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A polêmica de “O Mecanismo” T E X T O //

A

Carolina Cassese

ssinada por José Padilha, diretor responsável por Tropa de Elite (2007) e um dos nomes envolvidos na criação e produção da série Narcos (2015), a nova série original da Netflix, O Mecanismo, foi pivô de polêmicas desde a sua estreia. Acusada por alguns espectadores de ultrapassar os limites da ficção, a produção foi considerada exageradamente parcial na sua tentativa de retratar um dos processos mais conhecidos e comentados da atualidade brasileira: a Operação Lava Jato. A principal crítica à série reside em uma cena específica: o personagem João Higino (Arthr Kohl), que faz referência ao ex-presidente Lula, profere a frase: “Precisamos estancar essa sangria”. Quem acompanha os acontecimentos da política brasileira sabe: a colocação, na verdade, é de autoria de Romero Jucá (presidente do PMDB). No começo de cada episódio, aparece a seguinte mensagem na tela: “Esse programa é uma obra de ficção inspirada livremente em eventos reais. Persona48| zint.online

d i a g r a m a ç ã o //

Maria Nagib

gens, situações e outros elementos foram adaptados para efeito dramático”. O aviso deixa claro, portanto, que a obra é ficcional. No entanto, ao se tratar de acontecimentos verídicos e recentes, é irresponsável confundir, intencionalmente, os personagens. Mesmo que com “efeitos dramáticos”, a série tem uma responsabilidade com o público por tratar de um tema tão sério e presente na sociedade brasileira contemporânea. Muitos críticos afirmam que a produção também peca pela exaltação que faz aos policiais, o que não é uma surpresa visto os diversos projetos com assinatura de Padilha e que abordam o embate entre a Polícia e os criminosos criando personagens das forças armadas como heróis. Em O Mecanismo os policiais são, em sua maioria, retratados como justiceiros enquanto os políticos, por outro lado, são representados como vilões, em uma criação de uma dicotomia quase que maniqueísta. É uma escolha problemática do texto da produção, uma vez que na realidade nada é tão simplista assim. A série também coloca, explicitamente, a corrup-

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ZINT ⋅ Edição #11: Vingadores  

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