CAPA
O recomeço Harife Mello, 30, chega ao prédio em que trabalha, na Granja Viana, no banco de trás de seu carro. Apesar do veículo adaptado, quem dirige é Diego, seu braço direito na empresa em que é sócio-diretor desde que se recuperou de um grave acidente, há três anos, que quase tirou sua vida, após capotar a 200 km/h sem cinto de segurança. Foram 20 parafusos na coluna. A vida foi poupada, mas mudou completamente. O empresário fala sobre o ocorrido sem rodeios e descreve as etapas que enfrentou por conta da paraplegia. A independência do dia a dia foi substituída pela casa de sua mãe, que teve Harife com o seu braço direito, Diego. de ser adaptada para recebê-lo. “Eu tinha vergonha de sair de casa depois do acidente. Sempre fui muito autoritário e, de repente, me senti inferiorizado perto dos outros”, conta. Harife acredita que parte da sociedade é ignorante quando o assunto é o deficiente físico. “Quando não se tem ninguém próximo que seja portador de necessidades especiais, não se tem a noção de que não pode parar na vaga de estacionamento para deficiente”, explica ele que, mesmo no prédio em que trabalha, evita parar em vagas especiais porque sabe que tem gente que precisa muito mais dos espaços do que ele. Quanto a vida profissional, ele, antes do acidente, era gerente de uma loja de automóveis que também passou por adaptações para recebê-lo, como banheiro e espaço para atendimento. Foi quando abriu sua própria empresa e passou de funcionário a patrão. Ele
ex-presidente Abraham Lincoln, a escritora Agatha Christie, o inventor Leonardo Da Vinci, o gênio musical Beethoven e até o astro do cinema Tom Cruise, que sofre de dislexia. As dificuldades em torno da relação do portador de necessidades especiais com o mercado de trabalho são constantes. As empresas ainda encontram contratempos na hora do recrutamento de pessoas com deficiência, pois carecem, em sua maioria, de um projeto
DE ACORDO COM O CENSO DEMOGRÁFICO DO IBGE 2010, 61% DOS DEFICIENTES BRASILEIROS POSSUEM O ENSINO FUNDAMENTAL INCOMPLETO, 14% ENSINO MÉDIO INCOMPLETO, 18% ESTÃO CURSANDO O ENSINO SUPERIOR E APENAS 7% COMPLETARAM O ENSINO SUPERIOR.
acredita que o acidente incentivou a responsabilidade com a vida profissional.
“Conquistei muitas coisas nestes três anos, muito mais do que eu tinha antes”, afirma. Hoje, Harife leva uma vida normal. Viaja, namora e se diverte dentro de suas limitações. Além disso, mostra-se esperançoso com a ciência em relação aos tratamentos, que, segundo ele, são caros e muita gente acaba não tendo a oportunidade de fazer. Entre os planos estão dar um pouco de descanso para a mãe e, quem sabe, voltar a morar sozinho, mostrando que está pronto para realizar mais um desafio.
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REVISTA CIRCUITO
Beethoven sofreu com a gradativa perda de audição, desde seus 27 anos de idade.