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OUTUBRO 2011 | #02

magia O LADO BIZARRO DO ILUSIONISMO charlie sheen O DESVAIRADO DE HOLLYWOOD fotografia NUDEZ NA ESCURIDテグ entrevista

sugarpie rita caetano


| #02 OUTUBRO 2011

A MÁQUINA ACORDOU

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sugarpie o rita caetan

FICHA TÉCNICA DIRECTOR Tiago Matos COLABORADORES Eva Duarte Luna Santos Sílvia Silva Susana Veríssimo CRONISTA Juvenal FOTOGRAFIA Filipe Vicente CONTACTO revista21@revista21.net PERIODICIDADE Mensal

A

máquina acordou. Milhares de pessoas acederam à nossa página oficial e leram a primeira edição da 21. Como agradecimento, cá estamos outra vez, confiantes que o resultado continua a ser positivo. Nesta edição, como não podia deixar de ser, destacamos a capa. Isto porque fomos falar com Rita Caetano, a.k.a. sugarPIE. Os nossos leitores mais jovens terão certamente este nome como familiar, recordando-se porventura de uma das sensações cibernéticas nacionais da última década. Sob o pseudónimo sugarPIE, Rita costumava publicar fotos e vídeos nos quais surgia com uma atitude irreverente e uma vestimenta sempre diferente e extravagante, qual mulher-camaleão. A imagem pegou e Rita tornou-se virtualmente famosa, alvo de ódios e amores juvenis. Hoje, alguns anos depois, quisemos saber o que era feito dela. Sentir-se-á Rita Caetano embaraçada ou orgulhosa da sua sugarPIE? Pensará no futuro ou viverá no passado da sua fama virtual? É o que pode descobrir na nossa entrevista. Mas há mais! Descobrimos o lado bizarro da magia e alguns dos seus principais intervenientes. Exploramos a vida de um dos mais desvairados personagens de Hollywood: Charlie Sheen. Desvendamos loucuras interiores, num relato vertiginoso preparado como conto do mês. E, por fim, desvendamos segredos corporais num ensaio fotográfico da autoria de Filipe Vicente. Mas ainda não acabou! Isto porque neste número estreamos um cronista bastante especial: Juvenal, autor d’O Melhor Blog do Universo, um dos mais hilariantes espaços da blogosfera nacional (na minha modesta opinião). Gostem ou não do estilo, tenham apenas presente uma coisa: a 21 não se responsabiliza pelas opiniões deste autor! Até Novembro!

Tiago Matos


ÍNDICE

14 ENTREVISTA

OUTUBRO 2011 CORREIO 6 NOTÍCIAS 8 AGENDA 10 CRÓNICA A PALAVRA DO SENHOR 12 PERFIL CHARLIE SHEEN 24 LETRAS LOUCURA BRANCA 30 COMPORTAMENTO O LADO BIZARRO DA MAGIA 36 FOTOGRAFIA SEGREDOS OBSCUROS 40


correio

MAIS GUITARRAS Parabéns pelo excelente trabalho. Gostei mesmo da primeira edição, só espero que consigam manter a qualidade nas próximas, porque já têm uma fã! Gostei de todos, mas especialmente do artigo dos guitarristas, ainda que faltem lá muitos dos melhores de sempre. Cátia Simões Obrigado pelas palavras, Cátia! Era impossível reduzir a 21 o lote de melhores guitarristas de sempre, mas não pomos de lado a hipótese de, no futuro, fazer uma segunda parte desse artigo, com mais 21! DITADORES Parabéns! A revista está óptima, em design e nos artigos. Adorei os filmes dos ditadores! Diana Ribeiro Obrigado, Diana! Continue a acompanhar-nos, porque não deixaremos de ter artigos com curiosidades do género!

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A MELHOR DO PAÍS A revista está genial. Não conheço muitas revistas digitais, mas arrisco-me a dizer que será uma das melhores ou mesmo a melhor do país. Continuem! Hélder dos Santos Muito obrigado! Se o Hélder não conhece outras, então somos certamente os melhores! Continue a acompanhar-nos! ONLINE? A revista é só online? Tânia M. Sim. PIOR A PAGAR Já li bem pior e paguei. E parabéns pelo design. Está muito bom. Ricardo Ramos É sempre pior quando se paga. Obrigado, Ricardo.


| #01 EMBRO 2011

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Isadora Bellavinha

Enviem-nos todos os vossos comentários e sugestões para o nosso e-mail oficial: revista21@revista21.net.

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notícias Por: Luna Santos SCARLETT JOHANSSON NUA NA INTERNET

Foram recentemente divulgadas na Internet fotos de Scarlett Johansson nua, roubadas por hackers que lhe haviam invadido o telemóvel. A actriz já denunciou a situação ao FBI, que está a investigar, mas diz-se que os hackers terão ainda na sua posse imagens comprometedoras de outras celebridades, entre as quais Vanessa Hudgens, Lindsey Vonn, Emma Caulfield e Jessica Alba.

HEIDI KLUM É UM PERIGO!

Uma empresa de estudos informáticos informou que, ao efectuar downloads de conteúdos com a modelo e apresentadora Heidi Klum, os utilizadores correm sérios riscos de apanhar vírus. Klum é considerada o maior perigo informático do momento.

PORCO-HERÓI CLONADO

O porco que sobreviveu a um violento terramoto na China em 2008 foi clonado com sucesso. O animal, que tinha sido castrado antes do desastre, resistiu 36 dias debaixo dos escombros da pocilga a beber água da chuva. Os seis «filhos adoptivos» serão provavelmente enviados para um instituto genético.

NICOLAS CAGE É UM VAMPIRO?

Foi encontrada nos Estados Unidos uma fotografia datada de 1870 que mostra um homem incrivelmente semelhante a Nicolas Cage. Por todo o mundo chovem teorias de que o actor é, na realidade, um vampiro. Entretanto, o proprietário da imagem colocou-a à venda na Internet por um milhão de dólares (mais de 700 mil euros).

NUS NO MAR MORTO

O fotógrafo de nus Spencer Tunick reuniu uma multidão de mais de mil israelitas para posarem junto ao Mar Morto. O trabalho denomina-se «Mar Nu» e pretende ajudar a que o local seja considerado uma das sete maravilhas naturais do mundo, bem como chamar a atenção para o risco do seu desaparecimento devido à seca.

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SE RESSUSCITAR, AVISE!

Com o objectivo de não enterrar mortos que estejam ainda vivos (!), uma morgue da Turquia instalou um alarme peculiar nos compartimentos refrigerados, que toca ao detectar qualquer movimento nos corpos, abrindo ainda as portas de forma automática caso o «morto» lhes toque.


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agenda Por: Tiago Matos INCRIVEL HALLOWEEN O Halloween celebra-se em grande num dos locais mais emblemáticos de Almada: a Incrível Almadense. No total, são três dias de cinema de horror, entre 28 e 31 de Outubro, num festival onde serão exibidos alguns dos mais emblemáticos filmes do género, como «Nosferatu» ou «Audition». A encerrar, no Salão de Espectáculos, os portugueses Moonspell realizarão um concerto inédito, recriando a atmosfera dos anos 90 ao apresentar na íntegra o seu internacionalmente reputado primeiro álbum: «Wolfheart» ONDE Incrível Almadense, Almada. QUANDO 28 a 31 de Outubro. QUANTO 18€ (Concerto Moonspell), 6€ (Ciclo de Cinema de Horror Bilhete Diário), 13€ (Ciclo de Cinema de Horror - Passe 3 Dias) ou 25€ (Pack Incrível Halloween - Ciclo + Concerto).

TEMPTATION IS BACK

Os holandeses Within Temptation, uma das bandas de Metal mais acarinhadas do público português, está de regresso ao nosso país, para dois concertos que prometem apresentar o recente álbum «The Unforgiving», sem esquecer clássicos passados como «Mother Earth», «Ice Queen», «Frozen» ou «Stand My Ground». Uma excelente oportunidade para ouvir a melodiosa voz de Sharon den Adel! ONDE Coliseu do Porto e Coliseu dos Recreios. QUANDO 11 (Porto) e 12 (Lisboa) de Outubro, às 21h. QUANTO 23€ a 30€.

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PETS EM ESTREIA O Teatro Camões dá início à nova temporada com uma estreia absoluta, concebida por Olga Roriz para o elenco de bailarinos da sua Companhia: PETS. Sobre o mesmo, refere a própria que é «um espectáculo onde nos propomos observar o inantigível». Uma proposta ambiciosa destinada a apreciadores de bailado. ONDE Teatro Camões, Lisboa. QUANDO 7 e 8 de Outubro, às 21h, ou 9, às 16h. QUANTO 5€ a 15€. Descontos de 50% (menores de 18 anos), 35% (até 25 e maiores de 65) ou 25% (grupos +15).

OPEN YOUR EYES Outra banda com uma ligação especial a Portugal que regressa ao nosso país em Outubro é o quarteto liderado por Sandra Nasic, os inesquecíveis Guano Apes. Após um hiato de alguns anos, apresentam-se para uma dupla de espectáculos, em Lisboa e no Porto. ONDE Coliseu dos Recreios e Coliseu do Porto. QUANDO 29 (Lisboa) e 30 de Outubro (Porto), às 22h. QUANTO 25€ a 30€.

MOZART VS SALIERI Inspirada num conto de Aleksandr Pushkin e adaptada ao teatro por Peter Shaffer, «Amadeus» conta a história da rivalidade (ficcionalizada, é certo) entre os compositores Wolfgang Amadeus Mozart (aqui interpretado por Ivo Canelas) e Antonio Salieri (Diogo Infante). A clássica peça está em exibição no D. Maria II até ao início de Novembro. ONDE Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa. QUANDO Até 6 de Novembro. Quarta a sábado, às 21h, e domingo, às 16h. QUANTO 7,5€ a 40€.

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crónica Por: juvenal

www.sobpressaonaoconsigo.blogspot.com

a palavra do

senhor

A

carta de condução está acessível a qualquer cidadão que tenha mais de dezoito anos e a escolaridade mínima, que julgo ser o 9º ano e até podia ir procurar mas deixei isto para a última porque saíram as demos do FIFA e do PES 12 e a pessoa tem de saber o que comprar e depois distrai-se nisto das prioridades com demasiada facilidade e depois gosta de culpar o Estado e os outros, mediante a aprovação em exame. A tendência, como já se faz na Suécia onde eu já estive e vi com estes olhos que a terra há-de comer, é a inclusão de um exame extra, unicamente para as mulheres, que meça o grau de inveja do pénis (GIP). O GIP varia entre dois extremos conhecidos. Sendo que, se um é apenas teórico (é o bosão de Higgs, o Big Foot, o monstro do Loch Ness e a vitória limpa do Benfica do GIP), o outro é encontrado com regularidade no Purex, em estado puro nas noites de terça-feira, onde gira apenas o último álbum de Bikini Kill, se faz braçode-ferro ao balcão e os pintelhos fazem as farturas mudar de nome para mínguas. A incapacidade de conduzir das mulheres é lendária e genética e nós, homens que mandamos na sociedade porque essa foi a vontade de Deus, ainda as deixamos tirar

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a carta de condução e fazer um monte de outras coisas que desafiam claramente a vontade do Senhor e que se Ele descobre ainda nos corta o Facebook e apenas nos deixa ir à Internet ao fim-de-semana. Vai daí, a mulher, pouco contente com esta dádiva dos Céus e a tresandar a inveja do pénis, começou logo a inventar. A ultrapassar tipo enguia, de preferência sem piscas e a arranjar o cabelo no espelho que devia ser retrovisor e a falar ao telemóvel e a ter inveja do pénis, a ir até ao fim pela faixa de aceleração e meter mesmo no fim e ainda fazer cara de cu e a ter inveja do pénis, a ir na faixa da direita como quem vai para Almada quando se vem da Costa para Lisboa e fingir que se enganou e meter pisca (que se deve manter um exclusivo apenas dos novos ricos dos Mercedes e BMWs tostados - os novos ricos, não os Mercedes e os BMWs - dos solários e da praia em hora de cancro) e fazer cara de cu e a ter inveja do pénis, a alterar as regras da entrada alternada para entrada alternada apenas se se for homem que “eles a mim não me fodem” e fazer aquela cara de cu de quem finge que não vê e a ter inveja do pénis. O tamanho pode não importar, mas o tamanho da inveja do pénis importa e bem.


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entrevista

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sugarpie vs rita

caetano

Mais conhecida como sugarPIE, Rita Caetano nasceu nos Açores e tornou-se conhecida no mundo virtual aos 15 anos graças à sua aparência extravagante, que a elevou ao estatuto de Scene Queen. Utilizando as redes sociais a seu favor, alcançou uma verdadeira comunidade de fãs que a idolatravam e lhe enviavam desenhos e fotografias. Cinco anos depois, a sua vida mudou. E é agora a nossa capa de Outubro.

Texto: Luna Santos Fotos: Emanuel Oliveira Cedidas por Rita Caetano QUEM É A RITA CAETANO E ONDE ENTRA A SUGARPIE NA SUA HISTÓRIA?

A Rita Caetano é uma rapariga muito simples e humilde. Antes de a sugarPIE entrar na minha vida, sentia-me muitas vezes posta de parte pelas pessoas. Tinha os meus amigos, alguns deles verdadeiros, que ainda hoje se encontram presentes na minha vida, mas até me tornar na sugarPIE, qualquer pessoa que olhasse para mim diria que nunca iria ser alguém. Eu própria, na altura, também não imaginava que me pudesse vir a tornar conhecida. Era uma adolescente bastante insegura. Mas a partir do momento em que comecei a mudar o meu estilo, a minha personalidade foi mudando também. Não deixei de ser quem era, apenas ganhei mais atitude e força. Quando me denominei sugarPIE não esperava que tempos mais

tarde viesse a alcançar tanta popularidade nem que nada disso se tornasse “sério”. Filo por brincadeira e utilizei esse apelido porque tinha muito a ver com o meu estilo. Aos poucos, fui ganhando popularidade no hi5 e decidime então “expandir” para outras redes sociais.

vida no mundo virtual. Talvez fosse por isso que me achavam uma Scene Queen.

FOSTE UMA DAS PRIMEIRAS PORTUGUESAS A GANHAR UM ESTATUTO DE CULTO EXCLUSIVAMENTE ATRAVÉS DAS REDES SOCIAIS. ACHAS

CRIARAM IMENSOS BOATOS ACERCA DE MIM, TODOS OS DIAS ME GOZAVAM E TENTAVAM HUMILHAR. CRIAVAM PÁGINAS OFENSIVAS, VÍDEOS A GOZAR-ME, LETRAS CONTRA MIM.

O QUE É UMA SCENE QUEEN?

Eu nunca me considerei uma Scene Queen. Apesar de ter o estilo semelhante ao delas, nunca achei que fosse uma. Mas pelo que sei, uma Scene Queen é uma rapariga com um estilo extravagante, que não se enquadra em nenhum outro estilo, e que vive parte da sua

QUE QUEM O CONSEGUE AGORA, COM MAIS FERRAMENTAS À DISPOSIÇÃO, TEM O MESMO MÉRITO?

Para ser sincera, não sei. Há cinco anos, encontravamse com pouca frequência portugueses com um estilo mais invulgar e foi por isso que consegui a atenção de

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muitas pessoas. Hoje em dia, a meu ver, são muitas as pessoas que se vestem de modo diferente, e talvez já não chame tanto a atenção das pessoas. Não sei se fui a primeira portuguesa a ficar conhecida através do mundo virtual, mas o que é certo é que nunca tinha conhecido nenhuma outra pessoa que se tivesse tornado popular neste meio. Acredito que actualmente consigam ganhar popularidade, mas penso que nunca será como eu ganhei, porque naquela altura era tudo muito “novo” para as pessoas.

ALGUMA VEZ PENSASTE EM RENTABILIZAR A TUA FAMA? Sim. Aos 16 anos decidi vender a bijuteria que andava a criar. Fez bastante sucesso e deu-me lucro. Actualmente, tenho a minha loja online de parte porque não dá mesmo para continuar a vender, mas pretendo voltar a criar e vender as minhas criações num futuro próximo.

O QUE MUDOU A PARTIR DO MOMENTO EM QUE FICASTE CONHECIDA NA INTERNET?

Mudou muita coisa. Tentei sempre manter a minha privacidade, mas não conseguia fazê-lo como antes. As pessoas descobriram coisas que nem fui eu a publicar na Internet. Criaram imensos boatos acerca de mim, todos os dias me gozavam e tentavam humilhar. Criavam páginas ofensivas, vídeos a gozar-me, letras de música contra mim, etc. Todas essas coisas mudaram a minha vida. Provavelmente muita gente não suportaria ter de lidar com este tipo de situações todos os dias, mas eu suportei e até agradeço a todas aquelas pessoas que me gozavam, pois se não fossem elas eu não seria a pessoa forte que me considero hoje. Mas admito que houve um momento em que me cansei de tudo

QUANTO TEMPO LEVAS A ARRANJAR-TE DE MANHÃ?

Já demorei muito mais tempo do que demoro actualmente. Antes chegava a levar mais de uma hora, agora demoro mais ou menos 30 minutos para vestir-me, maquilhar-me e arranjar o cabelo.

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o que se passava à minha volta e quis que toda a minha popularidade desaparecesse. Inventaram e disseram-me coisas cruéis que muitas vezes me fizeram deitar lágrimas.

QUAL FOI O EPISÓDIO MAIS CURIOSO QUE VIVESTE?

Foram cinco anos a viver episódios possivelmente curiosos, mas sinceramente não me lembro de muitos. Lembro-me, no entanto, de um episódio bastante querido que me aconteceu... Estava numa festa da minha ilha, quando de repente uma senhora me toca e pergunta se sou a sugarPIE – as pessoas dificilmente dizem o meu apelido correctamente. Eu disse que sim e ela responde: «Não te importas de dar um beijinho à minha filha? Ela é fanática por ti!» Quando olho para baixo e vejo uma menina com apenas sete anos, fiquei muito surpreendida porque


Nテグ DESPREZO NEM ME ENVERGONHO DO QUE FUI, APENAS SORRIO POR TER CRESCIDO E MUDADO MUITO MENTALMENTE.

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NÃO ME IMPORTO SE ESTOU OU NÃO A PERDER OS ADMIRADORES. SEI QUE AINDA HÁ QUEM ME ADMIRE E ADMIRA-ME NO MEU TODO. geralmente só vinham falar comigo pessoas acima dos doze. Achei extremamente querido e mais querido ainda foi a reacção da menina quando lhe dei o beijinho. Outra situação de que me recordo é de estar num jardim com os meus amigos e vir ter comigo um grupo de crianças, entre os seis e os dez anos, perguntar se era a sugarPIE e se também era cantora ou actriz. Achei engraçado e curioso como as crianças também me conheciam.

ACTUALMENTE O TEU ESTILO ESTÁ DIFERENTE, 18

MAIS SÓBRIO E, EM CONSEQUÊNCIA, PERDESTE ALGUNS ADMIRADORES. O QUE PENSAS DISSO?

Não gosto quando as pessoas dizem que me admiram ou que são minhas fãs pelo meu estilo. Quando eu admiro alguém, é pela pessoa que ela é. Acho que os meus verdadeiros fãs ainda me admiram, porque não lhes interessa apenas o estilo que já tive mas também a minha personalidade, que de certo modo inspira muitos. Por isso não me importo se estou ou não a perder os ditos “admiradores”.

Sei que ainda há quem me admire e admira-me no meu todo.

AINDA TE IDENTIFICAS COM O PSEUDÓNIMO/ALTER-EGO SUGARPIE?

Sim. Vou sempre identificarme com a minha “personagem” sugarPIE, pois basicamente vivi toda a minha adolescência em torno dela.

O QUE PENSAS DE TI MESMA? Tenho muito orgulho da pessoa que sou hoje. Olho para trás, para aquilo que fui, e comparo com aquilo que sou hoje. Não desprezo nem


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me envergonho do que fui, apenas sorrio por ter crescido e mudado muito mentalmente. Considero-me uma lutadora e, por muito que me caia em cima, até posso ir abaixo, mas rapidamente ergo a cabeça. Nem eu sei como consegui suportar tanta coisa sem nunca dizer adeus a tudo o que me rodeava. Aprendi que a melhor forma para lidar com as pessoas que tentavam constantemente rebaixar-me era ignorá-las. Hoje em dia, qualquer coisa vinda de estranho é-me indiferente. Claro que, por vezes, me irrita. Ainda sou gozada e “odiada”, mas não me preocupo, porque o problema

COMO IMAGINAS QUE SERÁS DAQUI A DEZ ANOS?

Sempre que me fazem esta pergunta fico um pouco perturbada, porque simplesmente não consigo imaginar como serei aos 30 anos. Só espero uma coisa: não ter uma criança nos braços!

CONTA-NOS ALGO QUE AINDA NÃO SE SAIBA SOBRE TI. As pessoas perguntam-me sempre como é o meu dia-adia e chegam a pedir-me para fazer um vídeo do género «Um dia com a sugarPIE!». Não percebo porque acham sempre que tenho uma vida

AINDA SOU GOZADA E ODIADA, MAS NÃO ME PREOCUPO, PORQUE O PROBLEMA ESTÁ NELES E NÃO EM MIM. LIMITO-ME A SER EU MESMA. OS OUTROS SÃO APENAS FIGURANTES DO MUNDO EM QUE VIVO. está “neles” e não em mim. Eu limito-me a ser eu mesma, vivendo a minha vida e preocupando-me com aqueles que amo. Os outros? Os outros são apenas figurantes do mundo em que vivo.

ABANDONASTE POR INTEIRO QUAISQUER AMBIÇÕES NA ÁREA DA MODA? Não, nunca! A moda faz sempre parte da minha vida e não é por ter mudado um pouco o meu estilo que já não a quero. Continuo a sonhar poder, no futuro, trabalhar no mundo da moda.

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“interessante” e diferente da vossa. Sou uma pessoa como vocês, a única diferença é que tenho popularidade, mas isso não interfere na minha vida “real”. A minha vida é igual à de qualquer outra pessoa que esteja a ler isto. Não é que esteja a dizer que não seja interessante, apenas não é diferente ao ponto de fazer um vídeo a relatar o que faço diariamente. Nunca entendi essa curiosidade nas pessoas, acham sempre que a minha vida é rodeada de luxos. Mas não, provavelmente é bem mais aborrecida que muitas das vossas.

NO MP3 TENHO… Todo o tipo de música, excepto metal. O MEU FILME FAVORITO… São muitos! Não consigo seleccionar um em especial. O LIVRO DA MINHA VIDA… Não tenho! Li somente entre três a cinco livros em toda a minha vida. O MEU LUGAR DE ELEIÇÃO… Japão, apesar de nunca lá ter ido. A COISA QUE MAIS ODEIO… Nas pessoas é a falsidade! Não suporto estar rodeada de pessoas falsas e cínicas. ACHO VERGONHOSO QUE NA NOSSA SOCIEDADE… Valorizem tanto a aparência de uma pessoa! NÃO RESISTO A COLECCIONAR… Anéis! O MEU MAIOR VÍCIO É… Comprar anéis!


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propostas Por: Tiago Matos

adivinhem quem voltou

U

ma das mais subvalorizadas bandas do movimento grunge, os britânicos Bush, liderados por Gavin Rossdale, atingiram um grande sucesso nos anos 90 com temas como «Swallowed», «Machinehead», «Greedy Fly» ou «Letting the Cables Sleep». Dez anos depois do último álbum e com metade do elenco renovado, estão de volta com «The Sea of Memories». O regresso é, sem dúvida, de saudar. O resultado, contudo, pode deixar de pé atrás alguns dos fãs originais da banda. Longe estão a atmosfera negra e dramática ou o repentismo explosivo de «Sixteen Stone» e «Razorblade Suitcase». Em«The Sea of Memories», impera a melancolia e a simplicidade. Não é necessariamente mau, mas sabe a pouco para o potencial que esta banda sempre demonstrou. Em última análise, um álbum consistente, mas inegavelmente uma aposta demasiado segura.

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BUSH THE SEA OF MEMORIES 2011 1. The Mirror of the Signs 2. The Sound of Winter 3. All My Life 4. The Afterlife 5. All Night Doctors 6. Baby Come Home 7. Red Light 8. She’s a Stallion 9. I Believe in You 10. Stand Up 11. The Heart of the Matter 12. Be Still My Love


A TER EM CONTA Aos 23 anos, o ex-vocalista dos Fingertips, Zé Manel, estreia-se a solo com um novo projecto e uma identidade diferente. Sob o nome Darko, explora em «Borderline Personality Disorder», um som mais complexo e, segundo o próprio, mais pessoal e transparente. BORDERLINE PERSONALITY DISORDER DARKO ANO 2011

CLÁSSICO DO MÊS Nem parece que faz agora 20 anos este marco do grunge - e da música, no geral -, segundo álbum de originais dos emblemáticos Nirvana. Não é que necessite realmente de uma apresentação, mas convém lembrar que em «Nevermind» se encontram temas como «Lithium», «In Bloom», «Come as You Are», «Breed», «Something in the Way» e, claro, «Smells Like Teen Spirit». Chega? NEVERMIND NIRVANA ANO 1991

FEIOS, PORCOS E MAUS «Imaginem um triceratops a acasalar com uma turbina a vapor enquanto os Daft Punk e os Bee Gees se matam à pancada com espátulas e frigideiras. Imaginem o som que isso causaria. Os BrokeNCYDE soam mais ou menos assim, só que também nos fazem querer enfiar os dedos nos olhos e gargarejar ácido.» A crítica do Warsaw Business Journal diz tudo o que há a saber sobre esta banda de crunkcore. Não acreditam? Procurem no YouTube o single «Freaxxx»! I’M NOT A FAN, BUT THE KIDS LIKE IT! BROKENCYDE ANO 2009

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perfil

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21 FAMÍLIA

O polémico Charlie Sheen nasceu no seio de uma família de actores. O seu pai, Martin Sheen é uma lenda da Broadway e teve, com a sua esposa Janet, quatro filhos: Emílio Estevez, Renée Estevez, Ramon Estevez e Charlie Sheen. Tal como Charlie, os seus irmãos são actores.

UM BEBÉ AZUL

Charlie nasceu diferente: era azul. A condição quase o levou a uma morte prematura, mas um médico conseguiu curá-lo, e em sua homenagem os pais de Charlie deram-lhe o nome do médico, Irwin, como nome do meio.

NOME VERDADEIRO

curiosidades sobre

charlie sheen É um dos actores mais polémicos do momento. Saiba mais sobre a vida de Charlie Sheen. Texto: Susana Veríssimo

PAIXÕES DE ADOLESCENTE

Desde cedo, Charlie teve duas paixões na vida: ser actor e jogar basebol. Juntamente com os seus amigos, produziu e participou em vários filmes amadores. Já na equipa de basebol de que fazia parte, os Vikings, era a estrela, como lançador.

A ESTREIA

A escola não era um dos pontos fortes do actor. Com pouca vontade de estudar, era-lhe difícil conseguir notas razoáveis. Acabou por ser expulso no seu último ano devido a faltas.

AS FESTAS

Aos nove anos, o pai arranjoulhe um pequeno papel no filme que estava a rodar na altura: «A Execução do Soldado Slovik». Foi a sua estreia cinematográfica.

São célebres, em Hollywood, as festas de Charlie Sheen. O actor organizava com frequência festas onde não faltava droga, álcool e prostitutas. Diz-se que várias outras celebridades participavam nelas.

PRESO AOS 16

REABILITAÇÃO

Charlie Sheen já teve inúmeros O nome de baptismo de Charlie problemas com a justiça, tendo inclusive sido preso algumas Sheen é Carlos Irwin Estevez. vezes. A primeira das quais O actor tem raízes espanholas e irlandesas que, nas suas palavras, decorreu quando, com apenas 16 anos, foi preso por posse de considera uma combinação marijuana. «volátil».

A ESCOLA

aconteceria uma de duas coisas: experimentava uma vez e morria ou experimentava uma vez e consumia até ao fim dos seus dias. Apesar dessa exclusão, os seus vícios por diversas vezes quase o levaram até à morte, tendo mesmo sofrido uma grande overdose que por pouco não foi fatal.

ANTI-HEROÍNA

Os vícios de Charlie permaneceram na vida adulta. No entanto, e apesar de ter experimentado variadíssimas drogas, nunca tentou heroína, pois sempre achou que

Durante as suas várias idas a clínicas de reabilitação ao longo dos anos, o máximo de tempo que Charlie aguentou sem consumir álcool foram exactamente 366 dias. O recorde foi parado quando Charlie foi fotografado a consumir álcool na casa de Nicolas Cage.

IRMÃO VS IRMÃO Apesar de irmãos, Charlie e Emílio são muito diferentes. Várias vezes se atacam em

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público, fazendo Charlie piadas sobre o irmão ou comentando Emílio os maus hábitos de Charlie. Diz-se que a relação entre ambos não é nada boa.

AZAR A FILMAR

Ser actor nem sempre é fácil, principalmente quando se têm de fazer cenas arriscadas. Charlie Sheen sabe o que é isso. O actor tem uma cicatriz no queixo devido a um explosivo que detonou, literalmente, na sua cara. Durante as filmagens de «Platoon», o actor quase caiu ainda de um helicóptero!

TATUAGENS

No total, o actor tem 12 tatuagens: a expressão «Volto em 15 minutos», o símbolo dos Yankees, a palavra «Winning», um cigarro aceso, o Charlie Brown com um balão a dizer «Mãe», um deus japonês, entre outras. Hoje o actor arrependese de ter tantas tatuagens, pois é bastante moroso tapá-las quando tem de gravar.

AS MULHERES

Charlie foi casado três vezes, sempre com consequências polémicas. Em 1995, casouse com a modelo Donna Peele, mas o casamento durou apenas seis meses. No segundo casamento, com Denise Richards, a actriz alegou que Charlie a atacou e ameaçou a sua vida. O terceiro casamento, com Brooke Mueller, também não acabou melhor, sendo acusado de violência doméstica e de a ter ameaçado com uma faca. Charlie envolveu-se ainda com inúmeras prostitutas e actrizes pornográficas.

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AMOR E ARMAS

Nem sempre possuir armas dá bom resultado. Que o diga Charlie Sheen, quando alvejou acidentalmente no braço a sua primeira noiva, Kelly Preston. Pouco tempo após o incidente, Kelly deixou-o para se casar com John Travolta.

11 DE SETEMBRO

O actor acredita que o desastre que aconteceu no dia 11 de Setembro foi um trabalho interno, por isso faz parte do Movimento pela Verdade 11/09. Segundo Charlie, o colapso das torres gémeas pareceu «uma demolição controlada» e a história que conhecemos não passa de uma fraude. Numa mensagem de vídeo, Charlie apelou a Obama que se fizessem investigações.

INFLUÊNCIA

e também o de ser o mais rápido a conseguir um milhão de seguidores no Twitter.

WALL STREET

Nas filmagens de «Wall Street», Charlie começou a abusar dos seus abusos. Todos os dias saía dos bares às 3 ou 4 da manhã para, três horas depois, entrar no trabalho de contracenar com Michael Douglas e tentar «aguentar 50% da cena». Foi um período sombrio para o actor, que admitiu ter perdido a sua auto-estima, respeito próprio e energia criativa. Confessa também que, nesse período, «quase se enterrou a si próprio».

DESPEDIMENTO

Seguindo a espiral de decadência Foi Charlie Sheen que escolheu o iniciada durante as filmagens de nome artístico de Winona Ryder «Wall Street», Charlie acabou A actriz, cujo nome verdadeiro por ser despedido de «Two and a é Winona Horowitz, ganhou Half Man», após se envolver em o seu actual nome porque na vários escândalos, ofendendo o altura, passava muito tempo produtor e entrando de seguida com Charlie a ouvir músicas da em reabilitação. A produção banda The Doors, entre as quais resolveu o problema matando «Riders on the Storm». Charlie o seu personagem na série sugeriu-lhe, então, que alterasse e substituindo-o depois por o seu nome para Ryder. Ashton Kutcher.

NO GUINNESS

«Two and a Half Men» foi a série que revitalizou a carreira de Charlie, nomeadamente enquanto actor de comédia. Esta série já dura há oito anos e tem sido um sucesso desde o início. Tornou ainda Charlie detentor de dois recordes no Guinness. Tem o recorde de actor mais bem pago na televisão americana

O COZINHEIRO

Após a saída de «Two and a Half Man», Charlie não cruzou os braços e iniciou um programa de culinária exclusivamente pela Internet. O actor apresenta-se com um chapéu de cozinheiro diferente, com listas de tigre, e prepara receitas a partir de sua casa, em Beverly Hills. Uma versatilidade surpreendente!


CHARLIE SHEEN ALVEJOU A NOIVA NO BRAÇO, DEU NOME A WINONA RYDER E TEM DOIS RECORDES NO GUINNESS. 27


propostas Por: Tiago Matos

Sexo em 3D

É 3D SEX AND ZEN: EXTREME ECSTASY TÍTULO ORIGINAL 3D Rou Pu Tuan Zhi Ji Le Bao Jian POR Christopher Suen COM Hayama Go, Lan Yan, Saori Hara ANO 2011

ao assistir a filmes como este «3D Rou Pu Tuan Zhi Ji Le Bao Jian» (também conhecido por «3D Sex and Zen: Extreme Ecstasy») que percebemos realmente quanto o nosso cinema está atrasado. Imagine-se que em Hong Kong até já se fazem filmes eróticos em 3D! Não necessariamente bons filmes eróticos em 3D, mas isso é outra história. Adaptado do clássico de literatura chinesa «O Tapete Carnal de Orações», o enredo centra-se nas descobertas sexuais de um jovem estudante. O estilo é difícil de definir: passa do erotismo para a comédia e para o filme de acção em poucos segundos. Mais para o final, é quase um thriller de fantasia. A fotografia, os cenários e as roupas são fantásticos. A beleza das actrizes também. Mas não chega para fazer um bom filme e, por isso, deve ser encarado como um simples divertimento de fim-desemana, uma opção engraçada, talvez, para ir ver com a namorada ou com um grupo de amigos, enquanto se comem umas pipocas. A menos que sejam particulares apreciadores de filmes eróticos com genitais pixelizados.

Baseado na novela homónima de 2009, por Kathryn Stockett, «As Serviçais» acompanha a relação de uma jovem branca com as suas criadas negras, em plena América dos anos 60. Com uma boa prestação de Viola Davis e Emma Stone a demonstrar que é um dos mais promissores rostos actuais do cinema, é já um dos filmes falados para os Óscares do próximo ano. AS SERVIÇAIS TÍTULO ORIGINAL The Help POR Tate Taylor COM Emma Stone, Viola Davis, Bryce Dallas Howard ANO 2011

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NOVO LÁ FORA A irmã mais nova das gémeas Mary-Kate e Ashley Olsen é a protagonista do mais recente thriller de Sean Durkin. O argumento de «Martha Marcy May Marlene» foca-se nas paranóias de uma jovem mulher acabada de escapar de uma seita abusiva. O filme tem estreia internacional marcada para 7 de Outubro. MARTHA MARCY MAY MARLENE POR Sean Durkin COM Elizabeth Olsen, John Hawkes, Sarah Paulson

CLÁSSICO DO MÊS A escolha óbvia para este mês. Passam já 33 anos desde que este clássico do horror, um dos primeiros slashers de sempre, responsável pelo lançamento da carreira de Jamie Lee Curtis, estreou nos cinemas. Sequelas, remakes e cópias flagrantes à parte, não há como o original para conhecer Michael Myers! HALLOWEEN POR John Carpenter COM Jamie Lee Curtis, Donald Pleasance ANO 1978

FEIOS, PORCOS E MAUS Porque destacamos negativamente «Troll 2» este mês? Razão nº 1: O filme não é uma sequela, mas antes um aproveitamento flagrante do sucesso de «Troll», em 1986. Razão nº 2: Não existe um único “troll” neste filme, apenas vários “goblins”, como o atesta o inteligentíssimo nome da cidade onde a acção decorre - Nilbog. Razão nº 3: É um filme sobre “goblins” vegetarianos, que transformam pessoas em plantas para as comer. TROLL 2 POR Drake Floyd ANO 1990

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letras

LOUCURA BRANCA Texto: Eva Duarte

Eva Duarte é uma jovem escritora portuguesa. Em 2010 publicou o romance infanto-juvenil Angelyraa – Humanidade de Cristal e o conto A Lua Também Chora. Se pretende obter uma das suas obras, entre em contacto connosco.

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R

espira e estremece. Sensações de recém-nascido. Ainda com os olhos pregados, ganha a noção de um espaço vasto e despido. Só chão. Um frio horizontal e regular, do polegar do pé à testa. Estava vestida em farrapos. Restos de roupa que nunca deixaram de ser tecido sem bainhas. Um peito de fora em estilo de amazona, pernas e braços nus, com uma toga de trapo incompleta e suja. Não sabia como tinha chegado àquele sítio tão despido quanto ela, muito menos de quem ela seria. Desajeitada e desorientada, com o céuda-boca sabendo a branco, desenhou um trajecto desequilibrado até à porta que parecia estar desligada de paredes. Do outro lado da porta, um labirinto de portas. Sentiu um medo picante na boca do estômago e uma insegurança ansiosa na ponta dos dedos, como se andasse sobre uma corda a vinte metros do chão. Contudo, sentia-se forçada a dar sempre mais um passo adiante. Passou por portas e portas com receio de abrir alguma. O passo tornou-se amedrontado, depois histérico. Corria e as portas adiantavam-se aos seus passos. Martelou os olhos com as mãos e gritou no isolamento. Atirou-se contra uma porta e fechou-se do outro lado. De cabeça escondida entre os braços, contra a madeira, gania soluços. Sacudiu-se e o corpo tratou, como boa máquina que é, de estabilizar a respiração. Ousou olhar para a divisão. Nada à excepção de um espelho simples de corpo inteiro. Tremendo de frio ou medo, em desespero, aproximou-se do espelho como se reflectisse uma resposta. Os lábios gretados tornaram-se no epicentro de algo anónimo que lhe vibrou pelo corpo todo. Não chegava a sentir pavor. Só repulsa. No espelho, uma imagem deformada de si. Presa naquele reflexo grotesco, pensou que era, de facto, a sua imagem. Não parecia conhecer-se o suficiente para negar aquele gracejo de defeitos. Escutou-se algo a ressoar na ausência de paredes. Soava a chuva. Exércitos negros e minúsculos formavam fileiras que corriam na direcção dela. Tudo se via e movia exclusivamente no espelho. Insectos. Patas da grossura de um fio de cabelo que picotavam o chão e soavam a chuva. Uma tempestade deles escalou-a e vestiu-a de quitina. Ao longe, não passavam de lantejoulas pretas. Por mais que ela se sacudisse e gritasse, os rastejantes apressavam uma entrada nela.


DESAJEITADA E DESORIENTADA, DESENHOU UM TRAJECTO DESEQUILIBRADO ATÉ À PORTA.

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Boca, nariz, orelhas, tudo lhes era passagem. Entretanto, a rapariga já não gritava, entretanto já chorava asas de mosca. Coçando-se, tentando abrir o ventre cheio com as unhas, caiu contra o espelho de costas. Abriu os olhos, sentiu-se vazia e, rebolando pelos estilhaços, saltou e atravessou a porta. De novo no corredor, quebrou a maçaneta com murros e dentadas. Bateu com as costas com força contra uma parede, para se sacudir da impressão dos insectos, parando apenas quando uma pontada pareceu penetrá-la da espinha ao esterno. Uma hora depois, desistiu de deambular pela monotonia de rectângulos com maçanetas. Abriu outra porta com uma violência bárbara, como fosse agarrar os cornos de um animal irado. O chão estava forrado com carpetes de lâminas. Petrificou com os cortes nas solas dos pés. O rosto humedeceu-se e, julgando chorar, passou as costas das mãos pelas bochechas. Congelou ao verificar que vertia sangue dos olhos, sem dor aparente. Enquanto despejava o veneno dos insectos em ouro vermelho, uma pressão dolorosa vincou-lhe os braços, como se existisse vácuo nos seus membros. Contou uma cicatriz na vertical em cada braço, em carne tão lisa como só pele regenerada consegue ser. Ainda não se tinha apercebido das marcas nos seus braços. Os joelhos cederam, enquanto as feridas reabriam sozinhas, com a mesma velocidade de um sol a nascer. As lâminas frias rasgaram-lhe a carne e pareceramlhe tão familiares como apêndices seus. Uma cólera crescente vestiu-lhe as entranhas e de mãos bem abertas raspou o chão. Lâminas saltaram como lava cuspida. Cerrou tanto os dentes em fúria e desespero que as têmporas latejaram. Sem ter de enviar ordens às pernas, elas ergueram-se como molas e, num berro, a rapariga abandonou outra porta. Quase que se podia dançar a valsa ao ritmo do seu batimento cardíaco. Tum tum. Tum tum. O som das solas dos pés nuas no chão irritava-a. O eco dos seus passos substituía a sombra que não tinha. Um duplicado da sua existência. A réplica necessária, a prova de um corpo. Arriscou uma última porta. Caminhava já sob insónias e preferiu ousar outra passagem. Silêncio. Esta era calma. Sossegada.

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Avistou outra porta no fundo da sala vazia. Correu para lá, julgando ser a saída. A mesma serenidade que na sala anterior. Uma outra porta oposta àquela por onde entrou. Outra sala. Outra porta. E de novo. Sala. Porta. Sala. Porta. Sala. Sala. Porta. Porta. Porta. Gritou! A sucessão irreal de espaços copiados condenou-lhe a esperança ao desespero. Precisou de inspirar para preencher o buraco no seu corpo. A cabeça parecia dispersarse em todas as direcções como tentáculos de polvo. A pele parecia-lhe derreter por baixo dos dedos que se amarelavam ou acinzentavam – derretida e engolida por uma sala sem estômago. Vozes. Vozes estendidas pela sala solidificaramna. Olhou em frente e não viu uma nova porta. Viu um quadrado de vidro, pelo qual nascia uma luz. Não era branca ensandecedora. Era mesmo cor de luz. Viva e natural. Correu e o chão não lhe escorregou por baixo dos pés. Espalmouse contra o vidro e viu viver. Mas viu um viver caótico. Descontrolado, de tão vivo. As vozes intensificaram-se. Eram berros. Entranharam-se na carne e tornaram-se gestos silvantes. A vista dela era igual às das janelas dos apartamentos no rés-do-chão. A janela era uma lente dos seus próprios olhos. As mãos eram as suas, as cicatrizes gémeas às dos seus braços, os rostos gritantes tinham algo de familiar... Sentia a tensão dos músculos que via mexer, mas que nela não mexiam. O seu corpo era a sua masmorra. E a sua mente um labirinto de portas. E, o que quer que ela fosse, era alheia do controlo físico. Ela era a sua própria plateia. Recuou trémula. Era uma palha quebradiça de carne. Sentiu-se em simultâneo invadida e invasora de si. Recuou absorvendo os passos, apagando o trilho dos seus pés. Recuou até uma parede a impedir de recuar mais. Colocou o corpo em paralelo com a parede. Segurou-se hirta e tensa. Viu tudo âmbar. Cheirou-lhe a algo distante de resina e perto de verniz. Sentiu uma compressão sufocante nas costas e no peito. A boca sabia-lhe a lascas de madeira. O umbigo saltava-lhe para fora pela força exercida sobre ela. De repente, ela era uma passagem dela mesma. Mais uma porta daquele labirinto de portas.


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propostas Por: Tiago Matos

os mistérios da mente

A SEGUNDA-FEIRA TRISTE NICCI FRENCH BERTRAND EDITORA PÁGINAS 368 PVP 16,90€

notícia do sequestro do pequeno Matthew, de cinco anos, numa segunda-feira como tantas outras, assume-se particularmente chocante para a psicoterapeuta Frieda Klein, que se recorda de um dos seus pacientes lhe confessar desejar uma criança muito semelhante a Matthew. Frieda relata as suas preocupações ao detective encarregue do caso e vê-se então, inadvertidamente, no centro das buscas. A sua única certeza é que, para descobrir e recuperar Matthew, será obrigada a percorrer os mais sombrios recantos da mente humana. Concebida pelo casal Sean French e Nicci Gerrard sob o pseudónimo Nicci French, «Segunda-Feira Triste» é a primeira de uma série de oito obras planeadas tendo como protagonista Frieda Klein. Um thriller de tom negro e arrepiante, com muitos mistérios por desvendar, já disponível nas principais livrarias nacionais.

Dizem que por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, e isso é particularmente verdadeiro no caso do lendário autor russo Leão Tolstoi. A sua esposa, Sofia, com a qual esteve casado durante 48 anos, foi musa e editora, companheira e opositora. Uma vida de raro interesse, desvendada nesta nova biografia de Alexandra Popoff. SOFIA TOLSTOI - UMA BIOGRAFIA ALEXANDRA POPOFF CIVILIZAÇÃO PÁGINAS 432 PVP 18,50€

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NOVO LÁ FORA Escrito por Palahniuk como forma de lidar com a morte da sua mãe, «Damned» conta a história de uma rapariga adolescente que se vê condenada a passar a eternidade no Inferno. Com lançamento internacional marcado para 18 de Outubro, a obra é, nas palavras do próprio autor, «uma espécie de “The Breakfast Club” passado no Inferno.» DAMNED CHUCK PALAHNIUK ANO 2011

CLÁSSICO DO MÊS É um dos contos mais famosos de Fiódor Dostoiévski e um verdadeiro clássico da literatura. «Noites Brancas» acompanha os encontros de um homem sem nome, habituado à solidão, com uma mulher que pretende ser sua amiga. Um romance inconvencional e amargo que servirá na perfeição como primeira abordagem a quem ainda não conheça o trabalho do mestre russo. NOITES BRANCAS FIÓDOR DOSTOIÉVSKI ANO 1848

FEIOS, PORCOS E MAUS Guy Kettelhack, o autor deste livro, parte de um pressuposto simples: todos se desenrascam a fazer amor quando estão intoxicados. O problema chega quando deixam de o estar, podendo então a intimidade passar a ser assustadora. «How to Make Love While Conscious» é, assim, um guia de sexo, amor e intimidade em plena consciência. Um livro cujo ponto mais absurdo é a seriedade com que está escrito. HOW TO MAKE LOVE WHILE CONSCIOUS GUY KETTELHACK ANO 1993

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COMPORTAMENTO

O LADO BIZARRO DA

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MAGIA

A atracção pelo ilusionismo bizarro tem raízes clássicas. Desvendamos aqui alguns dos seus actuais representantes, vivos mas a desafiar a morte. Texto: Sílvia Silva


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magia, sinónimo de ilusionismo, é a arte de iludir o espectador, tal e qual uma representação. O mágico é o actor que deve proporcionar ao seu público uma performance que o convença, pela experiência dos seus sentidos, que algo impossível aconteceu. Por conseguinte, é comum assistirmos a todo o tipo de truques que parecem desafiar as leis da lógica e da física. Disso são exemplo algumas das mais conhecidas ilusões, que envolvem aparecimentos e desaparecimentos, leituras da mente, uniões e transformações ou bizarrias que envolvem sangue, objectos afiados, cortes e morte. No entanto, tudo não passa de uma ilusão, indolor, conseguida exclusivamente através de métodos e meios naturais. Este tipo de espectacularização da ilusão pode levar-nos até ao início dos tempos, onde feitiços e feiticeiros praticavam, por exemplo, o xamanismo para demonstrar a sua condição. Na verdade, a arte do ilusionismo pode remontar-nos a tempos ancestrais. No Berlin State Museum encontra-se um antigo papiro egípcio, datado

A eleição não foi, de todo, pacífica, mas Criss Angel acabou mesmo por ser considerado, no ano passado, o melhor mágico do século XXI. de 4000 a.C., que nos conta a história do mágico Dedi e da sua capacidade de “ressuscitar” animais degolados. Ao longo dos tempos, a magia, menos praticada no ocidente (por ser considerada bruxaria ou culto do diabo pela igreja inquisidora), passou por várias fases, mas apenas no século XVIII, ironicamente o século do Iluminismo, o ilusionismo ganhou uma

forte popularidade. A partir daí, seguiu diversas modas até se tornar numa das mais apreciadas formas de entretenimento. Com um olhar atento, é possível perceber que toda a forma de ilusionismo tem a sua face bizarra e insólita. Assim, o que lhe propomos de seguida é uma visita guiada pelos truques mais bizarros, insólitos, excêntricos, mórbidos e inexplicáveis do ilusionismo.

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STEAMROLLER (ROLO COMPRESSOR)

Criss Angel é um dos mais mediáticos ilusionistas do mundo e está constantemente a superar os limites da bizarria. Neste truque, Criss começa por caminhar descalço sobre vidros partidos espalhados ao longo de um comprido tapete, colocado em pleno asfalto. Quando chega ao final, deita-se por cima dos vidros. Do outro lado, o rolo compressor segue na sua direcção destruindo todos os pedaços de vidros partidos e passa por cima das suas pernas até ao seu peito. Ele grita de dor e o público de incredulidade. E quando era de esperar que as suas pernas já não existissem, o rolo compressor volta para trás. Criss está intacto. Poucos segundos depois está em pé e caminha.

STRAIGHT JACKET (CAMISA-DE-FORÇAS)

Luís de Matos, considerado por muitos como o maior ilusionista português de sempre, parece um fugitivo de um asilo psiquiatrico no início do truque. Envolto numa camisa-de-forças e preso pelos pés a uma grua, é elevado a 45 metros do chão. Aí, de cabeça para baixo, preso por um cabo de aço a arder, consegue em alguns segundos desenlearse da camisa-de-forças. De

O duo escocês Barry Jones e Stuart McLeod é uma das principais referências da actualidade no que diz respeito a ilusionismo bizarro. seguida liberta os pés e agarrase com as mãos. A grua começa a descer e Luís está já de cabeça para cima.

PREGO NO NARIZ

André Santos consegue pregar um prego no crânio, imediatamente abaixo do nariz, sem dor. Com o auxílio de um martelo, insere o prego na sua face e este fica perteitamente fixo, sem nenhuma mão a segurá-lo. Tanto o ilusionista português como os seus alunos

A ESPECTACULARIZAÇÃO BIZARRA DA MAGIA REMONTA AO INÍCIO DOS TEMPOS, QUANDO OS FEITICEIROS PRATICAVAM O XAMANISMO, A FIM DE DEMONSTRAR A SUA CONDIÇÃO SUPERIOR. 38

do Freakshow - Workshop Bizarro, ministrado pelo próprio – fazem este truque com um sorriso expressivo. Nenhuma sensação de dor é transmitida, não há sangue ou buraco no crânio, mas o prego está lá.

GLASS TRICK (TRUQUE DO VIDRO)

O britânico Pete Firman é um dos principais nomes da magia bizarra do Reino Unido, aliando o talento a um impressionante carisma e sentido de humor. Firman tem várias ilusões chocantes, mas uma das mais mórbidas terá de ser o seu Glass Trick. Firman começa por convidar um assistente a subir ao palco e dá-lhe a escolher uma de várias garrafas vazias que tem numa caixa. Pegando


NEEDLE THROUGH ARM (AGULHA ATRAVÉS DO BRAÇO)

Da mesma forma que um piercing, mas em proporções maiores, Harry Anderson faz uma agulha de 10 centímetros atravessar o seu braço. O espectador vê a pele e a carne penetrada, mas falta, ainda, o mais importante para tornar o truque credível: sangue. Enquanto move a agulha para dentro e para fora, eis que este jorra. Depois, retira a agulha do braço, limpa o sangue com uma toalha e pede que verifiquem: não há feridas nem buracos.

COMO É FEITO

na garrafa escolhida, enfia-a num saco e bate-lhe com um martelo até ficar em cacos. Pede então ao assistente para escolher um dos cacos e assinar nele o seu nome. É então que começa a parte realmente impressionante. Firman pega no vidro e esfrega-o na perna até entrar para o interior do seu corpo. Vemos o sangue a jorrar enquanto o faz. Depois pede ao convidado para escolher a parte do corpo onde quer que o vidro saia. Quando o convidado o faz, Firman pega num bisturi e espeta-o em si mesmo. O sangue continua a jorrar. Com as mãos, aumenta o buraco até encontrar o pedaço de vidro. Mais sangue. Num último esforço, entrega-o ao convidado para este confirmar que é o mesmo vidro, antes de cair no chão, supostamente inanimado.

MAGIC OF JESUS (MAGIA DE JESUS)

De estilo sinistro e humor macabro, a dupla escocesa Barry e Stuart choca plateias por onde quer que vá. Um dos seus empreendimentos mais polémicos, contudo, foi quando recriaram todos os milagres de Jesus que surgem na Bíblia, mostrando-os como meros truques da época. Incluíamse entre os quais caminhar sobre água, fazer uma pessoa cega ver (temporariamente), transformar água em vinho e até ressuscitar um morto! Apesar da Igreja não ter achado qualquer piada ao feito, o duo não desistiu e mais tarde recriou ainda outros milagres da Bíblia, como invocar pragas, transformar bastões em serpentes e exorcizar um demónio! Polémico e chocante!

Na verdade, a agulha não penetra a pele. Antes de iniciar o truque, o mágico coloca cimento de borracha comum no braço. Este produto permite que a pele se “cole” a si mesma e, uma vez seca, não se vêem indícios. Quando inicia o truque, o mágico procura um ângulo onde a fase de “penetração” da agulha no braço não seja visível, pois, na verdade, ele não chega a espetar a agulha no braço. Apenas finge que o faz enquando a encosta à pele. De seguida junta a pele à volta da agulha que, devido ao cimento de borracha, dará a ilusão de que está dentro da pele. É neste momento que ele mostra o braço ao público. Pouco depois jorra um pouco de sangue. Este efeito é conseguido com a utilização de uma agulha específica para o truque, capaz de absorver sangue falso. Quando a cabeça (na verdade oca e de borracha) é apertada, o sangue sai por um pequeno buraco a meio da agulha.

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fotografia

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a arte do nu

segredos obscuros

Alguns segredos pertencem Ă  escuridĂŁo, mas nem esta encobre a fragilidade da nudez. Fotografia: Filipe Vicente

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gosto da nudez contorcida do ensaio, sem beleza óbvia. Acho que é esse o projecto: tirar a obviedade do nu, vestir camadas na pele exposta.

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«A beleza de um corpo nu só a sentem as raças vestidas. O pudor vale sobretudo para a sensibilidade como o obstáculo para a energia.» Fernando Pessoa

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Revista 21| Outubro 2011| #02