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ISSN 2176-8765

Translatio Caderno de Resenhas do GT História da Filosofia Medieval e a Recepção da Filosofia Antiga Vol. 6 (2014) - 01 -

CALMA, D. Le poids de la citation: étude sur les sources arabes et grecques dans l'oeuvre de Dietrich de Freiberg (M. B. P. de Oliveira) - 08 -

HENRI DE GAND. Sur la possibilité de la connaissance humaine (G. B. Vilhena de Paiva) - 19 -

TESKE, R. J. Essays on the Philosophy of Henry of Ghent (G. B. Vilhena de Paiva) - 31 -

NOVOTNÝ, D. D. Ens rationis from Suárez to Caramuel: a Study in Scholasticism of the Baroque Era (P. F. Pricladnitzky)

Translatio. Caderno de Resenhas do GT História da Filosofia Medieval e a Recepção da Filosofia Antiga é uma publicação eletrônica anual do Grupo de Trabalho História da Filosofia Medieval e a Recepção da Filosofia Antiga, ligado à Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF). Editores responsáveis: Alfredo Storck (UFRGS) • Rodrigo Guerizoli (UFRJ) Conselho editorial: Carlos Eduardo de Oliveira (UFSCar) • Carolina Fernández (UBA) • Cristiane Negreiros Abbud Ayoub (UFABC) • Ernesto Perini-Santos (UFMG) • Guy Hamelin (UnB) • José Carlos Estêvão (USP) • Júlio Castello Dubra (UBA) • Lucio Souza Lobo (UFPR) • Márcio Augusto Damin Custódio (UNICAMP) • Marco Aurélio Oliveira da Silva (UFBA) • Moacyr Novaes (USP) • Tadeu Mazzola Verza (UFMG) Revisão: Gustavo Paiva


CALMA, D. Le poids de la citation: étude sur les sources arabes et grecques dans l'oeuvre de Dietrich de Freiberg, Fribourg CH: Academic Press Fribourg, 2010, 386 p. Matheus B. Pazos de Oliveira* ___________________________________________ Os autores medievais possuem, dentre outras características, uma marca comum em seus textos, qual seja: a presença constante de citações de outrem. Poderíamos afirmar que o modo peculiar com o qual essas citações são mobilizadas explicitam a importância atribuída por esses autores às autoridades, isto é, às fontes que os precederam e que formam a base segundo a qual o desenvolvimento de todo saber constituído nesse período histórico deveria se fundamentar. A partir desse aspecto comum, caberia ao medievista analisar o conteúdo da citação escolhida e, sobretudo, examinar a importância dessa escolha no conjunto do argumento apresentado ou mesmo do conjunto da obra a ser estudada. Entretanto, o livro de Dragos Calma, intitulado O peso da citação: estudo sobre as fontes árabes e gregas na obra de Dietrich de Freiberg, acena para outro aspecto comumente ignorado por aqueles que se debruçam em textos medievais repletos de citações. Resultado de uma pesquisa realizada em Londres e que complementa seu estudo de doutorado, realizado em Paris, Calma tem por objetivo analisar os aspectos formais das citações de fontes árabes e gregas na obra de Dietrich de Freiberg (c.1250 - c.1310). Para justificar sua tarefa, constata, por exemplo, erros notórios na atribuição de citações na obra de Dietrich encontrados no Index Auctoritatum da edição crítica deste autor,1 bem como num artigo que também se                                                                                                                       *

Doutorando em filosofia na Universidade Estadual de Campinas, bolsista da FAPESP. A edição crítica de Dietrich de Freiberg faz parte do Corpus Philosophorum Teutonicorum Medii Aevi e é composta por quatro volumes: DIETRICH VON FREIBERG. Opera Omnia, t. I-IV, Veröffentlicht unter Leitung von Kurt Flash. Hamburg: Felix Meiner Verlag, 1977-1985. Loris Sturlese organizou o Index Auctoritatum acima mencionado e que se encontra no IV volume da edição crítica, pp. 311-339. 1

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propunha a traçar uma espécie de taxinomia das citações de autores árabes na obra de Dietrich.2 Ainda no que diz respeito ao objetivo geral de seu livro, Calma estabelece alguns critérios a partir dos quais analisará o uso das citações árabes e gregas na obra de Dietrich. Em primeiro lugar, apresenta uma reconstrução do verbo ‘citar’ a partir do remoto sentido que este verbo possuía em escritos gregos, bem como na origem deste verbo no contexto latino, seja em sua acepção jurídica, seja no que concerne aos contextos literário e filosófico (cf. pp. XVIIIXXVI). A partir disso, Calma especifica três níveis de citação dos quais Dietrich e autores próximos ao seu contexto histórico se valiam como recurso argumentativo (cf. pp. 3-6). O primeiro nível de citação consiste na transcrição atenta do trecho citado (citação ad litteram) e pode ser identificado na obra de Dietrich quando este utiliza expressões como unde Philosophus..., ubi dicit..., loquendo de hoc dicit..., deinde dicit... etc. Combinada a essas expressões, ocorre a citação direta da obra de outrem e, para Calma, esse nível de citação denota, na maioria dos casos, um conhecimento preciso e direto do texto da autoridade que o autor procura destacar. O segundo nível de citação, por sua vez, consiste na apresentação aproximada do texto citado (citação ad sensum). Neste nível, o autor resume o texto mencionado ou mesmo modifica alguns conceitos sem, no entanto, se distanciar do sentido presente no texto citado. Na obra de Dietrich, esse nível pode ser reconhecido, por exemplo, na utilização das seguintes expressões: hoc idem dicit Commentator scilicet..., et hoc expresse dicit scilicet quod... e ubi ponit exemplum. Com efeito, nesse nível de citação, é possível estabelecer que o autor conhece diretamente o texto citado e, dado esse conhecimento, pretende resumir ou citar por memória, mas também, dada a adaptação empreendida, pode-se afirmar que o autor cita deste modo porque só conhecera o texto mediante uma fonte intermediária ou, mesmo, porque parte do pressuposto de que a fonte citada já é suficientemente conhecida por seus leitores, dispensando,                                                                                                                       2

KANDLER, K.-H. Dietrich von Freiberg und die arabische Philosophie. In: Neue Zeitschrift für systematische Theologie und Religionsphilosophie, 48, 2006, pp. 99-108. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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portanto, a citação literal. O terceiro nível consiste, enfim, no distanciamento daquilo que foi citado pelo autor, não encontrando sequer uma aproximação de sentido com o texto da autoridade. Segundo Calma, tais casos de citação se devem ao fato de que o texto citado provém de uma fonte ruim ou de que o autor visa modificar deliberadamente o texto citado. As ocorrências desse nível de citação na obra de Dietrich costumam ser acompanhadas pelas seguintes expressões: in schola Peripateticorum dicitur ou Avicenna, Algazel, Averroes dicunt. Nesse nível, torna-se notória a dificuldade em atribuir, como nos dois níveis acima mencionados, uma fidelidade ou proximidade à citação, na medida em que conjuga um número diverso de fontes distintas e procura com isso apresentar ao leitor uma opinião, mediante o recurso da citação, que corresponda a todas fontes citadas de modo unívoco. Ao estabelecer os três níveis de citação presentes na obra de Dietrich, Calma tipifica quatro categorias formais das citações, a saber: (1) o gênero da evocação com ou sem referência; (2) a exatidão da evocação; (3) a finalidade formal da evocação e (4) a qualidade da evocação.3 Com isso, tem por intento demarcar o método utilizado na análise das citações, bem como justificar a escolha por citações que permitam ao intérprete julgar o alcance do conhecimento que Dietrich possuía das fontes citadas (cf. pp. 6-14). O exame comparativo das citações é levado à exaustão no restante do livro. Assim, Calma apresenta quadros pelos quais o leitor pode acompanhar, detalhadamente, o confronto entre a fonte e o resultado da citação na obra de Dietrich. Para tanto, os capítulos que se seguem à introdução metodológica são divididos a partir de cada fonte a ser analisada. Nesses capítulos, o leitor pode visualizar a presença na obra de Dietrich das citações de Averróis, Liber de Causis, Proclo, Avicena e reunidas no último capítulo: Alexandre de Afrodísia, AlFarabi, Avempace e Al-Gazali. A divisão interna dos capítulos segue a mesma estrutura. Em primeiro lugar, Calma investiga a presença da fonte na obra de Dietrich por meio da                                                                                                                       3

A partir dessas quatro categorias de análise, Calma especifica treze grupos que constituem a tabela sinóptica para o estudo de cada citação no decorrer do livro (cf. pp. 9-14). Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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exposição de cada citação, priorizando o exame do texto fonte citado. A cada citação exposta em quadros comparativos, se segue um pequeno comentário de Calma, destacando, por um lado, o grau de conhecimento textual de Dietrich da fonte citada e, por outro lado, o interesse subjacente à escolha por Dietrich daquela passagem citada. Num segundo momento, estabelece uma sinopse das citações apresentadas na primeira parte do capítulo, enunciando a proveniência de cada citação. Posteriormente, anuncia uma conclusão provisória do material analisado, ressaltando sucintamente o progresso alcançado pela comparação das fontes, seja no que diz respeito ao conhecimento textual disponível a Dietrich quando redigira suas obras, seja quanto à interpretação da doutrina do dominicano alemão. Enfim, Calma inverte a prioridade de análise e, na última seção de cada capítulo, apresenta uma etapa intitulada Dietrich de Freiberg, leitor de X. Esta última serve como prova final de que é possível visualizar a articulação meticulosa das citações no interior da obra de Dietrich e, principalmente, aponta brevemente a estratégia argumentativa utilizada pelo autor com relação às suas fontes. Após expor uma cuidadosa análise de cada citação no conjunto dos capítulos, Calma conclui: A distribuição dessas autoridades nas 34 obras da pluma de Dietrich é a seguinte: Averróis é citado em 28 textos, o Liber de Causis em 13, Proclo em 8, Avicena em 7, Alexandre de Afrodísia e Al-Farabi em 2, Avempace e Al-Gazali, cada um, em 1 texto. Nota-se que as obras da trilogia comportam, em todos os casos analisados, um número grande de referências: De animatione caeli utiliza 9 vezes Averróis, 6 vezes Proclo, 4 vezes Liber de Causis e 1 vez Avicena; De visione beatifica se utiliza 18 vezes de Averróis, 10 vezes de Proclo, 8 vezes do Liber de Causis, 3 vezes de Alexandre de Afrodísia e Al-Farabi e 2 vezes de Avicena; De accidentibus se refere 9 vezes a Averróis e 2 vezes ao Liber de Causis. Outras três obras se utilizam de uma ou outra dessas autoridades de uma maneira importante: De origine rerum praedicamentalium inclui 19 ocorrências de Averróis, 2 de Avicena e 1 apenas do Liber de Causis (nenhuma de Proclo). Um caso particularmente importante parece ser o De intellectu et intelligibili, onde Proclo é utilizado 20 vezes, o Liber de Causis 17 vezes, Averróis 7 vezes (+ 4 simples menções), Avicena 2 vezes, Alexandre de Afrodísia e Al-Farabi 2 vezes; a presença explícita de 37 ocorrências neoplatônicas e de 11 Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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ocorrências peripatéticas no De intellectu et intelligibili parece particularmente reveladora da etapa teórica e da finalidade desse tratado: uma descrição atenta da essência e da operação do intelecto agente, bem como do intelecto por essência. Em De visione beatifica, o balanço entre as ocorrências peripatéticas – 18 – e neoplatônicas – 23 – é bem equilibrado: as primeiras têm o papel de apoiar a argumentação sobre a conversão do intelecto agente a Deus e a união com Ele; as segundas têm o papel de explicar a superioridade do intelecto agente com relação ao intelecto possível. O De cognitione entium separatorum et maxime animarum separatarum se apoia, sem surpresa, sob um grande número de ocorrências neoplatônicas: 36 vezes o Liber de Causis e 18 vezes o Elementatio, que representa nesse texto unicamente 32% de todas as ocorrências das duas autoridades consideradas em conjunto. (p. 370)

A partir da passagem supracitada, poderíamos perguntar se a conclusão de Calma não se restringe à correção numérica das citações na obra de Dietrich. De fato, uma das motivações iniciais do livro consiste em apontar erros identificados em outros trabalhos que se propuseram ao mesmo ‘cálculo’. Contudo, Calma destaca, na conclusão de seu livro, uma consequência interpretativa

advinda

desse

trabalho

técnico

que

precede

o

exame

propriamente doutrinário da obra de Dietrich. Nesse sentido, a investigação técnica das citações pode, por exemplo, contribuir para o debate sobre a influência neoplatônica na obra de Dietrich, bem como estabelecer o conhecimento textual que este e outros autores medievais contemporâneos a ele possuíam da obra de Proclo e do Liber de Causis. A partir disso, Calma descreve brevemente uma comparação entre a influência neoplatônica na obra de Dietrich e naquela de Mestre Eckhart, visando desconstruir a classificação atribuída aos autores medievais ligados, sob certos aspectos, ao pensamento de Alberto Magno e que são denominados comumente, pela historiografia, como membros da “Escola dominicana alemã”.4                                                                                                                       4

Sobre a problematização dessa classificação, consultar LARGIER, Niklaus. Die ,deutsche Dominikanerschule': Zur Problematik eines historiographischen Konzepts. In: AERTSEN, J.; SPEER, A. (eds.). Geistesleben im 13 Jahrhundert. (Miscellanea Mediaevalia 27). Berlin; New York: De Gruyter, 2000, pp. 202-213. Sobre uma interpretação recente que ressalta a influência neoplatônica em Alberto Magno e Dietrich, consultar ANZULEWICZ, Henryk. Hervorgang – Verwirklichung – Rückkehr: Eine neuplatonische Struktur in Denken Alberts des Großen und Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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Com efeito, Calma reconhece que seu livro deve ser tomado como um trabalho técnico que auxilia o intérprete na aquisição de um conhecimento mais aproximado das fontes utilizadas por Dietrich. Esse reconhecimento, no entanto, não o impede de sustentar a forte influência de Averróis, bem como o alcance que o neoplatonismo possui na obra desse dominicano alemão. Assim, o texto de Calma representa um avanço no que diz respeito ao modo pelo qual as citações podem ser analisadas no conjunto de uma obra medieval e, indubitavelmente, atesta o ganho técnico que tal exame prévio das citações pode garantir ao intérprete da obra de Dietrich. A despeito de tais qualidades, é importante destacar dois aspectos do livro que podem ser questionados. O primeiro aspecto consiste na ausência de uma análise mais robusta das características propriamente doutrinárias das citações. Apesar de fixar o escopo do livro no tratamento técnico das citações, Calma menciona que o capítulo sobre Averróis é uma adaptação de um dos capítulos de sua tese de doutorado intitulada Citações, verdade, milagres. Estudo sobre a presença de Averróis na obra de Dietrich de Freiberg (2008). Seria interessante para o leitor ter acesso ao trabalho técnico sobre as citações aliado a uma análise sistemática da influência das fontes na obra de Dietrich. Isso, certamente, contribuiria para fortalecer a necessidade desse trabalho prévio com as citações, bem como deixaria mais evidentes para o leitor as conquistas interpretativas advindas desse método de enumeração. O segundo aspecto diz respeito à sugestão de Calma para que seu trabalho suscite a análise similar das autoridades citadas por Godofredo de Fontaines, Henrique de Gand, Durando de St. Pourçain e Raimundo Lúlio (cf. p. 17). O real interesse nessa pequena lista de sugestões consiste na apreciação do modo pelo qual as citações eram utilizadas no período conturbado de 1270-1277. Com isso, Calma destaca a importância de se discutir a utilização de fontes árabes e gregas no contexto da condenação parisiense empreendida por Estêvão Tempier e o modo como tal condenação                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   Dietrichs von Freiberg. In: KANDLER, Karl-Hermann; MOJSISCH, Burkhard; POHL, Norman (hrsg.). Die Gedankenwelt Dietrichs von Freiberg im Kontext seiner Zeitgenossen. Freiberg: Technische Universität Bergakademie Freiberg, 2013, pp. 229-244.     Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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influenciou o tratamento das autoridades nos textos medievais desse período.5 Essa escolha de aplicação do método de enumeração e análise das citações não deixa de ser interessante. Contudo, parece-nos que as estratégias de citação ou o modo mais crítico de recepcionar as autoridades árabes e gregas já podem ser atestados em autores que precedem o período sugerido por Calma. Seria, portanto, interessante ampliar o interesse de aplicação do método empreendido em seu livro para outros autores medievais, como, por exemplo, Alberto Magno6, Tomás de Aquino e Duns Scotus. Em suma, o livro de Calma representa um importante trabalho para os estudos medievais, principalmente por mostrar que é adequado estabelecer uma sinopse de citações para, com isso, ampliar o conhecimento que possuímos dos textos que nos servem de matéria prima para nossas análises sistemáticas. Enfim, por meio desse método de enumeração e análise técnica, somos levados a perceber as estratégias, limitações e, sobremaneira, as escolhas que motivaram Dietrich de Freiberg na redação de suas obras.

                                                                                                                      5

Esse interesse investigativo torna-se mais evidente em CALMA, D. Du bon usage des grecs et des arabes. Remarques sur la censure médiévale. In: BIANCHI, L. (éd.). Christian readings of Aristotle from the Middle Ages to the Renaissance. Actes du Colloque de l’Università del Piemonte Orientale – Vercelli, 18-19 juillet 2009. Turnhout: Brepols (coll. Studia Artistarum, 28), 2011, pp. 51-100. 6 Faz-se necessário lembrar que, em se tratando de Alberto Magno, Bertolacci produzira um trabalho de análise das citações avicenianas utilizadas por Alberto, embora restringindo seu objeto de estudo às citações do Liber de Philosophia prima, de Avicena, no Comentário à Metafísica, de Alberto, cf. BERTOLACCI, Amos. Subtilius speculando: Le citazioni della Philosophia Prima di Avicenna nel Commento alla Metafisica di Alberto Magno. Documenti e Studi sulla Tradizione Filosofica Medievale, 9, 1998, pp. 261-339; idem. Le citazioni implicite testuali della Philosophia prima di Avicenna nel Commento alla Metafisica di Alberto Magno: analisi tipologica. Documenti e Studi sulla Tradizione Filosofica Medievale, 12, 2001, pp. 179-274. Em todo caso, seria interessante realizar esse tipo de trabalho com relação às demais fontes utilizadas por Alberto em sua vasta obra, bem como ampliar as pesquisas em torno do método de enumeração e análise das citações para além do círculo de autores da já mencionada ‘Escola dominicana alemã’.   Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


HENRI DE GAND. Sur la possibilité de la connaissance humaine. Textes latins introduits, traduits et annotés par Dominique Demange. Paris: Vrin, 2013, 256 p. (Translatio. Philosophies Médiévales). Gustavo Barreto Vilhena de Paiva* ___________________________________________ 1. O novo volume da coleção Translatio da editora Vrin vem acrescentar Henrique de Gand ao cada vez mais abrangente elenco de autores medievais traduzidos nos livros da série (um dos quais, aliás, tive a oportunidade de resenhar em um número anterior deste caderno).1 Além disso, com essa publicação, Dominique Demange, já autor de um importante livro sobre João Duns Escoto também resenhado aqui em um número anterior,2 contribui para a discussão sobre um dos trechos mais complexos e fundamentais da obra do Doutor Solene, a saber, as primeiras questões do primeiro artigo da sua Suma de questões ordinárias. Mais precisamente, Demange apresenta aqui uma tradução francesa em edição bilíngue, com introdução e notas, de Suma, art. 1, qq. 1-3. Até onde pude verificar, esse texto conta com mais duas traduções, ambas para o inglês: a primeira, publicada por Robert Pasnau em 2002,3 de Suma, art. 1, qq. 1-2, e a segunda publicada por Roland J. Teske em 2008,4 com todas as doze questões do artigo 1 da Suma. Dito isso, está claro que simplesmente por apresentar uma                                                                                                                       *

Doutorando no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo e bolsista da CAPES. PAIVA, G. B. V. de. “Resenha de: JACQUES DE VITERBE. L’âme, l’intellect et la volonté. Textes latins introduits, traduits et annotés par Antoine Coté. Paris: Vrin (Translatio. Philosophies Médiévales), 2010, 238 p.”. Translatio. Caderno de Resenhas do GT História da Filosofia Medieval e a Recepção da Filosofia Antiga 3 (2011), pp. 14-24. 2 STORCK, A. “Resenha de: DEMANGE, D. Jean Duns Scot. La théorie du savoir, Paris, Vrin, “Sic et non”, 2007, 474p.”. Translatio. Caderno de Resenhas do GT História da Filosofia Medieval e a Recepção da Filosofia Antiga 1 (2009), pp. 16-21. 3 PASNAU, R. (ed.). The Cambridge Translation of Medieval Philosophical Texts. Vol. 3: Mind and Knowledge. Cambridge: Cambridge University Press, 2002, pp. 93-135. 4 HENRY OF GHENT. Summa of Ordinary Questions. Article One: On the Possibility of Human Knowledge. Translated and edited by Roland J. Teske. South Bent: St. Augustine’s Press, 2008. Sobre R. J. Teske, cf., neste mesmo volume do caderno, a resenha de “TESKE, R. J. Essays on the Philosophy of Henry of Ghent. Milwaukee: Marquette University Press, 2012, 275 p. (Marquette Studies in Philosophy, n. 76)”. 1

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nova tradução, desta vez para o francês, Demange já merece crédito pelo trabalho. Porém, tão importante quanto a tradução dada a público é a referida introdução que a acompanha no volume. Mais do que um simples resumo do texto apresentado em seguida, Demange desenvolve na introdução toda uma complexa interpretação da doutrina da intelecção defendida nesse início da Suma por Henrique. De fato, o próprio texto traduzido reclama um tal esmero interpretativo de seu leitor e, principalmente, de alguém que se proponha a vertê-lo, dado o seu caráter basilar para o desenvolvimento de todo o restante da Suma – isto é, dos seus longos 74 artigos seguintes. É precisamente nessas primeiras páginas da obra que o Doutor Solene fornece a mais completa exposição da sua doutrina da intelecção. E, além dos vários problemas que essa própria doutrina já traz consigo, uma decisão em particular na sua exposição se mostrou vexatória para seu leitores tardios, entre os quais nós mesmos: ele inicia a Suma rechaçando a possibilidade de se negar o conhecimento. Com alguma liberdade e um certo anacronismo, poderíamos dizer que ele parte de uma refutação do ceticismo 5 para, a partir dela, apresentar sua defesa da ‘possibilidade de se ter ciência’ – esse é, ademais, o próprio título do artigo 1 da Suma, de possibilitate sciendi. As perguntas que ficam são, então: donde provém esse ceticismo refutado? Qual é o papel dessa refutação no desenvolvimento da doutrina da intelecção de Henrique? Ao que parece, é a perguntas deste tipo que Demange pretende responder na introdução à sua tradução. Sendo assim – e acompanhando a própria organização do livro –, pretendo a seguir discutir esse ensaio introdutório.

Em

um

segundo

momento,

destacaremos

alguns

temas

relacionados à tradução apresentada no volume.

                                                                                                                      5

O próprio Henrique de Gand não se utilizaria de um termo semelhante a ‘ceticismo’ como denominação da posição por ele combatida. Talvez um termo mais fiel ao texto do Doutor Solene fosse uma expressão como “aqueles que negam qualquer ciência” ou algo assim. Entretanto, seguirei aqui Demange no uso do termo ‘ceticismo’ que, não obstante anacrônico, se mostra simplesmente mais prático e fiel ao comentador resenhado. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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II. A dificuldade mais patente em abordar o problema do ceticismo na obra de Henrique de Gand é a sua complexa recepção pelos seus leitores contemporâneos. Um mérito de Demange é, justamente, haver levado em consideração uma boa parte dessa bibliografia auxiliar existente atualmente, que é por ele enumerada ao final do volume resenhado (pp. 251-253). Se, por um lado, essa bibliografia razoavelmente vasta permite uma abordagem aprofundada do tema, por outro, ela gera a necessidade de uma cuidadosa reflexão por parte daquele que deseje contribuir para a discussão nesse campo dos estudos sobre a obra do Doutor Solene. O primeiro passo de Demange, após uma rápida apresentação da vida, produção e relevância histórica de Henrique de Gand (pp. 7-8), é introduzir o problema que aflige este último no início da Suma – a saber, a sua já referida pesquisa de possibilitate sciendi, isto é, sobre “la possibilité du savoir” (pp. 9-12). Nesse trecho, busca-se mostrar como a doutrina da intelecção aí desenvolvida se insere no contexto das discussões filosóficas do século XIII acerca do conhecimento intelectual e, em geral, do conhecimento verdadeiro. De certo modo, a concepção de intelecção apresentada por Henrique surge aqui como o resultado de um longo processo de especulação acerca da verdade enquanto intelecção divina e da relação desta com a verdade tal como concebida pelo homem. Nessa contraposição, ocorre o embate entre a noção de abstração (que pressupõe um conhecimento intelectual originário dos sentidos) e o exemplarismo (que exige, de algum maneira, um acesso à verdade tal como ela é no próprio intelecto divino). Segundo Demange, esse embate se cristaliza na obra do Doutor Solene como a oposição entre a iluminação geral de Deus (que permite ao homem a abstração intelectual) e a iluminação especial (que dá ao homem acesso à verdade eterna): “a necessidade da ‘iluminação especial’ que vem completar (como?) a iluminação geral de Deus no conhecimento humano encontra sua origem na convicção de que o julgamento racional não pode encontrar no processo aristotélico de abstração um fundamento suficiente” (p.

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12).6 É essa oposição entre ‘iluminação especial’ e ‘iluminação geral’ que torna, necessariamente, questionável a possibilidade de conhecimento verdadeiro, pois, como Demange destaca neste excerto: como poderia ocorrer esse necessário complemento da iluminação geral pela iluminação especial? É nesse contexto que surge o ceticismo como problema na Suma de Henrique, pois se tal complemento não puder ter lugar, torna-se impossível o conhecimento verdadeiro – o ‘ter ciência’, scire, ‘savoir’ (no francês de Demange) – para o homem. Agora, portanto, o autor se encontra em posição de estudar como o Doutor Solene aborda o desafio cético (pp. 12-16). O contexto da Suma em que esse tema surge é a necessária defesa da possibilidade do conhecimento verdadeiro (científico) para que, em seguida, seja possível defender que há uma teologia enquanto ciência (pp. 12-13). Notando que “[i]l n’y a pas des sceptiques au Moyên Âge” (p. 13), o autor buscar explicar esse interesse de Henrique pelo ceticismo por meio de um acontecimento contemporâneo à produção do início da Suma, a saber, as famosas condenações de 1277, fruto do estabelecimento de uma comissão pelo bispo Estêvão Tempier, a qual era composta, entre outros, precisamente pelo próprio Doutor Solene.7 Sendo uma tentativa de oposição teológica a qualquer especulação filosófica que se pretendesse independente da teologia, a condenação de 1277 teria ganhado uma “version théorique et doctrinale” (p. 15) nas questões iniciais da Suma de Henrique. Dessa maneira, o texto em tradução surge não como uma refutação do ceticismo, mas como um ataque a qualquer pretensão de autonomia da filosofia com relação à teologia, pois (e esse é o ponto crucial) a filosofia por si só está sujeita ao ceticismo e dele só escapa pela “lumière théologique” (pp. 14-15). Ora, não havendo céticos em sua própria época, Henrique teve que                                                                                                                       6

“La nécessité d’une « illumination spéciale » qui vienne compléter (comment ?) l’illumination générale de Dieu dans la connaissance humaine trouve son origine dans la conviction que le jugement rationnel ne peut trouver dans le processus aristotélicien d’abstraction un fondement suffisant”. 7 Cf. PORRO, P. “An Historiographical Image of Henry of Ghent”. In: VANHAMEL, W. (ed.). Henry of Ghent. Proceedings of the International Colloquium on the Occasion of the 700th Anniversary of his Death (1293). Leuven University Press, Leuven, 1996, pp. 373-403. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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buscar o material para tal discussão em escritos antigos, donde o interesse pelo estudo das fontes desse ceticismo descrito pelo Doutor Solene, que surge como um excurso de Demange sobre a história do ceticismo (pp. 16-27). Muito embora possa servir como uma introdução ao tema para um leitor com menos conhecimento sobre a história do ceticismo antigo e tardo-antigo, o mais importante nessa passagem é a própria descrição das fontes utilizadas por Henrique – e elas não deixam de surpreender. Enquanto o uso dos diálogos Acadêmicos de Cícero (mais precisamente, do Lucullus ou Academica priora) e do Contra acadêmicos de Agostinho não parece inesperado, a utilização da Metafísica de Aristóteles, por outro lado, merece explicações. O uso conjunto dessas três obras como fontes para descrição dos argumentos céticos se deve ao fato de que, para Henrique, os acadêmicos negavam a possibilidade de se ter ciência tal como certos pré-socráticos8 o faziam (pp. 16-17). Assim, se Cícero e Agostinho são ótimas fontes para a doutrina dos acadêmicos, Aristóteles o é no que diz respeito àquelas dos pré-socráticos. Como se pode ver, por outro lado, não há qualquer fonte pirrônica que seja utilizada por Henrique. Em um segundo momento do estudo das fontes do Doutor Solene, Demange se volta para autores do século XIII que tenham relacionado aquele exemplarismo de que ele já falara antes e a problemática cética. Nesse ponto, surge Boaventura de Bagnoregio que busca, nas suas Questões disputadas sobre a ciência de Cristo, um compromisso entre a influência especial (que pode levar ao ceticismo pela atribuição de todo conhecimento somente a Deus) e a influência geral de Deus quanto ao conhecimento humano – um projeto de compromisso semelhante àquele mesmo que Henrique pretenderá defender (pp. 27-33). Ou seja, está claro que se, como quer Henrique, o ceticismo surge ao confiarmos unicamente na razão natural, ele também advém quando buscamos atribuir todo conhecimento unicamente a Deus como sua origem, como mostra Boaventura. Henrique pretende fugir de ambas as consequências na sua proposta de compromisso entre abstracionismo e exemplarismo (pp. 31-32). E é para ela que                                                                                                                       8

Mais uma vez, sigo Demange na utilização de um vocabulário anacrônico, mas útil didática e expositivamente. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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Demange se volta a seguir. Ele começa por lembrar que tal proposta – “uma síntese original, e particularmente sofisticada, entre as teorias do conhecimento de Aristóteles e de santo Agostinho” (p. 33) 9 – está expressa pelo Doutor Solene em uma estrutura argumentativa organizada em torno de questões. A primeira – “utrum contingat hominem aliquid scire” ou “s’il est possible à l’homme de savoir quelque chose”, na sua tradução (pp. 60-61) – é dedicada à refutação dos argumentos céticos e ao estabelecimento da possibilidade de se ter ciência (scire). Porém, essa resposta é matizada quando, na segunda questão – “utrum contigat hominem aliquid scire sine divina illustratione” ou, no francês, “s’il est possible à l’homme de savoir quelque chose sans illumination divine” (pp. 112-113) –, Henrique afirma que, embora possamos ter ciência naturalmente (ex puris naturalibus ou ‘par les seuls moyens naturels’), a ciência da verdade da coisa (veritas rei ou ‘vérité de cette chose’), isto é, da verdade sincera (sincera veritas ou ‘vérité authentique’) só é possível por uma iluminação divina (pp. 33-40). Dessa doutrina se deriva uma das mais polêmicas afirmações do Doutor Solene, há saber, que há uma duplex veritas (“une double vérité”): uma é um conhecimento estritamente filosófico e natural (lido em Aristóteles), portanto falho; outra é o conhecimento teológico, de origem sensível e abstraída, mas elevado à verdade sincera pela luz divina (lido em Agostinho e Platão). Como Demange nos lembra, essa doutrina da dupla verdade possui um desenvolvimento complexo na história da filosofia e um polêmico auge em fins do século XIII. Em referência a esse desenvolvimento histórico da doutrina, somos remetidos na nota 2 da p. 40 do livro resenhado, entre outros textos, à obra recente de Luca Bianchi sobre o tema (pp. 40-43).10 Não deixa de ser curioso o fato de que, após essa descrição das questões 1 e 2 do artigo 1 da Suma, Demange deixe de lado a questão 3 e encerre sua introdução por uma reflexão sobre a posteridade das posições expostas por Henrique (pp. 43-48). Ora, Suma, art. 1, q. 3 – “utrum homo cognoscat lucem                                                                                                                       9

“A cet égard, les premières questions de la Summa d’Henri de Gand proposent une synthèse originale, et particulièrement sophistiquée, entre les théories de la connaissance d’Aristote et de saint Augustin”. 10 Cf. BIANCHI, L. Pour une histoire de la “double vérité”. Paris: Vrin, 2008. (Conférences Pierre Abélard). Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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divinam qua cognoscit alia” ou, no francês de Demange, “si l’homme connaît la lumière divine par laquelle il connaît les autres choses” (pp. 200-201) – é de extrema importância para a economia desse começo da Suma, porque é justamente aqui que se resolve aquele problema posto por Boaventura, a saber: como se pode atribuir o conhecimento a uma influência especial sem concluir que ele provém unicamente de Deus? Pior: como podemos dizer que os homens veem a luz divina sem afirmar que eles sejam beatos ainda nesta vida? Esses problemas só podem ser resolvidos pelo Doutor Solene através de uma cuidadosa descrição de um processo de intelecção que agregue abstração e iluminação como partes igualmente fundamentais do conhecimento intelectual da verdade. Isso é, precisamente, o que Henrique de Gand busca fazer na terceira questão da Suma. Por alguma razão, Demange deixa de lado todo esse texto em sua introdução de maneira que esta última, tão interessante quanto seja, é deixada incompleta enquanto estudo da tradução que a segue. III. Como é padrão em todos os volumes da coleção Translatio editada pela Vrin, a edição resenhada é bilíngue. O texto francês é apresentado à direita, ao lado do texto latino na página oposta. Tendo por base a edição crítica latina de Gordon A. Wilson, tanto a paginação da edição crítica11 como aquela da edição de 152012 são apresentadas à margem dos textos francês e latino. O tradutor inseriu uma numeração de parágrafos nos textos latino e francês, a qual está ausente das edições latinas. Além disso, ele seguiu os subtítulos que os editores contemporâneos haviam inserido no texto para demarcar elementos estruturais da questão, como “solutio” etc. (nesse caso, tais subtítulos aparecem igualmente no texto latino e na versão francesa), mas adicionou outros subtítulos, descritivos também (mas não só) de conteúdos abordados em cada etapa (estes surgem somente no texto francês). Por fim, o tradutor tomou por base as                                                                                                                       11

HENRICUS DE GANDAVO. Summa (Quaestiones ordinariae), art. I-V. Edidit G. A. Wilson. Leuven: Leuven University Press, 2005. (De Wulf-Mansion Centre, series 2 – Henrici de Gandavo Opera Omnia 21). 12 HENRICUS A GANDAVO. Summae Quaestionum Ordinariarum <...>. 2 vols. Parisiis: in aedibus Iodoci Badii Ascensi, 1520 (reprint St. Bonaventure: The Franciscan Institute, 1953). Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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referências bibliográficas fornecidas pelos editores no aparato de fontes e citações para elaborar um conjunto de notas à versão francesa mais facilmente consultável pelo leitor (especialmente, pelo leitor de língua francesa, uma vez que muitas das referências são, nesta tradução, às versões francesas dos autores citados). Muitas dessas decisões editoriais são descritas cuidadosamente nas pp. 49-51 do livro resenhado. No que diz respeito à própria tradução, pretendo atentar rapidamente para alguns elementos mais problemáticos para qualquer um que se proponha a traduzir esses textos de Henrique. Para tanto, utilizarei, também, aquelas traduções elencadas no início da resenha.13 A meu ver, o grande problema na tradução desse texto são algumas expressões ou palavras-chave utilizadas tecnicamente por Henrique de Gand no decorrer de toda sua abordagem da doutrina da intelecção em Suma, art. 1, qq. 1-3. Um conjunto de difícil tradução – apesar de sua aparente facilidade – é scirecognoscere-intelligere e termos associados (como scientia, cognitio, intellectio, intelligentia, notitia). Para scire, Demange utiliza ‘savoir’ (e.g. p. 73), enquanto Teske e Pasnau se servem de ‘to know’ (ou ‘knowing’). Nesse ponto, a escolha de Demange parece mais interessante, pois ele poderia evitar problemas no momento em que Henrique contrapuser scire e cognoscere, que em francês serão ‘savoir’ e ‘connaître’ (p. 129), enquanto Teske, no mesmo excerto, recorre à oposição ‘apprehending-knowing’ (o que lhe causa embaraço ainda no mesmo parágrafo, uma vez que o mesmo ‘apprehending’ surge também como tradução do latim apprehendere) e Pasnau encontra uma solução melhor do que a deste último pela oposição ‘cognizing-knowing’. Por outro lado, o próprio Demange deixa escapar essa chance de manter uma coerência na tradução ao verter, em uma mesma passagem, scibile - modum sciendi - sciri por ‘connaissable - mode de connaissance - connaître’ (pp. 120-121). Ou seja, ‘connaître’ termina sendo utilizado por Demange para traduzir tanto scire como cognoscere, termos claramente distintos em Henrique de Gand. Além disso, ‘connaître’ ainda surge como tradução para notitia, sem bem que nesse caso o termo latino seja                                                                                                                       13

Cf. notas 3 e 4, acima.

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apresentado entre parênteses e em itálico ao lado da tradução (p. 129). Para intelligere e seus derivados, Demange reserva o francês ‘intelliger’ e suas modificações (e.g. pp. 130-133). Outra expressão de difícil tradução – agora, não pela variedade de vocabulário, mas pelo próprio caráter um tanto sintético ou, mesmo, lacônico do latim escolástico – é “ex puris naturalibus”, usada frequentemente por Henrique em oposição ao conhecimento por iluminação, influência ou auxílio divino. Não parece haver muito a fazer ao traduzir tal expressão, senão adicionar alguma palavra que seja caracterizada por ‘puris naturalibus’. Os três tradutores, nesse caso, concordam em adicionar o termo ‘meios’ à expressão. Assim, Demange usa ‘par les seuls moyens naturels’ (p. 185), enquanto Pasnau e Teske utilizam ‘by purely natural means’, na mesma passagem. Nesse ponto, as traduções inglesas têm a vantagem de conservarem o ‘purely’ como reminiscência do ‘puris’ latino, algo que a tradução francesa não faz. Para terminar, desejo somente chamar a atenção para um elemento constante que parece impor alguns limites à tradução de textos escolásticos latinos para línguas contemporâneas, a saber, o uso do neutro latino. Em geral, é muito comum se utilizar do termo ‘coisa’ para a tradução de alguns usos do neutro. Assim, ‘aliquid scire’ poderia ser traduzido por ‘conhecer (ter ciência de) alguma coisa’. Com isso, terminamos inserindo um importante termo técnico, fundamental para a metafísica escolástica, em uma passagem na qual ele originalmente não surgia (isto é, a passagem original era ‘aliquid scire’ e não ‘aliquam rem scire’). Porém, em línguas com partículas remanescentes do neutro latino – como ‘algo’ em espanhol e português – é possível, igualmente, traduzir essa expressão por ‘conhecer (ter ciência de) algo’. No caso do inglês e do francês, a tradução de expressões daquele tipo se torna mais problemática, pois deverão ser utilizados, respectivamente, ‘something’ ou ‘anything’ e ‘quelque chose’, como traduções de aliquid. Ou seja, ao que parece, necessariamente deveremos introduzir uma res (‘thing’ ou ‘chose’) em um contexto em que ela não surge. Essa dificuldade se torna patente nas formulações das questões 1 e 2 de Henrique, seja em Demange (pp. 60-61; 112-113) ou em Teske (que prefere Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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‘something’) e Pasnau (que utiliza ‘anything’). O caso da terceira questão é interessante, pois não surge aqui um aliquid, mas um alia (“utrum homo cognoscat lucem divinam qua cognoscit alia”). Mesmo aqui, onde o francês e o inglês poderiam dispensar uma referência a ‘coisa’, Demange traduz alia por “les autres choses” (p. 200-201) e Teske por “other things”, quiçá para manter uma coerência com as formulações das outras questões. Com essas últimas observações, não pretendo criticar as traduções referidas aqui ou aquela de Demange em particular. Quero somente apontar para o quão limitadas podem ser, por vezes, as versões traduzidas de textos escolásticos com respeito ao original latino, simplesmente porque muitos dos recursos de que os autores medievais se valiam para expressar sua filosofia são recursos próprios à língua latina. Assim, era possível em latim generalizar certas afirmações sem a utilização do termo res, que fica reservado para um uso técnico muito preciso. Em traduções contemporâneas, por outro lado, é comum se utilizar ‘coisa’, ‘cosa’, ‘thing’, ‘chose’ para verter certas expressões generalizantes. É parte do interessante exercício de tradução tentar driblar certos limites e, com alguma criatividade, utilizar recursos de uma língua para expressar nela recursos diferentes que uma outra língua possuía. IV. Para concluir, o volume publicado por Demange certamente enriquece a bibliografia acerca de Henrique de Gand e, em particular, o pequeno conjunto de traduções de suas obras que está disponível. Além disso, a introdução ao volume é de grande valor para o leitor do início da Suma do Doutor Solene. Por isso mesmo, é de se lamentar que não se tenha completado o estudo introdutório por uma exposição de Suma, art. 1, q. 3, também traduzido no volume, como vimos. Ademais, seria interessante que houvesse na introdução algumas observações sobre eventuais decisões terminológicas mais complexas que tenham ocorrido no processo de tradução. Como vimos nestes últimos parágrafos, várias são as dificuldades implicadas na passagem do latim de Henrique para o francês (inglês, português etc.). Essas dificuldades, deve-se Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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destacar, não são fortuitas, mas são a expressão dos complexos recursos linguísticos necessários para a expressão de certos conteúdos filosóficos. Dessa maneira, tais problemas de tradução se mostram, por si mesmos, ótimas ocasiões para a discussão da filosofia ou teologia do autor traduzido e da intepretação que o tradutor possui acerca delas. Por um lado, o estudo introdutório de Demange é empobrecido pela ausência de uma tal discussão. Por outro, ele se torna interessante ao se voltar para um tema polêmico na atual recepção filosófico-historiográfica de Henrique de Gand, a saber: a sua complexa relação com o que se caracterizaria hoje como ceticismo e a importância deste último para a formação do seu pensamento tal como exposto na Suma.

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TESKE, R. J. Essays on the Philosophy of Henry of Ghent. Milwaukee: Marquette University Press, 2012, 275 p. (Marquette Studies in Philosophy 76). Gustavo Barreto Vilhena de Paiva* ___________________________________________ I. Roland J. Teske tem sido, desde de inícios da década de 1990, um dos autores que mais contribuíram para a recente recepção historiográfica da obra de Henrique de Gand. Uma boa parte de suas contribuições se compõe de numerosas e cuidadosas traduções de trechos das duas principais obras do Doutor Solene: a Suma das questões ordinárias e as Questões quodlibetais. De fato, como o autor nos narra no livro que ora resenhamos, seu interesse por Henrique foi incentivado, incialmente, pelo hoje já falecido Raymond Macken (provavelmente, o mais importante estudioso do gandavense entre a metade do século XX e o início do XXI) que, nas palavras do autor, o “persuadiu a traduzir algumas das Questões quodlibetais de Henrique sobre a natureza da liberdade humana” (pp. 7-8), em uma época em que Teske já era reconhecido por seu trabalho acerca de Agostinho de Hipona e Guilherme de Auvergne. 1 Esse impulso inicial rendeu bons frutos, pois Teske continua a publicar suas traduções ainda hoje, embora seu interesse inicial pela noção de liberdade tenha aberto espaço para a consideração de outros temas na obra de Henrique. Se esse primeiro conjunto de traduções foi publicado ainda em 1993,2 os                                                                                                                       *

Doutorando no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo e bolsista da CAPES. “I came to Henry late in my scholarly career after many years with Augustine and William of Auvergne largely through the initial influence of Raymond Macken, O.F.M., who persuaded me to translate some of Henry’s Quodlibetal Questions on the nature of human freedom”. Aproveito para esclarecer que as páginas da obra resenhada serão citadas, sem maiores dados de referência, entre parênteses – seja no corpo do texto ou nas notas de rodapé. Demais obras serão citadas pelo formato costumeiro. 2 HENRY OF GHENT. Quodlibetal questions on free will. Translated from the Latin with an Introduction and Notes by Roland J. Teske. Milwaukee: Marquette University Press, 1993. (Mediaeval Philosophical Texts in Translation 32). 1

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volumes seguintes teriam que esperar mais de dez anos para serem produzidos. Assim, o ano de 2005 viu a publicação de um volume com traduções de Questões quodlibetais sobre problemas morais (no qual, como vemos, Teske continua no campo da ética),3 mas também de um volume em coautoria com Jos Decorte onde se vertem os artigos da Suma sobre a existência e a essência de Deus.4 No ano seguinte, foi publicada a continuação do volume anterior, agora de autoria unicamente de Teske, com os artigos imediatamente subsequentes da Suma, sobre a unidade, a vida e a simplicidade de Deus.5 Passados dois anos, em 2008, surgiu mais um volume em que se traduzia o primeiro artigo da Suma, sobre a possibilidade do conhecimento humano,6 o qual foi seguido três anos depois pela tradução dos artigos 6 a 10 da Suma, parte da longa discussão produzida entre os artigos 6 e 19 sobre a teologia enquanto ciência.7 No ano seguinte, em 2012, foi publicada a continuação do volume de 2006, com a tradução dos artigos 31 e 32 da Suma, sobre a eternidade de Deus e os atributos divinos.8 Finalmente, este volume foi seguido, em 2013, por uma seleção de artigos da Suma acerca das                                                                                                                       3

HENRY OF GHENT. Quodlibetal questions on moral problems. Translated from the Latin with an Introduction and Notes by Roland J. Teske. Milwaukee: Marquette University Press, 2005. (Mediaeval Philosophical Texts in Translation 41). No volume aqui resenhado, Teske nos conta que, como ocorreu na sua primeira tradução, também dessa vez seu trabalho foi incentivado por Raymond Macken – de fato, este chegou até mesmo a selecionar as questões traduzidas (p. 8; cf. tb. HENRY OF GHENT. Quodlibetal questions on moral problems, 2005, p. 9). 4 HENRY OF GHENT. Summa. The Questions on God’s Existence and Essence (Articles 21-24). Translation by Jos Decorte and Roland J. Teske. Latin text, Introduction and Notes by Roland J. Teske. Paris – Leuven – Dedley: Peeters, 2005. (Dallas Medieval Texts and Translations 5). Na introdução ao volume, nos é esclarecido que essa tradução já havia sido iniciada por Jos Decorte e foi deixada inacabada quando de seu falecimento, após o que pediram a Teske que completasse o projeto (HENRY OF GHENT. Summa, 2005, p. 35). No livro que ora resenhamos, Teske esclarece que esse pedido foi feito por Philip W. Rosemann (p. 8), editor da coleção Dallas Medieval Texts and Translations. 5 HENRY OF GHENT. Summa. The Questions on God’s Unity and Simplicity (Articles 25-30). Latin Text, Introduction, Translation and Notes by Roland J. Teske. Paris/Leuven/Dudley: Peeters, 2006. (Dallas Medieval Texts and Translations 6). 6 HENRY OF GHENT. Summa of Ordinary Questions. Article One: On the Possibility of Human Knowledge. Translated and edited by Roland J. Teske. South Bent: St. Augustine’s Press, 2008. 7 HENRY OF GHENT. Summa of Ordinary Questions. Articles six to ten on Theology. Translated and with an Introduction by Roland J. Teske. Milwaukee: Marquette University Press, 2011. (Mediaeval Philosophical Texts in Translation 48). 8 HENRY OF GHENT. Summa of Ordinary Questions. Articles Thirty-One and Thirty-Two on God’s Eternity and the Divine Attributes in General. Translated and with and Introduction by Roland J. Teske. Milwaukee: Marquette University Press, 2012. (Mediaeval Philosophical Texts in Translation 49). Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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potências intelectiva e volitiva de Deus.9 Ou seja, de certo modo, suas traduções completam um ciclo de interesses: tendo partido de textos sobre ética e liberdade humana, passado por temas de metafísica e teologia (como o ser de Deus) ou doutrina da intelecção (como a possibilidade de conhecimento ou a cientificidade da teologia), para ao fim retornar à vontade (agora, divina). Esses volumes traduzidos por Teske são caracterizados por uma clara preocupação com a correção conceitual, que certamente só se torna possível devido ao cuidadoso trabalho acadêmico do autor, que é patente não somente em suas traduções, mas também nas introduções a elas (de grande ajuda para o leitor, que só com dificuldade consegue se localizar na longa cadeia argumentativa não só de toda a Suma como de cada questão) e, principalmente, nos artigos que Teske veio publicando no decorrer desse período. Com efeito, o mais interessante em observar aquele percurso temático de suas traduções é notar que esse percurso, de certa maneira, se refletiu nos igualmente interessantes e importantes artigos publicados pelo autor acerca de Henrique de Gand nesse período. Assim, a publicação desses artigos em um só volume – este que ora resenhamos – foi certamente uma iniciativa de grande valia para o contemporâneo leitor de Henrique, pois podemos ver a uma só vez o longo percurso de trabalho seguido por um de seus principais comentadores em atividade. II. Quanto às características editoriais do volume, podemos dizer que elas em nada indicam a importância do conteúdo apresentado. Isso é notável quando atentamos para os numerosos erros de digitação, principalmente de termos e expressões latinas (basilares em um trabalho deste tipo), os quais foram apontados mais cuidadosamente por Pasquale Porro em sua resenha do livro.10                                                                                                                       9

HENRY OF GHENT. Summa of Ordinary Questions. Articles 35, 36, 42, and 45. Translated with an Introduction and Notes by Roland J. Teske. Milwaukee: Marquette University Press, 2013. (Mediaeval Philosophical Texts in Translation 50). 10 PORRO, P. “Review of: TESKE, R. J. Essays on the Philosophy of Henry of Ghent. [...]”. Notre Dame Philosophical Reviews. May 19, 2013. Online: http://ndpr.nd.edu/news/40083-essays-on-thephilosophy-of-henry-of-ghent/ (consultado em 08/05/2014). O trecho a que me refiro está no Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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Por outro lado, é preciso dizer que a organização dos artigos proposta por Teske, apesar da simplicidade, é de enorme utilidade para o leitor. Com efeito, o volume se inicia por uma curta introdução de duas páginas em que o autor explica em poucas palavras quem foi Henrique de Gand, donde proveio seu interesse por ele e como suas traduções o levaram a produzir muitos dos estudos apresentados (p. 7-8). Em seguida, todos os artigos que Teske escreveu sobre o Doutor Solene (onze no total, os dois últimos ainda inéditos quando da publicação do volume) são apresentados na ordem cronológica em que foram confeccionados, cada um dos quais possuindo uma pequena introdução de poucas linhas que o contextualiza com respeito à atividade acadêmica e aos interesses do autor na época em que foi escrito. Com essa organização dos textos, torna-se facilmente possível acompanhar a evolução da leitura de Teske sobre a obra de Henrique, relacionando-a com a produção e publicação de suas traduções – o que ele próprio, na introdução, sugere que se deva fazer, como foi dito. Feitas essas observações preliminares, vejamos mais atentamente o caminho seguido por Teske. O primeiro artigo do volume, apresentado em um colóquio ocorrido em Louvain em 1993, trata da rejeição do princípio omne quod movetur ab alio movetur por Henrique de Gand (pp. 9-40).11 Mais do que na física de fins do século XIII, esse tema foi fundamental na polêmica discussão sobre a liberdade da vontade humana que ocorria na época. Isso torna claro o porquê de o primeiro artigo de Teske ser dedicado a esse problema – ora, como ele próprio explica (p. 9), os textos de Henrique sobre a liberdade da vontade eram aqueles com os quais ele mais estava familiarizado em inícios de 1990, uma vez que estava produzindo o seu primeiro volume de traduções que, como vimos, foi voltado                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   último parágrafo do texto. Agradeço ao prof. Rodrigo Guerizoli (UFRJ) por haver chamado minha atenção para essa resenha publicada por P. Porro. Voltarei a ela mais adiante. 11 O texto foi, originalmente, publicado nas atas desse colóquio: TESKE, R. J. “Henry of Ghent’s Rejection of the Principle: “Omne quod movetur ab alio movertur”. In: VANHAMEL, W. (ed.). Henry of Ghent. Proceedings of the International Colloquium on the Occasion of the 700th Anniversary of his Death (1293). Leuven: Leuven University Press, 1996, pp. 279-308. As referências às versões originais dos artigos podem ser encontradas na própria obra resenhada (p. 6). Reproduzo-as aqui em notas simplesmente para remeter aos anos e contextos das publicações dos artigos de Teske.   Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


23 TESKE,  R.  J.  Essays  on  the  Philosophy  of  Henry  of  Ghent  

precisamente para essa temática.12 Pois bem, tomando por base uma série de Questões quodlibetais de vários períodos da carreira de Henrique (algumas das quais ele estava traduzindo à época), Teske mostra como a defesa da liberdade da vontade feita pelo Doutor Solene exige uma complexa abordagem de um princípio da física e da metafísica escolásticas, a saber: ‘tudo que se move se move por outro’. Tratando a liberdade da vontade desse ponto vista, Henrique insere a potência volitiva da alma humana em uma hierarquia de seres que movem a si mesmos, muito embora cada um o faça diferentemente. Ou seja, ao que parece, apesar de seus patentes interesses éticos, a liberdade da vontade é defendida de um ponto de vista metafísico que, ao estabelecer a independência de atuação da vontade até mesmo com respeito a Deus (que não a move senão enquanto conserva o mundo), nega aquele princípio outrora tido por fundamental. Isso, curiosamente, termina por impossibilitar qualquer prova da existência de Deus por cadeias causais de movimento. Enfim, salvando a liberdade ética, torna-se necessário buscar uma outra saída para provar a existência de Deus. Por isso, não é de maneira alguma inesperado que os dois textos seguintes de Teske tenham se voltado, precisamente, para as provas da existência de Deus produzidas por Henrique de Gand. Certamente, eles são bem mais tardios – escritos e publicados entre 2004 e 2005 –, mas sua data corresponde ao período exato em que Teske recebeu a incumbência de completar a tradução de Decorte e resolveu complementá-la com um volume a mais.13 Ora, os artigos da Suma apresentados nessas traduções são precisamente aqueles onde Henrique aborda as possíveis provas da existência de Deus, para as quais Teske se volta cuidadosamente nesses seus dois textos subsequentes. No primeiro deles (o segundo da coletânea), apresentado em 2004 e publicado em 2005,14 o autor se volta para as críticas de Henrique de Gand aos argumentos ditos aristotélicos em favor da existência de Deus (pp. 41-64). Ao que parece, a                                                                                                                       12

Cf. nota 2, acima. Cf. notas 4 e 5, acima. 14 TESKE, R. J. “Henry of Ghent’s Criticism of the Aristotelian Argument for God’s Existence”. The Modern Schoolman 82 (2005), pp. 83-99. 13

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principal crítica de Henrique a esses argumentos é o fato de que eles, ainda que provem que há um Deus, não são capazes de estabelecer que há um único Deus – isto é, eles provam seu ser, mas não sua unidade. Teske nos mostra que, para o Doutor Solene, provas da existência de Deus como aquelas, que derivam seu ser de uma cadeia causal de movimentos, são insuficientes para garantir a necessidade de um Deus uno. Estudada essa posição de Henrique, Teske se volta, no terceiro artigo da coletânea, de 2005,15 para aquela prova da existência de Deus que o gandavense considerava a mais completa, a saber, o argumento metafísico pela existência de Deus (pp. 65-91). Por esse argumento (o famoso argumento pela via das proposições universais), com base em uma leitura conjunta de Agostinho e Avicena, Henrique acredita poder derivar, sem qualquer referência aos sentidos além da abstração dos conceitos simples, o conhecimento da existência de Deus como necessariamente o único ser sumamente simples e no qual há identidade entre ser e essência. Sendo assim, essa seria uma prova da existência de Deus que supriria as faltas daquelas aristotélicas, estudadas no artigo anterior da coletânea. O quarto texto (pp. 93-115), de 2006,16 se volta ainda para um tema desenvolvido, em grande parte, em Suma, art. 27, traduzido por Teske no volume publicado no mesmo ano.17 Aqui, o autor busca esclarecer a noção de distinção desenvolvida por Henrique de Gand, tomando por base a leitura do referido artigo da Suma em conjunto com Quodlibet 5, q. 6. Com efeito, o foco do artigo é a tentativa de obter uma melhor compreensão do que seriam os três casos de distinção elencados por Henrique, a saber: a distinção real, a distinção de razão e a distinção intencional. O interessante resultado é mostrar que, muito embora esta última tenha sido tida por característica unicamente da filosofia de Henrique e, portanto, como particularmente problemática, as maiores dificuldades surgem no estudo da distinção real. Isso ocorre, nos diz Teske com base em diversos comentadores, devido ao complexo caráter de res que a                                                                                                                       15

TESKE, R. J. “Henry of Ghent’s Metaphysical Argument for the Existence of God”. The Modern Schoolman 83 (2005), pp. 19-38. 16 TESKE, R. J. “Distinctions in the Metaphysics of Henry of Ghent”. Traditio 61 (2006), pp. 227245. 17 Cf., mais uma vez, nota 5, acima. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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essência adquire na metafísica de Henrique. A bem dizer, a distinção real surge na obra de Henrique de Gand como problematicamente independente de qualquer remissão à existência atual das essências reais que sejam membros de tal distinção. Continuando seu estudo da metafísica do Doutor Solene, Teske se volta, no quinto texto da coletânea (pp. 117-143), publicado em 2007, 18 para um estudo da influência de Avicena sobre Henrique. Esse texto, de fato, se apresenta como um aprofundamento dos trabalhos anteriores, visto que os três campos de influência selecionados pelo autor são: [i] o argumento metafísico da existência de Deus (pp. 119-126); [ii] a distinção intencional entre essência e existência (pp. 126-134), que havia sido considerada de passagem no artigo anterior no contexto do estudo das distinções (pp. 96-104); e [iii] a impossibilidade de que haja mais de um Deus (pp. 134-143) – um tema que, como vimos, está estreitamente ligado às provas da existência de Deus na obra de Henrique. Em outras palavras, Teske se encontra ainda no âmbito das pesquisas derivadas de sua tradução dos artigos 21 a 30 da Suma.19 E, com efeito, continuamos no mesmo contexto de discussão no trabalho seguinte – o sexto da coletânea (pp. 145-164) – produzido em 2009.20 Aqui se busca discutir um tema polêmico entre os comentadores das provas da existência de Deus de Henrique, a saber, qual seria a interpretação dada por este último ao argumento ontológico de Anselmo da Cantuária. Em poucas palavras, o que Teske faz nesse artigo é mostrar como o argumento metafísico de Henrique pela existência de Deus pode ser conciliado, por meio do estudo de sua concepção das ‘proposições evidentes por si’, com a interpretação que o próprio Doutor Solene fornece do argumento de Anselmo. No sétimo artigo do volume (pp. 165-189), publicado em 2010, 21                                                                                                                       18

TESKE, R. J. “Some Aspects of Henry of Ghent’s Debt to Avicenna’s Metaphysics”. The Modern Schoolman 85 (2007), pp. 51-70. 19 Cf. as já referidas notas 4 e 5. 20 TESKE, R. J. “Henry of Ghent and Anselm’s Proslogion Argument”. Traditio 4 (2009), pp. 213228. 21 TESKE, R. J. “Augustine’s Influence on the Philosophy of Henry of Ghent”. In: CARY, P., DOODY, J., PAFFENROTH, K. (eds.). Augustine and Philosophy. Lanham: Lexington Books, 2010, pp. 197-218. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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começamos a nos aproximar de um campo de interesse distinto, que se reflete na tradução publicada por Teske, em 2008, do primeiro artigo da Suma.22 Agora, ele se volta para a influência de Agostinho sobre Henrique, mas o mais interessante no trabalho são os temas por ele escolhidos para explorar o assunto. O primeiro tema [i] é a rejeição do ceticismo que surge ainda na primeira questão daquele primeiro artigo da Suma (pp. 166-170). Ele é seguido [ii] pelo estudo da explicação do conhecimento humano fornecida nas questões 2 a 5 desse mesmo artigo inicial (pp. 170-178). Essas são passagens da obra de Henrique reconhecidamente influenciadas em profundidade por Agostinho, que é aí repetidamente e longamente citado. Além disso, esses trechos estão diretamente associados ao texto traduzido e publicado por Teske em 2008. Por outro lado, o terceiro tema onde surge claramente a influência do bispo de Hipona é, mais uma vez, [iii] o problema do conhecimento de Deus (pp. 178188). Agora, Teske nos mostra como uma passagem do De trinitate se torna fundamental para todo o argumento metafísico da existência de Deus proposto por Henrique. Sendo voltado para este mesmo tema, o curto oitavo trabalho da coletânea (pp. 191-197) é o discurso de Teske por ocasião do recebimento da medalha Aquinas pela American Catholic Philosophical Association, em 2009.23 De fato, ele retorna aqui à referida passagem do De trinitate e expressa toda a sua admiração pelo fato de Agostinho propor um conhecimento de Deus a partir da consideração de algo particular como ‘este bem’ ou ‘aquele bem’. Essa abstração em direção ao divino surge aqui como um “augustinian enigma”, que influenciou profundamente, entre outros, Henrique de Gand em seu argumento metafísico pela existência de Deus. O artigo seguinte – nono da coletânea (pp. 199-220) – foi originalmente publicado em A Companion to Henry of Ghent, dado a público em 2011 pela editora Brill.24 Nesse texto, Teske retorna, dezoito anos depois, ao problema da vontade em Henrique de Gand. Agora, porém, ele se volta não mais para os                                                                                                                       22

Cf. nota 6, acima. TESKE, R. J. “An Augustinian Enigma”. The Proceedings of the American Catholic Philosophical Association 83 (2009), pp. 19-24. 24 TESKE, R. J. “Henry of Ghent on Freedom of the Human Will”. In: WILSON, G. A. (ed.). A companion to Henry of Ghent. Leiden/Boston: Brill, 2011, pp. 315-335. 23

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textos das Questões quodlibetais, que ele então traduzia em 1993, mas para Suma, art. 45, onde se estuda a vontade divina e, consequentemente, a vontade humana a partir da qual podemos conhecer aquela superior. Ora, esse artigo da Suma é exatamente aquele cuja tradução será publicada por Teske dois anos depois, em 2013.25 Com isso, vemos que seu renovado interesse pela noção de vontade resultou não somente naquela última coletânea de traduções de textos do Doutor Solene publicada até agora por Teske, mas também nesse trabalho republicado no volume. Neste, seguindo bem de perto o caminho de Henrique em Suma, art. 45, busca-se decifrar sua concepção de vontade livre no contexto em que ele aí a aborda, a saber, por um estudo teológico de base filosófica acerca da vontade divina e sua liberdade. Por fim, chegamos aos dois artigos inéditos com os quais se encerra a coletânea. Eles formam um conjunto coerente, uma vez que dissertam sobre dois aspectos distintos da apreensão que possuímos de Deus, tal como Henrique de Gand a compreende. Assim, o décimo artigo da coletânea (pp. 221-246) trata do pretenso apofaticismo de sua teologia e resulta, como o próprio Teske declara (p. 221), de sua experiência ao produzir a tradução do artigo 32 da Suma, publicada em 2012.26 Aqui, tenta-se mostrar como o Doutor Solene compreende que seja possível predicar atributos de Deus. Como resultado, vemos que a significação de Deus por seus atributos ocorre negativa e/ou relativamente, mas jamais positivamente. Nosso conhecimento de Deus é, de certo modo, resultado da negação daquilo que conhecemos das criaturas pelos sentidos. Essa tese é ressaltada no subsequente e último texto da coletânea (pp. 247-263), onde Teske estuda a noção de ‘ente’ desenvolvida por Henrique e sua complexa caracterização como ‘análoga’ em Suma, art. 21 (voltamos, portanto, mais uma vez à tradução publicada por Teske em 2005).27 Nesse texto final, se considera cuidadosamente a dificuldade causada por duas afirmações do Doutor Solene: [i] que não há nada realmente comum entre as criaturas e Deus e [ii] que é possível conhecer o ser de Deus a partir do ser das criaturas, uma vez que o ‘ente’ é uma                                                                                                                       25

Cf. nota 9, acima. Cf. nota 8, acima. 27 Cf. nota 4, acima. 26

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noção análoga. Ao fim, Teske parece sugerir que a saída para a compreensão conjunta dessas duas asserções é a consideração da doutrina metafísica das relações proposta por Henrique, já que aquela analogia teria por base a relação de imitação da criatura para com o criador e nenhuma relação é entendida pelo Doutor Solene como algo real, isto é, como uma res. Ou seja, há uma analogia e ela possui uma base metafísica, mas não real (pp. 257; 261-263). Pois bem, tendo seguido o caminho de Teske até aqui, podemos ver o quão interessante o volume resenhado se mostra para o leitor de Henrique de Gand e isso, acredito, por três razões. Em primeiro lugar, Teske abrange em seus textos um vasto campo de temáticas na obra do Doutor Solene, as expõe e estuda com o cuidado e a atenção típicos de um comentador versado no tema, o que por si só já demonstra a relevância do volume resenhado. Em segundo lugar, é muito interessante poder acompanhar as contínuas (e, por vezes, tácitas) relações entre os artigos e as traduções de Teske, pois ambos se mostram um exercício de leitura – os primeiros, enquanto comentário explicativo, os segundos enquanto tentativa de reinterpretação do texto latino medieval em inglês contemporâneo. Por fim (e em consequência dos dois pontos anteriores), o

volume

é

particularmente

proveitoso

por

nos

permitir

seguir

o

desenvolvimento, por um período de mais de 20 anos, da interpretação e da leitura de Henrique de Gand perpetradas por Roland Teske. Muitas vezes, tão importante quanto compreender o pensamento de um autor e sua evolução é compreender o pensamento de seu comentador e sua evolução. Esse volume (junto às traduções de Henrique supracitadas) nos permite fazer exatamente isso no que diz respeito à atividade de Teske como comentador do Doutor Solene. III. Para concluir, gostaria somente de fazer referência a um problema levantado por Porro na sua, já citada, resenha do mesmo livro. Em certo momento de sua avaliação, quase já no fim, ele afirma que o livro de Teske falha por não se dedicar a uma comparação minuciosa entre Henrique de Gand e seus demais contemporâneos, pois “teria sido útil considerar o pensamento de Henrique Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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menos em isolamento, colocá-lo em relação especialmente com mestres contemporâneos (Egídio Romano, Godofredo de Fontaines, Ricardo de Mediavilla)”.28 Ao mesmo tempo em que compreendo a crítica de Porro, ela não deixa de trazer à minha mente o clássico artigo “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos” de Victor Goldschmidt 29 (no que, provavelmente, traio minha origem acadêmica...). Não importa o quão antigo seja esse texto (e o quão ultrapassadas sejam hoje as pretensões de qualquer forma de estruturalismo), parecem-me ainda válidos, pelo menos como pressupostos metodológicos, os dois tipos de estudo aí descritos. De fato, não se deve confundir o estudo interno da obra de um autor e o estudo histórico dessa mesma obra. A meu ver, um não exclui o outro – pelo contrário, o segundo só possível após o primeiro. Isto é, só é possível comparar, por exemplo, Henrique de Gand e Egídio Romano, uma vez que tenhamos cuidadosamente lido, por si mesmas, as obras de cada um. Caso contrário, corremos o risco de confundir aquilo que Egídio Romano afirma em seus textos com aquilo que Henrique de Gand afirma ler nele ou vice-versa. Ou seja, parece-me que o estudo interno da obra de Henrique não deve abranger mais do que os autores que ele claramente cita e a interpretação que ele claramente fornece dessas citações. Somente em um segundo momento, quando nos voltarmos para uma narrativa da história da filosofia que inclua a obra do Doutor Solene entre outras, é que poderemos comparar sua produção à de seus contemporâneos. Isso, porém, só me parece poder ser feito após lermos cada um desses contemporâneos por si mesmos, internamente. Enfim, o livro de Teske e os artigos que o compõem parecem se localizar                                                                                                                       28

PORRO, “Review...”, 2013, penúltimo parágrafo: “However, it would have been useful to consider Henry's thinking less in isolation, to place him in relation especially to contemporary masters (Giles of Rome, Godfrey of Fontaines, Richard of Mediavilla). Henry never ceased to confront them himself, to differ or to enter into dialogue with them and, as a consequence, sometimes to modify his own position. Adding this dimension would have made it easier for the reader to better understand some of Henry's theoretical choices”. 29 GOLDSCHMIDT, V. “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos”. In: Idem. A religião de Platão. Prefácio introdutório de Oswaldo Porchat Pereira. Tradução de Ieda e Oswaldo Porchat Pereira. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 19702, pp. 139-147. A publicação do artigo original, em francês, foi em 1953. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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claramente no primeiro caso de estudo – a saber, eles são estudos lógicos ou internos da obra do Doutor Solene, os quais, diga-se de passagem, têm o grande mérito de pouco se afastarem de suas bases textuais. Eles são históricos na medida em que são um necessário primeiro passo para o estabelecimento de uma história da filosofia, embora não sejam eles próprios narrativas históricas. Sendo assim, acredito ser extremamente injusta a crítica dirigida por Porro a Teske, uma vez que este último, mais do que narrar uma história da filosofia em fins do século XIII, está ajudando a construir as bases sobre as quais ela, um dia, poderá ser mais corretamente narrada.

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NOVOTNÝ, D. D. Ens rationis from Suárez to Caramuel: a Study in Scholasticism of the Baroque Era, New York: Fordham University Press, 2013, 320 p. Pedro Falcão Pricladnitzky* ___________________________________________ A preocupação com a natureza do não-ser e do sentido de conceitos que procuram descrever entidades ficcionais e impossíveis é clássica na história da filosofia. Nos deparamos com tal dificuldade desde o momento em que tentamos definir a natureza e o escopo de investigação da metafísica ou ontologia. É costumeiro definirmos tal disciplina como a ciência que busca compreender a natureza daquilo que é mais fundamental na realidade, os princípios do ser; ou ainda, como a disciplina que investiga o ser enquanto ser. Assim, parece não problemático assumirmos que a metafísica é dedicada às coisas que existem; aquilo que é real. Entretanto, as expressões ‘aquilo que existe’ ou ‘aquilo que é real’ são capazes de descrever a natureza da disciplina? Sem dúvida, é necessário, para sermos capazes de fornecer uma resposta adequada, esclarecer os significados dos conceitos que estamos utilizando. Contudo, podemos dizer que, em certo sentido, tais definições já parecem excluir de antemão a pertinência do não-ser como um material digno de investigação. A dificuldade nessa atitude é estabelecer como devemos entender e empregar conceitos de entidades ficcionais, irreais e quiçá impossíveis. Quimeras, cavalos-alados e demais criaturas da imaginação humana fazem parte do léxico comum e possuem um emprego claro na linguagem. Possibilidades contrafactuais também são uma forma de fatos ou fenômenos que não são, mas também descrevem significativamente possíveis eventos ou fenômenos. Entidades abstratas, de uma forma geral, podem não existir como entidades independentes da mente humana, mas disto não se segue que elas não causem certos eventos e                                                                                                                       *

Doutorando em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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fenômenos no mundo. Devem tais entidades ser parte do campo de investigação da metafísica? Se sim, a metafísica estaria lidando com objetos que não existem? Ou eles existem de modo peculiar? De qualquer forma, até aqueles que pretendem erradicar completamente seres ficcionais, seres de razão, do cenário da ontologia precisam apresentar fortes razões para sua exclusão. Isso denota o quão arraigada essa questão está na história da filosofia. O período escolástico, que pode ser retraçado desde o final do século XII, não foi alheio a essa questão. A investigação acerca da natureza do não-ser foi, em certos aspectos, abordada pelo intenso debate sobre a função dos seres de razão (entia rationis). Tal debate não estava focado no problema da referência em contextos peculiares da proposição,1 mas na referência e sentido dos termos de um modo geral. Nesse contexto histórico, encontramos a seguinte distinção: seres reais e seres de razão. Seres reais eram subdivididos nas categorias aristotélicas: a substância e os nove tipos de acidentes. Em relação aos seres de razão, podemos dizer que não há uma unanimidade no que diz respeito às entidades que devem cair sob o seu conceito. Entretanto, alguns itens recorrentes são: negação, privação, relações lógicas e predicações de segunda intenção (conceitos que operam como gênero e espécie e que qualificam e caracterizam conceitos de primeira ordem). Outra característica amplamente aceita acerca da natureza dos seres de razão é que eles são entidades que só possuem algum grau de realidade na medida em que são um produto da mente humana. O que parece uma questão não resolvida, porém, é se essa operação da mente possui ou não algum fundamento em um ser real. A expressão ‘não-ser’, por exemplo, possui seu sentido vinculado à ideia de negação. ‘Surdez’, por sua vez, vincula-se à ideia de uma privação, a ausência de uma característica que algo deveria ter, mas não possui. Estritamente falando, negações e privações não podem ser parte da realidade. Se elas são alguma coisa, devem derivar o seu ser do fato de serem entidades conceituais que possuem algum papel nas operações mentais humanas. Humanidade e animalidade (termos que designam espécie e                                                                                                                       1

Os problemas de referência das proposições e juízos serão examinados em detalhe na tradição analítica. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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gênero) costumam ser tratados como universais que são abstraídos de características concretas em objetos na realidade. Existe, com isso, a dificuldade de entender a natureza de tais entidades e se elas possuem alguma relação com alguma coisa na realidade. O livro de Daniel Novotny, Ens rationis from Suárez to Caramuel, oferece uma reconstrução detalhada dessa questão em um período histórico que ele define

como

escolástica

barroca.

Paralelamente

ao

início

do

que

costumeiramente chamamos de filosofia moderna, desde o final do século XVI expandindo-se através do século XVII, existiu uma tradição filosófica fortemente vinculada às universidades que mantinha em certos aspectos o modelo de investigação filosófica consagrado pela escolástica medieval. Nesse pano de fundo histórico, um período de transição entre o apogeu da filosofia escolástica e o domínio de linhas de pensamento racionalistas e empiristas, surgem figuras como o jesuíta Francisco Suárez (1548-1617). Sua obra Disputationes metaphysicae (1597) é, segundo Novotny, o paradigma de um texto filosófico barroco. Claramente influenciado pelo modelo escolástico e pela autoridade de Aristóteles,2 mas também capaz de propor diferentes alternativas e, de certo modo, se desprender das estruturas e temas de pesquisa já consagrados, Suárez dedica a última seção de sua obra, a disputa 54, ao exame dos seres de razão ou, como ele também os define, seres intencionais necessariamente não existentes. Partindo de uma análise crítica da teoria dos seres de razão em Francisco Suárez e passando para um exame comparativo de autores como Hurtado, Mastri, Belluto e Caramuel, Novotny defende claramente a sua posição de que tais autores têm contribuições importantes para o entendimento adequado do desenvolvimento da discussão acerca do não-ser ao longo da história da filosofia. Dessa maneira, ignorá-los ou não reconhecer a influência de tal período, denominemo-lo como quisermos, não é mais possível para o historiador da filosofia.                                                                                                                       2

Não apenas dos textos e traduções de Aristóteles, mas também por toda tradição de comentários da sua obra que permearam o período medieval. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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Antes de prosseguir para a análise detalhada das posições específicas de cada autor, Novotny sugere uma apresentação geral e, na medida do possível, neutra da questão dos seres de razão. Partimos da seguinte definição: entes de razão são objetos intencionais que dependem unicamente da mente. X é um ente de razão quando um sujeito P tem o pensamento de X, isto é, toma X como um objeto de pensamento e não há uma entidade existente independentemente da mente que dê suporte para X. Neste caso, X não possui nenhum tipo de ser além do fato de estar presente na mente de P como um dos seus objetos de pensamento (p. 27). Assim, ente de razão é aquilo que, por sua natureza, é apenas uma entidade objetual ou intencional do pensamento. Ao analisarmos os textos consagrados à ideia de um ser de razão, notamos que a natureza do não-ser e de outros conceitos que giram em seu entorno é explicitamente parte integrante da investigação. Além disso, ser de razão surge como ferramenta conceitual empregada por filósofos para dar conta de várias dificuldades conceituais como, por exemplo, a intencionalidade dos atos mentais (p. 30s.). Como aponta Novotny, pensamento e linguagem nos levam a considerar objetos que claramente não existem independentemente da mente (do fato de serem pensados) ou com relação aos quais tal independência é ao menos questionável. A presença quase constante de tais casos leva a considerações do tipo: qual é o estatuto de tais entidades? Podemos dizer que eles possuem alguma forma de existência independente, mesmo que seja menos real do que aquela dos objetos explicitamente independentes da mente? O seu alcance é sobre objetos no tempo (passados ou futuros), entidades possíveis, impossíveis ou fictícias? No que diz respeito ao período e autores que são o foco principal do livro de Novotny, a ideia de não-ser e dos seres de razão foi empregada também para dar conta de estruturas predicativas, como no caso das segundas intenções, conceitos que não são aplicados diretamente a um sujeito, mas a características já atribuídas a tais sujeitos. Conceitos autocontraditórios, como círculos quadrados, também eram referidos como entes de razão pelos filósofos da escolástica barroca. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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O pensamento, por ser uma atividade transitiva, supõe um objeto como o foco da sua atividade. Todo pensamento é pensamento de ou sobre alguma coisa. Contudo,

frequentemente

pensamentos

não

possuem

um

correlato

independente da atividade de pensar. Nesses casos, ou bem se recusa o estatuto de pensamento a tais fenômenos ou se reinterpreta a estrutura do pensamento, fornecendo algum tipo de realidade ou existência aos objetos necessários postulados por qualquer atividade mental. Desse modo, a questão do não ser toma a seguinte configuração: o que é um ser intencional? Que espécie de existência ele possui? De que modo ele está relacionado com a questão acerca da natureza geral do não-ser? Existem muitas estratégias para lidar com essas dificuldades e encontramos um enorme leque de opções na história da filosofia desde o poema de Parmênides até os dias atuais. A maneira mais radical de lidar com a questão do não-ser é simplesmente recusar o sentido de expressões e sentenças que envolvam entitades inexistentes e consequentemente rejeitar qualquer nível ou grau de ser ou realidade do não-ser. Existem diversos exemplos de atitudes menos radicais reconhecendo maiores ou menores graus de realidade para tais entidades. Novotny aponta os exemplos das teorias de Meinong e Findlay (p. 30). Como especificamente os filósofos escolhidos por Novotny respondem às dificuldades do conceito de não-ser, dos seres de razão, objetos intencionais necessariamente inexistentes? Do terceiro ao quinto capítulo, temos uma análise minuciosa da questão em Suárez. No sexto capítulo, encontramos a apresentação da posição de Hurtado e a sua tese falibilista a respeito dos seres de razão. No sétimo, o objetualismo modificado compartilhado por Mastri e Belluto. E, no oitavo, o eliminativismo do Caramuel. As Disputationes metaphysicae, sugere Novotny, marcam o início de um longo e frutífero debate acerca do estatuto ontológico dos seres de razão no período barroco. O autor procura demonstrar que os filósofos do período reagem à posição suareziana. Isso ocorre através ou bem de uma modificação da teoria, uma versão considerada melhorada; ou bem por um completo abandono, através da proposição de uma teoria diferente. Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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A teoria suareziana acerca dos entes de razão é, segundo Novotny, uma forma de objetualismo, uma teoria que afirma que entes de razão são essencialmente objetos do pensamento, dependentes de um ato de pensamento que os engendra. Nesse sentido, seres de razão não podem existir fora do pensamento, isto é, existir no mundo em um sentido ordinário de ‘existir’. Ou seja, seres de razão existem, mas o seu modo de existir não é o mesmo que o de seres reais que existem. Eles são totalmente dependentes de atos mentais, são apenas objetivamente no intelecto. Ser de razão é algo que não possui ser em si, mas é concebido à maneira de um ser. Para sustentar essa posição acerca da existência peculiar dos seres de razão, Suárez procura esclarecer o papel que tais entidades ocupam em uma ontologia, as razões e causas que fazem necessária a sua postulação, para então reinterpretar a sua definição e oferecer um sentido abrangente de existir que abarque o seres de razão. Na abordagem suareziana dos seres de razão, indica Novotny, observamos uma tentativa de articular diversas posições escolásticas a respeito do tema em uma argumentação unificada. Ainda que essa estratégia seja de grande benefício para compreender a evolução e história da discussão, tal tarefa padece do problema de unir teses e posições aparentemente incongruentes. Para ilustrar a dificuldade gerada pela posição de Suárez, cabe analisar o seguinte exemplo: ele tanto defende (1) que os objetos próprios da metafísica são seres reais e que seres de razão não são seres reais, como (2) que o estudo dos seres de razão é útil de várias formas para a metafísica e inclusive para a compreensão dos seres reais. O objeto próprio de estudo da metafísica não fica claro se tomarmos em conjunto essas duas afirmações. Na primeira temos os objetos reais como o cerne da metafísica e na segunda a investigação dos seres reais parece estar atrelada à investigação dos seres de razão. Algumas afirmações acerca da natureza dos seres de razão nos levam a concluir que há uma analogia entre os modos de existência dos seres de razão e os seres reais. Isso fica claro quando Suárez sustenta que um ser de razão apenas possui ser objetivo no intelecto e que um ser de razão é algo pensado como um ser mesmo que não possua ser em si ou por si. Ainda que não seja Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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explicitamente claro o significado de ‘existência objetiva’, devemos dizer que ela se diferencia do ser real, pois, pela primeira afirmação, seres de razão não possuem ser real. Ambos os tipos de entidades existem para Suárez. A diferença é que elas existem de maneiras diferentes. Entretanto, é obscuro como a compreensão equivocada de algo como um ser real, quando de fato é algo que apenas possui ser objetivo, pode ser útil para compreensão dos seres reais. Esses são apenas alguns exemplos da minuciosa análise promovida por Novotny acerca da teoria de Suárez. Os argumentos apresentados pela sua reconstrução são bastante claros e parecem seguir de perto a estrutura original do texto das Disputationes, sendo de um grande valor para os pesquisadores da obra de Suárez e sua influência no desenvolvimento da metafísica barroca e moderna. Também de formação jesuíta, Pedro Hurtado de Mendoza (1578-1641) dedicou-se a investigar o estatuto ontológico dos seres de razão. Como aponta Novotny, Hurtado afirma que existem seres de razão. No entanto, eles são apenas seres na medida em que são objetos do intelecto. Assim, são completamente dependentes de atos mentais. Hurtado afirma que eles são uma proposição falsa julgada como verdadeira. Novotny apresenta uma cuidadosa reconstrução da posição de Hurtado – aqui cabe apenas reproduzir as suas conclusões. E, a este respeito, talvez o mais interessante seja a maneira como Hurtado se afasta da posição defendida por Suárez. Diferentemente de Suárez, Hurtado aceita apenas seres de razão proposicionais; apenas sentenças ou proposições que são falsas podem ser tomadas como possíveis objetos do intelecto, não conceitos isoladamente. Ainda que aceite e reitere a definição proposta por Suárez de que ser de razão é aquilo que é apenas como objeto do intelecto não possuindo ser fora dessa relação, tais seres são engendrados apenas por erros. Na ocorrência de uma falha da capacidade judicativa do intelecto humano, se produz um objeto, por definição, irreal para dar conta da transivitidade da intencionalidade do pensamento. Suárez, no entanto, não toma seres de razão como algo relacionado apenas a casos de erro judicativo. Seres de razão, para ele, podem existir independentemente disso e são utéis para a

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obtenção de conhecimento, pois através deles podemos pensar sobre privações e negações, duas importantes operações lógicas. Bartolomeo Mastri (1602-73) e Bonaventura Belluto (1600-76), filósofos italianos e de formação franciscana, fortemente influenciados por Duns Scotus, também apresentaram sua versão para a função e natureza dos seres de razão. Em duas obras produzidas conjuntamente, Disputationes in Organum Aristotelis (1628) e Disputationes in XII Aristotelis stagiritæ libros Metaphysicorum (1646), eles defendem

o

que

Novotny

nomeia

de

objetualismo

modificado,

um

desenvolvimento do objetualismo defendido por Suárez. Nesse sentido, também sustentam que tais entidades existem de algum modo. Contudo, diferentemente de Suárez, eles sustentam que elas existem potencialmente ou virtualmente, como objetos do intelecto. Disso não se segue que essencialmente seres de razão sejam independentes de atos mentais, apenas que os seres de razão surgem ou se tornam objetos somente quando pensados. Eles são, no que diz respeito tanto à sua existência quanto à sua essência, dependentes de atos mentais. Antes de serem atualizados como objetos do pensamento, seres de razão são apenas potencialmente no intelecto. Ao fazerem essa explícita distinção entre ato e potência em relação aos seres de razão, Novotny acredita que Mastri e Belluto desenvolvem um aspecto da teoria não abordado por Suárez a respeito da origem e causa da existência dos seres de razão como ferramenta do intelecto humano. Eles tentam manter a tese da total dependência dos seres de razão para com atos mentais, mas também tentam reconhecer que de certa forma tais entidades já existiam antes em potência. Desse modo, procuram dar conta da tese tradicional ‘tudo que é em ato é antes em potência’; tese que não teria sido abordada por Suárez. O último capítulo do livro é dedicado ao pensador Juan Caramuel y Lobkowitz (1606-82). Mais conhecido como Caramuel, ele discute a questão dos seres de razão em diversos momentos de sua obra, mais notadamente em um ensaio intitulado Leptotatos (1681). Diferentemente dos outros autores analisados no livro, Caramuel não busca apresentar uma tese positiva acerca dos seres de razão. Ao contrário, pretende através de uma desconstrução do sentido Translatio.  Caderno  de  resenhas  do  GT  História  da  Filosofia  Medieval  e  a  Recepção  da  Filosofia  Antiga   http://gtfilosofiamedieval.wordpress.com/resenhas/   ISSN  2176-­‐8765   Vol.  6  (2014)  


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do conceito ‘ser de razão’ defender a tese de que qualquer possibilidade de afirmar a existência de seres de razão incorre em contradição e deve ser afastada de uma ontologia. Partindo da tese de que todo ser é um ser real e de que a definição adequada de ser de razão é que ele é algo que existe meramente objetivamente (uma entidade impossível de ter existência fora do pensamento e que pode ser alguma coisa apenas como um conteúdo de pensamento), procura concluir que ser de razão não é e não pode ser algo real. Portanto, não pode sequer ser considerado um ser em um sentido unívoco. Em outras palavras, ao admitir a existência de entidades não existentes e que as concebemos como se tivessem existido, também deveríamos admitir que entidades existentes possam ser concebidas como não existentes. E, afirma Caramuel, se a segunda afirmação é absurda, também o é a primeira. A leitura de Ens rationis from Suárez to Caramuel propicia de fato uma imersão em um período ainda pouco estudado da história da filosofia e, através da cuidadosa e bem argumentada interpretação de Novotny, estabelece a importância e influência que os autores estudados têm na transição do período medieval para o período moderno. Juntam-se a Suárez, como autores que devem ser estudados para uma adequada compreensão desse período, autores como Hurtado, Mastri, Belluto e Caramuel. Assim, o estudo desenvolvido por Novotny é mais uma evidência de que autores como Descartes, Locke, Leibniz, Berkeley, Malebranche e Kant desenvolvem as suas teorias de uma maneira menos revolucionária do que já se imaginou. Não vemos a divisão radical, o suposto abismo, entre modernidade e idade média. Observamos cada vez mais detalhadamente um período de transição onde intensa e profunda investigação filosófica foi realizada.

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Translatio 6 (2014)  

Reviews in Portuguese about recent publications in the field of medieval philosophy.

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