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das coisas improváveis. O caso não existe, é no interior dos fenômenos impossíveis que se realizam as trocas simbólicas. O efeito do imponderável é determinante, o milagre parece promover na realidade o justo equilíbrio das forças opostas no âmago dos eventos incomuns. O natural e o sobrenatural se entrelaçam nos diversos significados que ambos expressam nas relações existenciais, na interpretação das experiências e na salvaguarda das tradições. Nos sentidos dessa teia, a cura de doenças segue caminhos ritualísticos com os objetivos de vencer as limitações, de adquirir poderes e recursos que ajudem no controle de qualquer tipo de sofrimento: o saber místico, pela intercessão dos santos; magia, pelo trabalho do curador ou do experiente, ou do benzedor; a farmacopéia popular, pelos saberes acerca da eficácia específica das ervas, das puçangas… Os encantados são seres invisíveis que habitam o “fundo” do rio, nos lugares do “encante”. As mulheres são susceptíveis de serem encantadas quando mundiadas, atraídas pelos encantados por alguma razão de agrado. Os encantados mais importantes habitam os rios, lagos e igarapés e são chamados de “bichos do fundo”. Manifestam-se nas formas de cobras, peixes, botos… Essas entidades são essencialmente ambíguas, o que lhes confere também a manifestação como seres humanos e a incorporação, do espírito e matéria, nas pessoas comuns. No período menstrual as mulheres são mais vulneráveis à malineza de outros bichos das encantarias: o uruá, o ambuá, o aruanã, a anhangá… Acontece que o mundo vegetal é vasto e de muitos significados. Nele, interativamente, a mulher se entrelaça a modo de um convívio perfeito com a natureza, de cuja intimidade dela, usufrui da flora, da fauna e dos minerais da terra. O mundo, então, parece paralisado e inserido em mistérios os espíritos vem dos rios e da floresta, e se imiscuem

Não há paladar que resista, tudo fica muito gotoso.

A casa está protegida pelo tambatajá guardião

Infinidade de recursos, soluções e preparos dos salvatórios caseiros

na vida cotidiana contribuindo dessa forma na constituição de valores, crenças e saberes de grande importância no ajuntamento à diversidade biológica das ribeiras. A natureza constitui ordem e razão, verdades existenciais que se encarnam no entendimento da vida e no discernimento das relações de usufruto. O conhecimento da flora medicinal suporta a cura das mais variadas doenças, e no processo terapêutico participam práticas mágicas, religiosas e profanas para maior eficácia. Nessa concepção a crença de que a cura será alcançada é benéfica e útil para o consenso de que a verdade e o bem devem prevalecer acima de todos os males. A farmacopéia popular compõe-se de raízes, miolos, folhas, sementes, frutos, leites, óleos, resinas, flores, cipós; uma parafernália cujo dote precisa de muito saber: Capim santo, Andiroba, Preciosa, Malva, Priprioca, Copaíba, Sacaca, Salva, Cabacinha, Jurubeba, Vassourinha, Caapeba, Curare, Cumaru, Quebra-pedra, Sucuriju, Boldo, Jucá, Bergamota, Jatobá, Manjerona, Chama, Barbatimão, Japana, Coramina de planta, Arruda, Cana fístula, Abuta, Catinga de mulata, Amapá, Canela, Patauá, Oriza, Amor-crescido, Sabugueiro, Pariri, Mastruz, Vindecáá. O mundo se abre à lição do semear; e vozes n’alma rebrotam para anunciar que os poderes ocultos do mal estão mantidos à distância por força do poder fecundo das infusões, dos banhos, dos asseios, das defumações, das proteções… Ademais os cuidados curativos e preventivos, a boa disposição anuncia porções estimulantes da atração sexual, despertar o fascínio dos homens é essencial, indispensável ao equilíbrio do corpo e do espírito. Em tal alteza, as mulheres vão trabalhar na roça, coletar materiais para a confecção do artesanato, despescar matapis… Estão

A farmacopéia popular, pelos saberes acerca da eficácia específica das ervas, das puçangas… 36

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O pucuru temperado.indd 36

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