parada bem no meio de uma corrente. As pessoas se aglomeram ao meu redor, mas dificilmente alguém olha na minha direção. Talvez elas estejam sentindo uma vibração estranha vinda de mim, também, ou elas podem dizer que estou focada em algum outro lugar. Ou talvez—e isso me deixa triste assim que penso nisso— elas podem sentir, de algum modo, que eu já parti. Eu afasto o pensamento para longe.

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Demonstração Pública de Afeto

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Finalmente eu a vejo deslizando pela porta da frente, suéter branco amarrado frouxamente ao seu redor, cabeça abaixada. Na mesma hora eu pulo para frente e coloco uma mão em seu braço. Ela começa a me olhar, e embora ela deva ter imaginado ficar cara a cara comigo essa noite, o fato de que eu a encontrei, e não o contrário, a pega de surpresa. “Ei,” eu digo. “Posso falar com você por um minuto?” Ela abre sua boca, a fecha, então a abre novamente. “Na verdade, eu, hum, meio que tenho que estar em outro lugar agora.” “Não, você não tem.” Em um movimento eu a arrasto para longe da entrada cheia de gente em direção a uma pequena área de recanto no corredor. É um pouco mais fácil para nos ouvirmos aqui, embora esteja tão apertado que nós temos que ficar quase encostadas uma na outra. “Você não estava procurando por mim, afinal? Você não estava procurando por nós?” “Como você—?” Ela se interrompe, respira fundo, e balança a cabeça. “Eu não estou aqui por você.” “Eu sei.” Eu olho para ela, desejando que ela olhe para mim, mas ela não olha. Quero dizer a ela que eu entendendo, que eu compreendo, mas ela está examinando os ladrilhos do chão. “Eu sei que é maior que isso.” “Você não sabe de nada.” Ela diz vagamente. “Eu sei o que você tem planejado para hoje à noite.” Eu digo, muito quietamente. Então ela olha para cima. Por um Segundo nossos olhos se encontram, e eu vejo medo brilhando ali, e algo a mais—esperança, talvez?—mas ela rapidamente abaixa os olhos novamente. “Você não tem como saber.” Ela diz de forma simples. “Ninguém sabe.” “Eu sei que você tem algo para me dizer.” Eu digo. “Eu sei que você tem algo que queria dizer a todas nós—para mim, Lindsay, Elody, e Ally, também.” Novamente ela olha para cima, mas dessa vez ela mantém o olhar, olhos arregalados, e nós nos encaramos. Agora eu sei o que o olhar em seu rosto, atrás do medo, é: espanto. “Você é uma vadia.” Ela sussurra, tão quietamente que eu não tenho certeza se realmente ouvi as palavras ou se apenas estou me lembrando delas, imaginando elas na voz dela. Ela diz isso como se estivesse recitando as linhas de uma peça antiga, algum roteiro a muito negligenciado do qual ela não consegue se esquecer. Eu concordo com a cabeça. “Eu sei.” Eu digo. “Eu sei que sou. Eu sei que tenho sido—todas nós temos sido. E eu sinto muito.” Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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Ela dá um rápido passo para trás, mas não há para onde ir, então ela acaba esbarrando na parede. Ela se achata, mãos abraçadas contra o emboço, respirando com dificuldade, como se eu fosse algum animal selvagem que pudesse atacar ela a qualquer segundo. Ela está balançando a cabeça rapidamente de um lado a outro. Eu nem mesmo acho que ela sabe que está fazendo isso. “Juliet.” Eu a alcanço, mas ela se encolhe mais um centímetro contra a parede, e eu abaixo a mão. “Estou falando sério. Estou tentando te dizer o quanto eu sinto muito.” “Eu preciso ir.” Ela parece desencostar da parede com esforço, como se não tivesse certeza se seria capaz de ficar em pé sem ela. Ela tenta se espremer para passar por mim, mas eu me arrasto para o lado de forma que nós estamos cara a cara novamente. “Sinto muito,” eu digo. “Você já disse isso.” Agora ela está ficando nervosa. Fico feliz. Acho que esse é um bom sinal. “Não, eu quero dizer…” Eu respire fundo, desejando que ela entenda. É assim que deveria ser. “Eu tenho que ir com você.” “Por favor.” Ela diz. “Apenas me deixe sozinha.” “É isso que estou te dizendo. Eu não posso.” Enquanto nós estamos ali eu me dou conta que nós somos quase da mesma altura. Nós devemos estar parecendo como o lado escuro e claro de um biscoito Oreo, e eu penso em como poderia facilmente ter sido do modo contrário. Ela poderia estar bloqueando o meu caminho; eu poderia estar tentando passar por volta dela em direção à escuridão. “Você não—” ela começa, mas eu nunca cheguei a ouvir o que ela está prestes a dizer. Nesse segundo alguém grita “Sam!” da escada, e quando eu me viro para olhar para Kent, Juliet passa direto por mim. “Juliet!” Eu me viro, mas não sou rápida o suficiente. Ela é engolida pela multidão, a brecha que permitiu a ela chegar até a porta tão rapidamente quanto ela se abriu, um padrão de Tetris inconstante de corpos, e agora estou correndo contra costas e mãos e enormes bolsas de coro. “Sam!” Agora não, Kent. Eu abro caminho em direção a porta, a cada poucos passos sou carregada para trás pelas pessoas que se dirigem implacavelmente em direção a cozinha, segurando canecas que precisam ser abastecidas. Quando estou quase na porta, a multidão fica mais fina e eu e apresso para avançar. Mas então eu sinto uma mão quente nas minhas costas, e Kent me virando para que eu fique de frente para ele, e apesar do fato que eu

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preciso alcançar Juliet e o fato de nós estarmos no meio de um bilhão de pessoas, eu penso em como seria bom dançar com ele. Realmente dançar, não apenas ficar se balançando como as pessoas fazem no reencontro de ex-alunos—dançar do modo como as pessoas costumavam, com as minhas mãos sobre os seus ombros e seus braços em volta da minha cintura. “Estive procurando por você.” Ele está sem fôlego e seu cabelo está mais bagunçado que o normal. “Por que você fugiu de mim antes?” Ele parece tão confuso e tão preocupado que eu sinto meu coração dar cambalhotas no meu peito. “Eu realmente não tenho tempo de conversar sobre isso agora.” Eu digo o mais gentilmente possível. “Eu me encontro com você depois, ok?” É o modo mais fácil. É o único modo. “Não.” Ele soa tão enfático que sou pega momentaneamente de surpresa. “Desculpe?” “Eu disse, não.” Ele fica na minha frente, bloqueando meu caminho até a porta. “Eu quero falar com você. Eu quero falar com você agora.” “Eu não posso—” Eu começo a dizer, mas ele me interrompe. “Você não pode fugir de novo.” Ele me alcança e coloca sua mão gentilmente no meu ombro, mas seu toque faz uma corrente de calor e energia passarem por dentro de mim. “Você entende? Você não pode continuar fazendo isso.” O modo como ele olha para mim faz eu me sentir fraca. As lágrimas ameaçam sair novamente. “Eu nunca quis machucar você.” Eu falo em voz baixa. Ele solta meus ombros, empurrando suas mãos contra o cabelo. Ele parece querer gritar. “Você age como se eu fosse invisível por anos, então você me manda esse recado adorável, então eu te busco, e você me beija—” “Eu acho que você me beijou, na verdade.” Ele não perde o ritmo. “—E você me derruba completamente e muda meu mundo inteiro e tudo o mais, e então volta a me ignorar.” “Eu te derrubei?” Eu deixo escapar antes que eu pudesse me conter. Ele fica me olhando sem se mexer. “Você derrubou tudo.” “Ouça, Kent.” Eu olho para as palmas das minhas mãos, que estão na verdade coçando para alcançar e tocá-lo, para juntar seu cabelo e o prender atrás de sua orelha. “Eu realmente queria aquilo tudo que aconteceu no carro. Eu quis beijar você, quero dizer.”

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“Eu pensei que eu tivesse beijado você.” A voz de Kent está normal e eu não consigo dizer se ele está brincando ou não. “É, bem, eu quis beijar você de volta.” Eu tento engolir o nó na minha garganta. “Isso é tudo que eu posso te dizer agora. Eu quis isso. Mais do que eu já tenha desejado qualquer outra coisa na minha vida.” Estou feliz por estar olhando para os meus pés porque nesse Segundo as lágrimas saem dos meus olhos e começam a descer pelas minhas bochechas. Eu rapidamente as limpo com a parte de trás da minha mão, fingindo estar esfregando os olhos. “E aquela outra coisa que você disse no carro?” Kent não parece estar nervosa, pelo menos, embora eu esteja muito assustada para olhar para ele. Sua voz está mais suave agora. “Você disse que não tinha muito tempo. O que você quis dizer?” Agora que as lágrimas encontraram um jeito de sair, não há como as parar, e eu mantenho a minha cabeça abaixada. Uma delas cai no meu sapato, deixando uma marca no formato de uma estrela. “Tem algumas coisas acontecendo nesse momento…” Ele coloca dois dedos embaixo do meu queixo e levanta meu rosto em direção ao dele. E então eu realmente desmorono. Minhas pernas apenas cedem embaixo de mim, e ele passa um braço por trás das minhas costas para me manter em pé. “O que está acontecendo, Sam?” Ele tira uma lágrima do canto do meu olho com seu dedão, seus olhos procurando o meu rosto, fazendo aquela coisa que faz com que eu sinta como se ele estivesse me virando ao avesso e olhando diretamente para o meu coração. “Você está com problemas?” Eu balanço minha cabeça, incapaz de falar, e ele continua, “Você pode me dizer. O que quer que seja, você pode confiar em mim.” Por um instante estou tentada a me deixar ficar desse jeito, pressionada contra ele; beijar ele de novo e de novo até parecer que eu estou respirando através dele. Mas então eu penso em Juliet na mata. Eu vejo dois raios ofuscantes de luz abrindo caminho pela escuridão, e o baixo ronco de um motor, como um oceano distante, um motor criando vida. O ronco e as luzes enchem a minha cabeça, afastando todo o resto—o medo, o arrependimento, a tristeza—e eu consigo me focar novamente. “Não estou com problemas. Não é sobre mim. Eu—eu tenho que ajudar alguém.” Eu me separo de Kent gentilmente, retirando seu braço da minha cintura. “Eu não posso mesmo explicar. Você terá que confiar em mim.” Eu me inclino para frente e dou um beijo final—apenas um selinho, sério, nossos lábios mal se tocam, mas é o suficiente para que eu sinta aquela sensação de elevação novamente, força e poder fluindo em mim. Quando eu me afasto estou esperando mais Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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argumentos, mas ao invés disso ele apenas me olha por um tempo a mais e então dá meia volta e desaparece escada a cima. Meu estomago mergulha e por uma fração de Segundo eu sinto saudades dele tão intensamente—Eu sinto falta dele que parece que um buraco se abriu no meu peito. Então eu penso na escuridão, nas luzes, nos roncos, em Juliet, e antes que eu consiga pensar em qualquer outra coisa, eu dou os últimos passos em direção a porta e piso no lado de fora no frio, onde a chuva ainda está caindo como se refletisse a luz da lua, ou como se fosse metal.

um milagre de chance e coincidência, parte II “Juliet! Juliet!” Sei que ela conseguiu um bom começo e não será capaz de me ouvir, mas me faz sentir melhor chamar seu nome, faz com que a escuridão ao meu redor não pareça tão próxima e densa. Claro que eu não me esqueci da lanterna. Começo meu conjunto de desviar-e-correr na calçada gelada, desejando que eu tivesse decidido calçado meus tênis em vez das minhas botas verde-oliva de couro salto agulha Dolce Vita. Ao mesmo tempo, esses sapatos são de morrer—e de matar. As luzes da casa piscaram atrás de mim, engolidas pela curva da estrada e os pontos altos das árvores, quando eu penso que ouvi alguém chamando meu nome. Por um segundo eu tenho certeza que eu tinha imaginado, ou que é apenas o som do vento através dos ramos. Eu paro, hesitante, e então ouço novamente. “Sam!” Soa como Kent. “Sam! Onde está você?” É Kent. Isso me atravessa. Eu tinha certeza que ele tinha se afastado de mim na festa que seria o fim. Eu nunca esperei que ele na verdade me seguisse. Considero me virar e ir até ele. Mas não há tempo. Por outro lado, eu tinha dito tudo o que eu pude. Por um momento, parada ali no frio congelante com o ar queimando meus pulmões e a chuva caindo na minha gola e nas minhas costas, eu fecho meus olhos e me lembro de estar com ele no carro quente e seco cercados por uma chuva torrencial. Eu me lembro do beijo e um sentimento se elevando, como se estivéssemos para ser varridos a qualquer momento por uma onda. Quando eu o ouço chamar meu nome novamente soa mais perto, e eu imagino ele colocando sua mão em meu rosto e sussurrando para mim. Sam. Alguém grita. Eu pisco meus olhos, meu coração acelera em meu peito, pensando em Juliet. Mas então eu ouço algumas vozes chamando por alguém—distante, ainda, uma confusão de sons—e eu poderia jurar que entre elas eu ouvi a voz de Lindsay. Mas isso é ridículo. Estou imaginando coisas, e estou perdendo tempo. Continuo seguindo em direção a estrada. Enquanto eu fico mais perto ouço o rugido de veículos, o chiado das rodas no asfalto, parecendo ondas na praia. Quando eu encontro Juliet ela está de pé,

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encharcada, suas roupas colando em seu corpo, seus braços flutuando livremente em seus braços como se a chuva e o frio não a incomodassem nem um pouco. “Juliet!” Ela me ouve então. Ela gira a cabeça bruscamente, como se ela estivesse sendo chamada de volta à terra de outro lugar. Eu começo a correr em direção a ela, ouvindo o ronco baixo de um caminhão se aproximando—indo rápido demais—atrás de mim. Ela recua um passo enquanto eu pego velocidade, rodopiando meus braços para manter o equilíbrio sobre o gelo, o rosto ganhando vida quando ela me vê, cheio de raiva e medo e aquela outra coisa. Admiração. O motor está mais alto agora, um rosnado constante, e o motorista se inclina sobre sua buzina. Ela só está de pé ali, me encarando, balançando a cabeça um pouquinho, como se fôssemos amigas há muito perdidas em um aeroporto aleatório em algum lugar na Europa e acabamos de nos esbarrar. É tão estranho ver você aqui... Não é engraçado como a vida funciona? Mundo pequeno. Eu atravesso os últimos metros que há entre como o caminhão agitado do passado, ainda explodindo sua buzina. Agarro seus ombros e ela dá um passo pra trás, tropeçando na floresta, meu impulso quase a levanta do chão. O som da buzina se afasta de nós, as lanternas desaparecendo na escuridão. “Graças a Deus,” eu digo, respirando fundo. Meus braços estão tremendo. “O que você está fazendo?” Ela parece cair em si, tentando se afastar de mim. “Você está me seguindo?” “Eu pensei que você ia para…” eu aceno para a estrada e de repente tenho o desejo de abraçá-la. Ela está viva e sólida e real sob minhas mãos. “Eu pensei que eu não te alcançaria a tempo.” Ela para de lutar e me olha por um longo momento. Não há carros na estrada, e na pausa eu ouço definitivamente: “Samantha Emily Kingston!” Vem da floresta a minha esquerda, e há apenas uma pessoa no mundo que me chama pelo meu nome completo. Lindsay Edgecombe. Só então, como um refrão de pássaros levantando voo instantaneamente, vem outras vozes aglomerando-se umas as outras: “Sam! Sam! Sam!” Kent, Ally e Elody, todos eles vindo da floresta em direção a nós. “O que está acontecendo?” Juliet parece realmente com medo agora. Eu estou tão confusa que perco o domínio sobre seus ombros e ela se retorce para longe. “Por que você me segue? Por que você não pode me deixar sozinha?”

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“Juliet.” Levanto minhas mãos num gesto de paz. “Eu só quero conversar com você.” “Não tenho nada a dizer.” Ela volta a se afastar de mim e se esquiva em direção à estrada. Eu a sigo, sentindo uma súbita calma. O mundo ao nosso redor aviva e parece ficar mais claro, e toda vez que eu ouço meu nome saltando através da floresta parece ficar cada vez mais próximo, e eu penso, sinto muito. Mas isso é certo. É como tem que acontecer. Como estava fadado a acontecer o tempo todo. “Você não tem que fazer isso, Juliet,” eu disse a ela baixinho. “Você sabe que não é o jeito certo.” “Você não sabe o que eu tenho que fazer,” ela sussurrou ferozmente. “Você não sabe. Você nunca poderia entender.” Ela está olhando para a estrada. Seus ombros se sobressaem sob a camisa encharcada, e novamente eu tenho a fantasia de um par de asas se desdobrando atrás dela, levantando-a, carregando-a fora de perigo. “Sam! Sam! Sam!” As vozes estão perto agora, e as luzes diagonais ziguezagueando pela floresta. Eu ouço passos, também, e estalos de ramos sob os pés. A estrada tinha sido desativada de tráfego, mas agora ambas as direções eu ouço o rosnado baixo de motores grandes. Eu fecho meus olhos e penso em voar. “Quero ajudar você,” digo para Juliet, embora eu saiba que não posso fazê-la entender, não assim. “Você não entendeu?” Ela voltou-se para mim, e para minha surpresa, eu vejo que ela está chorando. “Eu não posso ser remendada, você não entende?” Penso em ficar na escada com Kent e dizer exatamente a mesma coisa. Penso em seus belos olhos verdes claros, e o jeito que ele disse, você não precisa ser remendada e o calor das suas mãos e a maciez dos seus lábios. Eu penso na máscara da Juliet e como talvez nós todos sentíssemos remendados e costurados e não muito certo. Eu não tenho medo. Vagamente, eu tenho a sensação do rugido em meus ouvidos e vozes tão próximas e rostos, branco e assustado, emergindo da escuridão, mas eu não posso parar de encarar Juliet enquanto ela está chorando, ainda tão linda. “É tarde demais,” ela diz. E eu digo, “Nunca é tarde demais.” Nessa fração de segundo ela se lançou para a estrada, mas ela olha pra trás, assustada, o reconhecimento iluminando seus olhos. Então eu estou me jogando contra ela. Eu me lanço nas suas costas, e ela é arremessada pra frente, rolando na direção oposta Traduzido por Grupo Shadows Secrets

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ao ombro, só enquanto duas vans convergem, próximas uma da outra. Há um gemido alto e furioso e alguém—mais de uma pessoa?—grita meu nome e um sentimento de calor atravessa meu corpo e a sensação de estar sendo levantada, segurada, por uma mão enorme, mão de um gingante; a terra gira, para todos os lados, e então uma névoa de escuridão come as bordas da terra, tornando tudo sonho. Imagens flutuantes, movendo-se dentro e fora: olhos verdes brilhantes e um campo de grama ressecada, uma boca dizendo. Sam, Sam, Sam, soando como uma música. Três rostos florescendo juntos, como flores numa única haste, nomes esvaindo de mim, uma única palavra: amor. Flashes vermelhos e brancos, galhos de árvores iluminados como o teto abobadado de uma igreja. E um rosto acima do meu, branco e belo, olhos tão grandes como a lua. Você me salvou. Uma mão na minha bochecha, fria e seca. Por que você me salvou? Palavras brotando em uma maré: Não. O contrário. Olhos da cor da aurora, uma coroa de cabelos louros, tão brilhantes e brancos e cegantes que eu poderia jurar que era um halo.

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epílogo Dizem que antes de morrer toda a sua vida passa diante dos seus olhos, mas não é como acontece para mim. Eu só vejo os meus maiores sucessos. As coisas que eu quero lembrar e pelo que quero ser lembrada. A vez em Cape Cod, quando Izzy e eu escapamos até a baía à meia noite e tentamos pegar caranguejos com restos de carne de hambúrguer, e a lua estava tão gorda e redonda que parecia algo em que você poderia se sentar. Quando Ally tentou fazer um suflê e veio marchando para dentro da cozinha com um rolo de papel higiénico na cabeça como um chapéu de chef, e Elody riu tanto que urinou um pouco e fez todas jurar segredo. Lindsay jogando os braços em nossa volta e dizendo: "Eu amo vocês até a morte,” e todas nós ecoando: "E até depois." Deitada no convés em tardes quentes de Agosto com o cheiro da grama aparada e flores tão pesado no ar, é como se você estivesse saboreando-os. A vez que nevou no Natal, e meu pai partiu uma das mesas de TV velhas no porão para usar como lenha e minha mãe fez de cidra de maçã, e tentou se lembrar da letra de "Silent Night", mas acabou cantando todas as músicas do nosso show favorito. E beijar Kent, porque é quando eu percebi que o tempo não importa. Isso é quando eu percebi que em certos momentos duram para sempre. Mesmo depois que acabarem eles ainda continuam, mesmo depois você estiver morto e enterrado, esses momentos são duradouros ainda, para trás e para frente, sobre o infinito. Eles estão em tudo e em todos os lugares ao mesmo tempo. Eles são o sentido. Eu não estou assustada, se é isso que você está se perguntando. O momento da morte é cheia de som e calor e luz, tanta luz que me preenche, me absorve: um túnel de luz disparada, arqueandose para cima e para cima, e se cantar fosse um sentimento seria esse, esta luz, esta elevação, como rir... O resto você tem que descobrir sozinho.

fim

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