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AEROVISÃO Nº 239 Jan/Fev/Mar - 2014

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Aerovisão – O 1° Grupo de Aviação de Caça combateu na Itália de outubro de 1944 até maio de 1945, no fim da guerra. Os pilotos que chegaram no início ficaram até o final, sem substituição. Tivemos pilotos com 80, 90 e até 100 missões. Ninguém pediu para ir embora? John Buyers - Não. Isso não existiu. Não existiu. Nós estávamos orgulhosos daquilo que nós estávamos fazendo. E nós sabíamos que nós tínhamos que voltar para o Brasil, e de cabeça erguida. Não tivemos nenhum que

Aeronave P-47 Thunderbolt utilizada pela Força Aérea Brasileira na campanha na Itália. Robusto e equipado com oito metralhadoras, o avião ficou conhecido como “O Trator Voador”

fizesse uma missão e depois dissesse ‘não vou mais’. Isso não existiu. Ele ia a primeira, e queria a segunda, a terceira, a quarta (risos). Aerovisão – Quando o senhor estava em uma missão, o que passava pela cabeça? John Buyers - Cai fora pra não ser abatido!!! (risos). Aerovisão – Que tipo de alvo o senhor atacou? John Buyers - Tudo o que você pode imaginar. Eu peguei vários. O inimigo precisava de munição. Então a gente procurava descobrir onde era a munição dele e ataca aquele negócio lá. Eles ficavam sem meios de lutar. O alemão era bom mesmo, também. Mas houve um período em que eles estavam ficando sem munição. Então eles escondiam e nós descobrimos onde é que era. E a gente ia lá, metralhava e bum, explodia aquela porcaria. Eles que se danassem! Também tem outra coisa: eles pegaram tudo que tinham e botavam ali às vezes sem um treinamento muito bom. Então nós tivemos essa vantagem. Nós tivemos um preparo muito bom. Aerovisão – O senhor pensava sobre o inimigo? Sobre aqueles homens que combatiam pelo outro lado? John Buyers - Aquilo é uma guerra. Ele estava lá para matar a gente e a gente estava lá para matar eles. É isso aí, né? Quanto mais inimigos você pudesse acabar... Eles não tinham condições de lutar com a gente. Aerovisão – Por outro lado, como era quando um brasileiro não voltava de uma missão? John Buyers - O que é que a podia fazer? O que é que a gente podia fazer? (silêncio) Nós chorávamos. Guerra é guerra. E a gente procurava não fazer o mesmo erro que ele fez. Às vezes era um erro que ele fez. A gente não fazia a mesma missão que ele fez, aquele ata-

“Medo? (risos) O cabelo ficava arrepiado, mas a gente ia mesmo. Ninguém ia voltar sem fazer a missão que tinha saído para fazer”

que que ele fez. Mas nós tínhamos uma tropa muito boa. E nós éramos muito jovens e nós inventávamos ataques (risos). Nós atacávamos dessa altura do chão (eleva o braço na altura do ombro) e ele não tinha mais como procurar. “Onde é que tá esse filho da p....?” E quando nós passávamos a gente subia. Um problema para o inimigo! Aerovisão – E como foi a alegria quando o Tenente Danilo Moura voltou depois de fugir durante 30 dias depois de ter sido abatido? John Buyers - Ah! Ninguém dormiu naquela noite. Foi uma brincadeira tão grande. A gente se abraçava, rolava no chão (risos) (silêncio) (lágrimas). É isso a vida, né? A vida é assim. Mas você não sabe a história toda do Danilo. O Nero não tinha escrito para a família dele dizendo que o Danilo tinha sido abatido. Ele disse: “O que é que eu vou dizer? É meu irmão mais moço. E os meus pais vão ficar muito tristes”. Aí então eu disse: “Ô Nero, espera mais um pouquinho. Que diferença vai fazer? Se você escrever hoje, ou amanhã, ou depois de amanhã. Não Aerovisão Jan/Fev/Mar/2014

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