Aerovisão - É verdade que o senhor conheceu Santos Dumont? John Buyers - Conheci. Meu Deus, como é que eu vou contar? Ele morava em Petrópolis e eu fui procurá-lo lá. Encontrei, conversei com ele um bocado. Me recebeu muito bem. Foi uma aventura pra mim porque ele já era um homem velhinho. Não me conhecia, nunca me viu mais gordo. Aí então eu meti a cara e fui lá conversar com ele (risos). Mas foi muito bom. Não esqueço nunca a palestra que eu tive com ele. Eu tenho certeza que ele não se esqueceu de mim não. Eu não pilotava avião não, mas eu era maluco por aviação. Aerovisão – E a Carmem Miranda também? John Buyers - (risos) Eu conheci Carmem. Ela estava passando e eu disse: “Ô Carmem, não quer tirar uma fotografia comigo não?”. E ela disse: “Vem cá meu bem”. Aí chegou lá, me abraçou, e ela foi embora. Nunca mais vi. (risos). Aerovisão – Mas daquele tempo, sua maior lembrança é a participação na Segunda Guerra Mundial, não é? John Buyers - Nem pergunta, porque foi uma época da minha vida em que eu nunca, mas nunca vou esquecer. Porque fomos a uma guerra e foi matança pra aqui, matança pra ali... E o Brasil fez bonito, viu? O Brasil fez bonito na campanha lá. E eu tenho muito orgulho do meu grupo de caça. (lágrimas). Aerovisão – É verdade que inicialmente os americanos não acreditavam muito que o Brasil conseguiria ter um grupo de aviação de caça na guerra? John Buyers - Eu acho que eles achavam que o Brasil talvez não pudesse, mas foi insistido. E o americano estava querendo pegar o Brasil pelo pé (risos) para ser um bom companheiro para ele. Então ele deu tudo, tudo o
possível para esse Grupo de Caça. O americano deu de graça para nós, de graça. E nós fizemos bonito, muito bonito. Nunca pensaram que nós íamos conseguir isso. Aerovisão – O senhor era o Oficial de Ligação. Não tinha qualquer obrigação em voar missões de combate. Mesmo assim, voou 21 vezes ao lado dos brasileiros. Por que isso? Por que arriscou a própria vida mesmo sem precisar? John Buyers - Eu estava em uma guerra. Eu queria participar da guerra. E eu estava com o grupo de caça… (sorriso) E eu pedi, eu entrava na frente. Mas levei muito tiro. Levei muito tiro. Meu avião voltou várias e várias e várias vezes com buracos. Mas a gente foi pra frente. Aerovisão – Durante a guerra o senhor tinha 24, 25 anos. O que leva um jovem a querer participar da guerra? John Buyers - É a aventura. Não tem nem dúvida. Foi uma aventura mesmo que nós tivemos lá. Mas nós corríamos o risco. Uns não conseguiram. Morreram, tiveram que saltar de paraquedas, foram parar em campo de prisioneiros. Outros ficaram escondidos lá no meio do mato até que terminasse a guerra. Então tem de tudo. Aerovisão – É verdade que o Tenente-Coronel Nero Moura estava preocupado com um “excesso de coragem” dos pilotos brasileiros? John Buyers - Estava. Às vezes estavam exagerando um pouco. Mas isso é coisa da mocidade. Você tem um aviãozão cheio de metralhadoras e você não fazer nada contra o inimigo? Eles metiam mesmo pra frente para ganhar a guerra e ganhar experiência para o Brasil. Aerovisão – O senhor lembra das suas missões? John Buyers - Lembro. A gente não esquece não. Não sei como eu posso
“Nós estávamos orgulhosos daquilo que nós estávamos fazendo. E nós sabíamos que nós tínhamos que voltar para o Brasil, e de cabeça erguida. Não tivemos nenhum que fizesse uma missão e depois dissesse ‘não vou mais’. Isso não existiu. Ele ia a primeira, e queria a segunda, a terceira, a quarta”
Aerovisão Jan/Fev/Mar/2014
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