Skip to main content

ZINT ⋅ Edição #4: Inumanos

Page 50

Um megafone para os pensamentos mais íntimos Melodrama, novo álbum de Lorde, compartilha sentimentos com uma geração de jovens mulheres de forma madura e original // TEXTO

V

MARINA MOREGULA

ocê com certeza se lembra de Royals (2013), o primeiro sucesso de Lorde, que ganhou o Grammy de Canção do Ano, em 2014. A cantora tinha apenas 16 anos quando lançou um dos singles mais bem-sucedidos do mundo. Eu também tinha 16 nesse momento, e o escutava todos os dias. Mas, para ouvir Melodrama (2017), melhor esquecer tudo isso. O segundo álbum da artista neozelandesa demorou a sair, mas está aí. Ela está com 20 anos agora, e eu também. O novo disco, um sucesso para a crítica, vem exatamente para mostrar que Lorde cresceu como pessoa, como mulher e como artista. Para quem foi da adolescência à juventude também nesse meio tempo, é difícil não se identificar com as confissões da artista, mesmo não estando sob os holofotes do pop. Melodrama, lançado no início de junho pela Universal Music, conta a história de uma festa onde tudo pode acontecer. É íntimo, nas letras e nos vocais, e mantém a estranheza que fazem de Lorde única, como vi em seu primeiro álbum, Pure Heroin (2013). Os vocais excêntricos e etéreos estão de volta, ainda mais marcantes e expressivos. O storytelling é equilibrado com momentos de quebra de expectativa e de viradas completas de ritmos, como na faixa Hard Feelings / Loveless. Pure Heroin trazia histórias de uma adolescente normal, insegura, e que se diverte com os amigos do jeito que der. Propunha uma oposição ao mundo glamouroso do pop. Lorde criticava a ostentação e o 50| zint.online

// Diagramação

VICS

luxo de estrelas, que estavam distantes do seu público e de quem eram antes da fama. Hoje, a artista já não se encaixa tanto nesse quadro. A fama veio com o primeiro álbum e mudou a vida da cantora. Melodrama é um registro das novas vivências no mundo da música. O disco foca nos pensamentos da própria artista, inclusive os mais obscuros. A artista conta por meio de suas músicas como é ser uma jovem mulher, como são os primeiros amores não correspondidos, como é ir da adolescência à juventude dentro dessa nova realidade, mas sem perder a visão crítica, ao ironizar o estereótipo da “geração sem amor”. Lorde fala muito sobre o seu jeito de amar, e também sobre se sentir um fardo para as pessoas próximas. É como se ela musicalizasse, para o mundo ouvir, o que os jovens estão pensando. Quando lembro de quem eu era há quatro anos, inicialmente penso que mudei um pouco. Atentando-me aos detalhes, concluo que quase já não sou a mesma pessoa que era aos 16. Se transferimos esse pensamento para artistas da música, vem aquele medo de que a fórmula do pop ou a máquina de fazer hits engulam nossas vozes preferidas com o tempo. Bate aquele receio de que as pessoas percam as características originais que te fizeram gostar tanto daquele som no passado. Em meio a outros lançamentos de novos álbuns de vozes femininas em 2017, como Halsey, Lana Del Rey e Taylor Swift, que também mudaram em seu próprio jeito, o receio só cresce. Mas Lorde não desapontou. Melodrama se equilibra bem na linha entre o pop que agrada a todos


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
ZINT ⋅ Edição #4: Inumanos by ZINT - Issuu