Velo #1

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EDIÇÃO #1 | DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

TRÂNSITO Conheça a cidade das bicletas e o que diz o Código de Trânsito Brasileiro sobre as magrelas PIRECCO A história e o trabalho do artista e ciclista gaúcho CICLOTURISTAS Para estas pessoas, o caminho é mais importante do que o destino 1


curta nossa pĂĄgina: facebook.com/revistavelo envie sugestĂľes:

velo@cspress.com.br

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cidades mais

humanas

Quem experimenta a bicicleta, seja para lazer ou como meio de transporte no dia a dia, passa a ter uma relação diferente com a cidade. Mudam as percepções de distância, de uso dos espaços públicos e de mobilidade urbana. Muitos podem chamar isso de romantismo. Porém, não há como não ser romântico. Pessoas apaixonadas são românticas. E é esse o sentimento que a bicicleta desperta nos que se deixam envolver por ela. Um sentimento que só não deve ofuscar a necessidade de se priorizar a segurança e a vida. Nesta Velô contamos histórias de pessoas que viram na bicicleta uma maneira de ser feliz, de se realizar profissionalmente, de promover a arte e de fazer o bem. Descobrimos uma cidade dominada pelas bicicletas, a história de um artista e ciclista apaixonado e os relatos de quem, depois de adulto, aprendeu a andar sobre duas rodas. Traga a sua bike e venha pedalar com a gente.

da redação

CAPA Ilustração de Pirecco

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CONTATO velo@cspress.com.br

Jornalistas Responsáveis Lina Colnaghi MTB: 15204 Sabrina Silveira MTB: 13629

DISTRIBUIÇÃO Gratuita

PROJETO GRÁFICO Sabrina Silveira

PERIODICIDADE Bimestral

Revisão Thais Zanchettin

Edição #1 Porto Alegre | DEZ/JAN | 2014

IMPRESSÃO Impressos Portão

www.facebook.com/revistavelo www.issuu.com/revistavelo Todos os artigos assinados e as fotografias são de responsabilidade única de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da revista.


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nesta velô

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quatro inspirações

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40 os cicloviajantes

26 arte e bicicleta

a bici no trânsito

a cidade das bikes

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primeiras pedaladas


colaboradores

Lívia Araújo Jornalista e paulista, mora em Porto Alegre há oito anos, cinco dos quais pedalando diariamente. A bicicleta é o seu Lado B que está virando Lado A.

Renata Peppl Jornalista e autora de peças teatrais. Mora em Londres há três anos e trabalha com comunicação e produção cultural.

fLaVIA mu Jornalista, carrega a sabedoria chinesa no DNA. Acredita que tem lugar para todo mundo no trânsito. Assina as criações da própria agência: flaviamu.com.

DEB DORNELES Você a encontra fotografando enquanto pedala pelas ruas da Capital. Assina o querido Porto Alegre Cycle Chic.

Rachel Schein Formada em comunicação social, já trabalhava em estúdios de foto antes de se apaixonar pela bicicleta. Hoje colabora para o site Vá de Bike.

nAIANA ALBERTI Professora do Método DeRose, ensina um estilo de vida que desenvolve as capacidades inatas do ser humano.

Daniele Eckert Administradora do Grupo Hospitalar Conceição, pedala no trânsito desde os 13 anos. É Bici Anjo e uma das coordenadoras do grupo.

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histórias

inspiradas pela

bicicleta por Flavia Mu, Lina Colnaghi e Sabrina Silveira fotos de Deb Dorneles

A bicicleta é muito mais do que um veículo, para alguns ela está relacionada à busca por simplicidade, saúde, cumplicidade e sustentabilidade. Selecionamos quatro histórias de vida inspiradoras para contar aqui.

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artista sustentável A arte corre nas veias do músico Klaus Volkmann e também nas ruas da cidade, graças aos seus inventos: as bicicletas de bambu, criação própria, são verdadeiras obras de arte em duas rodas. Mais que um meio de transporte, as bikes de bambu tornam-se uma forma de ativismo – afinal, é impossível não parar para observá-la – e também um estilo de vida. “A pessoa demonstra que valoriza a arte e tudo que é bonito, mas sem ostentação. É a prova de que é possível viver de coisas artesanais. E é um jeito de viver com menos pressa”, comenta. Na infância, os pais e os avós estimulavam a criatividade do menino que, em vez de ficar sentado em frente à televisão, inventava: desmontava o que podia para criar algo novo. Assim, desenvolveu habilidades manuais, utilizadas na música e nas criações artesanais. A tranquilidade é algo que transparece no sorriso calmo de Klaus, que divide o tempo entre os ensaios na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA), pela manhã, e o desenvolvimento das bicicletas, na parte da tarde. “O processo todo é muito bonito. A matériaprima vem de diversos lugares, mas eu gosto mesmo é de ir para o mato na lua certa e escolher com calma os bambus com os formatos mais diferentes, que têm personalidade”, conta. Hoje, já são 18 bicicletas de bambu circulando por aí. “Todas são feitas por encomenda, atendendo às necessidades e preferências de cada ciclista”. O projeto do inventor teve início 10

em 2006, mas as vendas só começaram dois anos atrás. O melhor são os testes de qualidade: Klaus sai em viagem pedalando. Assim já conheceu Chile, Peru, Bolívia e Bahia. A Bambucicloteca, uma das “novidades inventivas” de Klaus, está fazendo o maior sucesso em Porto Alegre. Trata-se de uma biblioteca móvel, conduzida por uma bicicleta feita de bambu, que oferece trocas e empréstimos de livros, promovendo mais uma arte: a literatura. Andar de bicicleta fazia parte da rotina de Klaus quando criança, mas tornou-se um meio de locomoção por incentivo dos amigos. “Já comprei carro e vendi. A vaga na garagem virou oficina para as bicicletas. No entanto, não sou antimotor. Bem pelo contrário: sou o ciclista que mais anda de carro, especialmente para carregar material. Só que ando bem devagarinho”, brinca. Ruas cada vez mais cheias e pessoas mais estressadas no volante causam medo? Para Klaus, o ciclista tem o trabalho diário de transcender a violência do trânsito. “A verdade é que o mundo se posiciona do jeito que a gente se posiciona, entende? Se eu me posiciono de maneira agressiva, o mundo será agressivo”, divaga. E para pedalar é preciso, claro, boa música. “A trilha sonora faz parte da minha vida. Não preciso de headphones para ouvi-la. Quando não estou repassando os sons da orquestra na cabeça, gosto de escutar chorinho e música brasileira”.


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padeiro ciclista Como seria receber um pão caseiro, ainda quentinho, na porta de casa? E se o próprio e simpático padeiro entregasse pessoalmente a encomenda de bicicleta? Não parece possível, mas o profissional em questão existe. Ele mora em Porto Alegre, no bairro Cidade Baixa, e hoje se dedica exclusivamente a arrancar sorrisos de clientes famintos por um serviço simples, sustentável e com gostinho de receita da vovó. Desde que aprendeu a fazer pão, em outubro de 2012, Glênio Guimarães encontrou a realização pessoal que lhe faltava na carreira de publicitário. Os colegas de trabalho foram as cobaias das primeiras fornadas e também os primeiros a incentivá-lo. “Todos começaram a dizer que eu tinha que fazer para vender. Aos poucos as encomendas dentro da empresa começaram a aparecer, e percebi que a função de fazer pães estava me deixando muito feliz”. Assim surgiu a Tudo de Pão. Glênio criou a página no Facebook para divulgar o trabalho e, em pouco tempo, já havia conquistado mais de 3 mil seguidores. Não demorou muito para a renda como

padeiro ultrapassar a de publicitário. “Eu estava cansado do trabalho. Já não era mais uma comunicação na qual eu acreditava. Eu queria uma vida mais simples e conectada com a cidade”, diz ele. É em seu apartamento — onde mora com a namorada e o seu fiel assistente, o cachorro Bóris — onde Glênio prepara com carinho de 100 a 120 pães por semana. A variedade impressiona: pão de abóbora, de aipim, de cacau e nozes, de ervas, integral, enfim, todos os gostos. A bicicleta, que já era seu principal meio de transporte por influência do irmão, naturalmente tornou-se o veículo de entrega perfeito para o conceito da Tudo de Pão. Em julho de 2013, resolveu apostar nos pães e largou a agência de publicidade. Seu desafio agora é aumentar a capacidade sem perder o conceito artesanal da Tudo de Pão. O primeiro passo será alugar um espaço para fazer os pães. “Em dia de fornada, tem farinha pelo apartamento todo”, comenta sorrindo. “Por mim, eu passava o tempo todo fazendo pão e pedalando”, completa. 13


melancia na cabeça Em breve, flores e frutas vão fazer companhia a verduras e legumes tatuados no braço esquerdo de Gisele Batistelli e estampar seu braço direito. A professora de educação física, feliz com a escolha feita há três anos de se tornar vegana, diz que adora quando alguém pergunta sobre as tattoos. “Não gosto de doutrinar ninguém, mas tenho o maior prazer em falar da minha escolha de vida”, conta. Adepta de uma alimentação mais saudável e de um posicionamento que define como intelectual e filosófico sobre o consumo, Gisele já flertava com a ideia do veganismo há mais de dez anos. Ela já era vegetariana quando recebeu uma revista que propunha um teste de 30 dias de veganismo. “Resolvi fazer e foi uma mudança muito importante na minha vida, a melhor coisa que fiz nos últimos três anos”, afirma. O encontro com a bicicleta surgiu em uma das suas muitas idas a pé ao trabalho . Morando na rua Felipe Camarão, no bairro Bom Fim, e trabalhando próximo ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre, não fazia sentido usar nenhum meio de condução para um trajeto tão pequeno. “Em uma dessas parei no Vulp Bici Café e pensei que seria uma boa ideia ter uma bike para me deslocar. Foi 14

quando vi essa Monareta (na foto, um modelo de bicicleta da Monark) e me apaixonei”, conta. Para completar, Gigica, como é chamada pelos mais próximos, encontrou um capacete com estampa de melancia, que gera comentários simpáticos por onde ela anda. “Escuto crianças comentando, ou até adultos fazendo uma brincadeira. Eu sorrio de volta e sigo pedalando. É muito legal”, explica. Entre os hábitos que desenvolveu com o veganismo está o consumo de orgânicos. “Comprar de quem produz é sempre mais ecológico, pois tu compras as frutas e verduras da estação, fresquinhas. Além disso, representa menos combustível gasto, mais saúde, pois têm menos pesticidas e conservadores, sem contar que teu dinheiro fica aqui, para o agricultor local”, explica. “Andando de bici pela cidade, deixando o carro em casa, estamos nos posicionando também, com um carro a menos e gerando menos poluição. Fora isso, acho que a mesma postura que tenho como vegana, de levar meu jeito de viver de pessoa em pessoa para, aos poucos, difundir esse posicionamento, é o mesmo que acontece com a bici. De um em um, mostrando como somos felizes assim, vamos conseguir mais espaço”, diz ela.


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CrĂŠdito: Lina Colnaghi

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ativista e voluntária Ativista. É com essa palavra e um sorriso estampado no rosto que Tania Terezinha Pistorio Pires define o que é. Voluntária há 13 anos, sendo dez deles no Greenpeace e os outros três na ONG que dirige com mais nove colegas, ela considera indescritível a sensação de realizar o trabalho voluntário. “É simplesmente tudo de bom, a melhor coisa do mundo”. Tania, que já chegou a cursar parte da faculdade de Odontologia e teve negócios nas áreas de decoração e enxovais para bebês e noivas, hoje se dedica integralmente à organização não governamental Centro de Inteligência Urbana de Porto Alegre (CIUPOA), que procura oferecer soluções sustentáveis para as cidades e auxiliá-las na adaptação frente às mudanças climáticas. Em agosto de 2012, o jornalista e ciclista Poti Campos fez um chamado aos amigos para que juntos encontrassem uma forma de aproveitar melhor o Velódromo do Parque Marinha do Brasil, um espaço que estava subutilizado em Porto Alegre. Foi assim que a paixão voluntária de Tania e as bicicletas se encontraram. Foram todos os convocados ao

Velódromo para discutir o que fazer, e Tania era a única que não tinha ido de bicicleta. “Achei o lugar lindo, e disse a todos que ali seria ideal para eles me ensinarem a pedalar”, conta. Os amigos custaram a acreditar que Tania não sabia andar de bike, e ela sugeriu que criassem um projeto para ensinar as pessoas. “Alguns ficaram receosos, achando que não ia ter procura. Lançamos no site da prefeitura as inscrições e, em 48 horas, já tínhamos 30 interessados. Na segunda turma foram 120”, comemora. A Bici Escola surgiu em janeiro de 2013 (leia mais na página 46). Tania aprendeu na turma de março e hoje usa a bici para passeio, no bairro de Ipanema, na zona sul da cidade, onde mora. Além da Bici Escola, dedica-se a outros dois projetos. Um deles voltado à percepção de risco em comunidades, ensinando-as a ser resilientes para lidar com as dificuldades, que tem o piloto realizado no Morro da Cruz. O outro está voltado contra a crueldade com os animais. “Há quem fale que quem se preocupa com os animais deveria cuidar antes de pessoas em necessidade. Nós estamos fazendo as duas coisas, ao mesmo tempo”, defende. 17


mobilidade

A Cidade das Bicicletas por Lina Colnaghi

Quando Márcio Luis Wagener chegou a Sapiranga, em 1990, o horário de largada dos funcionários das fábricas fazia os carros pararem nas ruas. Não era pelo excesso de veículos, era a quantidade de bicicletas. “Perto do meio-dia ou no final da tarde era comum os carros pararem junto ao meio-fio ou irem para o acostamento. Não tinha espaço para eles”, conta o padeiro de 41 anos. Hoje o movimento não é mais o mesmo, mas a cidade de colonização alemã ainda é dominada pelas magrelas. Localizada no Vale do Sinos, o município de 75 mil habitantes possui uma frota de 42 mil bicicletas contra 38.600 carros. Estimase que, para cada família, haja pelo menos 18

duas bicicletas. Os 10,2 quilômetros de ciclovias se dividem entre os 7,2 do perímetro urbano, de responsabilidade da Prefeitura Municipal, e mais três na RS 239, sob responsabilidade do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer). No horário das 11h10 às 11h30, a largada de bicicletas, em tempo bom, é intensa. Um ponto de grande concentração é a Rotatória da Paquetá (avenidas 20 de Setembro e João Corrêa). Andando pela cidade, o que se vê são homens, mulheres e crianças pedalando tanto pelas ciclovias quanto pelas pistas. Bicicletários são disponibilizados por diversos estabelecimentos comerciais da cidade, já acostumados com o movimento de ciclistas. “Aqui


Sapiranga, uma cidade de 75 mil habitantes no Vale do Sinos, tem mais bicicletas do que carros e mais de 10 quilômetros de ciclovias

19 Crédito: Prefeitura Municipal de Sapiranga/ Divulgação


todo mundo respeita, os motoristas são acostumados a conviver com os ciclistas”, conta Wagener, que fala por experiência própria. Diariamente, às 2 horas da madrugada, ele sai de casa e pedala oito quilômetros até a padaria onde trabalha, no município vizinho de Campo Bom. A bicicleta é o meio de transporte oficial de Wagener, que ainda tem outras duas, uma modelo cross, para voltas pequenas dentro da cidade, e outra speed, para viagens mais longas. Todos os lugares que conheceu até hoje foram por meio da bicicleta. Com amigos, ele costuma fazer uma média de 100 quilômetros 20

por final de semana e já chegou a cidades como Tramandaí, Canela, Gramado, Bento Gonçalves, Garibaldi e Farroupilha. “Posso pedalar o dia todo. Difícil é me convencer a fazer algo a pé”, conta. Ivan Eduardo Bischoff, de 36 anos, tem uma opinião diferente à de Wagener. Acha que Sapiranga precisa evoluir bastante com relação à convivência entre ciclistas e motoristas. “Toda semana vemos, pelo menos, dois acidentes aqui perto da loja. Os motoristas são bastante imprudentes”, afirma. O vendedor é dono de três bicicletas. Uma delas é o xodó, não vende por nada: uma bike de 1952 que


Crédito: Prefeitura Municipal de Sapiranga/Divulgação

encontrou em um paiol no interior do município de Taquara. As outras ele usa para passeio, uma modelo beach e uma mountain bike, que serve para os treinos ou para deslocamento dentro da cidade. Ivan notou, nos últimos anos, um aumento considerável de bicicletas na cidade, principalmente as utilizadas para lazer ou esporte. “Dá para dizer que esse número dobrou”, conta. O esporte sobre duas rodas é a vida do atleta e proprietário de uma loja de bicicletas na cidade, Airton André Paiva, mais conhecido entre os ciclistas como Nico Paiva. Trabalhou no ramo do calçado, mas deixou tudo

de lado para se dedicar à verdadeira paixão. Competiu em provas de 1982 a 1988, parou por questões de saúde e retomou em 2003. Já foram mais de cem no total. “O adicional de Sapiranga ser a cidade das bicicletas também pesa, mas o principal é a minha vocação”, diz ele. Desde 2011, lidera a equipe da Associação dos Esportes Mistos de Sapiranga (AEXS Action Sports) e agora tem metas ambiciosas. “Queremos chegar ao Campeonato Brasileiro e à Brasil Ride no ano que vem. A vontade e o empenho nos já temos, agora estamos buscando apoiadores que acreditem e tornem isso possível”, diz. 21


De quem é a rua? Apesar de estar descrito no Código de Trânsito Brasileiro, o direito da bicicleta de utilizar as vias públicas para trafegar pela cidade ainda é discutido. Muitos desconhecem as leis, mas a verdade é que as magrelas podem dividir espaço com motoristas de carros, motos ou ônibus, respeitando as regras de trânsito e os princípios básicos de segurança. Conheça alguns dos principais pontos do CTB com relação ao uso da bicicleta em vias públicas:

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Prioridades no trânsito Artigo 29: “...os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.” Artigo 38 completa: “Durante a manobra de mudança de direção, o condutor deverá ceder passagem aos pedestres e ciclistas”.

Mantenha distância O artigo 201 expressa que é passível de infração “deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinquenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta”. O artigo 220 complementa que também é infração deixar de reduzir a velocidade ao ultrapassar um ciclista, sob pena de multa.

Pedale na mão correta Artigo 58: “nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.”

Devagar pela direita Segundo o artigo 219, na faixa da direita não se aplica a regra de velocidade inferior à metade da velocidade máxima estabelecida para a via. Portanto, a bicicleta pode andar na velocidade que lhe for confortável.

Deveres O artigo 244 deixa claro alguns deveres do ciclista: Não transportar passageiro sem garupa ou assento especial, não transitar em rodovias (salvo onde houver acostamento), não fazer malabarismos, não pedalar segurando o guidom com apenas uma das mãos (apenas quando estiver sinalizando movimento) ou transportar cargas incompatíveis com a bicicleta.

Calçada não é lugar de bike A bicicleta, segundo o artigo 59, não deve transitar pela calçada, a não ser que esteja autorizada e devidamente sinalizada. Para circular na calçada, a orientação é descer da bicicleta e empurrar a mesma. A penalidade nesses caso pode chegar a remoção da bicicleta, mediante recibo para o pagamento de multa.

Equipamentos obrigatórios O artigo 105 lista como equipamentos obrigatórios da bicicleta: campainha, sinalização noturna dianteira, traseira, lateral e nos pedais e espelho retrovisor do lado esquerdo. 23


pedal seguro Vai pedalar no trânsito? Preste atenção nas dicas abaixo para garantir a sua segurança:

Não pedale muito próximo ao meio fio para que os carros não dividam pista com você

Sinalize todos os seus movimentos com as mãos

Nunca pedale na contramão, isso reduz o tempo de resposta caso um motorista não esteja te vendo.

Não ultrapasse o sinal vermelho

Mantenha distância de ciclistas a sua frente

Utilize luzes piscantes, principalmente à noite

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Utilize os equipamentos obrigatórios e recomendados, como capacete e luvas

Tome cuidado com as portas dos carros parados, afaste-se para não ser atingido caso alguém abra sem olhar

Use roupas coloridas ou com refletivos

Aprenda a resolver pequenos problemas da bike para não ficar na mão

Informe-se sobre as leis de trânsito e busque ajuda de organizações como o Bici Anjo


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lifestyle

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arte e bicicleta por Sabrina Silveira

Ciclista apaixonado, Ricardo Pirecco traduz na sua arte as inspirações que capta das ruas. O traço marcante e o olhar sensível estão em todas as obras do artista que aprendeu com a vida que o que vale a pena é fazer o que se ama.

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Algumas tintas e a família por perto. É assim que o artista plástico Ricardo Trombini Pires, o Pirecco, define o que precisa hoje para viver. A simplicidade e sensibilidade com que vê a vida se refletem nos trabalhos e no seu dia a dia. Nas colagens, nas pinturas e nos desenhos autorais, gosta de retratar cenas cotidianas ou detalhes, que capta com uma máquina antiga, ainda de filme, carregada sempre consigo. Desde cedo, o seu olhar sobre a cidade é de cima de uma bicicleta. A atual companheira de pedais é um sonho de 28

consumo, que realizou em 2012: uma Foffa, marca inglesa, feita sob medida. Mais do que uma paixão, a bicicleta é o seu principal meio de transporte. Durante três anos, deslocou-se todos os dias do bairro Bela Vista, em Porto Alegre, onde mora, até seu estúdio, perto do aeroporto. Eram de 15 a 25 quilômetros por dia. Mas, desdeoutubro,otrajetoémenor.“Euestavabrigando muito e perdi as contas de quantas vezes quase sofri um acidente”. Para não desistir da bike, desistiu da distância e trouxe para mais perto


Crédito: Arquivo pessoal

o estúdio. Neto de um ciclista apaixonado e com um tio-avô competidor, Pirecco andava de bicicleta desde pequeno. Em 2005, se deu conta da vantagem financeira de usar a bicicleta para ir ao trabalho. “Me preocupa um pouco ver pessoas com pouca experiência se aventurando, andando na contramão ou ignorando regras básicas de trânsito. Quem tem carteira, tem mais noção, consegue prever as ações de alguns motoristas no trânsito. Por isso, eu acho

importante as pessoas terem umas aulinhas antes de pedalar por aí”. Bastante crítico, o artista usa com frequência as redes sociais para denunciar e alertar sobre coisas que vê nas ruas, mas tenta se conter. Um dos alvos são as ciclovias construídas recentente na capital gaúcha: “Acho que vale pela iniciativa, mas tem muita coisa mal feita, sem manutenção e planejamento. Muitas vezes, prefiro andar na faixa, onde o asfalto está melhor do que o das ciclovias”. 29


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Crédito: Roberta Sant’Anna

Formas e cores O habitat do artista é hoje um pequeno apartamento, onde montou escritório e estúdio. A rotina envolve um avental, boa música, pesquisas de referências e muito trabalho. Para ele, a arte é resultado muito mais do esforço do que da inspiração. Ao mesmo tempo em que trabalha em projetos para marcas, o artista se dedica às peças autorais, nas quais gosta de misturar técnicas e expressar o que vê e sente todos os dias. É dono de um traço urbano, simples e muito marcante. Na maioria de suas obras, brinca com a mistura de cores, formas, símbolos e palavras. “Não gosto de recusar trabalho”, diz ele,

referindo-se aos diversos projetos comerciais dos quais participou desde o início da carreira. Hoje tem no portfólio marcas como Havaianas, Coca Cola, Lojas Renner, Grupo RBS, Tramontina, Miolo, Gerdau e Orange. Com formação em design visual, direção de arte e comunicação, chegou a trabalhar sete anos em agências de design e publicidade, sempre fazendo ilustrações. Em 2008, a partir de um trabalho realizado para a marca Converse, ganhou visibilidade e tomou a decisão de começar a trabalhar sozinho, longe da rotina estressante que tanto o incomodava. Para ajudar a administrar a carreira, desde 2008 é representado pela Möve, empresa de 31


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São Paulo. “Assim posso focar mais na criação, sem me envolver tanto com todas as outras questões mais administrativas dos projetos, como planejamento, prospecção e financeiro.”

Vancouver Durante todo o ano de 2009, Pirecco morou em Vancouver, no Canadá, com a namorada Fabiana Selbach, hoje esposa, de quem fala apaixonado. Mesmo distante, continuou prestando serviços para clientes no Brasil e trabalhava meio período em um estúdio de design na cidade. Quando o intercâmbio completava um ano, foi surpreendido por um nódulo na garganta e um diagnóstico certeiro e rápido: Linfoma de Não-Hodgkin. O tipo de câncer, que ataca o sistema imunológico, decretou o retorno ao Brasil e um ano de reclusão em casa, sob tratamento intensivo, aos cuidados da família. Durante o período, Pirecco continuou criando. “Muitas pessoas nem sabiam que eu tinha retornado. Eu não podia receber ninguém”. Felizmente, o câncer foi detectado no início, evitando que se espalhasse para outras partes do corpo. Curado e com poucas chances de voltar a ter o linfoma, Pirecco comemora e agradece a cada novo exame como uma vitória. “Isso mudou todos os meus valores. A vida é mais simples e frágil do que parece. Hoje coloco em primeiro lugar a minha saúde e a minha família. Se eu tiver um punhado de tintas também já me considero feliz”. Quer saber mais sobre o artista e conhecer melhor o seu trabalho? www.pirecco.com

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eu pedalo

pedalada cultural *por Naiana Alberti

A Pedalada Cultural é inspirada no projeto Imagina na Copa e suas diversas missões para mudar esse jargão que tem sido o novo slogan dos brasileiros. Afinal, todos os problemas que o cidadão percebe no convívio com a sua cidade logo vêm acompanhado da frase: se agora é assim, imagina na copa. Para mudar isso, um grupo de quatro sonhadores criou um plano de mobilização que busca promover uma virada para o Brasil até 2014, mostrando para as pessoas que elas têm o poder de construir um país melhor, despertando em cada uma delas o seu potencial de transformação. Uma dessas ações é o Leve Este Livro, que consiste em escolher um livro que tenha marcado a sua vida e que, nos últimos tempos, esteja fora de uso. Depois, é anexado a ele um marcador de página explicando a missão. Por fim, ele é propositalmente esquecido em um banco de ônibus, numa mesa de café ou numa praça para que outros potenciais leitores o encontrem, o leiam e o passem adiante, criando uma corrente de transmissão de boas e inspiradoras histórias. A nossa contribuição foi tornar essa missão coletiva, unindo as pessoas através de um passeio 34

de bike pelas ruas, entrando em sintonia com a nossa cidade, percorrendo as principais praças, desfrutando das sombras pelo caminho, da visão das flores de jacarandá caídas pelas avenidas, do vento em contato com a pele e, principalmente, gerando uma conexão entre as pessoas através da pedalada e da leitura. Esse projeto, como um todo, faz parte de uma ação coletiva das escolas que ensinam o Método DeRose, Rio Branco e Bela Vista, inspirada na missão Leve Este Livro. Num domingo ensolarado, professores e alunos saíram de bike e plantaram boas histórias por aí. Para nós, essa é uma forma simples de disseminar a cultura. O próximo passo é envolver mais pessoas, encontrando parcerias que tenham interesse em promover a cultura e que considerem a bike uma ferramenta de mudança para que a nossa cidade se transforme num lugar melhor para se viver. Afinal, acreditamos que a leitura e a bicicleta são meios para nos levar ainda mais longe.

*Professora do Método DeRose, ensina um estilo de vida que desenvolve as capacidades inatas do ser humano.


CrĂŠdito: Arquivo Pessoal

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Oi, verão! Em tempos de horário de verão, rola aquela vontade de ficar na rua até mais tarde. Nada mais gostoso do que pedalar na companhia do sol.

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fotos Deb Dorneles

www.portoalegrecyclechic.com

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Invasão de fixas Dezenas de ciclistas de diferentes estados se encontraram em São Paulo, dos dias 13 a 16 de novembro, para as Fixolimpíadas. Os fixeiros, como são chamados os que pedalam o modelo de bike fixa, participaram de diversas provas, mas o objetivo principal foi celebrar e divulgar a cultura da bicicleta. As fotos são da Rachel Schein.

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cicloviagem

Quando o caminho é mais importante do que o destino por Lívia Araújo

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Crédito: Helton Moraes


Prática ainda não consolidada no Brasil, mas clássica em países como a Alemanha, França, e até no vizinho Uruguai, o cicloturismo está angariando cada vez mais adeptos, para quem as pedaladas urbanas e as trilhas de mountain bike não têm sido mais suficientes. Tanto em busca da superação de desafios quanto de um ritmo diferente na descoberta de novas paisagens e lugares, viajar de bicicleta envolve muito menos gastos financeiros do que o mesmo trajeto de carro, ônibus ou avião. “É um jeito descomplicado de viajar, com um ritmo próprio, mais lento e humano. A bicicleta dá tempo de descobrir as pessoas, os detalhes e abre portas, no contato com os locais, que não seriam abertas de outra maneira”, explica a jornalista Verônica Mambrini. Ela acumula na bagagem trajetos como o Sul de Minas Gerais e o trecho Rio-Santos da BR 116, uma das estradas litorâneas mais belas do Brasil. Uma das principais diferenças das cicloviagens para aquelas tradicionais, de carro ou avião, “otimizadas” no quesito tempo e velocidade, refere-se à perspectiva. O que justamente parece desvantagem é, na verdade, um ganho, pois o turista enxerga paisagens e detalhes que costumam passar despercebidos.

“A gente vê as coisas numa escala diferente. Já passei por uma serra, de carro, achando que seria legal passar por ali de bicicleta e, ao pedalar, enfrentei quase duas horas de subida”, conta Helton Moraes, designer de softwares que já viajou 5.000 quilômetros em 90 dias, saindo do Rio Grande do Sul até a Serra da Canastra, em Minas Gerais. Segundo ele, a extensa viagem proporcionou um aprendizado sobre simplicidade. “A gente acha que precisa de muita coisa para se sentir confortável, mas, em meio ao cansaço do esforço físico, um bom chuveiro, uma jantinha e uma cama confortável é que são essenciais. A gente esquece de ver TV ou acessar internet”, diz. Durante a viagem, Helton ficou hospedado em pequenos hotéis e pousadas, mas principalmente em casas de amigos e conhecidos — inclusive dos fóruns sobre cicloturismo dos quais participa na internet. Ele salienta a importância do contato humano que tal vivência proporciona, o que também é ponto crucial para Verônica. “Alguns dizem que é perigoso, por estar mais vulnerável do que de outras maneiras. Eu vejo isso como uma vantagem: de bike, você se torna poroso, permeável ao mundo e capaz de deixar marcas positivas”, defende. 41


Willian Cruz e amigos na Serra do Corvo Branco, em Santa Catarina

Fotos: Arquivo pessoal

Willian encarando uma estrada de terra no interior de Alagoas

O prazer da superação É quase unanimidade, entre os cicloturistas, que viajar de bicicleta leva o corpo a conhecer limites desconhecidos e superálos. É também assim para a administradora Livia Biasotto, que desde 2012 faz viagens pontuais. “Viajando, descobri que não há limite de espaço – o corpo pode nos levar a qualquer lugar, desde que haja um mínimo de disciplina e elementos como uma boa alimentação”, garante. Para Verônica, essa é uma experiência de liberdade e autonomia. “Viajar de bike tem uma leveza intrínseca que nenhuma outra 42

forma de viagem tem para mim”, descreve. “Fazer seu próprio caminho, poder parar para descansar ou apreciar a paisagem a hora que quiser, o companheirismo de viajar com alguém ou a introspecção criativa de viajar sozinha, tudo isso é um ganho único”, diz. O prazer da viagem é tamanho que Verônica já tem os próximos destinos programados: as Missões gaúchas e argentinas, o sertão mineiro e a Chapada Diamantina. “Fora do Brasil, gostaria de ir para a Patagônia, que é extremamente amigável para os cicloviajantes e com um cenário mais lindo que o outro”, revela.


Helton Moraes durante a viagem até a Serra da Canastra

Verônica acumula na bagagem trajetos como o Sul de Minas Gerais e o trecho Rio-Santos da BR 116, uma das estradas litorâneas mais belas do Brasil.

Caminhos e destinos É importante salientar que a bicicleta não precisa ser o único meio de transporte da cicloviagem. É possível, em muitos casos, levar a bicicleta de ônibus ou avião até determinado local e seguir pedalando, ou vice-versa. Foi dessa maneira que Livia, que mora em Porto Alegre, saiu de Curitiba e desceu a Serra da Graciosa rumo ao litoral para conhecer as ilhas de Superagui, na costa paranaense, e do Cardoso, já no estado de São Paulo. Uma das viagens favoritas de Willian Cruz, editor do blog Vá de Bike (vadebike.org), foi entre os municípios de Maragogi e Maceió, em

Alagoas, num percurso de 100 quilômetros feito quase totalmente nas praias. “Eu e meu amigo até cruzamos rio com a bicicleta em cima de um barquinho, em um lugar onde carro não passaria”, conta. No caso de Helton, o fascínio ficou por conta da BR 476, que liga Curitiba ao Vale do Ribeira, em São Paulo, o passa pelos municípios de Tunas do Paraná, Adrianópolis e Apiaí e também pelo PETAR, Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira. “Aqui no Rio Grande do Sul, a região próxima a Rolante, Riozinho, Maquiné e Osório concentra uma rica paisagem natural e estradas ótimas”, recomenda. 43


No interior de Santa Catarina, Willian encontrou essa ponte

Fotos: Arquivo pessoal

Furar pneu é contratempo comum em viagens longas

Estimulando a economia Casal de cicloviajantes com vasta quilometragem, os norte-americanos Russ Roca e Laura Crawford (www. pathlesspedaled.com) defendem a ideia de que o cicloturismo pode salvar as pequenas cidades. Com um trajeto que leva mais tempo a ser completado, a tendência é fazer mais refeições, pernoites e paradas, o que estimula a economia local em segmentos como agricultura familiar, campings e pousadas. No Brasil não é diferente, mas, na opinião de Willian Cruz, editor do blog Vá de Bike, 44

a prática não conta com incentivos e estímulos e enfrenta entraves burocráticos e a falta de uma maior cultura da bicicleta. “Existe a recusa de muitas empresas de ônibus para transportar a bicicleta no bagageiro, mesmo havendo espaço”, explica. Além disso, em muitas rodovias os motoristas não aceitam a bicicleta, principalmente onde não há acostamento. No vizinho Uruguai é comum encontrar ciclistas na estrada, onde as condições são boas e o trânsito é menos hostil.


para quem vai

- Ter conhecimento básico de mecânica para emergências, ou viajar com alguém que o tenha; - Já ter feito, de alguma forma, uma distância comparável à que se quer viajar; - Conversar com outros ciclistas que já viajaram de bicicleta; - Se a viagem durar vários dias, planeje pausas para repor as energias; - Seja minimalista com a bagagem: na bicicleta, tudo pesa e ocupa espaço; - Prefira carregar seus pertences em alforjes, evitando levar peso nas costas; - Leve bastante água, um pouco de comida, ferramentas, câmara de ar reserva, protetor solar e sacos plásticos. - Certifique-se de que sua bicicleta está bem regulada, especialmente os freios, e se é adequada ao terreno (asfalto, terra, etc) a ser percorrido; - É possível viajar sozinho ou com companhia, mas é viajando que a gente descobre afinidades e incompatibilidades. É importante ter sintonia com os parceiros de viagem. 45


Fotos Lina Colnaghi

Primeiros pedais por Lina Colnaghi Adultos provam que é possível aprender a andar de bicicleta mais tarde e descrevem a sensação única de estar sobre duas rodas

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Dizem que ninguém esquece como andar de bicicleta. O ditado funciona para quem aprende na infância e também para quem deixou para dar as primeiras pedaladas mais tarde. Prova disso é a história de Cristiana Quadros, professora e voluntária na Bici Escola, projeto que já ensinou aproximadamente 300 pessoas a pedalar em Porto Alegre, desde janeiro de 2013. Ela foi aluna da segunda turma, em março, com 29 anos. “Em 2007, quando tinha 24 anos, eu fui à praia com um grupo de amigos e todos foram até a beira de bicicleta, menos eu. Disse para o meu namorado que queria aprender a pedalar antes dos 25, mas não consegui”, conta. Naquele final de semana ela fez algumas tentativas. “Pedalava,

olhava para trás e pedia que ele não me soltasse nem se afastasse”, conta, divertindo-se com as lembranças. O medo acabou dominando Cristiana, e ela estabeleceu, então, uma nova meta: aprender antes dos 30. Em setembro de 2012 veio o empurrãozinho que faltava. O namorado, com quem tem uma relação de sete anos, preparou uma surpresa. Ao chegar em casa, a professora foi surpreendida com uma bicicleta no meio da sala e uma cartinha assinada pelo Papai Noel. “Ele brincou que eu devia aprender a andar antes de o mundo acabar. Todo mundo estava falando no dia 21 de dezembro de 2012”, conta. Foi aí que descobriu a Bici Escola, inscreveu-se em uma turma e foi acompanhada da irmã, de 33 anos, que também não sabia andar de bici. 47


“Pedalei logo na primeira aula. Tinha incentivo dos voluntários, dos colegas, todos estavam ali com o mesmo propósito”, afirma. Hoje ela é voluntária e está todos os domingos pela manhã no Velódromo do Parque Marinha do Brasil ajudando na organização das aulas. Maitê Vallejos também descobriu o prazer de andar de bicicleta mais tarde. Aos 23 anos, ensaiou as primeiras pedaladas com a ajuda do namorado Victor Reimann. “Lembro da minha primeira bicicleta, era bem ‘tipo menininha’, de tons cor-de-cosa e com as rodinhas de apoio atrás. Tenho a 48

lembrança de que gostava muito de andar pelo pátio de casa, mas aí chegou aquela fase de tirar as rodinhas. Tenho flashbacks do meu pai tentando ajudar a me firmar sobre as duas rodas e eu caindo. Até que lembro de não querer mais. Desisti, cansei, desanimei mesmo”, conta a jornalista. O tempo foi passando e Maitê perdeu as contas de quantos convites para passear de bicicleta ela teve de recusar. “No início eu desconversava, dizia que não curtia ou tentava achar desculpas. Depois eu resolvi admitir que não sabia, mesmo tendo vergonha” explica. Em 2013


“Pedalei logo na primeira aula. Tinha incentivo dos voluntários, dos colegas, todos estavam ali com o mesmo propósito” Cristiana Quadros

ONDE APRENDER

ela decidiu que não poderia deixar de aprender e tinha que ser neste ano. Desde julho, Maitê vem sentindo o que tanto queria, o coração acelerado e a inesquecível sensação de vento no rosto. “Desde então, venho resgatando essas sensações e tento entender que motivos me impediram de aprender lá na infância. Chego à conclusão de que não preciso entender. Basta saber que hoje consigo ultrapassar qualquer limite dentro de mim, desde que sinta segurança, confiança e que o verbo ‘querer’ fale mais alto do que tudo”, conta entusiamada.

A Bici Escola do Parque Marinha do Brasil funciona todos os domingos pela manhã, mas é preciso fazer a inscrição e aguardar o chamado. Cada turma tem seis aulas no total. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas pelo e-mail ciupoa@gmail.com, informando nome e idade.

NÃO ESQUEÇA Prefira calças justas e tênis sem cadarços, de sola macia; l Escolha roupas leves; l Use sempre capacete e luvas; l Não esqueça de filtro solar e água. l

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Encarando o sol e o calor Crédito: Kai Schreiber/Creative Commons

Pedalar no verão é muito agradável, principalmente pelos dias mais longos e iluminados. Mas, para quem usa bike como meio de transporte, encarar o sol forte e o calor excessivo é complicado. Seja para um trajeto mais longo ou passeio, estas dicas abaixo podem te ajudar a enfrentar esta estação sobre duas rodas:

A hidratação é fundamental. Procure ingerir água antes, durante e depois da pedalada. Beba aos poucos enquanto estiver pedalando;

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O uso de roupas de cor clara reduz a absorção de calor. Prefira materiais que facilitem a transpiração, como o dryfit;

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Adote o cesto ou o bagageiro para carregar suas coisas. A mochila nas costas faz com que você transpire ainda mais;

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Planeje-se. Tente evitar os horários de sol forte, entre 10h e 16h;

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Use filtro solar e aproveite os intervalos de sombra;

Pedale devagar;

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A alimentação não pode ser pesada nem leve demais. Ingira carboidratos, proteínas e frutas;

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Se no destino não houver chuveiro, leve uma muda de roupa, desodorante e uma toalha pequena. Tomar banho antes de sair de casa ajuda a reduzir o odor ao transpirar.

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Crédito: Sabrina Silveira

20% é lei Depois de recorrer, sem sucesso, da decisão judicial que a obriga a aplicar os valores não investidos em ciclovias e campanhas de educação no trânsito, a Prefeitura de Porto Alegre agora quer driblar a lei de outra forma. O governo municipal tenta passar na Câmara de Vereadores um projeto de lei (PLCE 010/2013) que desobriga o uso dos 20% dos recursos obtidos com a aplicação de multas no plano cicloviário. Além disso, o projeto prevê a criação de um fundo gestor com recursos públicos e também com as contrapartidas oficiais devidas à Prefeitura por entidades privadas. A prefeitura foi condenada, em 26 de agosto,

pelo Tribunal de Justiça do Estado, a aplicar os 20% que constam em lei que regulamenta o Plano Diretor Cicloviário do Município em ciclovias e educação no trânsito, após uma denúncia do Ministério Público de que a lei não estava sendo cumprida. De acordo com a sentença, a prefeitura tem de investir, em até dois anos, os valores que deixaram de ser empregados desde que a lei entrou em vigor, em 14 de outubro de 2009, o que representa um montante de R$ 6,17 milhões. Em 2009 o percentual aplicado pelo Executivo municipal foi de apenas 5,7% do valor arrecadado. Em 2010 e 2011 estes valores ficaram em 8,71% e 8,98%, respectivamente.

CÍCLICAS Cíclicas Mulheres que adoram pedalar têm encontro marcado todo mês. Está de volta o Cíclicas Porto Alegre, que surgiu em fevereiro de 2011. O pedal feminino acontece todo primeiro domingo de cada mês, saindo do Monumento ao Expedicionário, no Parque Farroupilha, em Porto Alegre. Informações na página do facebook Cíclicas Porto Alegre. 52

Crédito: Deb Dorneles


Bikes na Serra Ocorreu, no dia 10 de novembro, o primeiro Bike Festival (foto) em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Cerca de 300 pessoas se reuniram para pedalar, fazer arte e ouvir música. O evento deu força à reivindicação dos ciclistas da cidade por um espaço exclusivo para as magrelas. Será entregue, em breve, ao prefeito Guilherme Pasin, o levantamento técnico para implantação da primeira ciclofaixa na cidade, ligando os bairros Cidade Alta e Planalto, com uma extensão de cerca de cinco quilômetros entre ida e volta. O percurso será liberado aos domingos e feriados e fica pronto ainda em 2013. O prefeito também já anunciou, para o primeiro semestre de 2014, pelo menos mais um trecho exclusivo para ciclistas em dias e horários específicos, que deve contemplar o centro da cidade. Na internet, uma petição cobra a execução do projeto por parte da prefeitura e tenta reunir 3 mil assinaturas.

Crédito: Jornal Design Serra 53


bike shop

LaBuena

Os ciclo bonés da marca porto-alegrense, reversíveis e com estampas variadas, estão disponíveis em três modelos: tradicionais de 3 ou 4 faces (R$ 60,00), e o de inverno (R$ 75,00). À venda no Vulp Bici Café, em Porto Alegre, e no Las Magrelas, em São Paulo. Mais informações: www.facebook.com/ labuenacabeza.

Crédito: Cadu Carvalho

Divulgação

À base de pneu A mochila da Vuelo é confeccionada com câmara de pneu (parte externa) e náilon de guarda-chuva (parte interna). Tem um bolso externo, dois internos — com porta celular e porta-chaves. A capacidade é de 18,3 litros e os metais levam pintura epox eletrostática — mais econômica e cromo free. Custa R$ 298,00 pelo site: www.store.vuelistas.com.

Hip Pouch Pensada para um rolê despretensioso, sem ficar desamparado dos itens básicos. A Hip Pouch da Cyco tem compartimento para u-lock média, bolso interno, tecido externo em nylon 900d resistente à água, um bolso na aba com zíper e outro abaixo da aba, costurado com tela. Cores: vermelha, cinza e preta. Custa R$ 85,00 no site www.cycoland.com, com envio para todo o Brasil. Também está à venda no Vulp. Reprodução 54


Camisetas do bem O desenho abaixo é um dos que estampam camisetas produzidas por uma parceria entre o Coletivo Verde e a Muda. São de tecido 100% orgânico, algodão cultivado sem uso de agrotóxicos e estamparia à base de água livre de metais pesados. São confeccionadas no Projeto Retece, ONG que capacita mulheres em risco e de baixa renda em São Paulo na profissão de costureiras. Valores entre R$ 49,90 e R$ 59,90. À venda em: www. ateondedeuprairdebicicleta.com.br/loja Divulgação

Eu Amo Bike

Reprodução

Um livro que retrata em ensaios fotográficos e textos 50 brasileiros muito diferentes entre si, mas igualmente apaixonados pela bicicleta. São homens e mulheres de todas as idades, origens e estilos de vida, das cinco regiões do país. Custa R$ 29,00 na loja virtual (www.facebook. com/livroeuamobike) e tem a renda revertida para ONGs pró-mobilidade. Editora: MOL

Arte na cabeça O capacete da foto é apenas uma das obras de arte à venda na loja online da Kinoma. A coleção limitada, de modelos exclusivos, é assinada por dez artistas. Cada um custa R$ 180,00, mais o valor do envio. Compre em: www.loja.kinoma.com.br. Crédito: MayraFlamínio 55


conexão

REVOLUÇÃO DAS BICICLETAS por Renata Peppl, de Londres

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Quase todas as manhãs, a cena se repete às margens do rio Tâmisa: com a estupenda Tower Bridge como pano de fundo, um senhor levemente acima do peso, de cabelo desgrenhado, capacete e formalmente trajando terno e gravata, chega montado em sua bicicleta à prefeitura de Londres. Estaciona a bike, tira o capacete, cumprimenta os que estão na entrada do local e segue apressado

prédio adentro, rumo aos afazeres profissionais. O senhor em questão poderia ser qualquer trabalhador londrino, mas é na verdade Boris Johnson, prefeito da capital inglesa, um entusiasta do “bike lifestyle” e responsável por instalar, em 2010, o primeiro sistema de aluguel de magrelas na cidade, patrocinado pelo banco Barclays. Na ocasião do lançamento, Boris afirmou que Londres passaria por uma “revolução das bicicletas”, e que esperava ver, nos próximos anos, mais bikes nas ruas do que os famosos ônibus vermelhos e táxis. Três anos mais tarde, Londres caminha firme rumo à tão falada revolução, mas longe de ser uma referência para ciclistas. As ruas estreitas e o tráfego movimentado do centro, a falta de sinalização e de incentivo para o uso de equipamentos de segurança e o pequeno número de pistas exclusivas tornam andar sobre duas ro-


Crédito: Morebyless/Creative Commons

das um desafio diário. Só no ano de 2012, cerca de 20 mil ciclistas sofreram algum tipo de acidente no perímetro urbano. É comum ler notícias de mortes no trânsito, e o sistema de aluguel de bikes proposto por Boris foi amplamente criticado pela mídia, principalmente pelo alto custo de manutenção. Mas nem tudo são notícias desanimadoras. A cidade teve seu ápice de ciclistas durante os jogos olímpicos de 2012, quando 50 mil pessoas alugaram bikes em um só dia, comprovando que o investimento para que esse meio de transporte ganhasse espaço tem funcionado. Outras 50 mil pessoas compareceram ao Prudential Ride London em agosto deste ano, festival que celebra a segurança para ciclistas locais. Londres oferece dezenas de tours ciclísticos para visitantes e moradores, como o Street Art Bike Tour — passeio que contempla a cena de arte urbana do leste lon-

drino – até tours longos que se estendem até Paris (basta ter disposição!). Todo dia abre um novo bici café – o mais charmoso é o Look Mum, No hands! – sempre cheio de apaixonados pelas magrelas. E há ainda opções divertidas como o pedibus, uma espécie de bicicleta coletiva na qual você pode levar outros oito amigos seus para pedalar na cidade. E o melhor: a prefeitura não faz vista grossa para as dificuldades enfrentadas pelos bike riders. Até 2014, foi anunciado um investimento de um bilhão de libras em ciclovias, sinalizações, capacitações para ciclistas, campanhas de conscientização para os que dirigem e uma linha de metrô só para quem usa bike, ligando as principais ciclovias. O objetivo é se aproximar da qualidade e segurança oferecidas por Copenhague – cidade referência no assunto, onde 55% da população usa bicicleta como meio de transporte. A gente agradece. 57


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