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emoções

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L

EDITORIA


Emoção. Esse é o tema da edição de lançamento da revista Sopro. Tema que não apenas pontuou o conteúdo da publicação, mas que nos moveu a fazê-la. Foi pela vontade de ver a moda e o design por outro ângulo, de dar espaço e oportunidade para uma cadeia de profissionais envolvidos nesse mercado, que investimos tempo e energia neste projeto.

Nesta edição, temos colunas de gastronomia, moda e cinema; seção de ilustração e fotografia; matéria sobre o movimento gastronômico comfort food; entrevista com a estilista Fernanda Yamamoto; e, claro, dois editoriais de moda, feitos com duas equipes diferentes. Esperamos que vocês gostem da nossa proposta.

Sopre com a gente essa ideia.


um impulso que move um organismo para a ação


10 34 44 Nu

Entrevista - Fernanda Yamamoto

Na mesa, aromas, sabores e lembranças

8 Por dentro

Roupas e afetos

Posso gostar de vocĂŞ?

6 Moldura

O arrepio de uma mente

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Edição 01 Junho de 2010 Belém - Pará

Retrato

Tomates & batatas

Revista Sopro

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Edição: Isaac Lôbo Coordenação editorial: Yorrana Maia Direção de Moda: Graziela Ribeiro Direção de Criação: Klébeson Moura Direção de Fotografia: Mari Chiba Direção de Arte - Maécio Monteiro Revisão - Paulo Xavier Web Master - Rafael Guerra Apoio: Avisi Comunicação

Fone: + 55 91 8119 5255 E-mail: contato@revistasopro.com www.revistasopro.blogspot.com www.twitter.com/revistasopro www.issuu.com/revistasopro

www.revistasopro.com


Juliana Oliveira

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Como você reagiria a uma pergunta dessas? Não vinda de um paquera, de um conhecido próximo, mas partida de alguém que não tem muito contato com você ou, até mesmo, de um completo desconhecido. Algumas vezes fico tentada a fazer essa pergunta. Como seria se as pessoas só pudessem gostar umas das outras com autorização? Quantos dissabores, quantas frustrações não seriam poupadas? Mas também quantas surpresas e devaneios não seriam desperdiçados?

?

Pessoas passam por Um dia descubro quem achou que era dispen- nós e deixam pedaços sável às pessoas nascerem com um roteiro da invisíveis de vida. Isso vida. é assustador,

mas também é bonito. O Juliana Oliveira é jornalista, formada pela Universidade Federal do Pará. Atualmente trabalha com consultoria em marketing e campanhas eleitorais na web, dividindo-se entre Brasília (DF) e Palmas (TO). Futura representante do Clube do Nadismo e aspirante a escritora de livros infanto-juvenis.

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N

a construção narrativa da moda, as roupas vêm acompanhadas de histórias; modos subjetivos, que serão vestidos por nossos corpos, e necessidades de se expressar, que nascem da realidade em volta do criador.

Somos, então, exploradores de mundos, de roupas e de afetos. Para os muitos que pensam que essa discussão é fútil, só posso dizer que estão muito enganados. A questão é muito mais de corpos, afetos e movimento do que apenas de tecidos e vestidos. A roupa é nossa segunda pele. Recebe nosso cheiro, nossas marcas, nossas histórias e afeta nossas vidas e nossas relações com os outros. O vestir é um espaço íntimo, em que experimentamos nosso modo de existir e de interagir com o mundo social. Portanto, coisas e roupas são registros tangíveis do nosso passado, presente e do que nos tornaremos no futuro.

Roupas e afetos

Por outro lado, que mundos são esses desenhados e escritos pelos criadores? O que somos capazes de ver e dizer? De onde surgem essas histórias que serão vestidas?

Yorrana Maia

Ao ler, outro dia, Cartas a um jovem poeta, de Rainer Marie Rilke, entendi

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MOD

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fé em qualquer beleza – relate tudo com íntima e humilde sinceridade. Utilize para se exprimir as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos, e os objetos de suas lembranças.” É preciso atravessar questionamentos, descobertas,

estranhar, emocionar-se e compreender que o caminho é realmente tão importante quanto o resultado. Isso garante paixão e autenticidade para as nossas criações.

O

com muita clareza essa perturbação que gera o movimento da criação. Sou mesmo forçado a criar? Caso seja, é da necessidade de dizer algo que surgirão roupas, narrativas. Um impulso que gera ação. Emoção. E de um poeta para um jovem poeta, segue o sábio conselho: “(..) relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua

Yorrana Maia é bacharel em Design pela Universidade do Estado do Pará e pós-graduada em Moda e Criação pela Faculdade Santa Marcelina. Atualmente é professora do curso de Bacharelado em Moda da Universidade da Amazônia. Tem experiência na área de desenho industrial, com ênfase em moda, atuando principalmente em processo de criação, pesquisa em moda e desenvolvimento de coleção.

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Por dentro

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Experimentei devaneios e guardei em mim. Com os olhos fechados, reencontrei em um sonho as emoçþes de outrora. Com os olhos fechados, retornei e respirei os mesmos ares.


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FICHA TÉCNICA Produção de Moda Mariana Melo Fotografia Alan Soares e Shamara Fragoso Beleza Graziela Ribeiro Modelos Marcela Lima e Carlos Vera Cruz Marcas Graziela Ribeiro, Yorrana Maia, Maison Juliana Pina, Quiquiriqui Natália Viana

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Uma empresa com o compromisso de projetar qUalidade e alegria na vida de qUem bUsca viver bem.


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Na mesa, aromas, Na mesa, sabores e aromas, sabores e lembranças lembranças Isaac Lôbo Fotos: Mari Chiba

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V

oo marcado para o início da noite. É preciso chegar mais cedo para fazer o check-in. No aeroporto, uma fila imensa me aguardava. Do final da fila, vi os funcionários da companhia aérea adiantarem o trabalho para despachar as bagagens. Debaixo do braço, não literalmente, passageiros levavam, entre outras malas, lembranças, aromas e sabores, dentro de recipientes próprios para armazenar alimentos. Tinham como destino pessoas que têm saudade dos gostos da terra. Aqueles sabores que os transportam para a cidade natal, para as lembranças que os constituem, para as suas raízes. Também poderiam ser

Tomate seco, castanhado-Pará, jambu, palmito e camarão são alguns dos ingredientes dos salgados, que podem ser acompanhados com pimenta no molho de tucupii

Risoto de frango com tucupi


usados para presentear ou apresentar a cultura própria da região para quem não a conhece, por meio dos alimentos. Garrafas de tucupi - líquido amarelo extraído da mandioca, muito utilizado na culinária típica paraense - ficaram no próprio aeroporto, seguidos de lamentos dos passageiros. “Eu não sabia

que, para embarcar, teria de estar congelado”, retrucou uma senhora. Na fila, diria que quase a metade dos passageiros levava alimentos para familiares, amigos, amores. “Os brasileiros são tão apegados com suas raízes que não se vê em outro lugar tanto despacho de isopor com comilanças, quanto nos aeroportos brasileiros”, garante Cynthia Brasil da Nóbrega, formada em Tecnologia em Gastronomia pelo Centro Universitário Senac. Matar a saudade de casa, por meio da alimentação, é uma prática comum e antiga. Em grandes centros urbanos, é possível encontrar

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““

É a comida que conforta a alma, ligada a nossa história, às experiências em que uma comida nos proporcionou prazer e ficou na lembrança. ” restaurantes de várias nacionalidades e até de culinária específica de Estados, como churrascarias gaúchas e restaurantes paraibanos. Esses espaços não oferecem apenas comida para saciar a fome; eles ofertam lembranças, memórias, raízes. Alimentos para a alma. A comida que evoca lembranças e que desperta emoções prazerosas ganhou força nos Estados Unidos e depois se disseminou para as demais regiões do mundo, revelando um novo conceito gastronômico: o comfort food. “É a comida que conforta a alma, ligada a nossa história, às experiências em que uma comida nos proporcionou prazer e ficou na lembrança. Pode ter uma ligação afetiva com alguém que marcou nossa vida ou alguém que nos deu afeto enquanto nos alimentava. Podem ser pratos muito simples, do dia-a-dia de uma família, carregado de cultura”, explica Elis Cavalcante, dona da empresa de consultoria e treinamentos Ideias e Tendências, sediada em São Paulo. Na área de alimentação há 28 anos, Elis acrescenta que os regionalismos influenciam na escolha dos pratos cheios de memória. “Um prato comfort food para um mineiro

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é diferente de gaúcho”. O movimento comfort food surgiu, revela Cavalcante, como forma de resgatar um tipo de comida mais simples, caseira, com ingredientes frescos e de fácil preparo, sem grandes segredos. É a panela para raspar com o resto de brigadeiro (com disputa pela colher de pau), o bolinho de chuva no fim da tarde, o tempero especial e único da casa da vovó – o sabor dos almoços de domingo. “Os botecos

que servem um bom PF (prato feito) e as cantinas italianas, por exemplo, fazem comfort food. Tudo depende do público e de seus hábitos”, enfatiza, acrescentando que, no Brasil, há dificuldade de consolidação do conceito, já que boa parte da população se mantém próxima da comida com gostinho da que é feita em casa, mesmo nas grandes cidades. É difícil se distanciar do tradicional feijão com arroz.


Na capital paraense – Tucupi, maniva,

açaí, jambu e pupunha são alguns dos elementos que marcam a culinária e o paladar dos paraenses; aqueles que têm cara, cheiro e saber da terra. Em Belém, capital do Pará, um lugar chama atenção, no bairro da Cidade Velha, centro histórico de Belém, não só pela área em que foi instalado, mas também pelas combinações desenvolvidas de ingredientes. A Portinha (espaço que realmente só tem uma porta e espaço interno, portanto, bem pequeno para um balcão e uma mesa) oferece pratos regionais, como maniçoba e tacacá, e receitas próprias com ingredientes que trazem consigo um Com o espaço reduzido da Portinha, é preciso comer do lado de fora

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Lugar pequeno e aconchegante


apelo emotivo a quem os consome. “A mistura desses ingredientes é o diferencial. Temos a esfirra de pato, os docinhos de bacuri com flocos e o pastelzinho de cupuaçu (esta última guloseima já foi até para o Japão)”, revela Manoel Domingues Henriques Júnior, proprietário da Portinha, falando sobre o fato de matar saudade da cidade natal por meio dos alimentos. Para apurar receitas e chegar a um resultado que agrade os clientes,

Júnior acumula segredos desde a infância. “Minha mãe sempre cozinhou em casa. Hoje, eu faço para vender na Portinha o bolo que eu comia quando eu era moleque. E agora estou com 45 anos”, conta, completando que, para ele, são os bolos que provocam uma sensação de aconchego.

que o bolo de chocolate da mãe é o sabor mais marcante. “Há vários cheiros e sabores que lembram a minha infância. O cheiro do bolo e do café dela, apesar de eu não gostar muito de café, consegue me transportar no tempo”, afirma ela.

São também os bolos que marcam a memória gustativa da estudante de jornalismo Catarina Barbosa. Hoje, com 25 anos, ela conta

A referência de Júnior na cozinha vem da infância. Segredos que trouxe de casa.

Minha mãe sempre cozinhou em casa. Hoje, eu faço para vender na Portinha o bolo que eu comia quando eu era moleque. E agora estou com 45 anos

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Quando Catarina entra em contato com algum bolo semelhante ao da mãe, a sensação também é de aconchego. “Lembro-me de brincar com a minha irmã e depois a minha mãe anunciar que era a hora de lancharmos. São lembranças muito boas, porque não disponho mais do tempo que eu tinha quando era criança, e o cheiro faz com que eu consiga até ver o rosto da minha mãe”, confessa a estudante.


Comfort fora da mesa Elis

Cynthia

Os salgados, os doces e o risoto das imagens são da Portinha Doce de bacuri com flocos

Elis e Cynthia pontuam a relação entre comida e arte

“Tomates Verdes Fritos” é um filme que, mesmo não focando a gastronomia, usa o prato como elemento para mostrar o sul dos Estados Unidos e a questão racial. Dá vontade de experimentar. Na verdade, os glutões sempre arrumam um motivo para experimentar pratos novos. Me imagino na Festa de Babette (referência ao filme“A Festa de Babette” - Babettes gæstebud, Dinamarca, 1987), experimentando tudo aquilo e me deliciando em ver a mudança na alma das pessoas ao experimentar a riqueza de sabores - um momento único e inesquecível. A Santa Ceia é tudo; alimenta a alma de qualquer cristão, mesmo sendo de pão e vinho. “Ratatouille” (2007) é um filme que, sem dúvida, aborda o comfort food. O prato campesino, que dá nome ao filme, feito por Remy, um rato que quer ser chef de cozinha, despertou sentimentos da infância no crítico gastronômico Anton Ego (um dos vilões da história), capazes de alterar seu humor e comportamento. Além do cinema, existem outras expressões artísticas envolvendo comida, como o Food Design (abrangendo também o aspecto projetual – aquilo que é feito com planejamento, projetado para um determinado fim, seguindo métodos).

O Bolo de chocolate com castanha-do-Pará

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A

ENTREVIST


N

a infância, ela não vestia as bonecas. Na adolescência, não era a estilista das amigas. Foi na intuição que Fernanda Yamamoto escolheu a moda. Um dos destaques do Prêmio Rio Moda Hype, Fernanda criou a própria marca recentemente, em 2008. Neste ano, neste mês de junho, a estilista estreia no São Paulo Fashion Week, com uma coleção inspirada na cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Ela acredita que a visibilidade que o seu trabalho tem hoje é resultado de muita dedicação e estudo.

Fotos: Divulgação

Sopro - Como surgiu a ideia de entrar para o mercado da moda? Fernanda Yamamoto - Foi intuitivo, uma tentativa. A vontade de estudar moda veio mais tarde. Acho que veio

mais com a maturidade e percepção de que era fundamental ter paixão pelo trabalho. Minha história é bem diferente daquela “vestia minhas bonecas e amigas”. Estava insatisfeita profissionalmente; posso dizer até que meio perdida e resolvi repensar a carreira. Intuitivamente resolvi tentar a moda. Comecei alguns cursos e descobri que gostava daquilo.

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O - Como foi o caminho até você criar sua própria marca?

O que fez para se sentir preparada para se lançar no mercado com uma marca que estampa o seu nome?

FY - Também foi intuitivo e aconteceu de maneira natural. Em um momento, achei que seria

importante mostrar um trabalho mais autoral. Comecei a desenvolver algumas peças minhas e resolvi mandar um projeto para o Rio Moda Hype. Eles me selecionaram e daí a marca realmente ganhou força.

O - Como foi a sua estreia como estilista? Qual é a proposta da sua marca? E quem veste Fernanda Yamamoto?

FY - A proposta é oferecer peças especiais a preços justos (os vestidos estão na faixa de

R$ 350). O trabalho é bem delicado, focado em design, na modelagem diferenciada. São mulheres que valorizam design, inteligentes, bem informadas e cansadas da mesmice.

O - Para escolher os temas das suas coleções, você leva

em consideração o público a quem a sua marca se destina? Ou o tema é aleatório, de acordo com a sua vontade e percepção, e, de posse dele, é que você o ajusta ao estilo do seu público?

FY - Os temas surgem espontaneamente. Na verdade, a inspiração pode vir de qualquer

lugar, mas no final o que acontece é que, independentemente do tema, a coleção acaba tendo sempre um DNA da marca.

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O - Como pode ser classificado ou conceituado esse

DNA? Esse DNA seria o seu DNA? Aquelas características pessoais e subjetivas do estilista?

FY - Acredito que o trabalho de um estilista é reflexo, de certa forma, de sua personali-

dade. Pode não ser algo consciente, mas inevitavelmente, se o trabalho é verdadeiro, ele reflete os desejos, vontades do criador em determinado momento.

O - É visível que suas peças são carregadas de técnica, nas formas, nas dobras, na escolha dos materiais. Como essa edição da revista traz como tema as emoções, gostaria de saber se há uma carga emotiva nas suas criações.

FY - Todas as coleções têm uma carga emotiva;

algumas em um grau maior ou menor. Por exemplo, na coleção verão 2009 (sobre o centenário da imigração japonesa no Brasil), me inspirei em uma foto do casamento dos meus bisavós no Japão. De alguma forma, foi uma maneira que encontrei de homenagear meus antepassados, de resgatar a cultura japonesa e a família da qual eu descendo.


O - Você tem formas, peças de roupa, teciFoto: Bira Soares

dos favoritos? Aquilo que sempre tem em uma coleção sua.

FY - Eu trabalho bastante as formas de origami,

as dobraduras nos tecidos. Um tecido que sempre uso em todas as coleções é a tricoline de camisaria.

O - E o seu processo de criação? Tema,

pesquisa de materiais, cartela de cores? E como é produzida a sua coleção? Ateliê próprio? Você participa de todas as etapas?

FY - Sempre tem um ponto de partida, um desejo,

uma imagem, algo que me interessa no momento. Meu processo de criação é bastante técnico. De experimentação, fazer moulages, descobrir formas novas, texturas novas. Envolve bastante pesquisa, e muito trabalho. É 99% transpiração, 1% inspiração. E eu terceirizo toda a minha produção. Tenho uma equipe bem reduzida de três pessoas.

As pessoas têm uma percepção errada do que é “fazer moda” 49


O - E como foi o passo para abrir a loja? Qual é a proposta? O que uma marca precisa ter para fazer parte desse projeto?

FY - A loja veio de uma vontade de mostrar as minhas criações da maneira que desejava. Muito mais do que isso:

oferecer um espaço a novos estilistas, talentosos e que muitas vezes não tinham oportunidade de mostrar os seus trabalhos. A proposta é que cada marca tenha o seu espaço, e mostre o melhor do seu trabalho. Para fazer parte do projeto FY Convida, a marca precisa ter um trabalho autoral forte com viabilidade comercial. Também tem que ser extremamente profissional e comprometida.

O - A que você atribui a sua visibilidade em tão pouco tempo de criação da marca?

FY - A marca foi criada há pouco tempo, mas há oito

anos venho estudando e batalhando por isso. As pessoas têm uma percepção errada do que é “fazer moda”. A inspiração não cai do céu e começamos a criar coisas maravilhosas. É muito trabalho por trás e, hoje em dia, eu posso dizer que dedico menos de 10% do tempo à criação.

O - Aqui em Belém, há várias marcas surgindo, com propostas interes-

santes. Qual é a dica que você dá para esses estilistas e designers iniciantes? O que é preciso fazer na prática?

FY -

Muita dedicação. Para se dar bem, tem que ser “nerd” mesmo. É um trabalho de formiguinha, de acordar cedo todos os dias e trabalhar muito. Também é importante perceber que ter uma marca é muito mais do que desenhar ou criar bem. É preciso entender de gestão, seguir à risca prazos e compromissos. Enfim, é ser empresário e criador ao mesmo tempo, o que é o grande desafio de quem está começando.

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O - Você lança quantas coleções por ano? Um média de peças? Depois disso, continua produzindo para a loja? De quanto em quanto tempo há novidade na loja?

FY - São em principio duas coleções (primavera-

verão e outono-inverno), mas, na verdade, tem sempre novidade na loja. E eu acabo reeditando alguns modelos com tecidos diferentes. São uns 30, 40 modelos por coleção, com variantes de cor e tecido.

O

linha do TEMPO 2001

Formação em administração de empresas na FGV- SP

2003

2004

Início dos estudos em moda na FAAP-SP

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Foi para Nova Iorque estudar moda. “Decidi me aprofundar, porque achei os cursos no Brasil bem fracos”

2006 De volta ao Brasil, trabalhou no Alexandre Herchcovitch


2007 Início da pós-graduação em Direção de Criação em Moda. “Conheci o Jum Nakao. Comecei a fazer alguns trabalhos com ele e também comecei a fazer algumas coisas minhas”

2008 Entrou no Rio Moda Hype, começou a desfilar e a marca a se desenvolver

2009 Inauguração da loja

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2010 Estreia no São Paulo Fashion Week, edição verão 2010 / 2011


porâneo chegou aos 74 anos no último dezembro com muito vigor e a sofisticação que lhe é peculiar. Com filme no prelo – com a francesa Marion Cotillard e uma participação especial da primeira-dama francesa, Carla Bruni –, Woody Allen sempre representou, para mim, um diretor cuja verborragia apenas disfarça a sensibilidade que se esconde por trás de uma alma terna, embora irriquieta. Woody Allen

O arrepio de uma mente Fotos: Divulgação

Woody Allen e a emoção que está nas entrelinhas Luiz Carlos Santos

E

le poderia ser, para muita gente, o oposto de tudo que remete à emoção. Com a racionalidade como principal marca, o intelectual mais adorável, neurótico e brilhante do cinema contem-

A

PASSAGEM DO CINEM

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Por isso, quando a Sopro gentilmente me convidou para escrever sobre cinema e emoção, essa dicotomia aparentemente simples de ser feita, eu não poderia ser mais cerebral ao escolher como tema essa personalidade polêmica e adorável. Allan Stewart Königsberg nasceu no Brooklin, Nova York, em 1º de dezembro de 1935. Menino precoce, aos 15 anos já escrevia para jornais e programas de rádio. Adotou aos


17 o pseudônimo pelo qual ficaria celebrizado. Na época, já frequentava a universidade de Nova York, mas nunca chegou a se formar, pois foi expulso em seis meses. O tempo foi suficiente para que ele pudesse se embrenhar no estudo da mitologia grega e dos filósofos alemães, figuras recorrentes em sua obra. Woody Allen estreou no cinema como diretor e ator em 1965, com “O que é que há, gatinha?”, um ano depois de ter sido indicado ao Grammy com um disco em que gravara alguns de seus shows como comediante. A estreia como roteirista aconteceu em 1969, com o pastelão “Um assaltante bem trapalhão”, comédia anárquica cheia das primeiras referências de Allen em cinema, os irmãos Marx.

Annie Hall - Emoção e razão se misturam nessa comédia, uma obra-prima absoluta do mestre novaiorquino

A primeira fase da comédia de Woody Allen, à qual recorro constantemente, continuou por uma década e inclui momentos inspirados como “Bananas” (1971), “O dorminhoco” (1973) e o hilário “A última noite de Boris Gushenko” (1975). Em 1977, ele dirigiu sua primeira de tantas obras-primas e por muitos considerada seu maior filme, “Noivo neurótico, noiva nervosa”, ou simplesmente “Annie Hall”. Um quadro de extrema beleza e muita sagacidade, permeado por um verniz complexo para, no fundo, falar de uma história de amor. Invertendo as convenções, e criando um realismo que impactou na época e causou revolução no cinema, o diretor dá-nos um presente, uma crônica sobre uma cidade, uma mulher e si mesmo.


É com “Annie Hall” que Woody Allen, já experiente, estabelece o que viria ser a marca central de seu trabalho: a dosagem, na medida certa, entre o riso espontâneo causado pelo absurdo e a emoção motivada por uma bela história de amor. Cínico, o cineasta desenha uma série de situações para revelar seu lado mais doce, mais humano e natural, até mesmo vulnerável, como são os apaixonados. Estão lá os principais subtemas recorrentes de sua obra: as referências à infância, ao judaísmo, à infidelidade nas relações, aos livros, à insegurança, a Nova York... A beleza se traduz em diálogos, muitos, e também em cenas lindamente fotografadas. Era o começo da carreira de um artista que se tornou mestre em transportar para celulóide os mais singelos e emocionantes sentimentos presentes nos relacionamentos humanos, sempre com extrema competência. O filme marca também o fascínio que a atriz Diane Keaton exercia sobre ele. Essa é, aliás, outra de suas características: apaixonado por suas musas, não raro o mestre se envolvia afetivamente com elas na vida real.

Match Point - Allen volta a acertar depois de anos com uma obra-prima de tirar o fôlego

Foi assim de Keaton até Mia Farrow, seu relacionamento mais duradouro fora (e dentro) das telas, que lhe rendeu, em 13 anos, três filhos, dois deles adotados. O casamento com a atriz – que nunca chegou a ser oficializado – produziu outras obrasprimas e um escândalo, em 1997, quando Allen assumiu um romance com Soon Yi Previn, filha adoHannah e suas irmãs - Genialidade e um toque de muita delicadeza para falar das relações

tiva de Mia com o músico André Previn. A relação com a coreana, que é 35 anos mais nova, dura até hoje, num estilo de vida peculiar: eles vivem em casas separadas. Além disso, adotaram dois filhos.


roteiro original. Faltou à cerimônia em que foi laureado pela primeira vez porque preferiu tocar clarinete em sua banda. A premiação acontecia justamente numa segunda-feira, dia de tocar jazz com os amigos... Na outra vez em que venceu, pela obra-prima “Hannah e suas irmãs” (1987), também não foi. Acendeu a ira da toda poderosa Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas nunca deixou de ser lembrado com nominações. Sua primeira e última aparição na cerimônia foi em 2002, quando quis homenagear sua cidade natal após os atentados de 11 de setembro, em Nova York, cenário principal de suas histórias.

De Bergman a Chekhov, uma aventura pela psique humana Entre os grandes ídolos de Woody Allen estão Groucho Marx, Federico Fellini, Ingmar Bergman, Cole Porter e Anton Chekhov. Sempre que pode, faz referências ao estilo ou à personalidade deles em seus filmes. Outra paixão é o jazz. Toca até hoje, semanalmente, na banda The Bunker Project. Seus filmes são recheados das mais célebres canções produzidas no gênero. O diretor também é escritor. Já publicou cinco livros de ficção, todos de grande sucesso. Essa miscelânea compõe uma filmografia de mais de 40 filmes, em pouco mais de 40 anos de carreira, o que estabelece a impressionante marca de um filme por ano. Woody Allen já ganhou dois Oscar e foi indicado outras 22 vezes, detendo o recorde de indicações a

Woody Allen tem tantas manias esquisitas quantos seus personagens. Além de ser claustrofóbico, neurótico e hipocondríaco, ele também é obcecado por limpeza, a ponto de tomar banho envolto em um plástico para não se contaminar com os germes. Extremamente organizado, o diretor faz o possível para impedir que o cachorro da família se aproxime dele, marca da infância cheia de privações. “Quando eu era pequeno, queria ter um cachorro, mas meus pais eram pobres e só puderam comprar-me uma formiga.” A maior referência de humor de Allen são os irmãos Marx. Ele despreza os pastelões, tanto que declarou a célebre frase: “Ao contrário de Fellini, nunca gostei de palhaços”. Suas maiores gags, assim, são referências autobiográficas, que remetem à infância judia e à família dominadora e fracassada financeiramente, temas que ecoam na obra do diretor. Junte-se a isso um fascínio incontrolável por Bergman, o mestre das sombras, e temos um resultado incomum, embora agradável aos sentidos. Não raramente, críticos acusam o diretor americano de copiar o mestre sueco. Bobagem. Dono

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de um estilo próprio, o cineasta usa as lições para fazer, de uma maneira peculiar e honrosa, a expressão de sentimentos, ainda que entre gritos e sussurros. Emoção, assim, está nos filmes de Woody Allen como o drama está na obra de Chaplin: não é uma coisa explícita, norteadora, mas é essencial. Arrisco-me a dizer que as cenas mais emo-

cionantes do diretor que criou “Match Point” (2005) são aquelas em que o coração se sobrepõe à racionalidade. Como não se arrepiar com os finais de “Noivo neurótico...”, “Rosa púrpura do Cairo” (1985) e “Crimes e pecados” (1989), que pegam o espectador de assalto com simplicidade e pureza? Do fim dos anos 1990 até a metade dos anos

2000, o diretor vive o período mais fraco de sua carreira no cinema, lançando filmes abaixo de sua habitual qualidade, embora, ainda assim, dignos de conferir. A retomada viria com o já citado “Match Point”, uma obra-prima vigorosa e atípica na filmografia alleniana, sempre marcada por comédias e dramas. Explorando um gênero que lhe era novo até então, o diretor entrega um filme impecável, com reviravoltas surpreendentes e planos de encher os olhos. Com total domínio da linguagem, ele usa maneirismos que ficariam clichês e faz deles instrumentos de construção visual para uma película que parece não precisar de qualquer ajuste. É um de seus melhores filmes dos últimos anos. Um bufão da psique humana que traduz com humor e poesia os dramas mais comuns do homem moderno, Al-

Vicky Cristina Barcelona - Allen envereda na latinidade e entrega uma obra cheia de calor e paixão


Manhattan - Uma obra de arte cheia de poesia que traduz a paixão do cineasta pela sua cidade natal

len, por ele mesmo, é melhor para conhecer vendo seus filmes: “As pessoas sempre se enganam em duas coisas sobre mim: pensam que sou um intelectual, porque uso óculos, e que sou um artista, porque meus filmes sempre perdem dinheiro”. Hoje mais cosmopolita – suas últimas incursões foram por diversas cidades da Europa –, o diretor pode até filmar no Brasil. O Rio de Janeiro seria o cenário para um de seus filmes. Seja como for, Nova York é a sua cidade, e sempre será.

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Luiz Carlos Santos é jornalista. Editor de educação e saúde do jornal O Liberal, atua como freelancer e colaborador para revistas locais de cultura e variedades. Mantém o blog de cinema A memória de Shelby, com impressões sobre a sétima arte.

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NU

n達o me olhe com intelecto 60


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Sem me catalogar 62


Nem classificar 64


Gente, bicho, objeto


Perceba com teu olho nu 68


No meu corpo nu, direto


Meu encanto, seu espanto, meu dialeto


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Nu vazio da tua vis達o


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Mil formas de camale達o projeto


Sou arte, não inspiro definição,


Imaginação, meu errado, meu certo Texto: Paulo Xavier

Fotografia - Kelly Pozzebom Produção de Moda - Sam Tavares Make up - Jonh Kintarus Modelos - Cleice Maciel, Diogo Carneiro, Karllana Cordovil Marcas - Maria Belém, Só Maria, Emiliah, Loja Dana Berger Agradecimentos - Escola de Música da UFPA

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MOLDUR

- Casso

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MOLDUR

- Jeyson Martins

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MOLDUR

- MaĂŠcio Monteiro

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MOLDUR

- Dex

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MOLDUR

- Livando Malcher

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- Leandro Beender

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MOLDUR

- Lucas Gouvea

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MOLDUR

- Suzana Xavier

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um bolo de aniversário diferente para alguém que ama maçãs!

Lorena Filgueiras

Não se deixe enganar!

Mesmo quando seu médico disser que é uma “cirurgia pequena, a recuperação será super rápida”, não comemore antes do tempo. Quando a cirurgia para tirar minha vesícula foi autorizada, meu médico favorito (e único) falou essas palavras. A operação foi um sucesso, passei um único dia internada e, na manhã seguinte, recebi alta. Brincadeiras à parte, todo procedimento cirúrgico tem seus riscos e, bem... nada, nada, um órgão foi tirado de você. Então, há que se ir com calma e não fazer grandes esforços. Na mesma semana, um amigo meu, muito querido, faria aniversário. Temos muitas afinidades e antecipadamente, já sabendo que ficaria de molho por um tempo, busquei o presente ideal para alguém que me é tão caro. Mas faltou algo (sempre falta, de última hora) e não dava para sair de casa ou fazer grandes esforços. Foi quando veio a ideia: fazer um café da manhã de presente para ele. Munida de bloco de anotações e caneta em mãos, comecei a rabiscar o cardápio, que deveria ter muitas maçãs, já que ele é um consumidor apaixonado da fruta.

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ficou assim Café preto e chá de maçã com canela; Queijinhos de vários tipos (sou uma rata, admito!); Torradas, bolachinhas salgadas; Panquecas mistas; Torta de maçã (o “bolo de aniversário” dele).

TOMATES

& BATATAS 98

A inspiração veio de um blog que adoro (e fica como sugestão www.rainhasdolar.com), com algumas adaptações. A torta de maçã foi sucesso de público e audiência – não, não serei modesta ao admitir que ficou um escândalo de boa. Eu recomendo. Pela receita original, ficaria muito doce. Diminui os níveis de açúcar, porque, convenhamos, o bom mesmo é sentir o gosto da fruta, né? A receita pode até parecer trabalhosa, portanto sugiro que você disponha todos os apetrechos e ingredientes sobre a mesa e tudo vai dar certo. Ao final você vai pensar: “hum... nem deu tanto trabalho assim!”

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ingredientes massa

1 pacote de biscoito maisena 200 gramas de manteiga sem sal

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modus operandi

Triture rapidamente os biscoitos no liquidificador. É com essa farofinha que você fará a massa. Reserve momentaneamente. Numa panela, derreta a manteiga sem deixar queimar. Misture a manteiga com a farofa de biscoito numa travessa, até formar uma farofa úmida. Com essa farofa, forre o fundo e as laterais de uma forma (com fundo removível) - vá moldando cuidadosamente a farofa nas laterais. Depois de toda forrada, leve ao forno pré-aquecido por uns 10 minutos. Não mais que isso. Essa é a base da torta. Reserve e comece a fazer o recheio.


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vamos para a etapa final, a do creme:

ingredientes do recheio 3 maçãs descascadas e picadas em cubinhos, 5 colheres (sopa) de açúcar, canela em pó, 1 lata de leite condensado, 3 gemas, gotinhas de baunilha. Também acrescentei passas sem sementes.

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Use uma panela antiaderente. Se não tiver,

não tem problema, mas facilita muito, especialmente no momento de lavar a louça (=P). Leve ao fogo as maças descascadas e picadas com o açúcar. Regue com o suco de um limão e deixe cozinhar até que a maçã fique macia. O cheiro é uma coisa de louco. Desligue o fogo e junte a canela em pó (ao seu gosto). (A receita original pede que 1/3 dessa mistura seja retirada e levada ao liquidificador. Você bate e retorna à mistura. Eu omiti essa parte.) Com essa mistura, você recheia a base já assada (lembra?). Reserve.

Numa panela, coloque o leite condensado, as gemas batidas e as gotinhas de essência de baunilha (também ao seu gosto) e mexa sem parar, até que fique homogêneo. O resultado será aquele famoso creme de confeiteiro. Espere esfriar um pouco e despeje o creme por cima do recheio de maçãs. Agora é hora de decorar: eu cortei duas maçãs em fatias finas e levei ao fogo com limão, açúcar de confeiteiro e um tiquinho de canela. Esperei que ficassem levemente translúcidas. Retirei do fogo, esperei esfriar e cobri o creme. Ficou um caldo no fundo da panela - um misto de limão com açúcar, que reguei as fatias de decoração. O melhor mesmo é fazer essa torta com um dia de antecedência. Deixe na geladeira até a hora de servir.

Na manhã seguinte, arrumei a mesa e esperei o aniversariante chegar. Foi ótimo, porque tudo que leva muito carinho não tem como não ficar bom. E, definitivamente, foi um bolo de aniversário especial.

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Lorena Filgueiras é jornalista, adora comer e beber bem. Estudou uma pá de coisas, além do jornalismo: Língua Inglesa, cozinha, vinhos e até tentou fazer crochê, mas foi vencida pela falta de coordenação motora. Ama Saramago, Fernando Pessoa e Oscar Wilde, apesar de ser viciada nos gibis da Turma da Mônica. Escreve um blog, ao qual apelida de “minha cozinha virtual” (www. tomatoepotato.blogspot.com). Twitter: @lorefil


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