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Deus te abençoe, Goiânia! Carta Pastoral em celebração e homenagem ao aniversário de 80 anos de Goiânia


GRÃO-CHANCELER Dom Washington Cruz, CP REITOR Prof. Wolmir Therezio Amado VICE-REITORA Profa. Olga Izilda Ronchi PRÓ-REITORA DE GRADUAÇÃO Profa. Sônia Margarida Gomes Sousa PRÓ-REITORA DE EXTENSÃO E APOIO ESTUDANTIL Profa. Márcia de Alencar Santana PRÓ-REITORA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA Profa. Milca Severino Pereira PRÓ-REITORA DE DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL Profa. Helenisa Maria Gomes de Oliveira Neto PRÓ-REITOR DE ADMINISTRAÇÃO Prof. Daniel Rodrigues Barbosa PRÓ-REITOR DE COMUNICAÇÃO Prof. Eduardo Rodrigues da Silva CHEFE DE GABINETE Prof. Lorenzo Lago

Deus te abençoe, Goiânia! Carta Pastoral em celebração e homenagem ao aniversário de 80 anos de Goiânia Edição Divisão de Comunicação Social - DICOM Organização Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central (IPEHBC) Antônio César Caldas Pinheiro (diretor) Colaboração Arquidiocese de Goiânia Pontifícia Universidade Católica de Goiás Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central (IPEHBC) Projeto gráfico e diagramação Adriano Abreu Fotografias e depoimentos Acervo do IPEHBC e DICOM Impressão Divisão Gráfica e Editorial PUC Goiás

Jubileu de Prata - Dom Washington Cruz

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Nossa cidade, nossa casa De longe, avisto as luzes acesas da cidade... Goiânia iluminada, já sob o pôr do sol. Estou chegando à minha cidade, estou em casa! Viajar foi necessário, foram belos os demais lugares por onde andei, mas confesso: sempre minha cidade é o melhor e o mais belo lugar do mundo. Esse sentimento que pessoal e humanamente experimento, imagino que seja o sentimento compartilhado por todos os que residem em Goiânia. Eu sou baiano, nasci em outra cidade e você também pode ter vindo de outro lugar, mas para os filhos dessa terra e para nós, seus amigos, essa cidade é o nosso endereço, a referência de nossas vidas. Aqui trabalhamos, nos alimentamos, formamos famílias, sustentamos nossa fé, formamos comunidades. Aqui estão as nossas principais histórias, nossos mais marcantes sofrimentos, nossos momentos mais intensos da vida. Aqui, para essa cidade, o desígnio de Deus confiou-me o serviço episcopal. Por tão denso significado para as nossas vidas, o gesto mais condizente à grandeza do aniversário de 80 a­­­­­­­nos da cidade de Goiânia é a bênção.

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Deus te abençoe, Goiânia! Abençoar e pedir a benção são gestos simples e cotidianos que todo goiano e todo goianiense repete diariamente com naturalidade. Sempre admirei a força e a persistência tranquila da tradição da benção junto ao povo de nossa cidade. Em todas as famílias cultiva-se com zelo o gosto por abençoar e ser abençoado. Na cidade, muitos pedem a bênção ao bispo. Esse gesto tem uma profundidade milenar e suas raízes se alimentam da mais originária tradição bíblica. Encontramos as razões da benção na história de Abraão que, ao aceitar o chamado divino, tornou-se o patriarca dos que creem. A fé guiou Abraão para longe de sua terra e o tornou fonte de vida para muitas gerações. Esta fecundidade na carne e na fé é o primeiro sentido da benção divina. A promessa garante que serão abençoados, também, todos aqueles que abençoaram Abraão: a bênção se multiplica não apenas pela fecundidade que produz, mas também pela reciprocidade que estimula. Quem é abençoado abençoa, quem abençoa é abençoado. Essa generosidade na reciprocidade é o sentido pleno da benção que desejamos para a nossa cidade neste dia solene de memória e esperança. Desejamos que Goiânia seja solo fecundo de vida abundante para seus filhos e filhas e, ao desejá-lo, recebemos a benção que enche nossos corações e anima nosso compromisso com esta cidade e seu futuro.

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Aniversário da cidade O tempo é sagrado, pois nele Deus se revela1. Em Jesus, a revelação atinge a sua plenitude: Ele é o ontem, o hoje e o sempre, o princípio e o fim de todas as coisas. Ele é atualidade perene, boa notícia de salvação em todos os tempos e todas as idades. Discípulos de Jesus, lemos e reconhecemos os “sinais dos tempos” que precisamos interpretar e compreender num tempo cheio deles. É preciso situar-se no tempo e ouvir o que ele tem a nos dizer. Meditar sobre os 80 anos da cidade de Goiânia é uma das metas da reflexão que proponho. Com oitenta anos, ainda é possível chamá-la de “jovem cidade”, após a sucessão de tantas e de tão diversas gerações?2 Considero necessário revisitar espiritualmente a história de Goiânia, pois no aniversário da cidade estão também os nossos aniversários pessoais e o nosso aniversário comum. Refletir sobre a história coletiva também é pensar sobre nossos destinos pessoais e sobre o que comunitariamente construímos, no presente, em vistas ao futuro.

1 Sobre esse tema, ainda temos vivas na memória as Cartas Apostólicas promulgadas por João Paulo II: Tertio millennio adveniente (O advento do terceiro milênio) e Novo millennio ineunte (Início do novo milênio). Também, o documento da CNBB, Rumo ao novo milênio. 2 Remetemos aqui à historiografia goiana e goianiense, já com belos e consistentes estudos elaborados por competentes e empenhados historiadores. Ver, por exemplo: CHAUL, Nasr N. Fayad. A construção de Goiânia e a transferência da capital. Goiânia: CEGRAF UFG, 1988, com abundante indicação bibliográfica; TELES, José Mendonça (org.). Memórias Goianienses. Goiânia: UCG/SUDECO, 1986; ROCHA, Hélio. Goiânia 75. Goiânia: Ed. UCG, 2009.

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A cidade na Bíblia

A realidade humana de viver numa cidade também mereceu a atenção da revelação bíblica, para se expressar ou para emitir um juízo de valor. No Antigo Testamento, a revelação de Deus se fez num contexto de lenta e gradual transição da vida nômade e pastoril para a vida urbana e agrícola. Depois do dilúvio, fundaram-se muitas cidades, em torno das quais se organizaram os impérios mesopotâmicos, onde viveram os ancestrais de Abraão (Gn 11,31). Os patriarcas tiveram uma vida pastoril e seminômade, às margens das cidades da terra de Canaã. Após a escravidão no Egito, o êxodo e a conquista de Canaã, Israel se habituou à vida agrícola e urbana e reconhecia como dádiva de Deus as cidades, casas e plantações (Dt 6,10s; Jos 24,13). Mas se reconhecia também as cidades apresentarem suas contradições: Jerusalém, cidade do rei Davi (Sl 122,5), era identificada como o centro da unidade e da reunião cultual das tribos (Sl 122,3s), mas também que facilmente se corrompia (Is 1,21-31), assim como o paganismo corrompeu Nínive e Babilônia. Por isso, os profetas (Mq 6,9-12; Is 5,1-7) pressagiam para as cidades de Israel a mesma ruína de Sodoma e Gomorra. No Novo Testamento, a civilização urbana é o pano de fundo, tanto na Palestina como no império romano. As cidades da Galileia com frequência rejeitavam Jesus e, por isso, ele retoma as condenações dos profetas contra as cidades do lago (Mt 11,20-24) e contra Jerusalém (Lc 19,41ss) pela incredulidade de seus habitantes. No tempo da pregação dos apóstolos, o Evangelho foi recusado em Atenas (At 17,16ss), foi acolhido em Corinto (At 18,1-11), recebeu aceitação e recusas em Éfeso (1Co 16,8s). A Igreja nascente, sob forte perseguição, anuncia, em linguagem apocalíptica, a queda da nova Babilônia (Ap 17,1-7) e, para os fins dos tempos, a descida dos céus da nova Jerusalém (Ap 21) que haveria de reunir todos os eleitos. Portanto, em suas origens, o cristianismo tinha na vida das cidades uma forte referência em seu imaginário, o que marcava o estilo da linguagem cristã e a elaboração da mensagem do Evangelho3.

3 LÉON-DUFOUR, Xavier. Vocabulário de Teologia Bíblica. Petrópolis: Vozes, 1972, p. 147-149. Cfr. o verbete “Cidade”. Também: ROSSI, Luiz Alexandre Solano. et al. Deus na Cidade. A pastoral urbana. Estudos Bíblicos, n. 36, Petrópolis: Vozes / São Leopoldo: Sinodal, 1992.

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A evangelização inculturada na cidade grande A Igreja colabora e influencia na formação da cidade; a cidade, por sua vez, desafia, influencia e interpela a Igreja para um modo próprio de ser no mundo e na cidade. A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe orientou a Igreja de nosso continente para a necessária renovação missionária, sobretudo na evangelização das grandes cidades4 . “A Igreja em seu início se formou nas grandes cidades de seu tempo e se serviu delas para se propagar. Por isso, podemos realizar com alegria e coragem a evangelização da cidade atual”5. Ao celebrarmos o aniversário da cidade de Goiânia, aproveitamos esse tempo jubilar para agradecer a graça da fé cristã, vivida e testemunhada em nossa cidade. É um tempo especial para refletir sobre a presença pública da Igreja e sobre a sua relação com as forças vivas e atuantes da cidade. É uma forte convocação para que vivamos com autenticidade e com compromisso a unidade, a compreensão, o diálogo e a mútua ajuda a fim de que a cidade possa dizer de nós, como Igreja, o que diziam dos primeiros cristãos: “Vejam como eles se amam”. É uma oportunidade singular para retomar os estudos realizados nas últimas décadas sobre a pastoral urbana, revendo metodologias, linguagem, organização, formação e espiritualidade para a presença e atuação em nossa querida cidade6.

4 Documento de Aparecida, n. 517-518. 5 Documento de Aparecida, n. 513. 6 Remetemos às importantes reflexões acerca da Igreja na cidade, elaboradas ao longo de todo o triênio sinodal, bem como às três grandes sessões do Primeiro Sínodo Arquidiocesano, com os seus respectivos subsídios, as atas e as cartas pastorais. Imprescindíveis, ainda, as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, que há décadas tem formulado orientações para a pastoral urbana. Oportunas e necessárias, também, as reflexões e estudos ocorridos no Encontro Nacional de Presbíteros de 1994, com o tema O presbítero no processo de urbanização, e em 1996, com o tema O presbítero: missionário, profeta e pastor no mundo urbano. Ainda, na vasta bibliografia sobre a pastoral urbana, algumas indicações: ANTONIAZZI, Alberto; CALIMAN, Cleto (Orgs.). A presença da Igreja na cidade. Petrópolis: Vozes, 1994; DOS ANJOS, Márcio Fabri (Org.). Inculturação: desafios de hoje. Petrópolis: Vozes, 1994; BRIGHENTI, Agenor. Por uma evangelização inculturada. São Paulo: Paulinas, 1998.

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A ligação do bispo com a cidade Desde remota idade, nos primórdios do cristianismo, a Igreja definiu que os sucessores dos apóstolos, os bispos, fossem vinculados a uma cidade e nela exercessem sua missão pastoral confiada por Jesus Cristo. Esse vínculo não foi estabelecido apenas para exercer uma ação; mais profundamente, a relação do bispo com a sua Igreja diocesana, sediada numa cidade, o torna definitivamente, por meio do seu ministério, um participante ativo da vida e da história dessa cidade. Por causa disso, como um pai que permanece junto à sua família, o bispo procura sempre diminuir o tempo de ausência de sua igreja local e, no dia de seu falecimento, seu corpo permanece na cidade em que exerceu o ministério. Esse vínculo do bispo com uma cidade é uma primorosa herança transmitida pela tradição da igreja ao longo dos séculos. E chegou a mim, arcebispo de Goiânia. Por isso, o aniversário de Goiânia me é tão querido. Recordando os dias da visita do Santo Padre Francisco ao Brasil, faço minhas as palavras introdutórias de seu discurso de saudação ao país7. Sem dispor de ouro e prata para presentear Goiânia, a ela deixo o meu amor e a minha vida. E, mais importante que isso, desejo compartilhar e oferecer um supremo tesouro: Jesus Cristo, o amor dos amores, rocha firme que sustentou as oito décadas de história de nossa cidade, alicerce seguro para as próximas décadas e séculos, para todas as gerações que nos sucederão8.

7 Discurso do Santo Padre Francisco no Palácio da Guanabara, Rio de Janeiro, no dia 22 de julho de 2013. 8 BERTAZZO. Giuseppe (Org.). Arquidiocese de Goiânia 2002-2012. Goiânia: Ed. PUC Goiás, 2012.

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Os primórdios da cidade capital

Acervo IPEHBC

Viajando no tempo, parece-me chegar aos ouvidos o eco das primeiras iniciativas em prol da nova capital de Goiás. Foi criada uma insigne comissão cujo presidente era o arcebispo de Goiás, D. Emanuel Gomes de Oliveira9. Ao aceitar o convite, Dom Emanuel solicitou que, após a mudança da sede administrativa do Estado, fossem garantidos à Cidade de Goiás os meios para se manter e progredir10. Homem preocupado com a terra goiana, após ingentes estudos e acreditando que a mudança da capital de Goiás seria um dos primeiros passos para a futura transferência da capital do país para o Planalto Central, formulou propostas indicando os lugares onde poderia ser edificada a nova capital. Depois disso, com destemor, ousadia e enfrentando muitas resistências, Pedro Ludovico Teixeira comandava a transferência da capital e a construção da nova cidade. Arquitetos e engenheiros planejavam os traçados urbanos, o paisagismo, a estrutura administrativa do governo, os espaços para morar. Milhares de operários trabalhavam incansavelmente para edificar a cidade-capital; pesados rolos compressores de concreto e ferro, puxados por juntas de bois, compactavam as terras das ruas; pedreiros, sob o sol causticante, colocavam alicerces, assentavam tijolo sobre tijolo, subiam paredes. Mugido de bois, trilhas marcadas pelo casco de cavalos, movimento de trabalhadores braçais; levas de famílias migrantes aportando à nova cidade, crianças brincando e ajudando os pais; o sino distante tocando; times de futebol planejando jogos animados e divertidos no domingo à tarde: um mundo em movimento, agitado e cheio de novidades. Tudo estava começando, tudo estava por se fazer, tudo era inusitado. São poucas as gerações que podem presenciar a construção de uma cidade totalmente nova que surge na campina, transforma o espaço ocupado por fazendas, pelo cerrado rarefeito, pelas matas ciliares. Dom Emanuel no Obelisco que marcava o Quadrilátero Cruls, onde hoje se ergue Brasília 9 Esta Comissão foi nomeada por Decreto do Interventor Pedro Ludovico Teixeira, datado de 20 de dezembro de 1932. 10 Telegrama de Dom Emanuel a Pedro Ludovico aceitando o convite para compor a comissão de escolha da futura capital de Goiás. Jornal Brasil Central, 30 dez. 1932.

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A esperança ganhou vozes O sentimento de esperança e de entusiasmo para com a cidade em construção não foi apenas experimentado, foi verbalizado ganhando, aos poucos, mais precisão e clareza. Referindo-se a Goiânia como cidade-capital, em um artigo intitulado Variações em torno de Goiânia, o redator da Revista Oeste afirmava: “Goiânia não é uma coisa para ser vista; é coisa para ser compreendida. Não é um espetáculo para os olhos, mas um convite à inteligência. Não vale pelo que é, porém pelo que significa. [...] Fixando a cidade em todos os seus aspectos; relacionando-a com as nossas necessidades e confrontando-a com as nossas realidades; vendo-a em nosso ambiente atual e penetrando-lhe as possibilidades e a capacidade, podemos adivinhar-lhe um belo futuro”11. Essa explicitação otimista era compartilhada pela opinião nacional. Dom Aquino Correia dizia que “Goiânia é uma flor miraculosa do Estado Novo, que nela tem hoje um monumento de sua política de realizações; nela tem hoje um troféu de vitória para os seus ideais de renovação da nossa democracia [...]”.12 Osvaldo Aranha considerava Goiânia “uma realização da capacidade criadora dos brasileiros, como um marco da nossa obra civilizadora”13. Lísias Rodrigues, com palavras de futuro, não supondo ainda a transferência da capital federal e a criação de Brasília, dizia, em 1943, que “Goiânia não será somente uma capital do rico Estado Central de nossa Pátria. Goiânia não será apenas o atestado material de que em todos os tempos o Brasil teve homens capazes de feitos ciclópicos. Goiânia, dentro de um lapso de tempo reduzidíssimo, será o centro cultural, econômico e industrial mais importante de todo o Brasil que não é litorâneo”14 . Venerando Borges, que viria a ser o primeiro prefeito de Goiânia, somando-se às muitas vozes otimistas do Brasil que acompanhavam a criação da nova capital, assim concluía: “Goiânia é um capítulo, o mais importante, da história de minha terra. Põe à prova a energia de um cérebro, consubstancia o anseio de um povo e retrata a larga visão de um estadista [...]”15. 11 12 13 14 15

Hélio de Oliveira

Praça Cívica

Revista Oeste, Goiânia, julho de 1943, n. 6, p. 220. Cf. Revista Oeste (1943, p. 222). Cf. Revista Oeste (1943, p. 224). Cf. Revista Oeste (1943, p. 224). Cf. Revista Oeste (1943, p. 223).

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Uma cidade para todos? Sabino Júnior

Entre esperanças e sofrimentos, uma cidade-capital era edificada no planalto central do Brasil. Nas décadas de 1930 e 1940, o Brasil era ainda um projeto de nação, ou uma nação com projeto em execução. O povoamento intenso no litoral brasileiro intensificou o seu desenvolvimento, mas deixou esquecido o imenso sertão do país, tratado como interior. Morar no Oeste do Brasil significava experimentar duas vezes a denominada “síndrome da inferioridade”: por pertencer a um país subdesenvolvido e por habitar uma das regiões mais afastadas do litoral. O contexto de época marcava, no modo de ser e de viver, o surgimento de Goiânia. Pelo incentivo e pela propaganda governamental da Marcha para o Oeste, milhares de migrantes, de várias cidades de nosso Estado e do País, principalmente da Vista parcial do Setor Sul, em 1958 antiga capital, mudaram-se para a nova cidade em formação. A maioria possuía apenas algumas peças de roupas, umas panelas amassadas e escurecidas pelo fogo a lenha, a pele queimada pelo sol forte. O que os caracterizava era a alta taxa de analfabetismo, a ausência de uma moradia adequada, doenças primárias sem tratamento, desnutrição, curta estimativa de vida, desenraizamento cultural de suas origens. A lembrança dos parentes deixados para trás, as mortes pelo caminho, a grande quantidade de filhos a serem alimentados todos os dias era a herança que carregavam consigo. Esse contingente de pessoas foram os pioneiros e os construtores de Goiânia, os primeiros habitantes que não foram previstos no traçado original da cidade e, como para a família de Jesus de Nazaré, “não havia lugar para eles” (Lc 2,7). Por isso, ficavam espalhados pelas pobres e precárias vilas que forçosamente surgiam na periferia da cidade, além dos córregos e dos riachos atravessados por perigosas pinguelas. O poder público intentava melhorar as condições de moradia desta população, mas o problema se avolumava com a chegada cada vez maior de famílias em busca de oportunidades para uma vida melhor.

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Sabino JĂşnior

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Fotos: Acervo IPEHBC

A Igreja na edificação da cidade

Colégio Santa Clara, em 1950

Antiga sede da Santa Casa, no Centro de Goiânia

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A Igreja Católica (aqueles e aquelas que heroicamente nos antecederam na fé, nos primórdios de Goiânia), não apenas acompanhou a história, como esteve junto, misturou-se, deixou sua marca e ficou marcada com esse projeto de cidade. Fato digno de nota a ser lembrado é a premonição de Dom Eduardo Duarte da Silva, 9º Bispo de Goiás. Em 1891, em viagem para a sede de sua diocese, Dom Eduardo, chegando ao arraial de Campinas encantou-se com a região, a fartura de água, os campos, as matas e a topografia suave. Em seu diário registrou suas impressões acerca do lugar: “Campininha é um dos mais aprazíveis lugares de Goiás; vasta é a planície, abundante e excelente a água, matas de primeira qualidade, de modo que presta-se para uma futurosa cidade, e talvez mesmo para a capital do Estado, tão mal situada”16. Ilação feliz e profética de Dom Eduardo. Foi ele quem chamou os Padres Redentoristas para Goiás e lhes entregou, como campo de missão, a Romaria de Trindade que há quase um século reunia os devotos goianos e os de outras regiões do País que, junto ao Divino Pai Eterno, robusteciam sua fé. Perto desse centro da fé, surgia a nova capital de Goiás. Na antiga Campininha, o povoado mais próximo do centro da cidade que estava surgindo, a antiga igreja matriz, dirigida pelos padres redentoristas (onde, mais tarde, atuou o hoje Servo de Deus Padre Pelágio Sauter, cognominado o “Apostolo de Goiás”) e o colégio Santa Clara, dirigido pelas irmãs da Congregação das Franciscanas da Ação Pastoral, eram uma forte e importante referência para os moradores. No campo social, devido à falta de serviços públicos, sobretudo na Educação e na Saúde, a Igreja foi construindo dezenas de obras sociais. Foi criada a Santa Casa de Misericórdia de Goiânia17, com a decisiva participação da Sociedade de São Vicente de Paulo. 16 SILVA, Eduardo Duarte. Passagens: autobiografia de Dom Eduardo Duarte Silva, bispo de Goyaz. Goiânia: Ed. da UCG, 2007, p. 88. 17 Criada em 1937 sob o patrocínio de Dona Gercina Borges Teixeira, esposa de Pedro Ludovico. No início esteve sob a direção das Irmãs Agostinianas Missionárias. Em 1942 sua direção e trabalhos foram assumidos pela Congregação das abnegadas Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo que, neste mesmo ano, fundaram a Escola de Enfermagem, mais tarde Faculdade de Enfermagem.


Fotos: Acervo IPEHBC

Turma do curso de Enfermagem

Primeiro edifício do Externato São José em Goiânia

Colégio Santo Agostinho, em 1948

Em 1942, teve início o curso de Enfermagem e, nas três décadas seguintes, surgiram diversas escolas católicas dirigidas pelas congregações e ordens religiosas agostiniana, salesiana, dominicana, franciscana e marista18. Enfim, na década de 1940 e 1950, foram instituídas as faculdades que, no final de 1959, seriam reunidas para a criação da Universidade de Goiás, mais tarde denominada Católica e atual Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Além dessas instituições de maior visibilidade, foram criadas dezenas de creches paroquiais, asilos, centros de tratamento da hanseníase e escolas profissionalizantes. Em 1956, foi criada a Arquidiocese de Goiânia; em 1957, com a vinda de Dom Fernando Gomes dos Santos, seu primeiro arcebispo, a Igreja Católica obteve novo impulso e uma mais estável presença institucional. Com criatividade, D. Fernando intensificou a comunicação: fundou a Rádio Difusora e a Revista da Arquidiocese, a mais antiga e ininterrupta publicação, em Goiânia, de um periódico-revista. Desenvolveu um ousado projeto de reforma agrária na Fazenda Conceição; estruturou o serviço pastoral de acolhida aos migrantes; acompanhou o imenso contingente de trabalhadores que acorria para a construção de Brasília, então pertencente à Arquidiocese de Goiânia, e construiu o Centro de Treinamento de Líderes. Além desse imenso trabalho coletivo pelo bem social da cidade, a Igreja Católica atuou no cotidiano da vida das pessoas e, numa ação quase imperceptível e anônima, pela capilaridade no relacionamento, possibilitou a reorientação de vida de milhares de pessoas. A presença eclesial junto a famílias enlutadas, a visita aos doentes, o acompanhamento a famílias em conflito ou em vias de separação, a participação em casamentos e nascimentos, a formação de grupos juvenis, familiares ou de assistência: tudo isso certamente colaborou para assentar as bases da convivência humana em uma cidade onde tudo estava em construção. 18 Nos primeiros trinta anos de Goiânia foram fundados os seguintes colégios católicos: Colégio Santo Agostinho, em 1937, o primeiro colégio religiosos da nova capital; o Externato São José, em 1948; Maria Auxiliadora, em 1956; Colégio Marista, em 1962; Colégio Agostiniano, em 1964.

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Eucaristia, alicerce na edificação da cidade Acervo do Museu Pedro Ludovico

A história dos primórdios de Goiânia tem em seus registros dois grandes acontecimentos reveladores dos alicerces sobre os quais deveria ser edificada a cidade: a consagração à materna proteção de Nossa Senhora Auxiliadora e a adoração eucarística a Jesus Cristo. Os pioneiros de Goiânia sempre vincularam o lançamento da “pedra fundamental” da cidade à “pedra angular” da fé cristã. Acompanhando de perto a criação de Goiânia, a Igreja, solícita com o progresso da terra goiana, foi testemunha e coadjuvante no processo de fundação da nova capital. No dia 27 de maio de 1933, quando da roçagem do local da futura cidade, o padre Conrado Kolman, da comunidade redentorista de Campinas, celebrou a primeira missa à sombra de frondosa árvore e o canto foi entoado pelas alunas do Colégio Santa Clara. Em 24 de outubro do mesmo ano, no lançamento da pedra fundamental de Goiânia, o padre Agostinho Folster, também redentorista, celebrou a Eucaristia evocando Cristo, a rocha, a pedra fundamental de nossa fé. Cinquenta e dois anos depois, saudosa e emocionada, a escritora Rosarita Fleury, que havia participado da celebração, afirmou que “durante a cerimônia religiosa, misturavam-se os sons da banda de música, o cantar escalonado das assustadas seriemas e as vozes musicais das alunas do Colégio Santa Clara”19. Ainda sem um templo construído, as missas seguintes também eram celebradas embaixo de árvores, no imenso descampado da cidade. Finalmente, após a construção do prédio da Assembleia Legislativa, as missas passaram a ser celebradas naquele recinto20. 19 FLEURY, Rosarita. In Memória Cultural: ensaios da história de um povo. Goiânia: Gráfica Ipiranga, 1985, p. 161. 20 FONSECA E SILVA, José Trindade da. Lugares e Pessoas. Goiânia: Editora UCG, 2006, p. 461.

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Dom Aquino discursando em Goiânia


21 Dom Francisco de Aquino Correia (02/04/1885 - 22/03/1956) era natural de Cuiabá, filho do goiano Comendador Antônio Tomaz de Aquino Correia e de Maria da Aleluia Gaudie Lei, cuiabana, mas também de família com origem em Goiás. Salesiano, Dom Aquino foi governador de Mato Grosso, possuidor de sólida cultura, literato, poeta e estudioso dos clássicos da língua portuguesa. JAYME, Jarbas. Famílias Pirenopolinas. Vol. V, Goiânia: Ed. Rio Bonito, 1973, p. 355. 22 PIMENTA NETTO. Anais do Batismo Cultural de Goiânia, 1942: reedição histórica. Goiânia: Luzes, 1993, p. 09.

Fotos: Acervo IPEHBC

Outro acontecimento memorável foi o Batismo Cultural de Goiânia, ocorrido no dia 5 de julho de 1942. Goiânia era apresentada ao Brasil: a realização de diversos eventos e exposições trouxe dias de imenso júbilo aos habitantes da cidade-menina. O ponto alto das comemorações foi a Missa Solene presidida por Dom Emanuel Gomes de Oliveira, Arcebispo de Goiás. Ao término da celebração eucarística, ocorrida na Praça Cívica, Dom Aquino Correia21, arcebispo de Cuiabá e membro da Academia Brasileira de Letras, ascendeu a tribuna e proferiu bela e emocionante oração congratulatória. Suas palavras ficaram gravadas na memória dos presentes. Venerando de Freitas Borges, primeiro prefeito de Goiânia, lembrando aquele momento, assim se expressou: “Consideramos um dos pontos culminantes do Batismo Cultural de Goiânia a grande concentração na Praça Cívica para onde acorreu o povo para assistir à Missa Campal, ocasião em que D. Aquino Correia, na manhã fria de 5 de julho de 1942, era ouvido pelo Brasil inteiro, ali representado por brasileiros da mais alta categoria e pelos operários, comerciantes, industriais, militares, religiosos, estudantes e fazendeiros. Parece-me estar a ver a heráldica figura do prelado de Cuiabá, procurando alcançar com os braços estendidos os horizontes largos que se abriam pela amplidão sem fim dos chapadões goianos, abençoando a cidade [...] Guardo na retentiva os instantes de emoção e de grandeza vividos pela massa humana que ali se aglomerava em religioso respeito e a vibração que de todos se apossava, quando o verbo de D. Aquino se erguia e longe ecoava, perdendo-se na manhã festiva.” 22 O alicerce eucarístico da cidade foi ainda mais explicitado em 1948, com a realização do Congresso Eucarístico em Goiânia. E se pereniza no tempo, enquanto manifestação pública, com a celebração do Corpus Christi, realizada na Praça Cívica.

Inauguração oficial de Goiânia, em 5 julho 1942

Congresso Eucarístico realizado em 1948

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Acervo IPEHBC

Mãe de Jesus, Mãe de Goiânia

Pedra Fundamental da primeira Igreja de Goiânia, em 1935

Primeiro esboço de Goiânia: imagem do livro Goiânia - Cidade Pré-Moderna do Cerrado 1922-1938, de Jacira Rosa Pires

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Goiânia surgiu sob a proteção de Nossa Senhora Auxiliadora, um dos alicerces do povo goianiense. Não somos uma cidade órfã, temos uma mãe, e nos confiamos, desde o inicio da cidade-capital, à sua guarda maternal. “No dia 24 de maio de 1935, portanto um ano e sete meses depois do lançamento da Pedra Fundamental da Cidade, outra solenidade importante aconteceu em Goiânia. Foi a benção e o lançamento da pedra fundamental da primeira Igreja em Goiânia, também primeiro templo religioso da nova capital. [...] A Benção foi oficiada pelo Senhor Arcebispo. A Santa Missa, celebrada pelo Mons. Abel, foi à sombra de uma árvore do cerrado. O altar rústico estava encimado por um singelo quadro da Virgem Auxiliadora. Era intenção da paraninfa da solenidade, Dona Gercina Borges Teixeira, esposa do Senhor Interventor, colocar sob o patrocínio da Virgem Auxiliadora a cidade que seria a nossa bela Goiânia. Isso com o beneplácito jubiloso do Senhor Arcebispo que, como bom salesiano, ficou feliz em ter ‘a Virgem de Dom Bosco’ como Padroeira de seu rebanho. Nossa Senhora Auxiliadora tornou-se, mais tarde, Padroeira da Cidade e da Arquidiocese de Goiânia”23. A devoção mariana, indissociável de Goiânia, faz com que Nossa Senhora seja invocada sob muitos títulos em nossa capital. As tradicionais novenas de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que ocorrem há mais de cinquenta anos, às terças-feiras, na Matriz de Campinas, reúnem milhares de fiéis que ali acorrem em busca de conforto para os males do corpo e da alma. Unidos a Maria, que nos leva a Jesus, os fiéis reverente e devotamente entoam: “Socorrei-nos ó Maria, neste nosso caminhar, os doentes e os aflitos, vinde todos consolar. Vosso olhar a nós volvei! Vossos filhos protegei! Ó Maria, ó Maria! Vossos filhos socorrei!” Propagadores desta devoção, os filhos de Santo Afonso – os padres redentoristas - viram-na crescer e alcançar todo o Estado. São diversas as paróquias da capital e do interior goiano, começando por nossa igreja catedral, onde são realizadas as novenas em honra a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. É sintomático que a devoção do povo goiano à Virgem Maria sempre tenha enxergado no plano de Goiânia, com as três avenidas (Araguaia, Goiás e Tocantins) em disposição radiocêntrica, partindo da Praça Cívica circulada por um anel viário, o manto de Nossa Senhora Aparecida e sua coroa. Estudos demonstram que o plano piloto de Goiânia seguiu modelos de cidades planejadas da Europa, mas a devoção popular, prenhe de amor à Mãe de Jesus, coloca-a no centro da capital, como a cobri-la com o seu manto protetor 24 . 23 FLEURY, Nelson Rafael. Notas históricas. Goiânia: Editora da UCG, 2007, p. 36-37. 24 Sobre o plano piloto de Goiânia cf. PIRES, Jacira Rosa. Goiânia – cidade pré-moderna do cerrado 1922 – 1938. Goiânia: Ed. da PUC Goiás, 2009.


Igrejas e religiões nos primórdios da cidade Juntamente com a católica, outras igrejas participaram dos primórdios de Goiânia. A imigração sírio-libanesa, que se estabeleceu principalmente na região da estrada de ferro, possibilitou a formação, em Goiânia, de uma comunidade de católicos ortodoxos que, em 1956, criaram a paróquia São Nicolau, no Setor Oeste 25. As organizações religiosas, cada uma ao seu modo e com sua distinta tradição, contribuíram na edificação de Goiânia: construíram escolas, hospitais, templos, obras assistenciais. Anunciaram com intrepidez e coragem a mensagem de Jesus Cristo e o modo de vida cristã, cultivaram no povo o amor à Bíblia, ajudaram aos que caíam nos vícios e na dependência química, estiveram ao lado dos marginalizados pela sociedade. Se, ao longo da história, as diferenças de doutrina eventualmente nos distanciaram, a caridade nos aproximou, unidos por valores humanos e solidários na construção de uma cidade que fosse de todos nós.

25 Na década de 30, a presença de diversas igrejas cristãs, em Goiânia, era uma realidade: a primeira Igreja Assembleia de Deus foi fundada em 1934, a Igreja Presbiteriana em 1935, a Batista em 1937.

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Goianiense: cidadania e formação de sua identidade O revisitar celebrativo da história de Goiânia nos tráz à memória, entre várias, duas dimensões de especial e relevante importância para a constituição da cidade: a construção do cidadão e a formação da identidade do povo. Quando várias gerações nos antecedem no lugar onde habitamos, já nascemos plasmados por uma cidadania própria e registrados com um sobrenome conhecido pela comunidade. Mais demorada que a edificação dos prédios da cidade é a edificação da cidadania. Essa, talvez, tenha sido a tarefa mais árdua na história de nossa jovem capital: formar o cidadão, que habita em plenitude na vida citadina, com seus direitos e deveres, com pleno senso de pertença, respeitado, abraçado e identificado à sua comunidade local. Oito décadas de vida da cidade e ainda estamos empenhados na construção da cidadania, com um longo caminho a percorrer. Também a transformação da “massa” em povo tem sido uma lenta e difícil tarefa humana desde os primórdios de Goiânia. Esse jubileu de aniversário da cidade de Goiânia deverá nos proporcionar uma reflexão mais atenta sobre a cidadania e sobre a configuração de nossa identidade coletiva, tão importante quanto a infraestrutura e as políticas públicas necessárias ao presente e ao futuro da cidade. Essa memória sobre os bens imateriais e espirituais é um patrimônio invisível, mas determinante por ser alicerce para a construção perene de uma cidade. Da solidez dos alicerces, a certeza da paz social e do futuro que se avizinha.

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Aniversário, tempo de reconciliação Desde o lançamento da pedra fundamental de Goiânia e a primeira missa abençoando o local e os trabalhos de construção da cidade, as décadas passaram num relâmpago. Muitos daqueles pioneiros viram sua idade avançar e acompanharam a grande velocidade dos acontecimentos e das mudanças. Uns faleceram, filhos e netos os sucederam. Muita gente continuou chegando enquanto, em busca de melhores oportunidades de vida, alguns foram embora para outras cidades ou outros países, peregrinos nas estradas de um mundo desigual. Milhares de vidas anônimas ou apagadas da memória pelo tempo serão sempre infinitamente maiores que um aniversário coletivo, na singularidade de cada ser humano que pisou o chão goianiense. Com esse sentimento de reconhecimento e de gratidão, é preciso avançar para o futuro, enfrentando os novos desafios emergidos no século XXI, 80 anos após a criação da cidade. Por isso, inspiro-me na reflexão elaborada pelo Cardeal Jorge Bergoglio, hoje Papa Francisco, escrita e apresentada por ocasião do bicentenário da República Papa Franscisco toca imagem de Nossa Senhora Aparecida Argentina. Como cidadão, como morador e como Arcebispo de Goiânia, penso que esse aniversário da cidade é um tempo forte de reconciliação na vida pública e urbana, de afirmação da justiça social, de edificação da paz e de união em torno do projeto do bem comum. Analisando a Argentina, o Cardeal Bergoglio afirmava que “o sistema democrático é o marco e estilo de vida que escolhemos ter e nele temos que diminuir nossas diferenças e encontrar nossos consensos. Com a recuperação da democracia tivemos a ilusão e pensamos que nossa pátria podia, finalmente, alcançar uma convivência e um projeto em comum. Acreditávamos que podíamos resolver nossas diferenças e as tensões internas por meio dos recursos que nos oferece a política, que é o ‘espaço do compromisso e a missão para superar as confrontações que impedem o bem comum’.26 Todavia, nos custa encontrar e aceitar os pontos de união e os lugares que nos permitem uma convivência fraterna”. Esse é também um desafio e uma exigência que se coloca para a condução de nossa Goiânia. É preciso que o pluralismo e as diferenças não levem à fragmentação da vida em comum na cidade. É preciso, para uma cidade como Goiânia, que cresce a cada dia, superar os egoísmos corporativistas que sobrepõem os privilégios de alguns sobre as necessidades de todos. É preciso uma visão estratégica de longo prazo, para além dos tempos de mandato. É preciso superar o imediatismo tático, a permanente atitude de fazer jogadas, a ocupação dos espaços sem finalidades transcendentes e altruístas. É preciso superar o modo midiático de fazer política, reduzida ao espetáculo da imagem, aos gestos falsos para impressionar, à disposição artificial de se apresentar diante das situações complexas da vida em comum na cidade27. 26 27

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BERGOGLIO, Jorge. Nosotros como ciudadanos, nosotros como pueblo. Hacia un bicentenário em justicia y solidaridad. Buenos Aires: Editorial Claretiana, 2013, p. 21-22. BERGOGLIO, 2013, p. 44-46.

Divulgação JMJ 2013


Divulgação JMJ 2013

Papa Francisco é recebido por fiéis no Rio de Janeiro, durante Jornada Mundial da Juventude

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Aniversário, tempo propício para o sentimento de pertença Nas últimas décadas, foram incorporados à cidadania os múltiplos direitos políticos, sociais e econômicos, ficando, entretanto, opacos os deveres e a reciprocidade das obrigações. Ao Estado, ente jurídico abstrato, foram transferidas todas as responsabilidades pela vida pública, ficando empalidecido o conceito de povo. Ora, como é possível construir o cidadão sem uma plena consciência de pertença a um povo? Como pode se enraizar o senso de responsabilidade quando os vínculos se diluem e as relações interpessoais deixam de atingir o coração do cidadão? As consequências da falta de plena pertença a um povo e a uma cidade produzem consequências perversas de comportamento: o vandalismo banalizado com a depredação das praças, pichação nas paredes, quebra das lâmpadas de iluminação pública: é o sentimento de que o bem público não é de ninguém e dispensa o cuidado responsável de todos. Outra consequência perversa é a indiferença pela destinação do lixo cotidiano, pelos altos ruídos, o fogo ateado nos pastos, os dejetos lançados nos rios; é o descuido com a mobilidade urbana, muito presente na violência do trânsito e nas calçadas irregulares. Na raiz deste e de muitos outros problemas urbanos está a falta do sentimento de pertença e a ausência da identificação com a comunidade. Dispersos no anonimato, avançamos na indiferença, na irresponsabilidade e na intolerância social. Recordar e celebrar reiteradamente o aniversário da cidade deverá, sempre mais, ser o tempo propício para recordar e reafirmar que somos integrantes da cidade e por ela responsáveis; que podemos e devemos sentir-nos incluídos e, também, tornar-nos elo para a inclusão daqueles que estão às margens da vida social.

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Aniversário, tempo de explicitar um projeto de futuro sustentável O aniversário de Goiânia é uma ocasião privilegiada e única, um kairós (palavra grega que indica o momento propício para a ação divina), que não pode passar em branco ou ser reduzido a festejos e eventos comemorativos. É preciso que algo mais duradouro marque para sempre esse aniversário e o projete para o futuro. Essa, portanto, é uma ocasião singular para a afirmação de um grande projeto coletivo cheio de esperança. Não se trata, portanto, da simples elaboração de planos para a gestão municipal, algo, entretanto, também imprescindível na vida na cidade. “Esta ideia de projeto, que recorre às várias etapas de nossa história, apresenta-se como utopia, como algo distinto de um plano ou que contém um modelo. Projeto é qualitativamente superior e transformador. Projetar é dar lugar à utopia, é olhar o futuro, escrevê-lo, construí-lo dia a dia com decisões e ações em diálogo harmônico com o dom recebido. O projeto é nossa intenção e esperança, é como buscar antecipar a história. Requer fixar estratégias com acordos substanciais e plurais para ir passo a passo, crescendo progressivamente e, concomitantemente, sem negar as raízes de nossa identidade”28. Todo projeto deve apresentar a formulação de um desenvolvimento integral, sustentável e metodológico29. Um projeto de desenvolvimento integral supõe dar possibilidade a todos, onde o poder público, promotor e responsável primeiro pelo bem comum, baseado na subsidiariedade e na solidariedade, articula os interesses dos distintos setores e atores sociais pelo caminho da participação, do diálogo e da construção de consensos, estabelecendo orientações e normas que promovam a unidade social. A necessidade de que todos assumam um projeto da vida em comum na cidade será cada vez mais exigente e mais desafiante. Exigente porque implica em participação efetiva e em solidariedade; desafiante porque a comunidade goianiense enfrenta o impacto de uma das maiores mudanças populacionais do Brasil, devido à grande migração para a nossa cidade e para o Estado de Goiás. Embora toda a projeção, pela sua própria condição hipotética, mereça uma atenção com reservas, não se pode desconsiderar a previsão de que a região metropolitana de Goiânia irá quase duplicar sua população até 2025 e triplicar até 2040. O IBGE projeta que a população de Goiás tenda a crescer aproximadamente 20% até 2030, e que nessa mesma data nosso Estado será o segundo, ultrapassando São Paulo, em saldo migratório30. Comunidades e cidades com intensa rotatividade habitacional precisam de contínua adaptação, maior agilidade nas ações públicas, preparação de lideranças que desempenhem frequente interlocução e diálogo multicultural, programas especiais que induzam à integração comunitária. A paz social na cidade será fruto do empenho pela formação dos valores coletivos e da consciência comunitária. 28 29 30

Cf. Bergoglio (2013, p. 80-81). Cf. Bergoglio (2013, p. 76-78). Cf. O Popular, 30 de agosto de 2013, p. 4.

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Um futuro sem pobreza Para o presente e para o futuro do desenvolvimento integral de Goiânia, à luz de sua própria história, de sua identidade, de seus autênticos valores, e também à luz da tradição cristã e das atuais exigências e desafios expressados pelo povo, ouvidos e maturados em nossa diuturna permanência nas comunidades eclesiais e no permanente diálogo com as organizações e instituições da sociedade civil, evocamos, dentre outras, cinco importantes dimensões: a social, a ambiental, a estética, a ética e a espiritual. Na dimensão social, o aniversário da cidade é um forte tempo jubilar para a identificação e avaliação conjunta acerca de problemas ainda longe de serem resolvidos. Dentre eles, a superação da pobreza e da desigualdade social, a plena inclusão da juventude à educação e ao trabalho, o respeito à vida dos mendigos, dos moradores de rua, das crianças abandonadas ou que se afastaram de seus lares e que, nas ruas, perderam os vínculos com o núcleo familiar. Devemos, também, desenvolver uma cultura de pleno respeito às pessoas nas diversas situações em que se encontram, como as Atendimento comunitário na Jornada da Cidadania diferenças de cultura, de étnia, de idade, de opção de vida e de condição social. Mais ainda, respeitar os que ainda não tem acesso a todos os bens produzidos pela cultura, aos que não são bem tratados pela roupa que vestem, pelo sotaque que carregam ou pelo gosto que possuem. É nosso dever desenvolver uma cultura de paz e a civilização do amor, construindo linguagem e atitude de diálogo, de tolerância e de amor nas relações entre homem e mulher, pais e filhos, professores e estudantes, vizinhos, parentes, empregadores e empregados, lideranças e povo, motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. A violência jamais será vencida apenas com armas e agentes de segurança pública; os conflitos jamais serão suplantados apenas pelas decisões do sistema judiciário e pelas leis do estado de direito. Polícia e justiça são imprescindíveis para a segurança pública, mas não dispensam o empenho de toda a cidade e de seus cidadãos no cultivo das mentes e corações para buscar a paz. Lembro-me, aqui, de célebres frases que marcaram a história: “Olho por olho, e o mundo acabará cego” (Mahatma Gandhi), e “Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão” (João Paulo II).

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Ar, terra e água: dons de Deus à vida no planeta Nossa cidade não é uma pequena porção de território, isolada da vida na terra. O modo como vivemos em Goiânia também impacta sobre toda a vida no planeta. O ar, a água e a terra, articulados num ecossistema, sofrem acelerado desequilíbrio por causa de nosso modelo de desenvolvimento31. Nosso bioma, o cerrado, é um dos mais devastados do planeta. Em Goiânia, a bacia hidrográfica do rio Meia Ponte diminuiu sua disponibilidade hídrica devido à impermeabilização crescente do solo, às alterações climáticas, ao aumento do consumo e às contaminações diversas. A consciência ecológica ainda está longe de produzir novas atitudes pessoais: não abdicamos do consumismo desenfreado, dos meios de transporte que promovem status social, do esbanjamento da água, dos ruídos cada vez mais crescentes, da indiferença ao plantio de árvores e à construção de calçadas viáveis em frente às nossas casas e prédios. Além do comportamento pessoal de cada cidadão, também será decisiva a orientação pública a ser conduzida pela política ambiental do município. Para isso, será necessário, sempre mais, o ordenamento da cidade pelo Plano Diretor, a educação ambiental, com indução para a reutilização e a reciclagem, a proteção das fontes de água e das matas ciliares dos rios e córregos e a necessária arborização da cidade. 31

Cf. a sugestiva obra LEFF, Enrique. Saber ambiental. Sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis: Vozes, 2001.

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A singular beleza de Goiânia Não havia o mar e as belas praias da antiga capital do Brasil, não havia os belos morros da antiga capital de Goiás. Entretanto, outras belezas, singulares, foram contempladas pelos primeiros olhares sobre Goiânia: sua vastidão em planície permitia ver um amplo céu, de intensa luminosidade, que se unia à terra num grande e belo horizonte transformado em poesia citadina ao entardecer e no amanhecer. O brilho das estrelas nas noites de abril e o pôr do sol no outono enchiam de encanto e de sensibilidade a vida em nossa cidade. O paisagismo urbano, com ênfase na arborização, humanizava os espaços, atenuava os períodos de estiagem, inaugurava primaveras. Pela miscigenação de diversas etnias, migradas de tantos lugares, formou-se um povo bonito, cordial, com um tom e uma pronúncia cheios de particular delicadeza e educação. Temos, enfim, a beleza artística, expressão sublime da cultura, terreno fecundo da sensibilidade humana de onde nasceram nossos pintores, escultores, escritores, cantores, músicos e artistas. Então, embora com os tantos desafios enfrentados, ontem e hoje, podemos dizer com estima: Goiânia é uma cidade bonita, com um belo povo. Esse olhar estético dirigido à vida e ao lugar em que se mora humaniza as relações, torna a cidade habitável, educa para o cuidar, fortalece o bem-querer e o amor para a terra. E se contrapõe às insuficientes imitações da beleza produzidas com superficialidade e das padronizações de beleza que anulam a singularidade de cada lugar e de cada pessoa. Cultivar e cuidar da beleza será uma das maiores exigências para com a cidade, condição para a realização humana. Por isso, os altos muros que o medo edificou, cercando casas, lotes, edifícios e condomínios, precisam ser humanizados pela pintura e pela arte. A poluição visual deverá ser superada pela contínua fiscalização e pela atualização das normas sobre os novos recursos visuais. Os espaços históricos merecem ser permanentemente revitalizados e, sobretudo em bairros novos, o paisagismo deverá ser uma das prioridades. Enfim, a cultura e a arte precisam ser sempre mais incentivadas e acessíveis a todos. O cuidado com a beleza da cidade não é apenas uma obrigação do poder público. É preciso o empenho de cada cidadão, do singelo gesto diário de varrer a calçada em frente à casa e dar o destino correto ao lixo produzido, ao empenho em educar e formar as novas gerações à percepção estética, tornando a vida mais bela e mais humana em Goiânia.

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Um futuro com progresso ético Após 80 anos de história, Goiânia já consolidou seus valores, incorporados e reformulados criativamente pela vida de muitas gerações. Há uma consciência coletivamente edificada, capaz de discernir o bem do mal, o verdadeiro do falso, a luz das trevas. Esse discernimento de consciência orienta as atitudes pessoais e comunitárias. Também proclama, sobretudo pelas notícias e acontecimentos da cidade, o permanente juízo sobre as ações e seus respectivos impactos positivos ou negativos. Tudo isso é possível porque também em Goiânia foi plasmado um ethos, um modo próprio de habitar numa cultura, com seus hábitos e costumes, com suas relações e com o jeito de ser de cada um. Todo progresso social requer o progresso ético no mesmo ritmo, sincronia e intensidade. Povos que progridem apenas materialmente tornam-se sociedades da opulência, ricas em recursos, pobres em humanidade e em valores. Perdem a capacidade de sorrir, de amar com autenticidade, de compartilhar a vida com generosidade. E correm o sério risco da desagregação social. Por isso, o presente e o futuro de Goiânia dependerão, principalmente, da escolha de um projeto ético de cidade, de uma convivência estabelecida a partir de relações éticas, de vidas humanas dispostas a agir com ética aplicando, na prática, a exigente arte de viver e conviver. Essa será a condição de sua felicidade. E nisso também se impõe uma ética pública que presida todos os poderes formalmente constituídos, além dos poderes inerentes à sociedade. Um grito impaciente de indignação ecoa nas ruas e nas consciências. É preciso dar um basta à corrupção que corrompe os costumes e desagrega o bem comum. Em todos os lugares, e nossa cidade não é exceção, a corrupção contaminou os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Também afetou as práticas do mercado, do sistema financeiro, das instituições, dos meios de comunicação. E enraíza-se, silenciosamente, na vida pessoal, familiar, comunitária e social, fragilizando as relações, criando um clima generalizado de suspeitas, ameaçando as oportunidades de futuro, corroendo na base a formação das novas gerações. Sem a efetiva disposição ética da consciência e a firme adesão aos valores, pouco efeito surtirão as leis permanentemente aperfeiçoadas ou os sofisticados sistemas de controle e de vigilância social. O aniversário jubilar de Goiânia aponta para a exigência do progresso ético da cidade, uma cidade do bem.

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Um sentido espiritual para a nossa cidade Somos seres inquietos e inconformados com os limites de nossos corpos, de nossas linguagens, de nossas possibilidades de ação. Sabemos que somos viajantes nesse mundo. Nossa razão de ser vai além da cidade terrena, tão querida e tão amada: caminhamos para uma cidade dos céus, um Reino definitivo, uma morada de plenitude. Buscamos a Deus e nEle professamos a nossa fé. Esse contundente e humilde reconhecimento espiritual não nos tira a responsabilidade cidadã. Ao contrário, compromete e responsabiliza, ao mesmo tempo em que é reconhecimento das limitações e relativiza os antropocentrismos arrogantes e presunçosos. Essa espiritualidade, fornecedora de sentido de vida, deve ser respeitada pela laicidade genuína e autêntica do Estado, em todos os âmbitos, do global ao local. A espiritualidade é um legado das tradições religiosas, com suas doutrinas, suas teologias, seus ritos, seus símbolos. Isso deve ser respeitado e perenizado, inclusive no espaço público, particularmente quando se tornou costume e referência de identificação pela sociedade. Em comunhão ecumênica, também a Igreja Católica, em Goiânia, deseja presentear a cidade aniversariante com o seu mais derradeiro sentido de ser e de existir: Jesus Cristo. Com ternura e amor, em dia de aniversário, convidamos a cada um dos cidadãos de Goiânia, os que aqui nasceram ou que a adotaram como sua cidade, para que, sem medo, abram as portas do coração a Cristo. Ao compartilhar e testemunhar esse discipulado missionário a Jesus, desejamos que nosso modo de ser cristão leve todos à prática do amor, eduque para o bem comum, oriente para o sentido pleno da vida, estimule o progresso ético, forneça conteúdo e fundamentos aos projetos citadinos, colabore para a edificação de relações justas, fraternas e pacíficas, ajude a construir uma cidade feliz. Temos uma certeza, que se reforça a cada dia: a bênção das bênçãos para uma cidade é o Filho de Deus, que se tornou homem, Deus conosco, em Jesus Cristo. Esta, não tenhamos dúvida, é a fonte de todas as bênçãos, confirmada pela declaração maravilhosa e categórica de são Paulo: “Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda sorte de bênçãos espirituais... em Cristo” (Ef 1,3). Por isso, todos e todas na Igreja podemos presentear nossa cidade com o que temos de mais importante e querido: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho te dou: Jesus Cristo”. Deus te abençoe, Goiânia!

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Oremos por Goiânia Senhor Jesus Cristo, pelo mistério da encarnação cresceste em sabedoria e graça na cidade de Nazaré, percorreste as cidades de Cafarnaum, de Caná, de Jerusalém e de tantas outras vilas, aldeias e cidades, curando, restaurando, ensinando, libertando, salvando e dando a vida pela vida de muitos. Nós, confiantes, humildemente Te pedimos: entra e permanece no coração de Goiânia. Abençoa todos os seus habitantes. Guarda, em Teu amor, todos, vivos ou falecidos, que moraram e edificaram esta cidade, em seus 80 anos de história. Pela intercessão de Tua e nossa Santa Mãe Auxiliadora, Padroeira de Goiânia, concede-nos um futuro de paz, de justiça, de pão, de fraternidade, de beleza, de vida e de felicidade. Amém.



Deus te abençoe Goiânia!