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1001 FILMES PARA V E R A N T E S DE M O R R E R

EDITOR GERAI STEVEN JAY S C H N E I D E R

S E X T A N

I I


Sumário Prefácio Introdução índice geral

1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 Os colaboradores índice por gênero índice de diretores Créditos das fotos


PREFACIO DE JASON SOLOMONS A l g u n s a n o s a t r á s , e u fazia p a r t e d o j ú r i d e u m p r o g r a m a d e t e l e v i s ã o c h a m a d o 50 filmes

para ver antes morrer. B e m , 50 é u m n ú m e r o r e d o n d o m u i t o s i m p á t i c o ,

o b v i a m e n t e a p r o p r i a d o para as r e s t r i ç õ e s d a g r a d e d e p r o g r a m a ç ã o e para o n í v e l de atenção volúvel d o s telespectadores e seus controles remotos nervosos. No e n t a n t o , c o n f o r m e r e c l a m a r a m t o d o s o s o u t r o s j u r a d o s , era u m a t a r e f a i n a c r e ditavelmente árdua. O maior problema foi q u a n d o percebemos q u e a b s o l u t a m e n t e todos teriam a s s i s t i d o a p e l o m e n o s 50 f i l m e s n a v i d a - na v e r d a d e , t e n h o m i n h a s d ú v i d a s s e v o c ê teria c o n s e g u i d o s o b r e v i v e r a o s t e m p o s m o d e r n o s se n ã o t i v e s s e v i s t o pelo m e n o s isso. (Por m a i s t r i s t e q u e seja, t e m o q u e , hoje e m d i a , m u i t o s p a s s e m s u a existência s e m t e r lido 50 livros, m a s esta é o u t r a c o n v e r s a , para o u t r a lista.) M e s m o a s s i m , n o s s o p r o g r a m a f o i a o ar, m a s fez t o d o m u n d o , i n c l u s i v e o s e s p e c t a d o r e s , p a r a f r a s e a r R i c h a r d D r e y f u s s e m Tubarão:

" P r e c i s a m o s d e u m a lista maior."

E n t ã o , q u a n d o 1001 filmes p a r a ver a n t e s d e morrer a t e r r i s s o u na m i n h a m e s a c o m u m e s t r o n d o poderoso, foi c o m o se os próprios deuses d o c i n e m a t i v e s s e m a s s i s t i d o a o p r o g r a m a e r e s p o n d i d o c o m u m i n d i g n a d o d e s a f i o h e r c ú l e o . 1001 isso é o q u e e u c h a m o d e l i s t a . É c l a r o q u e m u i t a s p e s s o a s d e f e n d e r ã o a n e c e s s i d a d e d e u m a lista

ainda

m a i o r . U m c r í t i c o d e c i n e m a m o d e r n o , p o r e x e m p l o , a s s i s t e a m a i s d e 500 f i l m e s p o r a n o - e m 2007, a m é d i a d e f i l m e s l a n ç a d o s p o r s e m a n a na I n g l a t e r r a c h e g o u a 10 pela p r i m e i r a v e z na h i s t ó r i a , d e m o d o q u e , a p r i n c í p i o , í o o t n ã o p a r e c e u m número tão grande assim. No e n t a n t o , q u a n t o s desses l a n ç a m e n t o s anuais m e r e c e m o status de cláss i c o o u " i n d i s p e n s á v e l " ? Talvez 10, e m u m a n o m u i t o b o m . E, c o n v e n h a m o s , a i n c l u s ã o d e u m a obra n u m a lista d e f i l m e s q u e v o c ê d e v e v e r a n t e s d a s u a m o r t e p r e s s u p õ e q u e e l a t e n h a a c a p a c i d a d e d e e n r i q u e c e r sua v i d a . E f i l m e s c o m o e s s e s simplesmente não surgem com muita freqüência. E s t a , p o r t a n t o , é u m a lista o u s a d a , i n s t i g a n t e , p r o v o c a t i v a c q u e t r a z c o n s i g o u m a p r o m e s s a a m b í g u a . Entrar nela é e m b a r c a r e m u m a j o r n a d a cujo f i m t a l v e z n u n c a seja a l c a n ç a d o , u m a o d i s s é i a l a b i r í n t i c a q u e a t r a v e s s a o a m o r , a a v e n t u r a , o desespero, o triunfo, o b e m e o m a l , a tragédia e a comédia - e n f i m , u m a viag e m por t o d a s as coisas q u e fazem a vida valer a pena. E s t e livro c o n t a c o m u m e x t r a o r d i n á r i o " e f e i t o c a s c a t a " . V o c ê p o d e abri-lo e m q u a l q u e r p á g i n a e, d e r e p e n t e , s e v ê c a i n d o e m c o n t r a d i ç ã o . ("A m o r t e n u m beijo? Este n ã o é u m f i l m e B ? S i m , m a s é o m e l h o r d e t o d o s o s t e m p o s . " ) E n t ã o b a t e o o l h o e m o u t r o f i l m e : O quinteto

da morte.

D e u m a hora para o u t r a , v o c ê

t e m d o i s f i l m e s d o m e s m o a n o (1955) q u e s e e n c o n t r a m o r g u l h o s a m e n t e j u n t o s , u m a l i m e n t a n d o e a u m e n t a n d o a credibilidade do outro. É c o m o se, lado a lado, g a n h a s s e m d e s t a q u e ; dois feitos extraordinários q u e c o n t i n u a r ã o e n c a n t a n d o e influenciando novas gerações de espectadores c o m suas visões diferentes sobre os g â n g s t e r e s , a g a n â n c i a e a e s t u p i d e z h u m a n a s . E e n t ã o v o c ê já e s t á v i c i a d o , f a z e n d o - s e o u t r o s t i p o s d e p e r g u n t a s , c o m o , p o r e x e m p l o , q u a l terá s i d o o m e l h o r ano da história d o c i n e m a .


À p r i m e i r a v i s t a , 1940 p a r e c e s e r u m f o r t e c o n c o r r e n t e - jejum

Rcbecca, a mulher inesquecível;

Núpcias

de escândalo;

u m a c o m é d i a d e W . C. F i e l d s c h a m a d a O guarda

Pinóquio;

amor,

da ira; e

( d r o g a , e s s e e u n ã o vi!) a t é v i r a r

m a i s u m a p á g i n a e d e s c o b r i r q u e 1941 n o s t r o u x e Cidadão e C o n t r a s t e s humanos,

de

As vinhas

Kanc,

O falcão

maltes

o f i l m e d e P r e s t o n S t u r g e s d o q u a l v o c ê o u v i u f a l a r pela

p r i m e i r a v e z q u a n d o v i u E aí, meu irmão,

cadê você?,

d o s i r m ã o s C o e n . Será q u e

esse e n t r o u na lista? D a i você dispara até o s a n o s 2000 e descobre q u e n ã o - b e m , e n t ã o q u a i s f i l m e s d o s I r m ã o s C o e n e n t r a r a m ? A h , F a r g o , é c l a r o , Arizona mais

e Onde

os fracos

nunca

não t ê m vez, q u e g a n h o u o O s c a r e... agora v o c ê n ã o f a z

idéia d e o n d e c o m e ç o u s u a p e r e g r i n a ç ã o o u para o n d e e s t á s e g u i n d o . E s s e t i p o d e v i a g e m gera s i t u a ç õ e s i n u s i t a d a s , à m e d i d a q u e r o s t o s c o n h e c i d o s (Faça a coisa

certa - u m d o s m e u s f a v o r i t o s , q u e prazer e n c o n t r á - l o a q u i ,

velho amigo) aparecem sorrindo a o lado de estranhos impertinentes. E então v o c ê v o l t a a s e p e r d e r e m d e v a n e i o s - a c r e d i t e m , 1989 t a m b é m n ã o f o i u m a n o ruim, levando-se e m conta apenas filmes nova-iorquinos: além de Spike Lee, t i v e m o s Harry e Sally, feitos um para o outro, d e R o b Reiner, e Crimes e pecados,

de

W o o d y Allen; esse t a m b é m foi o a n o q u e a c e n o u c o m revelações c o m o Daniel Day L e w i s e m Meu pé esquerdo; ras e videotape,

o c i n e m a i n d e p e n d e n t e a m e r i c a n o , c o m Sexo, m e n t i -

de Steven Sodcnbergh, ganhando a Palma de Ouro e m Cannes; e o

novo cinema asiático, c o m a estréia de Hou Hsiao-hsien, de Taiwan, c o m A das tristezas.

cidade

E lá v o u e u d e n o v o : o s i m p l e s f a t o d e p e n s a r n e s s e f i l m e (para m i m )

e s q u e c i d o r e a c e n d e l e m b r a n ç a s d e c o n h e c e r u m a g a r o t a b o n i t a na c h u v a , e m frente a o cinema Curzon Mayfair, e m Londres. A s i m p l e s d e c i s ã o d e a s s i s t i r a t o d o s e s s e s 1001 f i l m e s - v o c ê r e p a r o u q u e o livro t r a z u m ú t i l c h e c k l i s t para m a r c a r o q u e já v i u , c o m o e m u m a lista d e c o m p r a s ? - fará v o c ê e m b a r c a r e m e x p e r i ê n c i a s d e v i d a : s e q u i s e r r e v i v e r O i n v e n c í v e l , d e S a t y a j i t Ray, d e 1957; Noites

de Cabíria,

d e F e l I i n i ; e Quando

voam as

cegonhas,

a i n e s q u e c í v e l o b r a - p r i m a r u s s a , terá q u e p e s q u i s a r e m lojas d e D V D I n d e p e n d e n t e s , c o r r e r para c i n e m a s d e a r t e d u r a n t e f i n s d e s e m a n a c h u v o s o s o u t i r a r f é r i a s perto d e retrospectivas de festivais de c i n e m a (eu acabei v e n d o Contrastes h u m a nos e m u m a mostra paralela n o festival m a r a v i l h o s a m e n t e aberto ao público d e San Sebastian, na Espanha). E i s s o , n o f i m d a s c o n t a s , p o d e levar u m a v i d a i n t e i r a .

J a s o n S o l o m o n s e s c r e v e a r t i g o s s o b r e c i n e m a n o s j o r n a i s i n g l e s e s Tfie e The Mail no rádio.

on Sunday

Observer

e apresenta programas sobre a sétima arte na televisão e


INTRODUÇÃO DE STEVEN JAY SCHNEIDER C o n f o r m e s e u t i t u l o j á s u g e r e , 1001 filmes

para ver antes de morrer é u m livro q u e

b u s c a n ã o a p e n a s i n f o r m a r e sugerir, m a s t a m b é m motivar,

t r a n s f o r m a r leitores

curiosos e m e s p e c t a d o r e s a p a i x o n a d o s e deixar claro q u e a pressão é i m e n s a , o t e m p o é curto e o n ú m e r o de filmes q u e d e v e m ser assistidos se t o r n o u r e a l m e n te g r a n d e . H o j e e m d i a , l i s t a s d o s "10 m a i s " s o b r e v i v e m q u a s e e x c l u s i v a m e n t e

como

enquetes a n u a i s d o s críticos e debates sobre os "100 melhores f i l m e s " t e n d e m a s e r e s t r i n g i r o u a g ê n e r o s e s p e c í f i c o s - c o m o c o m é d i a , terror, f i c ç ã o c i e n t í f i c a , r o m a n c e o u faroeste - o u a c i n e m a t o g r a f i a s nacionais, c o m o as da França, China, I t á l i a , J a p ã o o u I n g l a t e r r a . T u d o isso i n d i c a a i m p o s s i b i l i d a d e - o u p e l o m e n o s a irresponsabilidade - de se trabalhar c o m u m número menor do q u e (digamos) m i l , q u a n d o s e p r e t e n d e p r e p a r a r u m a lista d o s " m e l h o r e s " , o u d o s m a i s v a l i o s o s , i m p o r t a n t e s o u i n e s q u e c í v e i s f i l m e s d e t o d o s o s t e m p o s ; u m a lista q u e q u e i r a fazer j u s t i ç a e a b r a n g e r t o d a a h i s t ó r i a d a m í d i a c i n e m a t o g r á f i c a . C o m o o b j e t i v o a c i m a e m m e n t e , m e s m o 1001 r a p i d a m e n t e c o m e ç a a p a r e c e r u m n ú m e r o p e q u e n o d e m a i s . Talvez n e m t a n t o , s e d e i x á s s e m o s d e fora o s f i l m e s m u d o s ; o u d e v a n g u a r d a ; o u d o O r i e n t e M é d i o ; o u a s a n i m a ç õ e s ; o u os d o c u m e n tários; o u os curta-metragens... Essas estratégias de exclusão, c o n t u d o , a c a b a m sendo a p e n a s maneiras de diminuir a pressão, de traçar linhas arbitrárias na areia c i n e m a t o g r á f i c a e d e s e r e c u s a r a t o m a r a série d e d e c i s õ e s d i f í c e i s , p o r é m n e c e s s á r i a s , para s e t e r u m a s e l e ç ã o l i m i t a d a d e f i l m e s q u e t r a t e todos o s t i p o s e escolas e tradições diferentes que c o m p õ e m a arte d o cinema c o m o respeito q u e l h e s é d e v i d o . O livro q u e v o c ê t e m e m m ã o s a s s u m e u m g r a n d e risco a o o f e r e c e r u m a lista d e f i l m e s i m p e r d í v e i s q u e a b r a n g e t o d a s a s é p o c a s , g ê n e r o s e p a í s e s . C o n t u d o , e s t e é u m risco q u e v a l e a p e n a correr e , s e v o c ê e s t i v e r d i s p o s t o a v e r t o d o s o s f i l m e s d i s c u t i d o s a q u i , p o d e t e r c e r t e z a d e q u e m o r r e r á u m c i n é f i l o feliz. R e s u m i n d o : q u a n t o m a i s f i l m e s v o c ê vir, m e l h o r . E n t ã o , c o m o d e t e r m i n a m o s q u a i s 1001 f i l m e s v o c ê d e v e v e r a n t e s d e m o r r e r ? S e r i a m u i t o m a i s f á c i l , e geraria m e n o s c o n t r o v é r s i a , s e t i v é s s e m o s q u e listar í o o i f i l m e s q u e d e v e m ser evitados a q u a l q u e r c u s t o ! N ã o é nada s u r p r e e n d e n t e q u a n d o s e d e s c o b r e q u e a crítica d e c i n e m a n ã o p o d e s e r c o n s i d e r a d a u m a c i ê n cia e x a t a , e n ã o é e x a t a m e n t e u m e x a g e r o dizer q u e o Perdidos

na noite de u m a

p e s s o a p o d e m u i t o b e m s e r o (sfitar d e o u t r a . T a l v e z haja m a n e i r a s d e c o m p a r a r o b j e t i v a m e n t e - e a t é classificar - ciclos, m o v i m e n t o s e subgêneros

altamente

c o d i f i c a d o s e h i s t o r i c a m e n t e e s p e c í f i c o s , c o m o o t h r i l l e r i t a l i a n o da d é c a d a d e 70, t e n d o p o r b a s e , n e s t e c a s o , a v i o l ê n c i a e s t i l i z a d a , a s n a r r a t i v a s l a b i r í n t i c a s e a i d e n t i f i c a ç ã o p s i c o l ó g i c a . E t a l v e z seja l e g í t i m o s e p a r a r o s c l á s s i c o s i n d i s c u t í v e i s

de H i t c h c o c k [Intriga internacional, pássaros,

(Cortina

janela

indiscreta,

Um corpo que cai. Psicose, Os

etc.) d o s q u e s ã o g e r a l m e n t e c o n s i d e r a d o s f i l m e s m a i s f r a c o s d o d i r e t o r

rasgada,

Trama macabra,

Topázio,

b a s e a r para e s c o l h e r e n t r e A hora da partida, tecido a Baby jane, e U m a questão

Agonia

de amor).

Porém, e m que se

d e Tsai M i n g L i a n g , e O q u e terá

acon-

d e R o b e r t A l d r i c h ? O u e n t r e V/agem à L u a , d e G e o r g e M é l i è s ,

de silêncio,

d e M a r l e e n G o r r i s ? S e o o b j e t i v o d e s t e livro é m e s m o


i n c l u i r u m p o u c o d e t u d o , e n t ã o c o m o e v i t a r q u e a lista d e 1001 f i l m e s r e s u l t a n t e se t o r n e u m a g r a n d e e d i v e r s i f i c a d a a m o s t r a da p r o d u ç ã o c i n e m a t o g r á f i c a

um

caso de mera variedade e m d e t r i m e n t o do verdadeiro valor? S ã o b o a s p e r g u n t a s . O p r i m e i r o p a s s o para d e t e r m i n a r m o s o s 1001 f i l m e s a s e r e m i n c l u í d o s a q u i e n v o l v e u a n a l i s a r a t e n t a m e n t e o n ú m e r o d e l i s t a s já e x i s t e n t e s d o s " f a v o r i t o s " , " m a i o r e s " e m e l h o r e s " f i l m e s e priorizar os t í t u l o s c o m b a s e na f r e q ü ê n c i a c o m q u e c a d a u m a p a r e c i a n e l a s . Isso n o s a j u d o u a I d e n t i f i c a r u m a e s p é c i e d e c â n o n e d e c l á s s i c o s ( I n c l u i n d o os m o d e r n o s e c o n t e m p o r â n e o s ) q u e a c r e d i t a m o s merecer u m lugar de d e s t a q u e neste livro, b a s e a n d o - n o s s i m u l t a n e a m e n t e e m q u a l i d a d e e r e p u t a ç ã o . O q u e n ã o q u e r dizer, de f o r m a a l g u m a , q u e todos o s f i l m e s p r e s e n t e s n e s s a s l i s t a s m a i s c u r t a s - e por v e z e s p e c u l i a r e s - e n t r a r a m e m n o s s a lista f i n a l , m a s o e x e r c í c i o n o s d e u a o m e n o s a l g u n s p o n t o s de referência essenciais e reduziu s i g n i f i c a t i v a m e n t e a inevitável natureza s u b j e t i v a da s e l e ç ã o . D e p o i s de c h e g a r m o s

a um conjunto

p r o v i s ó r i o de cerca d e 1300 t í t u l o s ,

p a r t i m o s para r e v i s a r a lista d e n o v o (e d e n o v o , d e n o v o , d e novo...) c o m o d u p l o - e c o n f l i t a n t e - o b j e t i v o de reduzir o n ú m e r o total e ainda abranger a c o n t e n t o os vários períodos, cinematografias nacionais, gêneros, m o v i m e n t o s , escolas e autores notáveis. C o m t o d o o respeito à última categoria, interpretamos a noção de " a u t o r " c o m a maior flexibilidade possível, de m o d o a incluir não a p e n a s diretores ( W o o d y Allen, I n g m a r B e r g m a n , J o h n C a s s a v e t e s , Federico Felllni, Jean-Luc


G o d a r d , A b b a s K i a r o s t a m i , Satyajit Ray, e t c ) , c o m o t a m b é m atores ( H u m p h r e y B o g a r t , M a r l e n e Dietrich, Toshirô M l f u n e ) , produtores (David O. Selznick, S a m Spiegel, Irvlng Thalberg), rotelristas (Ernest

L e h m a n , Preston Sturges,

Cesare

Z a v a t t l n i ) , f o t ó g r a f o s ( G r e g g T o l a n d , C o r d o n W l l l l s , Freddie Young), c o m p o s i t o r e s (Bernard H e r m a n n , Ennio Morricone, Nino Rota), etc. T a m b é m t o m a m o s o c u i d a d o d e n ã o d a r p r e f e r ê n c i a a u t o m á t i c a - p a s s e livre, por a s s i m dizer - a p r o d u ç õ e s a u t o d e s i g n a d a s c o m o " d e a l t o n í v e l " o u e x e m plos d e g r a n d e a r t e c i n e m a t o g r á f i c a ( é p i c o s h i s t ó r i c o s , a d a p t a ç õ e s da o b r a d e Shakespeare, experimentos dos formalistas russos), deixando de lado os gêneros considerados " m e n o r e s " (comédia

pastelão, f i l m e s de gângster da década de

30, c i n e m a d e bloxp/oitatíon), o u a t é m e s m o f i l m e s d e m é r i t o s e s t é t i c o s r e l a t i v a m e n t e q u e s t i o n á v e i s (Pink F l a m i n g o s , O s embalos de Blair), f r a n c o a p e l o p o p u l a r (Top Cun o extraterrestre),

de sábado

- Ases indomáveis,

à noite,

A

bruxa

Quero ser grande,

E.T.:

o u aqueles de valor Ideológico o u ético questionáveis (O nasci-

m e n t o de uma nação.

Monstros,

O triunfo

da vontade,

Os 120 dias de S o d o m a ) . E m

v e z d i s s o , n o s e s f o r ç a m o s para j u l g a r c a d a u m d o s c a n d i d a t o s p o r s u a s p r ó p r i a s q u a l i d a d e s , o q u e s i g n i f i c a v a , para c o m e ç o d e c o n v e r s a , d e s c o b r i r d a m e l h o r forma possível e m q u e consistia a " q u a l i d a d e " e m questão - o q u e n e m sempre é t a r e f a s i m p l e s o u ó b v i a , c o m o no c a s o d e Pink Flamingos,

c u j a i n f a m e c h a m a d a já

dizia " u m e x e r c í c i o d e m a u g o s t o " - e e n t ã o e n c o n t r a r m a n e i r a s d e s e p a r a r o j o i o do trigo ( m e s m o q u e a diferença entre o s dois pareça t ã o p e q u e n a a p o n t o d e ser indiscernível ou irrelevante). Existe u m v e l h o d i t a d o q u e d i z : " M e s m o q u e v o c ê c o m a f i l é m i g n o n

todos

os d i a s , d e v e z e m q u a n d o v a i q u e r e r u m h a m b ú r g u e r . " E m o u t r a s p a l a v r a s , m e s m o q u e s e u g o s t o c i n e m a t o g r á f i c o p e s e b a s t a n t e para o l a d o d o s c l á s s i c o s m u n d i a i s r e c o n h e c i d o s {Cidadão

meu amor

Kane, Rashomon,

Touro indomável

e

Encouraçado

o u d o s t e s o u r o s d o c i n e m a d e a r t e e u r o p e u (A aventura,

Potemkim),

e Último

tango

Hlroshlma

em Paris), e m a l g u m m o m e n t o v o c ê irá q u e r e r a s s i s t i r

a u m f i l m e q u e s e p r e s t a a o b j e t i v o s c o m p l e t a m e n t e d i f e r e n t e s , seja e l e u m m e g a s s u c e s s o h o l l y w o o d i a n o ( O parque Titanic),

m e While Tm Naked), Mundo

dos dinossauros,

u m a b i z a r r l c e u n d e r g r o u n d ( S c o r p i o Rising,

cão,

O homem

O império

Criaturas

contra-ataca,

flamejantes,

o u u m a c u r i o s i d a d e c u l t (El Topo, O segundo

rosto,

Ho/d Slacker,

de ferro). Da f o r m a c o m o p e n s a m o s e s t e p r o j e t o , n o s s a

t a r e f a p r i n c i p a l era g a r a n t i r q u e , q u a l q u e r q u e f o s s e s e u g o s t o c i n e m a t o g r á f i c o genérico, o u naquele dia específico e m q u e você resolvesse experimentar algo d i f e r e n t e , e s t e livro p u d e s s e s e r u m m e n u e m q u e c a d a prato é s e m p r e b o m . F i n a l m e n t e , d e p o i s d e f a z e r o s d e r r a d e i r o s e s o f r i d o s c o r t e s n e c e s s á r i o s para r e d u z i r a lista para " m e r o s " 1001 f i l m e s , o ú l t i m o p a s s o era a j u s t a r o s r e s u l t a d o s c o m base nas opiniões e sugestões oferecidas pelo nosso e s t i m a d o grupo de colaboradores, cuja experiência coletiva, o c o n h e c i m e n t o e a paixão e m assistir, d e b a t e r e e s c r e v e r s o b r e f i l m e s g a r a n t i r a m q u e , e m b o r a n e n h u m a

lista d e

" m e l h o r q u a l q u e r c o i s a " p o s s a ser p e r f e i t a (seja lá o q u e isso s i g n i f i q u e ) o u t o t a l -


m e n t e i n c o n t e s t á v e l ( n ã o seria u m a c h a t i c e ? ) , a q u e v o c ê t e m n a s m ã o s f o s s e a m e l h o r p o s s í v e l . N o e n t a n t o , n ã o é a p e n a s a lista e m si q u e t o r n a e s t e livro t ã o especial, m a s t a m b é m as resenhas e n c o m e n d a d a s q u e a c o m p a n h a m cada u m d o s 1001 f i l m e s - e n s a i o s c o n c i s o s , b e m e s c r i t o s e e s t i m u l a n t e s q u e c o m b i n a m perfeitamente detalhes importantes do enredo, comentários perspicazes, c o n texto h i s t ó r i c o e c u l t u r a l e u m a b o a q u a n t i d a d e d e c u r i o s i d a d e s ( Q u e r dizer q u e p e n s a r a m e m c h a m a r G e o r g e L u c a s para dirigir A p o c a l i p s e N o w P Q u e m diria!). N ã o se deixe e n g a n a r pela f a c i l i d a d e c o m q u e e s t e s e n s a i o s s ã o d i g e r i d o s . É p r e c i s o u m t a l e n t o ú n i c o - o u a t é a r t e - para s e e s c r e v e r u m t e x t o p r o f u n d o e c a t i v a n t e de a p e n a s 5 0 0 p a l a v r a s s o b r e f i l m e s c o m o C a s a b l a n c a , Rastros d e ódio o u A regra do j o g o , q u a n t o m a i s 350 p a l a v r a s s o b r e B o o g i e Nlglits - Prazer s e m l i m i t e s , Gritos e sussurros o u O m e n s a g e i r o d o diabo, lazarava,

O pianista,

o u (pasmem!) 200 palavras sobre

Markcta

o u Cléo d a s 5 à s 7. D e a l g u m a f o r m a , e c o m g r a n d e p r e s e n ç a

de e s p í r i t o , e l e s c o n s e g u i r a m , e d e m o d o b r i l h a n t e . Q u a n t o à m i n h a e x p e r i ê n c i a e m t r a b a l h a r n e s t e l i v r o , s ó p o s s o dizer q u e a s dores de ter q u e cortar vários d o s m e u s favoritos f o r a m m a i s d o q u e c o m p e n s a d a s p e l o prazer d e a d m i r a r a s e l e ç ã o r e s u l t a n t e , d e ler t a n t a s r e s e n h a s d e críticos maravilhosos e descobrir t a n t o sobre a história, as tradições e os tesouros e s c o n d i d o s q u e e u n ã o c o n h e c i a . M e s m o q u e v o c ê t e n h a v i s t o t o d o s o s 1001 filmes discutidos nestas páginas (parabéns, embora eu duvide bastante), tenho c e r t e z a d e q u e será t r e m e n d a m e n t e r e c o m p e n s a d o r ler s o b r e e l e s a q u i . C o m o e d i t o r geral d e 1001 filmes p a r a ver a n t e s d e morrer, t e n h o a h o n r a e o p r i vilégio de agradecer a todas as pessoas responsáveis por garantir o sucesso I n e vitável deste projeto a m b i c i o s o . M i n h a gratidão a Laura Price, C a t h e r i n e O s b o r n e e a o r e s t a n t e da e q u i p e da Q u i n t e t P u b l i s h i n g , u m a d i v i s ã o d o Q u a r t o G r o u p ; a A n d r e w Lockett, d o British Film Institute; a o s mais de 60 colaboradores d e n o v e países diferentes q u e t r a b a l h a r a m c o m prazos a p e r t a d o s e u m editor carrasco (eu) para p r o d u z i r a s r e s e n h a s d i v e r t i d a s e i n f o r m a t i v a s ; e, c o m o s e m p r e , a m i n h a família, m e u s a m i g o s e colegas, cujo apoio e incentivo continua s e n d o

minha

arma n e m t ã o secreta assim.

STEVEN JAY SCHNEIDER EDITOR GERAL

*** N o t a da e d i ç ã o brasileira O s f i l m e s q u e f o r a m l a n ç a d o s n o Brasil a p a r e c e m n o livro c o m o t í t u l o e m p o r t u g u ê s e a b a i x o d e l e , e n t r e p a r ê n t e s e s , o t í t u l o o r i g i n a l na l í n g u a d o p a í s d e o r i g e m . O s f i l m e s q u e n ã o f o r a m v e i c u l a d o s n o Brasil e n t r a m c o m s e u t í t u l o o r i g i n a l e u m a tradução aproximada no texto.


França (Star) 14 m i n . M u d o P & B Direção: Georges Méllès r r o d u ç ã o : Georges Méliès Itotclro: Georges Méliès, baseado no llvio Viagem à Lua, de Júlio Verne l o l o g r n f i n : M i c h a u t , Lucien Tainguy I lenço: Victor André, Bleuette U r i n o u , Brunnet, Jeanne d'Alcy, Henri I irl.ninoy, Depierre, Farjaut, Kelm, i.riuv.cs Méliès

VIAGEM A LUA (1902) (LE VOYAGE DANS LA LUNE)

Q u a n d o p e n s a m o s sobre Viagem à Lua, nossa m e n t e é logo t o m a d a pela idéia

inicial e mítica de q u e , nos seus primórdios, o cinema era u m a arte cujas " r e g r a s " eram e s t a b e l e c i d a s d u r a n t e o próprio processo de produção. Este f i l m e francês foi lançado e m 1902 e representa uma revolução para a época, dada sua duração ( a p r o x i m a d a m e n t e 14 m i n u t o s ) , se c o m p a r a d o a o s m a i s c o m u n s c u r t a s - m e t r a g e n s d e dois

minutos

produzidos no c o m e ç o do século passado. Viagem à Lua reflete d i r e t a m e n t e a p e r s o n a l i d a d e histriónica do s e u diretor, Georges M é l i è s , cujo passado d e ator de teatro e m á g i c o influencia a produção do f i l m e . A obra faz corajosas experiências c o m a l g u m a s das m a i s f a m o s a s técnicas c i n e m a t o g r á f i c a s , c o m o superposições, fusões e práticas d e m o n t a g e m que seriam a m p l a m e n t e utilizadas no f u t u r o . Apesar da simplicidade dos seus efeitos especiais, o f i l m e costuma

ser considerado o primeiro exemplo de c i n e m a d e ficção c i e n t í f i c a . Ele

apresenta m u i t o s e l e m e n t o s característicos do gênero - u m a e s p a ç o n a v e , a descoberta de u m a nova fronteira - e estabelece a maioria d e suas c o n v e n ç õ e s . O f i l m e c o m e ç a c o m u m congresso científico no qual o professor Barbcnfouillis (interpretado pelo próprio Méliès) tenta convencer seus colegas a participarem d e uma v i a g e m d e exploração à Lua. A s s i m q u e seu plano é aceito, a expedição é organizada e os cientistas são e n v i a d o s ao satélite natural e m uma e s p a ç o n a v e . A nave e m forma de míssil aterrissa no olho direito da Lua, q u e é representada c o m o u m ser a n t r o p o m ó r f i co. U m a vez na superfície dela, os cientistas logo e n c o n t r a m h a b i t a n t e s h o s t i s , os selenitas, q u e os l e v a m ao seu rei. Depois de descobrirem q u e os inimigos s o m e m e m u m a n u v e m de f u m a ç a a o simples t o q u e d e u m guarda-chuva, os franceses c o n s e g u e m escapar e retornar à Terra. Eles c a e m no o c e a n o e exploram suas profundezas a t é serem f i n a l m e n t e resgatados e recebidos e m Paris c o m o heróis. A q u i , M é l i è s cria u m f i l m e q u e m e r e c e u m lugar d e d e s t a q u e entre o s ícones da história d o c i n e m a m u n d i a l . Apesar do seu estilo surreal, Viagem

à Lua é divertido e

inovador, c o n s e g u i n d o c o m b i n a r os t r u q u e s do teatro c o m as infinitas possibilidades da mídia c i n e m a t o g r á f i c a . M é l i è s , o m á g i c o , era m a i s u m m a e s t r o do q u e u m diretor, t a m b é m participando c o m o roteirista, ator, produtor, cenógrafo, figurlnista e fotógrafo, criando efeitos especiais que foram considerados espetaculares à época. Este primeiro f i l m e d e f i c ç ã o científica é i m p e r d í v e l para a q u e l e s interessados na o r i g e m d a s c o n v e n ç õ e s q u e p o s t e r i o r m e n t e i n f l u e n c i a r a m todo o gênero e seus m a i s f a m o s o s registros. De m o d o m a i s geral, Viagem à Lua t a m b é m pode ser considerado o f i l m e que estabelece a principal diferença entre ficção e não-flcção c i n e m a t o g r á f i c a . E m u m t e m p o e m q u e o cinema retratava, na maioria d a s v e z e s , a vida cotidiana ( c o m o nos f i l m e s dos i r m ã o s Lumière, no final do século X I X ) , M é l l è s c o n s e g u i u oferecer u m a f a n t a s i a q u e almejava o e n t r e t e n i m e n t o puro e s i m p l e s . Ele abriu as portas para os c i n e a s t a s do f u t u r o expressando v i s u a l m e n t e sua criatividade d e maneira t a m e n t e alheia aos f i l m e s da época. C F e

comple-


I U A (I clison) 12 m i n . M u d o P & B (colorido à mão) Direção: Edwin S. Porter Roteiro: Scott Marble, Edwin S. Porter Fotografia: Edwin S. Porter, Blair Smith

0 GRANDE ROUBO DO TREM <1903) (THE GREATTRAIN ROBBERY) O grande

roubo do trem é a m p l a m e n t e considerado o primeiro faroeste já feito,

iniciando o q u e se tornaria, dentro d e poucos a n o s , o gênero m a i s popular de cinema nos E s t a d o s U n i d o s . Produzido pela Edison C o m p a n y e m n o v e m b r o de 1903, O grande foi o f i l m e m a i s bem-sucedido c o m e r c i a l m e n t e do período pré-Griffith

Flcnco: A. C. Abadie, Gilbert M.

roubo do mm

"Bronco Billy" Anderson, George

do c i n e m a a m e r i c a n o e gerou i n ú m e r a s i m i t a ç õ e s .

Bi unes, Walter Cameron, Frank I lanaWay, Morgan Jones, Tom I ondon, Marie Murray, Mary S n o w

O q u e torna o f i l m e d e E d w i n S. Porter excepcional é s e u grau de sofisticação narrativa, se l e v a r m o s e m conta a época e m q u e foi feito. Existem m a i s de u m a dúzia de cenas d i s t i n t a s , cada q u a l a p r o f u n d a n d o

mais o enredo. Na cena inicial, dois

a s s a l t a n t e s m a s c a r a d o s o b r i g a m u m telegrafista a enviar u m a m e n s a g e m falsa para q u e o t r e m faça u m a parada imprevista. Os ladrões e n t r a m no v a g ã o do correio e, d e pois d e u m a briga, a b r e m o cofre. Na próxima cena, dois assaltantes s u b j u g a m o m a quinista e o foguista do t r e m e j o g a m u m deles para fora. E m seguida eles param a l o c o m o t i v a e r e n d e m os passageiros. U m deles tenta fugir e leva u m tiro. Então o s a s s a l t a n t e s e s c a p a m a bordo da l o c o m o t i v a e, na cena seguinte, os v e m o s m o n t a r e m c a v a los e fugir. E n q u a n t o isso o telegrafista do t r e m envia u m a m e n s a g e m pedindo ajuda. E m u m saloon,

u m recém-chegado é forçado a dançar sob u m a saraivada d e tiros,

p o r é m , q u a n d o a m e n s a g e m chega, todos pegam seus rifles e s a e m . Corte para o b a n d o sendo perseguido por u m a t u r b a . Há u m tiroteio e os assaltantes são m o r t o s . Existe u m plano extra, o m a i s conhecido do f i l m e , m o s t r a n d o u m dos ladrões atirando d i r e t a m e n t e na tela. Ao q u e parece, esse plano a l g u m a s vezes era m o s t r a d o no c o m e ç o da película e o u t r a s , no f i m . De q u a l q u e r f o r m a , dava a o e s p e c t a d o r a impressão d e estar b e m na linha de fogo. U m dos atores de O grande roubo do trem era G. M. Anderson (seu n o m e verdadeiro era Max Aronson). Entre o u t r o s papéis, ele interpretou o passageiro q u e leva u m tiro. A n d e r s o n logo se tornaria o primeiro astro do faroeste, aparecendo c o m o Bronco Billy e m m a i s de 100 f i l m e s a partir de 1907. A n o s m a i s tarde, houve q u e m contestasse a a f i r m a ç ã o d e que O grande roubo do trem fosse o primeiro faroeste já feito, alegando o u q u e não foi o primeiro, o u q u e não era u m f a r o e s te. S e m dúvida h o u v e f i l m e s anteriores q u e f a z i a m uso do t e m a , c o m o Cripple

Creek Bar-Room Scene (1899), de T h o m a s

Edison, porém eles não p o s s u e m a u n i d a d e narrativa do f i l m e de Porter. Pode-se afirmar t a m b é m q u e suas raízes se e n c o n t r a m t a n t o e m peças de teatro que p o s s u í a m cenas e s p e t a c u l a res e m ferrovias c o m o e m outros f i l m e s sobre roubos a u d a c i o sos q u e não pertenciam ao gênero. Tampouco se pode sustentar q u e ele seja u m verdadeiro faroeste t e n d o por base suas locações a u t ê n t i c a s , u m a vez que O grande roubo do trem foi f i l m a d o na ferrovia D e l a w a r e - L a c k a w a n n a , e m Nova Jersey. No e n t a n t o , desde os t e m p o s de Jessé J a m e s roubos de t r e m fazem parte da m i t o l o g i a deste tipo de f i l m e , e outros e l e m e n t o s s i m bólicos c o m o revólveres de seis tiros, c h a p é u s d e c a u b ó i e c a v a los dão ao f i l m e u m a genuína a t m o s f e r a de faroeste. E B


EUA (D. W. Griffith & Epoch) 190 m i n . Mudo P & B

0 NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO

(1915)

(THEBIRTH OFANATION)

Direção: D. W. Griffith

Ao m e s m o t e m p o u m dos m a i s reverenciados e repudiados f i l m e s já feitos, O n a s c i -

Produção: D. W. Griffith Roteiro: Frank E. W o o d s , D. W.

mento de u m a nação, de D. W . C r i f f i t h , é I m p o r t a n t e pelos m e s m o s m o t i v o s q u e i n s p i -

Griffith, baseado nos livros The

ram essas d u a s reações o p o s t a s . Na v e r d a d e , raras vezes u m f i l m e mereceu c o m t a n t a

( kinsman: An Historical Romance of

justiça t a m a n h o louvor e desprezo, o q u e , d e várias f o r m a s , a u m e n t a o valor dele n ã o

the K11 Klux Klan e The Leopard's Spots t na peça The Clansman,

de Thomas

F. Dixon Jr. Fotografia: G. W . Bitzer M ú s i c a : Joseph Carl Breil, D. W. Griffith Elenco: Lillian Gish, M a e M a r s h , I lenry B. W a l t h a l l , Miriam Cooper,

só nos a n a i s do c i n e m a , m a s t a m b é m c o m o u m artefato histórico f u n d a m e n t a l (que alguns c h a m a r i a m de relíquia). Embora o f i l m e seja baseado na peça e x p l i c i t a m e n t e racista d e T h o m a s Dixon The Clansman:

An Histórica! Romance of the Ku Klux Klan,

m u i t o s relatos a f i r m a m q u e

C r i f f i t h era indiferente ao teor racista do t e m a central. O grau d e c u m p l i c i d a d e do diretor ao veicular sua m e n s a g e m I n f a m e é m o t i v o de discussão há q u a s e u m século. No e n t a n t o , n ã o há controvérsias q u a n t o a o s méritos técnicos e artísticos da obra.

Mary Alden, Ralph Lewis, George

Criffith estava, c o m o de c o s t u m e , m a i s interessado nas possibilidades do m e i o do q u e

s i e g m a n n , Walter Long, Robert

na m e n s a g e m e, nesse â m b i t o , ele estabelece os padrões da H o l l y w o o d m o d e r n a .

ll.irron, Wallace Reid, Joseph 1 lenabery, Elmer Clifton, Josephine Crowell, S p o t t i s w o o d e Aitken, George Be ranger

O nascimento de u m a nação foi, d e forma m u i t o clara, o primeiro épico histórico já feito, provando que, m e s m o na era do cinema m u d o , as platéias e s t a v a m dispostas a assistir a u m a história de mais de três horas. Porém, c o m suas inúmeras inovações artísticas, Griffith essencialmente criou a linguagem cinematográfica contemporânea e, embora alguns e l e m e n t o s de O nascimento de uma nação p o s s a m parecer datados diante dos padrões atuais, praticamente todos os filmes lhe são devedores de alguma maneira. Griffith introduziu o uso de d o s e s dramáticos, travelings e outros significativos m o v i m e n t o s de câmera: ação paralela, alternância de seqüências e outras técnicas de m o n t a g e m ; e a t é m e s m o a primeira trilha sonora orquestrada. É u m a pena q u e todos esses e l e m e n t o s inovadores estivessem relacionados a u m a história d e valor tão duvidoso. A primeira m e t a d e do f i l m e c o m e ç a antes da Guerra Civil, explicando a i n t r o d u ç ã o da escravidão na América antes do início da ação. Duas f a m í l i a s , os S t o n e m a n s , do Norte, e os C a m e r o n s , do S u l , s ã o a p r e s e n t a d a s . A história é contada através dessas


(luas f a m í l i a s e, m u i t a s vezes, de seus criados, sintetizando os piores estereótipos raciais. À m e d i d a que a n a ç ã o é dilacerada pela guerra, os escravos e os s i m p a t i z a n t e s dos abolicionistas são vistos c o m o a força destrutiva por trás de t u d o . O racismo do f i l m e piora ainda m a i s na segunda m e t a d e , q u e se passa d u r a n t e a reconstrução e retrata a ascensão da Ku Klux K l a n , cujos m e m b r o s são apresentados t o m o os s u p o s t o s heróis da película. O fato d e Criffith ter introduzido u m a história de amor no meio desta recriação de uma guerra racial é e x t r e m a m e n t e a u d a c i o s o : u m a esi olha ao m e s m o t e m p o e m o c i o n a n t e e perturbadora. O nascimento de uma nação é s e m dúvida u m a poderosa propaganda, m u i t o e m bora sua m e n s a g e m política seja d e revirar o e s t ô m a g o . Apenas a puritana Ku Klux Klan pode m a n t e r a u n i d a d e da nação, é o q u e o f i l m e parece dizer, de m o d o q u e n ã o é de surpreender q u e , m e s m o na sua época, o f i l m e tenha sido visto c o m i n d i g n a ç ã o . Recebeu protestos da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas d e Cor (NAACP, na sigla e m inglês), gerou m a n i f e s t a ç õ e s e, p o s t e r i o r m e n t e , forçou o próprio Criffith a responder às críticas c o m seu ainda m a i s a m b i c i o s o Intolerância (1916). Ainda a s s i m , o fato de O nascimento

de uma nação c o n t i n u a r sendo respeitado e e s t u d a d o a t é os dias

de hoje - apesar do seu t e m a - revela sua duradoura i m p o r t â n c i a . J K L


m

\


França (Gaumont) 440 m i n . Mudo

PltB Direção: Louis Feuillade Roteiro: Louis Feuillade Música: Robert Israel Elenco: Musidora, Edouard M a t h é , Mareei Lévesque,-Jean A y m é , Fernand l l e i i m a n n , Stacia Napierkowska

OS VAMPIROS (1915) (LES VAMPIRES)

O lendário f i l m e e m episódios de Louis Feuillade é considerado u m divisor d e

á g u a s , u m precursor no uso da p r o f u n d i d a d e d e c a m p o c o m o recurso e s t é t i c o , p o s t e r i o r m e n t e a p r i m o r a d o por J e a n Renoir e Orson W e l l e s , e u m parente próximo do m o v i m e n t o surrealista; no e n t a n t o , ele está m a i s relacionado ao d e s e n v o l v i m e n t o do gênero thriller. S e g m e n t a d o e m 10 partes v a g a m e n t e interligadas cujos finais c a r e c e m de g a n c h o s para a história s e g u i n t e e q u e v a r i a m m u i t o e m duração, a l é m d e t e r e m sido lançadas c o m Intervalos irregulares, Os vampiros é algo entre u m a série d e f i l m e s e u m f i l m e e m episódios. A t r a m a m i r a b o l a n t e e m u i t a s vezes inconsistente concentrase e m u m a e x u b e r a n t e g a n g u e

de criminosos

parisienses, os V a m p i r o s , e seu

d e s t e m i d o o p o n e n t e , o repórter Philippe G u é r a n d e (Edouard M a t h é ) . Os V a m p i r o s , mestres do disfarce q u e g e r a l m e n t e u s a m roupas pretas colantes d u r a n t e seus c r i m e s , são c o m a n d a d o s por quatro sucessivos " M e s t r e s V a m p i r o s " , q u e são a s s a s s i n a d o s u m a u m e c o n t a m c o m a fidelidade servil da v a m p i r e s c a Irma Vep (cujo n o m e é u m a n a g r a m a d e Vampire), coração e alma não só dos V a m p i r o s c o m o do próprio f i l m e . Interpretada c o m v o l u p t u o s a vitalidade por M u s i d o r a , papel q u e lhe rendeu o estrelato, Irma é a m a i s a t r a e n t e personagem do f i l m e , s u p e r a n d o c o m folgas o Insípido herói G u é r a n d e e seu exagerado e c ô m i c o c a m a r a d a M a z a m e t t e (Mareei Lévesque). O carisma dela vai a l é m do t e m a m a n i q u e í s t a do f i l m e e contribui para u m t o m d e certa forma m a i s a m o r a l , reforçado pela maneira c o m o os m o c i n h o s e os bandidos m u i t a s vezes se v a l e m dos m e s m o s m é t o d o s Ilícitos e pelo perturbador m a s s a c r e dos V a m p i r o s no f i m . De forma s e m e l h a n t e à história de detetive e ao thriller de casa a s s o m b r a d a , Os vampiros cria u m m u n d o a p a r e n t e m e n t e rígido e m sua o r d e m burguesa, a o m e s m o t e m p o q u e o s a b o t a . O s pisos e paredes grossos de cada chateou e hotel tornam-se ocos c o m alçapões e passagens secretas. E n o r m e s lareiras s e r v e m d e acesso a a s s a s s i nos e ladrões q u e fogem pelos t e l h a d o s de Paris e s o b e m e d e s c e m calhas c o m o m a cacos. Táxis correm c o m intrusos nos seus t e t o s e revelam f u n d o s falsos para ejetar fugitivos e m convenientes

bueiros. N u m d e t e r m i n a d o

m o m e n t o , o herói

coloca

i n o c e n t e m e n t e a cabeça para fora da janela a p e n a s para ser laçado pelo pescoço, puxado para a rua, e n f i a d o dentro de u m grande cesto e levado embora por u m táxi a n t e s de poder gritar " I r m a Vep!". E m outra cena, u m a parede c o m u m a lareira se abre para regurgitar u m e n o r m e c a n h ã o , q u e desliza até a janela e atira projéteis e m u m cabaré próximo. Reforçando a a t m o s f e r a d e t ê n u e estabilidade, a t r a m a é construída e m torno de prodigiosas reviravoltas, e n v o l v e n d o capciosas aparições e m a m b o s os lados da lei: personagens " m o r t o s " v o l t a m à vida, pilares da s o ciedade (um padre, u m juiz e u m policial) provam ser V a m p i r o s e Vampiros se m o s t r a m a g e n t e s da lei disfarçados. É a habilidade de Feuillade de criar, e m grande e imaginativa escala, u m m u n d o duplo - ao m e s m o t e m p o c o n creto e onírico, familiar e e m o c i o n a n t e m e n t e e s t r a n h o - que é essencial à e v o l u ç ã o do gênero thriller e faz dele u m I m p o r t a n t e pioneiro da sua forma. M R


EUA (Triangle & Wark) 163 m i n . Mudo P & B Direção: D. W. Griffith Produção: D. W . Griffith Roteiro: Tod Browning, D. W . Griffith Fotografia: G . W. Bitzer, Karl Brown M ú s i c a : Joseph'Carl Breil, Carl Davis, I). W. Griffith Elenco: S p o t t í s w o o d e Aitken, Mary Alden, Frank Bennett, Barney Bernard, M o n t e Blue, Lucille Browne,

INTOLERANCIA

(1916)

(INTOLERANCE)

Talvez e m parte c o m o resposta àqueles q u e criticaram a política racial de O nascimento de u m a n a ç ã o (1915), D. W. Griffith mostrou-se i g u a l m e n t e preocupado e m se posicionar contra a censura no c i n e m a . Esse a s s u n t o f o i abordado m a i s d i r e t a m e n t e no panfleto publicado na época da exibição d e Intolerância, c h a m a d o Ascensão e queda da Uberdade de expressão na América. A i n t e n ç ã o de Griffith c o m este f i l m e , finalizado nas s e m a n a s q u e se s e g u i r a m ao l a n ç a m e n t o d e sua produção épica anterior, é sobrepor quatro histórias de diferentes períodos que ilustrassem " a s lutas do a m o r através dos t e m p o s " . Estas i n c l u e m u m a seleção de e v e n t o s da vida de J e s u s ; u m relato sobre a Babilônia

Tod Browning, W i l l i a m H. B r o w n ,

a n t i g a , cujo rei é traído por aqueles q u e se ressentem do seu repúdio ao sectarismo

Edmund Burns, W i l l i a m E. Cassidy,

religioso; a história do m a s s a c r e dos protestantes franceses no dia de S ã o B a r t o l o m e u

Flmer Clifton, Miriam Cooper, Jack Cosgrave, Josephine Crowell, Dore Davidson, S a m De Grasse, Edward Dillon, Pearl Elmore, Lillian Gish, Ruth

pelo rei Carlos IX sob o conselho traiçoeiro da própria m ã e ; e u m a história moderna na q u a l u m j o v e m , i n j u s t a m e n t e c o n d e n a d o pelo assassinato d e u m c o m p a n h e i r o , é salvo no ú l t i m o i n s t a n t e pela i n t e r v e n ç ã o d e sua a m a d a , que ganha o perdão do g o v e r n a n t e .

Handforth, Robert Harron, Joseph

Esses episódios não são a p r e s e n t a d o s e m série. Em vez disso, Griffith corta d e u m para

Henabery, Chandler House, Lloyd

outro e, m u i t a s vezes, intercala s e q ü ê n c i a s plano a plano dentro d o s próprios e p i s ó -

I n g r a h a m . W . E. Lawrence, Ralph Lewis, Vera Lewis, Elmo Lincoln, Walter Long, M r s . Arthur Mackley,

dios, para criar suspense. Essa estrutura revolucionária se m o s t r o u complexa d e m a i s para a m a i o r parte do público da época, q u e t a m b é m pode ter sido desencorajado pela

lully Marshall, M a e M a r s h ,

duração d e Intolerância (quase três horas). É possível que Griffith tenha investido a t é 2

Marguerite M a r s h , J o h n P. McCarthy,

m i l h õ e s d e dólares no projeto, porém o f i l m e nunca c h e g o u perto de recuperar seus

A. W . McClure, Seena O w e n , Alfred

c u s t o s , n e m m e s m o depois de r e m o n t a d o e lançado c o m o dois f i l m e s separados, A

Paget, Eugene Paliette, Georgia I'rarce, Billy Quirk, Wallace Reid, Allan Sears, George S i e g m a n n , Maxfield Stanley, Carl Stockdale, M a d a m e Sul-Te-Wan, Constance Talmadge, F. A. Turner, W . S. Van

queda da Babilônia e A mãe e a lei. Não h o u v e e c o n o m i a

n a s i m p r e s s i o n a n t e s recriações históricas. O s e n o r m e s

cenários para a história babilónica, q u e p e r m a n e c e r i a m u m marco e m H o l l y w o o d por anos a f i o , c o n t a r a m c o m 3 m i l f i g u r a n t e s . Esses n ú m e r o s da produção foram rivali-

Dyke, G u e n t h e r v o n Ritzau,

zados pelos figurinos s u n t u o s o s e elaboradas seqüências d e m u l t i d ã o no episódio

I rich von S t r o h e i m , George W a l s h ,

francês. Embora os intertítulos t e n h a m sido escritos por terceiros, o próprio Griffith foi

Eleanor W a s h i n g t o n , Margery W i l s o n , lorn Wilson

responsável pelo complexo roteiro, no qual c o n t i n u o u a trabalhar d u r a n t e a produção. Seu grupo de atores de teatro o b t e v e interpretações admiráveis e m diversos papéis. C o n s t a n c e T a l m a d g e se sai e s p e c i a l m e n t e b e m c o m o a " G a r o t a das M o n t a n h a s " apaixonada pelo m a l f a d a d o príncipe Belsázar (Alfred Paget) na história babilónica, a s s i m c o m o M a e M a r s h e Bobby Harron c o m o os a m a n t e s reunidos no episódio m o d e r n o . C o m o e m O nascimento de u m a nação, Griffith utiliza estruturas do m e l o d r a m a vitoriano para afirmar suas convicções políticas. A intolerância é examinada através das lentes do a m o r trágico, o q u e empresta energia e m o c i o n a l e p a t h o s às narrativas. Na história babilónica, Belsázar e sua a m a d a Attarea (Seena O w e n ) preferem c o m e t e r s u i cídio a cair nas m ã o s do vitorioso Ciro, o Persa (George S i e g m a n n ) , e, na história f r a n c e sa, u m j o v e m casal, ele católico e ela p r o t e s t a n t e , não c o n s e g u e escapar do m a s s a c r e . Intolerância

é u m m o n u m e n t o ao talento de Griffith c o m o roteirista, diretor, criador

de planos e m o n t a d o r - u m a obra-prima única, j a m a i s igualada e m t e r m o s d e m a g n i t u d e e d i m e n s ã o . Feito para persuadir, este f i l m e exerceu mais influência sobre o c i n e m a revolucionário soviético d e Sergei Eisenstein, entre o u t r o s , do q u e sobre os contemporâneos americanos de Griffith. R B P

.'K


A l e m a n h a (Decla-Bioscop) 71 m i n . Mudo P8cB (colorizado) Direção: Robert W e i n e

0 GABINETE DO DR. CALIGARI

(1919)

(DAS KABINETT DES DOKTOR CALIGARI)

Produção: Rudolf M e i n e n , Erich

O gabinete

Pommer

bizarro q u e surgiu na A l e m a n h a na década de 20 e está ligada, de certa forma, ao

do Dr. Caligari

é a pedra angular de u m a corrente d e c i n e m a fantástico e

Roteiro: Hans J a n o w i t z , Carl Mayer

movimento

Fotografia: Wijly Hameister

primeiras décadas da mídia a c o m p a n h o u o estilo "janela para o m u n d o " dos i r m ã o s

artístico expressionista. S e g r a n d e parte d o s f i l m e s produzidos n a s

Música: Alfredo A n t o n i n i , Giuseppe

Lumière

Becce, Timothy Brock, Richard

arrebatadora, no intuito de fazer c o m que os espectadores e s q u e ç a m que estão v e n d o

Marriott, Peter S c h i r m a n n , Rainer Viertlböck Elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich Feher, Lil Dagover, Hans Heinrich v o n Twardowski, Rudolf Lettinger, Rudolf Klein-R

- c o m histórias

u m f i l m e -, Caligari

ficcionais

ou documentais

apresentadas

de maneira

retorna a o m é t o d o d e Georges Méliès a o apresentar c o n s t a n t e m e n -

te efeitos estilizados, m á g i c o s e teatrais q u e exageram o u c a r i c a t u r a m a realidade. Neste f i l m e , policiais se e m p o l e i r a m e m bancos r i d i c u l a m e n t e a l t o s , s o m b r a s são p i n t a d a s nas paredes e nos rostos, f o r m a s pontiagudas p r e d o m i n a m c m todos os cenários, a m b i e n t e s externos são c l a r a m e n t e pintados e as telas de f u n d o e as interpretações são estilizadas a o ponto da histeria. Na c o n c e p ç ã o dos roteiristas Carl M a y e r e Hans J a n o w i t z , o f i l m e se passa e m u m m u n d o fora dos eixos e o diretor Robert W e i n e e os cenógrafos H e r m a n n W a r m , W a l t e r Roehrig e W a l t e r R c i m a n n d i s t o r c e m cada cena e cada intertítulo para frisar isso. C e r a n d o controvérsia, Fritz L a n g - q u e i n i c i a l m e n t e fora escalado para a direção a f i r m o u q u e a platéia não conseguiria e n t e n der o estilo radical de Caligari

sem uma es-

pécie de "explicação". Lang bolou u m enredobase e m q u e o herói Francis (Friedrich Feher) conta

a história

- q u e e n v o l v e o sinistro

hipnotizador c h a r l a t ã o Dr. Caligari (Werner Krauss), seu escravo s o n â m b u l o , o zumbificado Cesare (Conrad Veidt), e u m a série de a s sassinatos

na

precária

cidadezinha

de

Holstenwall - q u e revela, no f i m do f i l m e , u m paciente de hospício q u e imagina a narrativa incorporando várias pessoas do s e u convívio diário, n u m estilo O mágico de Oz. Isso enfraquece o t o m a n t l a u t o r i t a r i s t a do f i l m e , u m a vez q u e se descobre q u e o Dr. Caligari, na h i s tória principal u m diretor d e hospício q u e e n l o u q u e c e u , é na v e r d a d e u m h o m e m b o m , decidido a ajudar o herói. No e n t a n t o , o h o s pício a p r e s e n t a d o no enredo-base é e x a t a m e n t e o m e s m o hospício " i r r e a l " visto no flashback, o q u e torna o f i l m e todo, não só a história entre parênteses d e Francis, u m t a n t o duvidoso. De f a t o , ao revelar q u e sua perspectiva expressionista é a de u m louco, o f i l m e poderia

a t é agradar

a conservadores que

c o n s i d e r a v a m loucura toda a arte m o d e r n a . Surpreendentemente, Weine, menos inovador do q u e a maioria dos seus colaborado-


faz pouco uso da técnica c i n e m a t o g r á f i c a , c o m exceção do flashback-dentro-doii l i h b a c k e m q u e Krauss é levado à loucura por instruções sobrepostas d e q u e ele d t v e se tornar Caligari". O f i l m e se baseia c o m p l e t a m e n t e e m recursos teatrais, c o m a ira lixa no centro, m o s t r a n d o o cenário e deixando os atores ( e s p e c i a l m e n t e Veidt) ' I H I H e g a d o s d e t o d o m o v i m e n t o e i m p a c t o . A colaboração de L a n g t o r n o u o f i l m e i i i i i i obra eclética: é ao m e s m o t e m p o u m f i l m e de arte para platéias refinadas q u e iprei Iam suas inovações e u m e n g e n h o s o f i l m e d e terror. C o m u m a atmosfera teatral, nu i lentlsta louco c o m o vilão e u m m o n s t r o v e s t i n d o malha q u e rapta m o c i n h a s , 11 gabinete do Dr. Caligari

é u m i m p o r t a n t e precursor do gênero terror, introduzindo

Imagens, t e m a s , personagens e expressões q u e se t o r n a r a m essenciais para Drácula, de l<>11 U r o w n i n g , e Frankenstein, d e J a m e s W h a l e ( a m b o s de 1931). K N


LIRIO PARTIDO

IIÜIÜI

(BROKEN BLOSSOMS)

A reputação d e Griffith nos e s t u d o s d e cinema é, embora u m pouco exagerada, t o t a l m e n t e irrepreensível. S e m dúvida, o c i n e m a a m e r i c a n o (e m u n d i a l ) seria b e m diferente s e m as suas diversas c o n t r i b u i ç õ e s . O nascimento

de uma nação

e intolerância

são,

j u s t i f i c a d a m e n t e , seus filmes m a i s célebres, lembrados pelo extraordinário t r a t a m e n t o d a d o ao roteiro e à m o n t a g e m . Porém outro de seus f i l m e s , Lírio partido, de 1919, s e m pre se d e s t a c o u c o m o u m a de suas m e l h o r e s obras, sendo, c o m certeza, a mais bela de todas. J u n t a m e n t e c o m Aves sem ninho, o glorioso veículo de W i l l i a m B e a u d i n e para M a r y Pickford, Lírio partido é u m e x e m p l o do q u e é conhecido c m H o l l y w o o d c o m o "estilo singelo". Este foi o ápice c m t e r m o s de g l a m o u r fotográfico: os fotógrafos usaram todos os recursos disponíveis - pó-de-arroz, a p a r e l h o s especiais d e i l u m i n a ç ã o ,

lentes

b e s u n t a d a s d e ó l e o , a t é i m e n s a s cortinas d e gaze transparente presas ao teto do estúdio - para suavizar, realçar e a c e n t u a r a beleza d e suas estrelas. E m Lírio partido, a EUA (D. W. Griffith) 90 m i n . M u d o

face da I m o r t a l Lillian Gish l i t e r a l m e n t e resplandece c o m u m brilho a p a i x o n a n t e e

P & B (colorizado)

s o b r e n a t u r a l , o f u s c a n d o t o d o s os d e m a i s e l e m e n t o s e m cena.

Direção: D. w . Griffith

A beleza deste f i l m e deve ser apreciada, pois ela é v e r d a d e i r a m e n t e f o r m i d á v e l .

Roteiro: Thomas Burke, D. W. Griffith

Glsh e seu c o m p a n h e i r o d e cena, o excelente Richard B a r t h e l m e s s , f l a n a m a t o r m e n t a -

Fotografia: G. W . Bitzer

dos por u m a p a i s a g e m londrina definida por névoa, travessas i l u m i n a d a s por luzes

M ú s i c a : D. W. Griffith

s o t u r n a s e e n i g m á t i c o s cenários "orientalistas". A simples história de a m o r proibido do

Elenco: Lillian Gish, Richard

f i l m e é p e r f e i t a m e n t e c o m p l e m e n t a d a pela cenografia d e s l u m b r a n t e e misteriosa,

Barthelmess, Donald Crisp, Arthur

concebida por Joseph Stringer. Lírio partido é u m f i l m e único.

Howard, Edward Peil Sr., George Beranger, Norman Selby

A colaboração entre Gish e Griffith é u m a das mais frutíferas do cinema a m e r i c a n o : os dois t a m b é m trabalharam j u n t o s c m O nascimento de uma nação, Órfãos da tempestade e Inocente pecadora, a l é m de outras dezenas de curtas. C e r t a m e n t e , essa é u m a parceria diretor-ator que se iguala às d e Scorsese-De Niro, K u r o s a w a - M i f u n e e Leone-Eastw o o d , para citar a l g u m a s ; na verdade, ela serve de modelo para julgar todas as outras. Griffith alcança u m equilíbrio perfeito entre a banalidade do enredo e a exuberância maltrapilha da produção (a m a i o r parte do f i l m e se passa e m casas de ópio e e s p e l u n cas do cais do porto). É preciso u m diretor t a l e n toso e c o n f i a n t e para m a n i p u l a r u m a d i c o t o m i a f o r m a / c o n t e ú d o c o m o esta, e o que se vê aqui é Griffith no auge das suas habilidades. É a t e n s ã o entre o cotidiano e o extraordinário q u e c o n d u z Lírio partido, garantindo seu lugar na história do


INOCENTE PECADORA

(1920)

EUA (D. W . G r i f f i t h ) 100 m i n . Mudo P&B

(WAY DOWN EAST) 111 seguida a O nascimento de u m a nação (1915), u m dos f i l m e s m a i s rentáveis já Idos, D. W . Griffith viu sua carreira entrar e m decadência, p r i n c i p a l m e n t e por sua p,11 Idade de se adaptar aos desejos volúveis do público de c i n e m a . Griffith se l.ill/ara e m levar às telas o m e l o d r a m a v i t o r i a n o , c o m suas histórias d e inocência ilua .imeaçada. E m 1920, p o r é m , o público já c o m e ç a v a a d e m o n s t r a r

menos

i' pelo resgate ou preservação da v i r t u d e . P o r t a n t o , foi u m a surpresa q u e 1 li lenha decidido adaptar para o cinema a peça m e l o d r a m á t i c a Way D o w n East, de lenha conseguido dar nova vida à história e transformá-la e m u m f i l m e de DMitili' sucesso.

Roteiro: Anthony Paul Kelly, Joseph R Grismer, D. W . Griffith, baseado 11.r. peças Way Down East, de Joseph Grismer e W i l l i a m A. Brady, e Amur Laurie, de Lottie Blair Parker Elenco: Lillian Gish, Richard Barthelmess, Lowell S h e r m a n , Bud M c i n t o s h , Kate Bruce, Mary Hay, Creighton Hale, Emily Fitzroy. P O M Strong, George Neville, Edgar N C I M I

1 1 1 Moore (LiMian Gish) deixa sua pequena vila na Nova Inglaterra para morar c o m mais a b a s t a d o s e m B o s t o n . Lá, ela cal nos e n c a n t o s d e u m c h a r m o s o j o v e m ido '..inderson (Lowell S h e r m a n ) , que a c o n v e n c e 11 1 i r a ele depois d e encenar u m falso c a s a m e n eiitão a envia de volta para a Nova Inglaterra, n uni.indo a guardar segredo sobre as n ú p c i a s . Ao In 11 q u e está grávida, A n n a entra e m c o n t a t o iiiilrison e descobre a triste verdade. Daí e m • li inii', .is desgraças não p a r a m . A m ã e dela morre. S e u m i b é m . Ela é expulsa da pensão onde mora, pois ,1 «Milioria suspeita q u e ela n ã o é casada. Por sorte, i i r u m emprego e m u m a fazenda próxima, cujo se c h a m a Barlett (Burr M c l n t o s h ) , m a s os Sartoris v i v e m perto de lã. Na fazenda, Anna conhece I (Richard B a r t h e l m e s s ) , filho do fazendeiro, e logo ii-, dois se a p a i x o n a m . Porém o passado de Anna v e m à tona e ela é despeII l i de seu e m p r e g o na fazenda. V a g a n d o solitária por .1 terrível nevasca, ela acaba n u m rio congelado, presa a u m b a n c o d e gelo q u e corre e m direção a nes c a t a r a t a s - m a s é salva, no ú l t i m o i n s t a n t e , •Hl D a v i d . O m a u caráter d e S a n d e r s o n é revelado e Anna se reconcilia c o m o fazendeiro arrependido. O filme termina c o m o c a s a m e n t o dos dois. O r i t m o I ido por Griffith à narrativa c as a t u a ç õ e s t o c a n t e s de u m t a l e n t o s o elenco s u s t e n t a m

Direção: D. W . Griffith

a intensidade das

partes d r a m á t i c a s de Inocente pecadora. O final repleto dc 'ii.io, no e n t a n t o , revela u m diretor no seu auge, i.iutu na direção da seqüência ( e m parte filmada e m u m rio congelado de V e r m o n t ) q u a n t o na m o n t a g e m


EUA (Micheaux) 79 m i n . M u d o P & B Direção: Oscar Micheaux Produção: Oscar Micheaux Roteiro: Oscar Micheaux. Gene DeAnna M ú s i c a : Philip Carli Elenco: Evelyn Preer, Fio Clements, J a m e s D. Ruffin, Jack Chenault, William S m i t h , Charles D. Lucas, Bernice Ladd, Mrs. Evelyn, William

WITHIN OUR GATES

(1920)

Autor d e sucesso, editor, proprietário de terras e cineasta, Oscar M i c h e a u x é a m p l a m e n t e considerado o pai do c i n e m a afro-descendente. S e n d o apenas sua segunda incursão no c i n e m a , Within Our Gotes (Dentro de nossos portões) é u m dos 40 filmes que M i c h e a u x escreveu, dirigiu e produziu de forma i n d e p e n d e n t e entre 1919 e 1948. A l é m da narrativa e n v o l v e n t e e dos m é r i t o s artísticos, Within Our Cates possui u m i m e n s o valor histórico por ser a m a i s antiga obra preservada de u m diretor afrod e s c e n d e n t e . Poderoso, c o n t r o v e r s o e ainda perturbador e m s e u retrato das a t r o c i d a des c o m e t i d a s por a m e r i c a n o s brancos contra os negros no decorrer desta era, o f i l m e

Stark, M a t t i e Edwards, Ralph

p e r m a n e c e , n a s palavras de u m crítico, " u m poderoso e esclarecedor d o c u m e n t o c u l -

J o h n s o n , E. G. T a t u m , Grant Edwards,

tural [que] não perdeu a relevância q u e possuía e m 1920".

Grant C o r m a n , Lelgh Whipper

Produzido a p e n a s cinco a n o s a p ó s O nascimento de u m a n a ç ã o (1915), a obra-prima racista d e D. W . C r i f f i t h , Within Our Cates a c o m p a n h a a luta de Sylvia Landry (Evelyn Preer), u m a professora negra do Sul que viaja para o Norte no intuito de levantar f u n d o s para s u a escola. Porém esta é a p e n a s u m a d a s várias histórias q u e M i c h e a u x ( q u e t a m b é m escreveu o roteiro) entrelaça no seu c a t i v a n t e retrato da repressão física, psicológica e e c o n ô m i c a contra o s afro-descendentes. Poucos c o m p r e e n d e r a m Within Our Cates

c o m o M i c h e a u x gostaria; o f i l m e foi

r e p e t i d a m e n t e e d i t a d o pelos censores, q u e c o n s i d e r a r a m as cenas de e s t u p r o e l i n c h a m e n t o provocativas d e m a i s e m vista dos protestos raciais que ocorreram e m 1919 e m Chicago. Depois de ficar 70 a n o s perdido, Within Our Cates

foi redescoberto na

Filmoteca Espanhola, e m M a d r i , e restaurado logo e m seguida. S J S


A CARRUAGEM FANTASMA

(1921)

P&B

(KÕRKARLEN) 'i m u n d i a l q u a n d o l a n ç a d o , A carruagem fantasma

n ã o só e s t a b e l e c e u a

iliietor-escritor-ator Victor S j õ s t r õ m e a do c i n e m a m u d o sueco c o m o t a m b é m • ei

ma b e m d o c u m e n t a d a influência artística e m m u i t o s g r a n d e s diretores e o

Suécia (Svensk AB) 93 m i n . M u d n

m a i s f a m o s o e l e m e n t o do f i l m e é s e m dúvida a r e p r e s e n t a ç ã o do

•.|iiiitual c o m o u m aflitivo l i m b o entre o Céu e a Terra. A s e q ü ê n c i a e m q u e o I H . i . i - o odioso e a u t o d c s t r u t i v o alcoólatra David H o l m (Sjõstrõm) - acorda à " ' i i i ' do Ano-Novo a p e n a s para olhar para o próprio cadáver, s a b e n d o q u e está 11 i i l " ao Inferno, é u m a s das m a i s c i t a d a s da história do c i n e m a . • de u m a série de sobreposições simples, porém trabalhosas e meticulosair..nadas, o cineasta, seu fotógrafo e o chefe do laboratório criaram a ilusão nslonal de u m m u n d o f a n t a s m a g ó r i c o q u e foi a l é m de qualquer coisa vista no

Direção: Victor Sjõstrõm P r o d u ç ã o : Charles M a g n u s s o n Roteiro: Victor Sjõstrõm, baseado no livro de Selma Lagerlöf Fotografia: Julius Jaenzon Elenco: Victor Sjõstrõm, Hilda Borgström, Tore Svennberg, Astrid H o l m , Concórdia Seiander, Lisa L u n d h o l m , Tor W e i j d e n , Einar Axelsson, Olof Äs, Nils Ähren. S i m o n Lindstrand, Nils Elffors, Algot G u n n a r s s o n , Hildur I iiliiii.in. John Ekman

i i r e n t ã o . M a i s i m p o r t a n t e , talvez, seja a narrativa complexa, p o r é m acessível, ic poi m e i o de u m a série de flashbacks - e até de flashbacks d e n t r o d e flashbacks leva esta vigorosa história de pobreza e degradação à excelência poética. 11111 n n i p a r a ç ã o c o m as obras anteriores de S j õ s t r õ m , A carruagem f a n t a s m a é u m a I H teológica e filosófica d o s t e m a s sociais a p r e s e n t a d o s e m Ingeborg Ho/m, sua 1 ,1 estréia d e 1913. O s dois f i l m e s r e t r a t a m a paulatina destruição da dignidade na e m u m a s o c i e d a d e fria e cruel, levando suas v í t i m a s à b r u t a l i d a d e e à loucura. In entre as duas obras é reforçada pela presença de Hilda B o r g s t r õ m , inesqueo m o Ingeborg H o l m e, a q u i , n o papel d e u m a esposa a t o r m e n t a d a - outra perada Sra. H o l m . Neste f i l m e , ela n o v a m e n t e faz o papel da m ã e pobre q u e se • i " iiiiinha para o suicídio o u para a vida e m u m hospício. Passados cerca d e 80 a n o s , a i n g e n u i d a d e religiosa q u e é central a o r o m a n c e fiela d a p t a d o de S e l m a Lagerlbf pode, vez por . 1 . levar a o riso u m e s p e c t a d o r leigo. Porém as '

es contidas e " r e a l i s t a s " e o d e s t i n o s o m b r i o l'ri',onagens principais, cujo desenlace é q u a s e

1 ' r i i 11

exceto o final m e l o d r a m á t i c o -, n u n c a dei-

im d e impressionar. M T

l'i


EUA (D. w . Griffith) 150 m i n . M u d o P&B Direção: D. W. Griffith Produção: D. W. Griffith Roteiro: D. W . Griffith, baseado na

ORFAOS DA TEMPESTADE

(1921)

(ORPHANS OFTHE ST0RM) O ú l t i m o dos arrebatadores m e l o d r a m a s históricos d e D. W. Griffith, Órfãos da tempestade conta a história de d u a s j o v e n s presas no turbilhão da Revolução Francesa. Lillian e

peça The Two Orphans, de Eugène

Dorothy Gish interpretam Henriette e Louise Girard, duas crianças q u e se t o r n a m " i r -

Cormon e Adolphe d'Ennery

m ã s " q u a n d o o pai empobrecido de Henriette, pensando em abandonar sua filha às por-

Fotografia: Paul H. Allen, G. W . Bitzer,

t a s d e u m a igreja, encontra Louise e, m o v i d o pela c o m p a i x ã o , passa a criar as duas m e -

Hendrik Sartov

ninas. Infelizmente, seus pais m o r r e m por causa da peste e elas f i c a m órfãs ainda j o -

M ú s i c a : Louis F. Gottschalk, William

vens. M a i s tarde, u m a doença deixa Louise cega; então as garotas v ã o para Paris e m b u s -

F. Peters Elenco: Lillian Gish, Dorothy Glsh, Joseph Shildkraut, Frank tosee, Katherine E m m e t , Morgan Wallace, Lucille La Verne, Sheldon Lewis, Frank

ca d e cura. Chegando lá, a c a b a m se separando. Henriette, raptada pelo capanga de u m m a l v a d o aristocrata, é ajudada por u m belo nobre, Vaudrey (Joseph Schildkraut). Louise é salva por u m j o v e m bondoso ao cair no rio Sena, porém, a o ser levada para a casa dele, é colocada para trabalhar pelo i r m ã o cruel do h o m e m . A partir daí, e m b a r c a m n u m a

Puglia, Creighton Hale, Leslie King,

série d e aventuras, incluindo prisão na Bastilha, condenação à m o r t e durante o período

M o n t e Blue, Sidney Herbert, Lee

do Terror e s a l v a m e n t o da guilhotina pelo político D a n t o n ( M o n t e Blue), cujo discurso

Kohlmar, Mareia Harris

defendendo o f i m da carnificina é u m dos m o m e n t o s mais apaixonantes do filme. E m b o r a b a s e a d o c m u m a peça q u e obtivera s u c e s s o na d é c a d a anterior, G r i f f i t h e s c r e v e u o roteiro d u r a n t e as f i l m a g e n s . Apesar d a s c o m p l i c a ç õ e s d e c o r r e n t e s d i s s o , Órfãos da tempestade c u m a obra-prima e m t e r m o s d e e n c e n a ç ã o e d e s e m p e n h o do e l e n c o , c o m as i r m ã s Gish a p r e s e n t a n d o talvez as m e l h o r e s a t u a ç õ e s d e s u a s carreiras. R B P

França 54 m i n . M u d o P & B Direção: Germaine Dulac Roteiro: Denys Amiel, André Obey Fotografia: Maurice Forster, Paul Parguel Elenco: Alexandre Arqulllière,

A SORRIDENTE MADAME BEUDET

(1922)

(LA SOURIANTE MADAME BEUDET) O célebre filme d e G e r m a i n e Dulac c conhecido c o m o u m dos primeiros exemplos t a n t o do c i n e m a feminista q u a n t o d o e x p e r i m e n t a l . A t r a m a retrata a vida de u m a entediada dona de casa provinciana presa e m u m sufocante c a s a m e n t o burguês. No e n t a n t o , o

Germaine Dermoz, Jean d'Yd,

e l e m e n t o m a i s c a t i v a n t e d e A sorridente madame

Madeleine Guitty

seqüências de sonho e m q u e a dona de casa do título ( G e r m a i n e Dermoz) fantasia u m a

Beudet é c o m p o s t o pelas elaboradas

vida fora dos limites da sua existência m o n ó t o n a . U s a n d o efeitos especiais radicais e técnicas de m o n t a g e m , Dulac incorpora alguns dos e l e m e n t o s estéticos de vanguarda da época para contrastar o poder f e m i n i n o rico e vigoroso da vida imaginária de m a d a m e B e u d e t c o m o tédio da rotina c o m p a r t i l h a d a c o m s e u m a r i d o (Alexandre Arquillière). Q u a n d o a complexa e l a b o r a ç ã o visual da sua potencial libertação

pela

fantasia - a única coisa capaz d e colocar u m sorriso e m s e u rosto - é frustrada pelo s u r g i m e n t o do m a r i d o e m seus d e v a n e i o s , resta-lhe a p e n a s u m a s o l u ç ã o : matá-lo. I n f e l i z m e n t e , a tentativa de assassinar o m a r i d o é t a m b é m i n c o m p r e e n d i d a , u m a vez q u e m a d a m e B e u d e t n ã o c o n s e g u e n e m m e s m o fazer c o m q u e m o n s i e u r BeudcL perceba suas i n t e n ç õ e s . E m ú l t i m a análise, Dulac n ã o só aborda e x p l i c i t a m e n t e a opressiva alienação das m u l h e r e s no sistema patriarcal c o m o , o que é mais i m p o r t a n t e , utiliza a ainda nova mídia c i n e m a t o g r á f i c a para oferecer aos espectadores u m a perspectiva f e m i n i n a subjetiva e radical. Isso levou seu f i l m e a ser incluído no primeiro Festival d e Cinema F e m i n i n o realizado e m 1972 e m Nova York. C O


Dlt MABUSE

0922)

(DK MABUSE, DER SPIELER)

I H duas partes a l c a n ç o u u m e n o r m e sucesso c o m e r c i a l na A l e m a n h a e m

I H iluvida por atirar para t o d o s os l a d o s , incluindo a ç ã o m i r a b o l a n t e , terror, ii Ira, sexo (com direito a cenas d e nudez!), m a g i a , psicologia, arte, violência, eleitos especiais. Visto q u e as picardias de F a n t ô m a s (e até d e Fu M a n c h u ) se naquele l i m b o entre o surreal e o t o s c o , Dr. M n b u s c se propôs d e s d e o Início a i

-In que u m t h ri I ler e s p a l h a f a t o s o : o f i l m e é uma crítica d i r e c i o n a d a , utilizando i de u m supereriminoso m e s t r e d o s disfarces para personificar o s verdadeiros

I H iii

da sua época. i i l i i i i u l o s de cada u m a das d u a s partes do f i l m e , q u e f a z e m alarde sobre o i' 1111><>", frisam a q u e s t ã o q u e já fica clara na seqüência de a b e r t u r a , e m que a dr M.ibuse (Rudolf Kleln-Rogge) rouba u m acordo c o m e r c i a l entre a Suíça e a i

não para fazer uso da I n f o r m a ç ã o secreta, m a s para criar u m caos moiiii m e r c a d o de ações que p e r m i t e a M n b u s c , disfarçado c o m o u m plutocrata

nhn . m i m a d o , enriquecer d e u m a hora para a outra. Ele t a m b é m contrata u m ilc regos c o m o falsificadores, a u m e n t a n d o a sensação d o s e s p e c t a d o r e s alei' 1Mli a de que seu dinheiro não valia nada. (Prevendo isso, M a b u s e m a n d a seus 1

passarem a falsificar dinheiro a m e r i c a n o , já q u e marcos a u t ê n t i c o s v a l i a m

Universum) 95 m i n . (parte 1). 100 m i n . (parte 2) M u d o P & B Direção: Fritz Lang Produção: Erich Pommer Roteiro: Norbert Jacques, Fritz I -iiir, Thea von Harbou Fotografia: Carl H o f f m a n n M ú s i c a : Konrad Elfers Elenco: Rudolf Klein-Rogge, Alfred

ilo que dólares falsos.) 11 vil.lo do t í t u l o e m b a r a l h a fotografias c o m o se f o s s e m c a r t a s de baralho, seiiido .1 i d e n t i d a d e q u e iria a s s u m i r n o dia e os disfarces q u e deveria usar. N o i, passam-se q u a s e duas horas até que seu n o m e " r e a l " seja c o n f i r m a d o - a essa l l l u u , |â v i m o s M a b u s e e m v á r i o s o u t r o s disfarces, d e s d e r e s p e i t a d o

psiquiatra,

In por jogador degenerado, a t é gerente d e hotel. Na segunda parte, e l e surge um ilusionista de u m braço só e, f i n a l m e n t e , perde o c o n t r o l e de sua frágil Lide, lornando-se u m louco m e g a l ó m a n o , a t o r m e n t a d o pelos f a n t a s m a s daipie m a t o u e, e m u m a p a s s a g e m q u e impressiona a t é h o j e , pelas e n o r m e s e as e s t á t u a s e pela m a q u i n a r i a q u e g a n h a m vida e m seu derradeiro covil. Fritz i ing i' mil rós diretores retornariam a M a b u s e , personagem que personifica os m a l e s da M U época - c o m ê n f a s e para o f i l m e falado O testamento do Dr. Mabuse c o m e l o d r a m a p i m i a g e m high-tech Os mil olhos do Dr. Mabuse.

A l e m a n h a (Uco-Film/ Ullstein/

KN

Abel, Aud Egede Nissen, Gertrude Welcker, Bernhard Coetzke. K u h n 1 Forster-Larrinaga, Paul Rite1111• 1 II. Hans Adalbert Schlettow. Georg lohn Grete Berger, Julius F a l k c n s l n n . Lydia Potechina, Anita Berber, Paul Biensfeldt, Karl Platen


EUA (Les Frères Revillon, Pathé) 79 m i n . M u d o P & B Direção: Robert J . Flaherty Produção: R o b e r t ) . Flaherty Roteiro: Robert J . Flaherty Fotografia: Robert J . Flaherty M ú s i c a : Stanley Silverman

NANOOK, 0 ESQUIMÓ

(1922)

(NANOOK OF THE NORTH) A história d o c i n e m a " d o c u m e n t á r i o " - u m a a b o r d a g e m q u e g e r a l m e n t e imagina-se envolver o registro d e u m a realidade e s p o n t â n e a por parte do cineasta - c o m e ç a , na v e r d a d e , c o m a i n v e n ç ã o do próprio c i n e m a . No e n t a n t o , o rótulo de " p a i d o s d o c u m e n t á r i o s " é h a b i t u a l m e n t e concedido a Robert J . Flaherty. Criado perto da fronteira

Elenco: Nanook, Nyla, Cunayou,

EUA-Canadá, desde p e q u e n o Flaherty adorava explorar as terras mais r e m o t a s e, depois

Allee, Allegoo, Berry Kroeger

de concluir os e s t u d o s , foi trabalhar c o m o garimpeiro no extremo norte do Canadá.

(narrador -1939, relançamento)

A n t e s d e u m a d e suas v i a g e n s , a l g u é m sugeriu que ele levasse u m a câmera de c i n e m a . No decorrer dos anos s e g u i n t e s , Flaherty filmaria horas de material t a n t o sobre a terra c o m o sobre seus h a b i t a n t e s e, e m 1916, c o m e ç o u a mostrar suas gravações e m exibições particulares e m Toronto. A s f i l m a g e n s f o r a m recebidas c o m e n t u s i a s m o , p o r é m , q u a n d o Flaherty estava prestes a enviá-las para os Estados U n i d o s , deixou cair u m a c i n za d e cigarro sobre o negativo c t o d o ele - m a i s d e 9 m i l m e t r o s - pegou fogo. Flaherty levou a n o s para arrecadar f u n d o s para v o l t a r ã o norte e filmar n o v a m e n t e ; q u a n d o c o n s e g u i u (graças a o s i r m ã o s Revillon, peleteiros franceses), decidiu concentrar-se e m N a n o o k . u m f a m o s o guerreiro i n u í t e . Baseando-se n a s l e m b r a n ç a s do q u e havia f i l m a d o de melhor, Flaherty " d i r i g i u " os a c o n t e c i m e n t o s q u e seriam incluídos no f i l m e , entre eles a l g u m a s coisas que N a n o o k fazia com freqüência, a l g u m a s que nunca fizera a n t e s e outras que c o s t u m a v a fazer, m a s há m u i t o não fazia. O resultado foi o p r o f u n d a m e n t e influente - porém s e m p r e controverso - Nanook, o

esquimó.


i Ir de v i n h e t a s q u e d e t a l h a m a vida de N a n o o k e sua família no decorrer de I H . m a s , o f i l m e de Flaherty é u m a espécie de ode r o m â n t i c a à c o r a g e m e i h u m a n a s diante de u m a natureza esmagadora e e s s e n c i a l m e n t e hostil, li N.inook ter a honra de dar n o m e ao f i l m e , o que m u i t o s e s p e c t a d o r e s guari' inlii.inca é a fúria arbitrária da p a i s a g e m ártica. Na v e r d a d e , o f i l m e g a n h o u Muic (para não dizer trágico) i m p u l s o publicitário q u a n d o foi revelado

que

n.i família h a v i a m de fato morrido durante u m a violenta nevasca pouco deii U l m e ser c o n c l u í d o , o que dá à extraordinária e já poderosa ú l t i m a s e q ü ê n c i a i i família procura abrigo de u m a t e m p e s t a d e - u m a terrível p u n g ê n c i a , esl udiosos de c i n e m a c o n t e m p o r â n e o s c r i t i c a m o f i l m e por boa parte dele -

nada para a c â m e r a - m u i t a s vezes é quase possível ouvir Flaherty d a n d o para N a n o o k e os d e m a i s -, porém os m u i t o s defensores da obra no decorrer

Ur,, entre eles André B a z i n , a p o n t a m de forma inteligente q u e a m a i s n o t á v e l i i.i de Flaherty é a maneira c o m o ele parece c a p t a r a textura da vida cotidiana • > <.111• l.i-. pessoas. Os d e t a l h e s da caça à morsa - se são o u não u s a d a s a r m a s e q u a n d o ' I H m e n o s i m p o r t a n t e s do que a decisão do diretor de s i m p l e s m e n t e acompaiii plano aberto o lento nado de N a n o o k e m direção à sua presa. Se o rosto i iil

de N a n o o k e n q u a n t o aquece a m ã o do filho é u m a a t u a ç ã o , e n t ã o ele é u m IH iics atores de c i n e m a da história. I n d e p e n d e n t e m e n t e de c o m o v o c ê o classlfldoi iMnentãrio, ficção o u u m a e s p é c i e de híbrido -, Nanook, o esquimó c o n t i n u a

i ii.In u m dos poucos f i l m e s que m e r e c e m p l e n a m e n t e a a l c u n h a de clássico. R P


Alemanha (Jofa-Atelier BerlinJohannisthal, Prana-Film) 94 m i n . Mudo P & B Direção: F. W . M u r n a u Roteiro: Henrik Galeen Fotografia: Günther Krampf, Fritz Arno Wagner M ú s i c a : J a m e s Bernard (versão restaurada) Elenco: Max Schreck, Alexander Granach, Gustav von W a n g e n h e l m , Greta Schröder, Georg H. Schnell, Ruth Landshoff, J o h n G o t t o w t , Gustav Botz, Max Nemetz, Wolfgang Heinz, Guido Herzfeld, Albert Venohr, Hardy von François

NOSFERATU, UMA SINFONIA DO HORROR (1922)

(NOSFERATU, EINE SYMPHONIE DES GRAUENS) Oráculo, d e B r a m Stoker, inspirou u m dos m a i s impressionantes filmes m u d o s já feitos. A obra adaptada e a mídia cinematográfica parecem casar de m o d o quase sobrenatural. O r o m a n c e d e Stoker, escrito e m sua maior parte na f o r m a d e u m a série d e c a r t a s , possui p o u c o s diálogos tradicionais e m u i t a s descrições, o q u e é perfeito para a narrativa e s s e n c i a l m e n t e visual dos f i l m e s m u d o s . Faz sentido q u e u m a história sobre o eterno conflito entre a luz e as t r e v a s seja transposta para u m f o r m a t o q u e consiste q u a s e i n t e i r a m e n t e na interação entre luz e sombra. O diretor F. W . M u r n a u já havia se estabelecido c o m o u m astro do m o v i m e n t o expressionista a l e m ã o q u a n d o decidiu adaptar o r o m a n c e d e Stoker, rebatizado de Nosferatu após a m e a ç a s legais dos herdeiros do autor. Na verdade, depois de concluído, o f i l m e escapou por pouco de u m a ordem judicial para que todas as cópias fossem d e s truídas. Entretanto, no f i m das c o n t a s , poucas coisas foram alteradas e m relação ao r o m a n c e de Stoker, exceto os n o m e s dos personagens, e o sucesso de Nosferatu acabou g e rando dezenas de subseqüentes (e e m sua maioria autorizadas) adaptações d e Dtácula. Ainda a s s i m , Nosferatu,

m e s m o passados t a n t o s a n o s , se destaca da maioria dos

filmes baseados no livro. U m a diferença essencial é a s u r p r e e n d e n t e presença d e M a x Schreck, cujo s o b r e n o m e significa " m e d o " . Schreck interpreta o v a m p i r o do t í t u l o c o m u m a simplicidade q u a s e s e l v a g e m . Sua criatura da noite pouco difere dos ratos sob s e u c o m a n d o , arrastando-se i n s t i n t i v a m e n t e e m direção a qualquer traço de s a n g u e c o m uma ânsia q u a s e incontida. Isso explica o terror de Hutter (Gustav v o n W a n g e n h e i m ) , que viaja para o castelo isolado do c o n d e Orlok (Schreck) no alto d o s M o n t e s Cãrpatos para ajudar o e s t r a n h o h o m e m a resolver alguns p r o b l e m a s legais. A simples m e n ç ã o do n o m e Orlok faz os moradores da cidade se calarem de |

S

m e d o e os t e m o r e s de Hutter se a p r o f u n d a m q u a n d o ele descobre q u e n ã o há n i n g u é m c o n d u z i n d o a c a r r u a g e m q u e o leva a t é o castelo. O próprio Orlok n ã o o tranqüiliza n e m u m pouco. Seus horários são estranhos e ele m a n t é m Hutter preso e m u m a torre. Temendo por sua vida - p r i n c i p a l m e n t e e m razão da sede d e s a n g u e do seu raptor -, ele escapa e retorna a B r e m e n , na A l e m a n h a . Porém Orlok o segue, interessado n ã o e m Hutter, m a s e m sua i n o c e n t e esposa, Eilen (Greta Schrõder): " S u a m u l h e r t e m u m belo pescoço", c o m e n t a o c o n d e . Da m e s m a forma q u e sua ligação c o m Hutter a ajuda a resgatá-lo das garras de Orlok, Eilen descobre q u e t a m b é m lhe cabe atrair a criatura a t é a sua (definitiva) extinção: ser vaporizada pelos raios do sol n a s c e n t e . Com Nosferatu,

M u r n a u criou a l g u m a s d a s m a i s duradouras e a p a v o -

rantes i m a g e n s do c i n e m a : o conde Orlok a rastejar por seu castelo, proj e t a n d o s o m b r a s a s s u s t a d o r a s e n q u a n t o persegue Hutter: Orlok erguendose rijo do seu caixão; o c o n d e , atingido por u m raio de sol, encolhendo-se d e horror antes de desaparecer. Ele t a m b é m introduziu diversos m i t o s sobre v a m p i r o s que não só a l i m e n t a m outros f i l m e s sobre Drácula c o m o t a m b é m p e r m e i a m a cultura popular. J K L


Dinamarca/Suécia (Aljosha, Svensk) 87 m i n . M u d o P & B Direção: Benjamin Christensen Roteiro: Benjamin Christensen Fotografia: Johan Ankerstjerne M ú s i c a : Launy Grondahl (1922), Emil Reesen (versão de 1941)

HAXAN- A FEITIÇARIA ATRAVÉS DOS TEMPOS

(1923)

(HÄXAN)

Hdxan - A feitiçaria

através dos tempos, célebre " d o c u m e n t á r i o " de 1922 do pioneiro

cineasta d i n a m a r q u ê s B e n j a m i n Christensen, é u m bizarro f i l m e m u d o q u e explora as

Elenco: Elisabeth Christensen. Astrid

origens da feitiçaria e do s a t a n i s m o desde a Pérsia antiga a t é os t e m p o s m o d e r n o s ;

H o l m , Karen Winther, Maren

época, utilizando vários recursos cinematográficos q u e incluem stills, m a q u c t e s e r e -

Pedersen, Ella La Cour, Emmy

constituições de época. Trata-se d e u m f i l m e difícil d e definir, que desafia todas as c o n -

5ch0nfeld, Kate Fabian, Oscar

venções de gênero, e s p e c i a l m e n t e aquelas do d o c u m e n t á r i o , q u e , no c o m e ç o da década

Stribolt, Clara Pontoppidan, Else Vermehren, Alice O'Fredericks, Johannes Andersen, Elith Pio, Aage Hertel, Ib Schonberg

de 1920, ainda eram a m o r f a s e indistintas. E m parte u m diligente exercício a c a d ê m i c o que correlaciona m e d o s remotos c o m interpretações equivocadas sobre doenças m e n tais e e m parte u m luxurioso f i l m e d e terror, Hdxan é u m a obra verdadeiramente única que ainda m a n t é m o poder de aterrorizar m e s m o na era anestesiada e m que v i v e m o s . Para dar vida a o seu t e m a , Christensen preenche os q u a d r o s c o m t o d a s as i m a g e n s assustadoras q u e c o n s e g u e evocar de registros históricos, m u i t a s vezes m i s t u r a n d o s e m pudores fatos reais e f a n t a s i a . V e m o s u m a velha bruxa encarquilhada tirar a m ã o decepada e d e c o m p o s t a d e a l g u é m do m e i o de u m feixe de gravetos. Há m o m e n t o s c h o c a n t e s e m q u e t e s t e m u n h a m o s u m a m u l h e r d a r à luz dois e n o r m e s d e m ô n i o s , assistir a u m sabá e ser l o n g a m e n t e torturada por inquisidores. A c o m p a n h a m o s u m a i n t e r m i n á v e l procissão d e d e m ô n i o s d e todos os t a m a n h o s e f o r m a s , a l g u n s m a i s o u m e n o s h u m a n o s , outros q u a s e t o t a l m e n t e a n i m a i s - porcos, pássaros d e f o r m a d o s , gatos e a f i n s . Christensen foi c e r t a m e n t e u m visionário do c i n e m a e tinha u m a aguçada noção dos poderosos efeitos da mise-enscène. Embora Hdxan g e r a l m e n t e seja citado c o m o u m e s s e n cial precursor de f i l m e s m o d e r n o s sobre possessão d e m o níaca, c o m o O exorcista (1973), ele t a m b é m traz à m e n t e O massacre da serra elétrica (1974) e seu eficiente uso de objetos cênicos e detalhes para criar u m a a t m o s f e r a e n v o l v e n t e de violência e m p o t e n c i a l . Hõxan é u m f i l m e q u e deve ser visto mais

d e u m a v e z para

q u e se aprecie a t o t a l i d a d e da

cenografia - a utilização sinistra d o s objetos de cena, os cenários claustrofóbicos e a i l u m i n a ç ã o chiaroscuro q u e a j u da a criar o clima. N ã o é de e s p a n t a r q u e os surrealistas t e n h a m g o s t a d o t a n t o desse f i l m e e que ele tenha sobrevivido até o f i m da década de 1960, q u a n d o foi relançado c o m o midnight

movie, c o m a narração de n i n g u é m m e n o s do q u e

W i l l i a m S. B u r r o u g h s . J k e


I srOSAS INGÊNUAS (1922)

EUA (Universal) 85 m i n . M u d o PS Direção: Erich von Stroheim

( i m i i i S H WIVES) c maldição

Roteiro: M a r i a n Ainslee, W a l t r i

seja o f i l m e m a i s f a m o s o de Erich v o n S t r o h e i m , Esposas

11.1 obra-prima. Da m e s m a forma q u e Ouro e maldição, li.

este f i l m e foi

reeditado, p o r é m o q u e p e r m a n e c e u ( e s p e c i a l m e n t e depois da impor-

1111 11,10 de 1972) é u m a obra m a i s c o m p l e t a c c o n s i s t e n t e . O próprio S t r o h e i m 1.10 i i i c s t rupuloso c o n d e K a r a m z i n , u m pseudo-aristocrata q u e vive e m M o n t e planeja s e d u z i r a esposa negligenciada d e u m d i p l o m a t a a m e r i c a n o . Ulme sagaz e de u m a o b j e t i v i d a d e implacável c o n f i r m a seu diretor c o m o o hn

m d e ironista do c i n e m a . O anti-herói Karamzin é a p r e s e n t a d o c o m o u m a .1

a b s u r d a m e n t e t o l o , d e s c a r a d a m e n t e hipócrita, s e m critério a l g u m no

Anthony, Erich v o n Stroheim Fotografia: W i l l i a m H. Daniels, Ben F. Reynolds M ú s i c a : S i g m u n d Romberg Elenco: Rudolph Christians, M i s DuPont, M a u d e George, M a r B U M I Erich von Stroheim, Dale Fuller, AL E d m u n s e n , Cesare Gravina, Malvin Polo, Louis K. W e b b , M r s . Kent, C. J . Allen, Edward Reinach

I n para mulheres e, q u a n d o o circo pega fogo, de u m a covardia desprezível -, Ir e seus colegas d e c a d e n t e s s ã o m u i t o mais divertidos do q u e o m a r i d o 11 IH 1 lírio de v i r t u d e s e sua esposa insossa. O t o m de fria indiferença do f i l m e é iilii pela elaboração exaustiva do m u n d o q u e cerca os p e r s o n a g e n s , a r t i c u l a n d o o iliavés de estratégias visuais (como c a m a d a s sobrepostas d e p r o f u n d i d a d e , 1 a i i o s periféricos e arranjos m ú l t i p l o s ) que dão a o e s p e c t a d o r u m a perspectiva I r i o d o o panorama das cenas. S t r o h e i m pega pesado, c o l o c a n d o a m e r i c a n o s I. a e inexpressivos e m espaços i g u a l m e n t e s e m graça e inexpressivos; a l é m .10 raros os planos que não e n c a n t a m c o m sua interação rica e brilhante entre 1 1 . l l i . " . , i l u m i n a ç ã o , gestos e m o v i m e n t o s . M R

NOSSA HOSPITALIDADE (1923)

EUA (Joseph M . Schenck) 74 m i n . Mudo P & B

(OUR HOSPITALITY)

Direção: J o h n G. Blystone. \'.u-.\r\

oi i v r l m e n t e , u m f i l m e t ã o b o m q u a n t o o m a i s f a m o s o A general (1927), Nossa hosp i t a l i d a d e - u m a magistral sátira de Buster K e a t o n aos c o s t u m e s sulistas tradicionais iça c o m u m prólogo d r a m á t i c o e b e m e n c e n a d o q u e estabelece o s absurdos p i r t m e t r o s da a n t i q u í s s i m a

rixa entre d u a s f a m í l i a s . Q u a n d o a história

principal

ime a narrativa, v e m o s Willie M c K a y , o p e r s o n a g e m d e Buster, u m i n o c e n t e rapaz d l vinte e poucos a n o s , criado e m Nova York, v o l t a n d o à sua c i d a d e d e o r i g e m (graças a hilária odisséia e n v o l v e n d o u m t r e m primitivo). P o r é m , ao cortejar u m a garota im ( o n h e c e u no c a m i n h o - e q u e calha ser filha do clã ainda d e t e r m i n a d o a derramar RÓ .angue -, ele se coloca e m perigo m o r t a l , embora a h o s p i t a l i d a d e sulista obrigue •.rir. i n i m i g o s a tratá-lo b e m e n q u a n t o estiver e m sua casa. M u i t o do h u m o r que se segue v e m da situação irônica de Willie decidir permanecer 10 hóspede daqueles que q u e r e m matá-lo, e n q u a n t o seus inimigos t e n t a m forçá-lo a partll com sorrisos nos rostos. A graça de Keaton se baseia não apenas e m gags isoladas, i n . i s e m u m grande d o m í n i o do personagem, do problema, da época, do lugar e dos r i i ( | u a d r a m e n t o s (um exemplo é a maneira c o m o ele m a n t é m a câmera e m m o v i m e n t o depois de cair da ridícula bicicleta que ela a c o m p a n h a paralelamente); o resultado é não apenas m u i t o engraçado c o m o t a m b é m rico e m dramaticidade e s u s p e n s e - e m especial na m e r e c i d a m e n t e célebre seqüência e m q u e Willie salva sua a m a d a de cair de u m a i.ichoeira. Nunca o U r n i n g de Keaton foi tão miraculoso e, ao m e s m o t e m p o , sua habilidade de evocar risadas e e m o ç ã o tão gloriosamente clara. G A

Keaton Produção:Joseph M.Schenck Roteiro: Clyde B r u c k m a n , J e a n C. Havez Fotografia: Gordon Jennings, Elgin Lessley Elenco: Joe Roberts, Ralph Bushmi Craig W a r d , M o n t e Collins, J o e Keaton, Kitty Bradbury, Natalie Talmadge, Buster Kr. Buster Keaton

1 H


França (Abel Canee) 273 m i n . M u d o P&B Direção: Abel Gance Produção: Abel Canee, Charles Pathé Roteiro: Abel Canee Fotografia: Gaston Brun, Marc Bujard, Léonce-Henri Burel, Maurice Duverger M ú s i c a : Arthur Honegger Elenco: Severin-Mars, Ivy Close, Gabriel de Gravone, Pierre Magnier,

A RODA (1923) (LA ROUE)

A ioda, do visionário cineasta francês Abel C a n c e , começa com u m espetacular acidente de t r e m e m cortes rápidos, t ã o revolucionário para os espectadores e m 1922 q u a n t o o t r e m dos i r m ã o s Lumière c h e g a n d o a u m a estação e m 1895. O ferroviário Sisif (SeverinMars) salva Norma (Ivy Close) do a c i d e n t e e a cria c o m o sua filha. Ele e seu filho Elie (Gabriel de Gravone) se e n c a n t a m por ela, d e m o d o q u e Sisif a casa c o m u m h o m e m rico. N o r m a e Elie a c a b a m se apaixonando e t a n t o s e u m a r i d o q u a n t o s e u a m a n t e m o r r e m e m u m a briga. Sisif fica cego e morre, depois d e ser cuidado por N o r m a . Desde a época e m q u e foi feito a t é hoje, este f i l m e , q u e o r i g i n a l m e n t e teria nove

Gil Clary, Max M a x u d i a n ,

horas d e duração, gera controvérsias. A t r a m a m e l o d r a m á t i c a d e A roda foi c o m b i n a d a

Georges Térof

c o m as m a i s diversas referências literárias. Incluindo a tragédia grega, c o n f o r m e sugerido pelo n o m e d e Sisif (Sísifo) e pela associação d e sua cegueira c o m o desejo incestuoso (Édipo). Intelectuais consideraram q u e essas " p r e t e n s õ e s " e n t r a v a m e m conflito c o m as extraordinárias técnicas c i n e m a t o g r á f i c a s do f i l m e ( c o m o a m o n t a g e m acelerada e as seqüências b a s e a d a s e m ritmos m u s i c a i s ) , q u e r e l a c i o n a v a m a obra às preocupações v a n g u a r d i s t a s c o m u m c i n e m a " p u r o " e o interesse dos cubistas nas m á q u i n a s c o m o símbolo da m o d e r n i d a d e . As contradições do f i l m e se j u n t a m de forma a d m i r á v e l e m torno da sua metáfora central: a roda do destino (a í n g r e m e ferrovia leva Sisif/Sísifo a subir e descer o M o n t Blanc), a roda do desejo, a roda do próprio f i l m e c o m seus diversos padrões cíclicos. P P

EUA (Douglas Fairbanks) 155 m i n . M u d o P & B (colorizado) Direção: Raoul Walsh Produção: Douglas Fairbanks

0 LADRÃO DE BAGDÁ

(1924)

(THE THIEFOF BAGDAD) O ladrão de Bagdá marcou o ápice da carreira de Douglas Fairbanks c o m o o maior dos h e -

Roteiro: Douglas Fairbanks, Lotta

róis de capa e espada. Este t a m b é m é, v i s u a l m e n t e falando, u m dos mais surpreendentes

Woods

filmes d e todos os tempos, u m a concepção ímpar de u m gênio da cenografia, W i l l i a m

Fotografia: Arthur Edeson

Cameron Menzies. Construindo uma Bagdá mítica e m u m a locação de 6,5 acres (a maior

Música: Mortimer Wilson

da história de Hollywood), Menzies criou u m m u n d o resplandecente e mágico, t ã o

Elenco: Douglas Fairbanks, Snitz

intangível e, a o m e s m o t e m p o , t ã o real e inebriante q u a n t o u m sonho, c o m seus pisos

Edwards, Charles Belcher, Julanne

espelhados, imponentes minaretes, tapetes voadores, dragões ferozes e cavalos alados.

J o h n s t o n , Sojin, Anna M a y W o n g , Brandon Hurst, Tote Du Crow, Noble Johnson

No papel do ladrão A h m e d e m busca de sua princesa, Fairbanks - de peito n u e c o m roupas j u s t a s d e seda - explorou u m a nova f o r m a de erotismo e m sua persona c i n e m a t o g r á f i c a e e n c o n t r o u u m a co-estrela à altura e m Anna M a y W o n g , q u e interpreta a escrava m o n g o l . Embora a direção seja creditada a o t a l e n t o s o Raoul W a l s h , o conceito geral d e O ladrão de Bagdá pertence ao próprio Fairbanks, q u e foi produtor, roteirista, estrela, duble e s h o w m a n de ilimitada a m b i ç ã o . (Nota: o príncipe persa não creditado no f i l m e é interpretado por u m a mulher, M a t h i l d e Comont.) D R

M


A Í;REVE

(1924)

U R S S (Coskino, Proletkult) 82 min, Mudo P & B

|N I A(.liKA) I !•.nistein f o i , e m todos os a s p e c t o s , u m revolucionário, forjando u m a n i i ' nova l i n h a g e m d e c i n e m a baseada na m o n t a g e m a partir d e u m a f u s ã o lilipsnlla marxista, a estética construtivista e sua própria f a s c i n a ç ã o pelos i (inflitos e contradições visuais inerentes à d i n â m i c a dos f i l m e s . IH

primeiro f i l m e , foi i n i c i a l m e n t e concebido c o m o a primeira d e u m a

i r . .obre a ascensão do d o m í n i o marxista-leninista. A censura por parte do M I O soviético frustrou m u i t o s dos s o n h o s de Eisenstein nos a n o s seguintes e M I H I ,i foi a l é m da sua primeira produção. No e n t a n t o , A greve, c o m sua ener' ' i. se sustenta c o m o u m tour de force de expressiva p a n f l e t a g e m e c o m o no qual idéias s e m i n a i s para suas posteriores obras-primas m u d a s - O " in/n 1'otemkin (1925), Outubro (1927) e O ve/ho e o novo (1928) - f o r a m t e s t a d a s e Htln.iil.iv i r t r a t a u m l e v a n t e operário e m u m a fábrica russa, o n d e os trabalhadores ig.idos à rebelião pela ganância e d e s o n e s t i d a d e dos patrões. V e m o s u m a fervlllunii

i n q u i e t a ç ã o entre os trabalhadores, u m a traição q u e o s força a agir, o entuiliu.inte o m o t i m , seguido pelas agruras do p r o l o n g a m e n t o do d e s e m p r e g o , e, iitra-ataque dos donos da fábrica, apoiados por tropas q u e m a s s a c r a m os iilores. O f i l m e termina c o m u m eletrizante e x e m p l o do que Elsenstein chamalagern i n t e l e c t u a l " , e n t r e c o r t a n d o o massacre dos grevistas c o m i m a g e n s

1

o.ir. '.endo a b a t i d o s e m u m m a t a d o u r o . 111.11.10 e m A greve é t ã o heterodoxa q u a n t o as técnicas d e edição, m i s t u r a n d o nt.içoes naturalistas dos trabalhadores c o m retratos estilizados dos patrões e l

s. O f i l m e ilustra as teorias s o v i é t i c a s da " t i p i f i c a ç ã o " , a o convocar atores I a m s e m e l h a n ç a física c o m os papéis que i n t e r p r e t a m , e do " h e r ó i coletivo", que o protagonista n ã o é u m único indivíduo, e s i m t o d a s a s pessoas q u e

li' Lulo certo da história. I li imperativos

políticos d e A greve se

I m i d a t a d o s desde sua estréia e m 1925, II

seu poder

visual

não enfraqueceu.

11 ledlto no cine-olho", a f i r m o u certa vez II M i n , íeferindo-se à expressão d e Vertov, • 11 i i i l c g a e rival. "Acredito no cine-punho." 1 violenta filosofia permeia cada seqüência

Direção: Sergei M . Eisenstein Produção: Boris Mikhin Roteiro: Grigori Aleksandrov, Sergei M . Eisenstein Fotografia: Vasili Khvatov, Vladimir Popov, Eduard Tisse Elenco: Grigori Aleksandrov. Aleksandr Antonov, Yudif Gllzer, Mikhail Gomorov, I. Ivanov, lv.ui Klyukvin, Anatoli Kuznetsov, M. M a m i n , M a k s i m Shtraukh, Vladimir Uralsky, Vera Yanukuv.i. Boris Yurtsev


EUA ( M C M ) 140 m i n . M u d o P & B Direção: Erich von Stroheim Produção: Louis B. Mayer Roteiro: Joseph Farnham, J u n e Mathis, baseado no livro McTeague, de Frank Norris Fotografia: William H. Daniels, Ben F. Reynolds Elenco: Zasu Pitts, Cibson G o w l a n d , Jean Hersholt, Dale Fuller, Tempe Pigott, Sylvia Ashton, Chester Conklin, Frank Hayes, Joan Standing

OURO E MALDIÇÃO

(1924)

(GREED)

Primeiro f i l m e a se passar i n t e i r a m e n t e e m locação, Ouro e maldição é célebre t a n t o pela história por trás da sua produção q u a n t o por seu considerável vigor artístico. O d i retor Erich v o n S t r o h e i m quis tornar o mais realista possível sua a d a p t a ç ã o do r o m a n c e McTeague, de Frank Norris, sobre a ascensão e v i o l e n t a m e n t e h o m i c i d a queda do

d e n t i s t a proletário de S ã o Francisco J o h n " M a c " McTeague. Porém sua obra, o r i g i n a l m e n t e e n c o m e n d a d a pela c o m p l a c e n t e G o l d w y n C o m p a n y , foi destruída q u a n d o o estúdio se t o r n o u a M e t r o - G o l d w y n - M c y e r ( M G M ) , tendo Irving Thalberg, adversário de Von S t r o h e i m , c o m o n o v o diretor-geral. A M G M queria u m f i l m e comercial e v o n S t r o h e i m queria criar u m experimento e m realismo c i n e m a t o g r á f i c o digno do m o v i m e n t o D o g m a da década de 90. Durante os dois a n o s de f i l m a g e m , ele a l u g o u u m flat na Laguna Street, e m S ã o Francisco, q u e se t o r n o u o cenário do consultório d e n t á r i o de M a c (Gibson G o w l a n d ) . M u i t a s das cenas foram f i l m a d a s apenas c o m luz n a t u r a l . Von S t r o h e i m t a m b é m insistiu que seus atores m o r a s s e m no flat para ajudá-los a incorporar os personagens. U m dos fascínios de se assistir a Ouro e maldição

é ver t o d a s as localidades históricas de S ã o Francisco c o m o

elas e r a m no c o m e ç o da década de 1920. Q u a n d o c h e g o u a hora de filmar o clímax do f i l m e no Vale da M o r t e , Von S t r o h e i m m a n d o u toda a e q u i p e para a locação no deserto, a u m a t e m p e r a t u r a de 4 8 ° C , o n d e as c â m e r a s ficaram tão superaquecidas que t i v e r a m que ser enroladas e m toalhas geladas. A versão final do diretor tinha q u a s e nove horas de d u r a ç ã o . Era u m a exaustiva recriação do romance de Norris q u e , por sua vez, retomava u m crime q u e ocorreu no c o m e ç o da década de 1880. Depois q u e u m médico c h a r l a t ã o ajuda M a c a sair da cidade mineradora de sua infância no n o r t e da Califórnia, ele se torna dentista e m

São

Francisco. Lá conhece Trina ( Z a s u Pitts), por q u e m se apaixona d u r a n t e u m a a s s u s tadora c m e m o r á v e l cena de t r a t a m e n t o dentário. Seu melhor a m i g o e rival do a m o r de Trina é M a r c u s (Jean Hersholt), q u e p e r m i t e a M a c se casar c o m ela, porém m u d a de idéia depois q u e a moça ganha na loteria. A c i o n a n d o seus c o n t a t o s no governo local,


M i n s c g u e fechar o negócio d e M a c , fazendo o antigo a m i g o cair n u m a espiral i .1 u a b a l h o s m a s s a c r a n t e s , à bebida e à violência contra a mulher, iiui.i i i a n s f o r m a o dinheiro q u e g a n h o u na loteria e m u m a f o n t e d e satisfação, min seus milhares d e dólares e m m o e d a s de ouro e n q u a n t o ela e M a c p a s s a m i Ima d a s cenas m a i s f a m o s a s d e Ouro e maldição

é a de Trina dcitando-se na

seu dinheiro, acariciando-o e rolando d e u m lado para o outro n u m a sensual i I ogo e m seguida, M a c a assassina, rouba o dinheiro e segue para o Vale da

IdOrtl,

local do seu a m a r g o fim q u a n d o M a r c u s c o n s e g u e alcançá-lo.

Poucas pessoas assistiram à versão original de nove horas d e Ouro e i

maldição.

q u e u m a m i g o de S t r o h e i m o ajudou a reduzir o f i l m e para 18 rolos, ou aproxi-

l a m e n t e quatro horas, ele foi tirado d e suas m ã o s pelo estúdio e e n t r e g u e a u m mtador medíocre q u e o reduziu a 140 m i n u t o s . Esta versão, q u e v o n S t r o h e i m h imava d e " u m a m u t i l a ç ã o do m e u t r a b a l h o sincero pelas m ã o s dos executivos da Mi i M " , ê, apesar disso, v i o l e n t a , c a t i v a n t e e g e n u i n a m e n t e perturbadora. I m 1999, o restaurador Rick S c h m i d l i n lançou u m a versão de quatro horas de Ouro ' imiMiçno, reconstruída a partir dos stills d e produção originais e do roteiro d e filma• ' I I I de Von S t r o h e i m . A N


EUA (Buster Keaton) 4 4 m i n . Mudo P & B Direção: Roscoe " F a t t y " Arbuckle, Buster Keaton P r o d u ç ã o : J o s e p h M. Schenck, Buster Keaton Roteiro: Clyde B r u c k m a n , Jean C. Havez Fotografia: Byron Houck, Elgin Lessley

SHERLOCK JR.

(1924)

Embora seja o m e n o r longa-metragem d e Buster K e a t o n , Sherlock Ir. é u m a obra n o t á v e l , c o m u m a t r a m a b e m a m a r r a d a , u m I m p r e s s i o n a n t e a t l e t i s m o ( K e a t o n fez todas

as a c r o b a c i a s , q u e b r a n d o

o pescoço

durante

u m a delas

s e m perceber),

v i r t u o s i s m o artístico e u m a exploração vanguardista da eterna d i c o t o m i a realidade versus ilusão. A q u i , K e a t o n interpreta u m projecionista e aspirante a detetive a c u s a d o i n j u s t a m e n t e d e roubar o pai da n a m o r a d a . Vítima de uma a r m a ç ã o de u m pretendente rival (Ward Crane), o j o v e m é expulso da casa da m o ç a . Deprimido, a d o r m e c e no trabalho. No s e u s o n h o , entra n u m a tela de c i n e m a ( e m u m a brilhante seqüência d e

M ú s i c a : Myles Boisen, Sheldon

efeitos óticos), onde é o garboso protagonista Sherlock Jr. - o s e g u n d o maior d e t e t i v e

Brown, Beth Custer, Steve Kirk,

do m u n d o .

Nik Phelps Elenco: Buster Keaton, Kathryn McCuire, Joe Keaton, Erwin Connelly, Ward Crane

Acrobacias Inacreditáveis e g a g s complexas dão a este f i l m e d e 4 4 m i n u t o s u m r i t m o febril. A princípio, a realidade do c i n e m a se recusa a aceitar este novo protagonista e a tensão entre os dois m u n d o s é apresentada de forma magnífica através d e m u d a n ç a s de cenário que j o g a m nosso d e s n o r t e a d o protagonista n u m a cova de leões, n u m m a r agitado e n u m a nevasca. A o s poucos, ele é c o m p l e t a m e n t e assimilado pelo m u n d o dos f i l m e s . Na narrativa mise-en-abyme, o vilão ( t a m b é m interpretado por W a r d Crane) tenta m a t a r o herói e m v ã o , antes q u e Sherlock Jr. s o l u c i o n e o mistério d a s pérolas roubadas. Sherlock jr. n ã o a p e n a s conta c o m as Incríveis acrobacias q u e t o r n a r a m K e a t o n f a m o s o c o m o t a m b é m apresenta u m a série d e q u e s t õ e s . De u m a perspectiva social, é u m a análise d a s fantasias sobre a s c e n s ã o social na s o c i e d a d e a m e r i c a n a . No a s p e c t o psicológico, apresenta o t e m a do duplo t e n t a n d o obter sucesso nos espaços i m a g i nários, u m a vez q u e o protagonista n ã o é capaz de alcançá-los na realidade c o m u m , t a n g í v e l . Acima de t u d o , o f i l m e é u m reflexo da natureza da arte, u m t e m a q u e volta a surgir e m O h o m e m das novidades (1928), no qual K e a t o n transfere o foco da mídia para o espectador. Os filmes de K e a t o n c o n t i n u a m intrigantes a t é hoje, e m parte por conta do e s t o i c i s m o q u a s e sobrenatural do diretor-ator (comparado a o pathos de Chaplin) e e m parte pela sua natureza o c a s i o n a l m e n t e surreal (admirada por Luis Bunuel e Federico Garcia Lorca) e por m e r g u l h a r e m na natureza do c i n e m a e da própria existência. Chuck J o n e s , W o o d y A l l e n , W e s Craven, Jackie Chan e S t e v e n Spielberg estão entre os c i n e a s t a s q u e prestam h o m e n a g e m à irresistível travessura de K e a t o n , e seus f i l m e s c o n t i n u a m s e n d o , talvez, os mais acessíveis de todos os filmes m u d o s . Rde


A l e m a n h a ( U n i v e r s u m , UFA) 77 m i n . Mudo P & B Direção: F. W . M u r n a u Produção: Erich P o m m e r

A ULTIMA GARGALHADA <1924) (DER LETZTE MANN) Apesar do ridiculamente inverossímil final feliz inserido por insistência da UFA, A última de F. W . M u r n a u , c o n t i n u a sendo uma admirável tentativa de se contar u m a

Roteiro: Carl Mayer

gargalhada,

Fotografia: Robert Baberske,

história sem o uso de intertítulos. A trama e m si não t e m nada de especial - u m porteiro

Karl Freund ,

de hotel, h u m i l h a d o pela perda d e status q u a n d o é rebaixado a ajudante d e banheiro

M ú s i c a : Giuseppe Becce, Timothy

por conta da idade, desce tão baixo q u e se sente t e n t a d o a roubar de volta seu a m a d o

Brock, Peter Schirmann

u n i f o r m e (o símbolo do seu orgulho profissional). De certa forma, o filme é apenas u m

Elenco: Emil J a n n i n g s , Maly

veículo para mais u m a das interpretações t i p i c a m e n t e exuberantes de Emil J a n n i n g s .

Delschaft, Max Hiller, Emilie Kurz, Hans Unterkircher, Olaf S t o r m , Hermann Vallentin, Georg j o h n , E m m y Wyda

Indo além dessa parábola u m tanto patética, M u r n a u explora de forma eloqüente, c o m o de hábito, o espaço c i n e m a t o g r á f i c o : a câmera perambula c o m u m a espantosa fluidez, articulando a relação do protagonista c o m o m u n d o à medida que o segue pelo hotel, pelas ruas da cidade e por sua casa n u m bairro pobre. A l g u n s dos m o v i m e n t o s d e câmera são "subjetivos", c o m o q u a n d o a percepção embriagada do protagonista é r e presentada por distorções óticas; e m outros casos, é a mobilidade da câmera q u e é e v o cativa, c o m o na cena e m q u e ela passa pelas portas giratórias que simbolizam o destino. A d e s l u m b r a n t e técnica apresentada talvez seja, na verdade, grandiloqüente d e m a i s para a simples história d e u m senhor de idade, no e n t a n t o , o v i r t u o s i s m o tanto da miseen-scène de M u r n a u q u a n t o do trabalho de câmera de Karl Freund c inegável. G A

EUA (Buster Keaton) 60 m i n . P & B / Technicolor Direção: Buster Keaton

SETE OPORTUNIDADES

(1925)

(SEVEN CHANCES)

Produção: Joseph M. Schenck,

Todo tipo d e g a g c i n e m a t o g r á f i c a c explorado e m Sete oportunidíides, gerando riso

Buster Keaton

através d e u m a extraordinária interação entre t e m p o , espaço e corporeidade. Exemplo

Roteiro: Clyde B r u c k m a n , Jean C.

disso é o f a m o s o plano dentro d e u m a igreja - Buster d o r m i n d o no banco da frente,

Havez, Joseph A. Mitchell

invisível para as c e n t e n a s d e m u l h e r e s grotescas q u e a b a r r o t a m o espaço às s u a s

Fotografia: Byron Houck,

c o s t a s . (Isso é t u d o o q u e sobrou do original na sofrível r e f i l m a g e m de 1999 Procura-se

Elgin Lessley

u m a noiva.)

Elenco: Buster Keaton, T. Roy Barnes, Snitz Edwards, Ruth Dwyer, Frances R a y m o n d , Erwin Connelly, Jules Cowles

A loucura plácida dos conceitos q u e K e a t o n usava e m suas c o m é d i a s c o n q u i s t o u o coração dos surrealistas, q u e e r a m seus c o n t e m p o r â n e o s : a fixação irracional da t r a m a pelo n ú m e r o sete (Keaton t e m sete c h a n c e s de se casar às sete horas do dia do seu 27^ aniversário) ou as m a r a v i l h o s a s g a g s que ridicularizam t o t a l m e n t e qualquer padrão d e identidade h u m a n a - c o m o nas cenas e m que o protagonista pede e m c a s a m e n t o por e n g a n o , r e s p e c t i v a m e n t e , u m a g a r o t i n h a , u m a judia, u m a negra e u m h o m e m . As m e l h o r e s e m a i s extensas g a g s d e K e a t o n são d i n â m i c a s e m i r a b o l a n t e s . O m u n d o inteiro parece se desfazer e se refazer diante dos nossos olhos. Na seqüência de perseguição do clímax, Buster foge de u m a horda d e m u l h e r e s v i n g a t i v a s . Depois de tropeçar e m a l g u m a s pedras, de repente o próprio m u n d o o está perseguindo, na forma de u m a imensa a v a l a n c h e . A M


O

IANTASMA DA OPERA (1925)

11 III IMIANTOM OF THE OPERA)

In de 1925 é até hoje a m a i s fiel a d a p t a ç ã o da obra-prima trash de C a s t o n l a n c e q u e possui u m a a m b i e n t a ç ã o f o r m i d á v e l e u m ó t i m o

-UR

prota-

1 rijo enredo é c l a u d i c a n t e do início ao f i m . O f i l m e é u m a estranha

11 de u m a direção arrastada

( e m sua maioria d e Rupert J u l i a n , e m b o r a

im 1 olaborado) c o m u m a incrível cenografia da Universal Pictures, de m o d o ' ' ' ' 1 1 u n i d i m e n s i o n a i s - o insosso herói N o r m a n Kerry é e s p e c i a l m e n t e r

hllliinir

sc .iprcsentam d i a n t e d e cenários i m p r e s s i o n a n t e s . M I N . m u da Ópera oferece u m a série de m o m e n t o s p r i m o r o s o s q u e e s c o n d e m 1 MI ura: o baile de m á s c a r a s ( u m a breve seqüência e m Technicolor), e m q u e 11 1 .urge vestido c o m o a M o r t e Escarlate de Edgar Allan P o c ; a queda do lustre, R I U I . m i a s m a para mostrar à platéia o que acha da a t u a l diva: diversas incursões s u b m u n d o da Ópera d e Paris; e

o m e l h o r de t o d o s - q u a n d o o trágico

m a s c a r a d o e seu desfigurado rosto de caveira é v i s t o pela primeira vez I I M " | I I I R 1,10 grande que até a c ã m e r a se assusta, s a i n d o d e foco por u m i n s t a n t e ) . 1111 na este f i l m e u m clássico é o fato d e ele c o n t e r u m d o s m e l h o r e s de a t u a ç ã o m e l o d r a m á t i c a d o c i n e m a m u d o , o i m p e c á v e l , a b a n d o n a d o e I N 1',1'iiio-monstro d e Lon Chaney. I n t e r t í t u l o favorito: " V o c ê s e s t ã o d a n ç a n d o 11111111 los d e h o m e n s a t o r m e n t a d o s ! " K N

EUA (Universal Pictures) 9 3 m i n P&B/Cor (Technicolor de duas COrtl) Direção: Rupert J u l i a n , Lon ( h . i n r v P r o d u ç ã o : Carl L a e m m l e Roteiro: Gaston Leroux Fotografia: M i l t o n Bridcnhci l er, Virgil Miller, Charles Van 111 j • 1 M ú s i c a : Gustav Hinrichs ( v i r . . m d l 1925); David Broekman, Sam Perry, W i l l i a m Schiller (versão de IM ' i l Elenco: Lon Chaney, M.ny Phllbln, N o r m a n Kerry, Arthur Edmund Carewe, Gibson G o w l a n d , John '.1 Polis, Snitz Edwards


U R S S (Coskino, Mosfilm) 75 m i n . Mudo P & B Direção: Grigori Aleksandrov,

O ENCOURAÇADO POTEMKIN

(1925)

(BRONENOSETS POTYOMKIN)

Sergei M. Eisenstein

O eiicoL/raçüdo Potemkin é u m f i l m e d e g r a n d e f a m a . O segundo longa de Eisenstein se

Produção: Jacob Bliokh

tornaria não só u m p o n t o de conflito ideológico entre o O c i d e n t e e o Oriente, a esquer-

Roteiro: Nina Agadzhanova,

da e a direita, c o m o t a m b é m u m f i l m e indispensável para qualquer a m a n t e de c i n e m a

Sergei M. Eisenstein

no planeta. D é c a d a s d e censura e apoio m i l i t a n t e , i n ú m e r a s palavras a n a l i s a n d o sua

Fotografia: Vladimir Popov,

e s t r u t u r a , s e u s i m b o l i s m o , s u a s origens e efeitos e m i l h a r e s d e c i t a ç õ e s v i s u a i s

Eduard Tisse M ú s i c a : Nikolai Kryukov, Edmund Meisel, Dmitri Shostakovich Elenco: Aleksandr Antonov, Vladimir Barsky, Grigori Aleksandrov, Mikhail Gomorov, Ivan Bobrov, Beatrice Vitoldi, N. Poltavseva, Julia Eisenstein

a j u d a r a m a tornar m u i t o difícil ver a história por trás do f i l m e . O encouraçado

Potemkin

pode não ser h i s t o r i c a m e n t e preciso, m a s sua legendária a b o r d a g e m da opressão e da rebelião, da a ç ã o individual e coletiva e sua a m b i ç ã o artística d e trabalhar ao m e s m o t e m p o c o m corpos, luz, objetos c o m u n s , s í m b o l o s , rostos, m o v i m e n t o , f o r m a s g e o gráficas... oferece u m painel i n i g u a l á v e l . C o m o u m verdadeiro artista do c i n e m a , Eisenstein c o n s e g u e elaborar u m m i t o m a g n í f i c o e c o m o v e n t e . D e v e m o s nos lembrar, no e n t a n t o , q u e sua sensibilidade estética t a m b é m era d o tada de significado político: o da " m u d a n ç a do m u n d o por h o m e n s c o n s c i e n t e s " c o m a qual se s o n h a v a na época e q u e se fazia conhecer pelo t e r m o " r e v o l u ç ã o " . P o r é m , m e s m o q u e n ã o se soubesse o q u e isso significava, ou melhor, m e s m o q u e não h o u vesse u m a noção clara do que viria a se tornar, os v e n t o s de u m a aventura épica s o p r a m na tela, pondo-a e m m o v i m e n t o . I n d e p e n d e n t e m e n t e do n o m e q u e se dê a ela, essa aventura é a força q u e i m p u l s i o n a as pessoas de Odessa e m direção á liberdade, os


In c n c o u r a ç a d o do t í t u l o a lutar contra a f o m e e a h u m l i pióprio cineasta a Inventar n o v a s formas e ritmos c i n e m a t o -

iiracado Potemkin é u m f i l m e m u i t a s vezes visto de f o r m a

1

iii i i d i i / i d o às suas cenas e s e q ü ê n c i a s m a i s f a m o s a s . Desconp.ii to de se assistir ao f i l m e na íntegra - o u seja, c o m o u m a h l i l n i l . i dramática e c o m o v e n t e -, e m vez de tratá-lo c o m o u m a Inesiix.i de jóias de o n d e se t i r a m preciosidades isoladas ao beli

i " » l i ' i ausar surpresa. i IH uai D f i l m e dessa maneira renovada e inocente trará de volta ifera de a u t e n t i c i d a d e àqueles ícones com os quais e s t a m o s Iliarizados: o carrinho de bebê na escadaria; o rosto do iorto sob a tenda no f i m do píer; os v e r m e s na c a r n e ; as ile t o u r o ; a s a r m a s de ferro a p o n t a d a s na direção de corpos e is lentes de u m poder político, militar e religioso à espreita no . e n t ã o , o leão de pedra se a n i m a n d o para rugir furioso e u m li vida q u e se tornará a metáfora para o f i l m e e para o c o n c e i t o "

" I n q u e ele traz o f a z e m escapar do seu m o n u m e n t a l s t a t u s para l i i liberto, cheio de vida e frescor, por cada par de olhos q u e cair

obn ele,

J-mf


EM BUSCA DO OURO

(1925)

(THE GOLD RUSH) Em busca do ouro v e m corroborar a crença de Charles Chaplin de q u e tragédia e c o m é d i a nunca estão m u i t o distantes u m a da outra. Essa improvável inspiração dupla lhe velo depois de ver alguns slides sobre as privações sofridas pelos garimpeiros na corrida do ouro no Klondikc entre 1896-1898 e ler u m livro sobre a tragédia da expedição de Donner, d e 1846, e m q u e u m g r u p o de i m i g r a n t e s preso pela n e v e na Sierra Nevada é obrigado a c o m e r seus próprios sapatos e os cadáveres dos c o m p a n h e i r o s m o r t o s . A partir desse t e m a sinistro e árido, Chaplin criou alta c o m é d i a . O c o n h e c i d o v a g a b u n d o se torna u m g a r i m p e i r o , juntando-se à massa de h o m e n s corajosos e o t i m i s t a s para enfrentar os perigos do frio, da f o m e , da solidão e dos ursos q u e , vez por outra, p o d i a m aparecer. O f i l m e foi, e m todos o s aspectos, o projeto m a i s elaborado da c a r reira d e C h a p l i n . A e q u i p e passou s e m a n a s f i l m a n d o e m locação n a s geleiras d e Truckee, na região castigada pela n e v e de Sierra N e v a d a . Lá, Chaplin recriou a i m a g e m histórica dos garimpeiros l u t a n d o para a t r a vessar a p a s s a g e m d e Chilkoot. Cerca d e 600 f i g u r a n t e s , m u i t o s deles and,li iIIKl', i' v a g a b u n d o s de Sai ramento, foram levados de trem para esi .11.1 r a p a s s a g e m de 70om através da neve da m o n t a n h a . Para a t o m a d a principal, a e q u i p e EUA (Charles Chaplin) 72 m i n .

v o l t o u para o estúdio e m H o l l y w o o d , onde uma cordilheira e m miniatura m u i t o c o n v i n -

Mudo P & B

c e n t e foi feita c o m madeira, tela de a r a m e , estopa, a r g a m a s s a , sal e farinha. A l é m d i s -

Direção: Charles Chaplin

so, os técnicos do estúdio criaram m a q u e t e s primorosas para produzir os efeitos e s p e -

Produção: Charles Chaplin

ciais exigidos por C h a p l i n , c o m o a cabana dos garimpeiros, que é levada por u m a t e m -

Roteiro: Charles Chaplin Fotografia: Roland Totheroh M ú s i c a : Max Terr (versão de 1942) Elenco: Charles Chaplin, Mack Swaln, Tom Murray, Henry B e r g m a n , M a l c o m W a i t e , Georgia Hale

p e s t a d e até a beira d e u m precipício, e m u m a das m a i s longas seqüências de suspense c ô m i c o do c i n e m a . M u i t a s vezes, é impossível perceber as passagens d e m a q u e t e para cenário e m t a m a n h o real. Em busca do ouro é repleto d e cenas c ô m i c a s q u e se t o r n a r a m clássicas. O horror histórico da f o m e dos pioneiros do século X I X inspirou a seqüência e m q u e Carlitos e seu parceiro B i g J i m ( M a c k S w a i n ) f i c a m presos na neve e f a m i n t o s . A o s olhos do delirante B i g J i m , o a m i g o se t r a n s f o r m a i n t e r m i t e n t e m e n t e e m u m frango assado u m triunfo t a n t o do cinegrafista, q u e t e v e q u e fazer o complexo t r u q u e f u n c i o n a r a p e n a s c o m a c â m e r a , q u a n t o de C h a p l i n , q u e a s s u m e , c o m o n u m passe d e m á g i c a , as características de u m pássaro. O s o n h o do garimpeiro solitário de oferecer u m j a n t a r d e Ano-Novo para a bela garota do salão d e dança (Geórgia Hale, q u e s u b s t i t u i u Lita Grey, d e 16 a n o s , q u a n d o esta ficou grávida e se casou c o m Chaplin) dá a o p o r t u n i d a d e para outro f a m o s o n ú m e ro d e C h a p l i n : a dança dos pãezinhos. A brincadeira não era inédita no c i n e m a , porém Chaplin confere u m a personalidade única às pernas d a n ç a n t e s feitas d e garfos e pães. Hoje, Em busca do ouro é considerado u m a d a s mais perfeitas realizações d e Chaplin. Embora seu gosto pelo próprio trabalho t e n h a m u d a d o c o m o t e m p o , no f i m da vida ele declararia diversas vezes q u e este era o f i l m e pelo qual gostaria d e ser lembrado. D R


O (.MANDE DESFILE

(1925)

(till HIG PARADE)

I ' C M uma história d e Laurence Stallings, q u e escreveu o sucesso da B r o a d w a y i/uiy?, o épico c i n e m a t o g r á f i c o d e King Vidor sobre a experiência a m e r i c a n a " H

i Guerra M u n d i a l a c o m p a n h a as aventuras d e três soldados d e origens lie v ã o parar na França. O filhinho d e papai J i m (John Gilbert), incentivado .1 se alistar, conhece u m a bela francesa (Renéc Adoréc) na vila escolhida para sua unidade. E m u m a das m a i s c o m o v e n t e s cenas de O grande desfile, i ,i bota q u e ele lhe deixou e n q u a n t o os soldados se e n c a m i n h a m para a 11.ilha. Assim q u e c h e g a m às trincheiras, a batalha da floresta d e Belleau dois a m i g o s de J i m m o r r e m e ele é ferido durante u m a t a q u e d e metralha-

• nulo abrigo e m u m buraco feito por u m a b o m b a , J l m encontra u m soldado n b u n d o já dentro dele e o s dois d i v i d e m u m cigarro. Por f i m , ele é e n levado para u m hospital de c a m p a n h a . Lá, perde os sentidos c n ã o consegue I H H I II I I 1 1 asa de fazenda da francesa. Ita à América, J i m reencontra a família, m a s sente-se m u i t o infeliz por ter '• uma perna. I n d e p e n d e n t e m e n t e disso, sua apaixonada por seu irmão. J i m acaba acelonselho da m ã e e volta para a França, onde, iii mais e m o c i o n a n t e do f i l m e , encontra IH perdida ajudando a m ã e a arar o c a m p o . M I primorosa mistura de comédia física (espeiii M I R nas cenas na casa d e fazenda) e ação b e m o grande desfile fez u m e n o r m e sucesso - o I|IH' I.II ilicou o zelo do produtor Irving Thalberg c o m a o

e é u m a das pérolas do f i m da era d o cine-

MI.1 m u d o . Gilbert d e s e m p e n h a

b e m o papel d e J i m , d e -

l i n d o o c h a r m e q u e atraía o público a o s cineque o t o r n o u u m dos maiores astros da sua era, •Unto Adoreé mostra-se a d e q u a d a m e n t e sedutora toinn seu par a m o r o s o . Por mostrar os horrores da J U r i r a , O grande desfile foi m u i t a s vezes considerado nu tratado pacifista, embora seja, na verdade, apo' D I N O queria Thalberg, o f i l m e é m u i t o m a i s Uma l o m é d i a r o m â n t i c a , sendo a guerra a p e n a s o pelo qual J i m se torna u m h o m e m e descobre o '• vida que d e fato quer viver. RESF

EUA ( M G M ) 141min. M u d o P & B (seqüências colorizadas) Direção: King Vidor Produção: Irving Thalberg

m

Roteiro: Harry Behn, Joseph r,mili.nu Fotografia: John Arnold Música: William Axt, Maurice P.nun David Mendoza Elenco: John Gilbert, Renée A d o i c r , Hobart B o s w o r t h , Claire M c D o w e l l , Claire Adams, Robert Ober, Tom O'Brien, Karl Dane, Rosita M a i s l i n l George Beranger, Frank Curriei


A l e m a n h a ( U n i v e r s u m / UFA) 120 m i n . Mudo P & B Direção: Fritz Lang Produção: Erich P o m m e r Roteiro: Fritz Lang, Thea von Harbou Fotografia: Karl Freund, Günther Rittau M ú s i c a : Gottfried Huppertz Elenco: Alfred Abel, Gustav Fröhlich, Brigitte H e l m , Rudolf Klein-Rogge, Fritz Rasp, Theodor Loos, Heinrich George

METROPOLIS

(1927)

(METROPOLIS) Com u m a duração original de mais d e duas horas, Metropolis, de Fritz Lang, é o primeiro épico d e ficção científica, c o m cenários i m e n s o s , c e n t e n a s de figurantes, efeitos e s p e ciais d e ponta para a época, m u i t o sexo e violência, u m a moral nada sutil, atuações g r a n d i o s a s , u m q u ê de g o t i c i d a d e a l e m ã

e inovadoras

seqüências de fantasia.

Financiado pela UFA, o g i g a n t e c i n e m a t o g r á f i c o a l e m ã o , o f i l m e foi controverso e se revelou u m desastre de bilheteria q u e q u a s e levou o estúdio à falência. O enredo é q u a s e t ã o simplista q u a n t o u m c o n t o de f a d a s : Freder Fredersen (Gustav Fröhlich), o filho m i m a d o do M e s t r e d e M e t r o p o l i s (Alfred Abel), descobre a miséria e m que vive a horda de trabalhadores que garante o f u n c i o n a m e n t o da luxuosa supercidade. Freder passa a c o m p r e e n d e r o sistema através da angelical Maria (Brigitte H e l m ) - u m a pacifista

q u e serve c o n s t a n t e m e n t e

de mediadora

entre

disputas

industriais - e do trabalho secreto e m u m a d a s esmerilhadoras massacrantes durante 10 horas por dia. O M e s t r e consulta o engenheiro louco R o t w a n g (Rudolf Klein Rogge), criador de u m robô f c m i n ó i d e que ele remodela para ser u m a cópia m á de Maria e solta na cidade. A robotrix c o m e ç a d a n ç a n d o nua e m u m a boate d e c a d e n t e e termina provoc a n d o u m a violenta rebelião, o q u e permite a Lang aproveitar ao m á x i m o seus e n o r m e s cenários fabris explodindo-os e/ou inundando-os. No e n t a n t o , Freder e a verdadeira Maria s a l v a m o dia resgatando as crianças da cidade de u m a e n c h e n t e . A sociedade se reconcilia q u a n d o Maria decreta q u e o coração (Freder) precisa ser o m e d i a d o r entre o cérebro (o Mestre) e as m ã o s (os trabalhadores). Logo depois d e l a n ç a d o , a distribuição do dispendioso f i l m e foi interrompida c ele foi r e m o n t a d o contra a v o n t a d e d e Lang: essa versão truncada e simplificada c o n t i n u o u sendo a mais conhecida - inclusive na sua f o r m a remixada e colorizada por Giorgio M o r o d e r na década de 1980 - a t é o século X X I , q u a n d o u m a restauração parcial ( c o m sutis i n t c r t í t u l o s d e ligação para substituir as cenas q u e c o n t i n u a m irreversivelmente perdidas) c h e g o u b e m m a i s perto da visão original d e Lang. Essa versão n ã o só acrescenta várias cenas q u e passaram d é c a d a s inéditas c o m o t a m b é m restaura a ordem delas na versão original e acrescenta os intcrtítulos corretos. Até e n t ã o considerado u m f i l m e d e ficção espetacular, p o r é m simplista, essa nova-velha versão revela q u e a a m b i e n t a ç ã o futurista não tinha a i n t e n ç ã o d e ser profética, m a s s i m mítica, c o m e l e m e n t o s da arquitetura, indústria, design e política da década d e 1920 misturando-se c o m o m e d i e v a l e o bíblico para produzir i m a g e n s d e u m a arrebatadora estranheza: u m robô futurista q u e i m a d o na fogueira: u m cientista louco e mão-de-ferro que é t a m b é m u m a l q u i m i s t a do século XV; os trabalhadores q u e se a r r a s t a m e m direção às m a n d í bulas d e u m a m á q u i n a q u e é t a m b é m o antigo deus M o l o c h . A interpretação de Fröhlich c o m o o herói q u e representa o coração ainda é e x t r e m a m e n t e exagerada, porém o engenheiro R o t w a n g de Klein-Rogge, o M e s t r e de M e t r o p o l i s d e Abel e, p r i n c i p a l m e n t e , H e l m , no papel duplo da angelical salvadora e da femme fatale de m e t a l , estão m a g n í f i c o s . Depois q u e boa parte da história foi restaurada a partir d e u m m e r g u l h o n a s m o t i v a ç õ e s contraditórias dos personagens, a f a n t á s t i c a t r a m a passa a fazer m a i s sentido e p o d e m o s vê-la t a n t o c o m o u m bizarro drama familiar q u a n t o c o m o u m épico de repressão, revolução e reconciliação. K N


EUA (Fox) 97 m i n . M u d o P & B Direção: F. w . M u r n a u Produção: W i l l i a m Fox Roteiro: Hermann S u d e r m a n n , < ail Mayer

,

Música: Timothy Brock, Hugo Rlesenfeld I linco: George O'Brien, J a n e t Caynor, M.ugaret tivingston, Bodil Rosing, I I. I r 1 < -11 M a c D o n a l d , Ralph Sipperly, I,

(1927)

(SUNRISE)

Os f a n á t i c o s por curiosidades talvez n o t e m q u e , embora m u i t o s livros g e r a l m e n t e c i t e m Asos c o m o o primeiro g a n h a d o r do Oscar d e M e l h o r Filme, a honra, na verdade, foi para dois f i l m e s : Asos, d e W i l l i a m W e l l m a n , recebeu o prêmio d e " P r o d u ç ã o " e Aurora,

Fotografia: Charles Rosher, Karlstruss

AURORA

W i n t o n , Arthur H o u s m a n ,

I ' M n ' Poland, Barry Norton Oscar: William Fox (produção a i i i s i i c a e notável), Janet Gaynor I a o . ) . I Harles Rosher e Karl Struss

de F. W . M u r n a u , o de " P r o d u ç ã o Artística e Notável". Se a segunda categoria impressiona m a i s do q u e a primeira, isso explica e m parte por que Aurora, e não Asas, c o n t i n u a sendo u m dos f i l m e s m a i s reverenciados de todos os t e m p o s . I n i c i a l m e n t e , W i l l i a m Fox trouxe M u r n a u para os Estados U n i d o s c o m a proposta de u m grande o r ç a m e n t o e total liberdade criativa, e o fato de M u r n a u ter se a p r o v e i t a d o a o m á x i m o disso nesta f o r m i d á v e l obra-prima ratifica sua incomparável reputação d e gênio do c i n e m a . A s i m p l i c i d a d e do f i l m e é e n g a n o s a . C o m o s u b t í t u l o u m t a n t o e n i g m á t i c o de Uma canção de dois humanos,

Aurora se concentra e m u m casal do interior cujas vidas são

destruídas por u m a sedutora m u l h e r da cidade. C o n t u d o , M u r n a u retira o n d a s de e m o ç ã o do que poderia ser m e l o d r a m a corriqueiro, enriquecendo-o c o m u m a série de

(fotografia)

inovadoras técnicas c i n e m a t o g r á f i c a s . A mais notável delas é o uso de efeitos sonoros,

Indicação ao Oscar: Rochus Cilese

deixando o c i n e m a u m passo m a i s próximo da era falada - u m a conquista i n j u s -

(Unci,.10 de arte)

t a m e n t e ofuscada por O cantor de jazz,

lançado p o s t e r i o r m e n t e t a m b é m e m 1927,

M u r n a u t a m b é m m a n i p u l a c o m criatividade o uso e o efeito dos intertítulos (três a n o s a n t e s , dirigira A última gargalhada

s e m intertítulo a l g u m ) .

O m a i s fascinante aspecto de Aurora é o trabalho d e c a m e r a . Trabalhando c o m dois fotógrafos. Charles Rosher e Karl S t r u s s , M u r n a u baseou-se na sua própria experiência c o m o expressionismo a l e m ã o , a s s i m c o m o nas pinturas bucólicas d o s m e s t r e s h o landeses, e s p e c i a l m e n t e Jan Vermeer. Ligadas por graciosos e i n v e n t i v o s m o v i m e n t o s de camera e realçadas por t r u q u e s de fotografia (como m ú l t i p l a s exposições), as cenas de Aurora parecem u m primoroso still. Por m a i s m á g i c a s que sejam as i m a g e n s , a própria simplicidade da história confere a Aurora u m peso d r a m á t i c o f o r m i d á v e l . George O ' B r i e n , ponderando o assassinato d e sua i n o c e n t e esposa (Janet Gaynor), é c o n s u m i d o pela culpa e a m u l h e r reage c o m terror q u a n d o suas intenções f i c a m claras. A v i a g e m d e barco e m direção à sua planejada m o r t e é carregada de suspense e d e u m a estranha tristeza, à m e d i d a q u e o b o m O'Brien luta para levar suas m o n s t r u o s a s Intenções a cabo. Margaret Livingston, no papel de sedutora urbana, parece, e m m u i t o s a s p e c t o s , o e q u i v a l e n t e f e m i n i n o do v a m p i r o d e M u r n a u , conde Orlok (do f i l m e Nosferatu, de 1922), a t o r m e n t a n d o s e m piedade a alma do pobre O ' B r i e n . E m u m a cena, ele chega a ser a s s o m b r a d o por i m a g e n s espectrais dela, que o c e r c a m , e n c u r r a l a m e p r o v o c a m c o m desejos h o m i c i d a s . I n f e l i z m e n t e , o f i l m e se m o s t r o u u m fracasso d e b i l h e t e r i a * M u r n a u morreu e m u m a c i d e n t e d e carro poucos a n o s depois. E n t r e t a n t o , Aurora c o n t i n u a sendo u m marco q u e serve de medida para t o d o e qualquer f i l m e , seja ele m u d o o u não. N u m a era mais primitiva, é u m a p o g e u artístico cuja sofisticação contradiz os recursos da época. Sua sombra se projeta sobre diversas grandes obras s u b s e q ü e n t e s , de Cidadão Kane (1941), d e Orson Welles, a A bela e a fera (1946), de J e a n C o c t e a u , p o r é m , a o m e s m o t e m p o , seu próprio brilho é i n i m i t á v e l . J K I


I U A (Buster Keaton, United Artists) 75 m i n . Mudo P & B (Sepiatone) Direção: Clyde B r u c k m a n , Buster Keaton Produção: Buster Keaton, loseph M. Schenck Uoteiro: Al Boasberg, ( lyde Bruckman Fotografia: Bert Haines, I icvereaux Jennings Música: Robert Israel, W i l l i a m P. Perry t l e n c o : Marion Mack, Charles S m i t h , Richard Allen, Glen Cavender, Jim Farley, Frederick V r o o m , |oe Keaton, Mike Donlin, Tom N a w n , Buster Keaton

A GENERAL

(1927)

(THE GENERAL)

K e a t o n fez vários filmes - Nossa hospitalidade (1923), Sherlock )r. (1924), Marinheiro de

encomenda

(1928) - q u e p o d e m ser incluídos e n t r e os m e l h o r e s (e m a i s engraçados) d e

toda a p r o d u ç ã o c ô m i c a d o c i n e m a , porém n e n h u m deles é m a i s forte c a n d i d a t o a o primeiro lugar do q u e esta obra-prima a t e m p o r a l . Isso não se dá apenas pelo fluxo c o n s t a n t e d e ó t i m a s gags, t a m p o u c o pela maneira c o m o elas d e r i v a m t o t a l m e n t e d a s s i t u a ç õ e s e do p e r s o n a g e m , e m vez d e existirem isoladas da t r a m a do f i l m e . E m vez disso, o q u e torna A general tão extraordinário é o fato de ele ser superlativo e m todos os a s p e c t o s : e m t e r m o s de humor, s u s p e n s e , reconstituição histórica, estudo de personagens, beleza v i s u a l e precisão técnica. Pode-se a r g u m e n t a r que ele chega m a i s perto da t o t a l perfeição do que qualquer o u t r o f i l m e já feito, seja ele comédia o u não. Boa parte desse prazer v e m da própria narrativa, inspirada e m u m livro sobre as proezas reais d e u m grupo de soldados do Norte q u e , d u r a n t e a Guerra Civil, se disfarç a r a m d e sulistas para roubar u m t r e m , que c o n d u z i r a m ao Norte para se reunirem a o s seus c a m a r a d a s u n i o n i s t a s a t é serem c a p t u r a d o s e e x e c u t a d o s . J á q u e estava fazendo u m a c o m é d i a , K e a t o n deixou de fora as execuções e m u d o u a perspectiva heróica para a de u m sulista, J o h n n y Gray, u m m a q u i n i s t a q u e , d e f o r m a estóica, se n ã o algo absurda, decide perseguir sozinho os espiões u n i o n i s t a s q u a n d o eles r o u b a m sua locomotiva - "A G e n e r a l " - e, dentro dela, Annabelle Lee ( M a r i o n M a c k ) , o outro a m o r de sua vida. A primeira m e t a d e do f i l m e a c o m p a n h a a rejeição de J o h n n y pelo Exército e sua caça à l o c o m o t i v a , q u e ele recupera a l é m d a s linhas i n i m i g a s ; a segunda m e t a d e retrata sua fuga ( c o m Annabelle) d a s tropas da U n i ã o a t é sua cidade n a t a l , o n d e depois d e entregar a garota, a General e u m l e g í t i m o general do Exército do Norte q u e trouxe consigo por acaso - é a c l a m a d o c o m o herói. Esse enredo de e l e g a n t e simetria, a l é m de a d mirável e m sua forma, é a f o n t e do suspense e d a s gags; porém a v i a g e m t a m b é m confere ao f i l m e u m t o m épico q u e , aliado à costumeira a t e n ç ã o aos detalhes históricos de K e a t o n , o transforma, talvez, no m e l h o r f i l m e sobre a Guerra Civil já f e i to. Por f i m , há o J o h n n y de Buster: sisudo, porém belo e m sua d e t e r m i n a ç ã o corajosa e ligeiramente ridícula - que é o ápice desta obra-prima a o m e s m o t e m p o séria e cômica -, e o herói m a i s h u m a no q u e o c i n e m a já nos ofereceu. C A


O MONSTRO DO CIRCO

(1927)

EUA ( M G M ) 65 m i n . M u d o P8cB

nu UNKNOWN)

Direção: Tod B r o w n i n g

lis conhecido por ter dirigido Bela Lugosi e m Drácula,

o clássico d e terror da

;al de 1931, e f a m o s o pelo bizarro Monstros (1932), o maior f i l m e d e Tod B r o w n i n g .111 ista d e circo que se t o r n o u cineasta - é O monstro do circo. A obra é u m subes> i r s o u r o da era m u d a , estrelado pelo ator preferido (e m a i s f a m o s o ) do roterism i , o c h a m a d o " H o m e m d e MM Rostos", Lon Chaney. 1 1 mhecido e a l t a m e n t e admirado pela dor física que suportava c o m regularidade a o

Roteiro: Tod Browning, W a l d e m a r Young Fotografia: Merritt B. Cerstad Elenco: Lon Chaney, Norman Kerry, Joan Crawford, Nick De Ruiz, John George, Frank Lanning, Polly Moran

M i a r vilões o u anti-heróis f i s i c a m e n t e i n c a p a c i t a d o s , C h a n e y se supera c o m o 11, u m c r i m i n o s o c o m u m dedo extra e m u m a d a s m ã o s q u e t e n t a evitar ser irado f i n g i n d o ser u m atirador d e f a c a s s e m braços e m u m circo itinerante d e los. A a r m a ç ã o , a princípio, t e m u m benefício extra, u m a vez q u e N a n o n (Joan ford c m u m d o s seus primeiros papéis), a bela assistente de Alonzo, n ã o suporta .In.içada por h o m e n s - e s p e c i a l m e n t e pelo principal rival d e Alonzo na disputa por 111 amor, o b r u t a m o n t e s levantador de pesos Malabar, o Poderoso ( N o r m a n Kerry). Q u a n d o o pai de N a n o n v ê os braços dele a c i d e n t a l m e n t e , Alonzo o assassina para manter seu segredo. E n q u a n t o isso, N a n o n c o n s e g u e ver o polegar duplo do assassino, mas não s e u rosto. O b c e c a d o pela m u l h e r e a t o r m e n t a d o pela possibilidade de ela l i abar descobrindo sua verdadeira i d e n t i d a d e , Alonzo ignora as objeções d e Cojo (John 1 irge), seu a s s i s t e n t e a n ã o , e faz u m a cirurgia para a m p u t a r os braços. No e n t a n t o , • 111 u m a das m a i s deliciosas e perturbadoras ironias de O monstro do circo, q u a n d o Alonzo retorna a o circo depois d e u m a longa convalescença, ele descobre q u e N a n o n liperou sua fobia de ser abraçada e se apaixonou por Malabar. Buscando justiça poética (ou mera vingan11)

por essa cruel virada do destino, Alonzo

u n t a sabotar o novo n ú m e r o d e Malabar - no qual o b r u t a m o n t e s amarra os próprios braços a u m par de cavalos que puxam c m direções oposi.is - para q u e seu rival t a m b é m fique desmemIn.ido. Contudo, seu plano é frustrado no último instante e o próprio Alonzo morre ao salvar Nanon de ser pisoteada por u m dos cavalos. Extraindo u m a extraordinária e assustadoia interpretação d e Chaney, e n c h e n d o a t r a m a de

viradas

surpreendentes

e

personagens

inesquecíveis, B r o w n i n g cria u m a arrepiante obra-prima do drama psicológico (e psicossexual).

Nas palavras

de M i c h a e l

Koller: " O

monstro do circo é u m f i l m e v e r d a d e i r a m e n t e horripilante q u e nos conduz aos m a i s s o m brios recônditos da psique h u m a n a . " SJS

1,1


U R S S (Sovkino) 95 m i n . M u d o P & B Direção: Crigori Aleksandrov, Scigei M. Eisenstein Roteiro: Grigori Aleksandrov, Sergei M. Eisenstein Fotografia: Vladimir Nilsen, Vladimir Popov, Eduard Tisse M ú s i c a : Alfredo A n t o n i n i , I dinund Meisel Elenco: Vladimir Popov, Vasili Nikandrov, Layaschenko, Chibisov, Boris tivanov, Mikholyev, N. Podvoisky, Smelsky, Eduard Tisse

OUTUBRO

(1927)

(OKTYABR)

Em 1926, Sergei M . Eisenstein foi para a A l e m a n h a apresentar seu novo f i l m e , O encouraçado Potemkin.

Partiu c o m o u m promissor j o v e m c i n e a s t a , m a s retornou c o m o u m

superastro da cultura i n t e r n a c i o n a l . U m a série d e i m p o r t a n t e s produções c i n e m a t o gráficas estava sendo planejada para a c o m e m o r a ç ã o d o 10 aniversário da vitória a

b o l c h e v i q u e . Eisenstein aceitou a v i d a m e n t e o desafio de apresentar na tela o processo revolucionário na Rússia - o u seja, d e q u e f o r m a o país passou do " g o v e r n o provisório" de Alcksandr Kerensky, instaurado após a a b d i c a ç ã o do czar, para as primeiras vitórias de Lênin e seus seguidores. Não foram poupados gastos. I m e n s a s cenas de m u l t i d ã o foram organizadas e o tráfego da cidade foi d e s v i a d o para q u e Eisenstein pudesse f i l m a r nos exatos locais e m q u e os incidentes retratados o c o r r e r a m . Ao contrário do q u e se pensa, o f i l m e não c o n t é m u m só m e t r o de cenas d o c u m e n t a i s . Cada t o m a d a foi u m a reconstituição. Trabalhando de m o d o febril, Eisenstein concluiu o f i l m e bem a t e m p o para as festividades de aniversário, porém as reações, oficiais o u não, não f o r a m de e n t u s i a s m o . M u i t o s c o n sideraram o f i l m e confuso e difícil d e a c o m p a n h a r . O u t r o s se p e r g u n t a r a m por q u e o papel de Lênin foi t ã o reduzido (o ator q u e o interpreta, Vasili Nikandrov, aparece p o u c a s vezes na tela). M u i t o s dos críticos q u e a p o i a r a m Potemkin

sugeriram q u e

Eisenstein voltasse para a sala d e edição e continuasse t r a b a l h a n d o . É inegável que Outubro seja u m a obra-prima de a l g u m tipo, porém descobrir qual é esse tipo é u m verdadeiro desafio. Como ferramenta didática, u m a maneira de "explicar" a revolução para as massas do país e do exterior, o f i l m e é s i m p l e s m e n t e ineficaz. Para muitos espectadores, suportar a projeção é u m verdadeiro suplício. As caracterizações são todas simplórias e qualquer pessoa com o mais rudimentar conhecimento histórico as reconhece c o m o uma grosseira propaganda. Ainda a s s i m , a característica mais poderosa e c o m o v e n t e de Outubro talvez seja s i m p l e s m e n t e o nível da sua a m b i ç ã o . Sergei M. Eisenstein foi sem dúvida a mais notável personalidade dos primeiros 50 anos de existência do c i n e m a , sendo a b s u r d a m e n t e erudito e dono de uma crença ilimitada no potencial da arte cinematográfica. No auge do seu delírio, Eisenstein imaginou que o cinema poderia representar u m "raciocínio v i s u a l " - não se limitando aos arg u m e n t o s , m a s envolvendo o processo através do qual a m e n t e os constrói. As imagens fotográficas, a matéria-prima do c i n e m a , t i n h a m de ser " n e u t r a lizadas" e m sensações e estímulos para que u m f i l m e pudesse revelar conceitos e não só pessoas o u coisas. O verdadeiro motor que impulsionaria a m á quina do cinema c o m o Eisenstein a via era a m o n t a g e m , a edição: a interação " m í s t i c a " que ocorre q u a n d o dois pedaços distintos de f i l m e são j u n t a d o s . Outubro é o m a i s puro e c o n v i n c e n t e e x e m p l o da teoria e prática c i n e m a t o g r á f i c a de Eisenstein. Ele possui várias seqüências a b s o l u t a m e n t e e m o c i o n a n t e s : a derrubada da e s t á t u a do czar, a c o n s t r u ç ã o da ponte e, e s p e c i a l m e n t e , a m u i t a s vezes citada seqüência " P o r Deus e pela Pátria". Provas do frio e n g e n h e i r o q u e Eisenstein se treinou o r i g i n a l m e n t e para ser p o d e m ser e n c o n t r a d a s na Intensa complexidade da m o n t a g e m . E n t r e t a n t o , correndo sob a superfície do f i l m e , pode-se sentir o í m p e t o - e o t o q u e de loucura - de u m artista às portas do que ele acreditava ser u m admirável mundo novo. R P


0 CANTOR DE JAZZ

(1927)

(THE J A Z Z SINGER) Na história do c i n e m a , alguns f i l m e s foram alvo de u m a a t e n ç ã o especial, se n ã o por sua estética, c e r t a m e n t e pelo seu papel no d e s e n v o l v i m e n t o da arte c i n e m a t o g r á f i c a c o m o n ó s a c o n h e c e m o s . O cantor de jazz,

d e Alan Crosland, é s e m dúvida u m a das

obras q u e m a r c a r a m a trajetória dos f i l m e s t a n t o c o m o forma de arte q u a n t o c o m o u m a indústria lucrativa. Lançado c m 1927 pela W a r n e r Brothers e estrelado por Al J o l s o n , u m dos mais f a m o s o s cantores da sua época, O cantor de jazz é considerado, por u n a n i m i d a d e , o primeiro l o n g a - m e t r a g e m sonoro. Embora se limite a n ú m e r o s m u s i cais e aos p o u c o s diálogos que a n t e c e d e m e se s e g u e m a eles, o uso do s o m introduziu mudanças

inovadoras

na indústria, d e s t i n a d a s

a revolucionar

Hollywood

como

p r a t i c a m e n t e n e n h u m outro f i l m e c o n s e g u i u fazê-lo. C o m sua mistura de vaudeville e m e l o d r a m a , a t r a m a é r e l a t i v a m e n t e simples. O a d o l e s c e n t e J a k i e (Jolson) é o único filho do devoto solista d e sinagoga

Rabinowitz

( W a r n e r Oland), que o encoraja a seguir o m e s m o c a m i n h o de gerações d e solistas na EUA (Warner Bros.) 88 m i n . P & B Idioma: inglês Direção: Alan Crosland Roteiro: Alfred A. Cohn, J a c k j a r m u t h Fotografia: Hal M o h r Música: Ernie Erdman, J a m e s V.

família. Embora p r o f u n d a m e n t e influenciado por suas raízes j u d a i c a s , a paixão de Jakie é o jazz e ele s o n h a c o m u m a platéia inspirada pela sua voz. Q u a n d o u m a m i g o da f a mília c o n t a a R a b i n o w i t z ter visto J a k i e c a n t a n d o e m u m café, o pai castiga o filho n u m acesso de fúria, fazendo-o fugir de casa e de sua inconsolável m ã e Sara

(Eugénie

Besserer). Anos depois, J a k i e , t a m b é m conhecido c o m o j a c k Robin, volta c o m o u m c o n -

Monaco, Louis Silvers, Irving Berlin

sagrado cantor de jazz e m busca d e reconciliação. Ao encontrar o pai ainda irascível e

tlenco: Al Jolson, M a y McAvoy,

d o e n t e , Jack é forçado a decidir entre sua carreira e sua identidade j u d a i c a .

W,liner O l a n d , Eugenie Besserer,

U m m a r c o q u e representa u m passo decisivo e m direção a u m novo tipo de c i n e m a

Otto Lederer, Bobby Cordon, Richard

e u m novo tipo d e e n t r e t e n i m e n t o , O cantor de jazz é m a i s do q u e o primeiro f i l m e

tucker, Cantor Joseff Rosenblatt

falado. C o n f o r m e a f i r m o u o r e n o m a d o cientista político M i c h a e l Rogin, o f i l m e pode

Oscar: Alfred A. Cohn, Jack J a r m u t h (prémio especial pelo pioneirismo no cinema falado) Indicação a o Oscar: Alfred A. Cohn

(roteiro)

ser v i s t o c o m o u m típico exemplo da t r a n s f o r m a ç ã o d o s j u d e u s na sociedade a m e ricana: sua assimilação racial pela América branca, sua conversão religiosa a u m d o g m a espiritual m e n o s rígido e sua e m p r e e n d e d o r a integração à indústria c i n e m a t o g r á f i c a a m e r i c a n a d u r a n t e a época da chegada do s o m . Cfe


NAPOLEÃO

(1927)

França/ Itália / A l e m a n h a / Espanha/ S u é c i a / Checoslováquia (Gance, Soe.

(NAPOLÉON)

lido 222 m i n u t o s na sua versão mais longa, a cinebiografia de 1927 de Abel C a n c e ni o de escalas que satisfariam seu protagonista. Embora a c o m p a n h e B o n a p a r t e

1I1 ilc seu t e m p o de e s t u d a n t e e m 1780 - c o m a n d a n d o guerras d e bolas d e neve - até a niiiiil.iiHc c a m p a n h a italiana de 1796, para os padrões contemporâneos o f i l m e carece de lidade. Para C a n c e , Napoleão (interpretado por Albert D i e u d o n n é , q u e faz jus ao ) era u m " h o m e m guiado pelo destino", n ã o pela psicologia. Sua veneração ao Imperador francês t e m algo e m c o m u m c o m Alexandre Nevski (1938), de Sergei Eisensteln, ' " l " ambos e m p o l g a n t e s exemplos de cinema a serviço da propaganda nacionalista. Se Cance é mais u m inovador do que u m artista, o fato de Napoleão ainda transbordar nergla e inventividade até hoje serve de medida para o seu brilhantismo. N e n h u m de 'iitemporâneos - nem m e s m o M u r n a u - usou a câmera de forma t ã o inspirada. 11.10 via problemas e m amarrar cinegrafistas a cavalos; chegou a t é a m o n t a r uma Imera n u m a guilhotina. Em outra seqüência brilhante, ele captura o espírito revolulo de uma vibrante (e muda) execução da " M a r s e l h e s a " fazendo a câmera balançar lobrc o cenário c o m o se estivesse e m u m trapézio. Seu mais espetacular e n g e n h o , no

Cénérale) 222 m i n . (original) M u d o P & B (partes coloridas) Direção: Abel Gance Produção: Robert A. Harris Roteiro: Abel Gance Fotografia: Jules Krueger, Joseph-Louls Mundwiller, Torpkoff M ú s i c a : Arthur Honegger Elenco: Albert Dieudonné, Vladlmii Roudenko, Edmond Van Daêle. Alexandre Koubitzky, Antonin Artaud, Abel C a n c e , Gina M a n e s , Suzanne Bianchetti, Marguerite Cance, Yvette Dieudonné, Philippe Hériat, Pierre Batcheff, Eugénie Buffet, Acho Chakatouny, Nicolas Koline

• nl atito, é a "Pollvisão", u m efeito de tela dividida que necessitava de três projetores para 111 tríptico - quase Ires dei.idas antes do advento do Cinerama. T C h

0 CAÇULA (1927)

EUA (Paramount, Harold Lloyd)

(THE KID BROTHER)

84 m i n . Mudo P & B

11 " " I d I loyd é considerado por m u i t o s o "terceiro g ê n i o " da comédia m u d a a m e r i c a n a m i

n m u m seus filmes da década d e 20 a l c a n ç a r e m u m sucesso de público consideImente maior do que os d e Buster K e a t o n e a t é os de Charlie C h a p l i n . G e r a l m e n t e nla ao Zeitgeist da Era do Jazz. a persona c i n e m a t o g r á f i c a de Lloyd c o s t u m a ser hecida por seu o t i m i s m o eficiente e " f r e n é t i c o " , e seus f i l m e s se d e s t a c a m pelas is acrobáticas a u d a c i o s a s e m u l t a s vezes arriscadas. E m m u i t o s deles, as m a r a v i -

l h a , da m o d e r n i d a d e e a personificação delas na própria cidade são q u e s t õ e s f u n d a mentais. O caçula, s e g u n d o longa de Lloyd para a P a r a m o u n t , é considerado o m e l h o r e n u . 1 o m p l e t o f i l m e do c o m e d i a n t e . E m m u i t o s a s p e c t o s , ele dá as costas aos a n o s 20, d l 1 eita forma retornando a o " i d í l i o " rural de Grandma's

Direção: J . A. H o w e , Ted Wilde Produção: Jessé L. Lasky, Harold Lloyd, Adolph Zukor

Roteiro: Thomas J . Crizer, Howaid I Green, John Grey, Lex Neal, Ted w i M e Fotografia: Walter Lundin Elenco: Harold Lloyd, Jobyna Ralston, Walter J a m e s , Leo Wlllis, Olin 1 u m l i , Constantine Romanoff, Eddie Itnl.iinl. Frank Lanning, Ralph Yearsley

Boy.

As duas seqüências m a i s Impressionantes do f i l m e são u m a espécie d e e n s a i o e m Contrastes, ilustrando a c o m b i n a ç ã o d e u m a t l e t i s m o delicado c o m outro u m pouco in.ns bruto q u e marca a m e l h o r obra d e Lloyd. Na primeira seqüência, v e m o s Lloyd li liando u m a árvore alta para conseguir observar u m pouco m a i s a m u l h e r q u e " ih.na de conhecer (e pela qual se apaixonara). Essa seqüência ilustra a meticulosl• l.iile c ousadia técnica do cinema de Lloyd - u m elevador foi construído para a c o m o d a r 1 ' .micra que sobe - e a maneira como esses aspectos estão intrinsecamente ligados ao ' i i i a g e m e à s i t u a ç ã o (o que d e m o n s t r a t a m b é m o uso magistral q u e Lloyd faz dos ibjetos cênicos). A longa segunda seqüência, q u e mostra u m a briga entre Lloyd e seu |iiui(lpal a n t a g o n i s t a , é notável por sua ferocidade ininterrupta e e n c e n a ç ã o rigorosa. Ainh.is as seqüências m o s t r a m o personagem de Lloyd superando suas aparentes limi" " e s , indo além das aparências e fazendo aquela habitual passagem d e queridinho da m a m ã e para t r i u n f a n t e a m e r i c a n o " c o m u m " . A D

ii'i


i UA ( M G M ) 104 m i n . M u d o P & B Direção: King Vidor Produção: IrvingThalberg Roteiro: King Vidor, John V. A. Weaver Fotografia: Henry Sharp Elenco: Eleanor B o a r d m a n , J a m e s Murray, Bert Roach, Estelle Clark, Daniel C. Tomlinson, Dell Henderson, Mu y B e a u m o n t , Freddie Burke

A TURBA

(1928)

(THE CROWD)

"Você t e m q u e ser b o m naquela cidade se quiser vencer a m u l t i d ã o . " É o q u e diz o j o -

v e m J o h n q u a n d o v ê pela primeira vez a cidade de Nova York, a e m p o l g a n t e m e t r ó p o l e na qual ele t e m certeza de q u e seus t a l e n t o s o farão se destacar da massa. As coisas não s a e m c o m o planeja o herói de A turbo, q u e , na verdade, não deveria ser c h a m a d o de herói, u m a vez que a intenção do diretor King Vidor era retratar u m h o m e m tão c o m u m q u e poderia ter sido retirado a e s m o da turba urbana do título. Ele c o m e ç a a

l rtderlck, Alice Mildred Puter

história c o m o u m recém-nascido c o m o qualquer outro e termina c o m o u m burguês

Indicação ao Oscar: Irving Thalberg

nova-iorquino c o m o qualquer outro. Nesse meio-tempo, passa por experiências t ã o

(melhor filme - produção artística e

e n f a d o n h a s que s o m e n t e u m estúdio t ã o ousado q u a n t o a M G M sob o regime d e Irving

notável), King Vidor (direção)

G. Thalberg poderia ter considerado o material digno de u m drama h o l l y w o o d i a n o . T a m p o u c o teria sido considerado dessa forma se Vidor não tivesse dado a ele u m t r a t a m e n t o t ã o extraordinariamente i m a g i n a t i v o . Desde a cena estilizada e m que J o h n recebe a notícia da m o r t e prematura de seu pai - filmada e m u m a escadaria c o m u m a perspectiva forçada, e m p r e s t a d a do c i n e m a expressionista a l e m ã o - a t é o plano final de J o h n e sua m u l h e r M a r y , os protagonistas de n o m e genérico deste f i l m e d e t í t u l o genérico v ã o sendo engolidos por u m a m u l t i d ã o de f ã s de cinema q u e espelha a condição d e g a d o deles e, d e forma certeira e i m p l a c á v e l , a nossa própria. Vidor estava e m alta e m H o l l y w o o d q u a n d o produziu A turba,

recém-saído d o

sucesso do seu épico sobre a Primeira Guerra M u n d i a l , O grande desfile. Para o papel d e Mary, ele escolheu a a t r a e n t e estrela Eleanor B o a r d m a n , q u e calhava ser sua esposa; p o r é m , para o papel de J o h n , arriscou-se c o m o pouco e x p e r i m e n t a d o J a m e s Murray, cuja carreira errática t e r m i n o u e m suicídio m e n o s de u m a década depois. Embora a m b o s e s t e j a m brilhantes, M u r r a y se destaca sob a direção experiente d e Vidor; prova disso é a seqüência e m q u e u m a tragédia i n i m a g i n á v e l atinge o casal diante d e seus olhos horrorizados, u n i n d o a t u a ç õ e s inspiradas c o m edição frenética e u m t r a b a l h o de câmera a b s o l u t a m e n t e perfeito para criar u m d o s m o m e n t o s m a i s inesquecíveis da história do c i n e m a m u d o . Essa é u m a cena q u e se destaca e n o r m e m e n t e da m u l t i d ã o e m u m f i l m e que faz o m e s m o do c o m e ç o ao f i m . DS


DOCAS DE NOVA YORK

(1928)

EUA (Famous Players-Lasky,

(THE DOCKS OF NEW YORK)

Paramount) M u d o P & B

0 ano de 1928, o ú l t i m o do reinado do c i n e m a m u d o , produziu a l g u m a s de suas maio-

Produção: |. G. B a c h m a n n

i i " , obras-primas, m a r c a n d o a m a t u r a ç ã o final d e u m a forma que logo estaria extinta:

mem das novidades, A turba, O anjo das ruas. Marcha nupcial, Vento e areia. Como .".•.rs, Docas de Nova York, de Josef v o n Sternberg, é u m f i l m e perfeito e m sua e c o n o m i a 1 i i f i n a m e n t o . O enredo é m í n i m o e os p e r s o n a g e n s , poucos, deixando m a i s espaço • t i que se d e s e n v o l v a m ao m á x i m o a a t m o s f e r a e o g e s t u a l . Os personagens d e Docas de Nova York parecem ter saído do n a t u r a l i s m o fatalista ili uma peça de Eugene O'Neill para a p a i s a g e m arquetípica d e u m conto d e f a d a s : u m a 1

" i r . l u r a d e Anna Christie e O macaco c o m A bela e a fera. O r o m a n c e da zona portuária dc Sternberg é dividido e m duas partes: noite e m a n h ã . A noite é u m a resplandecente 1 1 sombria c o m p o s t a de névoa, f u m a ç a , poças d e luz e reflexos t r e m e l u z e n t e s . 1 reino e n c a n t a d o , o corpulento foguista Bill (George Bancroft) fisga M a e (Betty I iinipson), u m a pedinte suicida, e m meio a u m a bebedeita. O casal acaba e m u m in agitado o n d e , no calor do m o m e n t o , f a z e m a promessa de se c a s a r e m , o q u e pode ser sério o u a p e n a s pretexto para sexo c a s u a l . A luz fria e límpida da m a n h ã traz nslgo d e s a m p a r o , desilusão e a r r e p e n d i m e n t o , e n q u a n t o Bill a b a n d o n a o barco e retorna para ser punido por ter roubado u m vestido de M a e . 0 c o m e d i m e n t o e a precisão das interpretações - a indiferença contida de Bancroft, deliberada graciosidade c o m q u e m o v e seu corpanzil e a lânguida prostração de I I niipson, aliada a o delicado equilíbrio entre mágoa e esperança e m seus olhos s e m p r e 1 idos para cima - s u s t e n t a m u m v é u c o n s t a n t e m e n t e oscilante d e e s p e c u l a ç ã o a leito das idéias e s e n t i m e n t o s dos personagens principais. Até que p o n t o Bill e M a e 1 in blefando u m para o outro, são m u t u a m e n t e e n g a n a d o s e estão e n g a n a n d o a si m e s m o s ? Sternberg, todos c o n c o r d a m (inclusive ele próprio), era o mais frio dos diretoI I " , . c o n t u d o criou m u i t o s dos m a i s tocantll l e s t e m u n h o s do c i n e m a d e que o a m o r I. ile todos nós tolos. Docas de Nova York I u m deles, e a reticência autodcpreciativa 1 m u q u e ele revela as tolices do coração o i n n i a ainda m a i s c o n v i n c e n t e . M R

Direção: Josef v o n Sternberg Roteiro: Jules F u r t h m a n , baseado no conto The Dock Walloper, de John M o n k Saunders Fotografia: Harold Rosson Elenco: George Bancroft, Betty Compson, Olga Baclanova, Clyde Cook, Mitchell Lewis, Gustav von Seyffertitz, Guy Oliver, M a y Foster, Lillian W o r t h


UM CAO ANDALUZ m (UM CHIEN ANDALOU)

A estréia na direção d e Luis B u n u e l , e m colaboração c o m o artista Salvador Dali, está gravada e m nossa m e n t e por causa d e u m a i m a g e m : u m a navalha c o r t a n d o u m globo ocular. O q u e é isso: tática d e c h o q u e , s í m b o l o d e u m a " v i s ã o " m o d e r n i s t a , hostilidade m a s c u l i n a contra as m u l h e r e s ? Para J e a n Vigo - q u e a c l a m o u U m cão andaluz

por sua

" c o n s c i ê n c i a s o c i a l " -, a m o n t a g e m associativa d e B u n u e l levantou u m a q u e s t ã o filosófica: "Essa i m a g e m é mais pavorosa do que o e s p e t á c u l o de u m a n u v e m t a p a n d o uma França 16 m i n . M u d o P & B Direção: Luis Bunuel

lua c h e i a ? " U m a coisa é certa: a i m a g e m engendra

u m a clássica

parábola

surrealista sobre Eros, sempre negado e frustrado pelas Instituições e c o s t u m e s . M u i t a s vezes, por conta d e sua grande influência sobre os videocllpes d e rock, U m foi e c o n t i n u a s e n d o reciclado e reduzido a u m a coleção d e I m a g e n s

Produção: Luis Bunuel

cão andaluz

Roteiro: Luis Bunuel, Salvador Dali

desconexas, i m p a c t a n t e s e i n c o n g r u e n t e s : u m cavalo m o r t o e m u m plano, formigas

Fotografia: Albert Duverger

saindo da m ã o d e a l g u é m . Porém essa a b o r d a g e m ignora o q u e dá à obra sua força

lltnco: Pierre Batcheff, Simone

coesiva: o fato d e q u e , e m m u i t o s aspectos, B u n u e l respeita e s c r u p u l o s a m e n t e certas

M.11<• niI, Luis Bunuel, Salvador Dali

c o n v e n ç õ e s da c o n t i n u i d a d e clássica e e n c a d e a m e n t o de i m a g e n s , criando u m a a t m o s f e r a narrativa sólida e i n q u i e t a n t e entre esses f r a g m e n t o s do i n c o n s c i e n t e . Trata-se d e u m a dialética entre racionalidade superficial e as forças profundas e revoltas do ld q u e B u n u e l continuaria explorando até o f i m d e sua carreira. A M


A PAIXÃO DE JOANA D'ARC (1928) (LA PASSION DE JEANNE D'ARC) 1 prima d e 1928 d e Carl Dreyer - seu ú l t i m o f i l m e m u d o e o m e l h o r f i l m e sobre

França (Société générale) 110 m i n . M u d o P8cB Direção: Carl Theodor Dreyer Roteiro: Joseph Delteil,

loana d'Arc - lhe d e u fama m u n d i a l , e m b o r a , c o m o m u i t o s d e seus trabalhos posterio-

Carl Theodore Dreyer

i'

Fotografia: Rudolph M a t é

lusse e s t r i t a m e n t e u m succès d'est/me e tenha tido u m d e s e m p e n h o de bilheteria

li.11 o. U m a cópia da versão original - perdida há m e i o século - foi redescoberta e m u m

Elenco: Renée Falconetti, Eugene

hospício norueguês na década de 1980. O u t r a s cópias foram destruídas q u a n d o o depó-

Silvain, André Berley, Maurice Schut/,

n q u e e s t a v a m guardadas pegou fogo e a s d u a s versões q u e c i r c u l a r a m s u b s e q u e n t e m e n t e c o n s i s t i a m e m sobras. lodos os f i l m e s d e Dreyer são baseados e m obras de ficção ou peças, c o m exceção 1I1 A paixão de J o a n a d'Arc, que foi baseado e s s e n c i a l m e n t e nas transcrições oficiais d a s H 1 . do j u l g a m e n t o d e J o a n a . Ele foi realizado a p e n a s oito a n o s depois d e J o a n a ser lizada na França e 10 a n o s após o f i m da Primeira Guerra M u n d i a l , dois fatos cru1 M I , para a interpretação d e Dreyer. O s capacetes utilizados pelos o c u p a n t e s ingleses 1 ni 1431 l e m b r a m os da guerra recente e os espectadores de 1928 v i r a m o f i l m e c o m o mu " d o c u m e n t á r i o " histórico, à s e m e l h a n ç a dos posteriores filmes de Peter W a t k i n s . Joana é interpretada por Renée Falconetti, u m a .11 H Z de teatro descoberta por Dreyer e m u m a co m í d i a de bulevar, q u e , s e g u i n d o seus c o n s e l h o s , fez " papel s e m m a q u i a g e m . Ela e seus intcrlocutotes .m filmados q u a s e q u e e x c l u s i v a m e n t e c m closes. 1 iiibora sua interpretação seja u m a d a s mais determ i n a n t e s da história do c i n e m a , ela não fez n e n h u m Outro f i l m e . A n t o n i n A r t a u d t a m b é m aparece e m s e u m.lis m e m o r á v e l papel, c o m o o c o m p r e e n s i v o irmão I c i n Massieu. A a b o r d a g e m radical de Dreyer na construção do ipaço e a i n t e n s i d a d e lenta d e seu estilo d e c â m e r a movei t o r n a m este f i l m e " d i f í c i l " no s e n t i d o de q u e , nino

todos

os grandes

f i l m e s , ele reinventa

o

m u n d o desde seus alicerces. A paixão dc Joana d'Arc é 1 i m b é m doloroso, c o m o o são todas a s tragédias d e Dreyer, m a s e l e c o n t i n u a r á v i v e n d o m u i t o

tempo

depois que a maioria dos f i l m e s comerciais t i v e r e m .ipagado d e nossa m e m ó r i a . JRos

Antonin A r t a u d , Michel S i m o n j e a n d'Yd, Louis Ravet, Armand Lurville, Jacques Arnna, Alexandre Mihalesi o, Leon Larive


EUA (luister Keaton) 71 min. Mudo P & B Direção: Charles Reisner, liuster Keaton Produção: Joseph M . Schenck Fotografia: Bert Haines, Devereaux Jennings

,

Elenco: Buster Keaton, Tom McCuire, 111 lest Torrence, Tom Lewis, Marion Byron

CAPITÃO BILL JR.

(1928)

(STEAMBOAT BILL, JR.)

M a i s até do que o f o r m a l m e n t e experimental SherlockIr. (1924), este f i l m e , j u n t a m e n t e

com Nossa hospitalidade (1923) e A general (1927), revela, além do considerável talento de Keaton c o m o c o m e d i a n t e , seu grau de excelência c o m o diretor. E m Capitão

Bill Jr„ o

quase sempre discreto porém sempre exímio p o s i c i o n a m e n t o da câmera desenvolve no espectador u m a verdadeira s i m p a t i a pela cidadezinha às m a r g e n s do Mississlppi e m que Buster, u m vigarista da cidade grande f o r m a d o na universidade, aparece para visitar seu pai, que é dono de u m barco a vapor e está sendo perseguido. O pai, que faz o tipo m a c h ã o , se d e s a p o n t a c o m o jeito u m t a n t o afetado do filho e fica m e n o s feliz ainda q u a n d o o garoto se apaixona pela filha de u m rival poderoso d e t e t m i n a d o a tirar Bill pai das á g u a s . N e m é preciso dizer q u e Buster acaba por provar seu valor e n q u a n t o o tufão do clímax destrói a cidade e m u m a longa seqüência de acrobacias v i r t u o s a s , ação m e t i c u l o s a m e n t e encenada e u m suspense de ritmo soberbo, porém n ã o a n t e s de fazer m u i t a graça da noção do que é aceitável ou inaceitável no c o m p o r t a m e n t o m a s c u l i n o . U m a cena e m especial, e m q u e pai e filho vão comprar c h a p é u s ( b e m d e frente para a c â m e r a , c o m o se ela fosse u m espelho), é não só hilária, c o m o u m primoroso exemplo da consciência m u i t o " m o d e r n a " e bem-humorada de K e a t o n da sua persona cômica. Mágico. G A

U R S S (Mezhrabpomfilm) 93 m i n . Mudo P & B Direção: Vsevolod Pudovkin Roteiro: Osip Brik, I. Novokshenov

TEMPESTADE SOBRE A ASIA

(1928)

(P0T0M0K CHIIMGIS KHANA) U m m ê s depois d e concluir O fim de S ã o Petersburgo, Vsevolod Pudovkin já trabalhava

Fotografia: Anatou Golovnya

nesta fábula épica, a p a r e n t e m e n t e Inspirada t a n t o pela história original d e u m pastor

Elenco: Valéry Inkijinoff, I, Dedintsev,

que se torna u m grande líder q u a n t o pela possibilidade de filmar e m território v i r g e m ,

Aleksandr Chistyakov, Viktor Tsoppi,

a exótica Mongólia Exterior. Valéry Inkijinoff, colega de Pudovkin na Escola Estatal de

P, Ivanov, V. Pro, Borls Barnet,

C i n e m a , Interpreta o herói s e m n o m e , u m m o n g o l q u e aprende a desconfiar d o s

K. Curnyak, I. Inklshanov,

capitalistas q u a n d o u m mercador de peles ocidental rouba dele u m a rara pele de raposa

I Belinskaya, Anel Sudakevich

prateada. O ano é 1918, e a M o n g ó l i a se u n e aos socialistas contra o exército de o c u p a ção b r i t â n i c o . C a p t u r a d o , ele é c o n d e n a d o ao paredão (por reconhecer a palavra M o s c o u ) , porém sua vida é salva q u a n d o u m a n t i g o talismã é e n c o n t r a d o e m sua posse, u m d o c u m e n t o q u e identifica o portador c o m o d e s c e n d e n t e direto de Gengis K h a n . O s ingleses o declaram rei de f a c h a d a , m a s ele escapa para conduzir seu povo a uma fantástica vitória. Uma

curiosa

mistura

de empolgante

aventura

cinematográfica,

propaganda

socialista soviética e d o c u m e n t á r i o etnográfico, Tempestade sobre a Ásia nunca deixa de divertir. Ele se destaca pelo senso de c o m p o s i ç ã o épica de P u d o v k i n , que fica claro na cena da coluna de cavalaria preenchendo o horizonte e m forma de leque e e m a l g u m a s i m p a c t a n t e s seqüências d e m o n t a g e m d e inspiração cubista - assim c o m o pela sua sátira irônica dos rituais budistas e da traição ocidental da fé. TCh


CHANTAGEM E CONFISSÃO

(1929)

(BLACKMAIL)

Inglaterra (BIP, Gainsborough) 96 m i n . P & B

Imbora Alfred H i t c h c o c k t e n h a a p r e s e n t a d o m u i t o s dos t e m a s aos q u a i s retornaria no irrer de sua carreira e se a f i r m a d o c o m o mestre do gênero s u s p e n s e c o m o m u d o O '/lista (1927), foi este f i l m e d e 1929 q u e selou sua r e p u t a ç ã o e o e n c a m i n h o u para lima brilhante carreira c i n e m a t o g r á f i c a . Chantagem

e confissão e n t r o u e m p r o d u ç ã o

I d i o m a : inglês Direção: Alfred Hitchcock Produção: John Maxwell Roteiro: Alfred Hitchcock, baseado na peça de Charles B e n n e t t

u m f i l m e m u d o , m a s foi reformulado no m e i o d a s f i l m a g e n s para se tornar o

Fotografia: Jack E. Cox

110 f i l m e t o d o falado da Inglaterra; essa decisão d e m o n s t r a t a n t o o grau de

Música: James Campbell, Reg Connelly

inibição de H i t c h c o c k , m e s m o nesse estágio da sua carreira, q u a n t o c o m o seu t a l e n t o

Elenco: Anny Ondra, Sara Allgood,

ira obvio o s u f i c i e n t e para q u e os produtores, d o n o s do dinheiro, a r c a s s e m c o m a s

Charles Paton, John Longden, Donald

hiiiv.ições t é c n i c a s . U m dos maiores t r u q u e s de Hitchcock foi ser ao m e s m o t e m p o de uarda e c o m e r c i a l : a q u i ele usa t e c n o l o g i a s recém-desenvolvidas, q u e m u i t o s I.i s u s p e i t a v a m n ã o ter f u t u r o , a serviço de u m m e l o d r a m a q u e , apesar da densi• 1.1111• psicológica, c o n s e g u e ser vibrante (e divertido). Alice W h i t e (Anny Ondra) briga c o m Frank (John Longden), seu namorado policial, e a c o m p a n h a por I m p u l s o u m libidinoso artista (1 vi ¡1 Ritchard) até seu flat. Q u a n d o o c a n a l h a tenta estuprá-la, ela - defende esfaqueando-o e foge. No e n t a n t o , u m a conversa à „1 do café da m a n h ã c o m sua família a faz se lembrar do trauma à medida q u e a palavra " f a c a " a a p u n h a l a s e m parar e a I H de u m a faca de pão q u a s e a leva a u m a crise histérica, i m p l a n t o a maioria d o s c i n e a s t a s q u e p a s s a v a m para os f i l m e s falados se esforçava para q u e cada linha d e diálogo fosse gravada 10 se para u m a aula de e l o c u ç ã o , Hitchcock brinca c o m a trilha lonora nessa cena, de m o d o q u e a maior parte da conversa se torna u m a f a l a ç ã o i n c o m p r e e n s í v e l - o q u e realça ainda m a i s a 1'alavra-chave q u e soa clara a o s o u v i d o s . Esse talvez seja o m o m e n t o e m q u e os f i l m e s falados pararam d e s i m p l e s m e n t e falar e 1 amar e o verdadeiro p o t e n c i a l do s o m c o m o a c r é s c i m o a o arsenal do diretor f i c o u claro. Tendo n a s m ã o s u m a atriz tcheca já escalada cujo inglês era ileliciente, Hitchcock t a m b é m

experimentou com a dublagem,

l a / e n d o J o a n Barry ler os diálogos por trás das c â m e r a s e n q u a n t o 1

unira fazia a m í m i c a c o m a boca, u m recurso I n c o m u m (e raras izes repetido) q u e p e r m i t e u m a bem-sucedida síntese d e inter-

pretação. A sedutora presença de Ondra, u m a d a s primeiras louras a i o r m e n t a d a s d e Hitchcock, impressiona c o m s e u frescor e conegue t o r n a r c a t i v a n t e sua inocente assassina, e n q u a n t o o v e r m e ipie a c h a n t a g e i a é retratado c o m o u m verdadeiro vilão. KN

Calthrop, Cyril Ritchard, Hannah Jones, Harvey Braban, ex-detetive Sergeant Bishop


U R S S (Wufku) 80 m i n . M u d o P&tB Direção: Dziga Vertov Roteiro: Dziga Vertov Fotografia: Dziga Vertov

UM HOMEM COM UMA CAMERA

(1929)

(CHELOVEKS KIIMOAPPARATOM) Dziga Vertov (Denis Kaufman) começou sua carreira com cinejornais, filmando o Exército Vermelho durante a Guerra Civil Russa (1918-1921) e exibindo o material para platéias de vilarejos e cidades que embarcavam nos "agit-trains", trens equipados para exibição de filmes e peças teatrais. A experiência ajuda Vertov a formular suas idéias sobre cinema, idéias compartilhadas por u m grupo de jovens cineastas afins que se intitulavam Kino-glaz (Cine-olho). O s princípios do grupo - a " h o n e s t i d a d e " do documentário se comparado a filmes de ficção, a "perfeição" do olho cinematográfico se comparado ao olho h u m a n o permeiam o filme mais extraordinário de Vertov, o fascinante Um homem com uma comera. Aqui, Vertov combina u m a política radical com u m a estética revolucionária criando u m efeito exultante e até vertiginoso. Os dois componentes da produção cinematográfica - câmera e m o n t a g e m - f u n c i o n a m c o m o parceiros equivalentes (e dotados de gênero). O cinegrafista do sexo masculino de Vertov (seu irmão Mikhail Kaufman) filma u m dia na v i da da cidade moderna - o q u e Vertov c h a m a v a de " á v i d a pega desprevenida" - enquanto sua m o n t a d o r a do sexo feminino (sua esposa Elizaveta Svilova) corta e emenda as imagens, reformulando assim essa vida. C o m o resultado, Vertov explora todos os recursos disponíveis de f i l m a g e m e edição - câmera lenta, a n i m a ç ã o , imagens múltiplas, tela dividida, zoom in e zoom out, foco e m b a ç a d o e Imagens congeladas - criando, ao m e s m o t e m p o , u m m a n u a l de técnicas cinematográficas e uma ode a o novo Estado soviético. A câmera começa a rodar enquanto a cidade vai acordando aos poucos, seus ônibus e bondes saindo das garagens e as ruas vazias se enchendo gradualmente, e prossegue a c o m panhando os habitantes da cidade (quase sempre Moscou, embora boa parte do material tenha sido filmado e m Kiev, Yalta e Odessa) c m suas rotinas de trabalho e lazer. Esse dia condensa todas as etapas da vida, enquanto a câmera espia entre as pernas de uma mulher para ver u m bebê nascer, observa crianças hipnotizadas por u m mágico de rua e segue uma ambulância com a vítima de u m acidente a bordo. Novos rituais substituem os antigos à medida que casais se casam, se separam e se divorciam e m u m cartório em vez de na igreja. Vertov dá forma visual aos preceitos d e Marx e m u m a m o n t a g e m formidável q u e a c o m p a n h a a passagem do trabalho m a n u a l para o m e c a n i z a d o (mulheres progridem da costura à m ã o para a costura à m á q u i n a , do ábaco para a m á q u i n a registradora) e que enaltece a rapidez, a eficiência e a t é a alegria do trabalho n u m a linha d e m o n t a g e m . Trabalhadores

usam

seu r e c é m - c o n q u i s t a d o

lazer

para

se

socializar e m clubes e bares m a n t i d o s pelo Estado, tocar música e jogar xadrez, nadar e t o m a r b a n h o de s o l , praticar salto c o m vara o u jogar f u t e b o l . A s " p e s s o a s c o m u n s " d e M o s c o u t o r n a m se astros de suas próprias vidas a o se v e r e m na tela. Q u a n d o Vertov dá u m explosivo adeus ao velho dividindo o Teatro Bolshoi e m dois, sua defesa do potencial revolucionário do cinema já está feita. Vertov a c a b o u n ã o c o n s e g u i n d o se adaptar ao realismo s o cialista e sua carreira entrou e m declínio. E m U m h o m e m c o m uma câmera, no e n t a n t o , ele a l c a n ç o u seu o b j e t i v o : u m a f o r m a narrativa n ã o linear de c i n e m a e u m glorioso t r i b u t o a t o d o o potencial da arte c i n e m a t o g r á f i c a . J W


Alemanha (Nero-Film) 97 m i n . Mudo P & B Direção: Georg W i l h e l m Pabst Produção: Seymour Nebenzal

A CAIXA DE PANDORA

(1929)

(DIE BÜCHSE DER PANDORA) A fama d e A caixa de Pandora, obra-prima atemporal de G . W . Pabst, adaptada das " p e -

lioteiro: Joseph Fleisler, Georg

ças de L u l u " de Frank W e d e k i n d , se deve à sua criação de u m personagem arquetípico a

W i l h e l m Pabst, baseado nas peças

partir de Lulu (Loulse Brooks), u m a Inocente sedutota cuja escancarada sexualidade

I rdgelst e D/e Büchse der Pandora,

acaba a r r u i n a n d o a vida d e todos à sua volta. Embora Pabst tenha sido criticado à é p o -

ile I i.mk Wedekind

ca por escalar u m a estrangeira para u m papel que era considerado e m b l e m á t i c a m e n t e

Fotografia: Günther Krampf Elenco: Louise Brooks, Fritz Kortner, I laneis Lederer, Carl Goetz, i' u l l i «aschig, Alice Roberts, Gustav Diessl

a l e m ã o , o principal m o t i v o de o f i l m e ser lembrado é a interpretação da estrela a m e r i cana Louise Brooks. Dona d e u m a presença t ã o poderosa e erótica q u e a i m p e d i u de fazer a transição d e suas m e l i n d r o s a s m u d a s para os papéis falados q u e merecia e m uma H o l l y w o o d d o m i n a d a por Shirley Temple, Brooks é a v a m p e definitiva, c o m seu corte d e cabelo c u r t i n h o de franja reta q u e é c o n h e c i d o a t é hoje c o m o " L u l u " . Apresentada e m " a t o s " , a história c o m e ç a c o m Lulu e m u m a sala de estar burguesa de B e r l i m , o n d e ela é a adorada a m a n t e d e Peter S c h ó n (Fritz Kortner), u m editor de jornal v i ú v o , e flerta c o m Aiwa (Francis Lederer), o filho adulto do seu a m a n t e , e até c o m o c a f e t ã o Schigolch (Carl Goetz), c o m aparência de g n o m o e q u e pode ser t a n t o seu pai c o m o s e u primeiro caso a m o r o s o . Lulu parece ser e n t r e g u e a o d o n o d e u m cabaré (Krafft-Raschig), no e n t a n t o , a o se sentir provocada q u a n d o S c h ó n diz ao filho que " n ã o se deve casar" c o m u m a m u l h e r do seu tipo, ela arma u m incidente no c a m a r i m da casa de e s p e t á c u l o s , fazendo c o m q u e o editor rompa sua relação c o m a noiva e se case c o m ela, embora S c h ó n saiba q u e Isso o levará à ruína. Apesar d a s suspeitas de que seu m a r i d o t e n h a c o m e t i d o suicídio, Lulu acaba sendo condenada por seu assassinato. Fugindo c o m Aiwa, Schigolch e sua admiradora lésbica,


lessa G e s c h w i t z (Alice Roberts), ela chega a u m barco no rio Sena - u m a n t r o de •pio o n d e ela é q u a s e vendida para u m bordel egípcio e surpreende A i w a a trainiima h u m i l h a n t e - e f i n a l m e n t e a u m a Londres natalina, onde é perseguida por stripador (Gustav Dlessl). Pabst cerca Brooks de impressionantes c o a d j u v a n t e s los fabulosos (o espetáculo no abarrotado c a m a r i m do cabaré ofusca t u d o o que ce no palco), porém é a personalidade v i b r a n t e , erótica, assustadora e comola atriz que gera identificação c o m o e s p e c t a d o r m o d e r n o . A mistura de i m a g e m ide de Brooks possui t a n t a força e frescor q u e ela faz M a d o n n a parecer Phyllis cu estilo de a t u a ç ã o impressiona pela ausência de m a n e i r i s m o para a era m u d a , ili.|n usando os recursos da m í m i c a e da m a q u i a g e m expressionista. S e u d e s e m p e n h o bem de u m a extraordinária h o n e s t i d a d e : já q u e nunca apela para a pieguice, o idor é forçado a reconhecer, m e s m o sob seu feitiço, q u ã o destrutiva é Lulu. ,nl)ora as peças originais se passem e m 1888, o ano dos crimes do Estripador, Pabst na u m cenário f a n t á s t i c o , porém c o n t e m p o r â n e o , que parece c o m e ç a r na moderda Berlim da década de 20 e e n t ã o voltar no t e m p o a u m a Londres nebulosa una cena de assassinato que é o primeiro grande inslght do c i n e m a no q u e diz to à m e n t a l i d a d e de u m serial killer. Lulu, q u e se torna prostituta para q u e |i hlgolch possa ter u m ú l t i m o p u d i m de N a t a l , e n c a n t a o t i t u b e a n t e Jack, q u e joga de na faca e faz u m esforço sincero para não m a t a r n o v a m e n t e , m a s é v e n c i d o pelo M U impulso assassino. KN


Alemanha (Universum Film A.G.-UFA)

99 m i n . P & B Idioma: a l e m ã o / inglês

0 ANJO AZUL

(1930)

(DER BLAUE ENGEL)

É m u i t o apropriado q u e o f i l m e q u e levou M a r l e n e Dietrich a o estrelato

(embora

Direção: Josef von Sternberg

estivesse longe de ser seu primeiro papel) c o m e c e c o m u m a m u l h e r l i m p a n d o u m vidro

Produção: Erich Pommerr

que exibe u m pôster de Lola e se c o m p a r a n d o a essa i m a g e m idealizada. Nessa equa-

Roteiro: Carl Zuckmayer, baseado

ção, a realidade s e m g l a m o u r das ruas (ou, mais tarde, dos palcos) vale m a i s na m e n t e

no livro Professor Unrat, de I lelnrich M a n n M ú s i c a : Frederick Hollander Fotografia: Günther Rittau Elenco: Emil J a n n i n g s , Marlene Dietrich, Kurt Gerron, Rosa Valetti, Hans Albers, Reinhold Bernt, Eduard von Winterstein, Hans Roth,

do diretor Josef v o n S t e r n b e r g do q u e o Ideal Ilusório, o q u e determina a lógica impiedosa de O anjo

azul.

Os filmes q u e S t e r n b e r g faria p o s t e r i o r m e n t e c o m Dietrich e m H o l l y w o o d são e s p e t á c u l o s exuberantes, barrocos e m u i t a s vezes burlescos. O anjo azul - filmado s i m u l t a n e a m e n t e e m versões e m língua inglesa e alemã u m pouco diferentes entre si mostra o diretor ainda e m sua fase expressionista, t e c e n d o u m estilo s o m b r i o e pesado para enfatizar o poderoso histrionismo de Emil J a n n i n g s . J a n n i n g s faz o papel

Roll Müller, Roland Varno,

de I m m a n u e l R a t h , u m respeitado professor que cai nos e n c a n t o s de Lola depois q u e

( all Kaihaus, Robert Klein-Lörk,

vai ao a n t r o de perversão conhecido c o m o " O anjo a z u l " para Investigar a obsessão de

I Ii.tiles Puffy, W i l h e l m Diegelmann, Gerhard Hienert

seus a l u n o s h o m e n s . Baseada no r o m a n c e d e Heinrich M a n n , esta é u m a história sobre a decadência, sobre o " m o v i m e n t o d e s c e n d e n t e " . N o decorrer dela, Rath será reduzido a u m palhaço q u a s e i n u m a n o - espelhando o palhaço que aparece antes no papel de u m dos vários duplos Irônicos do m a l f a d a d o herói. Sternberg frisa, c o m u m rigor exemplar c s i s t e m á t i c o , a v e r t i c a l i d a d e d a s relações d e espaço no f i l m e : Rath está s e m p r e e m u m a posição mais baixa, e r g u e n d o os olhos para a i m a g e m de Lola

(como

q u a n d o ela joga sua calcinha e m cima da cabeça dele), a n ã o ser q u a n d o - n u m a paródia da sua posição autoritária - é bajulado pelo sinistro diretor do t e a t r o . Lola é u m a femme fatale clássica, u m a vez q u e seduz os h o m e n s e os dispensa q u a n d o se cansa deles - e, nesse m e i o - t e m p o , gosta d e tratá-los c o m o escravos. Ainda a s s i m , existe por u m t e m p o u m lado terno e leal no r e l a c i o n a m e n t o dela c o m R a t h ; q u a n d o ela reprisa a f a m o s a "Falllng in Love A g a i n " , q u a s e c o n s e g u i m o s a d m i t i r a aceitação passiva do seu destino errante e r o m â n t i c o ("Eu sei q u e a culpa n ã o é minha"). A M


França (Corinth) 6o m i n . P & B Idioma: francês Direção: Luis Bunuel Produção: Visconde de Noailies Fotografia: Albert Duverger Roteiro: Luis B u n u e l , Salvador Dali M ú s i c a : George Van Parys Elenco: Gaston M o d o t , Lya Lys, Caridad de Laberdesque, Max Ernst, Josep Llorens Artigas, Lionel S a l e m , Germaine Noizet, Duchange, BnnaventuraIbánez

A IDADE DO OURO

(1930)

(L'ÂGE D'OR)

Em 1928, dois j o v e n s e s p a n h ó i s e m Paris - Luis B u n u e l , d e 28 a n o s , e Salvador Dali, de

2 4 - c o n c e b e r a m u m a u t ê n t i c o c u r t a - m e t r a g e m surrealista, U m cão andaluz. Rodado e m d u a s s e m a n a s , o f i l m e c h o c o u , i m p r e s s i o n o u e e n c a n t o u a intelligentsia; além de encorajar o v i s c o n d e d e Noailies a financiar u m longa-metragem. Dali, no e n t a n t o , logo a b a n d o n o u o projeto (embora seu n o m e permaneça nos créditos) e o f i l m e resultante, A idade do ouro, deve ser considerado c o m o apenas de B u n u e l . Nas palavras do próprio diretor: " O instinto sexual e a s e n s a ç ã o da m o r t e dão substância ao f i l m e , é u m filme r o m â n t i c o e n c e n a d o e m u m perfeito frenesi surrealista." A idade do ouro é i m p u l s i o n a d o pela noção surrealista de l'amour fou e - negando de certa forma os preceitos do m o v i m e n t o - sua história se desenrola e p i s o d i c a m e n t e . Ela c o m e ç a c o m u m d o c u m e n t á r i o sobre escorpiões (na v e r d a d e , u m f i l m e de 1912 ao qual B u n u e l a c r e s c e n t o u c o m e n t á r i o s científicos). U m g r u p o d e bandidos f a m i n t o s sai aos trancos d e u m a cabana e n q u a n t o quatro bispos f a z e m e s t r a n h o s rituais na praia. Barcos t t a z e m u m a m u l t i d ã o d e distintos cavalheiros e v i d e n t e m e n t e para honrar a m e m ó r i a do bispo, m a s o cerimonial é interrompido pelos gritos de u m h o m e m e u m a m u l h e r fazendo sexo. O h o m e m é preso e arrastado pelas ruas. As seqüências seguintes se p a s s a m na casa da m u l h e r e e m u m a e l e g a n t e festa dentro d e u m a vila, o n d e eles v o l t a m a se amar, m a s são interrompidos d e várias m a n e i r a s . Cenas d e u m frenesi surrealista c o n d u z e m à seqüência final à medida que os libertinos de Sade a b a n d o n a m suas orgias no C h â t e a u de Sellini. S e u líder é c l a r a m e n t e retratado c o m o J e s u s . Previsivelmente, o f i l m e gerou u m a feroz c o m o ç ã o e polêmica entre os surrealistas. Organizações de direita, c o m o a Liga dos Patriotas e a Liga Anti-semita, organizaram passeatas q u e resultaram e m graves d a n o s ao c i n e m a , proibição policial de exibições f u t u r a s , a l é m de u m a violenta controvérsia política e crítica. Henry Miller escreveu, de forma notável e extensiva, sobre o f i l m e e seu criador: " O u v o c ê é c o m o o resto da h u m a n i d a d e civilizada o u é orgulhoso e íntegro c o m o B u n u e l . E se v o c ê é orgulhoso e íntegro, e n t ã o , é u m anarquista e atira b o m b a s . " S e g u i n d o os d o g m a s surrealistas d e " n ã o fazer arte", B u n u e l exigiu do seu t a l e n t o so cinegrafista Albert Duverger u m visual c o m u m , i l u m i n a d o c o m s i m p l i c i d a d e . T a m bém rejeitou o pedido de Noailies d e q u e a música fosse c o m p o s t a por Stravinsky, u s a n d o , e m vez disso, j u s t a p o s i ç õ e s maliciosas de suas i m a g e n s escabrosas, sinfonias r o m â n t i c a s (Wagner, S c h u b e r t , Debussy) e os ríspidos t a m b o r e s cerimoniais d e sua Calanda de o r i g e m , na Espanha. A idade do ouro nos legou a l g u m a s das m a i s inesquecíveis i m a g e n s do c i n e m a : os bispos m u m i f i c a d o s ; o pintor Max Ernst c o m o u m bandido frágil e m o r i b u n d o ; a vaca na c a m a d e u m a elegante vila burguesa; Lya Lys c h u p a n d o o dedão do pé d e u m a e s t á t u a ; o rosto e n s a n d e c i d o de G a s t o n M o d o t ; o angelical Jesus e seus a l e g r e m e n t e exaustos seguidotes na p o n t e levadiça do castelo. Este é u m f i l m e a t e m p o r a l , q u e irá m a n t e r seu poder d e provocar e chocar no século X X I e a l é m . DRob


U R S S (Wufku) 75 m i n . M u d o P & B Direção: Aleksandr Dovzhenko Roteiro: Aleksandr Dovzhenko Fotografia: Daniil Demutsky M ú s i c a : Lev Revutsky (versão restaurada) Elenco: Stepan Strkurat, S e m y o n Svashenko, Yuliya Solntseva, Yelena M a k s i m o v a , Nikolai Nademsky, I. Franko, Arkhip, Pyotr Masokha,

TERRA

(1930)

(ZEMLYA)

Terra, de Aleksandr D o v z h e n k o , pode ser considerado a maior conquista do cinema m u d o soviético, q u e n u n c a cessa de impressionar. U m modernista que se inspirou p r o f u n d a m e n t e na arte folclórica - a s s i m c o m o seus c o n t e m p o r â n e o s Mare Chagall e S h o l e m Aleichem -, D o v z h e n k o criou u m a ode ao Início da coletivização na Ucrânia que é u m a orgia de i m a g e n s delirantes de c a m p o s de centeio ao v e n t o , frutas a m a d u r e c e n do e cavalos e m disparada. A chegada do trator é recebida c o m alegria pelos c a m p o neses, q u e c o m e ç a m a i m a g i n a r u m a nova vida para si m e s m o s , porém os kulaks

V. Mikhajlov, Pavel Petrik,

(proprietários de terras) sobreviventes conspiram para assassinar o j o v e m líder do

p. U m a n e t s , E. Bondina, t. Lyashenko,

c o m i t ê do Partido do vilarejo. Sua m o r t e , no e n t a n t o , serve apenas para fortalecer o

M. Matsyutsia, Nikolai Mikhajlov

í m p e t o dos c a m p o n e s e s . Em u m f i n a l espetacular, D o v z h e n k o une os t e m a s do n a s c i m e n t o , m o r t e , colheita, progresso e solidariedade à medida que o morto retorna à terra q u e t a n t o a m o u . C o n t u d o , n e n h u m r e s u m o pode fazer justiça à extraordinária sensualidade do f i l m e , u m a qualidade não m u l t o b e m vista pelos censores soviéticos. Dentre as partes c o r t a d a s das versões m a i s a n t i g a s e s t ã o u m a cena na q u a l , para simbolizar sua c o m u n h ã o , os h o m e n s do vilarejo u r i n a m no radiador do trator e u m plano e m q u e os h o m e n s b u s c a m força e c o n f o r t o ao colocar as m ã o s dentro das blusas das mulheres q u e estão ao seu lado. Q u a l q u e r pessoa e m busca das origens do cinema de Andrei Tarkowsky deve c o m e ç a r c o m Terra. RP


\J 'A

ALMA NO LODO (1930) (LITTLE CAESAR)

Os gêneros c i n e m a t o g r á f i c o s p o d e m ajudar a entender a história e interpretar períodos distintos. A s s i m , Alma no lodo, d e M e r v y n LeRoy, foi f u n d a m e n t r a l para definir o f i l m e de gãngster ao m e s m o t e m p o q u e servia de alegoria para a s condições d e produção da época, pois foi produzido d u r a n t e a Depressão. O f i l m e é m a r c a d o por u m a paranóia generalizada sobre a realização pessoal d i a n t e da d e v a s t a ç ã o e c o n ô m i c a . A mistura desse t e m a c o m o da necessidade d e aceitação social do c o m e ç o da década d e 30 mostra q u e o clássico de LeRoy é m u i t o m a i s do q u e a s i m p l e s soma de suas partes. Caesar " R i c o " Bandello (Edward G. Robinson) é u m ladrão pé-de-chinelo que t e m u m parceiro c h a m a d o J o e (Douglas Fairbanks Jr.). Vislumbrando u m futuro s e m perspectivas, ele se m u d a para o coração de Chigaco, onde J o e se torna u m c o m e d i a n t e e se apaixona por uma dançarina c h a m a d a Olga (Clenda Farrell). Por outro lado, Rico flerta c o m a "boa-

EUA (First National) 79 m i n . P & B

v i d a " e passa a gostar dela. Dono de u m a crueldade psicótica, ele se torna aos poucos o

I d i o m a : inglês

novo c h e f ã o do c r i m e antes de f i n a l m e n t e s u c u m b i r a u m ego I n t e m p e s t i v o e à polícia,

Direção: Mervyn LeRoy

que destrói sua organização. Alvejado e morrendo sob u m a n ú n c i o do espetáculo de Joe

Produção: Hal B. Wallis,

e Olga, Rico balbucia a l g u m a s palavras finais sobre a u t o d e t e r m i n a ç ã o , frisando q u e

Darryl F. Zanuck

nunca será pego por ter vivido de acordo com suas a m b i ç õ e s .

Roteiro: Francis Edward Faragoh, Robert N. Lee, baseado no livro de W. R. Burnett l o t o g r a f i a : Tony Gaudio M ú s i c a : Erno Ra pee

Para a s p l a t é i a s , a q u i l o q u e m a t o u

Rico era u m a referência clara à s t e n s õ e s

m u n d i a i s da época. L i m i t a d o por sua própria estrutura, m a s não a t e n u a d o pela censura n u m período anterior ao Código de Produção da PCA, Alma no lodo oferece u m a visão sarcástica da livre iniciativa levada ao e x t r e m o . S e visto sob as lentes da história e sob

Elenco: Edward G. Robinson, Douglas

o foco d o lucro ilícito, é a c o n s e q ü ê n c i a natural do colapso d e W a l l Street, ele m e s m o

I alrbanks Jr., Glenda Farrell, W i l l i a m

resultado d e regulação precária, e s p e c u l a ç ã o

( oilier Jr., Sidney Blackmer, Ralph

beneficiar poucos à custa d e m u i t o s .

iiM I-, I homas E. J a c k s o n , Stanley 1 H'LI'.. Maurice Black, George E. 'aoiii', Armand Kaliz, Nicholas Bela Indicação ao Oscar: Francis Edward 1 iragoh, Robert N. Lee (roteiro)

maciça

e histeria

manipulada

para

No afã d e conseguir uma fatia maior do bolo, Rico representa o desejo de a f i r m a ç ã o e busca o sucesso e m u m m u n d o indiferente a todo o resto. Ao m e s m o t e m p o aterrorizando i n o c e n t e s e d e v a s t a n d o a sociedade que deseja controlar, ele acaba j o g a n d o s o m b r a s h o m i c i d a s sobre sua necessidade d e poder neste f i l m e inspirador do c o m e ç o da era sonora. G C - Q


S E M NOVIDADES NO FRONT

(1930)

(ALL QUIET ON THE WESTERN FRONT) ido no livro de Erich Maria R e m a r q u e , este clássico antiguerra q u e resistiu a o t e m oi restaurado e m 1998) é u m divisor d e á g u a s por sua representação vívida da lia da Primeira Guerra M u n d i a l do p o n t o d e vista de u m soldado a l e m ã o , por sua In • • i h ividade t é c n i c a , cenas d e batalha espetaculares (na aurora do s o m nos filmes) e 'li milícia previdente do f a n a t i s m o nacionalista e militar. Lew Ayres, d e a p e n a s 21 a n o s dl Idade, se t o r n o u u m astro internacional pela maravilhosa naturalidade c o m q u e l i i i n p r e t a o e s t u d a n t e ávido para servir sua pátria, porém desiludido pela f u t i l i d a d e e p i l o horror da guerra. O plano final - u m d o s e da sua m ã o t e n t a n d o pegar u m a borbot r e m e c e n d o a o s o m d e u m tiro e caindo na inércia da m o r t e - é u m a i m a g e m de Impressionante pungência. sem novidades

no front foi apenas o terceiro g a n h a d o r do Oscar de m e l h o r f i l m e e

í i n d e u ao v e t e r a n o d e guerra Lewis M i l e s t o n e sua segunda e s t a t u e t a c o m o diretor. i s a m e n t e , a censura alemã liberou o f i l m e apesar dos violentos protestos de 1 • M i p o s nazistas. Por u m a ironia cruel, a carreira d e Ayres foi arruinada depois de ele ser 1 ido p u b l i c a m e n t e por se opor à S e g u n d a Guerra M u n d i a l , apesar d e servir c o m

EUA (Universal Pictures) 131 m i n . P & l i I d i o m a : inglês/ francês Direção: Lewis Milestone Produção: Carl L a e m m l e j r . Roteiro: George Abbot, Del Andrews e Maxwell Anderson Fotografia: Arthur Edeson, Karl Freund M ú s i c a : David Broekman, S a m Peny, Heinz Roemheld Elenco: Louis W o l h e i m , Lew Ayres, J o h n Wray, Arnold Lucy, Ben Alexander, Scott Kolk, O w e n Davis J i . , Walter Rogers, W i l l i a m Bakewell, Russell Gleason, Richard Alexandre Harold G o o d w i n , Slim Sumuiervlllc, G. Pat Collins, Beryl Mercer Oscar: Carl Laemmle Jr. (melhor filme), Lewis Milestone (diretor)

In 11 nsmo c o m o m é d i c o , e m vez d e c o m b a t e n t e . A r e f i l m a g e m para tevê d e 1979 é forte,

Indicação ao Oscar: George AbbOl 1.

I inliora m u i t o m e n o s notável do que o original. AE

Maxwell Anderson, Del Andrews

A NOS A UBERDADE 0931)

França (Sonores Tobis) 104 m i n . 1'Kth

(À NOUS LA LIBERTÉ) Unis presidiários, Louis ( R a y m o n d Cordy) e Emile (Henri M a r c h a n d ) , p l a n e j a m fugir da piisão. Depois da f u g a , Emile é recapturado, m a s Louis escapa e ergue u m império

(roteiro), Arthur Edeson (fotografia)

Idioma: francês Direção: René Clair Produção: Frank Clifford Roteiro: René Clair

baseado nos princípios da linha de m o n t a g e m . U m dia, Emile é solto e vai até a fábrica

Fotografia: Georges Périnal

de Louis. Lá d e n t r o , apaixona-se por u m a secretária c h a m a d a J e a n n e (Rolla France) e

M ú s i c a : Georges Auric

"•de ajuda ao velho a m i g o . S e g u i n d o a lógica do " a q u i se faz, aqui se paga", Louis

Elenco: Raymond Cordy, Henri

passa a correr o risco de descobrirem q u e ele é u m f u g i t i v o . Depois disso, os dois

Marchand, Paul Ollivier, André

h o m e n s g a n h a m liberdade duradoura c o m o dois m e n d i g o s errantes. Ao contrário de Tempos modernos, de Charles C h a p l i n , q u e a produtora d e A nós a liberdade mais tarde processaria por plágio, o f i l m e de René Clair é u m a exaltação à

Mlchaud, Rolla France, Germaine Aussey, Léon Lorin, William Burke, Vincent Hyspa, Jacques Shelly

sociedade i n d u s t r i a l . C o m e ç a n d o e m u m a linha de m o n t a g e m e t e r m i n a n d o e m u m a l.ibrica m e c a n i z a d a , o t e m o r m u i t a s vezes associado à m o d e r n i z a ç ã o está de todo ausente a q u i , sendo s u b s t i t u í d o pelos valores da lealdade e pela comédia de s i t u a ç õ e s . C u r i o s a m e n t e , m u i t o do h u m o r d e A nós a liberdade v e m d e u m a cuidadosa m a n i pulação do espaço de ação e do e n c a d e a m e n t o de f a t o s . Primeiro a linha d e m o n t a g e m pára, e m seguida u m trabalhador esquece qual é o seu lugar, atrapalha u m colega, irrita seu c h e f e , etc. É u m a fórmula livre de diálogos e adotada d i r e t a m e n t e do c i n e m a m u d o c o m o u m a f o r m a de transição para os f i l m e s f a l a d o s . G C - Q

HI


0 MILHÃO (193D (LE MILLION)

O milhão, de René Clair, começa e m u m terraço parisiense. U m casal flerta e cada u m entra

e m seu respectivo a p a r t a m e n t o ; depois disso a câmera faz u m traveling pelo horizonte em u m plano-seqüência que usa perspectiva forçada, miniaturas e matte polntings. Uma seqüência tão complexa revela u m avançadíssimo estilo cinematográfico, demonstrando t a m b é m que o filme de Clair não é n e n h u m a comédia musical descartável. U m artista pobre c h a m a d o M i c h e l (René Lefèvre) deve dinheiro a vários credores. Noivo da ingênua Beatrice (Annabella), ele a dispensa para Ir atrás da v u l g a r W a n d a (Vanda Créville), m a n t e n d o c o n t a t o c o m o a m i g o Prosper (Jean-Louis Allibert). Q u a n d o o gângster Vovô Tulip (Paul Ollivier) entra correndo no prédio de a p a r t a m e n t o s para se esconder da polícia, Beatrice lhe dá u m velho paletó de M i c h e l por vingança. M a i s tarde, M i c h e l e Prosper d e s c o b r e m q u e o bilhete de loteria que c o m p r a r a m é o g a n h a d o r de u m prêmio milionário - no e n t a n t o , o bilhete está no paletó q u e Beatrice deu a Vovô Tulip, q u e o v e n d e u e m seguida para o tenor Sopranelli ( C o n s t a n t i n Siroesco), que logo viajará para a A m é r i c a . Esse é o p o n t o de partida da c o m é d i a rocambolesca O milhão. Confusões, trocas de identidade, disfarces, brigas, reconciliações e números musicais se s e g u e m , t u d o para reunir M i c h e l e Beatrice e devolver o bilhete de loteria para seu verdadeiro d o n o . Nesse m e i o - t e m p o , u m assassino de fraque pede uma c a n ç ã o de amor, u m a perseguição ao paletó se dá ao s o m de u m a partida de rúgbi c as cobranças o p o r t u n i s t a s dos a g i o t a s e vizinhos de M i c h e l recaem sobre sua suposta f o r t u n a . Talvez a m a i s notável d a s v i r t u d e s do f i l m e seja sua sincronia c o m o s o m gravado. Diálogos expositivos são falados e m cenários e m que a câmera é fixa, e n q u a n t o c o n França (Sonores Tobis) 89 m i n . P8<B

versas s e c u n d á r i a s , m u i t a s vezes v i s t a s na f o r m a de sussurros entre personagens, são

I d i o m a : francês

deixadas e m silêncio. Para cobrir essas brechas no registro das v o z e s , a m ú s i c a

Direção: René Clair

a m b i e n t e liga cada s e q ü ê n c i a , e v e n t u a l m e n t e explodindo e m c a n ç õ e s . M a i s fluido e

Roteiro: René Clair, baseado na peça

v i s u a l m e n t e m a i s d i n â m i c o do que a maioria dos primeiros f i l m e s sonoros, O milhão

de I .('orges Berr e Marcel Cuillemaud

t a m b é m é m a i s divertido do que m u i t o s dos seus sucessores f a l a d o s . Isso se dá e m

Fotografia: Georges Périnal,

grande parte por conta do roteiro e da direção hábil de Clair, m a s t a m b é m graças a u m

Georges Raulet M ú s i c a : Armand Bernard, Philippe Pares. Georges Van Parys 1 lenço: Jean-Louis Allibert, Annabella, Raymond Cordy, Vanda (.léville, René Lefèvre, Paul Ollivier, 1 iinstantin Siroesco, Odette Talazac

elenco arrojado, q u e c u m p r e as exigências de u m a singela fantasia. C C - Q


LIMITE

(1931)

Brasil (Cinédia) 120 m i n .

l l n l i i i l i l m e dirigido por M á r i o Peixoto (apesar d e n ã o lhe t e r e m f a l t a d o idéias e inacabados), Limiteé

u m a verdadeira lenda do c i n e m a brasileiro. E, c o m o ocor-

is lendas, m a i s gente o u v i u falar dele e/ou bateu os olhos e m a l g u m a foto de I ' I persimagens n u m bote m i r a n d o o mar do que e f e t i v a m e n t e c h e g o u a vê-lo. ido e m 1930 e exibido pela primeira vez no ano s e g u i n t e , no C i n e m a Capitólio, de Janeiro, foi a c l a m a d o pela crítica c o m o obra de v a n g u a r d a , m a s não c h e g o u

I d i o m a : português Direção: Mário Peixoto Produção: F. W . M u r n a u Roteiro: Mário Peixoto Fotografia: Edgar Brasil

no c o m e r c i a l , sendo i n c o m p r e e n d i d o pelo público (a narrativa era elíptica, sua

Edição: Mário Peixoto

11,lis sensorial do que cartesiana). H o u v e exibições e m Londres e Paris, m a s , no

Elenco: Olga Breno, Raul S c h n o o i ,

Kij',11,11 f i l m e só seria visto e s p o r a d i c a m e n t e nos a n o s 40 e 50. Nas d u a s d é c a d a s sedesapareceu t o t a l m e n t e d e circulação, pois os negativos originais necessiIm.iin de u m longo t r a b a l h o d e restautação. No e n t a n t o , q u a n d o o f i l m e c h e g o u n o v a m e n t e ao público, c m V H S , nos a n o s 80, a i' 1111 i-stava criada. O r s o n Welles o teria visto e m sua p a s s a g e m pelo Brasil, e m 1942. I Isenstein o teria assistido e m Londres, no início dos a n o s 30, e escrito u m texto ' u m u s i n a d o sobre o c i n e m a inovador da América do S u l . Essa ú l t i m a história, a I

P8cB 35 m m

pai peça de folclore associada a o f i l m e , se revelaria falsa. Hoje se sabe q u e a q u e l e divulgado na época por Peixoto c o m o se tivesse sido publicado na prestigiosa íãtler,

era na verdade de autoria dele m e s m o . N ã o h o u v e , c o n t u d o , qualquer

i.ição de " d e s m a s c a r a m e n t o " atribuída à descoberta da m e n t i r a , pois n o v a s ões de críticos e e s t u d i o s o s já h a v i a m a d o t a d o o f i l m e , a despeito d o d c s c o n h c c i 1 do cineasta russo. M a s a q u a s e q u e total ausência de diálogos, c o m a justaio poética de i m a g e n s a p a r e n t e m e n t e desconexas servindo c o m o único guia da 11.1111.1, a p o n t a v a para u m parentesco real c o m o c i n e m a de Eisensteln. A moral da In iniia, na visão dos fãs, parece ser que ele pode não ter escrito o texto, m a s deveria li- In feito. A m a r g e m de t o d a s as interpretações resta o f i l m e , incompleto (há trechos q u e se perderam) e ainda pouco visto. Dois h o m e n s , u m a mulher, u m barco, o o c e a n o , u m a trilha sonora de m ú s i c a clássica, a l g u m a s sugestões de histórias passadas. A o redor deles, tudo o q u e o e s p e c t a d o r quiser enxergar. ) B i

Brutus Pedreira


DRACULA

(1931)

(DRACULA)

Embora o livro do v a m p i r o de B r a m Stoker tivesse sido f i l m a d o por F. W . M u r n a u e m 1922 c o m o Nosferatu e o diretor Tod B r o w n i n g tivesse escalado Lon C h a n e y c o m o falso v a m p i r o no m u d o London After Midnight,

este f i l m e p r e c o c e m e n t e sonoro - f i l m a d o no

final d e 1930 e lançado no dia d o s n a m o r a d o s de 1931 - foi o q u e inaugurou d e fato o terror c o m o gênero e as histórias de v a m p i r o c o m o seu m a i s popular subgênero. O fotógrafo Karl Freund tinha u m a grande experiência c o m o jogo de s o m b r a s do expressionismo a l e m ã o , e n q u a n t o B r o w n i n g era o rei do grotesco a m e r i c a n o , de m o d o q u e o f i l m e representa u m a síntese das d u a s principais correntes do horror m u d o . C o m o O gato e o canário, A mansão a m e r i c a n o , este Drácula

do morcego e outras m a r c a s registradas do terror

chega às telas n ã o através d a s páginas da literatura gótica

clássica, e s i m vindo d i r e t a m e n t e dos palcos: o roteiro t e m c o m o base principal duas a d a p t a ç õ e s teatrais do r o m a n c e d e Stoker, u m a de H a m i l t o n D e a n e e outra de J o h n L. Balderson. O primeiro astro do novo gênero é Bela Lugosi, q u e havia

interpretado

Drácula na B r o a d w a y e foi f i n a l m e n t e escalado para o f i l m e depois da m o r t e prematura de Chaney, o ator favorito do diretor. É possível que a perda de C h a n e y tenha tirado u m pouco do brilho da direção d e B r o w n i n g , q u e é m e n o s inspirada do q u e o trabalho de George Melford na versão e s p a n h o l a , filmada s i m u l t a n e a m e n t e (e, ainda por cima, nos m e s m o s cenários) - no e n t a n t o , o s e g u n d o sofre c o m a falta de u m Drácula Icônico e EUA (Universal) 75 m i n . P & B

c o m o fato de seguir à risca o roteiro, e n q u a n t o o Drácula falado e m inglês foi c o n s i d e -

Idioma: inglês/ húngaro

r a v e l m e n t e reduzido por u m a edição q u e cortou 20 m i n u t o s d e excessos.

Direção: Tod Browning Produção: E. M. Asher, Tod Browning. Carl Laemmle Jr. Roteiro: Garrett Fort, baseado nas peças de John L. Balderson e de Hamilton Deane Fotografia: Karl Freund Música não original: Schubert,

Pré-histórico e m suas técnicas c i n e m a t o g r á f i c a s e preso a u m roteiro l i m i t a d o , o f i l m e d e B r o w n i n g ainda c o n s e g u e conservar boa parte d e sua atmosfera d e c a d e n t e e sinistra ao jogar luz ( l i t e r a l m e n t e , através de p e q u e n o s feixes l u m i n o s o s q u e a p o n t a m para seus olhos malévolos) sobre a a t u a ç ã o d e Lugosi c o m o o v a m p i r o , que transforma cada sílaba e m u m a a m e a ç a c o m s e u s o t a q u e húngaro e m frases c o m o : " C r i a n ç a s da noite, c o n s e g u e ouvi-las?" o u " E u nunca bebo vinho!". O f i l m e c o m e ç a d e forma m a g nífica, c o m u m trecho de " O lago dos c i s n e s " e u m a c a r r u a g e m caindo aos pedaços q u e

Tchaikovsky, W a g n e r

leva o a g e n t e imobiliário Renfield ( D w i g h t Frye) para o castelo Infestado de teias de

Elenco: Bela Lugosi, Helen Chandler,

aranhas e a n i m a i s (como u m t a t u dentro de uma cripta). Drácula passa por uma cortina

David Manners, Dwight Frye,

de teias, contorcendo-se d e desejo por s a n g u e q u a n d o seu convidado abre u m talho no

Edward Van Sloan, Herbert Bunston, Frances Dade, Joan Standing, Charles K. Gerrard, Tod Browning, Michael Visaroff

dedo a o cortar u m pão, e três v a m p i r a s s e m alma a t a c a m o desprevenido v i s i t a n t e . Depois q u e o roteiro resolve de forma d e c e p c i o n a n t e u m a perigosa v i a g e m m a r í t i ma (trechos de i m a g e n s de arquivo) e o conde fixa residência e m Londres, Lugosi se a c a l m a . Porém Edward Van Sloan convence c o m o o professor A b r a h a m Van Helsing, o m a t a d o r de v a m p i r o s , Helen Chandler está graciosa c o m M i n a , a heroína que t e m s e u s a n g u e sugado e é quase v a m p i r i z a d a , e Frye rouba a b s o l u t a m e n t e t o d a s as cenas q u a n d o Reinfield se t r a n f o r m a e m u m g a r g a l h a n t e m a n í a c o c o m e d o r de m o s c a s . O castelo d e Drácula - c o m seus cinco andares d e j a n e l a s góticas - é o d e s t a q u e da direção de arte, porém as cenas d e Londres oferecem u m a i m p r e s s i o n a n t e escadaria e c a t a c u m b a s para o covil inglês do conde. B r o w n i n g , no e n t a n t o , desaponta no ú l t i m o m i n u t o , com u m clímax fraco e m q u e o v a m p i r o é derrotado c o m m u i t a facilidade, s u a morte representada por u m g r u n h i d o e m off depois de ele ser e m p a l a d o . K N


FRANKENSTEIN

(1931)

Este é o mais i m p o r t a n t e f i l m e de terror de todos os t e m p o s . W h a l e arrancou do rom a n c e difícil de Mary Shelley uma fábula sobre u m cientista obcecado e as humilhações de seu m o n s t r o rejeitado e Infantil. Embora o Frankenstein neurótico de Colin Clive e o a s s i s t e n t e anão e corcunda de D w i g h t Frye sejam definitivos, a revelação do f i l m e é W i l l i a m Henry Pratt, u m inglês de 42 anos que deixou para trás suas origens privilegiadas para se tornar motorista de c a m i n h ã o no Canadá e atuar e m papéis pequenos nos Estados U n i d o s . Jack Pierce, o gênio da m a q u i a g e m da Universal, criou a cabeça c h a t a , os plugues no pescoço, as pálpebtas c a í d a s e as m ã o s alongadas e cheias de cicatrizes, e n q u a n t o W h a l e v e s t i u a criatura c o m u m terno esfarrapado, c o m o a q u e l e s que os m e n d i g o s exc o m b a t e n t e s q u e v a g a v a m pelas fetrovlas na época u s a v a m , e acrescentou as botas pesadas de asfaltador. No e n t a n t o , foi Pratt q u e m t r a n s f o r m o u o M o n s t r o de u m blchol U A (Universal) 71 m i n . P & B

papão s e l v a g e m e m u m p e r s o n a g e m clássico, c o m p a s s i v o e h u m a n o cujas m a l d a d e s

I d i o m a : inglês

são acidentais (afogar u m a m e n i n i n h a ) ou justificáveis (enforcar o a n ã o q u e o tortura

Direção: J a m e s W h a l e

c o m fogo). Os créditos iniciais c o l o c a m o M o n s t r o c o m o interpretado p o r " ? " ; s o m e n t e

Produção: E. M. Asher,

ao final do f i l m e a platéia era informada de q u e u m h o m e m c h a m a d o Bóris Karloff -

Carl Laemmle Jr.

n o m e artístico de Pratt - foi q u e m os a p a v o r o u , c o m o v e u e inspirou.

Roteiro: John L. Balderston, Francis f dward Faragoh, Garrett Fort, baseado na peça de Peggy Webling e 110 romance de Mary Shelley Fotografia: Arthur Edeson, Paul ivano M ú s i c a : Bernhard Kaun

Frankenstein possui u m a série de seqüências espetaculares: a " c r i a ç ã o " c o m r e l â m pagos e s t o u r a n d o e m volta da torre e o M o n s t r o sendo erguido para o céu enfurecido e m u m a mesa de operações; a primeira aparição do M o n s t r o (visto de costas, ele se vira para nos m o s t r a r seu rosto e a câmera s e g u e t i t u b e a n t e e m sua direção); a c o m o v e n t e seqüência com a garotinha que não flutua na água; o a t a q u e s e l v a g e m à heroína no seu

Elenco: Colin Clive, M a e Clarke, J o h n

boudolr n o dia de seu c a s a m e n t o ( n u m raro trecho retirado do r o m a n c e ) ; e a perse-

Hules, Boris Karloff, Edward Van

guição do M o n s t r o por u m a horda de c a m p o n e s e s c o m t o c h a s f l a m e j a n t e s , q u e leva ao

Sloan, Frederick Kerr, Dwight Frye,

v e l h o m o i n h o e m que criador e criatura se c o n f r o n t a m e m u m dos primeiros desfechos

I ionel Belmore, Marilyn Harris

infernais do c i n e m a de horror. O ciclo de filmes de terror da Universal vai desde a perfeição, p a s s a n d o pelo pastiche barato, até a paródia, porém Frankenstein c o n t i n u a a s s u t a d o r e e s t i m u l a n t e , a pedra angular de todo o seu gênero. K N


LUZES DA CIDADE

(1931)

EUA (Charles Chaplin) 87 m i n . Mudo P & B

(CITY LIGHTS) i ido de q u e a fala destruiria a beleza do c i n e m a , o m a i o r dos m í m i c o s , Charles l h.i|ilin, sofreu c o m a i n t r o d u ç ã o da tecnologia sonora e decidiu ignorá-la, apesar de is conselhos contrários. Apresentado c o m o " u m a c o m é d i a r o m â n t i c a e m forma dl i i n t o m i m a " , Luzes da cidade, seu f i l m e d e s a f i a d o r a m e n t e m u d o d e 1931, é e m todos ' 1 tos u m t r i u n f o , superando c o m s e u m e l o d r a m a c o m o v e n t e e sua graça o das platéias por filmes falados - ainda q u e m a i s tarde, depois do t é r m i n o d a s iis, Chaplln tenha incorporado efeitos sonoros e c o m p o s t o e conduzido a trilha " i " ira, t o n f o r m e continuaria fazendo nos seus f i l m e s posteriores.

Direção: Charles Chaplin Produção: Charles Chaplln Roteiro: Charles Chaplin Fotografia: Gordon Pollock, Roland Totheroh, Mark Marklatt M ú s i c a : Charles Chaplin, José Padilla Elenco: Virginia Cherrill, Florence l er. Harry Myers, Al Ernest Garcia, Hank M a n n , Charles Chaplin

1 1 Pequeno V a g a b u n d o encanta-se c o m u m a vendedora d e flores cega (a graciosa 1 Cherrill) e salva u m milionário excêntrico d o suicídio. S u a g a l a n t e corte ã e sua d e t e r m i n a ç ã o e m recuperar sua visão o l e v a m a u m a série de trabalhos » dão certo - c o m o a m e m o r á v e l luta d e boxe " a r r a n j a d a " -, e n q u a n t o sua rela1 m i t e n t e c o m o m a g n a t a bêbado e imprevisível oferece situações c ô m i c a s paraomo de hábito nos filmes de C h a p l i n , t e m o s a h a b i l m e n t e coreografada piada 'unida - a q u i , u m a serpentina no meio do e s p a g u e t e do desavisado Carlitos - e 11

L s v e n t u r a e m r i t m o d e pastelão c o m a lei. C o m suas belas a t u a ç õ e s e equilíbrio

1

1111 entre c o m é d i a e u m e l o q ü e n t e pathos, o f i l m e c u l m i n a c o m u m desfecho

IfOfundamente t o c a n t e . U m dos verdadeiros m a r c o s do c i n e m a . A E

0 INIMIGO PUBLICO

(1931)

EUA (Warner Bros.) 83 m i n . P & B I d i o m a : inglês

(THE PUBLIC ENEMY) 1 m e l o d r a m á t i c a da ascensão e queda do gângster Tom Powers ( J a m e s Cagney) Ur W i l l i a m W e l l m a n é o maior f i l m e de gângster do c o m e ç o da década d e 30. O retrato es c o m p l a c e n t e por parte do gênero c o m c r i m i n o s o s i m p i e d o s o s e m busca d o " i i l i i i a m e r i c a n o do sucesso á custa dos outros levou à criação do Código d e Produção d l Pi a para fiscalizar valores morais d u v i d o s o s nos f i l m e s de H o l l y w o o d . Criado nos bl

• pobres d e Chicago, Powers entra n o c r i m e c o m tenra idade, progredindo na ni ude para o assalto a r m a d o e o assassinato d e u m policial. M a i s tarde se e n v o l v e uitrabando, fazendo pela primeira vez dinheiro de v e r d a d e . Embora s e u I r m ã o e

111 m ã e lhe p e ç a m para largar o c r i m e , Tom sobe na hierarquia da g a n g u e , p o r é m , dl pois de ser g r a v e m e n t e ferido e m u m a briga c o m rivais, ele concorda e m se reunir à 1 imllia. No e n t a n t o , ele é raptado do h o s p i t a l , m o r t o e seu corpo é largado na porta da «ua casa. Por conta d e s e u m o r a l i s m o simplista, a t r a m a de O inimigo

público

envelheceu

m i l 1 n n t u d o , Cagney c o n t i n u a e s b a n j a n d o vigor e energia c o m o Powers, d o m i n a n d o ida cena e e s t a b e l e c e n d o u m padrão para todos o s f i l m e s de gângster v i n d o u r o s , lninilo a série O poderoso chefõo. W e l l m a n dirige o f i l m e c o m u m forte senso v i s u a l , o .nulo cenas m e m o r á v e i s c o m o aquela e m que Powers, e m u m súbito acesso d e raiva, • rifla uma grapefruit no rosto de Kitty, sua n a m o r a d a . RESP

Direção: W i l l i a m A. W e l l m a n Produção: Darryl F. Zanuck Roteiro: Harvey F. Thew, a partir do argumento de J o h n Bright e Kubei Glasmon Fotografia: Deveraux Jennings M ú s i c a : David Mendoza Elenco: J a m e s Cagney, Edward W o o d s , Jean Harlow, Joan Blondell, Beryl Mercer, Donald Cook, M a e Clarke, Mia M a r v i n , Leslie Fenton, Robert E m m e t t O'Connor, Murray Kinnell, Snltz Edwards, Rita Flynn, Frank Coghlan Jr., Frank Darro Indicação ao Oscar: John Bright, Kubec Glasmon (roteiro)


A l e m a n h a (Nero-Film AG) 117 m i n . P&B I d i o m a : alemão

M, 0 VAMPIRO DE DUSSELDORF

(1931)

(M)

Direção: Fritz Lang

No c o m e ç o da década de 30, Irving Thalberg, o gênio da produção da M G M , convoca

Produção: Seymour Nebenzal

todos os seus roteiristas e diretores para u m a exibição de M, o vampiro de Dusseldorf, o

Roteiro: Egon Jacobson, Fritz Lang

th ri 11 er a l e m ã o d e Fritz Lang, e e n t ã o os critica e m massa por não fazerem filmes tão

Fotografia: Fritz Arno Wagner

inovadores, e m p o l g a n t e s , profundos e comerciais como este. É óbvio que, como admitiu

Música não original: Grieg

Thalberg, se a l g u é m tivesse t e n t a d o vender ao estúdio u m a história sobre u m serial killer

Elenco: Peter Lorre, Ellen W i d m a n n ,

de crianças (que, no f i m das c o n t a s , é u m a v í t i m a e acusa a sociedade de uma corrupção

Inge Landgut, O t t o Wernicke, I heodor Loos, Gustaf Gründgens, Friedrich G n a ß , Fritz Odemar, Paul Kemp, Theo Lingen, Rudolf Blümner, Georg J o h n , Franz Stein, Ernst StahlNachbaur, Gerhard B i e n e n

mais profunda do que a sua psicose), teria sido expulso aos pontapés i m e d i a t a m e n t e . E n q u a n t o , e m u m primeiro m o m e n t o , H o l l y w o o d considerava os f i l m e s sonoros m a i s propícios a musicais e a d a p t a ç õ e s teatrais, u m a geração d e cineastas europeus viu o p o t e n c i a l da nova mídia

para gerar e m o ç õ e s fortes e efeitos psicológicos.

Inspirado talvez no t e m a de O pensionista, o f i l m e m u d o de 1927 de Alfred Hitchcock, e nas técnicas d o seu f i l m e falado Chantagem e confissão, de 1929, Lang - q u e havia t e r m i n a d o sua carreira no c i n e m a m u d o c o m Metrópolis (1927) e A mulher na Lua (1929), a m b o s considerados dispendiosos fracassos a n t e s de t e r e m seus valores reconhecidos - dedicou-se a se restabelecer c o m o artista popular. N ã o o b s t a n t e , M é i n c o m u m e m sua estrutura narrativa, a p r e s e n t a n d o u m a série de cenas de m o n t a g e m ( m u i t a s vezes c o m narração, u m recurso novo) q u e a j u d a m a c o m p o r o retrato d e u m a cidade alemã aterrorizada. A causa da c o m o ç ã o é Franz Becker (Peter Lorre), u m j o v e m gorducho q u e assobia c o m p u l s i v a m e n t e u m a ária de " N o salão do rei da m o n t a n h a " , de Edvard Grieg, e n q u a n t o se aproxima d a s crianças q u e assassina (e, subentende-se, m o l e s t a ) . Seus c r i m e s são representados através d e imagens I m p a c t a n t e s m a s s i m p l e s , c o m o a de u m balão solto subindo contra c a b o s telefônicos o u a d e u m a bola a b a n d o n a d a . E s t a b e lecendo convenções que ainda são usadas e m f i l m e s de seria/ killers, Lang e o cenógrafo Thea v o n H a r b o u Intercalam cenas da vida patética do assassino c o m o frenesi da investigação policial sobre os c r i m e s c h o c a n t e s , d a n d o a t e n ç ã o t a m b é m a q u e s t õ e s s e c u n d á r i a s , c o m o a cobertura da imprensa, a a ç ã o d e vigilantes - c o m o na cena e m que u m i n o c e n t e informa as horas para u m grupo de crianças e é s u b i t a m e n t e cercado por u m a m u l t i d ã o enfurecida - e a pressão política q u e incentiva m a s , ao m e s m o t e m p o , atrapalha a polícia. E m u m t o q u e d e c i n i s m o , a polícia reprime t o d a s as atividades c r i m i n o s a s para pegar o assassino, levando os bandidos profissionais à m a r g e m da sociedade a t a m b é m caçá-lo c o m o u m a n i m a l . No poderoso final, Becker é julgado pelo s u b m u n d o e se defende com o surpreendentemente tocante argumento de que as pessoas apenas escolheram cometer seus crimes, enquanto ele é forçado a cometê-los. Embora o filme apresente o Inspetor Karl " F a t t y " L o h m a n n (Otto Wernlcke) - q u e voltaria e m O testamento do Dr. Mabuse (1922) para enfrentar o arquivilão do título (Rudolf Klein-Rogge) - e o rei do crime de luvas pretas Schranker (Gustaf Gründgens) como os tradicionais antagonistas policial/bandido, o assassino deseseperado, lúcido e dono de u m a impulsividade animal d e Lorre é a voz final de M, forçando seus perseguidores (e a nós) a olharem para dentro d e si m e s m o s e m busca das sementes de uma psicose equivalente à dele. E n fatizando com criatividade os avanços tecnológicos do som no cinema, Lang faz c o m que o assassino seja ouvido antes de ser visto (diz-se que o diretor dublou o assobio de Lorre) e identificado por u m a t e s t e m u n h a cega. K N


A CADELA

(1931)

(LA CHIENNE)

Primeiro f i l m e i m p o r t a n t e de Jean Renoir, A cadela i n a u g u r o u a série de obras-primas

dirigidas por ele na década de 1930, o melhor período d e sua carreira. O f i l m e t a m b é m rendeu a M i c h e l S i m o n , o mais g l o r i o s a m e n t e idiossincrático de todos os atores f r a n ceses, seu primeiro grande papel. A d a p t a d o de u m r o m a n c e de Georges de La Fouchardière, ele seria p o s t e r i o r m e n t e refilmado por Fritz Lang c o m o Almas perversas (1945). C o n t u d o , e n q u a n t o o f i l m e d e Lang é hipnotizante por conta d e seu desapego e das t e n s õ e s provenientes de u m estudo psicológico, Renoir nos faz mergulhar no vigoroso t u m u l t o e vitalidade do seu bairro nativo de M o n t m a r t r e . Simon

interpreta

Maurice

Legrand,

u m atendente

bancário

d e meia-idade

desprezado no trabalho e o p r i m i d o por sua m u l h e r aproveitadora, que encontra c o n s o lo na sua paixão a m a d o r a pela pintura. E m m e i o a isso ele fica obcecado por Lulu (Janie Marèze), u m a j o v e m prostituta q u e o explora a pedido do seu cafetão Dédé (Georges I rança (Jean Renoir, Braunberger-

F l a m a n t ) . Lulu suga s e u dinheiro e v e n d e suas pinturas c o m o se f o s s e m dela. No

Rli hebé) 91 m i n . P & B

e n t a n t o , q u a n d o Legrand a a p a n h a c o m Dédé e a assassina n u m acesso d e c i ú m e s , o

Idioma: francês

cafetão é a c u s a d o pelo crime. Legrand se torna u m v a g a b u n d o , e n q u a n t o suas pinturas

Direção: Jean Renoir

roubadas são v e n d i d a s por altas q u a n t i a s .

Produção: Charles David, Koj'.n Richebé Roteiro: André Girard, baseado no livro de Georges de La Fouchardière Fotografia: Theodor Sparkuhl M ú s i c a : Eugénie Buffet

Ignorando as l i m i t a ç õ e s das primitivas técnicas sonoras, Renoir f i l m o u suas externas e m locação e m M o n t m a r t r e , o que confere ao f i l m e u m a rica textura visual e a u d i tiva. C o m o s e m p r e nos m e l h o r e s trabalhos de Renoir, t e m o s u m a forte percepção do espaço fora de cena - da vida f l u i n d o , complexa e fértil, e m volta e entre os a c o n t e c i m e n t o s da história. M a r è z e , no papel de Lulu, t r a n s m i t e u m a despudorada s e n s u a -

I lenco: Michel S i m o n , Janie Marèze,

lidade, selvagem e lânguida, o que torna sua m o r t e precoce ainda mais lamentável - ela

( g o r g e s Flamant, Roger Gaillard,

morreu e m u m acidente de carro d u a s s e m a n a s a p ó s o t é r m i n o das f i l m a g e n s .

Romain Bouquet, Pierre Desty, Mlle Doryans, Lucien M a n c i n i , Jane Pierson, Argentin, Max Dalban, Jean Gehret, Magdeleine Bérubet

Ainda

assim, é Michel Simon, aproveitando avidamente a oportunidade, que

conduz o f i l m e . Ansiando por Lulu, seu queixo t r e m e n d o de resignação, ele é ao m e s m o t e m p o ridículo e digno d e pena. P o r é m traz às suas cenas c o m Lulu o desespero a n i m a l de u m h o m e m se agarrando a u m a c h a n c e tardia e inesperada d e entrega sexual. O fervor da sua a t u a ç ã o e o calor do olhar c o m p r e e n s i v o d e Renoir e l e v a m A cadela do â m b i t o do mero m e l o d r a m a , t r a n s f o r m a n d o sua história banal e m algo c o m o v e n t e e universal. PK


O VAMPIRO

(1932)

(VAMPYR)

A ",i.~indeza do primeiro f i l m e sonoro de Carl Theodor Dreyer se deve em parte .1 l u a abordagem do t e m a do v a m p i r o através da sexualidade e do erotismo e em parte pela sua m u i t o peculiar estética onírica. No e n t a n t o , ela t a m b é m esi.i irlaclonada à remodelação radical da forma narrativa por parte do diretor. I |zer uma sinopse do f i l m e não siginifica apenas traí-lo, m a s t a m b é m deturp.i lo. Embora nunca seja m e n o s do q u e hlpnotizante, ele embaralha as i nnvenções do e s t a b e l e c i m e n t o de ponto de vista e c o n t i n u i d a d e e inventa iiin.i linguagem própria. A l g u m a s das sensações e imagens representadas por i v..i linguagem são v e r d a d e i r a m e n t e fantásticas: a longa v i a g e m de u m cai-.iÍ> do aparente ponto de vista do cadáver; u m a dança de sombras fantasfnagóriças dentro de u m celeiro; a expressão de desejo carnal de u m a vampira boi sua frágil irmã; a misteriosa m o r t e por asfixia d e u m médico cruel dentro I I u m m o i n h o d e trigo; e a prolongada seqüência de sonho q u e consegue Imiscuir-se de forma sinistra na própria narrativa. Financiado e produzido por u m cinéfilo holandês, o barão Nicolas d c G u n z b u r g - q u e f o i

A l e m a n h a (Tobis Klangfilm) 83 min.

I H ilado para o papel principal de David Cray sob o pseudônimo de Julian W e s t - , O vampiro

P&B

i uma adaptação livre de "Carmilla", um conto de Sheridan Le Fanu, que consta do seu livro

I d i o m a : alemão

llinii/gfi a Ciass

Direção: Carl Theodor Dreyer

Darkly (que não é u m romance, conforme afirmam erroneamente os

li tos do filme). Como a maior parte dos demais longas sonoros de Dreyer, este filme foi um fracasso comercial quando lançado, tornando-se mais tarde uma espécie de referência pira os gêneros terror e fantasia (assim como para os filmes de arte), embora nunca tenha encaixado com comodidade ou definitivamente em qualquer uma dessas categorias. A extraordinária trilha sonora, criada i n t e i r a m e n t e e m estúdio - a o contrário d a s

Produção: Carl Theodor Dreyer, Julian W e s t Roteiro: Carl Theodor Dreyer, Christen J u l , baseado no conto "Carmilla", de Sheridan Le Fanu Fotografia: Rudolph M a t é , Louis N i l

Imagens, t o d a s filmadas e m locação -, é parte f u n d a m e n t a l do voluptuoso e assustador

Música: Wolfgang Zeller

• Iráter sobrenatural do filme. O vampiro foi lançado originalmente por Dreyer e m quatro

Elenco: Julian W e s t , Maurice S e l i m / .

veisões distintas: u m a francesa, u m a inglesa, u m a alemã e uma dinamarquesa. M u i t a s

Rena M a n d e l , Sybille Schmitz,

il.e cópias e m circulação hoje e m dia c o n t ê m partes de duas ou três dessas versões, e m -

Jan Hieronimko, Henriette Gerard,

bora haja poucos diálogos. S e você nunca v i u u m f i l m e de Dreyer e se pergunta por q u e Itos críticos o consideram talvez o maior de todos os cineastas, esta arrepiante fintasia de horror é o e l e m e n t o perfeito para começar a entender. J R o s

Albert Bras, N . Babanini, Jane Mora


AMA-ME ESTA NOITE

(1932)

(LOVE ME TONIGHT) C o m o m u i t o s dos infelizmente s u b e s t i m a d o s melhores filmes d e Rouben M a m o u l i a n , o que há de maravilhoso nesta magistral variação do musical romântico e m u m reino f a n tástico é a maneira c o m o o diretor subverte, através da idiossincrática combinação de h u mor irreverente e inovações técnicas, a tradição do próprio género que ele ajuda ao m e s mo t e m p o a estabelecer e expandir. Aqui ele consegue superar as conquistas dos então a c l a m a d o s mestres do estilo - Ernst Lubitsch e René Clalr - e, aparentemente sem esfoço a l g u m , faz tudo parecer t ã o m a r a v i l h o s a m e n t e descontraído, bem-intencionado e, de certa forma, bem... perfeito. É claro que o fato de ele trabalhar c o m as canções de Richard Rodgers e Lorenz Hart - i m e n s a m e n t e espirituosas e, ainda a s s i m , melodiosas e fáceis de cantarolar - é u m a ajuda e t a n t o ; porém é a atmosfera leve de h u m o r sofisticado, que coexiste com u m verdadeiro engenho cinematográfico, que revela o toque de M a m o u l i a n , consideravelmente mais sutil do que o que há na maioria dos filmes de Lubitsch. Jeanette M a c D o n a l d e Maurice Chevalier t a m b é m são dignos de nota no papel de seus respectivos protagonistas românticos - a arrogante, porém entediada (e, é preciso dizer, EUA (Paramount) 104 m i n . P & B

sexualmente frustrada) princesa enfurnada e m u m castelo bolorento, e o alfaiate visitante

I d i o m a : inglês

(o melhor de Paris), tão interessado nela que chega a esquecer sua posição inferior -, d e -

Direção: Rouben M a m o u l i a n

s e m p e n h a d o s c o m c o m p r o m e t i m e n t o emocional e u m a cativante e discreta ironia. O

Produção: Rouben M a m o u l i a n Roteiro: Samuel Hoffensteln, W a l d e m a r Young, George Marion Jr., baseado na peça Tailor in the Chateau, de Paul A r m o n t e tepold Marchand

elenco coadjuvante t a m b é m é de primeira linha: Myrna Loy, Charles Ruggles, Charles Butterworth e o inimitável sir C. Aubrey S m i t h (os últimos três especialmente fabulosos quando são inesperadamente colocados para cantar, n u m solo, versos de " M i m i " ) são apenas os mais memoráveis. No entanto, o que é de fato impressionante e m Ame-me esta noite é c o m o música, dança, diálogos, atuações, cenografia, Iluminação, trabalho de

Fotografia: Victor Milner

camera, m o n t a g e m e efeitos especiais se c o m b i n a m e criam u m convincente todo c ô m i -

M ú s i c a : Richard Rodgers, J o h n

co/dramático no qual cada elemento serve à narrativa, caracterização e tema. A seqüência

Leipold

de "Isn't It Romantic", por exemplo, que começa c o m Chevalier e u m cliente e m Paris e

Elenco: Maurice Chevalier, Jeanette

prossegue com a canção sendo passada através de vários personagens menores (incluindo,

M a c D o n a l d , Charles Ruggles, Charles

em determinado m o m e n t o , todo u m pelotão de soldados!) para chegar por fim ao solitário

B u t t e r w o r t h , Myrna Loy, C. Aubrey S m i t h , Elizabeth Patterson, Ethel Griffies, Blanche Frederici, Joseph C a w t h o r n , Robert Graig, Bert Roach

boudoir de MacDonald - o primeiro elo entre os futuros a m a n t e s que ainda não se c o n h e c e m - é impressionante, assim como a última seqüência de perseguição (construída c o m tanta intensidade quanto qualquer coisa que os soviéticos t e n h a m feito, porém de forma muito mais espirituosa). Resumindo, u m a obra-prima extremamente divertida. CA


BOUDU SALVO DAS AGUAS

(1932)

França (Pathé, Sirius) 90 m i n . P & B

(BOUDU SAUVÉ DES EAUX)

I d i o m a : francês

já havia feito 11 f i l m e s a n t e s de ser selecionado por S i m o n , que decidiu produzir Liptação de u m a peça de René Fauchois. A dupla já havia t r a b a l h a d o j u n t a três

Produção: Jean Cehret, Michel Simon Roteiro: Jean Renoir, Albert Valent in.

i i n h a m os dois a m e s m a idade q u e o c i n e m a e e r a m a m b o s personalidades e m

baseado na peça Boudu sauvé des

io d o t a d a s de u m s e n s o de liberdade e de u m desejo de explorar territórios

eaux, de René Fauchois

ilc.i onhecidos.

Fotografia: Léonce-Henri Burel,

S i m , c o m o u m a m o n s t r u o s a Afrodite, o v a g a b u n d o B o u d u de S i m o n renasceu

Marcel Lucien

ias, trazido de volta à vida que ele desejava a b a n d o n a r pela b o n d a d e , genero-

M ú s i c a : Léo Daniderff, Raphaël,

e fortuna da família Lestingois. É claro q u e a c o m p a r a ç ã o com o p e r s o n a g e m de

J o h a n n Strauss

I l u i l e s Chaplin n u m a condição s e m e l h a n t e nos v e m à m e n t e a q u i , e os dois v a g a b u n 1 de fato m u i t o e m c o m u m - o instinto de sobrevivência, a relação a m o r a l c o m ias sociais, o foco na q u e s t ã o dos ricos contra os pobres e o a p e t i t e sexual. No to, são as diferenças entre os dois que revelam o poder da receita a c i m a , no q u e t\

Direção: Jean Renoir

n peito à ligação e ã ruptura do f i l m e c o m o vaudeville (as regras do teatro burguês)

Elenco: Michel S i m o n , Charles Cranval, Marcelle Hainia, Séverine Lerczinska, Jean Cehret, Max Dalban, Jean Dasté, Jane Plerson, Georges D'Arnoux, Régine Lutèce, Jacques Becker

» A postura corporal e áo m o d o de falar de S i m o n . No personagem de B o u d u , voz e presença física t r a b a l h a m j u n t a s c m u m a explosão alidade, u m v i o l o n c e l o d i s s o n a n t e porem sedutor, q u e perturba o q u a r t e t o feliz a.' i' im lar repleto de boas pessoas q u e d e s e j a m q u e o m u n d o c o n t i n u e a ser c o m o é. I I retorno final de B o u d u à fonte arcaica representa não só u m a divertida virada neste hedonista, m a s t a m b é m u m d e s n o r t e a n t e v i s l u m b r e da hipótese de continuidaili' entre o mais r e m o t o passado e u m f u t u r o para o qual o rio segue. J-MF

0 FUGITIVO

(1932)

EUA (Vitaphone, Warner Bros.)

(I AM A FUGI TIVE FROM A CHAIN GANG)

93 m i n . P & B

a a t u a ç ã o titânica de Paul M u n i ( n u m papel q u e é o extremo oposto d o c r i m i n o s o i i i i r i p r e t a d o por ele e m Scarface, naquele m e s m o a n o ) , este avô dos f i l m e s de prisão uma c o n t u m a z d e n ú n i c a de M e r v y n LeRoy às práticas penais da sua época - foi, ii u t i v e l m e n t e , o m e l h o r dos Implacáveis d r a m a s de protesto social nos quais a Wainer Brothers se especializou durante a década de 30. B a s e a d o no relato a u t o b i o g r á f i c o de Robert E. B u r n s , O fugitivo

retrata

com

idade u m h o m e m inocente brutalizado e criminalizado à medida q u e u m veterano 11 Primeira Guerra M u n d i a l e m u m a m a r é de azar é levado de t r e m até o Sul profundo

pira

ser preso e fazer trabalhos forçados. Depois de fugir para recomeçar u m a vida

l i " n e s t a , ele é traído, escapa n o v a m e n t e e é c o n d e n a d o à prisão perpetua iiirjtivo.

Presos q u e b r a n d o

pedras, g u a r d a s s á d i c o s , f u g a s

(incluindo

a

como notável

.eguição por cães de caça e m u m p â n t a n o ) , cela solitária - o v o c a b u l á r i o do gênero Itrís das-grades foi d e f i n i d o aqui. Valeria a pena assisti-lo apenas para ver q u a n t a s

Idioma: inglês Direção: M e r v y n LeRoy Produção: Hal B. Wallis Roteiro: Howard J . Green, baseado nas memórias de Robert E. Burns Fotografia: Sol Polito Música: Leo F. Forbstein, Bernhard Kaun

Elenco: Paul M u n i , Glenda Farrell, Helen Vinson, Noel Francis, Prestou Foster, Allen Jenkins, Berton Churchill, Edward Ellis, David Land,11 Hale H a m i l t o n , Sally Blane, Louise Carter, Willard Robertson, Robert M c W a d e , Robert W a r m i c k

es ele já foi citado (mais r e c e n t e m e n t e e m £ aí, meu irmão, cadê você?, dos irmãos

Indicação ao Oscar: Ha! B. Wallis

n), pois, por m a i s d a t a d o q u e seja, ainda é u m f i l m e p o d e r o s a m e n t e perturbador

(melhor filme), Paul M u n i (ator),

na f a m o s a e arrepiante última fala. E n q u a n t o o f u g i t i v o J i m , interpretado por M u n i , desaparece na noite, sua a m a n t e pergunta com melancolia: " O que você faz para viver?" Da escuridão v e m o sussurro de uma trágica ironia: " E u roubo." AE

Nathan Levinson (som)


EUA (Paramount) 83 m i n . P & B Idioma: inglês Direção: Ernst Lubitsch Produção: Ernst Lubitsch Roteiro: Crover Jones, baseado na peça The Honest Finder, de Aladar Laszlo Fotografia: Victor Milner M ú s i c a : W . Franke Harling Elenco: Miriam Hopkins, Kay Francis, Herbert Marshall, Charles Ruggles,

LADRAODE ALCOVA (1932) (TROUBLE IN PARADISE)

Depois d e emigrar da Europa e chegar a H o l l y w o o d no final do cinema m u d o , Ernsl Lubitsch se estabeleceu rapidamente como u m mestre da técnica com u m ouvido para o ritmo cômico. Admiradores c h a m a m seu talento singular de " t o q u e de L u b i t s c h " ; no

e n t a n t o , ele não trabalhava c o m n e n h u m a fórmula o u sistema prontos. Em vez disso, trouxe da Europa u m a sensibilidade sofisticada que enviou serenas ondas de choque poi toda H o l l y w o o d , m u d a n d o o t o m d a s comédias a m e r i c a n a s e levando à ascensão das brincadeiras " e s c r a c h a d a s " de Howard H a w k s e Billy Wilder, q u e o reverenciavam. C o n t u d o , essa m e s m a sofisticação e v i t o u q u e Lubitsch pendesse d e m a i s pata o

Edward Everett Horton, C. Aubrey

pastelão o u para u m h u m o r m a i s a b e r t a m e n t e físico. O f a m o s o " t o q u e de Lubitsch"

S m i t h , Robert Creig

referia-se a seu habilidoso m é t o d o d e expressar u m a política sexual da forma mais discreta possível, o q u e significava t a l e n t o c o m as palavras e histórias q u e t r a n s p u n h a m - ou c u t u c a v a m d e leve - os r e l a t i v a m e n t e pudicos (embora ainda pré-Código de Produção) padrões a m e r i c a n o s . Os aspectos mais sensuais e inteligentes do " t o q u e de L u b i t s c h " f i c a m patentes desde a cena de abertura de Ladrão de alcova, u m dos primeiros longas sonoros do diretor. De início, apenas parte do título original é mostrada, de m o d o que, por u m Instante, s o m e n t e as palavras "Trouble in..." (Problemas no...) pairam sobre u m a cama. Q u a n d o a palavra "Paradiso" (Paraíso) finalmente aparece, Lubitsch já deixou claro o que queria dizer c o m o título: o filme poderia multo bem ter se c h a m a d o "Trouble in b e d " (Problemas na c a m a ) . É claro que o filme trata de sexo apenas de forma indireta; no entanto, isso é típico das comédias românticas, das quais Lubitsch foi u m i m p o r t a n t e pioneiro. Herbert M a r s h a l l e M i r i a m Hopkins f o r m a m u m par perfeito. Dois ladrões profissionais q u e d o m i n a m a arte d e trapacear se c o r t e j a m r o u b a n d o u m ao outro e m u m a fatídica noite e m Veneza. Durante o jantar, t r o c a m elogios c o m e d i d o s , revelando bens pessoais r o u b a d o s e m vez d e f l e r t a r e m de m o d o m a i s t r a d i c i o n a l . O r o m a n c e dos dois se baseia na traição, u m irônico afrodisíaco, e eles não v ê e m nada d e m a i s na profissão q u e e s c o l h e r a m . " B a r ã o , você é u m vigarista", afirma H o p k i n s . "Poderia m e passar o s a l ? " Tudo v a i b e m a t é a dupla dar com os olhos na herdeira Kay Francis. Hopkins v ê u m a conta bancária gorda; M a r s h a l l , no e n t a n t o , v ê algo m a i s . Ele tenta chegar ao cofre dela na base da sedução, m a s descobre que seus s e n t i m e n t o s pela herdeira sempre e n t r a m no m e l o . As m a q u i n a ç õ e s do enredo são necessárias para j u n t a r os personagens; porém Ladrão de alcova está m e n o s preocupado com a grande trapaça e m a i s c o m o c o m p a n h e i r i s m o . A princípio, M a r s h a l l está Interessado no dinheiro de Francis; no e n t a n t o , t u d o o que a solitária Francis quer é M a r s h a l l , e logo eles se t o r n a m a m a n t e s , o q u e deixa Hopkins m u i t o contrariada. C o n t u d o , o f i l m e n ã o está n e m perto d e set t ã o previsível q u a n t o parece. O a m o r é algo q u e não pode ser roubado o u c o m p r a d o , o q u e explica o dilema dos protagonistas c o m p u l s i v a m e n t e c r i m i n o s o s de Lubitsch. Por m a i s q u e M a r s h a l l e Hopkins cobicem a fortuna d e Francis, m e s m o que isso lhes c u s t e seu r e l a c i o n a m e n t o , eles percebem q u e a singular d e s o n e s t i d a d e q u e c o m p a r t i l h a m os torna p a r t i c u l a r m e n t e feitos u m para o o u t r o . J K I


SCARFACE: A VERGONHA DE UMA NAÇÃO

(1932)

(SCARFACE: THE SHAME OF A NATION) Ao apresentar u m dos m a i s f a m o s o s e m a q u i a v é l i c o s m o n s t r o s da história do cinema dentro do m i t o da superação pessoal cuja perversão está no â m a g o de todo f i l m e de gângster, Scarface: a vergonha de uma nação é o auge do seu gênero. E é t a m b é m prova de q u e a versão d e Brian d e Palma, d e 1983, apesar d e todos os louvores q u e recebeu, não c o n s e g u e d i m i n u i r e m nada o original d e H o w a r d H a w k s . Pelo contrário: c o m o as m e l h o r e s obras d e Shakespeare (Mticbeth seria a referência m a i s óbvia neste caso), a sedutora c o m b i n a ç ã o d e fascínio e repulsa do f i l m e , c o m s e u protagonista corrupto e u m m u n d o i g u a l m e n t e corrupto, representa a essência do d r a m a . Finalizado a n t e s de o conservador Código de Produção de H o l l y w o o d ser imposto de f o r m a m a i s vigorosa e m 1934, o roteiro do ex-jornalista B e n Hecht usa a lenda de Al Capone c o m o fonte - reconstituindo o Massacre do Dia de S ã o V a l e n t i m e o assassinato de Big J i m Colosimo - para retratar a Chicago da era da Lei Seca c o m o u m a S o d o m a e Gomorra m o d e r n a . A a m o r a l i d a d e é generalizada: a polícia é brutal e corrompida e os jornalistas não p a s s a m d e s e n s a c i o n a l i s t a s cínicos. E m contraste, Tony " S c a r f a c e " EUA (Caddo, United Artists) 99 m i n .

C a m o n t e (Paul M u n i ) , o protagonista à la C a p o n e , é pelo m e n o s sincero e m sua busca

P&B

g a n a n c i o s a por poder e pelo todo-poderoso dólar.

Idioma: inglês Direção: Howard Hawks

A maior ironia de Scarface é que tudo vai bem enquanto Tony trata sua orgia assassina como puro negócio. Assim que suas emoções entram e m jogo, ele é condenado. Pode-se

Produção: Howard Hawks, Howard

interpretar de várias formas a estranha virada na ttama quando Tony começa a perder o

Hughes

controle por conta do seu violento ciúme e m relação ao caso de sua irmã Cesca (Ann Dvorak)

Roteiro: Ben Hecht, Fred Pasley,

com seu melhor amigo Guino Rinaldo (George Raft). Isso tanto pode ser impulsionado por

Seton I. Miller, J o h n Lee M a h i n , W. R. Burnett, baseado no romance de Armitage Trail M ú s i c a : Shelton Brooks, W . C. Handy

sentimentos incestuosos pela irmã quanto indicar uma relação homossexual reprimida com o amigo. Hawks é feliz ao salientar a derrocada de Tony com u m forte simbolismo, alcançado através de uma iluminação expressiva e placas de rua. A princípio, o gângster é visto

Fotografia: Lee Garmes, L. W i l l i a m

como uma silhueta à la Nosferatu na parede quando comete seu primeiro assassinato. No

O'Connell

f i m , seu último confronto é marcado por sombras e m formas de cruz e pelo seu cadáver

Elenco: Paul M u n i , Ann Dvorak,

caído na sarjeta sob u m anúncio de viagens que diz, Ironicamente: " O m u n d o é seu." M T

Karen Morley, Osgood Perkins, C. Henry Gordon, George Raft, Vince Barnett, Boris Karloff, Purnell Pratt, lully Marshall, Inez Palange, Edwin Maxwell


O EXPRESSO DE XANGAI

(1932)

(SHANGHAI EXPRESS) •te f i l m e s q u e fez c o m M a r l e n e Dietrich, Josef von Sternberg levou sua obsessão I

'la a níveis cada vez mais extremos de intensidade e estllização, até o m o m e n t o e m i

ito a estrela q u a n t o o enredo ficaram c o m p l e t a m e n t e subordinados a u m emainhado de exuberância e arte. Localizado no m e i o desse ciclo, O expresso de Xangai

11 lenta esses e l e m e n t o s e m u m equilíbrio quase perfeito. l u n b e r g adorava tratar seus filmes c o m o e x p e r i m e n t a ç õ e s c o m o jogo d e luz e ra, de m o d o que u m enredo e m q u e a ação é e m grande parte restrita a o t r e m do lie caiu c o m o u m a luva. A história, per se, é sobre u m a v i a g e m d e t r e m d e m a X a n g a i q u e é interrompida pelo a t a q u e d e u m grupo de b a n d i d o s . Porém o 10 f i l m e é o rosto de Dietrich, que serve de palco para u m a série de variações: ele ip I H 1 e sob v é u s e s o m b r a s , envolvido e m f u m a ç a , d e s c a n s a n d o sobre u m ninho d e I'lii.i', e m o l d u r a d o e m arranjos intricados de preto no branco. A própria Dietrich, no le S h a n g h a i Lily, a " f a m o s a d a m a do litoral chinês", p e r m a n e c e e n i g m á t i c a , seus "HI'' " I

1 obert05 e a t e n t o s , e n q u a n t o Sternberg - e seu fotógrafo h a b i t u a l , Lee C a r m e s ' o rosto c o m o u m a tela exótica e m q u e se projetam as e m o ç õ e s apropriadas. is cenários d e O expresso de Xangai,

construídos e m estúdio, c o m o Sternberg

• ' " I ' " ' preferiu, representam u m a China concebida de forma elaborada e t o t a l m e n t e fltlkia, personificada na sequencia d e abertura do filme: u m a locomotiva

Imensa

branca,

e o f u s c a n t e , sai da estação de P e q u i m e segue pelo meio de u m a rua estreita

qur I r i v i l h a c o m trabalhadores de c h a p é u triangular, vendedores a m b u l a n t e s , crianças iais. A n o s m a i s tarde, Sternberg visitou a China pela primeira vez e t e v e a a 1 l i ç ã o de descobrir que a realidade era c o m p l e t a m e n t e diferente. 1 live Brook, como ex-amante de Lily - u m capitão do Exército britânico -, interpreta o tipo de inglês rigidamente tradicional que, com seu lábio superior retesado, faria u m pedaço d

n e t o parecer fofo, e Anna May W o n g não está menos deliciosamente caricata como inificação da felina malícia oriental. O filme, no entanto, pertence a Sternberg e 11 e à estranha química fetichista entre os dois. Juntos, eles criaram algo delicio11Le único no cinema; separados, jamais conseguiram recapturara mesma magia. P K

EUA (Paramount) 84 m i n . P & B Idioma: inglês / francês / cantonês / alemão Direção: Josef von Sternberg Roteiro: Jules Furthman Fotografia: Lee Carmes Música: W. Franke Harling Elenco: Marlene Dietrich, Clive Brook, Anna M a y W o n g , Warner Oland, Eugene Pallette, Lawrence Grant, Louise Closser Haie, Gustav von Seyffertitz, Emile Chautard Oscar: Lee Garmes (fotografia) Indicação ao Oscar: (melhor filme), Josef von Sternberg (diretor)


MONSTROS

(1932)

(FREAKS)

Desde sua c o n c e p ç ã o original c o m o u m f i l m e d e terror q u e superasse t o d a s as

e x p e c t a t i v a s , algo m a i s perturbador do q u e qualquer coisa já vista (quando Dwain Esper o explorou sob títulos vagos e e n g a n o s o s , c o m o Amor proibido. Show de monstros e Erros do natureza), até seu r e n a s c i m e n t o c o m o f i l m e de vanguarda na tradição de Luis B u n u e l e Alain Robbe Grillet, Monstros, d e Tod B r o w n l n g , e n g l o b o u os gêneros terror, f i l m e d e arte e d o c u m e n t á r i o - este ú l t i m o , por conta do seu realismo, a partir do uso de "aberrações reais". N ã o o b s t a n t e , apesar da originalidade e m t e r m o s de concepção e EUA ( M C M ) 64 m i n . P & B

estética - e da s u r p r e e n d e n t e c a p a c i d a d e d e ao m e s m o t e m p o c o m o v e r e chocar

I d i o m a : inglês

platéias -, Monstros c o n t i n u a s e n d o , a t é hoje, u m a obra s u b e s t i m a d a .

Direção: Tod B r o w n i n g Produção: Tod B r o w n i n g Roteiro: Clarence Aaron " T o d " Nobbins, baseado no livro Spurs Fotografia: Merritt B. Cerstad 1 lim o: Wallace Ford, Leila H y a m s , Olga Baclanova, Roscoe Ates, Henry

O f i l m e c o m e ç a c o m u m a n i m a d o r d e parque d e diversões se dirigindo a alguns curiosos. Q u a n d o a m u l t i d ã o v ê u m a aberração f e m i n i n a próxima dali. várias mulheres gritam e o a n i m a d o r c o m e ç a a contar sua história. Cleópatra (Olga Baclanova), u m a b e la trapezista da trupe, é adorada por u m anão c h a m a d o H a n s (Harry Earles). Porém ela está t e n d o u m caso c o m Hércules (Henry Victor), o H o m e m - M ú s c u l o s , e o casal arquiteta u m plano para pôr as m ã o s na fortuna recém-herdada d e Hans: Cleópatra se

Victor, Harry Earles, Daisy Earles,

casaria

Kose Dione, Daisy Hilton, Violet

inesquecível cerimônia d e c a s a m e n t o c o m direito a ritual d e iniciação, Cleópatra r e p u -

c o m o a n ã o para e m seguida

desprezado

e envenená-lo. D u r a n t e u m a

Hilton, Schlitze, Josephine Joseph,

dia as aberrações lá reunidas (durante a escalação do elenco, B r o w n i n g j u n t o u o maior

Johnny Eck, Frances O'Connor, Peter

a g l o m e r a d o de aberrações profissionais já visto para fazer testes para os papéis),

Robinson

p r o v o c a n d o as i m p i e d o s a m e n t e e c h a m a n d o - a s d e " s u j a s " e " n o j e n t a s " . De volta ao seu v a g ã o , ela e n v e n e n a a bebida d e Hans; porém o plano é frustrado e Cleópatra é a t a c a d a pelas m o n s t r u o s i d a d e s , q u e se u n i r a m para executar u m a v i n g a n ç a brutal. F i n a l m e n t e retornando ao a n i m a d o r do presente, v e m o s o resultado do a t a q u e contra Cleópatra: ela foi transformada e m u m cotoco s e m pernas e q u a s e cego - u m a mulhergalinha. U m a cena f i n a l , acrescentada p o s t e r i o r m e n t e graças à exigência do estúdio de u m final feliz, mostra Hans v i v e n d o c o m o u m milionário e m u m a casa elegante e reconciliado c o m Frieda (Daisy Earles), sua ex-namorada anã. C o n t u d o , u m a mera sinopse não pode fazer justiça a este f i l m e assustador porém p r o f u n d o , o q u a l é preciso d e fato v e r para "crer". U m a s u p r e m a bizarrice (aberração?) do c i n e m a m u n d i a l , considerada por m u i t o s o m a i s extraordinário f i l m e da carreira de u m diretor cuja filmografia inclui a v e r são original d e Dráculo (1931). B H


EU E MINHA PEQUENA

0932)

(ME AND MY GAL)

EUA (Fox) 79 m i n . P & B I d i o m a : ingles

em M a n h a t t a n , o filme conta a história de u m policial de coração m o l e e não indigente (SpencerTracy) que se envolve com uma garçonete de u m restaurante de fllilns do mar (Joan Bennett) e, por pura sorte, captura u m famoso gângster que, conven l r i i t n n e n t e , escolheu o sótão da Irmã dela para se esconder. Raoul W a l s h e seus i is usaram essa premissa fajuta como desculpa para fazer o que bem e n t e n d i a m . O ii " l i iilo é u m filme delicioso, despretensioso e, m u i t a s vezes, c o m p l e t a m e n t e maluco. ipelo popular de Eu e m i n h n pequena soa c o n v i n c e n t e e, embora o retrato q u e o 111 • 111 l i / da vida dos i m i g r a n t e s irlandeses na América da G r a n d e Depressão seja s e m idealizado, a a u t e n t i c i d a d e do o t i m i s m o , da ternura, do fervor e da profun-

Diretor: Raoul W a l s h Roteiro: Philip Klein, Barry Conners, Arthur Kober Fotografia: Arthur C. Miller M u s i c a : J a m e s F. Hanley Eienco: SpencerTracy, Joan Bennett, Marion Burns, George W a l s h , J . Farrell M a c D o n a l d , Noel M a d i s o n , Henry I t W a l t h a l l , Bert Hanlon, Adrian Morris, George Chandler, Will S t a n t o n

iliil.iili' da experiência c o m p a r t i l h a d a por trás da idealização é I n c o n f u n d í v e l . Neste filme anterior á revogação da Lei Seca, v e m o s n ã o só u m b ê b a d o brigão servindo de lliullvo c ô m i c o (o excêntrico W l l l S t a n t o n ) , c o m o t a m b é m u m a cena d e c a s a m e n t o q u e • i li l i i e s c a n d a l o s a m e n t e a bebida, c o m o pai da noiva (J. Farrell M a c D o n a l d ) a n d a n d o • i cão a u m d o s e e l a n ç a n d o u m alegre c o n v i t e para a c â m e r a : " Q u e m gostaria de iiin.i bebida, h e i n ? " i u m toda a c o m i c i d a d e d e Eu c minha

pequena,

n ã o é d e se surpreender ou

lamentar que a parte séria da t r a m a fique e m s e g u n d o plano. A ousadia despojada c o m i|in W a l s h Ilda c o m o espaço, s e u carinho pelas pessoas rudes e de b o m coração e o l

nio q u e t e m de cada n u a n c e do seu material f i c a m claros no decorrer do f i l m e ,

que, por milagre, não cai e m n e n h u m m o m e n t o no c o n v e n c i o n a l . Cfu

ZERO DE CONDUTA (1933) (ZERO DE CONDUITE)

lii.ihinhos na e s c o l a " : o s u b t í t u l o d e Zero de conduta sugere u m a comédia leve, no

III ilo dos filmes da série inglesa Carry O n , m a s o clássico médla-metragem de Jean Vigo n u i brinca e m serviço. O que está por trás deste esquete de rebelião Infantil contra u m a i n i ituição d e ensino opressiva é nada m e n o s q u e u m a u t ê n t i c o m a n i f e s t o surrealista ' iija d i m e n s ã o c ó s m i c a é assegurada pelo ú l t i m o plano, no qual os d i a b i n h o s , i i i i m f a n t e s e m u m t e l h a d o , parecem prontos para alçar v ô o . Este é u m ó t i m o f i l m e para se mostrar para e s t u d a n t e s desprevenidos do q u e estão I- ii i ver: n u f r o n t a l , h u m o r escatológico e o b c e c a d o c o m o corpo, blasfêmia e hoerotismo i n c e s s a n t e . Porém ele t r a n s c e n d e a simples dicotomia j u v e n t u d e versus autoritarismo (ao contrário da sua fraca r e f i l m a g e m , Se..., d e 1968) através da sua visão de u m a perversidade inescapável e polimorfa: a q u i , m e s m o os m a i s formalistas dos pmfessores são d e g e n e r a d o s , devassos no seu í n t i m o . A vigorosa provocação se dá t a n t o no â m b i t o da forma q u a n t o do c o n t e ú d o : as • •-pertencias c o m c â m e r a lenta, a n i m a ç ã o e truques d e fotografia são prodigiosas e laordinárias. Vigo a b s o r v e u o v a n g u a r d i s m o d e Luis Buhuel e René Clair, m a s t a m in i n v e n t o u u m a estética singular: o " p l a n o aquário", u m espaço claustrofóbico e m que aparições e s t r a n h a s s u r g e m d e cada canto e fresta disponíveis - cinema na forma de u m n ú m e r o d e m á g i c a . A M

França (Argui-Film) 41 m i n . P & B Idioma: francês Direção: Jean Vigo Produção: Jacques-Louis Nounez, Jean Vigo Roteiro: Jean Vigo Fotografia: Bóris Kaufman Música: Maurice Jaubert Elenco: Jean Dasté, Robert le Flon. Du Verron, Delphin, Leon Larive, M i n e . Emile, Louis De GonzagueFrick, Rapháel Diligent, Louis Lefebvre, Gilbert Pruchon, Coco Golstein, Gérard de Bédarieux


RUA

42 (1933)

(42 STREET) nd

" S a w y e r , você está partindo j o v e m , m a s precisa voltar u m a estrela!" O avô dos musicais de bastidores ainda é u m f i l m e h a r m o n i o s o e e n c a n t a d o r {o q u e foi c o m p r o v a d o por sua bem-sucedida a d a p t a ç ã o para a Broadway 50 a n o s depois), porém ele t a m b é m ocupa u m lugar de d e s t a q u e na história do cinema por vários m o t i v o s sedutores. A trama de Rua 42 se t o r n o u u m dos m a i s adorados clichês do s h o w b i z . Peggy S a w y e r (Ruby Keeler), u m a dançarina iniciante recém-chegada a Nova York nos t e m p o s da Depressão, c o n s e g u e u m emprego no coro de u m m u s i c a l c h a m a d o Pretty Baby. A temperamental

estrela do e s p e t á c u l o , D o r o t h y

Brock (Bebe Daniels), m a c h u c a o

tornozelo na noite anterior à estréia, de m o d o q u e Peggy a s s u m e o papel principal, ensaia a t é n ã o poder m a i s e, c o m o destino da c o m p a n h i a nas costas, sobe ao palco e impressiona a t o d o s . S e t e n t a a n o s depois, o roteiro é u m a adorável e enternecedora EUA (Warner Bros.) 89 m i n . P & B Idioma: inglês Direção: Lloyd Bacon Produção: Hal B. Wallis, Darryl F. Zanuck Roteiro: Rian J a m e s , J a m e s Seymour, baseado no livro de Bradford Ropes Fotografia: Sol Polito M ú s i c a : Harry Warren Elenco: Warner Baxter, Bebe Daniels,

mistura d e i n g e n u i d a d e , o b s t i n a ç ã o e insolência. Dando substância a o drama, t e m o s u m elenco de personagens q u e se tornaram arquétipos: o diretor estressado e aflito (Warner Baxter, cujas broncas e incentivos à companhia são u m clássico); o cobiçado diretor de dança (George E. Stone); as atrevidas e brincalhonas garotas do coro (Una Merkel e Ginger Rogers); o j o v e m com jeito de mascote (Dick Powell); e o endinheirado e libidinoso produtor (Guy Kibbee), que t e m planos para a protagonista, q u e o enrola enquanto se envolve e m u m romance clandestino c o m um ator de vaudeville n u m a maré de azar (George Brent). O maravilhoso Baxter tinha g a n h a do o Oscar de Melhor Ator pelo papel de Cisco Kid, o ousado herói bandido de No velho Daniels era u m a grande estrela dos filmes m u d o s q u e t a m b é m sabia cantar.

George Brent, Ruby Keeler, Guy

Arizona.

Kibbee, U n a Merkel, Ginger Rogers,

Brent era outro protagonista romântico de renome. Abaixo deles, meia dúzia de atores

Ned Sparks, Dick Powell, Allen

que já eram rostos populares, incluindo Ginger Rogers, que logo faria dupla c o m Fred

Jenkins, Edward J . Nugent, Robert

Astaire. Dick Powell - c o m seu rosto de bebê parrudo - era u m dos atores cujas carreiras

M c W a d e , George E. Stone Indicação ao Oscar: Hal B. Wallis, Darryl F. Zanuck (melhor filme), Nathan Levinson (som)

seriam impulsionadas por Rua 42. No e n t a n t o , a grande revelação foi Ruby Keeler, q u e ridinha da Broadway e esposa de Al Jolson, na sua estréia no c i n e m a . Ela não cantava m u i to b e m , mas era adorável, de u m a vivacidade deliciosa, e uma sapateadora de m ã o cheia. No geral, os f i l m e s da Warner Brothers eram f a m o s o s por seu realismo. P o r é m , para ampliar seus talentos na área dos musicais, M e r v y n LeRoy (que desenvolveu este projeto antes de a doença obrigá-lo a entregar a direção a Lloyd Bacon) contratou os c o m p o s i t o res Al Dubin e Harry W a r r e n , q u e se t o r n a r a m os principais criadores de canções da produtora. LeRoy t a m b é m insistiu e m trazer o i n v e n t i vo diretor de dança Busby Berkeley, que dera vida a diversas comédias musicais para S a m G o l d w i n . Ele aproveitou m u i t o b e m as a n i m a d a s canções, entre elas " S h u f f l e off to Buffalo", " Y o u n g a n d H e a l t h y " e "You're Begining to be a Habit w i t h M e " . Para 0 climax, no qual a cançâo-título fecha o espetáculo, Berkeley criou u m número imortal e m q u e Ruby, d a n ç a n d o e m cima de u m táxi, arranha-céus de M a n hattan oscilantes e beldades s e m i n u a s dispostas e m arranjos g e o m é tricos f i l m a d a s b e m do alto f o r m a m u m sensacional caleidoscópio rítmico. Ao ver quais eram seus planos, a W a r n e r Brothers contratou Berkeley e lhe deu carta branca, iniciando u m a longa série de d e s l u m brantes criações de dança q u e i l u m i n a r a m a década e c o n t i n u a m sendo marcos do cinema musical. AE


FUA (Warner Bros.) 104 m i n . P & B I d i o m a : inglês Direção: Lloyd Bacon Produção: Robert Lord Roteiro: M a n u e l Seff, J a m e s S e y m o u r Fotografia: George Barnes M ú s i c a : Al Dubin, S a m m y Fain, Irving Kahal, Harry W a r r e n , Walter Donaldson, Gus Kahn Elenco: J a m e s Cagney, Joan Blondell, Kuby Keeler, Dick Powell, Frank M r H u g h , Ruth Donnelly, Guy Kibbee, Hugh Herbert, Claire Dodd, Gordon Westcott, Arthur Hohl, Renee Whitney, Barbara Rogers, Paul I'ou ,isi, Philip Faversham

BELEZAS EM REVISTA

(1933)

(FOOTLIGHT PARADE) O maior musical da era da Depressão, Belezas em revista, na verdade, são dois filmes e m u m . O primeiro é u m a história d e bastidores ligeira e engraçada sobre as desesperadas t e n t a t i v a s d e encenar interludios m u s i c a i s a o vivo dentro de c i n e m a s , c o m J a m e s Cagney no auge da forma c o m o u m produtor exigente estressado d e m a i s para dar a t e n ç ã o à sua apaixonada secretária (Joan Blondell). O s e g u n d o é u m colosso d e três e s p e t á c u l o s c o n s e c u t i v o s d e Busby Berkeley, cujo rigor conceituai só encontra páreo no seu despudor estético. Não m e deterei m u i t o e m " H o n e y m o o n Hotel", q u e passa e m revista d e modo a b s o l u t a m e n t e p i c a n t e u m a s o c i e d a d e d e v o t a d a à satisfação conjugal, e " S h a n g h a i LM", q u e t r a n s f o r m a a v o l u p t u o s a decadência oriental na e s t i m u l a n t e injeção de â n i m o trazida pelo New Deal, para m e concentrar e m " B y a W a t e r f a l l " . Esta rapsódia aquática, que traz corpos reluzentes e f o r m a s g e o m é t r i c a s representadas por u m grupo de ninfas da água, leva a t e n s ã o central do f i l m e entre forma e carne cada vez mais longe, até ela alcançar d i m e n s õ e s abstratas o n d e a profundidade deixa de existir. A distinção entre ar e água se dissolve e o corpo h u m a n o se t r a n s m u t a e m unidades e l e m e n t a r e s q u e l e m b r a m células. Pouco m e I m p o r t a o clímax de " P o r t a l Estelar" de 2001: uma

odisséia

no espaço; no que diz respeito a v i a g e n s c i n e m a t o g r á f i c a s de expansão de consciência, prefiro mergulhar na " W a t e r f a l l " (cachoeira) de Berkeley. MR

I U A (Warner Bros.) 96 m i n . P8cB Idioma: inglês Direção: M e r v y n LeRoy Produção: Robert Lord, Jack L. W,nner, Raymond Griffith Roteiro: David B o e h m , Erwin S. Gelsey Fotografia: Sol Polito M ú s i c a : Harry Warren Elenco: Warren W i l l i a m , Joan Blondell, Aline M a c M a h o n , Ruby Keeler, Dick Powell, Guy Kibbee, Ned

CAÇADORAS DE OURO

(1933)

(GOLD DIGGERSOF1933) Da série de musicais clássicos da década de 30 produzidos pela W a r n e r Brothers c o n t a n d o c o m números musicais d e Busby Berkeley, Caçadoras

de ouro é o que evoca c o m

maior clareza a Depressão. O roteiro imoral e espirituoso se concentra e m u m grupo de batalhadoras sfiowgjrls da Broadway q u e f a z e m t u d o o q u e for necessário - incluindo técnicas de "caça ao o u r o " c o m ricaços trouxas - para não cair na miséria. O começo do f i l m e é d o m i n a d o por três n ú m e r o s espetaculares de Berkeley: a ligeira "PettiiV in t h e Park", a elegante " S h a d o w W a l t z " e a alegórica " R e m e m b e r M y Forgotten M a n " . U m a irônica disparidade entre a opulência dos palcos e a crise e c o n ô m i c a das ruas fica p a t e n t e c o m a c a n ç ã o d e abertura " W e ' r e in t h e M o n e y " , e m q u e u m hino à prospe-

Sparks, Ginger Rogers

ridade q u e está sendo e n s a i a d o por coristas cobertas de m o e d a s é interrompido pelos

Indicação ao Oscar: Nathan Levinson

credores do e s p e t á c u l o . A correlação que o n ú m e r o inicial faz entre sexo e dinheiro a n -

(Miin)

tecipa a apoteótica " R e m e m b e r M y Forgotten M a n " , na qual u m a prostituta

(Joan

Blondell) l a m e n t a as I n t i m a m e n t e ligadas perdas de poder e da virilidade sexual do h o m e m c o m u m , e m forte contraste c o m a já esquecida glória militar da Primeira Guerra M u n d i a l . C o m suas referências panfletárias à controversa m a r c h a d e veteranos d e guerra d e s e m p r e g a d o s d e 1932 e seu vívido painel q u e interliga guerra, e m a s c u l a ç ã o e d e s e m p r e g o , " R e m e m b e r M y Forgotten M a n " é u m a d a s m a i s fortes m a n i f e s t a ç õ e s políticas da H o l l y w o o d da década de 30. MR

ni.|


UMA LOIRA PARA TRES

(1933)

EUA (Paramount) 66 min. P8cB Idioma: inglês

(SHE DONE HIM WRONG) n o da década de 30, Hollywood - envolvida e m dificuldades financeiras e prode produção relacionados à conversão para o cinema sonoro - recorreu a atores de

Roteiro: M a e West, Harry Thew, J o h n Bright, baseado na peça Diamond III,

iais notáveis estava M a e W e s t , cuja peça Diamond iil (que ela escreveu c o m o uma

de Mae W e s t

se mostrou u m a escolha feliz para a P a r a m o u n t , pois seu estilo único d e h u m o r ido, embora obsceno, adaptou-se c o m facilidade às telas; seu primeiro filme, Ncilic npós noite (1932), foi u m grande sucesso de público. A brejeirice de W e s t , especialM i a s frases de dupio sentido e seu jeito desleixado, ofendeu os conservadores Irllyjnsos da época e apressou a criação do Brcen Office c m 1934 para impor o Código de (1... 1111.10 (promulgado, porém solenemente ignorado no começo da década). O s filmes

Fotografia: Charles Lang Música: Ralph Rainger, Shelton Brooks, J o h n Leipold, Stephan Pasternacki Elenco: Mae West, C a r y G r a n t , o w u i Moore, Gilbert Roland, Noah Beery, David Landau, Rafaela Ottiano, Dewey Robinson, Rochelle Hudson,

14 de West, embora interessantes, jamais recapturaram o charme de seus trabalhos

Tammany Young, Fuzzy Knight,

nigos, dos quais Uma loira para três - a adaptação para o cinema de Diamond

La Rue, Robert H o m a n s , Louise

Lil-

I 1 1 mais notável exemplo, chegando a merecer u m a indicação ao Oscar. West faz u m a "dona de saloon" do Bowery, e m Nova York, q u e se envolve c o m vários i K i s o s das cercanias. C o m o Lady Lou, W e s t é perseguida por dois empresários e seu acaba d e sair da cadeia, m a s dificilmente precisaria de u m h o m e m , u m a vez q u e 1 acomodações nababescas no andar d e cima do seu e s t a b e l e c i m e n t o , cercada d e los e de u m a impressionante coleção de jóias de d i a m a n t e s . Lou, no e n t a n t o , é nada pelo seu novo vizinho, chefe da missão do Exército da Salvação (Cary Grant), •ti 1 avaliação inicial da atratividade do rapaz é lendária e m H o l l y w o o d . É para Grant q u e .1 famosa frase: "Por que você não sobe qualquer hora dessas, para m e v e r ? " Para istrar seu afeto (e poder), ela usa alguns da sua considerável horda de d i a m a n t e s

I I I i hancar sua m i s s ã o e ganhá-lo de presente j u n t o . N o f i m , Grant se revela u m 1.

Produção: W i l l i a m LeBaron

Ir popularidade comprovada para atrair espectadores de volta aos cinemas. Den-

p*pn ir de vitrine para diversos talentos) fez imenso sucesso na Broadway e e m toda par-

Út

Direção: Lowell Sherman

I Ive que leva todos os criminosos p r o n t a m e n t e e m custódia, m a s " p r e n d e " Lou de 1 maneira b e m diferente - c o m u m anel de noivado. U m a comédia h o l l y w o o d i a n a

1 l.tssic a, cheia de malícia e b o m humor. RBP

CraCI

Beavers Indicação a o Oscar: W i l l i a m LeBaron (melhor filme)


DIABO A QUATRO

(1933)

(DUCK SOUP)

Lançada e m 1933, esta comédia maluca representa a coroação do grupo de c o m e d i a n t e

I r m ã o s Marx, u m f e n ô m e n o nova-iorquino q u e a f i o u seus t a l e n t o s no vaudeville e depois c o n q u i s t o u a B r o a d w a y c o m u m a série de c o m é d i a s , entre elas The Cocoonuts e A n i m a l Crackers. M a i s do que originais, o t l m i n g deles foi perfeito e m vários aspectos: a tecnologia sonora estava d o m i n a n d o os f i l m e s assim que eles c h e g a r a m ao t o p o nos palcos d e Nova York à procura d e n o v a s platéias para conquistar. Dos cinco f i l m e s q u e os irmãos - G r o u c h o , Harpo, Chico e Z e p p o - fizeram nos e s t ú d i o s da P a r a m o u n t e m Nova York, Diabo a quatro é o ú l t i m o a contar c o m todos eles (Zeppo, que era o mais j o v e m e o escada do grupo, virou agente e inventor). O filme é repleto de gags visuais e verbais, e a maioria conserva o m e s m o frescor e a graça que p o s s u í a m e m 1933. C o m o m u i t o s clássicos. Diabo

a quatro não foi m u i t o b e m de

bilheteria. Na v e r d a d e , ele se saiu t ã o m a l q u e a P a r a m o u n t revogou o contrato dos Irmãos Marx, fazendo-os seguir para o O e s t e a t é H o l l y w o o d e a M G M , o n d e U m a noite na ópera e Um dia nas corridas f o r a m produzidos. Diabo a quatro t e m a p e n a s 70 m i n u t o s , m a s traz na b a g a g e m p r a t i c a m e n t e t u d o o q u e possa causar risada, desde a t a q u e s a Paul Revere e piadas sobre os m u s i c a i s então EUA (Paramount) 70 m i n . P & B

na m o d a a t é o u s o inesperado d e material d e arquivo e e s q u e t e s físicos d e u m a

Idioma: inglês

i m p r e s s i o n a n t e I n v e n t i v i d a d e c o m o o " n ú m e r o dos três c h a p é u s " , aperfeiçoado pelos

Direção: Leo McCarey

i r m ã o s nos palcos através dos a n o s , e a f a m o s a seqüência do espelho. Este n ú m e r o -

Produção: Herman J . Mankiewicz

I m i t a d o por c o m e d i a n t e s desde então - traz G r o u c h o d e c a m i s o l a , gorro de dormir,

Roteiro: Bert Kalmar, Harry Ruby

bigode e c h a r u t o , e n c o n t r a n d o " a si m e s m o " (Harpo c o m o u m a réplica perfeita) no

Fotografia: Henry Sharp

b a t e n t e de u m a porta.

M ú s i c a : Bert Kalmar, John Leipold, Harry Ruby Elenco: Groucho Marx, Harpo Marx, Chico Marx, Zeppo Marx, Margaret D u m o n t , Raquel Torres, Louis C'alhern, Edmund Breese, Leonid Kinskey, Charles Middleton, Edgar Kennedy

A t r a m a e m si e n v o l v e G r o u c h o c o m o Rufus T. Firefly, ditador do Estado da Freedonia. S u a patrona é a milionária M r s . Teasdale, que Margaret D u m o n t interpreta sob pressão c o m inefável d i g n i d a d e e graça, servindo n o v a m e n t e de escada para Groucho e sendo alvo de suas h u m i l h a ç õ e s f o r ç o s a m e n t e m e m o r á v e i s . E n q u a n t o as gags físicas e o estilo de diálogo inimitável de Groucho e r a m criação do próprio grupo, os roteiros c o n t a v a m c o m a participação de vários grandes escritores de c o m é d i a , entre eles S. J . P e r c l m a n . A l é m d e a p r e s e n t a r e m ó t i m o s n ú m e r o s d e comédia física, os I r m ã o s Marx t i n h a m a sorte d e contar c o m diálogos espirituosos e observações certeiras, outro m o t i v o q u e levou Diabo a quatro a sobreviver, e n q u a n t o os filmes dos I r m ã o s Ritz, por exemplo, c o n t i n u a m s e n d o ignorados. Trintino (Louis C a l h e m ) , o embaixador da Sylvania, quer Freedonia para sl, d e m o d o q u e paga a Harpo e Chico para serem seus agentes secretos. Esta trama

modesta

é forte o b a s t a n t e para s u s t e n t a r

a l g u m a s das

m e l h o r e s s e q ü ê n c i a s d e comédia já f i l m a d a s , a l é m d e ofensiva o b a s t a n t e para ser considerada por alguns u m a sátira surrealista. Benito M u s s o l i n i proibiu o f i l m e na Itália por ter interpretado o papel de Groucho c o m o u m a afronta pessoal; nada poderia ter agradado m a i s a o s I r m ã o s Marx. A l é m disso, antes do l a n ç a m e n t o do f i l m e , u m a pequena cidade no e s t a d o de Nova York c h a m a d a Fredonia protestou pelo uso d e s e u n o m e e t a m b é m por causa do " e " adicional nele; a resposta do quartel-general d o s I r m ã o s Marx foi, f e l i z m e n t e , previsível: " M u d e m o n o m e da cidade de v o c ê s , está prejudicando nosso f i l m e . " K K


I U A (MGM) 9 7 m i n . P & B Idioma: inglês Direção: Rouben M a m o u l i a n Produção: Walter W a n g e r Roteiro: S. N. B e h r m a n , H. M. Hatwood fotografia: W i l l i a m H. Daniels M u s i c a : Herbert Stothart r l e n c o : Greta Garbo, J o h n Gilbert, Ian

Ktll h,

tewis Stone, Elizabeth Young,

C, Aubrey S m i t h , Reginald O w e n , Georges Renavent, David Torrence, i lUStav von Seyffertitz, Ferdinand Munier Festival de Veneza: Rouben M a m o u l i a n , indicação (Troféu Mussolini)

RAINHA CHRISTINA

(1933)

(QUEEN CHRISTINA) A recriação de R o u b e n M a m o u l i a n da corte sueca do século XVII é u m veículo perfello para Greta Garbo d o m i n a r a tela. A histórica Christina, filha d e G u s t a v A d o l p h , era uma esteta reclusa que a c a b o u a b d i c a n d o do trono para viver u m a vida própria e passar do l u t e r a n i s m o para o c a t o l i c i s m o . A v e t s ã o d e Garbo, por contraste, é u m a mistura de q u a l i d a d e s m a s c u l i n a s e f e m i n i n a s . Culta, d e t e r m i n a d a , ela é t a m b é m sexualmente experiente, a t é agressiva, embora c o m p r o m e t i d a c o m sua individualidade. A t r a m a (que parece ter t o m a d o m u i t a s coisas e m p r e s t a d a s d a s cinebiografias de Elizabeth I, da Inglaterra) concentra-se no pedido d e seus conselheiros para que ela se case c o m Carlos d e França, que a odeia e a o seu " c o n s o r t e " , o corpulento conde M a g n u s (Ian Keith). Fugindo da corte - e das restrições q u e lhe são i m p o s t a s por ser m u l h e r - , Christina se veste de h o m e m e e n c o n t r a , por acaso, o e m b a i x a d o r e s p a n h o l , Antonio (John Gilbert, c o m q u e m Garbo estava envolvida na época). O q u e se s e g u e são cenas c ô m i c a s de disfarces sexuais, à m e d i d a q u e Christina c o m e ç a a ficar i n t e n s a m e n t e apaixonada por A n t o n i o , e d e u m profundo erotismo. Q u a n d o Antonio c assassinado ao defender sua honra, Christina abdica, c o n q u i s t a n d o a solidão q u e , por conta da sua posição e suas características pessoais, parece ser seu destino desde o c o m e ç o . A interpretação d e Garbo é inspirada, c o n t a n d o c o m o auxílio do t o q u e g l a m o u r i z a n t e da câmera de M a m o u l i a n . A cenografia, a m o n t a g e m e a música bem concebidas fazem de Rainha Chrislina

isp.inha (Ramón Acín) 27 m i n . P & B Idtoma: espanhol Direção: Luis Bunuel

u m espetáculo s e n s a c i o n a l . RBP

TERRA SEM PAO

(1933)

(LAS HURDES)

U m relato de extraordinária pungência, porém nada s e n t i m e n t a l i s t a , de c o m o pobreza,

Produção: Ramón A c í n , Luis Bunuel

d o e n ç a , d e s n u t r i ç ã o e ignorância p o d e m existir e m u m a nação cristã civilizada, o d o -

Retllro:

c u m e n t á r i o Terra sem pão, d e Luis B u h u e l , foi f i l m a d o na remota região m o n t a n h o s a de

Luis Bunuel, Rafael Sánchez

Vrnl ULI

Las Hurdes - uma pequena área a o norte da Estremadura, a m e n o s de too quilômetros

l o t o g r a f i a : Eli Lotar

ao sul d a s glórias da cidade universitária de S a l a m a n c a - e m 1932. Doenças físicas,

rvne.il .1 não original: Brahms

psíquicas e sociais s ã o c a l m a m e n t e o b s e r v a d a s por u m a câmera impassível, Bunuel

t l e n c o : Abel Jacquin (narração)

t e n d o percebido q u e as i m a g e n s f a l a r i a m e m alto e b o m s o m por sl m e s m a s . Não o b s t a n t e , ele s o b r e p õ e planos d a s riquezas e n c o n t r a d a s

n a s igrejas c a t ó l i c a s e,

c o n f o r m e se soube m a i s tarde, não t e v e pudores e m atirar e m u m bode o u besuntar u m asno doente de m e l (de m o d o a atrair u m e n x a m e letal de abelhas) para frisar seu argumento. P o r é m , o que t u d o isso t e m a ver c o m o surrealismo? O s horrores n ã o estão apenas à mostra, c o m o t a m b é m são a matéria-ptlma dos pesadelos; Bunuel ainda

parece

c i e n t e de q u e , para a q u e l e povo, a única libertação verdadeira do seu cruel s o f r i m e n t o (a n ã o ser q u e o Estado e a Igreja Interviessem) está na própria m o r t e e, c e r t a m e n t e , m u i t a s das a t i t u d e s t o m a d a s para aliviar a f o m e e a dor deles parecem i m p u l s i o n a d a s por u m desejo perverso de e x t e r m í n i o . Cruel, frio, e s t r a n h a m e n t e belo e t ã o cáustico q u a n t o enxofre. G A


KING KONG (1933) ' O r a i n p e ã o incontestável d e todos os filmes de m o n s t r o s - e u m marco no uso d e »frllns especiais nos primórdios de H o l l y w o o d -, King Kong é a t é hoje u m a das m a i s iliii.nlnuras e adoradas obras-primas do c i n e m a . E s s e n c i a l m e n t e u m a versão símia da tabula de A bela e a fera, contada s e m o final feliz e e m proporções gigantescas, o f i l m e rian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack mistura u m inovador trabalho c o m maquelentificação e m o c i o n a l a u m grau raras vezes reproduzido pelas literais c e n t e n a s f | Imitações que, i n e v i t a v e l m e n t e , se seguiram a ele. A história se dá, e s s e n c i a l m e n t e , a partir do ancestral conflito entre cidade e natuir/a. U m a expedição chega a u m lugar d e n o m e agourento, a Ilha da Caveira, atraída lomessa d e q u e u m gigantesco gorila pré-histórico, t e m i d o e adorado pelos ii iiivus, possa ser trazido para Nova York e explorado c o m o atração Imperdível. N o ' o, o poderoso K o n g não aceita ser enjaulado e escapa e m u m a fúria destruidora pela ( i d a d e . As cenas passadas na Ilha da Caveira c o n t i n u a m impressionantes até hoje, desde a

EUA ( R K O ) t o o m i n . P & B

III i iiiíica primeira aparição de Kong até a variedade de outras criaturas pré-históricas

Idioma: inglês

que ele e a expedição e n f r e n t a m a o proteger o u procurar, r e s p e c t i v a m e n t e , a raptada

Direção: Merian C. Cooper, Ernst B.

Ann Darrow (Faye W r a y ) . K o n g fica, na verdade, i n t i m i d a d o pela beleza d e A n n c,

Schoedsack

quando i n e v i t a v e l m e n t e escapa de seu cárcere e vaga pela cidade d e Nova York, a pri-

Produção: Merian C. Cooper, Ernst B.

>iti-ii,i coisa q u e faz é capturar a j o v e m e mantê-la c o m o prisioneira de seu amor. i ' alando o Emplre S t a t e Building c afastando aviões irritantes, Kong acaba preferindo < ar a própria vida a ferir A n n , q u e dá ao f i l m e sua famosa e t o c a n t e frase final: Foi a bela q u e m m a t o u a fera." 0 fato d e o m a c a c o gigante passar d e t e m i d o antagonista a cativante protagonista, • " l o a primeira o b v i a m e n t e a perspectiva dos seus perseguidores, mostra o sucesso 'L

mplexo e expressivo trabalho d e a n i m a ç ã o quadro-a-quadro de W i l l i a m 0 ' B r i a n (o

futuro mestre da técnica Ray Harryhausen trabalhou c o m o seu assistente). Embora seja 1

iindo u m f i l m e B, King Kong acelerou o fetiche de H o l l y w o o d por efeitos especiais e

L " " L I ' se dizer que, graças a ele, m u i t o s dos filmes de hoje se c o n c e n t r a m b e m m a i s no •spetáculo visual do que no enredo. No e n t a n t o , ao contrário dos exercícios e m efeitos i".pedais c o n t e m p o r â n e o s , a majestade de L' N I I G está fadada a durar graças, e m grande parte, à " i n t e r p r e t a ç ã o " d o seu protagonista ilgante.JKI

Schoedsack, David O. Selznick Roteiro: James Ashmore Creelman, Ruth Rose, Edgar Wallace Fotografia: Edward Linden, J . O. Taylor, Vernon L. Walker, Kenneth Peach Música: Max Steiner Elenco: Faye Wray, Robert Armstrong, Bruce Cabot, Frank Reicher, S a m Hardy, Noble J o h n s o n , Steve d e m e n t e , James Flavin


0 ULTIMO CHA DO GENERAL YEN

EUA (Columbia) 88 m i n . P8cB Idioma: inglês / mandarim / francês Direção: Frank Capra

Este m e l o d r a m a atípico de Frank Capra conta a história de M e g a n Davis, uma missiona-

Produção: Walter Wanger Roteiro: Edward E. Paramore jr., Grace Z l r i n g Stone

missionário, sua paixão d e infância. Q u a n d o u m a guerra civil estoura, ela é levada

de a m o r q u e se s e g u e é n ã o só u m a d a s esquecidas obras-primas de Capra como

M ú s i c a : W . Franke Harling I l c n c o : Barbara S t a n w y c k , Nils

roshia Mori, Walter

ria americana (Barbara S t a n w y c k ) e m X a n g a i q u e faz o tipo certinha e é noiva de outro

presa por u m senhor da guerra c h i n ê s c h a m a d o Yen (Nils Asther). A improvável história

Fotografia: Joseph Walker

Hither,

(1933)

(THE BITTER TEA OF GENERAL YEN)

Connolly,

t a m b é m u m a d a s m a i s expressivas da H o l l y w o o d da década d e 30: sutil, delicada, atmosférica e passional. J o s e p h W a l k e r utilizou filtros e texturas e m s o m b r a s para

( i i v l n Gordon, Lucien Littlefleld,

filmá-la, o q u e r e m e t e a o trabalho de Josef von Sternberg; Edward Paramore Jr. escreveu

Rli hard l oo, Helen Jerome Eddy,

o roteiro, a d a p t a d o de u m livro d e Grace Z a r i n g S t o n e . E s t r a n h a m e n t e , este f i l m e belo

11

u Corrigan

c perverso foi escolhido para inaugurar o Radio City M u s i c Hall e m 1933. Não foi u m dos sucessos comerciais d e Capra, m a s pode-se dizer que ele supera d e longe seus demais f i l m e s , e t a n t o S t a n w y c k q u a n t o Asther estão excelentes. U m dos pontos altos do f i l m e é a extraordinária seqüência d e s o n h o e m q u e o quarto de M e g a n é invadido por u m m o n s t r o de pele amarela, q u e s u p o m o s ser Yen; e m seguida, M e g a n é salva por u m h o m e m m a s c a r a d o vestido c o m o u m o c i d e n t a l , que s u p o m o s ser seu noivo. P o r é m , q u a n d o ele tira a máscara, v e m o s q u e se trata de Yen, q u e está ao seu lado q u a n d o ela acorda. I g u a l m e n t e m e m o r á v e l é a bela seqüência final - q u e pode ser Interpretada c o m o u m a v a r i a ç ã o d o b u d i s m o pop de H o l l y w o o d , embora seja executada c o m doçura e delicadeza. J R o s

I U A (Hal Roach, M G M ) 68 m i n . P8<B Idioma: inglês Direção: W i l l i a m A. Seiter Produção: Hal Roach

OS FILHOS DO DESERTO

(1933)

(SONS OF THE DESERT) E s s e n c i a l m e n t e u m a r e f i l m a g e m d o curta Reaja!,

feito pela dupla e m 1930, esta

Roteiro: Frank Capra

c o m é d i a de S t a n Laurel e Oliver Hardy foi seu q u a r t o l o n g a - m e t r a g e m e, I n d i s c u t i v e l -

Fotografia: Kenneth Peach

m e n t e , o melhor de todos. Embora outros f i l m e s do Gordo e o Magro s e j a m , pelo

M ú s i c a : William Axt, George M.

m e n o s e m u m a análise subjetiva, t â o bons q u a n t o este, eles t e n d e m a se passar e m

1 iilian, Marvin Hatley, Paul

m u n d o s atípicos - a terra d e c o n t o d e fadas d e Era u m a vez dois valentes, por exemplo,

M.nquardt, O'Donnel-Heath, Leroy

o u o Velho Oeste dc fantasia de Dois caipiras ladinos. Ainda q u e Os filhos do deserto seja

Shield

u m a d a s c o m é d i a s m a i s c o n v e n c i o n a i s d e Laurel e Hardy, ela é a q u e melhor representa

I lenço: Stan Laurel, Oliver Hardy,

o e s t r a n h o inferno d o m é s t i c o e m q u e a dupla vive seus m e l h o r e s trabalhos, u m bizar-

< liar ley Chase, M a e B u s c h , Dorothy Christy, tucien Littlefleld, John Elliot, William Gillespie, J o h n Merton

ro m u n d o infantil repleto de esposas d o m i n a d o r a s , d i v e r t i m e n t o s c l a n d e s t i n o s e onde se f u m a e se bebe às e s c o n d i d a s . Tendo por base u m a v i a g e m ao Havaí c o m a fraternidade ò la maçonaria do título e as t e n t a t i v a s por parte de S t a n e Oliver de esconder a excursão d e suas esposas, Os filhos do deserto parte d e u m a t r a m a farsesca básica, transformando-a e m u m veículo para a m e l h o r dupla cômica do c i n e m a . Interpretações fabulosas por parte dos c o a d j u v a n t e s , e s p e c i a l m e n t e a de M a e B u s c h c o m o Sra. Hardy e a do comediante-diretor Charley Chase c o m o u m a versão bêbada d e si m e s m o , j u n t a m e n t e c o m a direção hábil de W i l l i a m A. Seiter (cuja outra c o m é d i a digna d e nota foi a primorosa Por conta do Bonifácio,

de 1938, dos Irmãos Marx), t a m b é m f a z e m c o m q u e valha m u l t o a pena v e r

este f i l m e hoje - algo i n c o m u m para u m a c o m é d i a c o m 70 a n o s de idade. K K

in


ITS A GIFT(1934) -i<l,> a m e l h o r d e t o d a s as c o m é d i a s d e W . C. Flelds, (t's a G/ft (É u m presente) Rude n.io oferecer a inspirada loucura de pérolas c a p r i c h o s a m e n t e surreais c o m o Never •<ií(kerand Even Break (1941) ou o inesquecível curta The Fatal Glass of Bccr (1933), i e r t a m e n t e o mais coerente e o m a i s c o n s i s t e n t e m e n t e engraçado d o s seus lüMK'1'' m e t r a g e n s . Apesar de ter sido m o n t a d o a partir de esquetes antigos e cenas de filmes anteriores, . lhe O/d Army G a m e (1926), este f i l m e d e N o r m a n Z . M c L e o d traz algo parecido 11.1 história própria. Harold Bissonette (Fields) está t ã o cansado d a s pressões iies da vida familiar c de gerenciar u m a loja de artigos gerais q u e compra e m M ü i r d i i , com suas suadas e c o n o m i a s , o laranjal dos seus sonhos na Califórnia. Ao ir para 1 família (que não esconde ter ficado n a t u r a l m e n t e horrorizada c o m o q u e ele 1 obre que c o m p r o u algo m u l t o diferente d o m o s t r a d o no a n ú n c i o . Dito Isso, a

EUA (Paramount) 73 m i n . P & B

é s i m p l e s m e n t e u m pretexto para outros dos m a r a v i l h o s a m e n t e misantrópicos

Direção: Norman Z. McLeod

is de Fields sobre os perigos e as a r m a d i l h a s da paternidade, do c a s a m e n t o , dos

Roteiro: Jack C u n n i n g h a m , w . <

m o que se acredita m a l t r a t a d o por p r a t i c a m e n t e o m u n d o Inteiro.

Fields

1 e x t r e m a m e n t e difícil escolher pontos altos e m melo a esta série d e e s q u e t e s t ã o iies, porém a catastrófica visita feita à loja d e Fields pelo frágil, surdo, cego e n d e n t e m e n t e beligerante M i . M u c k l e (Charles Sellon) d e v e ser alçada a a l g u m a de a p o g e u do h u m o r p o l i t i c a m e n t e

incorreto. A t e n t a t i v a fracassada d o

mista d e dormir na varanda - apesar dos v i z i n h o s b a r u l h e n t o s , da esposa impli(.1 inimitável K a t h l e e n H o w a r d ) , de u m a c h a v e de fenda assassina e m p u n h a d a 1

1 il'y LeRoy, de u m coco q u e sai rolando, de u m a rede quebrada, d e u m rifle e de u m dor d e seguros a l u c i n a d a m e n t e cordial e m busca d e u m certo Karl

LaFong

ilúsculo, A m i n ú s c u l o , R m i n ú s c u l o " ) - é s i m p l e s m e n t e o m a i s b t i l h a n t e e assusi.iiliii ictrato da vida c o m u m que u m a comédia cara-de-pau de H o l l y w o o d já c o n s e g u i u 1 ' < 1 A seqüência do barbear é ó t i m a . E a do j a n t a r com a família, t a m b é m . E n f i m , pura 1

Produção: William LeBaron

os c da Lei Seca, d a n d o lhe liberdade para cortejar nossa simpatia por u m velho

alidade. CA

Fotografia: Henry Sharp M ú s i c a : Lew B r o w n , Buddy G. DeSylva, Ray Henderson, Al Jolson, John Lelpold Elenco: W . C. Fields, Kathleen Howard, Jean Rouverol, Julian M a d i s o n , Tommy Bupp, Baby I cRny, Tammany Young, Morgan Wallai E, Charles Sellon, Josephine W h i n ELL. T. Roy Barnes, Diana Lewis, Spencei Charters, Guy Usher, Dell Hendeison


Alemanha (Leni Riefenstahl, NSDAPReichsleitung) 114 m i n . P & B Idioma: alemão Direção: Leni Riefenstahl Produção: Leni Riefenstahl Roteiro: Leni Riefenstahl, Walter Kuttmann Fotografia: Sepp Allgeier, Karl Attenberger, Werner Bohne, Walter Frentz, Willy Zielke

0 TRIUNFO DA VONTADE

(1934)

(TRIUMPH DES WILLENS)

Foi o próprio Adolf Hitler q u e m encarregou Leni Riefenstahl, u m a dançarina e atriz que se

tornou cineasta, de fazer u m registro grandioso e celebrador do sexto Congresso do Partido Nazista que se deu e m setembro de 1934 em N u r e m b e r g - o palco da Bavária medieval onde, c o m deliberada ironia, u m tribunal c o m p o s t o pelos vitoriosos Aliados se juntaria e m 194', 1946 para julgar os criminosos de guerra do Terceiro Reich. Hitler t a m b é m lhe deu o título do filme. A l é m d e carreirista, Riefenstahl era u m talento criativo e, apesar de suas afirmações | e m contrário no pós-guerra, há provas (não só aqui, c o m o e m sua cobertura fotojornalística

M ú s i c a : Herbert W i n d t

da invasão da Polônia e do seu uso posterior de detentos de c a m p o s de concentração como

Elenco: Adolf Hitler, Max A m a n n ,

figurantes) de que seu e n t u s i a s m o pelo fascismo era premeditado, m e s m o que discutível

Martin B o r m a n n , Walter Buch, Walter

m e n t e Ingênuo. No entanto, n e n h u m a discussão sobre suas motivações pode diminuir o

Darre, O t t o Dietrich, Sepp Dietrich, Hans Frank, )osef Goebbels, Hermann < inring, jakob Grimminger, Rudolf Hess, Reinhard Heydrich, Konstantin lHerl. Heinrich Himmler, Robert Ley, Viktor Lutze, Erich Raeder, Fritz Reinhardt, Alfred Rosenberg, Hjalmar Si hacht, Franz Xaver Schwartz, Julius

i m p a c t o devastador de O triunfo da vontade. Trata-se de u m espetáculo fabuloso, vulgai, porém mítico, e, t e c n i c a m e n t e falando, u m êxito indiscutível e esmagador. Ela c o n t o u c o m todos os recursos q u e u m d o c u m e n t a r i s t a poderia desejar. N u r e m berg foi preparada c o m o se fosse u m gigantesco estúdio c o n t a n d o c o m u m a série de complexos cenários. Riefenstahl requisitou a construção de novas pontes e acessos no centro da cidade, a l é m de postes de I l u m i n a ç ã o e trilhos d e c â m e r a , tudo de acordo com

'.11 oicher, Fritz Todt, Werner von

suas rigorosas especificações. Dispondo de 30 c â m e r a s e 120 t é c n i c o s , ela c u m p r i u de

Blomberg, Hans Georg von

forma brilhante sua missão e m N u r e m b e r g - glorificar o poder do Estado nazista e forta-

11 irdeburg, Gerd von Rundstedt, n.ildur von Schirach, Adolf Wagner

lecer seu d o m í n i o sobre os corações c m e n t e s da A l e m a n h a - c o m I m a g e n s d e tirar o fôlego e m u m a sinistra escala épica, criando u m a obra-prima i n f a m e considerada a t é hoje o m a i s poderoso f i l m e d e propaganda já feito. O d o c u m e n t á r i o - que, após seis meses de edição que resultaram e m duas horas c u i d a d o s a m e n t e selecionadas, representa cerca d e 3 % do material filmado - começa com Hitler c h e g a n d o de avião, sua descida das nuvens recebendo o t r a t a m e n t o da entrada de u m herói w a g n e r i a n o , c o m a cabeça envolta e m u m a auréola de luz do sol. A a c l a m a ç ã o e adulação do Führer por m u l t i d õ e s q u e o s a ú d a m é f u n d a m e n t a l para esta apresentação da sua filosofia política c o m o espetáculo m u n d i a l , concedendo-lhe u m carisma perturbador, apesar da sua postura e do histrionismo q u e cenas de arquivo, dramas históricos e paródias magistrais, c o m o O grande ditador (1940), de Charles Chapim, tornaram f a m o s o s . Para destacá-lo, o f i l m e traz u m caleidoscópio de imagens extraordinárias: jovens vigorosos praticando esportes, procissões iluminadas por tochas, rituais d e louvor à suástica, d e m o n s t r a ç õ e s militares, milhares de crianças bem treinadas jurando fidelidade ao M o v i m e n t o e u m desfile folclórico ininterrupto que termina c o m o hino nazista, a " C a n ç ã o de Horst W e s s e l " . O triunfo da vontade é u m a d e m o n s t r a ç ã o pouco sutil, porém Inovadora de técnica, desde e n q u a d r a m e n t o s e n g e n h o s o s e c o m p o s i ç õ e s i m p a c t a n t e s a t é o ritmo implacável da sua habilidosa m o n t a g e m . Esta é u m a prova arrepiante, e q u e não cessa d e fascinar, do poder q u e o cinema t e m d e impor u m a falsa e s t é tica espiritual a algo f r a n c a m e n t e político. Depois da S e g u n d a Guerra M u n d i a l , Riefenstahl foi c o n d e n a d a a quatro anos de prisão pelos a m e r i c a n o s e franceses por seu papel na m á q u i n a de propaganda nazista, apesar de sua insistência e m que fez " p u r a m e n t e u m f i l m e histórico, cinema-verdade". A s diversas t e n t a t i v a s de ressuscitar sua carreira f r a c a s s a r a m . M a i s t a r d e , ela descobriria a fotografia subaquática e demonstraria ainda ter o olhar de u m a artista. AE


O ATALANTE

(1934)

(LATALANTE)

Por mais herético que seja nestes t e m p o s esclarecidos de política de gênero, O Atalante,

obra-prima de Jean Vigo, é a maior ode do cinema à paixão heterossexual. É impossível não embarcar e m sua enlevada poesia sem se render às r o m â n t i c a s séries de oposições entre o s sexos, c o m p a r a ç õ e s rigorosas e m todos os níveis possíveis: espiritual, físico, erótico e e m o c i o n a l . S ó essa sensação d e total " a l t e r i d a d e " pode permitir t a n t o a agonia do desequilíbrio entre a m a n t e s c o m o o que há de sublime na sua eventual união. Isso está longe do romance típico da época. Conforme Vigo reclamou de forma memorável, é preciso "três mil metros de filme para dois lábios se colarem, e quase a m e s ma metragem para eles se descolarem novamente". Como Dc olhos bem fechados (1999), de Stanley Kubrick, O Atalante joga a imortal história de amor dentro de u m a aventura: o h o m e m (Jean Dasté, no papel de Jean) é u m aventureiro m a r í t i m o , enquanto a mulher França (Caumont-Franco Film-

(Dita Parlo, no papel de Juliette) quer se estabelecer na cidade. As tentações sedutoras e os

Aubcrt) 89 m i n . P8tB

impulsos que os separam temporariamente são antecipados e m u m m o m e n t o carregado

I d i o m a : francês

de agonia quase metafísica: e m meio a uma neblina espessa, Jean anda às cegas pelo navio

Direção: )ean Vigo

até encontrar sua noiva e envolvê-la e m u m abraço ao m e s m o tempo furioso e aliviado,

Produção: Jacques-Louis Nounez

que os inspira de Imediato a descerem do convés para fazer amor.

Roteiro: Jean Guinée, Albert Riéra l o i o g r a f i a : Jean-Paul Alphen, Louis Uciger, Bóris Kaufman Música: Mauricejaubert Elenco: Michel S i m o n , Dita Parlo,

Itan

I lasté, Gilles Margaritis, Louis

No e n t a n t o , entre esses pólos d e masculinidade e feminilidade está Père Jules ( M i c h e l S i m o n ) , capitão do navio. O fato d e q u e a I m a g i n a ç ã o de Vigo possa ter se projetado p l e n a m e n t e t a n t o sobre o ideal heterossexual q u a n t o sobre a Identidade volúvel desse inspirado louco é, s e m dúvida, a prova da grandeza do cineasta. Jules é u m ser múltiplo, dentro dele não há limites entre h o m e m e mulher, criança e adulto, amigo

I rfebvre, Maurice Gilles, Raphaél

e a m a n t e - e m u m d e t e r m i n a d o m o m e n t o , ele chega a ser duplicado v i s u a l m e n t e e luta

Dlllgenl

consigo m e s m o . É u m texto v i v o , coberto de t a t u a g e n s extravagantes, que representa o próprio aparato cinematográfico, capaz de produzir sons a partir de gravações c o m seu dedo m a g i c a m e n t e eletrificado. Jules é a sensibilidade surrealista d e Vigo encarnada e m S i m o n , u m ator cuja anarquia e instinto são impressionantes. Vigo desenvolve e aprofunda as explorações formais de Zero de conduta (1933), seu filme anterior. Do cinema m u d o e burlesco e de René Clair ele pega emprestada a gag do prólogo: após o c a s a m e n t o dos protagonistas, u m grupo de pessoas passa e m fila diante da câmera, seguindo cada vez mais rápido o casal até se tornar uma multidão desgovernada e caótica. A bordo do navio, Vigo encontra espaço para seus adorados " a q u á r i o s " - aposentos fechados repletos de gatos, bizarrices e maravilhas, como a cabine de Jules, lar de exóticas quinquilharias -, enquanto no convés usa u m a iluminação fantasmagórica e noturna. U m soberbo t o m rítmico e expressivo dá unidade ao f i l m e , fazendo c o m q u e , às vezes, O Atalante quase se torne u m musical. A morte de Vigo aos 29 anos foi u m a perda trágica. O Ata/ante, no entanto, coroa seu legado. E não existe no cinema cena tão sexy quanto a m o n t a g e m magnífica, eisensteiniana, dos corpos de Jean e Juliette, distantes u m do outro. Iguais e m suas posturas d e excitação m ú t u a , e m u m ato de a m o r possível apenas através da linguagem vibrante dos filmes. A M


O GATO PRETO (ikm)

EUA (Universal) 65 m i n . P & B

(THE BLACK CAT)

I d i o m a : inglês

preto - a primeira parceria dos dois m a i o r e s astros d e f i l m e s de m o n s t r o s da

il< • i'I.i de 30, Bóris Karloff (creditado s i m p l e s m e n t e c o m o " K a r l o f f " ) e Bela Lugosl - é ano t e m p o a obra mais perversa e m a i s artística da leva original de f i l m e s de ter1 1 Universal, p r o d u t o da estranha sensibilidade do diretor Edgar C. U l m c r , q u e coiii'

IV. 1 a oscilar entre a grande arte e a arte popular, e do poético roteirista especiali-

. 1 - 1 ' ' em ficção no estilo pulp Peter Rurlc. eado no conto de Edgar Allan Poc apenas no seu conceito, este f i l m e poderia ser " 111 • 1 • rio f i l m e d e terror do expressionismo a l e m ã o , c o m sua história d e s a t a n i s m o , Vingança, necrofilia, traição e m á e d u c a ç ã o passada e m u m castelo m o d e r n i s t a ( u m mi

exemplo de a t u a l i z a ç ã o do m o d e l o gótico) construído por Hjalmar Poclzig (Karloff)

Direção: Edgar G. U l m e r Produção: Carl L a e m m l e Jr. Roteiro: Peter Ruric e Edgar C. U l m c i , baseado no conto A quedo da casa d r Usher, de Edgar Allan Poe Fotografia: J o h n J . Mescall M ú s i c a : J a m e s Huntley, Heinz Roemheld Música não original: Tchaikovsky, Llszt Elenco: Boris Karloff, Bela Lugosl,

mistura d e s a t a n i s t a e arquiteto cujo p e n t e a d o faz u m " V " na testa - sobre a

David M a n n e r s , Julie Bishop. I U I illc

oletiva dos s o l d a d o s q u e t r a i u , entregando-os a o inimigo d u r a n t e a Primeira

Lund, Egon Brecher, Harry Cording.

1 M u n d i a l . O casal e m lua-de-mel no estilo f i l m e d e terror (David M a n n e r s e 11, 'incline Wells) está quase c ó m i c a m e n t e fora de seu h a b i t a t , servindo de m o d e l o para

Henry A r m e t t a , Albert Conti, Jacqueline Wells

j a n e t e m Rocfcy Horror Picture Show (1975), no papel de hóspedes forçados q u e se v c i i n entre Poelzig, q u e m a n t é m a a m a n t e preservada c o m o u m a boneca de cera no pi ii.ni, e o v i n g a t i v o Vitus W c r d e g a s t (Lugosi), q u e arremata a estranha trama esfolando • Hão vivo a n t e s d e o castelo ser explodido. Feitos para chocar, m a s s e m deixarem d e 1 ' uma g o z a ç ã o , os rituais d e s e m p e n h a d o s c o m elegância por Karloff são puro clichê I 1 um granulo s a l í s " ) , falados e m u m latim g a g u e j a n t e . K N

0 JUIZ PRIEST (1934)

EUA (Fox) 80 m i n . P8cB I d i o m a : inglês

(JUDGE PRIEST)

Fililí Ford g a n h o u s e u primeiro Oscar c o m o prestigiado e relevante O delator (1935), porém esta sua obra m e n o s conhecida, lançada no a n o anterior, envelheceu

multo

melhor, apesar d e sua estrutura Irregular, seu s e n t i m e n t a l i s m o barato e a e v i d e n t e falta de correção política. Billy Priest (Will Rogers), juiz d e u m a cidade do Kentucky e m 1890, .111 ida seu sobrinho a se casar c o m a garota certa e derruba u m a ação judicial ilegal

Direção: John Ford Produção: Sol M . Wurtzel Roteiro: Irvin S. Cobb, Dudley Nil hup, Fotografia: George Schnelderman M ú s i c a : Cyril J . Mockridge. Emil Gerstenberger, Samuel Kaylin

1 mitra u m reservado ferreiro. A trama está a serviço de u m a série de esquetes ( m u i t o s

Elenco: Will Rogers, Tom Brown.

envolvendo o m e n o s p r e z a d o porém brilhante c o m e d i a n t e negro Stepin Fetchit), can-

Anita Louise, Henry B. Walthall. I I . I V H I

. gags, réplicas m u r m u r a d a s para a camera e personagens incidentais q u e e v o c a m 'ima c o m u n i d a d e idealizada do velho Sul o n d e q u a s e não existe p o m p a , a intolerância é nantida sob controle c negros e brancos coexistem e m perfeita h a r m o n i a . Há várias referências internas e paralelos q u e r e l a c i o n a m o diretor d e O fuiz Priest com o herói do t í t u l o , q u e I m p õ e o r d e m na platéia no plano anterior a o s créditos iniciais, p e r m i t e q u e a digressão, e não a n o r m a , c o m a n d e seu tribunal e m a n i p u l a d e s a v e r g o n h a d a m e n t e a s e m o ç õ e s do espectador trazendo u m a banda para tocar "Dixie", uma espécie de hino informal sulista, e m u m m o m e n t o crucial do j u l g a m e n t o . O juiz riiest é u m dos m a i s adoráveis e x e m p l o s d e Inocência q u e surgiram nas telas a m e r i c a nas, e o juiz Ford n o s lembra c o m sabedoria q u a n t o de e n g e n h o s l d a d e é preciso para que a lenda prevaleça sobre o fato. MR

Landau, Rochelle Hudson, Roger Imhof, Frank M e l t o n , Charley Grapewln, Berton Churchill, Brenda Fowler, Francis Ford, Hattie M c D a n l e l , Stepin Fetchit


EUA (Columbia) 105 m i n . P & B Idioma: inglês Direção: Frank Capra Produção: Frank Capra, Harry Cohn Roteiro: S a m u e l Hopkins A d a m s , Kobert Riskin

ACONTECEU NAQUELA NOITE

(1934)

(IT HAPPENED ONE NIGHT) 1111.1 Peter (Clark Gable) é u m jornalista s e m papas na língua; Ellie (Claudette Colbert) é uma garota " b o b i n h a " q u e estã f u g i n d o d e casa e do pai. O s dois se c o n h e c e m na estrada e são forçados a colaborar. Ele é u m pé-rapado, ela é u m a m e n i n a rica, e u m passa a

l o t o g r a f i a : Joseph Walker

explorar o o u t r o : para ele, ela significa u m a grande matéria; para ela, ele é u m a maneira

M ú s i c a : Howard Jackson, Louis

de conseguir chegar a Nova York e ao seu n o i v a d o proibido. No decorrer da história, eles

silvers

p a s s a m do a n t a g o n i s m o ao amor, n o q u e poderia ser m a i s u m a entre m i l c o m é d i a s

Elenco: Clark Cable, Claudette < nlhert, Walter Connolly, Roscoe

r o m â n t i c a s a m e r i c a n a s das d é c a d a s de 30 o u 4 0 . Porém n ã o se e n g a n e : Aconteceu naquela

noite, de Frank Capra, é pura

magia

Karns, J a m e s o n T h o m a s , Alan Hale,

c i n e m a t o g r á f i c a . Isso pode ser explicado, e m parte, pela maneira c o m o ele evoca todo

Arthur Hoyt, Blanche Frederici,

u m m e l o : u m a "América popular", repleta de improváveis trapaceiros e c i d a d ã o s de boa

( harles C. W i l s o n Oscar: Frank Capra, Harry Cohn llhor filme), Frank Capra (diretor), Robert Riskin (roteiro), Clark Cable

índole, s e m p r e dispostos a c o m p a r t i l h a r u m a história o u u m a c a n ç ã o , ou s i m p l e s m e n te exibir suas adoráveis excentricidades. No e n t a n t o , o f i l m e t a m b é m t o m a o cuidado de explorar exceções a essa regra básica: o pai d e Ellie, A n d r e w s ( W a l t e r Connolly), acaba

(ator), Claudette Colbert (atriz)

se m o s t r a n d o u m c a m a r a d a m u l t o g e n t e boa, a s s i m c o m o S h a p e l e y (Roscoe Karns), o

Festival de Veneza: Frank Capra,

passageiro de ô n i b u s t a g a r e l a , se mostra u m c a n a l h a .

Indicação (Troféu Mussolini)

Capra era especialista e m tecer c o m inteligência u m a história partindo de pretextos simples e c o m p l e t a m e n t e f a m i l i a r e s , c o m o refeições, gírias, u m ronco q u e I n c o m o d a , t o m a r b a n h o , trocar de roupa. S e g u i n d o a fórmula das c o m é d i a s r o m â n t i c a s , a s i d e n t i dades s ã o m o m e n t a n e a m e n t e desfeitas s e m p r e q u e u m a farsa se faz necessária ou pode ser explorada para divertir os dois - e m b o r a , todas a s vezes q u e Peter e Ellie f i n g e m ser casados, possibilidades e destinos mais sérios s e j a m , s e m dúvida, insinuados... Aconteceu naquela noite é u m antepassado distante das " c o m é d i a s t r a s h " dos dias de hoje, c o m o aquelas feitas pelos irmãos Farrelly. Há piadas infames de sobra ("Essa aí que você está usando para sentar é m i n h a " ) ; as pretensões e os privilégios dos ricos são z o m bados s e m piedade (até os n o m e s deles são engraçados: King Westley!); Colbert mostra suas f a m o s a s pernas e pára o trânsito. A l é m , é claro, do viés da tensão sexual: a c o m p a n h a n d o p a c i e n t e m e n t e as quatro noites que Peter e Ellie passam j u n t o s , o f i l m e inteiro gira e m torno do simbolismo das " m u r a l h a s de Jericó" finalmente caindo: a tirada do lençol q u e serve c o m o barreira fina e tremulante para a c o n s u m a ç ã o do a m o r cada vez maior dos dois. Os críticos n ã o p o d e m c a n t a r louvores a o s t a l e n t o s de m o n t a g e m e mise-en-scène d e Capra; para ele, o estilo deveria ser f u n c i o n a l e c o n v e n c i o n a l . No e n t a n t o , o q u e ele tinha de fato era u m a visão impecável de roteiro (em relação t a n t o à estrutura q u a n t o aos p e q u e n o s detalhes) e u m a ó t i m a c o m u n i c a ç ã o c o m seus c a r i s m á t i c o s atores. G a b l e e Colbert a j u d a m a equalizar esta guerra d o s sexos, diluindo u m certo caráter Ideológico do roteiro q u e sugere que h o m e n s v i n d o s do proletariado d e v e r i a m ensinar a g a r o t a s m i m a d a s u m a coisinha o u outra sobre a vida real. Na c o n t a g i a n t e interação dessas estrelas - na sua v o n t a d e m ú t u a d e brincar, rir, se m o s t r a r e m v u l n e r á v e i s , serem alvos d e u m a piada t ã o boa q u a n t o a q u e f a z e m c o m o o u t r o - v e m o s u m ideal c o m p l e t a m e n t e perdido no c i n e m ã o c o n t e m p o r â n e o : a reciprocidade beligerante entre os sexos. A M


EUA (Cosmopolitan, M C M ) 93 min. P & B Direção: W. S. Van Dyke Produção: Hunt Stromberg Roteiro: Aibert Hackett, Frances < ÍOOdrich, baseado no livro de 1 u-.liicll H a m m e t t

A CEIA DOS ACUSADOS

(1934)

(THETHIN MAN)

A q u í m i c a entre M y r n a Loy e W i l l i a m Powell foi t a m a n h a no filme Vencido pela lia 1934, q u e o diretor W . S. Van Dyke v o l t o u a escalar a dupla no m e s m o a n o . Nos papel* de Nlck e Nora Clark, eles são únicos na história do c i n e m a . S e n d o a primeira dupla d r

Fotografia: J a m a s W o n g Howe

detetives casados a fazer sucesso, eles n ã o só se a m a m c o m o g o s t a m u m do outro •

Música: W i l l i a m Axt

ponto de nunca serem Insípidos, desrespeitosos ou m a ç a n t e s .

Elenco: William Powell, Myrna Loy, M.iuieen 0 ' S u l l i v a n , Nat Pendleton, Muni.1 Gombell, Porter Hall, Henry w . u k w o r t h , W i l l i a m Henry, Harold I Ilibei, Cesar Romero, Natalie M o o r h e a d , Edward Brophy, Edward

A trama de A ceia dos acusados

é confusa. Nick Charles é, o f i c i a l m e n t e , u m detetive

a p o s e n t a d o , m a s q u e d e s e n v o l v e u m interesse pessoal no d e s a p a r e c i m e n t o de u m inventor excêntrico - o " h o m e m m a g r o " do título original - cuja filha

(Maureen

0 ' S u l l i v a n ) é u m a velha conhecida sua. A segurança do inventor é colocada mais e m dúvida ainda q u a n d o s u r g e m complicações e n v o l v e n d o sua suspeita a m a n t e , sua

l l l l l , Cyril Thornton

ambiciosa ex-mulher e o g a n a n c i o s o marido dela (Cesar Romero). Junte-se a Isso

Indicação ao Oscar: Hunt Stromberg

i n ú m e r o s m a f i o s o s , policiais e prostitutas e a impressão é d e q u e todo o m u n d o do

(melhor filme), W. S. Van Dyke

crime está fadado a aparecer na luxuosa suíte de hotel d e Charles u m a hora ou outra.

(diretor), Frances Goodrich, Albert ll.n k e l l (roteiro), William Powell (ator)

Tentar e n t e n d e r a história atrapalha o que é i m p o r t a n t e de fato: a vigorosa troca de piadas, cheia de falas de causar inveja, entre a rica e sofisticada Nora e seu marido de língua afiada c beberrão. U m a noite depois de desarmar u m c o n v i d a d o indesejado, o incidente é relatado nos jornais da m a n h ã . " S e g u n d o o Tribunc, eu levei dois tiros", diz Nick. " E u li q u e foram cinco tiros nos ta blóides", diz Nora. "Isso é mentira. Ele não chegou n e m perto dos m e u s t a b l ó i d e s . " Ditas c o m u m a t r a n q ü i l i d a d e

desdenhosa,

essas falas são engraçadas sem c h a m a r e m a t e n ç ã o para si. Nick pode parecer u m alcoólatra, m a s salta do relaxamento da e m briaguez para a sobriedade ativa n u m piscar d e olhos. As extraordinárias bebedeiras do casal parecem pouco afetar seus atos; trata-se m a i s d e u m elegante e l e m e n t o d e cena, essencial para u m país que acabara d e sair da Grande Depressão. Tirados do romance d e Dashiell H a m m e t t escrito no m e s m o ano, Nick e Nora foram s u p o s t a m e n t e baseados na relação de H a m m e t t c o m a dramaturga Lillian H e l l m a n . Filmada e m 14 dias, esta brilhante história de detetive cômica rendeu 2 milhões de dólares e teve quatro Indicações ao Oscar. Previsivelmente, sua popularidade gerou quatro outros f i l m e s , assim c o m o séries de rádio e televisão, a l é m de servir d e inspiração para seriados de t e v ê c o m o McMillian

& Wife e Casal 20. K K

1001 Filmes para ver antes de morrer | scanned  

EDITOR GERAI STEVEN JAY S C H N E I D E R PARA V E R A N T E S DE M O R R E R SEXTAN I I 1990 1930 1940 1950 1970 1900 Os colaboradores Créd...

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