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Curinga Revista Laboratório | Comunicação Social - Jornalismo | UFOP

Abril de 2013 | Ano III | n º 05

ATÉ ONDE VAI A SUA

LIBERDADE?

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Curinga Expediente

Curinga é uma publicação da disciplina Laboratório Impresso II – Revista produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Ufop Universidade Federal de Ouro Preto. Editor geral e jornalista responsável

Frederico Tavares - 11311/MG

Editora de planejamento visual

Priscila Borges

Editor de Fotografia

Anderson Medeiros Editor geral

Thiago Guimarães Subeditora

Thalita Neves

Editor fotográfico

Gabriel Sales

Editora de arte

Giovana Bressani

Subeditora de Arte

Nathália Barreto

Editor digital

Jorge Lelis

Editores e revisores

Greiza Tavares, Lázaro Borges, Lidiane Andrade, Luiza Barufi, Mayara Coutrim, Maysa Souza, Rafael Camara Repórteres

Alice Piermatei, Flávia Pupo, Jéssica Michellin, João Felipe Lolli, Kael Ladislau, Kamilla Abreu, Lais Queiroz, Lorena Silva, Maressa Nunes, Mickael Barbieri Diagramadores

Ana Luísa Ruggieri, Camila Maia, Eduardo Braga, Janini Sanches, Laio Monteiro, Luisa Oliveira, Mateus Meirelles, Pablo Gomes Fotógrafos

Aline Barreira, Di Anna Lourenço, Flávia Rodrigues, Gustavo Aureliano, Jamylle Mol, Natalia Ambrósio, Ricardo Maia Produtores digitais

Flávio Ulhoa, Joenalva Porto, Leonardo Alves, Marcela Servano Nicole Alves, Renata Felício, Yasmini Gomes Endereço

Rua do Catete 166, Centro, CEP 35420-000 Mariana-MG Tiragem

1.500 exemplares Abril 2013

Cartas do leitor

Para comentar as matérias ou sugerir pautas para nossa próxima edição, envie e-mail para revistacuringa@icsa.ufop.br


Editorial Thiago Guimarães

e

Thalita Neves

Construir, desconstruir. Produzir, reproduzir. Viver em sociedade traz dilemas de como se posicionar frente a conceitos que circulam no nosso meio. Nesta edição, a Curinga discute a construção de padrões e os mecanismos que os tornam legítimos. Colocamos você, leitor, como peça fundamental desse processo que, com a popularização das redes sociais, torna-se cada vez mais abrangente, fazendo da consolidação de tendências e conceitos uma via de múltiplas possibilidades. A construção de padrões, quando não estabelecida de forma colaborativa, e sim impositiva, configura-se como uma Ditadura. Como então detectar Ditaduras presentes no cotidiano de nossas ações? Fomos às ruas e problematizamos a questão. A política ditatorial por trás de uma falsa democratização, a linguagem persuasiva das propagandas, os padrões de comportamento e beleza impostos pela mídia, os reflexos da censura no próprio fazer midiático, são temas que nos desafiaram a trazer uma reflexão que pluralize e democratize visões e opiniões. Explore suas ideias, quebre regras, faça seu jogo. As cartas estão na mesa!


Sumário

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Entrevista

Crônica

Comunicação para quem?

Alegria, alegria!

Infográfico


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Uma geração do contra

Palco

Perfil

E Aí?

Quebrando Regras

O pop nosso de cada dia

Coluna


Entrevista

MEMÓRIA MARCADA Os jornalistas Sérgio Gomes e Audálio Dantas participaram da mesa de debate “Os jornalistas e a Ditadura Militar” - que aconteceu no dia 13 de março durante a IV SECOM da UFOP - e compartilharam suas experiências na luta pela democracia durante os “Anos de Chumbo”. Texto: Flávia Pupo Edição Gráfica: Luisa Oliveira

Foto: Di Anna Lourenço

Sérgio Gomes Sérgio Gomes 6

AUDÁLIO DANTAS


“Desilusão, desilusão Danço eu, dança você na dança da solidão”

Essa música do cantor Paulinho da Viola tem história para Sérgio Gomes. “O que é o contrário da solidão e começa com S? Solidariedade. Quem já passou por uma situação em que foi objeto da solidariedade ou pôde ser realmente solidário, aconteça o que acontecer, nunca mais é igual”, afirma o jornalista. Assim como para Sérgio, as marcas deixadas pela experiência da Ditadura Militar também acompanham a biografia de Audálio Dantas de forma indelével. “Quando falam que eu tenho 60 anos de profissão não é verdade, eu tenho 20 anos de ofício, porque o exercício da profissão terminou ali, em 1975. Eu não conseguia mais voltar para o dia-a-dia do jornalismo, que era a minha paixão”. Para ambos, as lembranças daquele período, sejam elas da coletividade, da solidariedade, da mobilização ou de submissões e renúncias estão refletidas no Brasil de hoje e nos rumos que suas vidas tomaram. Em entrevista à 5ª edição da revista Curinga, os jornalistas expuseram opiniões em relação à sociedade brasileira, ao governo atual e à instauração da democracia. Mesmo com angulações diferentes e opiniões bem definidas, os dois compartilham uma visão semelhante: há ineficiência do poder público sobre os esclarecimentos acerca dos episódios da época e sobre a baixa mobilização da sociedade diante dos problemas herdados. Atualmente professor da PUC-SP, diretor do projeto OBORÉ - Projetos Especiais em Comunicação e Arte e atuante direto na militância do período da Ditadura Militar no Brasil, Sérgio Gomes foi preso e torturado pelos militares, junto com Vladimir Herzog. Audálio Dantas presidiu o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo no período da Ditadura e, atualmente, preside a Comissão da Verdade da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). Neste ano, lançou o livro “As duas guerras de Vlado Herzog”.

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Audálio Dantas

Curinga: Você foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo durante a Ditadura. Militar Como foi essa luta pela liberdade de imprensa? Audálio: Os jornalistas vinham sofrendo um problema fundamental: a questão da censura. Quando a diretoria que presidi foi eleita, tinha um propósito muito mais trabalhista do que sindical. Ela queria lutar contra a censura que atingia não só os jornalistas, mas também a sociedade. O Sindicato dos Jornalistas foi transformado numa espécie de trincheira. Era procurado por pessoas cujos membros da família, amigos e colegas de profissão estavam sendo presos e torturados. C: Como seu livro “As Duas Guerras de Vlado Herzog” relata esse período? A: O principal objetivo do livro foi reconstituir a história do ponto de vista do Sindicato dos Jornalistas, porque muita gente fala que houve uma reação, mas as pessoas me perguntavam: como? De que jeito? Provocada pelo que? Costumo dizer que o livro tem

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uma visão de dentro para fora, que é a minha visão. Eu vivi intensamente todos aqueles dias e acho que consegui colocar isso no livro. Quando eu comecei a escrever, senti que aquilo ia sair de uma vez, foi quase como um vômito. C: Durante a pesquisa desenvolvida para a elaboração do livro, quais incômodos despontaram ao tratar da morte de “Vlado”? A: Na busca sobre informações da morte de Vlado no Arquivo Nacional, em 2011, a direção me exigiu apresentar a certidão de óbito dele. Então eu fiquei indignado, porque não entendia como o governo brasileiro, depois de 30 anos, me pede um documento desse, falso. O atestado dizia que ele havia se enforcado, quando na verdade ele morreu sendo torturado. Hoje, o registro de óbito consta que ele morreu através de violência dentro da prisão. C: A Comissão da Verdade dos Jornalistas Brasileiros, presidida por você, foi responsável por retificar esse registro. Há esperança de um veredito

oficial e definitivo sobre o sequestro e assassinato de Vladimir Herzog e de outros jornalistas? A: Isso é o que esperamos. A instauração da Comissão da Verdade dos Jornalistas tem esse objetivo, porque muitos desses casos ficavam relatados somente pela Comissão da Anistia. Até hoje não se sabe direito o que aconteceu. A Comissão da Verdade não tem autoridade pra punir ninguém, mas tem o dever de apontar para a sociedade os nomes dos autores desses assassinatos, e isso já é importante para que sejam punidos pela opinião pública, por conta dos crimes que cometeram. C: Qual a contribuição deixada pela luta de vocês para os governos pósDitadura? A: As liberdades que o país desfruta hoje são o resultado do movimento operário, que estava sufocado. No entanto, é estranho que os governos democráticos que vieram depois da Ditadura, graças a essas lutas, tenham ocupado o poder sem a devida coragem para enfrentar, inclusive, a questão do acesso aos documen-

tos do Regime. Nós avançamos muito e recuperamos as liberdades fundamentais, afinal nós contribuímos para diminuir a censura nesse sentido. C: A Ditadura Militar estará sempre presente nas nossas vidas de alguma maneira? A: Sim, mas não para o resto da vida. Depende da capacidade de mobilização da sociedade brasileira. Infelizmente, a Ditadura Militar causou um prejuízo muito grande. Uma geração inteira foi sacrificada, alienada. Tivemos um apagão da história nesse período. C: Por que? A: As pessoas, hoje em dia, têm medo de discutir as dificuldades que o país enfrenta. Depois da fase do neoliberalismo no país, elas agiram com receio, umas com medo de perder o emprego, outras que foram em busca de um diploma, apenas para competir ao invés de tê-lo como bem público. Mas, ainda assim, a sociedade vai caminhando.


Sérgio gomes

C: Como você analisa a reação da população no período da Ditadura e os resultados gerados por ela? Sérgio: A reação da população à repressão funcionou como um catalisador, como se fosse produzir uma reação química para que a sociedade se levantasse. E, ainda assim, levou um longo tempo. Nós estávamos em 1975 e fomos ter eleição direta para presidente somente 14 anos depois. Esse processo foi muito lento. C: Que heranças sociais ainda permaneceram nesse processo? S: Fomos o primeiro país em que a classe trabalhadora foi transportada em um navio negreiro, ou seja, num porão onde você não tem um relato de bordo que dê conta do que foi essa tragédia de milhões e milhões. O sujeito, quando consegue um mínimo de ascensão social, vem para o “convés”, para poder comer três vezes ao dia e ter amigos. Ele esquece que nesse “navio” chamado Brasil, há um comando que é mais ou menos o mesmo, desde sempre. Você tem aí de 10% a 15% da população,

a classe média, que está no “convés”. O resto está no “porão”. A burguesia brasileira é a mais sagaz de todas as burguesias da América do Sul. Mas há uma grande dificuldade dessa classe, até agora, em entender o que foi feito pelo “porão” nos últimos anos. C: Você acredita que as repressões daquele tempo cessaram por completo? S: As repressões ainda estão acontecendo hoje. Agora mesmo que estamos nessa sala, tem alguém, que possivelmente é pobre, está morando e ganhando mal, sendo submetido a pau de arara e choques elétricos, exatamente com os mesmos métodos de antes, em delegacias de polícia. Isso é uma prática que segue acontecendo e, no entanto, não há polícia científica. O sistema brasileiro dá um cacete para arrancar a confissão do sujeito rápido, se possível para contar onde está a mercadoria para que a polícia vá lá e fique com ela. Para nós, qualquer coisa pode ficar para amanhã, mas para uma pessoa que está pendurada de ponta-cabeça, é

muito tempo. C: Os jovens tiveram grande participação nos movimentos estudantis na época da Ditadura. Como você avalia a atuação dos jovens hoje? S: Quando se tem uma sociedade complexa, e de instituições sólidas, o papel dos indivíduos é relativamente pouco importante, pois você tem uma máquina que funciona. No caso dos brasileiros, as instituições são muito frágeis, independentemente de quem seja o líder político. Ou seja, até que se consiga instituições democráticas sólidas, haverá essa alegria que nem o alemão nem o inglês têm, mas que o brasileiro pode ter. Enquanto aqui pode-se fazer algo pela política aos 25 ou 30 anos, na Europa é preciso esperar os sessenta. C: Como você avalia a democracia no Brasil? S: A democracia não ganha simplesmente a feição do povo quando sua gestão se traduz em melhorias na qualidade de vida. No Brasil, temos o exemplo do Bolsa Família, que beneficia grande parte das famílias

carentes e, mesmo assim, é criticado como algo que está sendo jogado fora. Porém, não se leva em consideração o custo do Programa, que é de 14 bilhões, sendo que o valor pago aos bancos pela dívida externa foi de 174 bilhões. Ou seja, 14 para os pobres e 174 para os bancos estrangeiros. C: Na sua opinião, o que é necessário para melhorar a mobilização em busca de um país ainda mais igualitário? S: Trabalhar para realizar coisas concretas que melhorem a vida desde já, o ensino, a pesquisa... que a universidade pública preste serviços à comunidade. Não é esse o papel da universidade? Atuar por meio de ensino, pesquisa e extensão? Então, se os estudantes se organizarem para isso, poderão verificar a importância do trabalho em equipe e essa dispersão começa a desaparecer.

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onde fica? Onde fica o horário voltado para nós? E se eu quiser dormir dez minutinhos a mais e colocar o celular no “soneca”? Precisamos mesmo estar o tempo todo olhando o relógio? Será mesmo que esta ditadura chamada tempo é tão importante ao ponto de nos esquecermos o que significa viver? Viver, sabe, desprendido de qualquer amarra, viver de forma livre e solta. Desprendernos, não do objeto relógio, mas dos horários que simbolizam as normas impostas por uma sociedade acostumada a lidar sempre com padrões e rotinas. De repente, em um solavanco, saio do meu estado de inércia e percebo que passei do ponto no qual deveria descer. Em um sinal desesperado, peço ao motorista para que pare o ônibus. Demoro alguns segundos para conseguir sair. Quando finalmente consigo, olho para o meu pulso, e já são 19 horas. Confiro na minha agenda, e meu compromisso estava marcado para meia hora atrás. Sinto raiva por ter atrasado, mas não há nada mais que eu possa fazer. Pego meu celular, ligo para o meu professor, explico-lhe o que aconteceu e remarco a reunião. Em seguida, dirijo-me para a pracinha e começo a ler o livro que carrego em minha bolsa. Tic tac,tic tac – o despertador do meu celular interrompe minha leitura para alertar que ainda tenho aula de inglês. E, sem pensar, desligo o telefone, tiro meu relógio de pulso, o guardo na bolsa e decido que não vou mais me prender a horários. Não por hoje! FIM

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existissem os padrões. E se a regra fosse ser totalmente livre? É como um contrassenso, um conceito impalpável, quase transcendental. Seria como estar preso em sua própria liberdade inventada, ou até mesmo estar livre numa prisão. E o tempo, o que tem a ver com isso? Perguntava-me. Eu, você, todos. Sempre queremos mais tempo. Mas para quê? Ainda me questiono. A ditadura se impõe por estes dois ponteiros incessantes. Assim, sem nem notarmos, os segundos se transformam em minutos, e depois em horas, dias, meses e quando nos damos contai, em um piscar de olhos, já se passaram anos. O tempo que é inversamente proporcional à nossa felicidade: quanto mais tempo se passa, mais infelizes parecemos estar. Com o tempo, a idade vem e, com ela, as rugas, os cabelos brancos, o esquecimento. A todo instante, vidrados no horário para não esquecermos nenhum compromisso. É o trabalho de manhã, uma reunião importante à tarde, levar e buscar os filhos na escola, ir para a academia, estudar para o concurso, cuidar da casa... E o nosso tempo,


Crônica

Crônica sobre o peso do tempo ou apenas um conto sobre um dia qualquer [Leia no sentido horário] Texto: Kamilla Abreu Edição Gráfica: Laio Monteiro Foto: Jamylle Mol

afazeres. E é este o peso do tempo: uma ditadura silenciosa que cerca e regula a nossa existência. Agora sou eu quem mostra certa inquietude em minhas ações, pois ainda tenho uma reunião com meu professor. Até que, após alguns demorados minutos, avisto no letreiro do ônibus “Ouro-Preto/Mariana” e já me posiciono para enfrentar quase uma “luta” na busca por um lugar para sentar. Empurrões, conversas altas, risadas. Passo a catraca e me acomodo em uma cadeira perto da janela. De relance, reparo, então, que o mesmo rapaz que estava ao meu lado, no ponto de ônibus, agora me observa cuidadosamente. Acho que ele busca nos meus olhos, através dos seus, alguma pista do que se passava, pois como já diziam os poetas, “os olhos são a janela da alma”. Mudo a direção do meu olhar e fixo-o na rua e, assim, vou contemplando a paisagem. Perco-me nas minhas idéias. Começo a divagar sobre a liberdade, sobre regras e, novamente, sobre como o tempo influencia nossas vidas. Fico indagando-me como seria a vida se não

Hoje foi um dia como todos os outros. A noite já começa a cair e as poucas nuvens restantes formam imagens desconhecidas no céu. As pessoas passam rapidamente por mim, todas ocupadas demais para desejar, pelo menos, “boa tarde” ou “boa noite”. Os carros vêm e vão em um ritmo frenético. Eu, sentada no banco, apenas espero o ônibus depois de uma jornada difícil de trabalho. O pensamento está longe. Consigo apenas lembrar-me da minha cama bagunçada que, ao fim, será o meu único e último refúgio. Já são 18 horas. Ao meu lado, um rapaz que olha atentamente para os ponteiros de seu relógio de pulso. Talvez ele esteja cansado demais, e, assim como eu, só quer ir logo para a casa. Olhos perdidos, tentando avistar no horizonte algum sinal. Mãos aflitas e o balançar das pernas: o tic-tac do relógio, que se manifesta mentalmente no meu pensamento, começa a perturbar. Questiono-me, então, se realmente tem que ser assim. Se as horas que delimitam as nossas vidas são mesmo fundamentais. Paro um instante, observo, mais uma vez, o jovem e percebo sua ansiedade estampada em pequenos fragmentos de atitudes involuntárias. Estalar dos dedos, passos apertados de um lado para outro... Penso, então, no tempo, não aquele controlado pelas horas, mas sim o que se refere ao cotidiano, aos hábitos e à rotina, o responsável por ditar as nossas vidas. Vivemos em um sistema delimitado por horários, compromissos e

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Democracia

Comu Os meios de comunicação no Brasil estão concentrados nas mãos de poucas empresas. Esse contexto prejudica o fazer jornalístico, comprometendo a pluralidade de ideias, opiniões e a liberdade de expressão. Uma regulamentação, como o Marco Regulatório das Comunicações, contribuiria para democratizar a comunicação, ampliando a possibilidade de se informar e ser informado, diminuindo barreiras políticas, sociais, culturais e ideológicas.

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unicacão

para quem? Texto: Kael Thomas Ladislau

e

Maressa Nunes

Edição gráfica: Ana Luísa Ruggieri Fotos/Ilustrações: Flávia Rodrigues

A comunicação é inerente ao ser humano. Seja como receptor, produtor ou consumidor, todos nós participamos, de alguma forma, desse processo. É por meio dela que nos tornamos seres capazes de compreender e sermos compreendidos. Desse ponto de vista, os meios de comunicação como rádio, jornais, revistas, televisão e internet são importantes e funcionam, como o próprio nome já diz, como uma mediação entre o ser humano e o mundo a sua volta. Contudo, no Brasil, essa mediação é exercida por poucos. Os meios de comunicação midiática são concentrados e pertencem a grupos restritos de em-

presas, cujas relações políticas e o modo de pensar são muito parecidos. Por isso, o que é mediado, acaba se constituindo em uma verdade. A forma com que os meios propagam essas informações são de interesse coletivo, e não diz respeito somente a quem as produz. A liberdade de expressão e a democratização da informação são questões que vêm ganhando força no cenário político-social contemporâneo. Apesar de ser um direito garantido pela Constituição, a liberdade de expressão por vezes é negada a cidadãos que não seguem ou reproduzem o que a mídia hegemônica prega. Mesmo com o adven-

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número de veículos de comunicaçãopertencentes a políticos

to da internet e as múltiplas maneiras de se expressar, é possível perceber o domínio dos conglomerados comunicacionais. Um exemplo recente é o do jornalista Luiz Carlos Azenha, que foi condenado a pagar R$ 30 mil ao diretor geral de jornalismo e esportes da Rede Globo, Ali Kamel, por danos morais. O que motivou a ação foi uma série de postagens no Blog Viomundo, relacionadas à campanha presidencial de 2006, quando Azenha era repórter da emissora. Segundo o professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Rogério Christofoletti, os meios de comunicação no Brasil se

sionária de serviço público”. No entanto, segundo dados do site “Donos da mídia”, em 2009, 271 políticos eram sócios ou diretores de 324 veículos de comunicação. A discussão que visa a regulamentar concessões de veículos midiáticos no Brasil é, por vezes, silenciada, como aponta o gráfico sobre a relação de empresas comunicacionais e partidos políticos. O projeto Donos da Mídia (www.donosdamidia. com.br) é um site que atesta os monopólios e oligopólios das grandes empresas de comunicação. Sua plataforma oferece informações relacionadas ao campo político e econômico das mídias no Brasil. Analisa também a participação econômica de cada rede de comunicação, sendo filtrado por região, estado e até mesmo cidade onde se encontram. Apesar das complicações, a sociedade civil tem se organizado para mudar o cenário, pressionando os parlamentares para que as leis sejam modificadas, deixando, assim, mais claras as regras do jogo.

pautam por interesses políticos e econômicos e nem sempre levam em consideração a real importância da comunicação. “Nós temos, historicamente, um sistema comunicacional concentrado. Três fatores explicam: são poucas empresas no ramo; essas empresas são de propriedade familiar; há relações escusas e complicadas, questionáveis do ponto de vista ético e legal”, diz o professor. Além disso, os maiores detentores de concessões de rádio e televisão são políticos, o que é proibido por lei. Segundo o artigo 54 da Constituição Federal de 1988, deputados e senadores não poderão, no exercício de seus cargos, firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa conces-

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Dez partidos com maior número de políticos donos de veículos

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Em 2009, a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), convocada pelo Governo Federal, apontou resoluções que modificaram o modelo comunicacional adotado no país. Durante a Confecom, representantes do poder público, da sociedade civil e empresários aprovaram cerca de 700 propostas, em debates esclarecedores sobre a necessidade de atualizar as leis. Dentre as propostas, foi sugerida a criação do Marco Regulatório das Comunicações, que é um conjunto de normas que sancionam os meios e as tecnologias de comunicação. Tratam-se de normatizações fundamentais para a democracia da informação. Apesar da iniciativa, Christofoletti afirma: “O que a gente percebe é que a legislação é deficiente e o Estado é complacente. Ele é omisso muitas vezes e está ligado a interesses contrários aos da coletividade.” Em março deste ano, o governo brasileiro anunciou que não encaminharia a implantação de um Marco Regulatório antes do término do mandato da presidente Dilma Rousseff. O tema é delicado e gera opiniões divergentes dos dois lados da corrente: os que acreditam que uma legislação será benéfica e auxiliará na democratização da informação e os que enxergam a criação do Marco como um retorno da censura. As diferentes concepções tocam na noção de liberdade entendida por cada indivíduo. Segundo o professor Venício Lima, em entrevista ao Portal UFMG, há dois tipos de liberdade: a liberal clássica e a visão republicana. Na primeira,


a liberdade é entendida como a ausência de restrição externa para a ação individual, “é a perspectiva de liberdade negativa, uma construção que põe o Estado na posição de principal inimigo da liberdade individual”. Já a republicana é oposta, “nela, o que se propõe é uma liberdade construída em conjunto com os outros no espaço democrático”. Esta última tem papel central na discussão sobre o implemento do Marco Regulatório.

Regular para libertar

Para garantir que a liberdade de expressão seja construída em um espaço democrático é preciso que haja uma regulamentação da informação. O Marco tem como principal objetivo a garantia do direito à livre comunicação a todos os cidadãos. De acordo com texto da Plataforma para um Novo Marco Regulatório, construída pelo Fórum Nacional de Democratização para os Meios, a falta de uma regulação legal favorece às poucas empresas midiáticas, o que ocasiona a concentração e impede a pluralidade de ideias. Em países como Reino Unido, França, Portugal, Estados Unidos e Alemanha, que adotaram essas regras, tais regulamentações

não se configuram como restrição. No Brasil, a antiga Lei de Imprensa, de 1967, revogada em 2009, foi produzida durante a Ditadura Militar e trazia marcas claras do regime. Já o Código Nacional de Telecomunicações, de 1962, permanece vigente e está desatualizada em relação à Constituição. A normatização pelo Marco poderia se tornar uma maneira de enfrentamento a essa defasagem, considerando a liberdade e a igualdade no acesso e difusão da informação. Suzana Singer, ombudsman da Folha de S. Paulo, avalia o processo do Marco Regulatório como uma polarização exagerada. “Do jeito que a questão está sendo encaminhada ela está configurando como um teste para o trabalho de imprensa. Temos uma briga de alguns lados. Um que defende que está ótimo e que não tem que mudar nada. E outro que diz que há monopólio nos meios de comunicação.” Christofoletti defende a concretização do projeto. “Se tivermos regras nós vamos poder jogar o jogo. Se nós não as conhecemos, não conseguimos jogar. Sem elas, o jogo é muito bom para quem está no poder. Para quem tem pouco poder, a ausência de regras é sempre muito opressora”.

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Alternativas

Com a popularização da internet, emergiram características descentralizadoras, o que possibilitou um pensamento democratizador e contrahegemônico. Pode-se pensar o ciberespaço como uma nova esfera pública e um meio alternativo de informação. Nesse contexto, os blogs aparecem como uma forma de expressão livre dos grandes meios comunicativos. Quanto vale a liberdade de expressão nessas plataformas? Para algumas pessoas ela se tornou cara. Luiz Carlos Azenha chegou a ameaçar fechar o seu blog Viomundo, por conta do alto custo da indenização que terá que pagar. Mas, comovido pelo apelo dos leitores de seu blog e nas redes sociais, resolveu continuar com o projeto, realizando algumas alterações. No texto publicado no dia 1º de abril de 2013, ele afirma: “Com as grandes corporações de mídia, vivemos uma espécie de Gulag ao contrário: nosso corpo está livre, mas nosso pensamento frequentemente é prisioneiro de uma pauta que não nos interessa e, mais que isso, desconhece o interesse público, precariza as relações de trabalho e concentra ainda mais o capital na mão de poucos”. Viomundo existe há 10 anos e se afirma como um espaço dos movimentos sociais de contraposição à mídia tradicional. Outro caso é do também jornalista Fábio Pannuzio. Ele decidiu não postar mais no Blog do Pannuzio pelo mesmo motivo de Azenha: altos custos judiciais. O blog já sofreu vários processos, mas o que o incentivou a encerrar as publicações, no ano de 2012, foi um processo civil determinando a retirada do ar de Na mesma linha do Marco Regulatório para a comunicação, há um projeto um post que continha críticas ao atual de lei conhecido como Marco Civil da internet que surgiu para definir uma governador de São Paulo, Geraldo Alcksérie de direitos e obrigações que dizem respeito a usuários da web. O min. Criado em 2009, publicou quase 8 fato configura-se como uma política pública reivindicada pela sociedamil textos com o objetivo de compor um de civil, de modo que a ferramenta comunicativa não fique atrelada aos espaço de manifestação pessoal e refleinteresses dos grandes grupos econômicos ou aos governos de plantão. xão política. Essa regulamentação na internet também bate de frente com importantes setores privados e fortalece a ideia de como é tênue a linha que separa o interesse privado do político, pois, enquanto a regulamentação

não entra em funcionamento, Projetos de Leis que expõem dados dos

usuários da rede são votados às escuras. Uma delas, a PL 4.906/2001, permitiria que empresas de comércios virtuais coletassem informações

pessoais sem que o cidadão optasse ou soubesse disso. Para a retirada

dessas informações, a pessoa teria que solicitar a saída. Uma segunda, o PL 4.060/2012, estabeleceria mecanismos de retirada de conteúdos de

sites sem ordem judicial.

Os dois projetos caíram, mas foram fortemente discutidos nos bastidores

do parlamento. Fator que frisa a importância da regulamentação do Mar-

co Civil e chama a atenção do interesse público para uma política mais democrática.

Para o jurista gestor do projeto em sua primeira fase, Paulo Rená, o “Mar-

co civil traz importantes previsões, seja porque permite entender melhor

a relação do direito do consumidor com os aspectos jurídicos da internet, seja porque contém regras específicas para garantir os direitos, com a

possibilidade da defesa judicial de direitos coletivos”, afirma em entrevista ao site do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (www.fndc.org.br).

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O nome que se dá a esse processo é o de judicialização dos conteúdos dos blogs. Segundo o deputado Paulo Pimenta (PT – Rio Grande do Sul), em um pronunciamento na Câmara dos Deputados no dia 1º de abril de 2013, “as entradas nos processos judiciais são coordenadas pelos grandes meios de comunicação, com empenho e apoio do Judiciário conservador. Diante da internet há uma maior possibilidade de multiplicação dos protagonistas. Estes, que vêm sendo perseguidos e condenados pelas suas ações, podem fazer com que suas opiniões e ideias circulem na sociedade sem a dependência editorial dos grandes e tradicionais meios de comunicação”. Outro meio alternativo de informação são as rádios comunitárias, que representam 25% dos veículos de mídia do país, segundo o site Donos da Mídia. Em Santa Bárbara, interior de Minas Gerais, a rádio comunitária Triunfo representa uma alternativa de informação da região. Segundo

o coordenador da rádio, Autran Fernandes, “é um grande desafio fazer rádio comunitária nos dias de hoje, competindo com grandes emissoras a níveis nacionais, levadas ao ar pelas afiliadas”. Autran completa dizendo que, apesar das dificuldades, agradece a seus ouvintes e aos profissionais que trabalham pelo sucesso da rádio. Ainda segundo ele, o compromisso da rádio é levar, com credibilidade, as notícias e os informativos locais. “Claro que assuntos nacionais importantes são levados ao ar, mas nosso objetivo é destacar o que acontece e o que acontecerá em nossa cidade” ressalta. Mesmo com a internet e outras alternativas, o direito à livre expressão em uma mídia como a brasileira, ainda é limitado. É essa a liberdade de expressão que a sociedade quer? O que se faz necessário é que todos tenham conhecimento de como funcionam os meios de comunicação no país para, dessa forma, lutar pela democratização da informação.

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Ensaio Fotogrรกfico

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Alegria, alegria! Nossos planos de vida se baseiam em diferentes formas de encontrar a felicidade, mesmo que não sejam os desejos de cada indivíduo, mas impostos por um coletivo invisível. Entre a confecção de um corpo impecável e a procura do amor eterno existe a ideia de uma vida perfeita. Em busca da contemplação de um ideal aparente, efêmero e pouco refletido, nos submetemos a procedimentos que vão no caminho oposto do que realmente desejamos. Nesse jogo de vontades e imposições, por que não podemos ser felizes a nosso modo? O que acontece se tentarmos? Existe alguma regra que imponha um modelo ideal de felicidade? O que é a felicidade?

Fotos: Ricardo Maia Edição Gráfica: Camila Maia Maquiagem: Lorena Rocha Luz: Elias Figueiredo Figurino: Cia. Calor de Laura Modelos: Bruna Silveira, Du Sarto e Luana Crempe Apoio: TV UFOP Confira mais fotos deste ensaio em: jornalismo.ufop.br/revistacuringa 19


Ricardo Maia

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É notável hoje que a beleza feminina está diretamente ligada às imposições da indústria da moda e da mídia. Muitas mulheres cedem à chamada Ditadura da beleza. Entretanto, os padrões existem desde os primórdios da civilização ocidental. A mulher, ao longo da história, sempre foi influenciada nas maneiras de se vestir, pintar e comportar. Os modelos de beleza estão diretamente relacionados aos aspectos culturais e à dinâmica de cada civilização.

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Foto: Lorena Silva

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Edição Gráfica: Pablo Gomes

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Uma geração “Maria amava seu filho. Por que minha mãe não me ama?” indagava um dos hippies de Hair, musical estadunidense da década de 60. Na canção, que leva o nome da peça teatral, o jovem hippie se pergunta sobre o porquê da desaprovação dos pais quanto ao seu estilo de cabelo: longo. Cabelos longos para um homem naquela época poderia ter muitos significados, todos eles considerados ruins para uma sociedade conservadora: desobediência, rebeldia, homossexualidade. As roupas, bem coloridas, leves, e até rasgadas, também chocavam. Integrantes da chamada contracultura, os hippies eram pessoas contrárias ao modo de viver e à cultura vigentes na sociedade. Texto: LaÍs Queiroz Edição Gráfica: Eduardo Braga Fotos: Gustavo Aureliano

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do contra Os movimentos sociais de contracultura das décadas de 60 e 70 tinham como ideais o amor livre, o desejo de renovação e a quebra dos tabus. Também valorizavam o “viver o momento”, negavam a sociedade do consumo e pregavam uma revolução pacífica, sem guerras, e defendiam o uso das drogas como libertação da mente. “Paz e amor” e “sexo, drogas e rock‘n’roll” foram dos jargões famosos para definir a geração. “Eu tinha 13 anos. Deixei meu cabelo crescer e nós fizemos uma banda inspirada na Jovem Guarda e nos Beatles. Chamava-se The Rebels”, conta o marianense Márcio Moraes, que na década de 60 assustava a pequena cidade de Mariana com seu cabelo nos ombros e seus braços cheios

de pulseira. Márcio também participou da versão brasileira de Hair, apresentando-se no Rio e em São Paulo. Na capital paulista, foi preso. “Depois do teatro a gente fazia festa na casa dos amigos e um dia a polícia bateu lá. Foi feio. Estávamos com muitas drogas. A repressão era muito forte, terrível. Eles falavam que a gente era a parte podre da sociedade”, diz. Márcio, assim como os hippies, pertencia ao movimento que surgiu da necessidade de contestar não só o pensamento retrógrado, conservador e moralista que prevalecia nos Estados Unidos dos anos 60, mas também questionava as atitudes de um país que se enriquecia e promovia a guerra matando milhares de famílias inocentes no Vietnã; que

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pregava a igualdade, mas discriminava os negros e as mulheres. O ano de maior efervescência contracultural, segundo o historiador Leon Kaminski, foi 1968. Naquele ano, aconteceu uma das mais importantes manifestações juvenis em Paris, França: o Maio de 68. Segundo o historiador, “foi uma surpresa para as pessoas tudo o que se passava, pois os EUA e a Europa não estavam vivendo uma crise econômica, então todos se perguntavam o que estava acontecendo”. A partir daí, de acordo com Kaminski, vários pensadores começaram a pesquisar tal fenômeno de movimentação da juventude e o historiador

e sociólogo americano Theodor Roszac utilizou o termo “contracultura”, que mais tarde denominou os movimentos de rebeldia dos anos 60. No Brasil, o momento mais forte da contracultura foi durante o regime militar. Além de críticas ao sistema vigente na época, a Ditadura trouxe inquietação e vontade de mudança por parte de uma significativa parcela da sociedade brasileira. De acordo com Kaminski, o movimento era mal visto pelos pesquisadores e intelectuais da época, que classificavam os integrantes como alienados, irracionalistas e subjetivistas. “A contracultura no Brasil era chamada de desbunde. Nesse processo, eles eram deixados de lado ou eram tratados de forma parcial, como pessoas que fumavam maconha e ‘desbundavam’”, completa o historiador.

Arte e contracultura

As manifestações contraculturais tinham sua força na arte. Tanto nos EUA como no Brasil, nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan e Raul Seixas são lembrados. Mas não só a música era um meio artístico de protesto e críticas ao sistema. O teatro também teve forte caráter contracultural na época. Para a filósofa Guiomar de Grammont, foi no seio do teatro que nasceram grandes manifestações de contestação do período. Um exemplo foi o Living Theatre, o “teatro vivo que quebrava a separação entre arte e vida, fazendo críticas aos tabus sociais dos locais onde se apresentavam, por meio de representações realistas e irreverentes”. O Living esteve inclusive em Ouro Preto, no ano de 1971, para se apresentar no Festival de Inverno, mas seus integrantes foram presos durante a abertura do evento. Essa arte foi alvo de fortes repressões na Ditadura Militar brasileira. No ano de 1968, integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiram o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e espancaram o elenco da peça Roda Viva. “Foi na frente desse teatro que houve as manifestações quando mataram o estudante Édson Luis, um marco da truculência da Ditadura”, lembra Guiomar.

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Ontem e hoje

Considerados por Jean-Paul Sarte como a “Geração Perdida”, os beatniks foram os precursores dos movimentos anti-sistema, na década de 50. A Geração Beat era constituída por pessoas que, diferentemente dos demais, não desejavam ter os eletrodomésticos e carros do ano, viviam com pouco, ou quase nada. Isso ainda é observado na sociedade contemporânea? A existência de uma contracultura atual gera conflito entre estudiosos. Para a filósofa Guiomar de Grammont, não há uma contestação tão forte como antes. “Não sei se há contracultura na atualidade. Sem dúvida, houve uma retração diante dessa nova sociedade, que é uma sociedade mais livre, mais leve e isso acaba repercutindo e influenciando nas relações interpessoais”, enfatiza. Para a filósofa, os movimentos de contracultura foram fundamentais para a liberdade de expressão. Guiomar diz que houve também uma conscientização dos limites e das relações pessoais no que diz respeito à liberdade sexual. “Outras questões que atingiram a contemporaneidade, como a AIDS, foram fundamentais para impedir as pessoas de viverem o amor livre”, enfatiza a filósofa. Márcio Moraes, o cidadão que viveu a geração “paz e amor”, acredita que há um comodismo nos jovens de hoje. “O que eu vejo hoje não tem nada a ver com o que era antes. A juventude atual está deixando a desejar, é muito devagar. Antes a gente protestava mais”, afirma. Ainda sim, ele é otimista: “Acredito sim que conseguimos mudar algumas mentalidades”. Hip hop, funk, grafite e punk são movimentos considerados pelo historiador Leon Kaminski como contraculturas atuais, porém, de menor impacto comparados aos movimentos anteriores. Segundo Kaminski, a atual despolitização do pensamento crítico e consequente queda no poder de reivindicação se deve ao consenso de que as conquistas já foram alcançadas pelos jovens dos anos 60 e 70. Os protestos nos meios digitais, como o movimento de mídia independente e os hackers, que disponibilizam conteúdos para baixar gratuitamente na internet, também estão inseridos no movimento de concracultura atual, de acordo com Kaminski. “Isso é uma contracultura porque você está dando acesso ao conhecimento para várias pessoas e, ao mesmo tempo, você tenta quebrar com os padrões de uma sociedade. É uma questão do bem cultural: por que você tem que pagar pelo bem cultural?” Vigente ou não, é certo que o movimento de contracultura gerou grandes transformações socioculturais nos últimos 50 anos. A juventude unida, impulsionada pelo incômodo, conseguiu e ainda consegue quebrar padrões, chocar e alterar, mesmo que de forma parcial, um cenário que não a agrada. Como cantou Caetano Veloso, ”apaches, punks, existencialistas, hippies, beatniks de todos os tempos, uni-vos”. Uni-vos para fazer a revolução.

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Palco

Texto: Greiza Tavares Edição Gráfica: Pablo Gomes Foto: Ricardo Maia

Rosas cor de sangue O cenário intriga. Pode-se perceber, através do breu da sala 35 da Escola de Minas, em Ouro Preto, jornais espalhados pelo chão e cadeiras dispostas próximas ao palco. Ao centro, a bandeira do Brasil. A expectativa é notável em todos os vultos que adentram o espaço. Cinco jovens atores prometem um relatomanifesto sobre o período da Ditadura Militar no Brasil: começa o espetáculo “O Jardim do Silêncio”. O texto original de Márcio Oliveira Silva trata das resoluções instaladas a partir do Ato Institucional número 5. A encenação expõe a visão de personagens opostos: militares e militantes. Também são abordadas as ditaduras vividas hoje, como nas redes sociais. “Cada vez mais vemos que essas Ditaduras que vivemos hoje não se diferem tanto das outras daquela época. Descobrimos informações que fazem toda diferença nesse olhar crítico para as opressões”, afirma o diretor da peça, Du Sarto. As rosas espalhadas em meio às folhas de jornal formam um jardim que lembra os torturados e mortos. “Como enterrar os mortos de uma guerra que não existiu?” Essa pergunta é repetida ao longo da peça remetendo ao fato de que pouco se sabe sobre o que realmente houve naquele período. Os atores Adriana Maciel e Gabriel Edeano tornam-se grandes e corajosos em cena. A hábil Gabriela Felipe consegue arrancar gargalhadas falando com cinismo de passagens graves. Hideo Kushiyama nos faz querer ter também um motivo pelo qual lutar. Thiago Meira irrita com seus atos institucionais e nos prende falando verdades que não queremos ouvir. Cerca de quinhentas pessoas assistiram a peça entre janeiro e fevereiro de 2013. Contemplada com o edital Micro Projeto São Francisco, a Cia. Calor de Laura cumpre a promessa e apresenta, com um misto de força e leveza, uma história que deve ser lembrada para que nunca mais volte a acontecer no Brasil.

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Perfil

Texto: Mickael Barbieri Edição Gráfica: Mateus Meireles Fotos: Natália Ambrósio

, Espere o ônibus no ponto da rua Tupinambás, em frente ao número 933, entre e reflita sobre a dimensão de 33 hectares de uma comunidade ainda não reconhecida na capital mineira 29


Ele. Ela. Ou ninguém. A forma de se referir é um problema menor frente aos preconceitos que surgem quando se tenta enquadrar um metro por outro da terra vermelha no entorno das casas muito bem construídas. A área desperta na população de Belo Horizonte a ojeriza que ela prefere fingir não ter. Mas o chão ocupado sabe que tem. Ele defende os moradores que lhe deram a função social em falta nos últimos 40 anos. O nome já carrega força. A energia da posse emana muito antes de o ônibus que dá acesso à comunidade dobrar a esquina e já se poder ver Dandara. E o vento, o mesmo que derrubou a placa de boa recepção, perde a moleza e levanta o pó para jogá-lo na cara de quem se sente deslocado por não pisar em rua de asfalto. Parada solicitada. O espaço, apropriado em toda a sua extensão, grita seus anseios pelas frases das quase mil famílias que massageiam o terreno diariamente. Ele está em cena como um filho de pais separados, que não entram em acordo sobre a quem pertence o direito de cuidar do rebento, e porta-se bem diante do tribunal do estado figurado através da presença dos líderes comunitários incansáveis. A notícia de que o juiz concedera a guarda temporária da terra aos dandarenses, trazida pelos advogados do grupo de apoio Brigadas Populares, em fevereiro de 2013, foi comemorada com fogos de artifício na comunidade, ainda que os moradores tenham de conviver com o temor de que novos recursos judiciais possam surgir em instâncias superiores à estadual. O júbilo escorreu na pele de quem não deixou de acreditar na causa, sensação contrária à dos representantes da Construtora Modelo, que se diz dona do terreno, mas é devedora de mais de R$2.000.000 de reais em impostos que lhe são de responsabilidade. Insatisfeitos, também, ficaram os motoristas do centro da cidade, reclamando do trânsito no dia da tal audiência e que sequer foram tomados por uma centelha de curiosidade para saber do que se tratava aquela marcha, em que o povo batia panelas e assoprava apitos com altivez nos rostos. Prestes a completar quatro anos, Dandara quer, menos do que revolucionar algum sistema vigente, ganhar o respeito pelas histórias que ali se encontraram. O senso de pertencimento das pessoas ao lugar já se mostra nas pequenas ações e na busca da dignidade da qual desfrutam os bairros ao

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redor. Quando atacados, todos se tornam um para defender o chão em que vivem, mas se dividem com gentileza para exibir o valor de cada indivíduo que respira ali dentro. Uma certa positividade nas ruas ecoa para que a grande guerreira da capital possa discutir, com civilidade, as questões que ainda lhe afligem sem ser calada precocemente pelas autoridades que tapam os sentidos para não ter de lidar com a ”verruga” da região da Pampulha. O lugar respira a ocupação, e não invasão, desde o primeiro dia, a sexta-feira santa de 2009. Mais de 100 famílias se apossaram do futuro, orientadas por membros do Movimento dos Sem Terra, que hoje acompanham de longe o desenrolar do que estimulou naquele ano. Nada importava senão um canto, aquele entoado frente aos olhos distantes e abismados dos vizinhos que viam os barracos de lona sendo fincados pouco a pouco. O start foi dado, principalmente, pelas esposas e mães que tiveram o desatino de revolver a situação em que se encontravam e tentaram mudar a própria vida. Por isso a denominação Dandara se encaixa palmo a palmo no terreno, em referência à esposa de Zumbi dos Palmares, negra e escrava tida como a estrategista por trás das ações do marido no Brasil colonial. As mulheres-dandara de hoje são ainda mais atinadas quanto ao seu papel de liderança e não perdem o entusiasmo para, um dia, ver as correspondências entregues no endereço de suas casas com registro oficial. A causa é representada por figuras que se fazem notar por sinalizações que anunciam os nomes das ruas. Entre eles, Martin Luther King e Nelson Mandela trazem ao lugar o significado de um esforço nunca cessante para que as minorias possam ter vez na sociedade. Com o trabalho de um grupo de estudantes de arquitetura da faculdade PUC-Minas e da Universidade Federal de Minas Gerais, concentrado na imagem profissional de Tiago Castelo Branco Lourenço, Dandara ganhou o seu desenho de acordo com os parâmetros exigidos pelos órgãos competentes da capital mineira. Essa pretensão arquitetônica norteou os caminhos de ida e volta para construir as casas de alvenaria, ainda que tenha sido preciso driblar os olhos dos policiais que se postavam em frente ao terreno e impediam os caminhões com os materiais de entrar na comunidade. Para esse fim, até carrinhos de bebês foram usados. O projeto urbanístico é exposto com orgulho em uma pintura na parede de um dos prédios comuns do agrupamento, ao gosto de todos, e

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já foi selecionado como um dos melhores trabalhos de graduação do mundo da área de Arquitetura para exibição nos Estados Unidos, no Massachussetts Institute of Technology Department of Architecture (MIT). A internacionalização do movimento ajuda no esforço contínuo de legitimar o assentamento rururbano. As roupas para embelezar Dandara já foram encomendadas, só que a entrega deve demorar um tempo a mais do que o desejado pelos moradores. Quem já teve de experimentar a realidade de uma cidade falsamente acolhedora como Belo Horizonte não hesita em expressar gratidão aos responsáveis pelo teto em que dorme, estejam eles no plano físico ou espiritual ligado à religiosidade. Ainda assim, o texto sai quase decorado das portas quando se pergunta o que ainda falta na comunidade. Não há luz elétrica normatizada, tampouco água e sistema para escoar o esgoto, que corre a céu aberto em alguns pontos. A solução emergencial é a de apelar para “gatos” que puxam os itens básicos da distribuição pública. Da mesma forma, instituições de ensino e unidades de saúde parecem fazer vistas grossas para atender às necessidades dandarenses. Há, segundo os moradores, uma escola pública logo atrás do terreno que não aceita a matrícula da maioria das crianças e adolescentes da comunidade, já que eles não possuem um comprovante legal de moradia. O lugar, porém, já está incrustrado na personalidade dos moradores como se eles tivessem passado todas as fases de suas histórias naquele pedaço de terra, como se pudessem desenterrar o álbum de fotos antigas de cada um na próxima esquina. As críticas encalcam uma vontade de desmontar a figura criada pela mídia acerca do modo de vida em um terreno ocupado. Alguns até se arrependeram assim que chegaram, outros passaram por um período de adaptação ao local, malencarado à primeira vista, mas a vontade que reina é a de não mais deixar aquele espaço que já é quase totalmente deles. O tempo abrandou os medos e a palavra ganhou potência. A terra que tanto foi furada, escavada e prensada jamais deixou de ser cuidada, como uma cirurgia em que é preciso um pouco de vigor na operação para que o resultado esperado seja possível. Em meio a Dandara pode-se notar árvores de grande porte ou até menores com frutos carnosos que foram conservadas. Este apreço não é acidental, porque, desde o princípio, foi decidido em grupo que a transformação daquele espaço generoso aconteceria com perspectivas viáveis para encaixar a narrativa do agrupamento na coletânea de Belo Horizonte. Dandara exige arremate e reconhecimento. O caminho de chegada é o mesmo que revela o retorno, um ciclo de passagens para fortalecer a sensação de que o terreno agora deixa marcas de ansiedade na barra da calça. É preciso sentir para entender, olhar para acreditar. E pisar para pertencer. Os valores são os mesmos dentro e fora, mas o que diferencia é a intensidade como cada qual se une para batalhar um bem comum. O título aponta na esquina e, com os faróis altos, lembra que o tempo do contato estabelecido já se excede. No peito as pegadas e na cabeça a aproximação com um corpo social formado ao alcance e acesso de quem se colocar à prova, e, nos dedos, o ressentimento de uma vizinhança com uma opinião construída da porta para dentro. Os metros quadrados transpassam conceitos e inebriam a percepção das pessoas destes dias, que se dão por satisfeitas por conhecer os arredores através somente de megabytes intocáveis. Mas para bom entendedor, meia Dandara basta. E também uma passagem de ônibus. Parada solicitada.

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Seção

Texto: Jéssica Michellin

E Aí?

Edição gráfica: Pablo Gomes

Fidel Castro é um ditador? Há liberdade na Coréia do Sul? As mulheres ocidentais ditam o padrão de beleza pelo mundo? Há alguma ditadura onde você vive? Nessa edição do “E aí?”, fizemos essas e outras perguntas a estudantes do Brasil, Coréia do Sul, Argentina e Cuba para saber o que eles acham de possíveis imposições em seus locais de origem, seja na política ou no comportamento. Confira!

Dabi Kim, 23 anos Coréia do Sul

“Na Coréia do Sul, somos livres para votar e temos direitos igualitários entre homens e mulheres na sociedade e na política. Porém, acredito que vivemos numa Ditadura da beleza. Grande parte das garotas já fizeram plásticas no rosto e no corpo, porque querem se encaixar no padrão de beleza das bonecas ocidentais: olhos largos, nariz afinado e corpo esguio. A Coréia do Sul é o país em que a população feminina mais recorre às cirurgias plásticas para ocidentalizar o rosto. Acredito que o problema da busca incessante pela beleza afeta não só as sul-coreanas, mas as mulheres em geral. É por isso, também, que os transtornos alimentares têm afetado muitas meninas pelo mundo. Espero que essa realidade mude num futuro próximo.”

Jorge Saura, 20 anos Cuba

Jamil Ribeiro, 22 anos Espírito Santo

“Em Cuba, vivemos uma Ditadura política nos últimos 54 anos. É complicado viver num regime como esse, já que você não tem nenhum direito legal. Acredito que a única maneira de não contribuir para a Ditadura de Fidel e Raul Castro é deixando de se envolver com a política. Para evitá-la completamente, só mesmo deixando o país. Acredito que os irmãos Castro ainda estão no poder porque eles cercearam a liberdade política dos cubanos. Cuba não possui eleição para presidente, como existe em grande parte dos países. Isso mostra que Castro é o principal líder de um regime totalitário e que toma as decisões sem consultar o seu povo.”

“O que percebo aqui, em Parauapebas (PA), acredito que não é muito diferente da realidade de outras cidades brasileiras. Vejo uma certa Ditadura do consumo. As novidades e lançamentos do mercado chegam atrasadas em relação a outras partes do Brasil, mas assim que chegam causam o mesmo impacto. Os provedores das famílias muitas vezes podem não garantir o alimento para os filhos durante todo o mês, mas a maioria das casas possuem televisão, um ou mais celulares e outros equipamentos de última geração com a Priscila Nonato, 26 anos ideia de que isso traz conforto e inclusão social.”

Pará

Imagens retiradas do site: http://iciocartunista.blogspot.com.br/2012/06/caderno-sobre-ditadura-jornal-diario-da.html

“Ao ser perguntado, logo pensei nos conflitos que os estudantes estão tendo com o atual governador do Espírito Santo porque, desde 2011, a passagem de ônibus tem aumentando exorbitantemente. Os discentes fizeram passeatas e manifestos contrários aos preços e foram reprimidos com violência; além disso, as passagens subiram mesmo contra a vontade da população. Então, em minha opinião, o Espírito Santo sofre certa Ditadura nesse sentido, pois tentam calar a voz de quem não concorda com as decisões do governo.”

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Quebrando Regras

MODA

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QUESTIONAR “A militância cega no Brasil promove a própria cegueira do nosso povo”. Com essa fala o estilista mineiro Ronaldo Fraga rebate as críticas sobre o uso de palhas de aço nos cabelos das modelos em sua Coleção Verão 2014. Em entrevista exclusiva à Revista Curinga, Fraga fala sobre a relação da moda com os mais diversos tipos de Ditadura.

Texto: Jéssica Michellin Edição gráfica: Pablo Gomes

Curinga: Como surgiu a ideia de se tornar estilista? Ronaldo Fraga: Na verdade, foi por meio do desenho, porque eu sempre gostei muito de desenhar. Fiz um curso técnico de desenho de moda gratuito no Senac, me formei como o melhor da turma e recebi a oferta de um emprego numa fábrica de tecidos. Desde então, não parei mais. C: Quando você iniciou sua carreira, há duas décadas, a moda no Brasil ainda não tinha uma identidade própria. Como foi participar dessa construção e valorização do que era feito aqui? RF: Foi um período difícil. Fazer parte de um grupo que desbrava, que faz primeiro, não é algo fácil, mas não deixa de ser gratificante. É um desafio nosso, até hoje em dia, de fazer moda de um jeito brasileiro. Acredito que caminhamos bastante, mas ainda tem muito a ser feito. C: Naquele momento, suas coleções representavam uma ruptura em relação ao que era feito no país? RF: Fui muito criticado por aqueles que me elogiam hoje, porque, no início, quando eu chegava trazendo histórias fechadas por meio da moda, isso não era muito comum. E, não raro, eu fui acusado de carnavalesco da moda. Mas eu nunca me deixei levar por essas críticas e

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persisti nas minhas ideias. C: O tema da nossa edição é Ditadura. O que vem a sua cabeça quando falamos disso? RF: Pra mim, Ditadura é toda e qualquer imposição de conceitos e estilos. Eu acho que o mundo sempre foi movido por isso e há de se quebrar toda e qualquer forma de Ditadura. Só que essa quebra demanda autoconhecimento, autoestima, apropriação da história e da cultura de um povo. Hoje, vivemos num país democrático e livre, mas nós temos a Ditadura do pensar: esse ato simples já é uma forma de subversão e de ir contra todo esse patrulhamento que a gente vive. C: A sua coleção “Quem matou Zuzu Angel” foi uma forma de protesto e sensibilização em relação aos fatos ocorridos durante a Ditadura Militar no Brasil? RF: Eu fui um adolescente extremamente militante. Eu deixava qualquer coisa no colégio pra poder ir às ruas e protestar. Eu já estava até acostumado ao gás lacrimogênio e cassetadas dos anos 80. Eu venho de uma geração, talvez a última delas, muito politizada nesse sentido. A escolha da Zuzu Angel veio porque foi o primeiro nome da moda que me chamou atenção. Foi uma brasileira que usou a


moda como uma bandeira de protesto, ato que custou a sua própria vida. Então, eu acho que a nova geração de estudantes de moda, arte e cultura no país tem muito o que aprender com figuras que fizeram muito pelo país através da roupa, como Ney Galvão e a própria Zuzu. C: Você utiliza a arte como uma maneira de resgatar, analisar e protestar em relação aos mais variados aspectos da cultura do nosso país? RF: Eu uso principalmente a moda como um vetor de apropriação cultural. Num lugar em que a cultura é dada e bem tratada não existe miséria. Não tem mudança de governo que tire uma autoestima com o viés cultural de um povo. Se esse universo cultural vai me levar a protestar, a falar coisas do meu tempo, ok, mas o principal é a apropriação cultural. Toda e qualquer situação do cotidiano que me emocione ou até me assombre pode virar tema do meu trabalho. C: Você acredita que existe uma Ditadura da beleza na moda? RF: Claro que existe. O padrão que impera é o anglo -saxônico, fato que me parece muito antigo, porque lutamos tanto pela liberdade, pelas conquistas, e ainda continuamos agarrados a certos padrões. Por mais que se fale: a modelo negra é linda. Ainda é uma negra que tem os traços finos e o cada vez mais cabelo descolorido, aproximando do loiro. A japonesa de pele amarela e a indígena também não têm vez. Eu acho até que isso é sério, tem que ser discutido. Mas tem outras coisas urgentes e básicas que a gente precisa tratar no país, para que as pessoas tenham um olhar aberto em relação a esses padrões. Uma coisa que me incomoda profundamente é o preconceito racial. Meus filhos estudam numa escola particular que deve ter dois alunos negros. Isso me incomoda muito mais do que o padrão de beleza na moda. C: Qual é o papel da moda? RF: A moda é muito mais que um vetor econômico. Ela tem um vetor cultural, porque estimula a transformação do olhar e do pensar das pessoas. E é muito sério quando eu te digo que a roupa é a primeira mídia que você tem controle, porque é a primeira coisa que você vai colocar e expor no seu corpo. A moda diz muito sobre quem você é.

C: A sua última coleção gerou muitos comentários nas redes sociais por causa das palhas de aço nos cabelos das modelos. Qual foi a sua intenção ao compor esse visual? RF: A comoção em torno dessa questão me gerou muita surpresa. Mostra que essa militância cega no Brasil promove a própria cegueira, já que continuamos sem dar atenção a inúmeros problemas. É como se estivessem discutindo a cor da bolinha da calcinha da formiga enquanto os elefantes estão passando vigorosos. Já tinha usado o material nas coleções de 96 e 94, e em nenhuma delas causou tanta polêmica quanto nessa, em que o ponto da discussão era o preconceito racial nos anos 50, quando negro não podia ver jogo nos estádios e muito menos jogar. Antes, era permitido aos jogadores e juízes surrarem o jogador negro quando ele cometesse falta, então o negro tinha que ter a malícia para desviar a bola do oponente sem fazer falta. Isso é a arte que foi retratada no desfile. Na época, a palha era utilizada para tentar melhorar o sinal das TVs, por isso, a ideia de colocar o material no desfile. A sensação que eu tenho é a de que muita gente entra no twitter, pega uma frase e simplesmente retwitta aquilo sem o menor discernimento. Um dos twittes dizia: “desfile homenageia negros com a peruca de bombril”. O desfile não é uma homenagem aos negros, o desfile fala de futebol!

Ilustrações: Ronaldo Fraga

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FrequĂŞncia


FOTO: LINCON ZARBIETTI

“Todo mundo tá revendo o que nunca foi visto, todo mundo tá comprando os mais vendidos”. Os versos são de 1990, mas revelam uma característica que é mais do que atual na nossa sociedade. “O Papa é Pop”, dos Engenheiros do Hawaii, trata da exposição que a mídia faz de celebridades e suas produções e critica a maneira como lidamos com nossos ídolos. Será que o pop realmente não poupa ninguém? Ligado a uma lógica comercial, a cultura do pop diz respeito a um conjunto de dinâmicas que padronizam comportamentos e gostos. Seus grandes representantes transitam entre o rock, o gospel, o axé, o funk, o sertanejo ou qualquer estilo de música. Há sempre um hit que ganha destaque no cenário musical e se torna tão popular, que o artista é capaz de conduzir e influenciar um grupo enorme de fãs. Estes ídolos são diferentes no estilo e na maneira de agir e fazem uso de linguagens distintas ao difundir suas músicas. Mas todos têm algo em comum: são considerados por muitos fãs como referência.

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OTO: Frame do Clipe ”Your body”

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d i k f h g e j n


“Geralmente eu procuro ouvir alguns artistas porque a Christina disse que gosta em alguma entrevista. Acabo indo atrás e gostando. Talvez se eu não tivesse visto ela comentado em algum lugar eu nem teria parado para conhecê-los” Daniel Duarte

Texto: João Felipe Lolli e Lorena Silva Edição Gráfica: Janini Sanches

O estudante de música Daniel Duarte, 24 anos, não coleciona somente as canções e fotos do seu ídolo, Christina Aguilera. Há seis anos, a paixão pela cantora é tão grande que perfumes, DVDs, revistas e vinis originais, que ele mantém intactos, também fazem parte da sua coleção. Apesar de nunca ter ido a uma apresentação da artista, que só fez dois shows no Brasil em 2000, o fã se arrepende de não ter feito o possível para vê-la em 2011, quando a cantora veio ao país lançar sua linha de roupas em parceria com uma loja brasileira e também para assistir ao desfile da São Paulo Fashion Week. Segundo Daniel, Christina Aguilera exerce forte influência em seu conhecimento musical. Foi a partir dela que ele conheceu alguns nomes do blues e do jazz, como Etta James, Nina Simone, Aretha Franklin e até mesmo as mais pop’s como Judy Garland, Julie Andrews e Barbra Streisand. “Geralmente eu procuro ouvir alguns artistas porque a Christina disse que gosta em alguma entrevista. Acabo indo atrás e gostando. Talvez se eu não tivesse visto ela comentado em algum lugar eu nem teria parado para conhecê-los”, explica. Acostumado a fotografar profissionalmente artistas do universo pop, como Beyoncé, Rihanna, Michel Teló e Maria Gadú, tanto em shows quanto para produção de capas de CDs e DVDs, Marcos Hermes já esteve perto de alguns de seus ído-

los, como Paul McCartney e Gilberto Gil. O fotógrafo ingressou nessa área por querer registrar seus artistas favoritos no palco. Como fã, Hermes é privilegiado nessa relação com seus ídolos, já que aos poucos pôde chegar mais perto deles, até poder conhecêlos. “Você acaba virando amigo dos ídolos, pelo contato e pela confiança”, explica. Mas quem constrói esse ídolo?

Uma gênese pop

Segundo o editor assistente do caderno de cultura da Folha de S. Paulo, Rodrigo Levino, a imagem de um ícone pop é construída pela indústria cultural. O termo foi utilizado pela primeira vez por Theodor Adorno e Max Horkheimer, filósofos alemães do século XX, para definir a condição da produção artística na sociedade capitalista contemporânea. Representa o conjunto de instituições que produzem, distribuem e transmitem conteúdo artístico com o objetivo de obter lucro. Para Ronaldo Helal, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), essa construção do ídolo na mídia se faz em uma via de mão dupla. “A mídia legitima, edita, destaca alguns elementos, superdimensiona outros, mas ela só faz isso de acordo com as ações do ídolo e da sociedade”, completa. No contexto de uma cultura mercantilizada, artistas e público formam um circuito orientado pelo consumo.

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A mídia é capaz de difundir o gestual, as roupas e a linguagem dos ídolos pop, ou seja, toda uma identidade, que é percebida mais facilmente na televisão, meio em que imagem e voz se aliam e onde esses artistas muitas vezes despontam e aparecem com frequência. O aspecto visual de um músico também contribui fundamentalmente para sua ascensão. Por trabalhar com a fotografia e produção da imagem de muitos desses artistas, Marcos Hermes compreende essa importância. “Hoje é difícil imaginar um artista que faz sucesso sem uma imagem coerente com a sua obra”, comenta. Para Daniel, vários são os responsáveis por construir a imagem que Christina Aguilera transmite: a mídia, os fãs e também quem a produz. A cantora gravou um álbum em novembro de 2012 e a gravadora desistiu de sua divulgação alegando que a artista estaria acima do peso. “Acredito que os fãs vão continuar gostando dela, estando gorda ou magra”, diz Daniel. “Mas talvez ela (a gravadora) acredite que não é suficiente para alcançar seu público alvo, atiçar a mídia e vender”.

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O cenário musical tem se configurado em torno das produtoras e das assessorias de imprensa desses artistas, que possuem o intuito de distribuir suas produções para a mídia e alimentar um mercado voltado às vendas e ao lucro. Muitos são os mecanismos que colaboram para que um artista saia do anonimato e se torne uma figura pública. Alguns desses mecanismos, por exemplo, incluem pagar para que as rádios toquem determinada música. “Existia isso (pagar as rádios) antigamente, e tem até hoje. Não é uma coisa divulgada, mas com certeza existe”, afirma Celso Alves, artista mineiro com dois discos gravados e curador de música do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana entre 2009 e 2012. Celso lembra ainda que muitos artistas não precisam investir em divulgação. “Claro que o empresário do Roberto Carlos não precisa pagar nada pra tocarem “Esse cara sou eu”, porque é interesse da rádio tocar a música. Mas agora se é um cantor que está começando, a gravadora ou o empresário pagam pra rádio tocar”, declara o artista, que não considera essa prática desleal. “Se eu tivesse dinheiro pagaria sim uma rádio pra tocar, pagaria pra aparecer no Faustão, acho isso natural”, confessa Celso Alves, que já

chegou a mandar seu material para um diretor musical da Rede Globo, no Rio de Janeiro. “De repente ele ouve e me encaixa em uma novela, quem sabe? Mas seria muita sorte, um em um milhão”, declara.

Outros palcos

Assim como a TV e o rádio, a internet contribui hoje de forma significativa na difusão da música pop. Uma das vantagens da internet é o artista poder divulgar seu trabalho sem que seja necessário um espaço físico, além da velocidade na troca de informações. Para o estudante de jornalismo André Salmerón, 22 anos, na internet sempre se pode buscar o que ouvir, já que há milhões de artistas à disposição. “É tudo uma questão de escolha: você pode correr atrás de novas influências ou deixar a MTV fazer isso pra você”, comenta. O editor da Folha de S. Paulo, Rodrigo Levino, complementa: “não há canal que coopere mais para a ascensão de um ídolo pop hoje do que a internet. Se não há barreira geográficas nem linguísticas, tudo é permitido”. A Colonial FM, da cidade de Congonhas do Campo,

que fica a 80 quilômetros de Belo Horizonte, é um exemplo de rádio popular, já que trata de trânsito, resumo de novelas, horóscopo e balcão de empregos. Musicalmente, toca pagode, sertanejo, axé. “Se você tem uma rádio ‘pop’, essa grade de programação vai ser estritamente popular, com informações de acesso mais fácil”, explica o coordenador artístico da Colonial, Marcos Silva. Com três décadas de experiência, tendo passado por emissoras como o sistema Globo de rádio, Jovem Pan, 98 FM, dentre outras, Marcos acredita que a novela ainda dita o que toca ou não nas rádios do país. “A novela é de um apelo muito popular, ela está todo dia na sua casa, e as pessoas se apegam aos personagens e também às músicas”, completa. Nos impressos, Levino enfatiza que esses artistas têm menos espaço do que mereceriam. “Cadernos de cultura operam como se fossem uma reserva de um tipo de cultura mais refinada, o que na maior parte das vezes é verdade”.


FOTO: Frame do vídeo “Especial de natal”exibido pela Rede Globo - Dez/2012

A autora da novela

Salve Jorge, da Rede Globo, Glória Perez, encomendou do “Rei” Roberto Carlos a canção “Esse cara sou eu”. O hit dos protagonistas Théo e Morena está entre os mais tocados das rádios de todo Brasil desde outubro de 2012.

Segundo o jornalista, não há como ignorar completamente o movimento das ruas, os artistas que estão fazendo sucesso nas emissoras de rádio e na internet, por exemplo. Esse é o momento de um bom caderno de cultura se debruçar sobre esses fenômenos, qualificá-los e tentar explicar para os leitores, com visão mais ou menos crítica, o seu significado. O professor Ronaldo Helal acredita que na internet todo mundo é senhor da sua própria notícia. Ao invés de uma cultura de massa, temos uma troca de informações, onde os que eram somente receptores também passam a emitir mensagem e conte-

údo. “A internet quebra com a ideia monopolizadora da indústria cultural”, enfatiza. O estudante André não tem um ídolo considerado pop. É fã de jazz, rock’n’roll, MPB e de músicos como Lou Reed, Sonic Youth, Miles Davis e Los Hermanos, artistas que não estão sempre expostos na mídia, mas são igualmente admirados pelo estudante. Segundo André, é possível se ausentar da cultura pop até certo ponto. Antes, fugir do que era proposto pela mídia era mais difícil, mas hoje escolher é possível, já que há ferramentas capazes de direcionar a outros artistas. O pop nosso de cada dia já não é mais o mesmo.

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Opinião

VOCÊ NÃO PODE PERDER ESTA OFERTA!

Texto: Alice Piermatei Edição Gráfica: Laio Monteiro

Posso. Podemos. Ligamos a televisão: anúncio, propaganda, merchandising. Modelo famosa que, através do seu sorriso e do creme dental “x”, conquistou o mundo. Apresentador bem sucedido falando sobre um novo benefício do banco “tal”, a loja de eletrodomésticos que “tem preço” e entre as coisas que fazem você parecer mais respeitável está um sedan novo na garagem. Ser induzido a comprar, consumir ou fazer parte do grupo de pessoas que possui determinado bem é hoje algo comum. Somos levados a uma necessidade de consumo imperante. Esse imediatismo da posse - reiterado em pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que afirma que entre 2003 e 2011 o poder de compra do rendimento de trabalho dos brasileiros aumentou em 22,2% - me faz pensar que, ao passar o cartão de crédito na maquininha, enquanto dividimos a conta em 6 vezes sem juros – eu disse em até 6 vezes sem juros! - quase nunca temos certeza da vontade que nos levou até a compra. A magia mostrada nos filmes publicitários, nos outdoors e cartazes transporta a sociedade para o que seria, inconscientemente, seu ideal de perfeição. Afinal, quem não gostaria de ter uma família feliz e estruturada como as que são mostradas nos comerciais de margarina? Quem não quer adquirir respeito e status como o que pode lhe trazer um carro do ano? Quem não gostaria de ter um crediário de 12 prestações, realimentado todos os anos e através do qual as dívidas crescem cada vez mais? Segundo reportagem do Estado de Minas, de maio de 2011, há uma perspectiva do governo para um crescimento da massa salarial a uma taxa anual de 9% até 2014. Partindo desse pressuposto, ao mesmo tempo em que novas oportunidades de consumo surgem, vindas dos crescentes aumentos de salários, as portas do mercado se abrem para as classes emergentes. Poderíamos dizer, supondo que nossos gastos refletem nossos gostos e hábitos, que a fatura que chega às nossas

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casas é a definição de nossa personalidade? Não sei medir até que ponto nossas projeções e idealizações de futuro, imagem e carreira perpassam as ordens de consumo recebidas. Talvez um relógio novo consiga realmente dizer aos meus colegas que sou uma pessoa mais séria, mas não sei quem me convenceu disso. Seriam os tais comandos repassados pelas inúmeras propagandas? Difícil julgar comportamentos cíclicos e habituais. O papel dos profissionais de publicidade é justamente vender a marca, fazê-la ser lembrada e consumida. A economia se aquece através das vendas, por isso tem que ter capital girando para se manter. A ordem natural do sistema está posta, não se pode negar. Nisso, a quantidade que consumimos é o “x” da questão, ela é grande demais. E aí, quem é o responsável por isso? Nós, compradores, que desenvolvemos necessidades supérfluas? Os publicitários, por nos induzirem a cultivar essas necessidades? O mercado, que tem que se manter? Ou o capitalismo, modelo econômico vigente, que funciona nessa dinâmica? Ao vermos um anúncio publicitário, uma mensagem é enviada ao nosso cérebro, ela dispara um sentimento de desejo, de necessidade, um impulso a partir do qual temos vontade de adquirir o que é proposto, e rapidamente. Segue-se uma busca pelo produto: sites, lojas, telefonemas, encomendas. “Vocês aceitam cartão?” No meio do turbilhão de informações, entre os apelos de “Compre! Compre! Compre!”, esquecemos de nos perguntar qual a real necessidade de ter o objeto de desejo. Ou, ainda, de nos questionar sobre o próprio desejo. Às vezes, fazemos coleções de coisas praticamente idênticas e tentamos nos convencer de que são totalmente diferentes e úteis. Tudo isso para, no dia seguinte, ambicionar outro produto recém-lançado e muito bem cotado pela crítica. Então, seguimos com as mesmas desculpas, retiradas da necessidade imposta a nós, mas não por nós. Tem certeza que você não pode perder esta oferta?

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LAMPIÃO

Jornal Laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

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Revista-laboratório do Curso de Jornalismo da Ufop - Universidade Federal de Ouro Preto.