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JUSTIÇA JÁ, REVOLUÇÃO NO JUDICIÁRIO R$

Revista de informação ANO X — Nº 11 OMNI EDITORA

9,00

9771519

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53000 51 000 1

BRASÍLIA

Saiba quais as projeções para o ano que chega. O que muda no cenário político, econômico e tecnológico


OS 30 CEARENSES MAIS INFLUENTES PRÊMIO LUBBAD 2011


Para indicar um nome para a lista dos 30 Cearenses Mais Influentes, entre no site www.revistafale.com.br

1. Objetivos Premiar anualmente 30 Cearenses utilizando o critério de influência. No famoso Dicionário Aurélio o adjetivo influente é definido como “quem influi ou exerce influência”. Trata-se de um fato ou ação que afeta pessoas, coisas ou o curso de um evento, especialmente quando funciona sem qualquer esforço aparente direto. Influência também se traduz no poder de influenciar ou afetar, sustentado no prestígio, riqueza, habilidade ou posição. Em qualquer situação, traduz reconheci­mento e credibilidade. 2. Categorias São cinco categorias: 1. Politicos 2. Empresários&Empreendedores 3. Artistas&Intelectuais 4. Profissionais Liberais 5. Esportes. Você pode indicar um nome pela internet. É só entrar no site da revista Fale!.


ISSN 1519-9533

REVISTA DE INFORMAÇÃO

EDITOR&PUBLISHER LUÍS-SÉRGIO SANTOS

EDITOR SENIOR ISABELA MARTIN

EDITOR ASSOCIADO Luís Carlos Martins EDITOR DE ARTE Jon Romano REDAÇÃO Cinara Sá, Liana Costa,

Carlos Mazza e Camila Torres COLABORADORES Fernando Maia, Roberto Martins Rodrigues e Roberto Costa DIRETOR DE ARTE Eduardo Vasconcelos DESIGNER GRÁFICO Breno Aôr GERENTE COMERCIAL Dena de Marchi n e-mail: dena@omnieditora.com.br JURÍDICO Mauro Sales BRASÍLIA (61) 8188.8873 SÃO PAULO (11) 6497.0424 IMAGEM Agência Brasil, AE, Reuters REDAÇÃO E PUBLICIDADE Omni Editora Associados Ltda. Rua Joaquim

Sá, 746 n Fones: (85) 3247.6101 n CEP 60.130-050, Aldeota, Fortaleza, Ceará n e-mail: fale@revistafale. com.br n home-page: www.revistafale.com.br Fale! é publicada pela Omni Editora Associados Ltda. Preço da assinatura anual no Brasil (12 edições): R$ 86,00 ou o preço com desconto anunciado em promoção. Exemplar em venda avulsa: R$ 9,00, exceto em promoção com preço menor. Números anteriores podem ser solicitados pelo correio ou fax. Reprintes podem ser adquiridos pelo telefone (85) 3247.6101. Os artigos assinados não refletem necessariamente o pensamento da revista. Fale! não se responsabiliza pela devolução de matérias editoriais não solicitadas. Sugestões e comentários sobre o conteúdo editorial de Fale! podem ser feitos por fax, telefone ou e-mail. Cartas e mensagens devem trazer o nome e endereço do autor. Fale! é marca registrada da Omni Editora Associados Ltda. Fale! é marca registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Copyright © 2010 Omni Editora Associados Ltda. Todos os direitos reservados. IMPRESSÃO Celigráfica n Impresso no Brasil/Printed in Brazil. Fale! is published monthly by Omni Editora Associados Ltda. A yearly subscription abroad costs US$ 99,00. To subscribe call (55+85) 3247.6101 or by e-mail: df@fortalnet.com.br A Omni Editora não autoriza ninguém a falar em seu nome para angariar convites, presentes, empréstimos, permutas, benefícios de qualquer ordem. Qualquer relação comercial só terá validade sob contrato formal com a Omni através de sua diretoria.

DIRETOR EDITOR LUÍS-SÉRGIO SANTOS

TIRAGEM DESTA EDIÇÃO: 11.000 EXEMPLARES


ArenaPolítica TalkingHeads Online Periscópio

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FOTO RICARDO STUCKERT_PR

POLÍTICA

E agora, Dilma?

Dilma Rousseff é a presidente eleita do Brasil! E agora? Com a difícil tarefa de escolher a composição dos Ministérios, tem a seu favor a maioria no Congresso, mas ainda é desconhecida pela comunidade mundial e precisará trabalhar duro para construir uma boa imagem

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Difícil oposição

A derrota nas urnas do presidenciável do PSDB, José Serra, trouxe aos tucanos um desafio para os próximos anos: se fortalecer como uma legenda efetiva de oposição. Alguns analistas avaliam que o PSDB precisa se estruturar internamente e renovar suas lideranças

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ECONOMIA

Freio no PIB

A estimativa da CNI para a expansão da economia é de 4,5% em 2011, em contraponto dos 7,5% de crescimento do Produto Interno Bruto — PIB em 2010. Outros indicadores registrarão, igualmente, desaceleração no próximo ano

SEÇÕES 10 Talking Heads 12 Online CAPA: FOTO JARBAS OLIVEIRA

48 Consumo 50 Última Página

EM CENA

Presidente Lula durante cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural 2010, no Rio de Janeiro no dia 2 de outubro de 2010

Não verei vocês até ano que vem. Mas estejam certos de uma coisa: eu disputei eleições em 1989, 1994 e 1998 e perdi. E, a cada vez que perdia, eu não me escondia. Eu voltava para a rua. Depois, ganhei 2002, ganhei 2006. Elegemos a companheira Dilma, que pode fazer um governo melhor do que eu fiz. Se quando eu perdia eu não me escondia, por que vou me esconder agora que eu ganhei? LULA, em discurso no interior de Pernambuco


revistafale.com.br

Navegue no site da revista Fale! e acesse reportagens, entrevistas, vídeos, blogs, edições anteriores e suas versões digitais. Todo o conteúdo é livre e na íntegra EDIÇÃO ESPECIAL

O Twitter invade Fortaleza

O Twitter, com suas mensagens de 140 caracteres, está revolucionando a Internet e se tornando uma das redes sociais mais influentes no Brasil. A revista Fale! foi ao Marina Park Hotel conferir a terceira edição do TweetFor, o maior evento de mídias sociais do Brasil. O encontro reuniu mais de 600 tuiteiros da cidade que, em meio a muita feijoada e shows musicais, festejaram e fortaleceram os laços virtuais criados no miniblog. A edição especial — exclusivamente digital — está disponível no site. ENTREVISTA

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Blog da Fale! Brasília está no ar

Agora você também pode saber tudo sobre o que acontece no Planalto Central através do blog da revista Fale! Brasília. No site você encontra as principais atualizações do Distrito Federal, com informação em tempo real e análise dos fatos. Para acessar, bastar entrar em http://www.revistafale.com. br/blog/falebrasilia/ PRÓXIMA EDIÇÃO

Uma década de história

A próxima edição da revista Fale! trará uma reportagem especial sobre a história da publicação, com uma entrevista com o editor Luis-Sérgio Santos, depoimentos de pessoas que fizeram parte da história da revista e uma retrospectiva das capas de cada uma das 77 edições. Edições anteriores da revista podem ser encontradas no site. O conteúdo

tem acesso livre e está disponibilizado na íntegra. Acesse www.revistafale.com.br/ edicoesanteriores FALE! FM

O melhor dos anos 1980 e do jazz Além de se informar, que tal ouvir uma boa música? A Fale! FM oferece músicas dos anos 1980 ao jazz, incluindo clássicos e novidades do cenário musical. O internauta pode conferir a programação em

www.revistafale.com.br/falefm 8 | Fale!

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OS 30 CEARENSES MAIS INFLUENTES PRÊMIO LUBBAD 2011

INFLUENTES

Site recebe indicações para a lista de 2011 Está acontecendo no site da revista Fale! a votação para a edição de 2011 do prêmio Os 30 Cearenses Mais Influentes — Prêmio Lubbad 2011. Serão premiados os 30 nomes que mais influenciaram, de forma direta ou indireta, a sociedade cearense. São cinco categorias de escolha: Políticos, Empresários&Empreendedores, Artistas&Intelectuais, Profissionais Liberais e Esportes. A lista dos nomes será escolhida através de indicação aberta que pode ser feita pelo endereço www.revistafale.

com.br/30mais2011.html


Uma revista com a cara de Brasília.

A revista de informação de Brasília. Toda grande cidade merece uma grande revista.

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(61) 8188.8873


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Eu sou um perfeccionista. Sou insaciável nisso. E sinto que há tantas coisas em que posso melhorar. tenista norteamericana considerada pela Associação Feminina de Tênis como número 1 do mundo SERENA WILLIAMS,

TalkingHeads Eu me preparo para eleger até um poste. E sem luz!

LUIZIANNE LINS, prefeita de Fortaleza (PT), ao ser indagada pelo repórter Eliomar de Lima, do jornal

O Povo, sobre os preparativos para sua sucessão em 2012, no dia 6 de dezembro de 2010

Eu estou livre, não tenho mais compromisso com a prefeita.

CID GOMES, governador do Ceará, em entrevista à Rádio O Povo-CBN, sobre sua relação com a prefeita Luizianne Lins

Não me peça para avaliar a administração dela. Eu não vou fazer isso, não. CID GOMES, referindo-se à gestão municipal de Luizianne Lins, prefeita de Fortaleza

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“Já sei o que vou fazer. Vou dar um tempo de três meses para que eu não continue falando como presidente. Depois dessa quarentena, voltarei a falar, mas daí já como ex-presidente.” LULA, programando

sua rotina após deixar a presidência da República

A própria percepção de que a política é a área mais corrupta, já é um problema. Pensar isso é uma falsidade grande. Você tem um sistema de corrupção implantado também na economia, nas instituições religiosas, veja o exemplo da pedofilia.

ROBERTO ROMANO, professor de Filosofia e Ética da Unicamp, sobre o

ranking de corrupção da Transparência Internacional www.revistafale.com.br


WIKILEAKS, TRANSPARÊNCIA



Esta revelação é um ataque à comunidade internacional. HILLARY CLINTON, secretária de Estado dos EUA, sobre

a publicação não autorizada de 250 mil documentos do Departamento de Estado norte-americano pelo site Wikileaks.

O que a censura revela? Ela revela medo.

JULIAN ASSANGE, criador do Wikileaks, em entrevista ao

jornal britânio The Guardian, em julho de 2010

Se um jornalismo é bom, então é controverso em sua natureza. JULIAN ASSANGE, criador do Wikileaks, em entrevista ao

jornal britânio The Guardian, em julho de 2010

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O objetivo do Wikileaks é reformar o mundo através da transparência. criador do Wikileaks, em entrevista ao JULIAN ASSANGE,

jornal britânio The Guardian, em julho de 2010

LETAL Julian Paul Assange jornalista e ciberativista australiano é o fundador do Wikileaks FOTO EUROPA PRESS

Não há autismo intelectual que impeça o mais medíocre dos jornalistas de perceber a ardilosa campanha organizada contra a WikiLeaks. DIEGO ESCOSTEGUY,

jornalista

A prisão de Julian Assange é um teste claro, voltaireano: não precisamos concordar com nada do que ele diz para aceitar que tem o direito de fazê-lo. PAULO MOREIRA LEITE,

jornalista

J

ulian Assange se permitiu publicar praticamente qualquer coisa que ele quiser, não importa se é sobre os meandros dos abusos a prisioneiros iraquianos, o duplo papel que o Paquistão desempenha no Afeganistão ou os e-mails pessoais de Sarah Palin.

TIME, revista semanal amricana descrevendo a atividade de Assange, ao mesmo tempo em que o inclui na lista dos mais influentes do mundo

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Viva num mundo WikiLicado ou exploda a internet. A escolha é sua. JOHN NAUGHTON,

The Guardian

no jornal inglês

A informação nunca foi tão livre. Mesmo em países com regimes autoritários, redes de informação estão a ajudando as pessoas a descobrir os fatos e fazem com que governos sejam mais responsáveis.

HILLARY CLINTON, secretária de Estado

dos EUA, citada pelo The Guardian

@wikileaks Lights on. Rats out. DEZEMBRO DE 2010 | Fale

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Online

Elegância custa caro

Em tempos de smartphones, o HTC Desire chega para aquecer a concorrência. Com design elegante, o aparelho roda com Android 2.2, tem tela de 3,7 polegadas que reconhece múltiplos toques e conta com Wi-Fi, Bluetooth e GPS. Ele é armado com o processador Qualcomm Snapdragon, de 1 GHz, o que garante rapidez nas tarefas. Seu espaço de armazenamento interno de 512 MB é um dos pontos fortes, além da memória RAM de 576 MB. O Desire vem com entrada para cartões microSD e acompanha um cartão de 8 GB. A tela reconhece múltiplos toques e seu teclado virtual se apresenta em bom tamanho. Um TrackBall óptico funciona como mouse a ajuda na navegação. Um recurso interessante é o Leap View, que exibe como miniatura as áreas de trabalho do aparelho. A parte traseira do celular tem uma textura que evita escorregões e oferece maior conforto e segurança no manuseio. Outra função é o controle de volume das ligações recebidas. Funciona assim: quando você se esquece de mudar o volume da campainha do celular e recebe uma ligação durante uma reunião, por exemplo,

Um pré-pago pós-pago.

Agora é possível recarregar seu celular pré-pago usando o cartão de crédito. Para aproveitar a novidade, o usuário se cadastra no site RecargaNet e pode comprar de R$ 22 a R$ 60 em créditos. O serviço está disponível para as operadoras Vivo, TIM, Oi e Nextel. Já as transações são feitas com as bandeiras Visa, Master, Amex e Hipercard. Inicialmente, o valor máximo de recargas por mês é de R$ 100 e os pagamentos não podem ser parcelados.

basta virar o aparelho com a tela para baixo e o som é cortado e fica no modo silencioso. Alguns pontos negativos: a câmera de 5 megapixels registra imagens escuras e cores pobres. A duração da bateria também deixa a desejar, pois fica abaixo de seus principais concorrentes, como Galaxy S e o Nokia N8. Alguns testes foram feitos e a bateria durou pouco mais de sete horas, em ligações. O modelo tem o corpo na cor preta, acabamento metálico, com detalhes acobreados e prateados. E o preço é salgado: R$ 1.735.

Celular com PSP

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Tanto se falou e especulou que a criação do PlayStation Phone foi confirmada pela Sony. Ele rodará a futura versão 3.0 do Android (a Gingerbread) e virá com a loja Sony Marketplace, com jogos desenvolvidos para o aparelho. O celular terá processador Qualcomm de 1GHz, 512MB de memória RAM e 1GB de memória ROM. A tela pode ser de 3,7 ou 4,1 polegadas, além de uma entrada para cartões microSD. O PSP Phone manterá os botões laterais, mas terá um trackpad multitouch no lugar do joystick. A Sony ainda não divulgou o possível preço nem a data exata do lançamento, que poderá ser ainda neste ano.

O QUE É NOVO Almofada ou controle? Estranho,

mas interessante. Um controle remoto em forma de almofada, ou vice-versa. O Pillow Remote Control é universal e pode ser usado para controlar TV, DVD, TV a cabo, entre outros aparelhos 12 | Fale!

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eletrônicos. Além, claro, de ser almofada. Na loja americana Brookstone, ele custa US$ 29,95. É até útil para quem costuma se afundar no sofá e assistir televisão. www.revistafale.com.br

Tweet nas alturas

Já imaginou ler um tweet escrito diretamente do ponto mais alto do mundo? A companhia telefonia Ncell, subsidiária da sueca Telionera, tornou isso uma realidade. No final de outubro, a empresa concluiu a instalação de suma base localizada no Monte Everest, a 5,2 mil metros de altura, que fornecerá o serviço de telefonia 3G para toda a região. Assim, quem estiver se aventurando nas alturas de lá pode fazer ligações, videoconferências, entrar em sites, redes sociais e ter acesso à todo o conteúdo da web. Antes, os alpinistas se conectavam por satélite pagando tarifas altíssimas. A instalação será fixa e permanente — ao contrário do que a Motorola fez anteriormente, quando inaugurou no mesmo local uma estação temporária, em uma ação de publicidade —, aumentará a velocidade de navegação e tornará os serviços de telecomunicações mais acessíveis para as comunidades e turistas da região.


10PERGUNTASPARA

FL ÁVIO PAIVA

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M LANÇAMENTO NO MÊS DE DEZEMBRO, A CASA DO MEU MELHOR AMIGO (Cor-

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tez Editora, 2010) é um livro e CD infantil que fala sobre amizade. O autor, Flávio Paiva, é jornalista, escritor e compositor. Escreve sempre às quintas-feiras no Caderno 3 do Diário do Nordeste. Além de atuar profissionalmente no campo da cultura, Flávio Paiva participa intensamente de ações culturais e de cidadania. Já foi, por exemplo, membro efetivo do Grupo de Cultura e Identidade, do Planejamento Estratégico da Região Metropolitana de Fortaleza (Planefor); e integrante do grupo de formulação e articulação do Pacto de Cooperação do Ceará; dentre outros. Flávio Paiva escreve livros tanto para crianças, quanto para adultos, nas áreas de cultura, cidadania, gestão compartilhada, mobilização social e infância. O último livro para o público adulto do jornalista foi Eu era assim – Infância, Cultura e Consumismo (Cortez Editora, 2009). Nesta entrevista, o autor fala de sua nova obra: o livro e CD A Casa do Meu Melhor Amigo. O escritor fala do que o inspira a escrever e a compor para crianças, além do seu processo de criação e da participação dos filhos e amigos na construção da obra. Flávio Paiva fala também da combinação da literatura com a música: como é fazer um livro-CD que é ao mesmo tempo ficção e realidade? Fale! Que tipo de literatura você apresenta ao leitor no livro/cd A Casa do Meu Melhor Amigo? Flávio Paiva. A principal característica da minha literatura infantojuvenil é a revelação do cotidiano como expressão estética. Assim como nos outros livros, em A Casa do Meu Melhor Amigo, eu dou um testemunho da minha infância, da infância dos meus filhos e do que guardo de lembrança das nossas relações com os nossos amigos, nossos códigos, nossos quereres, nossas buscas, nossas virtudes e jeito de ser. Fale! Então são relatos verdadeiros? Flávio Paiva. Todas as histórias que escrevo são verdadeiras porque nascem da minha experiência pessoal. Em A Casa do Meu Melhor Amigo, a narrativa está sempre na primeira pessoa, mas é uma primeira pessoa que conta com o nós e o eles na hora de tratar a ficção que está implícita na realidade. É com essa dinâmica de pronomes que os personagens carregam a ação. Fale! E onde entra a imaginação nessa forma de contar? Flávio Paiva. Procuro aceitar a maneira desregrada com que os personagens me levam a imaginar, porque entendo que desse modo fica mais FOTO MAURÍCIO ALBANO

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fácil também para o leitor exercitar a sua imaginação. A convivência natural do real e do imaginário no mesmo espaço e tempo depura qualquer artificialidade que queira se intrometer na história.

Fale! É a esse “tomar emprestado” que você chama de testemunho? Flávio Paiva. Exatamente. Sempre fui um grande admirador da dimensão fantasiosa que existe na realidade. As purezas e impurezas do real estão cheias de encanto e prefiro lançar mão dessa magia a escrever histórias como produto forçosamente exclusivo da imaginação. Fale! Como nos livros e CDs Flor de Maravilha, Benedito Bacurau e A Festa do Saci, a sua narrativa em A Casa do Meu Melhor Amigo combina literatura com música. O que tem lhe levado a escolher esse caminho? Flávio Paiva. Não foi bem uma escolha, considerando que gosto de utilizar a música em tudo o que faço. Somente há pouco mais de dez anos venho experimentando essa aproximação com mais atenção ao que ela tem de essencial para a nossa formação. Primeiro eu fiz um CD, em 1999, para o meu filho Lucas e depois fiz outro CD, em 2011, para o meu filho Artur. Depois comecei a

Fale! A partir de 2011 o ensino da música volta a ser obrigatório nas escolas. Como você acha que o seu trabalho pode ser aproveitado nos espaços pedagógicos? Flávio Paiva. Muitos estudos de neurociência comprovam o papel da música no desenvolvimento cognitivo. Quando ouvimos música, uma série de atividades voltadas para a percepção é desencadeada em nosso cérebro. Noto que meus livros-CDs têm contribuído para que muitas

As purezas e impurezas do real estão cheias de encanto e prefiro lançar mão dessa magia a escrever histórias como produto forçosamente exclusivo da imaginação. crianças se interessem pela leitura dos textos após ouvir as músicas correlacionadas de forma temática. Noto também pelas perguntas que elas me fazem costumeiramente que o espaço de criação do leitor torna-se bem mais expandido quando ambientado ao mesmo tempo pela literatura e pela música. Neste aspecto, além de servir para as aulas de música em si, já que o livro-CD traz as partituras das composições, a Casa do Meu Melhor Amigo leva para o ensino da música um contexto literário propício à criação de sentido para a realidade e para a fantasia. Fale! No livro e CD A Casa do Meu Melhor Amigo, você traz 10 músiwww.revistafale.com.br

cas inéditas, algumas com parceiros. Como se deu essa construção? Flávio Paiva. O desenvolvimento da ação produz e consome emoções que ganham a liberdade de se encontrar com as emoções do leitor pelo significado das palavras e dos sons. Por isso o livro e CD A Casa do Meu Melhor Amigo tem 10 capítulos e 10 músicas. Cada música faz parte dos sentimentos de cada capítulo. Apesar de ter uma certa facilidade para compor, há várias situações que a minha sensibilidade não basta para traduzir integralmente a emoção na sua movimentação sonora. Nesses casos procuro recorrer ao talento de amigos que são admiráveis artistas da música para me ajudar. Fale! Quem lhe ajudou a contar a parte musicada da história do livro e CD A Casa do Meu Melhor Amigo? Flávio Paiva. Das dez músicas que integram a narrativa do livro e CD, eu fiz sete em parcerias com Orlângelo Leal, Rebeca Matta, Boeing, RuKah, Anna Torres, Vicky Verônica, Abidoral Jamacaru, Hérlon Robson, Carol Damasceno e com os meus filhos Lucas e Artur. A gravação do CD, que foi primorosamente produzida e dirigida pelo Luiz Waack, conta com a interpretação alternada do Lucas Espíndola e do Rodolfo Rodrigues, com a participação especial do André Abujamra, do Edvaldo Santana, da Ná Ozzetti e do Sérgio Espíndola, além de músicos do nível de Amilcar Rodrigues, Antonio Bombarda, Dani Krotoszinski, Daniel Szafran, Kuki Stolarski, Mauricio Pereira, Reinaldo Chulapa e Ricardo Garcia. Fale! Qual é mesmo a grande mensagem que o leitor pode esperar deste livro-CD? Flávio Paiva. Em um trabalho que une literatura e música para combinar ficção e não-ficção existem tantas mensagens quanto a capacidade do leitor de se encontrar na sua contação e cantação. As ilustrações de Tati Moes também agregam muito valor ao texto literário e às canções porque apresentam uma temperatura voltada para o acolhimento do leitor. Entretanto, eu diria que o vórtice que catalisa e expande toda a trama de A Casa do Meu Melhor Amigo é a amizade. A amizade dos amigos alados. n DEZEMBRO DE 2010 | Fale

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Fale! Você pode dar exemplos de como faz essa mistura de ficção e não-ficção? Flávio Paiva. Para redescrever a realidade, dando ao vivido o caráter literário, evito fazer simples transposições. O livro e CD A Casa do Meu Melhor Amigo está cheio desses exemplos. Para a cena do pai que procura reconciliação com o filho, um garoto que pratica bullying na escola, tomei emprestado um bordado que a minha mãe fez com a oração do Anjo da Guarda para os meus filhos, a partir do qual eu havia feito uma canção de ninar. No momento que o menino cupim deseja conhecer um bebê humano, a visita é feita à residência de um casal amigo que estava com uma menininha recém-nascida e eu tinha feito uma cantiga para ela. Quer dizer, os fatos são concretos, o que se torna ficcional é o que eles podem exprimir literariamente.

contar a história das músicas e daí surgiram os livros-CDs.


Política

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DILMA? Dilma Vana Rousseff foi eleita no dia 31 de outubro presidente da República para o período de 2010 a 2014. Sem nunca ter disputado uma eleição, ela é a primeira mulher a chegar ao mais alto cargo do país

O DIA “V”. Dilma Rousseff faz o primeiro pronunciamento como presidente eleita do Brasil tendo ao lado Michel Temer, senador Magno Malta, deputado José Eduardo Cardozo, José Eduardo Dutra, Antonio Palocci e Cid Gomes. FOTO MARCELLO CASAL _ ABR

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POLÍTICA

COM LULA. Em Brasília, o presidente Lula e a presidente eleita, Dilma Rousseff, comemoram a vitória no Palácio da Alvorada. Abaixo, a presidente eleita Dilma Rousseff ao chegar para entrevistas no Brasilia Imperial Hotel e, em Porto Alegre, eleitores festejam nas ruas a vitória de Dilma Rousseff à Presidência da República FOTO WILSON DIAS_ ABR, RICARDO STUCKERT _ PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA E MARCELLO CASAL JR. _ ABR

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Eu vou zelar pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa, vou zelar pela mais ampla liberdade religiosa e de culto. Vou zelar pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados na nossa própria Constituição.

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OR VOLTA DAS 22 HORAS DO ÚLTIMO DIA 31 DE OUTUBRO,

Dilma Rousseff discursou pela primeira vez como a nova presidente do Brasil. Ao lado de aliados políticos, falou sobre honrar o compromisso com as mulheres, redução da carga tributária, erradicação da miséria, liberdade de imprensa, religiosa e de culto. O primeiro pronunciamento oficial, lido, durou cerca de 20 minutos. Emocionada, ela já parecia imaginar os desafios que a espera. E não são poucos. Logo nos primeiros meses de seu mandato, Dilma deverá tomar decisões importantes para o encaminhamento de seu projeto. Historicamente, os presidentes eleitos aproveitam o pouco desgaste de sua imagem para pôr em prática, nesse período, medidas acerca de assuntos delicados. De acordo com o atual momento do Brasil, em medidas delicadas leia-se reforma tributária e previdenciária. Elas são fundamentais para a continuação do crescimento do país, mas por conta de alguns efeitos, enfrentam obstáculos para serem aprovadas. A reforma previdenciária significa criar regras mais rigorosas que restringem o acesso e reduzem os benefícios. Medidas assim deixam a população insatisfeita e os parlamentares receosos. Quanto à reforma tributária, o entrave é a pressão dos goverwww.revistafale.com.br

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TRANSIÇÃO. A presidenta eleita, Dilma Rousseff e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de registro em cartório do balanço de oito anos do governo, em Brasília FOTO ANTONIO CRUZ_ABR

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POLÍTICA COLETIVA. A candidata do PT, Dilma Rousseff, comenta o cancelamento da participação do ex-funcionário do Palácio do Planalto, Demétrius Felinto, em audiência da CCJ do Senado FOTO ELZA FIÚZA _ ABR

A militância política de Dilma começa na ditadura

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ilma Vana Rousseff é a primeira mulher a assumir a presidência da República, para um mandato no período de 2010 a 2014. Sem nunca ter disputado uma eleição, ela é a primeira mulher a chegar ao mais alto cargo do país. Economista, ex-ministra do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, de Minas e Energia e da Casa Civil, Dilma teve a eleição definida quando atingiu 55,43% dos votos válidos no segundo turno das eleições, ante 44,57% do candidato do PSDB, José Serra. Na campanha, Dilma destacou as conquistas dos 22 | Fale!

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dois mandatos do governo do presidente Lula, que a indicou para concorrer à Presidência. O seu mote de campanha foi a necessidade de o Brasil continuar crescendo na economia com inclusão social. A presidente eleita ressaltou que 28 milhões de pessoas deixaram a situação de miséria ao longo desses quase oito anos e prometeu trabalhar para erradicar definitivamente a pobreza no país. No comando da Casa Civil, a presidente eleita, conhecida por seu estilo durona, coordenou o Programa de Aceleração do Crescimento

(PAC), uma das principais marcas do governo Lula, com ações em praticamente todas as áreas, desde infraestrutura até segurança pública. Dilma também foi responsável pelo lançamento do programa Minha Casa, Minha Vida, de forte apelo social.

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Mineira de nascimento, Dilma começou na política no movimento estudantil, em Belo Horizonte. Combateu a ditadura militar (1964-1985), o que a levou à prisão, onde foi torturada. Em liberdade, recomeçou a vida em Porto Alegre, ao lado do


nadores contra a simplificação ou redução dos tributos, pois para eles isso representa perda de arrecadação. Mas essa reforma faz-se necessária. O Brasil possui uma das cargas de impostos mais altas do mundo: o equivalente a 33% do PIB nacional. A elevada tributação prejudica a competitividade dos exportadores brasileiros e provoca distorções nos preços, complicando a vida de empresários e da população. Essas duas reformas são urgentes e Dilma já se mostrou disposta a avançar nesse sentido, mas não deu detalhes sobre como vai resolver a questão. O que se pode dizer é que a concretização ou não das reformas irá por à prova a capacidade de negociação da presidente no Congresso Nacional, já que as propostas têm de passar pelas mãos dos parlamentares e dependem de suas decisões. A seu favor, Dilma conta com a maioria no Congresso: dos 513 deputados, a coligação que apoiou sua candidatura elegeu 311. No Senado, a situação também é favorável: 48 senadores dos 81 acentos. A escolha da composição dos Mi-

Valorizarei a transparência na administração pública, não haverá compromisso com o erro, o desvio e o mal feito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo.

nistérios representa outro desafio para Dilma, pois ela terá de administrar a briga por cargos no novo governo, disputada pelos partidos da enorme coligação que a ajudou na eleição. A começar pelo PMDB, que não deverá se contentar com pouco; afinal, seu apoio foi fundamental para a vitória petista. Dilma ainda é desconhecida pela comunidade mundial e precisará trabalhar duro para construir uma boa imagem lá fora e mostrar autoridade para representar o Brasil. Terá de manter a posição privilegiada que o Brasil possui nos círculos internacionais e sua relevância nos debates, conquistados ao longo dos governos de FHC e Lula. Nesse sentido, Dilma foi levada para reunião do G20, na Coreia do Sul, para ser apresentada à comunidade internacional. Um bom começo: antes mesmo de tomar posse, ela já foi escolhida a 16ª pessoa mais poderosa do mundo, segundo a lista da Forbes. Ficou na frente até mesmo de Lula (33ª), Steve Jobs (17ª) e Nicolas Sarkozy (19ª). Estar no lugar de um dos presidentes mais populares da história

onde eram educadas as filhas da elite da capital mineira. Ao ingressar no ensino médio, passou para o Colégio Estadual, escola pública mista, mais liberal, onde surgiram muitos dos líderes da resistência à ditadura em Minas.

ex-deputado Carlos Araújo, com quem era casada à época. Na capital gaúcha, participou da fundação do PDT de Leonel Brizola. Em 2000, deixou a sigla, junto com alguns trabalhistas históricos, como o ex-prefeito de Porto Alegre Sereno Chaise, e se

filiou ao PT. Dilma nasceu em 14 de dezembro de 1947, em Belo Horizonte, em uma família de classe média alta. Filha da professora Dilma Jane Rousseff e do advogado Pedro Rousseff, um búlgaro naturalizado brasileiro

com quem adquiriu o gosto pela leitura. De acordo com pessoas próximas, Dilma era uma devoradora de livros, tendo construído uma sólida formação intelectual. Até os 15 anos, estudou no tradicional Colégio Sion, atual Colégio Santa Doroteia, escola

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ICONOGRAFIA. A foto afixada na ficha de Dilma Rousseff no DOPS de São Paulo, tirada em janeiro de 1970. A família Rousseff, da esquerda para a direita, o filho mais velho, Igor, a mãe, Dilma Jane Coimbra Silva, as filhas Dilma Vana e Zana Lúcia, e o pai Pedro [Pétar] Rousseff. E, Dilma Rousseff encontra Leonel Brizola FOTOS: BANCO DE DADOS

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POLÍTICA

O primeiro discurso da nova presidente da República, Dilma Rousseff, à Nação após a confirmação da vitória

M

inhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui. Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida. Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade. A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode! Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:  Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.  Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.  Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.  Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.  Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República. 24 | Fale!

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Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões. O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família. É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras. Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem. Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte. A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que para a retomada do crescimento. É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo. Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável. Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos www.revistafale.com.br

serviços públicos. Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos. Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública. Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público. Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo. Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros. As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados. Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades. Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas. Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais. Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.


O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas. Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas. Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde. Me comprometi também com a melhoria da segurança pública. Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias. Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos. Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo. A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade. É aquela que convive com o meio ambiente sem agredí-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento. Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa. Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso. Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental. Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária. Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que

não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio. A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política. Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia. Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos. Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei. Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia. Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho. Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral. Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre www.revistafale.com.br

nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento. Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório. Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida. Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado. Saberei consolidar e avançar sua obra. Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo. Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios. Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união. União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país. Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela. Muito obrigada. n DEZEMBRO DE 2010 | Fale

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POLÍTICA do Brasil e ter de lidar com uma massa populacional acostumada com um líder carismático, talvez seja o maior dos desafios. As expectativas em torno de Dilma não são pequenas e as comparações com seu ex-chefe serão inevitáveis. Ela deverá mostrar jogo de cintura para atender todas as demandas das cinco regiões brasileiras, enfrentar ataques da oposição e dialogar com as forças que movem a sociedade — entre elas, a imprensa austera. Nessa agenda desafiadora, Dilma precisa mostra-se forte e independente da sombra de Lula, que a acompanhou durante

toda a construção de sua candidatura. Mas ao mesmo tempo, se não for habilidosa, corre o risco de, sem a ajuda do antecessor, não dar conta dos problemas. Um sinal desse processo de desvinculação da imagem de Dilma da figura de Lula aconteceu logo nos primeiros momentos depois da vitória petista: Lula não estava presente durante o primeiro pronunciamento da presidente. Ele também já avisou que não participará ativamente do próximo governo. O que poderá fazer, como costuma acontecer com ex-presidentes, é servir como conselheiro. “O gover-

no de Dilma tem ALEGRIA. que ser a cara e Presidente Lula a semelhança da e a presidente Dilma”, afirmou eleita, Dilma Lula. Rousseff Prestes a facomemoram zer parte da lista a vitória no de mulheres que Palácio da presidem países Alvorada  sul-americanos, FOTO RICARDO STUCKERT _DAPRESIDÊNCIA REPÚBLICA Dilma já é protagonista de um capítulo importante para a história política brasileira e deverá se esforçar para se mostrar habilidosa na administração de seu capital político, adquirido com os 56% dos votos que recebeu. n

Rousseff prospecta sobre os principais assuntos no seu governo Democracia e princípios

 Registro um compromisso com meu

país: valorizar a democracia em toda a sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais básicos, da alimentação, do emprego, da renda, da moradia digna e da paz social.

Erradicação da miséria e mais empregos  Reforço meu

compromisso fundamental que mantive e reiterei ao longo da campanha: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e para todas as brasileiras. Ressalto entretanto, que essa ambiciosa meta não será realizada apenas pela vontade do governo. Ela é importante. Mas, esta meta é um chamado à nação.

Liberdade de imprensa  Eu vou zelar pela mais ampla e

irrestrita liberdade de imprensa, vou zelar pela mais ampla liberdade religiosa e de culto. Vou zelar pela observação criteriosa 26 | Fale!

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e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados na nossa própria Constituição.

Mercado interno

 No curto prazo não contaremos

com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso se tornam mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.

Fim do protecionismo

 Eu estou longe de dizer com isso que

pretendemos fechar o país ao mundo, muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais, pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizarem plenamente suas vocações; propugnando contra a guerra cambial que ocorre hoje no mundo.

Inflação e gastos públicos

 Cuidaremos de nossa economia

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com toda a responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável. Por isso faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos.

Investimentos sociais

 Recusamos as visões de ajuste que

recaem sobre programas sociais, serviços essenciais à população e os necessários investimentos para o bem do país.

Desenvolvimento

 Vamos buscar o desenvolvimento

de longo prazo, a taxas elevadas social e ambientalmente sustentáveis. Para isso, zelaremos pela nossa poupança pública, zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência no serviço público.

Pequeno empreendedor  Valorizarei o microempreendedor

individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de


aperfeiçoamento econômico.

Austeridade fiscal

 Mas, acima de tudo, quero reafirmar

nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.

Pré-Sal

 Trataremos os recursos provenientes

de nossas riquezas naturais sempre com pensamento de longo prazo . Por isso, trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal, do marco regulatório do modelo de partilha do Pré-Sal.

Agências reguladoras

 As agências reguladoras terão todo o

respaldo para atuar com determinação e autonomia voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade do controle dos setores regulados. Apresentaremos sempre

com clareza nossos planos de ação governamental.

Educação, saúde e segurança pública

 Eu me comprometi nesta campanha

com a qualificação da educação e dos serviços de saúde. Me comprometi com a melhoria da segurança pública, com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias e comprometem nossas crianças e nossos jovens. Reafirmo aqui esses compromissos.

Pessoas com deficiência e os mais necessitados  Disse na campanha que as crianças,

os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso, teriam toda a minha atenção. Quero reafirmar aqui, neste espaço, esse compromisso com todos aqueles mais necessitados.

Oposição

 Dirijo-me também aos partidos de

oposição e aos setores da sociedade que www.revistafale.com.br

não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio. A partir da minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de opinião política.

Reforma política

 Nosso país precisa melhorar a

conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, por uma reforma política, que eleve os valores republicanos, avançando e fazendo avançar nossa jovem democracia.

Combate a corrupção e transparência

Valorizarei a transparência na administração pública, não haverá compromisso com o erro, o desvio e o mal feito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. n 

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2011 SER OPOSIÇÃO, DES POLÍTICA

O cientista político Humberto Dantas acredita que seria positivo para o PSDB a ruptura da atual hierarquia partidária, centrada em poucos nomes do Estado de São Paulo Por Rita Tavares e Anne Warth

A

DERROTA NAS URNAS DO PRESIDENCIÁVEL

do PSDB, José Serra, trouxe aos tucanos um desafio hercúleo para os próximos anos: se fortalecer como uma legenda efetiva de oposição. Apesar de o partido ter vencido o pleito em Estados estratégicos, como São Paulo com Geraldo Alckmin e Minas Gerais com Antônio Anastasia, analistas políticos consultados pela Agência Estado destacam que antes de partir para se tornar, de fato, uma legenda de oposição, o PSDB precisa se estruturar internamente e abrir espaço para a renovação de suas lideranças. Nessa equação, os analistas avaliam que o maior obstáculo para a reorganização do PSDB pode ser o ex-governador José Serra, caso ele se imponha como candidato natural da legenda à disputa presidencial 28 | Fale!

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SAFIO PARA O PSDB

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POLÍTICA de 2014. “Serra ainda está em clima de campanha. Precisa parar, porque está começando a atrapalhar o partido, que desse jeito não terá chances”, resume o cientista político Fernando Abrucio, professor da Fundação Getúlio Vargas — FGV. Mesmo recolhido publicamente, já que Serra nega-se a dar entrevistas (até 15/12), o ex-governador é atuante nos bastidores do PSDB. Ao ser derrotado pela presidente eleita Dilma Rousseff no segundo turno da eleição, Serra anunciou: a luta continua. E essa postura do ex-governador pode tirar dos holofotes do cenário político o desejo dos governadores Alckmin e Anastasia de fazer de suas gestões as grandes vitrines do partido nos próximos anos. O cientista político Humberto Dantas, conselheiro do Movimento Voto Consciente, acredita que seria positivo para o PSDB a ruptura da atual hierarquia partidária, centrada em poucos nomes do Estado de São Paulo — além de Serra, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é o grande expoente. “Isso não cabe mais; só funciona quando se tem poder na mão”, afirma. O caminho apontado é abrir espaço para a chamada “ala jovem” que reúne os governadores Alckmin e Anastasia, além de Beto Richa (PR) e o senador eleito Aécio Neves (MG). Afinal, estão mortos os grandes caciques que assinaram o manifesto de criação do PSDB, como Franco Montoro, Mário Covas e José Richa — pai do governador do Paraná. A exceção é FHC que tem quase 80 anos. Quando o partido foi fundado em 1988, Aécio ainda era o tímido neto de Tancredo Neves, eleito dois anos antes deputado federal pelo PMDB. Passados 22 anos e três derrotas sucessivas dos tucanos para o PT na disputa pela presidência da República, o ex-governador de Minas está entre os que podem mudar o PSDB - ou sair do partido, hipótese que muitos especialistas não descartam, caso ocorra resistência à sua candidatura. Ao falar na possibilidade de Aécio migrar de legenda, Humberto Dantas destaca: “O PSB tem aquilo que a oposição mais deseja: o Nordeste. E se Aécio conseguir flertar 30 | Fale!

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Prefiro dar a eles um crédito de confiança. Pelo menos o benefício da dúvida.” No entanto, as dúvidas ainda são na Fazenda o ministro responsável por uma o da política fiscal.

com os pessebistas, a eleição de 2014 será bem emocionante.”. Embora não descarte uma ruptura, o cientista político Carlos Pio, da Universidade de Brasília, acredita que apenas a ameaça de que ela ocorra pode ser suficiente para que o PSDB opte por Aécio. E pondera que a favor dele tem ainda o fator novidade, pois ainda não foi testado na disputa pelo Planalto. Dantas acredita que o PSDB precisa jogar como partido - coeso, e não com interesses individuais. “Já está provado que São Paulo não ganha eleição sozinho”, afirma. “É bom o PSDB tirar olhos de São Paulo e despaulistar.” A derrota de Serra pode desidratar a força paulista no partido - ou ao menos, esvaziar o grupo de Serra, já que o mais provável é que ele fique sem mandato até 2014, porque não se imagina que ele dispute a Prefeitura de São Paulo.

Repaginada

Para o cientista político Sidney Kuntz, a mudança do PSDB passa por algumas vertentes. Em primeiro lugar, é preciso arrumar a casa, reestruturar o discurso e chegar a um consenso sobre quem será o www.revistafale.com.br

grande porta-voz tucano para discutir os problemas do País e fazer oposição ao governo de Dilma. “Ter um discurso único é fundamental.” Mas ele adverte que o conceito de “refundação” é ruim porque está associado a algo que não certo ou até que fracassou. O ideal é propor uma “repaginação” que implica em manter a estrutura tradicional, mas buscar uma atualização política. “O PSDB precisa de uma organização partidária para atrair novos eleitores e filiados”, reforça Abrucio. Ou seja, o partido terá de ampliar sua base política que, desde o começo, sempre teve forte apoio entre os setores mais organizados da sociedade, mas não entre o eleitorado mais popular. Ao contrário do PMDB e do PT, o PSDB nunca foi um partido que se espalhou pelo Brasil. Em 2002, foram eleitos 72 deputados federais. Na eleição seguinte, 65. Neste ano, os tucanos conquistaram 53 vagas na Câmara dos Deputados. Dantas defende que a oposição precisa aprender a ser oposição. “Primeiro a oposição precisa existir, se continuar a ser feita com base nas pesquisas de opinião pública e no medo de se posicionar contra elas não dá. Oposição não se faz por meio de pesquisa, você pode até não dizer o que povo quer, mas tem que bater”, sustenta. Naturalmente, a ação do PSDB vai estar estritamente ligada ao desempenho do governo Dilma. “O PSDB poderá voltar ao centro do palco como alternativa de poder ou ainda ficar em situação mais difícil”, pondera Pio, referindo-se ao sucesso ou fracasso do novo governo. Mas o cientista alerta para o risco de se atrasar decisões até que se tenha um quadro consolidado da gestão Dilma. Independentemente do caminho que decida trilhar, os analistas concordam que o desafio do PSDB para se consolidar como uma referência de oposição, assim como foi o PT nos governos de José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, não será tarefa fácil. Mas, a favor dos tucanos tem o fato de que o popularíssimo presidente Luiz Inácio Lula da Silva não estará mais no centro dos holofotes. n


Artigo

Revisitando o poder da mídia

O

s resultados da pesquisa CNI/Ibope divulgados no dia 16 de dezembro confirmam uma clara tendência dos últimos anos e, ao mesmo tempo, recolocam uma importante questão sobre o poder da grande mídia tradicional. De fato, a aprovação pessoal e a confiança no presidente Lula atingiram novos recordes, 87% e 81%, respectivamente; e a avaliação positiva do governo subiu para 80%, outro recorde [íntegra da pesquisa disponível aqui]. A confirmação dessa tendência ocorre apesar da grande mídia e sua cobertura política do presidente e de seu governo ter sido, ao longo dos dois mandatos, claramente hostil ou, como disse a presidente da ANJ, desempenhando o papel de oposição partidária. Isso significa que a grande mídia perdeu o seu poder? Parece não haver dúvida de que a mídia tradicional não tem mais hoje o poder de “formação de opinião” que teve no passado em relação à imensa maioria da população brasileira. E por que não? Um texto clássico dos estudos da comunicação, escrito por dois fundadores deste campo, ainda na metade do século passado, afirmava que para os meios de comunicação exercerem influência efetiva sobre os seus públicos é necessário que se cumpram pelo menos uma das seguintes três condições, válidas até hoje: monopolização; canalização ao invés de mudança de valores básicos, e contato pessoal suplementar. Com relação à monopolização afirmam: “Esta situação se concretiza quando não se manifesta qualquer oposição crítica na esfera dos meios de comunicação no que concerne à difusão de valores, políticas ou imagens públicas. Vale dizer que a monopolização desses meios ocorre na falta de uma contrapropaganda. Neste sentido restrito, essa monopo-

Por Venício A. de Lima

A grande mídia, em particular a mídia impressa, ainda continua poderosa.

 lização pode ser encontrada em diversas circunstâncias. É claro, trata-se de uma característica da estrutura política de uma sociedade autoritária, onde o acesso a esses meios encontra-se totalmente bloqueado aos que se opõem à ideologia oficial” [cf. Paul Lazarsfeld e Robert K. Merton, “Comunicação de massa, gosto popular e ação social organizada” in G. Cohn, org. Comunicação e Indústria Cultural; CEN; 1ª. ed., 1971; pp. 230-253]. Aparentemente, a monopolização do discurso político “mediado” pela grande mídia – em regimes não-autoritários – foi quebrada pelo enorme aumento das fontes de informação, sobretudo com a incrível disseminação e capilaridade social da internet. Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, quando de sua rápida visita ao Brasil, em abril passado, o fundador do diário espanhol El País, Juan Luis Cebrian, afirmava: “...a internet é um fenômeno de desintermediação. E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado? Do início ao fim da última campanha presidencial americana, circularam pela web algo como 180 milhões de vídeos sobre os candidatos Obama e McCain, mas apenas 20 milhões haviam saído dos partidos Democrata e Republicano. As próprias organizações políticas foram ulwww.revistafale.com.br

trapassadas pela movimentação dos cidadãos. Como ordenar tudo isso? Não sei. (...) ...hoje existem 2 bilhões de internautas no mundo, ou seja, um terço da população planetária já tem acesso à rede. Há 200 milhões de páginas web à escolha do navegante. Na rede, você diz o que quer, quando quiser e a quem ouvir, portanto, o acesso à informação aumentou de forma espetacular. Isso é fato.” A disseminação da internet – ou seja, a quebra do monopólio informativo da grande mídia – aliada a mudanças importantes em relação à escolaridade e à redistribuição de renda que atingem boa parte da população brasileira, certamente ajudam a compreender os incríveis índices de aprovação de Lula e de seu governo, mesmo enfrentando a “oposição” da grande mídia. Isso não significa, todavia, que a grande mídia tenha perdido todo o seu poder. Ao contrário, ela continua poderosa, por exemplo, na construção da agenda pública e na temerosa substituição de várias funções tradicionais dos partidos políticos, vale dizer, do enfraquecimento deles. A grande mídia, em particular a mídia impressa (jornais e revistas), ainda continua poderosa como ator político em relação à reduzida parcela da população que se situa na ponta da pirâmide social e exerce influência significativa nas esferas do poder responsáveis pela formulação das políticas públicas, inclusive no setor das comunicações. O fenômeno Lula, que deixa o poder, como observou um analista, “amado pelo povo e detestado pela mídia”, deve servir, não só para uma reavaliação do papel da mídia de massa tradicional, mas também como horizonte para aqueles que trabalham pela universalização da liberdade de expressão e pela efetivação do direito à comunicação. n Venício A. de Lima é jornalista, sociólogo, mestre, doutor e pós-doutor. DEZEMBRO DE 2010 | Fale

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POLÍTICA

JUSTIÇA JÁ, REVOLU

Segundo o Conselho Nacional de Justiça, o poder judiciário do Ceará é o mais congestionado

LIDERANÇA. Valdetário Monteiro, presidente da OAB-CE, é um dos responsáveis pelo movimento que pretende recuperar a justiça cearense

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ERCA DE 87 MILHÕES DE PROCESSOS SE ENCONTRAM

tramitando na Justiça brasileira – praticamente um processo para cada dois habitantes no país. A taxa de congestionamento no judiciário nacional é de 71%, ou seja, de cada 100 processos abertos, apenas 29 são solucionados no mesmo ano. Esse é o retrato da justiça brasileira divulgado pelo relatório Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça, referente ao ano de 2009. No Ceará, a situação ainda é mais preocupante. O Estado tem o maior índice de congestionamento em processos de segunda instância do país – 89,9%. A gravidade dos dados revelados pelo CNJ exigiu a criação de iniciativas que visassem à diminuição da estagnação do judiciário local. A principal delas partiu da Ordem dos Advogados do Brasil, secção Ceará: o movimento “Justiça Já – Não dá Mais para esperar”. “O movimento não se detém apenas 32 | Fale!

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O movimento não se detém apenas às críticas ao Poder Judiciário, mas apresenta sugestões e soluções para se combater a morosidade do Judiciário. VALDETÁRIO MONTEIRO


UÇÃO NO JUDICIÁRIO

dos Estados brasileiros. Conheça o movimento da OAB-CE que pretende mudar essa realidade às críticas ao Poder Judiciário, mas apresenta sugestões e soluções para se combater a morosidade do Judiciário. Ele será referência e exemplo nacional na luta pela agilidade da Justiça no Brasil”, explica Valdetário Monteiro, presidente da OAB-CE. A luta pela melhora do judiciário cearense começou ainda em junho, quando a OAB-CE, juntamente com suas seccionais, pesquisou o funcionamento das comarcas no interior e na capital. Os problemas identificados foram desde à falta de juízes ao excesso de tercerização de funcionários. “Em Aracati, faltam juízes e servidores. Em Iguatu, a cada dez servidores, apenas dois são do Judiciário. Precisamos não só de magistrados como de técnicos treinados e competentes. Qualquer forma de letargia deve ser considerada grande injustiça”, afirma Valdetário. Na tentativa de solucionar as deficiências identificadas, foi instalado o Fórum Estadual Permanente em Defesa da Justiça – a primeira ação do “Justiça Já”. O objetivo do fórum é apontar soluções para a lentidão dos julgamentos no Estado. “O fórum virá para contribuir com as políticas públicas, fazendo movimento pela agilidade. Esperamos ocupar o espaço institucional que nos cabe, criar consciência da importância da participação de todos os segmentos da sociedade”, disse Edmir Martins, coordenador da iniciativa. De acordo com ele, o fórum terá a composição de pelos menos 11 grupos da OAB-CE e representantes do poder público, da imprensa e da sociedade civil organizada. Em novembro, as iniciativas do “Justiça Já” atingiram seu ápi-

Tenho muito orgulho da advocacia do Ceará e espero que esse movimento sirva como exemplo para todas as Seccionais do Brasil se engajarem na luta por uma justiça melhor. OPHIR CAVALCANTE, presidente nacional da OAB

ce com o ato cívico realizado em frente ao Fórum Clóvis Beviláqua, um dos símbolos do poder judiciário cearense. O movimento reuniu mais de 500 pessoas. Entre elas, o presidente nacional da OAB, Ophir Cavalcante, que participou da caminhada que partiu do fórum em direção ao Palácio Iracema. Após a manifestação, o presidente nacional da OAB e a diretoria da OAB-CE entregaram ao governador Cid Gomes um documento contendo sugestões para acabar com a morosidade do Judiciário cearense, durante reunião realizada na residência oficial do governador. Dentre as ações reivindicadas pela OAB-CE estão a realização de concursos públicos para a contratação de servidores e de novos juízes, ampliação de 30% do orçamento do Poder judiciário, promoção da Semana da Sentença e www.revistafale.com.br

criação de novas comarcas do Tribunal de Justiça. A reunião foi uma oportunidade para que o movimento manisfestasse ao governador a preocupação de entidades como a OAB com o a falta de agilidade do poder judiciário cearense, evidenciada pelo relatório do CNJ, e a necessidade de que medidas urgentes fossem tomadas para reverter a situação. “O Judiciário no Ceará precisa de um choque de gestão já”, sustentou Ophir ao participar de audiência com o governador. Diante das reinvindicações, Cid Gomes mostrou-se solícito e declarou apoio ao “Justiça Já”. O governador afirmou ter conhecimento dos problemas da Justiça, embora não estivesse ciente da gravidade da situação até a visita dos advogados, e se comprometeu a analisar e a tomar as providências que estiverem ao alcance do executivo cearense. Segundo o presidente da OAB nacional, a iniciativa da seccional cearense é um momento histórico, não apenas para a OAB-CE, mas para toda a advocacia brasileira. “Justiça Já é um movimento a partir dos anseios da sociedade, e o advogado, como integrante da Justiça, pede que o Judiciário saia desse estado de letargia e sirva à sociedade”, pontuou Ophir. Mas, para ele, é necessário que o judiciário também faça a sua parte. “Tenho muito orgulho da advocacia do Ceará e espero que esse movimento sirva como exemplo para todas as Seccionais do Brasil se engajarem na luta por uma Justiça melhor”.

Interior do Ceará.

Também o interior do Estado sofre com a falta de agilidade do poder judiDEZEMBRO DE 2010 | Fale

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POLÍTICA

COM O GOVERNADOR. A diretoria da OAB-CE apresentou um documento com reinvindicações ao governador Cid

OS NÚMEROS DO JUDICIÁRIO ESTADUAL O relatório Justiça em Números do Conselho Nacional de Justiça mediu o congestionamento dos poderes judiciários estaduais em processos de segunda instância. Na lista, o Ceará é líder Ceará Roraima Pernanbuco São Paulo Tocantins Acre Rio de Janeiro Minas Gerais Pará Mato Grosso do Sul Sergipe Bahia Rio Grande do Norte Mato Grosso Espírito Santo Amazonas Amapá Rondônia Santa Catarina Prananá Paraíba Rio Grande do Sul Goiás Distrito Federal Alagoas Piauí Média Total

nd* nd*

78,8% 68,5% 64,7% 60,4% 58,1% 56,5% 51,8% 50,7% 47,3% 46,5% 45,8% 41,9% 41,6% 40,9% 38,2% 35,4% 32,1% 29,8% 28,7% 26,6%% 24,9% 20,2% 17,3%

89,9%

50,5%

* Dados não disponíveis FONTE: CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA

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ciário. No Crato, por exemplo, as Comarcas vinculadas a Subsecção da OAB Crato enfrentam acúmulo de processos, número reduzido de servidores nos Fóruns, demora na remessa de recursos ao Tribunal de Justiça, além de não cumprimento dos horários agendados para realização de audiência. Não demorou muito, portanto, para que os integrantes da subsecção localizada na região do Cariri aderisse em “Justiça Já”. O Fórum Hermes Parayba foi palco da realização de um ato cívico promovido pela ordem na região do Crato. A manifestação contou com a presença de advogados e advogadas caririenses e representantes de entidades civis organizadas. Na ocasião, o presidente Subsecção, Fabrício Siebra Felício Calou, entregou manifesto de apoio ao “Justiça Já” ao diretor do Fórum, Francisco José Mazza Siqueira, e solicitou medidas urgentes para acabar com a morosidade na prestação jurisdicional. Dentre as propostas, estão a implantação da Vara que foi destinada por lei à Comarca do Crato; o retorno dos dois expedientes forense; a contratação de novos serviços e um mutirão para julgamento dos feitos cíveis e criminais que há anos estão adormecidos nas estantes das Secretarias das Varas de Justiça. n


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2 011 UM FREIO NO PIB

Economia

A estimativa da CNI para a expansão da economia é de 4,5% em 2011, em contraponto dos 7,5% de crescimento do Produto Interno Bruto — PIB em 2010. Três fatores explicam esse ritmo de crescimento: consumo das famílias, investimentos e setor externo

O

BRASIL RETOMOU O CICLO DE EXPAN-

são interrompido com a crise internacional. O crescimento de 7,6% do PIB em 2010 é, inclusive, o mais expressivo da década. A indústria mostra o melhor desempenho entre os setores de atividade. Esta são algumas informações relevantes do documento “Perspectiva da Economia Brasileira 2010-2011”, da Confederação Nacional da Indústria. Ali, entre outras coisas está a projeção de crescimento de 4,5% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2011 e uma estimativa de expansão de 7,6% em 2010.

Segundo a CNI, o fim das desonerações tributárias adotadas para atenuar os efeitos da crise econômica, o Programa de Sustentação do Investimento do BNDES e as restrições ao crédito ao consumidor devem diminuir o 36 | Fale!

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ritmo de expansão do consumo em 2011. Um dos principais responsáveis pela queda é o consumo familiar. Ele, que foi o carro chefe da elevação do PIB em 2010 – considerado pela CNI como o mais expressivo da década – deverá crescer 5,1% em 2011, em oposição à expasão de 7,9% alcançada em 2010. Outros indicadores registrarão, igualmente, desaceleração no próximo ano, conforme das estimativas da entidade. A indústria, cujo PIB fechou 2010 com um incremento de 10,9%, irá aumentar 4,5% este ano, enquanto os investimentos, que se expandirão 24,5% e representam um grande fator no aumento do PIB em 2010, devem reduzir seu crescimento quase pela metade em 2011, com um aumento de 13,5%. A inflação, que deve atingir 5,8% este ano – bem acima do centro da meta inflacionária de 4,5% –, cairá a 5% em 2011, pressionada pelos preços dos alimentos, prevê a CNI. A taxa nominal de juros subirá de 10,75% este ano para 12% no próximo ano, enquanto o juro médio real se elevará de 4,6% para 6,3%. A taxa de desemprego irá diminuir em quase um ponto percentual, refluindo de 6,8% da População Economicamente Ativa (PEA), em 2010, para 6% no ano que vem. A edição especial do Informe Conjuntural projeção que o déficit público nominal crescerá de 2,9% do PIB, este ano, para 3,2% em 2011, e o superávit público primário cairá de 2,3% para 2,2% do PIB. Já a dívida pública líquida registrará ligeiro decréscimo, atingindo 40,8% do PIB em 2010 e 40,4% em 2011. As exportações, que devem fechar este ano em US$ 198 bilhões, subirão para US$ 228 bilhões no próximo ano, mas a elevada expansão das importações, que passarão de US$ 183 bilhões a US$ 224 bilhões, pela valorização do câmbio, reduzirá drasticamente o saldo comercial. Prevê a CNI que o superávit da conta de comércio cairá de US$ 15 bilhões este ano para US$ 4 bilhões em 2011. A taxa nominal de câmbio não deve se alterar, permanecendo em R$ 1,70 agora e no final de 2011.

Investimentos estrangeiros

O fluxo de investimento estrangeiro direto continuará forte em 2011, devido à maior atratividade do Brasil no cenário internacional. Esse tipo de investimento, que somou US$ 25,9 bilhões em 2009 e U$ 30 bilhões

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em 2010, deverá chegar à sifra de US$ 45 bilhões em 2011. Esse volume é o responsável por financiar parcialmente o déficit em conta corrente que, hoje, é de cerca de US$ 48 bilhões, no acumulado em 12 meses. A entrada de capitais estrangeiros, entretanto, continuará com o processo de valorização do real, dificultando um crescimento mais

intenso da produção industrial doméstica. Segundo o documento da Confederação Nacional da Indústria, o papel do governo será, portanto, o de investir em medidas de contenção de curto prazo para impedir a valorização do real em 2011, como acúmulo de reservas e aumento das tributações sobre carteira.

A década de ouro

A economia brasileira deverá encerrar o ano de 2010 com o maior nível de crescimento econômico das últimas duas décadas, com taxa ao redor de 7,5%. Para que o Brasil atinja essa marca será necessário apenas que o PIB tenha desempenho de 5% no último trimestre do ano quando

Câmbio e competitividade Há um descompasso entre a evolução da demanda doméstica e a evolução da produção. O forte ritmo de expansão do investimento e do consumo não tem alcançado na mesma intensidade a produção da indústria de transformação. Essa avaliação fica nítida no segundo semestre, quando o crescimento da indústria se reduziu. A valorização cambial está na raiz desse problema. Reverter esse processo não é

trivial. O câmbio valorizado tem suas funções na economia. De um lado, favorece o controle da inflação e o acesso a bens e insumos importados. De outro, viabiliza a absorção de poupança externa em uma economia de baixa taxa de poupança. Essa situação é uma ameaça ao processo de crescimento sustentado. A provável alta dos juros, em resposta à aceleração da inflação, irá criar maior pressão sobe o câmbio, exacerbando as dificuldades de competição dos produtos brasileiros. Restrições à

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competitividade limitam crescimento da indústria O balanço da manufatura nos dois anos pós-crise mostra que os segmentos sujeitos à competição internacional, tanto nos mercados globais como no mercado doméstico, seguem em dificuldades. As perdas são concentradas na indústria, o que torna sua percepção pela sociedade mais difícil. A continuidade desse processo terá como consequência uma indústria menor e menos diversificada. n

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PERSPECTIVAS DA ECONOMIA BRASILEIRA 2010 - 2011 O crescimento do consumo doméstico deverá se sobrepor à demanda externa como principal estímulo de crescimento da economia. Outro ponto positivo é a recuperação dos emergentes 2008

2009

2010 estimativa

2011 projeção

Atividade econômica PIB (variação anual) PIB industrial (variação anual) Consumo das famílias (variação anual) Formação bruta de capital fixo (variação anual) Taxa de Desemprego (média anual - % da PEA)

5,2%

-0,6%

7,6%

4,5%

4,1%

-6,4%

10,9%

4,5%

5,7%

4,2%

7,9%

5,1%

13,6%

-10,3%

24,5%

13,5%

9,3%

7,9%

6,8%

6%

4,3%

5,8%

5%

Inflação Inflação (IPCA - variação anual)

5,9%

Taxa de juros Taxa nominal de juros (taxa média do ano) (fim do ano) Taxa real de juros (taxa média anual e defl: IPCA)

12,45% 13,75%

10,13% 8,75%

9,90% 10,75%

11,84% 12%

6,4%

5%

4,6%

6,3%

Contas públicas* Déficit público nominal (% do PIB) Superávit público primário (% do PIB) Dívida pública líquida (% do PIB)

2,06%

3,38%

2,90%

3,20%

3,45%

2,06%

2,30%

2,20%

38,9%

43,4%

40,8%

40,4%

1,70 1,76

1,70 1,70

198 183 15 -50

228 224 4 -70

Taxa de câmbio Taxa nominal de câmbio - R$/US$ (média de dezembro) (média do ano)

2,39 1,83

1,75 1,99

Setor externo Exportações (US$ bi) Importações (US$ bi) Saldo comercial (US$ bi) Saldo em conta corrente (US$ bi)

197,9 173 25 -28,2

153 1w 25,3 -24,3

* Não inclui as empresas dos Grupos Petrobras e Eletrobras FONTE: CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA — CNI

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confrontado com o mesmo período de 2009. No entanto, para o PIB atingir os 8% projetado pelo governo federal, em especial pelo ministro Guido Mantega, será necessário que o PIB apure desempenho de 7% no último trimestre, fato que não é nenhum desatino, mas com baixa probabilidade de ocorrência considerando que a taxa já está em desaceleração desde o segundo trimestre. O carro chefe deste crescimento quase-chinês ficará a cargo dos setores industrial e de serviços, ambos apoiados sobre o estímulo fiscal e monetário empenhado pelo governo federal ao longo de 2009 e 2010. Dessa forma, o Brasil deverá encerrar o ano de 2010 como a 8ª maior economia do mundo, e já em 2011 deverá ultrapassar com facilidade a Itália e ocupar a 7ª posição, refletindo tanto a debilidade do país europeu como a forte valorização do real que potencializa o PIB em dólares. Além de toda comemoração que o governo Lula fará ao passar o bastão para Dilma, e transferir parte de seu capital político pelas condições econômicas que se encontra o País, a nova comandante terá pela frente, de acordo com especialistas, uma “década de ouro”, graças às condições internacionais favoráveis ao Brasil, proporcionadas por eventos de relevância mundial como a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Situação heterogênea

A crise internacional, que se instaurou após setembro de 2008, ocasionou uma série de problemas à indústria de transformação brasileira. Passados dois anos do início desse período, pode-se avaliar, a partir dos dados relativos à produção, exportação, importação, faturamento e emprego, como os diversos setores da indústria se encontram. A principal conclusão é a grande heterogeneidade de recuperação dos diversos setores da indústria de transformação em relação ao período pré-crise (acumulado de janeiro-setembro de 2008). Constata-se que existe espaço para reabilitação da produção e das exportações em determinados ramos e uma entrada considerável de produtos impor-


Taxa de crescimento da produção Ao verificar a variação entre janeiro/setembro 2010 e janeiro/ setembro 2008 (%), vê-se que diversos setores da economia ainda não se recuperaram totalmente da crise Bebidas Farmacêuticas Perfum., sabões, deterg. e prod. de limpeza Outros equip. de transporte Equip. de instrum. méd. -hospitalar, ópticos e etc Alimentos Produto de metal Minerais não metálicos Mobiliário Diversos Celulose, papel e prod. de papel Outros prod. químicos Veículos automotores Máquina para escrit. e equip. de informática Edição, impr. e reprod. de gravações Refino de petróleo e álcool Máquinas e equipamentos Vestuário e acessórios Borracha e plástico Têxtil Calçados e artigos de couro Metalurgia básica Madeira Fumo Máq., apar. e materiais elétricos Material elétr., apar. e equip. de cominicações -30

-20

-10

0

10

20

30

FONTE: PIM_IBGE

tados em diversos segmentos industriais. Analisando os efeitos da crise em cada setor a partir da produção industrial (PIM-PF-IBGE), tem-se o seguinte cenário: na comparação com o ano de 2009, dos 26 setores analisados, 24 apresentam crescimento da produção, com destaque para Máquinas e equipamentos, Veículos automotores, Produtos de metal e Metalurgia básica – todos com taxa de crescimento superior a 20% na comparação entre janeiro e setembro de 2010 e 2009. Os dois primeiros setores receberam fortes estímulos de políticas públicas no período de crise, como redução de impostos (IPI) e/ou juros mais baixos. Todavia, na comparação entre o período de 2010 e

2008, dos 26 setores, 12 apresentam taxa negativa, ou seja, não recuperaram o nível de produção do pré-crise. O documento da CNI aponta que os principais ramos industriais com produção inferior ao período pré-crise são Material eletrônico, aparelhos e equipamentos de comunicações, máquinas, aparelhos e materiais elétricos, fumo, madeira e metalurgia básica — todos com nível 5,0% inferior a 2008. Na mesma base de comparação, os setores que melhor se recuperaram são bebidas, Farmacêutica, Perfumaria, sabões, detergentes e produtos de limpeza e outros equipamentos de transporte – com taxas de crescimento superiores a 5,0%. Esses setores — à exceção de Outros equipamentos de transporte — estão

ligados ao aquecimento da economia doméstica e ao crescimento do poder de compra da classe C. Outro indicador importante da evolução dos setores da indústria é o valor das exportações e das importações (SECEX-MDIC). Os dados das exportações no acumulado janeiro-setembro demonstram que, dos 22 setores analisados, apenas dois apresentam queda entre 2010 e 2009. Frente ao mesmo período de 2008, 19 desses 22 setores exibem variação negativa nas exportações. Essa situação realça a perda de mercado externo das indústrias nacionais, refletindo tanto o câmbio apreciado, como a queda de dinamismo do comércio internacional. Os setores com queda mais expressiva nas exportações (superior a 20,0%) frente a 2008 são Outros equipamentos de transporte, Material eletrônico e de comunicações, Produtos de madeira, Confecção de artigos do vestuário e acessórios, Metalurgia básica (um dos principais setores da pauta de exportação nacional) e Edição, impressão e reprodução de gravações. Os três setores com crescimento das exportações em relação a 2008 são Celulose, papel e produtos de papel, Produtos alimentícios e bebidas e Produtos químicos – setores com grande participação na pauta de exportação brasileira. Nas importações o cenário é de aumento do valor importado para todos os setores frente a 2009. Em relação ao mesmo período de 2008, dos 22 setores pesquisados, 17 cresceram. Esse fato demonstra o aumento da entrada de produtos importados de variados setores da indústria de transformação na economia nacional, que ocorreu em função principalmente do câmbio valorizado e do aquecimento do mercado doméstico. Os setores em que as importações superaram o período pré-crise em mais de 20,0% são Confecção de artigos do vestuário e acessórios, Veículos automotores, reboques e carrocerias, Produtos de minerais não-metálicos, Máquinas, aparelhos e materiais elétricos, Móveis e indústrias diversas e Produtos têxteis. Esses são segmentos da indústria que, na sua maioria, estão fortemente ligados ao atendimento do mercado interno. n


2 011 MANTEGA, Sob Dilma, o ministro da Fazenda Guido Mantega adota discurso repaginado. Pragmático ele deverá assumir, no novo governo, o papel de gestor austero das contas públicas, avaliam especialistas. Por Francisco Carlos de Assis e Ricardo Leopoldo

GUIDO MANTEGA É UM SOLDADO

do PT. Se a presidente eleita Dilma Rousseff pedir para ele viabilizar um superávit primário de mais de 3,1% do PIB em 2011, ele certamente vai cumprir essa missão.” O comentário do cientista político Carlos Melo, professor do Insper, sintetiza a avaliação dos especialistas ouvidos pela Agência Estado sobre a mudança de discurso — para um viés mais fiscalista — que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, passou a adotar assim que foi convidado por Dilma para permanecer

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UM NOVO DISCURSO no comando dessa pasta. Segundo o diretor do Eurasia Group para a América Latina em Nova York, Christopher Garman, o ministro da Fazenda é pragmático e deverá assumir, no novo governo, o papel de gestor austero das contas públicas. Isso porque, continua Garman, esta é a orientação da presidente eleita Dilma Rousseff: “Mantega tem um perfil de executor de medidas, não é um formulador.” Na avaliação dos agentes econômicos, Mantega se tornou nos últimos dois anos numa autoridade pública menos preocupada com o equilíbrio das contas federais e mais empenhada em levar o País a um crescimento muito forte, sobretudo num ano eleitoral e sob o comando do popularíssimo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com o próprio ministro, o crescimento deve chegar perto de 8%, “para fechar 2010 com chave de ouro”. Na entrevista coletiva realizada recentemente em Brasília, na qual foi feito um balanço dos quatro anos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Mantega disse que o governo vai diminuir as despesas de custeio da máquina administrativa. Segundo ele, tal postura será necessária para que o Banco Central possa reduzir os juros e ampliar os investimentos no País. O ministro ressaltou que a meta do superávit primário para 2011 é de 3,1% do Produto interno bruto e será cumprida à risca. Para o economista Felipe Salto, da Tendências, o ministro Guido

dos agentes econômicos em relação ao compromisso de Dilma Rousseff de administrar bem o caixa federal até 2014. Para o economista da Tendências, o superávit das receitas sobre as despesas deve avançar em 2011, mas não deve atingir o objetivo de 3,1% do produto interno bruto, pois deve chegar a 2,6% do PIB. “Se a meta de 3,1% do PIB de superávit for atingida no ano que vem será um bom sinal de que o governo estará engajado para melhorar a eficiência das contas públicas, o que é fundamental para permitir que o BC corte os juros no médio prazo”, disse. “O mandato de um ministro está atrelado a resultados, inclusive na área fiscal. Se Mantega não cumpri-los, sua permanência no novo governo será curta”, avalia o professor Carlos Melo.

É preciso que o governo apresente uma proposta formal à sociedade sobre como vai conter os gastos. Há sinais fortes de que o novo governo deve anunciar no começo de janeiro, logo após a posse, um programa Desconfiança Apesar da mudança do discurso do ministro Manfiscal bem rígido. tega sinalizar o compromisso com a Mantega merece o “benefício da dúvida” quanto à elevação do superávit primário em 2011. “É preciso, contudo, que o governo apresente uma proposta formal à sociedade sobre como vai conter os gastos”, disse. De acordo com um diretor de um grande banco internacional que atua em Nova York “há sinais fortes de que o novo governo deve anunciar no começo de janeiro, logo após a posse, um programa fiscal bem rígido” com o objetivo de conquistar a confiança www.revistafale.com.br

austeridade fiscal, alguns analistas econômicos veem essa repaginação com certa desconfiança. O ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendência Consultoria Integrada, Mailson da Nóbrega, prefere dar um crédito de confiança à Dilma e a Mantega no quesito política fiscal: “Prefiro dar a eles um crédito de confiança. Pelo menos o benefício da dúvida.” No entanto, avalia que as dúvidas ainda são muitas porque “continua na Fazenda o ministro responsável por uma grande deterioração da política fiscal” nos últimos oito anos. O que tem deixado os analistas um tanto céticos com a mudança DEZEMBRO DE 2010 | Fale

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CRÉDITO. Mailson dá crédito de confiança ao novo Governo  FOTO DIVULGAÇÃO

de discurso de Mantega é o fato de que o próprio ministro e a presidente eleita (que comandou a Casa Civil do governo Lula) — que agora fazem um discurso com viés austero - são os mesmos que afiançaram a política expansionista do governo do presidente Lula. Na avaliação do professor da

Prefiro dar a eles um crédito de confiança. Pelo menos o benefício da dúvida.” No entanto, as dúvidas ainda são muitas porque “continua na Fazenda o ministro responsável por uma grande deterioração da política fiscal. 42 | Fale!

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PUC-SP, Antônio Corrêa de Lacerda, do ponto de vista político é normal que um governo em final de mandato não queira tomar medidas impopulares e é mais aceitável que um governo em início de mandato tome medidas amargas. “Então vejo este discurso como uma diretriz, certamente dada pela própria Dilma, que não quer correr o risco, principalmente na área fiscal, o que implicaria em alguma forma de ajuste”, diz. Além disso, continua Lacerda, as decisões na área econômica têm de serem olhadas muito em função do contexto. Lula, de acordo com ele, teve como um dos seus principais desafios vencer a crise. Mas Dilma vive outro momento. “Nós estamos vivendo uma guerra cambial, internacional, o Brasil terá um crescimento razoável neste ano, mas cujo desafio é garantir uma sustentabilidade. Então, ela precisa de mais realismo. Tem que pensar mais com a cabeça de economista, com mais racionalidade”, defende. O economista-chefe da Prosper Corretora, Eduardo Velho, acredita que pelo menos boa intenção a equipe econômica de Dilma tem. “Me parece que estão debruçados sobre as planilhas procurando uma forma de reduzir as despesas desde que foi formada a equipe de transição do governo Dilma”, diz ele. A questão, de acordo com Mailson da Nóbrega, é saber se o que a presidente eleita tem defendido “vem mesmo do coração” ou é apenas a repetição do que escreveram para ela. n www.revistafale.com.br


2 011 INDÚSTRIA AMEAÇADA? O Brasil não está em processo de desindustrialização? Para uns é “simplista” a avaliação segundo a qual o incremento dos importados no Brasil em 2010 necessariamente significa uma onda de desindustrialização no País Por Ricardo Leopoldo

O

BRASIL NÃO ESTÁ EM PROCESSO

de desindustrialização. Esta é uma avaliação comum entre autoridades do governo, como o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, acadêmicos, como os professores Fernando Sarti, da Unicamp, e Antônio Correa de Lacerda, da PUC-SP, e analistas, entre eles o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. “A indústria criou, pelo menos, quatro milhões de empregos entre 2003 e 2010”, comentou Sarti.

Com base em dados do IBGE dessazonalizados, Sarti apontou que a produção do setor manufatureiro de transformação avançou 30,16% em termos reais www.revistafale.com.br

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ECO N O MI A & NEG Ó CI O S cou que tal expansão das indústrias de máquinas e equipamentos nacionais reflete que companhias de todos os setores, como os produtores de alimentos, roupas, eletrodomésticos e carros, estão produzindo bem mais para atender o incremento do consumo da população nacional nos últimos seis anos. Luciano Coutinho não acredita que as indústrias estão perdendo participação relativa na formação do PIB. Contudo, ele aponta que os setores manufatureiros compõem um complexo fabril grande, diversificada e que precisa ser fortalecido. “Nós não podemos ter uma estrutura produtiva só calcada nas commodities”, comentou. “Não podemos esquecer a indústria manufatureira e os serviços sofisticados”, afirmou.

CRÉDITO. Mailson dá crédito de confiança ao novo Governo  FOTO DIVULGAÇÃO

entre janeiro e março de 2003 e o terceiro trimestre deste ano. “Estes dados indicam que não há um movimento clássico de desindustrialização, que se caracteriza pelo esvaziamento da atividade e geração de postos de trabalho pelas empresas do setor”, comentou. Sarti destacou que é “simplista” a avaliação segundo a qual o incremento dos importados no Brasil neste ano necessariamente significa uma onda de desindustrialização no País, como afirma a Fiesp e a CNI. “É preciso avaliar que a partir de 2004, a economia nacional começa a crescer com o grande reforço do mercado doméstico, que passou a elevar de forma expressiva a demanda agregada”, comentou. “Desde 2006, os investimentos em toda a economia cresceram em maior velocidade que o PIB por 19 trimestres seguidos, o que dá uma dimensão de quanto as indústrias passaram a ser mais relevantes no desenvolvimento do nível de atividade interno”, ressaltou. Para o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Miguel Jorge, a Fiesp está errada ao dizer que há desindustrialização no Brasil. “Um País que importa US$ 125 bilhões em máquinas e equipamentos, em que o desemprego chega a 6,1% e a indústria produz a pleno vapor, com resultados trimestrais apontando que nunca tiveram tanta rentabilidade, falar em desindustrialização é um paradoxo”, afirmou. “Mesmo com a entrada de má44 | Fale!

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Importados

Um País que importa US$ 125 bilhões em máquinas e equipamentos, em que o desemprego chega a 6,1% e a indústria produz a pleno vapor, com resultados trimestrais apontando que nunca tiveram tanta rentabilidade, falar em desindustrialização é um paradoxo.

quinas no País em maior volume, o setor que engloba fabricantes destes equipamentos é um dos que está mais crescendo no Brasil”, disse o professor Fernando Sarti Ele destawww.revistafale.com.br

Mas o forte ingresso de importados, que para essas autoridades e analistas ainda não trouxe a desindustrialização para o País, não pode persistir no longo prazo. Se isso ocorrer, poderá sim haver impactos sobre as fábricas nacionais e sobre os milhares de empregos. O mesmo argumento é reforçado por entidades empresariais do setor, como Fiesp e CNI, que, ao contrário das avaliações feitas, enfatizam com vigor que a desindustrialização no País já avança rápido. Na avaliação dos especialistas, a indústria nacional enfrenta um assédio “preocupante” de concorrentes internacionais por causa de dois fatores. Um deles é o câmbio valorizado. De acordo com a série temporal do BC 11.753, a cotação efetiva do real ante o dólar em outubro de 2010 apresentava uma apreciação de 32,29% ante junho de 1994. “O câmbio é um problema muito sério que prejudica a capacidade de competição muito difícil das empresas nacionais do setor com suas concorrentes internacionais”, comentou Sérgio Vale. Um outro elemento importante é a fraca recuperação da economia mundial, que leva muitos países desenvolvidos a exportarem com avidez para manter os empregos de fábricas que não conseguem vender produtos nos seus mercados domésticos. De acordo com o IBGE, os importados apresentaram uma alta


de 7,4% no terceiro trimestre ante abril e junho deste ano, enquanto subiram 40,9% em relação aos mesmos três meses de 2009. Tal velocidade foi bem superior à registrada pelas exportações, pois de julho a setembro de 2010 subiram 2,4% na margem e aumentaram 11,3% em comparação ao mesmo período do ano passado. O professor Ricardo Carneiro salienta que embora boa parte das mercadorias importadas seja de máquinas e equipamentos que ajudam a expandir a produção nacional, algumas indústrias estão perdendo a capacidade de operar em razão da disputa cambial bastante desigual. “Se o yuan apresenta perto de 30% de depreciação ante o dólar e o real está sobrevalorizado em quase 30% em relação à moeda norte-americana, isso gera uma diferença de 60% a favor da mercadoria chinesa que ingressa no Brasil ou compete com o produto nacional no exterior”, ressaltou o professor Antônio Correa de Lacerda. Carneiro, Lacerda e outros economistas destacam que, no curto prazo, a solução para este problema deve começar pela redução da força do real ante o dólar. E tal mudança no câmbio, segundo eles, requer redução gradual e continua dos juros reais, que estão hoje ao redor de 6%. A presidente eleita Dilma Rousseff (PT) quer reduzir tais taxas para 2% em 2014. De acordo com o novo governo, um ajuste fiscal pouco superior a 3% do PIB, a começar em 2011, é necessário para que nos próximos quatro anos tal redução dos juros se torne um fato. n  O ano de 2010 registrou um forte

crescimento da economia brasileira, com o PIB se expandindo 7,6% (estimativa CNI). O intenso crescimento econômico se deu mesmo com uma trajetória de perda de ritmo a partir do segundo trimestre. O crescimento do PIB só não foi maior, basicamente, por duas razões: a) grande parte das medidas de desoneração tributária foram suspensas no fim do primeiro trimestre; e b) a valorização do real fez parte do crescimento da demanda doméstica escoar para o setor externo — via aumento das importações.

Comércio exterior brasileiro recupera níveis pré-crise Em 2010, o real manteve tendência de valorização frente ao dólar – ainda que menos intensa que nos últimos anos – o que deixou a moeda em patamar apreciado. A taxa de câmbio R$ / US$ valorizou 2,9% entre dezembro de 2009 e dezembro de 2010 e acumula valorização de 28% na comparação com dezembro de 2008. A taxa de câmbio real em relação à cesta das moedas dos 13 principais parceiros comerciais do país acumula valorização de 25% na mesma comparação. Medidas de curto prazo foram utilizadas para impedir maior valorização do real em 2010. Das principais, destaca-se a aquisição, pelo Banco Central, de US$ 46,8 bilhões em reservas entre janeiro e novembro de 2010, que totalizaram, no início de dezembro, US$ 286,4 bilhões. O governo ainda

reinstituiu o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para investimentos estrangeiros em renda fixa e ampliou a alíquota. As medidas limitaram a valorização do real, mas pouco fizeram para tirar a taxa de câmbio do patamar apreciado onde se encontra, pois as razões para a valorização do câmbio permanecem. A lenta recuperação da atividade econômica dos países desenvolvidos provocou uma intensificação no uso de políticas monetárias expansionistas nesses países com o objetivo de conter os efeitos da crise econômica. Essa prática, contudo, gera desequilíbrios para as cotações entre as diferentes moedas. Os Estados Unidos, em particular, mantêm juros baixos e injetam bilhões de dólares em sua economia, o que gera a tendência de desvalorização da moeda norte-americana. A

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valorização é intensificada no Brasil pela elevada diferença entre a taxa de juros doméstica e as internacionais, o que continua a exercer forte estímulo para a entrada de capital de curto prazo. Além disso, os países emergentes – e em especial o Brasil – exibiram ao longo do ano uma recuperação econômica mais intensa do que as economias mais desenvolvidas, o que estimula investimentos externos e a entrada de moeda estrangeira. As exportações brasileiras, que haviam recuado aos níveis de 2007 no fim de 2009, registraram crescimento de 31% no acumulado em 2010 até novembro, totalizando US$ 181 bilhões. A taxa de expansão das vendas externas mantém-se acima de 30% desde agosto, de forma que as exportações deverão fechar o ano em torno de US$ 198 bilhões. n DEZEMBRO DE 2010 | Fale

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ECO N O MI A & NEG Ó CI O S

2 011 A INTERN O presidente executivo da Sony, Howard Stringer,tem como meta conseguir um lucro operacional de 160 bilhões de ienes ( US$1,7 bilhão) no ano até março de 2011, contra um lucro de 31,8 bilhões de ienes no ano anterior. Uma estratégia para isso é um novo perfil de TV trazendo a internet para dentro. Um risco é a empresa precisar enfrentar um acúmulo de estoques à medida que a competição se acirra ao final do ano caso a economia desacelere.

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1 RNET INVADE A SUA TV

E

M SUA PRIMEIRA VISITA AO BRASIL, o

presidente mundial da Sony, o britânico de 68 anos, Howard Stringer falou sobre a importância da convergência entre mídia dos produtos da companhia. Depois de amargar prejuízos financeiros, a empresa japonesa tenta inovar transformando seus produtos em aparelhos multimídias. Um dos maiores sucessos de vendas da empresa, o Walkman, virou sucata depois da chegada do iPod e o seu maior sucesso atual, o videogame PlayStation, vem perdendo espaço para o Xbox da Microsoft.

Stringer, primeiro presidente não japonês a assumir a presidência da companhia, acredita que para voltar à liderança no mercado de eletrônicos, é preciso integrar as mídias e proporcionar serviços mais atraentes aos novos consumidores. O foco da empresa agora está voltado para o desenvolvimento de TVs de alta definição com acesso à Internet e tecnologia 3D. Na última edição da Copa do Mundo realizada na África do Sul, a Sony transmitiu boa parte dos jogos com a tecnologia 3D. O próximo passo da companhia é investir em aparelhos com IPTV (Internet Protocol Television) que irá proporcionar imagem e som de ótima qualidade que utiliza o protocolo da Internet para enviar sinal através da própria rede. Em parceria com as gigantes da informática, a Sony se uniu ao Google e à Intel no projeto do Google TV. A intenção da marca é levar a mesma experiência da internet para a TV. O aparelho desenvolvido pela Sony chegou ao mercado americano em outubro desse ano e dispõe de modelos de 24, 32, 40 e 46 polegadas. Em-

presas como as redes NBC e HBO e os jornais The New York Times e USA Today já confirmaram a produção de conteúdos para o projeto. O serviço do Google TV permite aos usuários, baixar aplicativos diretos da TV, gravar seus programas favoritos e ainda utilizar o celular como controle remoto. Para isso, é necessário ter a TV da Sony com acesso à Internet ou um aparelho adaptador que já vem com um teclado parecido com o do computador. Os preços das TVs variam entre U$ 600 e U$ 1.400 e o receptor da marca Logitech Revue custa U$ 300. A Sony Internet TV já pode ser encontrada no Brasil em alguns aparelhos da linha Bravia e nos leitores de Blu-ray da marca, mas o Google TV ainda não tem data para chegar ao Brasil. Por aqui, o PlayStation 3, novo console da Sony lançado no segundo semestre de 2010, é um exemplo de interatividade da marca. O PS3, como é conhecido, é mais do que um videogame é uma verdadeira central de entretenimento que une jogos, leitor de Blu-ray, e uma central digital, a Playstation Network, uma rede de aplicativos para jogar online com outros usuários e baixar jogos, inclusive em 3D. Tudo isso sem fios. A Sony tenta conquistar o espaço perdido na era digital se reposicionando no mercado. Para isso, o atual presidente precisou solucionar os problemas internos da companhia. Stringer utilizou a comunicação para integrar os diversos setores da empresa. Anteriormente, os engenheiros e os designers, por exemplo, trabalhavam separados. Ele também decidiu aproximar a divisão de eletrônicos com a de entretenimento, oferecendo não só produtos mas também serviços. A multinacional japonesa Sony emprega hoje mais de 167 mil funcionários no mundo inteiro e fatura cerca de 130 bilhões de reais anuais. A companhia tenta recuperar a liderança no mercado de eletrônicos de olho nos avanços tecnológicos sob a plataforma da interatividade e conectividade de seus produtos. Howard Stringer foi presidente da CBS e começou sua carreira na Sony em 1997 como presidente da filial americana. Em 2005, ele assumiu a presidência mundial da companhia.

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O M U S CON

 NEXUS S

Eu quero! Confira os principais lançamentos no mercado do luxo, tecnologia e design  DRINKS

PRECIOSOS

Cosmopolitan, Mojito e Sex on the Beach já são drinks consagrados. No entanto, você nunca deve ter visto a coleção Limelight da Piaget, que criou jóias inspiradas neles. É de dar água na boca!

BEAUTY POR CALVIN KLEIN

Calvin Klein Fragrances US$ 50 – 30 ml A grife americana Calvin Klein apresentou sua mais nova fragrância feminina: Calvin Klein Beauty. Desenvolvida pelos perfumistas Sophie Labbé e Carlos Benaim, a fragrância é formada por notas de abelmosco, jasmin atemporal e cedro. A campanha publicitária foi estrelada pela atriz Diane Kruger.

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US$ 529 (desbloqueado) O smartphone Nexus S desembarcará no Brasil somente no primeiro trimestre de 2011 e já é o lançamento mais esperado da Samsung no país. Versão atualizada do excepcional Nexus One, o Nexus S já vem com a nova atualização 2.3 do Android, sistema operacional do Google. Ele chegará no mercado americano no dia 16 de dezembro e promete ser a febre do natal.

UR-103T SHINING T  Fabricado com a tecnologia AlTin – uma mistura de Alumínio, Titânio e Nitreto – o UR-103T Shining T, da grife suíça Urwerk, só tem resistência menor do que a do diamante. Revestido em ouro 18 quilates, é a mais nova sensação da alta relojoaria.

 GELADEIRA JACK DANIELS

Seguindo a linha Vintage, a geladeira personalizada com a marca do famoso uísque Jack Daniels promete agradar tanto os amantes da bebida quanto os amantes da tendência retrô.

SANDÁLIA DIAMANTE 

Roberto Cavalli US$ 1.515 Comemorando 40 anos de carreira, o estilista Roberto Cavalli acaba de lançar sua coleção Primavera/Verão 2011, em Milão. A sandália Diamante, que faz parte da coleção, é uma excelente opção para uma festa black-tie, bem como para as comemorações de final de ano.

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NOVO MACBOOK AIR

CHANEL CÔTE D’AZUR COLLECTION 2010 

Apple US$ 1.599

A Apple acaba de lançar o novo MacBook Air. O modelo ganhou uma versão ainda mais portátil e mais fina, sem comprometer a funcionalidade e o design.

Chanel Batons – US$ 30, Esmaltes – US$ 27 A Chanel se inspirou nas belezas naturais da eterna Saint Tropez. A nova coleção de maquiagem da marca apresenta cores vibrantes para lábios e unhas. Os produtos já estão disponíveis para venda através do site oficial da grife francesa.

DIOR MINAUDIÈRE

BABY DIOR 

R$ 269,90 O Dior Minaudière é o mais novo estojo de maquiagem lançado pela grife Christian Dior. A novidade em maquiagem da Christian Dior é o estojo Dior Minaudière. No formato de uma mini Clucth, é ideal para levar na bolsa. O estojo vem com três tonalidades de sombras e três de gloss.

Dior Vestido branco - US$ 688 Vestido azul - US$ 408 A grife Christian Dior apresentou a coleção Outono/Inverno 2010 de sua linha infantil. Materiais nobres, como seda pura e cashmere, são utilizados na confecção de vestidos, jeans, tops e pólos para a garotada que já segue a tendência fashion dos pais.

AUDI S5 SPORTBACK 

US$ 80.000 O Audi S5 Sportback é o modelo esportivo da linha A5 Sportback. Equipado com motor V6 TFSI, com 333 cv de potência e 440 Nm de torque entre 2.200 e 5.900 giros, o Audi S5 Sportback acelera de 0 a 100 km/h em apenas 5,4 segundos. Seu conjunto motriz também conta com câmbio S-tronic de 7 marchas, dupla embreagem e tração integral Quattro.

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Wikileaks: tiro no pé? Por Carlos Castilho

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reação de vários governos e de parte da imprensa mundial contra o site Wikileaks e seu criador, Julian Assange, corre o risco de se transformar num tiro no pé, caso os desafetos do polêmico ativista australiano não se dêem conta dos rumos que o caso está tomando. O debate mundial deflagrado pela divulgação de quase 250 mil documentos secretos da diplomacia norte-americana acabou transformando Assange numa personalidade mundial e, ao que tudo indica, num ícone da polêmica sobre o livre fluxo de informações na internet. É o diz o sociólogo Manuel Castells, num artigo1 sobre o caso Wikileaks, talvez o melhor texto já publicado sobre o caso nas últimas semanas. As acusações ao fundador do Wikileaks começam a se mostrar frágeis e controvertidas. A principal delas é a de que ele pôs em risco a segurança norte-americana ao divulgar documentos secretos acumulados ao longo de quase 10 anos. A acusação feita por autoridades de Washington, e referendadas por parte da imprensa norte-americana, esbarram na informação de militar do exército dos EUA, Bradley Manning, que está sendo investigado sob a suspeita de ter baixado ilegalmente 150 mil documentos do Departamento de Estado. Manning seria a fonte original dos documentos divulgados pelo Wikileaks. Esta informação foi endossada pelo ministro de Relações Exteriores, e ex-primeiro ministro da Austrália, Kevin Rudd, para quem a culpa do vazamento das informações é dos Estados Unidos. Mas o debate sobre a autenticidade dos documentos e da identidade dos autores pelo vazamento acabou sendo ofuscado por dois outros fatos. O primeiro é a controvertida acusação de estupro feita por duas mulheres suecas, segundo as quais Assange não teria interrompido um 50 | Fale!

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O início de uma guerrilha cibernética de dimensões nunca vistas na Internet.

 ato sexual consensual mesmo depois do rompimento da camisinha que ele usava. Na Suécia, o tema pode ser sério e justificar uma ação judicial, mas noutros países pode facilmente ser associado a fatores bem menos graves do ponto de vista penal e policial. Mas como Assange está no meio de uma polêmica mundial envolvendo interesses muito fortes, a acusação de estupro foi rapidamente endossada pela Interpol, que lançou uma ordem mundial de captura. Esta semana, em Londres, ele se entregou à Scotland Yard e ganhou o status de personalidade mundial. Seus “15 minutos” de fama podem acabar se estendendo para mais de uma semana. A outra conseqüência é o inicio de uma guerrilha cibernética de dimensões nunca vistas na Internet. A pressão norte-americana levou os sites Amazon e PayPal a suspender as operações comerciais com o Wikileaks, mas em compensação o Facebook resolveu manter a página da organização em sua rede social. Além disso começaram a pipocar pelo mundo “espelhos” do site da Wikileaks com o objetivo de ampliar a divulgação dos documentos secretos. Em questão de dias surgiram mais de 700 “espelhos”. Assange disse, pouco antes de ser preso, que ele ainda tem cinco gibabytes de documentos secretos e que vai divulgá-los em breve. Isto equivale mais ou menos a uma pilha de documentos em folhas de papel www.revistafale.com.br

com 45 metros de altura2. A ameaça tanto pode ser um blefe como pode ser real, o que certamente elevará a temperatura do debate em torno da figura deste australiano de 39 anos, que está sendo chamado de jornalista, mas que na verdade é um programador autodidata, porque nunca concluiu o curso de física e matemática, em seu país . Ao focar na personalidade do fundador do Wikileaks, os desafetos de Assange procuram desviar o rumo do debate para um espaço que lhes parece mais favorável. Segundo pessoas que convivem com Assange, ele não é nenhum santo ou modelo de comportamento sexual, e portanto é mais vulnerável perante a opinião pública mundial do que o princípio da liberdade no fluxo de informações do qual o Wikileaks é hoje um paradigma mundial. A batalha está migrando para o terreno complexo das percepções onde vale mais a versão do que o fato. Para alguns isto equivale a um desvio grave, mas, para quem lida com a opinião pública, a versão pode passar a fato a ser levado em conta na análise contextual, independente da ausência de sua correlação com o que se poderia chamar de verdade. As acusações de estupro certamente irão alimentar um debate picante sobre o comportamento de Assange, que ficará em evidência tanto pela sua performance na cama quanto pelo seu projeto na web. E a multiplicação de espelhos do Wikileaks pode ampliar a polêmica mundial sobre a liberdade no fluxo de informações na web, muito além do que esperam e desejam as autoridades norte-americanas. n 1. Artigo publicado no jornal espanhol La Vanguardia, no dia 30/11 2. Um gigabyte equivale a uma pilha de papel com 9,1 metros de altura.

Carlos Castilho é Mestre em Mídia e Conhecimento pela UFSC e é integrante da direção do Observatório da Imprensa. Artigo retirado do site Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br)


A revista de informação do Ceará.

CEARÁ: MODA PRAIA E SURF, UM SUCESSO Revista de informação ANO VI — Nº 69 OMNI EDITORA

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Os leitores da revista Fale! são decisores, pessoas que não abrem mão de informação de qualidade. Política e Economia são os principais temas da revista de informação. Fale! Quem decide, lê.

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Fale! Brasilia  

Revista Fale! Brasilia _ Cenários 2011

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