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ABJETO

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A PA G O G I A

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A Q U I L O Q U E PA S S A N Ã O T E P E RT E N C E , O Q U E F I C A E N Ã O VA I .

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AZULEIJABILIZANTE

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BAKUNIN

110

CINISMO

120

COIOTE

140

CONTROLE

160

CRIOULO

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DESOBEDECER. DESOBEDIÊNCIA.

210

E D I TA R

220

E S C U TA N Ã O PA C I F I C A D A

230

IMOBILIDADE

250

INVERSÃO

260

LEI DE SEGURANÇA NACIONAL

280

LOUCURA

290

MARKETING POLÍTICO

330

MULHER

350

M U LT I D Ã O E M O N S T R O

370

O C U PA R / O C U PA Ç Ã O

410

PA I S A G E M C A C O F Ô N I C A

480

PRESTÍGIO

510

PROGRESSO

520

R E P R E S E N TA Ç Ã O I N C I V I L

540

RUÍNA

560

TA M PA R

580

TÉCNICA

600

TRAIR A ESPÉCIE

610

VISIBILIDADE

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RECIBO 56: BRAZIL DISTÓPICO EDIÇÕES TRAPLEV ORÇAMENTOS ANO 13 NUMERO 17 2015


parece que a utopia não é mais uma visão de futuro, mas uma visão do passado sobre o futuro… e parece que a distopia é esse futuro agora (presente enquanto futuro e já passado). a distopia parece se desgrudar de um passado retrógrado e inverter o sentido mesmo dessa mistura… por isso essa reorganização e revisão de conceitos e termos ou mesmo neologismos… eles têm que ser reinventados. é a quebra mais do que nunca da linguagem sendo vivida (incessantemente) mas como utopia e distopia na vice-versa acabam se misturando nas suas inversões, a sensação é de uma simultânea alternância de significados e metáforas. a origem do sistema pode ser a deturpação dos sentidos. A manipulação (positiva ou negativa) da estrutura de linguagem é uma deturpação da manipulação infinita dos sentidos. dúvida como afirmação. negativo como comprovante. (…)


EDITORIAL 56 O Recibo 56: Brazil Distópico é um glossário com verbetes sobre a atual distopia brasileira. Propomos a um grupo de pessoas que escolhesse um verbete/conceito que lhe fosse urgente neste Brazil Distópico de 2014– 2015, e escrevesse um texto explicando-o/definindo-o. A cada participante, propomos também que convidasse uma segunda pessoa para que também escolhesse um verbete/conceito, escrevesse sobre ele e propusesse ainda a uma terceira pessoa que esta também escolhesse um verbete/conceito, escrevesse um texto e convidasse também um quarto participante. Assim, de forma horizontalizada e em rede, foi formado um glossário de trinta verbetes/conceitos. O Recibo 56: Brazil Distópico também se desdobra para além desta edição. Números anteriores e posteriores da revista, editados ao longo de 2014-15, contaram e contarão com um encarte baseado em documentos que proporcionam uma leitura histórica da distopia brasileira. A coleção desses encartes é parte integrante do Recibo 56: Brazil Distópico. No Recibo 18: Bacurau, publicado em maio de 2014, há um folheto de anúncios feitos no Brasil do século XIX referentes à escravatura, desde o anúncio de venda, aluguel ou compra de escravos até de escravos fugidos. No Recibo 70 pedranoventa, lançado em agosto de 2014, há um encarte feito a partir do álbum de figurinhas Coleção Nosso Álbum, editado na década de 1970 pela Editora Sadira, em cuja capa está estampado o slogan «Brasil, ame-o ou deixe-o». No Recibo ▲ edição poster, publicado em abril de 2015 há um adesivo de mesário das eleições de 1989, a primeira eleição direta pós-ditadura. Nesta edição, publicamos o fac-símile do recibo de doação de dinheiro para o custeio da propaganda eleitoral do então candidato à Presidência da República Juscelino Kubitschek. Nos dois próximos recibos, completando essa série, terão outros dois documentos históricos para colecionar. Propomos aos participantes do Recibo 56: Brazil Distópico que escolhessem um verbete/conceito que surgisse de uma urgência pontual, como um contraponto ao ideal enciclopédico e dicionárico de tentar abarcar todos os verbetes/conceitos possíveis em uma platitude panorâmica, totalizadora, a-histórica e de hierarquia disfarçada. Ao propor a singularidade da escolha e da definição — desconfiando de que todo conceito se ressignifica ao transpassar cada corpo, cada lugar, cada momento e cada contexto — acreditávamos atingir um coro desafinado propositalmente em prol de um dissenso disposto a escutar o que cada voz escolheu dizer. Em respeito à singularidade — talvez a única


possibilidade de reação à atual padronização controladora da vida — nós, editores da Recibo 56: Brazil Distópico, não editamos os textos e nem os padronizamos no que diz respeito a aspas, itálicos, bolds, citações, títulos de obras, bibliografias, notas, maiúsculas, etc. Essa escolha nos pareceu uma forma de fazer com que o leitor perceba estar em meio a uma multidão de escritas/vozes singulares — onde é necessário aprender a ouvir a cacofonia — e não em meio a um discurso monolítico regido pelas normas e pelos códigos. É bem provável que o maior objetivo dos dicionários e enciclopédias seja atingir o momento em que passam a estar desatualizados. Talvez, a grande utopia do Recibo 56: Brazil Distópico tenha sido captar instantes de ressignificações, e não significados.

56 (

TRAPLEV E FABIO MORAIS

)


*****

GLOSSÁRIO

DE BRAZIL

DISTÓPICO

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Abjeto [ɐb.ʒˈɛ.tu] substantivo concreto   1. O que deve ser expulso, repelido; dejeto intolerável; visão ameaçadora do Real; força que desintegra o Eu; não-sujeito; não-objeto; alteridade radical; cadáver que insiste em nos matar; irracionalidade pulsante; barbárie sempre à espreita; vômito, sangue, pus & porra; ferida aberta; excreção constante a verter; ruptura cotidiana do horror, do asco e do nojo; desejo-repulsa-desejo   2. Vida tida como menos importante; existência marginal resistente em si; ser cujo caráter ontológico é sistematicamente negado; ser/não-ser; vida não quista, indigna de luto ou lágrimas; vórtice maldito da diferença; materialidade a ser desconfigurada; corpo intermitente; vida precária; distúrbio no cis+tema heterocapitalista  3. Forma informe, inassimilável e delimitada pela exclusão; porção heterogênea da sociedade; sexo da multidão; amorfia anti-identitária; miserável coisa qualquer; singularidade coletiva que carrega toda e qualquer possibilidade de transgressão; força inferior; potência do excesso.

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(  MATHEUS ARAUJO DOS SANTOS  )


Apagogia 1. Redução de um problema a outro.  

2.

A redução da subjetividade em direção ao seu absurdo contrário.  3. Rebuço que reconstrói o rosto inversamente.   4 A sabotagem a si mesmo.  5. Subjetivação captada, manipulada, regulamentada e distribuída pela mídia visando ampliação de consumo e apatia política.  6. Movimento de subjetivação de quem é sujeito ao processo da heteronímia, que vive de inferências e que sofre seguidamente da externação de preconceitos não autênticos.   7. Ignorância da noção de limites, em geral.  8. Esquecimento, apagamento, dificuldade de percepção visual e cognitiva extra-científica e extra-midiática.  9. É relativo entre a dinâmica arte e publicidade.   1 0 . Dispositivo de d e s s u b j e t i v a ção .  11. Pseudoprocesso de singularização: Idiossincrasia do mesmo . Ausência de alteridade. Promoção do igual diminuição de .

diferenças.

— http://67.223.248.71/tertulia/Verbetes/ Apagogia. — O que é o contemporâneo, Giorgio Agamben. — A promessa da política, Hannah Arendt. — Micropolíticas: Cartografias do desejo, Felix Guatarri e Sueli Rolnik. — Totalidade e Infinito, Emmanuel Levinas. — Diálogo sobre o fim do mundo, Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski.

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( LAILANA KRINSKI )


Aquilo que passa não te pertence, o que fica e não vai. Reinterpretação a partir do slogan «O transtorno passa, os benefícios ficam» usado pela prefeitura do Rio de Janeiro em locais de obras. Aonde grande parte da população se encontra dia-após-dia imóvel em engarrafamentos causados ou agravados pelas obras. Engarrafamentos em que a única coisa que passa é tempo de quem se encontra neles, tempo que acaba por não os pertencer mais e que não terão de volta. Os benefícios, possíveis somente destituindo parte da população, são prometidos pela prefeitura e destinados para uma outra e pequena parcela da população.

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( VIJAI PATCHINEELAM )


Azuleijabilizante Ato e efeito de revestir e impermeabilizar com revestimentos cerâmicos os espaços e os modos de vida, tornando-os «limpos e brilhantes», duráveis, assépticos, homogêneos, uniformes e impermeáveis. Em seu livro Casa-Grande & Senzala , Gilberto Freire ressaltou a conexão existente com o uso do azulejo por parte do colonizador português no Brasil, não só por uma questão de gosto, mas também pela limpeza, claridade, e um senso de higiene tropical. Anseio que perdura no país — atualmente o segundo maior produtor e consumidor mundial de revestimentos cerâmicos, atrás somente da China — acompanhando o boom do mercado interno da construção civil na última década. Entre 2006 e 2012 foram consumidos aproximadamente 4,5 milhões m² de porcelanatos, azulejos, lajotas etc (fonte: Anfacer e BNDES), com muita área ainda a azulejar nos nossos mais de 8,5 milhões km²(!). Em variados padrões, cores e tamanhos, imitando pedras, mármores ou madeiras, no Brazil Distópico impermeabiliza-se vidas e existências e inteligências e sensibilidades e pisos e paredes e banheiros e cozinhas e salas e quartos e corredores e varandas e fachadas e calçadas e quintais de casas e lojas e instituições e indústrias e hospitais e escolas e escritórios e supermercados e aeroportos e shopping centers e restaurantes e templos religiosos e cidades e florestas. Uma grelha contínua de azulejos-porcelanatos repete ad infinitum o espaço abstrato do Capital, reduzido a área e a preço/m² — valor do mercado imobiliário (e financeiro) que formata não so-

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mente o Brasil, mas praticamente todo o planeta. O modus operandi Azuleijabilizante, individual ou coletivo, indica a ansiedade de manter-se impermeável a mundos diferentes, o lacre entre os mundos, a fuga da manutenção da vida e dos elementos construídos, a dificuldade dos critérios e a falta de repertório estético e político nas escolhas cotidianas, e o impedimento da permeabilidade e fertilidade da terra e de rituais e narrativas significativas.

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( LIGIA NOBRE )


Bakunin Vândalo Insurgente Desordeiro Baderneiro Manifestante

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( FÁBIO TREMONTE )


Cinismo Tratado no contexto particular da realidade brasileira, o cinismo vem se mostrando, há várias décadas, uma das posturas de pensamento mais difundidas dentre os brasileiros. Em tudo desprendido de sua antiga acepção identificada à atitude filosófica de Diógenes de Sinope, dito o Cão (c. 412–c.323 a.C), o cinismo no Brasil contemporâneo assumiu, antes de mais nada, um matiz de zombaria frente às lutas do passado e do presente. Destacam-se três desdobramentos dessa postura: 1) a legitimação de injustiças históricas, 2) a inversão perversa do dominador em dominante e da vítima em algoz e 3) certa cegueira moral que impede o adequado e lógico exercício da crítica. Os três fatores se entrecruzam em maior ou menor medida de acordo com o caso. O uso arcaico, mas ainda recorrente, de clichês e preconceitos ilustra emblematicamente as modalidades acima enumeradas. Na primeira modalidade podemos agrupar ideias inverossímeis como a de que «a Revolução de 1964 salvou o Brasil do comunismo» e qualquer outro exemplo retirado da coletânea História politicamente incorreta (do Brasil , da filosofia , da América Latina , não importa). No segundo caso, encontramos as mulheres estupradas por usarem saias curtas, os sem-teto que deviam comprar suas próprias casas, o gay dito «afetado» e o «vagabundo» uspiano que «devia estar estudando». O terceiro caso, por sua vez, agrupa um conjunto vasto de axiomas e juízos de valor que vai do «tá com dó leva pra casa» e «rouba mas faz» ao «bandido bom é bandido morto». O uso indiscriminado deste último recurso

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denota total descaso quanto à memória e à consciência comum da humanidade. Muitos têm argumentado convincentemente sobre a obsolescência deste tipo de conduta; porém as estratégias para obliterá-la permanecem ainda inoperantes. Maior interessada no fim do cinismo, a esquerda permanece cindida por divisões teóricas e práticas, além do reduzido contingente. Ao que tudo indica, sanar esse tipo de déficit e dissidência em prol da total extinção do cinismo será uma pauta de primeira ordem, bem como o provável fator de querelas políticas nas próximas décadas do século que se inicia.

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( WILLIAM ZEYTOUNLIAN )


Coiote Palavra de origem nahuatl . Nome científico: Canis latrans . Mamífero da família Canidae, do gênero Canis. Nome que se dá informalmente àquelxs que atravessam imigrantes de um lado a outro da fronteira entre países. Elxs tem as bocas abertas congelando paisagens de um grito silencioso. Não têm dentes mas presas expropriadas em Serra Pelada, são presas de Ouro Preto. Ventre repartido, bueiro, avenida: de onde pulam Pixotes em ciclos de destempos em destempos. De pequeno porte, costumam viver sozinhxs, mas por vezes juntam-se em matilhas. Fazem rituais ao redor do caos com sacos de lixo e garrafas de cerveja nas mãos. Não têm medo do cheiro e do gosto da merda porque dela já vieram. Se reconhecem como parentes das coisas que perecem, das coisas que padecem, das coisas sequestradas. Se alimentam dos restos, das sobras, das falhas do sistema, são órfãos de suas putas mães assassinadas pelo velho novo holocausto, pelo Pai Nosso de Cada Dia. Parecem Shiva pintados de azul com césio-137 de Goiânia-1987 dançando sobre os cadáveres de seus ancestrais. O cão que grita . Ateiam fogo, hasteiam bandeiras indecifráveis, se tornam a própria cinza para entrar nariz adentro de quem fareja pela matilha. Querem alojar um demônio em vossos corações, querem fazer macumba, pajelança com os restos dos Tupinambá, Guarani Kaiowá, Pataxó, Tucano, Guajajara, Kayapó, Akuntsu, Avá Canoeiro, a vingança de Galdino. Enquanto a polícia prende Urutau Guajajara trepado na árvore em greve de fome na Aldeia Maracanã, a tropa de choque a escaldar com armas

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sonoras e novos coquetéis de matar devagar, bombas de gás lacrimogênio caem como estrelas cadentes, cometas, riscando no espaço a trajetória branca lacrimosa, que arde, tonteia. Tiros de fuzil para o alto. Cassetetes nas canelas, rins, costelas, cabeça, estômago. Choques. Caçamba virada faz trincheira. São coiotes e brincamos de pular a fogueira de São João de lixo hospitalar na Central do Brasil. São coiotes e gozamos na cara dos santos. São coiotes e somos coiotes. Monstro sem cara, sensual e informe, que vomita sobre as normas aquilo que o corpo não aguenta mais obedecer e assujeitar.

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( SARA PANAMBY )


Controle Para William Burroughs, o controle precisa do tempo como o drogado precisa da droga. O controlato é compulsivo em quadricular a atenção e colonizar cada segundo. Giramos num carrossel de simulacros, agarrados por olhos, ouvidos, estômago e sexo. É tecnologia mais biologia. O controle penetra nos corpos e provoca mutações. Memes e implantes maquínicos descentram a consciência e hibridizam o aparato perceptivo e a experiência do tempo. Estamos fora dos corpos, maquinados na supermídia do opinionato universal. O cativeiro de sonhos se sedimenta como realidade e o trabalho a sua maior alucinação. O capitalismo é uma intoxicação. Na trilogia Nova , Burroughs testemunha o estado da arte do controle social: o indivíduo é granada e explode em cem pedaços de rotinas, códigos e subconjuntos proto-individuais que nos compelem por linhas tortas, segmentos descontínuos, limiares. Para Gilles Deleuze, os modos de dominação sofrem uma mudança qualitativa na passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle. O poder disciplinar se baseava no confinamento: a escola, a fábrica, a prisão, o manicômio. No controlato, o discreto é derramado num contínuo, a seguir inteiramente investido nas malhas do controle. A reta segmentada da disciplina é substituída pelo campo diferencial do controle. Controla-se no aberto, na ultraconectividade das redes, nas acelerações e bombardeios semióticos ou a-significantes. O tempo de formação cede a vez à formação permanente, o emprego à empregabilidade, a fábrica à metrópole como usina biopolítica difusa, a

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prisão à polícia generalizada nas mentes (a Nova Police ), o manicômio à psicanálise a serviço do controle policial, o capitalismo fabril ao maquínico. Não apenas imprensa: ilimitada conurbação comunicacional em que a opinião se moleculariza, dos satélites às rotinas mentais do ciclo 7/24 das redes. Resistir é preciso. Nem tudo está dominado, pace os profetas da totalidade, Debord, Adorno, neohumanistas. Pelo contrário: habemus, sim, resistência de novo tipo. Mas cuidado: o controle engendra suas oposições e explora no desejo de emancipação. Somos livres para abençoar o controle e para sonhar o sonho de outras pessoas: a ficção da megamáquina. Não adianta apenas sonhar o sonho sonhado, nem repetir a esquerdologia já axiomatizada, perfeitamente conformada às identidades da sujeição social. Outras linhas de fuga, campos de imanência, desertos. Talvez recombinando em cut-up para assaltar o estúdio da realidade, como queria Burroughs, ou talvez intervindo na sintaxe do mundo, como desejava Deleuze. Ambos autores apontam para a interferência e o vírus como antídotos aos memes biossociais e à supermidiatização das maiorias. A máquina revolucionária é dentro e contra : maquinada com as artes, as ciências e uma esquizoanálise capaz de saltar do intolerável as linhas de fuga, irromper do tecido do tempo, precipitar o Controle ao colapso esquizofrênico, seu limite absoluto, seu comunismo tantas vezes conjurado.

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( BRUNO CAVA )


Crioulo Substantivo masculino singular. 1. Derivação em diminutivo do verbo

CRIAR, próxima ao substantivo, também derivado, CRIADO (serviçal). O termo foi empregado — sim, palavras também podem ser empregadas — para discriminar genericamente, nas colônias portuguesas, pessoas de descendência africana escravizadas desde o nascimento, diferenciando-as das nascidas no continente africano que haviam sido deportadas como escravas, ou das de descendência «mestiça» submetidas à mesma condição. Criar, por sua vez, se origina da palavra latina creare , fazer crescer, tirar do nada, produzir o que não existia antes, dar vida a algo. Creare tem suas origens na raiz proto-indo-europeia ker ², que se aproxima de «crescer, gerar». No Brasil, tal significado para crioulo, ao menos juridicamente, caiu em desuso a partir da Lei do Ventre Livre ou Lei Rio Branco, primeira lei abolicionista promulgada no Brasil, aos 28 de setembro de 1871, que instituiu a liberdade dos filhos recém-nascidos de pais escravos. «Crioulo» — este significado de «crioulo» — deixa de ser usado ao menos em teoria. Atualmente, na crioula língua portuguesa praticada no Brasil, o brasileiro, o termo oscila entre usos pejorativos, referindo-se genericamente e de forma preconceituosa a negros e mulatos, e usos de valorização como, por exemplo, quando aplicado às sementes «da terra» ou «sementes da paixão», chamadas também de «sementes crioulas», isto é, que provêm da terra, que não foram geneticamente modificadas e são ligadas às culturas protegidas, assim como as plantas e os frutos provenientes

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destas sementes. É relevante notar que o uso positivado da palavra «crioulo» também pode ser percebido no pseudônimo assumido como nome artístico pelo cantor, músico e compositor paulistano Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo Doido ou simplesmente Criolo: «Não existe amor em SP». O modo de enunciação, assim como seu contexto e a pessoa que o profere, podem conferir afetividade à palavra. O termo aparece também em obras históricas, como no romance O Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, publicado em 1895 e que narra a paixão avassaladora do grumete de proa Amaro pelo jovem grumete Aleixo: «Bom-Crioulo só experimentara prazer igual quando o tinham obrigado a conhecer o que é liberdade, recrutando-o para a marinha. Essa liberdade ampliava-se agora a seus olhos, crescia desmesuradamente em sua imaginação, provocando-lhe frêmitos de alucinado, abrindo-lhe n’alma horizontes cor-de-rosa, largos e ignorados».   2. O termo crioulo, cunhado e inicialmente utilizado em contextos colonialistas, escravagistas e racistas, em diversos momentos desliza para acepções geográficas e culturais, assumindo contornos sinônimos a nativo, autóctone, regional, local, aborígene, natural…   3. Línguas crioulas são línguas francas, fundamentalmente orais, cujas bases são as línguas europeias dos países que se impuseram como impérios coloniais. Em linguística, as estruturas históricas de poder e sujeição se fazem presente no fato das línguas de base serem consideradas as línguas de prestígio das crioulas. Curiosamente, não é de praxe dizer que línguas como o francês, o espanhol, o português, o inglês e o holandês têm no grego, latim ou saxônico, suas línguas de prestígio.  

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4. Comidas crioulas são comidas regionais que utilizam livremente receitas e ingredientes ao compor pratos por meio da combinação e adaptação do estrangeiro com o local. É mais comum que essas comidas apresentem uma tríade de elementos africanos, europeus e ameríndios, fato longe de ser uma restrição, já que na cozinha kajun , a cozinha crioula do sul dos Estados Unidos, e também na cubana, estão presentes elementos da comida chinesa.

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( DORIS CRIOLLA )


Desobedecer. Desobediência. 1. Ato de se tornar indomável.  2. Não executar o que é da ordem.  3. Tornar-se cavalo duro de boca, criança indomável, elefante químico.  4. Não estar às ordens, irromper do silêncio consentido o ruído do caos.  5. Respingar revolta no olho do demagogo traidor. Ex.: Respingar suco de uva natural, quando à ordem diz para que seja industrializado.  6. Teimar em não querer o que a maioria quer.  7. Tomar entre os dentes o humilhado, devorá-lo, e vomitá-lo revolucionário.  8. Usar o capacete como prato de sopa.  9. Insubordinação à tropa de choque.  10. Desenterrar os ossos dos desaparecidos na ditadura.  11. Dar coices no peito da lei, quando a lei comete crimes contra a liberdade.  12. Negar-se a submissão de ter que dormir no lado de fora.  13. Dobrar os joelhos no genuflexório como estratégia para pegar impulso e pular o muro.  14. Ato de compreender que a verdade é mais poderosa que o erro instituído.  15. Ato de não deleitar-se ao sol satisfeito com os raios solares que escapam entre as grades da janela.  16. Conspirar contra o vassalo residente em nós.  17. Opor-se, negar-se, rebelar-se.  18. Devassar a ordem poética vigente. Ser autêntico.  19. Insurrecionar-se no café da manhã.  20. Espernear e não ser pau mandado.  21. Romper as correntes amarradas à garganta e gritar.  22. Não se render.

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( MARCELO MALUF )


Editar Editar? Sim, tomar parte. Tomar parte? Sim, conjecturar. Conjecturar? Sim, radicalizar. Radicalizar? Sim, criar um circuito. Criar um circuito? Sim, estocar. Estocar? Sim, imprimir. Imprimir? Sim, imprimir também.

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( MAÍRA DIETRICH )


Escuta não pacificada Quem não se deixa pacificar cria caso . Criar caso — em francês: faire histoire /fazer histórias — é uma expressão que Stengers e Despret (2011) utilizaram para falar do momento em que as mulheres foram admitidas na universidade na Bélgica. A expressão referia-se ao fato de que a universidade não parecia estar disposta a transformar-se com a entrada das mulheres mas, pelo contrário, elas que não deveriam criar caso , e sim contentar-se com o lugar específico que lhes era dado. O fato não é diferente ao pensarmos no Brasil e o quanto as políticas de ação afirmativa, visando a igualdade étnico-racial, de gênero e sexual (Nascimento, 2010) foram, através de anos de luta, reconhecidas como políticas de cotas, e deram o que falar , criaram caso . Em ambas as situações, afirmar que somente aqueles que entram na universidade são os beneficiados é reduzir essas histórias. Criar caso é insistir que não só quem entrava na universidade através dessas políticas, mas também ela própria se viu transformada e qualificada nesses processos. Uma escuta não pacificada é aquela onde se é deslocado a partir do encontro com o outro, que não silencia as contradições desse encontro, transformando os termos da relação e criando a possibilidade de um terceiro termo que não está dado de antemão. Urgente é pensar na possibilidade de que essas lutas — no sentido daquilo que exige o seu lugar, não como lugar fechado, mas como o que teima para não ser pacificado: as lutas do movimento indígena, estudantes, movimento negro, movimento LGBT, a luta das mulheres, a

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luta de pessoas com deficiência, dos professores, mas mesmo toda luta cotidiana que não sabemos nomear e que exige uma existência e por isso resistência — possam afetar-se e transformar-se. Como estar juntos para além da moral, da culpa, do estigma? Sendo expansivos, imaginando poder estar juntos mesmo com aquele que não sabemos quem é? O que é preciso afirmar no Brasil distópico é a própria distopia — dis (erro, o fora, contrariedade) topia (lugar) — manter as contrariedades, o dissenso, que a contradição tenha lugar, e o erro tenha lugar (Erroristas, 2013), sem que isso massacre o outro. Que persista a multiplicidade das histórias (Conti, 2014).

— Conti, J. (2014) Compondo frestas nas

práticas de acompanhamento terapêutico e da reabilitação de pessoas com deficiência visual. Texto não publicado. Qualificação de mestrado, PPG de Psicologia: UFF.

— Nascimento. A. (2010) O atual debate sobre

a política de cotas para negros nas universidades. Revista Global Brasil. Número 12.

— STENGERS, Isabelle. DESPRET, Vinciane; Les faiseuses d’histoires. Que font les femmes à la pensée? Paris: Les Empêcheurs de penser en rond/La Découverte, 2011.

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( TALITA TIBOLA )


Imobilidade I-mo-bi-li-da-de, do Latim, immobilitas : qualidade ou estado daquilo que é imóvel. Estacionamento. Dificuldade de movimentos ou rigidez dos músculos locomotores. Entre os tópicos do Brasil distópico localizo o trânsito e sua equivalência no verbete imobilidade. Tal palavra encontra ainda referentes e relações com as palavras: poluição, veloz, velocidade, carrocracia, elite, indústria petroleira, monocultura, indústria automobilística, lucro, poder, totalitarismo das estradas. A imobilidade urbana é o resultado de um trânsito desplanejado e que acima de tudo não prioriza as pessoas, os modais sustentáveis, as necessidades especiais, o coletivo.

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(  ANA PAULA PEREIRA  )


INVERSÃO [moderno] Mecanismo pelo qual um processo, prática ou discurso adquirem seu sentido contrário. Ou, ainda, maneira pela qual uma imagem ou objeto É e NÃO É, ao mesmo tempo. Efeito central necessário à organização da vida social brasileira em todas as escalas de seu processo de produção e reprodução. Os sujeitos políticos que personificaram a esperança democrática, hoje personificam políticas de administração de crise, na forma do keynesianismo de colapso; assim, o ideal de pleno emprego assume a forma enigmática do encarceramento em massa, do aumento exponencial do efetivo policial e do genocídio da população preta e periférica, tão logo adquire a forma do almejado governo dos trabalhadores gestores. A esquerda inverte seu sinal. As ocupações das ruas, espaços públicos e imóveis abandonados da cidade assumem um caráter de vanguarda da gentrificação qualificada, tão logo suas práticas sejam fundadas em tecnologias do espetáculo movidas por agentes da vanguarda cultural. Apesar de acreditarem endossar a luta social dos expropriados, por meio de seus métodos e imaginário, sua luta adquire sentido contrário na medida em que tornam-se condutores da expropriação branca, criativa e amorosa, valorizando o terreno da especulação imobiliária. Já na esfera da arte institucionalizada, os discursos radicalmente anti-capitalistas assumem sinal contrário tão logo suas obras recheiem as exposições de grandes grupos empresariais e se tornem a base

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material e ideológica para suas operações. A emancipação da classe trabalhadora em relação aos patrões, ao assalariamento e à superexploração no chão das fábricas metalúrgicas e automotivas, assume o caráter trágico do empresariamento de si próprio. Os filhos dos trabalhadores são, agora, a imagem invertida de auto-responsabilizados patrões, que encontram cada vez menos oportunidades de serem explorados por alguém, assim como para explorar alguém, a não ser a sua própria pele. Enfim, não mais necessitam se vender para comprar, agora endividam-se para trabalhar. Convém esclarecer, entretanto, que inversões conjunturais estão sempre fundamentadas na inversão de base : no sistema produtor de mercadorias, os objetos assumem o caráter fantasmagórico de coisas que dominam aqueles que creem dominá-las.

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(  DANIEL MANZIONE E MARILIA FURMAN  )


Lei de Segurança Nacional LEI Nº 38, DE 4 DE ABRIL DE 1935. Define crimes contra a ordem política e social. O PRESIDENTE DA REPUBLICA dos Estados Unidos do Brasil: Faço saber que o PODER LEGISLATIVO decreta e eu sancciono a seguinte lei: LEI Nº 136, DE 14 DE DEZEMBRO DE 1935. Revogada pela Lei nº 1802, de 1953. Modifica varios dispositivos da Lei n. 38, de 4 de abril de 1935, e define novos crimes contra a ordem política e social. O PRESIDENTE DA REPUBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL. Faço saber que o Poder Legislativo decreta e eu sanciono a seguinte lei: LEI Nº 1.802, DE 5 DE JANEIRO DE 1953. Define os crimes contra o Estado e a Ordem Política e Social, e dá outras providências. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei: DECRETO-LEI Nº 314, DE 13 DE MARÇO DE 1967. Define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social e dá outras providências. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando das atribuições que lhe confere o art. 30 do Ato Institucional nº 2, de 27 de outubro de 1965, combinado com o art. 9º do Ato Institucional nº 4, de 7 de dezembro de 1966. DECRETO-LEI Nº 898, DE 29 DE SETEMBRO DE 1969. Revogado pela Lei nº 6.620, de 1978. Define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, estabelece seu processo e julgamento e dá outras providências. OS MINISTROS DA MARINHA DE GUERRA, DO EXÉRCITO E DA AERONÁUTICA MILITAR, usando das atribuições que lhes confere o artigo 1º do Ato Institucional nº 12, de 31 de agôsto de 1969, combinado com o parágrafo 1º do artigo 2º do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, DECRETAM: LEI No 6.620, DE 17 DE DEZEMBRO DE 1978. Revogado pela Lei nº 7.170, de 1983. Define os crimes contra Segurança Nacional, estabelece sistemática para o seu processo e julgamento e dá outras providências. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei: LEI Nº 7.170, DE 14 DE DEZEMBRO DE 1983. Define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, estabelece seu processo e julgamento e dá outras providências. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

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( JAIME LAURIANO )


Loucura (Análise da,) Alguém imagina-se sem laterais. Sem classificações. Sem trilhos. Tudo o que tem para cuidar é o seu próprio corpo. Alimentado com café e muito açúcar. Alimentado com o que sobra de afeto dos outros que passam. Ou, cuidado bem de dentro de casa, ou bem cuidado numa instituição que o produz junto, como engrenagem macia. Vida que borda, vida que compartilha, vida que aprende a cuidar do outro. Vida que se separa de si mesma, que imagina outras realidades, mais materiais e mais imaginárias que outras realidades convencionada aqui entre nossos corpos. Vida que não se separa da vida dos outros. Uma das loucuras do Brasil é essa soltura de modos de gente que se acumulam nas calçadas ou que se escondem e se misturam nas instituições manicomiais e nas casas compartilhadas. Que cantam por aí. Que fazem teatro. E que dão discursos nos bancos corruptos. A loucura não é só do Brasil, claro. Mas alguma razão há do porquê ter tanta loucura aqui. E há algo que faz essa loucura visível, muito visível. Ou são meus olhos que veem demais a soltura da loucura. Há modulações da loucura, assim como há modulações do cuidado da loucura. A análise da loucura, por sua vez, não deve ser uma que a abafa. Ou moraliza. Não deve ser uma que medicaliza, uma que faz a loucura desaparecer. Nesse sentido, deve ser uma análise de cuidado ativo, produtivo, que não multiplica a loucura per se, mas que encontra com ela

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caminhos de efetuação da vida. A análise da loucura deve tornar-se análise do desejo. A análise do desejo produz uma trama fluída, que compõe com a liberdade da loucura. Mas com o fim da liberdade detecta-se a expressão de microfascismos. Ali a loucura ‹vira›, é outra loucura. Que nos chama aos nossos limites. Olha pra isso. Olha que loucura! Já não mais cremos no que vemos. O que é que se concentrou no corpo daquele homem-policial? Que energia ou fraqueza foi transferida ao seu gatilho que disparou e que matou o camelô na calçada da Lapa? O homem é logo submetido a análises patologizantes — sua esquizofrenia, suas neuroses, suas psicoses, seus medos, suas nóias, seus crimes anteriores. Arrisco dizer: sua loucura primeira e última: ser policial. O mesmo se faz com aqueles que protestam, claro. Mas esses são classificados como loucos ou perigosos para que imediatamente seu potencial político seja apagado. Arriscam dizer: sua loucura: o desejo de protesto. A personificação dos casos não pode, contudo, interromper a compreensão de como os eventos são sintomáticos de modos sociais, de organizações e instituições que nos formalizam. Ou às quais resistimos. É nesse ponto que a análise da loucura não pode descansar. Ela vai perceber as sutilezas, as especializações, os acoplamentos com o poder. A loucura higienista, que se torna controle da vida alheia. Que faz gente desaparecer, gente morrer de fome, gente vadiar sem casa, gente revirar-se em resistência. A análise da loucura vai tentar ler aquilo que autoriza a expressão das linhas mais e menos visíveis de microfascismos que, por sua vez, revelam sua relação intrínseca com uma supe-

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restrutura. O fascismo na sua dimensão macropolítica. Loucura já conhecida, disfarçada de política. Loucura que não é o governo do navio dos malucos, daqueles soltos e libertos, daqueles exilados, e daqueles autonomizados, que criam e que diferem. Mas daqueles que marcham juntos diante de um altar, que desejam um porvir que não chegará em vida, que vendem suas almas. Entre a loucura do fervor religioso, do fascismo e da homofobia não há muita diferença. Elas se associam ao discurso do poder e de uma moral normalizante que autoriza o massacre à luz do dia de casais gays, de povos indígenas, de velhos e de pobres negros, de mulheres fortes e de prostitutas, e dos loucos libertos por eles mesmos, que anunciam sair de um tipo de mundo, de um mundo estritamente normal e economicamente produtivo. Eu olho para esse modo da loucura que produz uma m o r a l m a i o r sem ética. São loucuras higienizantes que operam nos tribunais, nos conluios econômicos, nos esquadrões policiais. Sua fraqueza é um desejo de poder. A loucura colada ao microfascismo e ao poder de estado produz uma realidade comum que se opõe a abrir qualquer negociação social. Bolsonaro. Cunha. E talvez seja errado analisar desejo de poder chamando-o de loucura. Talvez seja uma tentativa de captar e isolar ao modo da patologia aquilo que já não mais podemos aceitar. A análise da loucura não é, então, detectar uma loucura boa e uma loucura má. Nem isolar a loucura como sintoma de uma pessoa só. A loucura, assim como o desejo, é uma produção social. Analisar a loucura é ir por outros lados: ir para além da domesticação da loucura e ao mesmo tempo estar atento a intervir na loucura

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da moral sem ética que se facializa com o poder, que se expressa como controle, que é esquadrinhada e cientificizada em planos de ordem e produtividade social. Da análise da loucura, da loucura solta, que não tem medo de destruir a si, pode emergir por meio de um escrutínio incontrolável, da abertura de um diagrama complexo, o poder que centraliza o fascista, e ele, transparente, isolado, neurótico e fóbico, com medo da multidão promíscua.

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(  CRISTINA RIBAS E A ECONOMISTA )


MARKETING POLÍTICO É um conceito essencialmente incoerente, praticamente de antítese. Na prática, surge da nociva relação entre duas funções da dominação coletiva contemporânea: o poder comunicativo e o poder estatal. Marketing Político é a distorção do sentido de Política uma vez que joga essa esfera de decisão pública ao âmbito do consumo da Publicidade, dirigindo assim seus receptores à leitura de uma linguagem à qual estão devidamente alfabetizados, usando de um jogo de eloquência discursiva: visual, textual e subjetiva. A semiótica é um dos elementos capitais à realização de um bom marketing político. Está desde as peças publicitárias, assumidamente montadas e produzidas, ao manejo visual de possíveis «imagens jornalísticas». Tudo então entra em jogo quando uma representação do interesse social vira imagem e especulação midiática: desde a sonoridade e escolha do nome, à tipografia, cores , tom de pele, cabelo, entonação e ritmo discursivo, sotaque, para citar poucos (o antecedente político aqui não assume caráter tão influenciador). Fundamentalmente, o Marketing Político desvirtua também a própria noção de Democracia . Um candidato, através deste sistema, só é escolhido por meios menos ligados a reais ideologias ou interesses sociais que a uma pura inteligência competitiva . A «propaganda» política, que, de fato, nunca foi propaganda (termo designado apenas para campanhas sem fins lucrativos), mas sim e assumidamente publicidade, mostra através dessa linguagem exatamente aquilo que o público-alvo deseja ver e ouvir.

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Projetadas e produzidas por equipes aquém do próprio candidato, com o qual o único vínculo é salarial, a campanha não tem maiores interesses que não o imediato convencimento de seus receptores. Assim, o eleitor seleciona um «representante» através daquela armadilha discursivo-visual que melhor traduziu o que ele supostamente deseja para si ou sua sociedade (o que é basicamente resultado de minuciosas pesquisas de institutos que trabalham para as mesmas agências contratadas pelos candidatos). Ao deslocar interesses inicialmente políticos, ou seja, de estima social, e realocá-los no jogo dos poderes midiáticos e comunicativos, o marketing apenas faz o que sempre fez: atingir o público-alvo através de técnicas diversas de manobra de opinião, diretas ou subconscientes, fazendo-o através da imagem comercializada, estratégica e, acima de tudo, banalizada.

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( BIA RODRIGUES )


MULHER (substantivo transitório; adjetivo fixo) 1. Marcação abstrata geral:   1.1 É do bem   1.2 Fala sobre tudo,

mas consegue manter sempre um ar de mistério sobre si mesma   1.3 É bem-humorada e disciplinada; seu maior defeito é o perfeccionismo   1.4 Na relação amorosa é envolvente e carinhosa, mas não surta nem sente ciúmes em excesso   1 . 5 É bem-sucedida, tem bons planos, quer mais!   1.6 Não tem problemas com a própria aparência; pratica Yoga e Muay Thai  1.7 Poderia trabalhar na GNT   1.8 Está sempre antenada com os avanços da indústria farmacêutica. Fará reposição hormonal durante a menopausa. Faz os intervalos corretos na administração dos anticoncepcionais, mas não faz ideia que as pílulas reduzem sua libido e lubrificação   1.9 Terá um, no máximo dois filhos; amamentará até que eles completem seis meses   1.10 Perderá 8 kg da gravidez em dois meses, ficará orgulhosa de sua força de vontade   1.11 Escolherá uma babá de confiança para seus filhos, deseja tratá-la como se fosse da família; ela dormirá no trabalho   1.12 Terá franja até os 32 e ficará loira aos 50. 2. Marcação subjetiva biográfica:   2.1 Equivalente a puta!   2.2 Puta dotada de paixões avassaladoras   2.3 Expe-

riência de injúria: Fui institucionalmente nomeada puta! aos 16 quando, ainda virgem, vivia o que acreditava ser um namoro com o professor de história do colégio  2.4 Experiência de empoderamento: Passei eu mesma a me fazer puta! com muitos

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homens e algumas poucas mulheres. Dois abortos sem culpa consolidaram meu status de puta! Certa vez me casei com um menino gay e cerca de cem pessoas gritaram ‹puta!, puta!› em minha homenagem, no momento em que eu entrava no salão  2.5 Experiência de violência e solidariedade: Entender a puta! Acolher a puta! Olhar pra puta! e saber-se mercadoria; pensar sobre quanto lhe pagariam   2.6 Experiência de liberdade e coragem: Fantasia suicida de que puta! é apenas uma mulher que muito goza; querer ser e ser puta!

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(  CINTIA GUEDES  )


MULTIDÃO E MONSTRO M u l t i d ã o e M o n s t r o são ferramentas conceituais para tentar dar conta das transformações no Brasil nos últimos anos e das manifestações dos últimos meses. Nos últimos anos, ouvimos falar de classe C pra cá e pra lá. De repente, estouram os protestos e começamos a ouvir multidão pra cá e pra lá. Aqui estamos novamente próximos das questões de uma devoração que, desde as décadas de 60/70, se distingue do consumismo. Durante séculos, o termo «multidão» foi associado a grupos não controláveis. Multidão se distinguia tanto de «povo» — enquanto corpo social criado pelo Estado e que se manifesta, por sua vez, no cotidiano como «cultura popular» e nas eleições com o «voto popular» — quanto de «massas» — enquanto grupos sociais determinados pelo mercado e que se manifestam, por sua vez, nas formas do espetáculo e nos estilos de vida próprios do consumo. Antonio Negri apresenta o conceito de multidão por pelo menos 3 perspectivas complementares. Pelo viés sociológico, Negri analisa a transformação de sociedades com economias baseadas no trabalho disciplinado na fábrica a sociedades com economias baseadas na produção em redes difusas nas metrópoles. No conflito entre «associações mais cooperativas» versus «relações subordinadas», ele apreende novos caminhos para a autonomia dos trabalhadores. Dessa percepção, decorre o segundo que é o viés político: novas formas produtivas demandam novas formas políticas. Se o trabalho na fábrica gerou sindicatos e partidos ligados às causas dos trabalhadores, as novas associações produtivas nas metrópo-

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les demandam novas organizações políticas. Essas, de fato, não chegaram a se concretizar. Talvez seja esse descompasso entre: as atuais potentes formas de produção — novas formas de se relacionar, de colaborar, de cocriar — por um lado e, por outro, as velhas formas de política, o que gera aquilo que se chama «crise da representação» que, no campo da arte e da cultura, assume a forma de uma «crise da mediação» onde a figura do artista e a ideia de «classe artística» também entram em crise. Em terceiro lugar, o viés ontológico leva à pergunta «o que é a multidão?» Uma questão delicada visto que, à diferença das classes sociais (velhas ou novas classes médias no nosso caso) que se definem por dados e estatísticas a p r i o r i , a multidão se constitui e se define nas lutas, nos processos. Fala-se hoje no Brasil de «emergência da classe C» e houve, de fato, uma grande transformação da sociedade brasileira com os governos Lula, por meio do aumento do salário mínimo e da distribuição de renda e, portanto, do acesso ao crédito e ao consumo. Tudo isso é muito importante! Mas essa abordagem é insuficiente se não se considerar que ela fomentou outros desejos: desejo de se formar, se informar, se expressar, comunicar, circular, exercer sua cidadania. Em suma, de fazer política! No Brasil, a multidão se fez: uma multidão em grande parte constituída pela juventude oriunda das classes populares, periferias e favelas, mas não apenas. Apesar das imensas dificuldades encontradas em nossas metrópoles em termos de moradia, de transporte, de lazer e de tudo, a multidão é superprodutiva, hiperinformada, ultraconectada e cheia de opinião. A multidão é uma potência que exige não ser tratada apenas em termos de mercado consumidor ou de curral eleitoral.

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Já o termo «monstro » é associado por Negri, em primeiro lugar, a um «corpo sem órgãos» (conceito de Deleuze e Guattari): o monstro é corpo sem órgãos, pois não tem estrutura definida e não tem funções orgânicas determinadas. É apenas uma intensidade, não necessariamente uma intenção unificada. É apenas uma possibilidade, não necessariamente um estágio anterior à formação das classes sociais ou formatação dos corpos institucionais; e, em segundo lugar, ao General Intellect (conceito de Marx). General Intellect é a inteligência produtiva e politizada que, entre outras coisas, põe em xeque as figuras do «grande intelectual» e do «grande artista», pondo em evidência que suas obras são fruto de processos mais coletivos que, contudo, não eliminam as singularidades presentes. No Brasil, a constituição do General Intellect pode ser relacionada: às políticas na educação superior (investimentos nas universidades federais) assim como aos movimentos de pré-vestibulares e formações alternativas e às políticas na área cultural (sobretudo na gestão de Gilberto Gil no MinC). Nem belo nem feio, nem bom nem mau, nem verdadeiro nem falso, o monstro desconfigura nossas certezas estéticas e políticas e, nesse movimento, promove simultaneamente angústia e alegria. Contagia. E Junho 2013 foi a angústia de Domingo no Parque cantado por Gil. Foi a Alegria, alegria cantada por Caetano e foi também o Cara a Cara de Gil: «Nas suas andanças / Danças, danças, danças, danças, danças / Na multidão / Veja se de vez em quando encontra / Contra, contra, contra / Os pedaços do meu coração.» Mas não se trata mais de Caetano&Gil e sim de uma «artisti-CIDADE generalizada ». O termo «monstro» foi utilizado na mídia equivocadamente para ressuscitar à esquerda

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e à direita as paranoias de um golpe totalitário. O «monstro» não tem nada de autoritário, muito pelo contrário, ele é um terren o de experimentação e de inovação — estético e político — fundamentalmente democrático no qual formas e conteúdos, princípios e processos são indissociáveis. Discute-se se as manifestações são direita e esquerda e mais alguma coisa. Dá medo mas é equivocado dizer, à esquerda ou à direita, que está tudo dominado. Está tudo em aberto, o monstro é essa abertura radical e um tanto paradoxal. Em sua Tropicália , Caetano Veloso canta «na mão direita tem uma roseira» para logo na estrofe seguinte, anunciar «no pulso esquerdo o bang bang». Em sua interpretação dessa canção, Favaretto considera que, entretanto, mão direita e pulso esquerdo são assimilados entre si, pois, «misturados, coexistem no mesmo corpo como num grande espetáculo em que se encena o imobilismo político.» Imobilismo político que é resultado do fechamento de um ciclo político: após monstruosas manifestações com sua abertura radical, um período de repressão que leva a mais lamentável eleição presidencial.

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( BARBARA SZANIECKI )


OCUPAR / OCUPAÇÃO Junho de 2013 passou mas nos deixou o desafio de apreender seus sentidos. Uma análise sob o viés estético se revela promissora e, me ocorre, entre muitas chaves de interpretação possíveis, que algumas experiências do tropicalismo podem abrir perspectivas interessantes. Contudo, é preciso não ceder à tentação de encaixar os eventos de 2013/2014 num neo-tropicalismo e ainda menos num ISMO qualquer, isto é, num movimento artístico com contornos mais ou menos precisos. Há, contudo, inúmeros pontos de contato e inúmeros conflitos que retornam de modo semelhante. Consumismo e devoracão. Nas décadas de 20/30, houve pelo menos dois modernismos: o do índio mítico do Manifesto Pau Brasil e o do índio antropófago do Manifesto Antropófago. Nas décadas de 60/70, na música, MPB, Jovem Guarda e Tropicália conflitavam também. São anos de imitação americana mas também de construção de Brasília. Trata-se de um novo ciclo nacionalivsta mas que não exclui um desejo internacionalista, cosmopolita. Naqueles anos, o desenvolvimento industrial e o crescimento econômico alimentaram um desejo desenfreado de consumo que poderia ser interpretado como mero consumismo mas, sempre com base no Favaretto, é possível afirmar que no tropicalismo houve uma escolha de «operar na faixa do consumo»1, que não era consumismo e sim devoração. Houve, nos movimentos culturais daquelas décadas, um desejo di1  FAVARETTO, Celso. Tropicália, Alegoria, Alegria. São Paulo: Ateliê Editorial, 1996, p. 43.

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fuso de modernidade mas os caminhos e procedimentos eram bem diferentes. O concretismo se desenvolveu com a poesia e, nele, acreditava-se que os princípios construtivistas de racionalização, ordem e utilidade levariam linearmente à criação de formas modernas. Esse moderno como «fim» se aparentava a uma teleologia. Já o tropicalismo teve sua expressão máxima na canção e, nele, uma mistura complexa de ingredientes arcaicos brasileiros e modernos estrangeiros constituiu o próprio moderno brasileiro: esse moderno como «meio» mais se assemelha a um contínuo processo de devoração. Fábrica e metrópole. Favaretto está falando da produção artística e cultural daquela época. Mas um autor que pode nos ajudar a entender o que mudou desde então, ou seja, a entender as transformações na produção em geral é Antonio Negri. Ele nos fala da transformação do trabalho outrora predominantemente material em um trabalho cada vez mais imaterial, ou seja, que adquire características intelectuais, comunicativas, culturais e até afetivas. É «trabalho» na medida em que produz «valor». E um bom exemplo é o facebook: é possível considerar que «trabalhamos» no fcbk na medida em que, nele, produzimos valor publicitário. Para além da transformação da natureza do trabalho, há também transformação do seu espaço privilegiado: se até pouco tempo, o espaço produtivo era a fábrica onde, muito sucintamente, uma força operária trabalhava oito horas por dia e era explorada pelo capital através de mais valia — mas também lutava através do sindicato e do partido — hoje o espaço produtivo é a metrópole. Sempre muito esquematicamente, se nas décadas 20/30, a questão era a

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criação de uma cultura brasileira e se, nas décadas 60/70, a questão era a relação com a indústria cultural, hoje, talvez a questão seja o direito à cultura e à vida urbana, em todas as suas dimensões. Assim, se em 1969 Caetano e Gil ocuparam com seu programa Divino, Maravilhoso a TV Tupi, em 2013 (45 anos depois), a multidão ocupou toda a metrópole na sua forma concreta e virtual, as redes e as ruas. No tropicalismo, foi preciso realizar crítica cultural dentro das estruturas do consumo de massa (no caso, dentro dessa mídia de massa que é a televisão). Mas hoje, se toda a sociedade foi posta a trabalhar, se não há um «fora» desse espaço-tempo produtivo, uma crítica geral se estende por meio das manifestações multitudinárias que ocupam a metrópole. Resistir torna-se sinônimo de ocupar. Mas antes de falar de ocupação (de um modo de viver na cidade), é preciso falar do sujeito que ocupa. Passei meio que abruptamente de [ Cae&Gil ] para [ multidão ]. No primeiro caso temos dois artistas, no segundo temos uma milhão de singularidades, eventualmente artísticas. Para falar dessas singularidades tenho usado os termos: multidão e monstro. (continuar a leitura no verbete Multidão e Monstro e depois retornar aqui ) Crise de representação e crise de mediação.

Multidão e monstro são conceitos que dão conta, no Brasil, dos sujeitos e subjetividades das transformações nos últimos anos e das manifestações dos últimos meses. Estamos vivendo algo como uma «nova crise do projeto de modernidade» com semelhanças e diferenças em relação às décadas de 20/30 e de 60/70: crise de representação na política (dos sindicatos e dos

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partidos entre outras formas de organização) e crise de mediação na arte, na cultura e na comunicação. Regime estético da arte. Em que medida a estética pode contribuir para a superação das crises? Para pensar «estética», minha referência tem sido Jacques Rancière entre outros. Poderia citar Reinaldo Ladaga (estética da emergência) ou Nicolas Bourriaud (estética relacional). São todas referências interessantes mas me refiro especialmente a Rancière por ele falar que estamos vivendo um regime da arte que é estético. Por «regime estético da arte» ele não entende uma filosofia do belo e sim um regime artístico cuja relação entre produção (poiesis ) e recepção (aisthésis ) não passa pela representação ( mímesis ). Uso o termo estético nesse sentido, qual seja, de analisar essas relações entre produção (poiesis ) e recepção (aisthésis ) que não passam pela representação (na política) ou pela mediação (na arte). E, com as manifestações desde o ano passado no Brasil, essas produções têm se multiplicado. Em que consiste uma estética multitudinária ou monstruosa? Como ela se configura, como se apresenta em termos visuais? Estética de carnavalização. Observando a centralidade da carne e do corpo, é possível considerá-la como uma estética de carnavalização. Ela é evidente em manifestações como a Marcha das Vadias, mas em outras também. Máscaras, fantasias, encenações, performances, brincadeiras, cartazes, faixas e falas com brincadeiras e palavrões dirigidos aos políticos e empresários: tudo isso remete ao universo do carnavalesco. Mas não ao carnaval oficial — aquele espetacularizado pela Prefeitura

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em parceria com a grande mídia, com grandes marcas disso e daquilo, e grandes discursos de consumo, de propriedade, de verdade — e sim a carnavalização da multidão. São processos micro mas bem articulados, processos de baixo pra cima, subversão ou abertura dos poderes e saberes constituídos, processos de relativização da verdade única e absoluta e constituição de outras verdades. Estética de ocupação. Mas é preciso afirmá-la sobretudo como uma estética de Ocupação. Favela . O Rio de Janeiro tem ocupações históricas que são as favelas: é o «morro» que se contrapõe ao «asfalto», o primeiro tido como informal em contraponto à cidade dita formal. Ocupações de imóveis abandonados . E tem essas ocupações mais recentes que são as de imóveis abandonados. Há quem as qualifique de monstruosas em sentido pejorativo e, assim desqualificadas, sofrem remoção! Considero-as monstruosas porque os modos de vida que as caracterizam excedem as possibilidades de inserção no mercado de trabalho (parte dos moradores são camelôs, catadores e trabalhadores informais em geral) e excedem as possibilidades de instalação em apartamento no asfalto. Favelas e ocupações existem por falta de opção mas também por afirmação dessa opção: afirmação de um outro modo de vida no centro da cidade, de outras cidades possíveis. «Ocupas ». Já as «ocupas» são um fenômeno global que, desde as Acampadas espanholas até o Occupy WallStreet, já foi de certa forma antropofagizado e multiplicado pelo Brasil. UPPs . E enfim, é preciso falar das ocupações pela força policial que são as UPPs. Tanto as ocupações de terras ou imóveis abandonados quanto as recentes «Ocupas» impor-

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tadas acontecem dentro de um projeto de «revitalização» do Rio de Janeiro. Ou melhor, acontecem dentro de um projeto de inserção do RJ num mercado de cidades globais que vem, por sua vez, atrelado aos megaeventos (Rio+20, Jornada Mundial da Juventude, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos), a mega-equipamentos esportivos e mega-monumentos culturais (estádios e museus) e à instalação de Unidades de Polícia Pacificadora em favelas (UPPs). Moderno e arcaico. Aqui, nessa cidade espetacularizada e securizada, faz sentido lembrar os versos da Tropicália: «Eu organizo o movimento / Eu oriento o carnaval / Eu inauguro o monumento / No planalto central do país / Viva a Bossa, sa, sa / Viva a Palhoça, ça, ça, ça, ça […] / O monumento não tem porta / A entrada é uma rua antiga / Estreita e torta / E no joelho uma criança / Sorridente, feia e morta / Estende a mão / Viva a mata, ta, ta / Viva a mulata, ta, ta, ta, ta.» Favaretto analisa os conteúdos e as formas desses versos. O monumento alude a Brasília e a sua modernidade, enquanto o arcaico persiste nas figuras da rua torta e da criança morta. Monumentalidade e mortalidade. Brasília 1960, Copa do mundo 2014. Hoje, os monumentos se multiplicaram: são doze os estádios da Copa e muitos elefantes brancos ainda por vir; já as crianças mortas, segundo o último relatório da FAO, diminuíram. Contudo, o arcaico persiste. Ao ler Foucault que fala da disciplina e segurança — «poderes que fazem viver» — quase nos esquecemos desses poderes soberanos que nos territórios cariocas continuam a «fazer morrer». Em julho de 2013, policiais da UPP da Rocinha mataram um pe-

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dreiro chamado Amarildo. Ocupação. modo artístico de revolução. A metrópole ocupada — esse lugar de produção onde forças garantem a ordem e a expropriação — tornou-se subitamente uma mega ocupação da metrópole, de suas ruas e de suas redes. «Dentro desta totalidade explorada, dentro deste mandato laboral, vive uma liberdade intransitiva, irredutível ao que tenta subjugá-la »1, afirma Negri. Ao lon-

go de meses, uma «Maré Amarildo» composta por uma multiplicidade de linguagens ocupou a metrópole real e virtual: performances, intervenções urbanas, campanhas e memes entre outras linguagens. Essa «Maré Amarildo» não constitui uma «obra de arte» em si. Pela sua expansão no espaço e seu inacabamento no tempo, não é necessariamente «obra de arte» e sim um «artístico» que se expressa na livre ocupação da metrópole carioca. É essa ocupação da metrópole que remete à ocupação da TV Tupi realizada por Caetano e Gil em tempos tropicalistas. Uma referência do tropicalismo que não pretende, contudo, encaixar as manifestações de 2013 e 2014 num neo-tropicalismo ou num ISMO qualquer, mas que nos leva a pensar, nos termos da artista americana Martha Rosler, nas ocupações e ocupas contemporâneas como o «modo artístico de revolução.»2

1  http://uninomade.net/tenda/

rem-koolhaas-junkspace-e-metropole-biopolitica/

2  http://bit.ly/1m6BtYe

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( BARBARA SZANIECKI )


Paisagem cacofônica A cacofonia total é uma distopia. É também a dobra na própria paisagem sonora que, por sua vez, é múltipla e variada em suas diferenças. A cacofonia, ao contrário da utopia, anula os encontros e a multiplicidade porque impossibilita o que é diferente. Num mundo distópico totalmente cacofônico, não seria somente nas praias de final de ano que veríamos os carros, estacionados lado a lado, em posição de porta-malas escancarados pelos superpoderes da reprodutibilidade do volume sonoro. Todos os veículos teriam o tempo todo sua música reproduzida ao extremo do volume permitido pela membrana timpânica de seus condutores, que ainda conseguiriam segurar firme no volante: todos os ônibus teriam todas as músicas tocadas por todos os passageiros, com seus aparelhos eletrônicos no máximo volume; todos os caminhões teriam a música favorita do apaixonado motorista reproduzida na exata proporção da força do motor que iria sumindo entre os estouros cacofônicos das casas e dos prédios da cidade, há muito imersos sob o ruído total; o mesmo ocorreria com os tratores levando a cacofonia aos campos… Num mundo verdadeiramente cacofônico, todas as motos irão soar uma buzininha abusiva, bem fininha, nem curta demais e nem longa demais, uma buzina abusiva que é na medida certa do abuso pois se tornou necessária e inconsciente ao consumo. E as motos irão tocar esta buzininha fininha e meio tremida a cada 30, 40, 50 metros, a cada quadra, pois todas as motos terão essa premissa: irei buzinar para verem que por ali passei e, assim,

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passei à paisagem cacofônica mais distópica: todas as motos durante todas as horas do dia, sem mais surpresas nem sobressaltos, sem mais sustos na madrugada, nem roubos de sonho, sem mais acordar Aurora antes da hora, pois agora todas as motos em todas as horas estarão a vigiar e abusar num eterno buzinar libertador. Numa paisagem cacofônica total, durante todas as horas de todos os dias que possam ser contados, alguma sirene escondida em algum poste remoto irá soar com aquele monótono e previsível ascendente e descendente desaparecendo nas sombras: será que segura? Segurou… e agora já vai descendo, sumiu. Esta é uma sirene de qualquer paisagem sonora, surge de surpresa, avisa que é bom se abrigar pois lá vem bomba de avião, lá vem tufão, terremoto, maremoto ou patrão. E esta sirene normal não é a da moto buzininha, a sirene toca até quinze minutos antes de tocar de novo e de novo e de novo ela geme como uma terrível e gigantesca gata num desmesurado cio infinito. A sirene da cacofonia total desaparece junto aos outros máximos da multiplicação do som? Claro que não, pois isso seria uma utopia. Numa distopia sabemos as horas exatas de todas as sirenes que de alguma maneira são percebidas com sentimento até mesmo embaixo d’água. Não faltaria jamais à paisagem cacofônica o grave acorde de dó, que o trem sustenido menor sustenta até o último segundo quando quase atravessa a avenida e também a motocicleta, que escapa por um triz. Só que seriam todos os trens em todos os cruzamentos, em todas as cidades do mundo que tocariam seus graves alertas em dó e em si e em lá, e outros ainda mais graves, mais fundos. Nesta cacofonia dis-

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tópica ideal não conseguiríamos mais saber o que vem do trem e nem o que vem do navio, só vemos caminhão e mais caminhão sem dó. Ouvimos os ecos do perene grave acorde desde a curva que faz o bosque e por lá ele avança sem poder mais parar e invade, indiferente à qualquer cancela utópica, todas as noites de todos os seres.

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( LEANDRO GAERTNER )


Prestígio Com a mesma raíz etmológica da palavra prestidigitação (do latim tradicional praestigĭum,ĭi , «charlataneria, embuste», se referia à ilusão causada aos espectadores pelos truques de um mágico («ilusão», «truque efetuado com a mão»). Somente no século XVIII, decantada de suas impurezas pela língua francesa, a palavra ganhou o sentido positivo até hoje usado no Brasil. Não seria demasiado associá-la ao velho ditado: Nem tudo que reluz é ouro.

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( REGINA Q. )


Progresso A maneira como se arquitetava o futuro é parte constitutiva do passado. O termo «progresso», alicerce do pensamento positivista, tem uma história precisa como fator a partir do qual se pretendeu articular a experiência histórica moderna. De modo um tanto quanto arbitrário, poderíamos periodicizar os duzentos anos de vigência da crença em caminhar rumo a uma determinada direção: da Revolução Francesa à Queda do Muro de Berlin, não sem grandes tropeços no meio do caminho. Política e economia foram dois nós centrais e inseparáveis no processo de modernização, forças motrizes do progresso: o afastamento de formas arcaicas de dominação para chegar à liberdade, mediante uma racionalidade econômica (como pretendia o pensamento liberal), ou às certezas inexoráveis da marcha histórica que teria como fim uma sociedade sem classes (como pretendia a ortodoxia marxista). O avanço tecnológico e científico, com o abandono de crenças irracionais como magia, feitiçaria e superstição, também foi uma das bases sobre as quais se estruturou a ideia de progresso. A construção do novo, abrindo caminho por sobre o antigo, foi tema também de reflexões culturais: concepções de arte relacionadas com a religião, aristocracia e burguesia perdem espaço para uma prática estética interessada em projetar um futuro emancipatório. Todas essas percepções sobre os novos tempos foram utilizadas para identificar aqueles que já estavam colhendo os supostos frutos do progresso, e aqueles que ne-

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cessitavam de ajuda para chegar ali. A exportação de formas econômicas racionalizadas pelo mercado, da cultura à ciência, foi pressuposto para que a ideia de progresso fosse aceita (ou imposta?) mundo afora, e colocasse em funcionamento transformações radicais e contraditórias — ideia indissociável da colonização. Hoje, com o enfraquecimento da ideologia de progresso diante de sucessivas crises econômicas, ambientais e conflitos sociais, revisitar o modo pelo qual este termo estruturou a história abre possibilidades para questionar projetos fáceis, que pretendam determinar univocamente seu caminho.

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( FÁBIO ZUKER )


Representação Incivil Rousseau e posteriormente os teóricos da nação quiseram resolver sem êxito as diferenças entre os «direitos humanos» e os «direitos dos cidadãos » pertencentes a um território político. Quais viriam antes? Teoricamente a sociedade de direto e nosso status como cidadãos garantem que todos temos acesso aos mesmos diretos e deveres numa sociedade pretensamente igualitária como a Ocidental. A pergunta poderia ser: Como nasce e se desenvolve uma categoria como a de cidadania numa sociedade brasileira que se «cristalizou numa estrutura social cruamente desigualitária?»1 O conceito de sociedade civil incivil foi usado nos anos noventa para denominar de forma negativa aqueles grupos que violentamente ameaçam a sociedade de direito, por exemplo os terroristas2. Mas este é um daqueles termos que ficam ambiguamente definidos. Boaventura de Sousa Santos o resgatou para falar de toda uma faixa da população mundial que fica fora das categorias de cidadania e por isso não tem pleno acesso aos direitos: imigrantes i r r e g u l a r e s , indigentes, indígenas, in… sub… subgente , subcidadãos . O que esses estudos sobre cidadania mostram é que a categoria cidadão é excludente em si própria já que marca uma diferença entre os que estão excluídos, sem direitos, e os que não. 1  RIBEIRO, Darcy. Los brasileños, México, Seculo XXI. 1975, p. 110.

2  Lionel Fatton (1995), Petr Kopecky & Cas

Mudde (2003), Amir Pedahzur & Leonar Weinberg (2001), Leonardo Avritzer (2004) ou Mary Kaldor & Diego Muro (2003).

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Um desses direitos consiste na representação: representação política sim, mas também identitária. Aqueles grupos que não têm acesso pleno à sociedade de direito não terão acesso a sua autorrepresentação. Teremos então que esperar mais tempo para que haja, por exemplo, museus do índio plenamente administrados pelos próprios índios. Serão museus com outros percursos, diferentes em relação àqueles que têm por objetivo criar discursos nacionais. Através deles aprenderemos outros jeitos de entender o olhar, o tempo, a história, de entender os objetos, o conhecimento, a política, o direito… a representação incivil .

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(  MARIA IÑIGO CLAVO  )


Ruína a. Reflexo é uma das palavras utilizadas

pelos dicionários para referir-se ao termo ruína . Apontando para a presença conco-

mitante de um tempo em outro, do passado no presente, do presente no futuro, a ruína como reflexo é a prova inegável de que algo existiu e não existe mais, da dependência de um tempo em relação a outro expressa em um objeto ou reminiscência. Das ruínas fazemos monumentos, museus, objetos de narrativas históricas; ou, delas, fazemos vítimas da obsolescência, do descaso, da derrota e do abandono. As cidades estão cheias de ruínas — as estruturas expostas de grandes edifícios, feitas para sustentar e resistir ao tempo, por vezes nos confundem se serão algum dia terminadas ou se foram abandonadas antes do tempo. O que não se ergueu como monumento foi preenchido pelas necessidades do presente, os prédios abandonados foram cobertos por graffitis , habitados por famílias ou são pivôs da especulação imobiliária. Ruínas e construções se confundem na paisagem em todo canto e parecem nos dizer, com certa calma e terror, que tudo há de passar e que em algum lugar do progresso , destruição e construção confundem-se como sinônimos equivocados. b.

Em 1959 o escritor e então ministro de cultura francês André Malraux visita Brasília e declara: «que belas ruínas dariam Brasília!». O autor também considerava as colunas do Palácio da Alvorada como o «advento mais importante da arquitetura

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desde as colunas gregas». Baseada neste comentário, a imagem do então hipotético passado glorioso de Brasília aparece em uma rara pintura a óleo feita por Oscar Niemeyer. Nela, as colunas que outrora pertenceriam ao Palácio da Alvorada, sustentam nada mais que a si mesmas: pintadas em dourado, pairam num vazio de tons terrosos e textura esfumaçada, como a síntese do projeto moderno, contada de forma antiga. O presente, no entanto, desaparecia como se tivesse um estranho espelho sobre si, replicando apenas o que se encontra à sua frente — o futuro, o progresso e a utopia.

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( ISABELLA RJEILLE )


tampar a primeira vez que vim ao brasil, cheguei no intuito de fugir de uma distopia própria a mim, aquela que nos anos bush parecia espalhar gritos de guerra declarada e vitória antecipada por toda parte dos estados unidos, tanto nas ruas onde cuspiram na minha cara e me ameaçaram de morte por eu protestar contra a guerra no iraque, quanto nos labirintos emocionais da minha perpétua mini-crise pessoal de frustração pós-adolescente. já no avião saindo de nova york, rolava uma sensação de leveza, de me libertar de um peso que eu tivesse carregado até então, e que só podia tirar no ato de deixar aquilo para trás. (as generosas doses de whisky que se distribuía de graça na varig certamente ajudavam também). me amarrei no brasil não por achar que tivesse chegado a um lugar perfeito, mas justamente por me sentir dentro de uma sociedade em que apontar o que não estava indo bem seria comum, onde até a angústia acumulada das miríades de dificuldades, impossibilidades e dores cotidianas acabaria instigando a expressão. passei meus primeiros meses no brasil estudando no teatro do oprimido, estudando diferentes metodologias de combate às situações de exploração e injustiça, um processo que sempre começa no ato de nomeá-las como opressoras. o direito, ou até a responsabilidade, de reclamar sem fazer de conta que tudo estaria indo melhor no melhor dos mundos possíveis foi uma revelação. o que mais me preocupa não é aquele brasil aí do lado sem o que comer ou onde dormir, que está tomando as providências

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possíveis deste momento, seja chorando, brigando ou assaltando. vejo a distopia chegando no otimismo sufocador e violento, nas variadas e incessantes tentativas de tampar qualquer outra realidade, de proibir que ela se expresse ou que seja enfrentada por algo que não seja gás lacrimogêneo ou balas de metralhadoras ou felizes campanhas onguitárias. reside numa força que vai muito além de partidos políticos, e que se instala em uma autocensura que insiste que tudo vai bem, e que, por aqui, a gente se vê num país sem pobreza e aparentemente sem discordâncias.

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(  RAPHI SOIFER  )


Técnica Substantivo, feminino singular. Tem origem no grego techné cuja tradução é arte, ou ciência. Para a indústria é fundamento; para o renascimento é revolução; para a escola moderna é mão-de-obra especializada; para a arte ela marca sentido e direção, excluindo o aleatório. A técnica transforma piXadores em grafiteiros. Ela reclama mais poder. Reivindica sistemas e normas. Faz da ciência Business . Nega a experiência empírica. Diferencia artista de artesão. Racionaliza o subjetivo. Exclui os periféricos, os não acadêmicos, os não institucionalizados. Walter Benjamin. Restringe o imperfeito, o incorreto, o não acabado. O seu primor legitima discursos conservadores, produz um conjunto de saberes para um resultado, um produto. Na técnica o imperfeito é eliminado, na arte o imperfeito não pode ser rejeitado.

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( NYCOLAS ALBUQUERQUE )


Trair a espécie 1 . O humano ocidental sempre teve medo de ser bicho, de aceitar-se como animal. Tudo que se parece com isso é escondido, excluído, e os próprios animais são escravizados e extintos, servindo apenas às necessidades humanas. As manifestações sobrenaturais também são tratadas com ignorância maestral, ao ponto de serem consideradas como algo à parte da vida. Nas grandes cidades onde vivemos, estamos distantes da presença constante dos bichos e dos espíritos ou manifestações ocultas. Mas o Deus é desejado, o Deus é idealizado, Deus é o que o ser humano quer ser e não aceita. Aceite seu inferno! Traia seu paraíso. Ao mesmo tempo ele não percebe que já o é, sempre foi. Porém também é Deus o bicho, a planta, a pedra. 2. Mesmo em tempos de degenerescência minha dor é presente. Celebrar a miséria é para muitos uma forma de estar de acordo com seu tempo. Os posicionamentos se acanham não somente pelas decepções mas também pelas ilusões. A mim haveria de escolher entre a desistência ou a máquina. Nada. Uma fuga possível, trair a espécie e me deixar crescer para alturas ou infinitos abismos. Mas nada disso, a planura é como a impressão de um rabo de luz, e aí está, para aqueles que também sonham acordados. Caminhar pela cidade é o que posso fazer para me conectar com uma prática meditativa do corpo para fora. Em estado de atenção olhar para além da primeira camada de significado, suspensão das definições. Liberdade da forma. Assim, no amolecimento de tudo

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que vemos, antes da atribuição de valores e sentidos conseguimos acessar nós mesmos no outro, por sua condição oca, aberta, transparente.

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(  CRISTIANO LENHARDT  )


VISIBILIDADE Diante da extenuação ao trabalho realizada pelo avanço faraônico do capitalismo em todos os meios da vida humana e da geografia terráquea, vimos nascer o liberalismo da tradição iluminista e com ele a insegurança nos meios de trabalho. Se antes a produção era asseverada por uma possível estrutura fixa de relação entre produto e mercado, hoje percebemos que o que mais produzimos é mais uma forma de vida específica, estilizada em produtos, não o objeto do produto. A forma de vida mais consumida e produzida é a visibilidade. A visibilidade é também a ausência de produção, ao mesmo tempo que configura a produção de si mesma, ou, se preferir, do EU. Na medida que avança o capital na extenuação dos processos de trabalho e na exportação da nova ideologia capitalista [EU], podemos perceber também o crescimento fulgurante do empresariado, do produtor de si, do empreendedor de suas ideias. Em simultaneidade a isso, nos confortamos, ou nos desesperamos [?], com a estrutura móvel das relações de trabalho. Deixando cada vez mais de nos assentarmos com a estabilidade do trabalho, passamos desapercebidos pelo mercado, pulando de empresa em empresa para tapar buracos que a tecnicidade, da especulação do capital na forma do EU, deixa abertos nas instituições em que se instala o visionarismo do Micro Empreendedor Individual e da Economia Criativa. O que vemos em propagandas publicitárias, em sites de propostas de emprego, nas vitrines das lojas nos shoppings, navegando nas redes sociais ou em qualquer outro meio de circulação é um único produto: o do empre-

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endedor que dá visibilidade a si mesmo para espalhar seu produto; ou seja, ele mesmo: que pode ser a imagem de sua visibilidade ou até mesmo do produto que vende, que faz referência a sua imagem e que também é sua visibilidade. Este produto é a representação da reverência ao neoliberalismo, ele assegura sua própria livre circulação, mesmo que não haja mercado para que seja absorvido. Mas o que mantem sua continuidade de circulação é a especulação que faz de si mesmo e neste movimento também representa invariavelmente a especulação do capital em circulação, mantendo ambos em harmonia contínua. Se instala neste espectro terrível a tautologia como método de sobrevivência aos que gostariam de fazer, fazem e farão, o que amam para viver: é neste aspecto decisivo do produto que esta nova ideologia horizontaliza o que comumente diferenciaríamos, sobreviver e viver se tornaram a mesma coisa, uma forma de vida. Para fazer o que tu amas deves primeiro amar-te a ti próprio. Para conquistar o sucesso deves esforçar-te no que amas, se não alcançá-lo rapidamente talvez não ames totalmente o que tu fazes. O que tu fazes é o teu trabalho e teu trabalho é [era] tua sobrevivência. E se tu amas teu trabalho, amas necessariamente tua vida, a forma que vives, pois tu vives porque sobrevives de tua imagem e para que ela circule tu precisas te tornar visível e te tornando visível terás a recompensa: conceber, pensar, produzir e jogar ao fluxo da especulação o que tu mesmo produzes — dinheiro, visibilidade.

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( LEONARDO ARAÚJO )


AUTORES — Ana Paula Pereira, mãe da Aurora, ciclista, apaixonada, por arte, pela natureza, pela beleza da vida sem pressa. Estudei Psicologia na Universidade Regional de Blumenau; mestrado em Psicologia Cognitiva na Universidade Federal de Pernambuco, Doutoranda em Psicologia Cognitiva pela mesma universidade. Com apoio do CNPQ, realizei uma pesquisa sobre a Cognição Inventiva e a leitura literária. Gosto de desenhar, pintar, inventar colagens que, enquanto acontecem, o tempo que passa é puro prazer. — Barbara Szaniecki possui graduação em Comunicação Visual pela École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs de Paris, Mestrado e Doutorado (2010) em Design pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Tem ampla experiência prática na área de Design Gráfico. Atualmente é co-editora das revistas Lugar Comum (estudos de mídia, comunicação e cultura) e Multitudes. Sua pesquisa tem ênfase nas relações entre Design Gráfico e conceitos políticos como: multidão, poder e potência, manifestação e representação. No momento, desenvolve pesquisa de pós-doutorado intitulada «Tecnologias digitais e autenticidade: o estatuto da imagem fotográfica na linguagem visual contemporânea» na Escola Superior de Desenho Industrial da UERJ. É autora dos livros Estética da Multidão (Civilização Brasileira, 2007) e Disforme Contemporâneo e Design Encarnado (Annablume, 2014). — Biarritzzz é o avatarônimo de Bia Rodrigues, artista multiplataforma cujo trabalho consiste, em grande parte, na investigação e releitura das linguagens que a cercam. — Bruno Cava é escritor e blogueiro, bloga no quadradodosloucos.com.br e participa da rede Universidade Nômade (uninomade.net). É autor de «A vida dos direitos» (2008), com Alexandre Mendes, e de «A multidão foi ao deserto» (2013). — Cintia Guedes nasceu mulher-macho em Campina Grande/PB. Aos 21 iniciou suas práticas nômades. Morou precariamente (sob pretexto de estudo mas por motivos amorosos) na Bahia, na Argentina e em Recife. Flerta com o anarquismo, tem uma certa desconfiança das esquerdas festivas e um asco completo de toda e qualquer direita. Não gosta de cantoras fofas. Hoje, aos 30, anda apaixonada pelo Rio de Janeiro, cidade mais cara do mundo. No Rio, assiste perplexa e tenta resistir coletivamente aos comportamentos neofascistas, tanto de Estado quanto individuais, que avançam no Brasil deste começo de século. — Cristiano Lenhardt (1975, Itaara RS) vive em Re-


cife. É bacharel em artes Plásticas pela Universidade Federal de Santa Maria, 1996-2000. Suas mais recentes exposições individuais em 2014 foram, Matéria Superordiária Abundante, Galeria Amparo 60, Recife, e Litomorfose, Galpão Fortes Vilaça, São Paulo. Participou de exposições coletivas como Cruzamentos - Wexner Center for the Arts, Ohio/USA, 2014; Rumos Visuais Itaú Cultural, São Paulo, 2012; Mythologies — Cité Internationale des Arts, Paris, 2011; Intimate Bureaucracies: Art and the Mail, Art Exchange, University of Essex – Inglaterra, 2011; Mostra Constructing Views - New Museum - New York, 2010; 7ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, 2009; Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, 2009, entre outras. — Cristina Ribas e A Economista. Cristina trabalha como artista, pesquisadora e catalizadora de agenciamentos diversos. Já organizou residências para artistas, arquitetos, historiadores e realizou diversos projetos inter e transdisciplinares. Como artista-etc sua prática procura provocar articulações entre práticas artísticas, produção do conhecimento, arquivos e a política. Há alguns anos Cristina conheceu A Economista, e ambas começaram uma parceria. A Economista é atenta aos fluxos do capital ao redor de seu corpo, produzindo intervenções e experimentos de análise institucional. Cristina atualmente faz Doutorado em Fine Art no Goldsmiths College University of London, sob a orientação de Susan Kelly e John Cussans. Possui Bolsa CAPES - Doutorado Pleno. Faz parte das redes Universidade Nômade e Conceptualismos del Sur. Concebeu a plataforma Desarquivo.org. Organizou e editou o ‹Vocabulário político para processos estéticos› (2014). Nasceu em 1980, é brasileira, laranja e mãe. A Economista vive desempregada e em situação de precariedade. Não é especialista em artes, mas acopla-se a projetos cujo saber analítico e experimental pode ser útil. Vale ver cristinaribas.org para saber mais. — Daniel Manzione e Marilia Furman são os dois nomes de umx transgênero do Rio Pequeno. Pesquisadorx, artista, assalariadx e empresárix de sua própria miséria. Críticx radical nas horas vagas. — Doris Criolla é uma máquina de pesquisa que propõe reflexões sobre processos históricos, linguísticos e políticos em contextos pós- neo- trans- de- e para- coloniais, tendo como vetor crítico a genealogia das plavras crioulo, criollo, créole e creole. Sua existência se manifesta em experimentações relacionais, almoços e jantares, apresentações e performances, por meio de produção textual e com a colaboração de agentes de diversas práticas e disciplinas. — Fábio Tremonte (São Paulo, SP, 1975). É mestre e bacharel em artes visuais pela Escola de Comunicações


e Artes da Universidade de São Paulo. Realizou exposições individuais como Ilhas, MARP, 2010; Nada Mais, Ateliê 397, 2009; Vista para o mar, CCSP, 2006; e Paisagem #4, Paço das Artes e participou de exposições coletivas no Museu de Arte do Rio, CCBNB de Fortaleza, MAM Bahia e MAM SP. — Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado na EHESS-Paris. Suas pesquisas se desenvolvem no ponto de contato entre antropologia e arte contemporânea, em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema. — Isabella Rjeille é crítica de arte e curadora. Foi parte do corpo editorial da revista MARÉ crítica; atualmente desenvolve pesquisas nas áreas de curadoria e escrita sobre arte, com foco em arte contemporânea e literatura. Desde 2010 colabora com publicações, ações interdisciplinares e exposições. — Jaime Lauriano (São Paulo, 1985). Vive e trabalha em São Paulo. Graduado em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Exposições individuais: Impedimento, CCSP - Centro Cultural São Paulo, São Paulo (2014); Em Exposição, Sesc Consolação, São Paulo (2013). Exposições coletivas: Taipa-tapume, Galeria Leme (2014); 9o Abre Alas, Galeria Gentil Carioca, Rio de Janeiro (2013); UNfreeze, Centro Brasileiro Britânico, São Paulo (2011); 2a Bienal Internacional de Arte Jovem de Moscou, Garage Center for Contemporary Culture, Moscou, Rússia (2010); Verbo 09, Galeria Vermelho, São Paulo (2009). Em 2011, ganhou o prêmio do 15° Cultura Inglesa Festival. — Lailana Krinski, em arte, pesquisa as pessoas pela perspectiva da imaginação de quem se distancia do corpo e o olha do horizonte em conjunto com a mônada. Gosta de política e das mínimas questões, não só das minoritárias. Escreve, mas tem dificuldade de reduzir as coisas em palavras. Coleciona dicionários. Fez algumas exposições e monografias na área, mas gosta mais de conversar com os outros e andar de bicicleta. Dúvidas, documentação bibliográfica ou para conversar, escreva: lailanalailana@gmail.com. — Lais Myrrha vive e trabalha em São Paulo. É artista plástica com mestrado em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG e é doutoranda pelo mesmo programa. Desde 1998 tem participado de diversas exposições, coletivas e individuais. Lecionou História da Arte como professora substituta na Escola de Belas Artes da UFMG e Crítica e Produção Artística no curso de pós-graduação da PUC/MG em parceria com Inhotim. — Leandro Gaertner é músico e educador musical residente em Curitiba. Propositor de práticas musicais compartilhadas através de Oficinas de Construção


de Pífanos de PVC e através do Projeto Ludus Kairós. Colaborador com o Groupe de Recherche Musiques Brésiliennes (Observatoire Musical Français – Université Paris-Sorbonne). — Leonardo Araújo vive e trabalha em São Paulo. É graduando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo e graduado em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes. É crítico radical do capitalismo e se apropria das relações de trabalho no meio da arte, especificamente entre crítico e artista, para rever representações de processos que negam a ideia de trabalho. — Ligia Nobre é arquiteta, pesquisadora e curadora. Foi cofundadora e diretora da plataforma sem fins lucrativos exo experimental org. (São Paulo 2002– 2007) (www.arquivoexo.org). Pesquisadora e assistente de ensino na Universidade ETH StudioBasel – Contemporary City Institute (Basiléia, 2007-2008). Foi curadora adjunta da X Bienal de Arquitetura de São Paulo Cidade: Modos de Fazer, Modos de Usar, em 2013, e curadora, com Carol Tonetti, do projeto coletivo Mano Fato Mano, contemplado pelo Programa de Exposições 2014 do Centro Cultural São Paulo (manofatomano.net). — Maíra Dietrich é artista, trabalha com intersecções entre escrita e artes visuais, publicações de artista e trabalhos impressos, pensando uma condição nômade do artista e do espaço de trabalho. Coordena desde 2012 o selo editorial a missão. Vive e mora. — Maria Iñigo Clavo é pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (FAPESP), co-fundadora e pesquisadora do projeto Península - Processos coloniais, arte e curadoria (Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía) e foi pesquisadora do projeto Meeting Margins entre a Universidade de Essex e a University of the Arts London. — Marcelo Maluf é escritor. Mestre em Artes pela Unesp. Escreveu o livro de contos «Esquece tudo agora» (Terracota, 2012), entre outros. Em 2013 foi contemplado com a Bolsa de incentivo à criação literária Prosa (ProAC), para o seu romance «A imensidão íntima dos carneiros». Vive e trabalha em São Paulo. — Matheus Araujo dos Santos é pesquisador e produtor de imagens. Mestre em Comunicação e Cultura pela ECO-Pós/UFRJ e doutorando pela mesma instituição. Integrante do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade - CuS/UFBA. Co-coordenador da Casa 24 (RJ). Atualmente volta a sua produção teórica e videográfica para a relação entre imagem e pornografia. — Nycolas Albuquerque, sem muita técnica, foi desenhista, músico, cineasta, agora é Professor de Artes Visuais na Unifap. Tenta profundamente desconstruir espaços de legitimação da arte pensando que o cotidiano é a coisa mais potente para experiências estéticas. Acha fundamental a transformação da sociedade de fi-


gurantes em uma sociedade de protagonistas onde as relações são estabelecidas pelos comunicantes. — Raphi Soifer, natural de cambridge, massachusetts (eua) onde se criou entre constantes manifestações de rua e um incessante intelectualismo gringuístico, raphi soifer se sente tão perdido tomando chá quanto tomando gás lacrimogêneo. mora no rio de janeiro e trampa como performer, pesquisador, tradutor e manicure. — Regina Q., 89 anos, Rio de Janeiro. Depois da morte de seu marido, um General reformado, pediu o divórcio tornando-se a primeira e única ex-viúva reconhecida legalmente no Brasil. É especialisa em teoria literária e filologia. Atuou como tradutora vertendo documentos e correspondências oficiais do português para o francês e, também o inverso. — Sara Panamby é performeirx/ professorx/ peladx/ peludx. Bacharel em Performance em Comunicação e Artes do Corpo (PUC-SP). Mestrx em Artes pelo PPGARTES-UERJ, doutorandx pelo mesmo programa. Propõe a radicalização dos sentidos através de discursos e mitologias múltiplas pensando o corpo em suas potências descolonizadoras. Mora e (des)organiza a CASA 24 (RJ). — Talita Tibola é doutora em psicologia pela Universidade Federal Fluminense, onde defendeu a tese Histórias de sintonias e fronteiras: escutar, ocupar, dissentir a cidade. Participa do grupo de Pesquisa Pesquisar Com e da Rede Universidade Nômade e participou ao longo do ano de 2010 do grupo de artes Sala Dobradiça. — Vijai Patchineelam, artista, concluiu recentemente o vídeo Resistir o passado, ignorar o futuro e a incapacidade de conter o presente (2014), projeto que durou 18 meses e foi realizado no Jan van Eyck Academie em Maastricht nos Países Baixos e Nörrkoping Air em Nörrkoping na Suécia. — William Zeytounlian é mestrando em história pela Universidade Federal de São Paulo, poeta, esgrimista profissional e assistente no clube literário Hussardos. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a normatização dos comportamentos em sociedade, especialmente o adestramento da fala e o silenciamento, a partir de fontes do século XVII.


EXPEDIENTE 56 edições traplev orçamentos recibo 56 brazil distópico ano 13 — número 17 — 2015 editor geral de recibo: traplev editor convidado e revisão: fabio morais projeto gráfico: priscila gonzaga dimensões: 211x103 mm, 72 páginas tiragem: 1.000 exemplares issn: 22 3631 38 encarte 56 impressão offset 100x170mm tiragem 1.000 exemplares impresso em risograph no recife pela editora aplicação. contato: recibo0@gmail.com  fb.com/traplev5²² 81 9826 3201  issuu.com/recibo  #recibozero recibo é grátis e periódico com distribuição dirigida. recibo pode ser copiado, remixado e sampleado infinito. recibo 56 foi produzido e editado entre são paulo e recife em 2014–2015. recibo agradece a todos os colaboradores: Ana Paula Theiss Pereira, Amilcar Packer, Barbara Szaniecki, Bia Rodrigues, Bruno Cava, Cintia Guedes, Cristiano Lenhardt, Cristina Ribas, Daniel Manzione, Fábio Tremonte, Fábio Zuker, Isabella Rjeille, Jaime Lauriano, Lailana Krinski, Lais Myrrha, Leandro Gaertner, Leonardo Araújo, Ligia Nobre, Maíra Dietrich, Maria Iñigo Clavo, Marcelo Maluf, Marilia Furman, Matheus Santos, Nycolas Albuquerque, Raphi Soifer, Sara Panamby, Vijai Patchineelam, Talita Tibola, William Zeytounlian.

incentivo:


encarte: integrando a série de fac-símiles colecionáveis do projeto editorial recibo 56: brazil distópico, apresentamos o recibo de custeio de propaganda eleitoral assinado pelos então candidatos à presidência da república, Juscelino Kubitschek, e a governador do Estado de Minas Gerais, Bias Fortes, ambos vencedores da eleição de 1955. O tema tão espinhoso hoje no «debute do século XXI» (2015) ainda é um paradigma — distópico (?) — do governo que se vê totalmente preso a um principio que deturpa todo o sistema democrático no Brasil, que hoje e mais do que nunca deve ser modificado por uma #reformapolíticareal proibindo o financiamento privado do processo eleitoral no país e assim estancando o braço corrupto dentro da esfera pública dos governos. Prática recorrente na história das campanhas eleitorais brasileiras, o recibo fac-similizado no encarte simboliza ainda o financiamento popular da utopia brasileira, do modernismo, da construção de Brasília e de seu projeto desenvolvimentista. nota: neste recibo apresentamos o índex dos seis facsímiles publicados pelos recibos que completam a coleção do recibo 56 brazil distópico. Cada exemplar foi publicado com uma tiragem de mil exemplares encartados nos respectivos recibos (vide lista). Todos os originais são da coleção de Fabio Morais, com exceção dos anúncios escravocratas, pesquisados em arquivos públicos on line, e dos pareceres da censura, copiados do livro Repressão e Resistência, Censura a Livros na Ditadura Militar, de Sandra Reimão, Edusp, 2011. recibo 18, anúncios de jornal sobre o comércio de escravos no Brasil do século XIX; recibo 70, capa e páginas do Nosso Álbum, álbum infantil editado na década de 1970; recibo▲, adesivo de mesário da Justiça Eleitoral referente à eleição para Presidente da República, de 1989; recibo 80, pareceres do órgão censor do governo brasileiro de livros censurados na década de 1970; recibo f5, anúncio e lançamento de TV (Revista Manchete, 1968) e Videocassete (catálogo da XVI Bienal de São Paulo, 1981);


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CALENDÁRIO RECIBO 2002–2015

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recibo 56 - brazil distópico  

número 17 - ano 13 – 2015 O décimo sétimo número de recibo foi produzido em conjunto com o artista Fabio Morais e Traplev (editor geral de R...

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número 17 - ano 13 – 2015 O décimo sétimo número de recibo foi produzido em conjunto com o artista Fabio Morais e Traplev (editor geral de R...

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