Para quem pensa, decide e vive o agribusiness

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Para quem pensa, decide e vive o agribusiness

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Impulsionadas pelo agro, as caminhonetes lideram uma onda de lançamentos conectados e sustentáveis
Subprodutos da cadeia agrícola viram cosméticos e até acabamento de carros
O NOVO REI DA CARNE O BRASIL ULTRAPASSA OS EUA E ASSUME A LIDERANÇA MUNDIAL NA PRODUÇÃO DE PROTEÍNA BOVINA
BOLA NA REDE COMO A COPA DO MUNDO PODE AJUDAR PRODUTORES BRASILEIROS A AVANÇAR EM MERCADOS ESTRATÉGICOS
A ROTA DO BAIXO CARBONO O PROGRAMA RENOVABIO
ENDURECE REGRAS COM METAS MAIS OUSADAS
CAMPO INTELIGENTE
De sensores e satélites a robôs e drones, a IA se torna ferramenta indispensável nas lavouras




Editorial

O agronegócio brasileiro se tornou, nas últimas décadas, um dos pilares da economia nacional. O campo sustenta superávits comerciais, abastece mercados internacionais, gera empregos e impulsiona a inovação tecnológica. No entanto, há um fator que insiste em frear esse avanço: a precariedade da infraestrutura.
A cada safra recorde, o mesmo paradoxo se repete. Produzimos mais, com maior eficiência, mas escoamos mal. O resultado é conhecido: fretes caros, atrasos nas entregas, margens comprimidas e, no final, perda de competitividade. Em um mercado global sensível a preços e prazos, a qualidade da infraestrutura, portanto, é cada vez mais uma questão de sobrevivência.
Os problemas começam logo na saída da fazenda. A malha rodoviária, que ainda transporta a maior parte da produção, funciona no limite e com qualidade irregular. Em períodos de pico, filas de caminhões se acumulam nos corredores de exportação, elevando custos e gerando incertezas. Para um país continental como o nosso, depender tanto do transporte rodoviário é ineficiente. Temos baixa densidade ferroviária e aproveitamos mal nossos rios – justamente as alternativas mais adequadas para transportar grãos em larga escala.
Nos portos, embora modernizações recentes tenham melhorado indicadores de produtividade, persistem acessos terrestres deficientes e capacidade insuficiente de armazenagem. Cada dia de navio parado representa custo adicional, que, no fim das contas, recai sobre o produtor. Mas os gargalos logísticos provocam danos que vão além do econômico. Eles aumentam as emissões de poluentes, ampliam o desperdício de alimentos e comprometem a agenda de sustentabilidade que o País busca promover no exterior.
Como resolver o problema? Não há solução imediata, mas existem algumas saídas possíveis. O Brasil precisa acelerar concessões, ampliar parcerias público-privadas e garantir previsibilidade regulatória para atrair investimentos.
Eliminar os gargalos da infraestrutura é, acima de tudo, reconhecer que uma potência agrícola não pode conviver com estradas esburacadas, ferrovias incompletas e portos engarrafados. É entender que cada saca de grão que não chega, cada navio que espera, cada real perdido é um pedaço do nosso futuro que fica pelo caminho.
Amauri Segalla Diretor Editorial
plantproject.com.br
Diretor Editorial
Amauri Segalla amauri.segalla@datagro.com
Diretor
Luiz Felipe Nastari
Comercial
Carlos Nunes carlos.nunes@plantproject.com.br
Sérgio Siqueira sergio.siqueira@plantproject.com.br João Carlos Fernandes joao.fernandes@plantproject.com.br
Tida Cunha tida.cunha@plantproject.com.br
Arte
Thaís Rodrigues (Direção de Arte) Andrea Vianna (in memorian – Projeto Gráfico)
Colaboradores
Texto: André Sollitto, Lucas Bresser, Mário Sérgio Venditti, Romualdo Venâncio e Ronaldo Luiz
Projetos
Claudia Marques Molina
Revisão
Rosi Melo
Eventos
Luiz Felipe Nastari
Administração e Finanças
Cláudia Nastari
Sérgio Nunes publicidade@plantproject.com assinaturas@plantproject.com
Impressão e acabamento: Piffer Print
Crédito foto de Capa: ShutterStock

G GLOBAL pág. 7 A AGRIBUSINESS g pág. 15 F FRONTEIRA r pág. 105 W WORLD FAIR pág. 89 S STARTAGRO pág. 95 M MARKETS pág. 114 rA ARTE pág. 83
EDITORA UNIVERSO AGRO LTDA. Calçada das Magnólias, 56 - Centro Comercial Alphaville – Barueri – SP CEP 06453-032 - Telefone: +55 11 4133 3944


pós ser apresentada para o público durante o Salão do Automóvel 2025, a nova Ram Dakota chega em breve às concessionárias da marca no Brasil. Se antes a marca tinha a Rampage no segmento de picapes intermediárias e em seguida vinham as picapes grandes, com 1500, 2500 e 3500, agora a gama se torna completa com a primeira picape média da Ram desde a independência, em 2009.
A Dakota é oferecida em duas versões: Warlock, com visual e características mais voltadas para o off-road, como pneus de uso misto nas medidas 265/65 com rodas de liga leve de 17” e acabamentos escurecidos, além de ser a única equipada com Rambar, o santantônio exclusivo da Ram; e Laramie, que traz pneus 265/60 com rodas de liga leve diamantadas de 18”, os cromados que já são tradicionais em uma Ram e uma barra frontal de LED exclusiva que une os faróis. Sob o capô de ambas as versões está o motor 2.2 turbodiesel, de 200 cv de potência e 450 Nm (45,9 kgfm) de torque, que atua em conjunto com um câmbio automático de oito marchas. Com esse conjunto, a nova Ram Dakota é capaz de rebocar até 3.500 kg e carregar 1.020 kg, com a caçamba comportando 1.210 litros. O sistema de tração é 4x4 Auto, que conecta automaticamente o eixo dianteiro de acordo com as condições do piso, além dos modos 4x4 com reduzida e 4x2. A Dakota possui ainda bloqueio mecânico do diferencial traseiro e quatro modos de condução: Normal, Sport, Snow (neve) e Sand/Mud (areia/lama). Destaque também para a alavanca de câmbio do tipo joystick e para o freio de estacionamento eletrônico, equipamentos também presentes nas duas versões.
O requinte dá o tom no interior da Ram Dakota, com painéis de porta e de instrumentos com revestimento premium e materiais macios ao toque, bancos de couro na cor preta na Warlock com o logo da versão
bordado nos encostos dianteiros e marrom na Laramie. As colunas internas e o revestimento do teto na versão Warlock também são pretos, enquanto na Laramie esses elementos são claros. Ambas as versões possuem comandos elétricos dos bancos dianteiros, incluindo ajuste para lombar para o motorista.
Independentemente da versão, a nova Dakota inclui, entre outros itens de série, quadro de instrumentos digital e colorido de 7” e uma central multimídia de 12,3” com Apple CarPlay e Android Auto sem fio, navegação embarcada, páginas off-road e assistente virtual. Além disso, há ar-condicionado digital de duas zonas com saídas de ar para os bancos traseiros; sistema de iluminação totalmente de LED, com faróis dianteiros com dois projetores e luzes de neblina com função cornering, além das lanternas; carregador de smartphones por indução com refrigeração integrada; e, um sistema de câmeras 540°.
No tema segurança, a Dakota é equipada com seis airbags, freios a disco ventilados nas quatro rodas e controle de estabilidade com assistente de rampa e de descida. Para uma condução ainda mais segura, a picape possui uma lista completa de recursos de auxílio à condução, como sistema de monitoramento de ponto cego; sistema de manutenção na faixa de rodagem; piloto automático adaptativo; e, alerta de colisão frontal com frenagem autônoma de emergência e detecção de pedestres e ciclistas. A versão Laramie agrega ainda alerta de tráfego cruzado de veículos em manobras de ré.
As cores disponíveis para as duas versões são: Branco Glacier (perolizada), Prata Knox e Cinza Graphite (metálica), e Preto Absolut (sólida), enquanto o tom Terra Sunrise (metálica) é exclusivo da Laramie.
A nova Ram Dakota possui garantia de cinco anos sem limite de quilometragem, desde que seguidas as condições previstas no manual do proprietário.
Na defensiva O acordo União Europeia–Mercosul avança depois de 26 anos, mas enfrenta um desafio: a pressão de agricultores franceses
O lado cosmopolita do agro

GLOBAL

O

FRANÇA
Protestos expõem a resistência ao acordo União Europeia-Mercosul, que foi assinado após 26 anos de negociações, mas já enfrenta entraves políticos e jurídicos
Em meados de fevereiro, agricultores invadiram as ruas de Paris, na França. Em cima de tratores, furaram bloqueios policiais e cruzaram alguns dos cartões-postais da capital francesa, como o Arco do Triunfo e a Champs-Élysées. Levavam faixas com frases como “Não há país sem agricultores” e “Sem agricultores não há comida”. O alvo dos manifestantes era o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, visto por eles como uma ameaça à segurança alimentar da França e à competitividade dos produtores locais. Apesar da pressão, no entanto, a diplomacia falou mais alto, e os dois blocos chegaram a um consenso. As negociações começaram em 1999, há 26 anos. Agora, o
tratado de livre-comércio deverá integrar um mercado de 720 milhões de pessoas, com um PIB (Produto Interno Bruto) de US$ 22 trilhões. Os europeus vão eliminar progressivamente tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul em um período de até dez anos. Em contrapartida, o Mercosul vai eliminar tarifas

sobre 91% das exportações em um prazo mais longo, de até 15 anos. Nesse desenho, o Brasil tende a ser o principal beneficiado: segundo levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o impacto positivo no PIB será de 0,46% (US$ 9,3 bilhões) até 2040. A Europa também se beneficia, mas de forma mais tímida, com alta estimada de 0,06%.
Fazendeiros franceses e produtores rurais de outros países, como Bélgica, Itália e Polônia, afirmam que o acordo é prejudicial. O argumento é que o livre comércio inundaria os
mercados com produtos importados mais baratos, produzidos sem as mesmas regras exigidas dos europeus. Em entrevista à televisão francesa, a ministra da Agricultura, Annie Genevard, disse que a revolta dos produtores é “profunda e justificada”. Seu gabinete anunciou um pacote de 300 milhões de euros para apoiar produtores de cereais, viticultores e pecuaristas, mas a medida foi insuficiente para conter a insatisfação.
Os protestos, no entanto, já começam a produzir efeitos sobre o ritmo político das
negociações. O Parlamento Europeu aprovou uma revisão jurídica, congelando o avanço do acordo. Foram apenas dez votos de diferença, mas o placar apertado bastou para abrir uma frente de entraves. Uma avaliação do Tribunal de Justiça da UE pode levar até dois anos, e a pressão dos agricultores foi determinante para desacelerar o processo. Com a Europa mergulhada na crise com o presidente Donald Trump e sua vontade de anexar a Groenlândia, o acordo de livre-comércio pode acabar em segundo plano.
ESTADOS UNIDOS
A nova pirâmide alimentar divulgada pelas autoridades norte-americanas redesenha de forma significativa as recomendações nutricionais dos Estados Unidos. No centro da mudança está a priorização das proteínas, especialmente as de origem animal, mas também as provenientes de fontes vegetais. Frutas e verduras seguem incentivadas, assim como o consumo de laticínios, inclusive integrais.
A reorientação, no entanto, reacende um debate ambiental. A produção convencional de carne bovina e laticínios nos Estados Unidos gera anualmente mais de 40 milhões de toneladas métricas de esterco, uma importante fonte de metano. Embora a proteína animal tenha benefícios comprovados para a saúde, sobretudo quando consu-
que o aumento da demanda pode ampliar as emissões.
Historicamente, políticas climáticas concentraram-se na redução do carbono, deixando o metano em segundo plano. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas afirma que será necessário cortar as emissões desse gás em pelo menos um terço até 2030 para manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Relatório recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente indica que os Estados Unidos estão atrasados no cumprimento do Compromisso Global de Metano, lançado em 2021 com protagonismo do próprio país. A nova orientação alimentar pode tornar esse desafio ainda mais complexo.

FRUTAS E VERDURAS
AO LONGO DO DIA
Variedade é a palavra-chave. Podem ser consumidas cruas ou cozidas. Sucos 100% fruta são permitidos, mas com moderação por causa do valor calórico.
PROTEÍNA NO CENTRO
DO PRATO
Prioridade para alimentos proteicos em todas as refeições – ovos, aves, frutos do mar e carne vermelha, além
de leguminosas e outras fontes vegetais.
LATICÍNIOS LIBERADOS,
INCLUSIVE INTEGRAIS
Recomendação inclui produtos integrais, sem adição de açúcares.
GORDURAS SAUDÁVEIS
NA ROTINA
Incorporação de alimentos integrais como carnes, ovos, peixes ricos em ômega 3, nozes, sementes, azeitonas e abacate.
GRÃOS INTEGRAIS
COMO BASE
Preferência para versões menos processadas.
MENOS ULTRAPROCESSADOS E AÇÚCARES ADICIONADOS
Redução de alimentos superprocessados, carboidratos refinados e açúcar extra.
ÁLCOOL SOB CONTROLE
Consumo deve ser limitado.


REINO UNIDO
Desde o fim dos anos 1970, a população de cervos cresce na Grã-Bretanha, mas, no pós-pandemia, a alta acelerou de forma dramática. Estimativas da Comissão Florestal e do Departamento de Alimentação, Meio Ambiente e Assuntos Rurais indicam que o total pode chegar a 2 milhões, um salto expressivo em relação aos cerca de 450 mil de 50 anos atrás. O avanço já se traduz em problemas concretos: mais acidentes nas estradas, prejuízos a propriedades e

danos a plantações. O desafio, agora, é decidir como conter essa expansão. Há especialistas que defendem a reintrodução de lobos e outros predadores naturais, mas a convivência desses animais com áreas de presença humana é um obstáculo evidente. Estudos acadêmicos, por sua vez, apontam a necessidade de controle por caça. Nesse cenário, o consumo de carne de veado aparece como uma alternativa potencialmente sustentável.
Antes do retorno do Talibã ao poder, em 2021, a renda da papoula foi, por anos, uma das principais engrenagens da economia afegã. Essa base desabou: a área cultivada caiu para 10,2 mil hectares em 2025, um dos níveis mais baixos já registrados no país, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Em 2022, por exemplo, o cultivo ultrapassava 232 mil hectares. Para a ONU, essa redução traz um custo social. Um estudo
da organização indica que 85% das famílias nas províncias do norte, mais sujeitas às ações do Talibã, não conseguem substituir a renda perdida com a papoula. A queda enfraquece o poder de compra no campo, desacelera a economia local e aumenta a vulnerabilidade à pobreza e à insegurança alimentar. Diante desse cenário, o governo precisa oferecer aos agricultores alternativas legais – e rentáveispara que possam se reerguer.

Com presença nacional, foco na visão de longo prazo e um portfólio que vai além do crédito rural, o banco aposta em soluções financeiras integradas para apoiar o setor em todas as fases do processo produtivo
Oagronegócio brasileiro chega a 2026 com os diferentes elos de sua cadeia recolocando no centro da estratégia os fundamentos da boa gestão. Nesse cenário, eficiência financeira, proteção contra a volatilidade e planejamento de longo prazo voltam a ser prioridades. É essa premissa que orienta a atuação do Santander no campo. Presente de forma contínua no setor há mais de três décadas, o banco trata o agronegócio como parte vital de sua operação no país.
A carteira do Santander no agro soma 100 bilhões de reais, apoiada por uma oferta que vai além do crédito rural tradicional, reunindo câmbio e comércio exterior, mercado de capitais, gestão de caixa e soluções financeiras integradas. Caroline Perestrelo, Sr Head de Agro Corporate do banco, resume a filosofia que sustenta esse posicionamento: “A proposta é acompanhar os protagonistas do campo em todas as fases do ciclo, inclusive nos períodos de margens mais comprimidas”. Para a executiva, a confiança de longo prazo também se ancora na crescente demanda global. “Teremos 300 milhões de habitantes a mais em 5 anos”, diz Perestrelo. “Ou seja, 300 milhões é um país maior do que nosso Brasil a ser alimentado daqui a 5 anos.”
Para apoiar essa atuação, o banco investiu em um modelo de atendimento regional. Há equipes dedicadas exclusivamente ao agronegócio distribuídas por todo o país, com profissionais especializados nas cadeias produtivas e nas culturas predominantes de cada região. A presença local permite decisões mais rápidas e aderentes à realidade do campo, em um setor fortemente expos-
to a variáveis como clima, logística e dinâmica de oferta e demanda. Considerando todo o ecossistema envolvido – crédito, produtos, banco de investimento, mercado de capitais, consórcio, câmbio, private banking e sustentabilidade –, o Santander mobiliza cerca de 500 profissionais dedicados ao agro brasileiro.
O crédito é um dos pilares desse modelo. O banco financia o capital de giro e os investimentos no campo e também apoia operações de industrialização e exportação. Perestrelo resume essa visão com uma imagem típica do setor: “No agro, o crédito começa dentro da porteira e segue até a indústria e a exportação”. No dia a dia, a conversa com o cliente se concentra em decisões práticas – como o custo de carregamento de estoques, o melhor momento de venda e os efeitos de adiar receitas –, com foco na preservação de caixa e na redução de riscos ao longo do ciclo.
Essa atuação é reforçada pela liderança do Santander nos mercados de câmbio e derivativos, áreas sensíveis para o agronegócio exportador. Em 2025, o banco foi reconhecido pelo 11º ano consecutivo como o maior banco de câmbio do Brasil no ranking do Banco Central. No mesmo ano, foi eleito o melhor banco para câmbio da região pela Euromoney e recebeu o prêmio de melhor casa de derivativos da América Latina pelo Global Derivatives Awards – são reconhecimentos que reforçam sua capacidade de oferecer soluções avançadas de hedge e proteção financeira para empresas do agro.
Entre as frentes estratégicas, o setor sucroenergético ocupa posição central ao combinar agronegó-

cio e sustentabilidade. O banco financia e assessora projetos de açúcar, etanol, bioenergia e biodiesel e vem ampliando sua atuação no etanol de milho, uma frente em rápida expansão que contribui para diversificar a matriz de biocombustíveis do país. Também apoia novas rotas tecnológicas, como o biogás.
Outro destaque é o protagonismo do Santander no mercado de CBios. Desde o início do programa, o banco participou de sua estruturação e hoje figura entre os líderes desse mercado, com participação de 50%. O Santander atua nas duas pontas – com produtores de combustíveis renováveis, que emitem os créditos, e com distribuidoras, que os adquirem –, contribuindo para dar escala e regularidade às negociações.
O portfólio inclui ainda alternativas de financiamento de longo prazo. O Santander participa de emissões de debêntures incentivadas voltadas a projetos de infraestrutura e biocombustíveis, ajudando empresas a captar recursos com prazos mais alinhados ao ciclo de investimento. Em paralelo, estrutura operações direcionadas a inves-
Caroline Perestrelo, Sr Head de Agro Corporate do Santander: “Nosso papel é gerar soluções para transformar planos em resultados”
timentos sustentáveis e apoia projetos financeiros ligados à transição energética.
Outra frente que vem ganhando espaço no segmento agro do banco é o consórcio. Desenvolvido para suprir a escassez de linhas subsidiadas, o produto permite financiar desde máquinas e equipamentos até projetos de maior porte, como aquisição de áreas, construções, reformas e ampliação industrial, com prazos que podem chegar a 20 anos. Apenas na Rede Agro, a produção bruta de consórcios estruturados alcançou 1,527 bilhão de reais, evidenciando a relevância da solução como instrumento de planejamento financeiro para o setor.
No banco de investimento, o Santander se posiciona como um dos principais assessores em operações de fusões e aquisições e captações. Mesmo com a janela de IPOs restrita, o agronegócio segue ativo em movimentos estratégicos, e o banco se posiciona como parceiro nesses processos. O apoio se estende à esfera patrimonial dos empresários rurais, por meio do private banking, com foco em governança e sucessão familiar – um tema especialmente sensível em um setor majoritariamente formado por empresas familiares.
Perestrelo lembra que a atuação se completa com inteligência de mercado. O Santander mantém equipes dedicadas de research em agronegócio e macroeconomia, com destaque para os analistas Guilherme Palhares e Laura Hirata, que acompanham tanto empresas listadas quanto grupos de capital fechado. Os relatórios periódicos combinam cenário global e leitura de cadeias e culturas, cobrindo temas como biocombustíveis, cadeia de insumos agrícolas, proteínas e grãos.
No setor sucroenergético, o banco reúne há mais de uma década uma série de indicadores financeiros e operacionais, gerando benchmarks que apoiam os clientes na comparação de desempenho e na tomada de decisões estratégicas. “No fim do dia, nosso papel é conhecer e gerar soluções para transformar planos em resultados”, conclui a head de Agro Corporate do banco.

Segundo maior produtor de árvores de Natal da Europa, atrás apenas da Alemanha, e maior exportador mundial, a Dinamarca está mudando a forma de cultivar pinheiros natalinos ao incorporar tecnologia para otimizar a produção. Como as árvores costumam levar cerca de dez anos para atingir o tamanho ideal, o ciclo longo torna o acompanhamento da saúde das plantações uma etapa crucial para os produtores. Até pouco tempo atrás, essa tarefa dependia de funcionários percorrendo os talhões a pé. Agora, drones começam a assumir esse trabalho.
Equipados com sensores e conectados a softwares que usam inteligência artificial, eles ampliam a precisão do monitoramento e reduzem a margem de erro. De acordo com a empresa sérvia Agremo, que oferece esse tipo de serviço, o sistema consegue mapear uma plantação de 100 hectares em cerca de 30 minutos e contar as árvores em 24 horas, com precisão de até 98%. Cada exemplar recebe uma identificação única, o que facilita ainda mais o acompanhamento ao longo do tempo.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Notre Dame, em Indiana, e publicado na revista Science indica que o uso indiscriminado de pesticidas pode afetar de forma severa a vida de peixes em áreas próximas a fazendas. Segundo a pesquisa, a exposição compromete o ciclo natural de desenvolvimento, reduz a expectativa de vida e impõe efeitos cumulativos ao longo do tempo. Hoje, as normas elaboradas por órgãos de vigilância sanitária tendem a se concentrar na exposição de curto prazo a

altas doses de pesticidas e outros produtos químicos. O trabalho, porém, mirou justamente o contrário: a exposição prolongada. E os resultados chamam atenção. Os pesquisadores observaram sinais de envelhecimento em concentrações abaixo dos padrões atuais de segurança para água doce nos Estados Unidos, sugerindo que os impactos dos defensivos podem ocorrer em níveis baixos quando o contato é contínuo. Diante do alerta, caberá agora aos reguladores buscar formas de enfrentar o problema.
A startup norueguesa Saga Robotics desenvolveu um robô apelidado de Thorvald, capaz de usar raios UV (ultravioleta) para tratar doenças em plantações de morango e outras frutas. O equipamento também opera com câmeras que ajudam a prever o rendimento e a identificar problemas nas plantas. É uma pequena revolução no manejo de culturas mais delicadas. Autônomos, os robôs dispensam operadores humanos – um único profissional pode
supervisionar uma frota inteira – e ainda trabalham à noite, quando a luz UV tende a ser mais eficaz. Por serem mais leves, também compactam menos o solo. Especialistas observam, porém, que União Europeia, Reino Unido e Estados Unidos, onde a tecnologia já é utilizada, precisam discutir sua distribuição: a inovação não pode ficar restrita a grandes companhias privadas, e deve ser acessível também a cooperativas e associações.
A s picapes avançam
Com o agro puxando a demanda, as montadoras aceleram lançamentos de carros preparados para encarar a lida no campo e no asfalto
Empresas e líderes que fazem diferença


Empresas e líderes que fazem diferença

SÍMBOLOS DE FORÇA NO AGRONEGÓCIO, ELAS JÁ RESPONDEM POR QUASE 20% DO MERCADO AUTOMOTIVO BRASILEIRO. ATENTAS A ESSA VIRADA, AS MONTADORAS ACELERAM LANÇAMENTOS COM MAIS TECNOLOGIA E APELO SUSTENTÁVEL
Por André Sollitto
Reportagem de Capa
N ova R anger XLT : com longo histórico no mercado brasileiro, o modelo se tornou ao longo do tempo referência em resistência e confiabilidade

Assim que a caminhonete entra na terra, é necessário ligar a tração nas quatro rodas. Os buracos na via indicam que, em alguns momentos, os pneus podem perder o contato com o solo. Mais adiante, é preciso passar por uma parede inclinada em quase 30 graus, suficientes para que o solo fique assustadoramente perto da janela do motorista. Outro trecho está alagado, e a picape mergulha com água na altura da porta. No fim do trajeto, uma subida tão íngreme que, lá do alto, é impossível ver o que está diante do capô. É preciso recorrer às câmeras do veículo para ter certeza sobre o terreno adiante.
O cenário é uma pista de testes feita para avaliar as capacidades de novos lançamentos, mas poderia fazer parte do dia a dia de qualquer
produtor rural. Hoje, quem visita as principais feiras do agronegócio espalhadas pelo País percebe uma importante mudança. Em meio aos grandes maquinários agrícolas, é comum encontrar novos estandes de fabricantes de automóveis, com obstáculos montados para comprovar as capacidades de seus veículos. E também para mostrar o conforto a bordo. Se antes as picapes eram escolhidas puramente por sua funcionalidade, agora viraram objeto de desejo no campo e fora dele. E as montadoras estão atentas a essas demandas crescentes.
Nem sempre foi assim. Por muito tempo, as picapes não tinham tanto prestígio no mercado automotivo. Eram carros utilitários, sem grandes pretensões. O segmento era tímido.
Ford T remor: linha voltada para quem busca aventuras off-road também aposta no conforto e em novos recursos tecnológicos

Havia os modelos compactos, voltados para o trabalho diário no campo ou na cidade, como a Strada, da Fiat; a Montana, da Chevrolet; e a Saveiro, da Volkswagen. Quem queria mais robustez podia optar pelos modelos médios, como a popular Hilux, da Toyota; a S10, da Chevrolet; e a Ranger, da Ford, esta última já mostrando sinais da durabilidade que a consagraria no mercado brasileiro.
Com o tempo, outros rivais apareceram. É o caso da L200 Triton, da Mitsubishi; a Amarok, da Volks; e a Frontier, da Nissan. Mas ainda eram veículos mais rústicos, sem algumas das funcionalidades e confortos oferecidos em carros de passeio. Ainda assim, cativaram quem trabalhava no campo pela robustez incomparável. A Ford,
especialmente com a Ranger, conquistou uma reputação sólida nesse período, tornando-se referência em resistência e confiabilidade.
Hoje, a situação é completamente diferente. O segmento das picapes está mais aquecido do que nunca, a começar pela quantidade de ofertas disponíveis. Há as compactas e as médias, já conhecidas pelo consumidor brasileiro. Mas há um segmento mais recente, o das intermediárias, criado pela Toro, da Fiat, e que hoje conta com outros modelos, como a Rampage, da Ram, e a Maverick, da Ford, que trouxe inovação ao unir praticidade urbana e capacidade off-road.
O mercado ganhou também um reforço no topo, com as caminhonetes grandes, ou full size, como são chamadas nos Estados Unidos.
Por alguns anos, a Ram (que se separou da Dodge em 2009) dominava o segmento, com suas 1500, 2500 e 3500. Mas a GM trouxe a Silverado e a Ford chegou com a F-150, o modelo mais vendido nos Estados Unidos em toda a história. São veículos enormes, com mais de 6 metros de comprimento, e preços na casa de meio milhão de reais. São capazes de encarar a lida no campo, mas tornaram-se também um indicativo de status e poder.
Na lista com os 50 modelos mais vendidos no ano passado, realizada pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), há oito picapes, duas delas, Strada e Saveiro, no top 10. No total, as caminhonetes representam impressionantes 19% de
Nova H ilux: bem estabelecido no B rasil, o carro da Toyota tem nova versão inspirada na Tacoma, caminhonete da marca japonesa vendida nos E stados U nidos
todo o mercado automotivo brasileiro – e esse número não para de crescer.
Prova dessa transformação é a quantidade de lançamentos que devem chegar ao mercado nos próximos meses. Alguns já haviam sido antecipados no retorno do Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, realizado no final de 2025, após um hiato de oito anos. Outros começam a despontar como grandes promessas do calendário das montadoras para 2026.
Uma das novidades é a chegada da Dakota, picape média da norte-americana Ram. Ela vem para preencher uma lacuna no portfólio da empresa, que tinha versões grandes e a intermediária Rampage. “Sempre quisemos ter uma picape média no portfólio, não apenas porque o

setor é importante em volume e rentabilidade, mas porque é um consumidor muito fiel”, afirma Juliano Machado, head da marca Ram na América Latina. Ao resgatar o nome de um antigo modelo, Dodge Dakota – do tempo em que Dodge e Ram eram uma única marca –, a empresa espera cativar o público de um setor dominado pela Toyota Hilux.
Mas há muitas outras apostas das marcas para capturar o potencial do mercado agro. A Volkswagen já anunciou a chegada da nova geração da Amarok, baseada na Maxus T90, da chinesa SAIC, e a Hilux também deve chegar em nova versão, inspirada na Tacoma, caminhonete da marca japonesa vendida nos Estados Unidos. A Renault apresentou a Niagara no Salão do
Dakota L aramie, picape média fabricada pela norte-americana R am : equipada com motor turbodiesel e câmbio automático de oito marchas
Automóvel, e a Kia mostrou a Tasman, dois modelos que foram confirmados para o mercado brasileiro ainda em 2026. A Toro, da Fiat, líder no segmento das caminhonetes intermediárias, deve ganhar uma versão híbrida leve (em que há um pequeno motor elétrico que auxilia na condução, mas não move o carro sozinho, reduzindo as emissões e melhorando o consumo de combustível). O sistema já equipa outros carros do grupo Stellantis.
Isso sem falar nas montadoras chinesas, que devem avançar com força no setor das caminhonetes. O começo foi pouco auspicioso. A chegada da híbrida Shark, da BYD, foi recebida com pouco entusiasmo pelo mercado, e o modelo acabou encalhando. Foram apenas 921 unidades


R anger XLS : boa capacidade de carga combinada com interior moderno e amplo pacote de itens de segurança
emplacadas entre janeiro e outubro de 2025, segundo dados da Fenabrave. Mas a GWM colocou no mercado a Poer P30, com motorização a diesel, que é hoje montada na fábrica da empresa em Iracemápolis, no interior de São Paulo. A Foton, mais conhecida por vender caminhões, trouxe duas picapes a diesel, Tunland, V7 e V9, ambas com motor a diesel e um sistema híbrido leve. A Chery, por meio da sócia Caoa, deve trazer a média Himla. E a própria BYD já anunciou que vai oferecer uma caminhonete baseada no Song Pro, e quer oferecer também uma versão compacta para rivalizar com Strada e Saveiro.
O interesse de fabricantes pelo mercado de caminhonetes e, consequentemente, do cliente do agronegócio não é à toa. “Aproveitando a
força do agro, as montadoras entenderam que esse grupo compra a despeito do momento econômico, de taxas elevadas de juros, da restrição de crédito e da alta na inadimplência, pois estão comprando ferramentas de trabalho”, afirma o consultor automotivo Milad Kalume Neto, da K.Lume. “Além disso, as empresas estão atuando com uma comunicação ativa e estratégica junto a esse público, indicando elementos essenciais de aftermarket”, complementa.
O cliente do campo é ótimo consumidor, ligado à tecnologia e preocupado com sustentabilidade. O grande desafio é cativar esse público, que precisa confiar que o produto em questão será capaz de encarar as operações do campo. É por isso que marcas como Toyota, com sua Hilux, e Ford, com a Ranger, estão
B ronco S port e R am R ampage: os modelos refletem a força dos segmentos de utilitários e picapes, que seguem puxando o desempenho do mercado automotivo brasileiro


mais estabelecidas. São modelos que estão no mercado há muito tempo e já provaram ser robustos para superar o pesado trabalho no campo. “Em primeiro lugar, o consumidor quer confiança, e isso se conquista com tempo”, afirma o consultor Cássio Pagliarini, da Bright Consulting. “O conforto e a capacidade de uso urbano e rural são características importantes nesse segmento, principalmente para os que se movimentam entre os dois ambientes”, acrescenta Kalume Neto.
Na disputa pelo bolso do consumidor, as fabricantes passaram a oferecer um pacote cada vez mais robusto de tecnologias. São assistências ao motorista e soluções de conectividade que antes eram restritas aos SUVs, os utilitários que dominaram o mercado como sinal de sofisticação. A maior parte dos lançamentos já chega ao mercado com câmeras 360º (ou 540º, como os fabricantes se referem à capacidade de mostrar o veículo de cima, em uma imagem 3D aérea), sensores de ponto cego, assistentes de permanência em faixa e outras comodidades que se tornaram quase obrigatórias nos novos utilitários, mas nem sempre faziam parte da realidade das caminhonetes.
Em um cenário em que tração nas quatro rodas e capacidade de carga são praticamente obrigatórias, esse pacote de tecnologias, incluindo grandes centrais multimídia totalmente digitais, acaba fazendo a diferença. O acabamento das cabines também mudou significativamente – e a influência dos chineses nessa transformação foi fundamental. A popularização dos modelos vindos da China mostrou que os clientes querem mais atenção aos detalhes, e não só nos modelos mais caros.
Dessa forma, o plástico duro tem dado lugar a superfícies macias ao toque e o couro se torna sinônimo de sofisticação. Nos modelos mais caros, especialmente entre as picapes full size, que representam apenas 1% do mercado, mas têm um valor médio muito superior ao do restante da categoria, há até detalhes em madeira e outros materiais nobres.
O que deve ganhar tração nos próximos meses é o apelo pela sustentabilidade, algo caro ao agronegócio e que ainda é pouco explorado no mercado das caminhonetes. “Está na hora das picapes híbridas”, diz Cássio Pagliarini. “O cliente ainda prefere o diesel, mas ninguém reclamaria de ter uma picape que fosse mais econômica e menos poluente.” A popularização dos carros híbridos nos ambientes urbanos tem ajudado a mudar a percepção sobre esses veículos. São mais econômicos, oferecem autonomia maior e, no caso dos híbridos plug-in, podem rodar tanto com a bateria carregada na tomada quanto com o combustível no tanque.
O dilema está em conciliar a praticidade exigida no campo com a complexidade desses sistemas. Híbridos completos – e, sobretudo, os plug-in – tendem a demandar manutenção mais especializada, muitas vezes concentrada na rede de concessionárias, o que pode ser um entrave em regiões mais afastadas. “Mas vejo como maduro o mercado para híbridos leves ou, dependendo da complexidade do motor, híbridos plenos”, completa Pagliarini.
Já existem lançamentos programados – e a Ford está na linha de frente dessa virada. A montadora acaba de colocar no mercado a nova geração da Maverick, a picape intermediária que foi pioneira entre as híbridas convencionais. Na
R am : se antes as picapes eram escolhidas apenas por funcionalidade, agora viraram objeto de desejo no campo e fora dele

R anger: o segmento das picapes está mais aquecido do que nunca, a começar pela grande quantidade de lançamentos

H ilux: os modelos que caíram no gosto dos consumidores unem praticidade urbana e capacidade off-road

Na estrada: vendas crescentes fazem com que as picapes ditem tendências no mercado e acelerem a corrida das montadoras por mais tecnologia e eficiência

primeira versão, quem optava pela motorização eletrificada precisava abrir mão da tração nas quatro rodas. Agora, toda a linha – e inclusive a Tremor, mais voltada ao off-road – passa a oferecer tração integral, sinalizando que a eletrificação começa a chegar ao segmento sem comprometer a aptidão para a terra.
Mas o grande trunfo da Ford no horizonte próximo está marcado para 2027, com o lançamento da Ranger híbrida plug-in, que será fabricada em Pacheco, na Argentina. Para produzir o novo modelo, a empresa fará investimentos adicionais de US$ 170 milhões.
A planta já havia recebido US$ 700 milhões e passou por uma ampla reformulação entre 2021 e 2025. Hoje, fabrica os novos motores e
monta tanto versões de cabine simples, voltadas ao trabalho, quanto de cabine dupla. “A Ranger Híbrida Plug-in será a melhor Ranger já fabricada na região”, disse Martín Galdeano, presidente da Ford América do Sul, em comunicado divulgado no fim de 2025. A expectativa é de que a combinação entre motor a combustão e propulsão elétrica amplie a eficiência sem abrir mão da robustez que transformou a Ranger em uma das referências no mercado brasileiro.
O cruzamento de tecnologias vindas dos carros de passeio urbanos e a influência do agronegócio têm criado um novo fenômeno: a popularização das picapes também como um veículo para uso diário em cidades. Ou seja, a
P oer P30 , da chinesa GWM : com motorização a diesel, o veículo atualmente é montado na fábrica da empresa em I racemápolis, no interior de S ão Paulo

estética do agro ganhou a cidade. Os modelos intermediários, como Toro, Rampage e Maverick, encontraram nesse nicho um mercado fértil. “As picapes sempre representaram a liberdade por atuarem em segmentos que permitem ao usuário trafegar em diferentes ambientes, alterando estilos de vida urbanos e aventureiros ou mesmo trabalho e lazer”, diz Kalume Neto. “A capacidade de ampliar os horizontes de atuação do cliente é cada vez melhor comunicada no segmento.” Para boa parte dos consumidores, o espaço extra da caçamba, como um enorme porta-malas, e a tração nas quatro rodas para aventuras aos finais de semana representam um ideal aspiracional. “Há clientes que podem começar com
uma Rampage e subir no nosso portfólio até uma Dakota ou uma 1500, se essa for sua vontade ou necessidade”, afirma Vitor Bohnenberger, diretor de Marketing de Produto da Ram. O mercado automotivo é dinâmico e muda constantemente. Algumas tendências chegam para ficar – como é o caso dos SUVs, que hoje dominam o mercado e representam mais da metade dos emplacamentos atuais. Outras vêm e vão. Hoje, hatches e sedãs perderam força e estão sendo descontinuados pelas montadoras. As picapes sempre tiveram um espaço importante no mercado, e o público do campo tem se mantido fiel às caminhonetes. A diferença é que hoje elas funcionam cada vez mais como símbolos de força e status.
Clima adverso e avanço da cigarrinha-da-raiz reforçam a necessidade de práticas mais eficientes na canavicultura. Inovação Koppert surge como alternativa no controle da praga.

Uma preocupação paira sobre os produtores de cana-de-açúcar de todo o país: como recuperar o fôlego após o segundo ano consecutivo de queda na produção? Mesmo com uma área colhida maior – 8,85 milhões de hectares –, o rendimento nacional recuou. O montante esperado para a safra de 2025/26 é de 668,8 milhões de toneladas de cana, volume 1,2% menor que no ciclo anterior e 6,22% abaixo do recorde registrado na safra de 2023/24, que atingiu 713,2 milhões de toneladas.
Entre os fatores que contribuíram para a retração estão as altas temperaturas e a baixa incidência de chuva durante a desdobra e desenvolvimento da cana, especialmente na região Sudeste do país, responsável por 63,5% do total nacional. Essas mesmas condições também favoreceram o avanço da cigarrinha-da-raiz (Mahanarva fimbriolata ), praga que voltou a causar preocupação entre os agricultores.
A praga, que se alimenta da seiva da planta e injeta toxinas, pode causar perdas
de até 30% na produtividade do canavial. Em cenários de estresse hídrico e calor intenso, o estrago pode chegar a 50%, comprometendo a qualidade industrial da matéria-prima e a longevidade do canavial. Sendo assim, o controle preciso da cigarrinha torna-se essencial para garantir a produtividade e rentabilidade da plantação.
Com a pressão crescente, produtores têm revisto suas estratégias. “A resposta rápida é importante, mas apostar em qualquer solução apenas pela urgência não é algo muito eficiente, além de que pode custar caro para o produtor e para o meio ambiente”, observa o diretor industrial da Koppert América do Sul, Danilo Pedrazzoli, referindo-se à resistência demonstrada pela cigarrinha-da-raiz a alguns defensivos químicos.
Esse cenário tem impulsionado o uso de soluções biológicas, como o Octane®︎ (Isaria fumosorosea CEPA ESALQ 1296), da Koppert. Um bioinseticida à base de fungos que tem se destacado como um importante aliado no manejo da praga por auxiliar na redução do risco de resistência e contribuir para um sistema produtivo mais equilibrado.
Octane®︎ é uma inovação da Koppert recém-disponibilizada para o manejo da cigarrinha-da-raiz na cana, com eficácia comprovada no controle da praga em diferentes estágios de desenvolvimento, da fase larval até a adulta.
Após a aplicação, o fungo coloniza o inseto, levando-o à morte. Os esporos produzidos pelo indivíduo infectado se dispersam, podendo contaminar outros e favorecendo um controle mais abrangente e duradouro. O produto atua sem deixar resíduos, preserva o equilíbrio do ecossistema e os inimigos naturais da praga. O produto também se destaca como importante ferramenta dentro do Manejo Integrado de Pragas (MIP), pois contribui para a rotação de mecanismos de ação e, consequentemente, para a gestão da resistência de pragas. Sua compatibilidade com a maioria dos produtos utilizados no canavial facilita a integração ao manejo já adotado pelo produtor, sem a necessidade de grandes adaptações.
A recuperação da safra 2026/27 dependerá cada vez mais de práticas agrícolas inovadoras e sustentáveis. Soluções como Octane®︎, da Koppert, tornam-se fundamentais para fortalecer a resiliência dos canaviais diante das mudanças climáticas e da pressão de pragas, e fazer a balança da produtividade pender para cima. Por ser biológico, não deixa resíduos químicos e atende à demanda de mercado por sistemas produtivos mais seguros e sustentáveis. Sua eficiência também pode gerar economia ao produtor, com menor necessidade de múltiplas aplicações e melhor uso dos insumos. Com sua expertise em soluções biológicas, a Koppert entrega ao setor uma tecnologia robusta e estratégica a fim de garantir um futuro mais produtivo e competitivo para a cana-de-açúcar do Brasil.
Pioneira do setor sucroenergético em Goiás, a Usina Denusa alcançou um dos menores índices de infestação de cigarrinha-daraiz do estado: apenas 0,32% em 15 mil hectares das áreas produtivas pertencentes à empresa.
O resultado é atribuído à adoção contínua do Manejo Integrado de Pragas (MIP) aliado ao uso sistemático de soluções biológicas. Segundo o gerente de Planejamento Agrícola da Denusa, Antônio Carlos de Oliveira Júnior, a estratégia tem permitido manter a praga sob controle mesmo em safras com condições climáticas adversas e aumento da pressão de infestação.
“Utilizamos biológicos há anos, especialmente para a cigarrinha-da-raiz, e, desde a introdução do Octane®︎, observamos um desempenho ainda mais estável, refletido nos nossos índices”, destaca Oliveira. Reconhecida pelo investimento em tecnologias sustentáveis e de alta performance, a Denusa reforça a tendência do setor sucroenergético de ampliar o uso do biocontrole como ferramenta estratégica para aumentar a eficiência operacional, reduzir riscos fitossanitários e promover maior equilíbrio biológico no canavial.

DO CAROÇO DE AÇAÍ A FIBRAS DE BANANEIRA, RESÍDUOS AGRÍCOLAS VIRAM COSMÉTICOS, MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO E ATÉ ACABAMENTO DE CARROS DE LUXO NAS MÃOS DE EMPREENDEDORES E GRANDES EMPRESAS
Por Mário Sérgio Venditti


Os resíduos de muitos produtos que saem do campo e compõem a mesa dos brasileiros podem ter outra destinação e servir de fonte de renda para pequenos empreendedores, startups e até mesmo multinacionais poderosas. Estudos revelam que a agroin dústria brasileira produz aproximadamente 750 milhões de toneladas de resíduos vegetais, como bagaço de cana-de-açúcar, cascas e sabugo de milho. São sobras que, em vez de ir para o lixo, tornam-se matéria-prima valiosa de itens de decoração, produtos de higiene pessoal, cabelos artificiais e até de acabamento de automóveis de luxo.
Além de utilizar os subprodutos do agro, a startup Mush aproveita o micélio, filamentos dos cogumelos com propriedades para virar uma cola natural e muito resistente. A descoberta da utilidade do micélio aconteceu em 2019, quando Eduardo Sidney cursava o mestrado de Biotecno-
logia na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, no campus de Ponta Grossa. Ele estudava os microrganismos que davam vida aos cogumelos e percebeu que serragem, cascas de arroz e de milho e farelo de trigo eram alimentos ricos para os fungos. “O micélio pode formar uma massa homogênea para a composição de novos materiais 100% biodegradáveis”, afirma Ubiratan Gomes, CEO da Mush. Sidney fundou a Mush (de mushroom, cogumelo em inglês) ao lado dos sócios Leandro Oshiro e Antonio de Francisco. Em 2023, veio o primeiro aporte de investidores, vital para o financiamento de novas pesquisas. Gomes ingressou na empresa por causa da experiência acumulada na indústria química e petroquímica.
O CEO explica que o material é produzido a partir de derivados da atividade agrícola, como serragem, cascas e farelos, chamados de material de substrato. O substrato é esterilizado para evitar
U biratan G omes, da M ush, usa subprodutos do agro para produzir itens de decoração, e Q uésia Pavão faz sabonetes a partir do açaí


contaminações de outros microrganismos e então é adicionado um fungo cultivado em laboratório. “O processo é totalmente biotecnológico e a parte que compõe a raiz dos cogumelos, o micélio, cresce de maneira controlada e condicionada, unindo firmemente as partículas”, afirma. Em seguida, o material é homogeneizado e acondicionado em moldes para se chegar ao formato do produto desejado pelos clientes, como placas, blocos ou desenhos geométricos distintos.
Três dias depois, o material está endurecido e pronto para ser aplicado como painéis de parede, forros de teto e elementos de arquitetura e construção, todos resistentes ao fogo. “As placas lembram isopor, mas são mais densas”, garante. A matéria-prima também vira peças sob encomenda, como luminárias e mesas. Um dos objetos mais inusitados é a urna cinerária em forma de barquinho, feita para alguém que desejava ter suas cinzas lançadas
ao mar. “O recipiente é ecológico, 100% biodegradável e, ao se decompor, não polui as águas”, afirma.
Em menor escala, a Mush também produz o biotecido, semelhante ao couro, empregado na confecção de calçados, roupas e bolsas. A equipe de fabricação reúne quatro pessoas, que, em ambiente climatizado e esterilizado, manipulam 4 toneladas de material por mês para atender à demanda. O plano é multiplicar essa capacidade por 10, graças a parcerias com uma empresa de São Paulo que cederá suas instalações “No ano passado, o faturamento da Mush chegou a R$ 200 mil e a expectativa é dobrar esse valor em 2026”, diz. Na cidade de Ananindeua (PA), Quésia Pavão, 32 anos, faz artesanalmente sabonetes esfoliantes em barra de 70 gramas e líquido de 75 ml a partir do caroço do açaí. Em 2021, ela expôs sua ideia no CNA Jovem, programa nacional desenvolvido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do


Brasil para apoiar jovens empreendedores. Afinal, sempre chamou sua atenção a maneira inadequada como sacos do caroço da fruta eram descartados e tratou de aproveitá-los para a criação de um produto de beleza.
Doutora em Agronomia pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), ela abriu a Qçaí Products, com capacidade de produzir cerca de 30 unidades por mês vendidas por encomenda. “Para expandir e viver do meu empreendimento, preciso terceirizar parte da produção e comprar equipamentos. Quero fazer isso ainda neste ano”, diz. Por enquanto, ela conta com a ajuda do pai, que vai atrás da doação de baldes cheios de caroço do açaí, cujo extrato é a base glicerinada do sabonete. Se depender de matéria-prima, o futuro da Qçaí está garantido, já que o estado do Pará responde por 90% do açaí produzido no País.
Em junho de 2025, a atividade de Quésia foi
beneficiada pela Lei Federal 15.154, que desobriga pequenos produtores artesanais de cosméticos, perfumes e produtos de higiene pessoal de registrarem seus itens na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – uma medida que estimula e desburocratiza o setor. Outra vitrine importante foi um estande na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em novembro de 2025, em Belém. “Ali, pude expor os produtos e, principalmente, mostrar meu compromisso com a sustentabilidade”, completa.
Alguns materiais capazes de mudar a vida de uma pessoa são encontrados por acaso. Em 2018, Marilza Eleotério de Barcelos Silva, 49 anos, empunhava uma faca para cortar um cacho de bananas no terreno de sua casa, na comunidade de Lagoa Park, em Campo Grande (MS). O esforço foi redobrado, porque a lâmina estava cega. Sem
M arilza S ilva ( em pé ) produz apliques para cabelos com fios do tronco da bananeira e abriu uma empresa com o apoio do S ebrae

conseguir decepar a planta de maneira uniforme, ela percebeu que uma quantidade abundante de fios se desprendia do caule. De imediato, a cabeleireira pensou se aquelas fibras naturais não poderiam se transformar em apliques para cabelos. Começou, então, a desenvolver cremes e compostos caseiros com frutas do Cerrado, cujas fórmulas mantém em segredo absoluto. Depois de muitas tentativas e desacertos, conseguiu deixar os fios totalmente prontos para incrementar os cachos das clientes, que, segundo ela, não sentem nenhuma reação ao produto. Marilza já trabalhava com mega hair, método que alonga ou aumenta o volume capilar. Nascida em Boa Esperança (ES), ela fez curso de cabeleireira quando morou em Rondônia. Mudou-se para a capital de Mato Grosso do Sul em 2016, devido à transferência do marido que trabalhava em um frigorífico.
A novidade se espalhou rapidamente. Um
vídeo mostrando sua técnica no Instagram viralizou, com 30 mil visualizações em uma semana e mensagens de 20 mil interessadas pelos cabelos pedindo mais informações. Com o apoio do programa de empreendedorismo Inova Cerrado, iniciativa do Sebrae/MS e governo do estado voltado ao fomento da bioeconomia, ela abriu a empresa Meus Cabelos, Meus Fios. “Preparava os fios em casa e, depois que a procura aumentou, recorri à ajuda das amigas”, afirma.
Nem um problema de saúde esmoreceu sua caminhada. Em 2021, ela sofreu um infarto e precisou receber um marca-passo. Hoje, sentindo-se totalmente recuperada, Marilza pretende profissionalizar o negócio, com a compra de uma máquina de extração dos fios do tronco da bananeira, que permitiria a produção em escala industrial. “Por enquanto, levo um dia para tirar 2 quilos de fibra manualmente, fazer a limpeza, a

hidratação e a coloração”, diz. “Também estou negociando o fornecimento da planta, porque Campo Grande não é uma região de bananeiras.”
Levar seu produto para fora do País é um sonho. No entanto, Emília Inocêncio, amiga que se tornou uma espécie de assessora e conselheira de Marilza, adota a cautela: “Ainda não é o momento de pensar em exportação, a prioridade é formar um mercado consistente no Brasil”. A etapa de suprir o público interno vem ocorrendo com sucesso. Um grupo de cabeleireiras de Santa Catarina, que desenvolve um programa contra a violência doméstica, está interessado nos “fios mágicos” de Marilza. Enquanto aguarda possibilidades de novos negócios, ela faz a cabeça das mulheres da cidade. “A aplicação dura de três a quatro horas e a cliente, com o novo visual, leva vida normal, podendo, por exemplo, entrar no mar e descolorir e colorir novamente os cabelos artificiais”, diz.
Nem só de iniciativas individuais vive o
“rescaldo” do agro. Um grupo de senhoras, comandadas por Marialda de Amorim Coury Martins, transforma a palha de milho em delicadas peças de decoração, muitas com a temática da religião. A Marias Artesãs simboliza uma expressão cultural importante na cidade mineira de Patos de Minas. Em 2002, a artista plástica Marialda participou dos primeiros encontros com artesãs que tinham habilidade com algodão. A prosa evoluiu para reuniões semanais às quintas-feiras, quando as amigas contavam suas histórias de vida.
Logo apareceu a ideia de os trabalhos manuais se converterem em renda extra. Capacitadas pelo Sebrae, as artesãs constituíram uma entidade, que recebeu um batismo mais do que natural: “Maria é um nome muito forte no interior de Minas Gerais e 80% das integrantes do grupo se chamavam Maria. Maria de Lurdes, Maria Salete, Maria Conceição”, diz a líder da associação.
Até 2020, elas ocupavam um espaço no Memorial do Milho. Atualmente, atuam numa sala no
M arialda M artins transforma a palha de milho em delicadas peças de decoração, muitas delas com a temática da religião


Fórum Olympio Borges, tombado pelo patrimônio histórico municipal. No auge, a Marias Artesãs agrupava 60 mulheres, número que diminuiu para seis. Mas elas não desanimam e seguem em atividade. O Grupo Agroceres fornece a matéria-prima para elas fazerem dez tipos de flores, todas catalogadas, presépios e santos que, além da palha de milho, precisam de casca de coco, capim e bambu. Os produtos são vendidos em consignação e pela internet e já houve movimentos de exportação. “Certa vez, vendemos 800 presépios para Estados Unidos, Itália e Holanda”, diz Marialda. Ela lembra, com bom humor, que o grupo já foi chamado de “catadoras de lixo”. Ninguém se abala. “O que importa é a nossa arte, que traz alegria para as artesãs e aos compradores.”
Engana-se quem pensa que os resíduos do agronegócio são direcionados apenas para pequenos empreendedores. Uma gigante da indústria automotiva está de olho nas possibilidades que permitem deixar seus carros mais
sustentáveis. A Mercedes-Benz elaborou o programa Tomorrow XX, ação que agrega 40 conceitos na utilização de componentes e materiais com o intuito de fomentar a economia circular e as soluções de baixo carbono de seu portfólio de modelos.
“O foco da Mercedes é a reciclabilidade”, afirma Evandro Bastos, gerente de Produtos de Automóveis da Mercedes-Benz Brasil. “Hoje, 85% das peças e componentes dos nossos carros podem ser reaproveitados.” Ele conta que os recursos vegetais, mais duráveis e sustentáveis, são empregados na linha de produção da fabricante. O couro ecológico extraído dos cactos e o mylo, material vindo da raiz de cogumelos, estão presentes no acabamento das portas, e os tapetes recebem fibra de bambu em sua confecção. O cânhamo também já foi empregado em modelos da marca alemã. “São misturas que ajudam o meio ambiente, reduzem o peso dos automóveis e, a longo prazo, impactam no custo de fabricação”, conclui.

COMO GANHOS DE PRODUTIVIDADE, APOSTA NA
CIÊNCIA E CONQUISTA DE NOVOS MERCADOS
LEVARAM O BRASIL A ULTRAPASSAR OS ESTADOS
UNIDOS E ASSUMIR A LIDERANÇA MUNDIAL NA
Por Lucas Bresser


OBrasil está prestes a consolidar uma virada histórica no mercado global de carne bovina. Dados preliminares e estimativas de mercado indicam que, em 2025, o País superou os Estados Unidos e se tornou, pela primeira vez, o maior produtor mundial de carne bovina – uma posição até então ocupada de forma praticamente contínua pelos norte-americanos. Caso os números oficiais confirmem as projeções, o movimento marca não apenas uma troca de liderança, mas uma mudança estrutural no equilíbrio da oferta global de proteína animal. Segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção brasileira de carne bovina alcançou 12,35 milhões de toneladas equivalente carcaça (TEC) em 2025, após uma revisão positiva de 450 mil toneladas em dezembro. Já a produção dos Estados Unidos recuou 3,9%, para 11,8 milhões de toneladas, impactada por anos consecutivos de
seca e pela redução do rebanho. A diferença pode parecer pequena, mas representa um marco simbólico para a pecuária mundial.
A consultoria Rabobank, que inicialmente projetava queda na produção brasileira em 2025, revisou sua expectativa e agora estima um crescimento de 0,5%, levando o total a 12,5 milhões de toneladas. Para Maurício Nogueira, diretor da consultoria Athenagro, a surpresa foi ainda maior. “A produção de carne bovina do Brasil superou muito as nossas previsões em 2025”, afirmou o especialista, ouvido pela agência Reuters. Segundo ele, o crescimento anual foi de 4%, quando a expectativa era de retração de 2,7%. O aumento absoluto, de cerca de 800 mil toneladas, equivale a todo o volume exportado anualmente pela Argentina, quinto maior exportador mundial.
Essa virada não ocorreu por acaso. Para Rafael Ribeiro, assessor técnico da Comissão Nacional de Bovinocultura de Corte da CNA, o avanço da

pecuária brasileira é resultado direto de investimentos contínuos em ciência ao longo das últimas décadas (veja quadro). “Um dos pontos fundamentais que levaram a pecuária nacional à posição de destaque foram os investimentos em tecnologia, que possibilitaram aumentos de produtividade e melhoria da qualidade da carne bovina brasileira”, diz. “Ou seja, além de volume, temos avançado também em qualidade do produto.”
Para Alcides Torres, sócio da Scot Consultoria, o avanço da pecuária brasileira tem no mercado o seu principal motor. “A partir do momento em que ocorre uma revolução econômica e o bovino, como reserva financeira, começa a perder valor, o caminho natural é o investimento para tornar a atividade produtiva”, afirma. Segundo ele, o setor viveu um primeiro salto relevante de eficiência no início dos anos 2000, quando a produtividade, que já vinha crescendo desde a década de 1960, passou por uma aceleração mais intensa.
O avanço da pecuária brasileira nos últimos anos significou uma mudança profunda na oferta global de proteína animal

Maurício N ogueira, sócio da Athenagro: " E m 2025, a produção no B rasil superou previsões"
A abertura comercial a partir de meados de 2005 marcou outro ponto de inflexão, ao reposicionar o Brasil como fornecedor global de carne bovina. “O mundo passou a enxergar o potencial brasileiro: extensão de área, capacidade de investir em produtividade, custos mais baixos e domínio da produção nos trópicos”, diz Torres. Na avaliação do analista, a pecuária tropical garante vantagem competitiva estrutural.
“Temos o maior rebanho comercial do mundo, com um potencial produtivo gigantesco ainda a ser explorado e preços extremamente competitivos. É isso que faz o Brasil se destacar.”
Essa expansão ocorre em um contexto de forte demanda internacional. O Brasil já ocupa, há anos, a posição de maior exportador global de carne bovina e, em 2025, embarcou o equivalente a US$ 17 bilhões em produto, segundo dados oficiais de comércio exterior. A combinação de oferta restrita em grandes produtores, como
A partir de 2018, a C hina se tornou o principal destino da carne brasileira, o que aumentou a rentabilidade dos produtores do país

Alcides Torres, sócio da S cot C onsultoria: " O mundo enxergou o enorme potencial brasileiro" ©

Estados Unidos e Austrália, e preços recordes da carne bovina no mercado norte-americano impulsionou o envio de animais para o abate no Brasil, inclusive para atender mercados como China e Estados Unidos. Desde 2018/2019, a China se consolidou como principal destino da carne brasileira, movimento que elevou os preços internacionais e aumentou a rentabilidade do produtor no Brasil, com destaque para o chamado “ágio do boi China”, segundo a CNA. Tradicionalmente, ciclos de abate elevados são seguidos por períodos de retração da produção, à medida que os pecuaristas retêm matrizes para a recomposição do rebanho. No entanto, o caso brasileiro começa a desafiar essa lógica. Ganhos expressivos de produtividade ao longo da cadeia vêm permitindo manter, e até ampliar, a produção sem expansão significativa do rebanho ou da área de pastagens. Um dos indicadores mais claros
dessa transformação está na redução da idade de abate. Dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) mostram que, em 2004, 41,7% dos bois abatidos no País tinham mais de 36 meses. Em 2024, esse percentual caiu para 11%. Um caso específico, da Confinamento Monte Alegre (CMA), em Barretos (SP), citado pela Reuters, mostra que em 2015 a idade média de abate era de cinco anos. Hoje, está em torno de 36 meses, caminhando rapidamente para 24 meses. Esse avanço reflete a combinação entre genética, nutrição e uso mais intensivo de sistemas de engorda em confinamento.
Os números confirmam essa intensificação. Segundo dados da DSM, o número de animais terminados em confinamento no Brasil cresceu 82% entre 2015 e 2025, alcançando cerca de 8,5 milhões de cabeças no ano passado, o equivalente a 20% dos abates nacionais. Além disso,

estima-se que outros 8 milhões de bovinos sejam terminados anualmente em sistemas intensivos, como semiconfinamento e Terminação Intensiva a Pasto (TIP). De acordo com a Scot Consultoria, 22% do gado abatido em 2025 passou por confinamento, percentual que deve chegar a 28% até 2027. A intensificação reduz drasticamente o tempo necessário para o ganho de peso, fazendo em cerca de 100 dias o que o pasto leva entre 18 e 24 meses. A CMA, por exemplo, prevê elevar a capacidade de abate em Barretos de 65 mil cabeças em 2025 para 80 mil em 2026.
Outro fator-chave é a integração crescente com a cadeia de grãos e biocombustíveis. A expansão da indústria de etanol de milho no Brasil vem gerando volumes crescentes de grãos secos de destilaria (DDG), subproduto com alto teor proteico que acelera o ganho de peso dos animais e contribui para a
redução dos custos de alimentação.
Na base desse processo estão também os avanços em genética e nutrição. As vendas de sêmen de bovinos de corte no Brasil cresceram 147% entre 2014 e 2024, segundo dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). Já a demanda por suplementos minerais pela pecuária aumentou quase 60% na última década, de acordo com o Sindirações. Como reflexo desses investimentos, o peso médio da carcaça bovina no Brasil aumentou 15% nos últimos 20 anos, o equivalente a um ganho de 33 quilos por animal, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo, avanços em reprodução animal têm elevado a eficiência do rebanho. Técnicas mais modernas de inseminação artificial aumentam a taxa de prenhez, permitindo maior número de abates sem redução do estoque de fêmeas. A Scot Consultoria estima que esse índice suba de 50% em 2026 para 54% em 2027. E ainda há

margem para evoluir. Para efeito de comparação, a taxa na Argentina é de cerca de 66%, enquanto no Canadá chega a 96%, segundo dados da Datagro.
A base produtiva brasileira oferece ainda uma vantagem estrutural relevante: escala. O País possui cerca de 238 milhões de cabeças de gado, mais que o dobro do rebanho norte-americano, estimado em 94 milhões. Segundo a Abiec, o rebanho brasileiro deve crescer 4% entre 2024 e 2034, enquanto a produção de carne bovina tende a avançar 24% no mesmo período, evidenciando que a expansão virá, majoritariamente, por ganhos de produtividade.
Esse movimento tem implicações que vão além do mercado. A possibilidade de aumentar a produção sem ampliar áreas de pastagem pode reduzir a pressão econômica por desmatamento, especialmente na Amazônia, ao dissociar crescimento da pecuária da abertura de novas
áreas. Entre os grandes processadores de carne, a busca por produtividade e eficiência também vem sendo incorporada como um vetor central de sustentabilidade. Segundo Liège Correia e Silva, diretora de Sustentabilidade da JBS Brasil, o aumento da eficiência produtiva no campo é hoje uma das principais estratégias para reduzir a pegada ambiental da pecuária. “A incorporação de práticas regenerativas, acompanhada por monitoramento contínuo de dados, tem permitido ganhos produtivos, redução de custos e maior sequestro de carbono por hectare”, afirma. Na avaliação da executiva, programas de apoio ao produtor têm papel decisivo nesse processo. “Com ciência, método e acompanhamento, conseguimos transformar boas práticas em referências para o setor”, diz.
Um estudo conduzido por instituições como FGV e Instituto Inttegra em fazendas participantes

do programa Fazenda Nota 10, da JBS, indica que 31% das propriedades já capturam mais carbono do que emitem, resultado associado a práticas como recuperação de pastagens, manejo eficiente, dieta balanceada e desmatamento zero. Para Liège, escalar esse modelo é fundamental. “O Brasil tem condições de liderar pelo exemplo, mostrando que é possível aumentar a produção e reduzir a pegada ambiental ao mesmo tempo”, afirma.
Do ponto de vista institucional, a sanidade do rebanho é outro diferencial competitivo. O Brasil nunca registrou casos típicos de encefalopatia espongiforme bovina (vaca louca) e, em maio de 2025, foi reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como livre de febre aftosa sem vacinação. Hoje, o País exporta carne bovina para mais de 160 mercados, condição que amplia seu peso estratégico no comércio global.
Se a combinação de escala, demanda externa
A abertura comercial a partir de 2005 foi importante para reposicionar o B rasil como fornecedor global de carne bovina

R afael R ibeiro, executivo da CNA : " I nvestimentos em tecnologia aumentaram a produtividade"
e ganhos de produtividade levou o Brasil ao topo da produção mundial de carne bovina, o desafio agora é transformar essa liderança conjuntural em vantagem estrutural de longo prazo. Para Rafael Ribeiro, da CNA, isso passa por reduzir a heterogeneidade produtiva do setor. “É preciso avançar no uso de tecnologia, reduzindo o desvio nos indicadores técnicos e econômicos e elevando os indicadores médios da pecuária brasileira, mantendo a competitividade frente aos países concorrentes”, afirma.
Entre os pontos críticos estão a rastreabilidade do rebanho, com avanço da identificação individual dos animais, o reforço da vigilância sanitária, com planos de contingência robustos, e a diversificação dos destinos de exportação. Em 2025, a China respondeu por 53,2% do faturamento das exportações brasileiras de carne bovina, concentração que, segundo a CNA, amplia riscos

comerciais e geopolíticos. O aumento dos custos de produção também exige maior uso de ferramentas de gestão de risco, como travas de preços e instrumentos financeiros, enquanto o avanço do protecionismo em alguns mercados demanda articulação política e diplomática para preservação e ampliação do acesso internacional.
Para Alcides Torres, da Scot Consultoria, a manutenção da liderança brasileira na produção de carne bovina depende da capacidade histórica do setor de se adaptar e inovar. “O Brasil precisa continuar fazendo o que sempre fez: ser criativo, encontrar saídas e aproveitar o seu fator climático peculiar para dar suporte ao desenvolvimento e à manutenção dessa posição”, afirma. Ao mesmo tempo, Torres alerta para os desafios externos e internos que se acumulam. “Temos que atender às exigências dos mercados, lidar com acordos como Mercosul–União Europeia, com regras e cotas
chinesas e com a instabilidade geopolítica estimulada pelos Estados Unidos. Tudo isso exige atenção”, avalia. No campo doméstico, a restrição ao crédito e o aumento da complexidade produtiva elevam o risco da atividade. “Com a maior adesão às técnicas de produção, a janela de erro fica menor. O produtor não pode errar e, cada vez mais, precisa investir em ciência e conhecimento”, conclui.
Ao alcançar, pela primeira vez, a liderança mundial na produção de carne bovina, o Brasil deixa de ser apenas o maior exportador e assume um papel central na segurança alimentar global. O desafio agora é transformar essa conquista em um novo padrão de eficiência, previsibilidade e competitividade. Se conseguir alinhar tecnologia, escala, sanidade e gestão ao longo de toda a cadeia, o País não apenas consolida sua posição no topo, como redefine os parâmetros da pecuária bovina no século 21.
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A o assumir a liderança mundial na produção de carne bovina, o B rasil assume um papel central na segurança alimentar global
OS AVANÇOS QUE IMPULSIONARAM
A PRODUÇÃO DE CARNE BOVINA NO BRASIL
Genética
• As vendas de sêmen de bovinos de corte cresceram 147% entre 2014 e 2024, aumentando ganhos em desempenho, padronização e qualidade da carne.
Nutrição e coprodutos
• A demanda por suplementos minerais avançou quase 60% na última década.
• O uso de DDG (coproduto do etanol de milho) ampliou a eficiência alimentar, reduziu custos e acelerou o ganho de peso, especialmente em confinamentos e sistemas intensivos.
Sistemas intensivos
• O número de bovinos terminados em confinamento cresceu 82% entre 2015 e 2025, alcançando cerca de 8,5 milhões de cabeças, o equivalente a 20% dos abates no País.
• Outros 8 milhões são finalizados em sistemas intensivos a pasto (TIP e semiconfinamento).
• Planejamento produtivo, controle zootécnico e indicadores econômicos elevaram a eficiência e a previsibilidade da atividade.
• O peso médio da carcaça aumentou 15% em 20 anos (+33 kg por animal).
• A idade de abate caiu de forma expressiva: bois com mais de 36 meses passaram de 41,7% em 2004 para 11% em 2024.
• Avanços liderados por Embrapa, universidades e centros de pesquisa adaptaram tecnologias às condições tropicais.
• O Brasil é reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação e nunca registrou caso típico de vaca louca, ampliando o acesso a mercados.
Fontes: Asbia; Sindirações; DSM; IBGE; Abiec; CNA; Embrapa; OMSA.

REFERÊNCIA INTERNACIONAL EM DESCARBONIZAÇÃO, O RENOVABIO ENTRA EM NOVA ETAPA, COM METAS MAIS OUSADAS, FISCALIZAÇÃO MAIS RIGOROSA E EXPANSÃO PARA NOVAS FRONTEIRAS
Por Amauri Segalla


ORenovaBio está entre as políticas públicas de descarbonização mais avançadas do mundo. Ao articular metas obrigatórias, certificação independente e um mercado estruturado de créditos ambientais, transformou a redução de emissões no setor de combustíveis em motor de investimentos privados. Em vez de depender exclusivamente de subsídios, o modelo brasileiro criou incentivos de mercado: distribuidoras de combustíveis fósseis precisam compensar suas emissões comprando Créditos de Descarbonização (CBios) de produtores de biocombustíveis mais eficientes. É fácil entender a lógica por trás do programa. Quem emite paga. Quem reduz emissões recebe.
O caminho do RenovaBio começou a ser trilhado em 2017, por meio da Lei número 13.576, em um contexto de redefinição da política energética brasileira após a crise fiscal e o fim dos subsídios aos combustíveis. A proposta surgiu como resposta a dois desafios simultâneos: recuperar a previsibilidade para o setor de biocombustíveis – historicamente sujeito a intervenções erráticas de preços – e alinhar o País aos compromissos climáticos assumidos no Acordo de Paris. Em vez de subsídios,
o programa optou por metas nacionais de descarbonização definidas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), desdobradas em compromissos individuais para distribuidoras, com lastro calculado pela intensidade de carbono de cada produtor certificado.
O RenovaBio começou efetivamente a ser adotado em 2020, com a emissão dos primeiros CBios negociados em bolsa. De acordo com as suas regras, cada crédito passou a representar uma tonelada de CO₂ equivalente evitada – um indicador calculado por certificadoras independentes e validado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Desde então, o programa atravessou fases distintas. Nos primeiros anos, o foco esteve na construção da infraestrutura regulatória e na adaptação dos agentes às novas regras. Como é típico em iniciativas com forte vocação ambiental, houve questionamentos metodológicos, debates sobre metas e críticas à volatilidade no preço dos CBios, especialmente durante a pandemia de Covid-19, quando o consumo de combustíveis despencou. Com o tempo, no entanto, a rotina de certificação e
O R enova B io é vital para o avanço de combustíveis verdes e a proteção ambiental

negociação se estabilizou, o número de produtores certificados cresceu e o mercado passou a operar com maior previsibilidade.
Depois de anos de ajustes regulatórios, o RenovaBio entrou agora em uma nova fase. Já não basta funcionar do ponto de vista meramente técnico. É preciso sustentar metas mais ambiciosas, preparar o programa para novas rotas – como o biometano – e garantir estabilidade em um ambiente de maior pressão política. Foi nesse contexto que uma decisão do Superior Tribunal de Justiça, em fevereiro de 2026, se impôs como um novo marco para o RenovaBio.
Ao barrar o uso de depósitos judiciais como substituto para a compra obrigatória de CBios, o STJ enviou um sinal inequívoco ao mercado: o RenovaBio não admite atalhos. A controvérsia vinha se acumulando desde que o governo endureceu os mecanismos de fiscalização, especialmente com a chamada “lista suja” – instrumento que expõe distribuidoras inadimplentes e pode restringir sua operação até a regularização. Algumas empresas recorreram à Justiça para tentar suspender obrigações mediante depósitos
judiciais. Se essa alternativa prosperasse, o efeito seria imediato: distorção no preço dos CBios, concorrência desigual e enfraquecimento do incentivo econômico à eficiência ambiental.
A decisão foi interpretada por agentes do setor como um divisor de águas. Para a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o entendimento reforça a segurança jurídica do programa e reconhece a atuação coordenada da agência com o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e o Ministério de Minas e Energia para assegurar a integridade regulatória e o cumprimento das metas nacionais de descarbonização. Mais do que uma disputa processual, tratava-se de preservar o núcleo econômico do modelo.
O embate jurídico surgiu num momento em que o RenovaBio apresentava resultados consistentes. Em 2025, a maior parte das distribuidoras conseguiu se adequar às exigências regulatórias. Em dezembro, 122 empresas já estavam integralmente em dia, e 38,2 milhões de CBios haviam sido utilizados, muito próximos da meta anual de 40,3 milhões. No encerramento do ciclo, o volume total

alcançou 40,06 milhões de créditos, equivalente a 99% do objetivo global estabelecido para o ano.
Esses dados mostram que o programa, de fato, está consolidado no País. As regras estão claras, os agentes conhecem seus papéis e o mercado funciona com relativa previsibilidade. A certificação dos produtores, a emissão dos créditos, a negociação em bolsa e os mecanismos de fiscalização passaram a integrar a rotina do setor. Isso não elimina conflitos – metas mais altas naturalmente elevam o nível de cobrança –, mas indica que o sistema está bem organizado.
No exterior, o modelo brasileiro passou a ser citado em fóruns de transição energética como exemplo de que é possível alinhar metas ambientais a instrumentos de mercado. Em evento recente, Celine Ramstein, coordenadora de Mudanças Climáticas do Banco Mundial, disse que a lógica do programa é engenhosa: o governo não paga diretamente pela redução de emissões, mas cria uma obrigação regulatória que desloca recursos
privados para os produtores mais eficientes. O preço do crédito é definido pelo mercado, a fiscalização garante o cumprimento das regras e o investimento em inovação encontra incentivo concreto.
No Brasil, essa leitura é compartilhada por quem está no centro da cadeia de biocombustíveis. Evandro Gussi, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), afirma que o País se tornou protagonista global da transição energética justamente por ter construído uma “política que reconhece eficiência, gera previsibilidade e estimula investimentos sustentáveis”. Para ele, o RenovaBio não é apenas um mercado de títulos ambientais, mas um arranjo institucional que combina cadeia produtiva, auditoria e estabilidade regulatória.
Ao mesmo tempo, a agenda do programa avança para novas fronteiras. A discussão sobre certificados de biometano amplia o escopo da política e adiciona complexidade ao arcabouço regulatório. A proposta é aplicar lógica seme -
A mpliar a geração renovável e tornar o transporte de cargas mais eficiente são movimentos complementares ao R enova B io

lhante à dos CBios para premiar produtores mais eficientes na geração de biometano, combustível obtido a partir de resíduos orgânicos, efluentes industriais e lixo urbano. A diversificação amplia as rotas de descarbonização, mas exige resolver questões metodológicas delicadas: como mensurar emissões em cadeias produtivas distintas? Como assegurar rastreabilidade? Como evitar brechas que possam comprometer a credibilidade do sistema? Há, ainda, um desafio de credibilidade. O RenovaBio depende de um cálculo técnico – a nota de carbono – que precisa ser aceito como confiável por toda a cadeia. Quando as metas sobem, o sistema fica menos tolerante a ruídos: atrasos na certificação, disputas sobre critérios e questionamentos metodológicos deixam de ser incômodos pontuais e passam a afetar o mercado como um todo. A controvérsia da “lista suja”, somada à inadimplência e à judicialização, é um retrato desse momento: mais do que um capítulo jurídico, é a
prova de que o programa terá de ser firme para sustentar a próxima etapa.
O ciclo de 2025 indicou que a fiscalização tende, de fato, a ser mais rigorosa. O descumprimento parcial ou integral de metas sujeita distribuidoras a penalidades, e o mecanismo de carregamento do déficit para o ano seguinte amplia o custo de postergar obrigações. Ainda assim, a existência de empresas inadimplentes revela que parte do mercado continua testando os limites do sistema. Nesse contexto, o RenovaBio atravessa uma fase decisiva. O programa precisa demonstrar que consegue ampliar metas, incorporar novos instrumentos e oferecer previsibilidade em um ambiente regulatório cada vez mais complexo. Se mantiver a rota correta, tende a atrair mais capital, estimular inovação tecnológica e aumentar a participação de biocombustíveis na matriz energética. O RenovaBio já não precisa provar que funciona. Agora, seu desafio é demonstrar que vai durar.


MESMO COM AVANÇOS RECENTES, RODOVIAS PRECÁRIAS, PORTOS PRESSIONADOS E DÉFICIT DE ARMAZENAGEM SEGUEM ENCARECENDO O ESCOAMENTO E COMPRIMINDO AS MARGENS DO PRODUTOR
Por Ronaldo Luiz

Ainfraestrutura logística continua sendo um dos principais entraves ao agronegócio brasileiro. Rodovias em más condições, baixa densidade de ferrovias e hidrovias em um país de dimensões continentais e portos operando próximos do limite formam um conjunto de restrições que pesa diretamente sobre custos, prazos e competitividade do setor. O alerta ganha ainda mais relevância diante da perspectiva de expansão da produção agrícola nos próximos anos. Um estudo elaborado pela Macroinfra, consultoria especializada em análise econômica e planejamento de infraestrutura, projeta um crescimento expressivo da oferta de grãos no Brasil ao longo da próxima década. Segundo o levantamento, esse avanço deve resultar em um volume adicional de 58,8 milhões de toneladas de granéis agrícolas destinados à exportação até 2035.
A mensagem central do estudo é óbvia: a produção avança em ritmo acelerado, mas a infraestrutura necessária para escoar esse crescimento não acompanha a mesma velocidade.
“O País está cada vez mais exportando, em um cenário de expansão contínua, seja por ferrovias, hidrovias, rodovias ou portos. No entanto, os investimentos em novos corredores logísticos não têm acompanhado a dinâmica de crescimento da produção e das exportações”, afirma Olivier Girard, sócio-diretor da Macroinfra. Segundo ele, a pressão já é evidente. “A demanda de exportação de granéis agrícolas atingirá a capacidade atual dos principais portos até 2028, sendo que o volume já ultrapassou o limite de segurança operacional de 85%. Há projetos portuários e ferroviários em desenvolvimento, mas muitos ainda estão em fase embrionária e precisam ser acelerados para se tornarem realidade até 2033”, diz.
A Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) estima investimentos privados de R$ 43,3 bilhões em concessões e parcerias público-privadas (PPPs) para transportes e logística nos próximos anos, mas o montante é considerado insuficiente pelos especialistas. O problema atinge diferentes modais,
O s gargalos logísticos do País impõem custos aos produtores e encarecem os preços dos alimentos que chegam à mesa do consumidor

Girard acrescenta que os impactos do acordo Mercosul–União Europeia tendem a ser sentidos primeiro nos portos já pressionados: “Terminais, especialmente no Sudeste e no Arco Norte, enfrentarão um aumento imediato de contêineres e granéis. Rodovias e ferrovias que atendem esses complexos, muitas vezes já no limite, podem sofrer congestionamentos crônicos, elevando custos e prazos”.
Hoje, mais de 70% das cargas do País dependem do transporte rodoviário, fator que encarece o frete, amplia as emissões de gases de efeito estufa e gera custos anuais de R$ 226 bilhões. O dado consta de levantamento do Movimento Brasil Competitivo (MBC), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e apoio técnico da Fundação Getulio Vargas (FGV). De acordo com o estudo, países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que equilibram melhor o uso dos modais conseguem reduzir os custos logísticos em até 20%
Brasil. “Seguimos excessivamente dependentes do modal rodoviário, que é caro e sensível às variações de combustível e manutenção”, afirma José Loschi, CEO e fundador da SRX Holdings, empresa brasileira focada em infraestrutura e logística com atuação em projetos ligados ao agronegócio.
Uma pesquisa feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) reforça o diagnóstico: o custo do transporte internacional é apontado como o maior entrave logístico por 58,2% dos empresários. Em seguida, aparecem a ineficiência dos portos no manuseio e embarque (48,5%); limitações de rotas marítimas, espaço ou contêineres (47,7%); tarifas portuárias elevadas (46,2%); e a volatilidade cambial (41,8%) – este último, o primeiro fator não diretamente ligado à logística.
Para o advogado Larry Carvalho, especialista em logística, direito marítimo e agronegócio, a produção agropecuária cresceu em ritmo superior à capacidade do País de escoar e armazenar a safra com previsibilidade. “Houve avanços importantes,
COMO PROTEGER OS NEGÓCIOS DIANTE DOS
GARGALOS LOGÍSTICOS
Gestão de ativos: deixar de ser apenas “produtor de safra” para atuar como gestor de ativos.
Proteção de preço (hedge): utilizar ferramentas de travamento de preço em bolsa ou contratos a termo para assegurar, ao menos, o custo de produção e uma margem mínima.
Estratégia
associativa: compras coletivas e pools de venda via cooperativas ou grupos de produtores ampliam o poder de barganha no frete e nos insumos.
Investimento dentro da porteira: quando o silo próprio não é viável, buscar parcerias com armazéns gerais ou condomínios de armazenagem para escapar do gargalo da safra.
Contratos e governança: contratos de frete, armazenagem e venda devem definir prazos, além de responsabilidades por filas e atrasos.
como a consolidação do Arco Norte, mas ainda operamos no limite: dependência do rodoviário em longas distâncias, acessos que não acompanharam o volume, filas sazonais, aumento do custo do frete no momento mais sensível do calendário e integração incompleta entre rodovia, ferrovia, hidrovia e porto”, afirma. Loschi destaca que destravar investimentos passa, necessariamente, pela segurança jurídica: “O Estado não tem capacidade de investir sozinho. É preciso fortalecer as PPPs e conectar o mercado de capitais à infraestrutura. Instrumentos como Fiagros e CRAs mostraram que a Faria Lima quer investir no campo. Com previsibilidade regulatória, o capital privado flui para armaAnálise

M ais de 70% das cargas do País dependem do transporte rodoviário, fator que aumenta o frete e amplia emissões de poluentes

zéns, terminais e ferrovias. O agro precisa ser visto não apenas como commodity, mas como um ativo de infraestrutura rentável”.
Além do transporte, a armazenagem é outro ponto crítico. A safra brasileira de grãos já supera 320 milhões de toneladas e tem expectativa de novo recorde no ciclo 2025/26. A infraestrutura de estocagem, porém, não cresce no mesmo ritmo. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que a capacidade estática do País varia entre 200 e 230 milhões de toneladas, suficiente apenas para cerca de dois terços da produção anual. O descompasso influencia diretamente o mercado e a formação de preços ao produtor.
Para Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da consultoria Biond Agro, a armazenagem extrapola a dimensão estrutural. “Ela representa tempo de decisão, e tempo é o ativo mais valioso no mercado de grãos”, diz. “Quando a oferta entra simultaneamente no sistema, quem não consegue esperar vende sob pressão.”
Carvalho ressalta que armazenagem representa, na prática, liberdade comercial. “Sem capacidade, o produtor fica exposto ao pico de oferta da colheita, aceita base pior e, muitas vezes, paga frete mais caro e instável por não conseguir escolher a melhor janela. No fim, a conclusão é óbvia: a safra cresce, mas sem estrada, trilho, porto e silo, a margem encolhe no caminho.

A EDIÇÃO DO GENE SAMBA EM TOMATEIROS FRUSTROU A APOSTA EM FRUTOS MAIORES, MAS REVELOU UM GANHO INESPERADO: TOMATES MAIS DOCES E COM MAIOR TEOR DE COMPOSTOS ANTIOXIDANTES
Por Evanildo da Silveira

m gene identificado há mais de uma década em uma planta-modelo de laboratório acabou abrindo caminho para uma descoberta inesperada no tomate, uma das hortaliças mais consumidas do mundo. Pesquisadoras da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), do Instituto Max Planck de Fisiologia Molecular de Plantas, na Alemanha, e do Inrae Bordeaux, na França, utilizaram técnicas modernas de edição gênica para alterar a função do gene Samba em tomateiros. O resultado frustrou a expectativa inicial de obter frutos maiores, mas abriu uma frente inesperada para melhorar a qualidade nutricional e o sabor do alimento.
A história começou durante o pós-doutorado da bióloga Nubia Barbosa Eloy, na Bélgica. Na época, sua equipe investigava o gene Samba na planta Arabidopsis thaliana, amplamente utilizada como modelo em biologia vegetal. Pequena herbácea conhecida popularmente como arabeta, arabidopse-do-tale ou erva estrelada, a espécie revolucionou a pesquisa na área nas últimas décadas. “Descobrimos um gene do ciclo celular específico de plantas, que ainda não havia sido descrito na literatura”, diz Nubia. “Na planta-modelo, observamos um fenótipo bastante marcante, com aumento muito significativo de biomassa.”
A partir desses re sultados, surgiu a ideia de transferir o conhecimento para uma cultura de interesse econômico. No caso do tomate, o projeto ganhou forma em 2019, com financiamento do programa Jovem Pesquisador da Fapesp. “O objetivo era traduzir o que havíamos aprendido na planta-modelo para o tomate, utilizando estratégias modernas de edição gênica, como a técnica CRISPR-Cas9”, diz Nubia.
Os experimentos conduzidos pela equipe da
Esalq mostraram que a deleção do gene provocava aumento expressivo de biomassa – plantas maiores, com folhas, raízes e frutos mais desenvolvidos. O Samba, até então pouco explorado, revelou-se um regulador importante do ciclo celular em plantas. “Editamos geneticamente o gene Samba na espécie Solanum lycopersicum (tomate)”, detalha a pesquisadora. “Removemos o gene e analisamos o fenótipo resultante, observando como a ausência de sua expressão afetava o desenvolvimento e o crescimento da hortaliça.”
A engenheira agrônoma Perla Novais de Oliveira, primeira autora do artigo que reporta os resultados, explica que o foco central do trabalho, desenvolvido durante seu pós-doutorado na Esalq, era compreender o papel do Samba no desenvolvimento e na qualidade dos frutos. “Queríamos investigar como a perda de função do gene afeta o crescimento do fruto, sua morfologia e o acúmulo de açúcares e compostos antioxidantes”, afirma. Foram geradas plantas geneticamente editadas em duas linhagens independentes. Em uma delas, o gene foi completamente inativado. Na outra, sua atividade foi reduzida para menos de 10% do observado em plantas não editadas. Após a edição, as pesquisadoras selecionaram plantas livres do gene e acompanharam detalhadamente seu desenvolvimento, analisando desde características morfológicas até os perfis metabólicos dos frutos.
Os resultados surpreenderam. Ao contrário do observado na Arabidopsis, as plantas de tomate editadas produziam frutos significativamente menores do que os da variedade selvagem. “Esperávamos obter frutos maiores”, admite Nubia. “No entanto, observamos o efeito oposto: plantas menores e frutos também menores em comparação com o controle.”
P esquisadora no laboratório: a aplicação comercial da edição gênica depende de investimentos e de ajustes regulatórios

Apesar da frustração inicial, os achados trouxeram uma surpresa relevante. “As plantas editadas apresentaram frutos mais alongados e alterações na organização celular do pericarpo”, afirma Perla. “Do ponto de vista da qualidade, houve aumento significativo no teor de açúcares solúveis, com cerca de 20% a mais de sólidos solúveis em relação ao controle, além de maior acúmulo de flavonoides e outros compostos fenólicos com propriedades antioxidantes.”
Sob a perspectiva nutricional, os resultados são animadores. “Produzimos um tomate mais doce e mais nutritivo, com maior concentração de antioxidantes”, diz Nubia. Para Perla, o estudo demonstra que a modulação do gene Samba influencia diretamente características relacionadas ao sabor e ao valor nutricional do fruto.
Os resultados foram publicados na revista científica Plant Biotechnology Journal. As pesquisadoras ressaltam, porém, que o trabalho está longe de se encerrar. Ainda serão necessários estudos adicionais para avaliar o desempenho agronômico das plantas em campo, testar a estraté-
gia em outras variedades e verificar a estabilidade das características ao longo das gerações.
Embora a tecnologia de edição gênica esteja consolidada do ponto de vista científico, sua aplicação comercial depende de investimentos e de etapas regulatórias. “A ferramenta já está pronta para uso”, afirma Nubia. “Os resultados demonstram que a estratégia funciona e é estável. O próximo passo envolve viabilizar a produção em maior escala, com validação em campo, multiplicação das linhagens e adequação às exigências regulatórias. Só então será possível transferir a tecnologia ao setor produtivo e torná-la acessível aos agricultores.”
O estudo abre caminho para o uso estratégico da edição gênica no melhoramento de hortaliças. “Os resultados indicam potencial para o desenvolvimento de cultivares com frutos mais doces e maior valor nutricional, sem a introdução de genes externos”, afirma Perla. “Isso pode beneficiar tanto os produtores, ao agregar valor ao produto, quanto os consumidores, ao oferecer tomates com melhor sabor e maior teor de compostos antioxidantes.”


COM MERCADO GLOBAL BILIONÁRIO E UMA NOVA CORRIDA TECNOLÓGICA EM ACELERAÇÃO, A NANOTECNOLOGIA AVANÇA DO LABORATÓRIO PARA O CAMPO, PROMETENDO TORNAR O AGRONEGÓCIO MAIS EFICIENTE


Arevolução invisível da nanotecnologia já movimenta cifras bilionárias e começa a redesenhar silenciosamente o agronegócio global. Longe dos holofotes, partículas milhares de vezes menores que um grão de areia estão no centro de uma corrida tecnológica que combina produtividade, sustentabilidade e novos modelos de negócio. Um levantamento feito pela Data Bridge Market Research estima que o mercado global de nanotecnologia no agronegócio movimentou US$ 398,5 bilhões em 2025, com expectativa de atingir US$ 965,8 bilhões até 2032.
A consultoria InsightAce Analytic projeta expansão ainda mais acelerada: de US$ 389,9 bilhões para US$ 1,4 trilhão até 2034.
No Brasil, uma pesquisa recente da PwC Agtech Innovation aponta a ampliação do interesse e dos investimentos do agro em tecnologias voltadas à agricultura de precisão e à inteligência digital, universos que incluem a nanotecnologia. Batizado de “Termômetro da Inovação Aberta”, o estudo revela uma tendência consistente de digitalização e incorporação de soluções avançadas em todas as etapas da cadeia produtiva, da preparação do solo ao plantio, da colheita à distribuição.
“Esses números e estudos demonstram não apenas o potencial econômico da nanotecnologia no agro, mas também a confiança de investidores, empresas e governos na viabilidade e escalabilidade dessas soluções”, afirma Leonardo Fraceto, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro). O instituto é um consórcio nacional que reúne universidades federais e estaduais,
centros tecnológicos e empresas públicas e privadas. “A nanotecnologia aplicada ao agronegócio já viabiliza soluções inovadoras para o dia a dia do produtor rural, com foco na redução de custos, ganhos de eficiência e aumento de produtividade”, acrescenta.
A nanotecnologia estuda e manipula materiais em escala nanométrica. Nessa dimensão, as propriedades físicas e químicas dos materiais se alteram de maneira significativa, abrindo espaço para soluções mais eficientes e controladas. No agro, explica Fraceto, essas estruturas são aplicadas para potencializar a eficiência agrícola por meio de fertilizantes, defensivos, sensores e embalagens inteligentes. “A tecnologia permite que moléculas ativas sejam liberadas de forma controlada e precisa, reduzindo perdas e contaminações e aumentando a produtividade com menos insumos”, diz.
Daniel Souza Corrêa, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Instrumentação, destaca que os benefícios potenciais incluem maior eficiência no uso de fertilizantes, defensivos e água, com redução de desperdícios e impactos ambientais, além de ganhos indiretos de produtividade associados a um manejo mais preciso e racional. “Também pode contribuir em tecnologias para recobrimento de frutos, empregando processos nanotecnológicos para aumentar o tempo de prateleira de alimentos e reduzir desperdícios”, afirma.
Segundo ele, a Embrapa desenvolve pesquisas em nanotecnologia aplicada ao agronegócio há mais de duas décadas, inclusive com a criação da Rede Agronano. O foco está na eficiência do uso de insumos, na sustentabilidade ambiental e na


segurança dos sistemas produtivos. “Entre os principais achados, destacam-se o desenvolvimento e a avaliação de nanoformulações de fertilizantes e micronutrientes com liberação controlada, além de estudos sobre nanoencapsulação de defensivos agrícolas, recobrimentos para aumento do tempo de prateleira de alimentos, sistemas para remediação de poluentes ambientais e o desenvolvimento de sensores e biossensores nanoestruturados para monitoramento da qualidade da água e dos alimentos”, diz.
Fraceto detalha que a nanotecnologia já se materializa em soluções como nanofertilizantes, que liberam nutrientes de forma gradual e reduzem lixiviação; nanopesticidas, com maior eficácia contra pragas e menor toxicidade ambiental; e nanobioestimulantes, que favorecem o crescimento vegetal e a tolerância a estresses. Há ainda embalagens inteligentes, capazes de detectar deterioração e prolongar a vida útil de alimentos, sensores nanoestruturados que monitoram umidade, pH e doenças no solo ou na planta, e filmes e coberturas de solo com propriedades antimicrobianas ou reguladoras térmicas. Parte dessas soluções ainda passa por validação agronômica, enquanto outras já estão disponíveis comercialmente. No Brasil, a presença da nanotecnologia no campo ainda é pontual, observa Souza Corrêa. Ela aparece sobretudo em fertilizantes e formulações avançadas de defensivos que utilizam princípios de encapsulação. “Algumas soluções desenvolvidas em universidades e institutos de pesquisa estão em fases de validação agronômica, ambiental e econômica, e devem chegar ao mercado nos próximos anos”, afirma.

Daniel C orrêa, da E mbrapa: "Os processos nanotecnológicos reduzem desperdícios"
A nova fronteira da nanotecnologia aplicada ao agro mira produtos como bioestimulantes nanoestruturados capazes de ativar defesas naturais das plantas; nanocarregadores para RNA interferente – alternativa aos defensivos convencionais –; sistemas de entrega dupla, que combinam nutriente e defensivo em uma única aplicação; e a expansão dessas tecnologias para o setor florestal e a restauração ecológica. Questionado se a nanotecnologia também pode ser acessada pelo produtor de pequeno porte, Souza Corrêa pondera que, a depender da tecnologia, pequenos agricultores já podem se beneficiar, especialmente em soluções de menor custo voltadas à redução de insumos e ao aumento de produtividade.

COM JUROS AINDA ALTOS, CRÉDITO MAIS RESTRITO E COMMODITIES PRESSIONADAS, A COMPRA DE MÁQUINAS AVANÇA EM 2026 SEM PISAR
FUNDO – E DEPENDE DO SEGUNDO SEMESTRE PARA GANHAR TRAÇÃO
Por Ronaldo Luiz


Em 2026, o mercado de máquinas agrícolas deve avançar 3,4%, segundo estimativas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Não é um salto, mas um respiro – sustentado sobretudo pela perspectiva de queda dos juros. Ao mesmo tempo, o campo segue lidando com um ambiente menos amistoso: custos ainda elevados, crédito restrito, preços mais acomodados das principais commodities e a instabilidade geopolítica global, fatores que podem segurar a mão do produtor na hora de investir, mesmo com a previsão de mais uma safra cheia de grãos.
“Devemos ter um mercado parecido com o do ano passado. Soja e milho, culturas que juntas representam 60% dos produtores que adquirem máquinas e implementos agrícolas, estão com cotações pressionadas, o que impacta a rentabilidade da atividade. Ela não está negativa, mas reduz o apetite por novas compras”, diz o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA), Pedro Estevão Bastos de Oliveira. Ele acrescenta: “A Selic deve cair, mas provavelmente apenas a partir do segundo semestre”.
Uma nota técnica da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), com base em dados do Banco Central, mostra que a “carteira estressada” do crédito rural – que inclui atrasos, inadimplência e dívidas renegociadas –saltou de R$ 72,2 bilhões em julho de 2024 para R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025. O avanço de 71% no período revela uma deterioração
acelerada, concentrada principalmente nos últimos meses. Atualmente, cerca de 15% da carteira ativa de crédito rural no Brasil, estimada em R$ 812,7 bilhões, encontra-se sob algum tipo de estresse financeiro. A entidade aponta o nível elevado das taxas de juros como principal fator.
Por outro lado, o dirigente da CSMIA pondera que outras culturas – como café, algodão e citros –, com preços mais favoráveis ao produtor, têm maior potencial para movimentar os negócios no segmento de máquinas agrícolas. Pedro Estevão lembra ainda que, diferentemente de ciclos anteriores nesta época do ano, o Moderfrota, linha do Plano Safra voltada ao financiamento de máquinas, conta com recursos disponíveis. A avaliação do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers/RS) segue a mesma linha: avanço moderado, condicionado principalmente ao comportamento dos juros, à oferta de crédito e à renda do produtor rural. “A indústria já mostrou capacidade de reação em 2025, mas o avanço em 2026 dependerá diretamente do acesso ao crédito e do custo do financiamento. Juros elevados limitam a decisão de compra e adiam investimentos em modernização”, afirma a vice-presidente do Simers/ RS, Carolina Rossato. “Apesar do aumento das vendas no atacado, o mercado de máquinas agrícolas ficou abaixo da expectativa em 2025, reflexo da baixa rentabilidade do produtor rural, do elevado grau de endividamento e das altas taxas de juros, que impediram resultados melhores para o segmento”, acrescenta o presidente da Federação
A FROTA DE MÁQUINAS
AGRÍCOLAS PODE CRESCER
6% ATÉ 2030

Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), Arcelio Júnior.
No balanço mais recente da entidade, até novembro de 2025, as vendas de tratores registraram queda de 23,8% no mês e de 5,1% na comparação anual. “Ainda assim, o segmento segue positivo no acumulado do ano, com 48.673 unidades vendidas em 2025, alta de 16,5% em relação ao mesmo período de 2024. Os negócios foram puxados principalmente por modelos de menor porte, em sua maioria de até 100 hp”, ressalta o executivo.
Na categoria de colheitadeiras, as vendas em novembro de 2025 recuaram 10,8% no mês e 14,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior, totalizando 272 unidades. “No acumulado de 2025, porém, o desempenho permanece no azul, com 2.912 unidades vendidas, incremento de 7,5% frente às 2.710 unidades em igual período de 2024”, diz Arcelio Júnior. A Fenabrave esclarece que, por não serem emplacadas, as máquinas agrícolas têm seus resultados divulgados com um mês de defasagem, devido ao trabalho de coleta de dados junto aos fornecedores.
Pedro Estevão, da CSMIA, afirma que o consórcio pode funcionar como alternativa para o produtor contornar os juros elevados. Já a locação de máquinas, segundo ele, ainda carece de maturidade e permanece restrita a grandes grupos agrícolas, que dispõem de estrutura financeira para avaliar se compensa comprar ou alugar. “É uma parcela ainda pequena do mercado”, conclui.
A frota brasileira de máquinas agrícolas, atualmente estimada em 1,6 milhão de unidades, pode crescer 6% até 2030, alcançando 1,8 milhão, segundo o estudo Panorama Setorial de Máquinas Agrícolas no Brasil, da BIM³ –Boschi Inteligência de Mercado. O levantamento contempla tratores, colheitadeiras e pulverizadores autopropelidos – equipamentos com motor próprio. De acordo com o sóciodiretor da BIM³, Luís Vinha, a pesquisa priorizou grandes propriedades, que representam mais de 60% do total, e concentram maior número de máquinas por unidade produtiva. Isso permitiu detalhar aspectos como marcas, configurações, hábitos de pós-venda, padrões de uso e ciclos de renovação. O estudo também aponta tendência de crescimento da locação de máquinas e da contratação de prestadores de serviços, em substituição à aquisição direta. Atualmente, 11% das propriedades alugam tratores, 38% recorrem à locação de colheitadeiras e 19% utilizam pulverizadores alugados. “Essa realidade mostra que o produtor está disposto a buscar novas formas de acesso à mecanização para reduzir riscos e ampliar sua flexibilidade operacional, sem abrir mão da produtividade e da atualização tecnológica”, afirma Vinha.

DEPOIS DO BOOM E DA CORREÇÃO DE ROTA NOS ESTADOS UNIDOS E NA EUROPA, O MERCADO DE PLANT-BASED BUSCA UM NOVO FÔLEGO, COM AVANÇOS EM SABOR E TEXTURA
Por Romualdo Venâncio

udanças nos hábitos de consumo funcionam como bússola para a indústria de alimentos. Por isso, qualquer sinal de arrefecimento na demanda por produtos plant-based e por proteínas cultivadas em laboratório passou a ser acompanhado de perto pelo complexo agroindustrial de proteína animal – e não por acaso. Trata-se de um movimento com potencial para influenciar tendências no mercado global. Nesse cenário, a pergunta central é entender o que explica essa oscilação, qual é o seu tamanho real e se ela representa apenas um ajuste de rota ou uma virada mais duradoura.
Segundo a empresa de inteligência de mercado Spins, as vendas no varejo de alimentos à base de plantas cresceram de forma contínua nos Estados Unidos entre 2014 e 2022: o mercado saiu de US$ 2 bilhões para US$ 8,3 bilhões no período. A partir daí, a curva virou. Em 2023, o faturamento recuou 2,4%, para US$ 8,1 bilhões. E a projeção para 2024 apontava uma queda ainda mais acentuada, de cerca de 5%, levando o total para US$ 7,7 bilhões.
Para Camila Lupetti, especialista de Dados do Good Food Institute (GFI) Brasil, é legítimo afirmar que o hype em torno desse mercado perdeu força. O boom de 2018, marcado pela entrada de muitas empresas, pela proliferação de startups, por projeções otimistas e por ampla exposição na mídia, deu lugar, de algum tempo para cá, a um período mais sóbrio.
“Isso é normal, é o que chamamos de momento de acomodação”, diz Lupetti. “Quando olhamos de perto, dá a impressão de que as pessoas perderam o interesse, mas é uma adequação natural do mercado.” Essa visão é compartilhada pela líder de Marketing Estratégico para Food Manufacturing da Cargill, Ludmila Roseiro, que vê o mercado de alimentos plant-based em uma fase de correção de rota. “Existem vários sinais de tendências nesse sentido, e a Cargill lê esse cenário como a normalização de um mercado que saiu do momento hype”, afirma. Segundo Roseiro, a companhia olha para esse segmento com visão de longo prazo e enxerga que a demanda global de proteína como um todo, animal e alternativa, continuará crescendo “e exigirá múltiplas fontes”.
A Cargill atua no mercado de plant-based fornecendo ingredientes texturizados, emulsificantes, acidulantes, óleos e gorduras para a formulação de diversos alimentos alternativos a carnes, queijos e bebidas vegetais. A produção nacional é concentrada em Sorocaba, no interior de São Paulo, e voltada para ingredientes como pectina. Nos Estados Unidos e países da Europa e da Ásia, o foco está nas parcerias inovadoras com startups.

N o B rasil, a perspectiva é de expansão, porque há espaço para a convivência entre diferentes fontes de proteína

Na Europa, o segmento também perdeu fôlego em parte do continente. Segundo o Good Food Institute (GFI) Europe, na comparação entre 2023 e 2024, a Holanda registrou queda de 5,9% no valor das vendas e de 4,4% em volume. No Reino Unido, as vendas recuaram 4,1% em valor e 3,2% em volume. Esse movimento, porém, não é homogêneo: em países como França, Alemanha, Itália e Espanha, os alimentos
plant-based seguem em alta. Um dos motores do avanço tem sido o crescimento das marcas próprias das grandes redes varejistas, geralmente mais acessíveis, com destaque para as bebidas, sobretudo as alternativas ao leite.
Segundo a consultoria Mordor Intelligence, a perspectiva para o mercado europeu de alimentos e bebidas à base de vegetais segue positiva. A estimativa é que o setor some

US$ 5,77 bilhões em 2025 e alcance US$ 6,28 bilhões em 2026 – alta de 8,8%. No horizonte mais longo, a projeção é de chegar a US$ 9,56 bilhões em 2031. Para a consultoria, esse avanço é impulsionado pela expansão de dietas flexitarianas e veganas, e pela adoção, na União Europeia, de políticas de sustentabilidade mais rígidas.
O avanço do segmento também é puxado por investimentos de multinacionais para enfrentar dois gargalos clássicos dos alimentos à base de vegetais: sabor e textura, uma barreira que se repete em qualquer mercado. “Nem todo mundo consegue se adequar ao paladar, gostar da experiência sensorial”, afirma Lupetti, do GFI. Ela aponta ainda outros entraves relevantes para a indústria plant-based: “Muita gente não encontra o produto no ponto de venda, já que a distribuição não chega em todo lugar”.
No Brasil, a perspectiva também é de expansão, sobretudo porque há espaço para a convivência entre diferentes fontes de proteína. Lupetti observa que uma parcela relevante dos consumidores quer reduzir a presença de Tendências
O mercado plant-based abre oportunidades para o agronegócio brasileiro, porque as matérias-primas têm origem nas lavouras

carne vermelha na dieta, e os produtos plant-based podem preencher parte desse movimento. “Mas não dá para falar em uma substituição”, ressalta. Roseiro concorda e amplia o diagnóstico: no Brasil e em outros países emergentes, o mercado de alimentos à base de vegetais cresce ao mesmo tempo em que o consumo de proteína animal segue elevado. “Vemos espaço para crescimento nas duas frentes”, afirma.
A executiva da Cargill assegura que a expectativa da empresa em relação à demanda por produtos plant-based é de crescimento estrutural, mas com o consumidor bem mais exigente em relação a saudabilidade, naturalidade, funcionalidade e preço acessível. Segundo ela, esse movimento faz parte de uma mudança mais ampla, sob o conceito de comer menos por impulso e mais para viver bem por mais tempo. Nesse cenário, a proteína, incluindo a vegetal,

tem uma importância maior dentro de dietas cada vez mais personalizadas.
Embora essas linhas ainda representem um volume pequeno em comparação com outras categorias, a Cargill vem fazendo investimentos globais em parcerias e startups. “O desenvolvimento comercial ganhou tração com produtos como gorduras inovadoras, impulsionado pela demanda flexitariana e por sustentabilidade, com crescimento da comercialização de ingredientes B2B para soluções para hambúrgueres, queijos veganos e bebidas UHT”, diz Roseiro.
O avanço das proteínas alternativas abre espaço também para setores que orbitam a indústria de alimentos. A JBT Marel, fornecedora de soluções para diferentes segmentos industriais, tem ampliado sua aposta nesse mercado. A lógica é direta: a expertise acumulada no processamento de proteína animal pode ser

muitos anos" ©
aplicada na produção de alimentos à base de plantas para aproximar sabor, textura e aparência do produto convencional.
Para William Neiva, gerente de Vendas da Indústria da companhia, o segmento de bebidas tem avançado mais rapidamente do que os análogos de carne. “Mas ainda vejo o mercado de carne de maneira bem positiva. Temos grandes projetos no Brasil, só não posso falar a respeito ainda, por uma questão de confidencialidade”, diz. Na visão do executivo, a consolidação deve ficar mais nítida no médio prazo. “Nos próximos cinco ou dez anos, esse mercado deve se consolidar melhor. A questão da sustentabilidade estará muito na pauta, assim como vem acontecendo em relação aos carros elétricos, que estão ganhando espaço. Neiva é adepto do conceito de complementaridade entre os setores de proteína, colocando como prioridade o propósito de poder alimentar muito mais gente. “Não se trata de uma disputa entre as proteínas”, diz. “Precisamos nos unir para alimentar mais pessoas.”
Esse cenário também abre oportunidades para o agronegócio brasileiro. A maior parte das matérias-primas usadas nos plant-based vem das lavouras – e poucos países têm a escala do Brasil. “O Brasil é um gigante agrícola, principal produtor global de soja, há grandes oportunidades”, afirma Lupetti. Ela ressalta que, desde a criação do GFI, a abordagem nunca foi de substituição. “Não é uma coisa ou outra. Vemos o agro como parceiro, porque é o fornecedor de matéria-prima e ingredientes. Quanto mais cedo entrar nesse mercado, mais tem a ganhar.”
Paralelamente ao crescimento dos alimentos à base de vegetais e de outras proteínas alternativas, ganha força uma disputa menos tecnológica e mais simbólica: a da nomenclatura. A utilização de termos como “carne” e “leite” em produtos vegetais é alvo de questionamentos, sob o argumento de proteger as cadeias de proteína animal e evitar que o consumidor seja induzido ao erro. Já para os produtores de plant-based, restringir esses nomes pode criar um obstáculo desnecessário na comunicação – e, na prática, dificultar a compra. “É difícil explicar um hambúrguer sem falar que é hambúrguer”, afirma Lupetti.
Desde que o Ministério da Agricultura e Pecuária abriu uma consulta pública sobre o tema, o termo “análogo” passou a ganhar força como alternativa para rotular os alimentos à base de plantas, como “bebida vegetal análoga ao leite” ou “produto análogo à carne bovina”. Independentemente de como a regulamentação venha a evoluir, há um ponto de convergência: a indústria de alimentos, como um todo, precisa ser transparente e informar com clareza o que o consumidor está comprando, incluindo composição nutricional, origem e processo de fabricação. Isso exige também cuidado com a apresentação e com as embalagens, para evitar confusão no ponto de venda, seja quando uma bebida de castanhas adota visual muito semelhante ao do leite de vaca, seja quando um produto lácteo fermentado se aproxima demais, no formato, do iogurte tradicional.
"A inteligência artificial deixou de ser uma promessa para se tornar o principal vetor de competitividade e eficiência no campo"

POR MARCO RIPOLI*
Estamos diante da maior transformação estrutural do agronegócio desde a mecanização e a revolução verde. A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa futurista para se tornar o principal vetor de competitividade, eficiência e poder econômico no campo. Mais do que uma nova tecnologia, a IA está redefinindo quem decide, quem produz, quem captura valor e quem lidera cadeias globais de alimentos. Trata-se de uma mudança silenciosa, porém profunda, que desloca o eixo de poder do físico para o digital, do operacional para o estratégico.
No agro moderno, a vantagem competitiva já não está apenas na posse da terra, no clima favorável ou na escala produtiva. Ela reside na capacidade de coletar dados, interpretá-los em tempo real e transformá-los em decisões automatizadas, prescritivas e cada vez mais autônomas. O campo tornou-se um ambiente digital, conectado e orientado por algoritmos, onde cada operação gera informação e cada informação, quando bem utilizada, gera valor econômico mensurável.
A IA avança rapidamente em frentes críticas: previsão climática de alta precisão, monitoramento de lavouras via sensores, drones e satélites, identificação precoce de pragas e doenças, pulverização seletiva, manutenção preditiva de máquinas, precificação dinâmica e otimização logística. O impacto combinado dessas aplicações é significativo: redução de riscos, maior previsibilidade operacional, uso racional de insumos e aumento consisten-
te de produtividade. O resultado é uma agricultura menos reativa e mais preditiva, menos baseada em intuição e mais orientada por inteligência aplicada.
Empresas globais já demonstram, na prática, o impacto dessa revolução. Sistemas de visão computacional reduzem drasticamente o uso de defensivos, plataformas digitais integram dados agronômicos e financeiros em tempo real, e máquinas autônomas começam a operar em ambientes antes impensáveis. A IA não apenas reduz custos e aumenta produtividade: ela redefine modelos de negócio, cadeias de valor e relações de poder dentro do agro, aproximando o setor de uma lógica típica da economia digital.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição singular. Poucos países combinam escala produtiva, diversidade de culturas, clima desafiador e capacidade de adoção tecnológica como o agro brasileiro. Essa complexidade transformou o País em um verdadeiro laboratório global de Inteligência Artificial aplicada à agricultura, onde soluções precisam nascer mais robustas, adaptáveis e escaláveis.
Empresas brasileiras deixaram de ser apenas usuárias de tecnologia para se tornarem desenvolvedoras de soluções de classe mundial. Veja alguns exemplos:
• Solinftec: construiu uma das plataformas de IA agrícola mais avançadas do mundo. Sua inteligência operacional conecta máquinas, clima, solo e pessoas, gerando recomendações prescritivas em
*Marco Ripoli é Ph.D. em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.
S istemas de visão computacional reduzem drasticamente o uso de defensivos agrícolas nas lavouras

tempo real. O robô Solix e a ALICE AI antecipam falhas, reduzem perdas e transformam dados em decisões automáticas em larga escala, especialmente em operações complexas como cana-de-açúcar, grãos e fibras.
• Strider: nascida no Brasil, tornou-se referência global em monitoramento inteligente de pragas, doenças e plantas daninhas. A IA reduz aplicações desnecessárias, antecipa surtos e eleva o nível de precisão do manejo agrícola, com impacto direto em custos, sustentabilidade e produtividade.
• Aegro: aplica inteligência artificial à gestão financeira e operacional da fazenda, integrando dados técnicos e econômicos. O resultado é um produtor mais
estratégico, orientado por dados e com maior controle de risco, margem e retorno sobre capital investido.
• Ecotrace: usa IA para garantir transparência, certificação e acesso a mercados internacionais, automatizando processos que antes eram lentos, caros e sujeitos a falhas humanas.
• Embrapa: como ativo estratégico nacional, vem incorporando IA em projetos de zoneamento agrícola, fenotipagem digital, genética e análise de grandes bases de dados, conectando ciência de ponta com demandas reais do setor produtivo e fortalecendo a soberania tecnológica do País.
As iniciativas acima mostram que o Brasil não apenas produz alimentos em
Q uem domina algoritmos controla a previsibilidade da produção, além dos custos e fluxos comerciais

escala, mas começa a exportar inteligência agrícola, um ativo cada vez mais valioso no cenário global.
Historicamente, o controle da produção de alimentos sempre foi sinônimo de poder. O que muda agora é que, no século 21, a soberania alimentar passa necessariamente pela soberania digital. Quem controla dados, algoritmos e plataformas de decisão controla a previsibilidade da produção, os custos, os fluxos comerciais e, em última instância, a segurança alimentar.
A Inteligência Artificial tornou-se o novo eixo geopolítico do agro global. Países e empresas que dominarem IA aplicada à agricultura terão vantagem estrutural sobre aqueles que apenas produzem commodities. Não se trata apenas de produzir mais, mas de produzir com inteligência, previsibilidade, eficiência de capital e controle estratégico.
O risco estratégico é claro: quando os dados agrícolas, os modelos preditivos e os sistemas de decisão ficam concentrados em poucas plataformas globais, pro-
dutores e países tornam-se dependentes. A disputa já não acontece apenas nos campos, mas nas camadas invisíveis do software, da governança de dados e da propriedade intelectual.
Por isso, a adoção de IA no agronegócio precisa ser tratada como estratégia corporativa e política pública. Investir em inteligência própria, ecossistemas de inovação, interoperabilidade e capacitação de pessoas é investir em autonomia, competitividade e poder econômico sustentável.
A provocação final é inevitável: no agro do futuro, eficiência sem inteligência própria será apenas uma nova forma de dependência. Quem dominar a Inteligência Artificial no campo não apenas produzirá alimentos, mas definirá preços, influenciará mercados e exercerá poder real em escala global.
No século 21, não haverá soberania alimentar sem soberania digital. E o agro que não entender isso a tempo ficará fora do centro das decisões que moldarão o futuro do planeta.
O agro não para.
R ota alemã
Tradições trazidas da antiga Pomerânia moldam a identidade de Pomerode (SC), onde língua, arquitetura e gastronomia alemãs viraram um chamariz turístico
Um campo para o melhor da cultura

Um campo para o melhor da cultura
Com tradições mantidas pelos descendentes de imigrantes da antiga Pomerânia, a cidade de Pomerode, em Santa Catarina, atrai pela boa gastronomia e pelos passeios familiares
Por André Sollitto
Oalemão tem um jeito muito metódico”, diz o guia turístico Silvio Bodenmuller, da agência Gertrud Wagen. Ele se refere não apenas aos seus antepassados, que saíram da região da antiga Pomerânia, localizada no norte da Polônia e da Alemanha, na costa sul do Mar Báltico, para se estabelecer em Santa Catarina, mas também a si próprio e aos habitantes da cidade de Pomerode. Não à toa, o município, próximo a Blumenau, é considerado o “mais alemão do Brasil”. Lá, a cultura, a língua, a arquitetura e a gastronomia alemãs, especialmente aquelas da antiga Pomerânia, são motivo de orgulho entre os moradores, mas também representam um dos atrativos turísticos da charmosa cidade.
Pomerode fica a 175 quilômetros de Joinville, capital catarinense, e é conhecida pelo forte setor industrial, responsável por mais de 50% do PIB local. É um dos municípios mais bem cotados em termos de qualidade de vida e igualdade social do País, e aparece como segundo melhor para se morar em Santa Catarina, atrás apenas de Luzerna, segundo o Índice de Progresso Social (IPS) de 2025. Pelo menos 99% das crianças são alfabetizadas, e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,78, acima da média nacional. Tem um setor de serviços forte e um turismo crescente. Fica ainda em uma região do estado com forte produção agrícola. Quem sai de Curitiba ou São Paulo e encara a viagem mais longa, ou mesmo aqueles que descem em Joinville, passa pela Rodovia do Arroz, onde é possível ver os campos alagados dos produtores do grão.
O turismo em Pomerode tem forte vocação familiar e cultural. Ao
A o longo do ano, a cidade recebe eventos que reforçam suas raízes germânicas ( abaixo ). Na foto menor, a C asa R adunz, construída em 1932 e que faz parte da última leva de residências enxaimel


longo do ano, a cidade recebe eventos que reforçam suas raízes germânicas e movimentam a economia local. Na Páscoa, o município se transforma em um grande cenário temático, com direito ao maior ovo de Páscoa decorado do mundo, reconhecido pelo Guinness Book. Em outubro, a proximidade com Blumenau faz de Pomerode uma alternativa charmosa para quem visita a Oktoberfest e prefere se hospedar em um destino mais calmo. É, também, uma cidade que muitos visitam em um único dia. Os viajantes param para almoçar, tomam um café, conhecem algum ponto turístico e vão embora. Os parques temáticos, como a Vila Encantada, com dinossauros em tamanho real, e o Alles Park, com neve artificial o ano inteiro, atraem famílias com crianças. Os museus do Brinquedo e do Automóvel, instalados lado a lado, são interessantes pelo aspecto nostálgico.
O grande dilema da cidade está em expandir o turismo ou se manter fiel às raízes. Muitos temem que a instalação de mais hotéis e a ampliação da infraestrutura para receber um fluxo maior de visitantes possam prejudicar as características da cidade e afetar o estilo de vida local. Por outro lado, ao incentivar quem vem de fora a ficar mais tempo, a cidade deve receber mais recursos e, assim, o turismo passaria a representar uma parcela ainda maior do PIB local.
O principal destino turístico é a Rota do Enxaimel, percurso tombado como patrimônio paisagístico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e reconhecido como uma das “Melhores Vilas Turísticas” do mundo pela ONU. O nome é uma referência a uma técnica de construção que foi trazida pelos imigrantes alemães. Consiste em uma estrutura de madeira montada por meio de encaixes, usando um sistema de cavilhas e
espigas, sem pregos. Essa estrutura robusta é preenchida com tijolos ou outros materiais. Tem uma característica visual marcante, preservada em algumas das residências da região.
É o caso da Casa Radünz, construída em 1932 e que faz parte da última leva de residências enxaimel, já com varanda incorporada ao imóvel, mas com a distribuição tradicional dos cômodos, com sala e quarto na parte da frente e cozinha nos fundos. O interior foi mantido com a mobília e a decoração original da família, e é um dos melhores exemplos preservados desse estilo arquitetônico. A propriedade passou por uma reforma recente, e os donos oferecem um passeio pela fazenda e vendem produtos feitos lá, como doces, licores e embutidos.
A rota proporciona ainda outros atrativos. O Clube Cultural XV de Novembro é uma Sociedade de Tiro, ou Schützenverein, uma antiga tradição da Alemanha. Na época, era uma forma de preparar os jovens para o correto manuseio das armas com o objetivo de defender a comunidade em uma eventual guerra. Mais tarde, viraram centros sociais onde os moradores se encontravam para festejar e manter costumes vivos. Hoje, a cidade de Pomerode tem 15 Clubes de Caça e Tiro, com as disputas de Rei e Rainha do Tiro, que reconhecem os melhores atiradores.
O percurso oferece ainda uma outra parada interessante na fábrica de chocolates Nugali. Vale a pena fazer o tour pelo processo de fabricação, que inclui uma degustação dos chocolates em diferentes etapas – do cacau puro, bastante amargo, aos chocolates zero açúcar feitos para quem tem alguma restrição alimentar. Na saída, uma lojinha oferece o portfólio completo da marca.
Há quem não se interesse por nenhum elemento histórico e está disposto a viajar
M useu do Automóvel e dança tradicional alemã: o grande desafio de P omerode é expandir o turismo, que movimenta boa parte do pib local, e, ao mesmo tempo, se manter fiel às raízes alemãs


D esfile do C lube C ultural XV de N ovembro: centro social onde os moradores do município se encontram para festejar e manter os costumes antigos vivos

até Pomerode para comer. A cozinha alemã é o ponto forte da experiência gastronômica local. Entre as opções estão confeitarias famosas, como a Torten Paradies, conhecida pelos doces de inspiração germânica, ou o Wunderwald, restaurante típico que serve um famoso café colonial. Outro destaque é o Biergarten Pomerânia. Desde que foi inaugurado, em 2022, o espaço se tornou um destino turístico local. Ocupa um casarão histórico, a Residência Passold, que foi reformada, mas manteve todos os atributos originais. A área de lazer, com espaço para crianças, música ao vivo, mesas na área externa e a competição do caneco, em que homens e mulheres competem para ver quem consegue segurar por mais tempo um copo de cerveja de um litro sem dobrar o braço – o recorde atual, de mais de 10 minutos, é feminino – são parte do apelo.
Mas é a cozinha do chef alemão radicado no Brasil Heiko Grabolle que atrai tanta gente. Segundo o chef, a proposta é apresentar o conceito dos Biergärten alemães, mais moder-
nos e informais. O menu é enxuto, com pizzas compridas conhecidas como Flammkuchen, salsichas e o tradicional Hackepeter, bolo de carne crua e temperada, servido com pão ou fritas. Entre os pratos principais, o mais pedido é o Einsbein, joelho de porco que passa por sete tipos de cocção, começando com a carne fresca, fornecida por um parceiro local, e que passa por diferentes temperaturas até ser finalizado na cozinha do restaurante. Chega à mesa com chucrute e Spätzle, um tipo de massa alemã. De sobremesa, o Apfelstrudel é feito de acordo com a receita do chef Grabolle.
Como em toda cidade com forte imigração alemã, há ótimas cervejas artesanais. A Pomerânia, que fornece todo o chope do Biergarten, é uma opção, com visitas guiadas à fábrica, além da Schornstein, uma das pioneiras do movimento artesanal no Brasil, que tem uma loja de fábrica e um restaurante no centro. Assim, entre o orgulho das raízes e a tentação de crescer, Pomerode segue fiel ao seu jeito – metódico, acolhedor e cada vez mais disputado.
S aquê sem fronteiras
A bebida japonesa de arroz avança nas exportações, entra nos restaurantes estrelados e ganha novos apreciadores no Ocidente
A
grande feira mundial do estilo e do consumo

As regiões produtoras do mundo
A tradicional bebida japonesa feita à base de arroz amplia sua presença em mercados internacionais, entra de vez nas cartas de restaurantes estrelados e desperta o interesse de degustadores ocidentais
DPor André Sollitto
epois de passar quase 30 anos como chef de cave da Dom Pérignon, o francês Richard Geoffroy poderia ter optado pela aposentadoria. O posto é o mais importante da região de Champagne, e cada chef de cave é responsável por preservar a qualidade e o perfil sensorial de alguns dos espumantes mais cobiçados do planeta – uma função exigente e de enorme responsabilidade. Geoffroy, no entanto, decidiu iniciar um novo projeto. Em suas inúmeras viagens ao Japão, apaixonou-se pelo saquê, a tradicional bebida fermentada à base de arroz, e resolveu produzir seus próprios rótulos, aplicando conhecimentos adquiridos ao longo de décadas na elaboração de vinhos na França. Assim nasceu a marca IWA, que começa agora a ser vendida no Brasil, inserida em um movimento mais amplo de valorização do saquê e de renovado interesse ocidental pela bebida milenar.
O fenômeno é global. Um relatório divulgado em 2025 pela OhBEV, consultoria especializada na análise do mercado de bebidas alcoólicas, aponta que as exportações de saquê mantiveram trajetória ascendente em 2024, com aumento aproximado de 6% em valor e volume em relação ao ano anterior. Segundo dados do setor, o total exportado alcançou US$ 283 milhões e 3,4 milhões de caixas de 9 litros. O preço médio por garrafa de 750 ml ficou em torno US$ 6,61, sinalizando a crescente demanda por rótulos premium nos mercados internacionais. Hoje, o Brasil é o 17º maior importador da bebida, entre 80 países que recebem rótulos japoneses. Dados da Associação de Produtores de Saquê do Japão indicam que, entre 2019 e 2023, as importações cresceram 59% em valor e 33% em volume, e que o Brasil responde por 78% do consumo de saquê em toda a América Latina. Produzido a partir da fermentação de diferentes variedades de arroz, o
O chef francês R ichard G eoffroy e seu time da I wa, marca recém-chegada ao B rasil: ele resolveu criar seus próprios rótulos após se apaixonar pela bebida do Japão




saquê é considerado a bebida mais simbólica do Japão e foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Existem diversas classificações, que variam conforme a qualidade e o método de produção. O saquê comum, elaborado com o mesmo tipo de arroz usado na alimentação, é menos nobre do que as versões premium, nas quais se emprega a técnica do polimento do grão. Máquinas removem impurezas da parte externa do arroz e preservam o amido. Para que um rótulo seja considerado premium, é necessário um polimento mínimo de 30% – o que significa que apenas 70% de cada grão é aproveitado.
O ginjo passa por polimento de 40% e fermenta em baixas temperaturas, preservando a delicadeza do grão. A versão superior, o daiginjo, tem polimento de 50% e é produzida em tempe-
raturas ainda mais baixas, o que prolonga a fermentação. Há também uma classificação relacionada à adição, ou não, de álcool destilado. O honjozo recebe adição de álcool, enquanto o junmai é feito apenas com o álcool proveniente da fermentação do arroz. Um junmai daiginjo, portanto, é considerado, em teoria, o melhor saquê elaborado por cada produtor.
Conhecer essas nomenclaturas ajuda, mas está longe de ser essencial para apreciar a bebida – especialmente em um momento em que restaurantes de prestígio, com estrelas em guias internacionais, passaram a incluir o saquê em suas cartas e, sobretudo, em menus harmonizados. Hoje, é mais fácil encontrar bons saquês artesanais e de pequenos produtores em restaurantes japoneses. O Kanoe, do chef Tadashi Shiraishi, é o único a oferecer o IWA no Brasil, além de
P rocesso de produção do saquê ( à esq. ) e um dos rótulos da I wa: bebida foi reconhecida como Patrimônio C ultural da H umanidade

outros rótulos selecionados. “Antes, as pessoas pediam vinho ou traziam suas próprias garrafas, mas hoje há uma mudança clara e muitos já preferem o saquê”, conta o chef.
No Miyabi, novo endereço em Pinheiros, em São Paulo, cuja proposta é oferecer gastronomia japonesa sem glúten, a harmonização do menu omakase – em que o chef define a sequência de pratos – fica a cargo da sommelière Camila Braz, responsável também pelo salão e pela hospitalidade. Ela trabalha com produtores, regiões e estilos variados, além de servir a bebida em diferentes temperaturas. Em casas mais tradicionais, como o Murakami, do chef Tsuyoshi Murakami, há rótulos exclusivos trazidos por importadores parceiros e disponíveis apenas no restaurante. Outros estabelecimentos também passaram a incluir saquê em suas cartas, como o
Ping Yang, dedicado à gastronomia tailandesa e conhecido pela picância, ou o Tuju e o Evvai, restaurantes contemporâneos com duas estrelas no Guia Michelin, que apostam em harmonizações mais ousadas.
Parte do fascínio dos sommeliers pelo saquê está em sua versatilidade. Assim como o vinho, ele pode apresentar diferenças de textura, untuosidade e acidez, além de aromas frutados ou florais, e variar do seco ao mais macio. Ao contrário do vinho, porém, pode ser servido frio ou quente, e a temperatura altera completamente a experiência. Aquecido a pouco mais de 40 graus, por exemplo, revela aromas lácteos e acidez mais pronunciada. Cada rótulo reage de maneira distinta, e explorar essas nuances é parte do encanto.
No Brasil, essa mudança de percepção é
A ssim como o vinho, o saquê apresenta diferenças de textura, untuosidade e acidez, além de aromas frutados ou florais

significativa. O País é um produtor relevante da bebida, graças à grande comunidade japonesa que se estabeleceu aqui, e abriga a segunda mais antiga fábrica de saquê fora do Japão, a Azuma – antiga Azuma Kirin. Durante muito tempo, no entanto, o fermentado de arroz era visto apenas como acompanhamento para sushi e sashimi ou como base de coquetéis, em especial a “saquerinha”, versão da caipirinha em que o saquê substitui a cachaça. Raramente era apreciado sozinho, como a bebida complexa que é.
A transformação tem movimentado o mercado de importadores. Se antes poucas opções chegavam ao Brasil, hoje existem diversas lojas especializadas que trazem mais de 100 produtores japoneses distintos. A maioria está baseada em São Paulo, como a Mega Sake, de Fabio Ota, condecorado com o título de Sake Samurai – distinção concedida àqueles que promovem a cultura da bebida fora do Japão. Ele fornece rótulos para restaurantes como o Miyabi e também vende diretamente ao consumidor final. A Adega de Sake e a Nishiki Sake são outras importadoras especializadas, com catálogos
amplos. Há ainda eventos dedicados à bebida, como o Festival do Saquê, em que o visitante paga para entrar e pode degustar diversos rótulos, conhecendo melhor seus próprios gostos. É uma prática comum no mundo do vinho e que começa a ganhar espaço também entre produtores e importadores de saquê.
Apesar do bom momento, persistem algumas barreiras. O preço é uma delas. É raro encontrar uma garrafa de 720 ml de boa qualidade por menos de R$ 200, e os melhores rótulos costumam custar entre R$ 400 e R$ 500, o que restringe o público disposto a investir. A disponibilidade também pesa. Nos supermercados, predomina a oferta de saquês nacionais, embora as lojas especializadas façam envios para todo o País. A própria nomenclatura, muitas vezes com rótulos inteiramente em japonês, é outro obstáculo. Se já é desafiador navegar pelo universo do vinho, com suas uvas e regiões, no caso do saquê a língua adiciona uma camada extra de complexidade. Quem decide ultrapassar essas barreiras, no entanto, costuma se encantar – e dificilmente volta atrás.
C ampo digital
Cada vez mais, a Inteligência Artificial promete elevar a produtividade, reduzir custos e aumentar a sustentabilidade da produção rural
As inovações para o futuro da produção

As inovações para o futuro da produção
CAMPO AVANÇA NO USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PARA TRANSFORMAR DADOS EM DECISÕES, UM CAMINHO
PROMISSOR QUE AINDA EXIGE MATURIDADE DIGITAL E MUDANÇAS CULTURAIS
OPor Lucas Bresser e Giovanna Arruda
agronegócio brasileiro vive um momento de profunda transformação tecnológica. Num setor historicamente associado à escala e à produtividade, a fronteira competitiva agora está na capacidade de capturar, organizar e interpretar dados coletados no campo, trazendo deles insights úteis para decisões de manejo, logística e estratégias de mercado. Essa mudança, impulsionada pela inteligência artificial (IA), promete elevar a produtividade, reduzir custos e aumentar a sustentabilidade da produção rural – mas traz desafios estruturais que precisam ser atacados para que todo seu potencial seja realizado.
Hoje, o uso de IA no campo vai muito além de conceitos futuristas. A tecnologia está presente em soluções que organizam grandes volumes de dados gerados por sensores IoT, imagens de satélite, máquinas agrícolas, sistemas de conformidade e plataformas de gestão, transformando-os em informações que orientam o dia a dia das operações agrícolas. Segundo estimativas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o uso de IA pode aumentar a produtividade agrícola em até 20% e reduzir perdas por pragas e eventos climáticos em até 30%, ganhos que se traduzem diretamente em competitividade e sustentabilidade.
Na prática, isso significa que sistemas de inteligência artificial associados a outras ferramentas tecnológicas conseguem identificar padrões invisíveis ao olho humano, antecipar riscos climáticos ou sanitários, recomendar momentos ideais de irrigação ou aplicação de insumos, e até planejar logísticas de colheita e escoamento com base em tendências de consumo e variáveis ambientais. “A inteligência artificial
N ovos estudos mostram que o uso de ferramentas de IA geram ganhos na produção e reduzem gastos com insumos



no agro funciona melhor quando é aplicada de forma prática e integrada à rotina do produtor”, diz Maria Flávia Tavares, economista, doutora em Agronegócios e sócia da MFT Consultoria. “Ela gera valor quando entrega soluções claras e aplicáveis no dia a dia.”
Um dos pilares dessa transformação são as startups e agtechs brasileiras que já ofertam soluções com IA integradas à rotina do produtor. A Solinftec, por exemplo, tem se destacado com plataformas e robôs autônomos que capturam dados em tempo real e podem reduzir drasticamente o uso de herbicidas, enquanto aumentam a produtividade em lavouras como as de soja. Estudos de caso mostram ganhos de até 18% na produção e redução abrupta de insumos graças à tecnologia. “No campo existem muitas variáveis acontecendo ao mesmo tempo, e é exatamente nesse ambiente complexo que a inteligência artificial se
destaca”, diz Henrique Nomura, diretor de Tecnologia da Solinftec. “O papel da IA não é apenas organizar dados, mas transformar esse fluxo contínuo de informações em decisões práticas, no tempo certo.” Da mesma forma, empresas como a Agrosmart desenvolvem plataformas que cruzam informações de clima, solo e histórico de produção para oferecer orientações em tempo real sobre manejo e uso de recursos, ajudando o produtor a tomar decisões baseadas em dados e não em intuição.
No trabalho zootécnico, plataformas como a JetBov, utilizada para gestão de fazendas de pecuária de corte, exemplificam como a IA vem sendo impulsionada para organizar dados, consolidando indicadores produtivos, econômicos e ambientais em sistemas que facilitam a gestão de pastagens e o planejamento de ganho de peso e rentabilidade no longo prazo. “O maior potencial está na transformação da gestão da
A baixo e à esquerda, identificação de frutos, troncos e folhagens com a ajuda de imagens produzidas pela inteligência artificial


pecuária em um processo cada vez mais ágil, previsível e eficiente”, diz Xisto Alves, CEO da JetBov. “A IA amplia a capacidade de análise do produtor, reduz incertezas e contribui para decisões mais assertivas, tudo isso em uma velocidade muito mais rápida, o que impacta diretamente na produtividade, rentabilidade e na sustentabilidade do negócio.”
Além das startups, grandes empresas de tecnologia estão trazendo suas soluções para o agronegócio. A SAP, líder global em plataformas de gestão empresarial, integra IA em seus sistemas voltados ao campo, com ferramentas que combinam machine learning, big data e análise preditiva para ajudar cooperativas e produtores a agregar informações de operações, finanças e cadeia logística em painéis inteligentes. Essas plataformas corporativas permitem cruzar dados históricos de produção com variáveis externas – como clima e preços de
commodities –, gerando insights que antes eram capturados apenas por meio de experiência ou análises fragmentadas. Elas também ajudam a padronizar dados de campo e transformar registros dispersos em indicadores estratégicos de desempenho.
A experiência da Bayer, uma das gigantes do setor, também ajuda a mostrar como a inteligência artificial ganha tração quando combinada a conhecimento agronômico centrado na jornada do produtor. Segundo Ricky Wu, líder de Novos Programas e Projetos em Agricultura Digital da multinacional, o valor da IA no agro não está em relatórios estáticos, mas na capacidade de transformar dados de qualidade em decisões práticas no dia a dia do campo. “Não basta apresentar tabelas: é preciso mostrar quais decisões esses dados orientam”, afirma. Na prática, plataformas como o FieldView utilizam IA para cruzar informações de maquinário,
O s sistemas de IA identificam padrões invisíveis ao olho humano e são capazes de antecipar riscos climáticos

T hiago S antos, da E mbrapa digital: "A aplicação da IA começa com a captura de dados" © Divulgação

telemetria, clima e solo, permitindo desde a identificação de estresse hídrico por talhão até a predição de produtividade e o risco de pragas nas semanas seguintes. Wu salienta, no entanto, que a integração entre múltiplas fontes de dados depende de iniciativas de open innovation. “Não existe uma solução única que cubra toda a jornada do agricultor”, diz.
Esse movimento de transformação de dados em decisões práticas também avança dentro da pesquisa pública. Na Embrapa, a inteligência artificial já faz parte da rotina de pesquisadores e analistas, apoiando desde atividades cotidianas de pesquisa até aplicações avança-
das, como reconhecimento de padrões em imagens, predição de safra e análise de uso e cobertura da terra. Segundo Thiago Santos, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, modelos de IA vêm sendo treinados para tarefas específicas que exigem análise de grandes volumes de dados, algo inviável sem automação e aprendizado de máquina.
Na prática, a aplicação da IA na Embrapa segue um fluxo que começa na coleta criteriosa de dados no campo e termina na geração de recomendações com base científica. “O processo se inicia com a captura de grandes volumes de dados por sensores e imagens embarcados em

veículos, drones e estações climáticas, além do uso intensivo de imagens de satélite”, diz Santos. Esses dados são organizados em conjuntos específicos para o treinamento de modelos, que passam por testes rigorosos de desempenho e acurácia antes de serem aplicados. De acordo com o pesquisador, os principais casos de uso hoje envolvem visão computacional para detecção de padrões em lavouras e rebanhos, robótica para automação agrícola, assistência técnica e extensão rural digital e modelos de previsão climática. “É pela comprovação de ganhos reais – como economia de defensivos, redução de riscos e ganhos logísticos – que
produtos e serviços baseados em IA conquistam a confiança do produtor”, diz.
O valor da IA na gestão de dados do campo está tanto em ganhos operacionais imediatos quanto em planejamento estratégico de longo prazo. No curto prazo, produtores relatam reduções de 15 a 25% nos custos operacionais quando as soluções de IA são integradas às rotinas de gestão de fazendas, porque decisões passam a ser baseadas em informações precisas e em tempo real. Em grandes propriedades, isso se traduz em melhor gestão dos recursos hídricos, uso mais preciso de fertilizantes e defensivos, detecção antecipada de

doenças e ataques de pragas, e previsões mais confiáveis de produtividade. Esses fatores impactam diretamente na rentabilidade e na resiliência das operações frente às oscilações climáticas e mercadológicas.
Segundo Eduardo Vitiello, diretor associado da consultoria Accenture para as indústrias de Químicos e Agronegócios, quando se considera a cadeia do setor como um todo, desde o produtor até a chegada do produto ao varejo, a IA também pode ajudar em conformidade regulatória, documentação e soluções de rastreabilidade. “A IA generativa pode simplificar o processo com registro automatizado e monitoramento em tempo real dos processos e
aprimorar a rastreabilidade dos insumos, defensivos e alimentos, garantindo transparência e responsabilidade na cadeia de suprimentos”, diz Vitiello.
Apesar do entusiasmo e dos casos de sucesso, a adoção plena de IA no campo brasileiro ainda enfrenta barreiras estruturais que precisam ser atacadas em conjunto por setor público, iniciativa privada e universidades. “O maior desafio é transformar tecnologia em valor real no campo, de forma simples, confiável e integrada à operação diária. Não adianta uma IA sofisticada se ela não se encaixa na rotina do produtor, do operador ou da gestão”, diz Nomura, da Solinftec.

Um dos fatores preponderantes é a qualificação técnica. Levantamentos realizados no Brasil mostram que menos de um terço das empresas no agronegócio tem conseguido superar a falta de mão de obra qualificada para operar e interpretar ferramentas digitais complexas. A transição digital exige profissionais que entendam tanto de campo quanto de tecnologia, uma lacuna que hoje é preenchida de forma insuficiente.
Outro ponto que precisa ser enfrentado é a integração de dados e infraestrutura. Dados coletados em diferentes plataformas e formatos muitas vezes não se “conversam”, dificultando a criação de visões holísticas do negócio. É preciso
R obô S olix, criado pela startup S olinftec: com visão computacional, ele coleta imagens do campo e monitora o cultivo em tempo real

Jacqueline O liveira, consultora da E xagro: "A IA traz mais agilidade na tomada de decisão"
melhorar protocolos de interoperabilidade e governança de dados para que as informações fluam e gerem insights verdadeiramente integrados. Por fim, a conectividade também é um ponto crítico. A baixa qualidade de internet em áreas rurais limita a transmissão e análise em tempo real de dados coletados por sensores, criando gargalos que reduzem o valor das tecnologias mais avançadas.
“O apetite do setor é crescente, porém não se deve esperar um milagre”, diz Jacqueline Oliveira, zootecnista e consultora da Exagro. “É preciso entender que a IA pode, sim, trazer mais facilidade na geração de insights e mais agilidade na tomada de decisões. A partir disso é que esse
E quipamento da E mbrapa em ação: a IA avançada já faz parte da rotina de pesquisadores e analistas

movimento ganhará ainda mais força.” Para Maria Flávia Tavares, o interesse em relação à inteligência artificial cresce rapidamente, mas ainda é acompanhado de cautela. “O produtor adota de forma gradual, focando em soluções que tragam ganhos claros, enquanto as empresas avançam de maneira mais estruturada. O fator decisivo continua sendo ver resultados concretos na prática”, diz a consultora.
A experiência de produtores que já adotaram IA mostra que a tecnologia, por si só, não é suficiente: é necessário mudar processos de decisão, culturas organizacionais e habilidades profissionais. O futuro competitivo do agronegócio brasileiro está na sinergia entre ferramentas digitais avançadas e capacitação humana, com foco em interpretação de dados, soluções colaborativas e agilidade no uso de insights. Esse movimento representa uma evolução da chamada agricultura de precisão para um modelo de gestão mais inteligente, no qual dados passam a ser um ativo estratégico para o setor.

B ola dividida
A Copa do Mundo de futebol abre uma janela para o agro brasileiro ganhar mais espaço, mas o caminho passa por tarifas e tensão geopolítica
As regiões produtoras do mundo

As regiões produtoras do mundo
A COPA DO MUNDO NOS ESTADOS UNIDOS, NO
E NO MÉXICO
Por Romualdo Venâncio
Apartir de 11 de junho, seleções masculinas de futebol de 42 países estarão espalhadas por Estados Unidos, Canadá e México para a disputa da 23ª edição da Copa do Mundo da Fifa. O desafio dos atletas brasileiros, agora sob o comando do técnico italiano Carlo Ancelotti, começa bem antes de pisarem em qualquer estádio, pois lidam com o peso da desconfiança e do tabu de 24 anos desde a última conquista de título. A seleção pentacampeã embarca para essa jornada abraçada pela torcida, mas também pressionada por olhares cabreiros. Já fora das quatro linhas, o clima é outro. Quando o assunto é “entrar em campo” no sentido figurado – competir por mercado, investimento e influência –, o agronegócio brasileiro chega à Copa com expectativas mais altas, especialmente diante das nações anfitriãs. Ainda assim, não faltam bolas divididas nesse jogo.
A química que surge da mistura entre paixão e entretenimento, durante esse período festivo, gera curiosidade e aquece o consumo, fazendo da Copa do Mundo uma valiosa vitrine para os produtos das cadeias agropecuárias e agroindustriais. “Como já fiz em várias Copas, eu sugiro que as empresas do Brasil aproveitem o momento para divulgar o agronegócio, nossa carne, os biocombustíveis e tantos outros produtos”, afirma o coordenador do Centro de Agronegócio da FGV-EESP, Roberto Rodrigues. “Eu entendo que seja caro fazer propaganda em um evento como esse, mas é uma grande oportunidade.”
O ex-ministro da Agricultura tinha 16 anos quando o Brasil foi campeão pela primeira vez, em 1958, na Suécia, e foi tão marcante para ele
Sede da maior parte dos jogos, os EUA ocupam uma posição estratégica como o segundo maior parceiro comercial do Brasil

que ainda se lembra da escalação completa daquele time, nome a nome, com reserva e tudo. Para quem acompanhou todas as cinco vezes em que a seleção levantou a taça, é compreensível que não esteja tão esperançoso. “Não vamos ganhar a Copa, porque o time é fraco”, diz Rodrigues, com um sentimento bem distinto do permanente entusiasmo com que enxerga as possibilidades para as cadeias agropecuárias. “Mas o time do agro é muito forte, é campeão.” E, nesse caso, não parece ufanismo de torcedor.
O palco principal da competição serão os Estados Unidos, que receberão 78 jogos – incluindo a final. E esse protagonismo se repete fora de campo: no comércio, o país é o segundo maior parceiro do Brasil, peça central nas trocas
e nos interesses bilaterais. “Os Estados Unidos ficam atrás apenas da China em termos de volume, mas lideram em número de empresas exportadoras no geral, são mais de 10 mil companhias”, afirma o gerente-geral da ApexBrasil, Igor Brandão. “A representatividade também é maior em número de micro e pequenas empresas que conseguem exportar.”
No caso específico dos produtos do agronegócio, os Estados Unidos são uma chance rara de o Brasil sair do meio-campo onde já marca presença – e chegar ao ataque, ganhando espaço e valor nas prateleiras e nas cadeias industriais. No ano passado, as exportações totais do agro brasileiro somaram US$ 169,2 bilhões, e os Estados Unidos representaram 6,7% desse montante, com US$ 11,4

A Copa amplia a exposição do agro brasileiro, mas o tarifaço de D onald T rump endurece a disputa nos mercados da América do Norte
bilhões, conforme dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Só em carne bovina, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o Brasil enviou para o mercado norte-americano 278,8 mil toneladas em 2025, com faturamento de US$ 1,64 milhão. Esses resultados são superiores aos de 2024, em 21,3% e 21,5%, respectivamente.
A disputa ganhou novas dimensões quando o presidente norte-americano, Donald Trump, em uma estratégia de contra-ataque, resolveu reforçar sua defesa com taxações a produtos de diversos segmentos e de vários países. A ação começou no dia 2 de abril do ano passado, e foi chamada pelo governante de Liberation Day (Dia da Libertação). Por aqui, a iniciativa protecionista
foi batizada de “tarifaço”. Em um primeiro momento, os produtos brasileiros foram taxados em 10%. No dia 9 de julho, veio o anúncio de que esse pedágio subiria para 50%.
Além de as tarifas distorcerem o comércio global, a imprevisibilidade em relação aos próximos passos do governo norte-americano é um fator de risco. “As regras de comércio internacional estão sendo gradualmente abandonadas e há uma dificuldade grande em se prever a próxima ação de Trump”, diz o professor e pesquisador do Insper Agro Global, Leandro Gilio. Embora o governo brasileiro tenha conseguido driblar a questão diplomática com os Estados Unidos, fazendo com que algumas taxas fossem revistas e até suspensas,

DIVERSIFICAR PORTFÓLIO E AGREGAR VALOR
Ajuda a ganhar terreno e mostra que o repertório de boas jogadas é bem maior do que se pensa.
SUSTENTABILIDADE E RASTREABILIDADE
Provar que o time joga dentro do regulamento é importante para garantir o respeito dentro e fora do campo.
SEGURANÇA ALIMENTAR Quanto mais gente no estádio bem alimentada, melhor o espetáculo. Aqui, a única fome permitida é de bola – e de vitória.
INTELIGÊNCIA COMERCIAL Boas informações são decisivas para montar o plano de jogo e fazer as melhores escolhas tanto no ataque quanto na defesa.
DEFESA SANITÁRIA E HABILITAÇÕES É preciso ter as melhores condições para receber qualquer partida, de qualquer campeonato.
BARREIRAS TARIFÁRIAS E MEDIDAS
UNILATERAIS Se o adversário reforça a defesa, é preciso aprimorar o ataque.
COMPLIANCE AMBIENTAL E SOCIAL Estar em dia com as regras da partida e atento às cobranças da torcida é importante para entrar e sair bem de campo.
SANIDADE E QUALIDADE Aqui não existe milagre nem atalho: qualquer problema extracampo precisa ser encarado com seriedade e tratado até o fim – para ser, de fato, resolvido.
A falta de jogadas dá ao adversário tempo e espaço para fechar o cerco, esfria a torcida e ainda desvaloriza a equipe.
CÂMBIO E CUSTOS LOGÍSTICOS É com planejamento financeiro e gestão profissional do negócio que os grandes times conquistam títulos.


A aproximação com os canadenses deve abrir espaço para produtos do agro com valor agregado, como massas, chocolates e vinhos

I gor B randão, da A pex B rasil: mais de 10 mil empresas brasileiras exportam para os E stados U nidos
o Brasil e o agro continuam sob o radar estratégico dos norte-americanos.
Reflexo disso é a investigação aberta recentemente por meio da Seção 6705 da Lei de Inteligência dos Estados Unidos, e aprovada pelo Congresso de lá, sobre os investimentos da China no agro brasileiro. O objetivo é que seja feita uma avaliação detalhada dessas negociações. “Isso não cria restrições diretamente, mas, a depender da necessidade em curso, pode construir base narrativa e técnica para sustentar medidas futuras como tarifas e outras sanções”, diz Gilio. Segundo o pesquisador, isso é um sinal de alerta. “Indica que o Brasil ainda permanece sob o foco do movimento geopolítico dos Estados Unidos e sua relação de embate com a China.”
Quanto mais os Estados Unidos abrem mão da política da boa vizinhança, mais seus vizinhos
N ovo programa criado pelo governo mexicano pode beneficiar a indústria brasileira de biocombustíveis

Roberto R odrigues, da FGV:
" Fazer propaganda em um evento como esse é uma oportunidade"
demonstram interesse em negociar com outros países. Segundo Brandão, Canadá e México estão sedentos por novos parceiros. “E aí o Brasil se torna estratégico”, afirma. O gerente da ApexBrasil diz haver o interesse dos canadenses em um acordo comercial com o Mercosul, com a expectativa de que seja um processo mais curto, sem a demora que se viu com a União Europeia. A negociação com os europeus, agora assinada de fato, desperta os olhares de outras nações.
Do ponto de vista de abertura de mercado, trata-se de um bom momento para intensificar a relação com o Canadá, que receberá 13 jogos da Copa do Mundo, mesmo número de partidas que acontecerão no México. A aproximação com os canadenses deve abrir espaço para commodities como açúcares e café, mas, principalmente, para produtos do agro com valor agregado, a exemplo de massas, chocolates, vinho, cachaça e casta-
nhas. “Nesse último item entram ainda as barrinhas de cereais, em vários tipos e formatos”, diz Brandão. “Os consumidores pagam por esses itens mais sofisticados.”
Os canadenses também demandam produtos florestais e carnes, cadeias do agro brasileiro já bem consolidadas e bastante competitivas no mercado global. O Canadá é um importante fornecedor de insumos para o Brasil, em especial o potássio, elemento essencial para a nutrição das lavouras. “As importações vindas do Canadá cresceram muito a partir da guerra entre Rússia e Ucrânia, que gerou incertezas quanto ao abastecimento desse e de outros insumos”, afirma Gilio.
A relação com os mexicanos, que já havia ganhado novas dimensões em 1970, está ficando ainda mais estreita. Foi no Estádio Azteca, na Cidade do México, que o Brasil conquistou a Copa do Mundo pela terceira vez naquele ano. É essa mesma arena que vai receber o jogo de abertura da competição, com os anfitriões recebendo a África do Sul. Além da proximidade pelo futebol, mexicanos e brasileiros têm outros interesses comuns que abrem caminho para o avanço do agro brasileiro.
Um exemplo é o programa governamental Paquete Contra la Inflación y la Carestia (Pacic), que busca estabilizar os preços de 24 itens da cesta básica, mantendo a isenção de tarifa de importação para produtos como frango, peixes, frutas e hortaliças. Outros itens perderam esse benefício e voltarão a ser taxados, como carnes bovina e suína, tilápia, embutidos, leite e derivados, arroz com casca e feijão.
Até mesmo iniciativas para estimular e valorizar a produção local do México acabam favorecendo o agro brasileiro. O Plan México –Estrategia de Desarrollo Económico Equitativo y Sustentable para la Prosperidad Compartida contém uma série de ações de descarbonização da economia. “Essa iniciativa abre espaço para adição do etanol e desperta o interesse não só para a indústria de combustível, mas também para toda a cadeia de tecnologia de biocombustíveis”, diz Brandão.

O gerente da ApexBrasil vem acompanhando de perto as negociações envolvendo México e Brasil em torno dos biocombustíveis. Brandão acompanhou a missão do governo brasileiro junto ao parceiro latino, em agosto de 2025. Naquela oportunidade, em meio a jogadas de toques curtos e lançamentos em profundidade, foram fechadas parcerias para ampliar a cooperação no setor e em outros segmentos da agropecuária, além de envolver o fortalecimento comercial e a atração de investimentos. “Isso tudo significa ampliação de mercado e oportunidade para o agro”, afirma.
Com a tabela de jogos em mãos, cabe aos técnicos do agro brasileiro desenhar uma estratégia vencedora, com espírito competitivo e um bom repertório de jogadas para aproveitar esse momento. Sempre tendo em mente que a disputa também pode ser acirrada. “Ainda segue desafiadora a busca pelo fair play no campo geopolítico”, afirma Gilio.

Análises Terminal
DATAGRO Markets
DATAGRO
Por Plínio Nastari, Presidente da DATAGRO e Sergio Balaban, Chefe de Gabinete do Senador Fernando Farias (MDB-AL)
Odesenvolvimento do setor sucroenergético em tempos modernos foi marcado pela diversificação da produção de açúcar na direção do etanol com o advento do Programa Nacional do Álcool, na década de 1970. O grande desafio era, naquela época, desenvolver um mercado novo, e balancear a produção à demanda. Deslocar o tradicional consumo de gasolina pelo etanol, trouxe desafios enormes. Na Comissão Nacional de Energia (CNE), durante os anos de 1985-86, discutiu-se muito quais seriam os limites de crescimento da demanda de etanol, à luz do sucesso de mercado das vendas de veículos a etanol, que chegaram a representar 92 porcento das vendas totais de veículos de passageiros e comerciais leves nos anos 1980. Ao longo do tempo, e superando vários obstáculos e com resiliência, em 2025 o setor sucroenergético brasileiro registrou a marca de 45,6 porcento, nível que já chegou a 48,4 porcento em 2019. Não há país em todo o mundo que tenha logrado atingir tal grau de substituição. A esse número se soma a substituição de 15 porcento do diesel fóssil por biodiesel, e o crescente uso do biogás e biometano. Um dos resultados
mais marcantes da COP-30, realizada em Belém, Pará, em 2025, foi a proposta de quadruplicar a produção global de biocombustíveis sustentáveis, e o Brasil dá um enorme exemplo nessa direção.
Na década de 1980, o grande fundamento do setor de açúcar no mundo não era o Brasil, era Cuba, que chegou a produzir mais de 8,5 milhões de toneladas do produto, e era também o seu maior exportador. Na safra 1985/86, o Brasil produziu 7,82 milhões de toneladas, e exportou 2,5 milhões de toneladas. Passadas 4 décadas, em 2025/26 a produção de Cuba caiu para apenas 120 mil toneladas, e passou importar mais de 500 mil toneladas para abastecer o seu mercado interno. O Brasil deverá encerrar a safra 2025/26 produzindo 36,63 bilhões de litros de etanol, dos quais 10,04 bilhões de litros de etanol de milho, e 43,81 milhões de toneladas de açúcar, das quais 33,96 milhões de toneladas para exportação. O Brasil diversificou sua produção sucroenergética não só com o etanol, mas também com a bioeletricidade, a extração de levedura, e mais recentemente o etanol de segunda geração, o biogás e o biometano, além da venda de bagaço
in natura e em pellets. Na exportação de açúcar, o Brasil responde por ¾ do volume de açúcar em bruto comercializado no mercado livre mundial, e é hoje o seu mais relevante fundamento.
Todos esses avanços foram possíveis em grande parte pela capacidade do Brasil administrar o seu mix de produção, dependendo dos preços relativos de açúcar e etanol. O Brasil sucroenergético não atua como uma força ou ação unificada. Sua ação representa a soma de decisões microeconômicas de todos agentes em mercado. Esse fato distingue o setor sucroenergético brasileiro da maior parte dos outros países produtores, que tem mercados parcial ou totalmente isolados por barreiras comerciais de importação ou, ainda, preços administrados pelos governos, o que faz com que a ação de seus produtores seja influenciada, ou determinada total ou em parte por essas políticas.
Alterações no mix de produção tem permitido aos produtores brasileiros arbitrarem os mercados de açúcar e de etanol (na verdade o preço da gasolina fixado pela Petrobras, que tende a seguir a paridade de importação, na maior parte do tempo), e consequen -
temente tem trazido uma maior estabilidade aos preços do açúcar no mercado internacional ao atenuar o efeito de variações no balanço de oferta e demanda causadas por questões climáticas e efeitos econômicos em outras partes do mundo. A variação no mix de produção tem sido significativa, e seu impacto na oferta dos produtos também, considerando a escala de produção atingida pelo Brasil.
A variação na oferta de etanol tem sido absorvida pelo mercado de etanol hidratado, que funciona como uma esponja capaz de absorver mais ou menos volume dependendo dos preços relativos entre etanol hidratado e gasolina (misturada com etanol anidro) aos consumidores.
A novidade é a crescente produção de etanol de milho, e sua relativa competitividade com o etanol de cana, visto que seu custo é basicamente determinado pelos preços do milho, dos coprodutos DDG/DDGS e óleo de milho, e da biomassa energética utilizada como energia para o processamento.
A produção de etanol de milho começou modesta, com 41 milhões de litros na safra 2014/15. Em 2025/26, a DATAGRO estima uma produção de 10,04 bilhões de litros, e considerando os projetos em construção e em planejamento já anunciados projeta um volume de 27,0 bilhões de litros em 2034/35.
Algumas usinas de cana-de-açúcar tem demonstrado preocupação com esse ritmo de expansão, e a possibilida-
de do mecanismo de ajuste de mercado através da alteração no mix de produção perder o seu efeito. Sim, pode ser que o mix como sistema de ajuste perca parte de sua influência. Mas é preciso reconhecer que foi a expansão do etanol de milho que permitiu ao setor sucroenergético expandir a sua produção de açúcar, capturar o valor gerado com a expansão da sua exportação, ao mesmo tempo em que se manteve o volume consumido de etanol hidratado, e foi possível ampliar a mistura de etanol anidro na gasolina para 30 porcento, projetando a possibilidade de se atingir 35 porcento.
Para o etanol de milho, a competitividade depende dos créditos gerados pelo DDG/DDGS e óleo de milho, e do custo da biomassa. O desafio é manter o valor do DDG e do óleo em níveis razoáveis, à medida em que amplia a oferta, e controlar o crescente custo da biomassa, que há 6 anos era de 60 reais por metro cúbico de cavaco de eucalipto, e atualmente já chega a mais de 200 reais por metro cúbico em algumas regiões. O sucesso do etanol de milho está intimamente ligado ao sucesso das exportações de carne bovina, mercado em que o Brasil se tornou em 2025 o maior produtor e exportador mundial. A abertura do mercado da China e de outros países estratégicos, para o DDG brasileiro é, portanto, um fator a ser acompanhado.
Mas o que mais chama atenção é a possibilidade do etanol atingir novos importantes mercados, pela substituição
do bunker fuel no transporte marítimo, e o seu processamento para a produção de combustível sustentável de aviação (SAF) através da tecnologia alcohol-to-jet. Neste aspecto, o mercado mais promissor e de maturação mais rápida será provavelmente o do bunker. No curto prazo, apenas uma companhia marítima internacional seria capaz de absorver 3 bilhões de litros por ano. No conjunto, é um mercado potencial de 225 milhões de toneladas, ou 281 bilhões de litros por ano.
Para que o setor sucroenergético alcance esses novos patamares será fundamental a união de esforços entre os produtores de etanol de cana e de milho, até porque o modelo de produção de etanol misto, que combina cana e milho, é muito promissor ao viabilizar o uso de bagaço e palha de cana como biomassa para a industrialização do milho, além de usar equipamentos e utilidades já disponíveis no setor de cana, ampliando a safra e reduzindo custos fixos unitários.
Não está distante, portanto, o momento em que, no Brasil, o etanol estará substituindo mais de 50 porcento do consumo de gasolina, e que a oferta interna de energia supere 50 porcento de energia renovável observados em 2024. Estes serão feitos extraordinários que irão elevar ainda mais o País como exemplo e campeão mundial na substituição de combustíveis fósseis por renováveis de baixa intensidade de carbono segundo a avaliação do ciclo de vida.



