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penico de sensaçþes


100 Anos da Républica – Lia Cardoso ghettodacoabreca.blogspot.pt


Produzir um texto sobre nada de especial tem vantagens inexprimíveis. E se as vantagens se tornarem claras, o texto deixa de ser sobre nada em especial, passando a ter um certo conteúdo. Se o possível conteúdo do texto sobre nada de especial passar a ser relevante, o problema seria então escrever um texto sobre textos, o que não seria, novamente, nada de especial. Um texto que se debruce sobre si próprio deixa de ter qualquer importância. Porque se o texto falar de si próprio, então deixa de haver necessidade de que exista, porque só existiria para se justificar, mas não para justificar qualquer outra coisa. E já há muitas coisas que mereçam a nossa atenção para estarmos a criar coisas que não precisam de atenção porque não existem. Vamos emendar isso agora mesmo, e tratar do que fazem os autores de textos sobre textos, e por que o fazem. O autor pode escrever para ser escritor. É uma actividade nobre e desinteressada, e ser escritor, nestes casos, é louvável. Mas infelizmente não serve para nada, muito dificilmente o autor vai escrever algo se tiver vontade de dizer algo, mas não tiver algo para dizer. Para que um texto sirva para alguma coisa, o autor tem de ter outro propósito. Aliás, um propósito. O autor pode escrever para dizer alguma coisa. E é este, normalmente, o grande problema, e às vezes só com muita dificuldade disfarçável: escrever para dizer alguma coisa não é o mesmo que ter alguma coisa que dizer e por isso escrevê-la. É verdade que há quem disfarce o não ter nada a dizer com uma perícia notável: é agradável ler um texto bem


escrito. Mas para quê lê-lo? Uma boa enciclopédia está bem escrita, e de certa forma conta uma história recheada de pormenores. Quanto aos romances, há-os por toda a parte. Se alguém quiser escrever para si, óptimo, Se quiser escrever para os outros, seria bom que não o fizesse seja porque quer ser escritor, seja porque quer dizer alguma coisa. Que justificação há para escrever, então? Todas: escrever sobre ideias que se têm, escrever sobre a vontade de escrever, sobre o que quer que seja, é obviamente uma faculdade e prerrogativa de toda a gente. Querer que os outros leiam, também. Mas quem escreve, porque quer escrever ou porque sente que deve escrever, por que não fazê-lo para criar algo que está para além da necessidade de escrever? Escrever para ser genuíno, a partir da vontade de comunicar algo — algo que existe mesmo, que é palpável, que o leitor dificilmente encontra noutro local. Por fim, e mais importante que tudo, escrever para ler: se queremos as coisas que a escrita pode trazer, o melhor é procurá-las na leitura, até porque é mais provável que os outros consigam escrevem sobre algo, visto que são muitos mais, do que a nossa não por isso mais descartável pessoa. Ler o que escrevemos, ler o que os outros escrevem, saber o que dizem e o que lhes respondemos. E ler para responder... porquê ter lido este texto (ou aquele) até ao fim?

Luís Lucas


«”lá” no fundo do vidro» – Lia Cardoso


Hoje, tudo tem o seu respectivo estereótipo. Cada coisa é facilmente caracterizada pelo valor monetário que tem: a produção de mais ou menos dinheiro acaba por ditar a sua importância real. E onde fica a arte? Sim, essas coisas, rabiscos e salpicos de tinta, conjuntos mais ou menos coesos de letras e pontos? Estamos, pois claro, no fundo da cadeia. É deprimente viver -ou fingir que se vive- nesta sociedade que em muita ou pouca crise sempre valoriza mais o concreto ao abstracto. Isto porque o pensamento não é verdadeiramente essencial para a construção do homem ou de uma melhor sociedade. Mais médicos e economistas é que se quer. Esses é que podem realmente mudar o mundo. Agora incentivar o pensamento e a beleza? Que importância real é que isso tem? A arte e a literatura são hoje vistas, sobretudo, como excentricidades, como coisas supérfluas sem utilidade prática por não apresentarem um caminho garantido para o sucesso, o que as apaga do mapa das oportunidades profissionais. Até mesmo a nível educacional, só Matemática e Física é que são verdadeiramente importantes para os pais portugueses que aplaudem bem mais uma boa nota nestas disciplinas do que um “muito bem” a Português ou Filosofia. A verdade é que nunca a nação portuguesa precisou tanto da literatura e da arte para trazer valores essenciais como a esperança, a beleza e a noção de outras realidades de volta a cada um. Na arte está o sonho, um portal que nos permite olhar além de qualquer crise dos tempos que correm. Comodiziasir Richard Steele: “Reading is to the mind what exercise is to the body.” E nós, portugueses, tão bem conhecidos pela nossa grande personalidade sonhadora deixamo-nos levar por notícias e dias cinzentos com livros coloridos e quadros guardados a apanhar pó.

Rosa Maria theinfatuatedreamer.tumblr.com/


“chegada de viagem” – João Miguel - jmiguelf.blogspot.com


Talvez a pergunta mais evidente a colocar, num número zero, que se pretende quase uma montra do que queremos fazer, seja “porquê”? E a resposta a essa pergunta é fácil e não é fácil de dar, ao mesmo tempo. Existem miríades de zines, de revistas, de projectos artísticos, literários, de artes plásticas, enfim… tudo muito bonito, muito transversal, muito prolixo. Porquê – para quê – mais isto? Bom, porque sim. Porque nos apetece. Porquequeremos. Nenhum dos colaboradores editados neste número ainda seminal da revista (à qual, inclusivamente, para evitar termos concretos como o próprio “revista”, achámos por bem designar como “penico de sensações”) precisa desta plataforma para rigorosamente nada. Há outras formas de se ser publicado, visto, lido. Baratas ou mesmo grátis, e todas com relativa visibilidade e viabilidade. Porquê, então, aqui? Porque sim. Porque existem inúmeros factores, mais ou menos válidos, para que se opte por este penico de sensações, e não por outras revistas, zines, panfletos. Factores que atravessam o espectro da legitimidade artístico-moral e a integridade axiológica individual e de grupo, desde um “porque creio absolutamente neste projecto, revejo-me nele, é aqui que consigo sentir-me bem a publicar as minhas coisas, as minhas ideias”, passando por um “porque estes tipos aceitam quase tudo e então experimento mandar umas coisas, a ver se pega” e acabando num (a nosso ver, em nada menos válido) “porque a minha é melhor que a tua”. Por mais que não pareça, este projecto quer-se sério. Sério, mas consciente. Não nos podemos


comprometer a fazer um corte radical com o que está ou deixa de estar instituído. Este penico existe porque sim, e pronto. Não queremos defender isto ou aquilo, queremos, isso, sim, mostrar, a quem os quiser ver, estes autores de diversas áreas e com diferentes noções e teorias próprias da arte. Alguns mais jovens que outros, e com um tipo de execução ou conteúdo marcadamente mais juvenil, outros mais conservadores, ainda um ou outro esteta. Mas todos, cremo-lo, com a qualidade artística necessária a, pelo menos, um pequeno encanto no receptor. Guiamo-nos por uma certa ingenuidade de quem começa, é inevitável. Acreditamos em nós e nisto. Sabemos, contudo, que, dada a multiplicidade de projectos similares, este pode ser “só mais um”. Sabemo-lo, por mais que acreditemos e seja essa crença que substancie a existência do projecto. Se correr mal, correu. Se não correr, sequer, não correu, e é isso. Mas pelo menos o início do projecto temos a certeza de conseguir fazer acontecer e, reitero, defendemos a qualidade do que publicamos, conscientes do exagero de relativismo(s) próprio(s) do “nosso tempo”. Vejam e leiam. E gostem ou não gostem. Digam bem ou digam mal. Apoiem ou critiquem. Ovacionem ou apupem. Defendam ou ataquem. Mas que, ao menos, consigamos fazer-vos sentir alguma coisa.

Pedro Tiago


“I look out my window”- João Miguel


“quero sair daqui” – Lia Cardoso


“Maja desnuda” – Lia Cardoso


“S/título”- João Miguel


“Memórias de um abandono”- Lia Cardoso


S/título – Sofia Mota - https://www.facebook.com/Photo.Mira


Hipotecada à espanhola de sobreviver de manhã de de manhã chegarem os agentes de chegarem os agentes a um quarto andar de num quarto andar ser encontrada de ser encontrada no edifício onde morava de um edifício onde morava procederem ao despejo de procederem ao despejo sem pejo sem eira sem beira de pois de se ter atirado de pois de se ter em inteirado de pois de lhe ter em caído em ci ma

de ter em caído em si de ter (eu) caí do pela terceira vez em três semanas a (des)coberto quantas calha a cada um?

Nota de pôr-ao-pé: Desde o início do que se tem chamado Crise. desde o ínicio que têm chamado poema-manifestação “Stop Desahucios”, Barcelona, Outubro 2012

aranhiças & elefantes – aranhicaselefantes.blogspot.com


ao Pedro Tiago a renda da casa 'certo napperon 'é 'com dois 'pes pontos'

] e uma sesta de Eva, mas isso seria muito rebuscado e o que não mata pesponta mesmo quando os tubos estão modernamente preparados para o pós túmulo e gavetas e sonecas de Telleman a ter acesso às mãos a retirar-se da água para não perder demais da última pês foi um pé de sépias amputadas pela semiperiferia semeada a soro folêgo para os balões botânicos

] vou buscar o bule da Sallete passas-me o naperão? A Adília levou-me os guardanapos temos sempre as mangas e as minhas falas vazias como numa tira de BD


rita gråcio – tampadecaneta.blogspot.


Folha de chuto ...para efeitos variados

Desfruta!


Este livro pertence a:____________________________

“on the way” – Sofia Mota


2013. a corda para a vida ediçþes theropetolife.blospot.com https://www.facebook.com/the.rope.to.life


gavetta - penico de sensações #000