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Editorial

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Editora - Daysi M. Bregantini Diretor de Redação - Marcos Fonseca Editor de Filosofia - Eduardo Socha Editor assistente e revisor - Wilker Sousa Site - Vanessa Carvalho Repórter - Daniel Marques Estagiária - Paula Fazzio Foto da capa - © Bettmann/CORBIS/LatinStock Diretor de arte - Maurício Francischelli Assistente de Arte - Fábio Guerreiro Colaboradores desta edição - Adriano Correia Silva,  Andre de Macedo Duarte, Carlos Costa, Eduardo Alves Aguiar, Francisco Bosco, Gabriel Bueno Brito de Oliveira, Marcia Tiburi, Newton Bignotto, Norman Lebrecht, Odílio Alves Aguiar Departamento administrativo - Dejair Bregantino Departamento financeiro - Ana Lúcia P. Silva Assinaturas - Tel.: (11) 3385 3385 e-mail: assinecult@editorabregantini.com.br Publicidade em São Paulo: Júlia Farina (executiva de negócios) e-mail: juliafarina@editorabregantini.com.br Gilberto R. Rala (executivo de negócios) e-mail: gilberto@editorabregantini.com.br Tel.: (11) 3385 3385 Publicidade em Brasília: Front Comunicação - Pedro Abelha e-mail: pedroabelha@terra.com.br Tel.: (61) 3321 9100  Gráfica - Parma Distribuição exclusiva no Brasil (Bancas) - Fernando Chinaglia CULT - REVISTA BRASILEIRA DE CULTURA é uma publicação mensal da Editora Bregantini Praça Santo Agostinho, 70 - 10º andar Paraíso - São Paulo - SP - CEP 01533-070 Tel.: (11) 3385-3385 - Fax: (11) 3385-3386 CULT on LInE www.revistacult.com.br Matérias e sugestões de pauta:  redacao@revistacult.com.br Espaço CULT espacocult@revistacult.com.br

Hannah Arendt, uma das mais importantes pensadoras do século 20, nasceu em 14 de outubro de 1906, em Linden, subúrbio de Hannover, Alemanha. Ingressou na Universidade de Berlim em 1924, e lá foi aluna de Martin Heidegger e Karl Jaspers, grandes influências em sua vida e  obra. Com Heidegger manteve, ao longo da vida, uma relação apaixonada e difícil, pela suposta adesão do filósofo ao nazismo em 1933, mesmo  ano em que ela é presa e foge para a França. Hannah foi uma corajosa militante antinazista, uma teórica da democracia e deixou uma obra excepcionalmente criativa e vigorosa, que é tema do Dossiê desta edição,  que foi preparado com muito rigor e escancarada paixão. O livro do historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira Fórmula para o caos - a derrubada de Salvador Allende 1970 – 1973 (Civilização Brasileira,  2008) apresenta fatos novos muito reveladores, é verdadeiro e leitura fundamental para aqueles com interesse pela história. O professor Moniz  Bandeira mora na Alemanha e a sua entrevista, publicada nesta edição, fala sobre o Chile, Brasil e de alguns políticos brasileiros. O filósofo Vladimir Safatle nasceu em Santiago do Chile em 1973, ano em  que um golpe militar derrubou o presidente eleito Salvador Allende. Antes  de preparar a entrevista com o historiador Moniz Bandeira, telefonamos  para ele e pedimos a sua orientação, aliás, como fazemos sobre vários assuntos, porque Vladimir é absurdamente culto e generoso. Leia  a resenha sobre seu último livro Cinismo e falência da crítica publicada nesta edição. O jornalista Carlos Costa editou parte da sua tese de doutorado As revistas de cultura do século 19 especialmente para a CULT. As marcas de Carlos Costa são o texto genial e a apuração de fôlego. Não deixe de conhecer a vida das “bisavós”de CULT. O crítico de música, cientista social e escritor inglês Norman Lebrecht  estréia nesta edição como colunista de CULT. Ele nasceu em Londres, em 1948, é colunista do jornal inglês The Daily Telegraph, tem um programa semanal na BBC Radio 3 e escreve no London Evening Standart. Conhecido por ser implacável nas suas críticas a maestros e agentes do meio, como a indústria fonográfica, suas informações causam polêmica,  mas jamais são contestadas. Seus livros já foram traduzidos para mais  de 17 países, sempre com muito sucesso. Em 2002, Lebrecht recebeu  o prestigiado prêmio literário britânico Whitbread. Boa leitura! Daysi Bregantini daysi@editorabregantini.com.br

ISSN 1414707-6 – Nº 129 – outubro/2008 – aNo 11


( Criselli Montipó

06 do leitor 08 cultura em movimento

ÍndicE

Fórum das Letras de Ouro Preto

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entrevista Cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira discute a história dos golpes militares na América do Sul

19 ensaio

As revistas de cultura do século 19

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livros Autores consagrados estão presentes em lançamentos de literatura infantil

30 resenha

Primeiro volume com cartas de Padre Antônio Vieira chega ao Brasil

Livro de Vladimir Safatle identifica no cinismo a figura hegemônica da racionalidade pós-moderna

26 reportagem

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O bibliófilo José Mindlin doa 45 mil volumes raros à USP

música Nornam Lebrecht analisa os efeitos do YouTube na indústria fonográfica

Imagens/Acervo da Biblioteca Nacional

38 ensaio

Francisco Bosco e os modos como a literatura trata seu leitor

40 filosifia

Marcia Tiburi fala sobre Machado de Assis e a crítica da razão

42 dossiê

Hannah Arendt: pensar e agir em tempos sombrios Por André Duarte Arendt e o totalitarismo Por Newton Bignotto Violência e banalidade do mal Por Odílio Alves Aguiar Tensão entre teoria e prática Por Eduardo Jardim A vitória da vida sobre a política Por Adriano Correia

66 oficina literária 5


Cultura em Movimento

) Divulgação

Madonna con bambino, desenho de Michelangelo cedido especialmente pela Fondazione Casa Buonarroti, de Florença

POR QUE VALE O INGRESSO O Museu Brasileiro da Escultura inaugura a partir de outubro a exposição A beleza na escultura de Michelangelo e traz pela primeira vez ao país obras que representam o melhor do período em que a arte e a ciência bebiam da mesma fonte: a descoberta do ser humano como representação máxima da natureza. O curador do MuBE, Jacob Klintowitz, explica por que as pessoas devem pagar o ingresso para visitar a mostra, que fica aberta ao público até o dia 30 de dezembro, de terça a domingo, das 10 às 19 horas.

“A exposição A beleza na escultura de Michelangelo, realizada no MuBE, é uma oportunidade única para os brasileiros verem obras extremamente raras e que nunca haviam deixado a cidade italiana de Florença, como dois desenhos feitos por esse pintor e escultor que melhor representa o período do Renascimento. Só por esses dois desenhos, acredito que é um ótimo investimento. Além disso, a mostra conta também com esculturas de artistas contemporâneos a Michelangelo, como Jacopo della Quércia, e artistas seguidores, como Vicenzo Danti. São ao todo 26 obras, que têm como objetivo revelar a história de uma escola artística que se inspirou no ideal da Roma e da Grécia antiga, algo que nunca foi possível fazer concretamente na América do Sul.” 10


Entre os dias 5 e 9 de novembro, ocorre a quarta edição do Fórum das Letras de Ouro Preto. Já estão confirmados 40 escritores. Destaque para o português Luandino Vieira, vencedor do Prêmio Camões em 2006. Juntam-se a ele outras atrações internacionais, como Roger Chartier, Daniel Bensaid, Marc Dugain, Elias Khouri, Peter Robinson e William Gordon. Já entre os brasileiros, marcam presença nomes como Moacyr Scliar, Luiz Ruffato e Lya Luft. O evento é organizado pela Universidade Federal de Ouro Preto e tem como idealizadora a filósofa e escritora Guiomar de Grammont. À frente do Fórum, Guiomar participa de todas as etapas de produção, desde a divulgação até seleção de autores. Em entrevista à CULT, a escritora comenta o evento.   CULT - Qual é a definição do Fórum das Letras? Guiomar de Grammont - O Fórum das Letras é um encontro de escritores, editores, jornalistas, críticos e interessados em literatura em geral, que a Universidade Federal de Ouro Preto realiza todos os anos, nos meses de novembro. O evento começa a ser replicado no exterior. A primeira edição foi o Letras em Lisboa, realizado em Portugal, em abril de 2008.

Divulgação/Neno Vianna

FÓRUM DAS LETRAS DE OURO PRETO

Guiomar de Grammont: “O evento propicia lazer com conhecimento”

Na verdade, o Fórum acontece o ano todo, pois compramos livros dos autores convidados para doá-los às bibliotecas públicas e, com monitores da universidade, desenvolvemos atividades permanentes de estímulo à leitura e criação de textos para crianças e professores. CULT - Qual é o seu trabalho no Fórum? GG - Trabalho em todas as etapas: escrevo os projetos para as leis de Incentivo; visito pessoalmente as empresas para solicitar recursos; escolho os autores e monto a programação, ouvindo conselhos das editoras e de amigos que conhecem bem literatura. Além disso, participo da escolha das peças gráficas e publicitárias e vou pessoalmente, também, aos veículos de comunicação para divulgar o Fórum. No evento, recebo os autores e, quando é necessário, participo das mesas como mediadora. Tenho colaboradores muito importantes na logística, sobretudo a coordenadora executiva.

CULT - Ouro Preto é um lindo cenário, como é a estrutura turística da cidade? GG - Ouro Preto é uma das cidades mais visitadas do país. Costuma ser procurada por turistas que têm interesse por história. Possui uma infra-estrutura bastante significativa de hotéis e restaurantes que possibilita a realização de eventos de grande porte. É uma cidade do interior que possui dois grandes festivais de cinema, por exemplo.    CULT - Por que as pessoas devem comparecer ao Fórum das Letras? GG - No Fórum das Letras, as pessoas têm a oportunidade de assistir a debates muito profundos sobre diversos aspectos relacionados à literatura, em um clima intimista e agradável de café literário. A programação paralela também é muito intensa, com leituras nos bares, esquetes teatrais e exibição de filmes. O evento propicia lazer com conhecimento. CULT - Faça o convite aos leitores da revista CULT. GG - Leitores da CULT, venham enriquecer-se mais ainda, fazendo amigos, estabelecendo trocas afetivas, culturais e profissionais em uma cidade onírica, com casas e monumentos que parecem flutuar na paisagem. O Fórum das Letras é CULT! 11


entrevista

)

Moniz Bandeira

Anistia imparcial Os fatos que mudaram a história

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cientista político e historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira tem grande parte de sua vida dedicada à pesquisa acadêmica e à militância política. Na década de 1960, foi filiado ao Partido Socialista Brasileiro e, após o golpe militar no Brasil, asilou-se no Uruguai juntamente com seu amigo João Goulart. Na clandestinidade, volta ao Brasil, onde é preso por dois anos a pedido do Centro de Informações da Marinha. Após sua saída da prisão, dedica-se intensamente à carreira acadêmica. Leciona em diversas universidades até aposentar-se pela UnB. Com mais de 20 livros publicados no Brasil e no exterior, entre eles Formação do império americano - Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque (Civilização Brasileira, 2005), foi eleito Intelectual do Ano de 2005, vencedor do Troféu Juca Pato. A sua mais recente obra, Fórmula para o caos - A derrubada de Salvador Allende (1970 1973) (Civilização Brasileira, 2008) foi lançada simultaneamente no Brasil e no Chile. A expressão “fórmula para o caos”, usada por Henry Heckscher, chefe da CIA em Santiago na época do governo de Salvador Allende, designa o conjunto de operações encobertas para impedir a sua posse e, depois, para o golpe que resultaria em sua deposição. Moniz Bandeira mora na Alemanha, de onde nos concedeu a entrevista.

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“Se houve anistia para os que se rebelaram, (...) a lei não podia excluir do benefício aqueles que empreenderam a repressão”

Criselli Montipó

CULT - O senhor desenvolveu intensa atividade política, foi perseguido pelo regime militar, asilou-se no Uruguai acompanhando o presidente João Goulart, viveu clandestinamente e esteve dois anos (1969-1970 e 1973) como preso político. Fazendo uma retrospectiva de sua vida, o que guarda desse período? Moniz Bandeira - Guardo muitas lições. Não há melhor forma de conhecer e compreender um fenômeno político do que participando dos acontecimentos. A teoria e a práxis se realimentam mutuamente e se corrigem. Confesso que vivi, como disse Pablo Neruda, e isto enriqueceu muito a minha personalidade. Cultura não se adquire apenas com a leitura de livros, nos gabinetes, mas, em larga medida, com a experiência, participando das lutas do seu tempo. Cultura permanece, apesar de que, com a idade, a memória possa esmaecer.   CULT - O Brasil é o único país da América Latina em que nenhum torturador foi preso. O que o país deve fazer com os crimes da ditadura? MB - Não faz sentido pretender a revisão da lei de anistia, reabrir feridas cicatrizadas, depois de quase 30 anos. E não se pode comparar o regime militar no Brasil com o que foi implantado na Argentina e no Chile, onde houve milhares mortos e desaparecidos. No Brasil houve torturas, abuso dos direitos humanos, mas em escala muito menor que nesses outros países. Claro que não podem ser justificados, mas uma lei de anistia não pode ser parcial. Se houve anistia para os que se rebelaram, empunharam armas contra a ditadura, seqüestraram diplomatas e outros crimes políticos, a lei não podia excluir do benefício os que empreenderam a repressão. É preciso não confundir a facção militar que implantou a ditadura com as Forças Armadas brasileiras, que são um instrumento do Estado-nação, sua coluna vertebral, necessário à defesa de sua soberania.   15

CULT - O regime militar brasileiro tentou exportar a ditadura? Estava - organizadamente - ligado às outras ditaduras? MB - A tendência das Forças Armadas para intervir, como instituição, no processo político da América Latina, a partir de 1960, não decorreu apenas de fatores endógenos, inerentes aos países da América Latina. Constituiu muito mais um fenômeno de política internacional continental do que de política nacional argentina, equatoriana, brasileira etc., uma vez que fora determinada, em larga medida, pela mutação que os Estados Unidos estavam promovendo na estratégia de segurança do hemisfério, redefinindo as ameaças, com prioridade para o inimigo interno, e difundindo, através, particularmente, da Junta Interamericana de Defesa, as doutrinas de contrainsurreição e da ação cívica. O golpe de Estado no Brasil, em 1964, foi encorajado pelos Estados Unidos, da mesma forma que em outros países da América Latina, explorando, é claro, as contradições sociais e políticas internas. O governo militar no Brasil deu apoio, com base na mesma doutrina, às outras ditaduras implantadas em países da sua vizinhança, como Bolívia, Chile e Uruguai. Esse assunto eu estudo em meu último livro Fórmula para o caos – A derrubada de Salvador Allende (19701973), lançado agora pela Civilização Brasileira e, no Chile, pela Random House Mondadori. CULT - O senhor foi amigo de João Goulart. O que fizeram com ele e nunca foi revelado? MB - Há centenas de documentos que a CIA ainda não desclassificou. A questão da morte de João Goulart deve ser esclarecida, ante a denúncia de que foi assassinado. É uma denúncia sólida e consistente com o que foi agora revelado pelo agente da polícia preso no Uruguai. João Vicente, o filho de Goulart, está empenhado em esclarecer essa questão, e sabe que conta com todo o meu apoio, como seu amigo.  


entrevista

)

Moniz Bandeira

“Não levo a sério nada que César Maia escreve” O senhor acredita que agora, finalmente, a história está contada? MB - Não levo a sério nada que César Maia escreve. O que sei é que a mãe dele, a Sra. Dalila Ribeiro de Almeida Maia, procurou o embaixador Câmara Canto e disse que César Maia estava arrependido, “inteiramente desencantado com a política e o esquerdismo”, desejava voltar ao Brasil e estava disposto a assinar “qualquer tipo de compromisso”, que o governo militar quisesse, no sentido de seu “arrependimento”, sua “firme intenção de abandonar” quaisquer atividades políticas que o governo militar quisesse. Há um telegrama do embaixador Câmara Canto informando essa gestão ao Itamaraty. Trata-se do telegrama n° 1136, secreto, com distribuição para a Divisão de Segurança e Informações (DSI), datado de 1 de dezembro de 1973.

Fórmula para o caos A derrubada de Salvador Allende: 1970-1973 Luiz Alberto Moniz Bandeira (Civilização Brasileira) 644 págs. - R$ 75

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História

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Ensaio

As revistas de cultura do século 19 Bisavós de CULT, essas publicações formaram novos leitores e fizeram história

N

o segmento das revistas culturais, CULT pode ser considerada uma teen de excelente berço: teve muitas bisavós que deixaram lastro no passado. Mais que isso, é da estirpe da primeira revista surgida no Brasil, As Variedades ou Ensaios de Literatura, nascida na Bahia em 1812. Como se sabe, a imprensa chegou tarde ao Brasil: foi proibida durante todo o período colonial. Apenas a vinda da família real, em 1808, mudou esse panorama. Um dos navios da frota que trouxe a Corte portuguesa, o Medusa, tinha nos porões uma máquina impressora e foi com ela que se criou, ainda em 1808, a Impressão Régia. E foi dessa máquina que saiu o primeiro jornal impresso aqui, A Gazeta do Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, outros prelos foram importados e o que se viu, nas primeiras décadas após a liberação da imprensa, foi o pipocar de jornais. Mas poucos iam além do terceiro ou quarto número: fechavam com a mesma rapidez que abriam. A segunda impressora a funcionar no país foi instalada na Bahia, em 1811, tendo à frente o português Manuel Antonio da Silva Serva, que criou no mesmo ano o jornal Idade d´Ouro do Brazil e, no ano seguinte, 1812, nossa primeira revista: As Variedades ou Ensaios de Literatura. Pouco se sabe dela: o último exemplar foi roubado do museu da Bahia. Como se lê nos anúncios publicados na época do lançamento, a publicação trazia “discursos sobre costumes e as virtudes morais e sociais; algumas novelas de escolhido gosto e moral; extratos de história antiga e moderna; resumos de viagens; trechos de autores clássicos – quer em prosa, quer em verso – cuja leitura tenda a formar gosto e pureza na linguagem”. Esse foi o modelo de nossas primeiras revistas – uma miscelânea que oferecia de tudo um pouco. Tanto que muitas revistas traziam no título a palavra “armazém”, “bazar”, “magazine” ou “museu”: um estoque de leituras diversas. A baiana As Variedades teve vida curta: dois números. Não havia leitores, protestava o editor. Um problema que ainda hoje afeta as revistas culturais: a falta de um público aficionado pela leitura. No entanto, desde o início a mulher se revelou uma leitora mais fiel. Tanto que a lista de assinantes publicada pela segunda revista O Patriota, que circulou por dois anos no Rio de Janeiro, a partir de 1813, abria com o nome de ilustre leitora, a princesa Carlota Joaquina. 19

Imagens/Acervo da Biblioteca Nacional

Carlos Costa

As Variedades ou Ensaios de literatura, primeira revista brasileira, de 1812


reportagem

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Generosidade cultural Dono da maior biblioteca particular do país, José Mindlin doa 45 mil volumes à USP Wilker Sousa Fotos: Gabriel Brito Bueno de Oliveira

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Mindlin caminha nos jardins de sua casa, no Brooklin (acima) e uma das salas de sua biblioteca (à esq.)

B

rooklin, São Paulo. Ao final do jardim da casa, uma robusta porta de ferro é aberta. Nas estantes que circundam toda a sala, preciosidades da literatura brasileira. Entre “Machados” e “Bandeiras”, o mais raro dos volumes: a primeira edição de O guarani, de 1857. A obra-prima de José de Alencar foi adquirida a duras penas. Nos anos 1960, um leiloeiro grego deseja vender o livro por mil dólares. José Mindlin faz a encomenda a livreiros londrinos, mas não consegue adquirilo. Somente em 1977, encontra a obra em um sebo parisiense. Arremata a relíquia por um preço alto, o qual prefere não mencionar. De volta ao Brasil, chega a sua casa no Brooklin e, ao comunicar a oferta a Guita, sua esposa, percebe que perdeu a obra. Três dias depois, a Air France entra em contato e comunica ter encontrado o livro no banco de uma aeronave. A longa e penosa saga para obter o livro fez da obra a mais rara entre as dezenas de milhares da biblioteca. Dividem as estantes com O guarani as primeiras edições de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida, Paulicéia desvairada, de Mario de Andrade e Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga. Uma pequena escada leva ao subsolo onde estão outros milhares de volumes. Entre eles, há uma estante especial, aquela dedicada aos originais. Boa 27

parte da obra roseana ali se encontra em seu formato embrionário, com anotações e rabiscos do autor, em meio aos textos batidos à maquina. Sagarana, Corpo de baile e a obra-prima Grande sertão: Veredas são exibidos com orgulho pelo bibliófilo. O último foi adquirido em 1956, nos arquivos da editora José Olympio, mesmo local onde encontrou os originais de Vidas secas, de Graciliano Ramos. Na página inicial, um raro feito da criação literária: o título “O mundo coberto de pennas” é preterido por Graciliano e dá lugar à versão definitiva: “Vidas seccas”. Esses tesouros da cultura nacional são uma amostra dos 45 mil volumes que serão doados por Mindlin à Universidade de São Paulo. A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin já está em fase de construção atrás do prédio da reitoria da Universidade. São 20 mil metros quadrados de área, com previsão de conclusão para o final de 2009. Caso a obra não esteja pronta dentro do prazo, a doação pode ser revogada. O acervo é composto por obras de literatura brasileira e portuguesa, documentos históricos, mapas e manuscritos raros, todos ligados à cultura brasileira, entre eles, a coletânea de viagens de Fracanzano da Montalbodo, de 1507, a qual faz alusão à viagem de Cabral. A doação deve-se ao forte laço entre Mindlin e a universidade. Ali se formaram ele, sua esposa e filhos, todos “uspianos”.


Filosofia

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Livros Confrontações éticas De 1951 a 1979, Vladimir Jankélevitch (1903-1985) foi responsável pela cátedra de filosofia moral na Sorbonne, onde influenciou uma geração de estudantes em aulas que entrelaçavam metafísica, moral e uma singular paixão pela música (também musicólogo, Jankélevitch publicou ensaios sobre a obra de Debussy, Fauré, Liszt e Ravel). Em O paradoxo da moral (1981), sua última publicação filosófica que pode ser considerada o sumário de suas idéias no campo daquilo que o autor classifica como “o primeiro problema da filosofia”, parte-se de uma definição negativa, dizendo o que a filosofia moral não é, para em seguida fundar as bases de uma especulação crítica sobre o descompasso entre a ação e o dever moral; especulação marcada sobretudo pela clivagem entre “libertários” e “puritanos” no pós-1968. O estilo enérgico de Jankélevitch envolve frases como “A violenta reação de rejeição aos valores normativos não é uma cólera moral ao revés, nem caricatura de indignação moral, é antes o frenesi de uma consciência desdobrada, crucificada, dilacerada por sua insolúvel contradição. Quanto mais o valor é aparentemente sagrado e reverenciado como tal, mais escandalosas as manifestações do nojo cínico: cuspir, vomitar e expelir!” Para o filósofo, enfim, a tomada de posição moral não admite nenhuma neutralidade. • O paradoxo da moral • Vladimir Jankélevitch • Trad.: Eduardo Brandão • (Editora Martins Fontes) 240 págs • R$ 37,50

Primeiro Sartre Publicado originalmente em 1936, este primeiro livro de Sartre examina o estatuto do conceito de imagem nos grandes sistemas metafísicos, desde Descartes a Husserl. O jovem professor de filosofia, em sua fase pré-existencialista, já evidenciava o espírito fenomenológico de sua época que, segundo Jean Wahl, respondia ao desejo de “retorno ao dado concreto”, na ontologia e na teoria do conhecimento. No livro, Sartre procura dissociar, entre os diversos modos de existência, a existência como coisa e a existência como imagens, e contrapõe-se às definições de imagem presentes em Descartes, Leibniz, Hume, Bergson, realizando assim uma breve história do problema da imaginação. Para Sartre, imagem é um certo tipo de consciência, é consciência de alguma coisa, concepção que, próxima à de Husserl, o levaria a empreender uma descrição fenomenológica da estrutura “imagem”, de seus modos de aparição, que resultaria no ensaio de 1940, O imaginário. • A imaginação • Jean-Paul Sartre • Trad.: Paulo Neves • (LP&M) • 144 págs. • R$ 11

Novas ordens do mundo Os ciclos de seminários, dirigidos por Adauto Novaes, constituem provavelmente o evento mais importante da agenda intelectual brasileira. Pesquisadores de diferentes áreas reunem-se anualmente para debater temas atuais do pensamento contemporâneo cuja polêmica transborda as fronteiras acadêmicas (basta lembrar a repercussão em torno da edição de 2005, O silêncio dos intelectuais). Os livros que resultam dos seminários oferecem assim um quadro substancioso da produção crítica recente. A edição de 2007, sob o título Mutações – novas configurações do mundo, é a última parte da trilogia Cultura e tempos de incerteza, que além das duas citadas, incluiu O esquecimento da política (2006). Aqui, o eixo da discussão localiza-se no diagnóstico do esvaziamento valorativo da política e de crenças partilhadas, e de um conseqüente estágio hegemônico da tecnociência. Ou seja, a autonomia da técnica, ao reduzir as idéias a sua dimensão instrumental, torna todo o plano do saber parasitário da ciência. Como escreve Novaes, “mutações são passagens de um estado de coisas a outro que nos deixam à deriva, quando as trilhas são pouco confiáveis, em particular se forem abertas, como acontece hoje, não pelo trabalho do pensamento, mas pela técnica”. Um seminário sobre mutações é, para o organizador, um irresistível convite a erros e acertos, pois o caráter excessivamente transitivo dos acontecimentos atuais condiciona os próprios deslocamentos conceituais na filosofia e na antropologia. Procura-se avaliar portanto o conceito de mutação sob múltiplas perspectivas, desde a biologia e a física, até a arte, a política e os costumes. • Mutações: Ensaios sobre as novas configurações do mundo • Org.: Adauto Novaes (Edições SESC-SP/ Editora Agir) • 464 págs. • R$ 59,90 32


(11) 3385-3385 www.revistacult.com.br www.espacorevistacult.com.br

espaço cul t invista em seu conhecimento

organização e realização: Faculdade Cásper Líbero & revista CULT

JORNALISMO CULTURAL

Linguagem - Critérios - Repertório - Pauta - Edição 10/10 (das 20h às 22h) o DilEMa: Como escrever um texto de qualidade dentro dos limites impostos ao jornalismo

com: Carlos

Costa (Faculdade Cásper líbero)

11/10 - das 9h30 às 18h30 a CRÍTiCa liTERÁRia: Como escrever resenhas literárias respeitando os critérios jornalísticos

com: Jerônimo Teixeira

(Veja)

QUais sÃo os CRiTÉRios PaRa a ElaBoRaÇÃo DE UMa PaUTa DE CUlTURa

com: Marcos augusto

Gonçalves (Folha de são Paulo)

a aRTE DE ENTREVisTaR: lobão (músico e compositor lobão é entrevistado pelos alunos)

com: lobão

(músico)

a CRÍTiCa MUsiCal: o repertório necessário para o crítico

com: Pedro alexandre

sanches (Carta Capital)

a CRÍTiCa DE CiNEMa: a formação de um crítico de cinema - técnica, estilo, recursos

com: luiz

Carlos Merten (Estado de são Paulo)

12/10 - das 9h30 às 11h30 TÉCNiCas E EsTilo DE TEXTo JoRNalÍsTiCo

com: Welington andrade

(Faculdade Cásper líbero)

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE De 07/10 à 11/11 (das 20h às 22h) às terças-feiras (seis aulas semanais) com: luciana

Confira a grade completa no site Pça. santo Agostinho, nº 70, 10° andar,

Metrô vergueiro - CEP 01533-070 - Paraíso - são Paulo - sP

Chauí


Coluna

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Música

Indo além do óbvio Descobri que você pode jogar muito tempo no lixo com o YouTube e se tornar um expert em informações inúteis. Nesse processo, contudo, você está participando de uma forma de assimilação musical própria do século 21, uma busca criativa que está amparada tanto no método de associação livre de Freud quanto no sampling aleatório que John Cage, Witold Lutoslawski e Steve Reich identificaram como sendo a base para uma nova civilização musical. Enquanto você está lendo isso, compositores estão no YouTube procurando idéias. “A história mostra que a música clássica sempre se adaptou rapidamente às tecnologias mais recentes”, diz John Schaefer, que cobria a cena musical do sampling em seu programa de rádio em Nova York. É apenas uma questão de tempo o fato de uma sinfonia ser composta a partir do YouTube. O site não foi criado para ouvintes de música clássica. Suas regras impedem a apreciação de obras longas. Uma sinfonia, por exemplo, deve ser quebrada em pedaços de menos de dez minutos. Além disso, apesar da proliferação de vídeos com os grandes maestros conduzindo o finale da Nona de Beethoven, isso não tem muito interesse para ouvintes sérios - especialmente em função da baixa qualidade do áudio. Mas procure além do óbvio e você ficará surpreso. Existe um clipe de abril de 1942, com Wilhelm Furtwängler executando a Nona diante de uma enorme suástica e de uma fileira de figurões nazistas; no final, o regente se curva para apertar a mão de Joseph Goebbels, que produziu o filme. Há um vídeo extraordinário de 1934 com Dimitri Shostakovich tocando piano em Leningrado durante seu próprio concerto. Você pode ver também um clipe mudo de Maurice Ravel, incrivelmente elegante ao teclado.

sem precisar requisitar a um bibliotecário o acesso a uma sala empoeirada de filmes antigos. Nesse sentido, por exemplo, basta ver o concerto de Furtwängler para perceber o quanto ele estava comprometido com as associações nazistas. E há outros usos para os entusiastas de música clássica. Algumas semanas atrás, antes de ter um encontro com a impressionante mezzo-soprano Brigitte Fassbender, fui ao YouTube procurar alguns de seus recitais. O resultado saiu melhor do que a encomenda. Lá está um vídeo do pai dela, Willi-DomgrafFassbender, o primeiro barítono da Alemanha, cantando a ária Figaro do Barbeiro de Sevilha, de Rossini, tão contente quanto uma criança num carro de bombeiros. Willi foi o único professor de Brigitte e, ao vê-lo na tela, aprendi tudo o que precisava para saber sobre sua influência mais importante. Chegou um ponto em que não faço mais uma pesquisa sem recorrer ao YouTube. Estou dependente demais do conteúdo e das improváveis conexões que ele possibilita. Se a Viacom conseguir derrubar o site, não sei mais o que fazer. Os artistas não ficam tão incomodados com as pequenas infrações de direitos autorais, ao contrário do que acontece em relação aos programas de compartilhamento, como os torrents. Para falar a verdade, Hollywood ganha mais com a divulgação do que com a proibição. O YouTube, como ferramenta educacional e fonte de criação, possui um valor incalculável. Aos poucos, venho controlando meu vício e já não entro mais no site todo dia. Mas onde poderia encontrar uma chanson francesa qualquer? Ou os cantos fúnebres gregos? Ou os quartetos de cordas de Alexander von Zemlinsky? Ao que tudo indica, a música foi totalmente transformada por esse pequeno milagre da rede.

Milagre da rede Quem coloca essas coisas no YouTube e por quê? São fãs procurando por almas gêmeas, ou historiadores da música querendo marcar pontos? Independente da fonte, um clique de mouse permite a qualquer espectador ir ao cerne da história da música recente

O jornalista britânico Norman Lebrecht, considerado um dos principais críticos mundiais de música erudita, é apresentador do programa Lebrecht live, na rádio BBC, e passa a contribuir para a CULT

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Coluna

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ensaio

O lugar do leitor De como a escrita reconhece ou anula o outro Francisco Bosco

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unca me esqueci de uma frase, na verdade um parêntese, que li no prefácio de J. B. Pontalis a uma edição de As confissões, de Rousseau: “Já se pensou o suficiente que o prazer do leitor vem do modo como ele é tratado?”. Pois bem, como pensar os modos de tratar o leitor? Vou tentar indicar dois caminhos, abertos por dois ângulos diferentes.

Incompletude No excelente filme Notas sobre um escândalo, há uma cena que ilustra bem o que procurarei demonstrar. Uma mulher bela e jovem, Sheba Hart, é casada com um homem muito mais velho, com quem tem dois filhos, uma adolescente trabalhosa e um menino com síndrome de Down. Ela se encontra entediada e apequenada por seu casamento e família. Resolve tornar-se professora de artes de uma escola para crianças pobres, onde faz amizade com uma professora de história, Barbara, uma senhora idosa, autoritária e ressentida. De dentro de sua infinita solidão, Barbara vê em Sheba um acontecimento raro e brilhante em sua vida; apaixona-se por ela e passa a nutrir fantasias sexuais e amorosas pela mulher mais jovem. Um dia, Barbara flagra Sheba fazendo sexo oral num aluno seu de 15 anos de idade. Sente-se com inveja e ciúme, e a partir daí passa a manipular Sheba jogando com uma falsa cumplicidade e a ameaça velada de contar o que sabe à escola e à família dela. Chegamos então à cena de que falei acima. Querendo forjar alguma

situação de contato físico (com sentido sexual) com Sheba, Barbara fala que quando era criança costumava fazer com as amigas uma brincadeira relaxante de roçar os braços umas nas outras. Sheba, pressentindo as intenções sexuais de Barbara, tenta recusar, mas esta insiste. Pede a ela que feche os olhos – ao que Sheba, sem saída, obedece – e começa a esfregar-se nela com um prazer mórbido, contrastando com a cara contrita da outra, que não agüenta de nojo e interrompe a cena. Que cena? Uma cena de estupro. Mas uma cena que só ganha o estatuto de estupro em sua dimensão de fundo, invisível, em que os sentidos todos que ali estão em jogo são revelados. Mas, e aqui é que reside a questão, são revelados sem que sejam explicitados, isto é, são revelados pelo leitor. A construção da cena é feita de tal modo que um lugar decisivo é nela assegurado ao leitor. O lugar do leitor é a dimensão invisível da cena: é aí que ela pode se locupletar, desde que o leitor seja capaz de ativar-lhe os sentidos. A cena é incompleta sem o leitor. É claro que, genericamente falando, toda cena, todo texto é incompleto sem o leitor, mas, nesse caso, a margem de atuação do leitor, o espaço concedido a ele, é radicalmente maior. Aqui reencontramos a relação estabelecida na frase de Pontalis, e agora podemos começar a pensá-la: o prazer do leitor está também vinculado ao lugar que lhe é concedido. “Tratar” o leitor é pensar o seu espaço na máquina de signos que uma obra produz. O prazer do leitor passa pela incompletude da obra, que lhe assinala o seu lugar decisivo, desenhando o 38

espaço de uma radical co-autoria.

A entrelinha Nada disso é novo – Barthes, por exemplo, pensou a seu modo essa questão, por meio de tipologias como prazer/ gozo e, sobretudo, legível/“escrevível” – mas talvez a inflexão que vou indicar agora aponte para algo menos sabido. A obra de arte, por seu caráter material, sensível, pode resguardar uma contrapartida de incompletude no âmbito invisível, irrepresentável, das significações. É o que ocorre na cena acima. Mas como pensar o lugar do leitor em um texto, sendo a linguagem o próprio campo das significações? Que dimensão pode servir aí de vazio, assinalando o lugar do leitor? Especialmente na produção teórica, cujo compromisso é com a explicitação, com a iluminação – como pode nela o leitor encontrar seu espaço radical e decisivo? Se a obra de arte, em sua ordem sensível, pode desencadear – por meio do leitor – uma trama de significações, um texto, por sua vez, em sua imaterialidade semântica, pode desencadear uma ordem sensível, uma espécie de vislumbre do real. Talvez seja isso que Clarice Lispector entendia (ou vislumbrava) como “entrelinha”: “Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler distraidamente”.


Solidão Isso quanto a textos – semiologicamente falando: signos verbais ou não – públicos. No contexto de textos privados, tudo muda. O lugar do leitor deve ser pensado decisivamente por outro ângulo. Barthes lembrou muitas vezes que a linguagem é, por excelência, assertiva. Por exemplo, quando escrevo que a linguagem é assertiva, estou asseverando algo, estou entrando imediatamente na arrogância da linguagem. Há, no entanto, vários dispositivos retóricos para atenuar essa espécie de arrogância constitutiva da linguagem. Posso escrever “talvez”, colocar interrogações, dar ao que escrevo um tom mais suspensivo; posso assumir uma postura mais humilde, reconhecendo minha ignorância e insuficiência etc. Esses artifícios inscrevem-se no campo do que a retórica latina chamava de captatio benevolentiae, isto é, a captação da simpatia do leitor por meio de uma não-arrogância, de uma não-imposição. Essa nãoarrogância concede ao leitor um lugar, um espaço, e com isso procura obter dele o reconhecimento do lugar daquele que escreve, sua disposição generosa para com este, sua “benevolência” para com a leitura. Mas tudo se passa de outro modo em se tratando de textos privados. Quando escrevemos uma carta, um email ou falamos com um amigo, estamos no âmbito de uma relação particularizada. Aqui, o lugar do “leitor” é a sua própria particularidade; seu espaço é o espaço que nossa fala ou escrita desenha ao reconhecer a existência concreta e particular de nosso interlocutor. Em outras palavras, em âmbito privado existe a figura concreta do destinatário. Em âmbito público, não. Se escrevo um livro – ou essa coluna –, escrevo para todos e ninguém em particular. Por isso o poeta Paul Celan disse que escrever um poema é como lançar uma mensagem numa garrafa ao mar. O leitor que a recolher terá ou não seu lugar

reconhecido dentro do campo que configurei no item 1: na própria economia do texto, em seu jogo de explicitude/ implicitude. Mas em contexto privado, repito, o lugar do interlocutor é assinalado pelo reconhecimento dele como destinatário. Aqui começa o drama de quem vive em estado permanente de produção de verdades: ensaístas, filósofos, semiólogos, etc. É, pelo menos, o meu drama, ou meu efeito colateral fundamental, para ser talvez mais preciso. Se um dia estou entristecido por alguma razão, se, por exemplo, brigo com um grande amigo, eu poderia escrever para um outro amigo e desabafar, dizer que estou triste, contar o ocorrido, pedir ajuda – mas, ao invés disso, eu provavelmente direi uma verdade sobre a amizade. Ora, ocorre que uma verdade não reconhece destinatários. As verdades são públicas, transpessoais, dirigem-se aos fenômenos – que pretendem elucidar – não a alguém em particular. Assim, quando, em contexto privado, enviamos verdades a um interlocutor, este não reconhece em nossa fala (ou escrita) o seu lugar de destinatário. A verdade, em âmbito privado, vai ao outro como um muro, não como um convite ou um pedido. A verdade, em âmbito privado, anula o outro, seqüestra o seu lugar. O que estou chamando aqui de verdade é o ato de ler os fenômenos, de interpretá-los, de transfigurá-los, investindo-os de sentidos imprevistos. Essas leituras – ou verdades – têm uma finalidade em si, um gozo próprio, que é o gozo de sua cunhagem, de sua formulação, e é esse gozo que entregamos ao outro. Ora, como um destinatário pode se reconhecer enquanto tal recebendo um gozo já acabado? O resultado é que o interlocutor geralmente não responde – como responder ao que não foi perguntado? – ou responde de forma igualmente fechada. E assim o preço da verdade é nada menos que a solidão. franciscobosco@terra.com.br

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dossiê

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HannaH arendt

Um percUrso Da S emanas atrás, a comunidade científica internacional, acompanhada por entusiasmados séqüitos de uma mídia perplexa, comemorou a inauguração do LHC, o imenso laboratório de 27 km na fronteira franco-suíça que promete desvendar os origens do universo. Dias depois, relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) anunciava o aumento da população subnutrida no planeta, aumento estimado em 75 milhões de pessoas só no ano de 2007. Para além de todo proselitismo pueril e inútil que a simples justaposição desses dois fatos poderia suscitar, a coincidência com os 50 anos do lançamento de A condição humana, considerada a obra mais impactante de Hannah Arendt, não deixa dúvidas quanto à pertinência e ao vigor de suas reflexões no mundo contemporâneo. Curiosamente, Arendt iniciava o prólogo da primeira edição (1958) comentando um evento científico marcante para sua época - o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik - evento cuja importância, nas palavras da autora, ultrapassaria “até mesmo a desintegração do átomo”. Na verdade, em sua crítica à neutralidade aparente da ciência, Arendt questionava a euforia em torno do progressivo tecnicismo em um “mundo no qual as palavras perderam seu poder” e no qual a humanidade poderia se ver escravizada pelo seu próprio know-how, indefesa em razão do divórcio entre o conhecimento técnico e matematizante e o pensamento que convém ao raciocínio discursivo e, por extensão, à origem da ação política. Poderíamos

Índice do Dossiê

dizer que os fatos recentes são manifestações emblemáticas desse divórcio. Expressão de seu interesse pela res publica e por uma redefinição radical de liberdade e poder, o que Hannah Arendt reivindica é o questionamento político da técnica. Para Celso Lafer, ex-aluno de Hannah Arendt, o livro A condição humana apresentou de fato “uma das mais brilhantes análises da natureza, do mecanismo, da complexidade, do pathos e do significado da ação”, servindo como ferramenta teórica decisiva para a compreensão da violência estrutural que sempre nos ameaça. Em entrevista recente à CULT, Lafer lembra que o poder não se impõe pela violência, mas, pelo contrário, que o arbítrio e a violência destroem o poder, que a violência emerge, segundo Arendt, somente quando o poder da ação conjunta enfraquece. Tendo em vista o interesse continuamente renovado pelas reflexões de Hannah Arendt, este dossiê procura esclarecer os tópicos essenciais de seu pensamento, contando com a colaboração de importantes especialistas nacionais. Como introdução, André Duarte descreve o percurso intelectual da autora, além dos temas principais de seus livros; Newton Bignotto explica a original e polêmica noção de totalitarismo; Odílio Aguiar, a idéia de banalidade do mal e de mal radical; Eduardo Jardim comenta a recepção da obra de Arendt no Brasil; e, por fim, Adriano Correia escreve sobre a falência da política na modernidade, mas também sobre a viabilidade de uma efetiva emancipação do homem, a fim de romper os grilhões de sua animalidade e de sua condição puramente laboral. (Eduardo Socha)

46 Pensar e agir em tempos sombrios

Nem liberal, nem marxista ou conservador, o traço do pensamento arendtiano assumiu a insígnia do amor mundi, do amor pelo mundo André Duarte

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Arendt e o totalitarismo

Os estudos sobre o totalitarismo esclarecem a face trágica do século 20 e os desafios das democracias no século 21 Newton Bignotto


CC/Shannon O'neill

liberDaDe

Rua Hannah Arendt, que dá acesso ao Memorial do Holocausto, no centro de Berlim

54 Violência e

banalidade do mal

Em Arendt, o problema do mal é abordado por uma perspectiva política e não moral ou religiosa Odílio Alves Aguiar

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61 A vitória da

A recepção da obra no Brasil Eduardo Jardim

Para a pensadora, a vitória do animal laborans revela a impotência política do homem moderno Adriano Correia

Tensão entre teoria e prática

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vida sobre a política


dossiê

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Hannah arendt

Pensar e agir em tempos sombrios Nem liberal, nem marxista ou conservador, o traço do pensamento arendtiano assumiu a insígnia do amor mundi, do amor pelo mundo André Duarte

H

annah Arendt nasceu em Linden, subúrbio de Hannover, Alemanha, no dia 14 de outubro de 1906. Sua infância transcorreu em meio à classe média judaica assimilada e profundamente mesclada à cultura alemã. Apesar de protegida do anti-semitismo pelo ambiente familiar, desde pequena Arendt sentia-se diferente das outras crianças. Já adulta, costumava referir-se a si própria citando um poema de Schiller (1759-1805), Das Mädchen aus der Fremde, a menina vinda do estrangeiro, do desconhecido. Esse contínuo sentimento de estranhamento a levou a pensar que apenas os parias conscientes de sua diferença representam a verdadeira humanidade, de maneira que a condição primeira de todo intelectual deveria ser o inconformismo social. Aos 18 anos, decidiu cursar filosofia e foi então que conheceu pessoalmente Heidegger, na Universidade de Marburg. O encontro foi fulminante e os dois se apaixonaram, envolvendo-se numa relação amorosa secreta e impossível. Com a ascensão dos nazistas ao poder em 1933, Arendt abandonou a filosofia e engajouse no grupo sionista liderado por um antigo conhecido de sua família, Kurt Blumenfeld. Em pouco tempo, foi presa e teve de fugir do país, sem documentos, rumo a Paris. Lá, tornou-se amiga de Walter Benjamin e de outros refugiados alemães, em sua maioria judeus e comunistas, entre os quais conheceu Heinrich Blücher (1899-1970), com quem viveria até a morte dele. 46

Apátrida

Superadas as dificuldades de adaptação após sua chegada aos Estados Unidos em 1941, como exilada e apátrida, Arendt começou a elaborar As origens do totalitarismo. Nesse livro de 1951, atesta-se o impressionante esforço intelectual de Arendt para compreender o incompreensível, fazendo de seu próprio destino uma história na qual as análises do anti-semitismo e do imperialismo culminam na investigação do totalitarismo. A análise arendtiana dos governos totalitários se tornou célebre ao propor a seguinte tese: a de que o nazismo e o stalinismo, a despeito de inúmeras e importantes diferenças entre si, constituíam variantes de uma mesma forma de dominação sem precedentes históricos. Para Arendt, o totalitarismo não poderia ser comparado a outras formas de dominação já conhecidas e catalogadas pela filosofia política, como tiranias, despotismos ou ditaduras, das quais ele não seria apenas uma versão mais violenta. Arendt compreendeu que em sua pretensão de subordinar a liberdade humana e a totalidade da vida privada, social e política aos seus imperativos ideológicos, os governos totalitários não deixavam de pautar suas ações pelas leis que promulgavam, isto é, não pretendiam governar para além dos limites da lei. Antes, o totalitarismo altera radicalmente o próprio conceito tradicional de lei ao compreendê-la em termos das leis gerais de desenvolvimento da Natureza ou da História, extraindose desse suposto fundamento incontestável a


reprodução/Hannah arendt Literary trust

Hannah Arendt engajou seu pensamento na compreensão da crise política da modernidade, ao mesmo tempo em que buscava brechas que poderiam revolucionar a política do presente

própria legislação positiva. Arendt também descobriu que os dois pilares de sustentação dos regimes totalitários são o terror e a ideologia, os quais se articulam de maneira complementar: ao mesmo tempo em que a ideologia justifica e demonstra a necessidade do emprego da violência terrorista contra todos os que estorvam o desenvolvimento histórico das classes sociais progressistas ou o desenvolvimento natural das raças mais evoluídas, é também por meio do terror que se criam e se reproduzem as condições sociais e políticas que, em concordância com a ideologia totalitária, transformam os supostos inimigos do regime em seres humanos degradados e perigosos, os quais precisam ser aniquilados. Por isso, as principais instituições dos governos totalitários são fábricas da morte, os campos de concentração e extermínio nos quais se testa a possibilidade de reduzir os seres humanos à condição da vida nua e supérflua que pode ser eliminada sem mais.

Crítica à divisão esquerda-direita

Ao confrontar-se com os horrores da dominação totalitária, Arendt descobriu que as questões políticas cruciais do presente não mais podiam elucidar-se por meio do recurso a

conceitos tradicionais como esquerda ou direita e, desde então, manteve uma atitude crítica em relação à tradição do pensamento filosófico-político ocidental. Nem liberal, nem marxista ou conservador, o traço característico do pensamento arendtiano assumiu a insígnia do amor mundi, amor pelo mundo. Essa foi a perspectiva teórica a partir da qual Arendt deu início à compreensão dos desvarios políticos de nosso tempo, o absurdo totalitário e o fenômeno da moderna despolitização liberal-tecnocrática. Para Arendt, o século 20 testemunhou o obscurecimento da experiência democrática radical, caracterizada pelo envolvimento coletivo dos cidadãos nas questões políticas por meio de seus atos e palavras, tanto em função da burocratização e do crescente emprego da violência por parte do Estado, elevado ao paroxismo no fenômeno totalitário, quanto em função do processo histórico de privatização do espaço público, isto é, pela sua transformação estrutural no espaço social das trocas econômicas de uma sociedade constituída por indivíduos reduzidos à função de trabalhadores-consumidores. Tal fenômeno acarretou a crescente perda de autonomia do político em relação ao âmbito das necessidades econômicas e seus imperativos estratégicos e privatizantes. 47


Oficina literária

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André Lacroce Pensar

André Lacroce é designer gráfico e mora em São Paulo A Oficina Literária é uma seção exclusivamente voltada para a publicação de inéditos. Os interessados em publicar seus textos – que serão avaliados pela equipe da revista e não devolvidos – devem enviar seus originais pelo e-mail: oficinaliteraria@revistacult.­com.br ou pelo correio para: Revista Cult – Oficina Literária, Praça Santo Agostinho, 70, 10º andar – Paraíso – São Paulo, SP – CEP: 01533-070. Os textos devem ser encaminhados inseridos no corpo da mensagem e não anexados. O tamanho não pode ultrapassar três mil caracteres com espaço. O envio de qualquer trabalho para a Oficina Literária implica o reconhecimento do direito não-exclusivo de reprodução da obra pela revista. A autoria e o conteúdo dos textos são de responsabilidade única e exclusiva do participante, devendo ele observar a legislação autoral vigente. Ao encaminhar o trabalho, os interessados devem fornecer os seguintes dados: nome completo, endereço, telefone para contato e e-mail. A Editora Bregantini, ao receber os inéditos, está autorizada pelos autores a publicar o material, de forma integral ou resumida, na Cult ou no site da revista.

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PROGRAMAÇÃO OUTUBRO 2008

RIO DE JANEIRO

Av. Almirante Barroso, 25 – Centro

EXPOSIÇÃO

Pierre Mendell – Cartazes

De 29 de setembro a 9 de novembro de 2008 Terça a sábado, das 10h às 22h Domingo, das 10h às 21h Classificação: Livre Galeria 1

CURITIBA

Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Centro

TEATRO Paraladibom Dias 18 e 19 de outubro de 2008 Sábado e domingo, às 16h Classificação: Livre Teatro da CAIXA Cultural

SALVADOR

Rua Carlos Gomes, 57 – Centro

EXPOSIÇÃO

Tudo o que a Gente Vê ou Toca Tem História pra Contar Até 19 de outubro de 2008 Galeria Mirante

SÃO PAULO

Praça da Sé, 111 – Centro

EXPOSIÇÃO Amado Jorge Amado – Coletânea de Diversos Artistas

De 22 de agosto a 12 de outubro 2008 Terça a sábado, das 9h às 21h Classificação: Livre Galeria Humberto Betetto

BRASÍLIA

SBS Quadra 4, Lotes 3/4 – Asa Sul

MÚSICA Samba na CAIXA, Dinheiro no Samba, com Nei Lopes

De 16 a 19 de outubro de 2008 Quinta a sábado, às 20h30 Domingo, às 19h Classificação: 14 anos Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia) Teatro da CAIXA Cultural

Acesse o site caixacultural.com.br e conheça a programação completa.


Revista CULT (parcial) - 129