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por Gabriela Piske

Orientação: Profª Msc. Liza Lopes Corrêa


Aos meus pais, Denise e Marcelo, por caminharem comigo em todos os passos que dou e por me ensinarem o valor dos sonhos, da vida e do amor. Ao meu v么zinho e eterno anjo da guarda, que foi meu porto seguro durante 17 anos e continua sendo as minhas asas a cada v么o.


SUMÁRIO

PREFÁCIO: FACES DA SOLIDARIEDADE ..........................................................................6 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................8 O MAR DE TODO MUNDO .................................................................................................. 11 O VALOR DO QUE NÃO SERVE MAIS .............................................................................. 18 OLHOS EMPRESTADOS....................................................................................................... 24 CAMINHOS DO BEM ............................................................................................................. 32 AGRADECIMENTOS.............................................................................................................. 34


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Prefácio

FACES DA SOLIDARIEDADE Conheço Bilo, João e Maurina. Três pessoas normais, que, à primeira vista, tem suas famílias, seus compromissos, seus costumes, como você e eu. Pessoas vividas, com histórias que, por si, já renderiam um texto cada. Um bom texto! Mas basta conversar um pouquinho com cada um sobre seus projetos para ver que estas três pessoas fogem do “normal”, comparados com o que é nossa sociedade hoje. Penso que um adjetivo mais adequado para cada um deles é especial. Para Maurina Doracy Pera, João Nirto Diel e Waldemar Wetter Neto – perguntar por Bilo utilizando este nome não é uma boa ideia se precisar encontrá-lo – não basta simplesmente viver suas vidas. Em algum momento, por algum motivo, estes três seres humanos perceberam que com um pouco de seu tempo, dedicação e com as qualidades que tinham, poderiam dar esperança a outras pessoas. Dar a oportunidade de uma vida digna, independente, mostrar um caminho bom. Cada um encontrou uma maneira de ajudar, de se doar, e hoje tem como atividade primária a aplicação mais pura da palavra solidariedade. Eu diria que estes três colocam em segundo plano suas vidas no momento em que seu próximo se mostra em necessidade. Três pessoas que resumem características das quais a sociedade é extremamente carente. Sei que para eles é um orgulho fazer parte deste livro, não por vaidade, mas por saberem que existe a grande possibilidade de alguém ler e querer ajudá-los, ou começar a fazer o bem por alguém de seu próprio jeito. A futura jornalista diplomada – já jornalista de alma – Gabriela Piske se propôs a conhecer estas pessoas e contar suas ricas 6


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Prefácio

histórias. Se envolveu com seus projetos para conhecê-los e poder descrever tudo o que viu, sentiu. E de sentimento, pode ter certeza, este livro está recheadíssimo. Porque é impossível conhecer estas histórias e não se envolver com pensamento e emoção. Finalizado este livro, peça à Gabriela que defina em uma palavra o que pensa sobre João, Maurina e Bilo. Eu duvido que ela consiga fazer isto depois de ver tudo o que viu nos últimos meses quando os conheceu e conheceu alguns daqueles que são ajudados por eles. Peça o mesmo para mim, que conheço os três de formas diferentes. Eu já escrevi que são pessoas especiais, e digo ainda que eles são exemplos para todos nós. Mas, mesmo assim, ainda acho pouco, não me sinto satisfeito. Mas, depois de ler estas histórias, imagine qual seria a resposta de uma pessoa que é ajudada por um dos três. Entre tantas coisas boas que você ouviria, não me surpreenderia em nada se alguém dissesse que são anjos. Guilherme Flores1

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Guilherme Oliveira de Mattos da Silva Flores é Jornalista formado pela Universidade do Vale do Itajaí.

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Introdução

INTRODUÇÃO

“A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana.” (Franz Kafka)

Waldermar Wetter Neto, Maurina Doracy Pera e João Nirto Diel. Dependendo do seu círculo de amizade, você provavelmente nunca ouviu estes nomes e sobre estas pessoas. Mas, é bem provável que em algum dia da sua vida, você tenha conhecido ou presenciado histórias relacionadas à solidariedade e à ajuda ao próximo. Ou quem sabe, tenha sido personagem na narrativa da vida real de fazer o bem. Se nada disso ainda não aconteceu, chegou o momento. A origem etimológica da palavra solidariedade vem do latim, através do étimo solidarium, que significa inteiro, compacto1. Nos dicionários, o termo solidariedade quer dizer “qualidade do que é solidário; dependência mútua; reciprocidade de obrigações e interesses; condição grupal resultante da comunhão de atitudes e sentimentos, de modo a constituir o grupo unidade sólida, capaz de resistir às forças exteriores e mesmo de tornar-se ainda mais firme em face da oposição vinda de fora”2. A solidariedade faz parte da vida humana e está, inclusive, inserida na Carta Magna que rege o nosso país, onde se estabelecem e registram os direitos e deveres de todo cidadão, com o objetivo de formar um Estado Democrático. O Art. 3º da Constituição do Brasil de 1988, implantado dentro dos Princípios Fundamentais, registra: “I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”3. O sentimento de solidariedade não está envolvido com hereditariedade nem com a biologia do ser humano. Entretanto, ele sempre esteve presente nas vivências em sociedades, dentro da formação de tribos. O indivíduo necessita pertencer a grupos, o que auxilia para que 1

ROSSO, Paulo Sergio. Solidariedade e direitos fundamentais na constituição brasileira de 1988 Dicionários Aurélio e Michaelis online. Disponível em: http://www.webdicionario.com e http://www.michaelis.uol.com.br 3 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm 2

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Introdução

ele desenvolva atitudes de partilha, união, preocupação social e cidadania com outros indivíduos. Além disso, ser uma pessoa solidária depende, prioritariamente, dos traços da personalidade de cada um. A formação do caráter é individual e se constrói ao longo da vida, portanto, são as características próprias das pessoas que vão definir o grau de solidariedade. “De acordo com os perfis dos seres humanos, uns vão desenvolver mais o sentimento de solidariedade e outros nem vão desenvolver”, destaca Maria Celina Lenzi, psicóloga e professora da Universidade do Vale do Itajaí. Maria Celina também ressalta que solidariedade não é o mesmo que assistencialismo, bem como não significa voluntariado. Apesar de que muitas vezes um ato complementa o outro, o primeiro vai além do que o simples estender a mão ao próximo. A solidariedade resgata o sujeito, proporciona que ele busque a sua autonomia, faz com que ele se torne protagonista da sua própria história. Ou seja, vai ao encontro da cidadania. Enquanto o assistencialismo dá o auxílio de forma paternal, para apenas ajudar. E o voluntariado, fica no meio termo. Pode vir junto do sentimento solidário e da assistência. As histórias que você verá a seguir neste livro mostram práticas que envolvem os três conceitos. Porém, comprova que a solidariedade é muito mais do que fazer assistencialismo e do que o trabalho voluntário. Ela envolve o íntimo e o sentimento do ser humano, move a busca pela igualdade, promove o bem e, principalmente, transforma vidas.

Solidariedade para a vida

Escrever sobre solidariedade, para mim, foi como falar de amor. Afinal, não é possível haver solidariedade sem também existir o amor. Os dois se completam e estão entre os sentimentos mais puros e belos que o ser humano pode ter. Quando decidi que seria com esse tema que eu me envolveria profundamente durante alguns meses da minha rotina, eu já tinha a certeza que o resultado final seria de extrema gratificação. O jornalista tem um dom, o de contar histórias da vida real. Cabe ao jornalista sair às ruas, desbravar estradas, conhecer as mais variadas pessoas e transformar em palavras, com tamanha verossimilhança, as narrativas que presenciou. A solidariedade está na alma de tantas histórias que precisam ser passadas adiante para que novas histórias sejam criadas. Ela não pode parar, tem de continuar pelos caminhos da sociedade e atrair cada vez mais envolvidos. 9


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Aliás, que tal você se envolver também? Então vire as próximas páginas e conheça Waldemar, Maurina e João, e suas histórias de solidariedade.

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ônibus amarelo para no estacionamento público à beira da praia. Em questão de

segundos, 13 crianças descem as poucas escadas do automóvel e rumam em direção à

areia, entre sorrisos nos lábios e como se apostassem corrida com elas mesmas. A partir daí, a rotina da vida dá um pause por um tempo e abre espaço ao sonho. Embaixo de uma barraca estão as pranchas de surf, agrupadas conforme os tamanhos. Num canto há as grandes, estilo Longboard1, e no outro lado se empilham as menores, propícias às práticas de bodyboard2. Todas com as cores que compõem um arco íris e na espera por companhia. Junto delas está aquele por quem uma a uma das crianças cumprimenta. - E aí, garoto! - Oi, Bilo! Após os apertos de mão, abraços e beijos, o cara vestido de calção de banho amarelo e camiseta básica em tom azul Royal, com “professor” registrado nas costas, aplica a tarefa inicial: - Ninguém entra na água! Vamos primeiro alongar e catar os lixinhos da praia. Assim acontece. As crianças saem em busca de objetos e sujeiras deixados pela areia, frutos da má educação do ser humano, e levam até os sacos de lixo espalhados pela orla de Balneário Camboriú, em Santa Catarina. Depois de alguns minutos, Bilo finalmente as libera para o que mais desejam: entrar no mar. Nos braços, elas então carregam as pranchas de Longboard rumo à água. Entre as ondas, as crianças desafiam a natureza, e são elas que ganham a competição. Em poucos instantes, ao olhar para o mar, é possível vê-las de pé, manobrando junto às quebras, com sentimento de que são profissionais, daqueles que rodam o mundo em busca das ondas perfeitas. Para elas é o mundo da imaginação.

É preciso sonhar

As águas catarinenses, e especialmente as ondas, foram somente dele em 1985. Waldemar Wetter Neto, o Bilo, mostrou entre as fortes ondas da Praia da Joaquina, no leste da 1

Uma das maiores pranchas de surf. No caso de iniciantes, facilita pela estabilidade. Modalidade semelhante ao surf, mas em que o atleta pega as ondas deitado. Devido ao tamanho das crianças e ao fácil manuseio, as pranchas podem ser usadas também em pé. 2

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ilha de Florianópolis, que veio ao mundo para viver, intensamente, o surf. Ele, que brincava com a prancha e a maré desde pequeno, aos 23 anos levantou a taça de campeão da 3ª Copa Catarinense de Surf. Bilo nasceu em 1962, na cidade de Blumenau, no Vale do Itajaí, mas cresceu em meio ao mar de Balneário Camboriú, graças à casa do avô no município, que era o ponto principal de todas as férias escolares. No início da década de 70, aos oito anos, suas raízes se solidificaram em definitivo na praia que já lhe pertencia. Ele e a família foram de mudança para o novo lar. E nas águas salgadas de BC ele se realizou. Diversos empregos fizeram parte do cotidiano de Bilo, passou por representante comercial, comerciante, balconista e recepcionista de rede hoteleira. Foi um adolescente imaturo, como ele mesmo se define. Mas o surf sempre o acompanhou. E quando percebeu que tudo o que fazia não era o suficiente para complementar sua vivência, enxergou que só havia uma ocupação que o deixaria feliz: surf. Entre campeonatos, vitórias e manobras nas águas, consagrou-se como um dos importantes nomes de surfistas catarinenses. Muitas ondas pelo Brasil a fora, e até mesmo pelo mundo, Bilo enfrentou durante o tempo como profissional. Porém em 1997, decidiu fincar para sempre os pés nas areias de BC, e sem esquecer o surf, claro. Nasceu, então, a Escola de Surf do Bilo. A partir daí, em todos os verões que se sucederam, durante a alta temporada da praia mais badalada do sul do país, centenas de pessoas puderem compartilhar dos ensinamentos de um dos pioneiros da prática desse esporte em Santa Catarina. Mesmo com a rotina regada à busca das ondas perfeitas e a trabalhar com o surf, para Bilo ainda faltava realizar um sonho, o de popularizar esse esporte. A idealização de que ele não fosse praticado somente pela sociedade que possui aquisição financeira – afinal, os equipamentos custam valores não tão acessíveis –, mas sim, também pela população em geral, por aqueles em que a realidade não condiz com a maioria dos habitantes de Balneário Camboriú, por exemplo. Através da escola de surf, Bilo alimentou ainda mais esse sonho, e um dia surgiu a ideia: dar aulas para crianças e adolescentes que não têm a possibilidade de praticar esportes como esse. Mas para fazer acontecer, faltavam apoiadores, e o professor foi atrás. Em 2005, duas alunas de Bilo se tornaram fundamentais para esse projeto nascer. Após conversas com Claudia Werner e Simone Werner, o sonho chegou até o então presidente da Unimed Litoral,

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Claudio Werner, pai e marido delas, respectivamente. As parcerias se firmaram e foi criado o Surf Comunitário. O projeto ganhou vida no dia 01 de maio de 2006 e, até 2012, cerca de 350 crianças e adolescentes, de sete a 14 anos, foram alunos de Bilo. A princípio, a seleção de quem participaria era feita através das escolas de Balneário Camboriú e Camboriú. Coordenadores de ensino buscavam entre os matriculados, aqueles com perfis mais delicados, como por exemplo, com carência financeira e dificuldades de aprendizado. A partir de 2008, devido a impasses das unidades escolares na realização das escolhas, o Surf Comunitário ganhou o apoio da Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social. O Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil (Peti), ligado à Secretaria, passou a ser o responsável pela seleção dos alunos. A prioridade se tornou as crianças que já participavam dos serviços e trabalhos desenvolvidos pelo Peti. A origem delas também mudou. Antes vinham de todas as escolas dos dois municípios, mas com a entrada do Programa no projeto, a área de abrangência passou a ser os bairros Monte Alegre e Conde Vila Verde, localidades com alto índice de criminalidade de Camboriú. Comunidades que vivem realidades totalmente distintas daquela que está a somente cerca de dois quilômetros de distância, em BC – o município das festas, dos luxos e do turismo.

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O cabelo crespo, em tom castanho escuro, preso em um rabo de cavalo; os olhos também castanhos; a pele morena; o corpo magro, com pequenas curvas que sinalizam a passagem da criança para a puberdade; vestida com uma calça amarela e blusa regata na mesma cor, apenas com tonalidades diferentes. Yasmin3, aos 11 anos, abre sorrisos quando está no mar. Sai da água com a prancha junto de si e vai ao encontro da mãe, Viviane, de 37 anos. Da areia, após uma caminhada pela orla, ela observa os filhos, a caçula, Yasmin, e o mais velho de 13 anos, Yuri. Viviane cuida das ruas, das praças, dos bairros de BC; cuida da casa, dos filhos. Trabalha como gari pela Secretaria de Obras e trabalha como mãe. Sempre que pode, acompanha a aula dos filhos e aproveita para se exercitar pela areia. Elogia Bilo, “admiro

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O sobrenome de Yasmin, assim como os de todas as outras crianças e familiares citados neste livro foram preservados.

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muito o professor pelo seu trabalho e sua paciência com todas as crianças”. Agradece a oportunidade do esporte, do contato com o mar, que suas crianças receberam. Se sente grata pelo sonho delas que se tornou realidade, sonho que nunca pode pagar. Reconhece as mudanças que o surf proporcionou a Yasmin e Yuri. Melhoras nas notas, no convívio com as pessoas. A mãe dá graças a Deus, principalmente, pelos filhos terem esses momentos de saída da rotina, de brincadeira, de aprendizado. A partir de março de 2012, as aulas se tornaram ainda mais importantes para os dois. São ocasiões para auxiliar na superação da perda do pai, o homem da família, que se enforcou diante deles.

Aulas para a vida

Histórias semelhantes à de Yasmin e Yuri se repetem no cotidiano das crianças e adolescentes de Monte Alegre e Conde Vila Verde. Pais presos, irmãos problemáticos, familiares mortos por bandidos ou que decidem tirar a própria vida, tráfico de drogas na família, maus-tratos. Fragmentos da realidade em que vivem os alunos de Bilo. Na cidade vizinha – a praia que recebe milhões de turistas na alta temporada de verão e que está tão próxima como se fosse apenas um bairro ao lado –, a maioria das crianças cresce em meio ao bom estudo, roupa de marca e mesada. Tornam-se jovens e ganham carro, têm acesso facilmente ao ensino superior e passam a ir às festas mais badaladas da região. Mas em Camboriú, muitos dos que se criam em Monte Alegre e Vila Verde têm de enfrentar obstáculos a cada dia apenas para sobreviver. Nestas duas comunidades é preciso driblar as drogas, a pobreza, a criminalidade. Monte Alegre, por exemplo, é o bairro que possui o maior índice de homicídios. Em 2011, dos 31 ocorridos em Camboriú, 23 foram lá. Dentro de casa as dificuldades são frequentes ser abandonado pela mãe, o pai estar entre as celas do presídio e morar apenas com os irmãos, como é o caso do pequeno Luiz Felipe, de oito anos. Mas nas ruas o perigo está sempre à espreita. As aulas de surf passaram a ser refúgios, oportunidades de sonhar, de acreditar num futuro melhor. E esses encontros viraram ensinamentos para a vida. Muito mais do que simples brincadeiras no mar, os alunos aprendem lições valiosas. A convivência é o ponto chave; enquanto estão em grupos, a forma de se relacionar com as pessoas é trabalhada 15


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constantemente. Durante a prática do esporte, a disciplina e a superação de desafios são fatores essenciais para ultrapassar a quebra do mar e ficar de pé diante das ondas – fatores para enfrentar as dificuldades da vida. O respeito ao próximo, o comprometimento com o estudo e a obediência são outras atitudes ensinadas às crianças através do surf. Se houver briga com o colega, nota baixa ou algum mau comportamento, a consequência será um dia sem fazer o que mais gostam: surfar. Além disso, o estudo é fundamental para garantir a continuidade nas aulas. As crianças precisam estar na escola e manter as notas acima da média. Esta é a condição para participar do projeto O meio ambiente também não é esquecido pelo Surf Comunitário. A importância da preservação e de pequenos atos é relembrada antes de cada encontro, quando todos recolhem os micro lixos deixados pela areia. O projeto se estende ainda para passeios culturais, realizados frequentemente. No turno em que não estão na escola, as 38 crianças continuam em aprendizado através de atividades socioeducativas do Peti. Mas os momentos preferidos por elas são as aulas com Bilo e com o mar, que ocorrem duas vezes por semana, na praia Central de Balneário Camboriú.

Boas companhias

Na água, as crianças brincam com as pranchas, e em terra firme são observadas pelos olhos atentos de três pessoas: Sandra dos Santos Amora, pedagoga da Unimed; Gilberto de Oliveira, motorista do ônibus que as traz à praia; e Bilo, o professor. É assim em todos os dias de aula. Eles são os espectadores de sempre durante 1h30 na parte da manhã e 1h30 no período vespertino. Sandra está há três anos junto dos meninos de Camboriú. Sentada no banco do calçadão próximo à barraca do Bilo, ela cuida das mochilas e das roupas dos alunos e, com o olhar, segue um por um nas quebras e manobras das ondas. Conhece as histórias de vida de todos e acompanha o desenvolvimento e evolução ao longo da participação no projeto. Enfatiza a importância dessas aulas, que geram mudanças positivas no cotidiano de cada um. “Pra gente é tão pouco, mas pra eles o surf é tudo”. 16


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Gilberto é o terceiro motorista que passa pelo Surf Comunitário. A empresa Viação Praiana, responsável por levar milhares de pessoas diariamente pelo litoral catarinense, é apoiadora do projeto e desde o início disponibiliza um ônibus para o deslocamento dos alunos até a praia. Gilberto não é apenas o condutor do veículo, se tornou também amigo. Admite o vínculo forte que existe entre ele e as crianças. “Eles nos passam uma lição de vida. A gente se apega neles e eles na gente”. Bilo – o cara dos olhos azuis, pele queimada do sol, barba e cabelos que apontam a calvície e o branco, mas que ainda possuem fios loiros e compridos no estilo surfista – se aproxima da água, observa, conversa com alguns, chama os que estão distantes da área estabelecida para que fiquem. O professor passa a teoria logo nos primeiros dias de aula: fundamentação básica do esporte, postura, posicionamento na água, técnica básica de como subir em cima da prancha, segurança e cuidado com relação ao equipamento e ao mar. A partir daí, as crianças partem para a prática. Aos poucos adquirem confiança e não precisam mais de Bilo. As ondas são somente delas.

Hora de voltar para casa - Como foi a aula hoje? – é a pergunta de Sandra, ao ver a menina Franciele, de 11 anos, ser a primeira a deixar a água, cerca de meia hora antes de término. - Foi boa! Nós fomos lá no fundo e voltamos – responde timidamente e com um sorriso no rosto. Logo depois dela, Luiz Felipe é quem para de surfar. Os dois ficam pela areia, entre conversas e brincadeiras. E quando a aula chega ao fim, lá estão eles, na beira d’água com Bilo, chamando os amigos. Cada um ainda pega mais algumas ondas e, pouco a pouco, as crianças saem do mar e vão em direção à barraca. As pranchas são colocas cuidadosamente nos mesmos lugares em que estavam no início. Seguem, então, até Sandra, para buscar as toalhas e roupas que estão com ela e depois voltar para a rotina em Camboriú. O corpo e o rosto dos meninos sinalizam o cansaço de mais de uma hora de brincadeiras com o mar, e o sorriso expõe a satisfação do momento que tiveram. Mas os olhos demonstram a vontade de ficar, de regressar para a água e enfrentar mais ondas, brincar por mais tempo e continuar sonhando naquele mundo que agora já faz parte da realidade. 17


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O valor do que não serve mais

s casas ficam menores, os morros cada vez mais altos e as vias se estreitam ao adentrar pela comunidade. A principal rua de acesso, apesar de asfaltada, é inclinada, mal comporta um carro e o esgoto a céu aberto, bem como os lixos deixados pelas pessoas,

acompanham todo o percurso. “Bem-vindo à Vila da Paz”, o cartaz feito por uma Igreja Evangélica recepciona quem chega. Da “entrada” é possível ver as tantas pequenas residências de madeira, seguradas por pilhas de tijolos, em meio aos barrancos e vegetação. Se vê a cidade grande deixada para trás e o outro mundo dos que vivem nessa localidade do bairro Nossa Senhora das Graças, em Itajaí, Santa Catarina. Pelas estradas de barro ou no mato crescido entre as casas, crianças brincam e correm. A menina Sabrina1, aos 9 anos, de longo cabelo castanho preso num rabo de cavalo, vestida com uma calça de moletom, blusa de lã e calçando o tênis de marca que um dia não serviu mais para alguma outra garota, pedala a bicicleta velha e enferrujada. Ela é a mais nova da família de quatro irmãos. Conhece grande parte dos que moram na Vila da Paz. Com o brinquedo de duas rodas, acompanha as pessoas até o local de destino, depois volta para a infância das ruas. Enquanto os amigos jogam bola, João, de 10 anos, deixa de lado as brincadeiras para dar atenção ao irmão doente Iuri, seis anos mais novo. Sua mão segura firme a dele e seu semblante demonstra a preocupação com o pequeno tão abatido. - Ele está com gripe e febre. A mãe teve que deixar de pagar as contas pra comprar os remédios – comenta, ao ser perguntado sobre a saúde do menino. Pouquíssimos automóveis circulam pela comunidade, as crianças passeiam livremente pelas ruas e os moradores caminham por toda parte a pé. Alguns carros antigos e motos estão nas garagens, mas são as muitas bicicletas que se encontram estacionadas pelas casas. Muros quase não há, somente portões que improvisam a separação das residências e a vida “lá fora”. O único estabelecimento comercial existente na localidade é uma mercearia. Escolas, creches e posto de saúde estão no bairro a que pertencem – Nossa Senhora das Graças – mas não dentro da comunidade. O que reina na Vila a Paz não é o luxo, a riqueza, o emprego bem remunerado, a comida farta, a casa espaçosa e arrumada. Entretanto, também não é a criminalidade e o tráfico de drogas. Os que moram nessa região sofrem com a falta de pão, cobertor, calçado,

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O sobrenome de todos os moradores da região citada no livro foi preservado.

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dinheiro. Vivem na companhia de cinco, seis, sete, oito, nove pessoas num único cômodo. Residem junto da simplicidade, da pobreza e das mais variadas dificuldades. Precisam, muitas vezes, da solidariedade para sobreviver. Solidariedade até mesmo dos próprios vizinhos, que não tem quase nada, mas ajudam como podem. São famílias que lutam a cada dia para terem o próximo dia.

Pouco para muitos

O chão que separa a casa da rua é de barro, coberto por algumas britas. Mas o que chama a atenção é a sujeira, muita sujeira. Pedaços de azulejos, sacolas plásticas, cascas de frutas, caixas de papelão, restos de garrafas peti e uma churrasqueira improvisada com tijolos são visíveis em frente à residência. Ao entrar no único e minúsculo cômodo, o espanto é ainda maior. O lixo espalhado se multiplica. Num espaço de não mais do que 9 m², está cozinha, sala e duas camas (uma de casal e um beliche). O fogão todo enferrujado abriga as panelas também com ferrugens e sobras de comida, a pia está coberta de louças que precisam ser lavadas e nas estantes feitas com a mesma madeira da casa, diversas roupas e outros objetos se empilham. Oito pessoas vivem, em meio às dificuldades, dentro dessas quatro paredes: pai e mãe, quatro meninos e duas meninas. Oito pessoas se amontoam para dormir em apenas três colchões e se dividem para vestir as poucas roupas e calçados. Na parte de fora da residência há um pequeno banheiro e um espaço coberto onde estão entulhos e a máquina de lavar roupas. Tem ainda o varal cheio de camisas escolares das crianças. E, atrás da casa, a construção do novo lar, com o dobro do tamanho do lugar em que moram atualmente, mas interrompida por fala de dinheiro, mostra a vontade da família em mudar de vida e de encontrar a dignidade vivendo numa casa mais decente. Maurina Doracy Pera conversa com os quatro meninos que estão na casa, pergunta da vida deles e das suas necessidades. - Vocês têm cobertores? – questiona ela. - Poucos – responde um dos irmãos. - E roupa, todos têm? - Sim! – responde ele novamente, após uns segundos de pensamento. 20


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- Mas calça comprida vocês têm bastante? - Não muitas. - Tênis e sapatos, vocês têm? – mais uma pergunta de Maurina. - Não muitos. Ela anota o número de calçado que todos usam, anota o que mais precisam e o número da residência, promete voltar logo com as doações. No sorriso, as crianças demonstram felicidade. Maurina participa da Associação Educacional Artístico e Sócio-Cultural –Assedasc, de Itajaí, que realiza oficinas educacionais e artísticas com a população e arrecada mantimentos, roupas e outras necessidades para o bairro Nossa Senhora das Graças e, principalmente, para a comunidade Vila da Paz – duas localidades que estão entre as mais carentes do município. Ela esteve em dezembro de 2011, junto dos voluntários da associação, para fazer o cadastramento das famílias da Vila e, posteriormente, começar a entregar doações. Mas a casa número 490, dos oito moradores, estava vazia. Então, após nova visita, Maurina sai da comunidade com um objetivo: deixar essa família um pouco mais feliz e em paz.

Dedicação integral

A preocupação em fazer o bem ao próximo sempre esteve com Maurina. A partir dos 10 anos de idade, participou de trabalhos voluntários na paróquia em que frequentava e ao longo da vida adulta ajudou, constantemente, diversas organizações não-governamentais da cidade de Itajaí. No ano de 1996, por exemplo, ela e um grande grupo de pessoas foram os responsáveis pela construção de um Centro de Educação Infantil no bairro Cordeiros. Maurina auxiliou na arrecadação de cada pedacinho do espaço que até hoje está em atividade. “Eu acho que nós temos a obrigação de fazer alguma coisa por alguém, por isso sempre me envolvi nisso”. Em 2010, ao se aposentar do seu cargo de bancária, ela decidiu que queria aproveitar o tempo livre em algum trabalho solidário mais efetivo, que pudesse participar com frequência. Seu cunhado Lourival Pera então convidou Maurina para fazer parte da Assedasc. Fundada em 2008 por ele, a associação, que é uma entidade de Utilidade Pública Municipal, 21


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estava sem um rumo definido, apenas arrecadava doações e realizava alguns eventos beneficentes. Maurina só aceitou sua participação com uma condição: reformular as ações desenvolvidas pela entidade. Em 2010 e 2011, o trabalho foi intenso entre os voluntários. Com a experiência de Maurina em atividades sociais, novos focos e objetivos, aos poucos, saíram do papel. Através da solidariedade das pessoas, que cederam um espaço, a associação, até então sem sede, ganhou uma pequena sala para iniciar as atividades, localizada no bairro Nossa Senhora das Graças. Para iniciar em definitivo as ações, foram definidas duas áreas de abrangência de atuação e dois tipos de trabalhos. A princípio, a comunidade Vila da Paz, de grande vulnerabilidade social, receberia as doações que a Assedasc arrecadasse. Já os moradores do bairro participariam das oficinas de arte com materiais recicláveis, pintura, crochê, tricô e costura básica, realizadas pela associação. Futuramente, o objetivo seria ampliar e oferecer essas ações em ambas as localidades. A partir de julho de 2011, os trabalhos começaram, finalmente, a ser executados, com o início das oficinas. Além disso, durante todo segundo semestre do ano, a associação buscou doações para a Vila da Paz. Em dezembro, foi feito o primeiro cadastro das famílias que residem na comunidade, para conhecer as necessidades de cada casa. Mais de 90 famílias, com a média de quatro filhos, passaram a ser beneficiados com as arrecadações da entidade. Doações que não ocorrem a qualquer momento, somente durante eventos sociais que realizam com a comunidade, como, por exemplo, no Natal e Páscoa.

Ocupação para o corpo, terapia para a mente

Maria Conceição tem no semblante e nos cabelos as marcas da vida. A pele escurecida pelo sol não pôde fugir das rugas da idade que está nos 65 anos, assim como os longos cabelos pretos que se misturam com o branco. Há alguns meses ela veio do Amazonas com filhos e família para passar o restante dos seus anos em Itajaí. Mora com mais nove pessoas numa casa alugada e que tem espaço para todos – três são apenas amigos que foram recebidos de braços abertos quando precisaram de um lar. Sua residência fica no Nossa Senhora das Graças e a pouca distância da Assedasc. Nos dias que tem oficina de artesanato ela está sempre lá. “É uma terapia, ajuda a passar o 22


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tempo. E quem sabe logo esses trabalhos poderão gerar lucro pra gente”, comenta com um sorriso no rosto e as mãos ocupadas pintando uma caixinha de madeira. “Dona Conceição é a única que não perde um dia de oficina. Infelizmente ainda é muito difícil fazer com que as pessoas participem”, confessa Maurina. O incentivo da entidade para que a comunidade faça as aulas é constante. Mas enquanto num dia quatro mulheres estão lá, no outro, apenas dona Conceição. As pessoas não querem somente se ocupar, querem também lucro imediato. Porém, para isso acontecer é preciso mais produção. “É difícil, são tantos fatores que dificultam os trabalhos da associação. Só que se tu desanimar, tu não trabalha. É preciso continuar na luta”, desabafa.

O segredo é a solidariedade

A vontade de ajudar é o que move os trabalhos da Assedasc e, também, o que faz a entidade funcionar. Para doar algo que as famílias necessitem ou para pagar as despesas das oficinas é preciso da solidariedade das pessoas. As roupas que não usam mais, o colchão que foi trocado por um novo, o pacote de arroz que não vai fazer falta. Um pede para o outro, que por sua vez fala com o amigo, formando assim, uma corrente solidária. E essa corrente permanece ativa. Tem ainda as empresas, parceiras freqüentes nas doações. E são elas que irão contribuir para que a associação amplie os trabalhos. O aluguel de outro espaço, muito maior do que no que estão atualmente, está garantido e será mantido por duas empresas. A partir do segundo semestre de 2012, com a nova estrutura, haverá mais oficinas, inclusive com computadores, que serão ofertados para todos os moradores do bairro Nossa Senhora das Graças. A solidariedade faz uma família feliz ao ganhar um cobertor no inverno, faz uma criança sorrir ao ganhar um tênis usado e faz sorrir pessoas como dona Conceição, ao ver virar arte sua pintura numa simples caixinha que parecia não servir para mais nada. E enquanto houver gente dedicada, como Maurina, estas pessoas que sorriem com tão pouco não estarão tão sozinhas.

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-B

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oa sorte! – Ele me deseja antes de dar a primeira tacada do jogo de xadrez. A partida começa com o avançar de duas casas do peão da fileira E, linha 2, a peça que fica diante da mais importante – o rei. Segundo as regras, o jogador

que está com as brancas é quem inicia. Eu escolhi as pretas, então é do meu adversário a responsabilidade da largada. Quando chega a minha vez, também faço este percurso com a mesma peça que me pertence, duas casas à frente. E aí começa a batalha. Logo no princípio das jogadas, consigo capturar um bispo e um dos seus oito peões. Estou em vantagem. - Olha essa menina! Pelo jeito a partida será disputada – diz meu adversário, atrás dos óculos escuros que não me permitem olhar diretamente em seus olhos, e com um sorriso de quem gosta do desafio. Cada lance é um momento de extrema concentração de ambas as partes, como se o jogo valesse a própria vida. Durante minutos eu observo fileira por fileira, linha por linha, antes de decidir a próxima movimentação. E ele também. Mas não da mesma maneira. Sua análise é feita através das mãos. Pelo tabuleiro ele desliza os dedos, uma, duas, três, quatro vezes, verifica com o tato a posição de peça por peça. No meio da partida, a disputa se volta para o mover das rainhas e torres. Apesar das demais peças, é com essas que fazemos as principais jogadas, na esperança de lances que levem ao xeque-mate1. O jogo fica ainda mais difícil e o tempo em que paro o olhar diante do tabuleiro aumenta. As mãos de meu adversário passam e repassam por cada detalhe durante longos minutos. Quando a competição atinge cerca de uma hora de constante concentração, acabo por me distrair... Não há escapatória, um deslize e perco a rainha. Fico sem chão. Sem ela, me sinto incapaz de imaginar continuidade em qualquer partida. - Mas o que você fez? – questiona, com um sorriso de canto de boca, que sabe que a vitória é sua. Entrego o jogo para ele, o Tetracampeão dos Jogos Abertos Paradesportivos de Santa Catarina (Parajasc), Álvaro da Silva. Meu adversário, que perdeu a visão em 1980, aos dezoito anos, devido a erro médico numa cirurgia de correção de miopia, demonstra que não é preciso enxergar com os olhos para ser um campeão, as mãos podem aprender a fazer esse 1

Nome da jogada final da partida de xadrez.

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trabalho. E aos seus pés está o apoio necessário para que possa prosseguir sem esbarrar em obstáculos, existe alguém que caminha com ele. Deitado embaixo da mesa, durante praticamente todo o jogo – só escapava para dar umas voltas pela sala – estava Rama, seu cão guia. À espera do dono e, acima de tudo, amigo, o cachorro carregava um dos sentimentos fundamentais para ser um bom enxadrista: a paciência. Álvaro, fundador da Associação de Deficientes Visuais de Itajaí e Região (Advir), é atualmente o coordenador do Clube de Xadrez da Fundação Municipal de Esportes. Dedica três dias da semana para abrir o espaço, localizado em uma sala no centro da cidade, e receber a comunidade que queira praticar o esporte. E quando está no Clube, Rama está com ele. Assim como em todos os outros locais em que vai, seja nos trabalhos itinerantes que realiza em escolas municipais ou nas aulas de pós-graduação que ministra no oeste do estado. Por cerca de oito anos após a perda da visão, Álvaro disse “não” para o mundo, se trancou em sua vida interior. Somente depois desse tempo que, aos poucos, passou a dar a volta por cima e ter uma rotina normal. Se formou em Matemática e Pedagogia, e começou a adquirir independência com a ajuda de uma bengala. Não parou mais. Nada parecia ser obstáculo em seu percurso, apesar de que, anos mais tarde, ele mesmo admitiu que andar pelas ruas já não era mais tão fácil. Ele relutava diante da possibilidade do uso de meios alternativos, como a ajuda de um cão guia, por exemplo, mas ao perceber que as barreiras nos caminhos do dia a dia estavam dificultando sua locomoção, aceitou ser um dos três primeiros beneficiados com um animal da Escola de Cães Guias Hellen Keller, de Balneário Camboriú. “O cão toma atitude, vê além. A bengala é algo que vê só o que toca, não toma decisões”, comenta, depois de conviver com Rama desde 2010.

Helen Keller

João Nirto Diel viu o auge da juventude de seu filho caçula, Elias Diel, ser interrompido por um acontecimento que alterou totalmente a vida dele e de todos ao redor. Elias, mais conhecido como Figue, era um menino aventureiro, ligado aos esportes radicas e, principalmente, ao surf. Era ainda muito jovem e já se encaminhava como uma promessa para

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o mar catarinense. Porém, aos dezesseis anos, um acidente de carro resultou na perda de sua visão e ele precisou se adequar a um novo mundo. O futuro ficou incerto, as mudanças foram inevitáveis e a tristeza não tinha como ser impedida de surgir. Todo dia passou a ser um recomeço e a força para prosseguir se tornou um desafio a conquistar constantemente. Entre as dificuldades, Figue se encontrou diante de um pesadelo, mas junto da perseverança e da ajuda incansável dos familiares e amigos, conseguiu acordar para a vida novamente. Voltou a freqüentar festas, a estudar e a fazer da rotina a mais normal possível. Figue adquiriu independência. Ao longo desse novo caminho, fez amizade com Álvaro da Silva, o campeão de xadrez, e foi apresentado a algumas tecnologias adaptadas aos deficientes visuais: celular, computador e bengala. Em um dia participou da oficina para aprender a utilizar a bengala como auxílio na locomoção, na manhã seguinte já caminhava sozinho pelo centro de Itajaí. Figue logo começou a fazer o que parecia ser impossível, escalou montanhas, abriu uma escola de ioga e, dezessete anos depois da fatalidade, enfrentou as ondas para não abandonálas mais. O surf estava na sua vida novamente. Embora o dia a dia parecesse estar mais fácil para Figue, ainda faltava algo. Em conversa com o amigo Fabiano Pereira, esse algo virou certeza e ganhou nome: cão guia. - Você é tão independente para tantas coisas, mas precisa do auxílio das pessoas para ir e vir. O pai João, Fabiano e muitos outros amigos se mobilizaram na busca de um cão guia, só que ninguém imaginava que isso não seria nada simples de conseguir. João tentou diversas alternativas mundo a fora. Para comprar, não existia e, para doação, havia milhões de pessoas à espera. No Brasil, são mais de 20 milhões de deficientes, enquanto apenas 70 cachorros estão em atividade. Quando a esperança parecia ter ido embora, Fabiano encontrou o que poderia torná-la ainda mais viva. Tão próxima de todos, a pouco mais de 100 km, em Florianópolis, estava a Escola de Cães Guias Helen Keller2. Fundada em 2000, pelo médico Augusto Gonzaga, a escola tinha como objetivo treinar cães para serem guias e doá-los a deficientes visuais. Mas por falta de verba para manter toda a estrutura necessária, ela precisou ser desativada. Mais uma vez, Figue recebeu um “não” para outra tentativa. 2

Nome em homenagem à norte-americana Helen Keller, que apesar de cega e surda, teve uma vida de superação e sucesso como escritora.

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Ainda assim, João viu na escola a última alternativa para conseguir um cão ao seu filho. Mesmo sem funcionamento, o objetivo dele passou a ser trazê-la de volta a ativa, em novo endereço e com nova administração. João conseguiu amigos para essa luta e após algumas reuniões com Dr. Augusto, em 2007 a Escola Helen Keller foi transferida para Balneário Camboriú, sob o comando do próprio João. A Helen Keller precisou começar do zero, não havia sede nem instrutores para treinar cães. Os dois profissionais especializados, que trabalhavam anteriormente na instituição, estavam fora do país, onde a profissão é mais remunerada e com mais espaço no mercado. João então fez o convite a Fabiano, que tinha deixado a engenharia para criar cães de competição de beleza. O gosto de Fabiano por esse animal e sua amizade com Figue despertaram seu interesse para treinamento de guias. Fabiano estudou durante aproximadamente dois anos na “Seeing Eye Dogs”, da Austrália. Retornou para o Brasil como o único estrangeiro a se formar nesta escola e trouxe consigo o único cão treinado pela instituição a ser doado para um deficiente visual de outro país. Foi assim que Figue conseguiu, finalmente, o seu cão guia. A cadela Winter, da raça Labrador, era a sua nova companhia.

Três cães e três novas vidas “Quando meu filho ganhou o cachorro eu vi que aquilo não era nada. O filho da gente parece que é uma obrigação. Mas e os outros? A maior emoção, a maior alegria, não foi para o meu filho, e sim, entregar os cães para os outros”. Aos ver a felicidade de Figue com a Winter, João Diel ganhou mais força para continuar nesse trabalho. A escola voltou a funcionar e, com Fabiano formado como instrutor de cães guia, a meta foi, então, treinar os primeiros animais. A principal dificuldade da administração anterior – verba – continuou nos novos desafios da Helen Keller. O processo de treinamento de um cão guia dura, aproximadamente 24 meses, mas o custo para comprá-lo e mantê-lo durante esse período fica entre os 25 e 30 mil reais. Como pagar essa estrutura? A escola adquiriu o certificado de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público – OSCIP, que lhe garante a legalidade de firmar parcerias com o Governo Federal e instituições privadas. Mesmo assim, as dificuldades permanecem. 28


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O dinheiro necessário para todos os gastos vem da solidariedade das pessoas. Lyons e Rotary Clube são parceiros frequentes. Há ainda as contribuições espontâneas feitas através da conta de luz. E para arrecadar mais fundos, ao longo de cada ano, pedágios, feijoadas e outros eventos são organizados pelos voluntários do projeto. Em 2009, foram comprados os três primeiros cães. Para ser um guia, somente duas raças estão aptas: Labrador e Golden Retriever. O instrutor precisa acompanhar todo o processo, desde a escolha do macho e da fêmea que serão os pais, até o nascimento da ninhada. Durante as primeiras semanas, alguns testes são feitos com os filhotes. Eles precisam apresentar características específicas para então passarem para a etapa de treinamento. Sinais de covardia ou braveza, por exemplo, eliminam os cães. Dois anos depois, entre as mais de mil pessoas de todo o Brasil que se cadastraram para recebê-los, os irmãos Rama, Sita e Max estavam em seus novos lares, na companhia do enxadrista Álvaro da Silva, do itajaiense Jair Suavi, e da menina Kátia Conceição, de Navegantes. Os cachorros, além de mudarem a vida de seus donos, também uniram pessoas. Jair e Kátia, após se conhecerem através da escola, iniciaram um relacionamento. Para Álvaro, a parceria entre ele e Rama foi um casamento. “Tenho uma relação muito tranquila com Rama, de muita cumplicidade. Ele é mais do que um amigo”.

Uma família por alguns meses

Os voluntários da Escola Helen Keller e o trabalho do instrutor, bem como a sociedade que decide contribuir de alguma maneira para a sua manutenção não são o bastante para que o processo de treinamento dos cães aconteça. É preciso que a solidariedade atinja muito mais gente. Por 15 meses, a rotina do animal tem de ser dentro de uma família voluntária. Durante esse período, uma pessoa da família fica como “socializadora”. O cão precisa acompanhá-la em praticamente todas as atividades do seu dia a dia, para conhecer e se adaptar aos mais variados lugares. Ao sair, tem de utilizar a capa que o identifica como “cão guia em processo de treinamento”. Ele possui os mesmos direitos de ir e vir que o cão treinado, conforme determina a Lei Federal 11.126/2005. Os únicos locais que esses animais não podem ter acesso são aos ambientes esterilizados, como em cozinhas industriais e UTIs.

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A escola é a responsável por dar o apoio financeiro. Rações, consultas veterinárias e outros gastos durante os meses que em que o cão está com a família, são mantidos pela Helen Keller. O instrutor faz o acompanhamento periódico da convivência entre o cachorro e o voluntário socializador. Quando o cão guia não está com a capa de identificação, a rotina dele, seja ainda em treinamento ou já habilitado, deve ser de normalidade, com brincadeira, troca de carinho e liberdade para circular entre os espaços, semelhante a qualquer outro cachorro. Mas a partir do momento que ele usa a vestimenta de trabalho, seu comportamento precisa ser o de guia e não pode haver nenhuma distração. Devido à escola ainda não possuir sede – mesmo com inúmeras reuniões junto do governo estadual e municipal para conseguir apoio – os três primeiros cães treinados passaram por uma etapa diferente. Eles permaneceram os 24 meses com a família socializadora e o treinamento junto do instrutor foi realizado nas ruas. Fabiano diz que isso não interfere no aprendizado dos cães. Luciane Franke Martins, que sempre amou os animais e procurou a escola para ser voluntária, é atualmente socializadora de um dos três cães que estão sendo treinados pela escola. Ela prefere não se preparar para o dia em que terá de devolver o labrador Espirro para a Helen Keller. “Ele é grudado em mim. Existe um vínculo muito grande”. Entretanto, Luciane sabe que o resultado desse trabalho será compensador. “Ele vai ser entregue para mudar a vida de outra pessoa. Então, isso é lindo. Sem dúvida eu vou sentir falta, sem dúvida ele vai sentir falta. Mas a parte bonita da história não é a que eu faço, é a que ele vai fazer”. João Diel, além de ser o presidente da instituição, também foi socializador de Sita e admite ser impossível não criar vínculo. “Até hoje, quando ela me encontra, é uma festa”. Após o longo período de treinamento, o cão passa um mês com o futuro dono, sob o comando do instrutor. Tempo necessário para um se adaptar ao outro. Só depois desse processo, eles começam a nova vida.

Enxergando além do horizonte

A solidariedade das pessoas é que contribui para que o trabalho da única escola latino-americana membro da Federação Internacional de Cão Guia se desenvolva. Márcia Santos de Souza, amiga de João Diel, conheceu a Helen Keller em 2009, se encantou e quis 30


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também fazer a sua parte. Então coordenadora do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas (Napne) do Instituto Federal Catarinense - IFC, no Campus Camboriú, ela idealizou o projeto do curso técnico de Instrutores de Cães Guia e do Centro de Treinamento de Cães Guia. O curso e o centro a serem implantados no município de Santa Catarina serão os únicos desse segmento na América do Sul. O espaço de treinamento que terá administração, canis, maternidade, área para os cães aposentados e área de convivência social entre cães e deficientes visuais, está com as instalações em fase final e tem previsão de conclusão para o mês de agosto de 2012. O objetivo do IFC é começar as aulas no segundo semestre do ano e, com a formação dos primeiros instrutores, levar o curso para as outras regiões do país. Na turma inicial pretendese treinar, em dois anos, cerca de 30 cães. Com o certificado de Membro Inicial da Federação Internacional, a Helen Keller participará, sem precisar de processo licitatório, como apoiadora técnica do curso de instrutores. Num trabalho de parceria, a escola prestará diversos serviços, como na escolha dos cães e nas atividades do centro de treinamento. “A nossa escola depende de filantropia, mas é difícil conseguir pessoas que banquem de verdade o projeto. Só que agora as coisas começam a tomar um rumo diferente, porque o governo abraçou essa causa”, Fabiano comemora. “O cão dá condições de andar não só porque temos de nos deslocar por necessidade, mas também pelo prazer de andar”. Para Álvaro, ter a companhia de Rama lhe permite sair pelas ruas com um sentimento de felicidade. Sempre haverá alguém disposto a guiá-lo e ajudá-lo por onde for. A consequência de um acidente transformou-se numa nova atitude de fazer o bem àqueles que passaram pelas mesmas dificuldades. João Diel plantou a semente, e os frutos estão nascendo. A Escola Helen Keller mudou a rotina de três pessoas e, em pouco tempo, com os novos projetos, os olhos emprestados pelos amigos de quatro patas poderão fazer mais gente voltar a enxergar de novo o que realmente interessa da vida.

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Caminhos do bem

CAMINHOS DO BEM “Faça o que puder, com o que tem, onde estiver.” (Theodore Roosevelt)

Você se lembra quando foi a última vez que viu o sorriso no rosto de uma pessoa por ter feito algo de bom a ela? Será que não é a hora de fazer isso novamente? Existe tanta gente precisando apenas sorrir. Bilo, Maurina e João tiveram a atitude de ir além do simples mundo que os cerca e abriram caminhos para a solidariedade. Através de seus projetos, crianças, jovens, adultos e idosos puderam reascender a luz da esperança. Se na sociedade tivessem diversos Bilos, Maurinas e Joãos, talvez sorrir para a vida fosse mais fácil para muitas pessoas. Para ajudar alguém não é preciso criar uma entidade, reunir um grupo de voluntários e desenvolver ações solidárias. Pequenos gestos no dia a dia podem ser extremamente importantes e fazer a diferença. Veja se você concorda comigo: Sabe aquela moça com seus filhinhos, que está sempre no mesmo lugar da rua movimentada que você passa com frequência para comprar algo ou na pressa? Que tal da próxima vez que cruzar por lá você levar um cobertor velho que não lhe fará falta e uma comida para ela e as crianças? Tenho certeza que você receberá muitos sorrisos e obrigados. Nas vias da sua cidade há também tantos animais abandonados. Se você encontrar algum pelo caminho, por que não levá-lo para o lugar especializado em recebê-lo ou para aquela família que está querendo ter um bicho de estimação? Quem sabe ele só precisa de um pouco de comida e abrigo. E a senhora cheia de sacolas de mercado indo na mesma direção que você, ajude-a a carregá-las! Você vai atravessar a rua e ao seu lado está aquela pessoa com dificuldades para caminhar, mas não custa nada auxiliá-la até o outro lado, não é mesmo? E por que não separar os tantos livros empoeirados e esquecidos na sua estante e aqueles lápis, canetas e cadernos de pouco uso ou que seus filhos nem chegaram a utilizar, e doá-los para a escola mais próxima da sua casa? Tem também o “bom dia”, o “obrigado”, o “desculpe”, o “com licença”, que é importante nunca se esquecer de dizer, certo? Todos esses atos parecem tão simples e, até mesmo, clichês, mas nós compreendemos que são fundamentais para contribuir com a construção de uma sociedade mais justa e humana. 32


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Caminhos do bem

Se você quiser ir além dessas pequenas atitudes, há muitas organizações pelo o mundo a fora que precisam da sua ajuda. Quer colaborar? Enquanto em centenas de países a Onu1, através de agências especializadas como a Unesco2, atua em prol de seus povos para missões de direitos humanos e paz, por exemplo, na sua cidade devem haver diversas entidades engajadas em ações sociais. Basta procurar a Secretaria da Prefeitura responsável pela Assistência Social, lá você encontrará uma lista de opções e contatos. É só escolher. E que tal estender a sua mão para os três projetos que envolvem os capítulos desse livro? A Escola de Surf do Bilo3 e as crianças, a Assedasc4 e as famílias, assim como a Escola Helen Keller5 e os deficientes visuais precisam que a solidariedade permaneça firme entre eles. Vamos fazer parte dessas histórias ou de outras semelhantes a essas. Vão se multiplicar os sorrisos esperando por nós!

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http://www.onu.org.br http://www.unesco.org.br 3 Praia Central de Balneário Camboriú – Avenida Atlântica, entre as ruas Alvin Bauer e 1001, próximo à Galeria Maxim. 4 Rua Brusque, nº 1104, próximo à Panificadora Lisboa 5 http:// http://www.caoguia.org.br/ 2

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Agradecimentos

AGRADECIMENTOS A Deus, por me mostrar os caminhos da vida e permitir que eu siga por eles conforme meus sonhos. A Denise da Silva Viera e ao Marcelo Piske, minhas razões de viver. Obrigada por acreditarem e me apoiarem em todos os meus objetivos. Por segurarem a minha mão nas vezes que o chão parecia ter se desfeito ou quando a minha felicidade era a maior do mundo. São por vocês todas as escolhas que fiz/faço e por vocês que eu cheguei até aqui. Ao meu avô Osvaldo, o ser humano com o coração mais lindo que eu já conheci. Ainda é tão difícil não te ter mais aqui para me abraçar, me fazer cócega e me chamar de “minha netinha”. Ainda é tão difícil não te ter mais aqui para compartilhar as minhas alegrias. Mas tudo o que eu aprendi e vivi com você ficará eternamente em mim. Você sempre será o meu anjo da guarda. À minha segunda mãe, madrinha, tia e, acima de tudo, amiga Edna Vieira. Obrigada por sempre estar ao meu lado, me proteger e me ensinar sobre os valores da vida. À irmã que eu escolhi, Júlia Vieira. Me desculpe se muitas vezes fui ausente no seu dia a dia durante os últimos três anos e meio, mas foi preciso. Você é o meu grande amor e prometo recompensar cada dia perdido. Ao meu namorado Guilherme Flores, que foi também cinegrafista, fotógrafo, diagramador e editor neste trabalho. Obrigada por me apresentar estas histórias e, junto comigo, acreditar fielmente nelas. Obrigada por me abraçar quando as lágrimas insistiam em cair e por ser tão bom em me fazer sorrir. Obrigada por ser esse companheiro tão especial. Aos amigos Jonas Augusto da Rosa, Júlia Dourado, Júlia Paniz, Mariana Censi e Morgana Bressiani. Obrigada por caminharem ao meu lado durante esse percurso tão importante e por me mostrarem o valor da amizade e do sorriso. À professora, orientadora e amiga Liza Lopes Corrêa. Obrigada por abraçar comigo este tema e estas histórias, e por me passar os ensinamentos necessários para a construção deste trabalho, que levarei também para toda a minha vida profissional.

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Agradecimentos

Ao Bilo, Maurina e João. Obrigada por aceitarem ser personagem deste livro e por abrirem suas vidas para mim. Com vocês aprendi sobre a importância de estender a mão ao próximo e sobre o verdadeiro significado da solidariedade. E obrigada a todas as pessoas que fazem parte das histórias contadas neste livro. A todas as pessoas que de alguma maneira contribuíram para a realização deste trabalho. A todas as pessoas que acreditaram em mim e foram importantes para eu chegar até aqui e encerrar este ciclo tão especial da minha vida. O sonho começa agora!

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Livro-reportagem elaborado como Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo (Universidade do Vale do Itajaí - 2012/1)

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