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AEROVISÃO Nº 239 Jan/Fev/Mar - 2014

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por um problema qualquer no motor ou falta do mecânico. Não existiu. Eles sabiam e eles queriam que nós fossemos e voltássemos. Era um encaixamento ali que eu não sei explicar, mas nós dependíamos dos mecânicos e os mecânicos dependiam de nós. Aerovisão – Depois de cumprir as missões, como era dormir no fim do dia? John Buyers -Todo mundo dormia com sossego. Dormia com sossego e com o orgulho do que tinha feito

Aerovisão – Além de dormir, o que dava para fazer para tentar relaxar? John Buyers - Escrever cartas para casa. Eu escrevia pro meu pai, porque ele estava preocupado. Eu procurava mandar uma carta de dois em dois dias porque chegava lá e ele sabia que tava tudo bem. E assim eram os outros também. Aerovisão – O senhor contava tudo nas cartas ou procurava só deixar o seu pai mais tranquilo? John Buyers - Não contava que levei

SGT REZENDE / Agência Força Aérea

dizer para você. Eu tive sorte. Eu levei muito tiro, mas nenhum deles foi fatal. Não tive que saltar de paraquedas. E eu tenho muito orgulho do primeiro grupo de caça. Porque eles fizeram bonito. Ninguém pensava que o Brasil ia fazer o que fizemos. Mas eu procurava orientar também os pilotos brasileiros para eles não se exporem demais. Eu conversei com os pilotos americanos que estavam lá e eles me explicaram coisas, como fazia, como era e tal, e passava isso para o pessoal brasileiro. Aerovisão – O 1° Grupo de Caça voava o P-47, o “trator voador”. Dava confiança voar aquela aeronave em combate? John Buyers - Ah, dava! Por que não? Ele era um muito maneável. Foi um avião extraordinário. E nós tivemos muita sorte. Tem isso também. Eu acho que dos pilotos eu sou o último, não tem mais nenhum brasileiro. Eu sou o viúvo (risos). Aerovisão – Mais que colegas, amigos de muitos anos? John Buyers - Ah sim. Isso você não consegue tirar da cabeça nem do coração. Aerovisão – Nero Moura foi um amigo em especial? John Buyers - Sim senhor. Um grande amigo e não esqueço nunca do Nero Moura. Eu, às vezes.... Não tem mais nenhum deles vivo. Todos já morreram. Eu sou o último. (choro) Eu perdi muitos amigos. Mas eu ganhei muitos. Aerovisão – Olhando essa maquete atrás do senhor a gente lembra que o Grupo de Caça precisou enfrentou chuva, lama, neve... Qual era o segredo para, mesmo assim, conseguir cumprir tantas missões? John Buyers - Eram os mecânicos. Os mecânicos foram muitos bons. Foram muitos bons mesmo. Eu não me lembro de nenhuma missão que tivesse voltado

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Aerovisão

naquele dia. É uma coisa que a gente não sabe explicar (sorriso). Aerovisão – Havia medo, também? John Buyers - Medo? (risos) O cabelo ficava arrepiado, mas a gente ia mesmo. Ninguém ia voltar sem fazer a missão que tinha saído para fazer. Agora, tem uma vantagem, que nossos pilotos eram de primeira. E nós tivemos um treinamento muito bom.

tiro aqui, levei tiro ali. Escrevia uma carta de saudades. Muitos arranjaram namoradas lá, também, né? Aerovisão – E quem fazia mais sucesso, o brasileiro ou o americano? John Buyers - Eu não sei dizer a você porque eu não fui procurar isso. Cada um fizesse como quisesse! É coisa lá deles mesmo. Eu tinha uma namorada aqui e eu escrevia carta para ela.


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