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UM CONTO DE

PAULO KELLERMAN

VISTO POR:

ANA LUÍSA DE MELO

LUCIANA ESTEVES

ANDREIA MONTEIRO

MAFALDA MALAFAYA

BRUNO MOURINHA

MARIA JOÃO ALVES

CARLA DE SOUSA

MARIA JOÃO DIAS

CATARINA MAMEDE

MARIA JOÃO FAÍSCA

CLÁUDIA ANDRADE

MÓNIA CAMACHO

CRISTINA LOPES

RICARDO GRAÇA

ELSA ALEXANDRINO

RITABELA SANTOS

ELSA MARGARIDA RODRIGUES

ROSA PAIXÃO

FÁTIMA ABREU FERREIRA

SELMA PRECIOSA

FRANCISCO MOREIRA

SÍLVIA BERNARDINO

HELENA SERRADOR

SÓNIA SERAFIM

INÊS SARZEDAS

SÓNIA SILVA

LILIANA CARVALHO

SONJA VALENTINA

LILIANA GONÇALVES

TERESA BRET AFONSO TERESA MARQUES DOS SANTOS


“ISTO TUDO SÃO LOUCURAS, SEI PERFEITAMENTE. APENAS NO CÉREBRO DE UM DOIDO PODEM NASCER TAIS PENSAMENTOS. NÓS, OS “HOMENS DE JUÍZO”, NÃO PENSAMOS NESSAS COISAS, NÃO PENSAMOS EM MUITAS COISAS PORQUE ACEITÁMOS A VIDA TAL COMO ELA É, TAL COMO SE CONVENCIONOU QUE ELA FOSSE; PORQUE NOS HABITUÁMOS A ELA.”

LOUCURA, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO


Quando chego a casa, encontro-a dentro da banheira; mas a banheira está vazia e ela completamente vestida. Esta visão é surpreendente e perturba-me um pouco; contudo, a expressão do seu rosto é serena e tranquila, apaziguada. Sorrio, tento não me alarmar nem reagir precipitadamente, tento não denunciar que estou assustado; mas sou incapaz de me aproximar dela e acariciar-lhe o cabelo (o que teria feito, em circunstâncias normais, se ela estivesse nua e a banheira cheia de água fumegante). Respiro fundo e, esquecendo-me de continuar a sorrir, pergunto o que se passa. – Nada de especial, acho eu. Estava apenas a pensar como a vida avança em ciclos; não é? Os dias que se sucedem, e depois as semanas, os meses, os anos; tudo ordenado e previsível. Como se vivêssemos permanentemente no interior de uma rotunda, sempre às voltas; porque tudo é circular, tudo se repete. E como podemos inverter isto? Como quebrar a linearidade do tempo, como desafiar o destino, como enganar o futuro e torná-lo mesmo inesperado? Já alguma vez pensaste nisso? Não. Nunca pensei na linearidade do tempo. – Eu penso nisso, por vezes. Afinal, o que tem o futuro de verdadeiramente imprevisível? Que efectivo grau de surpresa nos reserva o futuro? A sério que não pensas nisso? A sério. – Mesmo que os eventos nos surpreendam, nós somos sempre nós; somos uma espécie de constante que vai evoluindo mas sem efectivamente mudar, na essência. E seremos sempre incapazes de nos surpreender a nós próprios, é esse o problema; é isso que nos perturba e irrita, que nos deprime: nunca teremos surpresas genuínas porque o futuro que está para vir será uma mera repetição de algo que já aconteceu, algo que já nos aconteceu. E cala-se, como se não houvesse nada mais para dizer. – Só podemos dar e receber o primeiro beijo uma vez; só uma vez, e acabou. Todos os restantes beijos da nossa vida serão repetições do primeiro; percebes? E até poderão ser repetições melhores mas não deixarão de ser repetições. É um bocado assustador, não é? Encolho os ombros; mas ela não me está a olhar. – Portanto, apenas nos resta tentar desafiar o futuro, forçá-lo a surpreender-nos. E é nisto que tenho pensando, em formas de contornar a previsibilidade do que ainda há-de vir. Sorri. Como se, afinal, tudo estivesse normal. Como se fosse uma manhã de sábado repleta de sol e a banheira estivesse a transbordar de água, a casa de banho cheia de vapor e de um cheiro inebriante a champô de coco, e estivéssemos a falar daquele programa de culinária que tínhamos visto no outro dia; tudo normal. – Sabes de que me lembrei? Que poderia tentar inverter as coisas: recusar-me a ficar à espera que o futuro me surpreenda mas surpreender, eu própria, o futuro. Fazer algo improvável e inesperado, inexplicável (talvez aquilo que muitos chamam loucura, percebes?), algo que perturbe o natural fluir dos


acontecimentos, enganando e baralhando o futuro. Achas que o futuro pode ser baralhado? Eu acho que sim, que podemos tentar inverter a normalidade, podemos tentar suspender a metódica e circular marcha do tempo. Ou, pelo menos, brincar com o tempo, provocando-o um pouco; provocar-lhe soluços. Poderia dizer-lhe que se estava a contradizer, ao desejar que tudo fosse diferente quando acabara de afirmar que nunca existirá genuína surpresa na vida de alguém; mas talvez seja a contradição que nos desafie e faça avançar, talvez a harmonia apenas conduza ao conformismo e à letargia, à resignação. – Há pessoas que pensam que a vida é como um jogo de xadrez; e depois decoram jogadas inteiras, planeiam tudo, antecipam tudo, imaginam que controlam tudo; esquecendo que quem joga com elas também tem as suas próprias estratégias, esquecendo que o destino tem as suas próprias estratégias. Diz-me, o que será preferível: jogar por instinto ou jogar planeado? Quanto a ti, não sei. Mas eu estou um bocado cansada de jogar planeado, de seguir as regras, de repetir. Estou mesmo. E estava aqui a imaginar o que pensará o destino quando me vir assim, vestida e sorridente numa banheira vazia. Achas que ficará baralhado? Tu ficaste. E sorri, uma vez mais. Não sei o que pensar, o que sentir; não sei se ela terá ficado momentaneamente louca ou se está simplesmente certa. Permanecemos em silêncio, escutando apenas o distante rumor do universo (aquele rumor que, no fundo, mais não é do que um indisfarçável bocejo). Mas reparo que estou a sorrir, que por algum motivo desconhecido começara a sorrir; e é a sorrir que pergunto: deixas-me entrar, posso juntar-me a ti? E depois, beijo-a. Como se fosse a primeira vez.


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Loucura  

Um conto de Paulo Kellerman visto por 31 fotógrafos.

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